Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ASSASSINO DAS SOMBRAS / Lisa Gardner
O ASSASSINO DAS SOMBRAS / Lisa Gardner

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O ASSASSINO DAS SOMBRAS

 

                         Terça-feira, 15 de Maio

A agente Lorraine Conner, sentada num assento de vinil vermelho no Martha’s Diner, debicava uma salada de atum e escutava a cavaqueira entre Frank e Doug, quando a chamada chegou. Estava sozinha a comer a salada, porque acabara de fazer trinta e um anos e começava a reparar que os quilos já não desapareciam, como que por encanto, da mesma forma como quando tinha vinte e um anos, ou até, cos diabos, vinte e sete. Ainda conseguia correr dois quilómetros em seis minutos e vestir tamanho trinta e seis, mas havia uma diferença fundamental entre os trinta e um e os trinta. Passava mais tempo a arranjar os longos cabelos castanhos para ficar mais atraente. E ao almoço, trocava os hambúrgueres com queijo por salada de atum, cinco dias por semana.

 

O companheiro de ronda de Rainie nesse dia era o voluntário Charles Cunningham, Chuckie, para os amigos. Conhecido na gíria do minúsculo Departamento de Polícia de Bakersville, no Oregon, como ”maçarico”, Chuckie ainda não frequentara o curso de formação de nove meses. Isso significava que só podia ver mas não tocar. A autoridade viria quando completasse os necessários cursos da Academia de Polícia e recebesse o diploma. Entretanto, precisava de ganhar experiência fazendo rondas e escrevendo relatórios. Também tinha de usar o típico uniforme castanho-amarelado e andar com uma arma. Chuckie era um tipo feliz.

 

Antes de a chamada chegar, encontrava-se ao balcão, a tentar fazer charme a uma empregada loura e com um belo par de pernas, de nome Cindy. Exibia o peito inchado, o joelho ligeiramente arqueado e a mão pousada sobre o coldre. Cindy, por outro lado, servia fatias de tarte de mirtílo a seis lavradores. Um velhote com ar rabugento murmurou, por entre dentes, para ele se afastar. Chuckie esboçou um sorriso de orelha a orelha.

 

No assento atrás de Rainie, Doug Atkens e Frank Winslow, criadores de gado leiteiro reformados, começaram a fazer apostas.

 

Dez dólares, se ela for na cantiga! anunciou Doug, depositando violentamente uma nota amarrotada em cima da mesa de fórmica cor-de-rosa.
Vinte, se ela despejar um copo de água gelada em cima da cabeça do Romeu contrapôs Frank, metendo a mão no bolso para tirar a carteira. Tenho a certeza de que a Cindy prefere ganhar boas gorjetas do que conquistar o coração do Clark Gable.

 

Rainie pôs de parte a salada e virou-se para os dois homens. A tarde estava calma e não tinha melhor alternativa para passar o tempo.

 

Também aposto nisso.

 

Ora viva, Rainie! Frank e Doug, amigos há quase cinquenta anos, sorriram. Frank, com o rosto tisnado do sol, tinha olhos mais azuis, mas Doug possuía mais cabelo. Ambos usavam camisas aos quadrados vermelhos com molas de pressão em madrepérola, as camisas do traje oficial para uma tarde passada na cidade. No Inverno, envergavam ainda casacos de camurça castanhos e chapéus de cowboy de cor creme. Rainie acusou-os, certa vez, de tentarem imitar o ”Homem da Malboro”. Nas suas idades, levaram isso como um elogio.

 

Dia calmo? indagou Doug.

 

Mês calmo. Estamos em Maio. Há muito sol. As pessoas sentem-se demasiado felizes para andarem às turras umas com as outras.

 

Ah, nada de acaloradas brigas domésticas?

 

Nem sequer uma troca de palavras mais acesa sobre o facto de o cão andar a deixar presentes no quintal do vizinho. Se o bom tempo continua, vou ficar sem emprego.

 

Uma mulher bonita como tu não precisa de emprego disse Frank. Precisa de um homem.

 

A sério? E ao fim de trinta segundos, o que é que eu faria? Frank e Doug soltaram uma sonora gargalhada; Rainie piscou-lhes o olho. Gostava dos velhotes. Todas as terças-feiras, desde que se lembrava, encontrava-os sentados no mesmo sítio, à uma hora em ponto, a comer rolo de carne, prato especial das terças-feiras no Martha’s.

 

Rainie apostou então dez dólares a favor de Chuckie. Já vira o jovem Don Juan em acção, e sabia que as senhoritas de Bakersville adoravam as covinhas que ele fazia ao sorrir.

 

Que achas do novo voluntário? perguntou Doug, fazendo um gesto com a cabeça em direcção ao balcão.

 

Não acho nem deixo de achar. Passar multas de trânsito não é nada do outro mundo.

 

Ouvi dizer que vocês os dois tiveram um pequeno encontro com um pastor-alemão a semana passada disse Frank.

 

Pvainie fez uma careta.

 

Tinha raiva. Mas era um belo animal.

 

Chegou a atacar o Romeu?

 

Atirou-lhe com quarenta quilos em cima.

 

Ouvimos dizer que o Chuckie quase se mijou pelas pernas abaixo.

 

Não creio que ele goste de cães.

 

O Walt disse que mataste o cão. Com um tiro limpinho na cabeça.
É para isso que me pagam: dar conselhos a bêbedos e matar animais de estimação.

 

Vá lá, Rainie. O Walt disse que foi um tiro difícil. Esses cães parece que voam. O Chuckie está em dívida para contigo agora?

 

Rainie olhou para o ”maçarico”, ainda ao balcão, todo inchado que nem um galo.

 

Eu acho que o Chuckie agora tem é medo de mim.

 

Frank e Doug soltaram nova gargalhada. Frank inclinou-se então para a frente, os olhos azuis a brilhar, tentando pescar novo motivo de bisbilhotice.

 

O Shep deve gostar de ter mais ajuda.

 

Rainie apercebeu-se do isco, mas recusou mordê-lo.

 

Todos os xerifes gostam de ter pessoas dispostas a trabalhar à borla retorquiu, procurando não tomar partido. Era a pura das verdades. O modesto orçamento de Bakersville permitia apenas um xerife a tempo inteiro e dois agentes também a tempo inteiro: Rainie e Luke Hayes. Os outros seis agentes eram estritamente voluntários. Não só não recebiam remuneração como também tinham de pagar a sua própria instrução, as fardas e as armas. Muitas cidades pequenas utilizavam esse sistema. Afinal de contas, a maioria das chamadas tinha a ver com discussões domésticas e crimes contra a propriedade. Nada que uns quantos indivíduos de inteligência média não conseguissem resolver.

Ouvi dizer que o Shep vai passar a fazer menos horas atiçou Doug.

Não estou a par disso.

Vá lá, Rainie. Toda a gente sabe que o Shep e a Sandy andam às turras um com o outro. Ele está a tentar compor as coisas? Sente-se melhor com a mulher empregada?

 

Limito-me a relatar incidentes civis, Frank. Não ando a espiar para os contribuintes.

 

Ora, ora. Dá-nos uma dica. A seguir, vamos à barbearia. O Walt corta-nos o cabelo à borla se lhe levarmos notícias fresquinhas.

 

Rainie revirou os olhos.

 

O Walt já sabe mais do que eu. A quem é que acham que nós pedimos informações?

 

O Walt sabe tudo resmungou Frank. Talvez devamos abrir uma barbearia. Cos diabos, qualquer idiota é capaz de cortar cabelo.

 

Rainie olhou para as mãos dos dois homens, deformadas por uma vida inteira de trabalho árduo e inchadas por uma década de artrite.

 

Eu seria vossa cliente disse, destemida.

 

Estás a ver, Doug? Também podíamos atender miúdas.

 

Doug estava impressionado. Começou a meditar nos pormenores, e Rainie resolveu que era altura de sair de cena. Deu meia volta no assento, com um sorriso de despedida nos lábios, depois olhou para o relógio. Uma e meia. Nenhuma chamada nem nenhum relatório para escrever.
Uma manhã extraordinariamente calma numa cidade já de si calma. Olhou para Chuckie, cujas bochechas já deviam estar doridas do sorriso que ele ainda exibia.

 

Acaba com isso, ”maçarico” murmurou por entre dentes, batendo com as pontas dos dedos no tampo da mesa, impaciente.

 

Ao contrário de Charles Cunningham, Rainie nunca pensara tornar-se agente policial. Ao acabar o ensino secundário, o seu primeiro pensamento fora o de zarpar da terra dos produtos lácteos. Passara dezoito anos claustrofóbicos e não seria a família que a iria prender. Era de liberdade que precisava. Achava que só assim conseguiria acabar com os fantasmas que a atormentavam.

 

Rainie metera-se no primeiro autocarro para Portland, onde se matriculara na Universidade Estatal e estudara psicologia. Gostara das aulas, assim como da jovem cidade a transbordar de escolas de culinária, institutos de arte e ”estilos de vida alternativos”. Envolvera-se num romance arrebatado com um procurador-adjunto que tinha um Porsche.

 

As noites eram passadas ao volante do veículo de elevado desempenho, com os vidros abertos, o acelerador a fundo, a toda a velocidade pelo sinuoso Skyline Boulevard acima, com os cabelos ao vento, sempre a subir, a subir, a subir, e a velocidade sempre a aumentar, a aumentar, a aumentar. Sempre à procura de... alguma coisa.

 

Então, quando finalmente chegavam ao cimo da colina, com a cidade estendida a seus pés como uma manta de estrelas, despiam as roupas e fornicavam furiosamente entre a alavanca das velocidades e os bancos reclináveis.

 

Mais tarde, Howie levava Rainie a casa, onde ela bebia sozinha meia dúzia de cervejas, embora soubesse por experiência que devia manter-se longe da bebida.

 

Rainie olhou mais uma vez para o relógio.

 

Vá lá, Chuckie. Com a Cindy não te safas.

 

O rádio no cinto de Rainie começou a emitir um som crepitante. Finalmente, alguma acção, pensou a agente, com natural alívio.

 

Um-cinco, um-cinco! Chama um-cinco! Rainie pegou no rádio, levantando-se do assento.

 

Um-cinco! Escuto!

 

Temos a notícia de um incidente na Escola Básica Integrada. Espera... não desligues!

 

Rainie franziu o sobrolho. Escutava ruídos em fundo, como se houvesse outro rádio ou um telefone a fazer interferência. Ouviam-se também ruídos provocados pela electricidade estática e gritos. Então, soaram quatro detonações perfeitamente audíveis. Tiros!

 

Que raio seria aquilo?

 

Rainie encaminhou-se, em passada larga, para Chuckie, fazendo com que este se voltasse no preciso momento em que chegava nova comunicação. Pela primeira vez em oito anos, Linda Ames parecia estar debaixo de grande tensão nervosa.

 

Todas as unidades, todas as unidades! Tiroteio na Escola Básica Integrada! Há feridos... sangue nos corredores! Chamo seis-zero... seis-zero... Walt, traz a maldita ambulância! Vou manter o canal três aberto. Tiroteio numa escola. Oh, meu Deus, tiroteio numa escola!

 

Rainie saiu com Chuckie do restaurante. O jovem estava com ar pálido e chocado. Ela esperava sentir algo, mas só se apercebia de um grande vazio dentro de si. E um ligeiro zunido nos ouvidos. Ignorou-o. Meteu-se no velho carro-patrulha, pôs o cinto e ligou as sirenes.

 

Não compreendo murmurou Chuckie. Tiroteio numa escola? Não é costume termos tiroteio em escolas.

 

Mantém o rádio no canal três. É por onde passará toda a informação. Rainie engatou a primeira e arrancaram a toda a velocidade. Encontravam-se na Main Street, a um bom quarto de hora da Escola Básica Integrada de Bakersville, e Rainie sabia que muita coisa podia acontecer nesse espaço de tempo.

 

Não podemos estar a ter um tiroteio numa escola continuava Chuckie a balbuciar. Cos diabos, não temos gangues, nem drogas, nem... homicídios. Deve haver alguma confusão.

 

Sim disse Rainie calmamente, apesar de o zunido nos ouvidos estar a aumentar. Há anos que não ouvia aquele som. Desde rapariguinha, quando chegava a casa vinda da escola, sabia, mal punha o pé no degrau da porta, peio zunido nos ouvidos, que a mãe já estava bêbeda e que iria ter uma situação complicada pela frente.

 

Agora és agente da polícia, Rainie. És dona da situação.

 

De repente, sentiu um desejo louco de pegar numa cerveja.

 

Ouviu-se novo som crepitante no rádio. A voz do xerife Shep O’Grady fez-se ouvir então, no preciso momento em que Rainie passava pelo primeiro semáforo da Main Street.

 

Um-cinco, um-cinco, qual é a tua posição?

 

A doze minutos da escola respondeu Rainie, contornando à justa um carro estacionado em segunda fila e esquivando-se de outro parado mais à frente.

 

Um-cinco, liga para o canal quatro.

 

Rainie olhou para Chuckie. O ”maçarico” ligou para o canal privado. A voz de Shep fez-se ouvir de novo. O tom já não era calmo.

 

Rainie, tens de lá chegar o mais depressa possível.

 

Estávamos no Martha s. Vou o mais depressa que posso. E tu?

 

A seis minutos. A uma distância do caraças. A Linda mandou o resto dos agentes dirigir-se para o local, mas a maioria tem de passar por casa para fardar-se e buscar as armas. O agente municipal mais próximo está com certeza a vinte minutos do local, e o agente estatal a uns bons trinta minutos. Se isto for de facto um incidente de grandes dimensões... A voz extinguiu-se; então, acrescentou abruptamente: Rainie, tens de ser tu a tomar conta do caso.

 

Não posso. Não tenho experiência. Rainie olhou de soslaio para Chuckie, que também parecia confuso. O xerife é que tomava sempre conta dos casos. O procedimento era esse.

 

Tens mais experiência do que qualquer outra pessoa insistiu Shep.

 

A minha mãe não conta...

 

Rainie, não sei o que se está a passar efectivamente na escola, mas se for uma cena de tiros... Os meus filhos estão lá, Rainie. Não me podes pedir para não pensar neles.

 

Rainie ficou em silêncio. Ao fim de oito anos a trabalhar com Shep, os dois filhos deste eram como se fossem os seus sobrinhos favoritos. Becky, de oito anos, era louca por cavalos. Danny, de treze, adorava passar as tardes livres na minúscula esquadra de polícia. Uma vez, Rainie oferecera ao rapaz uma estrela de xerife de plástico. Usara-a durante quase seis meses e exigia sentar-se ao lado de Rainie ao jantar. Eram miúdos bestiais. Dois miúdos bestiais num edifício com duzentos e cinquenta miúdos também bestiais. Não havia nenhum com mais de catorze anos...

 

Em Bakersville, não. Chukie tinha razão: estas coisas não podiam estar a acontecer em Bakersville.

 

Eu tomo conta do caso anuiu Rainie calmamente.

 

Obrigado, Rainie. Sabia que podia contar contigo.

 

O rádio desligou com um estalido. Rainie passou outro sinal vermelho e teve de dar um toque no travão para abrandar. Por sorte, os carros que atravessavam o cruzamento viram-na e pararam de imediato. Estava vagamente consciente das expressões preocupadas dos outros condutores. Sirenes da polícia na Main Street? Nunca se ouvira tal coisa naquela rua. Ainda tinham uns bons dez minutos de viagem pela frente. Rainie começava a recear que chegassem tarde... tarde de mais.

 

Duzentos e cinquenta miúdos...

 

Passa para o canal três pediu a Chuckie. Dá ordens para que o pessoal médico não intervenha por enquanto.

 

Mas há feridos...

 

O pessoal médico fica nos seus lugares até o local ficar seguro. As normas são essas.

 

Chuckie fez o que Rainie lhe ordenou.

 

Pede para terem todos os meios de apoio disponíveis a postos. De certeza que os rapazes da polícia estatal e do distrito já sabem da notícia, e não quero que haja nenhuma confusão lá; arranjaremos todo o auxílio que pudermos.

 

Rainie fez uma pausa, esquadrinhou a memória em busca de aulas dadas oito anos antes, numa sala bafienta de Salem, no Oregon, onde fora a única mulher entre trinta homens. Mobilização de grande envergadura. Procedimentos para possível número avultado de vítimas. Temas de estudo que, na altura, pareciam estranhos.

 

Pede aos hospitais locais para que se mantenham em alerta murmurou. Diz ao pessoal médico para contactar o banco de sangue local para o caso de virem a precisar de sangue. A Linda tem de pedir apoio à Força de Intervenção. Oh, e diz à Brigada de Investigação para estar a postos.

 

A resposta à comunicação veio quase de imediato. A voz de Linda tornara-se esganiçada.

 

Continuam os tiros. Não há informações do atirador nem das vítimas. Há notícias de um homem de preto no local. O atirador pode estar na zona. Procedam com cautela! Por favor, procedam com muita cautela!

 

Um homem? repetiu Chuckie com voz rouca. Pensava que fosse um aluno. E sempre um aluno.

 

Rainie chegou finalmente à estrada que partia da zona central, e acelerou até aos cento e trinta quilómetros por hora. Já não estavam longe. Sete minutos, no máximo. Chuckie pegou no rádio e passou os olhos pela lista de ordens.

 

Rainie começou a pensar nas outras comunidades e escolas que vira em noticiários, sem perceber muito bem o que se passava. Até Springfield, no Oregon, lhe parecera longínqua. Era uma cidade, e toda a gente sabia que as cidades tinham os seus problemas. Era por isso que as pessoas se mudavam para Bakersville. Em princípio, nada de mau aconteceria aí.

 

Mas tu, Rainie, melhor que ninguém, já devias saber que uma coisa destas poderia acontecer a qualquer momento.

 

Chuckie desligou o rádio. Os lábios moviam-se agora numa muda oração. Rainie teve de desviar o olhar.

 

Já estou quase a chegar murmurou, por entre dentes, para as crianças que via claramente no seu espírito. Vou o mais depressa que posso.

 

Na terça-feira à tarde, Sandy O’Grady esforçava-se ao máximo por acabar os relatórios de pesquisa de mercado e não estava a conseguir. Instalada num pequeno escritório de canto um antigo quarto de uma casa vitoriana transformada, passava mais tempo a olhar para a janela do que para a enorme pilha de relatórios que tinha em cima da secretária de carvalho.

 

O dia estava bonito, nem uma nuvem à vista. Uma verdadeira raridade num estado com tanta chuva que a população local costumava referir-se-lhe em tom afectuoso como o sol líquido. A temperatura também era moderada. Não tão fria como poderia estar na Primavera, mas também não tão quente que fizesse as delícias dos turistas.

 

O dia mostrava-se impecável, um raro regalo para todos os cidadãos de Bakersville, que sofriam durante quase todos os outros dias do ano: os Outonos chuvosos, os Invernos gelados, as torrentes de lama que, por vezes, fechavam os desfiladeiros, e as inundações primaveris que ameaçavam destruir todos os terrenos férteis. Um dia bom em cem, teria o seu pai ironizado. Mas também seria o primeiro a dizer que era suficiente.

 

Sandy vivera em Bakersville durante toda a sua vida e nunca quisera criar a família noutro lugar. Anichado entre a cordilheira costeira do Oregon, a leste, e o oceano Pacífico, a oeste, o vale alardeava ondulantes colinas 13 luxuriantes, salpicadas por vacas, de raça Holstein pretas e brancas, e cercadas por imponentes montanhas cobertas de vegetação. O número de vacas leiteiras correspondia ao dobro do das pessoas. A quinta familiar continuava a ser uma forma de vida. As pessoas conheciam-se umas às outras e participavam na vida dos vizinhos. Havia praias para o prazer do Verão e caminhos no campo que exaltavam a beleza do Outono. Ao jantar, podia-se comer caranguejos acabadinhos de apanhar, seguidos de uma taça de morangos fresquíssimos com natas acabadas de fazer. Não era uma vida má.

 

As únicas queixas que Sandy ouvia da sua comunidade tinham a ver com o tempo. Os infindáveis Invernos cinzentos, o nevoeiro, espesso e amarelado, que parecia fazer vergar as pessoas sob o seu peso. Todavia, Sandy até gostava das manhãs cinzentas e enevoadas, quando os cumes das montanhas mal se viam sobre o manto de nuvens e o mundo estava envolto em silêncio.

 

Quando recém-casados, Sandy e Shep costumavam dar os seus passeios madrugadores antes de ele entrar de serviço. De parcas e botas de borracha pretas, caminhavam a custo pelos terrenos cobertos de orvalho, sentindo o nevoeiro como que acariciando-lhes as faces. Certa vez, quando Sandy se encontrava grávida de quatro meses e sob um profundo descontrolo hormonal, fizeram amor no meio do nevoeiro e rebolaram debaixo de um velho carvalho, ficando ensopados até aos ossos. Shep olhara-a com um misto de receio e espanto. E ela agarrara-o pela cintura esguia e apertara-o contra si, sentindo o seu coração a bater freneticamente, ao mesmo tempo que sonhava com a criança que crescia no seu ventre. Seria rapaz ou rapariga? Teria os seus cabelos louros encaracolados ou o cabelo castanho encarapinhado de Shep? Como seria ter um ser minúsculo a mamar-lhe no peito? Fora um momento mágico. Infelizmente, o casamento não voltara ater muitos mais momentos desses desde então. Bateram à porta. Sandy olhou, com ar comprometido, para a janela, e viu o patrão, Mitchell Adams, encostado ao velho olho-de-boi. Tinha os tornozelos cruzados e as mãos enfiadas nos bolsos das calças de um elegante fato cinzento de três mil dólares. Os cabelos escuros roçavam ligeiramente no colarinho da camisa, e o rosto magro apresentava-se bem escanhoado. Mitchell Adams era um daqueles homens em que tudo o que vestia lhe assentava bem, quer se tratasse de um fato Armani quer de Bean, Shep detestara-o logo no primeiro instante em que se conheceram.

Como é que estão a sair esses relatórios? indagou Mitch. Apesar da preocupação de Shep, Mitchell era um homem cem por cento. Não contratara Sandy porque esta ainda se mantinha ágil e bonita quarenta anos. Fizera-o porque percebera que a antiga rainha de beleza do liceu tinha cabeça e precisava de ser bem-sucedida na vida. Quando Sandy tentara explicar isso a Shep, este simplesmente ficara a detestar Michell ainda mais. A reunião com a Wal-Mart é amanhã dizia Mitch. Se queremos de facto convencê-los a mudar-se para a nossa cidade, temos de ter os números em ordem.

 

E precisamente nisso que estou a trabalhar.

 

Ainda falta muito? Sandy hesitou.

 

Estou a chegar lá. Código indicativo de não ter feito nada, de ter tido outra grande discussão com Shep na noite anterior, de ir ficar a pé até altas horas da noite a acabar os relatórios, o que iria provocar outra discussão com o marido, que de nada serviria. Mas, tal como Shep, era demasiado católica para dar outro rumo à sua vida.

 

Estavam continuamente a discutir, e agora Becky passava a maior parte do tempo isolada no quarto, com um exército de animais de pelúcia que ela acreditava que falavam, enquanto Danny permanecia cada vez mais tempo na sala de informática da escola. Dissera a Sandy que tinha aulas suplementares com Miss Avalon. Mas Sandy e Shep desconfiavam que o filho não tinha vontade de voltar para casa. Então, no mês anterior, houvera o incidente com os cacifos...

 

Sandy esfregava inconscientemente as têmporas. Mitchell deu um pequeno passo em direcção a ela, mas deteve-se e recuou.

 

Amanhã de manhã disse ele num tom calmo.

 

Certamente. A primeira coisa da manhã. Sei qual é a importância da reunião.

 

Mitchell fez, por fim, um gesto afirmativo com a cabeça, embora Sandy percebesse que ele não estava satisfeito. Não sabia que mais lhe poderia dizer. Era essa a sua vida nos últimos dias. Ninguém andava completamente satisfeito nem o patrão, nem o marido, nem os filhos. Continuava a dizer a si própria que, se conseguisse aguentar-se ali dentro mais um pouco, as coisas acabariam por se resolver. A reunião com a Wal-Mart era algo em que trabalhavam há nove meses, até altas horas da noite. Mas se tudo corresse bem, entraria muito dinheiro na empresa imobiliária. Esta poderia, finalmente, contratar mais pessoal. E decerto Sandy levaria para casa uma boa bonificação. Talvez Shep acabasse por perceber que ela tinha verdadeiramente capacidades e ambições, tal como ele.

 

Um quarto para as duas da tarde. Sandy levantou-se e fechou os estores da janela, esperando que isso a ajudasse a concentrar-se. Encheu um copo de água, pegou numa caneta e preparou-se para se lançar ao trabalho com afinco.

 

Mal começara a rever os dados do mercado, quando o telefone ao seu lado tocou. Pegou no auscultador com ar ausente, metade da mente ainda a processar números. Não estava preparada para o que ouviu.

 

Lucy Talbot gritava, histérica:

 

Sandy, Sandy! Oh, graças a Deus, consegui apanhar-te! Houve ma cena de tiros na escola. Um homem, dizem que fugiu. Ouvi na raio. Há feridos pelos corredores. Estudantes, professores, não sei quem está ferido. As pessoas entram a correr vindas de todo o lado. Tens de ir para lá o mais depressa possível!

 

Não se lembrou de desligar o telefone, de pegar na bolsa ou de gritar a Mitchell que tinha de se ir embora.

 

Só se lembrou de correr. Tinha de chegar à escola. Tinha de ir ter com Danny e Becky.

 

E lembrou-se de pensar, pela primeira vez em muito tempo, que estava satisfeita por Shep O’Grady ser seu marido. Os filhos precisavam dele.


                     Terça-feira, 15 de Maio, 13.52

A Escola Básica Integrada de Bakersville parecia um manicómio. Quando Rainie parou, com uma chiadeira infernal, a meio quarteirão de distância do vasto edifício de um andar, viu pais a correr freneticamente pelo parque de estacionamento, enquanto crianças vagueavam sem destino ao longo da vedação, em gritos histéricos. Ouviam-se alarmes de incêndio. Até a sirene da velha ambulância de 1965 de Walt. O diabo que o levasse! Mais carros, com certeza de pais que haviam sido avisados no trabalho, surgiam, perigosamente descontrolados, das ruas residenciais.

 

Bolas! murmurou Rainie. Bolas, bolas, bolas!

 

Viam-se professores a reunir os seus alunos em pequenos grupos. Um homem de fato completo talvez o director VanderZanden, com quem Rainie só se encontrara uma vez estava posicionado junto ao mastro da bandeira e parecia tentar organizar o caos. Não estava a ter muita sorte. Magotes de pais corriam de grupo para grupo tentando encontrar os filhos. Muitas crianças andavam aos círculos sem destino, em busca dos pais. Um rapazito com as calças de ganga ensopadas de sangue afastou-se, cambaleante, do turbilhão de loucura e caiu no passeio. Ninguém pareceu dar por isso.

 

Rainie saltou do carro e correu para a escola. Cunningham seguiu-a a pouca distância. Enquanto furavam por entre aquele mar de gente em direcção às portas de vidro da escola, Rainie descobriu o carro-patrulha de Shep, estrategicamente estacionado de modo a bloquear a entrada oeste do parque de estacionamento. Todavia, o xerife não se via por perto.

 

As portas principais haviam sido abertas de par em par. Rainie vislumbrou então dois voluntários do Serviço de Emergência Médica de Bakersville, Walt e Emery, de cócoras, ao fundo do amplo corredor da escola, a ministrarem já os primeiros socorros a uma vítima.

 

Bolas! deixou escapar de novo. Os dois homens não tinham nada que estar dentro do edifício antes de cumpridas todas as normas de segurança.

 

Um pai aproximou-se a correr, precipitando-se para as portas abertas. Rainie agarrou-o pelo braço e teve de o puxar à força para trás, perante as tentativas que o homem fazia para se desenvencilhar dela.

 

O meu filho! foram as únicas palavras que conseguiu articular.

 

Para o parque de estacionamento! gritou Rainie. Não entra ninguém no edifício! Você aí, de fato completo! Chegue aqui!

 

Rainie fez sinal para o homem jovem que se encontrava a pouca distância de si. Exibia um ar de autoridade, o fato, cor de azeitona, era de refinado corte, e os sapatos pretos estavam imaculadamente engraxados. Franzia o sobrolho para Rainie, com um ar ansioso e impaciente.

 

É da escola? Como é que se chama? indagou Rainie.

 

Richard. Richard Mann. Sou o orientador escolar e preciso de chegar junto dos alunos. Temos alguns feridos...

 

Sabe o que é que aconteceu?

 

Ouviram-se tiros. Depois, o alarme de incêndio soou; então, começou toda a gente a correr. Eu estava no meu gabinete a tratar de alguma papelada e, de um momento para o outro, o caos instalou-se.

 

Viu quem fez os disparos?

 

Não, mas ouvi dizer que viram um homem a sair a correr pelas portas do lado oeste. Não sei.

 

E os alunos? Estão todos cá fora?

 

Seguimos os procedimentos básicos de evacuação retorquiu Richard Mann automaticamente. Então, o rosto adquiriu um ar de desânimo. O tom de voz baixou de tal modo que só Rainie o conseguiu ouvir. Dois professores disseram que viram alguns estudantes ao fundo dos corredores. Tinham que dar assistência às suas próprias turmas, por isso não puderam parar... e não queriam alarmar os seus próprios alunos. Também vi algumas crianças feridas aqui fora. Tentei deter os voluntários do Serviço de Emergência Médica, mas eles já estavam a entrar no edifício.

 

Tem alguma formação médica?

 

Aprendi reanimação cardiopulmonar.

 

Óptimo. Então vai instalar um posto de primeiros socorros no relvado da escola, e em seguida reúna todos os miúdos feridos. Aliás, acabei de ver um miúdo cair no passeio, por isso é preciso mandar lá alguém. Depois, indague entre os pais. Deve haver mais gente com algum tipo de experiência: reanimação cardiopulmonar, criação de animais, primeiros socorros para campistas, uma coisa qualquer. Mande-os assistir as crianças e que façam das tripas coração. O Walt parece não ter mãos a medir lá dentro, e, provavelmente, só daqui a uns bons dez ou quinze minutos é que chega uma ambulância de Cabot County.

 

Farei o meu melhor. Vai ser difícil fazer-me ouvir acima do barulho.

 

Rainie apontou o dedo para o carro-patrulha de Shep.

Está a ver aquele carro-patrulha? Há um megafone no banco traseiro. Desenrasque-se. Depois, logo que o posto de primeiros socorros esteja instalado, tenho outra tarefa para si. Está a ouvir?

 

O jovem orientador escolar fez um convincente gesto afirmativo com a cabeça. Tinha o rosto pálido e o lábio superior cheio de gotas de suor, mas parecia ouvir o que Rainie lhe dizia.

 

Está a ver todas aquelas pessoas que estão a obstruir o parque de estacionamento? perguntou Rainie. Precisamos que elas passem para o outro lado da rua. Peça aos professores para alinharem as suas turmas e contarem os miúdos. Depois disso, os alunos podem ser entregues aos pais. Mas toda a gente, à excepção dos feridos, vai sair do parque de estacionamento, por razões de segurança, certo? E ninguém vai para casa sem ordem da polícia. Percebido?

 

Vou tentar.

 

Viu o xerife O’Grady?

 

Entrou a correr no edifício. Julgo que ia à procura dos filhos. Richard Mann dirigiu-se então ao carro de Shep. Rainie percorreu com o olhar o vasto edifício escolar branco, que deduzia não estar ainda seguro, depois fitou o seu recruta, que passava nervosamente a mão pela arma.

 

Rainie respirou fundo. Só tivera instrução teórica sobre aquele tipo de situações e fora há muitos anos, mas não tinha alternativas. Walt e Emery já se encontravam dentro da escola. Shep também. Ela e Chuckie também podiam juntar-se à barafunda.

 

Segue-me, Chuckie. Olhos bem abertos e mãos longe da arma. O Walt está a agir sem autorização, mas ainda não merece levar um balázio.

 

Chuckie assentiu com a cabeça, numa atitude obediente.

 

Há três coisas que tens de ter bem presentes num cenário de crime: não tocar em nada! Não tocar em merda nenhuma! Não tocar em merda mesmo nenhuma! Percebeste?

 

Chuckie concordou novamente com um aceno de cabeça. Rainie olhou para o relógio. Uma e cinquenta e sete. O parque de estacionamento continuava um caos e era difícil pensar com a barulheira de sirenes e crianças a chorar em fundo. Também não era uma situação fácil de ver de perto: as manchas vermelhas no passeio, o rasto inconfundível que vinha de dentro do edifício da escola até ao pátio. As crianças feridas a tentarem escapar da morte. E as outras? Aquelas que Richard Mann disse que os outros professores haviam visto?

 

Ainda não podia pensar nisso.

 

Tinha o Clock na mão direita e o revólver de reserva, de calibre vinte e dois, num coldre no tornozelo. Esperava que fosse suficiente. Fez um gesto tranquilizador com a cabeça a Cunningham e entrou no edifício com o walkie-talkie na mão esquerda.

 

O barulho era maior lá dentro. Os longos corredores afunilavam o silvo implacável do alarme de incêndio, fazendo-o ressoar nas cabeças.

 

Central! gritou Rainie para o walkie-talkie. Um-cinco chama central! Linda, entra!

 

Central para um-cinco!

 

Põe-me o Hank em linha. Preciso de saber como é que se desliga a merda dos alarmes.

 

Sim, está bem. Só um momento.

 

Rainie e Chuckie fizeram uma pausa no átrio principal, visivelmente incomodados com o persistente ruído.

 

Diante deles, o corredor principal encontrava-se surpreendentemente limpo. Não havia mochilas nem livros espalhados pelo vasto pavimento de ladrilhos brancos. À direita, erguia-se o departamento de matrículas, que tinha os vidros cobertos de recortes de flores desenhadas a pastel e a palavra ”Bem-vindos!” Rainie continuava a não ver quaisquer sinais de violência.

 

Ouviu-se de novo o som crepitante no walkie-talkie. Rainie encostou-o ao ouvido para receber as instruções de Linda. Dentro da secretaria central. Um painel de controlo. Fixou o olhar na porta fechada. Não sabia o que iria encontrar do outro lado. E era impossível ouvir o que quer que fosse. O problema era todo esse.

 

Fez sinal a Chuckie para se pôr de lado. Não havia tempo a perder.

 

Ligeiramente curvada e de arma em riste, abriu a porta com um pontapé e rebolou para o interior da sala... Nada. Nada. Nada. Secretaria segura.

 

Dirigiu-se de imediato ao painel de controlo e, num ápice, os alarmes de incêndio deixaram de soar.

 

Chuckie fechou bruscamente os olhos. O silêncio, depois do barulho, era entontecedor, Entontecedor e arrepiante.

 

Está... está melhor disse Chuckie, esforçando-se por se mostrar confiante, não obstante o rosto estar da cor do pergaminho.

 

Aprendi isto com o incidente de Columbine murmurou Rainie. Os alarmes de incêndio abafam todos os ruídos. Tornam impossível referenciar o local onde os atiradores se encontram no edifício.

 

Recebeste treino de tiroteio em escolas? indagou, esperançoso.

 

Não. Li na Time. Fez um gesto brusco com a cabeça. Vá lá. Mantém a cabeça fria e os ouvidos bem atentos. Vai correr tudo bem.

 

Voltaram ao átrio principal, de armas em punho e deslocando-se com extrema cautela. A seguir à secretaria, fiadas de cacifos azuis com as portas fechadas. O tiroteio devia ter começado depois de todos os alunos terem voltado para as aulas após o almoço, deduziu Rainie. Duvidava que esse facto fosse significativo. Estava curiosa com o que iria encontrar dentro das salas de aula.

 

Mais à frente, Rainie reparou nuns quantos projécteis deformados caídos no chão. Provavelmente balas perdidas vindas do local do incidente, ou talvez tivessem sido arrastadas até ali quando os alunos se precipitaram em fuga. Contornaram com cuidado todos os objectos, embora Rainie não tivesse qualquer ilusão quanto à situação que tinha pela frente.

 

A primeira prioridade de um agente policial quando se aproxima de um cenário de crime é preservar as vidas humanas. O segundo objectivo é prender o criminoso, se este ainda se encontrar nas imediações, e garantir a segurança no local. O terceiro é deter as testemunhas e proteger as provas, pois é sempre tarefa do agente ver para além da tragédia do momento. Nos dias que se seguiriam, as pessoas de Bakersville iriam exigir respostas. Quereriam a reconstituição do dia: quem fora o culpado e quais as vítimas, o que correra mal e a quem imputar responsabilidades.

 

Já sabia que essas questões não iriam ter respostas fáceis. A escola estava situada numa zona residencial, e um grande número de civis chegara ao edifício antes dos agentes policiais. Entre eles, os voluntários do Serviço de Emergência Médica e os alunos, o corredor encontrava-se coberto de todo o tipo de despojos. E agora ali estavam Rainie e Chuckie, dois agentes armados e inexperientes, na sua primeira grande cena de crime. Rainie estava em apuros ainda antes de começar e, no entanto, não tinha alternativa senão continuar.

 

Conseguia ouvir a respiração arquejante de Cunningham atrás de si, enquanto Walt, uns quarenta e tal metros à sua frente, praguejava:

 

Raios te partam, Bradley! murmurava o voluntário do Serviço de Emergência Médica. Não me deixes agora! Cos diabos, temos jogo de póquer na sexta-feira!

 

Rainie e Cunningham surgiram silenciosamente atrás de Walt e fizeram o levantamento da situação. O contínuo Bradley Brown jazia no ponto de intersecção entre dois corredores largos. Dessa posição vantajosa, Rainie conseguia ver quase uma dúzia de portas de salas de aula à sua esquerda. Encontravam-se todas fechadas, o que fez com que, de imediato, os cabelos da nuca se eriçassem.

 

Olhou de soslaio para Chuckie, mas o recruta olhava para a direita, onde o corredor ia dar a duas portas laterais de vidro, estilhaçadas de alto a baixo e com manchas de uma substância escura, talvez sangue. Mais cacifos amolgados e muitos mais estragos. A principal zona do incidente.

 

Um corpo jazia não muito longe das portas. Longos cabelos escuros, um vestido leve de Verão. Provavelmente uma professora. Mais perto, Rainie viu duas outras formas. Mais pequenas, imóveis. Não eram de adultos.

 

Cunningham soltou um soluço.

 

Rainie virou a cara para o lado.

 

Já foram observados disse Walt, numa voz firme.

 

Vocês nem sequer deviam estar aqui.

 

São miúdos, Rainie. Simples miúdos. Tínhamos de o fazer. Não o quis recriminar mais. Walt era um antigo médico do exército e um experiente voluntário do Serviço de Emergência Médica. Ele conhecia as normas, e o que estava feito, feito estava. Rainie centrou então a atenção no contínuo.

 

Bradley era um homem de mais idade, cabelos grisalhos, compridos e bastos, e envergava calças castanhas e camisa de algodão azul já muito usada. No pulso, exibia um modesto relógio de ouro, daqueles que se ganham como prémio quando se completam vinte anos de serviço. Fora atingido em cheio no peito: as ligaduras de gaze estavam ensopadas de sangue.

 

Os outros? sussurrou o contínuo.

 

Estão todos bem, Bradley respondeu Walt, num tom áspero. Só tens de te preocupar com o teu maldito couro. O que é que estavas a fazer para seres atingido assim? Walt espetou uma agulha no braço de Bradley e deu-lhe uma injecção.

 

Estás a conseguir disse Rainie, encorajando o contínuo, ao mesmo tempo que se ajoelhava junto à sua cabeça e esboçava um sorriso. O que é que aconteceu aqui, Bradley?

 

Fui... atingido.

 

A sério? Rainie soltou uma gargalhada forçada, como se estivessem a partilhar uma pequena anedota ao almoço. Viste quem foi?

 

Apareceu... ao voltar... da esquina.

 

Rainie assentiu com a cabeça. A pele de Bradley estava a adquirir um tom azulado. Ia entrar em estado de cianose. Depois, viria o choque hipovolémico devido à perda de sangue, seguido de inconsciência. Se a hemorragia não parasse, acabaria por morrer. Walt e Emery trabalhavam com afinco, mas as ligaduras, uma após outra, continuavam a ficar vermelhas.

 

Ouvi disparos... disse Bradley, arquejante. Queria... ajudar.

 

Es um homem corajoso. Bradley fez um esgar de dor.

 

Apareceu de repente... pum! Não cheguei... a ver...

 

O que te atingiu?

 

Sim. A respiração não passava de um silvo. Estive no Vietname. Engraçado... pensei que fosse... lá.

 

De súbito, revirou os olhos.

 

Bolas, preciso de mais gaze! Emery! gritou Walt, desesperado. Emery mostrou-lhe uma caixa vazia.

 

Leva-o rapidamente determinou Walt, tentando chegar à maca, enquanto Rainie se desviava da sua frente.

 

Não irá adiantar muito contrapôs Emery. O hospital é muito longe.

 

E o helicóptero?

 

Chamei-o há sete minutos. Deve estar aí dentro de cinco.

 

Merda! gritou Cunningham, atrás de Rainie. Parem a hemorragia, façam alguma coisa! Ele está a morrer, não conseguem ver? O ”maçarico” olhou para todos eles e, num gesto brusco, rasgou a camisa castanho-amarelada que comprara orgulhosamente apenas dois meses antes. Tomem, tomem, usem isto!

 

Precisamos de mais para ligar a ferida disse Walt.

 

O gabinete do contínuo! exclamou Rainie. Ali. Deve ter alguma coisa.

 

Pensos higiénicos! proclamou Walt. São óptimos para isto!

 

Chukie era o que estava mais próximo do gabinete. Agarrou na maçaneta de metal da porta e puxou com força. Estava fechada à chave. Deu uma palmada forte com a mão aberta. Como não resultou, apontou a arma.

 

Por amor de Deus! Rainie deu um encontrão no braço de Chuckie e tirou-lhe o Glock de calibe quarenta da mão antes que ele conseguisse disparar. Então, virou-se para ele com olhar duro. Nunca faças uma coisa dessas! Muito menos no local do crime, em que podes contaminar todas as provas e num edifício onde toda a gente está apavorada. Metade dos pais que estão lá fora entraria por aí dentro com caçadeiras e ficarias feito em bocadinhos.

 

Temos de a abrir! gritou Chuckie.

 

Então, dá-lhe um encontrão com o ombro! Não és feito de vidro.

 

Os olhos de Chuckie iluminaram-se. Tomou balanço e atirou-se contra a porta do gabinete, enquanto Rainie se desviava para o lado e preparava a cobertura. Todas as portas das salas de aula fechadas. Quem é que se daria ao trabalho de fechar uma porta, quando toda a gente corria para salvar a vida? Quem teria fechado todas as salas com tanto desvelo, como se tivesse todo o tempo do mundo? Não era trabalho de alunos, pensou Rainie. Nem de professores. O que deixava apenas uma opção.

 

A porta abriu-se de supetão. Cunnigham exultou com a façanha e, antes que Rainie o conseguisse deter, precipitou-se para o interior, desaparecendo no meio da escuridão. Então, deixou o coração de Rainie petrificado com um grito.

 

Oh, meu Deus! Está uma criança aqui dentro!

 

Walt e Emery precipitaram-se para a frente. Rainie empurrou-os para trás.

 

Deixem-me verificar disse, num tom firme. Walt, tu já gastaste as tuas sete vidas.

 

Rainie entrou no pequeno gabinete, piscando os olhos três vezes para os habituar à escuridão. Cunningham encontrava-se a um canto, inclinado sobre uma rapariguita enrolada sobre si mesma, de tal modo que Rainie só conseguia distinguir os cabelos louros. A miúda levantou então os olhos. Rainie conheceu-a de imediato.

 

Becky O’Grady! Oh, querida, estás bem?

 

Rainie fez sinal a Walt e a Emery para entrarem, depois enfiou a arma no coldre e deixou-se cair de joelhos diante da filha mais nova de Shep. À primeira vista, parecia estar bem. Rainie passou as mãos pelos braços da pequenita em busca de sinais de ferimentos. Não havia qualquer ferida. Nem quaisquer sinais de queimaduras de pólvora ou de buracos de bala, ou de sabe Deus de quê. Reparou então no olhar vítreo dos olhos azuis de Becky. Com extremo cuidado, Rainie puxou-a para a frente e a pequenita caiu redonda nos seus braços.

 

Trouxe-a para fora do gabinete imediatamente e deitou-a no chão frio. Emery tomou conta da situação.

 

Pupilas dilatadas declarou. Sem resposta. Podes dizer-me o teu nome?

 

Becky não proferiu qualquer palavra.

 

Consegues ouvir-me?

 

Becky manteve-se em silêncio, mas, quando ele estalou os dedos, virou a cara na direcção do som.

 

Estado de choque afirmou Emery, ao fim de alguns instantes.

 

Provavelmente provocado pelo trauma. Precisa de tempo.

 

Rainie acocorou-se diante da criança, menos convencida e ainda preocupada. Becky tinha o nariz sujo de fuligem e teias de aranha no cabelo. Usava uma T-shirt verde de Winnie the Pooh, com Pooh e Piglet a dançarem e uma legenda a dizer como era divertido ter um amigo.

 

Rainie passou suavemente a mão pela face de Becky para limpar uma das marcas de fuligem. Encostou a mão em concha ao rosto da pequenita.

 

Querida disse numa voz meiga. Como é que vieste parar aqui dentro?

 

Becky limitou-se a olhar para Rainie.

 

Estavas a esconder-te?

 

Lentamente, a rapariguita assentiu com a cabeça.

 

Becky, sabes de quem é que te estavas a esconder? O lábio inferior de Becky começou a tremer.

 

Era alguém que eu conheço? Becky baixou os olhos.

 

Tudo bem, Becky. Agora já acabou tudo. Estás em segurança.

 

Rainie olhou de relance para todas as portas das salas de aula fechadas.

 

Já ninguém te vai poder magoar. Só preciso de saber quem fez isto para poder orientar o meu trabalho. Podes ajudar-me, Becky?

 

Becky O’Grady abanou a cabeça.

 

Pensa um bocadinho, querida. Pensa.

 

Os minutos iam passando. A pequenita mantinha-se em silêncio. Finalmente, voltou as costas a Rainie e enroscou-se sobre si mesma. Frustrada, Rainie pôs-se de pé. Walt e Emery haviam colocado Bradley em cima da maca. A camisa de Chukie mantinha uma pilha compacta de pensos higiénicos colada ao peito do homem. A pele de Bradley conservava o tom azul-pálido, mas parecia respirar com mais facilidade. Nota positiva para os tipos do Serviço de Emergência Médica.

 

Rainie olhou à sua volta. A porta estava feita em estilhaços. Walt atirara metade das coisas que se encontravam no interior para o corredor quando andara à procura de pensos higiénicos. Ele e Emery haviam deixado impressões digitais por todo o lado. As portas do corredor mantinham-se estranhamente fechadas, e Becky O’Grady estava em posição fetal aos pés de Rainie.

 

Então, mais ao fundo do corredor, a professora caída, as duas formas mais pequenas...

 

Deus do Céu! O que acontecera na Escola Básica Integrada de Bakersville?

 

Rainie puxou Chuckie para o lado e falou calmamente.

 

Precisamos de tirar a Becky daqui. Porque não a levas lá para fora e vê se encontras a Sandy? Os outros agentes já devem estar a chegar. Manda-os isolar o perímetro à volta da escola. Diz-lhes que fui eu que pedi: ninguém entra dentro do perímetro, e isso inclui a imprensa, o presidente da Câmara e o pai mais rico da cidade. Depois, diz ao Luke que está encarregue de fazer o relatório descritivo do crime.

 

A imprensa não tardará aí murmurou Chuckie com um ar de repugnância estampado no rosto.

 

Deixamos isso por conta do Shep.

 

Tudo bem. Chuckie olhou para o corredor, agora mergulhado em silêncio, e para as portas estilhaçadas ao fundo. Rainie? Porque estão todas as portas das salas de aula fechadas? Julgo que o orientador escolar disse que fizeram a evacuação como se de um exercício de incêndio se tratasse. Não creio que nenhum dos miúdos tenha fechado as portas ou apagado as luzes quando fugiam do edifício. Assim, quem faria tal coisa?

 

Também não creio que tenham sido os miúdos ou os professores.

 

O homem de preto?

 

Perderias tempo a fechar todas as portas enquanto fugias do local onde praticaras o teu crime?

 

Chuckie franziu o sobrolho.

 

Provavelmente não, mas quem o teria feito? Rainie fez um sorriso forçado.

 

Não sei, Cunningham, mas acho que não tardarei a descobrir.

 

                             Terça-feira, 15 de Maio, 14.05

Sandy O’Grady descreveu as curvas sinuosas da rua residencial a setenta e poucos quilómetros por hora. Os pneus do seu leal Oldsmobile faziam uma chiadeira infernal, mas ela não prestava a mínima atenção ao facto. As mãos coladas ao volante. Os olhos azuis fixos na rua que se estendia à sua frente.

 

À sua volta só se viam pessoas a correr, a sair precipitadamente das suas casas e a lançar-se, desenfreadas, pelos bonitos passeios abaixo, com ar espavorido, e a dar, aos berros, a terrível notícia aos vizinhos. Levavam estojos de primeiros socorros, cobertores, toalhas, garrafas de água e tudo aquilo que pudesse ser útil.

 

Sandy fez a curva seguinte com uma chiadeira incrível, passou por cima de uma lomba e, finalmente, viu-se obrigada a travar. A dois quarteirões da escola, a rua estava atulhada de carros mal estacionados e pais desesperados. Sandy subiu o passeio, entrou com o Olds pelo parque adentro e juntou-se à barafunda.

 

O barulho era insuportável. A velha ambulância de Walt a zurrar. As crianças a gritar pelos pais e estes pelos nomes dos filhos. Sandy sentiu o sangue gelar-lhe nas veias ao ouvir o grito lancinante de uma mãe, como se lhe estivessem a dilacerar o coração.

 

Aquilo não podia estar a acontecer. Não em Bakersville. E muito menos na escola dos seus filhos. Oh, Deus, não haveria ninguém que conseguisse pôr cobro a toda aquela confusão?

 

Sandy abriu caminho por entre o mar de gente e de carros. Não sabia para onde ir. A sua única preocupação era aproximar-se o mais que pudesse da escola. Onde estariam os seus filhos? Onde estaria o marido? Alguém poderia dizer-lhe o que havia de fazer?

 

Mais à frente, viu um agente com a farda de Cabot Country. Parecia estar simultaneamente a conduzir as pessoas para fora do edifício da escola e a interrogar os responsáveis pela mesma. Ninguém tinha uma resposta para o sucedido. Os pais só queriam encontrar os filhos.

 

Sandy chegou, finalmente, à rede que cercava o pátio da escola. Encostou-se a ela e espreitou para o parque de estacionamento, onde agora se viam crianças estendidas no asfalto, algumas com compressas frias na cabeça, outras levantando os cotovelos e os joelhos esfolados para serem ligados. Cinco adultos tomavam conta do improvisado posto de primeiros socorros, usando os estojos e as toalhas de emergência à medida que as outras pessoas lhos entregavam. Sandy reconheceu Susan Miller, mãe de Johnny e enfermeira no Hospital Cabot. Viu Rachel Green, presidente da Associação de Pais e mãe a tempo inteiro, a ligar o pulso de um miúdo de oito anos. Viu Dan Jensen, o veterinário da cidade, debruçado sobre um miúdo, cujas calças de ganga se encontravam ensopadas de sangue. Sandy conseguia distinguir perfeitamente o buraco feito no tecido resistente. O miúdo fora atingido na perna.

 

Meu Deus, um ferimento de bala. O tiroteio acontecera de facto. Era tudo verdade. Alguém abrira fogo na escola de Bakersville.

 

Sandy pensou que ia ficar com náuseas.

 

A vice-directora, Mary Johnson, passou por ela a correr. Sandy estendeu o braço.

 

Mary, Mary! Que aconteceu? Como está toda a gente? Viste a Becky ou o Danny?

 

Mary exibia um ar esgotado, os cabelos, normalmente bem arranjados, encontravam-se em completo desalinho, o rosto coberto de uma fina película de suor. Por momentos, ficou apática. Então, reconheceu Sandy e apertou-lhe a mão.

 

Oh, Sandy, lamento imenso. Estamos a fazer tudo o que podemos.

 

Aconteceu alguma coisa aos meus filhos? Onde estão o Danny e a Becky? Onde estão os meus filhos?

 

Calma, está tudo bem. Tenho a certeza de que está tudo bem. Tenho de te pedir para saíres da escola. Todas as crianças foram conduzidas pelos professores para o outro lado da rua. Dividimo-las pelos pátios de acordo com o ano. A turma da Becky está no quarto pátio a contar daqui. A do Danny deve estar quatro pátios depois.

 

Viste-os? Estão bem?

 

Mary Johnson hesitou. Algo tremeluziu no seu olhar. Sandy sentiu novamente um nó na garganta.

 

Não sei respondeu Mary. Há tantas crianças...

 

Tu não os viste.

 

Evacuámos a maioria das crianças da escola. Levámos algum tempo a agrupá-las por anos.

 

Oh, meu Deus, tu não viste os meus filhos.

 

Por favor, Sandy...

 

Há mortes? Diz-me. Há mortes?

 

Mary Johnson apertou a mão de Sandy com mais força. Sandy viu então tudo no olhar sombrio da vice-directora, a notícia que esta não queria dar, a tragédia com que todos se debateriam nos dias, nos meses, nos anos seguintes: haviam atingido e morto crianças.

 

O pesadelo era mesmo real.

 

Sandy não conseguia respirar nem pensar. Queria que o relógio voltasse seis horas atrás, para quando estava em casa, a pôr Cheerios nas tigelas dos filhos antes de os beijar na cabeça. Queria que o relógio recuasse dez horas em relação àquele momento, quando aconchegava as suas formas suaves na cama e lhes lia histórias de pequenos feiticeiros e feitiços. Era essa que deveria ser a sua vida. Por amor de Deus, eram simples crianças! Simples crianças!

 

Um grito ecoou entre a multidão. Sandy e Mary viraram-se na direcção das portas da escola, no preciso momento em que Walt e Emery saíam a correr com uma maca.

 

Afastem-se, afastem-se, afastem-se! gritava Walt.

 

O agente de Cabot County pedia, aos berros, para a multidão desimpedir a rua. Havia um carro no caminho. Ninguém sabia a quem pertencia. O agente abriu a porta e destravou o carro. Dois homens jovens prontificaram-se, de imediato, a desviar o veículo do caminho. As pessoas exultaram com a pequena vitória. Walt tinha já a ambulância pronta a arrancar.

 

Sandy viu, entretanto, Chuckie a correr no parque de estacionamento com uma rapariguita de cabelos muitos louros apertada nos braços.

 

Becky!

 

E, antes que Mary Johnson a conseguisse deter, Sandy desatou a correr pelo parque de estacionamento fora e abriu os braços, no preciso momento em que Becky a viu e gritou:

 

Mamã!

 

A pequenita passou então para os braços de Sandy, que a apertou contra si, aspirando o doce odor do champô de maçã. Enquanto estreitava a filha nos braços, esta agarrava-se como uma lapa ao pescoço.

 

Minha querida, minha querida, minha querida!

 

Mamã, mamã, mamã!

 

Minha querida!

 

Sandy, com os olhos alagados de lágrimas, fitou Chuckie, que se encontrava seminu e sujo de sangue.

 

- O Danny? perguntou com voz rouca.

 

Não sei.

 

O Shep?

 

Lamento.

 

Sandy deixou-se cair de joelhos. Tinha um dos filhos consigo, um filho que estava a salvo. Mas não era o suficiente. Um mau presságio estava a tomar novamente conta de si. Sentiu algo gélido e sombrio percorrer-Ihe as veias. Levantou a cabeça, com ar suplicante, para o céu.

 

Onde está o meu filho? Oh, meu Deus, onde está o Dannyí

 

Sozinha no edifício da escola, as mãos húmidas, Rainie empunhava o Glock de calibre quarenta. A respiração era arquejante. Sentia o coração a bater freneticamente no peito. Ao encaminhar-se para o fundo da ala esquerda da escola a que ficava mais afastada dos corpos esforçava-se o melhor que podia por ignorar as sensações que a assaltavam e preparava-se para conduzir uma busca metódica pelas salas de aula, que, já tinha a certeza, não se encontravam vazias.

 

Fixou então a sua atenção nas memórias esbatidas das aulas dos cursos de polícia que tirara anos antes. Surgiam-lhe como uma espécie de acrónimos. ACESSOS... AGILIDADE... ADAPTAÇÃO. Era ÍSSO. ADAPT.

 

A: Apanhar o criminoso, se ainda se encontrar no local do crime.

 

(Estaria o criminoso ainda no local do crime? Os relatos de um homem vestido de preto. Todas as portas fechadas. Deter e identificar as testemunhas e os suspeitos.

 

(A multidão de estudantes que já havia saído a correr do edifício. Bradley Brown ainda a lutar pela vida. Testemunhas, talvez, mas agora as responsabilidades das outras pessoas.)

 

A: Avaliar o local do crime.

 

(Os corredores limpos e a secretaria principal intacta. Os cacifos ameigados, os invólucros vazios no chão. ”Não menospreze o óbvio”, era o que diziam nas aulas. O que era óbvio num tiroteio numa escola? Os mortos no chão? Proteger o local do crime.

 

(Rainie estremeceu. Os voluntários do Serviço de Emergência Médica, a porta arrombada do gabinete, os invólucros espalhados pelo chão que Cunningham pontapeara. Os pais que haviam tomado conta do parque de estacionamento. A Brigada de Investigação não tardaria e a sua carreira na polícia estava acabada. Tirar notas de tudo.

 

(Rainie olhou para a arma. Pensou no bloco de apontamentos que tinha no bolso do peito. Perguntou a si própria como conseguiria pegar nele e na arma ao mesmo tempo.)

 

Por agora, não iria preocupar-se em tirar notas. Tinha de se centrar no primeiro passo: prender o criminoso, se possível. Só Deus sabia por que razão fazia as coisas de forma desordenada. Pelo menos, estava a fazê-las e da melhor maneira possível.

 

O seu espírito não parava. Procurava um suspeito num local particularmente amplo e complexo. Tinha uma vaga lembrança de um professor a explicar como trabalhar em rede numa situação daquelas. Começar num ponto e depois ir, como que em espiral, expandindo lentamente a zona pesquisada. Não conseguia lembrar-se de muito mais coisas para além da teoria e resolveu que teria de abordar aquele local do crime como uma faixa horizontal. Teria de trabalhar da esquerda para a direita. Com calma e pronta para o que desse e viesse.

 

Encostou-se à parede, comprimiu o queixo contra o peito para se tornar um alvo mais pequeno e avançou de arma em punho.

 

Mantém a calma e o profissionalismo. Faz o teu trabalho.

 

A primeira sala foi a mais difícil. A metade superior da porta fechada era de vidro, mas encontrava-se decorada com tantos desenhos de coelhinhos e tulipas que Rainie não conseguia ver o interior. As luzes estavam apagadas, tal como acontecia no resto da escola.

 

Rodou lentamente a maçaneta da porta com a mão esquerda. Inclinada para a frente, abriu-a com um empurrão. Sombras, compridas e cinzentas, ao fundo da sala. A luz do Sol, resplandecente, à frente. Transpôs a soleira da porta, rebolando sobre si mesma, de Clock em riste. Direita. Esquerda. À frente. Atrás. Nada.

 

Pôs-se finalmente de pé na sala vazia. Acendeu as luzes e escancarou a porta para manter o espaço bem controlado. Preparou-se então para a sala seguinte.

 

Vasculhou todos os cantos ao longo do corredor. No local onde este se cruzava com outro, o chão encontrava-se coberto de gazes ensanguentadas e as amolgadelas nos cacifos azuis eram maiores. Viam-se salpicos de sangue por todo o lado. Uma amolgadela enorme num cacifo inferior, onde um corpo devia ter embatido com extrema violência. Invólucros de projécteis espalhados pelo chão de azulejos brancos, como se alguém tivesse atirado uma mão-cheia deles pelo corredor fora.

 

Imaginava o que acontecera. Os estampidos dos tiros de arma de fogo, seguidos dos gritos dos alunos. Raparigas e rapazes de tenra idade a saírem em massa das salas de aula, quando o alarme de incêndio soou; os professores a pedirem-lhes, em voz trémula, para manterem a calma. O caos de corpos a correr desenfreadamente em direcção às saídas do edifício, aos encontrões, às cotoveladas, aos tropeções, a cair pelo chão. Sempre nos corredores.

 

Respirou fundo, tentando controlar a tensão.

 

Sê profissional, Rainie. Faz o teu trabalho.

 

Passou a pente fino a sala do quinto ano, depois a do sexto. A seguir, a biblioteca, um espaço amplo com intermináveis fiadas de livros. Nada.

 

Finalmente, chegou ao fundo do corredor, onde estilhaços de vidro das portas arrombadas juncavam o chão e onde jaziam três corpos imóveis.

 

Não quis olhar para as vítimas, mais a mais tratando-se de crianças. Sabia que a visão a magoaria, lhe deixaria cicatrizes profundas, onde mesmo os duros como ela eram vulneráveis. Também sabia que isso lhe atrairia à memória imagens de outros tempos, depois do esforço que fizera ao longo dos anos para esquecer essas cenas.

 

Mas não conseguiu resistir à tentação. Havia necessidades que não tinham nada a ver consigo própria. Estavam em relação estrita com os direitos das vítimas e a ansiedade dos pais que se encontravam no exterior, embora soubesse que, dali em diante, nada do que se fizesse por três casais de pais seria suficiente.

 

A primeira vítima, uma rapariguita, jazia a seu lado. Tomou-lhe o pulso, embora Walt já a tivesse avisado do estado da miúda e o sangue tingisse toda a parte da frente da blusa. Engoliu em seco e afastou-se, tentando não perturbar a cena.

 

A segunda vítima também era do sexo feminino. Deveria ter uns oito anos. Recebera igualmente múltiplos ferimentos de balas no peito. Jazia à frente da primeira vítima. Os braços estendidos, uma para a outra, os dedos quase a tocarem-se. Teriam vindo pelo corredor de mãos dadas? Duas grandes amigas às risadinhas uma com a outra? Tinha vontade de lhes afagar os cabelos, de lhes sussurrar que estava tudo bem.

 

A visão enevoou-se, as lágrimas inundaram-lhe o olhar. Não conseguiu evitar.

 

Sê profissional! Vai em frente!

 

Tomou nota do posicionamento das vítimas. Avançou para a terceira.

 

À porta da Sala de Informática, jazia esta, também do sexo feminino, que aparentava ser professora. Três vítimas femininas coincidência ou plano? Tinha longos cabelos escuros e feições exóticas. Também era jovem e a pele acetinada dava-lhe o ar de quem dormia. Reparou então no pequeno buraco de bala que exibia na testa.

 

Arma de pequeno calibre, pensou. Provavelmente de calibre vinte e dois. A professora não deveria ser mais velha do que ela. Vinte e muitos, trinta e poucos anos. Não tinha aliança, mas suficientemente bonita para se imaginar um homem, nessa noite, a segurar a fotografia com mãos trémulas, a tentar esquecer o futuro que nunca chegaria.

 

Teve de respirar fundo de novo. Só mais três portas. Tudo perto do epicentro da violência. Tudo escuro e à espera. Devia prosseguir.

 

Encostou-se à parede e acocorou-se até as mãos pararem de tremer.

 

Só a professora tinha a cabeça ferida, pensou. Um tiro certeiro, desferido com grande precisão. As duas raparigas exibiam uma multitude de ferimentos, em cima, em baixo, à esquerda, à direita, como se tivessem sido apanhadas por uma tempestade de fogo. Mas a professora... a professora era diferente. Talvez o alvo desejado? O atirador atingira-a primeiro e depois encontrara as duas garotas a passarem no corredor?

 

Ou talvez começasse com elas no corredor e, ao ouvir o barulho, a professora da Sala de Informática abrisse a porta. Encontrara-se mesmo em frente do assassino. Ele tivera de ganhar coragem para desferir o tiro? Achara que não seria muito diferente de um jogo de vídeo? Perguntar-se-ia para quê balas perdidas se podia resolver a situação com um simples tiro?

 

Qualquer uma das hipóteses intrigava-a. Havia algo de estranho no facto de as raparigas exibirem tantos ferimentos e a vítima adulta apenas um. Mas agora não tinha tempo para pensar nisso.

 

De súbito, ouviu um ruído: a leve chiadeira de uma cadeira de metal a ser arrastada.

 

Precipitou-se para a entrada. Atirou-se contra a parede adjacente à Porta da sala de aula, no preciso momento em que a maçaneta de metal rodava e a porta se abria lentamente.

 

Não faças isso! proferiu um homem. Ainda podemos resolver tudo. Juro-te, filho, não há nada do que aconteceu hoje que não possamos resolver.

 

Shep O’Grady surgiu então na ombreira da porta, a farda castanho-amarelada retesada, cingida ao corpo robusto. O cabelo cortado à escovinha, suado, brilhava, enquanto as feições de buldogue exibiam uma palidez pouco natural. Do ponto onde se encontrava, Rainie conseguiu ver que ele fora capaz de desapertar o coldre, mas não tivera tempo de sacar da arma. Agora tinha os braços esticados para a frente em gesto de submissão. Esforçava-se, a todo o custo, por fazer vingar os seus argumentos.

 

Estou certo de que tudo isto não passa de um grande erro. Um mal-entendido. Estas coisas acontecem. Agora temos de trabalhar em conjunto, esclarecer as coisas. Sabes que não há nada que eu não fizesse por ti.

 

Shep deu novo passo atrás, as mãos ainda levantadas, o olhar fixo à sua frente. Retirada forçada? Rainie não sabia. Olhou então para uns quatro metros e meio atrás de Shep, onde jaziam os três corpos. Este estava a ser conduzido para a cena da carnificina, deduziu Rainie. E quando lá chegasse...

 

Era surpreendente a firmeza que sentia nas mãos e a calma que tomara conta de si. Disparar era algo que fizera toda a vida. Nunca no desempenho do dever, mas Shep era seu chefe e amigo. Tinham uma história em comum de que poucos se poderiam vangloriar. Afinal de contas, tudo. isso era natural. Um último pensamento: convicção no disparo, pois a hesitação era a assassina número um dos agentes policiais. Rodopiou sobre si mesma e, simultaneamente, deu um empurrão em Shep, desviando-o para o lado. De arma em punho, as pernas flectidas, ] encostou o dedo ao gatilho, ao mesmo tempo que Shep gritava: Não!

 

E Rainie deu consigo cara a cara com Danny O’Grady, de treze anos, branco como a cal e com duas armas em punho. Terça-feira, 15 de Maio, 14.43

 

Abe Sanders, detective da Brigada de Homicídios do Oregon, acabara de se sentar para saborear um almoço tardio, uma enorme baguete com dose dupla de pepperoni e queijo. A mulher dar-lhe-ia um valente raspanete se o visse, chamando-lhe a atenção para o facto de pôr a saúde em risco e de a estar a transformar numa potencial viúva de uma vítima do colesterol. Ele dava-lhe razão a maior parte do tempo e, com a idade madura de quarenta e dois anos, tinha uma cintura elegante para provar isso mesmo. Mas hoje não. Hoje era apenas um daqueles dias especiais.

 

Margaret Collins, uma loura atraente que tinha a seu cargo os telefones do departamento, passou pela secretária de Abe e ficou espantada com o que viu.

 

Uau, Abe! Da próxima vez estarás a beber cerveja.

 

Não tinham peru murmurou e, inconscientemente, puxou a baguete para mais perto de si, como se receasse que alguém lha roubasse.

 

O caso Hathaway azedou, não foi? deduziu Margaret em tom filosofal. Era uma verdadeira aficionada da criminologia e, muitas vezes, tinha melhor instinto do que qualquer um dos detectives.

 

Maldito juiz! exclamou Abe, e deu uma enorme dentada na sanduíche.

 

Dentro de uma gaveta não é à vista.

 

O detective mastigou, decidido, evitando falar com a boca cheia, por uma questão de educação. Depois de engolir, declarou:

 

A gaveta já estava aberta.

 

Por outro tipo da Brigada de Homicídios.

 

Raios o partam disse Abe, e mordiscou o queijo. Margaret riu-se. Piscou-lhe o olho, fazendo com que ele se esquecesse

 

momentaneamente da mulher; depois, afastou-se devagar, deixando-o sozinho com o banquete. Abe mastigou outra dentada, mas o coração não estava virado para ali. Um pingo de mostarda castanha caíra sobre o tampo da secretária. Abanou a cabeça e pousou a sanduíche em cima de um guardanapo.

 

A verdade era que mandava vir sempre comida com elevados índices calóricos quando os casos começavam a correr mal, e raramente levava a refeição até ao fim. Fantasiava acerca do que gostaria de mandar vir, salivava enquanto falava ao telefone e encomendava a maior quantidade possível. Depois punha a comida de lado quando começava a pensar nas calorias, no índice de gordura, no nível de colesterol. O espírito decadentista não fazia parte dele. Tinha um extremo controlo sobre si próprio, mesmo quando confrontado com uma baguete a abarrotar ou um prato cheio de crepes com dose dupla de chocolate. Chegara a fechar uma caixa de gelado de chocolate Ben ó” Jerry, depois de apenas uma dentada.

 

Em novo, fora o ”Escuteiro do Ano” com todas as medalhas de mérito, o estudante com melhores notas e a estrela da pista de corridas com tempo mais rápido. Lera os clássicos ”pelo simples prazer de os ler”. Arranjara a rapariga que seria o sonho de qualquer homem. E comprara uma casa com quatro quartos, numa zona antiga, mas de ”bom tom”, de Portland, com um relvado impecavelmente tratado.

 

O choque para a família acabou por vir com a sua entrada para a polícia.

 

Os pais disseram, em tom de brincadeira, que o filho certinho resolvera erradicar o Mal da face da Terra. Os dois irmãos, um mais velho, o outro mais novo, acusaram-no de ter desenvolvido um exagerado complexo de herói. Os comparsas do xadrez informaram-no, em tom fúnebre, que toda a comunidade contabilística chorara o dia em que ele partira para a Academia de Polícia, e que as folhas de cálculo não voltariam a ser as mesmas.

 

O próprio Abe nunca falou efectivamente do motivo que o levara a tornar-se agente policial. Talvez percebesse melhor que muitos que a vida estava um caos, mesmo para aqueles que exerciam um extremo controlo sobre si próprios. Havia a esposa, que ele amava, adorava, e que, ao fim de cinco anos de tentativas, veio a descobrir que nunca poderia ter filhos. Possuíam aquela casa bem arranjadinha, escolhida como lar no início dos anos oitenta, para acabarem por ter como vizinhança praticantes de sexo em grupo e toxicodependentes ao fundo do quarteirão. Havia a descoberta, precisa e compulsiva, do próprio Abe, de que o caminho planeado como director financeiro de uma empresa não conseguiria prender a sua atenção.

 

Queria ter a sensação de realização, de mudança. Enfim, talvez quisesse apenas fazer do mundo um sítio tão organizado como os ficheiros do seu computador.

 

Afinal de contas, nada disso importava. O detective Sanders era um agente excepcional.

 

Os outros detectives fizeram-lhe a vida negra. Olhavam para as suas mãos cuidadosamente arranjadas, contavam piadas acerca dos sapatos clássicos, sempre engraxados. Tentavam dar com ele em doido substituindo a agrafador preto, caríssimo e comprado por ele próprio, por um cinzento da administração pública, que passava a vida a encravar. Chegaram ao ponto de cruzar os pneus do carro para ver se ele dava por isso (e deu).

 

Acabaram todos por trabalhar com ele.

 

Abe Sanders, com qualquer caso que lhe surgisse, era um homem obcecado. Abe Sanders funcionava com paixão, energia e, por razões que nem sequer conseguia explicar, raiva. Raiva pura em relação às injustiças da vida e aos idiotas merdosos que eliminavam vidas boas, honestas e laboriosas.

 

Talvez os outros detectives não entendessem o valor de um bom agrafador, mas todos os polícias conheciam a raiva. Era um denominador comum de que jamais alguém falava, mas toda a gente percebia.

 

Abe voltou a embrulhar a sanduíche, colocando-a no meio do papel em forma de triângulo, dobrado nas pontas, enrolando-a firmemente. Limpou a mostarda em cima do tampo da secretária com um guardanapo húmido. Depois, deitou tudo fora.

 

O caso Hathaway deixara-o indignado. Não que a culpa fosse realmente do juiz. O mandado de busca passado por Snickers era demasiado vago, por isso os agentes tiveram de improvisar. Isso nunca dava resultado. Os advogados é que mandavam no mundo, e os polícias inteligentes tinham de aprender a ler nas entrelinhas. Era assim que as coisas funcionavam.

 

Os dedos de uma mão chegavam para contar os mandados e as detenções com que Abe tivera problemas. Ser meticuloso apresentava as suas vantagens.

 

Levantou-se para ir lavar as mãos. O tenente que trabalhava com ele deitou a cabeça de fora do gabinete.

 

Sanders? Preciso de ter uma palavrinha contigo.

 

Abe entrou, curioso. Sentou-se na beira da cadeira de plástico. Pouco depois, ouvia falar de uma pequena cidade chamada Bakersville, a sudoeste de Portland, a duas horas de viagem, que nem sequer tinha a sua própria brigada de homicídios. Em silêncio e com ar perplexo, escutava o tenente a descrever aquilo que imaginavam ser a segunda cena de tiros numa escola, no Oregon, em poucos anos. Havia já notícia de vítimas. A Brigada de Investigação encontrava-se a caminho, a polícia do distrito também, assim como a polícia do estado. Ainda não havia qualquer informação sobre o atirador e, coisa estranha, ninguém conseguia localizar o xerife.

 

A chamada veio do governador informou o tenente. Este caso é extremamente complexo e já está fora de controlo. O manda-chuva quer um homem frontal, alguém com experiência, sólida competência orgamzativa e capacidade de coordenar os recursos citadinos estatais e, sobretudo, os federais.

 

Estou a compreender.

 

O tenente olhou para o fato cinzento de fino corte e para o corpo forte e elegante de Abe.

 

Alguém com boa aparência para a comunicação social.

 

Abe esboçou um sorriso voraz. Gostava da imprensa. Sabia a quantidade de informação que lhes podia fornecer, e depois devorava-os vivos. Dava-lhe um gozo tremendo.

 

Estou a compreender perfeitamente disse com mais entusiasmo.

 

Terias de andar por lá algum tempo. Talvez duas a três semanas no início, depois várias viagens de ida e volta.

 

Não há problema. E não havia. Sara quase não dera pela sua presença nos últimos dias. Abe acabara por ceder às súplicas dela e arranjara-lhe um cachorrinho de dez semanas. Agora passava o tempo a afagar o cachorro, a alimentá-lo e a dar-lhe palmadinhas debaixo do queixo. Um dia, quando chegasse a casa, ainda iria encontrar o cachorro vestido com roupas de criança e um boné na cabeça. Provavelmente aquela fraca figura” também ainda viria a sorrir e a ir buscar coisas com a boca; até ao momento, o pequeno bicho parecia ser de temperamento calmo.

 

Por vezes, Abe dava consigo a afagar o animal. O pêlo do rafeirote era muito agradável ao tacto. Não que tivesse vontade de se aproximar de uma criatura que não tinha qualquer controlo sobre a bexiga.

 

Então, ficas com o caso concluiu o tenente. Põe mãos a obra quanto antes. Mais uma coisa, Sanders... a

 

Abe parou na ombreira da porta. O pessoal do Serviço de Emergência Médica referiu haver pelo menos duas crianças mortas. Vai ser um caso complicado para todo”

O atirador é um miúdo? Ainda não há qualquer informação sobre o atirador. B

Mas na maior parte das vezes são miúdos. i

Presumimos que seja esse o caso. Age com firmeza. E rapidez. Será melhor para todos.

Abe percebia o que ele queria dizer. Quando havia miúdos feridos, as pessoas ficavam um pouco fora de si. As vezes, até acontecia o mesmo com os polícias.

Sanders requisitou um carro. Telefonou a marcar um quarto de hotel, como sempre fazia, recolheu a pouca informação que o departamento tinha sobre o local do crime e pôs-se a caminho.

Um xerife de baixa categoria e dois polícias sem experiência neste tipo de situações murmurou Abe para os seus botões, a caminho de casa, para fazer as malas. Miúdos a matar miúdos, e nem sequer uma brigada de homicídios para tratar de toda esta barafunda. Vou meter-me em boa. Esses incompetentes já devem estar todos borrados.

Rainie aliviou um pouco a pressão no gatilho antes que o premisse. Danny! exclamou com voz entrecortada. O miúdo manteve-se imóvel, com ar de traumatizado de guerra. O braço direito ligeiramente flectido, apontando, com mão firme, a pistola de calibre vinte e dois para os joelhos de Rainie. Na mão esquerda, empunhava uma outra, de calibre trinta e oito, baixa, junto ao corpo; por instantes, Rainie ficou sem saber para onde olhar.

 

Manteve a arma apontada para o miúdo. Shep deu um passo na direcção dela.

 

Pára! gritou ela, para nenhum dos dois em especial. Shep continuava armado e, embora confiasse nele como amigo, não podia contar com as suas acções enquanto pai. Se ele pensasse que Danny estava ameaçado ou se Danny se sentisse ameaçado...

 

Rainie apercebeu-se de que a situação começava a ficar fora de controlo. No meio do pânico que se apoderara dela, decidiu tomar as rédeas.

 

Tu disse para Shep, sem desviar os olhos de Danny. Estás bem?

É um equívoco afirmou, desesperado. Tudo isto não passa de um grande equívoco.

Está bem, Shep, mas até este equívoco estar esclarecido, mantém as mãos onde eu as possa ver bem.

Rainie...

 

Danny, quero que ouças aquilo que te vou dizer. Tens de pousar as armas, está bem? Quero que te desloques devagarinho e que pouses as armas no chão.

Danny não fez o menor gesto. Olhava furiosamente de um lado para o outro, e Rainie quase conseguia sentir o cheiro do pânico que emanava da pele do rapaz. Este envergava umas calças de ganga pretas, uma T-shirt preta e ténis de corrida brancos. Rainie não lhe vislumbrava mais nenhuma arma, mas não tinha a certeza. Danny provinha de uma casa a abarrotar de armas de fogo e, segundo sabia, Shep levava-o a caçar mal ele começara a andar.

Danny insistiu ela numa voz mais autoritária. Vou contar até três e depois vais pousar as armas no chão.

Rainie...

Cala-te, Shep. Danny, estás a ouvir-me?

 

Ele não fez nada!

Cala-te, porra, ou também te estendo no chão!

Shep calou-se, mas já era demasiado tarde. Danny tomara um ar ainda mais furioso e a mão direita começara a tremer. Rainie mudou de posição para um melhor equilíbrio. Voltou a encostar o dedo ao gatilho, por via das dúvidas.

Danny disse, num tom mais elevado. Danny, estás a ouvir-me?

O rapaz voltou ligeiramente a cabeça na direcção dela.

E uma grande pressão, não é, Danny?

Fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabeça, ambas as mãos a tremer. Julgo que gostarias que isto chegasse ao fim, Danny. Sei que desejarias que isto acabasse. Por isso, vou dizer-te o que vamos fazer. Vou contar até três. Vais pousar lentamente as armas no chão. Depois, quando eu te disser, dás-lhes um chute em direcção aos meus pés. Em seguida, deitas-te no chão, com as mãos e os pés afastados. Só isso. Tudo acabará, Danny. Tudo acabará em bem.

 

Danny não articulou qualquer palavra. O olhar trémulo fixou-se no local onde jaziam as duas rapariguitas, com os braços extendidos na direcção uma da outra. Pareceu dar também pela presença da professora, e um profundo tremor percorreu-lhe o corpo magro.

 

Santo Deus! Ele estava mesmo decidido a dar um tiro em si próprio ou a deixar-se atingir por um tiro da polícia. Rainie não sabia qual das duas opções ele escolheria, mas o fim seria sempre o mesmo. Corpos mortos. Miúdos mortos. Por amor de Deus, não!

 

Danny! gritou Rainie, desesperada. Demasiado tarde. Danny ergueu a mão direita.

 

Não! suplicou Shep, desvairado.

 

Não faças isso, Danny! Rainie não tinha escolha, o dedo encostado ao gatilho.

 

Danny voltou então a arma na direcção da cabeça.

 

Por amor de Deus! Shep precipitou-se para o filho. Rainie levantou a arma e desferiu um tiro para o tecto, enquanto Shep se atirava sobre o filho, caindo ambos violentamente no chão. As armas de Danny desapareceram, ficando presas entre os dois corpos. Então, uma saltou de entre ambos. Rainie pontapeou-a para longe, enquanto Shep agarrava a mão direita de Danny e tentava arrancar-lhe a outra. O filho gritava. Quando, finalmente, lha conseguiu tirar, atirou-a para o fundo do corredor.

 

Num ápice, tudo acabara. Danny ficou prostrado no chão, a luta esgotara-o. Shep sentou-se. O corpulento xerife arquejava e as lágrimas rolavam-lhe pelas faces.

 

Por amor de Deus, Danny... repetiu Shep, com voz entrecortada. Um pouco tarde de mais, tentou puxar o filho para os seus braços.

 

Danny afastou-o.

 

Shep deixou cair a cabeça para a frente. Os ombros fortes continuavam a tremer.

 

Calmamente, Rainie tomou conta da situação. Virou Danny de barriga para baixo, deixando-o a uns dois metros e meio do local onde se encontravam três corpos que nunca mais se mexeriam. Afastou-lhe os braços e as pernas para o lado e revistou-o. Não encontrando mais armas, puxou-lhe os braços para trás das costas e algemou-lhe os pulsos.

 

Daniel Grady disse Rainie, enquanto o punha de joelhos, estás preso. Tens o direito de te manteres em silêncio. Qualquer coisa que digas pode ser usada contra ti em tribunal...

 

Não abras a boca! ordenou Shep bruscamente. Ouviste” filho? Não abras a boca! Cala-te, Shep! Não podes obrigar o teu filho a ficar calado, e sabe; isso. Percebeste bem os direitos que te acabei de enunciar, Danny? Percjl bes que estás preso por aquilo que fizeste aqui na escola?

 

Não abras a boca, Danny! Não abras a boca!

 

Shep! gritou-lhe Rainie, em tom de aviso, mas de nada serviu Danny O Grady nem sequer olhou para o pai. Manteve-se imóvel, de ombros caídos, a Tskirt preta da Nike demasiado grande para ele, o ar abatido.

 

Sim, senhora disse por fim.

 

Foste tu que fizeste isto, Danny? A voz assumiu um tom brando. Ramie ouviu a sua própria confusão, a sua própria necessidade de escutar a confirmação dos factos. Conhecia o miúdo praticamente desde que nascera. Um miúdo porreiro. Costumava andar com o seu distintivo de delegada. Miúdo porreiro. E, num tom mais firme: Foste tu que disparaste sobre estas pessoas, Daniel? Foste tu que fizeste mal a estas rapariguinhas? E ele respondeu, numa voz sumida:

 

Sim, senhora. Creio que sim.

 

Terça-feira, 15 de Maio, 15.13

 

Rainie e Shep mantiveram-se em silêncio, tentando entender aquilo que haviam acabado de ouvir. Shep não pôs em causa a declaração de Danny, não tentou dizer que se tratava de um mal-entendido, não tentou recordar a Rainie que o filho não passava de uma criança. Parecia conformado.

 

A própria Rainie não sabia que mais dizer. Era polícia; acabara de ouvir uma confissão brutal. O seu dever era claro.

 

Conduziu o seu suspeito de assassínio algemado até à entrada principal da escola, onde uma dúzia de flashes rebentou de imediato no seu rosto. Os órgãos de comunicação social já lá se encontravam. Merda!

 

Recuou furiosamente, tentando proteger Danny do brilho intenso dos flashes e do frenesi das perguntas feitas aos berros. Danny olhava-a, algo aturdido, obedecendo-lhe com ar humilde. Preferiria que ele não a olhasse daquela maneira.

 

Não podes ser visto a sair connosco disse Rainie a Shep, um minuto depois, os três comprimidos contra as paredes da entrada, como se fossem fugitivos.

 

Não vou deixá-lo sozinho contigo.

 

Não tens palavra nessa matéria. Posso interrogá-lo sem a tua presença e posso assegurar-te de que o meto na cadeia sem ti, e sabes bem que sim.

 

Shep ouviu tudo isto com um franzir de sobrolho. Alei do Oregon não dava especial importância a suspeitos de assassínios juvenis. Desde que Danny tivesse pelo menos doze anos de idade, podia ser responsabilizado criminalmente pelos seus actos e ficaria sob a alçada da jurisdição comum. Os seus direitos seriam os mesmos de qualquer pessoa detida e os pais não teriam qualquer palavra a dizer sobre coisa nenhuma. O melhor que Shep e Sandy podiam fazer era contratar um bom advogado para o filho. E tinham sorte de ele não ter quinze anos, o que faria com que ficasse ao abrigo da chamada ”Medida II” e fosse julgado como adulto.

40E também tinham sorte pelo facto de o estado do Oregon não ter leis de controlo de posse de armas, que responsabilizariam criminalmente Shep ou Sandy por facilitarem o acesso a armas de fogo por parte de Danny.

 

O que queres fazer? indagou Shep.

 

Tira a camisa.

 

Shep olhou para o filho, seguindo o fio de raciocínio de Rainie, e desabotoou o botão da farda de xerife. Por baixo, surgiu uma T-shirt branca, puída nalguns sítios, e que Sandy punha a branquear todos os domingos, quando lavava a roupa. A visão de Shep apenas com a T-shirt vestida deu-lhe um ar mais humano e fez com que Rainie se sentisse um pouco mais constrangida. Era uma situação embaraçosa.

 

Shep cobriu cuidadosamente a cabeça do filho com a camisa, como se o miúdo fosse feito de cristal e tivesse medo de o partir.

 

Vai tudo correr bem murmurou. Olhou novamente para Rainie, com ar humilhado, e esperou que esta lhe desse a instrução seguinte.

 

Vai procurar o Luke indicou ela, a voz trémula. Fez um gesto com a cabeça na direcção da porta este. Ele que traga o carro-patrulha para a zona lateral do edifício.

 

Eu quero acompanhar o Danny.

 

Não. O Luke vai procurar um tipo da polícia estatal, alguém que não conheçamos, e é ele que te vai interrogar. Não me olhes assim, Shep. Sabes que é isso que tem de ser feito. Tu e o Danny estiveram sozinhos. Ele é teu filho... Temos de saber o que é que ele te disse. O que ele fez. Por que razão entraste no local do crime e... esboçou um ligeiro sorriso. E por que razão designaste o teu adjunto para se dirigir para o local quando recebeste a chamada?

 

Rainie olhou para Shep e, pela primeira vez, viu-o corar.

 

Nunca pensaste que eu tivesse tomado conta da ocorrência, pois não? Ou estavas à espera que eu não desse importância ao que se estava a passar?

 

Shep não articulou qualquer palavra.

 

Já sabias, Shep? Quando ouviste as notícias já sabias?

 

Não foi bem assim.

 

Não acredito em ti e sou tua amiga, porra!

 

Rainie começava a ficar farta. Ela é que era a adjunta. Tinha horas de trabalho à sua frente a interrogar um miúdo de treze anos, a analisar-lhe as mãos em busca de pólvora, a tentar saber qual o motivo que o levara a armar a cena de tiros na escola. Depois, voltaria para o local do crime, percorrê-lo-ia repetidas vezes de modo a tentar perceber o que levaria alguém a efectuar um assassínio em massa como aquele. Por fim, pior que tudo na manhã seguinte, muito provavelmente, ou à noite, na melhor das hipóteses, iria assistir às autópsias de duas rapariguitas que haviam morrido de mãos dadas. Teria de escutar o inventário de traumatismos que os seus corpos haviam sofrido. E imaginar, uma vez mais, como terá sido os seus últimos momentos. Em seguida, seria obrigada a 41 contemplar o outro miúdo, aquele que conhecia pessoalmente e por quem sentia orgulho, e que fizera aquilo às pequenitas.

 

Desaparece! disse a Shep. Vai à procura do Luke e vejam se controlam todo este espectáculo.

 

Primeiro, preciso de encontrar a Sandy ripostou Shep, algo renitente. Temos um amigo... um advogado. Ela pode dar-lhe uma telefonadela.

 

Desaparece!

 

Shep cedeu finalmente. Lançou um último olhar ao filho, como que querendo dizer-lhe algo mais, mas não conseguiu articular qualquer palavra.

 

O xerife voltou-se e saiu pela porta principal. Os flashes dispararam. A multidão agitou-se perante aquele sinal de actividade. Rainie ouviu então um novo ruído: o dos helicópteros a baixar. Os helicópteros para a evacuação dos feridos haviam chegado finalmente.

 

E Rainie não conseguiu deixar de pensar que só muito mais tarde a equipa de medicina legal viria resgatar os corpos.

 

O agente Luke Hayes tinha trinta e seis anos de idade, era calvo e mais baixo do que muitas mulheres. No entanto, a sua boa constituição física, de uns robustos setenta quilos, fazia virar muitas cabeças femininas e era de grande utilidade numa rixa. Na opinião de Rainie, todavia, o maior trunfo de Luke eram os inflexíveis olhos azuis. Já o vira a olhar fixamente para bêbedos com o dobro do seu tamanho. Também já o vira a hipnotizar donas de casa enfurecidas, fazendo-as baixar as suas facas favoritas... Certa vez, chegou a vê-lo reduzir um doberman a uma massa rastejante e servil, com um simples olhar implacável.

 

Shep era um espalha-brasas. Rainie era uma pessoa irrequieta e caprichosa. Luke equilibrava o minúsculo departamento com a sua presença calma e o sorriso caloroso.

 

Rainie nunca o vira com ar destroçado. Até àquele dia.

 

Conduzindo Danny até à saída lateral este a que ficava do lado oposto à zona onde ocorrera a cena de tiros, Rainie encontrou Luke à porta. Tinha a cabeça coberta de suor, e a farda também já estava ensopada. Nos últimos cinquenta minutos, estivera a tentar evitar que mães em pânico entrassem espavoridas no edifício da escola, ao mesmo tempo que ia recolhendo nomes e depoimentos de testemunhas. A tensão era visível no seu rosto.

 

Estás bem? perguntou Rainie de imediato.

 

Na medida do possível.

 

Lançou um olhar trémulo a Danny e deixou descair os fortes ombros. Rainie percebia os seus pensamentos. Luke e Rainie a brincar com Danny quando este tinha cinco anos, no gabinete do xerife, enquanto Shep tratava de outros assuntos. Vamos brincar aos polícias e ladrões. Rá-tá-tá-tá! Ou talvez aos cowboys e índios. Bangue-bangue-bangue.

 

”Sabes por que razão as grandes cidades têm tantos problemas, Rainie? Porque não sabem fazer uma coisa destas. Não sabem trazer os seus miúdos até ao gabinete do xerife. Não têm ninguém que os ajude. Não é de admirar que Bakersville seja uma cidade tão pacata. Andamos tão ocupados a cuidar dos nossos miúdos que não temos tempo para chatices.”

 

Precisamos de sair daqui disse Rainie, num sussurro.

 

Luke soltou um suspiro, acenou ligeiramente com a cabeça e endireitou os ombros. Estava pronto.

 

Tomou posição do lado direito da forma arqueada de Danny. Meteu a mão por baixo do braço do rapaz. Rainie fez o mesmo do lado esquerdo. Depois de contarem até três, e com Danny entalado entre os dois, dirigiram-se pelo estreito caminho que se abriu entre a multidão até ao carro-patrulha que os aguardava.

 

Comparados com a relativa calma dentro da escola, os sons e as sensações do pátio exterior atingiram Rainie com a força de um soco no estômago. Os repórteres a fazerem perguntas aos berros, ao avistarem dois agentes policiais com uma pessoa com a cara tapada a saírem, com ar apressado, da escola. A gritaria do pessoal do Serviço de Emergência Médica a dar instruções, enquanto transportava mais um aluno ferido. O choro interminável das crianças nos braços dos pais. Uma mãe, sozinha, de joelhos, num lamento desesperado.

 

Rainie e Luke concentraram a atenção à sua frente, enquanto outros agentes se precipitavam na sua direcção para os ajudar.

 

Depressa, depressa, depressa gritava alguém. Rainie achou aquilo uma estupidez. Estavam a andar o mais depressa que podiam.

 

Afastem-se, afastem-se! Vá lá, pessoal, desviem-se!

 

Os repórteres amontoavam-se à sua frente, os fotógrafos lutavam que nem loucos pela fotografia de primeira página.

 

Rainie ouviu um novo grito e cometeu o erro de virar a cabeça. Shep encontrara a mulher. Esta apertava Becky contra o peito e estava virada para os dois agentes a correr.

 

Não! gritou Sandy. Deu um passo à frente, mas o marido deteve-a. Não, não, nãããooo!

 

Um som abafado saiu de debaixo da camisa. Danny ouvira a mãe e começara a chorar.

 

Por fim, chegaram ao carro-patrulha. Rainie enfiou apressadamente Danny no banco traseiro, a camisa ainda enrolada à volta da cabeça. Os repórteres acotovelavam-se, tentando a todo o custo entrar no carro, mas agentes obrigaram-nos a recuar.

 

Rainie sentou-se ao volante. Luke saltou para o assento ao lado. Ao fecharem as duas portas com estrondo, desligaram do caos exterior e ficaram com o suspeito de homicídio. A camisa de Shep escorregara da cabeça de Danny. Este não pareceu importar-se e também já era demasiado tarde para remediar o facto.

 

Luke ligou as sirenes. Rainie afastou o carro da berma do passeio.

 

Pouco depois, atingiram um muro de gente que entupia a rua. Rainie obrigou todas essas pessoas a afastarem-se com uma buzinadela, o que fizeram com alguma relutância, ficando com os pescoços esticados a espreitar o suspeito no banco traseiro do carro. Algumas tinham um ar perplexo e triste.

 

Outras exibiam já um ar sanguinário.

 

Porra! murmurou Luke.

 

Rainie olhou pelo espelho retrovisor para o jovem detido. Danny O’Grady, suspeito de homicídio de três pessoas, acabara de adormecer.
Terça-feira, 15 de Maio, ao cair da noite

 

Rainie trabalhou durante mais seis horas.

 

Ela e Luke instauraram formalmente o processo contra Daniel O’Grady por homicídio qualificado. Tiraram-lhe as impressões digitais e a fotografia. Analisaram-lhe as mãos em busca de resíduos de pólvora e fizeram-no vestir um fato-macaco cor de laranja de estabelecimento correccional, que era duas vezes o seu tamanho. Mais tarde, as roupas seriam analisadas no laboratório criminal do estado para comprovar a existência de resíduos de pólvora, cabelos, fibras, fluidos corporais, qualquer coisa que o ligasse ao crime.

 

Com a presença do delegado do Ministério Público de Cabot County, conduziram um interrogatório de dez minutos perante um advogado, Avery Johnson, que, friamente, não permitiu que fossem feitas mais perguntas.

 

Censurou-os por interrogarem uma criança, informou Rainie que, como era óbvio, o seu cliente não se encontrava em condições psicológicas estáveis e sugeriu que Danny fosse imediatamente transferido para um estabelecimento de menores do distrito, onde pudesse ser examinado por um médico e receber tratamento ao estado de choque em que se encontrava.

 

Durante toda esta troca de palavras, Danny manteve-se sentado e apático, parecendo estar a milhas do local onde chegara a brincar depois da escola.

 

Luke e o delegado Charles Rodriguez tomaram as providências necessárias para a viagem de quarenta e cinco minutos até ao estabelecimento prisional de menores. Rainie teve que voltar à escola onde a Brigada de Investigação chegara finalmente, e um detective ligado aos homicídios, Abe Sanders, dava ordens a toda a gente como se fosse dono do local.

 

Rainie e Avery Johnson trocaram uma última série de olhares furibundos. O advogado disse-lhe então que ela iria ter mais notícias suas, muito em breve. A agente retorquiu que estava ansiosa por esse momento. Ele acrescentou que tal situação não passava de uma paródia à justiça. Rainie limitou-se a lançar-lhe um olhar duro, porque sabia o que lhe iria dizer e não estava para aí virada.

 

Rainie despachou-o e, com Danny sob custódia de Luke, voltou para o local do crime.

 

Durante as cinco horas seguintes, Rainie e os especialistas da Brigada de Investigação passaram a pente fino todo o local. Passou em revista com eles o que sabia da intrusão do pessoal do Serviço de Emergência Médica no edifício, assim como as suas próprias actividades, o que deixara resíduos de pólvora e reboco do tecto na zona-chave. Os especialistas não acharam muita graça ao facto. Levaram o seu Clock de calibre quarenta para compararem os resíduos de pólvora encontrados nele com os encontrados no local. Rainie ajudou então a apanhar mais de cinquenta e cinco invólucros gastos provenientes de um tiroteio que deixara três mortos, seis feridos e uma cidade inteira destroçada.

 

Os agentes recuperaram quatro carregadores vazios da arma de calibre vinte e dois e três carregadores rápidos para a de trinta e oito. Nenhum deles gostou de encontrar os carregadores rápidos: eram uma ferramenta destinada a facilitar a vida dos agentes da polícia e lembrava-lhes que aquele crime batera à porta de alguém que lhes era próximo.

 

Às oito da noite, Rainie improvisou um brífingue no pátio. Apresentou-se como a agente que estava a tomar conta da situação e relatou a forma como capturara Danny O’Grady de tarde. Agradeceu aos vários agentes estatais e do distrito que haviam respondido à chamada e permanecido durante horas, mesmo depois de os seus turnos terem acabado, a dar assistência ao caso.

 

Então, o detective Sanders, o agente de ligação do estado, tomou a palavra, discutindo a teoria do crime, que estavam a desenvolver à medida que iam processando os dados recolhidos no local.

 

Tudo levava a crer tratar-se de um ataque estilo guerra-relâmpago, disse ele, ocorrido pouco depois da uma da tarde, quando os alunos voltavam para as aulas. De acordo com o professor do terceiro ano, as duas raparigas, Alice e Sally, haviam pedido para ir à casa de banho. Poucos instantes depois de entrarem no corredor, toda a gente ouviu os primeiros disparos.

 

Ainda havia dúvidas sobre quem teriam sido as primeiras vítimas: elas ou a professora de Informática, Melissa Avalon. Esta estivera sozinha na Sala de Informática, por isso ninguém sabia se ela saíra depois de ouvir os disparos ou se fora ela a primeira a ser atingida e depois as raparigas. Também não se sabia ao certo se o médico-legista podia trazer alguma luz ao assunto, pois a determinação da hora de um óbito não era uma ciência exacta. De momento, tentavam determinar o caminho que o atirador percorrera e a trajectória dos disparos, de modo a poderem arquitectar uma sequência lógica de acontecimentos.

Nenhuma testemunha ocular? indagou Rainie.

Nenhuma, concordaram os outros agentes. A maior parte dos alunos registou o som de disparos, depois começou a correr para as saídas, sem a menor ideia de onde eles vinham. Seis alunos referiram ter visto um homem de preto, mas estas foram as crianças mais pequenas e nenhuma delas conseguiu especificar melhor. Donde viera esse homem? Onde é que se metera? Alto? Baixo? Gordo, magro? Depois de lhes pedirem para serem mais precisos, os miúdos ficaram confusos.

 

Dois agentes haviam-se dirigido às casas que circundavam a escola. Esses vizinhos não tinham dado pela presença de nenhum homem vestido de preto a atravessar os seus jardins.

 

Portanto concluiu Sanders, esta coisa do homem de preto é um beco sem saída. Provavelmente apenas a imagem do papão invocada por espíritos traumatizados. Acontece.

 

Espere aí interrompeu Rainie. Sanders fulminou-a com um olhar irado. Ela sentia que o detective tentava assumir o controlo do caso. Ele é que era o tipo do estado, que tinha um fato todo catita e um distintivo maior que o dela. E, obviamente, não dava a mínima importância a agentes ou teorias de pequenas cidades. Os tipos das grandes cidades eram assim.

 

Há ainda a questão de seis crianças afirmarem ter visto um homem estranho disse, com firmeza. Isso deve ter algum significado.

 

Esse tipo de histeria é contagioso afirmou Sanders.

 

Ou que viram alguma coisa fora do lugar, alguém fora do lugar. Olhe para os disparos. Diz que se tratou de um ataque tipo guerra-relâmpago. A maioria das vítimas está cravejada de balas e temos buracos por toda a escola. Depois há o caso da Melissa Avalon. Um único tiro na testa. Trata-se de um ferimento muito preciso para um ataque ao acaso.

 

Talvez ele tenha disparado contra ela com intenção. Sabemos alguma coisa do relacionamento do Danny com a professora?

 

Os agentes folhearam os seus blocos. Ainda ninguém se debruçara sobre o passado da vítima.

 

Olhe disse Sanders, num tom afável, reconhecendo que Rainie não era uma completa idiota, o seu ponto de vista sobre a professora Avalon parece interessante. Vou tomar nota. E amanhã, quando reunirmos a equipa, mandarei alguém investigar isso. Bom, ainda temos muito trabalho de pernas a fazer. Isto é apenas uma opinião extemporânea.

 

Então a minha opinião extemporânea é a de que ainda não deveríamos pôr nada de lado.

 

Abe revirou os olhos.

 

Sim, senhora. Depois, murmurou: Claro, foi você que deteve o miúdo.

 

Rainie empertigou-se. Tivera um dia longo; não precisava de ouvir aquele tipo de tretas. A raiva que se estava a acumular no seu peito era Perigosa. Também era desproporcionada, não apenas porque Abe Sanders não passava de um idiota, mas porque ela prendera um miúdo que conhecia e, cos diabos, de quem gostava.

 

Miúdo estúpido e egoísta! Como pudeste ser tão cruel?

 

Abe Sanders continuava a olhar para Rainie, à espera que ela mordesse o isco. Se ela se enfurecesse, daria uma imagem muito pouco profissional e ele ficaria por cima. Rainie não tinha a menor intenção de lhe dar essa satisfação.

 

Precisamos de ter uma conversa amanhã.

 

Tudo bem.

 

A primeira coisa a fazer de manhã.

 

Absolutamente.

 

Sete e meia?

 

Sete.

 

Óptimo. Até amanhã.

 

Voltaram para junto dos especialistas da Brigada de Investigação, que ainda trabalhavam na escola.

 

O edifício encontrava-se agora todo iluminado, com as usuais fitas de plástico amarelo que isolavam a cena de um crime espalhadas por todo o lado. A entrada fora dividida em várias secções através de uma rede de fita de isolamento. As zonas mais ”activas” eram dominadas por homens vestidos com fatos especiais para aspirar até à última partícula de poeira. Noutros locais, especialistas raspavam o sangue das janelas para dentro de pequenos frascos de vidro, ou borrifavam as paredes com Luminol, na esperança de descobrirem novos dados que pudessem esclarecer a carnificina. Os agentes mantinham-se por perto, registando cuidadosamente todas as descobertas, as quais, de manhã, já dariam para encher três blocos de apontamentos.

 

Rainie entrou numa sala de aula e, com uma lupa, pôs-se a passar as paredes a pente fino.

 

Só saiu ao fim de duas horas. Teve então a sensação desagradável do ar com odor a pinheiro a bater-lhe nas faces, enquanto as estrelas na noite clara pareciam brilhar mais do que de costume.

 

Tinha trabalho para pelo menos duas resmas de papel. O delegado queria apresentar as acusações por volta do meio-dia, no dia seguinte, e faltava a primeira vaga de relatórios policiais. Rodriguez iria adoptar uma postura agressiva. A acusação seria de homicídio qualificado com três mortos. Um crime hediondo! Daniel O’Grady deveria ser levado imediatamente a julgamento. O miúdo de treze anos era uma ameaça para a sociedade. Assassinara crianças pequenas. Traíra a sua comunidade. Lembrara aos vizinhos que o mal poderia estar na porta ao lado. Prendamo-lo até ao fim da vida.

 

Não permitamos que ele saia alguma vez com uma rapariga, vá a uni baile de finalistas, se apaixone, se case, tenha filhos. Deixemos apenas que ele esteja vivo até aos oitenta ou noventa anos, mas que nunca viva a sua vida.

 

Rainie não passou pela esquadra. Dirigiu-se para casa, onde se sentou no alpendre traseiro, a contemplar o céu estrelado e a ouvir o piar das corujas. Voltou para casa, onde despiu a farda que cheirava a morte e agarrou numa cerveja fresca. Finalmente livre dos olhares intrometidos, encostou a testa à garrafa, pensou nas duas pobres garotas, na professora, em Danny... e nela própria catorze anos antes.

 

A agente Lorraine Conner voltou para casa e, finalmente sozinha, chorou.

 

Não muito longe dali, um homem observava.

 

Estava todo vestido de preto e tinha um potente binóculo encostado aos olhos. Era uma compra recente, feita quando a necessidade de ver o rosto, a expressão e os olhos cinzento-claros dela se tornara difícil de suportar. Agora a visão estava a deixá-lo algo atordoado. Conseguia ver tudo no alpendre, todas as nuanças do seu corpo esbelto, iluminado pela Lua e pelas luzes da entrada. Estava a chorar. A chorar.

 

Ele nunca vira tal emoção brotar de dentro dela.

 

Isso excitava-o.

 

Era difícil de imaginar, mas todos aqueles anos antes, quando Bakersville despertara, pela primeira vez, a sua atenção, isso nada tivera a ver com a agente Lorraine Conner. Lera um artigo na Internet: ”Pequena Comunidade Leiteira Destruída pelas Cheias, Promessas para a Reconstrução.” O jornalista começava com uma ladainha melodramática de águas fluviais a subir, chuvas torrenciais, enormes deslocamentos de terras que se precipitaram sobre uma minúscula cidade costeira durante uma semana, em Fevereiro. Os vizinhos uniram-se para levar as vacas para locais mais elevados. As águas continuaram a subir, inundando as quintas que se encontravam a baixa altitude, arrancando casas inteiras dos seus alicerces e chegando ao ponto de atingir o cume de muitas colinas.

 

Vacas, de olhos esbugalhados, presas durante dias, com água fria pelo peito, a berrar, desesperadas. Camiões, a tentar resgatar gado, arrastados para fora das estradas inundadas. Mulheres e crianças de rostos assustados, resgatadas, finalmente, por barcos, do cimo dos telhados de metal dos celeiros. Produtores estóicos a abater as suas manadas para aliviar o sofrimento dos animais.

 

Como o jornalista asseverava a todos os leitores, ali estava uma cidade que conhecera a ira de Deus.

 

E depois a reconstrução. Venda de produtos de padaria e pastelaria e campanhas para a angariação de fundos. Programas inovadores como o ”Adopte Uma Vaca”, que incentivava as crianças e as grandes empresas da cidade a apoiar vacas individualmente com dinheiro para comida e abrigo. Meia dúzia de explorações, existentes nos terrenos elevados e poupados pelas cheias, ofereciam os seus estábulos, celeiros e salas de ordenha aos vizinhos, pelo tempo que eles precisassem. A cidade estava a ressurgir.

 

No fim do artigo, o presidente da Câmara era citado: ”É óbvio que nos ajudamos uns aos outros. Estamos em Bakersville. Aqui somos fortes.

 

Preocupamo-nos com a nossa cidade. E sabemos muito bem aquilo que devemos fazer.”

 

O homem ficara a saber que Bakersville era a cidade do momento. Um lugarzinho perfeito com os seus habitantezinhos a louvar os seus pequenos valores morais. Onde toda a gente adorava toda a gente, onde todos eram amigos. Queria vê-los todos mortos.

 

Era um homem paciente. Compreendia melhor que muitos a importância do planeamento. É necessário um bom reconhecimento, apregoara sempre o seu pai. Um bom soldado faz o trabalho de casa.

 

O pai era um idiota que só tinha merda na cabeça. Mas o homem fez o trabalho de casa. Identificou o alvo. Pesquisou. Informou-se. Políticos, funcionários escolares, repórteres, organizações principais. O departamento do xerife. Planeou. Teve todo o tempo do mundo. O mais importante era fazer as coisas bem.

 

Mostraria àquela cidade a ira de Deus. Mostrar-lhes-ia a sua própria ira.

 

A agente Lorraine Conner. A primeira vez que a viu em pessoa foi durante uma de muitas visitas de reconhecimento, quando se cruzou com ela e ficou como que especado. Maçãs do rosto salientes, um queixo inflexível. Olhos cinzentos e olhar determinado. Não era uma mulher bonita, mas interessante, e prendia a atenção.

 

Ali estava uma mulher que sabia como fazer as coisas. Nem um traço de estupidez, coisa que seria de esperar em agentes de cidades pequenas. Nem sequer uma barriga de cerveja, que mostrasse a forma como realmente passava as noites de sexta-feira. Exibia uma boa forma física e era supostamente boa atiradora.

 

Então ouviu os rumores.

 

A mãe dela. Catorze anos antes. O assassínio brutal, que nunca fora resolvido. A mulher bebia. Fazia da filha um saco de pancada. Uma desavergonhada, murmuravam as velhas bisbilhoteiras por entre dentes, com os olhos flamejantes, imaginando o contacto das próprias mãos com a carne firme e jovem da criança. Toda a gente sabia que Molly Conner não teria um final feliz.

 

Diziam que o tiro da caçadeira lhe arrancara a maldita cabeça. Nem o mais leve vestígio de carne acima do pescoço. Apenas um torso sem cabeça, com uma garrafa de Jim Beam na mão. Também diziam que levara a bebedeira para a sepultura.

 

A jovem Rainie chegou a casa vinda da escola e deparou com toda aquela embrulhada. Pelo menos foi o que ela contou aos agentes. Entrou, encontrou o corpo, saiu e viu um carro-patrulha a parar em frente à casa. O jovem agente Shep, antes de se tornar xerife foi o primeiro a chegar ao local do crime. Referiu que Rainie tinha miolos a escorrer do cabelo e pelas costas abaixo. Algemou-a de imediato e deteve-a.

 

Mais tarde, retirou as acusações. Os peritos defendiam que o facto de os miolos estarem a escorrer provava que haviam caído do tecto, que ela entrara logo a seguir ao crime ser perpetrado, que não fora ela a premir o gatilho, o que teria feito com que o sangue a atingisse na horizontal. Ou um disparate do género.

 

Digamos que ninguém consegue ser condenado neste maldito estado. Isto é, a miúda estava coberta de miolos frescos e isso não foi suficiente? Advogados! E esse o problema. Advogados!

 

Claro que Rainie acabou por safar-se. Era muito melhor mulher do que a mãe. E nem sequer era má agente.

 

O homem concordou com eles nesse ponto. Umas quantas batidas no teclado e ficara a saber bastante sobre Rainie Conner. Conseguira um bacharelato em Psicologia pela Universidade Estadual de Portland. Ao regressar a Bakersville, tornara-se a primeira agente feminina no departamento do xerife. Passara nos cursos da Academia de Polícia logo à primeira. A ficha pessoal estava recheada de excelentes referências. Mantinha a forma praticando jogging três a quatro vezes por semana e lia sempre o número do FBI Law-Enforcement Bulletin mal ele chegava. Uma pessoa dedicada e, segundo vários bêbedos, era ágil para uma rapariga.

 

O homem também ficara a saber de coisas da intensa vida particular de Rainie. Costumava sair com homens (o que era motivo de falatório na cidade), mas sempre de uma comunidade exterior. Não saía com muita frequência, nem mantinha uma relação durante muito tempo. Nunca deixava que os namorados a fossem buscar ou levar a casa. Em vez disso, encontrava-se com eles num dado restaurante, ia até casa deles, levantava-se e partia muito antes de eles acordarem de manhã.

 

Parecia ter uma necessidade básica de sexo, mas nunca de partilha. Isso fascinava o homem.

 

Ela também tinha outra peculiaridade. Todos os dias, quando regressava a casa vinda do trabalho, abria uma garrafa de Bud Light. E todas as noites, antes de ir para a cama, esvaziava a garrafa cheia de cerveja para o chão, do lado de fora do alpendre. Uma ode à bebedolas da mãe, pensou o homem. Imaginaria Molly Conner morta nessa altura? Lembrar-se-ia do torso sem cabeça e dos miolos cinzentos no tecto?

 

Foi essa uma das razões por que comprara o binóculo. Porque, às vezes, ela mexia os lábios quando deitava fora a cerveja, e ele já estava para lá do interesse geral, do reconhecimento objectivo. Precisava de saber, desesperadamente, aquilo que ela dizia.

 

”Vai levar no eu, mãe”?

 

”Vai-te foder”?

 

O homem sentia-se enamorado de Rainie Conner. Ela tornara-se a sua heroína pessoal. E acrescentara algo à sua aventura particular. Ela era a agente destinada a descobri-lo, resolvera. Só ela conseguiria reconhecer o seu génio, a sua mestria. Finalmente, dez anos depois, ali estava uma adversária merecedora dos seus talentos.

Ao princípio, os planos para Bakersville eram modestos. Havia alterado desde então.

 

Naquele momento, o homem afastou-se cautelosamente do abrigo proporcionado pelos arbustos rasteiros. Guardou o binóculo. Lançou uma última olhadela à arma e permitiu-se o luxo de se recordar da sensação de bem-estar que experimentara...

 

Foi-se então embora. Ainda tinha muito mais coisas para fazer antes da longa viagem até ao hotel.


Quarta-feira, 16 de Maio, 8.00

 

INTERROGATÓRIO DE DANIEL JEFFERSON O’GRADY

15 DE MAIO, 2000

 

Agente Lorraine Conner, a conduzir o interrogatório de Daniel Jefferson O ’Grady, que é suspeito de assassínio de três pessoas na Escola Básica Integrada de Bakersville, na terça-feira, quinze de Maio de dois mil. Como meu assistente: o agente Luke Hayes. Também presente: o delegado do Ministério Público, Charles Rodriguez. O’Grady tomou conhecimento dos seus direitos e recusou a presença de advogado. São quatro horas e quarenta e sete minutos.

 

CONNER: Danny, podes dizer-nos o que se passou hoje na escola?

 

Silêncio.

 

CONNER: Que dia é hoje, Danny?

 

Pausa.

 

O’GRADY: Terça-feira.

 

CONNER: Muito bem. Hoje é dia de escola?

 

O’GRADY: É.

 

CONNER: Foste à escola hoje?

 

O’GRADY: Fui.

 

CONNER: Quando é que foste, Danny?

 

O’GRADY: Esta manhã.

 

CONNER: Com a tua irmã? Com a Becky?

 

O’GRADY: Sim. A minha mãe foi-nos lá pôr. A Becky não gosta do autocarro. Atropelou um gato.

 

CONNER: Lamentável. A Becky gosta de animais, não gosta?

 

O’GRADY: Sim. E maluquinha por eles.

 

CONNER: É esta a roupa que trazias hoje na escola? As calças de ganga Pretas e a T-shirt também preta?

 

O’GRADY: Sim.

 

CONNER: Costumas usar muita roupa preta?

 

O’GRADY: Não sei.

 

CONNER: Há alguma razão especial para hoje te teres vestido todo de preto?

 

Silêncio.

 

CONNER: Foste às aulas esta manhã, Danny?

 

O’GRADY: Fui.

 

CONNER: Estás no sétimo ano, não é? Quem é o teu professor? O’GRADY: Mister Watson.

 

CONNER: Ele é bom professor? Gostas dele? O’GRADY: Não é mau.

 

CONNER: O que é que estudaste esta manhã? O’GRADY: Tivemos Inglês de manhã, depois Matemática. À tarde, íamos ter um jogo de Geografia. Jogos de mapas, as capitais...CONNER: O jogo não chegou a realizar-se pois não, Danny? Silêncio.

 

CONNER: Costumas trazer uma mochila para a escola? O’GRADY: Eu tenho uma mochila.

 

CONNER: O que é que tinhas hoje na mochila?

Silênciol

 

CONNER: Danny, tinhas duas armas na tua mochila? Trouxeste armas para a escola?

Pausa.

 

O’GRADY: Julgo que sim.

 

CONNER: Onde é que arranjaste essas armas? São tuas?

 

O’GRADY: Não. (pausa) São do meu pai.

 

CONNER: Tiraste-as de uma gaveta? O’GRADY: Do cofre de armas.

 

CONNER: Do cofre? Não estava fechado?

O’GRADY: O cofre estava fechado. O meu pai fecha-o sempre. CONNER: Então como é que as tiraste?

 

O’GRADY: Sou esperto, não? Sou muito esperto. ’

 

Pausa.

 

CONNER: Claro, Danny. És suficientemente esperto para abrir o cofre, pegar nas armas e trazê-las para a escola. Depois foste suficientemente esperto para fazer o quê, Danny? Silêncio. ’ CONNER: Disparaste as armas na escola? Começaste a disparar no corredor? Silêncio. CONNER: Danny, estou a tentar ajudar-te. Mas, para isso, preciso de saber o que se passou esta tarde. As duas meninas e a professora estão] mortas, Danny. Sabes o que é estar morto? Pausa. O’GRADY: A minha avó morreu. Fomos ao funeral. Isso quer dizer que está morta.

 

CONNER: E os teus pais choraram? Isso fez com que eles ficassem muito tristes? Tão tristes como estavam hoje? Tu viste o teu pai a chorar, Danny. Sabes por que motivo é que ele estava a chorar?

 

O’GRADY: Sei. (pouco audível) Sei.

 

CONNER: O que aconteceu esta tarde, Danny? Que fizeste? Foi só um acesso de loucura?

 

Silêncio.

 

O’GRADY: Sou esperto.

 

CONNER: Danny, mataste aquelas meninas? Abriste fogo sobre os teus colegas?

 

O’GRADY: Sou esperto, sou esperto, sou esperto, sou esperto.

 

CONNER: Mataste aquelas meninas, Danny?

 

O’GRADY: Matei! Matei, claro? Sou esperto!

 

CONNER: Porquê, Danny? Por que razão fizeste tal coisa?

 

Som de porta a abre-se de rompante.

 

JOHNSON: Chamo-me Avery Johnson e estou aqui para representar o Daniel O’Grady. Este interrogatório acabou.

 

CONNER: Porquê, Danny, porquê?

 

JOHNSON: Não respondas...

 

CONNER: Diz-me só porquê! Por que motivo mataste aquelas meninas, Danny?

 

O’GRADY: Estou aterrorizado.

 

No Boeing 747, Pierce Quincy, agente especial supervisor, tirou finalmente os auscultadores e pôs de lado o gravador. Ouvira o interrogatório do mais recente assassino em massa da América pela terceira vez, desde que descolara de Seattle. Agora, ia anotar as ideias num bloco de apontamentos que comprara apressadamente no aeroporto de Seattle-Tacoma. Na capa do bloco vermelho escrevera: CASO EM ESTUDO N.° 12, DANIEL JEFFERSON O’GRADY. BAKERSVILLE, OR.

 

A hospedeira apareceu, tirou a chávena de cima da mesinha para lhe arranjar mais espaço e esboçou um sorriso encantador. Quincy devolveu-Iho automaticamente, depois desviou o olhar antes de ela meter conversa. Continuava preocupado com os meninos da escola e as forças que os levavam a matar.

 

Ao longo dos anos, recebera muitos sorrisos das hospedeiras do ar. Aos quarenta e cinco anos, tinha cabelo escuro que começava a ficar grisalho nas têmporas, mas era alto, corpo elegante e musculado, e bem vestido. Tinha um comportamento irrepreensível. Estava sempre em cima do acontecimento, sabia o que queria, confiava na sua delicadeza e não tinha

mínima paciência para idiotas. Passava a vida a voar para quatro diferentes estados dos EUA em cinco dias e a caçar os piores predadores que a raça humana tinha para oferecer. E possuía um olhar directo, que as pessoas achavam profundamente convincente ou extremamente intimidante.

 

Em especial nas viagens de trabalho, quando a pasta estava cheia de fotografias de cenas de crime de algumas das maiores carnificinas que aconteceram na Terra. Depois de quinze anos nesse tipo de trabalho, conseguia baralhar as fotografias como se estivesse a jogar às cartas, um acto que o orgulhava pela sua objectividade e que o entristecia pela sua frieza.

 

Fora pura coincidência o facto de Quincy se encontrar na costa oeste quando lhe telefonaram de Quântico a falar do tiroteio em Bakersville. Em teoria, Quincy encontrava-se de licença da sua tarefa de investigar assassinos e ensinar investigação criminal na Academia do FBI, na Virgínia. Todavia, na semana anterior, recebera a notícia de ter sido encontrado o corpo estrangulado de uma prostituta na Estrada Interestadual 5, em Seattle. A polícia local ficara preocupada com o facto de o caso poder ter ligações a outra série de homicídios cometidos nos anos oitenta pelo famoso ”Assassino de Green River”, que nunca chegara a ser apanhado. Quincy revisitara esse caso no ano anterior, no âmbito de um projecto para encerrar casos que ainda continuavam em aberto. Infelizmente, não encontrara novas pistas. Surgiu então o novo assassínio.

 

O director delegado do FBI dera pessoalmente a notícia a Quincy e pedira-lhe para ficar em casa.

 

Esta é uma ocasião em que precisas de estar com a família dissera-lhe o director delegado. Compreendemos isso. Provavelmente este caso não está relacionado. Não quero que fiques preocupado com ele.

 

Quincy agradecera ao homem a sua preocupação. Depois, fora até ao Aeroporto Dulles, comprara um bilhete para Seattle e apanhara o avião. A filha mais nova voltava da faculdade no dia seguinte, a ex-mulher não tinha a menor intenção de falar com ele mesmo que ficasse, e quanto à filha Amanda... Já não havia nada que pudesse fazer por Amanda. O que estava feito estava feito, e Quincy precisava do trabalho.

 

Antes de se transferir para o papel de investigador na Unidade de Ciências Comportamentais, cinco anos antes, o agente especial supervisor Quincy obtivera os galões de um dos melhores profissionais do FBI no campo da investigação psicológica. Todos os anos, conseguia desenhar o perfil de uns cem a duzentos violadores, assassinos e raptores de crianças. Perseguia homens com um QI bem acima do nível de génio e fazia-os cair nas suas próprias armadilhas. Analisara cenas de crime inundadas de sangue e descobrira pistas primordiais para a resolução dos casos. Salvara vidas e cometera erros que, às vezes, custaram vidas.

 

Sabia como lidar com esse tipo de stresse. A ex-mulher, Bethie, costumava dizer que Quincy não sabia mesmo viver sem ele. Na sua opinião, o seu mundo tornara-se tão sombrio como os assassinos que investigava, e, sem um assassínio brutal para resolver, ele, pura e simplesmente, não sabia o que fazer consigo próprio.

 

Quincy estava-se nas tintas para essa sua imagem, mas também não a refutava. Esse tipo de trabalho tinha os seus custos. Passava tanto tempo mergulhado em casos de extrema violência, que era fácil perder a perspectiva

56 das coisas. Todos os parques de diversões do distrito eram locais onde os abusadores de crianças ficavam à espera de novas vítimas. Todas as caves alojavam restos humanos. Todos os estudantes de Direito, charmosos e bem-parecidos, eram potenciais psicopatas.

 

Quincy nunca viajaria num Volkswagen Carocha, o veículo de escolha de muitos assassinos em série. Ele, pura e simplesmente, recusava-se a fazê-lo.

 

Nem conseguiria ver a própria filha a morrer.

 

Em Seattle, o assassínio de uma prostituta veio a revelar-se um crime que fugia aos padrões tradicionais e todos os indícios conduziam a um camionista que passava pela zona. Quincy chegara ao ponto de analisar minuciosamente os ficheiros de casos de homicídio mais bicudos, com o pretexto de apresentar novas perspectivas, mas o objectivo autêntico era o de adiar o regresso a casa, onde já não seria o ”superagente”, capaz de capturar até o mais infame dos vilões, mas o ”pai desamparado”, resignado a esperar, junto a uma cama de hospital, como outra pessoa qualquer, que o inevitável acontecesse.

 

Entretanto, um miudo entrara na sua escola, no Oregon, e abrira fogo. E Quincy fora, por assim dizer, salvo.

 

Como muitos americanos, tivera conhecimento de um pequeno, mas trágico tiroteio, que ocorrera em Novembro de 1995, no Liceu de Richland, em Lyneville, no Tennessee, deixando dois mortos e um ferido. A minúscula cidade, de trezentos e cinquenta e três habitantes, parecia demasiado distante para ter alguma relação com a vida de Quincy e o pequeno número de vítimas indiciava tratar-se de um caso isolado. Mas, apenas três meses mais tarde, ocorrera outro tiroteio: Escola Secundária Frontier, Moses Lake, no estado de Washington. Três mortos, um ferido, atingidos por um aluno de catorze anos. Quase um ano depois, novo tiroteio, em Bethel, no Alasca. Dois mortos, dois feridos, atingidos por um atirador de dezasseis anos, que reunira uma galeria de amigos para assistir ao espectáculo de violência. Oito meses mais tarde, Luke Woodham, de dezasseis anos, assassinara três pessoas e ferira sete, em Pearl, no Mississipi. Dois meses depois disso, mais três alunos mortos, no Liceu Heath, em West Paducah, no Kentucky. O padrão era claro. Jonesboro, Arcansas; Springfield, Oregon; Littletown, Colorado; Fort Gibson, Oklahoma. Outras escolas, outras tragédias ficaram marcadas na consciência nacional.

 

As manchetes dos jornais clamavam que se tratava de um surto de violência que alastrava no seio da juventude americana. Jogos de vídeo, gritavam alguns. Demasiadas armas, pouca presença dos pais. Ou talvez a culpa fosse de Hollywood, de Capitol Hill ou de Jerry Springer. Mas algo tinha de ser feito para conter a maré. Proibir as armas, censurar os desenhos animados, instalar detectores de metais, fazer cumprir as normas de vestuário escolar, qualquer coisa.

 

Na Unidade de Ciências Comportamentais do FBI, os investigadores, tal como Quincy, não estavam muito certos disso. Seriam os tiroteios uma tendência genuína ou uma anomalia estatística? Seriam essas crianças ”normais” motivadas por forças exteriores, como os órgãos de comunicação social, ou estaria tudo relacionado com uma questão comportamental mais profunda?

 

O que levava efectivamente os adolescentes a matar e como se poderiam evitar os tiroteios?

 

Até mesmo em Quântico, os peritos criminais não tinham resposta.

 

E isso assustava-os, pois também tinham filhos.

 

Há seis meses, Quincy começara uma investigação importante para dissecar as mentes dos assassinos em massa juvenis e identificar formas de os ajudar, assim como prevenir futuros tiroteios. O objectivo era divisar um sistema que ajudasse a identificar potenciais assassinos em massa por funcionários escolares e agências de aplicação de penas. Além disso, Quincy esperava formular acções que ajudassem os pais e os professores a lidar com maior eficácia com os adolescentes potencialmente violentos.

 

Todavia, identificar futuros atiradores era uma tarefa mais fácil na teoria do que na prática.

 

Ao contrário dos assassinos em série, os assassinos em massa não eram um grupo homogéneo. As pessoas passavam-se dos carretos, porque tinham um mau dia, porque estavam emocionalmente instáveis, porque alguém os influenciara, porque estavam eufóricos/bêbedos/drogados, porque estavam apaixonados/desapaixonados/confusos com o amor, porque buscavam a glória, a vingança, a morte. Os assassinos em massa podiam ser jovens, velhos, ricos, pobres, com estudos, com poucos estudos, bem adaptados ou solitários. Os seus ataques podiam ser ao acaso ou bem planeados.

 

Além disso, muitos assassinos em massa acabavam os seus espectáculos de violência suicidando-se, dificultando a descoberta de mais informação. O que levara essa pessoa até esse ponto de ruptura? Em que estivera o atirador a pensar durante o seu acto de violência? Repetiria o acto se lhe dessem essa oportunidade ou tratara-se de uma orgia assassina, fruto do impulso do momento? A maioria das vezes nunca se chegava a saber.

 

O melhor que os peritos conseguiam fazer actualmente era uma avaliiação de risco” dos indivíduos, uma listagem de comportamentos estatísticos ricamente verificados em assassinos em massa. Assassinos em massa:;

 

  1. Tinham um historial de violência, por exemplo, bater na mulher, abuso de crianças, envolvimento em rixas, etc.;

 

  1. Inspiravam ”medo subjectivo” nas pessoas. Depois dos tiroteios, havia sempre alguns vizinhos ou colegas de trabalho que manifestavam alguma ”aversão” relativamente à pessoa. Evitavam o homem no trabalho, não deixavam os filhos brincar com o rapaz, tinham o cuidado de nunca ficarem sozinhos com o indivíduo, etc.

 

  1. Exibiam comportamento anti-social ou uma personalidade de tipo prolixo violando deliberadamente as regras da sociedade.

 

4 Possuíam poucas aptidões de carácter social.

 

  1. Gostavam de fazer ameaças, realistas ou vãs.

 

  1. Faltava-lhes um sistema de suporte, por exemplo, vinham de uma família dividida, tinham poucos amigos, etc.

 

  1. Sentiam-se enganados pela vida, pela empresa, pelos seus iguais, pela mulher, etc.

 

  1. Encontravam-se sob grande stresse situacional, por exemplo, perda recente de emprego, divórcio pendente, morte na família, etc.

 

Quincy achava que a listagem não era uma má ferramenta. Os departamentos de recursos humanos de muitas empresas importantes utilizavam-na em geral para identificar empregados potencialmente perigosos. No início dos tiroteios em escolas, os orientadores escolares de todo o país também haviam requisitado toda essa informação sobre o assunto.

 

Infelizmente, a listagem estava a revelar-se demasiado vaga para os delinquentes juvenis. O que era ”stresse situacional” para uma criança de onze anos? Ter aparelho nos dentes, ter uma borbulha a rebentar? O que era um ”historial de violência” para um miúdo de escola? Atirar pedras, arrancar asas às moscas, praticar desportos violentos?

 

A acrescentar a isso, o número significativo de crianças que provinha de lares desfeitos, o facto de todos os adolescentes se sentirem profunda e dolorosamente enganados pela vida e um número inverosímil de jovens, segundo as estatísticas, que apareciam como futuros maníacos homicidas uma ideia muito pouco animadora.

 

Os adultos tinham dificuldade em compreender ou prever as reacções das crianças. As capacidades destas de enfrentarem os problemas eram limitadas e, regra geral, consideravam que tudo tinha de acontecer agora, hoje, imediatamente, sem pensarem nas consequências a longo prazo.

 

Como aspecto final, os jovens estavam altamente motivados pela pressão dos seus iguais, um factor raro nos homicídios cometidos por adultos. As crianças também eram mais susceptíveis às imagens dos órgãos de comunicação social e às influências exteriores, como cultos e grupos anti-sociais.

 

Em suma, quanto mais Quincy sabia, maior era a sensação de que ainda não sabia o suficiente. Essa seria uma longa tarefa. Anos e anos, começava a pensar, a gastar tempo de qualidade com miúdos que matavam miúdos.

 

Estava intrigado com a tarefa, mas, ao mesmo tempo, também sentia alguma repulsa relativamente a ela esse era, por outras palavras, o seu estado de espírito geral.

 

A luz para os passageiros apertarem os cintos acendeu-se. O avião preparava-se para a aterragem. Arrumou a gravação do interrogatório de IJanny O’Grady e as suas notas. Franziu o sobrolho.

 

Ainda não tinha muita informação sobre o caso, mas já havia uma sér’e de elementos que o preocupavam. O tiro desferido na professora pareceu-lhe demasiado certeiro. Queria saber mais acerca dela e da relação com Danny. Depois havia a altura do tiroteio. Por que motivo quando todos os alunos já se encontravam nas salas de aula? Dava a sensação de se tratar de uma estratégia de ataque destinada a ”limitar” os danos, como se o atirador não quisesse muitas pessoas feridas.

 

Finalmente, havia o interrogatório. A julgar pelo tom de voz da criança, Quincy apostava que ela se encontrava em estado de choque, situação que não era a melhor para um interrogatório completo. Mais: embora a agente investigadora tivesse realizado um bom trabalho no que tocava a pôr o rapaz a falar, recorrendo a perguntas simples, fizera demasiadas perguntas capciosas. Isso era sempre perigoso com crianças, pois estas tinham tendência a dar a resposta que achavam que o adulto queria, em vez da correcta. A repetida referência de Danny ao facto de ser esperto também o preocupou. Ficara algo mais por perguntar.

 

Interrogou-se sobre quais seriam as hipóteses de o advogado do rapaz concordar com um interrogatório. Depois, perguntou-se quais seriam as hipóteses de a polícia local receber de bom grado a sua ajuda no caso.

 

O agente especial e supervisor Pierce Quincy esboçou um largo sorriso.

 

Um agente da polícia local a receber um agente federal de braços abertos? Muito dificilmente. Já fazia apostas em qual seria a primeira partícula expletiva usada pela agente Lorraine Conner.

 

Quarta-feira, 16 de Maio, 11.08

 

Ó seu merdolas! Se, nas minhas costas, volta a ir falar com o delegado do Ministério Público, prendo-o e levo-o até um local de pastagem, onde lhe apresentarei pessoalmente os empadões das vacas criadas em Bakersville. Percebido?

 

Eu só precisava de umas informações...

 

Tentou sacar-me o caso!

 

Só se eu visse que você não tinha habilitações para o conduzir.

 

Rainie esbugalhou os olhos e quase deitou espuma pela boca. Estava a ter uma manhã desgraçada, que já incluíra uma conversa lapidar com Abe Sanders às sete da manhã. Aparentemente, não surtira efeito, pois pouco passava das onze e ainda tentava pô-lo no lugar. Como é que ele se atrevera a pedir ao delegado para a retirar de agente principal do caso? Como é que ele se atrevera a tentar passar o homicídio para a alçada do estado?

 

Será que ele não sabia fazer coisa melhor do que meter-se com uma mulher que só tivera quatro horas de sono?

 

Rainie saiu de detrás da secretária erigida à pressa efectivamente uma placa de contraplacado deitada em cima de dois cavaletes de serrador que havia sido colocada no novíssimo ”centro operacional” da equipa de Bakersville que trabalhava no caso. O posto de comando situava-se no sótão da Câmara Municipal, onde reinava um calor asfixiante e havia pó por todo o lado, mas conseguira requisitar uma cafeteira para fazer café e um refrigerador de água do gabinete do presidente. Isso fazia desse quartel-general um luxo, em comparação com os seis metros por seis do departamento do xerife.

 

Rainie estivera a trabalhar arduamente durante toda a manhã. Levantara-se às quatro e meia, fizera uma corrida puxada para desentorpecer os músculos, depois passara ao computador os relatórios da noite anterior, reunira-se com o presidente para ver se conseguia arranjar mais espaço para a sua equipa e preparara-se para a primeira reunião com Abe. Imaginava ter delineado regras perfeitamente claras. O caso exigiria cooperação estatal e local. Abe funcionaria como a guarda avançada para os recursos do estado, tratando das provas físicas, dirigindo a Brigada de Investigação e acrescentando a sua experiência considerável aos esforços nesse campo. O departamento de Rainie forneceria as tropas no terreno ela própria, Luke e três agentes voluntários para conduzir os interrogatórios e fazer os relatórios. Conheciam melhor as pessoas da cidade e conseguiriam mais cooperação da escola e dos pais do que os agentes estatais.

 

Abe tinha toda a liberdade de verificar a cena do crime e requisitar os computadores da escola em busca de mais provas. Rainie sabia que ele precisava de ajuda. Mas ela não iria, não podia, nem devia prescindir da tutela do caso. Fim da história.

 

Bem ou mal, fora o que ela pensara às sete da manhã.

 

Você fez uma salgalhada dos diabos observou Sanders, aparentemente preocupado com o facto de ela não ter percebido a mensagem da primeira vez. É inexperiente e isso viu-se.

 

Isolei o local e prendi o criminoso. Que coisa mais vergonhosa!

 

Andou a espezinhar a cena do crime corrigiu Abe com um sorriso. Meu Deus, deixou entrar os tipos do Serviço de Emergência Médica. Nunca viu o que eles fazem a um local? Porque não convidou o batalhão de bombeiros para fazerem uma festa?

 

Dei ordens ao Walt para isolar o local. Preferiu violar essas ordens. Algo por que o Bradley Brown ainda lhe está grato.

 

Ele poderia ter-se salvo de qualquer das formas.

 

Poderia ter-se salvo? Vocês são pagos ao corpo ou quê? Sanders manteve-se impávido e sereno.

 

O pessoal do Serviço de Emergência Médica destrói as cenas de crime, é um simples facto da vida. Assim como os pais espavoridos a correr em busca dos filhos e os burocratas da escola para contar os miúdos...

 

Chegámos ao local o mais depressa que pudemos. A geografia é outro simples facto da vida e a geografia coloca aquela escola no meio de uma zona residencial e a quinze minutos de nós. Se lá não estivéssemos não poderíamos controlar nada.

 

Tudo bem. E quando já lá estavam? Controlou, disparando a sua arma no meio do local do crime? Franziu o sobrolho.

 

Um suspeito apontou-me uma arma! ripostou Rainie. Vale uma cena do crime.

 

Oh, agora percebo. Estava com medo de perder a vida, por isso disparou para o tecto. Espero que me corrija. Isso faz perfeito sentido.

 

Você é intolerável...

 

Rainie cerrou os punhos. Contou até dez uma segunda vez e reparou que outro homem acabara de aparecer na ombreira da porta, também com um fato imaculadamente engomado. Que Deus a ajudasse, os homens do estado estavam a multiplicar-se!:

 

Abriu os punhos a custo e conseguiu articular num tom de voz mais razoável:

 

Como escrevi no meu relatório, que indubitavelmente leu, editou, e ao qual teceu críticas por causa do tamanho da letra, o pai do suspeito atirou-se para a minha frente no último instante, forçando-me a alterar a direcção do tiro.

 

Então, você tem o dedo leve?

 

Ouça lá, já alguma vez puxou da arma em serviço? Já alguma vez esteve na linha de fogo? O que diabo sabe você do que é ter dedo leve?

 

Sanders franziu o sobrolho. Pelos vistos, aquele senhor nunca estivera nas linhas da frente. Quem era agora o inexperiente? Todavia, o triunfo de Rainie foi de pouca duração.

 

Bem disse o detective estatal bruscamente, isso traz-nos a todos os problemas ligados à detenção.

 

O quê?

 

Primeiro que tudo, a confissão. Já falou com o delegado do Ministério Público acerca da confissão?

 

Cos diabos, convoquei o Rodriguez para assistir à confissão. Foi tudo feito de acordo com as normas.

 

Pelos vistos, nem tudo. O advogado do O’Grady já está a tentar a anulação da confissão...

 

Então você pensava que ele iria pedir que a incluíssem nas provas?

 

Ele argumenta que o miúdo estava em estado de choque nessa altura e que não se encontrava em condições psicológicas para renunciar aos seus direitos. Ele também afirma que as suas perguntas foram capciosas, o que é desadequado quando se interroga um menor. Ele tem uma vintena de peritos preparados para atestar que você pôs palavras na boca do Danny, fazendo-o dizer exactamente aquilo que queria ouvir.

 

O que eu mais queria era ouvir o filho do meu chefe a dizer que tinha assassinado três pessoas resmungou Rainie; depois, fez um gesto com a mão, pondo um ponto final na questão. Tudo bem. Adiante. Ainda temos os resultados positivos aos resíduos de pólvora e as duas armas. Isso dá para fazer avançar o processo.

 

Sanders esboçou um ligeiro sorriso. Pela primeira vez, Rainie percebia que estavam em apuros.

 

Sim. Os resíduos de pólvora encontrados nas mãos e na roupa do Danny O’Grady. Sanders adoptou a argumentação de um advogado de defesa cínico. É verdade, agente Conner, que disparou a sua arma na cena do crime?

 

Sim, como já expliquei...

 

Não é verdade que sempre que uma arma de fogo é disparada há emissão de resíduos de pólvora?

 

Claro, mas eu nem sequer estava ao pé do Danny...

 

Mas ficaram nas suas mãos, não é verdade? E depois deu umas pancadinhas no suspeito, o Danny O’Grady? Não tocou nas roupas dele, nos braços, nas mãos, quando o revistou à procura de armas, quando lhe PUXOU as mãos para trás das costas para lhe pôr as algemas? Não poderia toda essa pólvora encontrada no miúdo provir efectivamente das suas mãos ao disparar a arma?

 

Rainie ficou perplexa. Meu Deus, não pensara nisso! Tudo acontecera tão depressa. Primeiro, ao esforçar-se por não matar Shep nem o filho. Depois, ao precisar de deter Danny de imediato. Que deveria ela ter feito? Dizer a um suspeito de assassínio para se manter quietinho, como um bom menino, enquanto ela ia à casa de banho lavar as mãos?

 

O laboratório pode realizar mais testes resmungou Rainie, desesperada. Há diferentes tipos de pólvora. Conseguem provar qual a que provém da minha arma e qual a que provém da dele.

 

Oh, eles estão a tentar isso asseverou-lhe Sanders, retomando o seu normal tom agressivo. Todavia, ainda não sabemos se é possível. Parece que o Danny usava as munições do pai e, talvez você não saiba, o Shep requisitava todas as munições para o departamento e para si próprio ao mesmo fabricante. Estranho, não?

 

Rainie sentiu uma forte dor na cabeça. Coçou as têmporas, depois percebeu que não se podia dar ao luxo de pôr aquela informação de parte. Além disso, o homem continuava na ombreira da porta, a prestar atenção a tudo o que diziam, sem o mínimo respeito pela sua privacidade. Se ele fosse repórter, ver-se-ia obrigada a matá-lo.

 

Temos, pelo menos, as armas do assassínio? perguntou a Abe, pois era ele que estava encarregue da recolha de provas.

 

As armas foram levadas para testes balísticos. Ainda não temos resultados.

 

Se tudo o resto falhou, temos as impressões digitais do Danny nas armas. Já é alguma coisa.

 

Não existem impressões digitais nas armas retorquiu Abe.

 

O quê? Impossível. Vi-o a empunhar as armas. Fiz com que o Shep abandonasse o edifício antes de mim. Não há a mínima hipótese de as armas terem sido limpas.

 

Não é só o facto de terem sido limpas, é o facto de não se conseguir tirar uma só impressão digital. O que pode acontecer quando uma agente experiente tem a pretensão de tirar à força uma arma da mão de um miúdo.

 

Não! retorquiu Rainie.

 

Porque não? Porque o Shep é o seu chefe? Porque se sente em dívida para com ele?

 

Não vá por aí. Essa teoria não tem ponta por onde se lhe pegue. Sanders não desarmou.

 

Tudo tem uma ponta por onde se pode pegar. Nas mãos de um bom advogado de defesa, Conner, o poster do Andy Gibb que você beijava todas as noites, quando tinha doze anos, pode ter relevância. Andei por aí a investigar. Você foi presa por homicídio há catorze anos, com a tenra idade de dezassete. O agente que a deteve foi um tal Shep O’Grady. E o homem que se esforçou por retirar a acusação foi um tal Shep O’Grady-

 

Porque se apercebeu que cometera um erro.

 

Quem é que se interessa com isso agora? O facto é que vocês trabalham juntos, você janta na casa dele e, há catorze anos, ele tirou-a de uma enrascada, para, seis anos depois, lhe oferecer um emprego que algumas pessoas ainda questionam. Pensa que essas coisas não virão à baila no julgamento? O Shep deve lealdade ao Danny; você deve-lhe lealdade a ele. E estiveram os três sozinhos no local do crime.

 

Não aconteceu nada de impróprio naquele edifício, detective. Você não esteve lá. Não sabe como as coisas se passaram.

 

Sanders ficou em silêncio durante alguns instantes. Então, disse calmamente, num tom ameaçador:

 

Não, não creio que saiba como é que as coisas se passaram. O Shep encarregou-a de tomar conta da ocorrência ainda antes de chegar ao local. Porquê? Quando você chega à escola, o carro do Shep encontra-se lá, mas durante quarenta e cinco minutos não há sinal dele. Onde está o xerife? Que está ele a fazer?

 

Ele já declarou que o Danny o manteve refém na sala de aula.

 

Você sabia isso? Algum de nós sabe efectivamente isso? A mim quer-me parecer que, você fez uma busca a toda a escola sem que eles deitassem a cabeça de fora da sala uma única vez. Então, quando você se preparava para entrar nessa sala de aula, eles aparecem finalmente. A seguir, você é presenteada com uma encenação que a obriga a dar um tiro, destruindo uma peça-chave de prova, e ao mesmo tempo dá ao Shep O’Grady a oportunidade de tratar das outras duas peças-chave. Foi um tiro muito providencial, se quer saber a minha opinião.

 

Rainie ficou incrédula.

 

Você acha que o Shep encenou uma confrontação armada entre um agente policial e o filho com o fito de eliminar alguma prova contra o Danny?

 

Ele não encenou a cena para qualquer agente, Conner. Encenou-a para si Você conhece o Danny há oito anos. Cos diabos, de acordo com o que toda a gente sabe nesta cidade, você e o Luke ajudaram a criar o Danny O’Grady, convivendo com ele todas as tardes no departamento. Quais eram as hipóteses de você ter aberto fogo?

 

O Shep é um bom polícia. Não destruiria qualquer prova.

 

É pai. Não se deixe iludir.

 

Eu estava lá. Sei o que aconteceu.

 

Sim. Bem, o Shep já anda pela cidade a dizer que há problema com as provas e que está certo de que o filho será posto em liberdade. Quem é que acha que afirmou que você disparou a arma antes de revistar O Danny? Quem é que acha que diz que a cena do crime foi violada? o Shep está a fazer o seu papel. Só que você não quer ver isso e é por essa razão que tem que passar o caso a outro. A alguém que seja perfeitamente objectivo. A alguém que tenha experiência.

 

A alguém que adore exibir-se diante de uma câmara. Sanders abanou a cabeça. Parecia enojado.

 

Conner, estou noventa por cento convicto de que ele é culpado. eteste-me se quiser, mas tenha um pouco de respeito para comigo. Você está com o caso por uma questão de satisfação do ego. Eu só quero levá-lo até à leitura da sentença, de modo a que toda a gente possa voltar à sua vida normal.

 

Então você é idiota afirmou Rainie, num tom categórico. Pensa que o facto de meter um miúdo de treze anos na cadeia nos faz sentir melhor, nos dá a sensação de que tudo acabou? Pessoalmente, sempre que passar por aquela escola, perguntar-me-ei, até ao fim dos meus dias, o que é que efectivamente aconteceu ontem à tarde. E todos os pais e professores farão a si próprios a mesma pergunta. O que leva um miúdo a matar? Por que motivo é que duas meninas tiveram de morrer? Porque não conseguimos evitar que isso acontecesse?

 

”Mais do que uma detenção, a minha cidade precisa de uma explicação e vou consegui-la. Agora, saia do meu gabinete, detective, e a próxima vez que falar com o Rodriguez, veja se tira esse pau que tem enfiado no rabo. Não está a ajudar nada.

 

Rainie voltou para a secretária e sentou-se. Pouco depois, teve a satisfação de ouvir Sanders sair disparado pela porta. Todavia, isso não melhorou o seu estado de espírito. Já começava a ficar farta daquelas brigas.

 

E desanimada. Sanders tinha razão: fizera merda. Desempenhara a sua obrigação com seriedade e isso não significava nada para o sistema de justiça criminal. Capturara um suspeito, mas destruíra provas. Em breve, só serviria para trabalhar numa secretária da polícia.

 

E a sua credibilidade seria posta em causa. As pessoas ainda cochichavam. Claro, era uma cidade pequena. Se as pessoas não cochichassem nos longos e chuvosos Invernos, dariam em loucas.

 

A Rainie Conner é uma mulher dura. Tem que se pôr a pau. Matou a própria mãe.

 

Rainie suspirou, depois reparou que o homem de fato azul-marinho ainda se encontrava no mesmo sítio, de olhos postos nela.

 

Em que lhe posso ser útil? perguntou bruscamente.

 

Agente Lorraine Conner?

 

Não sei. Quem pergunta?

 

O homem sorriu, um toque de ironia ao canto da boca. O gesto franziu os cantos dos olhos e, momentaneamente, Rainie ficou perplexa. O rosto seco de caçador. Olhos azuis penetrantes. Olhou uma segunda vez antes de se recompor. Depois, sentiu algum embaraço. Fosse ele quem fosse, ela só desejava que lhe virasse as costas e se fosse embora.

 

Sou Pierce Quincy, agente especial supervisor do FBI.

 

Ah, merda.

 

Ele esboçou outro sorriso frio. A sensação de desconforto invadiu de novo. Ansiava ardentemente por uma cerveja.

 

O agente entrou e, sem esperar por convite, sentou-se.

 

Deduzo que aquele cavalheiro trabalha para o estado.

 

Aquele senhor é um detective do Departamento de Homicídios do estado. Que Deus nos ajude a todos! Uma certeza de noventa por cento é impressionante.

 

. Tal como a sua lábia. Você não vai aguentar cinco minutos de conversa com ele.

 

Problemas com o caso?

 

Fiz porcaria asseverou Rainie.

 

E agora está a descansar sobre os louros?

 

. Não propriamente. Estou a preparar a estratégia para o próximo ataque.

 

O homem franziu o canto da boca. Rainie estava contente por ver que o divertira, mas ainda não se sentia com disposição para uma conversa. Inclinou-se para a frente e foi directa ao assunto.

 

Que quer? Estou cansada, tenho um homicídio triplo para investigar e não abdico da tutela do caso. É só para saber.

 

Estou aqui para ajudar...

 

Isso é conversa fiada.

 

Tudo bem. Sou um dos burocratas colocado nesta terra para lhe complicar a vida e questionar as suas capacidades.

 

Finalmente, alguma honestidade.

 

Também quero falar com o Danny O’Grady.

 

Rainie recostou-se na cadeira. Naquela resposta, acreditava. Só não sabia muito bem o que significava.

 

Inclinou a cadeira para trás, colocando, com ar ausente, um pé em cima do tampo da secretária, depois cruzando o outro sobre ele. As pernas ainda estavam doridas da corrida da manha. Esticou a barriga das pernas, enquanto lançava outro olhar de avaliação ao agente especial supervisor Pierce Quincy.

 

Experiente, pensou, bem estabelecido na carreira. Provavelmente na casa dos quarenta, um pouco grisalho nas têmporas. Ligava bem com o cabelo curto e o fato de fino -corte. Dava-lhe um ar de poder. Estava disposta a apostar dinheiro em como o agente especial supervisor Pierce Quincy fazia conscientemente muitas coisas para realçar a sua imagem de poder. Todavia, não era preciso muito. Estava tudo nos olhos, no olhar firme e penetrante. Aquele homem vira algo mais que ela. Nada lhe escapava e, por instantes, sentiu inveja.

 

E um especialista em perfis psicológicos? indagou, embora já soubesse a resposta.

 

Faço alguma análise de perfis, é verdade. Também dou aulas e investigo várias matérias para a Unidade de Ciências Comportamentais.

 

Estuda assassinos em série.

 

Assassinos em série, violadores e abusadores de crianças retorquiu Quincy, com ar impassível; depois, acrescentou: Só coisas que Proporcionam sonhos muito agradáveis.

 

Que quer do Danny? Ele é suspeito de assassínio em massa. É diferente de um assassínio em série.

 

Muito bem, agente. Mais, ele é um assassino em massa juvenil, o Se também é bastante diferente. Infelizmente, nós não percebemos estas estinções, daí o meu novo trabalho de pesquisa.

 

Rainie esbugalhou os olhos.

 

Você está a investigar os tiroteios em escolas?

 

Correcto.

 

Anda de cidade em cidade, a investigar miúdos que assassinam outros miúdos?

 

Sim.

 

Rainie abanou a cabeça. Não sabia se havia de ficar espantada ou estarrecida.

 

De acidentes de viação, percebo eu. Rixas de bêbedos, cenas de facada, até ocasionais brigas domésticas. Mas o que se passou naquela escola ontem... Como é que consegue focar a sua atenção numa coisa daquelas a tempo inteiro? Como consegue evitar acordar aos gritos todas as noites?

 

Com o devido respeito, agente, tenho um pouco mais de experiência de crimes violentos do que você.

 

Rainie fez uma careta.

 

Obrigada. Palavras que eu já ouvi uma dúzia de vezes esta manhã. Endireitou-se na cadeira e pousou os pés no chão. Bem, não quero ser desmancha-prazeres, agente, mas duvido que consiga falar com o Danny. Os pais arranjaram-lhe um advogado de defesa de primeira que o indisponibilizou para todo e qualquer interrogatório. Apesar do facto de o Danny ter confessado por duas vezes e ter sido encontrado na posse das armas do crime, ele clama a sua inocência.

 

Acha que ele é culpado?

 

Acho que tenho um caso onde faltam encaixar várias peças.

 

É uma resposta cautelosa. Rainie sorriu-lhe com ar voraz.

 

Posso ser inexperiente, senhor agente especial, mas aprendo depressa.

 

Como?

 

Agente especial e supervisor. Não somos grande coisa em títulos.

 

Percebo. Quincy pareceu um pouco aturdido. Rainie tinha a sensação de que ele ainda não sabia muito bem o que fazer com ela ou como a tratar. A ideia agradava-lhe. Gostava de deixar os agentes federais pensativos. Afinal de contas, podia ser a única coisa de positivo que lhe acontecera naquele dia.

 

Já devia ter calculado. Ainda mal tivera tempo de pôr um ar superior e já o caçador do FBI partia para o ataque.

 

Não creio que o Danny O’Grady tenha armado o tiroteio na escola. E também não creio que você esteja certa disso, agente Conner. Acho que ainda estamos ambos com muitas dúvidas em relação ao que na realidade aconteceu ontem à tarde. E melhor ainda, relativamente à forma como vamos poder provar isso.

 

Quarta-feira, 16 de Maio, 11.43

 

Rainie conduziu Quincy até à escola.

 

Sentado no banco do passageiro, Quincy espreitava pela janela com um olhar que receava ser de incredulidade. Há muitos anos que não ia ao Oregon e esquecera-se da sua beleza estonteante. Atravessaram suaves pastos verdejantes, salpicados generosamente de vacas pretas e brancas, com casas rústicas vermelhas no topo, cercadas de amores-perfeitos. Sentia o cheiro da relva cortada há pouco tempo e o da maresia oceânica. Contemplava as montanhas elevadas que circundavam o vale, os cumes cobertos de abetos.

 

Camiões gigantescos passavam por eles, os poderosos motores a roncar. As pessoas acenavam a Rainie ao cruzarem-se com ela, e uma meia dúzia de labradores pretos, com as línguas de fora, arfava à janela. Mais à frente, toda a gente abrandou por causa de um tractor John Deere que se deslocava devagar pela estrada abaixo. Ninguém buzinou ao agricultor idoso nem lhe gritou para encostar. As pessoas limitaram-se a esperar e a acenar delicadamente quando por fim tiveram espaço para passar. Em resposta, o agricultor tocou na pala do boné de basebol vermelho desbotado.

 

E o Mike Berry disse Rainie, ao ultrapassarem o tractor verde, quebrando o silêncio pela primeira vez desde que entraram no carro-patrulha. Ele e o irmão são donos das duas maiores quintas de gado leiteiro das redondezas. O ano passado, compraram três quintas que haviam sido destruídas pelas inundações. Uma pertencia ao Carl Simmons, que tem sessenta anos e não tem família. No entanto, o Mike deu autorização ao Cari para ficar na sua casa até ao dia em que morrer, sem se preocupar com mais coisa nenhuma. Os irmãos Berry são boas pessoas.

 

- Nunca pensei que ainda existissem lugares destes observou Quincy, num tom franco.

 

Rainie virou-se para o olhar de frente.

 

Há poucos.

 

Concentrou-se de novo na condução. Quincy não voltou a importuna-la. Apercebeu-se de que ela ficara absorta em pensamentos, e ele próprio sentia-se cada vez mais incomodado. Apesar de toda a conversa nada de objectividade e profissionalismo, era difícil olhar para uma paisagem tão bonita e, ao mesmo tempo, encarar a selvajaria que tivera lugar na escola. Até ao momento, poucas coisas em Bakersville eram como imaginara.

 

Isso incluía a agente Conner. À parte todos os lugares-comuns, a maioria das agentes que conhecera tinha ombros largos, cintura grossa e um ar masculinizado. Não utilizaria esses termos para descrever a agente Conner. O seu metro e sessenta e cinco parecia bem trabalhado e com curvas agradáveis. Os longos cabelos acastanhados, soltos, emolduravam um rosto extraordinariamente belo, com maçãs de rosto salientes, queixo firme e lábios carnudos.

 

Depois havia os olhos. Nem azuis, nem cinzentos, mas de uma cor intermédia. Quincy imaginava que a cor devia mudar consoante o estado de espírito, tomando um tom aveludado quando estava contemplativa, e um tom azul-glacial quando furiosa. E se estivesse intrigada? Inclinaria ligeiramente a cabeça e os lábios separar-se-iam como se fosse dar um beijo?

 

Quincy afastou os pensamentos e mexeu-se, com algum desconforto, no assento. Não era normal nele pensar numa agente policial naqueles termos. Trabalho era trabalho. Especialmente nos dias que corriam.

 

Passou a análise para as qualidades de Rainie enquanto agente. Era inexperiente. O modo como lidara com o local do crime e o suspeito provavam isso mesmo. Mas não a achava estúpida. Na sua trigésima segunda avaliação, parecera-lhe uma pessoa teimosa, inteligente e de raciocínio analítico. Já percebera que era extremamente leal à sua comunidade e, por vezes, demasiado orgulhosa. Desconfiava que vivia para o trabalho, tinha poucos amigos íntimos e poucos interesses exteriores. Isso, todavia, era enganador. Quincy tentava desenhar o perfil da filha de uma alcoólica, que tanto podia ser o de uma bêbeda como o de uma viciada em trabalho. Uma vez que o perfil de Rainie não era, obviamente, o primeiro, presumiu que seria o segundo. Ela ainda tinha de lhe provar que estava enganado.

 

Em suma, Rainie era um tipo de agente diferente daquele que ele esperara encontrar. Provavelmente também diferente daquele que o detective Abe Sanders imaginara. Com o devido respeito para com o departamento do xerife de Bakersville, muitos dos agentes de pequenas cidades tinham boas capacidades pessoais, mas não eram as bolas mais brilhantes da árvore de Natal. Faziam uns vinte mil dólares por ano. Os seus casos eram mera rotina. Tinham tendência a assumir-se como donos dos seus minúsculos domínios, e as suas capacidades analíticas haviam ficado atrofiadas nas patrulhas dos jogos de futebol das sextas-feiras à noite.

 

Quincy era um agente federal arrogante, olhava com desdém para todas as outras forças policiais, e para os atrasados mentais do Ministério Público.

 

Rainie saiu da estrada rural e as propriedades agrícolas deram lugar a um bairro. Minutos depois, um edifício escolar branco surgiu à sua frent.e

 

Fita amarela isolava o parque de estacionamento, e pilhas e pilhas de ramos de flores ameaçavam soterrar a barreira divisória. Rainie encostou o carro-patrulha.

 

Você não esteve cá hoje, pois não? indagou Quincy calmamente.

 

Rainie abanou a cabeça, com os olhos ainda postos nas flores, balões e ursos de pelúcia. Uns sessenta centímetros de altura, por uns bons três metros de comprimento. Rosas, fitas cor-de-rosa e crucifixos minúsculos. Bilhetes feitos à mão a dizer: Adoramo-la, Miss Avalon; e um enorme coração vermelho com as palavras: Para a minha filha.

 

Os olhos de Rainie brilharam intensamente. A agente não conseguiu conter uma fungadela. Quincy sabia que ela fazia um enorme esforço para não chorar. Voltou-se para o improvisado memorial.

 

É uma coisa extraordinária disse ele, após alguns instantes. Por um lado, estes incidentes são tão trágicos que nos fazem recear o pior da humanidade. Que tipo de sociedade produz crianças que atacam outras crianças com espingardas de assalto? Por outro lado, estes incidentes são tão trágicos que fazem ressaltar a nossa humanidade. Os pequenos actos de coragem que as crianças recebem ao longo do dia, desde o pessoal do Serviço de Emergência Médica a entrar numa zona perigosa, aos professores que arriscam as suas vidas para apanhar um atirador. Desde o irmão que protege a irmã com o próprio corpo, à mãe que administra os primeiros socorros, pondo de lado o medo que sente pelo próprio filho para ajudar os outros. E por todo o mundo, o sentimento de solidariedade é o mesmo: as pessoas sentem necessidade de mandar flores, poemas, velas, qualquer coisa que lembre que a nossa cidade não está sozinha. Bakersville está nos seus pensamentos e nas suas orações.

 

Rainie limpou as lágrimas, depois, pestanejou várias vezes.

 

Ontem, foi feito o apelo de que o hospital precisava de mais sangue para os feridos. O supermercado Elks disponibilizou de imediato as suas instalações para a Cruz Vermelha. E, num ápice, formou-se uma fila de pessoas, com uma extensão de quatro quarteirões, dispostas a dar sangue. O supermercado mandou os empregados distribuir limonada a toda a gente. Algumas velhotas instalaram consolas de jogos para os miúdos. Houve pessoas naquela fila que esperaram duas ou três horas sem nunca soltarem uma queixa. Todas diziam que era o máximo que podiam fazer, foi essa a notícia de primeira página do Bakersville Herald. A referência ao tiroteio vinha numa caixa mais pequena, no canto inferior direito. Nem toda a gente concordou com a prioridade dada às notícias, mas julgo que deviam ter tido um motivo para isso.

 

O tiroteio tem a ver com um indivíduo. As consequências com a cidade.

 

Uma coisa dessas. Rainie desapertou o cinto. Se não se importa, agente Quincy, passei a maior parte do dia de ontem naquele edifício e agora só gostaria de resolver toda esta embrulhada. Como não tenho o perfil de agente experiente, há muitas coisas naquela escola que me doem ver.

 

Quincy seguiu-a até à escola. Já tinha o bloco de apontamentos a jeito e a mente a trabalhar a todo o vapor.

 

Antes disso, no seu gabinete, a agente Conner concordara em conduzir Quincy pelo local do crime, para que ele pudesse tirar notas e ela também pudesse actualizar as suas. Ele não diria que estavam a trabalhar em conjunto, mas antes que Rainie partilhava as suas preocupações relativas à inocência de Danny. Ela permitia que ele a seguisse como um semiobservador, um semiperito. É claro que me dissera, no instante em que ele tentou reivindicar a tutela do caso, que se reservava o direito de lhe cortar as pernas pelos joelhos. Nesse momento, olhara para os joelhos de Quincy com ar extremamente sério.

 

Este tinha a sensação de que a agente Conner não era conhecida por jogar limpo com os outros. Tinha alguma dose de perversidade de que ele gostava.

 

Agora percorriam o longo corredor que ia dar às traseiras da escola. Quincy reparou no chão coberto de pó e nas pequenas secções de azulejos cortados, que deviam estar manchados de sangue e haviam sido levados para o laboratório.

 

Segundo Rainie, a Brigada de Investigação acabara a primeira fase de processamento de dados nessa manhã. Realizar-se-iam visitas futuras, quando quisessem fazer a reconstituição completa dos acontecimentos desse dia. Depois, havia as pilhas de provas, que levariam meses a classificar. Quincy estimava que uma escola daquele tamanho teria centenas de pegadas para classificar e milhares de impressões digitais para confrontar. O relatório sobre o local do crime chegaria provavelmente aos seis ou sete volumes.

 

Foi aqui que encontrei o Walt e o Emery a assistir o Bradley Brown indicou Rainie, apontando para uma zona ensanguentada, no local onde os dois corredores principais se cruzavam. Olhou para Quincy com ar expectante.

 

O Brown estava consciente?

 

Estava. Perguntei-lhe se vira alguma coisa e ele respondeu que não. Ouviu os tiros, veio a correr por este corredor fora, virou à direita e pum!

 

Quincy voltou-se para o lado direito, onde o nível de violência era evidente pelos contornos de três corpos no chão.

 

Aconteceu tudo aqui?

 

É o que pensamos.

 

No corredor, não numa sala de aula.

 

Correcto.

 

Como é que o Danny chegou ao corredor?

 

Segundo o professor, não voltou à sala depois do almoço. Mister Watson disse que ficara curioso por saber o que se passara, mas, como o Danny raramente chegava atrasado, calculou que deveria ter havido um bom motivo para ele não ter regressado à sala.

 

Que horas eram?

 

A escola tem três períodos de almoço. O do Danny é o último, que acaba à uma e vinte. Os alunos têm cinco minutos para chegar à aula, hora essa assinalada com um toque de campainha à uma e vinte e cinco. O Danny não estava na aula à uma e vinte e cinco. À uma e trinta e cinco recebemos a notícia dos disparos.

 

Portanto, o Danny faltou à aula. E as raparigas aparecem no corredor, porque...

 

A Alice ia à casa de banho. A Sally era a companheira. No terceiro ano, os miúdos andam aos pares. O professor deu-lhes autorização para saírem.

 

E a outra vítima, a Melissa Avalon? Estava sozinha na Sala de Informática?

 

Sim, era a sua hora de almoço. Ela abre a sala para os estudantes usarem durante as horas em que a cafetaria está aberta; depois, fecha à uma e vinte.

 

E isso está no horário de trabalho dela, não? À uma e vinte, encontrava-se sempre sozinha na sala?

 

Rainie concordou com a cabeça, seguindo facilmente o fio de raciocínio de Quincy.

 

Dá cada vez mais a sensação de que era ela o alvo, não acha? A Sally e a Alice é que tiveram o azar de estar no sítio errado à hora errada.

 

De momento, estou convencido que sim, mas não nos precipitemos. Quincy entrou no gabinete do contínuo, franzindo o sobrolho perante a confusão. Deduzo que o agente Cunningham é um matulão.

 

Rainie esboçou um sorriso.

 

Ele deu o seu melhor. As coisas foram intensas.

 

A Becky O’Grady estava escondida ao fundo do gabinete?

 

Sim, mesmo ao fundo. Enrolada que nem uma bola. Parecia em estado de choque e não consegui que ela me respondesse a muitas perguntas. Percebo que a Sandy a levasse para a sala de emergência, mas o médico disse que era apenas uma questão de tempo.

 

Acha que ela viu o que aconteceu?

 

Não sei. O Luke falou com a professora dela esta manhã. Afirma que a Becky se encontrava na sala de aula na altura dos disparos. Mistress Lund acha que ela se separou do resto da turma durante a saída precipitada do edifício. Só ao fim de uns bons trinta ou quarenta minutos é que Mistress Lund se apercebeu de que a Becky desaparecera.

 

Por isso, agora temos duas questões. Quincy assinalou com dois dedos. Primeira, o que aconteceu ao Danny O’Grady entre o fim do almoço, uma e vinte, e quando finalmente você o enfrentou às...

 

Duas e quarenta e cinco.

 

Mais de uma hora sem informações dele. Quincy franziu o sobrolho.

 

Rainie esboçou um sorriso.

 

Não foi bem assim. O Shep esteve com ele. Diz que chegou à escola um pouco depois da uma e quarenta e cinco. Os alunos já haviam abandonado o edifício. Entrou para oferecer ajuda e encontrou o Danny, aturdido, a pegar nas armas. A pegar nas armas? Oh, gosto dessa. Como se o miúdo tivesse, pura e simplesmente, tropeçado nelas. Também não acredita no Shep, pois não? Ele não é a testemunha mais objectiva observou Quincy. Por agora, mantenho a minha análise. Não sabemos o que o Danny fez entre a uma e vinte e as duas e quarenta e cinco. A questão seguinte que temos é o que aconteceu à Becky O’Grady, desde a uma e trinta e cinco até à sua chegada, por volta da uma e cinquenta. Franziu novamente o sobrolho. Não gosto do facto de os dois alunos, de que não temos informações do que fizeram durante determinado período de tempo, serem, por acaso, irmãos. Não acredito em coincidências.

 

Não está a pensar que a Becky estava metida no caso, pois não? Rainie exibia um ar perplexo. Por amor de Deus, ela tem oito anos!

 

Já a interrogaram?

 

O Luke Hayes e o Tom Dawson vão tentar interrogá-la esta tarde. Não estou muito optimista. O Shep e a Sandy mostram-se muito hostis neste momento e não temos o direito de a questionar sem o consentimento dos pais. Duvido que consigamos tirar-lhe algo de novo.

 

Podíamos pedir ao delegado do Ministério Público para a citar como testemunha para a audiência preliminar.

 

Rainie encolheu os ombros, depois surpreendeu-o ao dizer:

 

Estudei essa hipótese esta manhã. Segundo o Rodriguez, ainda não há maneira de a compelir a testemunhar. Os pais podem simplesmente prepará-la para dizer que não se lembra de nada e não sairíamos daí. A minha ideia é que, se queremos tirar-lhe alguma coisa, temos de agir com calma. Quem sabe? O Shep e a Sandy devem estar a matutar no que realmente aconteceu ontem. Talvez até deixem o Luke fazer-lhe algumas perguntas esta tarde. Só que não acredito muito nisso.

 

Qual o grau de conhecimento que tem deles? indagou Quincy.

 

Bom.

 

Quincy fez um ligeiro aceno com a cabeça e deixou-a afastar-se. Rainie pusera as mãos na cintura, como se tentasse esboçar a cena. A posição fazia-a parecer mais nova, mais vulnerável. Olhava para os contornos do corpo de Melissa Avalon. Miss Avalon fora uma mulher bela, simpática e dedicada ao seu trabalho.

 

Sem dizer palavra, caminhou pelo corredor fora até às portas estilhaçadas. Quincy parou à porta que dava para a Sala de Informática.

 

O Danny saiu desta sala?

 

Saiu. Obrigou o Shep a sair às arrecuas pela porta, sob a ameaça das armas.

 

Ele empunhava a calibre vinte e dois e a calibre trinta e oito?

 

Sim.

 

Como é que o achou?

 

Agitado. Tenso. Rainie franziu o sobrolho ao pensar melhor na pergunta. Dava a sensação de haver alguma hostilidade em relação ao pai.

 

O simples facto de lhe estar a apontar as armas já é sinal disso. Rainie abanou a cabeça.

 

Está a referir-se à gravação do interrogatório, não está? A obsessão do Danny em ser esperto. Isso é que é muito estranho. O Shep não é o tipo de pai que se preocupa muito com as notas do filho. Um mau dia num campo de futebol, sim. Um mau dia num teste, bem, essas coisas acontecem. Não sei donde vinha aquela hostilidade.

 

O Danny tem amigos íntimos?

 

Ainda estamos a investigar.

 

Vamos precisar de uma lista completa de todos os estudantes que faltaram, com a referência ao facto de conhecerem ou não o Danny O’Grady, e se conseguem explicar onde estiveram.

 

Álibis para crianças murmurou Rainie, e revirou os olhos. Porquê as que faltaram?

 

Porque nada indica que o atirador tinha de estar nas aulas nesse dia. Além disso, eles também podiam estar envolvidos. Em vários tiroteios, outros alunos desempenharam papéis, quer incentivando as acções do principal suspeito, quer gozando o espectáculo.

 

O quê?

 

Em Bethel, no Alasca. O Evan Ramsey fez os disparos, mas dois colegas de catorze anos incentivaram-no. Um foi ao ponto de o ensinar a manusear a caçadeira. Ambos convocaram outros amigos na cafetaria para assistirem ao ”espectáculo”.

 

Maravilhoso...

 

O Luke Woodham também parece ter sido influenciado por outros miúdos. Neste caso, pergunto-me se é daí que vem a obsessão com o ”sou esperto”. Parece uma expressão ensaiada e excessivamente veemente. Ou é uma expressão que ele usa para compensar dúvidas genuínas acerca da sua inteligência, ou é uma capa para algo mais. Algo que ele ainda tem medo de dizer. Como estava ele depois do tiroteio?

 

Distante. Absorto. Soluçou um pouco quando ouviu a voz da mãe. Depois, adormeceu que nem um bebé no banco traseiro do carro-patrulha.

 

Quincy fez um ligeiro aceno com a cabeça, nada surpreendido com a descrição.

 

Ele está a tentar dissociar-se, distanciar-se dos acontecimentos até conseguir lidar com eles. É uma reacção normal para qualquer tipo de trauma. A questão é a de saber quanto tempo durará essa dissociação e como é que ele reagirá quando o espírito começar a assimilar o que aconteceu.

 

- Ele está sob vigilância, para prevenir um eventual suicídio prontificou-se Rainie a informar. E o procedimento normal para um caso destes.

 

Não é má ideia. Infelizmente, o Danny deve estar a sofrer de distúrbio de stresse pós-traumático e agora irá passar pelos vários sintomas a ele associados. Um dia, talvez fale de tudo com todos os pormenores, depois, é possível que no dia seguinte se vá abaixo, entre em pranto. E capaz de, por vezes, parecer frio, ao repetir os acontecimentos do dia vezes sem conta. Provavelmente recusar-se-á a chamar as vítimas pelos nomes. Tudo isto pode ser interpretado de uma maneira ou de outra por pessoas bem-intencionadas. E nenhuma das interpretações significa que ele é culpado. Quer dizer apenas que está a passar por uma situação traumática, quer como autor do crime quer como testemunha, o espírito tenta lidar com essa situação. Esse facto, todavia, pode perder-se rapidamente.

 

Rainie soltou um suspiro.

 

Não sei. Talvez estejamos a complicar demasiado as coisas. Por um lado, há alguns factos no tiroteio que não fazem sentido. Por outro, qual é o tiroteio que faz sentido? E que outra pessoa poderia ter feito os disparos? Todos os alunos presentes nesse dia encontravam-se nas aulas aquando dos disparos. Os dois únicos alunos com lapsos de tempo são o Danny e a Becky, e nenhuma destas hipóteses é atraente. Talvez, no fim de contas, seja muito difícil que tenha sido uma criança a fazê-lo, por isso quero concentrar-me nas perguntas porque é mais fácil do que nas respostas.

 

É bom que se concentre nas perguntas observou Quincy. A sua tarefa é essa.

 

Bem, não é uma boa tarefa hoje, agente Quincy. Talvez amanhã seja, mas não estou a gostar particularmente dela agora.

 

Rainie, com ar perturbado, dirigiu-se para as portas laterais. Quincy não ficou surpreendido quando ela parou junto às janelas partidas e olhou para as suaves colinas verdejantes e o sol da tarde. ”Está a tentar recompor-se, pensou. Às vezes, ele próprio também tinha de fazer isso.

 

Agachou-se e inspeccionou a zona do tiroteio mais de perto. Reparou na posição em que os corpos se encontravam e tentou visualizar em que direcção é que haviam caído. Depois, examinou a ombreira da porta da Sala de Informática de Melissa Avalon em busca de buracos de bala.

 

Dez minutos depois, já estava a tirar notas. Agora tinha muitas perguntas para o médico-legista.

 

Voltou-se então para Rainie, que ainda se encontrava junto das portas estilhaçadas. Já não olhava para o exterior, mas para os contornos do corpo de Melissa Avalon. Era impossível descortinar o que os seus olhos diziam, as feições como que petrificadas.

 

Quincy perguntou a si próprio quantas horas de sono é que Rainie Conner tivera na noite anterior. E, por instantes, esteve tentado a perguntar-lhe, a saltar por cima da linha e a entrar no espaço dela, porque também ele já fora o agente inexperiente e tivera homicídios entre mãos e percebera como algumas imagens ficam na nossa cabeça muito depois de apagarmos as luzes.

 

Algumas noites acordara a chorar.

 

Mas isso não vinha ao caso.

 

Já acabei disse ele.

 

Rainie conduziu-o para fora do edifício.

 

Quarta-feira, 16 de Maio, 12.52

 

Fora do edifício, Rainie e Quincy encontraram o director da escola, Steven VanderZanden. Um homem de razoável constituição física, com rosto expressivo e olhos brilhantes, de ar abatido, observava as rosas cor de sangue empilhadas contra a vedação. O vento fazia levantar os seus cabelos, escuros e ralos, e pressionava o fato cinzento contra o corpo. Ele parecia não dar por isso. Percorria a pilha de flores, dando alguns retoques nos ramos, de modo a que os nomes se vissem com maior clareza; depois, afastou para o lado dois ursinhos de pelúcia, para que um retrato emoldurado de Melissa Avalon fosse visível.

 

Rainie e Quincy aproximaram-se dele em silêncio. O director VanderZanden e a mulher eram relativamente novos em Bakersville, tendo-se mudado para a região três anos antes, quando VanderZanden aceitara o lugar na escola. Como não tinha filhos, Rainie só o conheceu no último Verão, de passagem, numa recepção da Câmara. VanderZanden impressionara-a com o entusiasmo que demonstrava pelos alunos e com a afinidade com os respectivos pais. Não havia projecto demasiado grande aos seus olhos, nem aluno demasiado insignificante para a sua atenção. Estivera a falar às risadinhas, como uma rapariguinha de escola, sobre o facto de ter conseguido um subsídio federal para a primeira Sala de Informática de Bakersville e de mal ver a hora de navegar na Internet.

 

Ele também lhe parecera um pouco galanteador, mas já tinha uns copitos de vinho a mais quando ela o encontrara e, nessa altura, já toda a gente estava muito descontraída.

 

Director VanderZanden. Rainie apertou-lhe a mão. Ele exibia um ar preocupado. No dia anterior, ao fim da tarde, voltara à escola para fazer um balanço dos prejuízos e saber quando é que o edifício estaria de novo à sua disposição. Com apenas um mês para fechar para as férias de Verão, ninguém sabia o que fazer com as turmas. Podiam levar as crianças de autocarro até à vizinha Cabot, mas essa cidade ficava a cerca de quarenta minutos de distância, e, depois de tudo o que acontecera, os pais queriam manter os filhos perto de casa.

 

Como está, senhor director? Rainie fez as apresentações entre VanderZanden e Quincy. Ainda não sabia muito bem o que pensar da presença do agente federal, mas, até ao momento, estava a provar ser menos irritante do que o detective estatal.

 

É perito neste tipo de coisas? perguntou VanderZanden, dirigindo o olhar para o distintivo de Quincy. Pode dizer-me o que aconteceu na minha escola?

 

Não creio que se possa dizer que há peritos neste tipo de crimes.

 

Talvez devêssemos ter instalado detectores de metais. VanderZanden voltou-se para o edifício. Depois do tiroteio de Springfield, os educadores do Oregon foram avisados. Mas, mesmo nessa altura, pensei que isso se destinava às escolas secundárias. Temos alunos de infantário aqui. Não quis que eles começassem a sua experiência educativa a atravessar gigantescos postos de segurança e a ser revistados por guardas armados. Que tipo de mensagem é que isso transmitiria?

 

Pessoalmente, não acredito em detectores de metais declarou Quincy, mas acrescentou antes que o director tivesse tempo para ripostar: Só transformariam os alunos em melhores alvos, originando longas filas em frente do edifício.

 

Oh, isso é ridículo! VanderZanden abanou a cabeça e expeliu um suspiro de pura frustração. Estive a pé toda a noite a receber telefonemas de pais desvairados a quererem saber o que fazer. Os professores estão assustados, os membros do conselho directivo, destroçados. Ainda por cima, os pais da Alice pediram-me para fazer o elogio fúnebre. Claro que o farei, é uma grande nonra. No entanto... Entramos no mundo da educação, alimentamos a ideia de ver os nossos alunos crescer, talvez até de assistir ao seu casamento ou de admirar o seu primeiro filho. Como é óbvio, não esperamos fazer o seu elogio fúnebre. Sabia que os pais da Sally e da Alice vão pagar as custas do funeral com o dinheiro do fundo escolar delas?

 

VanderZanden, naturalmente, não esperava resposta. Virou-se para compor outro ramo de flores. Quincy e Rainie trocaram olhares. Limitaram-se a deixar o homem falar. Pelos vistos, tinha umas coisas a dizer.

 

As flores começaram a chegar logo de manhã acrescentou VanderZanden, ao fim de alguns instantes. Vi as fotografias enviadas às outras escolas, por isso esperava algo parecido. Cartões de condolências de todos os pontos do país. Ursinhos de pelúcia e balões de centenas de estranhos. Voltou-se para eles e, novamente num tom zangado, disse: Recebi telefonemas de dois outros directores que passaram por uma situação destas e de meia dúzia de peritos com experiência nesta área. É como se tivéssemos entrado para um clube! Quem me dera que estivéssemos sozinhos, que fôssemos o único sítio onde isto alguma vez aconteceu. Em vez disso, somos o quê? A décima primeira, décima segunda, décima terceira escola a passar por isto? Bolas, já devíamos estar preparados!

 

Apertou o nariz, tentando controlar-se, mas não estava a conseguir. seu olhar fixou-se de novo na fotografia de Melissa Avalon. Apertou o nariz com mais força.

 

Desculpem. Foram umas vinte e quatro horas muito longas.

 

Tudo bem disse Rainie. Esteja à vontade. Ontem à noite, precisava de tempo. Agora, preciso de férias. Estou certo de que têm mais perguntas a fazer-me, apesar de já ter contado ao detective Sanders o pouco que sabia.

 

O detective Sanders? indagou Rainie com brusquidão. As luzes de aviso acenderam-se na sua cabeça. Não as ignorou. O que é que contou ao detective Sanders?

 

Pouca coisa. - VanderZanden encolheu os ombros, apanhado de surpresa pelo tom de voz da agente. Encontrava-me no meu gabinete quando ouvi os disparos. Dirigi-me para a entrada principal para ver o que se passava e ouvi alguém a gritar. A seguir, dispararam os alarmes de incêndio e toda a gente começou a correr para a porta. Na altura, julguei tratar-se de algo com pouca importância. Um aluno acendera alguma coisa no corredor e o fumo fizera disparar os alarmes. Ou alguém deitara algumas bombinhas de Carnaval como travessura. Essas coisas acontecem.

 

”Só percebi que se tratava de algo sério quando vi o rosto de Mistress McLain, a professora do sexto ano. Estava branca como a cal e tinha as mãos a tremer. Pedi para se acalmar, que era apenas um exercício, e então ela olhou para mim e disse: ”Acho que alguns alunos foram atingidos. Alguém disparou sobre nós. Julgo que ainda cá está.” Mesmo assim, só quando vi a perna ensanguentada do Will, no parque de estacionamento, é que percebi que ela tinha razão: alguém abrira fogo dentro das instalações da nossa escola.

 

Ouviu alguém falar no nome do Danny? indagou Quincy. VanderZanden abanou a cabeça.

 

Ouvi a Doric gritar que um homem vestido de preto a queria levar. É claro que a Dorie só tem sete anos e já anteriormente tivemos problemas com a sua imaginação. Certa vez, conseguiu convencer toda a turma do segundo ano de que não podiam ir à casa de banho, porque havia lá pequenos diabretes à espera de os comer. Não imaginam a confusão que é quando vinte e um miúdos de sete anos se recusam a ir à casa de banho. Houve pais que me telefonaram durante semanas.

 

Havia muitos miúdos por perto quando falou do ”homem vestido de preto”? perguntou Rainie.

 

Estava toda a gente. Evacuáramos toda a escola para o parque de estacionamento principal, como especificado no nosso manual de exercício de incêndio.

 

Rainie soltou um suspiro exasperado.

 

Bem, isso explica o surto de respostas dos interrogatórios murmurou para Quincy. Uma miúda histérica e duzentos e cinquenta espíritos impressionáveis. Voltou-se novamente para o director VanderZanden. Tem a certeza de que nenhum dos professores viu nada. E Mistress McLain? Não acredito que houvesse alguém aos tiros no corredor e que ninguém desse por isso.

 

Não creio que o atirador estivesse no corredor. Um dos professores disse que parecia que os disparos vinham de uma sala no extremo da ala oeste. Talvez da Sala de Informática. Sei que do sítio onde me encontrava, na entrada principal, não conseguia ver nada.

 

Rainie olhou para Quincy. Este fez um ligeiro aceno com a cabeça, partilhando a ideia dela. O assassino começara com Miss Avalon, depois virara-se, dando de caras com Sally e Alice. Também disparara sobre elas e, em seguida, refugiara-se na Sala de Informática, agora vazia. Isso explicaria a falta de testemunhas, assim como o padrão de disparos ao acaso.

 

Que nos pode dizer acerca do Danny O’Grady? perguntou Quincy a VanderZanden. Era bom aluno? Dava-se bem com os outros?

 

O Danny é bom aluno. Entrou várias vezes para o quadro de honra. Foram muito raras as ocasiões em que foi mandado ao meu gabinete com problemas disciplinares. A Melissa... Miss Avalon dizia-me, no outro dia, que nunca vira ninguém tão bom em informática. Tem um talento natural para computadores.

 

E inimigos? insistiu Quincy. Os outros alunos embirravam com ele? Era considerado popular pelos colegas ou geralmente o alvo das suas partidas?

 

Rainie fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabeça ao ouvir a pergunta. Devia tê-la feito na noite anterior. Com razão ou sem ela, a maioria dos atiradores em escolas costuma sentir-se perseguida pelos colegas. Rainie chegara a ler algures que esses homicídios não eram muito diferentes dos suicídios de adolescentes: o miúdo menos popular sente uma dor insuportável dentro de si e decide fazer algo para se livrar dela. Todavia, no caso de um tiroteio numa escola, o miúdo não só planeia acabar com a sua própria vida, mas também resolve levar consigo alguns dos seus opressores. É o que acontece com os adolescentes: apanham sentenças nem sempre ajustadas ao crime cometido.

 

VanderZanden parecia matutar na pergunta de Quincy. Por fim, abanou a cabeça.

 

Não me apercebi de nada disse, depois acrescentou, com alguma relutância: Sou um adulto e uma figura da autoridade. Por outras palavras, embora tente manter-me em contacto com os meus alunos, continuo, com certeza, a não ser o melhor juiz do que realmente se passa entre vinte adolescentes durante meia hora de recreio.

 

E amigos íntimos do Danny que nos pudessem dar mais informações?

 

Não creio que o Danny tenha amigos íntimos. é um miúdo calado, fechado consigo mesmo. Um pensamento atingiu VanderZanden de súbito. Houve um incidente desse género, há pouco tempo...

 

Quincy e Rainie arrebitaram as orelhas.

 

Aquele rapaz mais velho, o Charlie Kenyon. Conhece-o?

 

Oh, claro. E, como informação suplementar para Quincy, Rainie acrescentou: O Charlie é filho do nosso antigo presidente. Tem dezanove anos agora, demasiado dinheiro no bolso e demasiado tempo livre. Mandaram-no para uma escola militar, há quatro anos, mas voltou na Primavera passada, completamente destrambelhado. Agora anda armado em gangster. Vagabundeia por sítios onde não o querem ver nem pintado, conduz bêbedo fim-de-semana sim, fim-de-semana não. Já o detivemos uma meia dúzia de vezes, mas é sempre por má conduta e o pai arranja-lhe de imediato dinheiro para a caução e advogados de renome. Não creio que o Charlie se reforme tão cedo.

 

VanderZanden fez um ligeiro aceno com a cabeça, bastante emocionado.

 

É o Charlie. Há dois meses atrás começou a rondar a escola fora de horas. Os professores costumavam vê-lo, recostado, da parte de fora da vedação, a falar com os miúdos no recreio. Como se encontrava do lado exterior da vedação, nada podíamos fazer. Então, um dia, Mistress Lund viu o Charlie dar ao Danny um cigarro através da vedação. Tirou-lhe imediatamente o cigarro da mão e repreendeu-o, mas não pôde fazer nada no que toca ao Charlie. Enviámos um bilhete aos pais do Danny e nunca mais o voltámos a apanhar a fumar, mas continuámos a ver o Charlie nas redondezas. Não sei por que motivo é que ele insistia em aborrecer-nos. Fazia mais sentido que estivesse interessado na escola secundária.

 

O Charlie conhecia Miss Avalon? indagou Quincy.

 

Não creio. Mudou-se para a cidade só no ano passado, quando conseguimos o subsídio federal. Por outro lado... O director VanderZanden corou. Olhou para Rainie com uma expressão que denotava algum embaraço.

 

Ela era muito bonita completou Rainie pelo mudo director. Muito, muito bonita.

 

E uma óptima professora acrescentou VanderZanden de imediato, mas os olhos escuros adquiriram um ar melancólico. Melissa Avalon fora uma mulher bonita.

 

Quantos anos tinha? indagou Rainie.

 

Vinte e oito.

 

Suficientemente jovem e bonita para atrair um adolescente de dezanove anos concluiu Rainie, e olhou para Quincy. Parecia mergulhado em pensamentos.

 

Miss Avalon mudou-se para Bakersville recentemente?

 

O Verão passado. Contratámo-la em Agosto. Já havíamos perdido a esperança de receber o subsídio, depois lá acabou por vir. Sabe como é o pessoal do governo.

 

Donde veio Miss Avalon?

 

Acabara de tirar o mestrado na Universidade Estatal de Portland.

 

Este foi o primeiro emprego dela?

 

O seu primeiro emprego como professora a tempo inteiro. Fazia substituições na zona escolar de Beaverton antes disso. Foi uma das razões por que a contratámos. VanderZanden lançou-lhes o olhar sério de um funcionário veterano. Temos um orçamento muito apertado e os professores novos são mais baratos do que os experientes.

 

Sabe alguma coisa da vida particular dela? indagou Rainie. Onde a família vive, qualquer coisa?

 

VanderZanden hesitou. Exibia novamente um ar confiante e, evitando o olhar fixo de Rainie, respondeu:

 

Julgo que os pais vivem na zona de Portland.

 

E relacionamentos amorosos passados? Um antigo namorado? Um galã que andasse a persegui-la?

 

Acho... acho que devia perguntar esse tipo de coisas aos pais dela. Não é de bom tom estar a comentar as vidas privadas do meu pessoal docente.

 

Director VanderZanden, não temos muito tempo.

 

Os telefonemas são rápidos, agente disse o director, com firmeza. É a vantagem da vida moderna.

 

Rainie franziu o sobrolho, não gostando da súbita falta de cooperação do director, mas, antes que pudesse continuar, Quincy tomou as rédeas do interrogatório.

 

E a relação do Danny com Miss Avalon? Davam-se bem? Tinha alguns problemas na turma?

 

Oh, não! exclamou VanderZanden, num tom enfático. É isso que não consigo entender. Teria jurado que Miss Avalon era a professora favorita do Danny. Não há dúvidas relativamente ao facto de ele adorar a Sala de Informática e de ser um dos alunos que mais navegava na Internet. Antes, durante e depois da escola. Dava a sensação de que nunca saía da sala. Por vezes, Miss Avalon ficava até mais tarde por causa dele.

 

Na Internet? interrompeu Rainie. Sabe o que é que ele fazia, que sites visitava?

 

Não sei bem. Só sei que visitava sites da Net para fazer consultas.

 

Entrava em salas de chat?

 

Provavelmente. Miss Avalon tinha os computadores configurados de modo a não permitir o acesso a sites pornográficos aos alunos. Tirando isso, eram livres de navegar por onde quisessem. O objectivo principal era estimular-lhes o gosto pelos computadores.

 

E jogos? indagou Quincy. Alguns em especial?

 

Não sei. Com toda a sinceridade, a única pessoa que poderia responder a isso seria Miss Avalon.

 

Rainie fez um gesto de concordância com a cabeça, ao mesmo tempo que mordiscava o lábio inferior. Danny adorava a Internet. Era um dado importante. Um utilizador hábil consegue navegar por todo o lado e obter todo o tipo de informações. O atirador de Springfield, Kip Kinkel, usara a Internet para aprender a construir bombas e a montar armadilhas explosivas. Pouco antes de serem assassinados, os pais haviam até comentado com amigos que estavam felizes por o seu filho um tanto problemático se interessar por computadores. Finalmente, algo não violento...

 

Também significava que Danny poderia ter estado exposto a uma série de tipos excêntricos e irresponsáveis. Esqueçamos Charlie Kenyon. Danny era um miúdo jovem, algo problemático, cuja família passava por tempos difíceis. A sua vulnerabilidade não teria limites.

 

Precisamos de passar esses computadores a pente fino murmurou Rainie.

 

O detective Sanders já os tem. Ele não lhe disse?

 

Oh, conhece o detective Sanders. É tão eficiente... Deve ter-se esquecido. Rainie esboçou um sorriso doce para VanderZanden, embora o sarcasmo não tivesse passado despercebido a Quincy.

 

O Danny ficava muitas vezes na escola até tarde, depois das aulas? Quincy voltava à linha original do interrogatório.

 

VanderZanden olhou de relance para Rainie. Esta encolheu os ombros.

 

Está a decorrer uma investigação criminal. Tudo se vai saber mais cedo ou mais tarde.

 

VanderZanden soltou um suspiro. Tinha, de novo, um ar cansado e abatido. Ainda iria ter muitas noites sem dormir, cheio de dúvidas sobre a melhor forma de servir os alunos.

 

Os pais do Danny têm passado por dificuldades matrimoniais.

 

A Sandy arranjou um novo emprego disse Rainie, de pronto, a Quincy. Gosta dele, mas são muitas horas. Primeiro, o Shep não queria que ela trabalhasse, muito menos se isso implicasse ter de fazer o jantar.

 

Estão separados?

 

Nada disso. São católicos.

 

Oh, percebi.

 

A Sandy veio cá, um dia, para falar com os professores do Danny e da Becky explicou VanderZanden. Disse que havia muita tensão em casa e que sabia que isso era péssimo para os miúdos. Queria que os professores percebessem o que se passava e tentassem ajudá-los. A Becky teve, certamente, mais faltas este ano. E o Danny teve uns... problemazitos.

 

O fumar disse Rainie, de imediato. E...

 

Há três semanas, o Danny chegou à escola um pouco agitado. Não se lembrava da combinação do cacifo e havia algo nele que nos escapava. Começou a dar murros na porta e a gritar que detestava o cacifo e a escola, e que tinha de se lembrar de uma coisa, quando toda a gente sabia que ele era estúpido...

 

Estúpido? interrompeu Quincy. Ouviu-o dizer que era estúpido?

 

Oh, sim, eu estava lá, agente. Eu e o Richard Mann é que o dominámos. O Danny não parava de gritar: ”Estúpido, estúpido, estúpido!” Fiquei preocupado com ele.

 

Quincy olhou para Rainie. Esta encolheu os ombros. Também não sabia qual a origem disso, mas Danny parecia ter um problema com a inteligência.

Estava no quadro de honra? perguntou Quincy, de novo, ao director.

 

Estava.

 

Considerava-o um bom aluno? Os professores estavam satisfeitos com o seu desempenho?

 

Estavam. Não era o melhor nalgumas disciplinas, mas quando havia algo que o interessasse... Não creio que existisse alguma coisa que ele não conseguisse fazer num computador.

 

Director VanderZanden, alguma vez ouviu os pais chamarem-lhe estúpido?

 

A Sandy? Nunca. Adora os filhos. E quanto ao Shep? VanderZanden franziu o sobrolho. Digamos que estava mais preocupado com o tamanho dos músculos do filho do que com as suas capacidades cerebrais.

 

O Danny praticou muitos desportos fora da escola?

 

O Shep fê-lo experimentar o futebol. Entrou na equipa, mas o desporto não é o forte do Danny. É pequeno para a idade, um pouco desajeitado. Infelizmente, o pai consegue ser bastante... convincente. Queria que o filho jogasse futebol, por isso o filho jogava futebol. Todavia, o Danny passava a maior parte do tempo a aquecer o banco. Era um jogador medíocre. Acho que devia falar com o orientador escolar, o Richard Mann, sobre estas coisas. Encontrou-se com o Danny algumas vezes depois do incidente do cacifo e deve saber muito mais sobre o seu estado de espírito.

 

É o que iremos fazer com toda a certeza disse Rainie ao director. Lembrava-se de Richard Mann do dia anterior. Fora de uma extrema eficácia ao instalar o posto de primeiros socorros e ao mandar retirar os carros do parque de estacionamento. Também se recordava do facto de ele ainda ser novo, o que a levou a pensar numa possível relação entre ele e a bela Miss Avalon. Mais matéria para investigar.

 

Vamos precisar de uma cópia da ficha escolar do Danny disse Rainie ao director. Os boletins, as participações disciplinares, tudo.

 

Não sei se...

 

Podemos arranjar um mandado de busca. Só lhe estamos a pedir para pouparmos a todos algum tempo.

 

Tudo bem, tudo bem. Há ainda muita coisa a fazer... VanderZanden olhou para o edifício da escola. As portas principais encontravam-se fechadas, o interior tinha um ar ensombrado e parecia prenunciar algo de muito ruim. A fita amarela da polícia ainda se estendia ao longo do perímetro do parque de estacionamento e por entre a malha da vedação, enquanto no passeio ainda se viam manchas vermelho-escuras: sangue dos alunos feridos que se haviam agarrado às mãos de vizinhos, enquanto aguardavam a chegada dos helicópteros do Serviço de Emergência Médica. Era impossível não se olhar para o edifício e não se pensar em morte.

 

Sei que em Columbine teve de se remodelar completamente o interior da escola secundária murmurou o director. Depois do tiroteio arrancaram a alcatifa, pintaram de novo as paredes, mandaram fazer novos cacifos. Mudaram até o tom do alarme de incêndio, que tocara durante horas nesse dia. E a biblioteca então foi uma tragédia: pura e simplesmente, já não existe. Instalaram uma nova fiada de cacifos na entrada e arranjaram uma caravana para alojar os livros.

 

Olhou para Rainie e Quincy. Estes já não vislumbraram qualquer brilho tremeluzente nos olhos dele.

 

Não sei ainda muito bem o que tenho que fazer aqui. E os estragos não são muitos, mas ainda são alguns. Quero que os miúdos se sintam novamente seguros, mas, nos tempos que correm, as escolas podem ser lugares assustadores. Quero que o edifício tenha um ar convidativo, mas também não quero fingir que nada aconteceu. Desejo que a vida continue, mas não quero que nos esqueçamos do sucedido.

 

”Não sei como é que vou fazer tudo isto. Quando andava no estágio para director, a maior ameaça que conseguíamos imaginar era um tremor de terra. Nas escolas de Los Angeles ainda não se realizavam exercícios de simulação de tiroteio. Nem sequer ainda se imaginava que as escolas se tornassem locais de hostilidades entre gangues rivais e de rixas de rua. Agora temos professores e alunos a morrer nos corredores. Pequenas cidades, grandes cidades, pretos, brancos, estrato social elevado ou baixo, nada disso parece importar. E enquanto o ser humano que há dentro de mim quer lutar contra isso e se recusa a aceitar, o director que há em mim sabe que pouco pode fazer. Tenho um compromisso para com os meus alunos. Se é este o mundo em que vivemos, então é este o mundo para o qual tenho de os preparar. Mas como? Não sei muito bem se estou preparado para este mundo. Miss Avalon não estava.

 

Tratou do acompanhamento psicológico? indagou Quincy, num tom afável.

 

Claro. Vários psicólogos infantis estão prestes a chegar à cidade.

 

Não me referia apenas a acompanhamento psicológico para os alunos, mas também para si e o seu pessoal.

 

Claro, claro. A atenção do director VanderZanden centrou-se novamente no memorial. O olhar pousou no póster que dizia: Adoramo-la, Miss Avalon.

 

Sentiu um tremor por todo o corpo. De súbito, Rainie teve a sensação de que diante de si estava um homem pequeno, com ar débil e vulnerável, que envelhecia a olhos vistos.

 

Ela estava a tentar ajudá-lo disse VanderZanden para ninguém em particular. Tinha um grande carinho pelos alunos, especialmente pelo Danny. Nem imaginam o tempo que ela passava com ele, todas aquelas horas depois das aulas, porque sabia que ele não queria ir para casa. Ensinou-lhe alguns rudimentos de programação, ria com ele de algumas piadas que encontravam na Internet. Era tão paciente, tão carinhosa... As vezes, sinto um ódio tremendo em relação ao Danny O’Grady. E isso faz-me sentir pior. Qual é o director que odeia um aluno? Qual é o director que tem medo de um aluno?

 

O director VanderZanden, obviamente, não esperava quaisquer respostas. Endireitou os ombros. Encaminhou-se para o carro, enquanto as nuvens encobriam, finalmente, o Sol, e os primeiros pingos de chuva primaveril começaram a cair.

 

Após alguns instantes, Rainie disse:

 

Acho que ele precisa de ajuda.

 

Você também precisaria, se tivesse acabado de perder a mulher que amava.

 

O director VanderZanden é um homem com um casamento feliz!

 

Não quando estava com a Melissa Avalon ripostou Quincy.

 

Quarta-feira, 16 de Maio, 16.46

 

Sandy O’Grady continuava a pensar que Danny estava morto.

 

As pequenas comunidades tinham os seus rituais, as suas formas estabelecidas de lidar com os acontecimentos mais importantes da vida. Quase todos envolviam comida. Quando alguém se casava, fazia-se o pão favorito da noiva e colava-se com fita adesiva a receita na forma que ela iria usar na sua futura casa. Quando alguém tinha o primeiro filho, faziam-se quantidades astronómicas de docinhos cortados em forma de pequenas botas. Num churrasco de final de curso, fazia-se a afamada salada de feijão da mãe. Na corrida anual para enfardar feno, antes que as chuvas do Oregon estragassem a colheita, costumava fazer-se um gelado de cereais, tomate, açúcar e sal-gema. Também se podia misturar chocolate.

 

Quando alguém morria, exibiam-se os guisados. O pernil de porco e as batatas do pai eram um espanto. O taco de sete camadas da avó era divinal.

 

Assem um pernil e um peru, temperem-nos com requinte e sirvam-nos com muito Kleenex e um ombro para a viúva se encostar. Depois, voltem dois dias mais tarde, com um tacho de bolinhos de chocolate ou um par de tartes de maçã. Mais cedo ou mais tarde, até a mais estóica das sobreviventes procuraria consolo no açúcar. É simplesmente um meio de vida.

 

Na noite anterior, à porta dos O’Grady, aparecera o primeiro guisado. Vinha acompanhado de um bilhete que dizia: Com os mais sentidos pêsames. Não estava assinado. Sandy apercebeu-se então dos dias terríveis que tinha pela frente. Os vizinhos entendiam o seu sofrimento. Alguns até apresentavam as condolências. Porém, nessas circunstâncias, ninguém sabia o que fazer.

 

Quando foi transportado para o centro de detenção de menores de Cabot County, Danny usava um colete à prova de bala.

 

A polícia passara a noite em casa dos O’Grady. Homens que Sandy e Shep nunca tinham visto antes, de ar carrancudo e anoraques azul-marinho com as insígnias da Brigada de Investigação, esquadrinhavam o quarto de Danny. Puxaram a cama para o lado e esvaziaram o roupeiro.


Vasculharam a secretária, desmontaram o mobiliário e encaixotaram tudo aquilo em que ele tocara. Esventraram o quarto de Danny O’Grady, procuraram impressões digitais por todo o lado, depois saíram com o mesmo ar grave com que tinham entrado.

 

Becky escondera-se no roupeiro.

 

Os pais de Sandy apareceram. Abraçaram-se a Sandy a chorar. Tiraram Becky de dentro do roupeiro e não conseguiram conter o choro. Lançaram um olhar duro a Shep, para que ele soubesse que tudo o que acontecera era culpa sua. A mãe de Sandy dirigiu-se então para a cozinha e pôs-se a cozinhar. O pai sentou-se no sofá e fez o melhor que pôde para não dar parte de fraco.

 

O padre da paróquia também fizera uma visita. Sentou-se a conversar com Sandy e Shep. Lembrou-lhes que o Senhor não dava fardos a quem não os conseguisse carregar. Asseverou-lhes que, com fé, conseguiriam ultrapassar aquele tempo de dor. Falou de Danny no passado, o que, ao princípio, pareceu natural, mas quase pôs Sandy fora de si.

 

Danny não estava morto. Danny não era um fardo. Era um rapaz confuso e assustado, que jazia agora num cinzento centro de detenção com grades nas janelas. Encontrava-se em estado de choque, como os médicos haviam dito a Sandy e Shep, quando o tentaram visitar de manhã. Enroscado sobre si mesmo, os braços apertados à volta dos joelhos, como se estivesse tão cansado da vida que tentasse voltar para o ventre materno.

 

Não, ainda não o podiam ver. Precisava de mais tempo e mais sono. Talvez no dia seguinte.

 

Sandy não queria deixá-lo. Não queria voltar para uma casa que, como que por artes mágicas, fazia aparecer guisados, nem para junto de uma mãe que não parava de fazer tartes atrás de tartes, como se uma crosta bem feita fosse o segredo para uma vida saudável. Não queria passar nem mais um minuto com o padre que a casara com Shep e que agora os fitava com uma solene compaixão, geralmente reservada aos leprosos. Não queria olhar para a garagem, onde, de manhã cedo, alguém escrevinhara Assassino com tinta vermelha.

 

Danny não era um assassino. Era uma criança. Era seu filho e a única coisa que queria era ter novamente a família toda reunida! Queria ser uma mãe guerreira, uma exterminadora de todos os dragões para que os filhos pudessem estar em absoluta segurança.

 

Só que ninguém lhe conseguia dizer que dragão devia matar. Ninguém lhe conseguia explicar o que acontecera na tarde do dia anterior, que transformara a filha de oito anos numa alma penada e o filho de treze num assassino em massa.

 

Agora, o advogado de Danny, Avery Johnson, falava com eles na cozinha. Tinham acabado de chegar da audiência preliminar perante o juiz do tribunal de menores, onde Sandy ficara chocada com a informalidade dos procedimentos. A sala era pouco diferente de uma sala de aula de uma escola secundária, com as suas paredes brancas lisas e o chão de placas de linóleo. O juiz, envergando uma beca de cor escura, ficou surpreendido ao ver os dois advogados de toga. E o seu primeiro comentário foi relativo a esse ponto:

 

Vocês não vêm aqui muitas vezes, pois não?

 

Naquela sala muito simples, com procedimentos também muito simples, o delegado do Ministério Público, Charles Rodriguez um homem com quem Shep trabalhara durante anos, um homem que Sandy convidara para jantar em sua casa em inúmeras ocasiões, requereu formalmente que o processo fosse julgado por um tribunal comum, um tribunal de júri, dada a ”natureza hedionda dos crimes de Daniel O’Grady contra a comunidade”.

 

Formalizou cinco acusações de homicídio qualificado contra Danny: uma pela primeira vítima e duas por cada uma das restantes vítimas, pois faziam parte de um homicídio múltiplo. Se fosse dado como culpado num tribunal de júri, Danny podia ser condenado a cinco penas consecutivas, que poderiam ir de trinta anos a prisão perpétua. Ficara sob a alçada do distrito desde a noite anterior. Nunca mais voltaria para casa.

 

Sandy continuava a pensar que Danny estava morto.

 

Agora, têm de encarar as coisas com optimismo dizia Avery Johnson. O Danny só tem treze anos. E tem as estatísticas do seu lado.

 

As estatísticas? perguntou Sandy, com voz débil. Esborrachava uma fatia de tarte de maçã acabadinha de fazer. A mãe servira-lha com uma gigantesca bola de gelado de baunilha, dez minutos antes. Sandy observava o gelado a transformar-se em pequenos rios, a seguir construiu barragens com pedacinhos de maçã. Pouco depois, Shep tirou-lhe o prato da frente e ele próprio comeu a tarte. Em alturas de crise, ficava sempre com apetite, enquanto ela perdia o seu.

 

Na próxima audiência dizia Avery, temos de apresentar argumentos que sejam do melhor interesse para a criança e para a comunidade. Basicamente, uma audiência para aquilatar da hipótese de o caso ser julgado por um tribunal de júri vai centrar-se em dois aspectos fulcrais da personalidade do Danny: será que ele coloca os outros demasiado em risco para ter de ficar sob a alçada do sistema de menores e será que está receptivo a reabilitação? Naturalmente, o delegado vai argumentar que o acto do Danny prova que ele é um homicida perigoso, um caso perdido, ficando assim fora da alçada do tribunal de menores. O juiz deve mandá-lo para outro tribunal, que tem meios de julgar um criminoso importante.

 

”A nossa tarefa é provar o contrário e a boa notícia é que as estatísticas estão a nosso favor. A maioria das crianças que comete actos violentos não volta a reincidir na idade adulta. Além disso, e temos de realçar este facto, os estudos mostram uma maior hipótese de reincidência com uma criança que está encarcerada com adultos, do que com uma criança que se encontra em estabelecimentos de menores. Assim, é do interesse do estado manter o Danny num estabelecimento prisional de menores, onde possa ser reabilitado e depois recomeçar a vida, aos vinte e cinco anos, como um membro produtivo da sociedade.

 

Está a presumir que o Danny é culpado comentou Sandy, num tom ríspido. Por que motivo está a partir do princípio de que o meu filho é culpado?

 

Avery, que era um homem de certa idade e usava óculos de aros de metal e fatos caros, esboçou um vago sorriso. Comera a sua fatia de tarte em minutos, depois deu umas pancadinhas muito ligeiras no lábio superior com o guardanapo de papel, como se este fosse feito do mais fino linho. Sandy ainda não sabia muito bem se gostava dele. Mas Shep simpatizava com ele desde a primeira vez em que se encontraram, numa cerimónia oficial, em que Avery fora o orador principal. Shep chegou ao ponto de o tratar por ”amigo”, embora Sandy soubesse que isso não era efectivamente verdade. Avery Johnson movia-se em círculos distantes dos deles. Vivia numa casa esplendorosa em Lake Oswego, e muito dificilmente pegara naquele caso por uma questão de bondade do seu coração. Sandy imaginava que o homem cobrava quinhentos dólares à hora e que até lhes iria exigir os minutos em que estivera a comer à tarde.

 

Sandy não sabia como é que iriam pagar-lhe. Não fazia a mínima ideia do tipo de mentiras que Shep lhe devia ter contado acerca da sua situação financeira. Só sabia que Shep queria Avery Johnson. Era o melhor advogado que havia e Shep não queria nada abaixo disso para o filho. Era a sua ideia de paternidade, que tanto irritava Sandy e que, ao mesmo tempo, lhe destroçava o coração.

 

Sandy, pode ter a certeza de que nunca deixarei um júri pensar que o seu filho é culpado. Avery esboçou novo sorriso. Mas ainda não estamos num tribunal de júri. Daqui a seis meses, estarei eu e o Charles Rodriguez a ”debater” o futuro do Danny com o juiz Matthews, que, francamente, é um velhote miserável que gostaria de voltar a impor os castigos corporais nas escolas públicas. É provável que ache que o Danny é culpado e que devia ser enforcado. Felizmente, não é isso que vai ser tratado na audiência. Nesta altura, vamos apenas debater qual o tribunal que terá competência para julgar o caso. Por isso, preciso de argumentar Que, culpado ou não, os interesses do Danny e da comunidade estão melhor salvaguardados se mantivermos o caso no tribunal de menores.

 

Porque mesmo que ele seja um assassino em massa agora, quando chegar à idade adulta estará magicamente curado?

 

Exactamente. E não há nada de mágico nisso. Estive toda a noite a ler artigos sobre crimes praticados por menores e os peritos chamam a isso o ”fenómeno da desistência”. Dos doze aos dezoito anos, há um aumento de actividade criminosa entre os adolescentes do sexo masculino, pois a subida dos níveis hormonais e as alterações de crescimento não são acompanhadas por um adequado desenvolvimento mental. Então, aos dezoito anos, ao tornarem-se adultos, arranjam empregos, encontram relaÇões mais permanentes, assentam. A actividade criminosa cessa e até os adolescentes descritos outrora como ”problemáticos” levam vidas normais.

 

Portanto, se o Danny está inocente, está inocente. Mas se for culpado, só está a passar por uma fase? É isso que vai argumentar no tribunal? A voz de Sandy começava a tomar um tom esganiçado. Não conseguia fazer nada para o evitar. Era um som grotesco, digno de uma louca.

 

Shep fulminou-a com um olhar impaciente.

 

Por amor de Deus, Sandy, o que queres ouvir? Acabou de te dizer que o objectivo é não deixar que o Danny seja julgado num tribunal de júri, onde se fazem os julgamentos dos adultos, e é essa estratégia que irá seguir.

 

Sandy... começou Avery, num tom tranquilizador. Sandy interrompeu-o.

 

Não sei o que quero ouvir! Talvez que o meu filho não é capaz de matar três pessoas. Talvez que o meu primeiro filho não é um assassino, que tudo não passou de um grande equívoco. E bateu com a mão na mesa. Olhem para vocês os dois, a discutirem questões jurídicas, como se isso fizesse uma grande diferença. Isto não é um jogo de bola. Não se resume a dizer quem ganha ou perde ao fim da noite. E o nosso filho! E a nossa comunidade! Como é que vamos andar pelas ruas, se o Danny for declarado culpado? O que é que iremos dizer à Becky? Meu Deus, Shep, não viste o que escreveram na nossa garagem? Vão matá-lo. Os nossos vizinhos consideram o Danny responsável pelo assassínio das duas meninas, e, mais cedo ou mais tarde, vão matá-lo! Bolas, bolas, bolas, bolas!

 

Empurrou a cadeira para trás. Levantou-se, deu quatro passos em torno da minúscula cozinha, depois apercebeu-se de que chorava descontroladamente. Shep não se levantou para a consolar. Na noite anterior, tentara voltar para a cama dela, depois de meses a dormir no sofá. A voz tomara um tom destroçado. Dissera-lhe que só a queria abraçar. Talvez pudessem pôr as diferenças de lado. Já haviam sido bons amigos.

 

Sandy mal conseguia conter a fúria que lhe apertava o peito. Olhara para o marido, o pai dos seus filhos, vulnerável, de ombros descaídos, e a única coisa em que conseguiu pensar foi que, se Danny fora conduzido ao crime, a culpa era de Shep. Pressionara demasiado o rapaz. Nunca reparara que Danny era diferente, mais intelectual, mais parecido com ela. Shep obrigara-o a entrar no seu mundo arrogante, machista.

 

Destruíra o filho. Destruíra a família. Sandy detestava-o.

 

Então, abruptamente, Sandy sentiu a emoção abandoná-la, dilacerando-lhe o corpo, e ficou como que oca. Manteve-se de pé na cozinha, com uma terrível sensação de vazio por dentro, exausta, e o corpo oscilante para a frente e para trás.

 

Voltou-se na direcção da porta e lá estava Becky, a olhar para ela, com os seus olhos azuis, sombrios.

 

Não deixes que o monstro te agarre, mamã disse. Depois, deu meia volta e voltou para a sala, onde os pais de Sandy viam televisão.

 

Sandy voltou para a mesa e sentou-se.

 

Compreendo que esteja sob uma grande carga emocional começou Avery.

 

Uma porra! exclamou Sandy.

 

Shep soltou um suspiro profundo, levantou-se e cortou uma terceira fatia de tarte.

 

Olhe disse Avery, com alguma vivacidade na voz, deixe-me explicar-lhe todo o processo. Talvez, no final, perceba melhor aquilo que pretendo fazer. Os próximos seis a doze meses vão ser cruciais para a vida do Danny.

 

Sandy levantou a mão.

 

Por que razão temos de esperar seis a doze meses?

 

Porque esse é o tempo que toda a gente vai precisar para preparar a audiência em que vai ser analisado o pedido de renúncia. Não é coisa pequena.

 

Mas o Danny não pode vir para casa, pois não? Você disse que não há caução para menores acusados de assassínio. Então, explique-me lá isso. O meu filho ainda nem sequer foi julgado, nem se sabe se ele é culpado, e vai passar pelo menos seis meses trancado num estabelecimento prisional? Por amor de Deus, como é que isso pode ser legal?

 

É assim que funciona o sistema.

 

Que se lixe o sistema! Sandy não tinha razão e sabia bem disso. Avery Johnson esboçou novamente um sorriso tranquilizador. Então, a voz tomou um tom áspero.

 

Mistress O’Grady, sei que não quer ouvir isto, mas há fortes hipóteses de o Danny ter cometido estes crimes. Foi encontrado com uma arma na mão apontada ao Shep. Trouxe as armas de casa para a escola e, além disso, confessou o crime duas vezes.

 

Ele está em estado de choque. Você próprio disse isso. Ele não sabe o que diz.

 

As armas, Mistress O’Grady. As armas. Como é que duas armas saem do seu cofre e aparecem na escola?

 

Sandy olhou para Shep, sem saber o que dizer. Este deu uma estocada no ar com o garfo coberto de gelado.

 

O meu filho não tem nada a ver com aquilo! retorquiu ele, com estoicismo.

 

Pela primeira vez, Sandy sentiu algum calor em relação ao marido. Avery Johnson ripostou, implacável:

 

Você é um agente policial, Shep, e nem sequer consegue provar a inocência do seu filho...

 

Conseguirei...

 

Não consegue...

 

Tenho seis meses.

 

Avery Johnson soltou um suspiro. Era evidente que tanto Sandy como Shep se recusavam a aceitar a culpabilidade do filho. Voltou novamente à carga:

 

Mesmo que consiga explicar como é que as suas armas foram parar ao local do crime, e o motivo por que o seu filho o tomou como refém e confessou, por duas vezes, os três crimes, mantém-se o facto de que o Danny é um miúdo perturbado. É óbvio que tem problemas. Assim, todas as necessidades legais à parte, como pais, têm de conseguir ver o valor dos próximos seis meses como uma oportunidade de dar ao Danny a ajuda de que ele necessita. Será examinado por especialistas em desenvolvimento infantil. Terá de fazer uma enorme quantidade de exames psicológicos. A sua infância, família e amigos serão minuciosamente analisados. Por muito estranhas que, por vezes, as coisas possam parecer, tenho a certeza de que o resultado será uma melhor compreensão de quem é o Danny e que problemas é que ele enfrenta. Faz sentido?

 

Sandy, por fim, ponderou a questão. Olhou para Shep, que andava com uma garfada de tarte às voltas na boca, de uma maneira que indicava que não a saboreava efectivamente. Dir-se-ia que as palavras do advogado o haviam deixado deprimido; de novo, os ombros descaídos. Danny tinha problemas. Esta era a forma de Shep rejeitar todas as coisas que não gostava de ouvir. Os comentários do advogado haviam despertado as dúvidas mais recônditas que existiam nos seus corações. Seria Danny um miúdo perturbado? Teriam eles transformado o filho num monstro?

 

Havia um ar sombrio no olhar de Shep. Sandy teve de desviar os olhos.

 

Sabia que, depois de ter saído do seu quarto na noite anterior, Shep se deitara no chão, ao lado da cama de Becky. Esta não aceitara o convite para dormir na cama dos pais, construindo, em vez disso, um muro de animais de pelúcia à volta da cama. O Grande Urso, o seu boneco favorito, estava reservado para a tarefa de guarda-costas especial. Hannah, a égua, estava posicionada à porta. Doze ursinhos bebés formavam um cordão no parapeito da janela. Pugsley, o cão, deu-o a Sandy, para o caso de ela também precisar de protecção.

 

Becky choramingava frequentemente a meio da noite. A dada altura, por volta das três da manhã, Shep apanhou-a a saltar da cama e a correr para dentro do roupeiro. Quando a tentou abanar para a acordar, Becky choramingou ainda com mais força. Finalmente, conseguiu levá-la para a cama com o Grande Urso. E, antes de cair num sono profundo, pediu ao pai, num sussurro, para procurar os monstros.

 

Às seis da manhã, Shep mudou-se para o sofá da sala. Às sete, quando Sandy foi ver como estava a filha, encontrou-a enroscada sobre si mesma, no canto mais distante do roupeiro, com quatro vestidos a esconder-lhe os resplandecentes cabelos louros.

 

Becky ainda não dissera o que quer que fosse sobre o que acontecera no dia anterior e os médicos previam que isso nunca viesse a acontecer. Aquilo por que passara fora demasiado traumático para a sua mente de oito anos e agora procurava fechar tudo a sete chaves na memória. Sandy e Shep foram aconselhados a fazerem tudo o que pudessem para que a filha se sentisse segura, embora tendo o cuidado de não criticarem os seus receios, fossem estes quais fossem.

 

Sandy tinha a sensação de que ela e Shep envelheciam exponencialmente nos últimos dias. Adoraria pegar no telefone e falar com Margaret, Liz ou Margie acerca do sucedido, da mesma forma que as quatro mães costumavam comparar as notas dos filhos nos últimos seis anos. Só que não podia fazer isso. Os seus filhos podiam estar a sofrer, mas o seu filho era supostamente a causa do sofrimento de toda a gente. Era agora sua obrigação, enquanto mãe, assumir as responsabilidades.

 

E... e se o Danny for mesmo culpado? arriscou Sandy, pela primeira vez, fitando, com olhar trémulo, o rico e bem-sucedido Avery Johnson, que tinha o futuro da sua família nas mãos. E se todos os peritos que estudarem o Danny chegarem à conclusão de que ele é mesmo um assassino?

 

É isso que tenho estado a tentar explicar. O objectivo deste julgamento não é dizer que o Danny é um assassino, mas avaliar se ele voltará a matar. O tribunal de menores vai nomear um psicólogo forense para o avaliar: a personalidade, o comportamento passado, tendências violentas, etc. Há toda uma gama de parâmetros que este psicólogo irá analisar, o que leva algum tempo. Quando acabar de o estudar, o perito elaborará um relatório. Neste caso, dada a gravidade do alegado crime perpetrado por Danny, o psicólogo apresentará, provavelmente, duas asserções. Uma dirá, presumindo que o Danny é culpado de assassínio em massa, que há x por cento de hipóteses de ele voltar a matar. Se não for culpado, há y por cento de hipóteses de ser reabilitado.

 

Não compreendo. Se o Danny não cometeu o crime, então deve ter cem por cento de hipóteses de levar uma vida sã normal. Como pode haver uma segunda asserção?

 

O psicólogo forense investiga para lá deste momento, Mistress O’Grady, passa a pente fino toda a vida do Danny, não apenas este simples acto, do qual pode ou não ser culpado.

 

Sempre foi um óptimo miúdo disse Sandy automaticamente. Avery Johnson olhou para ela com ar afável, mas firme.

 

O Danny tem acessos violentos de fúria. Passa muito tempo com armas. Tem reputação de ser anti-social. Estas coisas virão à baila, Mistress O’Grady. O psicólogo investigará todos os tipos de factores, inclusive tensões na sua família e outras causas de stresse.

 

Shep baixou a cabeça. Sandy sabia no que é que ele pensava. O desmoronamento do casamento. O temperamento irascível de Shep, embora, graças a Deus, nunca tivesse levantado a. mão contra ela ou os filhos. A mobília, todavia, não teve sempre tanta sorte.

 

Shep falou finalmente.

 

E se não gostarmos das descobertas do perito? Não podemos arranjar um psicólogo da nossa confiança?

 

Claro. A primeira coisa que farei, amanhã de manhã, é requerer ao tribunal de menores o nosso próprio psicólogo. Eles indicarão o perito, mas ele trabalhará para nós.

 

Quanto é que isso custa? perguntou Sandy, hesitante. Isto é... Olhou para Shep. Este pareceu ter ficado irritado com o facto de ela

 

ter trazido à baila a questão do dinheiro. Mas ela não conseguiu evitar. Como xerife ganhava apenas vinte e cinco mil dólares por ano e Sandy não chegava a ganhar nove dólares por hora. Esperava ganhar mais, receber um ordenado depois do novo acordo de trabalho com a Wal-Mart, mas isso já lhe parecia pertencer a um passado distante. Saíra apressadamente do escritório e não voltara lá. Ao fim da tarde, Mitchell deixara-lhe um bilhete muito simpático, dizendo-lhe que a dispensava pelo tempo que fosse preciso, mas ela sentia que havia algum desapontamento nele. Precisava de ajuda para a reunião. Com ela ausente, não teria alternativa senão arranjar outra pessoa. Trabalho era trabalho.

 

O tribunal de menores paga os peritos. Os honorários saem dos fundos do tribunal.

 

Não nos vai custar nada? indagou Sandy.

 

O marido resmungou algo imperceptível. Avery Johnson asseverou-lhe que não. Pela primeira vez, Sandy via alguma compaixão nos olhos do advogado. Provavelmente, ele sabia muito mais da sua situação financeira do que ela imaginava.

 

A vantagem de termos o nosso próprio perito é que ele ficará sujeito à confidencialidade paciente-cliente. O Danny pode ser franco com ele e, se acharmos, no final, que as suas conclusões não nos são favoráveis, pura e simplesmente não o deixaremos testemunhar. Ninguém ficará a saber de nada.

 

A não ser nós acrescentou Sandy.

 

Se tivermos a informação, podemos usá-la em proveito do Danny disse Avery, calmamente.

 

Se evitar que ele seja julgado pelo tribunal comum ripostou Sandy.

 

O desafio é esse concordou Avery. - Para um miúdo de treze anos, um tribunal de júri é algo muito sombrio.

 

Por instantes, ficaram todos em silêncio, a contemplar a estrada que se estendia à sua frente e a vida de um jovem que se encontrava em jogo. Sandy friccionou as têmporas doridas.

 

O Danny não fez nada disso declarou Shep, teimoso. Vou provar isso mesmo.

 

O telefone tocou. Shep levantou automaticamente o auscultador. Disse ”alô”, depois empalideceu e pousou-o no descanso com um gesto violento.

 

Era engano murmurou, mas todos sabiam que estava a mentir. O telefone estivera a tocar toda a manhã. Vozes descontroladas a gritarem: ”Só espero que fodam esse cabrão, que o fodam todo na prisão! Assassino, assassino, assassino!”

 

Sandy vivera toda a vida naquela cidade. Adorava-a profundamente. Voltou-se de novo para Avery Johnson.

 

Quais são as nossas hipóteses? Diga-me com toda a franqueza. Que aconteceu aos outros miúdos acusados de assassínio em massa?

 

Quase todos apanharam prisão perpétua. Mas a maior parte deles tinha dezasseis anos, o que fez com que ficassem sob a alçada do tribunal de júri.

 

Mas nem todos? Houve uma excepção?

 

Em Jonesboro. Esses dois rapazes eram demasiado jovens e o Arcansas não tinha uma lei que possibilitasse o envio de menores para um tribunal comum.

 

Ficaram sob a custódia do Tribunal de Menores do Arcansas?

 

Creio que ficaram detidos até fazerem os vinte e um anos. Sandy sentiu-se esperançosa pela primeira vez.

 

E isso resultou, Mister Johnson? indagou, ansiosa. Eles agora são membros seguros e produtivos da comunidade?

 

Ainda ninguém sabe, Mistress O’Grady. Ainda ninguém sabe. Quarta-feira, 16 de Maio, 17.57

 

O servidor favorito do homem era o AOL. Gostava da forma como as principais notícias do dia estavam agrupadas, o que fazia com que se saltasse de uma para outra com extrema facilidade. Um duplo clique sobre o sumário da notícia: Filho de Xerife Suspeito de Assassínio em Pequena Cidade. Dois parágrafos mais à frente, novo duplo clique para reportagem aprofundada. Todo o mundo chora as mortes. Três famílias destroçadas, o presidente exige um maior controlo sobre as armas, blá-blá-blá. Uma barra lateral proporcionava-lhe opções suplementares. Podia cavaquear com outras pessoas sobre o assunto, ver uma barra cronológica dos tiroteios mais recentes em escolas, ler uma entrevista de outros sobreviventes de tiroteios em escolas a discutir como cada novo incidente lhes reabria as feridas e destroçava os corações. Leu esse artigo. Feridas abertas, corações a sangrar. Meu Deus, como adorava o jornalismo que se fazia nos últimos tempos! Por isso, guardava religiosamente o número da revista Time de 20 de Dezembro de 1999. Algo para inspiração.

 

Duas horas antes, consultara os artigos mais recentes sobre o caso de Bakersville. Não havia tanta cobertura noticiosa como esperava. O problema era que existiam apenas três mortos. As notícias de primeira página tinham-se tornado muito mais competitivas do que no início da sua carreira. Teria de se lembrar disso.

 

Seis horas. O homem empurrou a cadeira para trás, afastando-se do computador portátil. Bolas, estava com fome.

 

Aquele motel pouco oferecia no campo das comodidades. Esperava um hotel maior, de uma cadeia inócua, de qualidade razoável. Não tivera tal sorte na estrada que conduzia a Bakersville. Tinha de se contentar com um estabelecimento barato, dirigido com confidencialidade. Por um lado, o dono parecia extremamente interessado nos seus hóspedes. Por outro, havia pouco pessoal a trabalhar durante a noite para reparar nas actividades do homem. Tinha os seus prós e contras.

 

O estômago deu novamente sinal. Resolveu experimentar o bar local-

 

Quinze minutos depois, de casaco e chapéu, desceu a minúscula rua principal e entrou num bar mal iluminado. Três homens olhavam, com curiosidade, para o televisor. O único empregado, calvo, deu-lhe as boas,vindas com um ligeiro aceno de cabeça. O homem sentou-se diante de três torneiras prateadas de cerveja e pediu uma caneca.

 

Novidades no noticiário? perguntou aos homens que se encontravam por perto.

 

O senado quer nova legislação sobre a posse de armas e tenciona responsabilizar os pais pelos danos que os filhos possam fazer com elas informou um deles.

 

Como eles dizem resmungou outro, a maçã nunca cai longe da macieira; estes miúdos tinham de ir buscar as ideias a algum lado.

 

Um terceiro homem fitou os outros dois. Tinha um rosto envelhecido, batido pelas intempéries, de uma vida passada a conduzir um John Deere.

 

O Shep é um bom homem disse ele, calmamente.

 

Os outros dois encolheram os ombros e, quase de imediato, começaram a olhar para baixo. Aparentemente, não se encontravam em posição para argumentar.

 

O homem que se encontrava ao balcão disse, então, com voz arrastada:

 

O Shep é um bom xerife, sem sombra de dúvida. Mas também é pai... Não acham que um pai é uma coisa distinta?

 

Os três desviaram os olhos do televisor. Pela primeira vez, examinaram-no com curiosidade. O mais velho, um homem corado, falou primeiro:

 

Não creio que saibamos o seu nome.

 

Oh, estou só de passagem. Em trabalho. Geralmente adoro viajar pela costa. O campo é bonito, as pessoas são simpáticas. Mas desta vez... Um miúdo de treze anos matou duas meninas. Depois, assassinou a pobre professora... Uma mulher tão bonita! Que desperdício! Voltou-se de novo para o empregado, cuja expressão de boas-vindas já desaparecera do rosto. Pode arranjar-me uma dose de frango frito? Com molho picante e queijo.

 

Ninguém sabe se foi o Danny O’Grady disse o homem corado, num tom firme. O empregado assentiu com a cabeça.

 

Vá lá, Darren interveio um dos amigos. A minha mulher ouviu da boca da mãe do Luke Hayes que o Danny confessou.

 

E eu digo-te que os O’Grady são boas pessoas.

 

Há outros suspeitos? perguntou o homem sentado ao balcão.

 

Alguns miúdos referem ter visto um indivíduo vestido de preto respondeu o homem corado de imediato.

 

Vá lá, Darren, ninguém acredita nisso. São miúdos. Estão assustados e têm uma grande imaginação.

 

- Isso não significa que não seja verdade.

 

Os outros homens franziram o sobrolho mas, mais uma vez, condescenderam em não discutir a questão.

 

, Ouvi dizer que os O’Grady têm problemas conjugais referiu o homem sentado ao balcão.

 

O velho de cara corada lançou-lhe um olhar frio. Era corpulento e tinha braços grossos, fruto de uma vida de trabalho. O homem ao balcão não ficou impressionado. Velhotes como aquele não se metiam em rixas de bar. Aproveitavam a idade e a posição para remeter os oponentes ao silêncio, por vergonha. Bem, finalmente encontrara um oponente à sua altura. O homem ao balcão não tinha a mínima vergonha.

 

Estou só a reproduzir aquilo que ouvi.

 

O velho corado deu um passo em frente. Um dos companheiros agarrou-o pelo braço.

 

Deixa-o, Darren. O homem tem direito à sua opinião.

 

No Verão passado disse o velhote, numa voz entrecortada, ia a caminho de Bakersville, ao leilão semanal, quando, de repente, rebentou um pneu na caravana e quase íamos todos para o galheiro. Raios me partam se isto não é verdade! O Shep O’Grady ia a passar no carro-patrulha, com o filho sentado ao lado. Pararam e ajudaram-me. E o Danny não ficou sentado. Saiu do carro e ajudou a enfiar o pneu sobresselente e a apertar as porcas, como um homenzinho. Quando agradeci a ambos, o puto disse-me que estava tudo bem e deu-me um aperto de mão. Não sei o que se passou nessa escola. Mas eu não julgaria o miúdo ou os pais com tanta ligeireza.

 

O homem ao balcão ripostou:

 

Realmente, isso é interessante. Porque ouvi dizer que o Danny O’Grady tem um temperamento irascível. Anda com companhias indesejáveis e vandalizou o próprio cacifo. Um dos meus clientes tem um filho nessa escola e disse que toda a gente sabia que o Danny O’Grady não era bom da cabeça.

 

O velhote de cara corada franziu as espessas sobrancelhas brancas e esboçou um olhar fulminante. O amigo agarrou-o, mais uma vez, pelo braço.

 

Encara a realidade disse, num tom apaziguador. Tragédias como esta não fazem o mínimo sentido. Por vezes, pergunto-me se todas as gerações não precisam de uma guerra para descarregar a cólera.

 

Achas que a guerra é vantajosa para os jovens? perguntou o velho, incrédulo.

 

O amigo encolheu os ombros.

 

Lembro-me de disparar sobre alemães e coreanos, mas nunca sobre alunos das nossas escolas.

 

O que estás aí a dizer é uma grande baboseira, Edgar.

 

Só estou a dizer que...

 

Drogados e amputados, é disso que estás a falar. Sim, a guerra faz milagres pelos jovens.

 

Bem, o que achas que se está a passar? Estes tiroteios continuam a acontecer! Meu Deus, e quantos já houve até agora!

 

Todos ficaram em silêncio, mesmo o que estava sentado ao balcão, que se esforçava a todo o custo para não sorrir.

 

Acho que só temos de ver o que acontece disse o velho de cara corada, lacónico.

 

Se acontecer alguma coisa resmungou Edgar. Bakersville já nem sequer tem xerife. Ouvi dizer que aquela mulher tomou conta do caso.

 

A agente Lorraine Conner disse o homem ao balcão; o empregado olhou-o com curiosidade.

 

Edgar assentiu com a cabeça.

 

Sim, é verdade. Tomou conta do caso e é extremamente nova.

 

Também trouxeram um agente federal informou o homem ao balcão. E perito em tiroteios em escolas.

 

Os agentes federais têm um perito em tiroteios em escolas? O empregado levantou a voz pela primeira vez.

 

O homem sorriu-lhe.

 

Interessante, não é? Agora só temos de saber se o homem é algum craque na matéria.

 

As oito da noite, as ruas de Bakersville haviam mergulhado na penumbra e Rainie ficara mais tensa.

 

Depois de falarem com o director VanderZanden, Rainie e Quincy haviam visitado o minúsculo apartamento de Melissa Avalon, com a esperança de descobrirem mais coisas sobre a vida da jovem professora assassinada. Tudo levava a crer que Melissa Avalon fora atingida com intencionalidade. Talvez tivesse sido a única vítima intencional. A Rainie custava-lhe a acreditar que Danny O’Grady tivesse atingido propositadamente a única professora que fora simpática com ele. O que levantava a questão de quem era Melissa Avalon e, mais ainda, quem é que a quereria ver morta. Depois de ouvir as suspeitas de Quincy relativamente a um suposto romance Avalon-VanderZanden, Rainie começava a inclinar-se para a hipótese do director. Ou talvez a mulher traída deste...

 

Quincy, por outro lado, ainda não estava convencido de nada. Parecia inclinar-se para a possibilidade de Melissa Avalon ser o alvo principal, mas não achava que isso significava que o atirador tivesse de a conhecer. Murmurara algo acerca de muitos estranhos terem assassinado muitas mulheres jovens e bonitas apenas pelo simples facto de serem jovens e bonitas. Rainie estava-se nas tintas para aquilo que o agente Quincy lia à noite.

 

Infelizmente, Sanders obrigara-os a interromper a investigação ao chegar ao apartamento de Avalon primeiro. As gavetas haviam sido esvaziadas, a cozinha desmontada e a cama desmanchada. Os técnicos especialistas em cenas de crime chegaram ao ponto de esquadrinhar os tampões da mulher.

 

Rainie teria de esperar pelo relatório do estado sobre as provas encontradas ou pedir a Sanders informações sobre o seu próprio caso. Não estava a achar graça nenhuma à situação.

 

Voltara, irritada, para o centro de operações, acompanhada de Quinty ainda a tempo de se encontrarem com Luke Hayes e o delegado Tom

 

Dawson. Esperavam interrogar Becky O’Grady antes do jantar. Tal não seria possível. Avery Johnson estivera em casa de Shep. Exigira estar presente no interrogatório, e Sandy e Shep também haviam insistido em assistir. Isso fez com que uma testemunha de oito anos tivesse ficado numa pequena sala, perante cinco adultos perscrutadores.

 

Becky fez o que era lógico. Apertou o urso de pelúcia contra si, enroscou-se sobre si mesma em cima do sofá e adormeceu.

 

Quinze minutos depois, Luke e Tom dirigiram-se para a porta. Shep não se despediu deles. O advogado cuidou disso, depois de informar os agentes de que os O’Grady iriam passar a ter um número de telefone confidencial devido às chamadas com ameaças. Além disso, queria que houvesse rondas a zelar pela segurança da família. Não tinham visto o que um campónio hostil escrevera na garagem?

 

A inscrição aborrecera Luke. Tirou duas fotografias para os seus ficheiros. Depois, meteu-se no carro e dirigiu-se a uma loja de materiais de construção, onde comprou uma lata de tinta branca. Ele e Tom pintaram então a garagem de Shep. Nem Shep nem Sandy saíram para lhes agradecer.

 

Rainie não sabia o que dizer. As tragédias traziam à tona aquilo que de melhor havia nas cidades. Mas também podiam trazer o que havia de pior.

 

Ainda mal Luke e Tom haviam saído e já o presidente da Câmara fazia uma visita a Rainie. Acabara de receber um telefonema dos pais de Sally Walker. Por que razão as autópsias só se iriam realizar no dia seguinte? Por que motivo as famílias não podiam receber os restos mortais das filhas para que se pudessem realizar os funerais? Os pais estavam furiosos.

 

Além disso, Rainie vira George Walker no noticiário das cinco. O pai aparecera diante das câmaras a dizer, a quem o quisesse ouvir, que Danny O’Grady iria escapar sem castigo. Assassinara três pessoas e o departamento do xerife de Bakersville nunca iria atrás dele, porque era filho de Shep. Favoritismo, puro e simples, por isso seria melhor que todas as mães fechassem os seus filhos em casa a sete chaves. Um dia, muito em breve, Danny O’Grady voltaria à cidade.

 

Durante toda a tarde, assistiu-se a uma corrida às armas, na espingardaria. Não apenas em Bakersville, mas também no vizinho Cabot County.

 

As pessoas estavam assustadas, anunciou o presidente sem cerimónia. Estavam furiosas. Por isso, o melhor que Rainie tinha a fazer era resolver aquele caso rapidamente. Ou haveria muito mais violência nas ruas da pequena cidade. Assim que o presidente saiu, Rainie abriu nova caixa de lápis número dois. Sentou-se à secretária, diante de Quincy e, um a um partiu todos os lápis ao meio. Depois, partiu as metades ao meio. Tentou então ordenar as ideias.

 

Não conseguiu. Era o segundo dia de investigação e a única coisa que tinha era uma longa lista de questões. Por que razão Danny matara a única professora que, aparentemente, tentava ajudá-lo? Charlie tê-lo influenciado a agir? Ou talvez alguém que Danny conhecera na Net? Parecia muito pouco provável que um estranho pudesse influenciar um adolescente a matar, mas, segundo a opinião geral, Danny era um miúdo vulnerável e tinham acontecido coisas muito estranhas.

 

O único tiro, de arma de pequeno calibre, na testa de Melissa Avalon. Os ferimentos dispersos nos outros.

 

Nesta altura, já devia saber mais coisas, mas, em vez disso, não encontrava respostas para as suas dúvidas e chegara ao ponto de o simples ruído da caneta de Quincy a arranhar no papel lhe dar vontade de pegar no bloco de apontamentos e lhe dar com ele na cabeça. Quincy rira-se quando Rainie partiu os lápis ao meio. O pessoal do FBI nunca sabia como divertir-se.

 

Ele não era assim tão mau. Frio, distante, como se impunha a um agente do FBI. Curioso na forma como olhava fixamente para o telemóvel, como se aguardasse um telefonema importante e, ao mesmo tempo, o temesse. E muito emotivo. Mais emotivo do que teria imaginado de manhã.

 

Havia algo na forma como se movimentara no edifício da escola, como perscrutara meticulosamente o apartamento devastado de Melissa Avalon, como se todas as peças de informação entrassem no cérebro e, pela simples força da mente, as encaixasse todas umas nas outras. Rainie tinha a impressão de que Quincy era capaz de ser um pouquinho inteligente, um pouquinho sério e um pouquinho forte. Isso fez com que sentisse um aperto no estômago, que era algo que, nesse momento, precisava tanto como de um buraco na cabeça.

 

Maldito agente do FBI! Maldito detective estatal a tentar provar a sua teoria! Maldito Danny O’Grady! E maldito bando de bebedolas que resolviam que a única resposta para a violência era a violência. Deus Todo-Poderoso, será que eles não faziam ideia da quantidade de papelada que iriam atirar para cima dela?

 

Rainie desviou os olhos da janela; a noite caía sobre as ruas de Bakersville. Olhou para a nova secretária, reparou que ainda tinha os punhos cerrados nas ilhargas e sabia que a confusão de ideias não passava de ruído. Não teria a mínima dificuldade em lidar com um agente do FBI e um detective estatal. Não ligou qualquer importância àquilo que o presidente da Câmara queria para apresentar numa conferência de imprensa qualquer e não tinha medo de uns quantos rapazes locais encharcados de cerveja, nem da falta de bom senso; já enfrentara essa situação antes.

 

Aquilo que lhe custava a enfrentar, que receava sinceramente, eram as cinco horas da manhã seguinte, quando se dirigisse a Portland, para ver o chefe dos médicos-legistas a fazer as autópsias das duas rapariguitas.

 

Só a ideia a enervava. Não queria ver Sally e Alice novamente. Agora não, quando sabia os nomes, conhecia as famílias e sabia que haviam sido grandes amigas desde que nasceram. Não queria recordar a sua caminhada final pelo corredor fora, nem pensar no talhão do cemitério onde ficariam depositados os dois caixões.

 

Na noite anterior, pela primeira vez nos últimos cinco anos, sonhara com a morte da mãe. o sangue e os miolos na parede. O cheiro nauseabundo a fluidos humanos e pólvora a entranhar-se na alcatifa. O corpo decapitado caído no chão, uma imagem tão estranha e repugnante que não teria reconhecido a mãe, se não fosse a garrafa de Jim Beam que ela ainda agarrava na mão sem vida.

 

E enquanto olhava, espantada, para o corpo da mãe, novamente com dezassete anos, e uma substância acinzentada lhe pingava para os cabelos, Danny O’Grady saía da cozinha e, calmamente, entregava-lhe a caçadeira ainda a deitar fumo.

 

”Só fiz aquilo que querias fazer”, dissera-lhe ele; depois, saíra pela porta principal.

 

Acordara, encharcada em suores frios, às quatro da manhã, a tremer descontroladamente. Fez um esforço para ir até à minúscula sala de estar, onde a alcatifa castanha e o papel de parede com flores douradas há muito haviam sido substituídos. Perscrutou todos os aspectos da sala nova, moderna, catorze anos depois, e poderia ter jurado que via sangue no tecto.

 

Voltou para a cama, mas sabia, pelas tremuras nas mãos, quando acordou, uma hora depois, que os sonhos continuavam a ser desagradáveis.

 

Aquele caso estava a tomar conta dela. Nunca esperara que isso acontecesse ao fim de todos os anos que levava de vida policial. Enchia-a de medo. Estava a dar consigo em doida.

 

Vou jantar declarou, abruptamente, levantando-se e começando a reunir as suas coisas.

 

Quincy levantou os olhos, desviando-os do bloco de apontamentos. A expressão era serena, mas pusera de lado o casaco, arregaçara as mangas e desfizera o nó da gravata cor de vinho. Dava-lhe um ar mais acessível. Também lhe realçava as olheiras. Aparentemente, o superagente não andava a dormir grande coisa desde que chegara a Bakersville.

 

Há comida nesta cidade? indagou, com simulada surpresa. Pensei que aqui se saltasse o almoço por necessidade.

 

O almoço é para os maricas ripostou Rainie. Venha lá. Levo-o ao Martha’s Diner. O melhor frango frito da cidade.

 

Quincy franziu o sobrolho, céptico, talvez questionando a fama do Martha’s, talvez já a prever o endurecimento das artérias. Fosse por que motivo fosse, pegou no casaco azul-marinho e seguiu-a.

 

O Martha’s Diner estava calmo àquela hora. Grande parte do pessoal empregado já comera e muitos dos agricultores não tardariam a ir para a cama. Nada como milhares de vacas para estragar a vida nocturna de uma cidade. Rainie reconheceu o presidente do banco, Donald Leyden, a comer sozinho, depois do divórcio. Então, avistou Abe Sanders.

 

Sentado sozinho numa mesa de canto, Sanders segurava o telemóvel com uma mão, enquanto, com a outra, pegava num peito de frango sem pele. Entre os comentários ao telemóvel, metia na boca bocados de cenoura crua que tirava de um saco de plástico. Rainie reparou então no Tuppenvare com alface. Se ainda não sabia, ficava agora a saber: Abe Sanders era o Anticristo.

 

Sim, estou a ouvir o cachorro dizia, exasperado, para o telemóvel. Não, Sara, não precisas de o pôr ao telefone. Não, não. Hei... A voz, de repente, tomou um tom elevado. Olá, Murphy. Sim, és um bom cachorrinho. Um cachorrinho maravilhoso. Agora passa o telemóvel à tua mãe... Sara. Sara, aí estás tu. Sim, sim, eu disse ”olá”, mas é um cão, por amor de Deus! Ele não percebe o milagre moderno das comunicações.

 

”Espera aí. Ele está a ganir? Por que raio está o cachorro a ganir? Que aconteceu? O quê? A sério? Parecia surpreso, depois, timidamente satisfeito. O Murphy anda à volta da casa, todas as manhãs, à minha procura? Tem saudades minhas. Hum. Raios me partam. E mesmo um tipo simpático.

 

Finalmente, reparou em Rainie e Quincy, de olhos fixos nele.

 

Endireitou-se rapidamente no assento, com ar de quem fora apanhado em flagrante e despediu-se da mulher. Ainda estava corado, quando desligou o telemóvel.

 

Novo cachorrinho murmurou. A minha mulher... é doida por aquela coisinha. Sabem como é. Engoliu em seco, depois fez um aceno com a cabeça em direcção ao outro lado da mesa. Não se querem sentar? Tenho novidades.

 

Rainie estava algo desconfiada, mas sentou-se no assento de vinil vermelho, ao mesmo tempo que apresentava Quincy a Sanders. Era óbvio que os dois já haviam ouvido falar um do outro e o aperto de mão foi mera formalidade.

 

O que o traz a Bakersville? perguntou Sanders, depois de Quincy rejeitar a sugestão de Rainie de frango frito e pedir uma salada César. Rainie abanou a cabeça para lhe demonstrar que estava a cometer um erro, depois pediu o frango, puré de batata e uma dose extra de molho. Não comera durante todo o dia e iria passar pela vergonha de ingerir tudo aquilo ao lado de dois homens que comiam salada. Ainda estava a pensar se malte com chocolate para sobremesa não seria um exagero, quando Quincy respondeu.

 

Investigo tiroteios em escolas para a Unidade de Ciências Comportamentais. Naturalmente, estou interessado neste caso.

 

Está como observador? Quincy olhou para Rainie.

 

Uma coisa assim.

 

Não precisamos de ajuda federal disse Sanders, sem cerimónia. Quincy sorriu.

 

Não se preocupe, detective. Não me passa pela cabeça ofender a agente Conner reclamando a tutela sobre o caso. Ouvi dizer que tem um grande tacto para este tipo de casos e que é lesta a puxar da arma.

 

Rainie sorriu com o inesperado cumprimento. Sanders franziu o sobrolho.

 

Bem disse o homem num tom ríspido, limpando as mãos ao guardanapo, toda a questão ficará, provavelmente, esclarecida de manhã. Na realidade, estou quase certo de que arrumei grande parte do caso hoje.

 

A sério? Rainie lançou-lhe um olhar dúbio. E eu que pensava que destruíra o caso hoje.

 

Por vezes, é possível reunir as provas, apesar das melhores intenções de uma agente assegurou-lhe Sanders.

 

Lembrar-me-ei disso. Que novas provas são essas?

 

Oh, não lhe disse? Simulou uma expressão de surpresa. Hoje recebi algumas informações sobre a origem do revólver calibre trinta e oito e da semiautomática calibre vinte e dois. Foi simples. Encontram-se ambas registadas no nome do Shep O’Grady. Além disso, a Brigada de Investigação recuperou cinco invólucros de calibre trinta e oito na zona onde ocorreram os disparos ontem à noite. Hoje, o médico-legista confirmou que o sangue e as fibras são das duas jovens, e o pessoal da balística confirmou que os disparos foram realizados com o revólver do Danny. Tinha razão, Conner, temos pelo menos uma das armas do crime.

 

Portanto, a calibre trinta e oito foi usada para matar as duas meninas disse Rainie, de sobrolho carregado. Todavia, isso não prova que tenha sido o Danny a premir o gatilho.

 

É evidente, mas também temos as impressões digitais do Danny em todos os invólucros recuperados no local. Um bom advogado argumentará que isso só prova que o Danny é que carregou as armas, não que as disparou, mas, neste ponto, as provas circunstanciais são esmagadoras. Podemos ligá-lo à arma do crime. Não tem nenhum álibi para a hora em que os disparos foram efectuados e temos uma testemunha, você, que o referencia na escola imediatamente a seguir aos disparos, com o pai como refém. Mesmo que não consigamos juntar a confissão às pessoas, julgo que temos matéria suficiente para um júri conseguir descobrir o fio à meada.

 

E a Melissa Avalon? Até agora, as provas ligam-no apenas às miúdas.

 

Ainda não sei nada da Avalon. Parece que foi atingida com um único tiro na testa, desferido pela semiautomática de calibre vinte e dois. Não há ferimento da saída da bala, por isso temos de esperar que o médico-legista extraia a bala na autópsia de amanhã. Todavia, casos como este não costumam dar resultados muito prometedores. Balas de calibre vinte e dois pesam apenas dois gramas e sessenta, e são feitas de chumbo macio. Na maior parte dos casos, estão demasiado deformadas dos ricochetes no interior da caixa craniana, para deixar quaisquer marcas de estrias. Teremos de esperar para ver. Por outro lado, hoje ouvi um mexerico, quando fui cortar o cabelo. Segundo a fonte do boato, a Avalon e o director eram muito íntimos... Percebem o que quero dizer...

 

Que grande novidade! exclamou Rainie. O Quincy concluiu isso ao fim de dez minutos passados com o director. Boa, senhor agente federal.

 

Quincy encolheu modestamente os ombros. Sanders pareceu algo desgostoso.

 

Já sabia que ele traía a esposa?

 

A reacção à morte de Miss Avalon pareceu-me exageradamente intensa para as circunstâncias.

 

Ah! Sanders franziu o sobrolho, agarrou num pedaço de cenoura fresca, depois recompôs-se. Isso não interessa para a investigação disse com firmeza. Confirmei junto do pessoal administrativo que o director VanderZanden se encontrava no escritório aquando dos disparos. Daquilo que lhe posso dizer, o Danny é o único que não tem álibi para esse espaço de tempo. Mais uma coisa para pormos nos nossos relatórios.

 

Ainda temos de ter em consideração os alunos que faltaram ontem disse Rainie.

 

Vinte e um faltaram por doença informou Sanders. Dezasseis já têm os álibis confirmados por pais ansiosos. Aposto que os outros cinco ficam esclarecidos amanhã à tarde.

 

E os computadores? indagou Quincy. O director, o VanderZanden disse que o Danny passava muito tempo na Internet. Estou curioso acerca disso.

 

Sanders lançou-lhe um olhar perspicaz.

 

Está a pensar na hipótese de influência exterior.

 

Tem sido um factor importante em muito dos tiroteios. E estou surpreendido na forma sofisticada como o Danny arrombou aquilo que presumo ser um cofre de armas.

 

Ainda não sei o suficiente acerca do cofre de armas, para determinar a dificuldade que ele teve para o abrir resmungou Sanders. Sei que o Shep possuía uma colecção de armas. Tivemos sorte em o Danny levar duas armas pequenas em vez das espingardas. Só Deus sabe que tipo de estragos é que ele poderia ter feito.

 

Sabemos por que razão ele escolheu a calibre trinta e oito e a calibre vinte e dois? perguntou Quincy.

 

Sanders olhou para Rainie. Esta abanou a cabeça.

 

Ele não fez qualquer comentário a esse respeito e eu não lhe perguntei. Presumo que tenha sido pelo facto de se poderem esconder mais facilmente numa mochila.

 

Mas o Danny é caçador, não é? indagou Quincy.

 

Claro, desde muito novo.

 

-Também costumava passar muito tempo com armas?

 

Rainie teve que pensar durante alguns instantes. Entretanto, chegaram pratos encomendados. A salada de Quincy tinha um aspecto fresco a vantagem de se estar numa zona rural. O frango frito de Rainie, por outro lado, estava mergulhado num molho espesso, com uma rodela de manteiga no cimo. O cheiro fez com que o estômago se manifestasse, mas, quando pegou no garfo, descobriu que a conversa já lhe destruíra o apetite.

 

O Shep costuma contar histórias de caça disse, ao fim de alguns instantes. Sei que o Danny tem alguns prémios de tiro ao alvo, mas julgo que foram com uma espingarda de calibre vinte e dois.

 

Primeiro lugar em juniores confirmou Sanders. Levámos o trofeu do quarto dele.

 

Rainie fez uma careta. Nem queria pensar no que devia ter sido para Sandy e Shep ver as coisas do quarto do filho a serem encaixotadas pelo pessoal da Brigada de Investigação, já para não falar na impressão que devia ter causado a Becky.

 

Quincy interveio.

 

Portanto, o Danny está mais à vontade com uma espingarda, mas escolhe duas pistolas. Tem uma relação amor-ódio com o desporto, mas anda atrás da professora da Sala de Informática, por quem, supostamente, tem uma grande adoração. Esconde-se numa sala, de modo a que ninguém o veja, mas não abandona o edifício depois do tiroteio. Interessante. Voltou-se novamente para Sanders. No que toca aos computadores da escola...

 

Os técnicos estão a examiná-los agora informou Sanders. Parece que há um computador principal e três terminais. A escola tem uma. firewall, por isso a boa notícia é que, provavelmente, tem um registo dos sites da Internet que cada terminal visitou e a que horas. Em teoria, no final da semana, terei uma lista completa de todos os sites visitados. Esta tarde recebi um telefonema a dizer que fora eliminada informação dos computadores, como o ficheiro da memória cache, o histórico da Internet, etc., dando a impressão de que alguém se esforçou por não deixar rasto. Os técnicos não estavam muito preocupados. Provavelmente conseguiriam encontrar alguma coisa nos cookies. Iam começar o trabalho de manhã.

 

Se houver algum problema, temos excelentes agentes especialistas em recuperação de dados no FBI referiu Quincy, num tom de indiferença.

 

Sim, sim, sim. Sanders não fazia a mínima intenção de abrir mão das suas provas. Fez um gesto de desdém. Estou certo de que conseguiremos aquilo que queremos. Já temos muitas provas reunidas. Nesta altura, os dados já devem ter sido recuperados.

 

Não temos nada que ligue o Danny a Melissa Avalon chamou Rainie a atenção.

 

Então o delegado do Ministério Público pode avançar com as acusações por homicídio das meninas. Por mim, tudo bem. Só que um homem não pode cumprir tantas penas de prisão perpétua.

 

Nem um rapaz salientou Rainie, absorta em pensamentos, pondo o prato de lado e roubando um pedaço de alface a Quincy. Um rapaz também não pode cumprir tantas penas de prisão perpétua.

 

Sanders revirou os olhos.

 

Como se a idade tivesse alguma coisa a ver com isso nos tempos que correm! Estamos prestes a ser invadidos por uma geração inteira de psicopatas jovens. Não concorda, Quincy? Famílias em que ambos os pais trabalham tornaram-se viveiros de superpredadores que não têm qualquer tipo de amizade ou remorso por ninguém. Fazem as pessoas ir pelos ares no Nintendo, e o mesmo fazem nas ruas. Assassinam mulheres grávidas e correm para casa para ver o Bugs Bunny na televisão. O The New York Times publicou um artigo completo sobre o tema.

 

Eu não acreditaria em tudo o que leu disse Quincy.

 

Porque não? Li esse artigo no início dos anos noventa e quantos tiroteios tivemos desde então?

 

Meia dúzia, creio eu afirmou Quincy, calmamente, mas, em mil novecentos e noventa e oito ainda tivemos um dos anos lectivos mais seguros de que há registo.

 

Sanders lançou-lhe um olhar dúbio. O agente do FBI respondeu-lhe na mesma moeda.

 

No ano lectivo de noventa e dois/noventa e três prosseguiu Quincy, que é o período de tempo a que esse artigo se reporta, houve cinquenta e cinco vítimas. Como você refere, isto passa-se antes do surto de tiroteio em escolas. No ano lectivo de noventa e sete/noventa e oito, assistimos a três tiroteios. No entanto, o total de vítimas para esse ano foi de apenas quarenta, uma baixa de quase trinta por cento. A verdade é que a violência nas escolas é muito parecida aos desastres de aviação: trágicos, chocantes, motivo de manchetes nos jornais, mas, de forma alguma, indicativos da situação de todo o sector. As crianças continuam a estar mais seguras na escola e nos aviões do que na carrinha da família.

 

Mas estes incidentes não vão desaparecer como que por artes mágicas ripostou Rainie. Roubou um quadradinho de pão torrado da salada de Quincy e lançou-lhe a sua própria versão do olhar duro e directo dele. Ao princípio, talvez pudéssemos menosprezar isto, como tratando-se de uma fase, mas já se passaram vários anos. Um tiroteio é assustador. Sete são francamente aterrorizantes.

 

Temos de enfrentar questões problemáticas concordou Quincy, mas não devemos perder a perspectiva das coisas. De um modo geral, os crimes praticados por jovens baixaram nos últimos cinco anos. Ao tomarmos uma posição mais firme no que toca às drogas e aos gangues, as escolas tornaram-se mais seguras. E essa a boa nova.

 

”Por outro lado acrescentou, ao ver o crescente cepticismo deles, alguns adolescentes são extremamente violentos e não têm o mínimo remorso. E, infelizmente, os meios de comunicação social distorcem esse facto. Rapaz Normal Mata Dez. Família Perfeita Assassinada por Filho de Catorze Anos. Isto conduz-nos a um estado de paranóia profunda e, se não tivermos cuidado, ao medo de todas as crianças. A verdade, todavia, é que muitas das crianças que cometem estes actos não são, entre aspas, normais. Várias sofrem de reconhecidos distúrbios mentais e deviam estar sob medicação. Mesmo aquelas que não estavam debaixo de cuidados médicos tinham, provavelmente, um elevado grau de problemas de inserção social, o chamado distúrbio de apego, que as leva a encarar o assassínio de uma forma mais fácil.

 

O que é então o distúrbio de apego? indagou Sanders.

 

E a dificuldade que um indivíduo sente em estabelecer laços afectivos com os semelhantes disse Rainie de imediato; depois encolheu os ombros e tirou mais um pouco da salada de Quincy. Estudei Psicologia na faculdade. Lembro-me de uma ou duas coisas.

 

Óptimo disse Quincy, tentando infundir-lhe alguma confiança; depois, franziu o sobrolho e puxou a salada para si, como que querendo protegê-la. Rainie roubou outro pedacinho de pão torrado. Quincy desistiu.

 

Toda a gente precisa de estabelecer laços afectivos com os seus semelhantes explicou Quincy a Sanders. Em teoria, enquanto crianças, estabelecemos laços afectivos com os nossos pais. Choramos, os nossos pais respondem ao nosso choro alimentando-nos e concluímos que os nossos pais são boas pessoas e que nos amam: estamos a estabelecer laços afectivos. À medida que crescemos, este laço estende-se ao resto da sociedade, ajudando-nos a ser bons amigos, vizinhos, maridos, etc. Infelizmente, nem todas as crianças estabelecem laços afectivos. O bebé chora e batem-lhe. Nesse caso, em vez de aprenderem a confiar nos outros e a ter carinho por eles, as crianças tornam-se egocêntricas, mentindo compulsivamente, manipulando os outros, mostrando-se incapazes de sentir empatia. Na maioria dos casos, vemos este fenómeno em crianças maltratadas ou abandonadas. Todavia, a falta de estabelecimento de laços afectivos também pode ocorrer no seio de ”boas” famílias. Só que não é tão comum.

 

Bons pais têm maus filhos? perguntou Sanders, e revirou os olhos para mostrar a sua opinião. Quincy não ficou desconcertado.

 

Absolutamente. Uma mãe sofre de grave depressão pós-parto e não consegue satisfazer as necessidades do filho. Ou o recém-nascido sofre de um problema clínico grave e não está nas mãos da mãe a satisfação das suas necessidades. Ou, pura e simplesmente, o recém-nascido não é receptivo a estabelecer laços afectivos. Por muito que a mãe se esforce, o bebé repele-a. É raro, mas acontece. Por isso, sim, bons pais podem acabar por ter um filho que é muito social e outro que é muito anti-social.

 

Sanders lançou novo olhar dúbio a Quincy.

 

Não compro essa disse, num tom seco. Está a dizer que estes miúdos são pequenos psicopatas bizarros desde que nasceram. Bem, se é esse o caso, por que razão ninguém dá por isso? Porque é que se lê Rapaz Normal Mata Dez em todas as manchetes?

 

Pensem no Ted Bundy propôs Rainie. Toda a gente pensava tratar-se de um homem bonito e charmoso. O único problema era que tinha o passatempo de violar e assassinar raparigas. Ups!

 

Exactamente anuiu Quincy, e fez um gesto de aprovação com a cabeça. Rainie deu consigo a sorrir-lhe. O agente federal tinha olhos azuis meigos quando sorria, pareciam os olhos deslumbrantes do Paul Newman.

 

Isso continua a parecer-me conversa fiada de psicólogos. Sanders aclarou a garganta. Os miúdos são assassinos, fim da história. A melhor solução é prendê-los todos e deitar fora a chave.

 

A idade não importa? perguntou Quincy, calmamente. Continuava de olhos fixos em Rainie. Demasiado tarde, voltaram a centrar a atenção na salada.

 

Não disse Sanders. Se o miúdo é capaz de praticar o acto, também é capaz de pagar o preço.

 

Quincy encolheu os ombros, obviamente pouco convencido. Meteu outra garfada de salada na boca, depois surpreendeu Rainie e Sanders ao dizer:

 

Talvez. Só Deus sabe as coisas que já vi. Fez uma pausa. Alguns miúdos são perigosos disse, por fim, num tom mais enérgico. Alguns dos jovens que interroguei são, provavelmente, casos perdidos, que estão para além de tudo aquilo que possamos imaginar. Mas nem todos os jovens são assim. E o nosso sistema legal baseia-se na filosofia de que é mais difícil libertar cem culpados do que condenar um inocente. Parece-me claro que temos a obrigação de tentar identificar quais os jovens que ficam sujeitos a reabilitação. Não simplesmente para juntar todos os criminosos e fazê-los desaparecer da vista.

 

Consegue ajudar um miúdo que cometeu um assassínio? indagou Rainie, curiosa.

 

Às vezes. Quanto mais jovem for a criança, maiores são as hipóteses. Além disso, o distúrbio de apego ou desapego atinge um grande número deles. Alguns dos miúdos que interroguei representavam o extremo do espectro. Para pôr isso nos termos do Sanders, ”são pequenos psicopatas bizarros”, E concordo com ele nesse aspecto: é mais seguro para nós prendê-los a todos e deitar fora a chave. Lançou um sorriso seco ao detective estatal. Então, baixou a voz. Pareceu tomar um ar mais sombrio. Todavia, não é esse o caso de todos os criminosos adolescentes. Como discutimos antes, agente Conner, os assassinos em massa não são homogéneos. Alguns dos atiradores escolares eram, sem sombra de dúvida, mais seguidores do que líderes. Estavam perturbados e vulneráveis. Deixaram-se manipular para a realização de um acto violento, porque estavam magoados e perturbados, e não sabiam como lidar com a situação. Fizeram o que fizeram, mas depois também sentiram remorsos e arrependimento. Julgo que estes miúdos podiam ser mandados para casas de correcção de rnenores. Dadas as idades, é pena não se tentar.

 

E se estivermos enganados e voltarem a matar? questionou Sanders. Você sente-se com coragem para visitar a família, para lhes contar como a sua experiência científica fracassada foi a culpada do assassínio da esposa, da irmã, da mãe? E irá aparecer na televisão a tentar explicar por que motivo achávamos que era uma óptima ideia deixar um conhecido assassino solto na sociedade?

 

Quincy esboçou um vago sorriso.

 

Acontece. Alguns dos nossos assassinos em série mais prolíferos, como o Kempner, formaram-se no sistema de menores. Mataram em novos. Foram condenados à reabilitação. Atingiram a idade adulta. Mataram ainda mais pessoas.

 

É nestas alturas que dou graças a Deus por não ter filhos disse Sanders.

 

Quincy soltou, finalmente, um suspiro. Pousou o garfo e pareceu perder completamente o interesse pela salada.

 

As coisas estão a ficar cada vez mais complicadas murmurou. Sabe que já estamos a utilizar as nossas técnicas de desenhar os perfis de assassinos em série em escolas secundárias?

 

Rainie franziu o sobrolho. Sanders exclamou então com mais eloquência:

 

Não goze comigo!

 

Não estou a gozar consigo, detective. No seguimento dos últimos tiroteios, vários distritos escolares implementaram ”estudos dos perfis dos alunos”. Os conselhos escolares têm uma lista de controlo de comportamentos ”suspeitos” para avaliar o potencial de cada aluno para a violência. Coisas como crueldade com animais, linguagem abusiva, escritos com imagens de violência. Alguns dos nossos agentes estão a dar aulas de Ciência Comportamental e Desenho de Perfil Psicológico a professores.

 

Que acontece a um aluno que é incluído no perfil dos potencialmente perigosos? perguntou Rainie, de sobrolho franzido. Chamam a polícia, dão-lhe umas palmadinhas e confiscam-lhe os jogos de vídeo?

 

A grande maioria dos distritos segue a política de notificar os pais, depois o aluno pode ser acompanhado por orientadores escolares ou ser expulso. Isto está a ser levado muito a sério.

 

Tal como os julgamentos das bruxas de Salem.

 

Sim, mas as bruxas nunca mataram treze pessoas. As escolas estão sob pressão. Há três anos, o director VanderZanden pôs de lado a hipótese de poder ocorrer aqui um tiroteio. Quanto querem apostar que está mais do que arrependido? E se o conselho directivo ouve falar de desenho de perfis na próxima semana, quanto querem apostar que os professores começarão a procurar futuros maníacos homicidas no meio dos registos dos alunos?

 

Ficaram todos em silêncio. Sanders abanou a cabeça.

 

Olhem, eu não conseguiria ser professor declarou com veemência. Assisto a cerca de três homicídios por semana, assassínios fresquinhos, e, no entanto, a ideia do que se passa dentro de uma sala de aula assusta-me profundamente. Metade destes professores está a ser intimidada e hostilizada pelos próprios alunos e agora vai querer, à viva força, saber quais os miúdos que são máquinas de matar a sangue-frio. Sim, irão dormir descansados à noite. Rainie encolheu os ombros.

 

Os professores já deviam estar habituados a isso. Quando foi a última vez que a Associação de Pais apelou a um melhor acompanhamento dos filhos por parte dos pais? A culpa é sempre da escola. Mas, independentemente daquilo que acontece, por que razão é que as escolas não estão a desenvolver um melhor trabalho na educação dos nossos filhos?

 

Quincy esboçou um sorriso seco.

 

Vocês falam como duas pessoas que não têm filhos.

 

Gostava de saber o que poderia ter sido feito relativamente ao Danny O’Grady observou Sanders, em jeito de devaneio. Não me parece muito diferente dos outros atiradores escolares. Um pouco solitário, passa a maior parte do tempo na Sala de Informática e não consegue deixar de ir ao campo de futebol. Ainda não descobri um professor que lhe conheça amigos íntimos. Depois, você atira com o facto de o pai parecer ter o complexo de que é Deus, os pais passarem o tempo a discutir e o pequeno Danny ser um ás com uma espingarda de caça na mão... Cos diabos, talvez o desenho dos perfis dos alunos tivesse salvo a escola. Parece ter sido apenas uma questão de tempo.

 

Quincy abanou a cabeça.

 

Não creio que o desenho dos perfis dos alunos tivesse identificado o Danny O’Grady. Era um bom aluno, educado com os professores, aplicado nos estudos. Não ouvimos quaisquer histórias de tortura de animais de estimação e nem sequer de fascínio pelo fogo. O Danny está irritado. Mas não existe ainda qualquer prova de que é um homicida.

 

Oh, o miúdo cometeu o crime afirmou Sanders, convicto. A Conner apanhou-o em flagrante com as armas do crime e ele confessou por duas vezes. Caso encerrado. Agora só temos de pôr um ponto final nisto tudo antes que toda esta maldita cidade expluda. Campónios idiotas. Devia ser obrigatório um QI razoável para se possuir uma arma.

 

Rainie não articulou qualquer palavra. Já passava das nove e meia, o restaurante ficara quase vazio e, apesar das palavras eloquentes de Sanders, estavam todos com ar pensativo.

 

Primeiro que tudo prosseguiu Quincy, na quietude do restaurante, enquanto limpava as mãos ao guardanapo de papel e se preparava para se levantar, todos os atiradores escolares ansiavam por notoriedade. Entravam nas respectivas escolas e faziam gala de mostrar as armas. Queriam que os colegas soubessem quem eram os autores. Queriam um total reconhecimento da sua vingança. Porém, o Danny O’Grady fez questão de não ser visto por uma única pessoa. Na verdade, um dos professores referiu que os disparos foram feitos de dentro da Sala de Informática, como se o assassino estivesse deliberamente a procurar passar despercebido.

 

Estava em pânico, aterrorizado retorquiu Sanders.

 

Segundo, os tiroteios em escolas têm a ver com raiva deslocada. Agora, pelo que todos dizem, o Danny tem um pai dominador, intimidativo. Presumo que seja raiva deslocada. Por que razão ele não visou o treinador de futebol, um homem das cavernas como o pai, ou atletas famosos, que representariam o tipo de rapaz que o pai quer que ele seja, ou o director da escola, a figura de um pai clássico? Por que motivo procurou deliberadamente a Melissa Avalon, uma mulher jovem e perita na área que ele mais gostava? O que havia nela que o tivesse incitado à sua fúria?

 

Talvez ele tenha começado a sentir um fraquinho pela professora. Como ela não lhe deu troco, ripostou de forma violenta.

 

Terceiro, a maioria dos atiradores procura o maior número de vítimas possível. O excesso e o incitamento ao terror entre os seus pares fazem parte da fantasia. Querem sentir-se poderosos. Por que razão o Danny esperou até depois do almoço, quando já estavam todos dentro das salas de aula? E porque escolheu armas mais pequenas, quando está mais à vontade com espingardas e até poderia provocar mais estragos?

 

Talvez não tenha sido um tiroteio escolar genuíno disse Sanders, de sobrolho carregado. Talvez só quisesse atingir Miss Avalon, porque esta ferira os seus sentimentos, ou porque não olhava para ele como devia ser, e ele não aguentou mais. Como tal, reage de forma violenta, monta a vingança contra ela e as outras duas crianças apenas se atravessaram no caminho.

 

A teoria não é má, detective, mas tem um problema.

 

Qual?

 

Não pode ligá-lo à morte da Melissa Avalon. Diz que ela é que foi o motivo de tudo; no entanto, ela é a única vítima que você não consegue provar que ele matou. Como explica isso?

 

Sanders fez uma pausa. Estava de olhos esbugalhados e mergulhado em pensamentos profundos.

 

Quincy esboçou um sorriso meio irónico.

 

Não sei o que aconteceu ontem à tarde na escola, detective, mas julgo que ainda há muita coisa por esclarecer. Nesta altura, temos de manter o espírito aberto. E precisamos de saber o que há dentro daqueles computadores. Especialmente depois daquilo que os técnicos disseram.

 

O que é que disseram?

 

Que alguém tentou apagar o ficheiro histórico da Internet e os ficheiros de cache. Não se apaga aquilo que não é importante.

 

Merda! exclamou Sanders.

 

Quincy esboçou novo sorriso, mas as olheiras estavam mais escuras.

 

Levantaram-se todos da mesa. Rainie meteu a mão no bolso para tirar dinheiro, mas Sanders surpreendeu-a pagando a conta.

 

Saíram então. No ar da noite, sentia-se o odor a pinheiro e a terra molhada. Ninguém tinha mais nada a dizer. Sanders voltou para o carro. Rainie e Quincy ficaram sozinhos. Ela estudou novamente o rosto do agente federal, os olhos azuis que tinham tanto de doces como de implacáveis. Perguntou a si mesma se ele tinha razão no que tocava a Danny e o facto de ainda saberem tão pouco frustrava-a.

 

Queria respostas para a sua comunidade. Queria respostas para Shep e Sandy. Queria respostas para si própria, para que pudesse tirar as imagens da escola da cabeça e a noite deixasse de a atormentar.

 

O agente federal fitava-a, a expressão no rosto difícil de decifrar. Rainie estudou-lhe novamente as mãos. As calosidades ganhas à custa de muito esforço. A inexistente aliança de casamento.

 

Preciso de um sítio para dormir disse Quincy, finalmente.

 

Conheço o sítio ideal.

 

Quarta-feira, 16 de Maio, 22.03

 

O motel da Ginnie não tinha muito mau aspecto. Os colchões já contavam vinte anos e as cómodas de madeira de bordo, cheias de marcas, haviam sido compradas em segunda mão, vendas particulares, mas as cortinas às flores eram feitas à mão, os lençóis brancos, já coçados, apresentavam um ar lavado, e os tapetes eram vigorosamente aspirados todos os dias.

 

Ginnie estava ao balcão da recepção com rolos de esponja cor-de-rosa nos cabelos grisalhos e o corpo volumoso coberto por uma túnica azul-escura com flores cor de laranja. Explicou a Quincy que abrira o motel há dez anos, quando o quarto marido, George, falecera. Depois de tantos anos a cuidar de homens, resolvera arranjar um negócio onde pudesse ter um novo homem todas as noites. E piscou-lhe o olho ao dizer isto. Quincy esperava que ela estivesse a brincar.

 

Ginnie continuou a desfiar o seu rosário. Servia muffim caseiros todas as manhãs e bolachinhas de chocolate e nozes todas as noites. Lavava a roupa por dois dólares a carga; pedia para deixar a roupa suja empilhada à porta. O motel não era tão rústico como parecia. Instalara uma linha de dados para poder consultar pelo computador a sua carteira de acções de hora a hora.

 

Pousou bruscamente uma lista de números de acesso aos fornecedores de serviço Internet locais em cima do balcão. Convidou então Quincy a visitar o seu site em BigMama.com.

 

Rainie reprimiu um sorriso. Quincy começou a afastar-se lentamente da mulher de túnica. Pouco depois, juntou-se de novo a Rainie no parque de estacionamento, onde a pequena fiada de quartos se bifurcava num V pintado de cor-de-rosa.

 

Onde é que diabo me trouxe? perguntou Quincy a Rainie, quando descobriu o quarto e tentou desajeitadamente introduzir a chave na fechadura. Como local. Só os turistas ficam no Motel Seis.
Não posso ser um turista federal?

 

Claro que não. A Ginnie sabe as melhores bisbilhotices de Bakersville, a seguir ao Walt, claro. Apareça ao pequeno-almoço, amanhã de manhã. Coma uns muffins de farelo. Ficará espantado com a quantidade de coisas que ela sabe.

 

E com a limpeza que o meu cólon levará murmurou Quincy, e abriu a velha porta com um encontrão.

 

Já dentro do quarto, Quincy pousou a mochila em cima da cama, arrumou o computador debaixo da mesa de pinho e verificou a localização da tomada do telefone. Rainie imaginou que estava a observar um ritual que o agente realizara em centenas de quartos de hotel, em centenas de pequenas cidades. Quincy deu uma olhadela ao roupeiro, tirou outra almofada para a cama, depois pendurou cuidadosamente o casaco nas costas de uma cadeira. A seguir, entrou na minúscula casa de banho e inspeccionou as embalagens de sabonete e champô. Por fim, voltou para a parte da frente do quarto e verificou minuciosamente a janela e as fechaduras da porta.

 

Um trinco encurvado, com aspecto mais de velho do que de sujo, mantinha a janela fechada. Quincy fez uma careta. A porta também não o deixou muito satisfeito. Uma corrente fácil de abrir. Uma fechadura que até um miúdo de dois anos conseguiria arrombar. Abanou a cabeça.

 

Não há por aqui ninguém que tenha noções básicas de segurança?

 

E estragar o charme da nossa pequena cidade? O Conselho Municipal nunca daria ouvidos a tal reivindicação. Além disso, qual é o idiota que assalta um agente federal?

 

Vou precisar de um cabo de vassoura para trancar esta janela. E uma cadeira para pôr de encontro ao manipulo da porta.

 

Não anda com uma arma?

 

Ando, mas o seguro morreu de velho.

 

Quincy saiu e arranjou um ramo adequado para trancar a janela inferior. Aparentemente, levava a questão da segurança muito a sério. Rainie aproveitou para dar nova vista de olhos às fotografias que ele transportava na mala do computador. Achava que se não fizesse outra coisa se não olhar para vítimas de assassínio durante todo o dia, também ficaria obcecada com a segurança de portas e janelas.

 

Finalmente, Quincy lavou as mãos. Fizera o melhor que pudera com os seus alojamentos. Dirigiu então o olhar para o telefone. Rainie viu-o desviar de imediato. Pouco mais coisas havia no quarto onde pudesse fixar a atenção. Ginnie não acreditava na televisão.

 

Lá fora, a noite estava escura como breu. O quarto enchera-se de sombras. Só lhes restava despedirem-se e desejarem não acordar muitas vezes, a sonhar com rapazinhos com espingardas na mão e rapariguitas a fugirem, espavoridas, por longos e escuros corredores.

 

Rainie disse Quincy, após uma ligeira pausa, posso oferecer uma bebida?

 

Rainie ficou perplexa. Olhou-o com mais atenção e tentou descobrir o que aquilo significava. Uma bebida. Só uma bebida? Com o inteligente e competente agente especial supervisor Pierce Quincy. Parecia ser o tipo de homem que vivia a sua vida segundo certas regras. Mas o seu olhar era mais meigo agora. Já não era um agente, pensou Rainie, mas um homem a dirigir-se a uma mulher.

 

Rainie não fazia a mínima ideia do que havia de fazer.

 

Sentia-se inquieta, nervosa. Já vira demasiada morte e, na manhã seguinte, teria de se levantar de madrugada para ir assistir a outro acto macabro. Devia ficar sozinha. Sentada no alpendre traseiro, com uma garrafa de cerveja gelada na mão, a ouvir o pio da coruja. Mas apetecia-lhe ir a um bar. A um sítio qualquer, onde a música estivesse alta e a pista a abarrotar de gente, e todas as mulheres fossem bonitas e todos os homens tivessem um brilhozinho nos olhos. Podia arranjar um namorado. Podia arranjar uma rixa. Em noites como aquela, não sabia muito bem qual das duas coisas preferia.

 

Só sabia que, às vezes, era filha de sua mãe, e nunca confiava em si própria quando se encontrava nesse estado de espírito. Vai para casa, Rainie. Já conheces a rotina.

 

Em vez disso, estudou Quincy. Os lábios firmes. Os ombros fortes. E os olhos bem azuis de um homem que sabia ser atraente.

 

Raios o partam!

 

Meia hora depois, já com roupa civil vestida, Rainie sentava-se com Quincy num bar.

 

O Tequila’s era um bar onde tudo podia acontecer. O soalho em madeira coberto de cascas de amendoins. as minúsculas mesas com os assentos em vinil castanhos cheios de nódoas. Canecas grandes de cerveja a um dólar e cinquenta nas noites de quarta-feira e palitos de queijo mozzarella durante a happy hour. Uma. jukebox debitava conhecidas canções country. Na pista de dança, metade dos casais dava, com desenvoltura, os passos da dança em linha. Mais ao fundo, na penumbra, outros casais dançavam outros ritmos, em perfeita sincronia uns com os outros.

 

Rainie pediu uma garrafa de Bud Light, gritando por sobre o barulho que se fazia ouvir na sala. Quincy surpreendeu-a pedindo o mesmo. Parecera-lhe mais um apreciador de Heineken, mas está-se sempre a aprender.

 

Durante alguns instantes, ficaram sentados, de olhos postos na pista de dança, absorvendo o barulho e libertando o espírito, até ao ponto de a escola de Bakersville e Danny O’Grady parecerem muito distantes.

 

Um sítio simpático comentou Quincy.

 

Divertido.

 

Vem aqui muitas vezes?

 

Calma, agente superior. A seguir vai querer saber o meu signo. Quincy esboçou um largo sorriso. Ficava-lhe bem, especialmente com

 

as mangas da camisa arregaçadas e o nó da gravata de seda frouxo. Deu um demorado gole na cerveja.

 

Saborosa e geladinha. Que tal está a sua?

 

Não sei. Sou alcoólica, Quincy. Sou filha de mãe alcoólica. Provavelmente tive um pai alcoólico. Não sei se a minha mãe esteve tempo suficiente sóbria para se lembrar do nome dele.

 

Quincy lançou-lhe um olhar curioso.

 

Não precisávamos de ter vindo a um bar.

 

Não há problema. Estou sóbria há dez anos. Sei o que estou a fazer.

 

Mas ainda pede uma cerveja?

 

Sim. Gosto de segurar a garrafa na mão e saber que a posso voltar a pousar. É a sensação de poder, creio eu. Além disso e piscou o olho, as garrafas de cerveja proporcionam um extraordinário prazer fálico.

 

Quincy não conseguiu conter uma gargalhada, Rainie sorriu-lhe. Não lhe parecia que ele risse muitas vezes, o que era mau. Ria com prazer. Também lhe dava um melhor aspecto.

 

E você? indagou Rainie, pousando a garrafa. Diga-me a verdade, agente especial supervisor, o que o traz efectivamente a Bakersville?

 

Serviço, claro. Tanto crime, tão pouco tempo.

 

Viaja muito?

 

Três ou quatro cidades por semana. Nem sei se sou um agente federal ou uma estrela de rock.

 

E quanto a relações amorosas? indagou Rainie, com ar despreocupado.

 

Quincy esboçou um sorriso ao canto da boca. Ela não o apanhara desprevenido.

 

Fui casado. Durou quinze anos, o que foi, com certeza, mais sete anos do que aquilo que eu merecia. Costumava andar com uma fotografia dela numa moldura de prata, na minha pasta. Em todos os hotéis onde ficava, a primeira coisa que fazia era pôr a fotografia em cima da mesa. Infelizmente, isso não ligava com a ideia dela de tempo de qualidade. Divorciámo-nos. Tive de aprender a trabalhar sem a fotografia em cima da secretária. E você?

 

Não tenho qualquer tipo de relacionamento amoroso. Sigo uma política rígida nesse aspecto. Se metade dos americanos se está a divorciar, julgo que estou a tomar a opção correcta.

 

Quincy lançou-lhe um olhar céptico. Rainie sentia que ele tentava ver se a sua afirmação era verdadeira ou se não passava de mera fanfarronice.

 

Você é jovem, inteligente e bonita. Que tal iniciar uma família?

 

Oh, não. Não dou à luz crianças. São seres pequenos, necessitados e facilmente destruídos. Sejamos honestos. Provenho de uma família com um longo historial, mas eu não passo de uma filha de uma alcoólica insolente e não sou grande coisa para o papel de mãe. Para os Conner, o ciclo acaba aqui.

 

Não devia subestimar-se, Rainie.

 

Não estou a subestimar-me. Estou apenas a ser franca consigo.

 

Rainie observou-o a beber outro gole de cerveja. Quincy estava indubitavelmente interessado. Era visível o brilhozinho no olhar. Mostrava-se relutante, confuso, mas interessado. Podia parecer idiota, mas a situação fê-la sorrir.

 

Inclinou-se para a frente, fazendo deslizar os longos cabelos para um lado, enquanto se preparava para tomar um ar sério. ’

 

Conte-me mais coisas, Quincy. Estamos aqui num bar, muito longe dos cenários de crime e está quase a acabar a sua primeira cerveja. Fale-, -me de toda a sua bagagem. Gosto de abrir o jogo logo desde o início. Poupa-se tempo mais tarde.

 

Não tenho bagagem interessante.

 

Toda a gente tem.

 

Não, só tenho as coisas típicas de um agente policial. A ex-mulherl Os dois filhos crescidos que mal sabem que eu existo. Demasiada atenção à profissão, pouca atenção à família. Os erros do costume. Sim? Então por que razão evita telefones? Quincy acusou o toque, apanhado de surpresa. Lançou então um

 

olhar mais comedido à agente. Rainie sentiu gozo em surpreendê-lo. Começava a perceber que, com um académico como ele, aquilo era uma forma de flirt.

 

Não me apercebi de que fosse assim tão óbvio.

 

Pierce?

 

Não me trate por esse nome. Só a minha ex-mulher me trata pelo primeiro nome. Todos me tratam por Quincy, como o médico da antiga série de televisão. Os assassinos em série e o seu sentido de humor murmurou.

Rainie continuou de olhos postos nele. Finalmente, pousou a cerveja!

 

Uma das minhas filhas - disse Quincy de súbito está no hospital. Coisa séria? Está a morrer. Não, não é verdade corrigiu-se. Morreu a quatro semanas. Vinte e três anos e foi vítima de um acidente de viaçãol de tal modo grave que o pára-brisas ficou com a forma do seu rosto. Eu vi. Obriguei a polícia a mostrar-me a fotografia. Por instantes, ficou com o olhar suspenso no vazio. Rainie vislumbrou-lhe um ar perturbado, depois, cansado. Agora, jaz num quarto de hospital, onde máquinas respiram por ela, bombeiam o sangue e a alimentam, enquanto nós nos sentamos a seu lado, dia após dia, desesperados, à espera de um milagre que a salve. Sei que o cérebro está morto e as máquinas não a conseguem reanimar. Os milagres da ciência levam-nos muito longe e, no entanto, não tão longe como desejaríamos. Meu Deus! Não devia estar lá? Sim. Então, porque não está? Porque se passasse mais um minuto sentado naquele quarto, a assistir àquela farsa, ia dar em doido. Os olhos inundaram-se de lágrimas. Quincy limpou-as com as costas da mão e fitou Rainie com um ar de alguma impaciência. Rainie, a minha filha já não tem um rosto. O carro dela bateu num poste telefónico a cerca de noventa quilómetros por hora e ela não levava o cinto posto. Sabe que a força do impacte empurra o corpo não só para a frente mas também para o ar? Que os suportes do volante são concebidos para darem de si, para não esmagarem o peito da pessoa ou os órgãos internos, mas que também não conseguem controlar as forças libertadas? Que o corpo continua animado para a frente e para cima? Que o crânio da pessoa embate violentamente na estrutura de metal do pára-brisas, que não está concebida para ceder? E depois vem o nariz e o rosto, a esmagarem-se de encontro ao pára-brisas, esmigalhando todos os ossos, enquanto o crânio entra pelo cérebro da pessoa dentro...

 

”A minha filha já não tem rosto. Tem uma massa polposa cuidadosamente mantida no lugar por agrafos, pontos e quilómetros de gaze. O único motivo por que a ligaram às máquinas deveu-se ao facto de os médicos estarem à espera de autorização para a recolha dos órgãos. Mas agora ali está ela, uma boneca grotesca animada unicamente por máquinas, e a minha ex-mulher, a Bethie, continua a confundir aquilo com vida, por isso não deixa desligar as máquinas. Não acho que haja alguma... dignidade... naquilo. E não acho correcto que a minha filha mais nova, a Kimberly, tivesse de se sentar ao lado da irmã e ouvir a mãe e eu a discutirmos quando é que devíamos desligar as máquinas. A minha opinião sobre o assunto é clara. Agora está nas mãos dela essa decisão.

 

Portanto, você chegou, deu o seu conselho de perito e veio-se embora.

 

Quincy piscou os olhos várias vezes.

 

Você podia pelo menos fingir que não estava a perceber comentou por fim. Especialmente quando está sóbria.

 

Bebeu outro gole de cerveja, dando a sensação de que precisava dele. A garrafa estava quase vazia. A empregada passou junto à mesa e perguntou-lhe se queria uma segunda. Quincy hesitou, o olhar sequioso, mas depois abanou a cabeça.

 

Espanta-me que não se tenha metido no uísque comentou Rainie.

 

E meti, durante uma semana. Depois, tive de parar, por ironia do destino. A Amanda foi morta por um condutor embriagado.

 

Ah!

 

Experimentei comer. Batatas fritas, rebuçados, gomas, caramelos... Tudo o que há numa máquina automática de hospital. Mas continuava a esquecer-me de mastigar, e isso tornava as coisas difíceis. Voltei a correr. E o segredo parece estar aí. E você?

 

Vinte quilómetros, quatro dias por semana. Aposto que o punha de rastos.

 

Sou quase quinze anos mais velho que você, Rainie. Aposto também que me conseguia pôr de rastos.

 

Quincy, você não é assim tão velho.

 

O espaço entre eles faiscou de novo. Quincy desviou o olhar.

 

Agora é a sua vez disse ele bruscamente.

 

Tudo bem. Rainie levantou o queixo, com ar decidido, e apertou com força a garrafa de Bud Light. A minha mãe era uma beberolas, das mais reles, uma promíscua. Um estupor da pior espécie. Metia-se constantemente em brigas, andava com homens que lhe batiam e, seguindo a teoria de governar a família com mão de ferro, chegava a casa e batia-me também. Só que um dia, quando cheguei a casa, encontrei-a decapitada por um tiro de caçadeira.é, infelizmente para mim, fui a primeira pessoa a chegar ao local.

 

O Shep O’Grady prendeu-a?

 

Sim. Encolheu os ombros. Eu também me teria preso. Toda a cidade sabia o que ela fazia. Ora ela estava morta, e eu tinha bocados dos miolos dela nos cabelos. Dava uma grande suspeita. Mas a errada.

 

E quem era a pessoa certa?

 

Oficialmente, o caso ainda está por resolver. Oficiosamente, estão convencidos de que foi o namorado da altura. Uma vizinha viu-o em casa pouco antes de ouvir o tiro. Talvez ele estivesse demasiado bêbedo para pensar direito. A minha mãe não andava propriamente com cientistas aeroespaciais. Ele era camionista, creio. Foi lançado um alerta geral, mas nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Provavelmente um tipo qualquer que estava de passagem. E agora decorreram tantos anos que nem sequer me lembro do nome dele. Rainie encolheu de novo os ombros. Dada a forma como a minha mãe vivia, não acredito que a história pudesse ter outro final.

 

E para si? Depois disso, tudo levaria a crer que abandonaria Bakersville para sempre.

 

Tentei. Fui para Portland. Matriculei-me na universidade. Meti-me nos copos. Durante quatro anos. Depois entrei nos Alcoólicos Anónimos. Quando acabei o curso, resolvi que talvez fosse melhor voltar para casa, porque, apesar de tudo, não passara da cepa torta. Além disso, gosto disto aqui. Herdei a casa da minha mãe, já paga, o que é bom quando se tira quinze mil dólares por ano.

 

Ainda vive na casa onde cresceu? Quincy exibiu o seu olhar céptico.

 

Não me importo. É do alpendre que gosto mais. Rainie esboçou um sorriso engraçado. Para ser franca, gosto do trabalho de agente policial de uma pequena cidade. Tenho de lidar com pessoas, não com papel. E Bakersville é uma boa comunidade. A maioria das pessoas daqui é muito simpática.

 

Excluindo os vizinhos que nunca disseram uma palavra acerca dos maus tratos que a sua mãe lhe infligia todas as noites. E excluindo os vizinhos que ainda acreditam que você é a assassina.

 

Aqueles que pensam que matei a minha mãe não se importam. Na opinião deles, cá se fazem, cá se pagam.

 

Mas você não pensa assim, pois não, Rainie? E, nestes últimos dois dias, ver a situação em que o Danny O’Grady se encontra deve ter sido muito difícil para si.

 

Rainie ficou tensa. Apertou a garrafa de Bud Light com mais força.

 

Não me está a psicanalisar, pois não?

 

Claro que não. Todavia, não deixei de reparar que hoje você deu uma explicação clara sobre o distúrbio do desapego. Combine isso com o facto de ter crescido num meio familiar agressivo, em circunstâncias não muito diferentes das sentidas por grande parte dos miúdos violentos. Estas questões não são novas para si. Já pensou nisso. Muito depois deste caso ficar encerrado, ainda irá pensar nele.

 

Bem, pelo menos o meu interesse é pessoal e não um complexo de herói deslocado.

 

Rainie ripostara num tom algo agressivo. Só se apercebeu disso quando viu Quincy fazer uma careta.

 

Desculpe murmurou ele.

 

Rainie baixou logo os olhos, embaraçada. Fora de mau gosto pedir a um homem para partilhar os seus problemas e depois usá-los contra ele. Queria ser uma pessoa melhor do que era, mas sabia que não conseguia. Era irascível, ríspida. Muito dificilmente dava o braço a torcer.

 

Não quero causar-lhe nenhum constrangimento.

 

O Danny preocupa-me afirmou Rainie bruscamente, antes que mudasse de ideias. Percebi o olhar dele. Indefeso. Irado. Confuso. Conheço esse olhar, e vi todos aqueles corpos e gostava de saber... Toda a gente diz que os miúdos não conseguem sentir tanta ira, tanta ira homicida, mas sei que conseguem. As vezes, é difícil evitá-la. Ser jovem e sentir-se abandonado e indefeso... A sua voz sumiu. E ali ficou, sem se mexer, guardando o resto das palavras dentro de si e sentindo o coração a bater contra o peito como um pássaro apanhado numa armadilha.

 

Preocupa-a o facto de poder ter sido um Danny O’Grady? Rainie não articulou qualquer palavra.

 

Você não é o Danny.

 

Sou mulher e as mulheres não transferem a sua ira. Não nos tornamos assassinos em massa ou assassinos em série. Em vez disso, centramo-nos na nossa ira, indo atrás de quem nos magoa, ou daquilo que nos está a autodestruir. Mas isso agora não vem a propósito. O meu caso não tem nada a ver com este. O único ponto comum é a violência utilizada nos crimes. E porque este é um caso de tiroteio e não um choque de viaturas ou um acidente combinado. Não sei bem, mas tenho a sensação de estar a reviver tudo. Tudo. Como se as coisas se tivessem passado ontem. Toda a gente atarefada a interrogar-se sobre se eu a matara ou não e ninguém preocupado em perguntar-me como é que eu me sentia. Nem sei bem se estavam sequer interessados em saber. Todos esses momentos, todas essas noites, as crises de choro. Mas ela era minha mãe e foi preciso tanta lixívia para tirar o sangue do tecto. Julgo que esfreguei durante dias e, mesmo assim, ainda ficaram a ver-se as manchas cor-de-rosa, e era a minha mãe, por amor de Deus! A única família que eu tinha.

 

Rainie, sente-se bem?

 

Sim, óptima. Porra, tenho de me calar! Quincy pegara-lhe na mão a dada altura. Rainie não se lembrava do momento preciso, e o facto de não ter reparado em tal coisa deixou-a perturbada. Sentia sempre quando lhe tocavam. Ao fim de todos aqueles anos, era extremamente cuidadosa com o espaço físico. Tirou a mão de entre as dele e passou-a pelos cabelos, descobrindo que estava mais agitada do que pensara. Quincy olhava-a, de novo, com preocupação. Rainie teve vontade de soltar uma gargalhada frívola, mas não seria de bom tom.

 

Desculpe. Primeiro, acuso-o de me tratar como uma paciente, depois, trato-o como um psiquiatra.

 

Não sou seu terapeuta. Esclareçamos as coisas.

 

Claro que não. Não preciso de terapeuta!

 

Quincy franziu o sobrolho. Ficou algo agitado. Pegou-lhe novamente na mão.

 

O olhar era tranquilizador.

 

Rainie, ouça. Aquilo por que está a passar é muito real. Chama-se síndrome de stresse pós-traumático. Há catorze anos, você sofreu um trauma grave. E embora tenha convivido com ele a muitos níveis, continuou a afectá-la. Agora está a passar por uma situação idêntica e isso está a trazer-lhe à memória a primeira. Acontece a toda a gente. Aquando da Guerra do Golfo, tiveram de se instalar linhas directas de atendimento para os veteranos do Vietname, que, de repente, começaram a reviver situações de combate de vinte anos antes. Lamentavelmente, sempre que ocorre um tiroteio numa escola, todas as outras comunidades ficam, de novo, de coração nas mãos. E então surgem as recordações, os pesadelos, os ataques de ansiedade.

 

Sou uma profissional. A minha obrigação é tratar de homicídios e ter sempre os olhos bem abertos.

 

Você é humana. Os dedos de Quincy apertaram os dela. É um ser humano inteligente. O cérebro trabalha mesmo que não queira.

 

Bem, ponha-o a andar para trás. Está preso no replay e eu já estou farta.

 

Quincy esboçou um tímido sorriso.

 

Quanto mais antigo é o trauma, mais depressa desaparecerá. Entretanto, talvez ajude falar com alguém. O departamento do xerife fornece meios de apoio psiquiátricos?

 

O nosso departamento nem sequer fornece café.

 

Talvez algum dos profissionais que vieram prestar ajuda aos miúdos.

 

Sim, talvez. Mas o tom de voz dizia a ambos que ela nunca iria procurar essa ajuda. Consultar um profissional a sério seria como admitir uma fraqueza. Ela nunca faria tal coisa.

 

Está a ficar tarde.

 

Rainie olhou em volta. A música estava a baixar de intensidade e as mesas já haviam sido levantadas. Quincy tinha razão: estava na hora de irem embora. Quartos separados, ela sabia. Falava de mais e não podia envolver-se numa noite de sexo, depois de ter desnudado a alma.

 

Pôs-se de pé. Pouco depois, Quincy imitou-a.

 

Quincy... Lamento o que aconteceu à sua filha.

 

Obrigado. Não adianta, mas sempre dá algum conforto.

 

Eu sei. Hesitou. Também lamento aquilo que disse antes. O complexo do herói deslocado. As vezes sou um bocado brusca a dizer as coisas.

 

E eu que pensava que isso fazia parte do seu charme. Quincy pôs-lhe a mão na cintura, junto aos rins, e conduziu-a em direcção à porta.

 

Lá fora, a noite estava fria e Rainie fitou-o, expectante. A mão de Quincy continuava pousada nas suas costas. O corpo dele junto ao seu. Sentia o perfume do aftershave, subtil e caro. Pouco sabia dele, a não ser que era forte, inteligente e sofisticado. Nunca tentara encontrar alguém que lhe desse luta. Andara sempre com jovens garanhões, daqueles que não faziam muitas perguntas. Era mais seguro.

 

Agora, examinava a covinha do pescoço de Quincy, onde se vislumbravam alguns cabelos escuros. Depois, deslizou o olhar para a outra mão do agente, com os seus dedos compridos e destros. Fixou então o olhar no rosto e nos olhos azuis perscrutadores que viam de mais.

 

Rainie deu um instintivo passo atrás, confusa e, subitamente, alarmada. Quincy já deixara cair a cabeça para a frente e passava os lábios pela face dela.

 

Não sou teu terapeuta, Rainie.

 

Eu sei.

 

Os lábios de Quincy deslizaram pela outra face, quente, firme, seca.

 

Não sei o que estou a fazer. Tenho a minha política relativamente a estas coisas. Os lábios detiveram-se na cova do pescoço de Rainie. Esta deixara cair a cabeça para trás. O beijo foi muito ao de leve. Excitou-a.

 

Nada de confraternizações murmurou ela. Quincy levantou a cabeça.

 

Nada de engates de uma noite. Nada de coisas passageiras. Já sou muito velho para essas merdas, Rainie. Já estive em muitas cidades, passei muito tempo a estudar o pior que os homens conseguem fazer. Experimentei o casamento e a paternidade e tenho todas as coisas de que me orgulho na vida e todas as que gostava de nunca ter feito. Já não acredito em engates de uma noite. Não vejo qualquer vantagem nisso.

 

Rainie tentou abrir a boca para argumentar, mas Quincy não a deixou falar, passando os lábios pelos dela. Ficou atónita. Quincy fez uma pausa, hesitante, a boca húmida, a língua à procura da dela. As mãos deslizaram pelas costas da agente. Abraçou-a levemente, não a apertando com a devida força contra si, o que lhe provocou uma sensação de gratidão e, ao mesmo tempo, de desapontamento.

 

Rainie começara a inclinar-se para a frente quando, subitamente, ele afastou os lábios.

 

Estou interessado em ti, Rainie segredou-lhe ao ouvido. Não és o que eu esperava. És inteligente. És complicada. E já sei que não vais comigo para casa esta noite.

 

E não vou mesmo murmurou Rainie.

 

Vais torturar-te com a viagem até ao consultório do médico-legista. Vais sonhar com a tua mãe e com rapariguinhas mortas.

 

Não vou nada...

 

Não sou teu terapeuta, Rainie. Sou apenas um homem que ouviu os teus desabafos.

 

Tirou as mãos das costas de Rainie. Afastou-se. E então ela sentiu um frio terrível a invadi-la. Os braços ficaram gelados. Tremia enquanto o via encaminhar-se para o carro, mas não o chamou. Tinha o seu próprio carro para ir para casa. Uma das suas regras. Uma das suas muitas regras destinadas a mantê-la em segurança.

 

O agente especial supervisor Pierce Quincy foi-se embora.

 

E, após alguns instantes, Rainie voltou para casa, sozinha. Quinta-feira, 17 de Maio, 1.08

 

Shep aguardava Rainie no alpendre traseiro, quando esta chegou a casa. A julgar pelo monte de garrafas de cerveja vazias a seus pés, já estava ali há um bom bocado e a espera não fizera nada para melhorar o seu estado de espírito.

 

Onde é que raio tens andado? perguntou, quando, finalmente, transpôs a porta de vidro de correr.

 

Rainie fitou-o por instantes. Era tarde, já passava bastante da meia-noite e não estava com paciência para aquela conversa. Por outro lado, já devia ter previsto aquilo.

 

Desapertou os punhos da blusa de algodão, já um pouco usada.

 

Vai para casa, Shep!

 

A primeira coisa que vais fazer de manhã não é ires ter com o médico-legista? Por amor de Deus, Rainie, isto é uma investigação criminal. O que é que andas a fazer até às tantas da manhã?

 

Creio que ainda sou eu que estou à frente do caso. Por isso, desaparece da minha cadeira.

 

Shep fingiu não a ouvir. Pousou a cerveja e levantou-se com ar autoritário, como se ainda estivesse no papel de xerife. O facto de estar a cambalear também não ajudava. Rainie abanou a cabeça.

 

Temos de falar sobre o caso.

 

Estás bêbedo, não estás com as ideias no lugar e, se alguém te vir aqui, o George Walker terá ainda mais munições para o noticiário das cinco. Pai de suspeito na farra com a polícia.

 

O Danny não fez nada daquilo!

 

Temos impressões digitais dele nos invólucros, Shep.

 

Não em todos.

 

Que raio queres dizer com isso?

 

Oh, o Sanders não te contou? Exibia um brilho de satisfação no olhar. Bateu com o punho no peito. Tenho o meu próprio contacto no laboratório de investigação criminal do estado. Quando falei com ele esta tarde, contou-me que haviam encontrado impressões digitais nos invólucros da calibre trinta e oito e da calibre vinte e dois, excepto num da calibre trinta e oito. Um invólucro sem manchas, sem qualquer tipo de sujidade, sem impressões digitais. Por outras palavras, completamente limpo. Há algo de estranho no invólucro. O meu contacto nem soube dizer o quê, mas ia mandá-lo analisar com mais pormenor. Portanto, aí tens. Passa-se alguma coisa de estranho com as provas, Rainie. Aconteceu algo mais naqueles corredores e isto é a prova.

 

Oh, meu Deus, Shep. Nem todos os invólucros terão impressões digitais e tu sabes bem disso. Agora, pela última vez, vai para casa.

 

Um invólucro completamente limpo, Rainie! E o que te digo, estava outra pessoa no local. Isto é a prova. Talvez o Danny ajudasse. Estás a perceber? Eu percebo. Ele tinha as armas, talvez pensasse que estava a ajudar um amigo. Mas foi outra pessoa que premiu o gatilho. Tens de me ajudar, Rainie. Tens de acreditar em mim.

 

Não tenho de fazer tal coisa.

 

Que queres dizer com isso?

 

Rainie olhou o chefe nos olhos e, num tom agressivo, declarou:

 

Primeiro, nomeias-me responsável pelo caso. Ainda nem sequer estás na escola e já sabes que se passa algo. Depois, há toda aquela confrontação com o Danny. Consegues que eu dispare a minha arma. Deixas as tuas impressões digitais nas armas. Trinta segundos depois, a maior parte das provas físicas está destruída. E fazes questão que toda a gente saiba. A agente Conner lixou o caso. O Danny será ilibado. Que diabo se passou naquele corredor, Shep? Se queres que te ajude, diz-me o que realmente se passou naquela tarde.

 

Rainie, juro-te...

 

Tretas! Deixa-te de merdas! Estava a perder a calma. Sentia-se agastada e profundamente ressentida com Shep. Envolvera-a naquela tragédia. E agora estava no alpendre traseiro, a suplicar por ajuda, depois de a fazer passar por parva. Como é que ele se atrevia a fazê-la sujeitar-se a uma coisa daquelas? Especialmente quando ela o considerava amigo.

 

Tu sabias o que se estava a passar, Shep. Suspeitavas do Danny. Porquê?

 

Não grites comigo, Lorraine Conner. Posso não estar de serviço, mas ainda sou o xerife desta cidade!

 

Que merda é que aconteceu, Shep? Que fizeste tu?

 

Isso não é forma de me tratares! Não te ajudei antes, há uma data de anos atrás? Todas aquelas perguntas que poderia ter feito. Todas aquelas perguntas que ainda continuam por responder relativas ao que se passou naquele dia. Nunca apertei contigo. Não levantei ondas. Agora é a tua vez de fazeres o mesmo.

 

Sai da minha propriedade!

 

É meu filho! Cos diabos, Rainie, é meu filho...

 

De repente, os ombros de Shep entraram em convulsão. De pé, no alpendre, cercado de meia dúzia de garrafas de cerveja vazias, o xerife, de mãos no rosto, chorava pelo filho.

 

Deus Todo-Poderoso! Rainie foi à cozinha e tirou duas garrafas de cerveja frescas do frigorífico. Quando chegou cá fora, sem dizer palavra, deu uma a Shep. A outra, aconchegou-a entre as mãos, à espera daquela sensação de poder, de controlo. Não veio a acontecer.

 

Poucos instantes depois, Shep recompôs-se. Limpou o rosto com a manga da camisa. Tirou a tampa da garrafa e emborcou metade do seu conteúdo de um só gole. Depois, bebeu a outra metade.

 

Como é que vieste até aqui?

 

De carro.

 

Não vais a conduzir para casa.

 

Eu sei.

 

Ficaram ambos em silêncio. Rainie olhou para o céu. Estava uma noite estrelada, depois de uma tarde de chuva. As estrelas pareciam cabeças de alfinetes de prata espetados num tecido de veludo negro. Adorava noites dessas. Óptimas para estar sentada no alpendre, a ouvir as corujas e a imaginar as ondas a embater na costa rochosa. O interior da casa podia guardar más recordações da infância, mas o exterior mantinha as poucas coisas preciosas que lhe restavam. A terra, as árvores e o céu. A consciência de que, independentemente do que acontecesse, acabava por ser apenas uma pequena parte daquilo tudo e as estrelas continuariam ali até muito para além da sua morte e das últimas lágrimas terem secado.

 

Talvez outras pessoas se sentissem esmagadas ao pensar na sua pequenez em relação ao cosmos. Ela sentia-se reconfortada.

 

Dei a combinação do cofre de armas ao Danny informou Shep, calmamente. Pediu-ma há duas semanas e eu dei-lha.

 

Deste-te ao trabalho de arranjar um cofre que era o último grito e depois deste a combinação ao teu filho?

 

A Sandy vai matar-me.

 

Estás metido num sarilho dos diabos!

 

Não sabia! O Danny disse que queria experimentar desmontar e montar as pistolas, pois já conseguira fazer o mesmo com a espingarda. Ora, fiquei contente por ele se mostrar interessado. Tens de entender, Rainie, as armas eram praticamente a única coisa que nos restava. Tentei o futebol, só que ele não dava para aquilo. Tentei o basquetebol, o basebol e sei lá o quê. O miúdo não tem quaisquer capacidades atléticas. Só quer ler ou navegar na Internet, ou uma porcaria parecida... Não sabes o que é ser pai, Rainie, e espero que, um dia, percebas que tens o filho que sempre quiseste e que é parecido com a mãe.

 

Sabias que as pistolas tinham desaparecido?

 

Shep manteve-se em silêncio, o que era resposta suficiente.

 

Meu Deus, como podes ser tão inteligente e, no entanto, tão estúpido?

 

Não achas que já sofri castigo suficiente?

 

Não, acho que o George Walker recebeu castigo suficiente. Acho que os pais da Alice Benton sofreram castigo suficiente. Cos diabos!

 

Não sabia, Rainie. Há três dias fui ver se as pistolas já estavam no cofre. Ainda lá não estavam. Por isso, perguntei por elas ao Danny. Disse-me apenas que ainda não as pusera lá, só isso. Logo que as voltasse a montar, pô-las-ia no cofre. Não tornei a pensar nisso.

 

Até receberes o telefonema.

 

Mas não foi o Danny quem fez aquilo! Juro-te, Rainie, que o miúdo não tem qualquer agressividade no corpo. Raios, se ele fosse mais parecido comigo talvez conseguisse imaginar uma situação destas. Mas ele sai à mãe. Não faria mal a uma mosca.

 

Qual foi a situação que encontraste quando chegaste à escola, Shep?

 

Exactamente aquela que escrevi no relatório. Quando cheguei, já haviam evacuado o edifício. Alguém disse que o atirador fora visto a sair a correr da escola. Outra pessoa referiu que ainda havia miúdos feridos no interior. Por isso, entrei. Na Sala de Informática, encontrei o Danny com o revólver e a semiautomática...

 

Com elas na mão, Não a apanhá-las. Com elas na mão.

 

Acabara de lhes pegar...

 

Shep!

 

Tudo bem. Estava com elas na mão, bolas! Empunhava as duas armas e parecia estar a desfalecer. Mal pronunciei o nome dele, apontou-mas à cabeça.

 

E isso não te diz nada?

 

Ele estava em pânico, Rainie! Assustado e... e, estivera a chorar. Juro-te, havia lágrimas no rosto. Por amor de Deus, estamos a falar do Danny. O Danny que costumava usar o teu distintivo. O Danny que gostava de brincar debaixo das secretárias. O Danny que queria sempre sentar-se ao teu lado, ao jantar...

 

Cala-te! Não quero ouvir mais nada!

 

Rainie afastou-se. Instalou-se junto à beira do alpendre, os braços cruzados cingidos ao corpo para se proteger do frio. Ao longe viu uma luz trémula, como se o luar estivesse a ser reflectido num espelho. Ficou curiosa. Tentava concentrar-se na fonte de luz quando, de repente, as folhas das árvores se agitaram violentamente e uma enorme ave levantou voo.

 

Se o Danny está envolvido disse Shep, atrás dela, é porque alguém o meteu nisto. Ultimamente tem andado... perturbado. E talvez seja uma criança impressionável. Aos treze anos, todos os miúdos são impressionáveis.

 

Já sabemos dos cacifos, Shep. E sabemos do Charlie Kenyon. O Danny, na minha opinião, é uma criança doce e ainda ontem de manhã teria concordado contigo, mas agora já não sei. Há muitas coisas nele que nos ultrapassam. E estes miúdos... são sempre filhos dos outros. São sempre filhos dos outros.

 

Shep deixou cair a cabeça para a frente. Rainie contara-lhe a verdade com a melhor das intenções, mas não suportava vê-lo tão abatido.

 

Estamos a tentar descobrir mais qualquer coisa nos computadores da escola. Talvez se conseguíssemos descobrir um registo dele a comunicar com alguém... a deixar-se levar por uma influência exterior... Não sei.

 

Óptimo, óptimo. A voz de Shep tomou outro ânimo. É isso mesmo. Descubram quem efectivamente fez tudo isto.

 

Se queres mesmo saber o que aconteceu, Shep, deixa-nos falar com o Danny. O agente do FBI, o Quincy, é um psicólogo experiente e é perito em assassínios em massa. Ele saberá como lidar com o Danny. Irá até ao fundo da questão.

 

Não.

 

Shep, queres que eu ajude o Danny, mas, ao mesmo tempo, também não queres. Vê lá se mudas de ideias.

 

Ele não vai responder a nenhum interrogatório! Neste momento, está confuso. Talvez ele só queira que as pessoas lhe dêem crédito pelas coisas. Sabes que alguns miúdos são assim. Mas não quero que o meu filho passe o resto da vida na prisão, porq’ue sentiu necessidade de se armar em fanfarrão.

 

E a Becky? Talvez tenha visto alguma coisa...

 

Os médicos dizem que se encontra em estado de choque.

 

O Quincy é perito nesse tipo de situações.

 

Desde quando é que começaste a pensar tão bem de um forasteiro? Espera aí. Foi onde foste, não foi? Saíste com ele!

 

Bem, ata-me pedras aos pés e atira-me a um rio.

 

Não tem graça nenhuma.

 

Shep, se queres respostas, dá-me alguma ajuda. Pelo menos, deixa que o Quincy interrogue a Becky.

 

O nosso advogado nunca concordará com uma coisa dessas.

 

Ele não é para aqui chamado.

 

Não posso. Não... Primeiro, tenho de falar com a Sandy. Deixa-me falar com a Sandy.

 

Obrigada, Shep disse Rainie, com ar sério. A Sandy tem uma boa cabeça sobre os ombros. Fará o que for mais acertado.

 

Todavia, Shep não parecia convencido.

 

Tenho um filho detido por suspeita de assassínio. Tenho uma filha a dormir dentro de roupeiros e vizinhos a escrever Assassino na minha garagem. O que for mais acertado? Já não sei o que é isso. Já ouvi o presidente da Câmara a dizer que não somos autorizados a assistir a nenhum dos funerais. Acha que enervará as pessoas. Por amor de Deus, esta é a minha cidade, Rainie. Conheço o George Walker. Eu costumava jogar bólingue com o tio da Alice. Agora... agora chegou-se a isto.

 

Rainie não articulou qualquer palavra. Não encontrava palavras para o consolar.

 

Foi outra pessoa que premiu o gatilho insistiu Shep, com algum enfado e teimosia à mistura. Presta atenção ao que eu digo. Tu é que vais ter de me ajudar a provar, porque o detective estatal e o federal não se vão preocupar com isso. Não vivem aqui. Não conhecem o Danny da mesma forma que nós. Por isso, somos só tu e eu. Tal como há catorze anos. Novamente, só tu e eu.

 

Não me fizeste qualquer favor há catorze anos, Shep. Shep limitou-se a olhar em frente.

 

Rainie soltou um suspiro. Aproximou-se do varandim do alpendre e despejou o conteúdo da garrafa de cerveja. Disse o que precisava de dizer, em voz baixa, de modo a que ninguém ouvisse.

 

Shep não tentou ouvir. Os longos anos de trabalho haviam-lhe dado uma grande experiência.

 

Após uma ligeira pausa, Rainie virou-se para ele.

 

Vá lá, Shep. Levo-te a casa.

 

Agachado atrás do denso arvoredo, o homem soltou, finalmente, um profundo suspiro. Não fora grande coisa. Ela costumava inclinar a cabeça quando falava, por isso, mesmo de binóculos, ele não conseguia ver com muita nitidez. Talvez se trouxesse uma câmara de vídeo uma noite. Poderia gravar todos os movimentos dela e depois mostrar a gravação a alguém especializado em leitura labial. Um perito seria decerto capaz de ver algo mais.

 

Mas isso seria partilhar. Não queria partilhar. Rainie era especial. Era dele.

 

Tencionava manter as coisas tal como estavam.

 

O homem balouçou-se sobre os calcanhares, franzindo os lábios, enquanto ponderava as suas opções. Sentia um ligeiro zumbido nos ouvidos. Ficara no bar o tempo suficiente para beber duas cervejas, embora não o devesse ter feito. O velhote corado não tirara o olhar sobranceiro e implacável de cima dele. Sabia que não podia voltar atrás, por isso ficara a emborcar cerveja, cujo sabor não suportava, e a sentir aquele olhar avaliador e detestável em cima de si.

 

Depois, começara a rir. Não havia palavras que descrevessem as coisas hilariantes que ouvira. Os velhos a acharem que a guerra seria boa para os miúdos. Dêem-lhes um Hitler e não precisarão de andar a matar-se uns aos outros.

 

O homem começara a rir e ainda ria quando saiu do bar, de olhos postos no velhote de cara corada, que abanava a cabeça. Que se foda o velhote! Que se fodam todos! Se eles soubessem...

 

A primeira vez que o homem escolhera uma cidade para um dos seus projectos, não ficara ansioso, mas antes curioso relativamente àquilo que poderia fazer. Tivera uma visão. Começara como um sonho, a altas horas da noite, como forma de passar as horas, num momento em que se sentia só e abandonado. Depois, tomou conta das suas horas de vigília. Tornou-se uma obsessão, uma necessidade feroz e ardente que lhe corroía as entranhas.

 

Mostra ao velho! Mostra ao velho! Mostra ao cabrão do velho! Dirigia-se para o cemitério, enquanto emborcava garrafas de cem dólares do precioso conhaque do filho-da-puta e sentia a fúria a bater como um tambor nas veias. Achas que sou fraco? Achas que sou idiota?

 

Bem, já te mostro quem é que...

 

Fora muito cauteloso aquando da primeira vez. Não havia quaisquer laços entre ele e a comunidade. Escolhera a cidade por computador, abordara os jogadores por computador. Quando, finalmente, foi necessário conduzir algumas actividades no local, usara disfarces e só dinheiro. Os três ”P” de uma missão bem sucedida: Paciência, planeamento e precaução. Estás a ver, eu estava à escuta, seu velho cabrão!

 

As coisas acabaram por ser fáceis. Gritos, fumo e sangue. A morte, bela e fantástica.

 

Nem a mais pequena tremura na mão, nem a menor ponta de remorso.

 

E, num ápice, tudo terminara. Veio a polícia, investigou, prendeu e foi-se embora. Caso encerrado. Ele voltou então à sua vida quotidiana, visitou novamente o cemitério e emborcou outra garrafa de conhaque.

 

Quem é agora o fraco, velhadas? Quem é que não se acha muito inteligente?

 

E então...

 

Nada. A história desapareceu do noticiário. A cidade voltou à normalidade. As pessoas regressaram à sua vida quotidiana. E ele encontrava-se novamente só, sentindo o seu poder, sabendo as coisas que sabia e... aborrecido.

 

Estava na altura de um segundo golpe, de subir a parada, de provar o seu ponto de vista, de passar para o nível seguinte do jogo.

 

Escolheu a cidade seguinte com mais cuidado, deteve-se mais tempo a fazer o reconhecimento da zona e a estudar os ritmos de vida. Muito trabalho e paciência e planeamento. E muita, muita precaução. Os computadores eram uma ferramenta maravilhosa.

 

Então, um dia, voltou tudo a acontecer. Gritos, fumo e sangue. A morte, bela e fantástica. Dessa vez, deteve-se mais algum tempo a observar a cena ao longe, claro, com auxílio de binóculo, sem se mexer, mas soltando um arrepiante assobio de contentamento.

 

Os agentes policiais chegaram ao local. Campónios de cidade pequena, broncos e pouco imaginativos. Viram aquilo que ele queria que vissem, pensaram aquilo que ele queria que pensassem. Prenderam quem muito bem entenderam, ficando com a sensação do dever cumprido.

 

De facto, tudo correra tão bem que o homem resolveu não ir para casa de imediato. Arranjou um hotel, numa cidade diferente, claro, embora não estivesse convencido de que essa precaução fosse necessária. Alugou um carro e voltou à cidade. Andou pelos bares locais a ouvir as conversas dos habitantes. Divertiu-se tanto que chegou ao ponto de ir aos funerais para ver as mães chorar.

 

Quem é agora o esperto, velho cabrão?

 

Cinco dias depois, estava tudo acabado. Os repórteres fizeram as malas. Os advogados cozinharam um acordo. Ele voltou para o mundo normal da sua vida ”aceitável” e, finalmente, esse filme também se desvaneceu do seu espírito.

 

Precisava de algo mais. Os planos resultavam, mas faltava a emoção. Por aquilo que lhe era dado observar, podia dizer que era muito esperto. (Estás a ouvir, velhote?) Conseguia pôr os agentes a dançar em cima da cabeça de um alfinete e eles ainda lhe iriam agradecer o chão que pisavam.

 

Precisava de um lugar mais estimulante, um alvo mais fascinante e um oponente mais conceituado. Precisava de expandir o terreno de jogo.

 

Bakersville surgira-lhe como um sonho húmido.

 

O lugar perfeito, o alvo perfeito e um bom elenco de chuis ao estilo do cinema mudo no seu encalço.

 

Finalmente, sentia algum gozo.

 

O grandalhão Shep a chorar por causa do filho. A agente Conner, bonita e inteligente, preocupada com a sua cidade. E agora o agente especial, Pierce Quincy, o melhor dos melhores.

 

Por fim, tinha um jogo que valia a pena jogar. O que era bom, porque já não estava a produzir uma peça de um só acto. Aquele jogo estava apenas a começar.

 

Lembras-te do que sentiste quando premiste o gatilho, agente Conner? Ainda sonhas com o barulho da cabeça da tua mãe a. explodir?

 

Um dia, quero ouvir essa história toda.

 

Mas não naquela noite. Naquela noite tinha de ir até Portland. Ainda havia trabalho para acabar aí.

 

A primeira vez que Becky O’Grady adormeceu, sonhou que enfrentava corajosamente o monstro na escola. Estava no corredor com ar destemido e gritava: ”Monstro mau, mau! Deixa o meu irmão em paz! Não faças maldades aos meus amigos!”

 

O monstro ficou envergonhado e fugiu. Alice e Sally abraçaram-se então a ela e desataram a chorar. A bela Miss Avalon beijou-a na face e disse-lhe que era muito corajosa. Estava toda a gente feliz, inclusive a mãe e o pai, que nunca mais voltaram a discutir e o Danny que lhe deu um gatinho.

 

A segunda vez, Becky adormeceu, sonhou que enfrentou o monstro e o mordeu na cabeça.

 

Às cinco da manhã, Becky O’Grady gatinhou até ao roupeiro do corredor e empilhou vários casacos sobre os ombros. Mas sabia que isso não iria fazer-lhe qualquer bem.

 

O monstro vinha aí. Ela não salvara Danny e tanto ela como o monstro sabiam isso. Em breve, viria atrás dela. Em breve, seria a sua vez.

 

Becky choramingou pela mãe, mas também, e sobretudo, por Danny, porque, quando ele precisara mais dela, ela não o salvara.

 

Quinta-feira, 17 de Maio, 7.50

 

Sandy estava junto ao lava-louça, a lavar o mesmo prato de borda florida há um ror de tempo. Lá fora, o Sol brilhava. Abrira a janela para deixar entrar o ar puro da manhã e conseguia ouvir os ruídos da vizinhança a preparar-se para um novo dia. Algures, ao fundo da rua, um relvado estava a ser aparado. Talvez Mr. McCabe. Tratava-se de um director de escola reformado, que cuidava religiosamente do seu relvado. Em Junho, as pessoas vinham de longe para adorar as suas rosas.

 

Um cão ladrou três ou quatro casas mais acima. Ouviu-se então, o som de uma mãe a chamar pelo filho. Andy? Anthony? Talvez Andrea, a filha de quatro anos dos Simpson. Na última Noite das Bruxas, mascarara-se de cowboy não de cowgirl, como fazia questão de frisar a toda a gente. Sandy adorava a criança, embora ela continuasse a insistir em chamar-lhe Mistress O’Grady, o que a fazia sentir-se velha.

 

Voltou o prato na mão e, de forma ritmada, lavou o fundo.

 

Há onze anos, quando ela e Shep se mudaram para o bairro, eram um dos poucos casais com filhos. Desde então, o bairro crescera e o mesmo acontecera com as famílias. Devia haver cinco crianças a dar os primeiros passos só nesse quarteirão. Duas raparigas da turma de Becky viviam quatro quarteirões mais acima. Também havia uma série de rapazes, embora a maioria deles fosse demasiado nova para Danny. Sandy sempre achara que era uma pena. Era tão fácil para Becky arranjar alguém para brincar, ao passo que Danny tinha de ser levado de carro até casa de outras pessoas. Isso implicava um planeamento das coisas e a necessidade de um dos pais estar em casa para servir de motorista.

 

Todavia, Danny nunca se queixara. Parecia contentar-se em ler livros, ficar na escola ou jogar no computador. Às vezes, ao fim da tarde, Sandy costumava dar passeios pelo bairro com ele. Acenavam às outras famílias. Danny referenciava as casas com antenas parabólicas. Ou, às vezes, ela ia a pé e ele de bicicleta, à volta dela, e mostrava as habilidades que sabia fazer, como andar sem as mãos no volante, o que a deixava toda embevecida.

 

Sandy gostava daqueles passeios. Dava-lhe uma sensação de segurança atravessar a modesta comunidade, onde todas as pessoas trabalhavam arduamente e se conheciam pelo nome.

 

Nessa manhã, Sandy não se sentira com disposição suficiente para ir comprar o jornal da manhã. Receava que as pessoas parassem e se pusessem a olhar para ela. E não sabia muito bem o que a aborrecia mais, se os olhares de raiva, se os de piedade.

 

Ficou na cozinha, como se estivesse sob prisão domiciliária e esfregou os utensílios da cozinha até reluzirem. Então, atacou o chão, fingindo que era apenas mais um dia no bairro e que a sua vida não acabara dois dias antes.

 

Nessa manhã, Sandy telefonara para o centro de detenção às sete horas. Já tinham passado quarenta e oito horas desde que falara pela última vez com o filho e esperava desesperadamente vê-lo. Estaria assustado? Compreenderia o que lhe estava a acontecer? Estaria com saudades? Chamaria por ela a meio da noite?

 

E se estivesse a ter pesadelos? E se não lhe estivessem a dar comida suficiente, ou se os cobertores o arranhassem ou os lençóis lhe fizessem comichão? Por amor de Deus, ela era sua mãe e precisava de estar com ele!

 

O director do estabelecimento prisional, um tal Mr. Gregory, informara-a, num tom firme, mas delicado, que Danny lhes rogara para não deixarem entrar a mãe. O director encontrara Danny na cafetaria, de manhã, e dissera-lhe que os pais o queriam visitar. Danny ficara de tal modo agitado que não tiveram outro remédio senão levá-lo de volta para o quarto.

 

Dava a sensação de que estava demasiado traumatizado para lidar com os pais. Talvez dentro de uma ou duas semanas.

 

Sandy nunca ouvira nada tão ridículo. Se o filho estava traumatizado, mais uma razão para ela o visitar. Poderia levar-lhe o brinquedo favorito, fazer-lhe o bolo preferido. Por favor, alguma coisa, qualquer coisa...

 

Não me despache desta maneira. Não me deixe com esta sensação de impotência.

 

Mr. Gregory informou-a de que o filho continuava sob vigilância preventiva de suicídios. E haviam sido obrigados a levá-lo para o quarto porque, ao ouvir falar da visita dos pais, arrancara um garfo das mãos de outro jovem e tentara espetá-lo no pulso.

 

Sandy e Shep não podiam visitá-lo. Ponto final.

 

O barulho do cortador de relva parou. Ouviu-se então uma pancada forte, quando Mr. McCabe tirou o saco. Provavelmente estava a deitar a relva cortada nos canteiros. Sandy vira-o fazer isso uma centena de vezes. Pôr a relva cortada nos canteiros para repor os níveis de nitrogénio. Remexer a terra suavemente com as mãos velhas e rugosas.

 

Finalmente, pôs o prato no escorredor da louça. Os pratos estavam lavados. Os tampos da bancada brilhavam e já passara a esfregona pelo chão. Limpara o forno e passara um pano pelo microondas. Eram oito da manhã e Sandy não sabia o que fazer.

 

Voltou-se para Becky, que a observava com ar sombrio, da mesa da cozinha.

 

Queres mais cereais, querida?

 

Becky abanou a cabeça. A tigela de Cheerios colocada à sua frente quinze minutos antes continuava intacta.

 

E um bocadinho de fruta? E que tal crepes? Posso fazê-los com chocolate!

 

Sandy lamentou as palavras logo no momento em que as proferiu. Crepes com chocolate eram os preferidos de Danny.

 

Becky abanou a cabeça.

 

Sandy recompôs-se de imediato e virou-se para o frigorífico em busca de mais opções. Becky não comia há quase dois dias.

 

E que tal esta saladinha?

 

Puxou a tigela de vidro. A salada de fruta era um dos quatro pratos que haviam chegado ao alpendre principal no dia anterior. Um continha macarrão e queijo, outro batatas e pernil de porco, e um outro ainda, uma espécie de rolo de carne. Todavia, aquela salada impressionara Sandy. A mistura de gelatina de morango, maçãs, bananas, nozes e chantili era uma salada favorita das crianças e sentia-se sensibilizada por os outros pensarem em Becky. Só Deus sabia o que a pequenita estava a sofrer.

 

Pegou na salada multicolor para que Becky a inspeccionasse. Sempre adorara gelatina e chantili.

 

Uma ligeira hesitação, então, finalmente, assentiu com a cabeça. Tinham uma vencedora.

 

Preparou uma tigela enorme de salada para a filha, cantarolando entre dentes em sinal de vitória. Encheu um copo de sumo de laranja para Becky acompanhar o pequeno-almoço. Pouco depois, com outro copo de sumo para si, sentou-se à mesa, ao pé da filha.

 

Da sala de estar chegou o barulho de Shep a ressonar. Passara a maior parte da noite fora e voltara às tantas da manhã, a tresandar a cerveja. Sabia, sem lhe perguntar, onde ele estivera. Em casa de Rainie. Sempre que andava preocupado, sempre que tinha algo a atormentar-lhe o espírito, era para lá que ia.

 

Outrora, chegara a formar ideias erradas do que se passava na residência de Lorraine Conner. Toda a gente ouvira histórias da mãe de Rainie e do tipo de mulher que fora. Imaginara o marido e a ajudante a rebolarem pelo chão, num tórrido abraço. Imaginara-os às gargalhadas e às risadinhas tolas, a gozar com o facto de a idiota da Sandy Surmon não desconfiar de nada.

 

Uma noite, num acesso de ciúme, fora até à minúscula casa de Rainie, na parte alta do bosque. Subira o caminho de terra a toda a velocidade, já a idealizar um violento confronto.

 

Fora dar com o marido e Rainie sentados, no enorme alpendre traseiro, em completo silêncio, a olharem para o bosque e com uma garrafa de cerveja na mão.

 

Voltara para casa sem dizer palavra.

 

Ao longo dos anos, foi chegando à conclusão de que não conseguia compreender a relação do marido com Rainie. Não sabia o que provocava os longos silêncios entre eles ou as trocas de olhar. Não entendia como é que, às vezes, Shep parecia pertencer mais a Rainie do que a ela, quando Sandy lhe dera dois filhos e Rainie só lhe dava garrafas de Bud Light.

 

Fosse qual fosse o tipo de laço que os ligava era forte, mas, pelo menos, não era de cariz sexual. Por isso, Sandy esforçava-se por combater o desejo enervante e doloroso de que Shep viesse ter com ela, quando tivesse um problema, em vez de ir para casa de outra mulher passar horas a fio num serão cúmplice.

 

Mamã, o que é que aconteceu na escola?

 

Olhou para Becky, perplexa com a pergunta e o tom de voz da filha. Esta praticamente não falava desde o tiroteio e, quando o fazia, era só por palavras isoladas.

 

Que queres dizer com isso, querida?

 

Hoje não há escola.

 

Não, Becky, hoje não há escola.

 

Amanhã?

 

Também não tens que ir para a escola amanhã, querida. Não quero que te preocupes com a escola. Durante uns tempos, não há.

 

Becky continuou de olhos fixos na mãe.

 

Os outros meninos vão à escola? já

 

Os teus colegas? Não. Esforçava-se por escolher as palavras cuidadosamente. Também não vão ter aulas durante uns tempos. Não estamos no Verão.

 

É quase Verão. Mama, não estamos no Verão.    Becky... Tu sabes que aconteceu uma coisa muito má na escola, não é verdade? Compreendes isso? A pequenita fez um gesto afirmativo com a cabeça. Bem, essa coisa má pôs toda a gente triste. Tu estás triste, não estás? Becky assentiu de novo com a cabeça. Eu estou triste disse Sandy, numa voz sumida. O papá está triste. E os outros meninos também estão tristes. Por isso, durante uns tempos, porque toda a gente está triste, não há escola. Mas vai haver um dia?

 

Um dia, Becky, sim, haverá escola. Mas está tudo bem, querida Não haverá até tu estares preparada e certificar-mos-emos de que a escola está segura. Para que a coisa má... O monstro. Sandy hesitou. Sim, para que o monstro não volte a aparecer. Becky olhou-a fixamente. Os olhos estavam esbugalhados e tinha um

ar sério. Só naquele momento é que Sandy se apercebera de que a sua pequenita crescera. Becky centrou então a sua atenção na tigela de chantili e gelatina de fruta. Sandy percebeu. Becky não acreditava numa única palavra dela. Já presumia que o seu mundo não voltaria a ser seguro. Pelo menos, enquanto os monstros pudessem ir à escola.

 

Sandy voltou para o lava-louça, despejou o resto do seu sumo de laranja e depois, cuidadosa e metodicamente, lavou o copo. A luz no atendedor de chamadas piscava sem parar, mas já ouvira a mensagem no dia anterior. Era Mitchell a tentar falar com ela, antes de Shep ter mudado o número de telefone para acabar com os telefonemas obscenos. Mitchell lamentava incomodá-la àquela hora, mas estava desesperado para pôr as mãos nos relatórios da Wal-Mart. Ela não lhe poderia dar uma telefonadela a dizer onde é que ele poderia encontrar os ficheiros?

 

Sabia o que ele procurava. Conseguia visualizar perfeitamente os ficheiros na cabeça. Mas não chegara a telefonar-lhe.

 

Talvez Shep tivesse razão. Talvez ela andasse a trabalhar demasiado, pondo as suas próprias necessidades à frente das das crianças. Se tivesse passado mais tempo em casa, dando mais atenção.... Se Danny se tivesse sentido mais seguro, mais importante, mais amado...

 

Se... se... se...

 

Fechou a água. As mãos ficaram a tremer sobre a torneira. Tinha lágrimas nos olhos.

 

Mamã, o que aconteceu na escola?

 

Quero transformar o mundo num sítio seguro. Oh, meu Deus, querida! Quem me dera conseguir transformar o mundo num sítio seguro para ti.

 

Mamã!

 

Sandy voltou-se para Becky. Por instantes, pensou ver sangue no rosto da filha e quase soltou um grito. Ah, era gelatina de morango, percebeu com alguma demora. Apenas gelatina de morango.

 

Mas então viu lágrimas nos olhos da filha.

 

Dói-me a língua.

 

Sandy precipitou-se para junto de Becky. Olhou para a boca da filha e, para seu desalento, verificou que havia sangue. A língua da pobre Becky estava a sangrar.

 

Que aconteceu? Mordeste a língua? Ah, querida, já te vou buscar uma toalha e um cubo de gelo. Espera só um segundo!

 

Pegou na tigela da salada e levou-a para o lava-louça. Só quando a pôs debaixo da torneira é que olhou para o interior e reparou que havia algo a brilhar misturado na salada.

 

Pegou numa colher e, muito lentamente, examinou o conteúdo da tigela. Apanhou cinco pedaços de vidro.

 

Assassino! Assassino! Assassino!

 

E uma sobremesa para crianças! Mesmo que nos odeiem, que tipo de animal é que põe bocados de vidro na merda de uma gelatina para crianças?

 

Voltou-se então para Becky com uma calma surpreendente. Passou a toalha pelo rosto da pequenita e deu-lhe um cubo de gelo para chupar.

 

A hemorragia parecia já ter parado. Os pedaços de vidro eram pequenos. Talvez não tivessem provocado muitos ferimentos.

 

Passou os dedos ternamente pelos finos cabelos louros de Becky.

 

Como é que te sentes, querida?

 

Bem.

 

Comeste muito? Becky abanou a cabeça.

 

Não tenho fome.

 

Se a tua barriguinha doer, dizes-me, está bem?

 

Becky concordou com a cabeça. Sandy resolveu não insistir mais no assunto. Becky parecia bem e não queria assustá-la com outra viagem até ao posto de primeiros socorros.

 

Já sei disse Sandy bruscamente, vamos fazer bolachinhas de várias formas! Vou trazer todos os ingredientes e podes ajudar-me a medir tudo. Que achas?

 

Becky encolheu os ombros.

 

Maravilhoso. Deixa-me só acabar de limpar isto e vamos já tratar das coisas.

 

Lançou um resplandecente sorriso tranquilizador à filha. Voltou então para o lava-louça, onde raspou toda a salada de gelatina e os outros três pratos para dentro do caixote do lixo, enquanto prometia a si própria que não iria chorar.

 

Não deixes que o monstro te apanhe, mamã.

 

Becky, nunca permitirei que tal aconteça. Quinta-feira, 17 de Maio, 6.33

 

Quincy não sonhou com a filha. Ainda a manhã estava envolta em penumbra, no quarto do motel, dormia um sono agitado, apanhado num caso que tivera em mãos uma década atrás. Candy Wallace, de treze anos, com os seus encantadores cabelos louros e o seu sorriso radioso. A bela Candy Wallace, educada como devota da Igreja Baptista, não fazia a mínima ideia do mal que se escondia nos corações dos homens.

 

Foi raptada, no caminho da escola para casa, numa tarde normal de quarta-feira. Num minuto, descia a rua. No seguinte, uma pilha de livros era tudo o que restava.

 

Mas não era Candy que o raptor queria. Era Polly, a irmã de dezasseis anos, e o facto de raptar a irmã errada deixara-o profundamente irritado. Assim, passou a telefonar para casa dos Wallace. Punha Candy ao telefone. E depois fazia-lhe coisas, enquanto a irmã e os pais escutavam.

 

Após o primeiro telefonema, pediram a Quincy que estivesse presente aquando do segundo. Consideravam que ele tinha ouvido de perito.

 

Agora, no meio do sofrimento do sonho, não se lembrava dos gritos de Candy Wallace, nem do rosto angustiado da mãe. Nem se recordava da irmã Polly a suplicar para que o homem parasse, para que viesse buscá-la para o lugar da irmã. Estava disposta a ir com ele se ele libertasse a irmã. Por favor, por favor, por favor.

 

Do que Quincy se lembrava bem era das últimas palavras de Candy, depois de cinco dias de agonia incessante.

 

”Por favor, não estejam tristes, mamã e papá. Tudo acabará em breve e sei que vou para um lugar melhor. Deus ama-me e cuidará de mim. Vou estar bem. Amo-vos. Assim como amo este homem mau. Estou a falar do fundo do coração.”

 

Quincy acordou com lágrimas nas faces.

 

Continuou deitado durante muito tempo, a pensar na força de uma rapariga de treze anos, a pensar em Deus e na fé e nas coisas que deixava para trás, depois de tantos anos de serviço.

 

Um dia após o último telefonema, descobriram o corpo de Candy Wallace, nu, cheio de ferimentos e mutilado. Três semanas depois, prenderam o homem que perpetrara o crime: um biscateiro desempregado que arranjara, certa vez, o sistema de ar condicionado dos Wallace. Ele disse que Candy insistira em dizer-lhe que Deus o amava, por isso, cortara-lhe a língua. Quincy achara que tudo o que fizesse para castigar esse homem seria sempre pouco.

 

Voltara, de avião, para a Virginia, sentindo-se só e completamente arrasado.

 

Entrara em casa, mas afastara-se da família, porque nunca aprendera a ir de um local de crime até às pessoas que amava. Em alturas como essa, não conseguia olhar para as filhas sem ver todos os horrores por que elas também podiam passar. Os biscateiros, os vagabundos, os charmosos estudantes de Direito. Não conseguia olhar para a família sem ver dor, sofrimento e morte.

 

Saiu então da cama. Telefonou para o hospital e informaram-no de que o estado de saúde de Amanda não sofrera alterações. A ex-mulher estava a dormir no quarto e, se ele quisesse, podiam acordá-la. Quincy pediu à enfermeira para não o fazerem. A sua outra filha, Kimberly, não se encontrava no hospital. Provavelmente, voltara para a escola. Tal como ele, parecia ter aceite que a irmã morrera, uma deserção para o campo de Quincy que Bethie não suportava.

 

É claro que as coisas entre a ex-mulher e a filha mais nova haviam ficado tensas desde o ano anterior, quando Kimberly anunciou que ia estudar Sociologia para a Universidade de Nova Iorque. Um dia também queria ser uma profissional do FBI. Tal como o pai.

 

Vestiu uns calções velhos de corrida e uma T-shirt cinzenta do FBI. Chegou à rua e inalou profundamente o ar frio da manhã. Depois, partiu a correr, ainda a pensar nos gritos agonizantes e no amor inabalável de uma jovem. Ainda a pensar na própria filha e na tragédia de que ele não a protegera, ao fim de todos aqueles anos a tentar fazer do mundo um lugar seguro.

 

E então pensou em Rainie, nos olhos, cinzentos e cheios de olheiras, e no queixo, forte e firme. Na forma como ela dava os socos. E na maneira destemida como enfrentava os desafios.

 

Certa vez, cometera o erro de pensar que o isolamento era protecção, que concentrar-se unicamente no trabalho seria melhor para as pessoas, em geral, para a sua família, em particular. Ouvira uma rapariguinha ser morta, mas não conseguira perceber o que ela dizia.

 

Quincy já tinha uma certa idade, mas continuava a aprender.

 

Correu durante muito tempo, com o ar frio e puro da montanha a bater-lhe no rosto. Saboreou o prazer de uma bela manhã num luxuriante vale costeiro e percebeu por que razão Rainie ainda ali vivia. Pouco antes da uma, Quincy apareceu no pequeno centro de comando, no sótão do edifício da Câmara Municipal. Não contava que Rainie já tivesse regressado das autópsias, que se haviam realizado em Portland, mas ela já se encontrava sentada à secretária quando ele chegou. Rainie não levantou a cabeça de imediato, concentrada que estava a escrevinhar algo numa folha de papel.

 

Quincy aproveitou para a estudar durante alguns instantes. O rosto estava mais pálido do que no dia anterior, as olheiras ainda mais profundas. Outra noite sem dormir, presumiu, a juntar a uma manhã brutal. As autópsias nunca eram fáceis, especialmente quando se tratava de crianças.

 

Todavia, a julgar pelos seus movimentos concentrados, Rainie ainda não fazia tensões de abrandar.

 

Fazia-lhe lembrar outra pessoa. Levou alguns instantes a lembrar-se do nome. Tess. Tess Williams. Outro caso, há vários anos, mas com um fim melhor. Tess cometera o erro de se casar com o homem perfeito, o tipo de homem que as outras mulheres diziam ser demasiado bom para ser verdade. No caso de Jim Beckett, tinham razão. O agente policial dedicado e bem-parecido tivera uma pequena actividade secundária. Seduzia belas louras para dar uma voltinha de carro e depois assassinava-as. Tess fora a primeira pessoa a aperceber-se das façanhas monstruosas do marido e reunira calmamente provas contra ele, ao mesmo tempo que continuava a partilhar a cama com ele.

 

Jim Beckett só foi detido após demorado e sangrento confronto com a equipa principal de investigação, inclusive deixando algumas cicatrizes no peito de Quincy. Mas Tess provou ser mais dura do que se suspeitara. Quando Beckett a perseguiu, depois de se evadir da prisão, Tess resolveu a situação de modo a que os contribuintes do Massachusetts nunca mais tivessem de pagar a sua pensão completa na prisão.

 

Há anos que Quincy não pensava nela. Tentou calcular a idade que a filha Samantha teria agora. Dez anos? Já fora há um certo tempo. Gostava de saber como é que as duas estavam.

 

Nunca mantinha contacto com as pessoas que conhecia nos casos. Mesmo daqueles que haviam acabado bem, pois continuavam a ser lembranças de um período sombrio. De qualquer modo, não lhe parecia adequado enviar-lhes cartões de Natal.

 

Vais ficar aí toda a manhã especado? perguntou Rainie, ainda de olhos fixos no papel.

 

Estou só a admirar a vista.

 

Rainie levantou a cabeça e fulminou-o com um olhar implacável.

 

Oh, por favor.

 

As autópsias correram bem, pelo que vejo.

 

Tudo aquilo que eu receava mais dez. Por amor de Deus, ou entras ou fechas a porta. Não suporto ver pessoas especadas à porta.

 

Quincy levou o seu tempo a entrar, mirando-a com ar cauteloso. Estava mais destroçada do que aquilo que ele esperara. Quando falou, a voz era a de alguém que estivera à beira de um lugar sombrio. Quincy apostava que ela fizera um esforço titânico para não chorar. Era um mau sinal.

 

Por vezes, era necessário chorar depois das autópsias. Era a única forma de libertar a dor.

 

A escrever um relatório?

 

Não. A elaborar uma lista. Que achas do homem misterioso vestido de preto?

 

Como?

 

O homem vestido de preto, a figura que vários miúdos referem ter visto na escola. Facto ou ficção?

 

Não sei.

 

E se ele existir? Pode um estranho estar envolvido num tiroteio numa escola?

 

Ficarias espantada com as coisas que um estranho consegue fazer, mesmo um conhecido através da Internet. Repara só na quantidade de miúdos que estão constantemente a ser aliciados por essa via para encontros com pedófilos.

 

Óptimo. Rainie fez uns furiosos rabiscos na folha. Homem vestido de preto. Ligação a Danny através da Internet, depois tenta eliminar as pistas apagando os discos rígidos dos computadores. Só que então voltamos à Melissa Avalon. Porquê um tiro preciso na cabeça? Essa merda é que me está a dar o que pensar. Recompôs-se, respirou fundo e recomeçou a escrever a toda a velocidade. Podemos explorar esse aspecto mais tarde. A seguir, o orientador escolar Richard Mann.

 

O que é que tem o Richard Mann?

 

E jovem, trinta e três anos, de acordo com a ficha, embora não pareça ter mais de quinze, se me perguntares. Se voltarmos a partir do princípio de que a Melissa Avalon era o alvo desejado, podia ter motivos para isso. Talvez tivesse um fraquinho por ela e não gostasse de saber das suas reuniões privadas com o VanderZanden. Além disso, como orientador escolar, sabia que cordelinhos puxar para levar o Danny ao limite.

 

Quincy, por fim, percebeu.

 

Estás a elaborar uma lista de outros possíveis suspeitos.

 

Sim, o senhor agente federal também pode aprender qualquer coisinha.

 

Quincy arqueou a sobrancelha. Rainie estava não só irascível como brutalmente mordaz.

 

Posso perguntar-te quem é que puseste na lista?

 

O Charlie Kenyon, o director VanderZanden, o misterioso homem de preto e agora o Richard Mann.

 

Pensei que o director tivesse um álibi.

 

À primeira vista, mas só saberemos quando começarmos a apertar com ele.

 

O Charlie Kenyon faz sentido disse Quincy, em tom de devaneio, após uma ligeira pausa, concluindo que seria mais produtivo trabalharem em conjunto. Um miúdo mais velho e influente. Já sabemos que ele tem problemas com as autoridades e gosta de se pavonear pela escola. Estou menos convencido relativamente ao director. Mesmo que fosse uma aventura amorosa que tenha corrido mal, custa-me a vê-lo disparar sobre duas alunas e, ainda mais difícil, vê-lo a coagir o Danny a arcar com as culpas.

 

É a figura do poder autoritário. O Danny não consegue fazer frente ao próprio pai, por isso, por que motivo conseguiria enfrentar o director da escola? Além disso, ouviste as suas últimas palavras no interrogatório. O miúdo está assustado. Quando se anda numa escola, quem é que parece mais todo-poderoso e sabichão do que o director?

 

As palavras de Rainie tinham a sua lógica.

 

Mas também temos de levar em linha de conta a reacção do VanderZanden. Parece verdadeiramente dominado pela dor.

 

Rainie concordou. Então, os olhos iluminaram-se.

 

E a mulher?

 

Quincy expirou lentamente e olhou para os rabiscos que Rainie fazia. Os movimentos eram febris. Ela tentava dar o seu máximo.

 

Rainie, porque é que estás a elaborar esta lista?

 

Chamemos-lhe enfoque. A esta investigação policial falta-lhe enfoque.

 

Já tens um suspeito sob custódia. Julgo que isso já é um bom enfoque.

 

Sim, mas não sabemos se é o suspeito certo.

 

As impressões digitais nos invólucros não te convenceram?

 

Não me convenceram.

 

A mim pagam-me para ser céptico.

 

Rainie pousou a caneta. Fez uma pausa, o tempo suficiente para o olhar nos olhos. Quincy ficou então perplexo ao deparar-se com a visão da pele pálida retesada sob o rosto macilento de Rainie. Tudo indicava que estava a pôr de lado a comida, tal como já fizera com o sono. Era só uma questão de tempo até ela estourar.

 

O Shep foi a minha casa ontem à noite disse Rainie de supetão.

 

Ah! exclamou Quincy. As coisas começavam a ficar muito mais claras. Roeu-lhe a consciência.

 

Claro. E para que servem os amigos? Ainda melhor, ele contactou o laboratório através de um amigo. Acontece que o Abe Sanders anda a esconder-nos informações.

 

Mal consigo esperar.

 

Há um problema com um dos invólucros da calibre trinta e oito. Não só não tem quaisquer impressões digitais ou manchas, parecendo ter sido limpo, como também a secção de balística descobriu algo estranho nele. Quando, esta manhã, tentei averiguar o que se passava, informaram-me de que havia um tipo de resíduo no interior, provavelmente uma espécie de polímero.

 

Plástico? Talvez fios de poliéster?

 

Quem sabe? Mas o interior de um invólucro é um sítio estranho para se encontrarem vestígios de tecido; além disso, o Danny usava roupas cem por cento de algodão quando o detive. Estão a realizar testes suplementares, mas voltámos a ter mais perguntas que respostas.

 

Vais matar o detective Sanders, não vais?

 

Vou. As três da tarde. Estás convidado a assistir. Rainie esboçou um sorriso tenso. Hoje, às sete da manhã, tive uma conversa extremamente fascinante com a médica-legista. Ela fez a autópsia da Avalon ontem, ao fim da noite, de modo que pudemos avançar para as das miúdas. Sorte a minha. E assenta isto: o projéctil calibre vinte dois que matou a Melissa Avalon não se encontrava deformado. De facto, o maldito viajou numa linha recta perfeita através do centro do cérebro e deteve-se na base do crânio. Nem um único ricochete. O projéctil mantinha a base intacta. Também devia ter inúmeras marcas de estrias, só que não tem nenhuma.

 

Não há marcas de estrias? A médica-legista está a pensar numa arma sem estrias?

 

Não sei o que diabo a Nancy Jenkins está a pensar. A mulher está intrigada e, infelizmente para mim, é pouco faladora. Deixa-me ver se consigo lembrar-me das palavras exactas. Uma coisa do género: ”O projéctil parece ter vindo de uma calibre vinte dois, mas não creio que isso tenha acontecido.”

 

Ela não acha que tenha?

 

Acontece que a Nancy Jenkins é doida por armas. Só faz um comentário oficial depois de conhecer o relatório da balística. Mas há uma coisa engraçada no projéctil que matou a Melissa Avalon. E ela é bastante clara ao dizer que havia ali esperteza a mais.

 

Esperteza a mais para um miúdo de treze anos?

 

Já estás a perceber.

 

E a bala ficou alojada na base do crânio da Avalon?

 

Exactamente. Na base do crânio. Como se tivesse seguido uma trajectória vertical. Como é que um miúdo de um metro e meio consegue disparar sobre uma mulher de um metro e setenta e cinco de cima para baixo?

 

Ela não estava de joelhos concordou Quincy, tendo em conta a forma como o corpo caiu.

 

Aí tens. Neste ponto, parece haver algo podre no reino da Dinamarca. A primeira vista, é duvidoso que o Danny tenha morto a Melissa Avalon, o que também levanta a questão quanto à Sally e à Alice.

 

Havia, muito provavelmente, mais alguém presente e uma arma do crime que ainda não identificámos.

 

Sim. Uma arma do crime que ainda não identificámos e um motivo. Porquê a Melissa Avalon? Não consigo tirar isso da cabeça. Porquê a jovem e bela Miss Avalon?

 

E agora estás a elaborar a nova teoria sobre o caso.

 

Uma vez que sou a agente que está à frente dele, pensei que também devia dar um palpite.

 

Rainie, posso ajudar a melhorar o teu dia?

 

Sem dúvida, bem preciso de desanuviar.

 

Tenho um encontro à uma e meia com o Richard Mann, para o interrogar acerca do Danny O’Grady. Vem comigo, Rainie. Eu vou fazer o papel do agente bom, e tu, da agente má. Os dois podemos encostá-lo à parede.

 

Um brilho selvagem surgiu no olhar de Rainie. A satisfação no rosto da agente era mais que suficiente para fazê-lo sorrir. E libertar a ternura que sentia no peito.

 

Achas que consigo fazer de agente má?

 

És a mais competente para o papel.

 

Senhor agente especial supervisor, merecia um beijinho.

 

Promessas, promessas! retorquiu Quincy, jovial, saindo com a sua agente favorita da sala.

 

Quinta-feira, 17 de Maio, 13.28

 

Encontraram-se com Richard Mann no gabinete deste na escola, que, finalmente, fora aberta para os membros da direcção. Dissera a Quincy que precisava de tratar de alguma papelada e a primeira impressão de Rainie sobre o jovem orientador escolar foi a de que se tratava de alguém que se encontrava profundamente abatido. Tinha o rosto pálido e os olhos raiados de sangue. Esforçara-se por se vestir de forma adequada para a reunião, envergando umas calças de caqui e uma camisola cor de salva, mas mantinha um certo ar desgrenhado que denotava noites sem dormir e perguntas sem resposta. Será que se interrogava se devia ter previsto a ocorrência da cena de tiros? Nas profundezas da noite, acharia que havia algo mais que deveria ter feito?

 

Rainie não sabia muita coisa acerca do homem. Perguntara a alguns pais e todos o achavam muito simpático. Inexperiente, comentaram alguns, mas trabalhador. Terça-feira, quando as coisas na escola estavam um pavor, mantivera-se na primeira linha e fizera tudo o que ela lhe pedira. Havia que reconhecer isso.

 

Mas Rainie ainda se questionava acerca dele e de Miss Avalon. Mesmo cansado, Mann tinha o típico ar americano do indivíduo todo certinho. Elegante. Cabelos castanhos curtos. Olhos azuis. Numa escola secundária, teria inspirado meia dúzia de paixonetas juvenis. E na Escola Básica Integrada de Bakersville?

 

Agente Conner disse Mann, com evidente surpresa, quando ela apareceu à porta do gabinete, ao lado de Quincy. Que prazer vê-la de novo. Sorriu-lhe, nada alarmado com a sua presença, e estendeu-lhe a mão.

 

Mister Mann. Rainie aceitou o aperto de mão. Aperto fraco, pensou. Típico de um jovem. Nada que se comparasse ao de Quincy, acrescentou, desnecessariamente.

 

Oh, trate-me por Richard. Mister Mann é o meu pai.

 

Sei qual é a sensação. Rainie e Quincy tomaram os seus lugares. Localizado a alguma distância da recepção e ao lado do gabinete de VanderZanden, o espaço de Richard Mann era pequeno, mas bem arranjado.

 

A principal atracção era uma enorme janela com vista para a parte lateral do parque de estacionamento da escola, que deixava entrar bastante sol. O chão era azul, as paredes brancas, a panóplia de arquivos, cinzenta. À excepção de duas plantas e um póster de rostos de figuras dos desenhos animados demonstrando diferentes emoções humanas, pouco mais havia de decoração. Era, decididamente, um gabinete de solteirão, de aspecto utilitário, concluiu Rainie.

 

Nesse momento, havia caixas de cartão vazias e fichas espalhadas pelo chão.

 

A limpar a casa? indagou Quincy.

 

A examinar fichas antigas confessou Mann. Estamos a começar a ficar com falta de espaço e a maior parte destas fichas é do tempo em que eu ainda cá não estava.

 

Pois. Você é novo aqui.

 

Já passou um ano. Já não me sinto novo.

 

Bakersville é muito diferente de Los Angeles observou Rainie.

 

Era disto que eu andava à procura.

 

Vida de pequena cidade?

 

Um sítio em que não fossem necessários exercícios de defesa contra tiroteios. Esboçou um ténue sorriso. É claro que as coisas não funcionaram como eu planeara.

 

Onde é que se encontrava quando os tiros começaram?

 

No meu gabinete. Era o meu intervalo para almoço.

 

Não come durante as horas normais de almoço?

 

Não, tenho uma política de porta aberta para os miúdos. Qualquer pessoa pode entrar aqui se houver algum assunto de que queira falar. Esse tipo de coisas.

 

Então foi por isso que a Melissa Avalon também deixou a porta aberta aos miúdos durante o almoço?

 

Exacto.

 

Então, vocês almoçavam ao mesmo tempo. Rainie franziu o sobrolho e viu Richard Mann ficar cada vez mais confuso. Estava à espera de um interrogatório sobre Danny O’Grady, não sobre as suas próprias actividades no dia do tiroteio.

 

Sim, creio que sim disse ele com menos certeza. No colo, as mãos começavam a mostrar alguma inquietação. Isto, pensou Rainie, vai ser canja.

 

Vocês os dois alguma vez almoçaram juntos?

 

Bem, éramos colegas...

 

Compreendemos que Miss Avalon gostasse de conhecer alguns dos seus colegas.

 

Não percebo...

 

Ela e o director VanderZanden. Ou não sabia disso? Rainie endureceu o tom de voz, e Richard Mann contorceu-se no assento.

 

Pensei que íamos falar do Danny.

 

Que nível de conhecimento tinha da Melissa Avalon?

 

Trabalhávamos juntos, só isso.

 

Era muito bonita.

 

Acho que sim...

 

Jovem, da mesma idade que você?

 

Julgo que sim.

 

Também nova na escola. Vá lá, Mister Mann, não me diga que não tinham nada em comum?

 

Espere aí. Está a pensar que a Melissa e eu... Mann fez um pequeno gesto com a mão, olhou para os dois agentes com ar chocado, depois, abanou a cabeça num gesto vigoroso. Pela primeira vez desde o início do interrogatório, ficou visivelmente descontraído. Desculpe, agente, mas se vocês pensam que eu andava metido com a Melissa, então sabem pouca coisa dela.

 

Que quer dizer com isso? perguntou Quincy, sereno.

 

A Melissa tinha complexos... complexos freudianos.

 

Relativamente ao pai? indagou Rainie, perspicaz.

 

Não conheço todos os pormenores retorquiu Mann, mas comentou, certa vez, que estava afastada da família. O pai era uma pessoa muito dura, disse ela, muito exigente e não muito clemente. Depois, enamorou-se pelo VanderZanden numa questão de semanas e o homem tem quase o dobro da idade dela...

 

Um substituto da figura do pai acrescentou Quincy.

 

Também é essa a minha análise disse Mann, e lançou um sorriso de gratidão a Quincy. Estava obviamente satisfeito por ter uma oportunidade de mostrar os seus conhecimentos psicológicos, enquanto profissional conceituado.

 

O pai visitou-a alguma vez? pressionou Rainie.

 

Não sei.

 

E a mãe?

 

Não sei.

 

Para alguém que trabalhou um ano inteiro consigo, sabe pouca coisa dela, não acha?

 

Era muito reservada relativamente à questão da família.

 

Mas não com o director VanderZanden.

 

Eu não tinha nenhum envolvimento emocional com a Melissa Avalon disse o orientador escolar por entre dentes. Éramos colegas, só isso. Se querem saber tanto da vida privada dela, falem com o Steven. Ou, melhor ainda, telefonem ao pai. Consta que ele ainda não se deu ao trabalho de reclamar o corpo.

 

E o que faremos, com toda a certeza disse Quincy.

 

E quanto ao Danny O’Grady? atacou Rainie. Sabemos que o acompanhou, enquanto orientador escolar.

 

Só durante algumas semanas...

 

Ah, sim? E precisamente quanto tempo leva a perceber que um miúdo que destruiu o próprio cacifo tem problemas em controlar a cólera?

 

Os pais estão a atravessar um período difícil. Não havia razão para pensar que a cólera do Danny fosse mais do que uma fase de ajustamento. Quando os casamentos azedam, os miúdos ficam de cabeça perdida.

 

Onde é que você se encontrava aquando da cena de tiros?

 

No meu gabinete!

 

Tem testemunhas?

 

Como é que se atreve! Richard Mann empertigou-se na cadeira, o rosto e o ar de quem se sente ofendido. Fiz tudo o que pude para ajudar aqueles miúdos, agente. Não se lembra? Sou aquele que montou o posto de primeiros socorros. Sou aquele que mandou os pais tirarem as viaturas do parque de estacionamento, para que as ambulâncias pudessem passar. E agora sou aquele que responde a dezenas de telefonemas dos pais cujos filhos acordam aos gritos. Por isso, como é que se atreve a insinuar que tive alguma coisa a ver com o caso? Meu Deus, isto está a dar cabo de mim!

 

A agente Conner não quer insinuar coisa nenhuma, Mister Mann disse Quincy, calmamente, levantando as mãos num gesto apaziguador. Só que a tarefa dela é fazer este tipo de perguntas. Claro que apreciamos a ajuda que deu no dia da cena de tiros.

 

Mann voltou-se para Quincy, ainda pouco convencido. Este esboçou um sorriso afável.

 

Pensava que íamos falar do Danny insistiu Mann, após uma ligeira pausa. Não estava à espera deste tipo de... ataque.

 

Os interrogatórios policiais podem ser um pouco contundentes replicou Quincy em tom diplomático. É claro que consideramos todas as pessoas inocentes até prova em contrário.

 

Mann olhou fixamente para Rainie. Esta encolheu os ombros de forma negligente. O menino bonito não tinha nenhum álibi e passara à defensiva com extrema rapidez, pensou. O aluno que seguira assassinara, alegadamente, três pessoas. Era normal que esse facto não o deixasse dormir descansado à noite.

 

Voltemos ao Danny O’Grady disse Quincy, em tom de incitamento.

 

Não sei o que posso dizer relativamente a ele retorquiu Mann, com enfado. Alguma da informação que possuo encontra-se ao abrigo do segredo profissional.

 

Quincy esboçou um largo sorriso e disse, num tom tão melado que Rainie até revirou os olhos:

 

Claro, e nunca me atreveria a pedir a um psicólogo que quebrasse o pacto de confidencialidade com o doente. Mesmo as informações de carácter geral ser-nos-iam de grande utilidade.

 

Tinha de pensar no caso. Finalmente, recostou-se no assento, uniu as pontas dos dedos de uma mão à outra e fitou o agente do FBI com mais atenção.

 

Para lhe ser franco, não sei muita coisa declarou por fim. Começara a falar com o Danny há poucas semanas e as primeiras sessões foram conversas triviais. Sabe como é, para estabelecer a confiança e construir uma boa relação entre os dois. Não tivemos oportunidade de conversas mais profundas.

 

Essas coisas levam tempo.

 

Falámos um pouco acerca do interesse dele por computadores. Adorava navegar na Net e fazer programação. Nunca o admitiu explicitamente, mas fiquei com a impressão de que ele talvez estivesse metido em pirataria informática. O computador era algo excitante para ele, mas também um desafio. Pode ser que tenha arriscado um pouco.

 

Talvez visitasse sites que não devesse?

 

Talvez. Julgo que é evidente para toda a gente que o Danny tem problemas com a auto-estima. O pai pressiona-o muito e obriga-o a fazer coisas que ele não quer. Não é, de forma alguma, um modelo de apoio.

 

Faz com que o Danny se sinta um idiota?

 

Idiota, inferior, fraco, desamparado. Sinceramente, julgo que as pessoas deviam ser obrigadas a tirarem uma licença para desempenhar o papel de pais, antes de serem autorizadas a ter filhos.

 

O Shep pode não ser o pai perfeito interrompeu Rainie, de sobrolho franzido, mas adora o filho e só quer o melhor para ele.

 

Tudo bem, mas isso não chega. Mann fez um gesto com a mão para silenciar a série seguinte de protestos da parte de Rainie. Ele voltava a dar passos seguros. Os pais tinham razão: a sua seriedade era indubitável. Olhe, agente. Eu é que sou o especialista e posso dizer-lhe, sem qualquer tipo de reserva, que as intenções não têm importância na questão das relações dos pais com os filhos. Os miúdos não entendem o que queremos dizer. Só entendem o que fazemos. E muitas das coisas que o Shep faz provocam no Danny a sensação de que é um fraco, um incompetente. Os computadores, por outro lado, fazem-no sentir forte.

 

Alguma vez falou em pessoas que possa ter conhecido pela Internet? Sites que tenha visitado? pressionou Quincy.

 

Não posso comentar.

 

Olhe lá, Mann... começou Rainie, impaciente. Mann interrompeu-a de imediato.

 

O Danny é meu paciente e não vou violar o segredo profissional.

 

É possível invocar o segredo profissional quando se é apenas orientador escolar? indagou Rainie a Quincy.

 

Quincy fez-lhe sinal com os olhos para não levar o papel de agente má longe de mais. Mann estava a ficar irritado e precisavam de obter mais informações dele.

 

Deviam tentar ver nos computadores indicou Mann, abruptamente. Inclinou-se para a frente, dizendo quase num sussurro: Quero ajudar, mas não posso começar a minha carreira a quebrar o segredo profissional. Por outro lado, o Danny usava os computadores da escola. Eu, que não sou um especialista em computadores, pensei que, hoje em dia, os agentes policiais tinham a capacidade de descobrir o rasto de qualquer coisa...

 

Quincy e Rainie olharam um para o outro. Assim, voltaram ao tema dos computadores. Tudo bem.

 

Há alguma pessoa de quem o Danny falasse muito? sondou Quincy. Talvez uma nova amizade que tivesse feito recentemente?

 

Toda a gente sabe que ele fumava com o Charlie Kenyon.

 

E alguém na Internet? Talvez um adulto de um chat room ou coisa parecida.

 

Mann hesitou de novo. Um olhar de Rainie para Quincy e deste, de novo, para Rainie. Que diabo! A agente deixou descontrair as feições do rosto e esboçou um sorriso ao menino bonito.

 

Seria uma grande ajuda, Mister Mann. A juntar àquilo que fez no parque de estacionamento da escola, na terça-feira, e a rapidez com que ajudou a dominar a situação! Sairia de toda esta história como uma espécie de herói.

 

Herói, manifestamente, era a palavra certa.

 

Havia alguém confessou Mann. Danny pensou tratar-se de outro miúdo, de alguém com quem travara amizade. Li alguns dos e-mails e a linguagem pareceu-me mais sofisticada. Apostava que era um adulto a fazer-se passar por adolescente.

 

E não ficou preocupado com tal situação? perguntou Quincy.

 

Oh, claro que fiquei preocupado retorquiu Mann, com veemência. Foi por isso que pedi ao Danny para começar a trazer-me os e-mails. Sei as coisas que podem acontecer: pedofilia, pornografia infantil, terrorismo. A Internet não é mais segura do que atravessar Nova Iorque à noite. Mas o que Danny me mostrou era inofensivo. Tratava-se de mensagens amistosas, a admirar as façanhas no computador e de partilha de informação acerca de outros programas a experimentar, sites a visitar. Por outro lado... Fez uma pausa. Consta que o Danny, após a cena de tiros, repetia sem parar que era esperto.

 

Quincy olhou para Rainie. Esta recebeu a informação com um gesto afirmativo com a cabeça.

 

As mensagens acabavam sempre com esse tipo a dizer ao Danny que era muito esperto. Coisas do género: Estou ansioso por ver o que o menino-prodígio vai fazer a seguir. Es tão esperto! Mann encolheu os ombros, sem saber o que fazer. Pela primeira vez, Rainie achou-o com ar destroçado. Talvez houvesse outras mensagens, outras coisas que o Danny não contou. Não sei... A voz de Mann esmoreceu. Depois, num tom mais calmo, mais melancólico: Queria ajudar o Danny O’Grady. Estava com a relação dele com a Internet e preocupado com os problemas conjugais dos pais, e sempre pensei que conseguiria conquistar-lhe o coração e até ler os e-mails. Eu pensava... pensava que os miúdos que faziam este tipo de coisas tinham, em princípio, uma história de violência: torturar animais domésticos, atear fogos, dedicar-se a jogos violentos de vídeo. O Danny não fazia nada dessas coisas. Para mim, parecia-me um rapaz equilibrado que atravessava um período difícil. Não fazia a mínima ideia, juro, não fazia a mínima ideia...

 

Richard Mann deixou descair os ombros. E ali ficou, a abanar a cabeça. Quincy inclinou-se para a frente.

 

Mister Mann, tem por acaso uma cópia de algum dos e-mails.

 

O Danny não me deixaria ficar com eles. Ele já andava preocupado por achar que estava a trair a confiança das pessoas ao mostrar-mos.

 

Lembra-se de alguma coisa deles? Um nome, um chat room, um endereço de e-mail!

 

Eu não... Espere aí. O endereço de um e-mail. Lembro-me de tentar perceber o que o tipo queria dizer. Qualquer coisa a ver com fogos. Vulcões. Lava. Era isso: No Lava. Não é estranho para uma assinatura?

 

No Lava. No Lava do quê? Lembra-se do provedor de serviços da Internet?

 

Um dos principais, julgo. Talvez o AOL, ou o CompuServe. Uma coisa dessas.

 

Rainie assentou no papel. Olhou para Quincy.

 

Temos agentes federais especializados em operações na Internet. Podíamos encarregar um de se fazer passar por adolescente, para ver se o No Lava se interessa por ele.

 

Richard Mann recostou-se no assento. Passou a mão pelos cabelos curtos e soltou um suspiro há muito contido.

 

Estou a tentar fazer as coisas como deve ser. A Sally e a Alice eram miúdas tão doces. E isto... não deveria ter acontecido aqui.

 

Vamos investigar.

 

Rainie pôs-se de pé. Entregou a Mann o seu cartão-de-visita e fez o habitual discurso, pedindo-lhe para telefonar para o gabinete do xerife se se lembrasse de mais alguma coisa, embora tivesse sérias dúvidas de que ele sentisse vontade de falar com ela nos tempos mais próximos. Todavia, quando Rainie abriu a porta do gabinete, ele voltou a manifestar-se.

 

Agente Conner! Rainie parou e o orientador escolar deslocou-se para o espaço atrás dela, que albergava uma escrivaninha enorme para a secretária da escola. Como pode ver, o meu gabinete dá directamente para o principal espaço administrativo. Embora eu estivesse a almoçar sozinho na altura da cena dos tiros, não havia maneira de poder ter saído sem ninguém notar. Pergunte à nossa secretária, a Marge. Estou certo de que ela pode confirmar que trouxe uma sanduíche de carne assada para o gabinete, no início do período de almoço, e que não saí para lado nenhum até ouvir o primeiro disparo. Como você sabe.

 

Rainie concordou com um sinal de cabeça. Sabia quando a estavam a pôr no lugar. Depois, o olhar deteve-se nas fichas espalhadas pelo chão e leu os dois nomes no cabeçalho. Sally Walker. Alice Bensen. Evidentemente. Já não precisariam de registos permanentes.

 

Richard Mann acompanhou a linha de visão de Rainie. Ficara também com um ar destroçado.

 

Acho melhor eu levar essas fichas murmurou Rainie, após alguns instantes. Para os relatórios de vitimologia.

 

Mann olhou-a com ar curioso. Estaria perplexo pela forma de ela pensar? Ou estaria a perguntar-se, tal como ela, quando é que aprendera a ser tão fria?

 

Mann pegou nas duas fichas e entregou-lhas.

 

Depois disso, não houve mais nenhuma troca de palavras.

 

Quinta-feira, 17 de Maio, 15.12

 

Depois de almoçarem no Dairy Queen, Rainie e Quincy voltaram para o centro de operações, onde Abe Sanders os aguardava. O detective estatal envergava um fato cinzento, de corte impecável e sapatos pretos, irrepreensivelmente engraxados, o que fez com que Rainie desconfiasse que o homem que andava com caixas de plástico com salada também devia ter na mala um estojo com apetrechos para passar a ferro e engraxar sapatos. Seria assim que o homem se divertia nos tempos livres?

 

Instalara-se na secretária de Rainie e lia um faxe. Rainie arrancou-lhe o papel da mão sem qualquer tipo de preâmbulo.

 

Duvido que isso seja para os seus olhos.

 

Está a querer dizer que não fazemos parte de uma grande família feliz? comentou Sanders, numa voz arrastada e com ar inocente.

 

Rainie olhou-o de esguelha, depois passou os olhos pelo faxe. Era da firma de advogados Johnson, Johnson & Jones. As festas de Natal nessa firma deviam ser de gritos. O faxe informava-a de que ela e os ajudantes não podiam contactar Shep, Sandy e Becky O’Grady sem a presença de um advogado. Se qualquer membro da equipa de investigação insistisse em violar esta ordem, seria levantado um processo judicial contra o departamento do xerife de Bakersville. Com os melhores cumprimentos, Avery Johnson.

 

Maravilhoso murmurou Rainie. Tudo levava a crer que a conversa entre Shep e Sandy correra bem. Ou teria Shep referido a Avery Johnson o interesse dela em entrevistar Becky, no âmbito do seu desejo de proteger Danny? Um xerife experiente seria mais consciencioso.

 

Parece que não vamos interrogar a Becky O’Grady tão cedo comentou Sanders.

 

Veremos disse Rainie. Passou o faxe a Quincy, que pareceu despreocupado.

 

Rotina disse ele.

 

E só o começo concordou Sanders, falando com o ar confiante de um agente experiente para outro. No final deste caso, toda a cidade estará a transbordar de advogados a representar, proteger e processar as massas. Estou espantado por o George Walker ainda não ter intentado um processo ao departamento do xerife. Só Deus sabe se ele não acha que toda esta coisa é culpa do Shep.

 

Rainie mordeu o lábio inferior. Detestava admitir isso à frente de Sanders, mas sentia-se deslocada.

 

Acha que me vão processar?

 

Claro disse Sanders, terra a terra. Os Walker e os Bensen provavelmente intentarão processos civis contra o departamento do xerife, por não ter avisado a comunidade do perigo que Daniel O’Grady representava, ou por negligência na condução da investigação contra ele. Isso, naturalmente, envolvê-lá. Depois, muito provavelmente, moverão um processo civil contra os O’Grady, no caso de as coisas não ficarem solucionadas em tribunal. Não me surpreenderia se os pais da Melissa Avalon fizessem o mesmo. Por fim, temos todos os miúdos que foram feridos, embora nenhum deles tenha ferimentos de gravidade. Provavelmente acabarão em dois campos: os que porão tudo para trás das costas e os que reunirão as economias e partirão para a guerra.

 

Mas porquê processar o departamento do xerife? perguntou Rainie, de olhar carregado. Estamos tão tesos que muitos dos nossos agentes trabalham de graça. E o dinheiro que temos vem da cidade, isto é, das pessoas que nos irão processar.

 

A cidade e o departamento têm seguro de responsabilidade explicou Sanders. Essas apólices atingem os milhões, por isso um bom advogado argumentará que há dinheiro e que as companhias de seguros são as únicas prejudicadas.

 

Mas os prémios sobem, as taxas aumentam e, mais uma vez, são todos os residentes a pagar a factura.

 

Está a pensar com demasiada lógica, Rainie. Os miúdos ficaram feridos. O sistema não protegeu as pessoas. Agora querem deitar as culpas a alguém. Nos anos noventa, não ouviu uma coisa do género: a polícia é tanto a primeira linha de defesa como o melhor bode expiatório na cidade?

 

Rainie abanou a cabeça. Detestava advogados. Deitavam a mão a tudo e complicavam demasiado as coisas. E pareciam achar que o dinheiro sarava todas as feridas. Não vale a pena chorar a morte de um filho, há que aproveitar a indemnização.

 

Contornou a secretária, fé/ sinal a Sanders para levantar o rabo da cadeira e esforçou-se o melhor que pôde para se concentrar nas questões que tinha em mãos.

 

Bem disse, lacónica, entrelaçando as mãos à sua frente e fitando ambos os homens. Esta manhã, encontrei-me com o pessoal da secção de balística e com a médica-legista em Portland. Sanders, quer informar-me sobre o que tem para dizer, ou prefere que dispare primeiro e pergunte depois?

 

O detective estatal encolheu os ombros.

 

Oh, refere-se ao chamado mistério do invólucro.

 

Que diabo, comecemos por aí.

 

O pessoal da balística descobriu uma coisa muito estranha, só isso. Um invólucro que não tem impressões digitais no exterior e um tipo de substância no interior.

 

Um polímero disse Quincy.

 

Sanders fulminou-o com o olhar. Depois fitou Rainie com ar mal-humorado. Era óbvio que não gostava que o agente federal partilhasse informações com ela. A Rainie pouco lhe importava.

 

Sim, um polímero confirmou Sanders, por fim. Ainda não lhe tinha falado nisso porque ainda não sabemos nada. Precisam de realizar mais testes. Até lá não temos novas informações.

 

Sanders, um invólucro estranho é informação...

 

Conner, um caso desta dimensão tem um milhão e meio de coisas deste género. Temos detritos impossíveis de categorizar, impressões digitais que não condizem e fluidos corporais fora do lugar. Já se esperava. Se lhe falar de todas as questões que têm sido levantadas, vai dar em doida.

 

Sou a agente responsável pelo caso, Sanders. Se der em doida, o problema é meu, não seu.

 

Tudo bem, tudo bem. Levantou as mãos em sinal de paz. Só estava a tentar ajudar.

 

Tretas! Você só quer tomar conta deste caso para o resolver de forma rápida e simples.

 

Exacto! De forma rápida e simples é melhor para toda a gente. Por amor de Deus, a cidade está atolada de armas até aos joelhos.

 

Mais uma razão para tomarmos todas as providências para chegar à verdade. E neste preciso momento não tenho efectivamente a certeza de que foi o Danny.

 

Por causa de um estúpido invólucro?

 

Por causa de um estúpido invólucro, de uma estúpida bala e de uma estúpida trajectória que indica que o assassino da Melissa Avalon era uns centímetros mais alto do que ela!

 

O quê?

 

Abe Sanders pareceu ficar efectivamente surpreendido. Rainie também ficou espantada. Depois percebeu. O detective ainda não sabia do relatório da médica-legista. Só entrara em contacto com o laboratório de investigação criminal, não com o gabinete da médica-legista.

 

Ainda não sabia? Rainie não conseguiu evitar falar com voz arrastada, imitando-o em tom de gozo. A bala calibre vinte e dois seguiu uma trajectória vertical desde a testa da vítima até à base do crânio. Por outras palavras, um miúdo de treze anos de estatura baixa não conseguiria atingir dessa maneira uma mulher adulta de pé.

 

Sanders ficou surpreendido, depois perplexo, depois pensativo. Matutou sobre os factos. Haveria alguma forma de Danny a ter atingido daquele ângulo? E se Danny estivesse em cima de qualquer coisa? E por que motivo iria pôr-se em cima de alguma coisa?

 

Rainie percebia as cogitações de Sanders, porque ela própria já passara pelo mesmo às sete da manhã. A médica-legista e a assistente até lhe haviam demonstrado a logística. A única maneira como conseguiram recrear a trajectória aproximada da bala foi com a hipótese de o atirador ser, pelo menos, da mesma altura da vítima.

 

Merda disse Sanders, ao fim de alguns instantes.

 

Exactamente. Portanto, este invólucro misterioso não é tão pouco importante como se pensa. Além disso, temos a questão de uma bala calibre vinte e dois sem marcas de estrias. Em suma, nenhuma das provas que temos encaixa.

 

Espere aí, espere aí disse Sanders rapidamente. Não vamos deitar tudo a perder. Apanhámos um revólver de calibre trinta e oito no local do crime, que foi usado para matar duas vítimas. Temos as impressões digitais do Danny na maioria dos invólucros calibre trinta e oito, mais três carregadores rápidos. Quanto à Melissa Avalon, não sei, mas ainda temos provas suficientes contra o Danny no que toca à Sally e à Alice.

 

Rainie fitou o detective estatal, incrédula.

 

Isto não altera as coisas? Temos um enorme buraco no caso e isso não altera nada para si?

 

Levanta algumas questões a que temos de responder disse, ponderado, mas não, para mim, não altera o caso.

 

Como é que isso não altera tudo?

 

Porque nem tudo se alterou! Olhe, sei que este é o seu primeiro homicídio, Conner, mas a verdade é que as coisas nem sempre nos aparecem todas arrumadinhas. Acabamos por ter dúvidas e, às vezes, as provas são uma trapalhada dos diabos. A nossa tarefa é reunir elementos para o processo e ainda temos os suficientes para demonstrar que o Danny matou as duas miúdas. Agora, talvez não tenha morto a Melissa Avalon, talvez houvesse outra pessoa no local, ou então alguém que se aproveitou do caos para saldar dívidas antigas, mas, na minha opinião, o Danny O’Grady assassinou a Alice Benson e a Sally Walker. Caso encerrado.

 

Não insistiu Rainie com veemência. O caso não está encerrado. A partir do momento em que temos uma pessoa misteriosa no local, o caso está todo lixado. Acrescente a isso o advogado de defesa, o Avery Johnson. Imagine-o a argumentar que o Danny arranjou as armas e carregou-as, mas que foi outra pessoa, digamos, o homem de um metro e setenta e pouco, no cimo da colina verdejante, que premiu o gatilho. Imagine o júri a engolir esta história toda. A partir do momento em que temos uma pessoa misteriosa no local do crime, o nosso caso, no ponto em que estava, encontra-se oficialmente morto.

 

Sanders franziu o sobrolho. Abriu a boca para argumentar qualquer coisa, mas fechou-a; depois, fez de novo menção de falar e, por fim, ficou de semblante carregado. Era óbvio que acreditava piamente que Danny é que fizera os disparos. Mas também não conseguia contradizer a lógica de Rainie. Uma pessoa misteriosa... levantava sérias dúvidas. Ainda não tinham elementos suficientes para o delegado do Ministério Público avançar com o processo.

 

Sanders virou-se para Quincy.

 

Você pode intervir a qualquer momento resmungou o detective estatal.

 

Quincy encolheu os ombros.

 

Achei que a agente Conner estava a fazer um bom trabalho.

 

Bem, você é que é o perito, porra! Diga-nos, o que é que falta?

- Para ser franco, creio que voltámos à fase inicial da investigação.

 

E temos uma série de questões-chave. Uma: porquê a Melissa Avalon? O assassínio dela encerra elementos invulgares, como tal, uma teoria seria a de que ela é o elemento-chave que está por detrás de tudo o que aconteceu. Sabemos que ela e o VenderZanden tinham um caso amoroso. Segundo o Pvichard Mann, ela cortara os laços com a família, particularmente com o pai. Agora, gostava de saber se o pai tem acesso a um computador.

 

O Luke Hayes é que está encarregue dos relatórios de vitimologia informou Rainie. Posso pedir-lhe para se concentrar na Melissa Avalon por agora tentar descobrir alguma coisa que nos interesse para amanhã.

 

Quincy assentiu com a cabeça.

 

Segundo ponto de concentração da nossa atenção: os computadores da escola. Sabemos que o Danny passava muito tempo a navegar na Internet, possivelmente a falar com alguém chamado No Lava. Quem é esta pessoa? E qual era o seu intuito ao contactar um miúdo de treze anos? Saber o que está nos computadores deve ajudar-nos a elaborar uma possível segunda teoria sobre este caso, a de que o homem de preto é um estranho que o Danny conheceu na Internet.

 

Por falar nisso interrompeu Sanders, com ar sombrio. Os olhos de Rainie e Quincy fixaram-se nele. Virado para Rainie, acrescentou na defensiva: Ia contar-lhe. Só que não tem havido tempo.

 

Desembuche, Sanders!

 

Esta manhã, recebi um telefonema dos nossos técnicos. Estão a ter problemas com a recuperação de dados dos computadores.

 

Que tipo de problemas? Sanders sorriu.

 

Ouça isto. Como já referi antes, havia indícios de que o Danny...

 

Que alguém corrigiu Rainie.

 

Tudo bem, que alguém tentou limpar os discos rígidos. O ficheiro histórico do browser da Net e o ficheiro de cache haviam sido apagados. Mas os especialistas em informática sabem como dar a volta a esse tipo de coisas, por isso os técnicos não ficaram muito preocupados.

 

Deduzo que as coisas não correram lá muito bem.

 

Em poucas palavras. Sempre que visitamos um site da Net, o site coloca uma pequena informação no ficheiro de cookies, de modo a que, da próxima vez que o utilizador visitar o site, este se possa ”lembrar” da informação. Um bom técnico consegue ter acesso ao ficheiro de cookies e obter o registo completo de todos os sites visitados pelo utilizador. Só que nos quatro computadores, os cookies foram apagados às seis da tarde de segunda-feira, catorze de Maio. Os únicos cookies encontrados são novos, de terça-feira de manhã, e são uma salgalhada de sites da eToys.com e dos Pokemon, provavelmente de miúdos dessa manhã.

 

E os e-mails? pressionou Quincy. Sei que posso entrar on-line e recuperar e-mails antigos, até mesmo aqueles que li e apaguei.

 

Geralmente, sim. Todavia, alguém apagou os e-mails antigos e os que se encontravam registados no disco, depois compactou os ficheiros para que fossem irrecuperáveis. Finalmente, a pessoa acedeu ao servidor az firewall e apagou todos os logs de dados. Em suma, os quatro computadores estão limpinhos.

 

Quero vê-los disse Quincy.

 

Podes ficar com eles concordou Rainie.

 

Espere aí protestou Sanders. Temos bons técnicos...

 

O FBI tem melhores.

 

Porra, os nossos técnicos já começaram o trabalho...

 

Mas os agentes de recuperação de dados do FBI são muito mais rápidos a acabar o trabalho.

 

É verdade disse Quincy a Sanders, que se encontrava à beira de um ataque de mau génio. Mesmo depois de tudo o que descreveu, a informação encontra-se algures nos computadores. Quando um ficheiro é apagado, o computador geralmente só apaga a referência do directório ao ficheiro, não os dados em si. Por isso, a menos que o nosso infame desconhecido pensasse em usar um programa de eliminação de dados aprovado pelo Departamento de Defesa que substitua os dados por zeros, a informação fica no disco. Precisamos desta informação. Fosse o que fosse que o Danny andasse a fazer om-line com o Lava altamente relevante, para aquilo que se passou na terça-feira à tarde. Por isso, deixe os nossos tomarem conta do assunto. Mais cedo ou mais tarde, teremos a resposta.

 

Nós também conseguimos recuperar a informação insistiu Sanders num tom seco. Posso pedir-lhes para o fazerem com a máxima urgência. Não há motivo para o FBI se meter.

 

Demasiado tarde retorquiu Rainie.

 

Bolas, isso é só uma desculpa para tirar a tutela...

 

Estou-me cagando para isso! ripostou Rainie. Deu uma palmada no tampo da secretária. Havia mais alguém na escola. Alguém que disparou sobre a Melissa Avalon. Quero saber quem, porra, e, pela última vez, Sanders, eu é que estou à frente do caso.

 

Sanders ficou mergulhado num profundo silêncio. Cruzou os braços sobre o peito e murmurou:

 

O que daria agora por um crepe com gelado e chocolate quente. Rainie fitou-o de olhar carregado. Ficaram todos em silêncio. Os segundos passavam. Após alguns instantes, Quincy anunciou:

 

Terceiro passo.

 

Olhou para os dois. Rainie assentiu com a cabeça para mostrar que estava a prestar atenção. Sanders regressou à conversa mais relutante que nunca.

 

Voltamos àquilo que estávamos a fazer esta manhã, Rainie: uma lista completa de outros possíveis suspeitos: VanderZanden, Charlie Kenyon, Richard Mann, o pai da Melissa Avalon e o tipo de computador, o No Lava.

 

Estou a trabalhar nisso. Só não tenho muitos efectivos.

 

Tudo bem interrompeu Sanders, mal-humorado. Vamos dividir isto tudo entre nós. Cos diabos, podemos fingir que o cruzamento de investigações dá resultado. Fico com o VanderZanden. O agente federal pode ficar com o No Lava, pois foi ele que roubou a informação dos meus computadores. O Luke Hayes tem o pai da Melissa Avalon...

 

Eu fico com o Charlie Kenyon e o Richard Mann prontificou-se Rainie.

 

Perfeito disse Sanders, categórico. Olhou então para Rainie em ar de desafio. Isso deixa-nos apenas um último suspeito: o Shep.

 

Fora de questão! E o xerife...

 

De cujo período de tempo passado na escola não temos informação! Sabemos que tem problemas em casa. Sabemos que já tem uma certa idade, o que faz dele exactamente o tipo de homem da Melissa Avalon. E sabemos que ele tem um fraquinho por si, Conner, o que torna todo este maldito caso ainda mais interessante.

 

Rainie resolveu ignorar aquele último comentário e ripostou num tom firme:

 

O Shep chamou-me por rádio depois de os tiros terem sido disparados, querendo isso dizer que ele se encontrava no carro-patrulha, não na escola.

 

Ou então voltou para o carro, no parque de estacionamento, e fez a chamada.

 

O Shep é incapaz de forjar uma acusação falsa contra o próprio filho!

 

Não sabemos aquilo que ele fez! Vá lá, as provas estão espalhadas por todo o lado. O Danny é o culpado. Espere, não, talvez tenha sido uma segunda pessoa presente no local. Foi você própria que disse, Conner, o Danny tem a defesa perfeita neste momento: o homem que estava no cimo da colina verdejante. Ou me engano muito ou não tarda a ser solto. Isso quer dizer que o Shep ou é realmente inteligente ou então tem muita sorte.

 

Você disse Rainie num tom inflamado, você tem andado a ver muitos filmes do Oliver Stone.

 

Eu trato disso prontificou-se Quincy calmamente. Olharam ambos para ele, como se só então se lembrassem de que ele se encontrava ali. Eu investigo o Shep repetiu, pondo termo à objecção de Raini.
É uma questão de disciplina, Rainie. Há demasiadas coisas nesta cena de tiros que não fazem sentido. Até fazerem, toda a gente tem de ser suspeita: homens misteriosos de preto e, claro, o xerife da cidade.

 

Rainie recostou-se na cadeira. Não estava satisfeita, mas de nada valia argumentar. Quincy voltou à conversa normal.

 

Uma última coisa. Se o assassino for um estranho, precisamos de alargar a rede, porque há hipóteses de ele ainda se encontrar na zona.

 

Em Bakersville? perguntou Rainie, incrédula.

 

Não, esta cidade é muito pequena para alguém se esconder. E provável que tenha procurado uma cidade vizinha, talvez um centro turístico. Um sítio onde pudesse ir a bares, estabelecimentos comerciais locais e acompanhar toda a cobertura noticiosa. E capaz de estar a acompanhar a investigação de muito perto e procure informar-se acerca dela. E a sua forma de aliviar a tensão, de se divertir. Devíamos contactar os departamentos de polícia vizinhos, para os agentes interrogarem os trabalhadores dos hotéis e os empregados dos bares. Alguma cara nova que tenha manifestado interesse na tragédia de Bakersville. Alguém de raça branca, na casa dos vinte ou dos trinta, que tenha andado a falar ou a fazer muitas perguntas sobre o assunto. Esse tipo de coisa.

 

Sanders esboçou um gesto de concordância com a cabeça.

 

Posso fazer alguns telefonemas disse; depois encolheu os ombros, hesitante. Não quero perder os meus homens numa caça aos gambozinos. Vocês podem gostar da noção de homem misterioso, mas eu continuo a centrar-me no ferimento da vítima. Já vi muitos homicídios, mas um único ferimento de bala na testa só pode ser de uma vítima alvejada de propósito, seja qual for a forma de encararmos a questão. Talvez não tenha sido o Danny, mas alguém que queria especificamente a Melissa Avalon morta.

 

Quincy não o contradisse. Nem Rainie. A chave do caso parecia estar em Melissa Avalon, mas o facto de ainda não conseguirem perceber porquê provocava em todos eles um grande desconforto.

 

Bem, pelo menos temos a sorte do nosso lado disse Quincy, finalmente.

 

Sanders e Rainie trocaram olhares, perplexos. Sanders fez as honras:

 

Estamos com sorte?

 

A bala calibre vinte e dois. Foi você próprio que disse, detective. Muitas vezes não se consegue fazer um teste balístico a esses projécteis, porque ficam demasiado deformados. Desconfio que o nosso atirador também sabia isso. Por isso diz ao Danny para trazer uma calibre vinte e dois. A ideia é: a bala fará ricochete dentro do cérebro, apagando a trajectória e as marcas de estrias. Dadas todas as outras provas circunstanciais, o Danny será também culpado da morte da Melissa Avalon. Só que a bala não fez ricochete. Mantém uma trajectória que nos dá de imediato a indicação de que o atirador deve ter sido um adulto. E mantém parte da base intacta, o suficiente para revelar o seu pequeno segredo: está perfeitamente lisa, indicando uma arma única. Ficamos então a saber que algo mais aconteceu naquela escola.

 

Rainie fez um lento gesto de concordância com a cabeça. Sem o projéctil e a trajectória, nunca teria havido motivo para se procurar outro suspeito para além de Danny O’Grady. Sobretudo com o rapaz a confessar em todas as ocasiões.

 

Sanders, todavia, franzia o sobrolho.

 

Não percebo. Está a dizer que alguém pediu ao Danny para trazer uma vinte e dois para encobrir a sua? Mas por que diabo faria ele isso? Porque não se limitou a usar a arma do Danny?

 

Rainie ficou de olhos fixos em Quincy, que, por uma vez, parecia completamente desconcertado.

 

O projéctil calibre vinte e dois está liso murmurou Rainie. Está fora de questão ter vindo da arma do Danny. E isso coloca outra questão: se o atirador utilizou a sua própria arma para matar a Melissa Avalon, porquê uma de calibre vinte e dois? Não é tão potente, especialmente para um tiro na cabeça. Com franqueza, muitas pessoas sobrevivem a um ferimento desses. E, no entanto, ele disparou um único tiro na testa dela com a sua própria arma. Arriscando-se a que ela sobrevivesse para contar a história. Arriscando-se a que alguém o visse armado. Não compreendo... Há algo aqui que não bate certo.

 

Olharam todos uns para os outros. Ninguém tinha uma resposta. Uma vítima pré-seleccionada. Um projéctil mistério. Um homem desconhecido que persuadira um rapaz de treze anos a tomar parte num assassínio.

 

Haviam percorrido um longo caminho a partir de um tresloucado acto de cólera e agora, de repente, Rainie já não sabia para onde é que se dirigiam. Pensou na cidade, pequena e pacífica. Pensou nas árvores imponentes e nas colinas ondulantes. Pensou em Danny, tão assustado e determinado a assumir as culpas. Pensou nos corredores da escola, ainda raiados de sangue.

 

E, pela primeira vez em catorze anos, Rainie estava apavorada.

 

Quinta-feira, 17 de Maio, 16.21

 

Danny encontrava-se sentado, sozinho, no quarto de cerca de seis metros quadrados de área, de olhos fixos numa aranha que avançava lentamente pelo pêlo curto da alcatifa que cobria o chão.

 

A porta encontrava-se aberta. Todas as manhãs, às seis horas, as portas eram escancaradas pelos corpulentos membros do pessoal auxiliar, que gritavam: ”Está na hora, meninos e meninas!” As portas dos quartos, todos parecidos e que davam para um corredor principal, ficavam abertas durante todo o dia, até às nove da noite, altura em que toda a gente se preparava para ir para a cama. Aparecia então o pessoal auxiliar não eram guardas, haviam dito a Danny, mas ”guias” que trancava toda a gente nos quartos. Às dez horas, eram apagadas as luzes. Danny via então um rosto a espreitar através da janela de plexiglas, certificando-se de que ele cumpria as regras.

 

Danny cumpria as regras. Não causava qualquer tipo de problemas. Levantava-se à hora que tinha que o fazer. Ia acompanhado do guia até à cafetaria. Ficava de olhos fixos no tabuleiro. Outro guia conduzia-o até à sala de aula, onde vinte rapazes, de idades compreendidas entre os doze e os dezassete, fingiam estudar sob o olhar atento de uma senhora cheia de vida, que afirmava insistentemente que eles podiam ser aquilo que quisessem. Mais tarde, eram autorizados a ”sociaoilizar”.

 

Danny voltava sempre para o quarto, onde ficava sentado, sozinho. Ninguém lhe ligava. O Centro Prisional de Menores de Cabot County era um estabelecimento recente. Funcionava como um gigantesco dormitório, de cor bege, diferente de outros lugares de que os miúdos falavam por entre dentes com temor. Velhas prisões convertidas em estabelecimentos de menores, onde as paredes e o chão eram em cimento e onde nem sequer havia privacidade para fazer as necessidades físicas básicas. O Centro de Cabot County não era assim. Alguns dos miúdos podiam usar as suas próprias roupas, desde que não ostentassem cores de gangues ou T-shirts ofensivas. A sala de convívio tinha muitas janelas de vidro acrílico e plantas verdadeiras. Se os miúdos ganhassem suficientes pontos de mérito, podiam ver televisão ou até alugar vídeos.

 

Na maioria dos casos, os guias conduziam os miúdos ao longo dos dias, de acordo com um horário escrupuloso de refeições, aulas e intervalos para recreios. Desde que se fizesse aquilo que era exigido, ninguém chateava. Até se podia ficar sozinho durante o tempo de sociabilização. Sentado no quarto. De olhar fixo no uniforme azul de hospital. A observar as aranhas. Não importava o quê.

 

A questão era que nunca se conseguia ir muito longe. Não era por acaso que os quartos tinham janelas de plexiglas. E todas as portas exteriores possuíam um revestimento exterior de dois centímetros e meio em aço. Depois, havia o muro de três metros de altura que circundava o pátio e que era encimado por arame farpado. Os holofotes. Os guias que tinham acesso a espingardas carregadas com balas de borracha.

 

Quando Danny lá chegou, no primeiro dia, os miúdos mais velhos haviam ficado fascinados por ele e contaram-lhe histórias de colegas que tinham tentado fugir. Miúdos que haviam sido ensanduichados entre colchões, gaseados com spray de pimenta, ou, raramente, se conseguissem saltar o muro, perseguidos por dobermans ameaçadores. Se se fosse apanhado, cada um dos cães tinha autorização para dar uma dentada como recompensa, diziam os miúdos. Os guias eram donos e senhores do lugar.

 

Danny achava que estavam a exagerar, mas não disse nada. Desde o primeiro dia que era esse o seu lema: não abrir a boca.

 

Sou esperto, sou esperto, sou esperto.

 

Estou assustado.

 

Agora observava a aranha a subir laboriosamente em direcção à janela gradeada, sequiosa de luz do Sol ou, talvez, de sentir o vento na cabecita peluda.

 

Passou os dedos pelo uniforme não tinha cordões, nem botões, nem cinto e tentou abstrair-se de tudo o que se passava à volta.

 

O advogado viera falar com ele no dia anterior. Não quisera ver o homem. Este envergava um elegante fato cinzento, trazia um relógio caríssimo no pulso, e Danny sabia que devia custar uma fortuna, o que o fez sentir-se ainda pior. A mãe teria ficado em stresse só de imaginar como é que o pagaria. O pai gritar-lhe-ia que isso não importava, porque o bom velho Shep não sabia como é que o mundo funcionava. Continuava a viver nas suas fantasias futebolescas em que ele e/ou o filho marcavam o golo decisivo na vitória da equipa no grande jogo em casa.

 

Danny detestava preocupar a mãe. Sabia que ela chorara. Ele próprio a ouvira. À noite, punha as mãos nos ouvidos para não deixar entrar o som, mas depois tinha que levar uma à boca para que não o ouvissem a choramingar.

 

O advogado falou de coisas banais. Explicou-lhe o que um advogado fazia e o que era um julgamento. Qual seria o seu papel e o de Danny. Falou como se o miúdo tivesse quatro anos. Este nunca o interrompeu, de olhos fixos num ponto atrás da orelha do advogado, enquanto o homem pairara durante uma hora.

 

O advogado aconselhou-o a não falar com os psicólogos. Tecnicamente, trabalhavam para o centro prisional, por isso podia-se argumentar que tinham funções policiais e qualquer coisa que ele lhes dissesse podia ser usado contra si em julgamento. Por uma questão de segurança, podia pedir a presença de um capelão, um pastor ou um rabino, se sentisse vontade de desabafar. As confissões a um religioso permaneceriam em absoluto segredo.

 

Danny não falou. Sabia que não podia falar, não podia confiar em ninguém, mesmo durante as horas calmas da noite, quando as palavras dentro de si pareciam querer sair e ficavam como que presas num apertado nó que se formara no peito. Era então que passava novamente em revista os acontecimentos, nítidos, mas algo distantes, como se não fossem mais do que um sonho e não tivessem nada a ver com ele. Então, levantava a mão, via que nem sequer estava a tremer e só queria gritar, gritar, gritar.

 

O advogado disse-lhe também que seria visitado por dois peritos. Havia mais regras relativamente àquilo que iria dizer. Num deles não se poderia confiar. Danny tinha de ter cuidado. O outro Schaffer, talvez? trabalhava para os pais. Podia contar-lhe tudo. Talvez devesse pensar em contar-lhe tudo. Talvez se sentisse melhor, depois de desfazer o nó que tinha no peito.

 

O advogado fitou-o com ar afável. Danny pensou em Miss Avalon. A expressão que o rosto tomara. A maneira como se virara para ele. As suas últimas palavras.

 

Danny, corre! Corre, corre, corre!

 

A aranha chegou à janela. Ficou a observá-la a correr alegremente sobre o vidro quente e inquebrável.

 

Tantas coisas na cabeça. Todas aquelas imagens, mas tão distantes. Sangue. Barulho. Cheiros que nunca imaginara. Armas quentes nas mãos. Mas tão distantes. Talvez fosse apenas um sonho. Estala os dedos e já está. Talvez fosse apenas um filme de terror da televisão. Clique, desliga e vai para a cama.

 

Sally, Alice e Miss Avalon. Sally, Alice e a bela Miss Avalon.

 

Corre, Danny, corre!

 

Levantou-se. Ergueu a mão e pousou-a com violência sobre a aranha, esmagando-a. Ficou com bocadinhos de aranha espalhados por toda a mão. Analisou os dedos. Continuavam a não tremer. Olhou, determinado, para a mão e desejou ardentemente que ela tremesse. Nada.

 

Danny, o assassino insensível.

 

Voltou para a cama.

 

Rainie caiu sobre Charlie Kenyon como um morcego fugido do inferno. Já tivera quatro discussões com o rapaz de dezanove anos e desta vez estava sem a mínima paciência. Avistara-o a conduzir uma pequena bicicleta de cross, bastante velha, por uma estrada florestal, na propriedade do pai. Ligou as luzes e foi atrás dele.

 

Quincy seguia no ”lugar do morto”. Não pestanejou minimamente perante o aparato de sirenes, luzes e poeirada que se levantava à sua frente, enquanto Rainie obrigava Charlie a encostar à berma. A agente saiu do carro com a mão pousada no punho do bastão que tinha à cintura.

 

Salta da bicicleta, Charlie!

 

Que merda é esta, agente, estava em excesso de velocidade? Com ar descontraído, envergando um blusão negro de cabedal e calças de ganga muito justas, manteve-se em cima da bicicleta. Um sorriso trocista a bailar-lhe nos lábios. Rainie teve de fazer um esforço titânico para não lhe partir a cara. Precisava de dormir mais. Mesmo para si própria andava com pouca paciência.

 

Charlie fez então sinal com os olhos para trás dela, na direcção de Quincy, que saía da viatura.

 

Quem é o engomadinho?

 

Não são contas do teu rosário.

 

Um novo sócio? Não devia ter-lhe falado da cena do fato? Por estes sítios, já vi tipos serem mortos por usarem gravatas de seda.

 

Rainie ignorou os comentários.

 

De quem é a bicicleta, Charlie?

 

Minha...

 

Parece a bicicleta de um miúdo de oito anos.

 

Sou um nostálgico.

 

A sério? E eu que pensava que não passavas de um monte de merda. Salta da bicicleta, Charlie, e põe as mãos no ar!

 

Finalmente, Charlie deixou de se armar em James Dean por uns instantes, o tempo suficiente para pôr um ar carrancudo e se lamuriar.

 

Alto lá, ganhei a bicicleta de maneira absolutamente honesta e séria. Não tenho culpa que o puto nunca tenha aprendido a esquivar-se numa briga.

 

Eu disse Estou na propriedade do meu pai... Charlie acalmou-se, por fim. Olhou fixamente para Rainie, depois para Quincy. Então, relutante, passou uma perna por cima da bicicleta, deixando-a tombar no chão.

 

Tudo bem, tudo bem, não se excite.

 

Mãos no ar! Volta-te! Põe-as contra o tronco da árvore! Afasta as pernas!

 

Vai bater-me? Por roubar uma bicicleta?

 

Quem é que disse que isto tem a ver com uma bicicleta?

 

Que raio...

 

Demasiado tarde. Rainie já se chegara suficientemente perto para enganchar o pé no dele. Torceu Charlie de encontro ao tronco da árvore, pôs-lhe as mãos acima da cabeça e revistou-o. Um minuto depois, era a dona orgulhosa de um saca-rolhas, um canivete, duzentos dólares em dinheiro e um rolo de moedas de vinte e cinco cêntimos.

 

Quincy pegou nas moedas. Agarrou no rolo, fechou os dedos à sua volta e admirou o peso. Charlie Kenyon sabia como dar uns socos.

 

Noites com pouca emoção, Mister Kenyon?

 

Rainie tirou as mãos das costas do rapaz. Este virou-se lentamente, tentando dar espectáculo, a esticar os braços e a ajeitar a gola do blusão de cabedal. Depois de passar os dedos pelos cabelos castanhos e ondulados, lançou um olhar de desdém a Quincy.

 

Desculpe disse o rapaz, sarcástico, mas não apanhei o seu nome.

 

Pierce Quincy, agente especial supervisor do FBI.

 

Merda!

 

Rainie sorriu por fim.

 

Engraçado, o teu pai disse a mesma coisa quando falei com ele esta tarde. Mas parece que não é só o teu pai a não querer confusões com os agentes federais, os habitantes daqui também não.

 

Pode ficar com a bicicleta.

 

Não estou a brincar. Charlie, fala-nos do Danny O’Grady.

 

O quê?

 

Ouviste-me bem. Queremos saber tudo o que disseste ao Danny. E se eu estivesse no teu lugar, dar-nos-ia toda a cooperação possível, porque algumas testemunhas oculares já nos contaram o suficiente para te engavetarmos como cúmplice de homicídio. Tens dezanove anos, Charlie. Acabas por ser indiciado como cúmplice de um assassínio em massa e não há nada que o teu pai, o ex-presidente da Câmara, possa fazer para te ajudar. Vais ser julgado por um crime altamente qualificado. Estamos a falar em tempos difíceis e não penses que vais para uma daquelas prisões tipo country-club. Vais passar pela realidade nua e crua da vida.

 

Hei, hei, hei, hei! Levantou as mãos e, com grande espalhafato, simulou fazer marcha atrás. Pensa que eu fiz mal a essas miúdas? De maneira nenhuma, tenho um álibi. Piscou o olho a Quincy. E é uma doçura, se percebe o que quero dizer.

 

Por que razão andavas a rondar a Escola Básica Integrada? Os miúdos da escola secundária são demasiado duros para ti? São maiores, mais fortes, podem dar-te no focinho?

 

Não sei do que está a falar. Eu só tenho um fraquinho por parques infantis.

 

Estás a irritar-me, Charlie. Não ando a dormir muito nos últimos dias e o presidente da Câmara disse-me, esta manhã, para fazer o que for necessário para resolver este caso. Por isso não me irrites.

 

Tenho uma testemunha federal disse Charlie, prontamente. Quincy olhou para o céu.

 

Onde?

 

Merda, pensei que vocês tivessem níveis. Quincy olhou para Rainie com ar sinistro.

 

Julgo que isso explica Waco. Charlie hesitou.

 

Vocês estão é a querer tramar-me.

 

O meu coração está a ficar completamente destroçado asseverou-lhe Rainie. Porque é que estiveste na escola, Charlie?

 

Porque estava chateado, porra! Porque não há nada para fazer nesta terra de merda, e, às vezes, preciso de um pouco de distracção.

 

Foi isso que o Danny O’Grady foi para ti? Distracção? Encolheu os ombros.

 

O Danny era interessante. Tinha potencial, se percebem o que quero dizer.

 

Não, não estou a perceber nada. Era bom estudante e inteligente, e não se metia em problemas. O único potencial que eu via nele era querer chegar na vida onde tu nunca chegarás.

 

Desviou a cara para o lado. Olhou para Quincy com ar matreiro.

 

Você sabe o que quero dizer, não sabe, senhor agente federal? Já ouvi falar de si. É um psicólogo conhecido, que sabe esboçar o perfil dos criminosos. O melhor de todos. Acabou com o sacana do Jim Beckett. Fiquei mesmo deslumbrado, senhor federal. Isto aqui é uma pasmaceira dos diabos. Só preciso que alguém diga alguma coisa interessante, para me manter acordado.

 

Acho melhor continuares a falar disse Quincy calmamente. Nós, os tipos da polícia, temos a preocupação de ouvir as coisas que têm para nos contar. Além disso, tenho a certeza de que adoras ouvir-te falar.

 

Você não tem sentido de humor.

 

Exigências profissionais.

 

Charlie, que estavas tu a fazer com o Danny?

 

Nada, está bem? A decorar os direitos que me são concedidos pela Primeira Emenda. Se vocês se excederem, ponho alguém dos grandes a morder-vos o rabinho.

 

Rainie voltou-se para Quincy.

 

Comigo assim não dá.

 

Parece-me muito beligerante concordou Quincy.

 

Acho que vamos ter de fazer qualquer coisa.

 

Toquem numa só célula morta da minha cabeça e o meu pai espeta-vos com um processo em cima que vos manda para a Idade da Pedra.

 

Nesta questão, o teu pai só tem que cooperar. Rainie voltou-se para Quincy e, com ar pensativo, disse: Estou na dúvida se cabelo ou blusão.

 

Quincy examinou o blusão de cabedal preto de Charlie e os cabelos meticulosamente penteados.

 

Blusão disse ele.

 

Certo. Rainie deu um passo em frente. Charlie apercebeu-se e tentou esquivar-se para a direita. Agarrou-o por uma manga e obrigou-o a dar meia volta. Um segundo depois, tinha o blusão de cabedal na mão. Charlie ficou atordoado.

 

Rainie sorriu-lhe. Andava com uma disposição péssima ultimamente. Não queria qualquer tipo de conversa com punks. Estava farta de miúdos que andavam com armas e navalhas, sem a mínima ideia do que era a morte.

 

Vamos jogar um jogo, Charlie. Vou fazer-te algumas perguntas e tu vais responder. O Quincy, o perito, vai aquilatar da veracidade das respostas. Se ele não gostar do que tu dizes, ou me irritares outra vez, vou começar a cortar o blusão. Responde de forma malcriada e o blusão fica sem uma manga. Percebido?

 

E um blusão normal. Posso comprar outro.

 

Tudo bem. Rainie abriu o canivete e encostou-o à gola do blusão.

 

Espere, espere, espere, espere, espere! suplicou, arquejante. O olhar ficou pregado na gola e o lábio superior banhado em suor. O blusão era velho e exibia o símbolo de um bando de motoqueiros nas costas. O miúdo podia negar tudo o que quisesse, mas Quincy e Rainie haviam-no apanhado por um dos seus pontos fracos. Fazia parte da indumentária de Charlie Kenyon e ele sentia-se demasiado exposto sem ele. Seria a mesma coisa que tirar a capa ao Super-Homem.

 

Primeira pergunta, Charlie. Por que razão andavas com o Danny O’Grady?

 

Porque ele é um tipo fixe.

 

O Danny é apanhado por computadores. Como é que isso é assim tão fixe?

 

Não, não, não. Charlie abanava a cabeça. Não está a perceber. Devia ver só o olhar dele. Era um tipo avançado para a idade, meu. E... e... estava passado com o pai. Sei como essas coisas são.

 

O Danny é como se fosse uma tua alma gémea? perguntou Rainie, seca.

 

Uma coisa assim.

 

E a Melissa Avalon? interrompeu Quincy. O que era ela? A resposta saiu num tom mais afável.

 

Ela era fogo! Jesus, senhor agente, olhou bem para ela? Uau, minha mãe!

 

Alguma vez te aproximaste dela?

 

Claro, tentei. Encolheu os ombros, as mãos enfiadas nos bolsos. Estava visivelmente mais contraído sem o blusão. Ficou intimidada pela minha boa aparência. Além disso, ouvi dizer, mais tarde, que eu violara as suas regras relativas à idade. A Avalon tinha um fetiche por velhos.

 

Tinha uma alma gémea?

 

Como assim? Oh, se andava com alguém? Não sei. Não me pareceu. Devia perguntar ao Danny. Ele é que passava muito tempo com ela.

 

Falou-te alguma vez dos sentimentos dele por Miss Avalon?

 

Não precisava. O puto era apanhado por ela. Via-se na cara.

 

A Avalon sabia?

 

Provavelmente. Não acredito que esse tipo de paixoneta fosse novidade para ela.

 

Como é que ela o tratava?

 

Não sei. Eu andava pelos pátios da escola, não pela Sala de Informática.

 

O Danny sabia do ”fetiche dela por velhos”?

 

Claro, fui eu que lhe contei. Estão a pensar que ele a matou por ciúmes? Não, não engulo essa. Abanou a cabeça, dando a sensação de estar a ser sincero pela primeira vez. O Danny é mais esperto do que vocês pensam. Sabia que gostava dela, mas, cos diabos, era professora. Percebia o que isso significava. Era mais uma espécie de adoração à distância que tinha por ela, mais nada. Não se imaginava a viver com ela numa casa de cerca de madeira branca, nem sonhava que ela fosse a mãe dos seus filhos. O puto só tem treze anos, por amor de Deus!

 

E as outras duas raparigas? perguntou Rainie. A Sally e a Alice?

 

Não as conheço.

 

Vais aos funerais, Charlie? Encolheu os ombros.

 

O velho está a querer obrigar-me a ir.

 

Não achas que o facto de estarem mortas é uma situação triste?

 

Não as conheço. Estou-me nas tintas.

 

És mesmo um sacana da pior espécie, não és, Charlie Kenyon?

 

Você é que está a ameaçar o meu blusão.

 

Alguma vez falaste com o Danny acerca de se matarem pessoas?

 

Falávamos sobre muitas coisas.

 

Charlie. Rainie exibiu o canivete, depois o blusão.

 

Charlie cerrou os dentes com toda a força. Rainie chegou a pensar que ele ia atirar-se a ela. Então, aproximou a lâmina da gola e ele rendeu-se de novo.

 

Sim. Claro. Quer mesmo saber? Às vezes, penso em riscar esta cidade da merda do mapa. Penso em pegar na filha-da-puta de uma bomba nuclear e dizer sayonam, querida. Sabe que as plantas voltam a crescer e ficam maiores e mais fortes depois de um holocausto nuclear? Talvez seja disso que esta cidade precisa.

 

Disseste isso a um miúdo de treze anos?

 

Só depois de ele me ter dito que tinha vontade de cortar o pai em vinte bocados diferentes e depois metê-los numa trituradora.

 

Rainie ficou a olhar para ele, atónita. Ainda conseguiu mexer um músculo no maxilar. Então, com mais raiva do que aquela que queria libertar, proferiu:

 

Um miúdo conta-te que tem a fantasia de matar o próprio pai e tu nem sequer pensas em ir à polícia?

 

A quem é que me ia dirigir? Ao Shep, o pai? Ou, melhor, a si? Riu-se, sarcástico. Não é um quadro engraçado? Metade da cidade ainda fala do que você fez à sua mãe. O que é que teria feito com o Danny? Mandava-lhe uma caçadeira pelo correio?

 

Nunca fiz mal à minha mãe ripostou, irritada. E se tivesse feito tal coisa, estaria na prisão, que era onde mereceria estar, e não aqui a falar contigo.

 

O rosto de Charlie tomou novamente um ar dissimulado.

 

Eu sei, eu sei disse, com uma piscadela de olho cúmplice. O agente federal está aqui. Não quer tirar a máscara. Tudo bem. Mas não precisa de me mentir, querida. E o que lhe digo, consigo ver estas coisas. E você também é membro do clube dos putos fixes. Cos diabos, por estas bandas, você é provavelmente o membro fundador.

 

Uma última pergunta interrompeu Quincy rapidamente, porque o comentário da caçadeira pusera Rainie à beira de um ataque de nervos. O Danny falou-te alguma vez de um amigo da Net? Um tal No Lava.

 

Um apanhadinho dos computadores? Sim, talvez. O Danny andava sempre às voltas com qualquer coisa. Não percebo como é que uma pessoa conseguia passar tanto tempo a olhar para um ecrã.

 

Viste algum dos e-mails

 

Por que raio é que eu os quereria ver?

 

O Danny gostava do No Lava. Talvez tivesses ficado com ciúmes.

 

Olhe, nunca ouvi falar desse tal No Lava e, para lhe ser franco, o nome cheira-me a um tipo impotente. O Danny gostava de correio electrónico, não é? Há seis, oito meses, não me lembro bem, andava todo excitado com alguém que conhecera on-line. Andava sempre a querer ir ver se tinha correio. É tudo o que sei.

 

E tu encorajaste-o disse Rainie, com voz branda. O Danny andava perturbado e tu empurraste-o mais para a beirinha. Agora, três pessoas estão mortas e alguma da culpa pertence-te. Vais ter de viver com isso até ao fim da vida.

 

Estou-me cagando para isso. Legalmente, sou livre como um passarinho. Agora, devolva-me o blusão. Por muito engraçado que isto possa ter sido, tenho que ir a uns sítios ter com umas pessoas.

 

Claro disse Rainie. Esboçou um sorriso. Ergueu o canivete e cortou a gola do blusão.

 

Charlie soltou um guincho. Quincy deu um passo em frente, chocado.

 

Rainie ficou com o pedaço de cabedal cortado na mão. Pouco depois, espremeu a gola, fazendo com que de dentro dela saísse um comprido saco de plástico de pó branco para a palma da mão.

 

Heroína. Uns oitenta e cinco gramas, que é um pouco mais do que simples posse. Parabéns, Charlie. Em termos legais, os teus problemas estão só a começar.

 

Sua puta de merda! Como é que te atreves! Não és melhor que eul Não és melhor que nenhum de nós! Claro que sou, Charlie. Neste mundo, há duas opções para pessoas coléricas e só uma delas usa um distintivo. Charlie soltou novo grito. Rainie sentiu um prazer imenso em metê-lo no carro. Quinta-feira, 17 de Maio, 21.05

 

Rainie levou quatro horas a elaborar o processo contra Charlie Kenyon. Teve que catalogar a heroína como prova. Depois, guardou-a no cofre do departamento. Acabara de tirar as impressões de Charlie quando o advogado do pai chegou e tentou dizer-lhe que ela armara uma cilada para descobrir a droga. Rainie apresentou o agente do FBI como testemunha. FitzSimons argumentava que ela não tinha o direito de revistar Charlie Kenyon, não havia justificação para tirar o blusão, e que violara todas as leis constitucionais.

 

Rainie manteve a calma. Estava espantada com a sensação de conforto que a apreensão de droga lhe trouxera, depois do relativo caos dos últimos três dias. Conhecia Charlie, conhecia FitzSimons, conhecia o pai de Charlie. Os suspeitos do costume, os crimes do costume. Conseguiria ter feito aquela detenção de olhos fechados.

 

Passou duas horas a redigir cuidadosamente o relatório de detenção e a elaborar o processo contra Charlie. Depois de ter despachado a papelada, regressou ao centro de operações, onde a noite caíra há muito e reinava um silêncio arrepiante. Já passava das dez horas. Mais outro dia longo, num caso longo e estranho.

 

Luke Hayes fora a Portland, onde tinha a esperança de entrevistar os pais de Melissa Avalon. Sanders saíra a fazer não se sabia bem o quê. Talvez tivesse ido comprar latas de sopa a uma mercearia ou assistir a uma reunião da Tupperware para ganhar mais uns pontos. Quincy tentava descobrir o rasto do No Lava. Ou talvez tivesse começado por Shep. O que quer que ele descobrisse, ela seria, provavelmente, a última a saber. Sentia alguma frustração por isso, mas, ao mesmo tempo, também uma certa satisfação.

 

Agora era apenas ela e o ruído abafado do velho computador, e o zunido de todos os pensamentos que continuavam a amontoar-se na cabeça.

 

Charlie irritara-a. Não apenas com as acusações contra si. Rainie sabia o que as pessoas pensavam e diziam. Aceitava que rumores mesquinhos seriam sempre mais apelativos do que a verdade nua e crua. Não ligava a mínima importância a isso.

 

Ficara assustada com os comentários dele sobre Danny.

 

Só depois de ele me ter dito que tinha vontade de cortar o pai em vinte bocados diferentes e depois metê-los numa trituradora.

 

Não podia deixar passar em claro estas palavras. Tanta violência. Tanta raiva. Sabia que estas coisas aconteciam. Só Deus sabia, algumas noites... Encolhida, dentro do roupeiro, ferida, a tremer, o sabor de sangue nos lábios. O desejo de que tudo acabasse. O desejo de que tivesse força suficiente para fazer com que tudo terminasse.

 

As fantasias. Que a mãe iria, finalmente, agachar-se à sua frente. Que, por uma vez, respondesse à agressão desferindo um estalo com toda a força na mãe, e então esta choramingaria, arrependida: ”Não sabia que doía tanto. Juro que nunca imaginei. Agora sei e nunca mais voltarei a fazer o mesmo.”

 

Talvez fosse essa a diferença. Apesar de toda a sua dor, Rainie nunca se esqueceu de que Molly era a sua mãe. E o fundo das suas fantasias continuava a ser o amor e o arrependimento. O desejo de que a mãe tomasse consciência do que estava a fazer; que pusesse a garrafa de lado; que lhe pegasse ao colo e lhe jurasse que nunca mais a magoaria; que, por uma única vez na vida, ela, Rainie, conseguisse encontrar conforto e segurança nos braços da mãe.

 

Mesmo nos piores momentos, nunca desejara a morte da mãe.

 

E tivera mais do que motivos para isso.

 

Vagueava pelo minúsculo sótão. Sentia o corpo e o espírito doridos, e já não suportava estar sozinha com os seus pensamentos. Precisava de dormir, de uma refeição decente, de uma corrida puxada. Era demasiado tarde para ir correr, não tinha apetite e estava com medo de fechar os olhos.

 

O que é que teria feito com o Danny? Mandava-lhe uma caçadeira pelo correio?

 

Não, ter-lhe-ia dito que compreendia. Tê-lo-ia levado até ao alpendre traseiro, onde os pinheiros da montanha se erguiam acima deles e o pio das corujas se fazia ouvir na escuridão da noite, e tomariam então consciência de que, afinal de contas, somos tão pequenos no esquema geral das coisas. Tê-lo-ia deixado desabafar, dizer tudo o que lhe ia na alma, de criança revoltada para criança revoltada. Depois, talvez ela também falasse. Talvez lhe contasse coisas que nunca contara a mais ninguém. Sentados na cadeira de lona, com as árvores à volta e o ar puro e fresco da montanha a bater-lhes no rosto.

 

Talvez tivesse salvo Danny O’Grady.

 

Mas não fizera tal coisa. Vira-o apenas duas semanas antes do tiroteio. Achara-o pálido, nervoso e revoltado contra o pai. Mas não ligara importância, porque, tal como todas as outras pessoas, pensava que se tratava de uma fase passageira. Os problemas só aconteciam nas famílias más. Não a um miúdo normal e simpático como o Danny.

 

Ela, uma alma gémea, falhara com ele. E ainda não sabia como é que ia conseguir viver com esse peso na consciência.

 

Quincy estava curvado sobre o computador portátil, no acanhado quarto de hotel, quando se ouviram umas pancadas secas na porta. Há duas horas que pesquisava vários servidores on-line em busca do registo de um membro chamado No Lava. Tinha os olhos raiados de sangue. Os ombros começavam a pesar-lhe. Sempre que procurava uma posição mais cómoda, a frágil secretária ameaçava ceder ao peso e levar o computador portátil consigo. Trinta minutos antes, começara a meter fotografias de cenas de crime debaixo das pernas desniveladas, para um melhor apoio. Não queria saber o que estas diziam sobre a sua vida.

 

As pancadas secas ouviram-se de novo.

 

Empurrou a cadeira para trás, coçou a parte de trás do pescoço e olhou-se ao espelho. A camisa branca, impecavelmente engomada de manhã, encontrava-se agora toda amarrotada. A gravata estava algures no chão. O rosto exibia um ar cansado e os cabelos apresentavam-se desgrenhados de tanto passar os dedos por eles. Quando estava na casa dos trinta, este ar, sombrio e taciturno, dava-lhe uma aparência sexy. Agora, a meio da casa dos quarenta, achava que estava apenas com ar cansado.

 

Algumas décadas eram indubitavelmente melhores que outras, pensou. Que diabo!

 

Espreitou pelo orifício da porta e não ficou surpreendido ao ver Rainie.

 

Abriu a porta e, por instantes, permaneceram de olhos pregados um no outro.

 

Rainie vira-se livre do uniforme policial. Agora envergava umas calças de ganga justas, um pouco coçadas e uma camisola verde-militar folgada, com uma gola alta que lhe emoldurava o rosto. Os cabelos acastanhados, soltos e escovados havia pouco, reflectiam os tons dourados e avermelhados das luzes exteriores do hotel. Não parecia trazer a mínima maquilhagem e Quincy gostava assim. A pele pálida, fresca, sem mácula. Nenhuma barreira entre a mão dele e o toque da face dela, nem entre os lábios dele e o canto da boca dela.

 

Quincy passara a última parte da tarde a saber coisas de Lorraine Conner que nunca imaginara. Começava a perceber que o passado dela encerrava muito mais do que aquilo que, à primeira vista, poderia parecer. Talvez nada, mas talvez alguma coisa. Duvidava que ela viesse a contar-Ihe toda a verdade e questionava-se acerca dos perigos de saber tudo no último minuto, quando pudesse ser demasiado tarde para ambos.

 

Tinha de ter cuidado. Era um homem inteligente e lógico, que conhecia melhor que muitos o potencial sombrio da natureza humana. O aviso não lhe fez nenhum bem. Ela estava ali, no seu quarto de hotel, e suspeitava que exibia um sorriso frívolo.

 

Olá disse ela, ao fim de alguns instantes.

 

Boa noite, Rainie.

 

A trabalhar?

 

Já estou a acabar.

 

A sério? Rainie enfiou as mãos nos bolsos traseiros e estudou o pavimento. Estava nitidamente constrangida, facto que o enterneceu.

 

Ia encomendar comida chinesa disse Quincy, em tom delicado. Queres fazer-me companhia?

 

Não tenho muita fome.

 

Nem eu, mas podemos fingir que temos.

 

Rainie entrou então no quarto de Quincy. Este foi logo tirar a papelada de cima da cama, pois o quarto era pequeno e não havia mais nenhum lugar para ela se sentar. Rainie fixou o olhar no computador portátil, enquanto Quincy enfiava as pastas de arquivo na mala de cabedal preto de computador.

 

À procura do No Lava?.

 

Sim. A maioria dos provedores de serviços da Internet possuem directórios de membros onde podemos introduzir o nosso nome e dados pessoais on-line. Muitas pessoas preenchem esses formulários, por isso pensei que teria alguma sorte. Mas não tive sorte nenhuma. O próximo passo é arranjar uma intimação e contactar os provedores directamente.

 

Já investigaste o passado do Shep?

 

Quincy fez uma pausa, ainda com quatro pastas de arquivo na mão, e piscou o olho. Ela não ia perder tempo. Pôs as pastas na mala e correu o fecho.

 

Gostas de Io meirf.

 

Pede o que quiseres.

 

Então é o Io mein. Pegou nas ementas que Ginnie deixara ao lado do telefone e escolheu a do restaurante Grande Muralha da China. Encomendou Io mein e chá verde. Rainie continuava a estudá-lo. Não acho que devêssemos ter esta conversa disse, após uma ligeira pausa.

 

Isso significa que descobriste alguma coisa.

 

Não. Significa que tenho padrões profissionais e este é um caso evidente de conflito de interesses. O Shep é teu amigo. Tu e ele têm uma relação que remonta há muito. Quincy fitou-a com ar firme.

 

Nunca dormi com o Shep.

 

Sabes que muita gente pensa que tu és a razão de o casamento dele com a Sandy estar a desmoronar-se.

 

Não andamos um com o outro. Nunca andámos e nunca andaremos.

 

Ele passa muito tempo em tua casa.

 

Eu sei.

 

Rainie...

 

As pessoas falam. Ainda não percebeste? É uma cidade pequena, chove oitenta por cento do ano e a relação das vacas com as pessoas é de duas para uma. A maior parte do tempo não há mais nada para fazer a não ser falar. As coisas são mesmo assim.

 

Porque não me referiste a caçadeira, Rainie? A caçadeira que matou a tua mãe tinha as tuas impressões digitais, até desaparecer do cofre de provas da polícia. Então, um dia, como que por artes mágicas, voltou a aparecer, mas completamente limpa. Por que motivo não me disseste que havia desaparecido?

 

Rainie tomou um ar sério, franziu o queixo, os olhos cinzentos ficaram da cor da ardósia. Quincy conhecia aquela expressão: era a posição de ataque.

 

Achas que matei a minha mãe?

 

Não.

 

Achas que a matei a sangue-frio? Um dia, cheguei a casa vinda da escola e estourei com a cabeça da minha mãe? Não passo de uma versão feminina do Charlie Kenyon? Não sou melhor que o Danny O’Grady?

 

Não, Rainie, não acho respondeu Quincy, afável.

 

Então, que importa isso, Quincy? Passou-se há catorze anos e não fui eu que dei o tiro, por isso vamos pôr de lado essa questão. Da parte dos meus vizinhos ainda admito todos aqueles olhares e rumores, mas não esperava isso de ti!

 

Ouve bem o que te digo! ripostou, em tom ríspido. Não penses que sou um delegado de cidade pequena a quem consegues dar a volta com meia dúzia de palavras. Sei que aconteceu algo, Rainie. Alguma coisa aconteceu, o Shep ajudou-te e é isso que vos liga, não é? Ainda não sei o quê. Talvez não precise de saber, mas há algo entre ti e o Shep. E está para lá dos laços profissionais, e isso foi patente no facto de teres estado sozinha na escola com o Shep e o amedrontado Danny. O Sanders tinha razão. Devias ter prescindido da tutela sobre o caso. E suspeito que também sabes isso.

 

Rainie ficou em silêncio, os lábios apertados um contra o outro. Fora apanhada desprevenida. Quincy perguntara-se, no princípio, como era possível uma mulher tão inteligente como Rainie exercer uma profissão tão limitada, e agora tivera a resposta. Porque assim conseguia dominar a situação. Trabalhava com pessoas simpáticas, mas nenhuma delas era do tipo de fazer perguntas indiscretas. Quincy desconfiava que ela saía com homens com mais músculos que miolos, mas os relacionamentos eram sempre de curta duração. Ninguém podia fazer-lhe demasiadas perguntas. Ninguém se podia aproximar demasiado. Fizera da sua protecção um modo de vida.

 

Não podia abdicar da tutela.

 

Porque prometeste ao Shep que serias a agente responsável pelo caso?

 

Sim. Após uma ligeira hesitação: Devo-lhe muito.

 

O que é que lhe deves, Rainie?

 

O Shep tinha fé em mim. Tem sido um bom amigo e eu tenho um sentimento de lealdade para com ele. Mas também me oriento por padrões profissionais, Quincy, e não os comprometo. Todos nós passamos pela vida fazendo as nossas escolhas e somos responsáveis por aquilo que fazemos. Se o Danny matou as miúdas, então tem que pagar por isso.

 

Tens a certeza disso?

 

Claro que tenho a certeza! Ao encobri-lo não lhe estamos a fazer nenhum favor. Por que motivo é que as pessoas não percebem isso? Temos uma necessidade básica de ressarcimento de modo a conseguirmos expiar a culpa. Deixar os miúdos sem castigo ou protegê-los das consequências das suas acções não os ajuda. O erro de um momento, um momento de mau julgamento pode infectar uma vida inteira de ódio, repugnância por si mesmo e desejo de autodestruição. Até se tornar um ponto escuro que não conseguimos esquecer, de que não nos conseguimos libertar e que vai aumentando cada vez mais...

 

Fez uma pausa. A respiração era pesada. O olhar ficara pregado na colcha de flores azuis e tinha os punhos cerrados, junto ao corpo.

 

Os pesadelos são piores, não são? perguntou Quincy calmamente.

 

São.

 

Não vais comer nada.

 

Não consigo.

 

És suficientemente inteligente para não fazeres isso a ti própria.

 

Não consigo evitar.

 

Porque vieste aqui esta noite?

 

Fitou-o com um olhar frustrado, perturbado.

 

Acho que preciso de falar.

 

Então, fala. Mas diz algo de novo, Rainie, porque já não tenho paciência para mentiras.

 

A comida chinesa chegou. Quincy abriu o recipiente do Io mein, embora desconfiasse que ela não iria comer. E não comeu mesmo. Pôs o recipiente branco de lado, mas aceitou uma chávena de chá. Quincy meteu uma garfada de comida na boca. Também não tinha fome, mas aprendera, há muito tempo, que desleixar-se com a alimentação durante a investigação de um caso, especialmente um bicudo como aquele, não era bom para ninguém.

 

Os funerais da Sally e da Alice realizam-se amanhã à tarde informou Rainie. O presidente da Câmara chamou-me e disse-me. Os corpos foram dispensados pela médica-legista esta noite e as famílias não querem esperar mais tempo. Toda a gente pensa que quanto mais depressa se tratar disto melhor.

 

Vai ser uma tarde difícil.

 

Pois vai. Pedimos apoio a Cabot County. Patrulhas suplementares tanto durante o funeral como depois. Carros-patrulha estacionados às portas dos bares, sabes como é.

 

As emoções já estão ao rubro, então se houver um copíto a mais... Quincy baixou o tom de voz. Ambos sabiam o que poderia acontecer. Jovens, armas e a justiça da milícia popular.

 

Iremos duplicar a vigilância à volta da casa do Shep. O Luke pediu para tomar conta disso.

 

E tu?

 

Não posso. Haveria mais falatório.

 

O George Walker não está muito contente contigo.

 

Pois não. Muita gente não está. Eu tinha a esperança... eu queria ser capaz de dizer que o Danny não fez nada. Até à hora dos funerais, queria ter tantas provas que conseguisse encarar o George Walker e dizer-Ihe: ”Não foi um miúdo de treze anos que matou a sua filha, foi outro cabrão qualquer.” Como se isso fizesse alguma diferença.

 

Já não estás tão segura em relação ao Danny, pois não? O rosto de Rainie tomou uma expressão algo tensa.

 

Não respondeu, com voz sumida.

 

O Charlie Kenyon?

 

Fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabeça.

 

Aquilo que o Danny lhe disse. Que queria cortar o pai aos bocadinhos e metê-lo numa trituradora... Tanta raiva! Nunca imaginei... Não sabia que as coisas tinham chegado a tal ponto.

 

A culpa não é tua, Rainie. É difícil para qualquer um de nós acreditar que as pessoas que conhecemos pessoalmente, e de quem gostamos, sejam capazes de qualquer tipo de violência. As pessoas parecem esquecer-se: os assassinos não saem de tubos de ensaio. Vêm a este mundo da mesma maneira que todos nós e também têm família e amigos.

 

Isso não passa de uma banalidade. Não quero mais banalidades. Estou farta de respostas fáceis ou de análises de trinta segundos de crimes complicados. Há miúdos que andam aos tiros nas escolas, adultos que entram nos escritórios e chacinam os colegas. E compreendo o teu ponto de vista de que as escolas e as empresas continuam a ser mais seguras do que conduzir na auto-estrada, mas essa explicação não é suficiente. Estas cenas de tiros estão a acontecer por todo o lado, até em lugares como este aqui, onde não era suposto acontecerem. E estão a suceder a toda a gente, até ao Danny O’Grady, que, há apenas três dias, parecia um miúdo perfeitamente normal a atravessar um período difícil. E... e sinto que falhei nalguma coisa. Devia ter previsto a ocorrência de uma cena destas. Mas depois, vendo melhor as coisas, sei que nunca me passaria pela cabeça tal cena de violência. Porque não a entendo, Quincy. Até eu, que fui criada por uma mulher que resolvia tudo ao murro, não consigo imaginar-me a disparar sobre estranhos. E preciso de saber por que razão isto aconteceu à minha cidade, porque, por mais esforço que faça, custa-me a adormecer.

 

A culpa não é tua.

 

Rainie abanou a cabeça, impaciente.

 

Explica-me as cenas de tiros. Preciso de saber. É por causa das armas? Como agente, devia proibi-las na minha comunidade? Ou é tudo por causa dos jogos de vídeo, dos filmes violentos e dos livros?

 

Essas coisas são factores. Por outro lado, não creio que a censura de filmes e a proibição de armas acabasse com todo o crime. Algumas pessoas, mesmo crianças, são violentas por natureza.

 

Então, é inevitável? Tornámo-nos uma cultura violenta e não há nada que possamos fazer para dar a. volta a isso?

 

Não creio. Há sempre algo que podemos fazer. Somos uma sociedade inteligente, Rainie. Nada está para além do nosso alcance.

 

Diz isso ao George Walker. Diz isso aos pais da Alice Benson. Estou certo de que, neste momento, estão em casa a pensar naquilo que a sociedade é capaz.

 

Quincy ficou em silêncio. Rainie estava sem disposição para nada.

 

Queres uma solução, Rainie, ou queres uma desculpa para estar irritada?

 

Quero uma solução!

 

Óptimo. Então vou dar-te o meu contributo, se isso te servir de alguma coisa. A sociedade não está cheia de almas diabólicas, mas de pessoas instáveis, em ruptura com essa mesma sociedade, com excesso de trabalho, com peso a mais, que vivem em centros superpovoados e que estão esgotadas de cansaço. É uma forte combinação, especialmente para pessoas com poucas capacidades para lidar com situações complicadas e com temperamentos caprichosos. E estamos a ver a prova disso no crescente número de actos impulsivos e coléricos, como assassínios em massa e rixas de rua.

 

Rainie soltou um suspiro. Esfregou as têmporas.

 

É um sinal dos tempos?

 

É um sinal da vida desgastante que levamos afirmou Quincy; depois, encolheu os ombros. Em contrapartida, algumas das soluções são bastante simples. Porque não se ensinam técnicas de controlo de cólera e de stresse na escola? Nas aulas podíamos dar ênfase a boas práticas de comunicação e de autodomínio. Os cuidados físicos também são muito importantes. Na verdade, a primeira coisa que um psicólogo pediátrico faz quando começa o tratamento de um novo doente é informar-se dos seus hábitos de sono, de exercício físico e alimentares. Achas que tens problemas com a cólera? Experimenta dormir oito horas, come mais fruta e legumes, faz exercício físico. Por ironia, muito poucas pessoas se preocupam com estes passos básicos e depois não sabem por que razão estão sempre tensas.

 

Após lançar um olhar penetrante a Rainie, centrou a sua atenção no recipiente de cartão de comida ainda intacto, ao lado dela. Rainie disse então, algo hesitante:

 

Tive aulas de controlo de cólera.

 

Em Portland.

 

Sim. Depois de me ter inscrito nos Alcoólicos Anónimos. Quando ainda procurava libertar-me do álcool. O álcool entorpece muitas emoções. Depois, pomo-lo de parte...

 

Acho que foi uma óptima coisa que fizeste. Quem me dera que houvesse mais pessoas a pensar assim.

 

Rainie abanou imediatamente a cabeça.

 

Não sou uma pessoa assim tão extraordinária, Quincy. Não tenhas uma admiração exagerada por mim.

 

Quincy não disse nada, à espera que ela entrasse em detalhes. Ainda havia uma aura de mistério no olhar de Rainie, que agarrava na chávena de chá, como se de uma garrafa de cerveja se tratasse. Aparentemente, ainda não parecia estar com disposição para entrar em confidências.

 

Como está a tua filha?

 

Na mesma. Telefonei esta manhã. Fitou-o, curiosa.

 

Não te faz sentir pior? É tua filha, está a morrer e não estás lá ao pé dela. Um telefonema não me parece que seja muito face ao estado em que ela se encontra.

 

Rainie, quando disse que a minha filha foi morta por um condutor embriagado, estava a ser um pouco enganador.

 

Compreendo.

 

A minha filha não foi atingida por um condutor embriagado. Ela é que era a condutora embriagada. Enfrascou-se em casa de um amigo, depois tentou ir para casa às cinco e meia da manhã. Matou um velhote que passeava o cão, antes de se espetar contra um poste telefónico. Á minha filha está morta. O homem está morto. O cão está morto. E sim, um telefonema para um quarto de hospital é completamente desajustado.

 

Quincy, lamento imenso.

 

Também eu. Também não sou perfeito, Rainie. Algumas coisas, como aquilo que realmente importa na vida, aprendemos da forma mais dura.

 

Rainie concordou com um ligeiro aceno de cabeça. No entanto, o semblante ainda exibia um ar perturbado. Tinha mais coisas para dizer; sentia as palavras a agitarem-se um pouco abaixo da superfície. Quincy inclinou-se para a frente, como se a incitasse a dizer a verdade. Não lhe mentira na noite anterior. Rainie fascinava-o. Conseguira seduzi-lo e agora ele só tinha vontade de lhe afagar o rosto, passar com as pontas dos dedos pelos lábios...

 

Era uma lutadora e ele tinha muito respeito por isso.

 

O rosto de Rainie ficou com um ar um pouco menos severo. Vislumbrava-se um desejo ardente a crescer nos olhos cinzentos e meigos. Uma necessidade de partilhar. Uma necessidade de contacto. Quincy tinha uma vontade enorme de estender os braços e tocar-lhe. Mas tinha medo de que ela se fosse embora ao primeiro sinal de movimento.

 

Rainie...

 

Acho melhor ir-me embora.

 

Sou todo ouvidos.

 

Não tenho nada para dizer! Só preciso de um pouco de tempo.

 

De outros catorze anos? Ou talvez de apenas cinco, até que surja o próximo homicídio? Isso está a consumir-te por dentro. Desabafa! O que é que aconteceu com a tua mãe? O que fizeste com a caçadeira?

 

Rainie levantou-se de imediato. Os olhos flamejavam, o queixo franzido.

 

Não tragas novamente a minha mãe à baila.

 

Não tens outra saída.

 

Não são contas do teu rosário...

 

Demasiado tarde. Não penses que sou um desses campónios com que costumas namoriscar. Sou um homem a sério e não vou sair daqui para lado nenhum.

 

És um filho-da-puta arrogante.

 

Exacto. Agora, fala-ma da tua mãe, Rainie. A frase mais estafada pelos psicólogos. Para ti não passo de um caso muito interessante para estudo psicológico, não é, Quincy? Uma coisa’ acerca da qual podes escrever para a Sociedade Americana de Psiquiatras, lá mais para o fim do ano.

 

Cala-te, Rainie!

 

Oh, boa réplica.

 

Quincy franziu o sobrolho, irritado. Depois, chocou ambos, ao dar um passo em frente a ao agarrar os braços dela.

 

Força bruta? murmurou Rainie, e os lábios afastaram-se. Quincy viu o olhar dela enevoar-se.

 

E isso que queres, não é? sussurrou Quincy, no mesmo tom. Um padrão que reconheces, uma maneira de me trazeres até ao nível que achas que mereces. Se consegues manter isso no plano físico, então nunca precisarás de sentir. Não é verdade?

 

Rainie fitou-o com ar furioso. Quincy puxou-a mais para si, até os seus lábios ficarem muito próximos dos dela.

 

Larga-me murmurou.

 

Tu só vais sair daqui para passares a noite a andar pela casa. Tens pavor de adormecer, de ter pesadelos. Queres que eles acabem, mas continuas a não fazer aquilo que deves para te veres livre deles.

 

Larga-me os braços ou nunca mais voltarás a cantar no coro da igreja.

 

Fala comigo, Rainie. Quero ouvir. Pode ser que compreenda. Rainie estremeceu nos braços de Quincy. Este vislumbrou novamente

 

o conflito no olhar dela. Uma parte queria falar. Uma outra, mais forte e violenta, controlava-a, apesar de todos os esforços que fazia para se libertar. Mas também detectava medo, dúvida, confusão. Anos de sentimentos que se iam acumulando sempre que a mãe abria nova garrafa e lhe dava um estalo.

 

O rosto de Rainie fechou-se. Por momentos, Quincy ainda pensou estar prestes a ouvir a revelação, mas depressa perdeu a esperança. O maxilar da agente voltou à posição normal, o olhar perdeu a expressividade, Quincy sabia que a batalha estava perdida. Libertou-a. Rainie deu um passo atrás, ao mesmo tempo que sacudia os braços.

 

Não está mal disse, com voz arrastada. Não te tomava por um tipo duro, senhor agente especial supervisor.

 

Quincy nem se incomodou a responder-lhe. Rainie refugiara-se atrás da sua concha estaladiça. Daí em diante, a única coisa que conseguiria dela seria uma atitude defensiva. A mãe ensinara-a bem.

 

Vou-me embora disse, desafiadora.

 

Boa noite, Rainie.

 

A agente hesitou, depois franziu o sobrolho.

 

Não me podes deter.

 

Sonhos doces.

 

Filho-da-puta ripostou, sem qualquer tipo de emoção na voz, e encaminhou-se para a porta.

 

Abriu-a com mais força do que a necessária. Quincy não interferiu. Rainie fechou-a com estrondo. O agente federal não fez qualquer movimento.

 

Muito tempo depois de o som deixar de ecoar no quarto, Quincy continuava junto à cama a pensar em Rainie Conner e em todas as coisas que podiam ter acontecido catorze anos antes. Pensou em caçadeiras, em Danny O’Grady e na própria filha, por quem tinha um amor imenso.

 

O mundo precisava de mais amizade, pensou, não pela primeira vez. O mundo precisava de mais fé.

 

O isolamento não é protecção nenhuma murmurou. Por vezes, perguntava-se se o seu momento de revelação não chegara demasiado tarde.

 

Ao chegar a casa, Rainie encontrou-a envolta pela escuridão da noite. Nunca se lembrava de acender as luzes do pátio antes de sair para o trabalho, e agora a pequena habitação mal se via, aninhada no meio do arvoredo. Parou o carro no caminho de terra e procurou desajeitadamente as chaves.

 

Quando acabou por entrar, ninguém a cumprimentou. Era essa a forma de vida que queria, mas naquela noite o vazio deixou-a ainda mais deprimida.

 

Deu uma volta pela casa térrea de duas assoalhadas e acendeu as luzes. Mesmo assim o espaço tinha um aspecto opressivo. Não conseguia tirar as palavras de Quincy da cabeça, nem o cheiro do perfume dele da pele.

 

Porque não me referiste a caçadeira, Rainie? Por que motivo não me disseste que havia, desaparecido?

 

Entrou na cozinha e abriu o frigorífico. Era a orgulhosa proprietária de doze garrafas de Bud, um pouco menos de meio quilo de queijo Tillamook e de um litro de leite fora do prazo. Fechou-o.

 

Saiu e dirigiu-se para o alpendre traseiro.

 

O bosque encontrava-se mergulhado na escuridão. A Lua estava no quarto minguante e era difícil ver onde as copas dos pinheiros acabavam e começava o céu aveludado. Começou a ficar com pele de galinha e teve de pôr os braços à volta do tronco para conseguir suportar melhor o frio.

 

Deu duas voltas à roda da cadeira.

 

Porque não me referiste a caçadeira, Rainie? Por que motivo não me disseste que havia desaparecido?

 

Não podia. Fora uma idiota em ir ter com Quincy. Ele irradiava uma força imensa. Todas aquelas rugas no rosto. Transmitia-lhe a sensação de que não havia nada que ela lhe dissesse que ele não soubesse como resolver. E andava tão cansada nos últimos dias.

 

Mas havia coisas que não lhe podia contar. Fora ingénua ao pensar que bastava falar no assunto por alto. Esquecera-se de que Quincy não era o género de homem que se contentasse com pouco. Raios o partissem por a agarrar daquela maneira, fazendo com que ficasse sem respiração e o estômago desse várias voltas.

 

Mais um pouco e o seu corpo teria sido apertado contra o dele. Poderia então ter passado as mãos pelas rugas do seu rosto e sentido os músculos de aço dos seus braços e pernas. Poderia ter sido apenas uma mulher e ele apenas um homem, e talvez as coisas acabassem por ser mais fáceis.

 

Poderia ter-se escapulido do quarto no momento em que ele adormecesse.

 

Voltou para dentro de casa. Virou de face para baixo todas as fotografias que encontrou. No entanto, não bastava. Naquela noite nada seria suficiente.

 

Por fim, enroscou-se no sofá, toda vestida e desesperadamente a precisar de dormir. Recordou de novo Quincy e o seu olhar contundente. Pensou em Charlie Kenyon e em Danny O’Grady, e em todas as coisas que não lhe dariam paz.

 

Acabou por adormecer.

 

Uma hora depois, acordou aos gritos. Encontrava-se no chão e o corpo da mãe jazia à sua frente, e alguém, de pé, no alpendre, observava. O homem de preto! O homem de preto!

 

Rainie correu então que nem uma flecha para o quarto. Precisava de uma arma. A Brigada de Investigação retirara-lhe a Clock. Rebuscou o roupeiro até encontrar a sua velha arma de nove milímetros dentro de uma caixa de sapatos, depois saiu disparada de casa. Mas no alpendre não havia ninguém, e o ar estava frio, fora tudo fruto da sua imaginação. Nenhum homem. Apenas os efeitos prolongados de um pesadelo.

 

Voltou para dentro, a tremer. Guardou a arma. Enroscou-se em cima do sofá da sala. Olhou para o tecto branco com a esperança de que o sangue não aparecesse.

 

Es demasiado inteligente para estares a fazer isto a ti própria, Rainie.

 

Mas, aparentemente, não era, pois a noite continuou assim sem parar.

 

Acabou por adormecer por volta das cinco. Às seis e meia, o telefone acordou-a com um toque estridente. Do outro lado da linha, Sandy O’Grady estava frenética.

 

Tenho de falar com o agente do FBI disse Sandy, de imediato.

- Oh, meu Deus, Rainie, já não sei o que hei-de fazer. Levantou-se para encarar outro dia.

 

Vinte minutos depois, quando chegou junto do carro-patrulha, encontrou um bilhete preso no limpa-pára-brisas. Dizia: ”Morre, puta!” Amachucou-o e deitou-o fora.

Sexta-feira, 18 de Maio, 7.18

 

Ed Flanders era empregado de bar há trinta e cinco anos. No entanto, nunca tivera a intenção de fazer carreira disso. No início, fora apenas um emprego passageiro, uma ocupação de Verão que lhe permitia contactar com raparigas, ao mesmo tempo que fazia rios de dinheiro em gorjetas. Descia a costa do Oregon, a caminho de Los Angeles, onde esperava encontrar o êxito. Em Seaside, onde se deterá para assistir a uma peça de teatro amador, vira o anúncio a pedir um empregado de bar e resolvera arriscar.

 

Passara-se muito tempo desde então.

 

No início, dissera para si próprio que ficava pela sua arte. Seaside tinha um aceitável programa de teatro amador e um número suficiente de turistas para valer a pena. Todos os Verões fazia audições para papéis principais e esforçava-se por melhorar o currículo. Então, quando deixou de ter papéis para lá do ”Terceiro Camponês”, disse para consigo que ficava pelo dinheiro. Um empregado de bar conseguia fazer umas massas durante a época alta do Verão. Depois, resolveu ficar por causa das regalias, pois acabara de fazer trinta anos e tomou consciência da verdadeira satisfação que era ter um plano de cuidados de saúde. A verdade era que conhecera Jenny nessa altura e ficara pelo beicinho.

 

A outra coisa que Ed Flanders sabia, ao fim de várias décadas, era que agora era avô e a bela e pequena Jenny continuava a ser o amor da sua vida.

 

Ed Flanders não tinha quaisquer queixas.

 

Até dois dias antes. Aquele homem, o que entrara no bar e pedira frango frito. Aquele homem, o que irritara Darren, por pouco não chegando os dois a vias de facto.

 

Aquele homem, o que falara das pobres rapariguitas e de tudo o que correra mal em Bakersville.

 

Ed Flanders já conhecera muita gente ao longo da vida, mas aquele homem irritara-o.

 

Não pelas perguntas, concluiu, após uma breve pausa. Toda a gente na cidade falava da cena de tiros que acontecera uma hora e meia antes.

 

Algumas pessoas gabavam-se de conhecer Shep pessoalmente. Muita gente tinha familiares envolvidos na tragédia.

 

Oh, as pessoas falavam da cena de tiros, tudo bem. Nos bares, nas igrejas, nas ruas.

 

Mas não havia muitos habitantes locais, já para não falar de estranhos, a andar por todo o lado a referir o nome de uma agente ainda nova. Lori... Liz... Lorraine. Lorraine Conner. Nem sequer era ela que aparecia na televisão. Esse papel estava reservado ao presidente da Câmara e a um tipo da polícia estatal chamado Sanders.

 

Como é que aquele tipo sabia tão bem o nome de Lorraine Conner?

 

E pior, por que razão Ed Flanders achava que já vira o indivíduo antes? Havia qualquer coisa nos olhos, ou talvez fosse o nariz. Tire-se-lhe uns anitos, amacie-se um pouco os cabelos...

 

Bolas, não se lembrava onde vira aquela cara.

 

Aquele homem estranho, incómodo, que entrara no seu bar e fora extremamente inconveniente.

 

Não gostara dele. Não confiava nele. Só que ainda não sabia o que fazer.

 

De volta ao quarto de hotel, o homem deixou-se cair em cima da cama. Cos diabos, estava mesmo cansado. O ritmo dos últimos dias, as coisas que ainda tinha que aprontar... As pessoas que pensavam que matar era uma tarefa fácil nunca o haviam tentado.

 

Rebuscou os bolsos e tirou uma carteira de comprimidos. Abriu-a e despejou quatro comprimidos de ervas dietéticos na palma da mão, um após outro, depois encheu um copo de água. A cafeína provocava-lhe algumas vertigens, mas precisava de algo que o arrebitasse.

 

Muita coisa feita, muita ainda por fazer.

 

Na noite anterior, quase deitava tudo a perder. Lorraine Conner estava tão abatida quando chegara a casa que nunca lhe passara pela cabeça que ela acordasse. Num minuto, achava que tinha caminho livre do roupeiro do quarto até ao alpendre traseiro, no seguinte, ela saía a correr do sofá como uma qualquer fada da morte.

 

Merda, quase não tivera tempo para saltar do alpendre. Estivera para desatar a correr que nem um doido para o bosque, quando algo nos movimentos dela o sossegou. Rainie agia de maneira um tanto artificial e estranha, olhando para coisas que nem sequer estavam à sua frente. Um segundo depois, percebeu o que se passava. Continuava a dormir, a caçar um qualquer fantasma dos seus pesadelos.

 

Talvez ele tivesse desencadeado algo nela. Talvez a noite a tivesse transformado numa louca furiosa. Ele não sabia. Refugiara-se no sítio do costume e ficara a observá-la de longe. Pouco depois, ela voltara para dentro de casa e ele ficara com o caminho livre.

 

Depois disso, sentira-se um pouco tonto. Lembrou-se até de soltar um daqueles gritos que se ouvem nos filmes. Tinha de ter cuidado. Não podia descontrolar-se.

 

Por agora, não.

 

Naquele dia eram os funerais. Depois...

 

Era um homem muito esperto. Um dia, muito em breve, Lorraine Conner iria apreciar isso.

 

Lorraine Conner, Pierce Quincy, Shep O’Grady e a pequena Becky.

 

Agora é que te vais divertir à grande, disse ele, em silêncio, ao seu velhote.

 

Sexta-feira, 18 de Maio, 7.53

 

O Danny telefonou-me esta manhã. Sei que era ele. Sandy O’Grady estava sentada na cadeira portátil de dobrar, no quartel-general das operações, a torcer as mãos no colo e esforçando-se por parecer calma. Consegui ouvir um som metálico, estridente, em fundo, e pessoas a falar. Mas quem ligou ficou em silêncio. Eu disse então: ”Danny, sei que és tu. Por favor, fala comigo, Danny. Adoro-te.”

 

O que disse o Danny? indagou Quincy, sentado numa cadeira ao lado dela, impecavelmente vestido, o que fez com que ela pensasse de imediato em Mitch, o chefe. Tentou pôr esse pensamento de lado.

 

Ele não disse palavra. Só suspirava. Fundo. Como... como uma pessoa desesperada. Depois, desligou.

 

Tens a certeza de que era o Danny? Rainie falou pela primeira vez. Estava encostada ao peitoril da janela, do outro lado da sala. Os braços cruzados sobre o peito. O rosto pálido. Sandy nunca a vira tão abatida.

 

Não que ela estivesse melhor. Enfiara uma camisola qualquer depois de receber o telefonema de Danny, vindo a verificar que estava manchada em quatro sítios distintos com tinta branca. Os cabelos, normalmente de um louro vivo, estavam baços e eriçados. Não tomara duche e nem sequer se maquilhara. Já não tinha a energia necessária para se preocupar com essas coisas.

 

Era o Danny disse a Rainie, convicta. Há dois dias, o Shep mudou o nosso número de telefone. Só os nossos familiares e o advogado é que sabem como contactar-nos. Desde então, nunca mais tivermos daqueles telefonemas.

 

Está a ser muito pressionada pelos vizinhos? indagou Quincy, afável.

 

Um pouco. Sandy mantinha o queixo levantado. Os outros, os verdadeiros amigos, estão do nosso lado. Um casal do nosso quarteirão, que mal conheço, apareceu lá em casa com um prato de bolinhos de chocolate e fizeram-nos um pouco de companhia. Há... maus momentos, mas também há bons. O Danny é inocente até prova em contrário, como é do seu conhecimento.

 

Sem saber o que fazer, voltou-se mais uma vez para Rainie.

 

E uma questão estritamente policial. Não posso falar sobre isso.

 

Rainie, é meu filho. Está perturbado, é um suicida potencial. Ainda ontem tentou espetar um garfo no pulso, por amor de Deus! Não sei quanto mais tempo é que ele vai aguentar estar no centro prisional e não sei o que fazer. O Shep diz que há provas do envolvimento de outra pessoa: uns invólucros misteriosos. Não consegues fazer nada? Retirar as acusações? Trazer o Danny para casa? Por favor... A voz, suplicante, sumiu-se. Sandy não conhecia bem Rainie. Considerava-a amiga, mas mais porque tinham Shep em comum do que por terem passado algum tempo a conversar. No entanto, Rainie costumava ir jantar a sua casa de tantos em tantos meses. Brincava com o Danny e a Becky. Parecia sentir um prazer enorme nisso. Com certeza que agora não iria esquecer esses momentos. E não devia sentir-se completamente imune à situação de Danny.

 

Todavia, a mulher em questão, mantinha-se impassível. A farda que Rainie envergava erguia-se como uma muralha entre elas e, pela primeira vez, Sandy percebeu. Rainie não olhava para ela como a esposa do xerife. Ela estava no centro de comando das operações como mãe de um assassino em massa.

 

Talvez o Shep possa ajudar a. descobrir o autor dos disparos acrescentou, desesperada.

 

Não queremos o Shep ripostou Rainie. Queremos a Becky.

 

Que queres dizer?

 

Continua a dormir no roupeiro?

 

Ninguém tem nada a ver com isso...

 

Ela viu qualquer coisa. Todos nós sabemos isso. Tu e o Shep continuam a dizer que querem a verdade. Deixem-nos procurá-la.

 

O Avery Johnson nunca permitiria.

 

Não tem esse direito.

 

Tem, sim! É o nosso advogado. Meu Deus, vamos ter de hipotecar a casa para lhe pagar os honorários. Depois de tudo isso, como é que podemos não lhe dar ouvidos? Está a zelar pelos nossos interesses.

 

E os interesses da Becky? pressionou Rainie, implacável. Só se sente em segurança em espaços fechados. Anda com pesadelos e o Luke diz que está extremamente pálida. Durante quanto tempo mais é que vão manter esta situação?

 

O médico disse que passa com o tempo...

 

Mais cedo ou mais tarde, havemos de conseguir.

 

Não podem contar com a Becky! Porra, Rainie, ela é tudo o que me resta!

 

Rainie apertou os lábios. Olhou para Sandy com ar desaprovador. Esta devolveu-lhe o olhar. Rainie não percebia o que ela pedia. Não era mãe.

 

Vamos conseguir provar que o Danny não matou Miss Avalon disse Rainie, bruscamente. É possível dizer, pelo projéctil que foi recolhido e pela trajectória do tiro, que este foi dado por outra pessoa que não o Danny.

 

Oh, graças a Deus. Sandy recostou-se na cadeira. Pela primeira vez em três dias, sentiu o peito mais aliviado. Portanto, o tal homem de preto encontrava-se no local do crime. E ele o assassino e o Danny só ficou confuso e traumatizado com aquilo que viu. Podes então retirar as acusações?

 

Mistress O’Grady disse Quincy calmamente, julgo que há algumas coisas relativas ao Danny que precisa de saber. Desconfio que também está a começar a ficar curiosa, caso contrário não teria telefonado esta manhã.

 

Ainda não sabemos se ele matou a Sally e a Alice interveio Rainie.

 

Mas o homem, o homem de preto...

 

A secção de balística informou que os projécteis que mataram as duas rapariguitas saíram do revólver de calibre trinta e oito que o Danny trouxe para a escola. E temos impressões digitais dele nos invólucros de calibre trinta e oito recolhidos no local.

 

Isso significa que ele carregou as armas ripostou Sandy. O Shep explicou-me isso. As impressões digitais não provam nada.

 

As impressões digitais encontram-se em cinquenta invólucros. Isso quer dizer que ele também recarregou as armas durante a cena de tiros.

 

O Shep disse-me que foram usados carregadores rápidos. Como tal, o Danny preparou as armas e os carregadores rápidos. A outra pessoa fez os disparos.

 

Rainie afastou-se, finalmente, da janela. Abanou a cabeça, impaciente.

 

Presta bem atenção ao que estás a dizer! O Danny trouxe um revólver e uma arma semiautomática para a escola. Carregou-os e preparou munições suplementares. Achas que isso é de um espectador inocente?

 

Ele só tem treze anos...

 

Não é preciso ser velho para premir um gatilho.

 

Está confuso...

 

Confessou múltiplas vezes!

 

Está assustado! Está irritado, não compreende...

 

Ele disse ao Charlie Kenyon que queria cortar o pai aos bocadinhos e depois metê-los numa trituradora! Meu Deus, Sandy, estamos para lá de um simples acto exibicionista. Não o apanhaste a fumar um cigarro ou a desrespeitar a hora de recolher. Está envolvido num triplo homicídio. Na pior das hipóteses, ele é que arranjou as armas do crime. Na melhor das hipóteses, é possível que tenha assassinado duas miúdas de oito anos. Por amor de Deus, acorda!

 

O meu filho não é nenhum assassino!

 

Mas talvez seja! Agora, o que raio vais fazer?

 

Rainie fez uma pausa. Arquejava. O mesmo acontecia com Sandy. Fitou a colega mais antiga do marido e pensou que nunca detestara tanto uma pessoa. Como é que se atrevia a falar de Danny daquela maneira? Depois de todos os jantares em sua casa. Todas as vezes que Danny pedira para se sentar ao lado dela e ela sempre meiga com ele. Uma pessoa fria, insensível...

 

Apercebeu-se então de que os olhos de Rainie brilhavam intensamente. Rainie Conner apertara os lábios para não chorar.

 

O ar saiu dos pulmões de Sandy com algum ruído. No olhar de frustração de Rainie viu todas as verdades que procurara afincadamente negar e, de repente, sentiu-se sem defesas.

 

O filho era um solitário. E estava sujeito a acessos de cólera. E fazia um grande esforço para agradar a Shep e para se adaptar à escola. Meu Deus, como era bom atirador! Aprendia tudo o que o pai lhe ensinava.

 

Sentiu tudo a andar à roda. Agarrou-se com força à cadeira.

 

Mistress O’Grady?

 

Dê-me só um instante.

 

Sandy fixou o olhar no soalho, concentrando aí a atenção. Os minutos passavam. Não sabia quantos já haviam decorrido. O tempo ficara mais lento. Sentia um frio opressivo a penetrar no corpo e a fazê-la tremer.

 

Não sei o que fazer sussurrou. Não... não sei já em que acreditar.

 

Quincy falou em primeiro lugar.

 

Presumo que o seu advogado arranjou um psicólogo forense para examinar o Danny.

 

Sim. E o tribunal indicou um segundo. Ainda não começaram. Ele disse que só entregavam os relatórios daqui a alguns meses. Talvez só daqui a seis meses saibamos alguma coisa.

 

É seu filho, Mistress O’Grady. O que acha que o Danny fez e o que é que ele precisa agora?

 

Não lhe posso dizer. Soltou uma pequena gargalhada abafada. É verdade. Tenho ordens do meu advogado e do meu marido para não falar consigo, um perito nestas coisas, porque também é agente policial e pode testemunhar em tribunal. E o meu filho também não está autorizado a falar com ninguém. O depoimento podia ser usado contra ele, é melhor não dizer absolutamente nada. Oh, meu Deus. Que devo fazer?

 

Quincy não disse nada. Rainie também não.

 

Os olhos de Sandy ficaram marejados de lágrimas.

 

Não sei como é que isto pode ser legal. Tiraram-me o meu filho. Detiveram-no por homicídio, mas com as audiências preliminares para decidir se ele vai ser julgado como um adulto e os recursos, é possível que só seja julgado daqui a anos. Entretanto, o Danny tem que ficar num sítio onde não possa falar com ninguém e está rodeado de outros delinquentes juvenis. Mesmo que seja declarado inocente um ou dois anos depois, como é que pode ser compensado desse tempo perdido? Estou preocupada... Talvez estejam a destruir a vida de um inocente. E estou aterrorizada com o facto de terem preso um culpado. Oh, meu Deus, Rainie, e se foi mesmo ele que disparou? Que vamos nós fazer?

 

Quincy acocorara-se diante dela. Tinha uns olhos irresistíveis. Fundos e enrugados nos cantos, como se estivesse a matutar nalguma coisa. Sandy nunca esperara gostar do homem. Shep considerava-o um inimigo, que tinha de se evitar a todo o custo. Mas Sandy descobriu que se sentia confortada com a sua presença. O agente especial supervisor Quincy parecia seguro de si e da situação, enquanto ela tinha a sensação de que o mundo era feito de areia movediça, onde se ia afundando cada vez mais.

 

Quincy pegou-lhe na mão e colocou-a entre as palmas das suas, quentes e ásperas.

 

Não é uma situação desesperada.

 

Como? O nosso advogado já disse que se o Danny for considerado culpado num tribunal comum, metem-no na cadeia e atiram fora a chave. Ninguém se importa que ele só tenha treze anos.

 

Mas o facto de ter treze anos já o coloca automaticamente sob a alçada do tribunal de júri, de acordo com as leis do Oregon. Ele vai ter uma audiência destinada a analisar o seu caso específico, graças a Deus, porque o caso do Danny tem alguns elementos que têm de ser levados em linha de conta.

 

Sandy olhou-o fixamente. Quincy assinalou os pontos com os dedos.

 

Um, temos provas de que mais alguém está envolvido. Se conseguirmos identificar essa pessoa, talvez consigamos provar que o Danny foi manipulado, talvez até ameaçado.

 

Sandy concordou com um sinal de cabeça.

 

Dois, temos de olhar para o próprio Danny. O facto de se encontrar sob vigilância para prevenção de suicídio pode ser um sinal positivo. Pode indicar que ele sente remorsos pelos seus actos, que é um miúdo perturbado, mas não um psicopata em germinação.

 

Ou pode significar que está traumatizado contrapôs Sandy, após uma ligeira pausa, a voz a ganhar novo alento. Há outra pessoa envolvida. Todos concordam com isso. Por isso, ao trazer as armas, talvez estivesse apenas a fazer aquilo que lhe disseram para fazer. Talvez não percebesse o que efectivamente ia acontecer, e depois, quando tudo acabou, viu-se impotente perante a situação.

 

Mas confessou disse Rainie, num tom seco.

 

Esse é o lado bom da questão, Mistress O’Grady comentou Quincy, sem alterar o tom de voz. Agora, tem de encarar os outros factos.

 

Sandy hesitou. Mordeu o lábio inferior. Sabia onde ele queria chegar e esperava que o agente federal não entrasse por esse caminho. Bem lá no fundo, ela já fora onde Quincy queria chegar. Danny era um miúdo perturbado e ela era culpada, enquanto mãe, por não ter feito nada mais cedo. Era o que toda a gente dizia, quando aquelas cenas de tiros aconteciam. Onde estavam os pais?

 

Lamento imenso. Estava a trabalhar.

 

O Danny está sujeito a alterações de humor, não está? indagou Quincy. Passa longos períodos de tempo sem reagir, depois tem um acesso de cólera.

 

Refere-se ao incidente com os cacifos da escola?

 

É muito solitário.

 

Não há muitos rapazes na idade dele no nosso quarteirão.

 

Não tem muitos amigos na escola.

 

E louco por computadores.

 

Mistress O’Grady, o Danny tem problemas em lidar com situações difíceis. A sua cólera está supercontrolada, do que, julgo, já se deve ter apercebido. Também não tem uma boa rede de suporte e, dados os problemas com o seu casamento, está debaixo de um enorme stresse. Chegamos então aos problemas entre ele e o pai. O Danny é louco pelo pai, mas também se sente intimidado por ele. isto prefigura um quadro de raiva deslocada, em que o Danny acumula dentro de si toda essa emoção e depois descarrega-a sobre outra pessoa, alguém que não lhe meta medo.

 

Como sejam duas meninas murmurou Sandy.

 

Ou um gato ou um cão.

 

O Danny nunca fez mal a animais. A Becky nunca admitiria tal coisa e, além disso, ele protege muito a irmã.

 

É bom que os sintomas do Danny não cheguem a esse extremo. Mas exibe alguns dos sinais de aviso que vemos em miúdos com predisposição para este tipo de cenas de tiros. Para bem dele, temos de saber lidar com isso.

 

Sandy hesitou.

 

Como?

 

Comecemos pela raiva supercontrolada. Ele precisa de aprender a libertar a raiva de forma regular e construtiva, em vez de a deixar acumular até níveis perigosos. A maioria dos peritos recomenda exercício físico diário como ponto de partida.

 

Ele não é um atleta.

 

E um passeio familiar, Mistress O’Grady? Também há alguns adolescentes que gostam de artes marciais.

 

Eu... eu vou ver o que posso fazer.

 

O agente efectuou um gesto encorajador com a cabeça.

 

Além disso, para uma criança como o Danny, livros, jogos de vídeo e filmes violentos não são adequados. Só alimentam o ódio.

 

O Danny nunca foi ver filmes violentos. Mas, para lhe ser franca, não sei o que é que ele faz na Net.

 

Quando se tem um filho que anda perturbado, precisamos de saber o que ele anda a ler ou por onde anda a navegar na Internet, Mistress O’Grady. É precisamente aí que está o fulcro da questão.

 

Sandy baixou a cabeça.

 

A questão do Danny com o pai é mais complicada disse Quincy, calmamente. Ele e o pai precisam de aconselhamento familiar ou individual, ou de ambos. Também se pode encontrar relações familiares suplementares para o Danny com um dos avós, ou com um tio. Desse modo, se as coisas estiverem tensas em casa, a criança ainda tem outras fontes de conforto ou apoio.

 

Nunca pensei nisso. A nossa família não é muito grande. Os pais do Shep morreram há anos. Os meus... graças a Deus, adoram os meus filhos, mas não são as pessoas mais carinhosas do mundo. Não está no seu modo de ser. Fez uma pausa. Acha... acha que os problemas do Danny são motivados pelo facto de eu ter voltado a trabalhar?

 

Quincy esboçou um sorriso afável.

 

Não, Mistress O’Grady. Ser mãe trabalhadora não significa que seja uma má mãe. Os pais que estão permanentemente em casa também têm problemas com os filhos.

 

Sandy assentiu com a cabeça. Nunca admitiria tal coisa em voz alta, mas sentia-se aliviada. Hesitou, depois perguntou:

 

Que consequências poderá sofrer o meu filho pelo facto de ter assistido a, pelo menos, três crimes violentos, para além de ser um miúdo já com problemas?

 

Precisa de desabafar. Guardar a experiência dentro de si só piorará as coisas. O olhar de Quincy deslizou para Rainie.

 

E se... se ele fez mesmo algo de muito mau? Quincy ficou em silêncio por instantes.

 

Vai precisar de muito apoio respondeu por fim. É possível que tenha um enorme sentimento de culpa e aversão por si próprio. Alguém tem de o ajudar a ultrapassar isso. Caso contrário, há o perigo de ele fechar essa parte de si próprio. Começará activamente a considerar-se um assassino sem remorsos. E acabará por se transformar num.

 

Ouviu-se uma pancada na porta. Luke Hayes enfiou a cabeça para dentro da sala. O olhar foi directo a Sandy.

 

Está na hora disse.

 

- Já?

 

Sandy olhou para o relógio. Levou algum tempo a ver a hora, pois a

 

mão ainda tremia violentamente. Nove horas. O funeral conjunto de Alice e Sally estava previsto para começar à uma. Era provável que aparecesse toda a cidade, e as pessoas queriam arranjar bons lugares.

 

Não tinha alternativa senão ir para casa. Por ordem do presidente da Câmara, ela e a família iriam passar o dia em prisão domiciliária virtual. Ele não queria que a sua família perturbasse a cidade; isso magoava-a mais do que as ameaças dos telefonemas, mensagens e guisados todos juntos.

 

Levantou-se devagar e pegou na carteira. Tivera a esperança de encontrar respostas fáceis nessa manhã. Mas só encontrara mais perguntas. E mais dúvidas para a atormentar nos dias que se seguiriam.

 

Adorava Danny desesperadamente. Era correcto perguntar-se se o filho era um assassino e continuar a amá-lo? Era correcto chorar por Alice Bensen e por Sally Walker, mas continuar a querer o melhor para o filho?

 

De repente, sentiu-se de tal modo exausta que não soube como iria descer as escadas.

 

Virou-se para Rainie uma última vez.

 

Já sabes quem é essa outra pessoa? Tens algumas indicações sobre quem nos fez isto?

 

Rainie pareceu hesitar.

 

O Danny alguma vez te falou em alguém chamado No Lavai Sandy fitou-a, curiosa.

 

Claro. NoLava@aol.com. Era o endereço electrónico da professora. E Avalon escrito ao contrário. Sexta-feira, 18 de Maio, 10.05

 

Rainie e Quincy entraram no carro-patrulha de Luke às dez e pouco. Uma vez que Luke e Chuckie estavam sentados no banco dianteiro, instalaram-se atrás. Chuckie ficou imediatamente com ar constrangido por ter a superiora hierárquica e um agente federal atrás de si. Continuou a olhar, com ar nervoso, por sobre o ombro, como se receasse que, a qualquer momento, Quincy lhe desse um beliscão no rabo. Depois de o jovem se ter virado para trás pela segunda vez, Quincy encostou o rosto à rede da divisória do carro-patrulha. Quando Chuckie se voltou novamente para trás, encontrou o nariz de Quincy mesmo encostadinho a si. O jovem gritou literalmente.

 

Luke soltou um suspiro. Rainie abanou a cabeça. Quincy recostou-se para trás, satisfeito.

 

Está a enervar o meu colega comentou Luke. Estava sentado, com ar desleixado, atrás do volante, examinando minuciosamente o pitoresco bairro de Sandy e Shep, com um enganador ar indolente. O chapéu pousado no assento, a seu lado; a pala limitava-lhe a visão. A cabeça mal se via acima do painel; a posição mais baixa alargava-lhe o campo de visão. Vasculhava com o olhar a rua residencial em busca de carros mal estacionados, mas, de quando em quando, também examinava com todo o cuidado os telhados das casas circundantes. Era um excelente franco-adrador.

 

Alguma actividade? indagou Rainie.

 

Tudo quieto que nem um rato de igreja.

 

Que tal te estás a sair? perguntou Rainie a Chuckie. Tinha o bastão no colo e acariciava a pega como se fosse o seu animal de estimação predilecto.

 

Bem murmurou Chuckie.

 

Baixou o olhar para o colo, recusando-se a olhá-la nos olhos. O rosto estava algo pálido e os cabelos em desalinho. Rainie não dera qualquer atenção ao jovem recruta nos últimos três dias. Agora, olhava-o atentamente.

 

Cunningham! chamou, em tom de ordem.

 

O olhar relutante de Chuckie encontrou o dela. Rainie fitou-o durante algum tempo. Chuckie tinha os cabelos desalinhados, olheiras e um tique nervoso na mão. A realidade nua e crua era diferente das bazófias dos livros. Fora um erro da sua parte não lhe ter dado a devida atenção.

 

Saíste-te bem na terça-feira.

 

Parti a maldita porta murmurou. Deixei impressões digitais por todo o lado. Os técnicos estatais gritaram consigo. E o Sanders disse que sou um desastre.

 

O Sanders é um monte de merda. Agiste com o coração, Chuckie. O resto irás aprender com o tempo.

 

O olhar de Chuckie centrou-se então nos joelhos. Ainda estava com um ar perturbado. Quando se alistara, tinha, provavelmente, a ideia de salvar vidas e proteger a comunidade. Não esperara a debilitante frustração de chegar demasiado tarde nem a dura realidade de que agora a sua tarefa limitava-se a processar os estragos. Rainie entendia. Sabia que um dos motivos por que George Walker a detestava devia-se ao facto de não ter feito uma visita de cortesia à sua família. Devia tê-la feito logo no primeiro dia, só que não estava com disposição para se sentar num sofá, a fazer conversa, enquanto um pai de olhar encovado se sentava ao seu lado e uma mãe chorava. Não conseguia.

 

Rainie voltou-se para Luke. Ainda estudava a casa de Shep. Era uma casa térrea, bem arranjada, com três quartos e uma garagem em anexo para dois carros. Uma porta da garagem era de um branco mais vivo do que o da outra, obviamente a que fora vandalizada na quarta-feira anterior. Rainie perguntou-se se Shep e Sandy conseguiam olhar para a tinta branca brilhante sem se lembrarem do que estava escrito por baixo.

 

Precisamos de falar disse a Luke.

 

O agente acenou com a cabeça. Estava com ar cansado do dia anterior, a cara não tão bem escanhoada como era costume, a farda amarrotada. Mas os olhos eram perspicazes e as mãos firmes. Luke era uma pessoa com quem se podia contar sempre.

 

Como é que as coisas correram em Portland? perguntou Rainie. Luke franziu o sobrolho.

 

Pensei que íamos fazer o relatório depois do funeral.

 

Há dados novos. Podes vigiar e falar ao mesmo tempo.

 

Aparentemente. Deu uma palmada na perna de Chuckie. Vai buscar-nos uns cafezinhos, Cunnigham.

 

Outra vez?

 

Três. Desta vez, do melhor lote. Temos de impressionar o agente federal. Fitou Quincy pelo espelho retrovisor.

 

O meu é simples informou Quincy.

 

Chuckie resmungou qualquer coisa por entre dentes, mas sabia quando estava a mais. Saiu do carro-patrulha e começou a andar em direcção ao supermercado que ficava ao virar da esquina.

 

O Chuckie precisa de atenção especial disse Luke, logo que o novato desapareceu da vista.

 

Já reparei.

 

E um puto porreiro, Rainie. Só que viu de mais.

 

Que sugeres?

 

Luke encolheu os ombros.

 

Um puto daquela idade? Devíamos levá-lo a dar uns tiritos de vez em quando e depois a beber uns copos. Aquilo acabará por lhe passar.

 

Stresse, armas e álcool retorquiu Quincy, seco. Admira-me como é que a Associação dos Veteranos ainda não pensou nisso.

 

Luke esboçou um largo sorriso.

 

Então acha que ele devia tratar-se com um psiquiatra, hum? O Chuckie só desembolsará cem dólares à hora no dia em que os porcos voarem. Desculpe lá, mas, às vezes, nós aqui é que sabemos.

 

Tudo bem, tudo bem. Rainie levantou uma mão. Quero saber do teu encontro com os Avalon, em Portland, ontem. Conta-nos tudo.

 

O semblante de Luke alterou-se de imediato. Respirou fundo, o olhar centrou-se novamente na casa de Shep; parecia perturbado.

 

Meu Deus, Rainie, porque não começas pelas perguntas fáceis?

 

Que tal achas Mister Avalon como suspeito?

 

Passei três horas na companhia do homem e raios me partam se sei. Primeiro que tudo, Mistress Avalon não é mãe da Melissa. Julgo que a mãe morreu aquando do parto da filha. Como tal, encontrei-me com o Daniel Avalon e a madrasta, Angelina.

 

Daniel Avalon? perguntou Rainie, bruscamente.

 

Sim respondeu Luke, de sobrolho carregado. Esquisito, Rainie. Muito esquisito. A fortuna de Mister Avalon proveio de herança. Investiu fortemente na indústria imobiliária, na zona centro do Oregon, e encheu-se de dinheiro no último boom económico. Ele e Mistress Avalon vivem numa velha casa vitoriana, em Lake Oswego. Bela casa. Estava tão atafulhada de bugigangas que tive medo de partir alguma coisa se espirrasse. Serviram-me chá. Em louça de porcelana autêntica. Mistress Avalon estava toda esterlicada num vestido com gola de renda abotoado até acima e exibia uma pregadeira que deve ter sido comprada num leilão de objectos da Jane Austen. Mister Avalon prefere o tweed e não permite que a mulher fale, a menos que lhe dirijam a palavra. Preciso de dizer mais?

 

Que eu saiba, o pretensiosismo não é crime.

 

Posso? interveio Quincy.

 

Certamente asseverou-lhe Rainie. Estava sentada o mais longe possível dele. Ambos fingiam não reparar.

 

Mister Avalon esperou muitos anos para voltar a casar? Digamos, doze a quinze anos?

 

Treze respondeu Luke. Olhou para Quincy, curioso.

 

Falava da filha com entusiasmo, mas sempre como criança? ”Quando a Melissa tinha oito anos era a melhor bailarina... Oh, a pequena Melissa teve sempre o sorriso mais doce. Cativava toda a gente na escola.” Algum elogio da sua vida mais recente?

 

De facto, ele tinha fotografias dela por todo o lado, mas tudo coisas de quando era pequena. A primeira aula de bailado, o recital de piano com dez anos, esse género de coisas.

 

Nenhuma fotografia da mãe?

 

Que eu tenha visto, não.

 

O quarto dela ainda era o quarto de uma miúda? Montes de laçarotes cor-de-rosa e ursinhos de pelúcia?

 

E palhaços. Luke sentiu um arrepio.

 

Julgo que Mister Avalon tinha relações impróprias com a filha.

 

Incesto? Rainie olhou para Quincy, incrédula. Credo, agente especial supervisor, como é que consegues dormir com essa mente?

 

Não tenho a certeza disse Quincy, modesto, mas tem todos os sinais clássicos. Pai dominador, sozinho com a filha jovem, durante os primeiros treze anos da vida dela. Parece-me haver ternura a mais. Estou certo de que se prosseguir os interrogatórios, encontrará muitos vizinhos e professores que lhe irão dizer que Mister Avalon e a filha eram muito ”chegados”, que ele se ”envolvia” muito na vida dela. Mas depois ela atinge a puberdade e a dança acaba. Se continuar, arrisca-se a engravidar; além disso, ela começa a ficar com corpo de mulher e muitos destes homens não estão interessados nisso. Como tal, Mister Avalon prefere arriscar e arranja uma esposa, uma mulher pobre e passiva, para servir de fachada e ajudá-lo a dar uma imagem adequada para o mundo exterior. Agora está apegado à fantasia daquilo que outrora teve. E protege-a ciosamente.

 

Mister Avalon tem acesso a um computador? indagou Rainie.

 

No escritório.

 

Rainie voltou-se para Quincy.

 

Se Mister Avalon andou envolvido com a filha, teria problemas com a relação dela com o VanderZanden?

 

Irá ter sempre problemas com qualquer um dos relacionamentos dela. Na sua mente, ela pertence-lhe.

 

Foi isso então. Ele descobriu, irritou-se...

 

E tem um álibi interrompeu Luke.

 

Rainie e Quincy olharam-no fixamente. Luke disse então, quase como que pedindo desculpa:

 

Tentei, Rainie. Ontem à noite fiquei na cidade até às onze a tentar comprovar a história do tipo. Acho que fui a tudo o que era sangue azul na cidade e a história mantém-se. Na terça-feira, Mister Avalon esteve numa reunião de negócios o dia todo. A secretária jura a pés juntos, e dois tipos ricalhaços também comprovam. Estiveram a trabalhar num negócio de um empreendimento qualquer desde o meio-dia até quase às sete horas da noite.

 

Rainie mordiscava o lábio.

 

Tiveste tempo para investigar o passado das testemunhas?

 

Entre a meia-noite e as seis da manhã?

 

Podia ter a ver com dinheiro teorizou Rainie. Parece que Mister Avalon tem muito. Se negoceiam regularmente com ele... talvez estejam dispostos a atestar o seu tempo em troca de alguns favores.

 

É possível. Todavia, não sei como é que conseguimos provar isso. Há outra coisa ainda. Perguntei a Mister Avalon se já tinha ido alguma vez a Bakersville. Não comentou absolutamente nada. Mas investiguei o passado antes de o entrevistar e, de acordo com as suas declarações de impostos, possui uma cabana em Cabot County, a apenas treze minutos de distância. Quando o pressionei acerca disso, disse que era apenas uma cabana de caça. Nunca a utilizava, mas mantinha-a para os sócios. A mulher dizia que sim com a cabeça, embora isso não queira dizer nada. Não sei. Havia algo ali que não batia certo, Rainie, nada certo, mas não consigo compreender o quê.

 

O olhar de Luke voltou a centrar-se na rua, onde um adolescente numa bicicleta se aproximava. De calças de ganga ao fundo da barriga e uma camisola de desporto solta, o miúdo tinha um ar vulgar. Mas trazia uma mochila de lona verde e olhava fixamente para a casa dos O’Grady.

 

A minha questão é esta murmurou Luke, batendo com um dedo no volante, ao mesmo tempo que seguia o miúdo com o olhar. Porquê agora? A Melissa Avalon tinha vinte e oito anos. Se o Quincy estiver certo sobre o pai andar a consumir-se de ciúme, isso também não aconteceria há vários anos?

 

Não necessariamente respondeu Quincy. Também reparara no ciclista. Chuckie apareceu então, com uma caixa de cartão com quatro chávenas de café. Não era a primeira vez que a Melissa estava longe de casa?

 

Era respondeu Luke.

 

Aí está.

 

Não sei se não estamos a complicar demasiado as coisas murmurou Rainie, mudando de posição no assento para ter um melhor ângulo de visão. Mister Avalon tem um motivo, tem dinheiro. Acontece que a filha acaba de morrer devido a um único ferimento de bala na cabeça...