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O Idiota / Dostoiévski
O Idiota / Dostoiévski

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Idiota

 

Em dada manhã de novembro, aí pelas nove horas, o rápido de Varsóvia se aproximava de Petersburgo em alta velocidade. Estava degelando, e tão úmido e embaçado que era difícil distinguir qualquer coisa a dez passos da linha à direita ou à esquerda das janelas dos vagões. Dentre os passageiros alguns regressavam do estrangeiro, mas a maioria dos que lotavam os compartimentos da terceira classe era gente de condição humilde, vinda não de muito longe, a negócio. Todos naturalmente estavam cansados e friorentos, com os olhos pesados de toda uma noite de viagem, e suas faces pálidas e amarelentas competiam com a cor do nevoeiro.

Em uma das carruagens de terceira classe, dois passageiros desde antes de amanhecer estavam sentados  diante um do outro, ao lado da janela. Ambos moços, não muito bem vestidos, viajando com pequena bagagem.

Tinham uma aparência de chamar atenção e demonstravam querer encetar conversação. Se houvessem podido saber o que mutuamente possuíam de extraordinário, muito se teriam admirado de o acaso estranhamente os colocar assim frente a frente, em um vagão de terceira classe do rápido de Varsóvia. Um deles era um homem baixo, em uns vinte e sete anos, de cabelos crespos quase pretos e olhos cinzentos, pequenos e ardentes. Um nariz grande e chato avultava entre os malares proeminentes. Os lábios finos conservavam em sua curva um contínuo sorriso atrevido, de uma ironia maliciosa; mas a fronte bem conformada e alta, redimia As linhas grosseiras da parte inferior do rosto. O que mais impressionava, apesar do seu vigor, era a palidez mortal que lhe dava ao mesmo tempo um aspecto de cansaço e um feitio a bem dizer dolorosamente ardente, que não se coadunava com o insolente sorriso  rude nem com a expressão dura e presunçosa dos olhos. Agasalhava-o um grosso sobretudo preto forrado de pele de carneiro e que não lhe deixara sentir o frio noturno; já o seu companheiro porém, tinha ficado exposto ao frio e à umidade dessa noite bem russa de novembro, para a qual evidentemente não viera preparado. Trazia este uma capa bem espessa e ampla, com enorme capuz, dessas que, embora muito usadas lá fora, na Suíça ou no norte da Itália, durante o inverno, estão longe, todavia, de servir a quem se propõe uma viagem como a do percurso entre Eldtkuhnen e Petersburgo. Viável e satisfatória na Itália, longe estava de ser suficiente para a Rússia. O dono da capa era um jovem também de uns vinte e seis ou vinte e sete anos, de estatura pouco acima da vulgar, de cabelos louros e abundantes, faces encovadas e uma barba pontuda tão clara, que parecia branca. Seus olhos eram grandes, azuis e fixos. Através deles transparecia algo gentil mas com uma expressão afadigada e tão esquisita que muita gente ao primeiro relance reconheceria estar defronte de um epiléptico. Ainda assim o rosto era agradável, bem tratado, de traços finos, sem uma coloração própria, muito embora nessa ocasião estivesse um pouco azulado por causa do frio. Segurava um pequeno embrulho atado e um lenço grande de seda puída onde decerto estavam todos os seus haveres. Calçava sapatos de sola grossa, cobertos com polainas, tudo à maneira estrangeira.

O seu companheiro de cabelos escuros, o do sobretudo de pele de carneiro, continuava a observar tudo isso, visto não ter o que fazer; e por fim, dando ao sorriso uma indelicadeza maior, em um desses gestos que não raro traem, casualmente, certa satisfação ante a desgraça alheia, lhe perguntou sem a menor cerimônia:

-  Com frio?

E deu uma sacudidela de ombros.

- Muito! - respondeu com extraordinária presteza o seu vizinho. - E pensar que se trata apenas de um degelo. Imagine então se estivesse congelando! Não esperava que por aqui já fizesse tanto frio.  Perdi o costume.

- Está vindo do estrangeiro, hein?!  - Estou, sim; Suíça.

-  Credo! Não me diga! - E o homem moreno assobiou e depois riu.

Puseram-se a conversar. Era notável a boa-vontade com que o jovem da capa suíça respondia às perguntas do companheiro. Não deixava sequer transparecer nenhum melindre de desconfiança ante a extrema impertinência das indagações inconvenientes e sem propósito. Contou-lhe que estivera uma grande temporada, mais de quatro anos, fora da Rússia; que o tinham mandado para o estrangeiro por causa da saúde, de uma certa moléstia nervosa fora do comum, do gênero assim da epilepsia ou da dança de São Guido, com ataques e contrações. O homem trigueiro à medida que escutava não perdia ensejo de rir à grande; e riu muito mais ainda quando o outro em resposta à sua pergunta “Bem, mas afinal de contas o curaram?” respondeu:

- Qual o quê!

- Mas então o senhor deve ter gasto muito dinheiro com isso! E nós aqui a acreditarmos nessa gente de lá - observou o homem de preto, criticando.

- É isso mesmo! - aparteou um indivíduo mal-ajambrado e corpulento, de uns quarenta anos, com um narigão vermelho e a cara cheia de espinhas, que estava sentado rente deles.

Pelo jeito devia ser algum funcionário subalterno, com os defeitos típicos da sua classe.

- Pois é! Absorvem todos os recursos da Rússia para acabarem não fazendo coisíssima nenhuma!

- Oh! No meu caso o senhor está completamente equivocado - redargüiu o paciente chegado da Suíça, em um tom amável e conciliatório. - Naturalmente não posso contradizer a sua opinião, porque não estou a par de tudo isso; mas no meu caso o médico me conservou lá aproximadamente durante dois anos, à própria custa, e ainda gastou o resto do seu pouco dinheiro com esta minha viagem para cá.

-  Como assim?! Então o senhor não dispunha de gente sua que pagasse? - indagou o homem moreno.

-  Não; o Sr. Pavlíchtchev, que costumava pagar por mim, morreu há dois anos. Escrevi, à vista disso, para Petersburgo, à Sra. Epantchiná, uma parenta minha longe, mas não obtive resposta. Então tive de vir...

-  E para onde vai agora?

-  O senhor quer se referir.., onde vou ficar?... A bem dizer, não sei... Por aí...

- Ainda não pensou nisso, não é?

E os dois ouvintes riram, outra vez.

- E não me admiraria nada se esse embrulho aí fosse tudo que o senhor possui de seu neste mundo! - aventou o homem do sobretudo preto.

Nem vale a pena apostar! - retrucou o funcionário de nariz vermelho, com ar jocoso. - Eu cá não me abalançaria a isso quanto mais a aventar que aqui o amigo tenha alguma coisa no carro de bagagem. Aliás, convenhamos, a pobreza está longe de ser um vício.

Pelos modos esse era de fato o caso, e o jovem logo confirmou tal suposição, imediatamente, com a sua presteza peculiar.

-  Seja lá como for, o seu embrulho merece consideração - prosseguiu o funcionário depois que todos se riram à larga (sim, todos, pois por mais estranho que pareça, o dono do embrulho também se pusera a rir, encarando-os, o que aumentou de muito a alegria) - embora se possa apostar na certa que dentro dele não haja luíses nem fredericos. e muito menos florins brunidos. Sim, pois se não bastassem as polainas que o senhor usa sobre as botinas compradas no estrangeiro, suficiente seria acrescentar a esse embrulho o tal parentesco com uma pessoa como a Sra. Epantchiná, a mulher do general! Sim, convenhamos que esse embrulho aí se reveste de um valor todo especial, se é que realmente a Sra. Epantchiná é sua parenta. Não vá o senhor estar laborando em um equívoco, em um desses enganos que soem muitas vezes acontecer... por via de um excesso de imaginação.

-  Outra conjetura certa, essa do senhor - concordou e esclareceu o jovem louro. - Trata-se realmente, por assim dizer, de uma afirmação muito relativa, pois ela quase não chega a ser parenta minha; tanto que nem me surpreendi por não haver recebido resposta. Eu já contava com isso.

- Botou fora então o dinheiro dos selos! Hum!... Em todo o caso o senhor é franco, não tem empáfia, o que já é a seu favor! Há, há!.. Conheço o General Epantchín; aliás toda a gente o conhece; basta ele ser como é; e em tempos conheci o Sr. Pavlíchtchev também que pagou as suas despesas na Suíça, se é que se trata de Nikolai Andréievitch Pavlíchtchev, pois houve dois com esse nome: eram primos. O outro vive na Criméia. O falecido Nikolái Andréievitch era um homem de valor e muito bem relacionado; chegou a possuir quatro mil servos..

- Exatamente; Nikolái Andréievitch era o nome dele.

E ao responder, o jovem olhou atentamente, de alto a baixo, o cavalheiro que sabia tudo.

Tais cavalheiros oniscientes são encontrados muitas vezes em uma certa camada da sociedade. Sabem tudo. Tanto a sua incansável curiosidade como as suas aptidões de espírito inclinam-se irresistivelmente em uma direção, sem dúvida por falta de idéias e de interesses mais importantes na vida, como diria um pensador moderno. Mas as palavras “eles sabem de tudo” devem ser tomadas aqui em um sentido quiçá limitado: em que departamento fulano trabalha; que espécie de amigos tem: quais os seus proventos; onde foi governador: quem é sua mulher e que dote lhe trouxe: quais são os seus primos de primeiro grau; quais os de segundo; e outras coisas deste jaez. A maioria de tais cavalheiros oniscientes vive com as mangas coçadas nos cotovelos e recebe um ordenado de dezessete rublos por mês. As pessoas de cujas vidas eles conhecem todos os pormenores ficariam perplexas se lhes fosse dado imaginar suas intenções, mas muitos desses cavalheiros arrancam de tais conhecimentos uma consolação sobremaneira positiva, o que importa em uma ciência completa, disso derivando um auto-respeito e o mais alto prazer espiritual. Não se pode negar que se trata de uma fascinante ciência. Farto estou de haver visto homens cultos, literatos, poetas, políticos que procuraram e acharam nessa ciência o seu mais elevado conforto e a sua última finalidade, apenas tendo conseguido fazer carreira mediante emprego de tais dons.

Durante esta parte da conversação o homem moreno deu em bocejar e em olhar através do vidro da janela, esperando impacientemente o fim da viagem, não tardando a ficar bastante inquieto, deveras, mal contendo a própria agitação. Na verdade seus modos não deixavam de ser bastante estranhos; ora parecia ouvir sem escutar, ora parecia olhar sem ver. Chegou mesmo a rir, uma vez ou outra, sem saber de quê, ou logo se esquecendo do motivo.

-  Desculpe, com quem tenho eu a honra de... - perguntou de repente o homem da cara cheia de borbulhas, voltando-se para o moço do embrulho.

-  Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin é o meu nome - respondeu este último, sem a menor hesitação, de modo muito espontâneo.

-   Príncipe Míchkin? Liév Nikolátévitch?... Não conheço. Nem creio já ter ouvido! - respondeu o amanuense, pensativamente.

- Claro que não estou dizendo que desconheço o sobrenome, que até é histórico; o compêndio de história de Karamzín dá, e com notórias razões; refiro-me ao senhor, pessoalmente. Não me constava que houvesse Príncipes Míchkin por aí; pelo menos não se ouve falar neles.

- Creio que não haja mesmo - respondeu logo Míchkin - ou melhor, só existe um, atualmente, que sou eu; cuido ser o último deles. E no que se refere aos nossos pais e avós, alguns não foram senão pequenos proprietários rurais. Meu pai foi cadete, depois tenente do Exército; no entanto, a senhora do General Epantchín não deixava de ser, de certa forma, uma princesa Míchkin, pois como tal foi nascida: foi a última da sua fornada.., também!

- Eh! Eh! Eh! “A última da sua fornada!” Boa! Com que graça o senhor esclareceu isso! - chasqueou o funcionário público.

O homem moreno também se arreganhou todo. Míchkin ficou até surpreendido em haver perpetrado um gracejo, aliás muito insípido.

- Palavra de honra que me exprimi assim sem pensar - explicou ele, por fim, meio zonzo.

- Lógico, lógico que foi sem pensar - concordou o funcionário bem-humorado.

- E o senhor, lá no estrangeiro, também esteve estudando com professores, príncipe? - perguntou sem mais aquela o homem do sobretudo de pele de carneiro.

- Estive, sim senhor.

- Pois eu nunca estudei nada.

- Bem, eu, quer o senhor saber? só estudei um pouquinho - acrescentou o príncipe quase como a querer pedir desculpas. - Eles lá não me apertavam por causa da minha doença.

Nisto o homem da capa preta se saiu com esta, à queima-roupa:

- Conhece os Rogójin?

- Não, não os conheço, absolutamente. Dou-me com muito pouca gente aqui na Rússia. O senhor é um Rogójin?

- Sim, chamo-me Parfión Rogójín.

- Parfión? O senhor é um desses Rogójin que... - começou logo o funcionário, tomando um ar de crescente circunspeção.

- Perfeitamente. Um deles. Sou um dos tais Rogójin, sim - atalhou imediatamente o homem moreno, com um feitio grosseiro de irritação. Não se tinha dirigido uma única vez ao homem das borbulhas, na verdade até ali só havendo falado com Míchkin.

- Não me diga!... - E o amanuense se petrificou, cheio de espanto, enquanto os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas. E logo o seu rosto assumiu uma expressão de servilismo e de reverência, quase que de pânico. - É parente, porventura, de Semión Parfiónovitch Rogójín, cidadão honorário e hereditário que faleceu há coisa de um mês e que deixou uma fortuna de dois milhões e meio de rublos?!

- E como sabe você que ele deixou dois milhões e meio? - retrucou o homem moreno, sem se dignar olhar para o funcionário público nem mesmo de relance. - Veja este sujeito! - E se voltou bem para o príncipe, indicando com um gesto de pálpebra o outro. - Que lucra gente como essa em bajular logo uma pessoa? Lá isso que meu pai morreu, de fato morreu, está fazendo já um mês. E aqui, conforme o senhor me vê, estou chegando de Pskóv, quase descalço.

- O patife do meu irmão, mais a minha mãe, não me remeteram um vintém sequer; e muito menos um aviso - nada! Como se eu fosse um cão! E estive todo o mês de cama, em Pskóv, com febre!

- Mas, valha-o Deus, agora vai o senhor entrar em um milhão intato. Isso, avaliando muito por baixo.

- E o funcionário agitou as mãos para o alto.

- E este sujeito a se meter, está vendo só o senhor, príncipe?! - disse Rogójin, que acabou se voltando irritado, dizendo para o intruso, depois, em tom furioso:

- E escusa de pensar que lhe jogarei um copeque que seja, está ouvindo? Nem que você se equilibre com a cabeça no chão e as pernas para o ar, escutou?!

- Se me equilibro! Olá, se me equilibro!!

- Esta agora! Pois não lhe darei coisa nenhuma, pronto! Nem que você dance à minha volta durante uma semana, de fio a pavio.

- Pois não dê, ora essa!? E por que haveria o senhor de dar? Mas que dançarei, lá isso dançarei. Largo a mulher e as crianças e venho dançar na sua frente. Homenagens lhe são devidas! Se são!...

- Enforque-se! - cuspiu o homem trigueiro, logo se voltando para o príncipe, novamente.

- Há coisa de umas cinco semanas, sem trazer nada a não ser um embrulho como o senhor agora, fugi da casa de meu pai para a casa de minha tia em Pskóv, onde caí doente. E enquanto estive fora, meu pai morreu. Deu com o rabo na cerca... Deus o tenha na Sua glória, arre! Mas quase que quem morria antes era eu. Sim, matava-me, acredite-me, príncipe! Eu que não fugisse! Dava-me cabo do canastro ali na hora, sem cerimônia alguma!

- O senhor o desgostou com alguma coisa? - indagou o príncipe, olhando para o milionário com um interesse muito especial, perscrutando-o através da pele de carneiro. E conquanto a só história da herança de um milhão tornasse o homem já por si notável, algo mais havia nele que surpreendia e interessava Míchkin. E motivo deve ter havido para o próprio Rogójin se pôr a conversar prontamente com o príncipe, na verdade parecendo se tratar bem mais de uma necessidade física do que mental, despertada mais pela preocupação do que pela franqueza, como se buscasse, na sua agitação e no seu paroxismo, alguém a fim de exercitar a língua.

Parecia estar ainda doente, ou pelo menos com um resto de febre. Quanto ao funcionário subalterno, este então já agora permanecia como que suspenso diante de Rogójin, quase não ousando respirar, agarrado às menores palavras, como à espera que delas caísse algum diamante.

- Zangado, lá isso bem que ele estava, e bem que lhe sobravam razões - respondeu Rogójin, - mas tudo preparado propositadamente por meu irmão. A minha mãe não posso eu culpar, não passa de uma velha que vive lendo As Vidas dos Santos, sentada entre outras velhotas. E o que o mano Semión disser é lei. Mas por que não me mandou ela avisar ainda a tempo? Eu sei por que foi! Sim, verdade é que eu estava ainda inconsciente a tal altura. Garantem que passaram um telegrama; de fato, mas o passaram a quem? A minha tia. Ora, minha tia cozinha uma viuvez há mais de trinta anos e passa a vida com os iuródivii, (Iurôdivii: simples de espírito, muitas vezes epilépticos, que passavam por ter os atributos de santos e um dom profético. - N. do T.) uns romeiros malucos, isso desde manhã até à noite. Não que seja propriamente uma freira; algo muito pior, isso sim. Claro que, como velha, havia de se apavorar com um telegrama. E zás, foi levá-lo imediatamente à delegacia de polícia, sem ao menos abri-lo: e lá ainda está o estupor! Quem me valeu foi Vassílii Vassilitch Konióv, que me escreveu contando essa trapalhada toda. Até me mandou dizer que meu irmão cortou durante a noite as borlas douradas do brocado fúnerário do caixão de meu pai. “Esta joça deve valer um dinheirão!” disse o gajo. Só por causa disso ele pode ser mandado para a Sibéria, se eu quiser, pois se trata de um sacrilégio. Você aí, seu espantalho - virou-se para o funcionário público - a lei diz ou não diz que isso é sacrilégio’?

- Se é sacrilégio? Inominável! - asseverou o amanuense, imediatamente.

- E não é um caso de Sibéria?

- Lógico! Sibéria! Sibéria imediatamente!

- Eles lá cuidam que eu ainda esteja doente. - E Rogójin voltou-se de novo para o príncipe.

- Pois, sem dizer um pio a quem quer que fosse, me meti no vagão, doente mesmo como estava e como ainda estou, e vou tocando para casa. “Tu, mano Semión Semiónovitch, ao abrires a porta quando eu bater, vais dar de cara comigo!” Fez meu pai virar contra mim, eu sei. Confesso que fiz meu pai ficar zangado por causa de Nastássia Filíppovna. Por causa do que eu fiz. Quanto a isso, não há dúvida, sou culpado.

- A propósito de quem? De Nastássia Filíppovna? - balbuciou o funcionário com o maior servilismo, como a ligar o que estava escutando com qualquer coisa no seu cérebro.

- Não vá me dizer que a conhece também! - exclamou Rogójin com impaciência.

- Pois conheço! Se conheço! - respondeu o homem, triunfantemente.

- Ora a minha vida! Há várias Nastássias Filíppovnas. E uma coisa lhe digo: deixe-se de insolência, animal! - Voltou-se logo para o príncipe e disse como a desabafar: - Já me palpitava que algum estupor da laia deste não tardaria a se dependurar em mim!

- Mas talvez seja essa a que eu conheço! - disse o amanuense, ressabiado.

- Eu, Liébediev, sei de tudo; compreendo que Vossa Excelência me invective; mas, e se eu provar o que digo? Sim, eu me refiro a essa Nastássia Filíppovna mesma, por cuja causa o senhor seu pai tentou lhe dar umas bengaladas. O sobrenome dessa Nastássia Filíppovna é Baráchkov, e é uma dama a bem dizer de alto coturno, é mesmo uma princesa, tal a sua maneira; está ligada a um homem chamado Tótskii Afanássii Ivánovitch, a esse e a mais ninguém, pessoa de propriedades e de imensa fortuna, membro de companhias e de sociedades, mediante as quais se tornou muito amigo do General Epantchín...

-  Raios o partam! É isso mesmo! - Rogójin acabou ficando surpreso.

- Ufa! Pois não é que o excomungado sabe mesmo?!

- Cá comigo é assim, Liébedieve sabe tudo! Eu dava umas voltas por aí, Excelência, acompanhando o jovem Aleksándr Likhatchóv. Logo depois que morreu o pai dele andamos juntos uns dois meses. Mostrei-lhe umas coisas, que eu cá conheço muito bem, a ponto dele não se mexer, um passo que fosse, sem Liébediev. Por sinal que ele agora está na prisão, por dívidas; mas a tal altura tive minhas oportunidadezinhas de vir a conhecer Armância, Corália, mais a Princesa Pátski e Nastássia Filíppovna. E muitas outras além destas.

- Nastássia Filíppovna? E por qual motivo esse Likhatchóv...

Rogójin encarou-o com o cenho franzido, enquanto os lábios se crispavam lívidos.

- Absolutamente! Absolutamente! Não senhor! De forma alguma! - garantiu o amanuense, com uma pressa nervosa. -Likhatchóv não a conseguiria por dinheiro algum! Não, ela não é nenhuma Armância. Ela não tem ninguém, a não ser Tótskii. Certas noites acontece ir ela se sentar no seu camarote no Grande Teatro ou na Comédia Francesa. Não digo que os oficiais, por exemplo. não falem a propósito dela; mas até mesmo eles nada podem dizer contra ela. “Lá está a famosa Nastássia Filippovna!”, dizem, e é tudo. E mais nada, absolutamente, pois não existe mesmo nada.

- Lá isso é a pura verdade - confirmou Rogójin franzindo a testa, sinistramente.

- Já uma outra vez Zaliójev disse a mesma coisa. Ia eu atravessando a Perspectiva Névskii, príncipe, metido no casaco de meu pai, que já tinha três anos de uso, quando ela saiu de uma loja e subiu para a carruagem. Fiquei logo abrasado. E esbarrei com Zaliójev. Se desmazelado eu andava, elegante e aprumado vinha ele, que nem um oficial de cabeleireiro, como sempre com o seu monóculo. E dizer-se que na casa de meu pai nós usávamos botas alcatroadas e éramos tratados só a sopas de couve sem carne! “Ela não é para o teu bico, rapaz”, chasqueou ele. “É uma princesa. Chama-se Nastássia Filíppovna Baráchkov e vive com o Tótskii. E o tal Tótskii nem sabe o que fazer para se livrar dela, pois já atingiu a idade crítica da vida - cinqüenta e cinco anos - e aspira casar-se com a maior beldade de Petersburgo”. Acrescentou, então, que eu poderia ver Nastássia Filíppovna outra vez, ainda naquele dia, no Grande Teatro, na récita do ballet. Que ela deveria estar no seu camarote, na sua baignoire. Falar, na nossa família, em ir ao ballet nunca passaria de extravagante presunção, pois o meu velho não tinha meias medidas: ante uma tal audácia, esbodegaria logo com qualquer de nós, taxativamente! Mas eu escapuli e me esgueirei teatro adentro, lá permanecendo durante uma hora; e vi de novo Nastássia Filíppovna. Conseqüência: a noite inteira não consegui dormir. Na manhã seguinte, como de propósito, meu pai cai na asneira de me entregar duas apólices de cinco por cento, no valor de cinco mil rublos cada uma. “Vai vendê-las”, diz-me ele, “e entrega sete mil e quinhentos rublos no escritório do Andréiev, liquidando assim uma conta que tenho lá e volta imediatamente para casa com o troco, que te fico esperando”. Saí com as apólices, troquei-as em dinheiro sonante, mas quem diz que fui ter com Andréiev?

Toquei mas foi diretamente para a Loja Inglesa, onde escolhi um par de brincos tendo cada um deles um diamante do tamanho mais ou menos de uma noz. Dei por eles os dez mil rublos e ainda fiquei devendo mais quatrocentos. Disse o meu nome e confiaram em mim. Dali fui com os brincos procurar Zaliójev. Contei-lhe tudo e o intimei: “Leva-me à casa de Nastássia Filíppovna, mano velho”. Despachamo-nos. Não via e nem me posso lembrar que ruas seguíamos, por onde passávamos, por quem cruzávamos. Só sei que fomos parar exatamente na sua sala de visitas e que ela depois apareceu, pessoalmente. Naquele instante como havia eu de dizer a ela quem eu era? E foi Zaliójev quem tomou a palavra:

“Queira aceitar isto da parte de Parfión Rogójin, como lembrança do encontro com a senhora, ontem; digne-se aceitar, por quem é!”. Ela abriu o estojo, olhou e sorriu. “Agradeça por mim ao seu amigo, o Sr. Rogójin, por sua tão amável atenção”. Inclinou-se, saudando, e retirou-se lá para dentro. Há! Por que não morri eu logo ali mesmo? Se me atrevera a ir à casa dela fora porque pensara: “Só em revê-la, morrerei!” E o que me mortificava mais do que tudo, era aquela besta do Zaliójev haver ficado com as honras e vantagens do ato. Sim, pois mal vestido como eu estava, fiquei acolá, diante dela, mudo, pasmado, cheio de acanhamento, ao passo que ele, endomingado na última moda, todo frisado e empomadado, muito garboso com a sua gravata de riscas - era todo mesuras e salamaleques. Ora, é claro que ela o tomou como sendo eu! “Toma tento, ó coisa”, disse-lhe eu, já na rua, “não te ponhas a arquitetar patranhas, hein? estás ouvindo bem?” Ele ria. “E como é que vais agora prestar contas do dinheiro a teu pai?” Bem me pareceu que a solução era, em lugar de voltar para casa, me atirar ao rio; mas pensei: “Depois do que houve, que me importa o resto?” e entrei uma alma sem remissão.

- Que horror! - fez o funcionário, encolhendo-se todo. Positivamente estava assombrado.

- Ainda mais sabendo que o falecido era um indivíduo capaz de dar cabo de uma pessoa por causa de dez rublos, quanto mais então por dez mil rublos, credo! - acrescentou, meneando a cabeça para o príncipe.

Míchkin encarou Rogójin observando-o com interesse; este último se tornara agora mais lívido do que nunca.

- Capaz de dar cabo de uma pessoa! - disse Rogójin, repetindo as palavras do outro e escandindo-as.

- Quem lhe disse que ele era capaz de liquidar com um sujeito? - E, voltando-se imediatamente para o príncipe, prosseguiu: - O velho descobriu logo o meu estelionatozinho... e, de mais a mais, Zaliójev saíra a bater a língua, contando a todo o mundo. Meu pai agarrou-me, fechou-se no andar de cima comigo e, durante uma hora, lhe estive nas garras: desancou-me. “E isto é apenas um prefácio”; me disse ele. “Ainda voltarei para te dizer boa noite”. Que pensa o senhor que ele resolveu? Dirigiu-se nem mais nem menos à casa de Nastássia Filíppovna, arrojou-se aos pés dela, chorando e implorando, a ponto de ela acabar indo buscar o estojo e lhe atirar. “Aí estão os brincos, seu barbaças!” gritou-lhe. “E agora duplicaram de valor para mim, visto Parfión ter afrontado tamanha tempestade para mos trazer. Recomende-me a Parfión Semiónovitch e lhe agradeça por mim”. Durante isso tratei de arranjar vinte rublos com Seriója Protúchin, tomei a bênção de minha mãe e corri a tomar o trem para Pskóv, onde já cheguei tiritando de febre. Aquelas velhas todas de lá desandaram a ler As Vidas dos Santos à minha volta... E eu estatelado, bêbado, a escutá-las! Acabei com o resto das moedas, percorrendo as tavernas do lugarejo, vagueando pelas ruas sem dar tento de nada, completamente aparvalhado. Ao amanhecer estava em franco delírio e, para cúmulo, os cães não se tinham fartado de rosnar no meu encalço. Escapei de boas.

-  Bem, bem! Mas já agora Nastássia Filíppovna vai cantar em um outro tom - grasnou o funcionário, esfregando as mãos. - Isso de brincos, então... Ah, patrão, agora é que ela vai ver o que são brincos!...

- Cale-se, você aí! Se ousar dizer mais uma só palavra sobre Nastássia Filíppovna o escangalho, tão certo como haver um Deus lá em cima! Lanho-o de chicote! Ou pensa que lhe vale de alguma coisa ser íntimo de Likhatchóv? - gritou Rogójin, agarrando-o violentamente por um braço. -

- Isso, isso! Escangalhe-me, pois então é que não se livra mesmo de mim! Escangalhe-me e então terá de me aturar deveras! Isso, isso, desça as mãos sobre mim, como a marcar-me com o seu carimbo de posse... Homessa! Chegamos? - O trem entrara de fato na estação. Apesar de Rogójin haver dito que estava voltando sem ter avisado ninguém, vários homens o esperavam. Assim que deram com ele prorromperam em exclamações e lhe atiraram com os gorros.

- Pois não é que Zaliójev também veio me esperar! - sussurrou Rogójin, olhando para aquele bando todo com um sorriso triunfante e algo malicioso; e logo se voltou para Míchkin.

- Príncipe, não sei por que simpatizei com o senhor. Talvez porque o tenha encontrado em uma emergência destas, muito embora também haja encontrado esse sujeito aqui (e mostrava Liébediev) que não suporto. Vá visitar-me, príncipe. Arrancar-lhe-emos essas polainas. comprar-lhe-emos um casaco de pele, metê-lo-ei em uma casaca de primeira ordem com um colete imaculado, e mais tudo aquilo de que o senhor gosta! Enfiarei dinheiro pelos seus bolsos adentro!... e iremos ver Nastássia Filíppovna! Venha, hein?!

Ante o que Liébediev bimbalhou de modo solene e expressivo:

- Ouviu bem, Príncipe Liév Nikoláievitch? Não perca essa oportunidade! Oh, não perca esta ocasião!

Levantando-se, o príncipe cortesmente estendeu a mão a Rogójin. dizendo com a máxima cordialidade:

-  Irei com o maior prazer e lhe agradeço haver gostado de mim. Irei ainda hoje mesmo se tiver tempo. Por minha vez confesso que tive, francamente, muito gosto em conhecê-lo e que desde o instante em que me contou essa passagem referente aos brincos senti grande simpatia pelo senhor. Aliás antes mesmo de me contar esse gesto, e apesar de no começo ter estado a me observar de um modo esquisito, eujá estava gostando do senhor.

Obrigado também pelas roupas e pelo casaco de peles que está me prometendo. Na verdade ando muito necessitado de roupas e de agasalhos. E, quanto a dinheiro, efetivamente o que ainda me resta é uma ninharia.

- Pois apareça! Esta noite haverá dinheiro, muito dinheiro!

- Haverá sim! Haverá sim!! - confirmava sem parar o amanuense. - Muitíssimo dinheiro, antes de anoitecer, antes de cair o sol!

- E mulheres também! Gosta de mulheres, príncipe? Diga com franqueza!

- Eu, n... não! Quer que lhe seja franco? Não sei se o senhor compreenderá, mas é que, decerto por causa da minha doença, nada sei a respeito de mulheres...

- Bem, se isso assim é - exclamou Rogójin - valha-o Deus, que põe Suas complacências nas criaturas inocentes.

- Sim, o Senhor nosso Deus se compraz em criaturas como o senhor - reforçou o funcionário público a quem, voltando-se. Rogójin ordenou:

- Quanto a você, siga-me!

Desceram logo do vagão. Líébediev acabara ganhando a sua partida. O grupo barulhento sumiu logo ao longo da Perspectiva Voznessénski. Quanto ao príncipe, tinha de ir para a Litéinaia. O tempo continuava enevoado e chuvoso. Míchkin informou-se do trajeto com um transeunte - e, como teria de andar umas três verstás, resolveu tomar um fiacre.

 

O General Epantchín vivia em casa própria, em uma travessa da Litéinaia, perto da igreja do Spass Preobrajénskii.

Além desta magnífica residência de seis andares, cinco dos quais estavam alugados, tinha um outro enorme prédio na Rua Sadóvaia, que também lhe dava boa renda. Possuía ainda uma vasta propriedade às portas de Petersburgo e também uma fábrica próspera nos subúrbios. Em dias longínquos havia usufruído, como era sabido de todo o mundo, fortes privilégios dos monopólios do governo, tendo, atualmente, interesses e considerável influência na direção de sociedades anônimas muito firmes. Era reputado pela sua grande fortuna e imensas ligações, como homem de negócios, tendo tido sempre o dom de saber se tornar indispensável, sendo a seção governamental onde trabalhava a melhor prova disso. Todavia, era notório que Iván Fiódorovitch recebera pouca educação e era neto de soldado. Esta última condição indubitavelmente só lhe podia ser honrosa. Mas o general, embora fosse um homem inteligente, não se libertara de umas pequeninas fraquezas, aliás desculpáveis, não lhe agradando alusões a tal respeito. Tratava-se, inquestionavelmente, de um homem inteligente e hábil.

Adotara como princípio, por exemplo, não se colocar muito em evidência, apagando-se até quando as circunstâncias o exigiam, sendo que muitos o apreciavam justamente por causa da ciência de saber se colocar em seu lugar. Mas se esses que o admiravam por isso soubessem o que, às vezes, se passava na alma de Iván Fiódorovitch, o homem que sabia qual era o seu lugar!...

Embora, realmente, tivesse conhecimentos práticos e experiência própria, bem como notável habilidade, preferia aparecer carregando idéias alheias em vez das inclinações do próprio intelecto, para poder estadear como homem “desinteressadamente devotado” e - para coincidir com o espírito da época - como um coração generosamente bem russo. A tal respeito contavam-se histórias engraçadas que não desconcertavam o general, pois era reconhecida-mente bafejado pela sorte, até nas cartas, jogando paradas fortes. E, longe de esconder esse seu fraco (como ele o chamava), intencionalmente o ostentava, visto que, além do lado pecuniário, lhe rendia outras vantagens. Freqüentava uma sociedade muito variada, mas composta apenas de gente de categoria. Tinha tudo diante de si; dispunha de tempo para tudo, e tudo lhe vinha a contento. E quanto à idade, também, o general estava no que se chama a flor da vida, com seus cinqüenta e seis anos, não mais; e nós bem sabemos que isso é que é a verdadeira flor da existência do homem, a idade em que realmente a vida começa.

A sua boa saúde, a sua compleição, a sua risada através de dentes bons, embora pretos, o seu ar preocupado de manhã no escritório, as suas maneiras bem-humoradas de noite nas cartas, ou em casa de Sua Alteza, a sua atraente e sólida figura, tudo contribuía para o seu triunfo presente e futuro, despetalando rosas no caminho de Sua Excelência.

O general tinha uma família, com florescentes filhas. Nem tudo, porém, eram rosas somente... Havia circunstâncias imediatas em que as fundadas esperanças e os promissores planos de Sua Excelência exigiam concentrações sérias e profundas. Afinal de contas. que há de mais grave e mais sagrado do que os planos de um pai? A que se devia um homem apegar, se não à sua família?

E a do general consistia de esposa e três filhas já crescidas. Casara-se muito cedo, quando ainda tenente, com uma moça quase de sua idade, que não se distinguia nem pela beleza nem pela educação, e que apenas lhe trouxera um dote de cinqüenta almas, dote que serviu, todavia, como um degrau para a fortuna de mais tarde.

Mas, nunca, depois, se queixou desse casamento tão cedo contraído, e nunca o considerou um erro da mocidade; assim, respeitava a mulher, e a temia, às vezes tanto, que até chegava a amá-la... Ela era uma princesa Míchkina, de uma antiga embora não muito brilhante família, tendo muito apreço à sua origem. Certa pessoa de influência, um desses protetores cuja proteção nada custa, consentira em se interessar no casamento da jovem princesa, e assim abrira caminho para o jovem oficial e lhe dera mão eficaz, embora, a falar verdade, ajuda alguma fosse precisa, um mero olhar lhe tendo bastado para perceber que não seria repelido. Com raras exceções, marido e mulher passavam a vida em harmonia. No começo, a Sra. Epantchiná, como princesa nata, e a última do nome, fizera, mercê também de suas qualidades pessoais, amizades influentes nos círculos elevados, até que, ultimamente, ajudada pela fortuna e pela importância do esposo, já se considerava em casa, mesmo quando em esferas sociais mais elevadas.

Fora durante esses anos que as filhas - Aleksándra, Adelaída e Agláia - tinham crescido. Assinavam-se apenas Epantchiná, éverdade, mas possuíam nobre estirpe pelo lado materno, contavam com um dote apreciável, tinham um pai que, cedo ou tarde, deveria galgar proeminentes posições, e - questão que também não se pode desprezar - eram todas as três notavelmente bonitas, inclusive a mais velha, Aleksándra, que já completara vinte e cinco anos. A segunda, Adelaída, tinha vinte e três e a mais nova, Agláia, apenas vinte. Esta é que era de fato uma beleza, começando já a atrair muita atenção na sociedade. Mas isso não era tudo. Todas as três se distinguiam pela educação, habilidade e talento. Cada qual percebera que se dava perfeitamente com as outras; sempre afinavam juntas, em tudo. Falava-se mesmo de sacrifícios feitos pelas duas mais velhas em favor da mais moça, que era o ídolo da casa. Não gostavam muito de se mostrar em sociedade e eram modestas. Ninguém as poderia censurar por altivas ou demasiado inacessíveis, apesar de se saber que eram orgulhosas e compreendiam quanto valiam. A mais velha era musicista; a segunda pintava passavelmente bem, conquanto isso não fosse do conhecimento geral, a não ser recentemente e, ainda assim, por acaso. Em uma palavra: muito se dizia em favor delas. Mas também havia críticas hostis. Falava-se com horror do número de livros que liam. Elas tinham pouca pressa em se casar; era-lhes agradável, e nada mais, pertencer a certo círculo de sociedade. Mas tudo isto era notável, pois todos conheciam a tendência, o caráter, os desejos e as propensões paternas.

Eram cerca de onze horas quando o príncipe tocou a campainha do apartamento do general, que era no primeiro andar e demasiado modesto se considerarmos a sua situação social. Um criado de libré abriu aporta e Míchkin teve dificuldade em explicar a sua aparição a esse homem que desde o começo olhava desconfiado para o seu embrulho. Por fim, ante a sua reiterada e categórica asserção de que era realmente o Príncipe Míchkin, e que precisava formalmente avistar-se com o general para um assunto importante, o criado perplexo o conduziu a uma pequena antecâmara, ao lado da sala de espera que precedia ao escritório do general; e aí o passou a outro criado, cujo dever era esperar, todas as manhãs, na ante-sala, os visitantes, indo anunciá-los ao general. Este outro criado, que usava uma casaca de compridas abas, tinha uma atitude muito empertigada para os seus quarenta anos. Era o criado grave de Sua Excelência. introduzia as visitas no escritório e só por isso se dava ares de importância.

- Passe para a sala de espera e deponha o seu embrulho aqui - disse, sentando-se em uma poltrona, com deliberada dignidade. passando a olhar com firmeza para Míchkin que se tinha sentado em uma cadeira perto dele, com o embrulho no colo.

- Caso o senhor permita - rogou o príncipe - eu preferiria ficar aqui, com o senhor; que vou fazer lá na saleta, sozinho?

- O senhor não pode permanecer na ante-sala, pois é um visitante, em outras palavras, um hóspede momentâneo. Deseja ver o general em pessoa, ou...

Era evidente que o criado hesitava ante o pensamento de anunciar semelhante visita, razão pela qual fazia novas perguntas.

- Em pessoa, em pessoa, pois tenho um negócio a...

- Não me interessa saber o seu negócio. O meu dever é apenas anunciá-lo. Mas, como já lhe disse, na ausência do secretário, não posso fazê-lo entrar.

A desconfiança do homem crescia mais e mais, pois o príncipe não se parecia com o normal dos visitantes diários; e, mesmo que o general, em dadas horas, recebesse, às vezes, visitas da mais variada condição, especialmente em casos de negócios, o criado sentia, agora, a despeito da latitude das instruções que lhe tinham sido dadas, uma grande hesitação; e só mesmo a opinião do secretário é que lhe mostraria, de modo cabal, a atitude a tomar.

- O senhor é, realmente, de fora, do estrangeiro? - perguntou, sem querer; e logo ficou confuso.

O que decerto pretendera perguntar era se ele “realmente era o Príncipe Míchkin”.

- Sim, vim de fora. Acabo de chegár da estação. Creio que o senhor ia perguntar se eu sou realmente o Príncipe Míchkin, não o tendo feito apenas por polidez.

- Hum! - fez o criado, admirado.

- Posso assegurar-lhe que não lhe disse uma mentira e que não se porá em apuros, por minha causa. E nem precisa espantar-se com a minha aparência e porque trago um embrulho. É que não estou, atualmente, em circunstâncias lá muito favoráveis.., florescentes.

-  Hum! A tal respeito não tenha apreensões. O meu dever restringe-se a anunciá-lo; o secretário virá vê-lo, a menos que o senhor... Realmente, a dificuldade está em... O senhor não veio pedir nenhum auxilio ao general? Permita que avance esta pergunta!

- Oh! Não, absolutamente. Quanto a isso, fique descansado, O meu negócio é bem outro.

- Queira perdoar-me. Falei assim, por causa da impressão que o senhor me deu à primeira vista. Faça o favor de esperar; o secretário não demora! E Sua Excelência está ocupado, lá dentro. com o coronel, no presente momento. E depois, vem ainda o secretário.., da Companhia... que pediu hora.

- Bem, já que devo esperar ainda um pouco, gostaria de saber se há algum lugar por aqui, onde eu pudesse fumar. Trouxe comigo tabaco e um cachimbo.

- Fumar? - disse o criado, encarando-o com desdenhosa surpresa, como se não devesse acreditar no que ouvira. - Fumar? Não, o senhor não pode fumar aqui. O senhor devia-se envergonhar de pensar em uma coisa dessas. Eh! Eh! Que pergunta mais disparatada!

- Não quis dizer aqui nesta sala. Julguei que houvesse algum lugar que o senhor pudesse me mostrar, pois há já três horas que não fumo. Estou acostumado a fumar. Mas seja como o senhor quiser. Há um ditado, sabe o senhor, que diz: “Em Roma não se deve.., etc.”

O criado não pôde deixar de tartamudear:

- Como é que vou anunciar um camarada da sua marca? O senhor (agora já ciciava) em primeiro lugar não devia estar aqui, o lugar de esperar é na sala de espera, pois o senhor é uma visita, em outras palavras, um hóspede, e vão ralhar comigo por causa disto. - Depois acrescentou, olhando de esguelha para o embrulho que evidentemente o intrigava: - O senhor não tem a intenção de ficar aqui com a família, pois não?!

- Não! Nem penso nisso. Mesmo que fosse convidado. Vim apenas travar conhecimento com a família. E é tudo!

- Como? Travar conhecimento? - disse o criado com espantu e redobrada desconfiança e escandindo as palavras. - Mas, ora essa, o senhor no começo não disse que já os conhecia, que vinha tratar de um negócio?

- Negócio, propriamente, não. A bem dizer, sim, tenho um negócio, mas se prefere outra palavra, ei-la: vim aconselhar-me. E vim, principalmente, porque, sendo eu próprio Príncipe Míchkin, e sendo a Senhora Epantchiná uma princesa Míchkin por sua vez, a última delas aliás, não havendo, assim, pois, mais Príncipes Míchkin, exceto eu e ela...

- O senhor então é parente? - O lacaio ficava cada vez mais apalermado.

- Não sou propriamente isso. Ou melhor, para clarear um ponto, de vez, sou parente, mas tão afastado que nem tem valor contar com isso. Escrevi de lá à Senhora Epantchíná; mas não me respondeu. Apesar disso, no meu regresso, achei que devia vir conhecê-la. Estou lhe dizendo isso para o senhor se certificar a meu respeito, pois verifico que está preocupado. Basta anunciar o Príncipe Míchkin; e só este nome será razão suficiente para entenderem o motivo de minha visita. Se eu for recebido, bem; se não, tanto melhor, talvez. Mas não creio que deixem de me receber. É natural que a Sra. Epantchiná queira conhecer o último e único rebento da sua família. Ela considera sobremodo a sua família, conforme ouvi em fontes autorizadas.

A conversa do príncipe parecia bastante simples. Mas era justamente essa simplicidade que não se coadunava com o presente caso; e o criado, experimentado como era, não poderia senão sentir qüe o que era viável de homem para homem não o era absolutamente de uma visita para um serviçal. E, embora os criados, geralmente, sejam mais inteligentes do que os seus amos supõem, o nosso homem concluiu que havia duas explicações: ou o príncipe era uma espécie de impostor que tinha vindo pedir dinheiro ao general, ou era, simplesmente, um pouco tolo e falho de senso de dignidade, não compreendendo que não devia se sentar em uma sala nem conversar sobre negócios com um mero criado. Assim, em ambos os casos, só lhe iria dar incômodos. E então retorquiu, o mais expressivamente possível: De qualquer modo, seria melhor que o senhor fosse para a saleta de espera.

- É. Mas se eu estivesse lá não teria podido explicar ao senhor tudo isto - respondeu o príncipe, sorrindo, com bom humor. - E o senhor ainda estaria nervoso a olhar para a minha capa e o meu embrulho. Agora, decerto, o senhor já não vai precisar esperar pelo secretário e pode ir anunciar-me ao general.

- Eu não posso anunciar um visitante como o senhor sem falar antes com o secretário. Demais a mais, Sua Excelência deu ordens, agora mesmo, para não ser interrompido por ninguém enquanto estivesse com o coronel. O único a entrar, sem se fazer anunciar, só pode ser Gavríl Ardaliónovitch.

- É algum funcionário?

- Gavríl Ardaliónovitch? Não. É empregado da companhia.

- O senhor deve pôr o seu embrulho aqui.

- Eu estava pensando nisso também. E acho que devo tirar a capa.

-  Naturalmente. Não vai entrar de capa.

O príncipe levantou-se e apressadamente se desembaraçou da capa, ficando só com o seu terno que, embora usado e com o paletó um pouco curto, era decente e de bom talho. Uma corrente de aço era visível no seu colete e preso a ela um reloginho de Genebra, de prata.

Mesmo sendo o príncipe um bocado tolo - e o lacaio se tinha logo dado conta disso - não era verossímil conversar com um visitante. Mas, ainda assim, não deixava agora de sentir certo prazer, apesar dele lhe ter despertado um sentimento de grande e inevitável indignação quando ousou perguntar:

- E a Sra. Epantchiná, quando recebe ela as suas visitas? - E o príncipe voltou a sentar-se no mesmo lugar.

- Tais visitas não são atribuição minha. A senhora generala recebe em diferentes ocasiões, de acordo com o que elas sejam. A costureira é admitida às onze em ponto. Gavríl Ardaiiónovitch éadmitido mesmo antes de qualquer outra pessoa, às vezes até antes do almoço.

- Os cômodos aqui são mantídos em uma temperatura melhor do que no estrangeiro observou Míchkin.

- Mas lá, o ar, fora de casa, é menos gélido do que aqui. Um russo, se não estiver acostumado, dificilmente poderá viver nas casas de lá, durante o inverno.

- Eles as aquecem?

- Não. E as casas são de construção diferente, isto é, as janelas e os fogões são de outro feitio.

- Hum... O senhor esteve por lá muito tempo?

- Quatro anos. Mas, quase sempre no mesmo lugar, sempre fora de grandes cidades.

- De modo que se desacostumou dos nossOs hábitos!

- Sim, de certo modo. E acredite que até estou surpreendido de não ter esquecido o russo. Enquanto falo com o senhor, fico pen sando: “Ora, não é que estou falando lindamente o russo?!” Talvez até, quem sabe se não é por isso que estou falando tanto? Desde ontem que estou abusando, falando russo sem parar.

- Hum!... Ah! O senhor antes viveu em Petersburgo?

Apesar de seus esforços, o lacaio não pode resistir e enveredou por uma conversa polida e afável.

- Em Petersburgo? Eu? Raramente estive aqui. Só de passagem para outros lugares. Antes não conhecia nada da cidade, agora, segundo ouvi, há muitas coisas novas, de modo que mesmo quem a conhecia ainda tem muita coisa fresca para ver. Fala-se muito do novo Palácio da Justiça.

- Há! O Palácio da Justiça. Sim, realmente há um Palácio da Justiça. E lá pelo estrangeiro, como é? Há por lá muitas cortes de justiça? São como as nossas?

- Não saberia lhe responder. Ouvi gabarem muito as nossas daqui. Conforme o senhor sabe, nós não temos, por exemplo, a pena capital.

- Então, lá, eles executam gente?

- Sim. Uma vez eu vi, na França, em Lião. O Dr. Schneider me levou.

- Enforcam, não é?

- Não. Em França eles cortam fora as cabeças.

- Gritam?

- Como poderiam? Aquilo é feito em um instante. Fazem o homem ficar deitado e então uma grande faca desce, pelo próprio peso. Uma máquina poderosa, chamada guilhotina. A cabeça pula fora antes que a pessoa pisque! Os preparativos são horríveis. Mal acabam de ler a sentença, aprontam o homem, atam-no, levam-no para o cadafalso - e isso é que é terrível! Juntam-se multidões, até mulheres, embora não gostem que as mulheres assistam.

- Não é coisa para elas!

- Naturalmente que não. Naturalmente Uma coisa assim, tão hedionda! O criminoso era um homem inteligente, de meia-idade, forte, corajoso, chamado Legros. Mas lhe garanto que quando subiu para o cadafalso estava chorando, e mais branco do que uma folha de papel. Não é incrível? Não é hediondo? Quem pode chorar de medo? Nunca me passou pela cabeça que um homem já feito não uma criança, mas um homem que nunca chorou, um homem de quarenta e cinco anos, pudesse chorar de medo! O que não deve estar se passando na sua alma, nesse momento!? A que angústia não deve ela estar sendo levada!? É um ultraje para uma alma, eis que é! Está escrito: “Não matarás!” E então, porque ele matou, o matam? Não. Isso está errado! Já faz um mês que assisti a isso, mas me parece estar ainda vendo com os meus olhos. Já tenho sonhado uma meia dúzia de vezes.

Míchkin, enquanto falava, estava completamente mudado; uma ligeira coloração subira ao seu rosto pálido, muito embora a sua voz continuasse gentil. O lacaio seguia-o com simpático interesse, tanto que o desagradou ter o príncipe se calado. Ele, decerto, também era um homem de imaginação e de sensibilidade, cujo pensamento trabalhava.

- Ainda é uma boa coisa que, pelo menos, não haja muito sofrimento quando a cabeça cai.

- Quer saber de uma coisa? O senhor fez justamente uma observação que já ouvi de muitas outras pessoas – prosseguiu o príncipe, acalorando-se - e a guilhotina foi inventada com esse fim. Mas, naquela ocasião, me ocorreu o pensamento de que talvez isso fosse pior. Pode lhe parecer absurda e bárbara esta minha idéia, mas, quando se tem imaginação, se chega, como eu, a supor isso. Pense! Se houvesse tortura, se, por exemplo, houvesse sofrimento, um ferimento que desse agonia corporal, e tudo o mais, isso pelo menos distrairia o espírito, desviando-o do sofrimento moral, de maneira que só se seria torturado pela dor física até que se morresse. Mas a principal e pior pena não está no sofrimento corporal e sim em se saber com segurança matemática que, em uma hora, depois em dez minutos, a seguir em meio minuto, e, depois, já, bem agora mesmo, neste segundo, a alma deve deixar o corpo, e se vai cessar de ser homem; e que isso tem de acontecer!... O pior de tudo isso está em que é certo. Quando o senhor deita a sua cabeça lá, debaixo da lâmina, e a ouve escorregar vindo para a sua cabeça, este quarto de segundo é o mais terrível de todos. O senhor note que isso não é imaginação da minha parte. Muita gente tem dito o mesmo. Vamos a ver se consigo lhe dizer cabalmente o que sinto. Matar, por causa de um assassinato, é uma punição incomparavelmente pior do que o próprio crime cometido. O assassinato por sentença judicial é incomensuravel-mente pior do que assassinato cometido por bandidos. Quem quer que seja assassinado por bandidos, e, cuja garganta tenha sido cortada, em um bosque, à noite, ou qualquer coisa assim, naturalmente que espera escapar até o último momento. Tem havido casos de uma pessoa ainda esperar escapar, correndo, ou suplicando misericórdia, e já depois da garganta ter sido cortada! Mas no outro caso, a que nos estamos referindo, toda esta última esperança, que faz morrer dez vezes, como é fácil compreender, está suprimida. pois se sabe que é certo, Há uma sentença; e toda a medonha tortura jaz no fato de que não há, certamente, meios de escapar. E não há, no mundo, tortura maior do que esta. Podem-se comandar soldados, mandar que um deles se coloque diante de um canhão, em batalha, e ele saber que vão dispará-lo sobre ele: ainda assim, terá uma esperança. Mas leia o senhor uma dada sentença de morte a esse mesmo soldado e ele ou enlouquecerá, ou cairá em lágrimas. Quem já afirmou que a natureza está capacitada para suportar isso, sem loucura? Para que e por que essa revoltante, inútil e desnecessária atrocidade? Talvez, por aí haja algum homem que já tenha sido exposto a tal tortura e a quem tenha sido dito: “Vai-te embora. Estás perdoado!” Tal homem decerto, nos pode dizer que foi dessa tortura e dessa agonia que Cristo falou, também. Não, não se pode tratar assim uma criatura humana!

Muito embora o lacaio não estivesse em condições de se exprimir como Míchkin, compreendeu muito, se não tudo, dessa conversa. Isso estava patenteado na expressão atônita do seu rosto.

- Já que o senhor está tão desejoso de fumar - observou ele - acho que terá tempo, talvez. Mas, apresse-se, pois Sua Excelência pode muito bem perguntar de repente quem estava.., e o senhor ainda estar lá fumando. Está vendo aquela porta, no vão da escada? Vá até lá, abra-a. Encontrará uma saleta, à direita. Pode fumar lá; mas seria bom abrir a janela, pois é contra as regras...

Míchkin, porém, não teve tempo para se informar melhor, nem muito menos para fumar. Entrou na sala um jovem com papéis embaixo do braço, que o olhou de esguelha. O lacaio ajudou-o a tirar o casaco de pele.

- Aqui este cavalheiro - começou o lacaio, em uma espécie de confidência quase familiar - se anuncia como Príncipe Míchkin e como parente da senhora generala. Acaba de chegar do estrangeiro, apenas com esse embrulho debaixo do braço...

O príncipe não percebeu o resto. Enquanto o lacaio cochichava, Gavríl Ardaliónovitch o escutava com muita atenção, olhando para o príncipe. Cessando afinal de ouvir, aproximou-se pressuroso:

- O senhor é o Príncipe Míchkin? - perguntou com extrema polidez e cordialidade.

Era um jovem de boa aparência, louro, de cerca de uns vinte e oitO anos, também de estatura média, com bonito penteado, uma barba à Napoleão III, o rosto vivo e simpático. Só o seu sorriso, todo afabilidade, era um pouco esquisito. Ostentava dentes que pareciam pérolas. A despeito da jovialidade e da aparente maneira natural, havia alguma coisa nele que era demasiado intencional, principalmente no modo dos seus olhos perquirirem.

Míchkin sentiu que, quando sozinho, esse homem devia parecer bem outro, talvez até não rindo nunca.

Explicou-se o mais breve que pôde, repetindo parte do que já expusera ao camareiro e a Rogójin. Enquanto isso, parecia que qualquer recordação se ia avivando no espírito de Gavríl Ardaliónovitch.

- Não foi o senhor que mandou uma carta a Lizavéta Prokoievna, há um ano, mais ou menos, da Suíça?

- Sim.

- Então estão a par de tudo, a seu respeito, e certamente se recordarão do senhor. Deseja ver Sua Excelência? Vou anunciá-lo. imediatamente. Sua Excelência deve ficar livre já. Somente... seria melhor se o senhor passasse para a sala de espera... Por que está aqui este senhor? - perguntou ao criado, arrogantemente.

- Digo-lhe já: não houve meios de o convencer a...

Bem neste momento a porta do escritório se abriu e um militar. com uma pasta debaixo do braço, se inclinou ao sair, falando alto. E uma voz exclamou lá de dentro do gabinete:

- Você já está aí, Gánia? Venha cá.

Gavril Ardaliónovitch fez sinal a Míchkin que esperasse, e entrou apressadamente para o escritório.

Nem dois minutos depois, a porta se reabria e a voz musical e afável de Gavril Ardaliónovitch se fazia ouvir.

- Príncipe, faça o favor de entrar.

 

O General Iván Fiódorovitch Epantchín estava de pé, no meio da sala, e olhava com extrema curiosidade para o jovem que entrava.

Deu mesmo dois passos em sua direção. Míchkin aproximou-se, apresentando-se.

- Perfeitamente - disse o general - em que lhe possoser útil?

- Não tenho nenhum assunto urgente. O objeto da minha  visita é simplesmente travar conhecimento com o senhor. Peço desculpas de incomodá-lo, mas como não conheço seus ajustes e horários para receber visitas. Estou vindo diretamente da estação. Acabo de chegar da Suíça.

O general esteve a ponto de sorrir, mas refletiu melhor e se conteve. Refletiu outra vez, acomodou melhor a vista, examinou seu visitante da cabeça aos pés. Rapidamente aproximou dele uma cadeira, sentou-se, por sua vez, perto, e se virou com impaciente expectativa.

Em pé, a um canto do escritório. Gánia arrumava uns papéis.

- Via de regra tenho muito pouco tempo para travar relações, - observou o general - mas como, sem dúvida, o senhor tem en mente algum...

- Eu esperava justamente que o senhor - interrompeu-o o príncipe - julgaria ter eu algum motivo especial nesta minha visita. No entanto, posso assegurar-lhe que não tenho nenhum outro a não ser o prazer de travar conhecimento.

- Naturalmente que isso também é um prazer para mim, mas a vida não é feita só de prazeres, o senhor sabe, tem-se, às vezes. trabalho, é claro... De mais a mais, ainda não atinei com o que possa haver de comum entre nós, digamos, a razão, o motivo, o fim...

- Efetivamente não há razão alguma, e o que há de comum realmente é pouco. Ser eu Príncipe Míchkin e a Sra. Epantchiná ser da minha mesma família e nome, não constituem, de fato, razão, basicamente. Compreendo muito bem, Todavia, foi só isso que me trouxe! Passei quatro anos fora da Rússia, o que é muito tempo. E além disso, quando me ausentei, não estava em perfeito juízo. Não conhecia ninguém aqui, nessa ocasião, e agora menos ainda. Preciso procurar gente de bem. Tenho, por exemplo, um negócio de importância a decidir e não sei de quem me valer. Em Berlim me veio a lembrança de que os seus eram, por assim dizer, parentes meus, e que portanto devia começar por aqui. Podemos ser úteis um ao outro: o senhor a mim e eu ao senhor, visto a sua gente ser tão distinta como tantas vezes ouvi declararem que era.

- Isso me desvanece muito... - disse o general, surpreendido. - Permita-me perguntar-lhe onde está hospedado?

- Não estou hospedado em lugar nenhum, por enquanto.

- Veio, então, do trem para aqui? É... sem bagagem?

- Toda a bagagem que possuo é um embrulho com a minha roupa branca; não tenho mais nada, Geralmente o carrego comigo. Terei tempo para tomar um quarto mais tarde.

- Então o senhor pensa tomar um quarto em um hotel?

- Oh! Sim, naturalmente.

- Pelas suas palavras, no começo. supus que tivesse vindo para permanecer aqui.

- Isso poderia ser só mediante um seu convite, Confesso todavia, que mesmo se fosse convidado não permaneceria, sim plesmente porque seria contra a minha natureza.

- Então dá no mesmo que eu não o tenha convidado nem o vá convidar. Conceda, príncipe, de maneira a tornar as coisas claras uma vez por todas: desde que estamos de acordo não podermos trazer à baila parentesco nem relações de amizade entre nós. parentesco e relações que aliás muito me desvaneceriam, não há mais nada senão,..

- Senão me levantar e ir embora?! - E Míchkin se ergueu, rindo com positiva jovialidade, apesar de toda a visível dificuldade da sua situação. - E pode crer, general, conquanto eu desconheça os costumes daqui, e nada saiba da vida prática, que ainda assim estou verificando que o que está acontecendo tinha de se dar. Talvez seja melhor dessa maneira. Aliás já não responderam à minha carta, logo... Bem, até à vista; e desculpe ter incomodado.

O rosto do príncipe foi tão cordial, nesse momento, e o seu sorriso tão limpo da menor sombra de qualquer gênero de malquerença, que o general ficou subitamente surpreso e passou a considerar o seu visitante sob um diferente ponto de vista. Deu-se logo uma mudança total na sua atitude.

- Quer saber de uma coisa, príncipe? Muito embora eu não o conheça - disse com uma voz muito outra - ainda assim Lizavéta Prokófievna gostará decerto de ver uma pessoa que tem o seu mesmo nome. Fique um pouco, se pode e se é que dispõe de tempo.

- Oh! Tempo é que não me falta; é inteiramente propriedade minha.. - E o príncipe imediatamente depôs o chapéu mole de abas redondas sobre a mesa. - Confesso que espero que Lizavéta Prokófievna venha a se lembrar de que lhe escrevi. O criado do senhor, ainda agora, quando eu estava esperando. suspeitou que eu tivesse vindo para implorar auxílio, Percebi isso e concluí que se tratava de ordens estritas dadas a tal respeito. Mas, na verdade, não vim com essa intenção; vim apenas para travar relações. Apenas receio estar atrapalhando, e isso me constrange.

- Bem, príncipe, se realmente é a pessoa que parece ser - disse o general, com um sorriso bem-humorado - - deve ser agradável travar relações com o senhor: mas acontece que sou um homem ocupado, como está vendo, e sou obrigado a sentar-me de novo, olhar e assinar certas coisas; depois, devo ir à casa de Sua Alteza e ao escritório da Companhia; não posso me livrar destas contingências, embora goste de ver pessoas, gentis, naturalmente. Estou certo de que é um homem bem-educado.. Qual a sua idade. príncipe?

- Vinte e seis.

- Oh! Pareceu-me bem mais moço.

- Realmente, já me disseram que aparento menos idade. Procurarei não estorvá-lo, pois não gosto de estorvar. E percebo. além do mais, que somos bem diversos, através de diversas circunstâncias, não podendo por isso ter muitos pontos em comum. Entretanto esta minha última proposição pode não valer, pois muitas vezes, parecendo não haver pontos em comum, os há e muitos... É só por comodidade que as pessoas se classificam segundo as aparências, acabando por não acharem nada de comum entre si. Mas, talvez eu o esteja incomodando, o senhor parece que...

- Duas palavras ainda. Tem o senhor recursos, ou pretende seguir alguma espécie de trabalho? Desculpe estar perguntando.

- Aprecio e compreendo a sua pergunta. No momento não disponho de recursos, nem de ocupação, mas terei. O dinheiro últímo que tive não era de minha propriedade, me foi dado para a viagem pelo Prof. Schneider, que me estava tratando e educando na Suíça. Chegou resvés para a viagem, de maneira que só tenho, agora, alguns copeques. Há, porém, uma coisa e sobre a qual até preciso muito me aconselhar, mas...

- Diga-me como pretende viver, então, enquanto isso? Quais são os seus planos?

- Desejo trabalhar seja no que for.

- Oh! Então o senhor é um filósofo? Acautelou-se, porém, com alguns talentos, alguma habilitação, fosse o que fosse, de qualquer maneira, de modo a poder ganhar a vida? Mais uma vez me perdoe.

- Oh! Por favor, não me peça desculpas. Não. Suponho que não tenho propensão nem habilitação particular alguma para nada. Pelo contrário, até, pois sou doente e não pude ter uma educação sistemática. Quanto à minha vida, pretendo...

O general interrompeu-o e começou a interrogá-lo. Disse-lhe o príncipe tudo quanto já foi narrado até aqui.

Parece que o general já tinha ouvido falar do seu benfeitor Pavlíchtchev e que o conhecera mesmo pessoalmente.

Por que se interessara Pavlíchtchev na sua educação, não soube o príncipe explicar; provavelmente decorrera isso de simples amizade, de longa data, com seu pai. Perdera Míchkin os pais quando era bem criança. Crescera e passara toda a vida no campo, cujo ar era essencial à sua saúde. Pavlíchtchev pusera-o a cargo de umas senhoras de idade, suas parentas, contratando-lhe uma governanta e depois um tutor. Disse o príncipe que, conquanto se recordasse de muita coisa, muitas peripécias havia na sua vida que não saberia explicar porque nunca as viera a entender completamente. Que freqüentes ataques de uma moléstia tinham feito dele um idiota. (Empregou pessoalmente essa palavra “idiota”.) Explicou que Pavlíchtchev encontrara em Berlim o Prof. Schneider, um especialista suíço em tais doenças, com uma instituição no Cantão de Valais, onde cuidava de doentes que sofriam de idiotia e de loucura, tratando-os por métodos próprios, com duchas frias e ginástica, educando-os, superintendendo o desenvolvimento mental deles. E que, então, Pavlíchtchev o mandara para a Suíça, para esse médico, havia aproximadamente cinco anos, tendo, porém, morrido logo dois anos depois, sem ter tomado providências a seu respeito. E que Schneider o conservara durante mais dois anos, continuando o tratamento e a educação; conquanto não o tivesse curado de todo, tinha conseguido melhorar sobremaneira a sua condição. Por último, por deliberação própria, e devido, principalmente, a certo fato que inesperadamente acontecera, o tinha mandado de volta à Rússia.

O general ficou muito surpreendido, e perguntou:

- E o senhor não tem ninguém na Rússia? Absolutamente ninguém?

- No momento, ninguém. Mas tenho esperanças. Recebi uma carta estranha sobre a qual até...

O general cortou-lhe a frase, fazendo outra pergunta imediata:

- Foi o senhor, todavia, treinado, no mínimo, para alguma coisa? Essa sua aflição doentia não o impediria, por exemplo, de ocupar algum posto fácil?

- Oh! Certamente que não impediria. E como eu ficaria contente com um lugar qualquer! Ao menos para ver de que sou capaz. Estive estudando, durante estes últimos quatro anos, sen interrupção, embora por um sistema adequado, inteiramente fora dos planos habituais dos outros. E me entretive muito a ler o russo também.

- O russo? O senhor conhece, então, a gramática russa, e pode escrever sem erros?

- Oh! Perfeitamente.

- Ótimo, ótimo; e a sua caligrafia?

. A minha letra? É excelente. Posso até chamar a isso un talento, pois sou um perfeito calígrafo. Deixe-me escrever-lhe qual quer coisa, como amostra - disse o príncipe, entusiasmando-se.

- Com a melhor das boas vontades. Sabe bem que é uma coisa essencial, saber escrever. E a sua presteza me agrada, príncipe. O senhor é muito agradável, deixe-me dizer-lhe.

- Que material esplêndido para escrita, esse que o senhor tem aqui! Que porção de penas! Quantos lápis! Este papel é magnífico! Sempre preferi papel assim compacto! Que maravilhoso escritório. Conheço aquela paisagem. É uma vista da Suíça. Garanto que o artista a pintou no próprio sítio, que aliás também conheço. É no Cantão de Uri...

- Muito provavelmente. Mas foi comprada aqui. Gánia, dê ao príncipe algum papel. Escolha a pena que quiser. E o papel. Escreva naquela mesinha. Que é isso? - perguntou o general, voltando-se para Gánia que nesse ínterim tinha tirado da pasta uma grande fotografia, tendo-a agora nas mãos.

- Ah! Nastássia Filíppovna! Foi ela quem lhe mandou? Ela mesma? - perguntou com muita curiosidade e de modo impetuoso. - Deu-me agora mesmo. Quando lhe fui levar as minhas congratulações. Há muito tempo que eu lhe vinha pedindo. Nem sei se não teria sido proposital, da parte dela, por ter aparecido lá com as mãos vazias em uma data como esta - ajuntou Gánía com um sorriso desagradável.

- Oh! Não - afirmou o general com muita convicção. - Que mania tem você de entender as coisas! Provavelmente ela não quis insinuar isso. De mais a mais, não é interesseira. E afinal, que espécie de presente lhe poderia você oferecer? Teria de custar alguns mil rublos! Você lhe poderia dar o seu retrato, talvez? E, a propósito, ela ainda não lhe pediu um retrato seu?

- Não pediu e, decerto, nunca o fará. Não vá se esquecer da recepção esta noite. Iván Fiódorovitch, naturalmente! O senhor é um dos mais especialmente convidados.

- Não me esquecerei. Fique tranqüilo que não me esquecerei Hei de ir. Pelo que me parece, ela faz vinte e cinco anos!... Ouça. Gánia, não pretendo contar-lhe um segredo; prepare-se, em todo o caso. Ela nos prometeu, a mim e a Afanássii Ivánovitch, dizer a palavra final, na recepção desta noite. Prepare pois o seu espírito.

Gánia ficou tão repentinamente zonzo que empalideceu um pouco

- Ela disse isso? Deveras? - perguntou ele com voz trêmula

- Deu-nos a sua promessa, anteontem. Nós a apertamos tanto que acabou prometendo. Mas me recomendou que não lhe dissesse nada antes.

O general olhou Gánia com firmeza: evidentemente não lhe agradava a perturbação que o outro não sabia disfarçar.

- Iván Fiódorovitch há de recordar - disse Gánia hesitante e preocupado - que Nastássia Filíppovna me deixou em franca liberdade até que ela resolvesse, ficando ainda assim a decisão como última palavra minha.

- Que é que você quer dizer com isso?... Que é que você quer dizer com isso? - O general ficou alarmado.

- Não quero dizer nada.

- Veja lá, por Deus, em que situação nos vai você querer deixar!

- Não estou dizendo que recuso. Não me exprimi bem...

- Recusar? Que idéia é essa? - perguntou o general, patenteando bem a sua decepção.

- Não se trata de recusar, sabemos, meu rapaz. Trata-se da presteza, do prazer e do júbilo com que você deve receber a notícia de uma tal promessa... As coisas, em casa, como vão?

- Isso não importa! Quem decide as coisas em casa sou eu. Só meu pai é que continua a se fazer de maluco, como de hábito; o senhor sabe bem a que ponto lastimável ele chegou. Não nos falamos; mas estou sempre de olho nele e, se não fosse minha mãe, já o teria posto fora de casa. Minha mãe não faz outra coisa senão chorar, é lógico; minha irmã emburra. Mas já lhes disse de uma vez para sempre que faço o que quero e que em casa quem manda sou eu... Esclareci isto muito direitinho à minha irmã, na presença de minha mãe.

- Ora aí está um ponto que ainda não consegui compreender, meu rapaz - observou o general, como que meditando; depois, mexendo com as mãos e encolhendo os ombros, prosseguiu - Nina Aleksándrovna, no outro dia, quando me veio ver, soluçou e se lastimou; você há de se lembrar. Que seria? me pergunto eu. Parece que considera uma desonra. Mas permita que pergunte: Desonra em quê e por quê? De que se pode exprobrar Nastássia Filíppovna ? Que se pode censurar nela? Ter vivido com Tótskii? Mas, dadas as circunstâncias, isso é tão pueril! “O senhor não a apresentaria às suas filhas!” diz ela. Bem, e que mais? Como é que ela não enxerga? Como é que ela não entende...

- Não entende o quê? A sua própria situação? - insinuou Gánia ao general que se interrompera embaraçado. - Que quer o senhor? Não há meios dela entender, mas não se zangue com ela, por isso. Já lhe dei uma lição para não se intrometer mais em assuntos alheios. E olhe, se em casa todavia ainda estão relativamente quietos é por não ter Nastássia Filíppovna dado uma resposta definitiva! Mas a tempestade está próxima. Tão próxima, que será hoje, na certa, que se desencadeará.

Míchkin, sentado no canto, escrevendo, ouvia toda a conversa. Quando acabou, trouxe a página escrita, aproximando-se da mesa.

- Ah! Então esta moça é que é Nastássia Filíppovna!? - fez ele, olhando com muita atenção e curiosidade para o retrato. - Mas é belíssima - acrescentou logo, com entusiasmo.

Realmente era o retrato de uma mulher extraordinariamente bela; estava com um vestido de seda preta muito simples e bem cortado, com os cabelos, que deviam ser castanho-escuros arranjados em um penteado singelo. Os olhos eram negros e profundos, a testa pensativa. Tinha uma expressão aflitiva e, por assim dizer, desdenhosa. E o rosto um pouco delgado era talvez pálido.

Gánia e o general fixaram Míchkin com surpresa.

- Nastássia Filíppovna? Dar-se-á o caso do senhor conhecer Nastássia Filíppovna? - titubeou o general.

- Conheço. Estou apenas há vinte e quatro horas na Rússia mas ja conheço uma beleza de tal teor! - confirmou Míchkin. E então lhes descreveu o encontro, no trem, com Rogójin, e tudo quanto este lhe havia contado.

- Ora aqui temos nós mais uma novidade! - disse o general meio atarantado. Prestara muita atenção à história que Míchkin Contara e olhava agora para Gánia, refletindo.

- Rogójin? Sim, já soube dessa cena de bebedeira. É um negociante, não é? Trata-se, aliás, de uma rematada maluquice!

- Eu também soube! - redargüiu o general. - Nastássia Filíppovna me contou essa história dos brincos, uma vez. Mas agora as coisas mudaram muito, agora há alguns milhões e... uma paixão. E nós bem sabemos do que são capazes esses cavalheiros quando bêbados!... Hum! Tomara que não sobrevenha nada de sensacional! - concluiu o general, algo pensativo.

- Parece que o senhor está com medo dos milhões desse homem! - sorriu Gánia, afetadamente, - E você naturalmente não está!?

Gánia voltou-se logo para o príncipe:

- Diga-me uma coisa, príncipe. Que impressão teve o senhor desse Rogójin? Pareceu-lhe pessoa séria, ou apenas algum rematado louco? Qual a sua opinião?

Enquanto Gánia fazia esta pergunta, algo de novo se instalava na sua alma. Uma idéia nova e específica que lhe abrasava o cérebro fazendo-lhe fulgurar os olhos. O general, que também estava bastante preocupado, olhou, por sua vez, de relance, para o príncipe, muito embora não parecesse contar muito com a resposta deste último.

- Não sei o que lhe diga - respondeu o príncipe - mas uma coisa lhe garanto: há nele uma grande paixão; posso mesmo adiantar mais: uma paixão mórbida. Aliás ele me parece mesmo bem doente e pode vir a fazer, outra, vez, dentro de um ou dois dias, uma das suas, principalmente se prosseguiu na orgia.

-  O senhor acha? - perguntou o general, refletindo sobre essa opinião.

- Acho.

- Uma das suas, só daqui a um ou dois dias? Talvez ainda hoje, isso sim, e até antes mesmo desta noite! - disse Gánia ao general, em um arreganho.

- Hum... Talvez, talvez... E então tudo dependerá da veneta em que ela estiver! - ponderou o general.

- E o senhor bem sabe o feitio dela, às vezes!

- Qual feitio? Que quer você dizer? - e o general ficou como que suspenso por uma extrema perturbação.

- Ouça, Gánia, faça-me o favor de pelo menos hoje não contradizê-la muito. E tente... agradá-la deveras. Hum! Que cara é essa? Ouça, Gavríl Ardaliónovitch, não está fora de propósito tornar eu a perguntar-lhe que quer você, afinal de contas! Você sabe muito bem que, no que a mim se refere, esse caso não me sobressalta. De uma maneira, ou de outra, tenho as coisas estabelecidas. Tótskíi já decidiu tudo de uma vez por todas, e estou perfeitamente tranquilo; por conseguinte, que me está preocupando é apenas o seu bem. E isto uma coisa que lhe deve estar entrando pelos olhos a dentro. Você não tem o direito de desconfiar de mim. Além disso, você é un homem... um homem... de senso, realmente, e já venho contando com você para o presente caso desde... desde...

- É isso que é o importante , - acrescentou Gánia, tirando o general da sua hesitação. Depois contraiu a boca em um sorriso maligno, que não procurou esconder, e fitou bem o general; no rosto, com olhos febris, como se quisesse ler através daqueles olhos tudo quanto lhe passava pelo espírito. O general corou. amuado.

- Perfeitamente - aquiesceu ele. - Juízo é o principal. - O seu olhar era cortante.

- Você, às vezes, é um sujeito engraçado. Gavríl Ardaliónovitch. Agora, por exemplo, parece que está vendo nesse negociante Rogójín uma saída oportuna para qualquer embaraço seu. Mas é justamente pelo senso que você se deve guiar. neste caso, antes de mais nada. Você deve, neste negócio, pensar e agir honestamente, e às direitas, para com ambos os lados; e, mais ainda, ficar precavido, de antemão, para evitar comprometer os outros, principalmente tendo tido, como teve, tempo suficiente para deliberar e agir. Com efeito, ainda há tempo (e nisto o general franziu as sobrancelhas, significativamente), muito embora para isso você só tenha diante de si algumas horas. Está entendendo? Entendeu bem? Você quer, ou não quer? Se não quer, diga logo de uma vez, e fique à vontade. Ninguém o está coagindo, Gavria Ardaliónovitch, ninguém Lhe está preparando uma armadilha. Isto, caso você ache que se trata de uma armadilha.

- Eu quero - respondeu Gánia, em voz baixa mas firme; abaixou os olhos e afundou em um silêncio quase sinistro.

O general ficou satisfeito. Excedera-se, talvez, por causa da mútua perplexidade, tendo, evidentemente, ido mais longe do que devia. Virou-se, afinal, para Míchkin e a sua face traiu, sem querer, a verificação desagradável de que o príncipe, estando ali, tinha ouvido tudo. Mas logo se tranqüilizou: bastava a quem quer que fosse olhar para Míchkin para não recear nada.

-   Oh! - exclamou olhando para o modelo de caligrafia que Míchkin lhe mostrava. - Que letra! Esplêndido! Gánia, venha ver Que habilidade!...

Sobre a espessa folha de pergaminho o príncipe tinha escrito, em caracteres medievais russos, a sentença: o humilde hegúmeno Pafnútii apôs aqui a sua assinatura.

- Esta - explicou Míchkin com extraordinário prazer e sofreguidão - é precisamente a assinatura do hegúmeno Pafnútii, copiado de um manuscrito do século XIV. Os nossos velhos monges bispos costumavam assinar os seus nomes de modo bonito e, às vezes, com que bom gosto e aplicação! O senhor não tem a coleção de Pogódin, general? E aqui já escrevi em um estilo diferente; esta é a maneira francesa da letra redonda, do último século, quando muitas letras eram bem diversas do que são hoje. E a escrita da praça, dos escrivães públicos; imitada dos seus modelos. Tenho um comigo. O senhor há de concordar que isso tem os seus quês! Olhe, por exemplo, estes DD e estes ss redondos. Adaptei a escrita francesa ao alfabeto russo, o que é muito difícil, mas ficou ótimo. Veja agora esta outra letra aqui não é original? Veja a frase “A perseverança transpõe todos os obstáculos”. É a caligrafia russa de um escrivão profissional ou militar. Era assim que as instruções governamentais eram escritas a certas pessoas importantes. Esta outra, aqui, é uma caligrafia redonda, também, com esplêndidas letras negras, bem grossas, traçadas com um notável bom gosto. Um especialista na arte da caligrafia desaprovaria estes floreios, ou melhor, estes exageros de floreios, estes traços que nunca mais acabam. Veja-os bem; contudo, dão um certo caráter e, na verdade, através deles o senhor está vendo a alma do escrivão militar espiando, demorando em interromper a expressão do seu talento. E o senhor está vendo até o colarinho militar apertado em volta do pescoço... chega-se a ver até mesmo a disciplina, através desta caligrafia. É adorável! Não imagina como me impressionou um espécime destes, ultimamente; descobri-o por acaso. Pus-lhe a mão, imagine justamente onde? Na Suíça! Agora, esta aqui é a letra simples e comum, inglesa; impossível ir-se mais além, na arte. É toda esquisita, finíssima, parece feita de contas e pérolas, não falta nada! E aqui tem o senhor uma variação, já esta agora francesa; obtive-a de um viajante comercial francês. O estilo é o mesmo da inglesa, mas os traços negros são feitos com golpes mais grossos do que os golpes ingleses e, conforme está vendo, a proporção se perdeu. Repare, também que o oval é um nada mais redondo, admitindo-se também o ornato. Todavia, o ornato é uma coisa perigosa; requer um extraordinário, bom gosto e tem acolhida, mas só se a simetria for atingida; e então, a escrita se torna incomparável e a gente simplesmente se apaixona por ela!

- Oh! Mas o senhor perpetra verdadeiras maravilhas! - disse o general, sorrindo. O senhor não é apenas um bom calígrafo meu caro amigo, o senhor é mais é um artista! Hein. Gánia?

- Maravilhoso - disse Gánia - e ele também está convenci do da sua vocação! - acrescentou com uma risada sarcástica.

- Você pode rir, mas que há nele uma carreira, há! – disse o general. - Sabe, príncipe, para que personagem vai agora o senhor escrever? Ora, bem pode contar com trinta e cinco rublos por mes para começar. Mas, são doze e meia - disse, consultando o relógio - Vamos pois a isso, príncipe. Tenho pressa e talvez não o veja mais hoje. Sente-se, por um minuto, Já lhe expliquei que não posso vê-lo muitas vezes; mas estou sinceramente disposto a ajudá-lo um pouco; naturalmente, isto é, naquilo que for essencial! E, quanto ao resto, o senhor deve agir conforme lhe convier mais. Arranjar-lhe-ei um lugar no escritório, um emprego bem fácil, mas que exija exatidão. Passemos adiante.

Na residência, ou melhor, na família de Gavríl Ardaliónovitch Ivolguin, aqui este meu jovem amigo, com quem peço desde já que se dê, a mãe e a irmã separaram dois ou três quartos mobiliados e os cedem com pensão e trato, alugando os a hóspedes especialmente recomendados, Para o senhor isto écomo coisa caída do céu, príncipe, pois não ficará só e sim, por assim dizer, no seio da família; a meu ver, não convém que o senhor se isole logo no começo, em uma cidade como Petersburgo Nina Aleksándrovna e sua filha Varvára Ardaliónovna são senhoras por quem tenho o maior respeito. Nina Aleksándrovna é mulher de um general reformado que foi meu camarada desde que entrei para o serviço, embora, devido a certas circunstâncias tenha rompido relações com ele, o que não me impede, em certo sentido, de o respeitar. Digo-lhe tudo isso, príncipe, para que perceba que o apresento pessoalmente e que, portanto, me faço, em certo modo, responsável pelo senhor. O preço e as condições são extremamente módicos, e espero que o seu salário brevemente já lhe dê para enfrentá-los Naturalmente, uma pessoa precisa sempre de dinheiro trocado, no bolso, mesmo que seja um pouco, apenas, mas o senhor não se zangará comigo se eu lhe aconselhar a não ter muito dinheiro no bolso. Depreendo isso pela impressão que tive do senhor. Como. todavia, sua bolsa está presentemente vazia, permita-me emprestar-te vinte e cinco rublos para as suas despesas mais imediatas. O senhor me pagará depois, naturalmente, e sendo uma pessoa honesta sincera, como indubitavelmente parece ser, nenhuma incompreensão poderá surgir entre nós. Tenho um motivo para me interessar pelo seu bem-estar; sabê-lo-á mais tarde. Vê, estou sendo perfeitamente correto com o senhor. Espero. Gánia, que você nada tenha a opor à instalação do príncipe em sua casa!...

- Oh! Muito pelo contrário. Minha mãe ficará contente -aquiesceu Gánia, polidamente.

- Vocês só têm um quarto alugado, creio eu. Mora lá aquele Ferd... ter...

- Ferdichtchénko.

- É isso, é isso, Ferdichtchénko. E não simpatizo nada com ele. Não passa de um ordinaríssimo palhaço. Está aí uma coisa que não compreendo: Nastássia Filíppovna dar-lhe tanta confiança. É mesmo parente dela?

- Que nada! É pilhéria. Não há o menor traço de parentesco.

- Bem, enforquemo-lo. Então, príncipe, está satisfeito?

- Agradeço-lhe muito, general. O senhor foi muito bondoso para comigo, e, o que é mais, sem eu lhe ter pedido ajuda. Não estou falando assim por orgulho. De fato não sabia e nem tinha onde ir pousar a cabeça. É verdade que, ainda há pouco, Rogójin me convidou.

- Rogójin? Oh! Mas não! Aconselhá-lo-ia, como pai, ou se o senhor prefere, como amigo, a esquecer-se de Rogójin. E ao mesmo tempo o aconselharia a preferir a família para a qual lhe propus entrar como hóspede.

- Já que o senhor é tão bondoso - começou o príncipe - tenho necessidade de um conselho sobre um negócio. Eu recebi uma notificação sobre...

- Perdoe-me - interrompeu-o o general. - Não tenho sequer um minuto mais. Vou falar com Lizavéta Prokófievna a seu respeito. Se ela desejar vê-lo agora (vou tentar dar-lhe as melhores impressões a respeito do senhor!) aconselho-o a aproveitar a oportunidade e ganhar-lhe as boas graças, pois Lizavéta Prokófievna lhe pode ser muito útil. Além do mais o senhor tem o mesmo nome que ela! Se ela não quiser, não há outro jeito, se não outra vez, decerto! E você, Gánia, neste ínterim, vá-me olhando estas contas. Eu e Fedosséiev estivemos lutando em vão, com elas. Não se esqueça de incluí-las.

E o general saiu sem que Míchkin tivesse conseguido falar-lhe acerca do negócio que, por quatro vezes, em vão, ensaiara. Gánia acendeu um cigarro, e ofereceu outro ao príncipe. Este aceitou, mas refreou a vontade de conversar, receoso de se tornar importuno. Começou a olhar o escritório. Mas Gánia mal olhou para a folha de papel coberta de números e para a qual o general lhe tinha chamado a atenção. Estava preocupado. O seu sorriso, a sua expressão, os seus pensamentos pesavam sobre Míchkin. Principalmente depois que ficaram sós. E, de repente, ele se aproximou do príncipe. que justamente estava em pé, contemplando o retrato de Nastássia Filíppovna.

- Então, o senhor admira uma mulher como esta, príncipe? - perguntou, pesquisando-lhe a atitude, como se tivesse alguma intenção especial. E o príncipe respondeu:

- Tem um rosto maravilhoso. E percebo que a história dela não é uma história comum. É um rosto prazenteiro. Mas não teria ele passado já por terríveis sofrimentos? Os seus olhos nos dizem isto, e as suas faces, e este trecho debaixo dos olhos! É um rosto altivo, pasmosamente orgulhoso, mas não sei se ela tembom coração! Se tiver, ah!... Isso a redimiria! De tudo!...

- Casar-se-ia o senhor com essa mulher? - prosseguiu Gánia. pondo nele uns olhos febris.

- Não posso me casar com ninguém. Sou doente.

- E Rogójin? Casar-se-ia ele com esta mulher? Que acha o senhor?

- Rogójin? Casar-se-ia hoje mesmo! Digo mais: casar-se-ia hoje, mas uma semana depois, talvez a matasse.

Ao pronunciar estas palavras, viu Gánia estremecer tão violentamente que logo lhe gritou:

- Está sentindo alguma coisa? - E o segurou, espantado.

- Alteza! Sua Excelência pede a Sua Alteza que se digne entrar! - anunciou o lacaio, aparecendo à porta.

O príncipe seguiu-o.

 

As três filhas do General Epantchín eram moças florescentes, sadias e bem desenvolvidas, com ombros magníficos, bustos bem conformados e braços quase masculinos; e, naturalmente, assim saudáveis e robustas, gostavam de um bom jantar e não escondiam isso a ninguém. A mãe, às vezes, olhava de soslaio para a franqueza desses apetites, e embora suas advertências fossem recebidas sempre com mostras de respeito, muitas de suas opiniões tinham cessado de ter a irrefutável autoridade de tempos passados, tanto mais que as três moças, agindo sempre de acordo, exerciam tal força sobre sua mãe que esta, para salvaguardar a sua dignidade, dera ultimamente em consentir, cedendo diante de qualquer oposição. O temperamento materno, diga-se de passagem, era muitas vezes empecilho aos ditames do bom senso, pois Lizavéta Prokófievna se tornava cada ano mais caprichosa e impaciente. O marido até a considerava um pouco excêntrica, o que o obrigara, experimentado como era, a uma política mais submissa, visto os modos desenvoltos da esposa acabarem sempre por desabar sobre ele. Mas a harmonia doméstica logo se restabelecia e tudo ficava de novo bem.

A Sra. Epantchiná não tinha sequer perdido o apetite e, como de regra, se reunia às filhas, às doze e meia, para uma refeição tão substancial que equivalia quase a um jantar. As moças tomavam uma xícara de chá, mais cedo, ainda na cama, ao acordarem, precisamente às dez horas. Gostavam desse costume que já era mais que hábito. Às doze e meia a mesa era servida na sala de almoço existente ao lado dos apartamentos maternos e, ocasionalmente, quando o general dispunha de tempo, se reunia à família, para tal fim. Além de café, chá, queijo, mel, manteiga, filhós especiais de que a dona da casa gostava muito, costeletas e mais coisas, sem contar um caldo de carne bem quente, eram os pratos habituais.

Na manhã em que a nossa história começa, toda a família estava reunida na saleta de almoço, esperando pelo general que prometera aparecer na hora certa. Se se tivesse atrasado um momento que fosse o mandariam chamar, mas foi pontual. Dirigindo-se à esposa, para lhe beijar a mão e lhe dar bom dia, percebeu qualquer coisa esquisita no rosto dela. E, conquanto tivesse tido um pressentimento, a noite toda, de que isso iria acontecer, devido ao “incidente” (sua expressão genérica peculiar), havendo até perdido o sono, por tal motivo, ainda assim se alarmou outra vez, agora. As filhas vieram beijá-lo. E, embora não estivessem zangádas com ele, também, por sua vez, tinham um ar diferente. Verdade se diga que, ultimamente, o general vinha dando motivos para certas suspeitas; mas como era um pai e um esposo de experiência e às direitas, soubera tomar as suas medidas de precaução. Ajudará, talvez, a clarear esta nossa história um pouco mais, se interrompermos esta seqüência e introduzirmos explicações diretas quanto às circunstâncias e relações em que vamos surpreender a família do General Epantchín no começo desta narrativa. Acabamos de dizer que o general, conquanto homem originariamente de pouca educação fina, era marido experimentado e um pai às direitas. Adotara, por exemplo, como princípio, não se apressar quanto ao casamento das filhas, isto é, não se aborrecer nem se incomodar relativamente à felicidade delas com uma exagerada ansiedade, como o fazem natural e inconscientemente muitos pais, principalmente em certas famílias cuja sensibilidade cresce na proporção direta das solteironas que se vão acumulando. Sempre conseguiu que Lizavéta Prokófievna concordasse com ele a respeito deste princípio, muito embora se tratasse de atitude difícil por não ser muito natural. É que o general sabia basear os seus argumentos em fatos palpáveis e excessivamente eloqüentes.

Por conseguinte, deixadas livres em vontade e decisão, as meninas por si mesmas foram se tornando aptas a realizar os seus intentos, disso resultando as coisas marcharem suavemente, trabalharem elas de boa vontade e desistirem de ser caprichosas ou de levar vida fastidiosa. Tudo quanto restava ao casal fazer seria, pois, ajudá-las acer infalíveis, vigiando-as, sem que dessem por isso, para que não fizessem escolhas esquisitas, nem mostrassem disposições e tendencias esdrúxulas. Então, em hora oportuna e decisiva, eles, pais, viriam em sua assistência, com toda a energia e influência, de modo a que as coisas tivessem bom remate. O simples fato, também, de que sua fortuna e roda social cresciam em progressão geométrica, fez as moças subirem na cotação do mercado matrimonial, cada vez mais, à medida que o tempo caminhava.

Mas todos esses fatos incontestáveis devem ser confrontados com um outro: a filha mais velha, Aleksándra, sem notar (como sempre acontece) alcançou, solteira, a idade de vinte e cinco anos. E quase paralelamente a isso, Afanássii Ivánovitch Tótskii, homem da melhor sociedade, de altas ligações e extraordinariamente rico, sexpressou, mais uma vez, o seu desde muito acariciado desejo de se casar. Era um homem de cinqüenta e cinco anos, de temperamento artístico e extraordinariamente refinado. Queria fazer um bom casamento, era grande admirador da beleza feminina e estava, desde algum tempo, em termos de amizade íntima com o General Epantchín, especialmente depois que ambos tomaram parte, juntos, em certas empresas financeiras. Fora então que apalpara o assunto, como que, a bem dizer, lhe solicitando conselho e orientação amigável. Viria a ser levada em consideração uma proposta de casamento com uma de suas filhas? Evidentemente estava prestes uma alteração no curso da vida tranqüila da família do general...

A beleza da família era, como já dissemos, inquestionavelmente, a mais nova, Agláia. Mas o próprio Tótskii, homem de extraordinário egoísmo, compreendeu que olharia em vão nesse rumo e que Agláia não era para ele. Talvez o amor como que cego e a superardente afeição das irmãs tivessem exagerado a situação; é que tinham, por assim dizer, combinado entre si, com a maior naturalidade, que o destino de Agláia não poderia ser um destino qualquer, e sim o ideal mais alto possível de felicidade terrena. O futuro esposo de Agláia deveria ser um modelo de todas as perfeições e capacidades, bem como o possuidor de vasta fortuna. As irmãs tinham até concordado, sem se externar muito a tal respeito, em sacrificar seus interesses a favor de Agláia. O dote teria de ser colossal, inaudito. Os pais não ignoravam essa espécie de pacto por parte das duas filhas mais velhas; e assim, quando Tótskii se aconselhou, eles ficaram certos de que uma das mais velhas consentiria em coroar os seus desejos e esperanças, principalmente tendo em vista que Afanássii Ivánovitch não fora nem seria exigente a propósito de dote. O general, com o seu grande conhecimento da vida, ligou desde logo a maior importância à proposta de Tótskii. Dadas certas circunstâncias, este Tótskii tinha de ser extremamente prudente e circunspecto em sua conduta. De fato, ele estava simplesmente tateando o seu caminho, os pais apenas tendo apresentado o caso às filhas como uma remota proposição. Receberam como resposta a segurança satisfatória, conquanto nãocategórica, deque Aleksándra, a mais velha, talvez não recusasse. Era uma boa moça, bastante sensata, muito fácil de ser levada, apesar de algo voluntariosa. Era provável que consentisse de bom grado em se casar com Tóstkii. E se viesse a dar a sua palavra, a manteria com toda a honorabilidade. Não era afeita a aparentar coisas.

Com ela não haveria o risco de mudanças e altercações e podia trazer, muito bem, doçura e paz àvida do seu marido. Era muito formosa embora não o fosse arrebatadoramente. A que situação melhor poderia aspirar Tótskii?

Todavia, o projeto ainda estava no período  de tentativa, ficando amistosamente assentado entre Tóstkii e o general que não dariam, por enquanto, nenhum passo irrevogável e final. Os pais não tinham mesmo falado abertamente às filhas, pois havia, em tal assunto, sinais de um elemento de discórdia; a Sra. Epantchiná, a mãe. começava a demonstrar descontentamento; e isso era uma questão importantíssima. Havia um obstáculo sério, fator complicado. Perturbando tudo e podendo até vir a arruinar o caso, completamente.

Este fator complicado e perturbador surgira em cena - como o próprio Tótskii se expressara - havia muito tempo, uns dezoito anos antes.

Afanássii Ivánovitch possuía uma de suas lindas propriedades em uma província central da Rússia. Fora seu vizinho mais próximo o proprietário de um pequeno e decadente domínio, homem célebre justamente por seu contínuo e incrível azar. Tratava-se de um oficial reformado, de uma família até mesmo melhor do que a de Tótskii. Chamava-se Filípp Aleksándrovitch Baráchkov. Sobrecarregado de dívidas e hipotecas, conseguira afinal, depois de trabalhos exaustivos à maneira dos camponeses, pôr as suas terras em situação mais ou menos favorável. Era um homem que ao menor sial de melhoria se transfigurava. Radiante e esperançado, viajou, por uns poucos de dias, até à pequena cidade do distrito, para tentar um acordo com um dos seus principais credores. Não havia bem dois dias que estava na cidadezinha, quando o starosta (Camponês mais respeitado de uma aldeia, que os demais camponeses elegem como chefe.) da sua pequenina aldeia chegou, a cavalo, com a barbicha tostada e o rosto desfigurado, a informá-lo de que o solar tinha sido incendiado na véspera, em pleno meio-dia e que a senhora tinha morrido, queimada, estando porém as crianças intactas. Tal surpresa era demais para Saráchkov, apesar de acostumado a ser pasto da adversidade. Vendo-se viúvo, perdeu o juízo e morreu, em delírio, um mês depois. A propridade devastada, com os aldeões na penúria, foi vendida para pagar as dívidas. Afanássii Ivánovitch, na generosidade do seu coração,entendeu de recolher e educar as filhas de Baráchkov, meninotas de seis e sete anos, que foram trazidas para o pé dos filhos do administrador de Tótskii, um ex-escriturário público, de uma família enorme e que ainda por cima era alemão.

A criança mais nova morreu de coqueluche e a pequena Nastássia Filíppovna ficou sozinha. Tótskii vivia no estrangeiro e cedo esqueceu a existência dessa criaturinha. Cinco anos mais tarde se lembrou, alhures onde estava, de dar uma olhadela à sua propriedade. Aí chegando, reparou entre a família do seu administrador alemão. Uma encantadora criança, já menina, de uns doze anos, agradável. doce, esperta, e que prometia vir a ser muito bela. (Sobre tal assunto Afanássii Ivánovitch era um infalível perito.) Passou apenas alguns dias na propriedade, mas providenciou grandes alterações na educação da criança. Uma respeitável e culta governante suíça. quase anciã já, com prática de educação da juventude e com competência para ensinar várias disciplinas além do francês, foi contratada. Ficou instalada na casa de Tótskii mesmo, e logo a pequenina Nastássia começou a receber uma educação em linhas mais amplas. Quatro anos depois, a sua educação estava feita. A governante deixou-a, vindo então uma certa senhora, que vivia nas imediações de uma outra remota propriedade de Tótskii, em uma província recuada, por instruções dele, buscar Nastássia. Naquela outra propriedade havia também uma pequena casa recentemente construída. de madeira. Estava elegantemente mobiliada e o lugar tinha, muito a propósito, o nome de “Otrádnoie”, isto é, “Alegria”. A tal senhora levou Nastássia para acolá e, como era viúva sem filhos e antes vivia longe dali, a uma verstá, instalou-se com a menina, definitivamente. Uma velha arrumadeira e uma empregada de muita prática acolheram Nastássia, a cuja disposição ficaram. E ela encontrou aí instrumentos de música, uma biblioteca feminina selecionada, quadros, gravuras, lápis, pincéis, telas e um galgo puro-sangue. Nem duas semanas se passaram quando Afanássii Ivánovitch apareceu...

Desde então ele se habituou particularmente a preferir essa sua remota propriedade perdida nas estepes, passando lá dois ou três meses, cada verão. Assim decorreu um bem longo tempo: quatro anos calmos, felizes, em um ambiente de bom gosto e de elegância.

 

Mas, no começo de certo inverno, aconteceu, uma vez, justamente uns quatro meses depois de uma das visitas de verão de Tótskii, e que nessa ocasião só durava quinze dias, que um rumor começou a se alastrar até atingir os ouvidos de Nastássia Filíppovna. E o boato era que Afanássii Ivánovitch estava para se casar em Petersburgo com a linda herdeira de uma boa família; em vésperas, de fato, de dar um golpe afortunado e brilhante. O boato crescera exageradamente, evidenciando coisas que não seriam bem reais ainda. O suposto casamento, apenas um projeto ainda muito vago, era uma reviravolta na vida de Nastássia Filíppovna, e deu azo a que ela demonstrasse uma grande determinação e uma força de vontade completamente inesperadas. Sem perder tempo em reflexões, deixou a sua pequena casa de campo e surgiu em Petersburgo, inteiramente só, indo diretamente a Tótskii. Ele ficou perplexo e, mal começou a falar com ela, logo viu que estava perdendo o seu latim, que tinha de abandonar a entonação, a lógica e os objetos daquelas agradáveis conversas tão bem sucedidas até então, tudo, tudo! Pois viu diante dele, sentada, uma mulher inteiramente outra. E não absolutamente aquela moça que tinha deixado nesse último mês de julho, lá em “Otrádnoie”.

E essa nova mulher demonstrou, em primeiro lugar, conhecer e compreender muito - mas muito! - da vida e do mundo, e conhecer tanto que uma pessoa se maravilharia em saber onde e como tomara tanto conhecimento e atingira idéias definitivas. (Na certa, não na sua biblioteca para moças!) E o que é mais, sabia mesmo o aspecto legal de certas coisas e tinha um conhecimento categórico, se não do mundo, pelo menos de como as coisas são feitas no mundo. Em segundo lugar, não possuía mais o mesmo caráter de antigamente. Não havia nada da timidez nem da incerteza da menina de colégio, umas vezes fascinante em sua original simplicidade tão jovial, outras vezes melancólica e sonhadora, estupefata e desconfiada, lacrimosa e difícil.

Sim, era uma nova e surpreendente criatura que ria no rosto dele e que lhe atirava venenosos sarcasmos, abertamente declarando que nunca tivera outro sentimento por ele,  em seu coração, senão desprezo - desprezo e repugnância que lhe tinham sobrevindo logo após a primeira surpresa. E essa nova mulher lhe anunciou que para ela, no íntimo, era uma questão absolutamente indiferente que ele se casasse imediatamente com quem tinha escolhido, mas que resolvera evitar esse casamento e não o permitir apenas por ódio, simplesmente, ou pirraça, e que, por conseguinte, assim devia ser, “só porque me quero rir de ti, e bastante, já que cada um ri por sua vez”.

Isto, no mínimo, foi o que ela disse, muito embora não tivesse pronunciado tudo quanto estava em sua mente. Mas, enquanto essa nova Nastássia Filíppovna ria e falava desta forma, Afanássii Ivánovitch ia juntando, como podia, as suas idéias despedaçadas, a ver como deliberaria em face da situação. Tal deliberação lhe tomou tempo, pois levou quinze dias para pesar as coisas e recuperar qualquer ação. Mas, ao cabo dessa quinzena, chegou a uma decisão.

Afanássii Ivánovitch era, a esse tempo, homem de cinqüenta anos; seu caráter estava mais que formado e seus hábitos estratificados, a sua posição no mundo e na sociedade tendo sido, desde muito, estabelecida nas mais seguras bases. Prezava a sua paz e o seu conforto acima de tudo neste mundo, como se dá com as pessoas de educação refinada. Nenhum elemento duvidoso e demolidor poderia ser tolerado nesse esplêndido edifício que tinha levado toda a vida a construir. Por outro lado, a experiência profunda e a visão ampla tinham ensinado Tótskii de forma absoluta e ao mesmo tempo correta como se teria de haver com uma criatura fora do comum, uma criatura que não somente ameaçaria mas certamente também agiria e, o que é mais, não se prenderia a nada, especialmente não Ligando, como ela não ligava, a coisa alguma na vida, não devendo, portanto, ser provocada. Evidentemente, além de tudo isso, ainda havia mais qualquer outra coisa: o prenúncio já de um fermento caótico em trabalho no seu espírito e no seu coração, algo proveniente de uma indignação romântica (Deus sabia por que e contra quem!), prenúncio esse transformado em um insaciável e exagerado paroxismo de desprezo; enfim, algo altamente ridículo e inadmissível na alta sociedade e prestes a prejudicar qualquer homem bem-educado. De mais a mais, com a sua riqueza e as suas ligações comerciais, Tótskii poderia se livrar desse incômodo se se quisesse servir de um golpe perdoável e pequenino de vilania. Por outro lado, era evidente que Nastássia Filíppovna não teria facilidades. por exemplo, para o prejudicar, digamos, no terreno ou no sentido legal, não conseguindo mesmo criar um escândalo de grande projeção, porque fácil lhe seria embaí-la. Mas tudo isso só valeria se Nastássia Filíppovna estivesse armada para se comportar como certas pessoas se comportam em tais circunstâncias, isto é, sem sair muito abertamente do curso regular de uma conduta possível e provável.

Mas ainda aí a perspicácia de Tótskii lhe serviria de muito, sendo bastante esperto, como era, para ver que Nastássia Filíppovna já se capacitara de que não o poderia prejudicar por vias legais, através da lei, e sim por outros meios que já descobrira em seu espírito e em seus olhos brilhantes. Como não dava valor a coisa alguma e, muito menos, a si própria (era preciso muita inteligência e visão, em um mundano cético e totalmente cínico como ele, para perceber que ela havia desde muito deixado de se importar com o próprio futuro e de acreditar na valia de tal sentimento), Nastássia Filíppovna era mulher para enfrentar a ruína sem esperança, e até a própria desgraça, a prisão e a Sibéria, somente pelo prazer de humilhar o homem pelo qual sentia aversão, tamanha que chegava a ser desumana. Afanássii Ivánovitch jamais escondera o fato de que era de um certo modo covarde, ou melhor altamente conservador.

Se soubesse, por exemplo, que seria assassinado no altar, no dia em que se casasse, ou que qualquer coisa análoga, aliás excessivamente improvável, ridícula e impossível na sociedade, lhe pudesse acontecer, certamente ficaria alarmado, e bastante! Mesmo que não fosse morto ou ferido, mas que tão somente alguém lhe escarrasse em público na cara, qualquer gesto desse gênero, como forma anômala e chocante de escândalo. E isso era justamente o que Nastássia Filíppovna ameaçava, embora não tivesse dito uma só palavra a respeito. Ela o tinha estudado e compreendido cabalmente, e portanto sabia como feri-lo. E, como o ccasamento não passara até então de mera probabilidade, Afanássii Ivánovitch renunciou ao seu projeto e se submeteu a Nastássia Filíppovna.

Houve ainda uma outra consideração que o ajudou em sua decisão: era difícil calcular quão diferente de rosto esta nova Nastássia Filíppovna era da antiga! Tinha sido até então uma lindíssima rapariga, mas agora... como havia Tótskii de se perdoar por não ter reparado o que havia debaixo daquele rosto!

Malograra, durante esses quatro anos, em conhecê-la. Muito, sem dúvida, dessa mudança, viera de dentro; e essas atitudes provavam uma repentina alteração! Lembrou-se, contudo, que momentos tinha havido, mesmo no passado, em que aqueles olhos, certas vezes, lhe despertavam estranhas idéias. Havia neles, já naquela época, uma promessa de alguma coisa demasiado profunda. Ah! A expressão escura e misteriosa daqueles olhos! Pareciam estar pedindo que lhe interpretassem o enigma. Também se admirara muitas vezes, nesses últimos dois anos, da assustadora mudança de compleição de Nastássia Filíppovna, que além disso se tornara pavorosamente pálida, talvez ainda mais formosa, por isso. Tótskii, como todo cavalheiro que tinha vivido seus dias livremente, a menoscabara por lhe ter conseguido tão barato a alma virginal. A seguir, porém, sentira uma certa apreensão. Resolvera até, na primavera seguinte, não perder tempo e casar logo Nástássia Filíppovna, mercê de um bom dote, com algum indivíduo decente e de bons sentimentos, que trabalhasse em alguma recuada província. (Oh! De que forma horrível e maliciosa ela não se riu dessa nova idéia!) Mas agora, Afanássii Ivánovitch, fascinado pelo que de novo descobrira nela, positivamente imaginou que ainda se poderia utilizar dessa mulher. Decidiu instalá-la em Petersburgo, cercando-a de luxo e conforto. Se não pudesse ter uma coisa, teria a outra. Poderia até gratificar a própria vaidade e ganhar glória à custa dela, em certos círculos. estimando, como estimava, a própria reputação em tais assuntos.

Tinham-se seguido cinco anos de vida em Petersburgo e naturalmente muitas coisas se tornaram claras nesse tempo. A situação de Tótskii não era lá das mais agradáveis. E o pior de tudo foi que, tendo ficado intimidado, nunca mais pôde recuperar a confiança em si mesmo. Tinha medo de Nastássia Filíppovna, mas nem sequer poderia dizer o que temia. Por algum tempo, pelo menos nos dois primeiros anos de Petersburgo, pensou que ela quisesse desposá-lo, não tendo falado nisso apenas devido ao seu orgulho congênito, permanecendo obstinadamente à espera de que ele a pedisse. Estranho pedido, não havia dúvida, mas suspeitou isso. Meditava e examinava.., e cada vez ficava mais preocupado. Para sua grande e de certo modo desagradável surpresa, descobriu (assim é o coração do homem!) e ficou convencido, por uma coisa que aconteceu, que mesmo que lhe pedisse a mão receberia um contra! Levou muito tempo para entender o porquê disso. No fim de contas só descobriu uma explicação: que o orgulho dessa “mulher fantástica e suscetível” tinha atingido um tal ápice de frenesi que preferia expressar-lhe o seu desdém de uma vez por todas, recusando-o, a assegurar o seu futuro e até mesmo o seu acesso às alturas da grandeza. O pior de tudo era que Nastássia o estava dominando totalmente.

Não que estivesse, ao menos, influenciada por considerações mercenárias, pois, apesar de ter aceito o luxo, e com o luxo o engodo, vivia modestamente, e quase nada poupara para si, durante aqueles cinco anos. Tótskii aventurou uma tática sutil para quebrar as suas cadeias: começou, com habilidade, experimentando tentá-la com toda a sorte de tentações da espécie mais idealística possível. Mas tais idéias, em forma de príncipes, hússares, secretários de embaixada, poetas, romancistas e até mesmo socialistas, não causaram emNastássia Filíppovna o menor interesse. Teria no coração uma pedra, ou todos os seus sentimentos estariam murchos e secos para sempre? Vivia uma vida apartada, lendo, estudando, ou apreciando música. Tinha poucos amigos, ligava-se a esposas de funcionários inferiores, gente pobre e ridícula; dava-se com duas artistas; recebia algumas velhotas, gostava muito da família de um velho e respeitável mestre-escola; e o numeroso pessoal dessa família a estimava, recebendo-a com efusão. Tinha, ànoite, sempre meia dúzia de amigos para vê-la; o próprio Tótskii a visitava com regularidade e freqüência. O General Epantchín fizera recentemente seu conhecimento, com certa dificuldade, ao passo que quase ao mesmo tempo um jovem serventuário governamental. Chamado Ferdichtchénko, que se fazia de engraçado, um bufão bêbado e sem educação, lhe tinha merecido acolhida sem dificuldade alguma. Outra pessoa do seu círculo era um homem esquisitão. chamado Ptítsin, modesto, sensato, de maneiras altamente polidas. que tinha vindo da mais extrema pobreza, sendo agora um agiota. Por ultimo lhe fora apresentado Gavríl Ardaliónovitch, ejá Nastássia Filíppovna desfrutava de estranha fama. Todos tinham ouvido gabar a sua beleza e era tudo. Ninguém poderia jactar-se de favores seus nem tinha o que dizer contra ela, a sua reputação, maneiras e juízo, confirmando bem em um certo ponto a opinião de Tótskii. E fora a essa altura que o General Epantchín começara a tomar uma parte ativa no caso.

Quando Tótskii cortesmente se aproximou dele, pedindo o seu conselho como amigo, a propósito de uma de suas filhas, fizera, da maneira mais nobre, uma completa e sincera confissão ao general. Afirmara-lhe que jamais lhe passara pelo espírito apoiar-se em meios equívocos para recuperar a liberdade. Que não se sentiria salvo mesmo que Nastássia Filíppovna lhe jurasse que o deixaria em paz no futuro, pois para ela as palavras significavam pouco, não lhe bastando nem mesmo maiores garantias. Trocaram impressões a respeito e resolveram agir juntos. Ficou resolvido que se experimentariam os meios mais gentis, primeiro, tocando, por exemplo, por assim dizer, nas mais finas cordas do coração dela. Foram ter juntos a Nastássia Filíppovna; e Tótskii falou, com toda a sinceridade, na intolerável miséria da sua situação. Censurou-se por tudo. Disse que quanto à primitiva ofensa não diria que estava arrependido porque era um sensual inveterado e não se pudera Conter; mas que, no momento, desejava se casar e que toda a possibilidade deste altamente viável e distinto casamento estava nas mãos dela. Em uma palavra, depunha todas as suas esperanças em seu generoso coração.

Depois, então, o General Epantchín, como pai, começou a falar. E a verdade é que falou razoavelmente, evitando sentimentalismo. Apenas disse que de certo modo admitia plenamente o direito dela decidir o destino de Afanássii Ivánovitch: e fez uma hábil exibição de sua própria humildade, acentuando, operante ela, que o destino de sua filha e, talvez até das outras duas. estava agora dependendo dela. A pergunta de Nastássia Filíppovna quanto ao que dela desejavam, nesse caso, Tótskii logo com rude sinceridade confessou que ela durante esses cinco anos o tinha apavorado e posto em permanente pânico, não podendo pois ficar tranqüilo enquanto Nastássia Filíppovna por sua vez não se casasse. Acrescentou que essa sua proposição aliás seria absurda da sua parte, se ele não tivesse alguma base para isso. Tinha observado e se capacitara como coisa certa que ela era amada por um jovem de bom nascimento e de respeitável família, Gavríl Ardaliónovitch Ívolguin, uma relação que ela aceitara de bom grado em sua casa desde muito. Sim, esse rapaz a amava apaixonadamente, sendo que até daria de bom grado a metade da sua vida pela só esperança de ganhar a sua afeição, conforme, na simplicidade do seu puro e jovem coração, lhe confessara, em hora amistosa. E que Iván Fiódorovitch, protetor do jovem, desde muito sabia dessa paixão. E acrescentou por fim que se ele, Tótskii, não estava equivocado, ela, Nastássia Filíppovna, parecia, desde muito, se ter dado conta do amor do jovem, pois todos tinham percebido que ela realmente o olhava com certa indulgência. Fez-lhe ver quanto para ele, mais que para qualquer outro, era difícil falar sobre isso. Mas que se Nastássia Filíppovna permitisse que ele tivesse por ela, no mínimo, algum pensamento bom, assim como um constante desejo de prover ao seu conforto, deveria já ter percebido quanto lhe tinha sido penoso vê-la na solidão. Solidão essa que só podia ser causada por uma vaga depressão acrescida de uma completa descrença na possibilidade de uma vida nova, que podia muito bem ter seus novos rumos no amor e no casamento. Disse mais que atirar fora talentos dos mais brilhantes e enveredar por uma irrazoável marcha para a ruína era, pensando bem, nem mais nem menos do que uma variação de sentimentalismo incompatível com o bom senso e o nobre coração de uma mulher como Nastássia Filíppovna. Repetindo quão penoso era para ele, mais do que para qualquer outro, ter de lhe falar nisso, afirmou que não desejaria que Nastássia Filíppovna o olhasse com desprezo se ele lhe expressasse, como agora estava expressando, a sincera resolução de garanti-la no seu futuro, oferecendo-lhe a soma de setenta e cinco mil rublos. Categoricamente afirmou que essa quantia, aliás, já lhe estava assegurada no seu testamento, não se tratando, absolutamente, de uma questão de recompensa, de maneira alguma... não tendo ela, de mais a mais, o direito de impedir que ele satisfizesse um desejo bem humano de fazer algo para aliviar a consciência, etc, etc, o que era sempre o remate mais eloqüente em tais circunstâncias. Afanássii Ivánovitch falou com elegância moral, alongando-se até. Juntou, como que de passagem, a categórica informação de que não deixara cair uma só  palavra a quem quer que fosse a respeito dos setenta e cinco mil rublos ninguém, nem mesmo Iván Fiódorovitch, ali sentado, tendo sido, antes, sabedor disso.

A resposta de Nastássia Filíppovna surpreendeu os dois amigos.

Não mostrou nenhum traço da antiga ironia nem do primitivo ódio, E em vez daquela gargalhada cuja só lembrança punha calafrios glaciais na espinha  e Tótskii, pareceu alegrar-se com a oportunidade que lhe era dada de falar a alguém com franqueza e camaradagem.

Fez saber que desde muito estivera desejando pedir um conselho amigo e que só o seu orgulho fora empecilho para isso. Mas, já que o gelo estava rompido, nada podia ser melhor. Primeiro com um sorriso morno, depois com uma risada alegre e jovial, garantiu que em caso algum poderia haver mais a tempestade de antes. Que, desde muito tempo para cá, passara a encarar as coisas de modo muito diverso e que, embora não tivesse havido mudança em seu coração, fora compelida a aceitar muitas coisas como fatos definitivos. Que o que tinha sido feito não poderia ser desfeito, que o que tinha passado, o fora de vez, tanto que se admirava de Afanássii Ivánovitch estar ainda sobressaltado. Depois voltou-se para Iván Fiódorovitch e, com ar de muita deferência, disse que sempre só ouvira falar bem de suas filhas, pelas quais entretinha em profundo respeito. Que a só idéia de poder vir a ser útil a elas de qualquer modo, lhe seria uma fonte de orgulho e satisfação. Verdade era que estava deprimida e melancólica; muito melancólica.

Afanássii Ivánovitch não tinha feito mais, agora, do que adivinhar os seus sonhos: desejava, de fato, uma vida nova, novos rumos, um novo itinerário, tendo como alvo os filhos e a vida doméstica, senão o amor.

Que, relativamente a Gavríl Ardaliónovitch, pouco podia falar. Julgava que fosse verídico que ele a amasse, estando também crente de que poderia se interessar por ele, caso viesse a acreditar na sinceridade desse apego.

Mas que, mesmo havendo Sinceridade da parte dele, era muito moço ainda, sendo essa sua opinião a tal respeito bem categórica. Que o que mais apreciava nele era estar trabalhando para sustentar uma família sem recursos. Que já ouvira dizer que era um homem de energia e de orgulho, sequioso de abrir o seu caminho e fazer a sua carreira. Também ouvira falar muito bem a propósito da mãe dele, Nina Aleksándrovna, excelente mulher, muito estimada; e que, quanto à irmã, Varvára Ardaliónovna, também lhe haviam garantido ser notável moça de muito caráter, todas essas coisas lhe tendo chegado através de Ptítsin, principalmente a brava maneira com que encaravam o infortúnio. Teria muito prazer em travar conhecimento com elas, mas que era uma interrogação saber se a receberiam bem, dentro da família. Não faria nada que dificultasse a possibilidade de um tal casamento, mas que precisava pensar nisso um pouco mais. Pedia-lhes pois que a não apressassem. E que, quanto aos setenta e cinco mil rublos, não necessitava Tótskii de falar tanto a tal respeito.

Sabia bem o valor do dinheiro e certamente o aceitaria, desde já lhe agradecendo não ter tocado nesse particular a Gavríl Ardaliónovitch nem mesmo ao general, o que não deixava de ser uma delicadeza. Mas, por que não deveria o jovem ser sabedor disso? De que tinha ela que se envergonhar se, ao entrar para essa família, levasse esse dinheiro? Pondo as coisas bem claras, não era ela que tinha de pedir desculpas a quem quer que fosse de coisíssima alguma, e desejava até que isso ficasse bem patenteado. Que enquanto não se certificasse de que Gavríl Ardaliónovitch, ou a sua família, não tinham nenhum secreto sentimento a seu respeito, não se casaria com ele. E reiterava a afirmação de que não se julgava culpada de nada censurável. Gavríl Ardaliónovitch sabia muito bem em que pé ela havia vivido esses cinco anos em Petersburgo, em que condições estava perante Afanássii Ivánovitch, e se porventura fora levada por dinheiro em tudo isso. Se agora aceitava dinheiro, não o fazia como cobrança pela perda da sua honra de donzela, do que não tinha por que ser censurada, e sim como compensação de sua vida arruinada.

Dizendo isso, inflamou-se tanto e ficou tão nervosa (o que aliás era natural), que o General Epantchín se deu por satisfeito e considerou o caso solucionado. Mas Tótskii, que já certa vez fora penosamente assustado, não ficou lá muito confiante, levando algum tempo com receio de que uma áspide estivesse escondida entre flores. Todavia, pelo menos, negociações tinham sido abertas. O ponto esquemático dos dois amigos era contarem ambos com a possibilidade de Nastássia Filíppovna ser atraída por Gánia, e as coisas começaram a decorrer de tal forma que o próprio Tótskii acreditava, às vezes, na possibilidade de êxito. No entanto, Nastássía Filíppovna teve um entendimento com Gánia. Entendimento curto. porque o assunto era penoso e delicado. Ela reconheceu e sancionou o seu amor, insistindo, porém, em não se comprometer de forma alguma, reservando o direito, até ao casamento (se casamento houvesse) de poder dizer “não” até ao último momento, dando a Gánia igual direito e liberdade. Pouco depois veio Gánia a saber, acidentalmente, que ela estava a par, e com todas as minúcias, da hostilidade da família dele quanto ao casamento e à pessoa dela. bem como das cenas que isso ocasionava em casa. Mas não lhe disse palavra, muito embora diariamente ele esperasse tal assunto.

Há muito mais a relatar sobre todo o murmúrio e conseqüentes complicações que surgiram do caso proposto e respectivas negociações. Mas estamos a antecipar coisas e a maioria dessas complicações mais não eram do que meros boatos. Falou-se, por exemplo, que Tótskii descobriu ter Nastássia Filíppovna tido um encontro secreto e vago com as filhas do general, história decerto improvável e disparatada. Mas em um outro episódio não pôde ele deixar de acreditar, o que o obcecou como um pesadelo ouviu dizer, como verdade incontestável, que Nastássia Filíppovna estava certa de que Gavríl Ardaliónovitch se casava com ela por causa do dinheiro; que era um coração mercenário, ávido, trêfego e invejoso, sendo a sua vaidade, além de grotesca, ilimitada; que, embora realmente estivesse apaixonadamente se empenhando em conquistá-la (mesmo depois dos dois respeitáveis homens de idade haverem determinado explorar a sua incipiente paixão por ambos os lados, para seus próprios fins, comprando-o para o venderem a Nastássia Filíppovna por intermédio do matrimônio), começara a detestá-la como um pesadelo, paixão e repulsa estando estranhamente associados em sua alma. E que, conquanto, depois de dolorosa hesitação, tivesse consentido em vir a se casar com a “desacreditada rameira”, jurara, em seu coração, fazê-la pagar amargamente, abandonando-a depois, como, segundo afirmaram, dissera mais de uma vez. Transpirou que Nastássia Filíppovna soube de tudo isso e que tinha certo plano “enfiado na manga”. Tótskii ficou em tal pânico que não confiou mais suas inquietudes a Epantchín, mascomo homem fraco, momentos havia em que recuperava a calma e a confiança, munindo-se mesmo de ânimo.

Ficou sobremaneira aliviado, por exemplo, quando Nastássia Filíppovna prometeu aos dois amigos que lhes daria a palavra final e decisiva na noite do seu aniversário.

Mas, por um outro lado, apareceu um boato ainda mais estranho e incrível, relativamente ao não menos honrado Iván Fiódorovitch e que (pobre dele!) mais e mais se foi fundamentando à medida que o tempo passava.

Ao primeiro exame, soava perfeitamente falso. Era difícil acreditar que Iván Fiódorovitch já em seu  venerável fim de vida, com sua excelente compreensão prática pelas coisas do mundo, e tudo o mais, pudesse se enfeitiçar por Nastássia Filíppovna e descesse por tais declives abaixo a ponto de um mero capricho se ter tornado quase paixão. Com o que contava para isso, é difícil imaginar-se; possivelmente com a ajuda do próprio Gánia. Tótskii suspeitou de qualquer coisa, nesse sentido, muito por alto. Suspeita essa suscitada pela probabilidade de um mútuo acordo entre o general e Gánia. Mas é notoriamente sabido que um homem movido pela paixão, especialmente se se trata de um homem de idade avançada, se torna completamente cego e propenso a encontrar fundamentos para sua esperança justamente onde não os há. Daí perder o senso e agir como criança doidivanas, por maior intelecto que possa ter. Veio a público que o general tinha procurado umas pérolas magníficas para o dia do natalício de Nastássia Filíppovna, pérolas que custaram uma soma imensa. E que vivia pensando nesse seu presente, muito embora estivesse perfeitamente informado de que ela não era uma mulher venal. Já na véspera do aniversário andava ele em perfeita febre, apesar de habilmente ter escondido a sua emoção. Era, justamente, daquelas pérolas que a Sra. Epantchiná tinha ouvido falar. Lizavéta Prokófievna tinha, na verdade, muitos anos de experiência a propósito da inconstância do esposo; estava, de fato, quase acostumada com isso, mas lhe seria impossível deixar passar em silêncio esse incidente O zunzum sobre as tão faladas pérolas lhe tinha feito uma grande impressão. E o general pressentira isso, muito de antemão, pois certas palavras já vinham sendo pronunciadas dias antes e principalmente na véspera, tendo ele receado que uma explicação estivesse, inesperadamente, em vias de ser pedida. Eis por que não estava querendo de muito bom grado, ir almoçar com a família na manhã em que a nossa história começa. Antes do aparecimento de Míchkin tinha resolvido escapulir a pretexto de um negócio urgente. Escapulir muitas vezes, significava, no caso do general, apenas pôr-se ao fresco. Precisava ter esse dia livre para si, ou no mínimo, de qualquer maneira, essa noite, e bem distante de dissabores advindos de desassossegos. E eis que inesperadamente, e de modo tão propício, surgira o príncipe. “Um verdadeiro enviado de Deus!” pensou o general ao entrar para se defrontar com a esposa.

 

A Sra. Epantchiná era muito ciosa da dignidade da sua família. Como a deveria ter chocado ouvir assim, sem o menor preparo, que esse Príncipe Míchkin, o último do nome, de quem já tinha ouvido falar, não passava de um pobre idiota, quase um pedinte, pronto até a aceitar a caridade alheia! O general muito propositadamente quis produzir efeito, impressionando-a de súbito, de modo que com a atenção volvida em outro rumo ela esquecesse o caso das pérolas, atraída por uma nova sensação.

Sempre que alguma coisa acontecia de extraordinário, a Sra. Epantchiná dava em abrir desmesuradamente os olhos, derrubando o corpo para trás, ficando assim a fixar o que em frente dela estivesse, sem poder articular palavra. Era uma mulher de compleição forte, da mesma idade do marido, com os cabelos negros ainda abundantes começando a pratear aqui e acolá. Mais alta do que baixa, tinha nariz aquilino, faces fundas amareladas e lábios finos e cerrados. Testa alta mas estreita, sob a qual os grandes olhos cinzentos mostravam, às vezes, uma inesperada expressão. Manífestara, em tempos, a fraqueza de supor esses olhos particularmente fascinantes, convicção essa de que ninguém jamais conseguira demovê-la.

- Recebê-lo? Queres que eu o receba agora, já? - e a dama estateladamente abriu os olhos, o mais que pôde, encarando Iván Fiodorovitch, que ficou logo sem jeito diante dela. Ora, tratando-se de quem se trata, não é necessário nenhuma cerimônia; se tu ao menos pudesses fazer uma idéia de como ele é, querida! - apressou-se o general a explicar. - É completamente uma criança, tem um feitio quase patético! Imagina tu que lhe dão ataques, de vez em quando. Acaba de chegar da Suíça, e veio diretamente da estação para aqui. Veste-se desajeitadamente, como um alemão, e está literalmente sem um copeque. Só lhe falta chorar. Dei-lhe vinte e cinco rublos e pretendo arranjar-lhe um lugarzinho de escrevente no nosso escritório. E lhes sugiro, mesdames que lhe ofereçam lanche, pois estou a jurar que está com fome.

- Tu me apavoras! - E a generala foi voltando a si, aos poucos.

- Está com fome e tem ataques! Mas que

espécie de ataques?

- Acalma-te, que os ataques não lhe sobrevêm assim amiúde. além do que. é dócil como criança de colo e muito instruído. Gostaria de recomendar-lhes, mesdames (dirigiu-se outra vez às filhas. que o submetessem a um examezinho, a ver para o que dará.

- Um exame? - balbuciou a esposa. rolando os olhos, no máximo do espanto, do marido até às filhas e destas, outra vez, até ao general.

- Oh! Querida, não tomes as coisas intencionalmente... e sim de modo natural. Como já disse, passou-me pela cabeça tratá-lo amigavelmente; acho ser até um ato de caridade introduzi-lo um pouco em família.

-  Introduzi-lo na família? Da Suíça?

- Agora já não se pode recuar. Convidei-o. Mas repito mais uma vez, seja como decidires. Pensei nisso por vários motivos: primeiro, ter ele o teu nome, ser talvez até parente teu; depois, a seguir, não ter ele onde pousar a cabeça. Supus que te fosse de certo modo interessante vê-lo, já que, de fato, pertences à mesma família.

- Naturalmente, mamãe. E se não é preciso fazer cerimônia com ele! E ainda por cúmulo está com fome e depois de uma viagem dessas! Por que não havemos de lhe dar alguma coisa a comer, já que não tem para onde ir? - opinou Aleksándra, que era a mais velha.

- E se é uma criança, ainda! Podíamos até brincar de cabra-cega com ele!

- De cabra-cega? Que é que você está dizendo?

- Ora, mamãe, deixe de coisas! - interrompeu Agláia, zangando-se.

A segunda filha, Adelaída, que estava de ânimo alegre, não se pode conter e rompeu em uma risada.

- Mande-o buscar, papai. Mamãe já deu licença - decidiu Agláia.

O general tocou a campainha e mandou introduzir o príncipe.

- Está bem, mas com a condição de que vocês lhe passem um guardanapo em volta do pescoço, quando ele se sentar à mesa - obtemperou a generala. - E chamem Fiódor ou Mávra para ficarem atrás da cadeira dele tomando conta enquanto estiver comendo. Estará ao menos no momento a salvo desses ataques? E muito gesticulador?

- Oh! Não fales assim. É muito bem-educado, e tem maneiras encantadoras. Apenas é um pouco simplório, mas nem sempre. Mas, ei-lo que vem. Faça o favor de entrar. Deixa que te apresente o Príncipe Míchkin, último de seu nome, teu homônimo, ou melhor, xará e talvez até teu parente. Recebe-o bem e sê gentil para com ele. Como o almoço vai ser servido, príncipe, queira dar-nos a  honra... E desculpe-me, pois tenho de me apressar, estou atrasado...

- Nós sabemos perfeitamente por que é essa sua pressa... - disse-lhe a esposa, com ênfase.

Estou com pressa, estou com pressa, querida. Estou atrasado. Dêem-lhe os álbuns, mesdames. Peçam-lhe que escreva qualquer coisa para vocês; tem uma letra que é um assombro. Vocês deveriam ver como ele escreveu para mim, em antigos caracteres:

“O hegúmeno Pafnútii apôs aqui a sua assinatura”. Bem, adeus!

- Pafnútii? O abade? Espera um minuto, pára um pouco. Aonde vais e quem é Pafnútii? - chamava-o a esposa, com franco aborrecimento que, ante a fuga do marido, se transformou em agitação.

Sim, sim, querida, houve um hegúmeno chamado Pafnútii, que viveu há muito tempo. Mas tenho de sair, já devia estar na casa do conde; imagina tu que ele próprio marcou hora... Adeus, por enquanto, príncipe!

Em passadas largas, o general se retirou.

- Eu sei quem é o conde que ele vai ver! - disse com muita finura Lizavéta Prokófievna, volvendo os olhos irritadamente para o príncipe. - Que foi? - recomeçou ela, impaciente e amuada, tentando recordar-se. - Ora bem, que foi? Ah! Sim, falávamos do hegúmeno...

- Mamãe! - ia recomeçar Aleksándra, mas Agláia chegou a bater com o pé.

 - Não me interrompam - falou agenerala martelando cada palavra.

- Também tenho o direito de saber. Sente-se aqui, príncipe, nesta poltrona. Aqui, em frente de mim. Não, aqui, perto do sol, mais para a claridade, para eu poder ver bem. Afinal, que hegúmeno foi esse?

- O hegúmeno Pafnútii - respondeu Míchkin, com atenção e seriedade.

- Pafnútii? Há!... Isto é interessante. Bem, e depois, que é que houve com ele?

Fazia estas perguntas impacientemente, às pressas, de modo cortante, conservando os olhos fixos no príncipe.

E, à medida que ele respondia, ela ia meneando a cabeça, a cada palavra.

- O hegúmeno Pafnútii do século XIV - começou Míchkin - era o Superior do Mosteiro do Volga naquela parte que atualmente é a província de Krostoma. Foi famoso por sua santa vida Visitou os tártaros, na sua Horda de Ouro, ajudou na distribuição da governança pública tendo, assim, de assinar diversos documentos. Vi uma cópia da sua assinatura. Gostei da letra e a imitei Quando o general manifestou desejos de ver a minha letra, ainda agora, para me arranjar um emprego, escrevi várias sentenças em diferentes caligrafias e entre outras coisas escrevi: “O hegúmeno Pafnútii apôs aqui a sua assinatura” com a própria letra do hegúmeno. O general gostou muito e foi por causa disso que esteve a falar ainda agora.

- Agláia, tome nota de Pafnútii; ou melhor, escreva, senão eu me esqueço. Mas julguei que se tratasse de coisa mais interessante. E onde ficou essa imitação da assinatura dele?

- Creio que ficou no escritório do general, sobre a mesa.

- Mande alguém trazer, já.

- Não preferiria a senhora que eu escrevesse aqui, outra vez?

- Naturalmente, mamãe - comentou Aleksándra - mas o melhor agora é almoçarmos primeiro; estamos com apetite.

- Isso mesmo - concordou a mãe. - Venha, príncipe. Está com disposição?

- Sim, comecei a sentir fome agora e lhe fico muito grato.

- É uma coisa ótima que o senhor seja assim tão delicado. Verifico, com prazer, que o senhor não se aproxima, sequer, da criatura estranha que me foi descrita como sendo o senhor. Venha. Sente-se aqui, diante de mim - insistiu, fazendo Míchkin sentar-se, mal entraram na saleta de almoço.

- Quero examiná-lo. Aleksándra, Adelaída, ajudem-me a servir o príncipe. Realmente ele não é nenhum doente, conforme... Creio não ser necessário o guardanapo passado ao pescoço durante a refeição, não é mesmo, príncipe? Costumava usá-lo, príncipe?

- Só até aos sete anos, creio eu; mas agora, durante as refeições, ainda o uso, mas sobre os joelhos.

- Muito bem. E os seus ataques?

- Ataques? - O príncipe ficou um pouco Zonzo. - Agora são mais raros. Mas, não sei, já me disseram que o clima aqui me fara piorar

- Como ele fala direitinho! - E a senhora virou-se para as filhas e anuía ainda, com a cabeça, a cada palavra dele.  Eu não esperava isso. Então tudo não passou de brincadeira e invencionice do meu marido, como de hábito. Anime-se, príncipe, e vá me dizendo onde nasceu, e depois, para onde o levaram. Quero ficar sabendo tudo. O senhor me interessa sobremodo.

O príncipe agradeceu e, enquanto comia com excelente apetite. começou a repetir a história que já tinha contado várias vezes essa manhã. A dona da casa cada vez demonstrava estar mais contente com ele. As meninas já o ouviam com maior atenção; as relações se estreitavam. Veio a verificarse que Míchkin conhecia muito bem a sua árvore genealógica. Mas, apesar dos esforços gerais, não houve meios de descobrirem que espécie de parentesco próximo poderia haver entre ele e a senhora generala. Entre os avôs e as avós um distante parentesco podia ser descoberto. A senhora ficou particularmente satisfeita com essa averiguação tão evidente, pois muito raramente lhe era dado ensejo de discorrer sobre a sua linhagem. Foi assim, com entusiasmo que se levantou da mesa.

- Venham todos vocês! Vamos para a sala de estar - disse ela. - Tomaremos lá o café. Temos uma sala onde nos reunimos sempre - ia explicando ao príncipe, enquanto o conduzia.

- Minha pequena sala de conversa, onde nos reunimos quando estamos Sozinhas e onde cada uma se entretém com o seu trabalho. Aleksándra, minha filha mais velha, esta aqui, toca piano, lê, ou Costura; Adelaída pinta paisagens e retratos (mas não há meio nunca de acabar coisa alguma) e Agláia fica sentada e não faz nada. Eu, tampouco, não sou muito boa em trabalhos; não consigo ter nada acabado. Bem, chegamos. Sente-se aqui, príncipe, perto do fogo, e me conte qualquer coisa. Quero saber de que jeito o senhor conta uma história. Quero orientar-me bem a seu respeito e quando encontrar a velha Princesa Bielokónskaia hei de falar a respeito do senhor. Quero que todos se interessem pelo senhor. Vamos, conte alguma coisa.

- Mas, mamãe, que modos de pedir que lhe conte uma história... - redargüiu Adelaída que tinha ido sentar-se junto ao cavalete e já segurava os pincéis e a paleta, diante do trabalho; copiava de uma gravura uma paisagem começada havia muito tempo.

Aleksándra e Agláia sentaram-se em um pequeno sofá, cruzando os braços, preparadas para ouvir a conversa. Míchkin percebeu que era o centro de atenção de todas. E então Agláia observou:

- Pois eu nunca haveria de contar nada se me pedissem deste modo.

- Por que não? Que há de mais nisso? Por que não há de me contar qualquer coisa? Ele tem língua. Quero ver como descreve os fatos. Vamos, seja o que for. Diga-nos se apreciou a Suíça, e quais as suas primeiras impressões lá. Vocês vão ver, ele já vai começar e muito bem.

- Foi uma impressão deveras forte... - começou o príncipe.

- Ora, bravos, estão vendo? - aplaudiu a impetuosa senhora dirigindo-se às filhas.

- Não disse que ele ia começar?

- Mas, mamãe, deixe-o falar, ao menos! - retrucou Aleksándra, contendo-a. E ciciou ao ouvido de Agláia: Este príncipe está com mais cara de ser um finório do que um idiota.

- Nem há dúvida; vi isso logo - respondeu Agláia. - E éintolerável fingir assim. Estará ele tentando, com isso, alguma vantagem?

E o príncipe repetiu:

- A minha primeira impressão foi muito forte. Quando me tiraram da Rússia e me conduziram através de uma porção de cidades alemãs, eu não fazia mais do que contemplá-las calado e me lembro de que não fazia perguntas. Eu acabara de ter uma série violenta e lancinante de ataques da minha doença. Sempre que piorava e os acessos vinham com mais freqüência, eu caía depois em uma completa estupefação. Perdia a memória e, embora o meu cérebro trabalhasse, parecia que a seqüência lógica das minhas idéias se tinha quebrado. Era incapaz de ligar mais do que dois ou três pensamentos. Pelo menos é a impressão que me dava. Depois os acessos abrandaram e escassearam e me tornei outra vez forte e sadio, como estou agora. Lembro-me que vivia insuportavelmente triste, querendo sempre chorar, permanentemente assustado e com pavor. O mais chocante era tudo me parecer estranho. Tudo me parecia alheio e isso me oprimia... Mas esse estado soturno se levantou, lembro-me bem, uma tarde, ao chegar a Basiléia, na Suíça. O que me despertou foi o zurro de um jumento, na praça do mercado. O jumento mexeu comigo e, não sei por que estranho motivo, simpatizei com ele; e repentinamente tudo se tornou claro na minha cabeça.

- Um jumento? Isso é originalíssimo! - observou a generala. Aliás, pensando bem, não há nada de estrambótico nisso! Qualquer de nós pode sem mais aquela ficar gostando de um jumento! - anuiu ela lançando um olhar impaciente às filhas, que se tinham posto a rir.

- Já aconteceu na mitologia. Adiante, príncipe.

- Fiquei, desde então, gostando terrivelmente de jumentos. Eles têm uma atração toda especial por mim. Comecei a me informar bem, a respeito deles, pois antes nunca tinha visto nenhum e imediatamente compreendi que criatura útil ele é; industrioso, forte, paciente, barato, resignado... Foi, pois, através desse jumento, que a Suiça começou a me fascinar, a ponto da minha melancolia passar completamente.

- Isto tudo é formidável, mas passemos além do jumento. Passemos a outra coisa. Por que é que você continua rindo, Agláia? E você, Adelaída? O que o príncipe nos contou sobre ojumentinho foi deveras magnífico. Ele viu, ao passo que vocês não viram nunca nenhum. Vocês ainda não estiveram no estrangeiro!

- Eu ja vi um Jumento, mamãe - asseverou Adelaída. E eu também já ouvi um - garantiu Agláia.

E as três moças riram-se, outra vez. O príncipe riu com elas.

- Isso não fica bem para vocês - ralhou a mãe. - Deve desculpa las, príncipe; são sempre assim, alegres. Por mais que eu zangue gosto muito delas. São teimosas, são umas cabeças tontas. Por quê? - E Míchkin ria. - Eu faria o mesmo, no lugar delas. Mas voltemos ao jumentinho. Trata-se de uma criatura muito útil e de muito bom coração.

E o senhor, príncipe, tem o senhor também bom coração? Pergunto por curiosidade.

Riram se todas, de novo.

Mas.., outra vez esse aborrecido jumento?! Já não estava pensando mais nesse bicho. Acredite-me, príncipe, falei sem nenhuma insinuação?... Oh! Eu sei! - E o príncipe desandou a rir.

- Já que, em vez de se zangar, o senhor ri, fico mais à vontade. Vejo que é um moço de muito bom coração - afirmou Lizavéta Prokófievna.

- Nem sempre, nem sempre!... - avisou Míchkin.

- Pois eu sou - garantiu categoricamente a dona da casa. -Ou, se prefere, vou lhe mostrar. É o meu único defeito, pois não convém ter sempre bom coração. Muitas vezes zango com estas meninas e ainda mais com Iván Fiódorovitch, mas o pior é qui quando me zango é que verifico que tenho bom coração. Ainda agora, antes do senhor chegar, eu estava zangada e achava que não seria capaz de compreender coisa alguma. Sou assim, às vezes. Sou como uma criança. Obrigada pela lição, Agláia. Mas não estou dizendo inconveniência nenhuma. Não sou nenhuma maluca, como pareço, e como estas minhas filhas gostam de me fazer crer que eu seja. Tenho uma vontade própria e não me envergonho à toa.

E digo isso sem malícia. Agláia, venha cá me dar um beijo, aqui.. Agora, basta de carinhos - disse depois de Agláia beijá-la con ternura nos lábios e na mão. - Adiante, príncipe. Vamos a ver se o senhor se lembra de qualquer coisa mais interessante do que un jumento.

- Não sei como se possa falar assim por encomenda - raciocinou Adelaída.

- Eu, nem pensar direito poderia.

- Não se incomode, que o príncipe pode pensar por nós todas. pois é muito inteligente; pelo menos dez vezes mais esperto do que vocês, provavelmente mesmo umas doze vezes. Espero que não levem muito tempo para se darem conta disso, pois ele já lhes vai provar imediatamente. Não é, príncipe? Continue. E pode, por enquanto, deixar de lado o jumento. Que viu mais o senhor no estrangeiro além do jumento?

- Mas o jumento já bastou para provar que ele é bem esperto - redarguiu Aleksándra. - E foi bem interessante o que nos contou da sua condição de doente e como um golpe exterior fez com que as coisas todas o agradassem. Sempre me interessou saber como se perde a razão e como é que se recupera depois. Mormente quando ela volta sem se esperar.

- Sim, sim - gritou a mãe, impetuosamente. - Também sei que vocês, quando querem, são espertas. Bem, parem, chega de rir. O senhor ia falar sobre o cenário da Suíça, creio eu! E então?

- Chegamos a Lucerna e fiquei arrebatado pelo lago. Ao mesmo tempo que tal beleza me arrebatou, me deprimiu - confessou o príncipe.

- Mas... por quê? - indagou Aleksándra.

- Não sei por quê. Toda a paisagem fora do comum sempre me perturba e me deprime pela primeira vez - observou o príncipe. -Sinto ao mesmo tempo felicidade e angústia. Mas isso se dava mais quando eu estava doente.

- Como eu gostaria de ver o lago! - ponderou Adelaída. - Não sei por que ainda não fomos ao estrangeiro. Aqui, não há meios de obter assuntos para pintar, principalmente nestes dois últimos anos. O Oeste e o Sul já os pintei há muito. Príncipe, dê-me assunto para um quadro.

- De pintura, que sei eu? Mas me parecia que bastava olhar e pintar.

- Mas olhar, como? Não sei como olhar as coisas.

- Por que continua você a falar através de enigmas? - interrompeu-a a mãe.

- Eu não sou capaz de baralhar as coisas assim. Que quer você dizer com essa história de não saber como olhar? Não tem olhos? Sirva-se deles!

Se aqui você não pode ver, que fará no estrangeiro? Príncipe, acho que vai ser necessário o senhor nos explicar como é que se vêem as coisas!

- Sim, é melhor mesmo - reforçou Adelaída. - O príncipe aprendeu a ver as coisas no estrangeiro.

- Acho que não. Apenas me dei melhor lá. Se aprendi a ver as coisas, isso não sei. Mas, quase todo o tempo, fui muito feliz.

- Feliz? O senhor sabe como ser feliz? - exclamou Agláia. -E tem a coragem de dizer que não sabe se aprendeu a ver as coisas? O senhor pode até nos ensinar!

- Então, ensine! - riu Adelaída.

- Eu não posso ensinar nada. - E o príncipe também riu. - Passei quase todo o tempo que estive no estrangeiro, na mesma aldeia, uma aldeia suíça. Raramente fazia excursões e, essas mesmo, ali por perto. Que lhes hei de eu pois ensinar? No começo fui ficando menos obtuso e logo comecei a ficar mais forte. E pouco a pouco cada dia foi se tornando mais precioso para mim, à medida que o tempo ia passando e eu me dava conta disso direitinho. Deitava-me feliz e mais feliz me levantava. Explicar-lhes, porém, por que, não sei.

- Então não sentia vontade de sair? De ir a algum lugar? -perguntou Aleksándra.

- No começo, bem no começo, tive, sim. E até me tornei agitado. Estava continuadamente preocupado com a vida que devia levar. Queria saber que era que a vida me tinha reservado. Ficava intoleravelmente ansioso, às vezes. A solidão, as senhoras sabem, dá isso. Havia lá uma pequena cascata. Era um fio de água, muito delgado, quase perpendicular, que se despenhava da montanha, espumoso, branco, espargindo gotículas em volta. Apesar de cair de uma grande altura não dava a impressão de ser alta. Estava longe de meia verstá, mas parecia estar a uns cinqüenta passos. A noite gostava de ouvir o seu barulho. Em tais momentos eu estava sempre dominado por uma grande angústia. Às vezes, também, eu pasmava a encarar as geleiras ao meio-dia, sozinho, a meio caminho do cume da montanha, cercado por imensos pinheirais resinosos.

Na crista da rocha, um castelo medieval em ruínas; lá embaixo, ao longe, no vale, a nossa pequenina aldeia, tenuemente visível; muita claridade solar; amplo céu azul. E um terrível silêncio. Então eu sentia que alguma coisa estava me subjugando e ficava a imaginar que se fosse andando sempre, até bem longe, sempre para diante. até alcançar aquela linha onde o céu e a terra se encontram e se tocam, então, lá sim, é que eu acharia a chave do mistério. Lá é que eu veria uma vida mil vezes mais rica e turbulenta do que a nossa. Sonhava com uma grande cidade, como Nápoles, por exemplo, cheia de palácios, ruídos, bramidos e vida. Sim; não sonhava pouco!... E depois concluía que até em uma prisão se pode encontrar uma vida afortunada!...

- Já li essa sua última reflexão, aliás tão edificante, no meu livro de leituras, quando eu tinha doze anos - desconcertou-o Agláia.

E Aleksándra disse:

- Isso tudo é filosofia. O senhor é um filósofo e, quem sabe? Talvez tenha chegado aqui para ensinar.

- Talvez tenha razão - sorriu o príncipe - talvez seja eu um filósofo e saiba ensinar a pensar... É bem possível; é verdade. Talvez seja assim.

- E a sua filosofia é como a de Evlámpia Nikoláievna - interpôs Agláia.

- Trata-se da viúva de um funcionário público que vem ver-nos mais como parenta pobre. Viver barato é o seu único objetivo na vida. Viver tão singelamente quão possível for. mas não fala senão de dinheiro. E tem dinheiro. É uma simuladora. É como a riqueza da vida do senhor dentro de uma prisão. Ou como os seus quatro anos de felicidade nos vales que o senhor trocaria por Nápoles. E olhe lá que teria ganho na troca, embora fosse um lucrozinho à-toa.

- Pode haver duas opiniões a respeito de prisão - sentenciou o príncipe.

- Certo homem que viveu doze anos em uma prisão me disse uma coisa, depois. Ele era, como eu, um dos clientes do meu professor. Também tinha ataques e, às vezes, ficava excitado; chorava, queria matar-se. A sua vida na cadeia foi uma vida miserável asseguro-lhes, mas não, absolutamente, sem sentido. Imaginem que seus únicos amigos eram uma aranha e uma árvore que crescia debaixo da sua janela gradeada. Mas o melhor é deixar de lado este caso e lhes contar como vim a encontrar, no ano passado, um outro homem em cuja vida houve uma circunstância bem estranha, pelo fato de ser daquelas que raramente acontecem. Esse homem fora, uma vez, conduzido com mais outros ao cadafalso, levado por uma sentença de morte. Ia ser fuzilado por causa de uma ofensa política. Vinte minutos mais tarde, porém, lhe era lida a comutação da pena de morte pela de degredo. Todavia, no intervalo entre as duas sentenças, vinte minutos, ou talvez um quarto de hora, teve ele a convicção firme de que ia morrer.

Sempre o escutei sequiosamente, quando se punha a recordar as sensações dessa ocasião e. muitas vezes, depois, eu o interrogava a respeito. Lembrava-se de tudo com perfeita exatidão e costumava dizer que lhe era impossível esquecer aqueles vinte minutos. A vinte passos do cadafalso, a cuja volta soldadesca e povaréu permaneciam, havia três postes fincados no chão, pois se tratava de vários condenados. Os três primeiros foram conduzidos até aos postes e amarrados, com a túnica dos condenados (um camisolão branco), os capuzes puxados bem por sobre os olhos para que nada vissem, sendo que então uma companhia de vários soldados se postou diante de cada poste. O meu amigo era o oitavo da lista e portanto tinha de ser um dos do terceiro turno. O padre se acercou de cada um, com a cruz. Ele só dispunha de cinco minutos mais para viver. Contou-me que aqueles cinco minutos lhe pareceram um infinito e vasto tesouro. Sentia tantas vidas naqueles cinco minutos que não precisava se incomodar com o último momento, tanto mais que havia subdividido o seu tempo da seguinte maneira: dois minutos para se despedir dos companheiros. Outros dois para o seu último pensamento geral. E, depois, o último, o quinto, para olhar em redor de si pela derradeira vez. Lembrava-se muito bem dessa extravagante subdivisão do seu tempo. Ia morrer aos vinte e sete anos, moço, forte e em plena saúde. Ao se despedir dos camaradas ocorreu-lhe perguntar a um deles qualquer coisa inadequada à circunstância, e achou muito curiosa a resposta. Após as despedidas, vieram os tais dois minutos que reservara para pensar em si mesmo. Sabia de antemão em que devia pensar. Desejava atinar, da maneira mais clara e pronta possível, como é que estava existindo agora, isto é, vivendo, e como é que dentro de três minutos seria qualquer outra coisa, alguém ou nada! E isso, como e onde? Resolvera solucionar tudo, de vez, naqueles dois únicos e últimos minutos. Não longe dali havia uma igreja cuja cúpula dourada cintilava aos raios solares. Como se lembrava de se ter posto a fixar, fascinado, aquela cúpula fulgurante de luz! Não podia tirar os olhos de lá! Era como se aqueles raios fossem já a sua outra futura natureza, visto como, dentro de três minutos, ele de um certo modo se iria fundir neles...

A incerteza e um como que sentimento de pavor pelo mistério em que já estava quase ingressando foram terríveis. Disse-me, porém, que nada foi tão cruel naquele momento como este contínuo pensamento em forma de interrogação: “E se eu não morrer? Se eu for devolvido à vida? Ah! Que eternidade! Tudo seria meu! Eu transformaria cada minuto em outras tantas eternidades! Não desperdiçaria um segundo sequer! Contaria cada minuto que fosse passando, sem desperdiçar um único!” Disse-me que esta idéia lhe veio com tal furor, que desejou ser imediatamente fuzilado, logo, logo!...

Subitamente, Míchkin interrompeu o que estava contando. E elas ficaram à espera de que ele prosseguisse e tirasse qualquer conclusão.

- Acabou? - perguntou Agláia.

- Como?! Ah! Sim - disse Míchkin, despertando de um sonho momentâneo.

- Mas, para que nos contou esta história?

- É que qualquer coisa em nossa conversa me fez recordá-la...

- O senhor fala muito abruptamente... - observou Aleksándra. - Provavelmente quis dizer, príncipe, que nenhum momento da vida deve ser considerado como insignificante e que, muitas vezes, cinco minutos são um precioso tesouro. Isto tudo é muito louvável; mas deixe que lhe pergunte, já que esse amigo que contou tais horrores foi perdoado e teve a pena comutada, havendo sido presenteado portanto com essa “eternidade de vida”. Que fez ele dessa riqueza, depois? Viveu, de fato, contando cada minuto?

- Qual nada! Disse-me depois. Eu também tive curiosidade em saber e perguntei. Muito pelo contrário: perdeu muitos e muitos minutos.

- Ainda bem que isso prova que é impossível viver “contando cada minuto”. Por algum motivo é isso impossível.

- Sim, alguma razão deve haver - confirmou o príncipe. -Também eu penso assim e, no entanto, não acredito que...

- Acha então que vive mais sabiamente do que qualquer outro? - indagou Agláia.

- Sim, muitas vezes julgo assim.

- E não muda de opinião?

- Penso sempre do mesmo modo.

Até então estivera contemplando Agláia com um sorriso gentil e tímido. Mas ao fazer tal afirmativa deu uma risada, passando a olhá-la com jovialidade.

- Isso é que é ser modesto...

O tom da voz de Agláia tendia para a irritação.

- Gosto de ver moças corajosas. Conto-lhes uma destas e não se impressionam! Pois eu fiquei estarrecido com o que esse homem me contou... Essa coisa de dividir os seus últimos cinco minutos... Palavra, tenho até sonhado com essa história...

Tornou a olhar para as suas ouvintes, examinando-as uma por uma.

- Ficaram zangadas comigo, por alguma coisa que eu tenha feito sem querer?

Olhava-as agora bem no rosto, parecendo um tanto embaraçado, assim de repente.

- Zangadas? Nós? Por quê? - exclamaram as três, surpreendidas.

- Ora.., por haver eu assumido todo este tempo um ar de quem recita um sermão...

Elas riram muito.

- Pelo amor de Deus, não me tomem por pretensioso. Sei por experiência própria que tenho vivido menos do que os outros e que conheço a vida muito menos do que qualquer outra pessoa. Natural, pois, que às vezes eu diga tolices.

E perturbou-se completamente.

- Se é feliz, conforme disse, deve ter vivido mais e nunca menos do que os outros. Não vejo por que haja de nos pedir desculpas - redargüiu Agláia, com timbre irritado. - E não suponha, por favor, que nos esteve pregando um sermão. E nem se trata, da sua parte, de nenhum sinal de superioridade, pois, com esse seu quietismo, fácil lhe é encher de felicidade um século de existência. Ou lhe mostrem uma execução, ou lhe façam um aceno com um simples dedo, para o senhor tanto faz, pois qualquer dos casos lhe dará margem para fazer edificantes reflexões, aperfeiçoando seu estado de beatitude. Ora, assim a vida é muito fácil.

- Não, compreendo, Agláia, que você esteja sempre “de ponta” com o que lhe dizem - disse a generala ao reparar no feitio do príncipe. Tampouco entendo o que você está aí a retrucar. Dedo de quem? Qual dedo? Não diga asneiras. O príncipe falou magnificamente; pena que o assunto tenha sido um pouco triste. Qual o motivo de pretender descoroçoá-lo? Quando começou, ele estava risonho; agora está sombrio.

- Está muito bem, mamãe. Escute, príncipe, que pena o senhor não ter assistido a uma execução... porque eu gostaria de lhe perguntar uma coisa.

Mas Míchkín prontamente respondeu:

- Já assisti a uma.

- Já? - entusiasmou-se Agláia. Bem me pareceu. Isso é o cúmulo! Se já assistiu a uma coisa dessas como é que tem a coragem de declarar que sempre foi feliz? Não estou eu dizendo uma verdade que o contradiz?

- Mas então, na sua aldeia, havia execuções? quis saber Adelaída.

- Vi uma, mas foi em Lião. Estava de visita à cidade, com Schneider. E ele me levou. Tivemos essa oportunidade logo que acabamos de chegar.

- Bem. Gostou? O que viu foi edificante e instrutivo? - persistia Agláia.

- Absolutamente não gostei e até adoeci depois. Devo confessar que fiquei pregado ali, no lugar, sem poder tirar os olhos daquilo.

- Eu faria o mesmo - afirmou Agláia.

- Eles implicam com as mulheres que vão assistir. Os jornais até censuram.

- É lógico. E se consideram que não é próprio para mulheres, inferem que o é para os homens. Justifica-se.

- Congratulo-me com essa lógica! E naturalmente também pensa assim, príncipe!?

Adelaída interrompeu-os, perguntando:

- Como foi essa execução?

- Não me sinto muito inclinado agora a contar. Míchkin estava meio atarantado, de sobrancelhas franzidas.

- Por que essa má vontade em nos relatar isso? - indagou Agláia, com certo ar escarninho.

- É que ainda agora mesmo acabei de descrever essa execução.

- Agora mesmo? A quem? Ora essa!

- Ao lacaio da entrada, enquanto esperava.

- Qual? - ouviu ele de todos os lados.

- Um que fica na saleta, que tem os cabelos meio encanecidos eacara vermelha; enquanto estive sentado na antecâmara, esperando falar com Iván Fiódorovitch

- Que despropósito! Isso é até original! - sentenciou a generala.

- Ora, o príncipe é um democrata - sublinhou Agláia. Bem, se contou a Aleksiéii como há de recusar a nós outras?

- Já estou preparada para Ouvir - disse Adelaída.

E Michkin começou, dirigindo-se a esta:

- Ainda agora me veio ao espírito um pensamento, quando me pediu um assunto para o seu quadro (Míchkin animava-se logo, confiante): sugerir-lhe que pintasse o rosto de um homem condenado! Um momento antes da guilhotina cair, quando ele ainda estivesse de pé no cadafalso, antes de se curvar sobre o cepo.

- O rosto? Só o rosto? - interessou-se Adelaída. Seria um tema estranho. E que espécie de quadro produziria isso?

- Não sei. Mas, por que não pintar? - insistiu Míchkin com ardor. Vi uma tela mais ou menos assim, em Basiléia, não há muito tempo. Gostaria de descrevê-la para as senhoritas. Um dia destes o farei. Impressionoume como quê!

- Não deixe de nos contar depois como era esse quadro de Basiléia - disse Adelaída.  Mas, por hoje, nos explique como devo pintar a execução. Poderia dizer-me como é que o senhor próprio a imaginaria? A cabeça como deve ser? E tem de ser só a cabeça? Como é o rosto?

- Praticamente tem de ser no minuto que antecede à morte - começou Míchkin, com muita presteza, servindo-se de suas recordações e dando até mostras de aflição, como não querendo esquecer nenhuma minúcia de importância relativa ao caso. - O momento em que ele acabou de subir a escadinha e parou sobre o cadafalso. Bem nesse instante ele olhou na minha direção. Olhei para a sua face e compreendi tudo. Será possível contar isso? Desejo, sim, desejo muito que a senhorita ou qualquer outra pessoa pinte isso. Melhor se fosse a senhorita. Já me veio a idéia de que a senhorita fizesse bem um quadro desse gênero. Mas, veja bem, tem-se de imaginar tudo quanto sucedeu antes, tudo, tudo! O condenado estava na prisão e pensava que a execução seria dentro de uma semana, contava com as formalidades de praxe e calculava que os papéis levariam uma semana para voltar.

Mas, por uma circunstância fortuita, o prazo foi reduzido. Às cinco da manhã ele estava dormindo. Fins de outubro. As cinco da manhã ainda é frio e escuro. O superintendente da prisão chega sem nenhum rumor acompanhado do guarda, e lhe toca o ombro, com muito cuidado. Ele se apoia no cotovelo e se ergue um pouco. Vê a lanterna. Pergunta: “Que é?”. “A execução será às dez horas”. Não pôde apanhar bem o sentido disso, por estar apenas semi-acordado, mas acabou objetando que a sentença demoraria no mínimo uma semana em seus trâmites. Nisto acordou de todo, deixou de protestar, ficou mudo. Assim me contaram. Depois falou:

“É duro assim de repente!  E de novo se calou, não falando daí em diante mais nada. As três ou quatro horas seguintes foram esgotadas nos usuais preparativos: receber o sacerdote, depois o almoço, no qual lhe serviram vinho, café e carne (não é isso um escárnio? Pensem na crueldade disso! E dizer-se que, afinal, esses inocentes funcionários agem de boa-fé, convencidos de que estão praticando um último ato de humanidade!) e depois a toilette (sabem que é isso?); só então é que o levaram através da cidade, para o suplício. Penso que também este homem, como aquele outro, deve ter imaginado, enquanto era levado através da cidade, que ainda lhe sobrava um tempo sem fim para viver. Devia ir pensando, pelo caminho: “Pois não é que ainda falta muito tempo! Tenho três ruas!

Devo passar por esta, até o fim, depois ainda tem a próxima antes de chegar a terceira; à esquerda há um padeiro, na terceira rua... sim... à esquerda. Ainda falta muito para chegar diante da casa do padeiro...

Em torno da carreta, multidão, barulho e exclamações. E ele tinha de suportar dez mil faces, vinte mil olhos!

E, pior do que isso, tinha de suportar o pensamento seguinte: “São dez mil, mas nenhum deles vai ser executado; eu é que vou ser executado”. Bem, todo esse preparativo. Agora, rente ao cadafalso, uma escadinha. Diante desses três degraus, começou a chorar, ele que tinha sido um forte, que fora um grande criminoso, segundo me disseram. O sacerdote não o deixava um só momento; acompanhou-o desde a carroça e não deixou de lhe falar todo o tempo. Duvido que tenha escutado. E se começou a escutar não deve ter apreendido mais do que duas palavras. Deve ter sido assim. E eis que começou a subir os degraus. Suas pernas estavam ligadas üma à outra, de maneira que teve de subir dando uns pulinhos lúgubres. O sacerdote, que era um homem inteligente, deixou de lhe falar, só lhe dando a cruz para que a beijasse. Ao pé da escada, ele estava lívido e, quando chegou àplataforma do cadafalso, parou e estava tão branco como papel, como papel imaculado sobre que se escreve. As suas pernas devem ter fraquejado, depois devem ter endurecido como paus. Eu pensava comigo que ele devia estar se sentindo tão mal como se uma coisa na garganta o sufocasse fazendo-lhe uma espécie de êmbolo. As senhoritas nunca sentiram isso, quando estão com temor, ou nos momentos terríveis em que conservamos toda a nossa razão, mas ela não tem mais nenhum poder? Penso que quem quer que se defronte com a destruição inevitável, por exemplo, ao perceber que uma casa vai desabar, deve sentir um desejo só, instantâneo e imediato: sentar-se e fechar os olhos, à espera... venha o que vier... Quando essa fraqueza estava chegando, o sacerdote em silêncio e em um movimento lépido lhe chegou a cruz aos lábios, erguendo-a até ele, uma pequena cruz de prata maciça, conservando-lha assim à altura dos lábios, muito tempo. Cada vez que a cruz lhe tocava os lábios, ele reabria os olhos e parecia vir à vida por uns poucos segundos; e as suas pernas se moviam. Tornava a beijar a cruz, veementemente Beijava-a com pressa, como para não se esquecer de se munir de alguma coisa de que muito necessitava, muito embora eu duvide que naquele momento lhe viessem sentimentos religiosos propriamente. E assim foi, até que o levaram para o cepo.

É incrível, como são raríssimas as pessoas que desfalecem nesse momento. Pelo contrário, o cérebro fica tão aguçado que decerto trabalha em uma progressão tremendamente centuplicada, qual maquina em alta velocidade. Quer me parecer que nessa hora sobrevenha um agudo tumultuar de idéias de toda sorte, sempre inacabadas e também absurdas, completamente gratuitas e inadequadas. “Aquele homem está me olhando. Tem uma verruga na cara. Um dos botões do casaco do algoz está enferrujado”. E uma porção de outras coisas que nessa hora vêm à tona... Há um ponto que se grava indelével, um eixo ao qual a pessoa não se pode eximir, já que tudo o mais roda à sua volta. E pensar que tem de ser assim até o último quarto de segundo, quando a cabeça já está sobre o cepo, à espera... e sabe!

Subitamente ouve em cima de si o retinir do aço. Sim, tem de ouvir isso. Se eu estivesse lá, curvado, ficaria bem atento a fim de ouvir e de escutar! Dura apenas a décima parte de um segundo, mas a pessoa sabe que escutará. E calculem que ainda é ponto de controvérsia saber se, um segundo depois de cortada, a cabeça sabe que foi cortada! Que idéia! E se eu lhes disser que cinco segundos depois ela ainda sabe!? Pinte o cadafalso de maneira que só o último degrau possa ser visto distintamente. No primeiro plano, o criminoso tendo acabado de o subir. Pinte-lhe a cabeça e o rosto, branco como papel; o sacerdote erguendo a cruz. O homem vorazmente estendendo os lábios azuis e olhando... e com que olhos! E ciente de tudo. Uma cruz e uma cabeça, mais nada, eis o quadro. O rosto do sacerdote e o do carrasco. Os seus dois ajudantes. E umas poucas cabeças e olhos, embaixo, pintados, se quiser, no plano posterior, em meia luz, assim como guarnição viva de tela... Eis o quadro!

Cessando de falar, Míchkin ficou olhando para elas.

- Não me digam que isso é quietismo - comentou consigo mesma Aleksándra. Mas Adelaída disse alto:

- E agora nos conte como foi que o senhor se apaixonou... O príncipe olhou-a, admirado.

- Escute - tornou Adelaída, de modo um tanto veemente - o senhor nos prometeu falar sobre a tela de Basiléia, mas eu preferia que nos contasse agora os seus namoros. Não negue que já esteve apaixonado! Além disso, logo que começa a descrever qualquer coisa, deixa de ser um filósofo.

E nisto Agláia observou, inesperadamente:

- Mal o senhor acaba de contar qualquer coisa fica assim como se estivesse envergonhado... Por que é isso?

- Que despautério, menina!... - ralhou a mãe.

E Aleksándra concordou:

- Que falta de propósito!...

- Não acredite em Agláia, príncipe - pediu a Sra. Epantchiná, virando-se para ele.

- Ela faz isso de caso pensado, por malícia; todavia não a eduquei assim tão mal. Oh! Não pense mal delas por estarem mexendo com o senhor desse jeito. Não pense que seja maldade. Eu sei que elas já estão gostando do senhor. Conheço o rosto de cada uma delas.

- Eu também conheço - disse o príncipe com uma ênfase toda especial.

- Como assim? - perguntou Adelaída, com curiosidade.

- Que sabe o senhor a respeito de fisionomias? - debicaram as outras duas também.

Míchkin, porém, não respondeu e ficou sério. Todas aguardavam a sua resposta.

- Eu direi mais tarde - disse, com delicadeza e seriedade.

- O senhor está mais é querendo suscitar a nossa curiosidade - exclamou Agláia. - E para que essa solenidade?

- Ora bem - interveio outra vez Adelaída, com precipitação.

- Se deveras é um conhecedor de rostos, certamente já teve algum amor, e a minha conjetura, ainda há pouco, foi certa. Conte-nos, então...

- Não, nunca me apaixonei - respondeu o príncipe tão gentilmente como antes e com o mesmo ar grave.

- Eu fui feliz, mas de um modo diferente.

- Como? Em quê?

- Então, se querem, está bem, vou contar - disse. E se concentrou, meditando profundamente.

 

- Estão todas me olhando com tamanho interesse que se eu não as satisfizer ficarão zangadas comigo.

Foi com essas palavras que o príncipe começou, acrescentando logo, com um sorriso:

- Brincadeira minha; sei que não ficarão, não. Havia, lá onde eu estive, um bando de crianças. Eu estava sempre com as crianças! Somente com as crianças!... Era a criançada da aldeia. Toda uma revoada de escolares.

Não que eu cuidasse delas. Oh, não; havia um professor para isso, Jules Thibault. Mas de certo modo não deixava eu de lhes ser útil, passando a maior parte do tempo no meio delas. Durante aqueles quatro anos posso dizer que convivi com elas. Para mim nada mais me interessava que isso. Costumava falar com elas a respeito de tudo, não as enganando em nada. Os pais e os conhecidos delas implicaram logo comigo, só porque as crianças não podiam passar sem mim e estavam sempre me rodeando, a tal ponto que o professor se tornou meu inimigo ferrenho. Tive muitas outras inimizades lá, pelo mesmo motivo, e o próprio Schneider se voltou contra mim. Não sei o que temiam! Às crianças se pode dizer tudo, tudo! Sempre me chocou verificar como os adultos não as compreendem, o pouquíssímo que os pais entendem de seus próprios filhos. Nada se deve ocultar às crianças, nem mesmo sob o pretexto de ser ainda muito cedo para que nos entendam. Isso é uma idéia triste e mesquinha. Sim, logo se dão conta de que os pais as consideram pequeninas demais para compreender as coisas! E. todavia.., sabem tudo! Há gente crescida que ignora que mesmo no caso mais difícil uma criança pode dar um conselho acertado! Reparem bem não é uma vergonha decepcionarmos esse pequenino pássaro que nos olha com tamanha felicidade e confiança? Digo pássaro porque não há coisa mais bela no mundo. Mas o que na verdade indispôs toda a gente contra mim foi o seguinte: Thibault tinha inveja e ciúme de mim. No começo, ele apenas meneava a cabeça, não podendo atinar como era que a meninada compreendia tudo através de mim e quase nada do que ele ensinava. Deu então em caçoar, só porque lhe disse que nenhum de nós podia ensinar fosse o que fosse às crianças, e que delas sim, tínhamos de aprender tudo. Como pode esse homem, vivendo por ofício entre as crianças, vir a ter ciúmes de mim, chegando a me intrigar tanto? Pois se a alma só se robustece no convívio com as crianças, não é mesmo?...

Havia na instituição de Schneider um homem muito infeliz. Duvido mesmo que haja outra infelicidade comparável à dele. Estava em tratamento lá por causa de loucura. A meu ver, não era louco, mas sim medonhamente desgraçado. Isso é que ele era. Se ao menos as senhoritas imaginassem o que a criançada fez por ele no fim... Mas, sobre esse paciente será melhor eu falar em uma outra ocasião. Eu lhes vou dizer, agora, como foi que tudo aquilo começou. No início, as crianças não se sentiram atraídas por mim. Eu era tão grande! Sou sempre tão desajeitado! Eu sei também que sou feio... E, ainda por cima, eu era estrangeiro. No começo elas caçoavam de mim e, depois que me viram beijar Marie, deram em me jogar pedras. Eu só a beijei uma vez...

Ora, por que estão rindo? - e Míchkin se apressou em deter o sorriso de suas ouvintes.

- Não se tratava de namoro, não. Se chegassem a saber que criatura infeliz ela era, teriam compaixão, como eu tive. Vivia na nossa aldeia, com a velha mãe. Das duas janelas da sua casa em ruínas uma estava reservada, com licença das autoridades locais, que tinham dado permissão à velha, para a venda, ali, de cordões de sapatos, linhas, fumo e sabão. Rendia uma bagatela, mas era com o que elas viviam. A velha era inválida; tinha as pernas inchadas, vivia entrevada. Marie, sua filha, era uma rapariga de vinte anos, fraca e magra. E apesar de há muito tempo tuberculosa, ia de casa em casa, para trabalhos pesados: esfregava assoalhos, lavava roupa, varria quintais e tratava do gado. Um caixeiro-viajante francês a seduziu e a levou consigo, para acabar, uma semana depois, abandonando-a.

O tratante desapareceu! Teve ela de voltar para casa, esmolando, toda enlameada e em frangalhos, os sapatos em petição de miséria. Levou uma semana para chegar; teve de passar noites nos campos apanhando um frio espantoso. Trazia os pés cheios de feridas, e as mãos gretadas e inflamadas. Antes, já não era bonita; apenas os olhos eram suaves, doces e inocentes. E como era calada! Lembro-me de que, uma vez, trabalhando, se pôs a cantar! E não posso esquecer como todo o mundo desandou a rir, com essa surpresa.

“Marie está cantando! Ora essa, Marie cantando!...” Ficou tão desconcertada que nunca mais entreabriu os lábios. Naqueles outros tempos o povo ainda era bom para com ela, mas quando voltou, escangalhada e doente, ninguém mais teve pena. Como, em tais circunstâncias, o povo se torna cruel!? Como é grosseira a noção que as criaturas têm dessas coisas! Para começar, a própria mãe a recebeu com desprezo e cólera. “Tu me desgraçaste!” E foi a primeira a abandoná-la à sua vergonha. Mal souberam que Marie tinha voltado, todos vieram logo ver, e a aldeia em peso se aglomerou diante do casebre da velha. Todos! Velhos e crianças, mulheres e raparigas, todo o mundo, uma gentalha sequíosa e movediça. Marie jazia por terra, aos pés da velha, esfomeada e em andrajos, toda em lágrimas. Vendo-os chegar, cobriu o rosto com a cabeleira, a cara grudada no chão. Ficaram ali, pasmados diante dela, como diante de um réptil. Os velhos a censuravam e os moços se riam. O mulherio a espezinhava com ultrajes, olhando com asco, como se a pobrezinha fosse uma aranha. E a mãe permitia tudo isso, ali ao lado, acenando com a cabeça, concordando com todos, embora o estupor da velha já estivesse bastante doente e quase moribunda. Tanto que, dois meses depois, morria. E sabendo que estava para morrer, até à data da morte não sonhou sequer em se reconciliar com a filha. Nunca lhe dirigiu uma palavra; pô-la a dormir no alpendre, quase que lhe negava comida. Como, porém, precisava de escalda-pés, Marie lhe fazia isso sempre pronta; a velha aceitava o serviço em silêncio, sem jamais lhe dirigir uma palavra amável. Marie resignou-se a tudo e, quando vim a conhecê-la, tive informações de que achava isso muito certo, considerando-se a mais ínfima das criaturas. Já quando a velha nem se podia mais levantar, as velhotas da aldeia se revezavam para ficar com ela um pouco, como é de hábito entre essa gente. Nenhuma deu mais comida a Marie, e na aldeia todos se afastavam dela; e ninguém lhe quis dar  mais trabalho, como antigamente. E assim, cada qual cuspia nela; os homens, não  a olhando mais como a uma mulher ao menos, Diziam-lhe indecências. As vezes, mas poucas, quando voltavam bêbados, aos domingos, eles se divertiam em jogar-lhe moedas, atirando as perto, no chão. Marie apanhava-as, sem dizer palavras. Começou a escarrar sangue, nessa época.

Ultimamente, as suas roupas eram andrajos só, o que ainda a envergonhava mais de aparecer na aldeia. Desde que regressara, andava descalça. Então, a criançada principalmente, todo o bando - eram cerca de uns quarenta escolares - começou a apupá-la e a jogar-lhe porcarias. Ela pediu ao vaqueiro que a deixasse olhar pelas vacas, mas o homem a enxotou; mesmo assim, deu em sair, o dia inteiro, com o gado. por deliberação própria. ainda que sem licença. E como isso convinha ao vaqueiro, que logo percebeu a vantagem, não a enxotou mais e, uma vez ou outra, lhe dava do pão e do queijo que lhe sobrava do jantar. Considerava isso um grande favor de sua parte. Quando a mãe lhe morreu, o pastor não teve escrúpulo de envergonhar Marie na igreja, defronte de todo mundo. Marie estava chorando ao lado do ataúde, em trapos, como andava. Uma porção de gente se tinha juntado para vê-la assim ao lado do caixão a chorar. E então, o pastor (ele era ainda moço e toda a sua ambição era vir a se tornar um grande pregador!) apontou para Marie e dirigindo-se a todos, disse: “Ali vedes a causa da morte desta prestante mulher (o que era uma mentira, pois havia dois anos que ela estava doente), ali está ela, defronte de vós e não ousa olhar-vos, pois sabe que está marcada pelo dedo de Deus; ali está ela, os pés descalços e a roupa em trapos! Seja isso uma advertência a todas a fim de preservarem a virtude. Eis o desgosto que uma filha pode causar a sua mãe!” E assim por diante, sempre neste estilo. E, acreditem, mesmo que lhes custe, tal infâmia agradou sobremodo! Mas.. nisto, as coisas seguiram um curso diferente. A criançada tomou sozinha uma deliberação, e, como já estava tida do meu lado; começou a gostar de Marie.

E eis como isso aconteceu... Eu desejava fazer alguma coisa por Marie. Ela estava bem necessitada de dinheiro, mas eu nunca tinha comigo uma nota sequer, nesse tempo. Lembrei-me de um alfinete com um diamantezinho e o vendi a um bufarinheíro que andava de aldeia em aldeia vendendo e comprando roupa velha.

Deu-me oito francos, e aquilo valia bem uns quarenta. Tratei logo de encontrar Marie sozinha. Por fim dei com ela perto de uma sebe, fora da aldeia, em um atalho da montanha, atrás de uma árvore.

Entreguei-lhe então os oito francos e lhe disse que tomasse cuidado, pois me seria impossível arranjar mais. Foi então que a beijei e lhe disse que não pensasse que eu era algum mal-intencionado.

Expliquei-lhe que a beijava não porque estivesse enamorado. mas porque tinha muita pena dela; e afirmei que nunca, desde o começo, a tinha julgado culpada, mas somente infeliz. Pretendi confortá-la, ali mesmo e persuadi-la a que não se considerasse inferior a qualquer pessoa; creio, porém, que ela não me entendeu. Percebi isso imediatamente, embora não me respondesse quase nada todo tempo, assim, diante de mim, a olhar para o chão, horrivelment confusa.

 Quando acabei, ela beijou minha mão, e eu imediatament segurei a dela, e a teria beijado se ela não a retirasse, Foi então que o bando das crianças nos viu. Percebi depois que nos estavam espiando desde alguns momentos antes.

Começaram a assobiar, a rir e a bater as mãos. Marie fugiu. Eu quis falar às crianças mas elas se puseram a atirar-me pedras. Naquele mesmo dia, todo o mundo soube disso, em toda a aldeia. O peso de tudo caiu sobre Marie, de novo; antipatizaram com ela ainda mais, Cheguei mesmo a ouvir que pretenderam que as autoridades a castigassem; mas, graças a a Deus, tal não se deu. Todavia as crianças não a deixaram em paz: atormentavam-na ainda mais e até lhe atiravam imundícies. Enxotavam-na; ela fugia, com aqueles seus pulmõezinhos fracos, arfando, e quase sem fôlego. Corriam atrás dela, gritando e xingando.

Até que, uma vez, tive uma briga, deveras, com eles. Pus-me a falar-lhes. Falava-lhes todos os dias e o mais possível. As vezes paravam e escutavam, embora ainda me escarnecessem. Fiz-lhes ver quanto Marie era infeliz; deixaram logo de debicar e se retiraram calados. Pouco a pouco, começamos a conversar juntos. Não lhes ocultava coisa alguma, contei-lhes toda a história. Ouviram com toda a atenção e logo começaram a ter pena de Marie. Alguns até a saudavam amistosamente à medida que a encontravam. É um hábito de lá, quando uma pessoa encontra outra, conheçam-se ou não, inclinarem-se e se desejarem bom dia. Posso imaginar como isso causou admiração a Marie. Duas menininhas, um dia, trouxeram comida que lhe ofereceram; e depois vieram me dizer. Contaram-me que Marie chorou e que a amavam, agora, muito. Imediatamente todos começaram a querer bem a ela, e a mim, também. Deram em vir ver-me, sempre, e me pediam que lhes contasse histórias. Creio que me saí bem nisso, pois se puseram a escutar-me, muito contentes. Foi depois disso que comecei a ler e a estudar, simplesmente para ter o que lhes contar e, nos três anos seguintes, acostumem-me inventar-lhes histórias.

Depois, então, quando todo o mundo inclusive o próprio Schneider, me repreendia por falar com elas, como a pessoas crescidas, não lhes escondendo absolutamente nada, eu afirmei que era uma vergonha decepcioná-las: que elas viriam a saber tudo, de qualquer maneira, mesmo que muitas coisas lhes fossem ocultadas, e que talvez viessem a sabê-las por um meio mau; ao passo que, comigo, não. Basta que cada qual se lembre da própria infância.

Não concordaram... Eu beijara Marie, umas duas semanas antes de sua mãe morrer. Na ocasião em que o pastor pronunciou a sua arenga, já a criançada toda estava do meu lado. Imediatamente lhes contei a má ação do pastor, explicando-lhes bem. Ficaram zangadas com ele, e algumas se enfureceram tanto que apedrejaram e quebraram os vidros das janelas dele. Fi-las parar, pois isso não estava direito. Mas todos na aldeia vieram a saber disso e começaram a me acusar de estar corrompendo as crianças. E tendo percebido que as crianças gostavam de Marie, ficaram horrorizados. Marie, porém era feliz, agora! Proibiram as crianças de se encontrar com ela. Mas escapuliam para onde ela guardava o gado, aproximadamente meia milha fora da aldeia. Levavam-lhe iguarias.

E uma ou outra, isoladamente, vinha a correr, só para abraçá-la, beijá-la e dizer-lhe “J~ vous aime, Marie” e logo voltava a correr tão ligeiro quanto as suas perninhas lhe permitiam. Marie quase ficava fora de si, ante uma felicidade para ela nunca vista. Pois se nem sonhara com tal possibilidade! Ficava ruborizada e radiante. Do que as crianças mais gostavam, especialmente as meninas, era correr até ela para lhe dizer que eu a amava e lhes tinha falado muito dela. Contavam-lhe que eu lhes tinha relatado tudo a seu respeito e que por isso, agora lhe tinham amor e compaixão. E que para sempre isso seria assim. Corriam, depois, para mim, com seus rostinhosalegres e compenetrados, e participavam que tinham acabado de ver Marie e que Marie me enviara lembranças.

De tardinha costumava eu ir passear até à cascata. Era um lugar bem escondido da aldeia, todo rodeado de álamos. Lá costumavam se reunir à minha volta algumas dessas crianças que vinham às escondidas. Acho que o meu sentimento por Marie lhes causava imenso prazer; e este foi o único ponto em que as decepcionei. Pensam que lhes disse que elas estavam enganadas, que eu não estava namorando Marie? Que somente tinha muita pena dela? Não lhes disse nada a tal respeito, pois fácil era perceber que queriam que as coisas fossem conforme suas imaginações e de acordo con o que Julgavam como lógico. Cuidavam que suas conjeturas eram çertas. Quanta delicadeza e ternura naqueles coraçõezinhos.  Mas uma coisa não lhes entrava nas cabecinhas que Marie, sendo amada pelo querido Léon, devesse andar tão mal vestida e descalça. E, querem saber? Conseguiram arranjar-lhe sapatos, meias grossas, roupa branca e até mesmo um vestido Como, não sei.

A verdade é que conseguiram. E o bando inteiro a trabalhar sempre. Quando eu, maravilhado, as interrogava à cata de esclarecimentos apenas davam risadas gostosas; as menininhas essas então batiam com as mãos me davam beijos. Algumas vezes eu também me abalançava a ir ver Marie, mas sempre as escondidas Ela já estava então muito mal; quase não podia andar. Impossível lhe era já agora trabalhar na casa do pastor, mas ainda saía todas as manhãs com o gado. Costumava sentar-se um pouco apartada, Preferia instalar-se em uma espécie de saliência, entre rochedos quase a pique. Sempre se sentava acolá, fora da vista, em um canto, permanecendo quase o dia inteiro, desde manhã cedinho, naquele seu retiro. Saía só na hora de recolher o gado. Mas já estava tão fraca, por causa da tuberculose, que encostava a cabeça contra a rocha e fechava os olhos dormitando, com a sua respiraçãozinha penosa. Seu rostinho era tão transparente que parecia uma caveira. Havia sempre suor a lhe escorrer da testa e das têmporas. Eu a encontrava quase sempre assim. Mal eu aparecia, ela despertava, abria os olhos e não parava de me beijar as mãos. Eu quase não demorava porque não queria que ninguém me visse. Quedava-me ali, sentado ao seu lado, não tentava sequer recolher as mãos, pois Marie se sentia feliz em mostrar com aqueles beijos a sua gratidão. Uma vez ou outra ela experimentava dizer qualquer coisa... Mas nunca cheguei a compreender aquelas palavras engroladas. Parecia uma criatura em transe, em uma terrível crise de ânsia ante tão pequena mas para ela tamanha felicidade. Às vezes eu levava comigo algumas das crianças. Estas ficavam por perto, vigiando os arredores, como que a proteger-nos de alguém, ou de alguma coisa, sentindo com isso um extraordinário prazer. Quando nos íamos, Marie ainda ficava, tão Sozinha, com os olhos fechados, a cabeça reclinada contra o rochedo sonhando talvez com alguma coisa...

Certa manhã já não pôde sair com as vacas; ficou em casa, na Sua solitária choupana. As crianças souberam disso imediatamente, e quase todas vieram perguntar por ela, nesse dia. Estava deitada completamente só. Durante dois dias foi guardada apenas pelas crianças que se revezavam em turnos: mas quando a notícia se espalhou pela aldeia e houve indícios de que Marie estava à morrer, todas aquelas velhas da terra vieram e se instalaram na sua cabeceira, penso que então aquela gente começou a sentir pena de Marie. Ainda assim, ralhavam com as crianças e as proibiam de vir vê-la, como já tinham feito antes. Marie estava quase todo o tempo adormecida, mas o seu sono era entrecortado por uma tosse terrivel. As velhotas escorraçavam com as crianças; mas estas apareciam do lado de fora da janela, algumas vezes, um momento só que fosse para dizerem “Bonjour, notre bonne Marie”. E mal as pressentia, ou as ouvia, ela parecia reviver e, apesar das velhas estarem ali, experimentava levantar- se apoiada nos cotovelos, acenava-lhes e lhes dizia “Merci”. Deram em lhe trazer guloseimas, como antes, mas raramente ela comia alguma coisa. E, em verdade, lhes posso garantir que foi graças a elas que Marie morreu quase feliz!

Graças a elas, pôde esquecer o seu amargo sofrimento. Elas lhe trouxeram com isso, uma como que absolvição, pois até ao fim se considerou uma grande pecadora. Ah! As crianças pareciam aves, batendo con as asas contra a janela, chamando por ela, todas as manhãs: “Nou t’aimons, Marie!”

Morreu muito cedo. Eu esperava que ela durasse mais. Na véspera da sua morte fui vê-la, ao pôr-do-sol.

Parece que me reconheceu quando lhe segurei e apertei a mão pela última vez. Como seus dedos se haviam descamado! Na manhã seguinte vieram participar-me que Marie tinha morrido. Não houve quem pudesse conter as crianças. Elas lhe enfeitaram o caixão com flores e lhe puseram uma grinalda na cabeça. O pastor, na igreja, não cometeu nenhuma aviltação desta vez. Não foi um funeral concorrido, havia pouca gente, atraída pela curiosidade; mas quando o caixão teve de ser carregado para fora, a criançada investiu para o carregar. E conquanto não fossem suficientemente fortes para agüentar o peso -sozinhas, ajudaram a levá-lo, e caminhavam atrás do ataúde, chorando. Desde então, as crianças zelaram pela sepultura de Marie. Plantaram rosas, em toda volta, e cada ano a cobriam de flores.

Foi, porém, depois do enterro, que eu fui mais perseguido pelos aldeões, por causa da criançada, O pastor e o mestre-escola os atiçavam. As crianças ficaram estritamente proibidas de se encontrarem comigo, e Schneider empregou todo o seu esforço para que tal proibição fosse efetiva. Mas nós nos víamos, assim mesmo; comunicávamo-nos a distância, por sinais.

Enviávamo-nos pequenos bilhetes. Por fim as coisas se aplainaram. Mas foi esplêndido.

Todo esse tempo. Essa perseguição ainda me aproximou mais das crianças. No último ano, o pastor e Thibault estavam quase reconciliados comigo. E Schneider argumentava muito comigo a respeito do meu sistema” pernicioso para com as crianças. Como se eu tivesse algum “sistema”! Por fim. Schneider revelou um muito estranho pensamento, o que fez pouco antes de eu vir embora. Confessou me que tinha chegado à conclusão de que eu era uma completa criança, eu próprio. Nem mais nem menos do que uma criança; que eu era adulto apenas na cara e no tamanho, mas que, no desenvolvimento, na alma, no caráter, e talvez até na inteligência, não tinha crescido, e que permaneceria sempre assim, mesmo que vivesse até aos sessenta!...

Ri-me muito. Ele estava errado, é lógico, pois não sou nenhuma criança. Mas em uma coisa ele tem razão.

Não gosto de ser como as pessoas crescidas. Notei isso, desde muito. E não gosto, porque não sei como agir diante delas. Digam-me seja o que for, por mais gentis que sejam comigo, sempre me sinto de certo modo oprimido diante delas e fico medonhamente alegre quando posso voltar para os meus companheiros; e os meus companheiros têm sido sempre as crianças, não porque eu próprio seja uma criança, mas porque sempre me senti atraído por elas. Quando eu era novato na aldeia, ao tempo em que empreendia melancólicos passeios pelamontanha, sozinho, e me acontecia, especialmente por volta do meio-dia, encontrar o bando barulhento saindo da escola, a correr, com suas sacolas e com suas lousas, entre gritos, jogos e risadas, imediatamente a minha alma corria para eles. Não sei como se dava, mas a verdade é que tinha uma espécie de intensa e feliz sensação cada vez que os encontrava. Ficava parado, quieto, sorria com felicidade vendo-lhes as pequenínas pernas sempre voando por aí afora, meninas e meninos correndo juntos, com seus sorrisos e com suas lágrimas (pois muitos deles armavam rixas, choravam, interrompiam as brigas, passavam a brincar de novo, à saída da escola, de volta para casa) e isso me fazia esquecer todos os meus lúgubres pensamentos. Depois do que, nos três últimos anos, eu nunca pude compreender como e por que há gente triste. O centro de minha vida foram as crianças.

Não contava ter de deixar a aldeia e nem me passava pelo espírito que um dia teria de regressar à Rússia.

Pensava permanecer sempre lá. Mas por fim acabei vendo que Schneider não podia continuar me conservando consigo. Foi então que as coisas viraram subítamente, e tão importantes foram elas em sua evidência, que o próprio Schneider instou comigo para vir embora e garantiu minha volta. Vou examinar essas coisas e aconselhar-me com alguém. Minha vida talvez mude completamente. Deixei muita coisa lá, muita, mesmo! Ao tomar o trem, pensei:

“Vou agora me encontrar com o mundo. Ignoro tudo, por assim dizer, mas uma vida nova começou para mim”. Tomei a resolução de fazer a minha tarefa resoluta e honestamente. Deve ser duro e difícil viver no mundo.

Em primeiro lugar, resolvi ser cortês e sincero como todo o mundo. “Ninguém deve esperar mais do que isso, de mim. Talvez aqui também me olhem como uma criança; não faz mal”. Todo o mundo me toma por um idiota e isso também pela mesma razão. Outrora estive tão doente que realmente parecia um idiota. Mas posso eu ser idiota, agora, se me sinto apto a ver, por mim próprio, que todo mundo me toma por um idiota? Quando cheguei, pensei: “Bem sei que me tomam por um idiota; todavia tenho discernimento e eles não se dão conta disso!...” Muitas vezes tive este pensamento.

Mal cheguei a Berlim, recebi algumas cartinhas que as crianças tinham conseguido me escrever, e então compreendi quanto gosto de crianças. A primeira carta dá sempre muita saudade. Como as crianças lamentavam a minha ausência! E todavia tinham tido um mês, de antemão; para se prepararem para minha partida. “Léon s’en va, Léon s’en va pour toujours!” Como antes, encontrávamo-nos sempre na cascata e falávamos da nossa separação. E, certas vezes, tão radiantes como outrora! Era só quando nos separávamos, à noitinha, que elas me abraçavam e beijavam com mais calor do que o faziam antigamente. Uma ou outra vinha me ver sozinha e em segredo, simplesmente para me beijar e abraçar sem ser diante das demais. Quando vim embora, elas todas, todo o bando me acompanhou à estação. A estação da estrada de ferro distava da aldeia cerca de uma verstá.

Esforçavam-se por não chorar, mas algumas não se puderam conter e soluçavam alto, principalmente as meninas. Apressamo-nos para não chegar atrasados; mas aqui e além, uma delas saía correndo de uma azinhaga, pulava para os meus braços, beijava-me, obrigando toda a procissão a parar, simplesmente para isso. E embora tivéssemos pressa, parávamos, esperando que este, ou aquele, me dissesse adeus. Quando me acomodei e o trem partiu, todas elas exclamaram “Hurra!” e permaneceram lá até perderem o trem de vista. Eu também não tirava os olhos delas... E agora lhes digo, quando entrei aqui e olhei para os rostos tão doces das senhoritas - eu agora estudo o rosto de todo mundo, perfeitamente! – e lhes ouvi as primeiras palavras, meu coração sentiu luz pela primeira vez, desde a Suíça. E então pensei comigo que talvez eu seja uma pessoa de sorte. Sei bem que nem sempre a gente encontra pessoas com quem logo simpatize! E não é que vim para aqui diretamente da estação e as encontrei? Sei bem que a gente se peja de falar do seu próprio sentimento com qualquer um, mas lhes falei sem sentir nenhum pejo. Sou muito insociável. e, provavelmente, não voltarei a vê-las tão cedo. Não tomem isso como desconsideração. Nem estou dizendo isso por não dar valor a esta amizade, e não pensem, muito menos ainda, que me considerei ofendido por qualquer coisa. As senhoritas me perguntaram a respeito da impressão que tive do rosto de cada uma e o que teria eu notado neles. Terei muito prazer em responder. Vós, Adelaída Ivánovna, tendes um rosto feliz, o mais simpático dos três. Além de serdes muito bonita, a gente verifica, olhando-vos, “que tendes o rosto de uma extremosa irmã”. Vosso contato é simples e alegre. mas tendes especial habilidade em ver dentro dos corações. Eis como o vosso rosto me impressionou. Vós, Aleksándra Ivánovna. tendes também um rosto belo e doce; mas talvez haja nele uma secreta perturbação. Vosso coração, certamente, é dos mais bondosos, mas não é alegre. Há qualquer peculiaridade em vosso rosto. algo do que vemos na Madona de Holbein, em Dresde. Bem. quanto ao vossos rosto, isto basta. Acertei? Eu, pelo menos, acho que sois assim. Mas, pelo vosso rosto, Lizavéta Prokófievna - ele se voltou repentinamente para a Sra. Epantchiná - pelo vosso rosto distingo perfeitamente que sois uma criança em tudo, em tudo, no bem e no mal igualmente, a despeito de vossa idade. Aborrece-vos, dizer-vos eu isso? Já esclareci, e bem, o que penso a respeito das crianças. E não penseis que foi a minha simplicidade que me fez falar tão sinceramente sobre o rosto de cada uma. Oh! Absolutamente, não! Talvez haja algum propósito bem meu no que acabo de fazer!

 

Quando o príncipe acabou de falar, elas todas estavam olhando para ele, jovialmente: mesmo Agláia e, de um modo todo especial, Lizavéta Prokófievna.

- Bem, elas o submeteram a um exame - exclamou a generala.

- Bem, meninas, vocês pensaram que iam protegê-lo como a um  parente pobre, mas ele apenas se digna tolerar vocês, e isso mesmo com a cláusula de que não virá muitas vezes não! Mistificou-nos todos, principalmente a Iván Fiódorovitch. Bem feito! Bravo príncipe! Meu marido ainda agora mandou que submetêssemos o senhor a um exame. E quanto ao que disse do meu rosto, está perfeitamente certo; sou uma criança, sei disso muito bem. Eu sabia antes, portanto falou por mim, pondo os meus pensamentos nas suas palavras. Creio que o seu caráter e o meu são iguais, exatamente, como duas gotas de água, e isso me alegra. A única diferença é que o senhor é um homem e eu sou uma mulher que nunca esteve na Suíça. Ora, aí está a única diferença.

- Não tire conclusões tão depressa, mamãe - disse Agláia. O príncipe confessou que em tudo isso tinha um motivo especial que não estava falando à toa.

- Foi, sim - riram as outras.

- Não o importunem, queridas. Ele é mais perspicaz do que vocês três juntas. Vão ver já. Mas por que foi que o senhor não falou nada a respeito de Agláia, príncipe? Agláia está esperando; e eu também.

- Não posso dizer nada por enquanto. Direi mais tarde.

- Por quê? Ela não tem nada que chame atenção?

- É isso mesmo. Vós sois inexcedivelmente bela, Agláia Ivánovna. Sois tão bela que se fica com medo de olhar-vos.

- Só isso? Não diz nada sobre as qualidades dela? - insistia a Sra. Epantchiná.

- É difícil julgar a beleza. Eu, pelo menos, ainda não sou capaz. A beleza é um enigma.

- Esplêndido, considerar Agláia como enigma. Esclareça o enigma, Agláia. Mas então ela é bonita?

- Muito!... - respondeu o príncipe, olhando com entusiasmo para Agláia. Tão bonita, decerto, como Nastássia Filíppovna, embora muito diferente de rosto.

Todas se entreolharam, pasmadas.

- Como quem? - explodiu a Sra. Epantchiná. - Como Nastássia Filíppovna? Onde viu Nastássia Filíppovna? Qual Nastássia Filíppovna?

- Refiro-me a um retrato que Gavril Ardaliónovitch estava agora mesmo mostrando a Iván Fiódorovitch.

- Como? Ele trouxe o retrato dela para Iván Fiódorovitch?

- Só para mostrar. Nastássia Filíppovna, hoje, deu o seu retrato a Gavríl Ardaliónavitch, e ele, então, o trouxe para mostrar.

- Quero ver isso! - disse impetuosamente a Sra. Epantchiná.

- Onde está essa fotografia? Se lhe foi dada, deve tê-la guardado com certeza: e como hoje é quarta-feira, dia de ficar trabalhando no gabinete, ainda deve estar lá. Não pode sair antes da hora. Chame-o, imediatamente. Não, não estou morrendo por vê-lo, não. Príncipe, quer me fazer um favor? Vá até ao escritório, peça a fotografia traga-a aqui. Diga-lhe que queremos ver; faça o favor.

Depois que o príncipe saiu. Adelaída disse:

- É tão agradável! Mas parece tão ingênuo...

- Sim, um tanto - concordou Aleksándra. - E isso o faz um pouco ridículo, deveras.

Nenhuma delas dissera direito o que tinha no pensamento.

- Mas se saiu muito bem a respeito de nossos rostos - considerou Agláia.

- Adulou-nos bem; inclusive à mamãe.

- Deixem de fazer espírito. É favor! Ele não me lisonjeou; eu é que fiquei lisonjeada.

- Será que ele estava simulando? - Adelaída parecia indecisa.

- Eu acho que ele não tem nada de ingênuo.

- Parem com isso - disse-lhes a mãe, ficando zangada. - No meu entender, vocês são mais ridículas do que ele. Acho que tem todas as faculdades em ordem, no sentido correto. Exatamente como eu.

“Fiz mal em falar nessa fotografia”... ia pensando Míchkin enquanto se dirigia ao escritório, sentindo uma pancada na consciência. “Mas falei, está falado, e quem sabe até se não foi bom?”

Uma compreensão ainda difusa se estava aclarando em seu espírito. Encontrou Gavril Ardaliónovitch ainda no escritório, absorvido com os seus papéis. É lógico que não recebia salário da Companhia para não fazer nada. Quando o príncipe lhe pediu a fotografia ficou desconcertado, tendo sido preciso que o príncipe lhe contasse como é que elas tinham ouvido falar nisso.

- Arre! Mas que necessidade tinha o senhor de dar com a língua? - exclamou desapontadíssimo. - Que tem o senhor que se imiscuir? - E sussurrou por entre os dentes: “Idiota!”

- Desculpe-me. Fiz isso inadvertidamente. É que as coisas se encaminharam de tal maneira! Eu estava dizendo que Agláia era tão bonita como Nastássia Filíppovna .. e aí...

Gánia pediu-lhe que lhe contasse exatamente como o fato havia se passado. E o príncipe o fez. Gánia olhava-o com desdém e sarcasmo.

- O senhor .. encasquetou-se-lhe Nastassia Filippovna no cérebro... - Mas, refletindo, parou de falar, porque uma idéia lhe veio subitamente.

O príncipe tornou a pedir o retrato.

- Ouça, príncipe, eu queria lhe merecer um favor... mas, realmente, não sei...

Calou-se, embaraçado. Parecia estar lutando consigo mesmo ensaiando refazer-se. O príncipe esperava calado. Gánia tornou a examiná-lo, com mais cautela, olhando-o demoradamente.

- Príncipe - recomeçou ele - elas lá dentro estão aborrecidas comigo, por causa de um incidente à-toa e ridículo, pelo qual aliás não mereço censura; e nem é preciso aqui me explicar porquê Acho que estão um pouco sentidas comigo, de maneira que, por enquanto, não devo entrar lá a não ser sendo convidado. Mas eu precisava muito dizer uma coisa a Agláia Ivánovna. Até escrevi umas poucas palavras, à espera de uma oportunidade (segurava um papel dobrado) e não sei como lhas entregar. O senhor quer pegar nisto e entregar, mas quando ela estiver sozinha, de modo que ninguém veja? Compreendeu bem? Não se trata de nenhum segredo impróprio, nada disso... mas... Quer me fazer este favor?

- Não gosto muito de fazer isso - respondeu o príncipe.

- Oh! Mas, príncipe, é uma coisa importantíssima para mim- suplicou Gánia. - Ela naturalmente responderá. Acredite-me, foi só em último recurso, só por não haver outra fórmula que tive de recorrer a... E não tenho mais ninguém a não ser o senhor, é preciso ser já... é muito importante, o senhor nem pode imaginar... - Olhava-o com olhos de servil bajulação, terrivelmente receoso de que Míchkin se negasse.

- Está bem, levarei.

- Mas entregue de maneira que ninguém veja - rogou Gánia. mais aliviado.

- E, outra coisa, posso eu, de fato, me fiar na sua palavra de honra, príncipe?

- Sossegue, que não mostrarei isto a ninguém - disse o príncipe.

- O bilhete não está fechado, mas... - recomeçou Gánia, com ansiedade, calando-se logo muito confuso.

- Oh. Não vou ler, não! - respondeu o príncipe, com muita simplicidade. Apanhou também o retrato que lhe fora entregue e saiu do escritório.

Gánia, mal se viu sozinho, pôs as mãos na cabeça e declamou para si mesmo:

- Uma palavra dela... e rompo com tudo, nem tem dúvida!

E, por causa da excitação e da dúvida, não havia meios de pôr a papelada em ordem. Começou então a passear pela sala, de um canto para outro.

O príncipe saiu um pouco pensativo, pois tal missão o impressionava desagradavelmente. Além disso, esse fato de um bilhete de um homem como Gavril Ardaliónovitch para uma moça como Agláia Ivánovna, era qualquer coisa de desarmonioso. E estando duas peças ainda longe da sala de estar, parou porque só então lhe veio uma idéia: olhar, aproveitando bem a claridade (e para isso se aproximou da janela) o retrato de Nastássia Filíppovna.

Parecia tentar decifrar qualquer mistério que antes já o havia impressionado naquele rosto. Impressão que não tinha ainda passado; entretinha-se assim, pois, a verificar mais uma vez o que seria. E aquele rosto ainda o impressionou mais, não só por sua extraordinária beleza, como por qualquer coisa que existia escondida nele. Era uma expressão de ilimitado orgulho ou desdém, quase ódio em que se diluía, ao mesmo tempo, algo de confiante e de prodigiosamente enternecedor. O contraste entre esses dois elementos despertava um sentimento próximo da compaixão. Aquela deslumbrante beleza era de arrebatar. A beleza de um rosto pálido, cujas faces eram quase fundas e os olhos mais que brilhantes. Uma estranha e perturbadora beleza. O príncipe esteve a contemplar o retrato durante um minuto e, depois, olhando apressadamente em volta, em sobressalto, o aproximou dos lábios e o beijou. Quando, porém, surgiu na sala de jantar já estava perfeitamente calmo. A sala de jantar era, por sua vez, separada da sala de estar por uma outra peça, e foi aí que, inesperadamente, deu com Agláia que vinha sozinha.

- Gavril Ardaliónovitch pediu-me que lhe entregasse isto. E lhe estendeu o bilhete.

Agláia parou, pegou o bilhete e olhou de modo estranho para o príncipe, sem uma sombra sequer de embaraço. Apenas talvez  houvesse uma expressão de admiração em seus olhos, expressão que parecia se referir ao gesto de Míchkin, esses olhos parecendo interrogá-lo, com calma e altivez, de que maneira se misturara nessa combinação com Gánia. E então, algo de irônico ou desdenhoso apareceu em seu rosto. Com imperceptível sorriso, saiu.

A generala contemplou em silêncio, demoradamente, o retrato de Nastássia Filíppovna, esticando afetadamente os braços, para o afastar.

- Sim, é linda - pronunciou, afinaL. - Realmente, muito linda. Só a vi de longe, duas vezes. Então esta é a espécie de beleza que o senhor aprecia?

- É sim senhora - respondeu o principe, com certo esforço.

- Esta aqui, não é?

- É, essa sim, senhora. Justamente.

- Porquê?

- Neste rosto há muito sofrimento... - respondeu o príncipe como se estivesse refletindo consigo mesmo e não respondendo uma pergunta.

- Creio que o senhor está falando no ar... ao acaso - conclui a Sra. Epantchiná; e atirou o retrato sobre a mesa, com um gesto altivo.

Aleksándra pegou-o; Adelaída aproximou-se da irmã e se puseram as duas a contemplá-lo. Nisto, Agláia voltou à sala.

- Que força! - exclamou impetuosamente Adelaída, sem conter, olhando o retrato por cima do ombro da irmã.

- Onde?... Força? - perguntou a Sra. Epantchiná de modo cáustico.

- Uma beleza assim é força! Com uma beleza como esta se pode virar o mundo de cima para baixo - afirmou calorosamente Adelaída, encaminhando-se com ar pensativo para o cavalete de pintura. Agláia apenas olhou o retrato de esguelha, superficialmente, apertando um pouco as pálpebras; amuou e foi sentar-se, juntando as mãos. A Sra. Epantchiná tocou a campainha. E disse ao criado que atendeu:

- Chame Gavril Ardaliónovitch aqui. Ele está no escritório.

- Mas, mamãe... - exclamou significativamente Aleksándra.

- Quero dizer umas palavras a esse indivíduo. Basta - interveio, interrompendo o protesto. Estava evidentemente irritada. - Nós aqui só temos mistérios, está vendo, príncipe, mistérios e mais nada. Tem sido sempre assim, até parece um protocolo já estabelecido. Como isso enerva!... E se trata exatamente de uma questão que exige acima de tudo franqueza, lealdade e retidão. Casamentos.. -estão sendo arranjados...

- Mamãe, que é que a senhora está dizendo?!

Aleksándra tentava contê-la outra vez.

- Que é, querida filha? E agrada-lhe então tal atmosfera? Não se incomode do príncipe estar ouvindo, já somos amigos, os dois Pelo menos ele e eu nos entendemos. Deus quer homens bons, sim. claro que os há de querer direitos, não tolerando os fracos e manhosos. Isso então de manhosos não os suporta, a esses que hoje dizem uma coisa e amanhã declaram outra. Está compreendendo. Aleksándra Ivánovna? Dizem, príncipe, que sou espinoteada, mas eu é que sei que espécie de gente é essa. Sim, pois o coração é que conta, tudo o mais sendo tolice. É lógico, que urge ter também um pouco de sensatez.., talvez até o senso venha de fato a ser a grande coisa necessária. Agláia?! Está rindo de sua mãe?! Não estou me contradizendo, não! Uma boba com coração e sem senso é tão infeliz quanto uma boba com senso e sem coração. Esta é uma verdade bastante antiga. Eu sou uma boba com muito coração e quase nenhum senso, você é uma boba com muito senso e quase sem coração... Portanto, somos ambas infelizes e dignas de dó.

- Infeliz e digna de dó a senhora, mamãe? Por causa de quê? - não pôde Adelaída deixar de perguntar. Parecia a única do grupo que não perdera a boa disposição.

- Antes de tudo, vocês são umas filhas que tenho na conta de muito atiladas - redargüiu categoricamente a generala - e como isso por si só já é mais que suficiente, não é preciso entrarmos em outras coisas. Palavras demais já foram gastas. Veremos de que maneira vocês duas (com Agláia não conto!) saberão se servir do critério e das palavras... E só quero ver de que forma você deslindará o caso que lhe querem armar com o tal cavalheiro esplêndido, minha admirabilíssima Aleksándra Ivánovna. Há... - exclamou a generala vendo entrar Gánia - eis que entra um outro termo destacado de uma aliança matrimonial... Bom dia! - disse ela em resposta à saudação e às mesuras de Gánia, não lhe dizendo que se sentasse. - Com que então, na iminência de contrair núpcias, hein?

- Núpcias? Como? Quais núpcias? - tartamudeou Gavríl Ardaliónovitch, completamente zonzo. Estava terrivelmente vexado.

- Bem, já vejo que prefere uma pergunta direta: então, vai casar?

- Eu... n... não senhora! - mentiu Gavril Ardaliónovitch; e uma onda de vergonha lhe subiu ao rosto. Ainda assim conseguiu ver Agláia. de viés, sentada um pouco longe da mãe. E apressadamente retirou o olhar porque sentiu que ela o examinava com uma atenção firme, vigiando-lhe a confusão.

- Não? Respondeu que não? - persistiu a implacável senhora. - Chega. Vou marcar bem o dia de hoje. Em uma quinta-feira, pela manhã, isto é, hoje, o senhor disse “Não” como resposta à minha pergunta. Não é quinta-feira hoje?

- Acho que sim, mamãe - respondeu Adelaída.

- Vocês não sabem nunca que dia é da semana. E que dia hoje, do mês?

- Vinte e sete - prontificou-se Gánia.

- Vinte e sete. Em todos os sentidos, bem. Pode ir. Até à vista. Parece-me que o senhor, hoje, ainda tem muito que fazer. E já está na hora de me vestir para sair. Leve a sua fotografia. Recomende-me à sua infeliz mãe. Quanto ao senhor, príncipe, adeus, por hoje. Venha ver-nos mais vezes. Hei de visitar a velha Princesa Bielokónskaia de propósito para falar sobre o senhor. E quer saber de uma coisa, meu caro, estou convencida que foi simplesmente por minha causa que Deus o trouxe da Suíça aqui para Petersburgo. Decerto que o senhor veio por outros motivos, mas foi principalmente por minha causa. Deus dispõe... Adeus, queridas. Aleksándra, venha ao meu quarto, querida.

A generala retirou-se. Sucumbido, confuso, atarantado, Gánia pegou o retrato de sobre a mesa e se voltou com um sorriso crispado para o príncipe.

- Príncipe, vou agora mesmo para casa. Se o senhor não mudou de opinião quanto a residir conosco, poderei levá-lo, visto o senhor não saber o endereço.

- Fique mais um pouco, príncipe - pediu Agláia, levantando-se logo da cadeira.

- Quero que o senhor escreva no meu álbum. Papai gabou tanto a sua caligrafia! Vou buscá-lo, não demoro.

E saiu.

- Por agora adeus, príncipe; também me vou - despedia-se Adelaída, apertando a mão de Míchkin, com toda a deferência, sorrindo gentilmente, antes de sair. Não olhou para Gánia, embora não modificasse o ar cordial.

Mal as outras tinham saído, Gánia rosnou, virando-se com grosseria para o príncipe, com um olhar de fúria.

- Belo trabalho, hein? Tudo coisa sua! Por que esteve a tagarelar sobre meu casamento? O senhor não passa de um reles alcoviteiro!

- Dou-lhe a minha palavra que o senhor está enganado - explicou o príncipe, com toda a calma, polidamente. Eu nem sabia que o senhor ia se casar.

- O senhor bem que ouviu, ainda agora. Iván Fiódorovitch dizer que tudo ficaria arranjado esta noite, em casa de Nastássia Filíppovna. E veio para aqui repetir. Não minta. Por intermédio de quem poderiam elas vir a saber? Ora bolas! Quem podia ter dito senão o senhor? Já se esqueceu de que a Sra. Epantchiná insinuou isso.

- O senhor é quem deve saber. melhor do que eu, quem disse.. se, realmente, acha que insinuaram alguma coisa. Eu não disse uma palavra a respeito.

- E o bilhete? Entregou o bilhete? Que é da resposta? - interrompeu-o Gánía, com impaciência.

Mas, bem nesse momento, Agláia voltou e o príncipe não teve tempo de responder.

- Aqui está o álbum, príncipe - disse ela, depondo-o aberto sobre a mesa.

- Escolha uma página e escreva alguma coisa. Aqui está uma pena, e bem nova. Não se importa que ela seja de aço? Ouvi dizer que os calígrafos não empregam penas de aço.

Falava com o príncipe como se nem notasse a presença de Gánia. Mas, enquanto o príncipe arrumava a pena e escolhia a folha, preparando-se, Gánia se aproximou da lareira para onde se retirara Agláia, à direita de Míchkin e, com voz trêmula e torturada, balbuciou:

- Uma palavra! Apenas uma palavra e estarei salvo.

Prontamente se virando, o príncipe os encarou. O desespero estampado na cara de Gánia era verdadeiro; tinha o ar de ter dito aquilo sem pensar. Agláia olhou-o por alguns segundos, exatamente com aquele mesmo espanto calmo com que tinha examinado antes, na saleta, o príncipe. Para Gánía, nesse momento, essa surpresa admirada, que quase era perplexidade, foi mais terrível do que o mais desdenhoso desprezo.

- Que é que vou escrever? - perguntou Míchkin, vacilando.

- Vou lhe ditar - acalmou-o Agláia, voltando-se para ele. -Posso começar? Escreva: “Não sou mercadoria” (Sublime mercadoria!). Agora date. Dia e mês. Deixe ver. - O príncipe estendeu-lhe o álbum.

- Excelente! Como o senhor escreveu isso maravilhosamente! Que caligrafia esquisita! Obrigada. Adeus, príncipe. Ou antes, fique - acrescentou, porque um pensamento lhe veio inesperadamente. - Venha comigo. vou lhe dar uma coisa como lembrança.

O príncipe seguiu-a até à sala de jantar onde, parando, Agláia lhe estendeu o bilhete de Gánia, ordenando: Leia isso.

Olhando espantado para ela, o príncipe segurou o bilhete.

- Eu sei que o senhor não leu. Assim como sei que o senhor não é o confidente deste homem. Leia! Quero que leia.

Era um bilhete evidentemente escrito às pressas:

 “Hoje, a minha sorte deve ser decidida, sabeis a que respeito. Tenho de dar, irrevogavelmente, hoje, a minha palavra. Sei que não tenho direito algum à vossa simpatia. Não ouso ter esperança alguma. Mas, certa vez, pronunciastes uma palavra. E essa palavra iluminou a negra noite da minha vida, tornando-se o meu fanal para sempre. Dizei essa palavra mais uma vez e me tereis salvo da ruína. Dizei apenas “Rompe com tudo” e eu romperei, hoje mesmo, com tudo. Oh! Não vos custa nada dizer isso! Dizei essa palavra ao menos como um sinal de vossa simpatia e compaixão por mim. Só isso. Nada mais, nada! Não ouso sonhar com esperança, porque não mereço. Mas, depois de uma palavra vossa, aceito outra vez a pobreza! Alegremente suportarei a minha situação desesperançada. E enfrentarei a luta. E me alegrarei com ela. E me reerguerei com renovada força.

Mandai-me essa palavra de simpatia. Somente de simpatia. juro! Não lanceis ao desprezo um homem desesperado e submerso. e não considereis audácia o que apenas é esforço para me salvar da perdição.

G. I.”

 

- Este homem me assegura - disse Agláia abruptamente, quando viu que Míchkin tinha acabado de ler – que as palavras “Rompe com tudo” não me comprometem e não me obrigam a nada! E me dá uma garantia escrita disso, conforme o senhor está vendo nesse bilhete. Repare como ele se apressou ingenuamente a sublinhar certas palavras, e de que modo grosseiro mostra, através delas, o seu pensamento e intenção. Todavia ele há de pelo menos calcular que se rompesse com tüdo, por si só, sem nenhuma palavra minha, sem mesmo me falar fosse o que fosse, sem esperar nada de mim, eu teria dele uma impressão diferente e talvez, até, pudesse vir a lhe conceder uma certa amizade. Está farto de saber disso Mas a sua alma é imunda. Sabe, mas não se pode conduzir senão assim. Sabe, mas me pede uma garantia. Não sabe o que seja agir por confiança. Quer antes que lhe dê esperança da minha mão, para então renunciar aos cem mil! E quanto a qualquer palavra minha. no passado, de que fala no bilhete, dizendo que lhe iluminou a vida. trata-se de uma insolente mentira. Eu simplesmente tive pena dele. naquela ocasião, e foi isso apenas que lhe signifiquei. Mas é atrevido e despudorado. Não sei por que teve, então, a audácia de uma esperança a meu respeito. Não sei como lhe veio essa noção. Bem que imediatamente reparei. E não se cansa de tentar colher-me. mesmo agora. Mas, basta. Faça o favor de lhe devolver o bilhete logo que o senhor sair daqui de casa. Não antes. Compreende, não é?

- E que resposta lhe devo dar?

- Nenhuma. Evidentemente será essa a melhor resposta. Vai viver, então, na casa dele?

- Foi o próprio Iván Fiódorovitch quem me aconselhou isso. esta manhã.

- Então fique de guarda contra ele. Um aviso meu. Ele não lhe perdoará nunca lhe ter levado um bilhete devolvido. - Apertando-lhe ligeiramente a mão, Agláia saiu. Nem mesmo sorriu quando o príncipe se curvou.

Tinha o rosto contraído e sério.

De volta à sala, o príncipe foi explicar a Gánia que ia só apanhar o seu embrulho e que já vinha, acrescentando:

- Partiremos já.

Gánia batia com o pé, impaciente. Tinha o rosto sombreado de raiva. Até que por fim saíram para a rua, o príncipe com o seu embrulho debaixo do braço.

- A resposta? A resposta? - exclamou Gánia, fazendo-o parar, abalroando-o.

- Que foi que ela mandou dizer? Entregou-lhe o bilhete?

Sem responder, o príncipe lhe devolveu a carta, o que pôs o outro petrificado.

- Como? A minha carta? Não entregou? Por quê? Ah! Eu logo vi. Que é que eu podia esperar do senhor? Ora bolas! Agora é que estou entendendo por que foi que ela não me compreendeu ainda agora. Mas, por que deixou de entregar? Oh, que inferno!...

- Perdão. Muito pelo contrário. Consegui entregá-la menos de um minuto depois que a recebi do senhor. E fiz tudo exatamente conforme o senhor me preveniu. Estou com ela, outra vez, porque Agláia devolveu-ma agora mesmo.

- Quando? Mas... quando?

- Não viu quando eu acabei de escrever no álbum e ela me chamou lá dentro? Ao chegarmos à sala de jantar ela me devolveu a carta, me obrigou a lê-la e mandou que lha entregasse de novo.

- Obrigou o senhor a ler? - gritou Gánia. - E o senhor leu?

Ele parou, pasmado, no meio da calçada. Estava tão admirado que ficou com a boca aberta.

-  Sim, acabei lendo... Foi agora mesmo, lá...

- E ela, quando lha entregou, lhe disse que a lesse? Disse ela isso?

- Disse sim, e lhe asseguro que não li senão depois que ela insistiu. E antes de a entregar a ela, também não tinha lido.

Gánia ficou calado, um longo minuto, refletindo, com angustiado esforço. E só depois é que exclamou:

- Impossível! Ela não lhe poderia ter dito que lesse. O senhor está mentindo! O senhor leu por curiosidade!

- O senhor fique sabendo que eu não minto - respondeu o príncipe com voz imperturbável.

- E Sinto sinceramente, pode crer, sinto muito que isso lhe tenha sido tão desagradável.

- Mas, há criatura desenxabída! Diga, ela não falou nada. naquela hora? É lógico que tinha de dizer qualquer coisa. É lógico que deve ter dado qualquer resposta!

- Ah! Sim, é lógico.

- Então? Diga! Que inferno!...

E Gánia bateu com o pé direito duas vezes, nas lajes.

- Quando eu acabei de ler, ela me disse que o senhor estava tentando armar-lhe um laço, pretendendo comprometê-la com a promessa de sua mão, não querendo perder, sem essa garantia, os cem mil rublos. Que se o senhor tivesse feito tudo isso, sem pedir compromisso algum e tivesse rompido com tudo, sem exigir prévia garantia, que ela até se sentiria na obrigação de lhe dedicar um pouco de amizade. E eu também acho. Ah!... E outra coisa ainda: quando lhe perguntei, já com a carta devolvida, qual era a resposta que eu devia trazer, ela retrucou que a ausência de resposta era a resposta que o senhor merecia. Penso que foi exatamente assim; em todo o caso me perdoará o senhor se esqueci as palavras exatas e por isso apenas estou repetindo conforme o que depreendi.

Subjugado por uma angústia incomensurável. Gánia desencadeou a sua fúria sem restrições.

- Ah! Então é assim, hein? rosnou ele. - Então ela joga pela janela afora os meus bilhetes! Com que então não quer fazer barganhas! Pois eu quero! E vamos ver! Ainda tenho umas coisas para outras cartadas! Veremos! Ela vai se arrepender. Vou fazê-la ficar fina, se vou!

Tinha as faces lívidas e rijas e espumava pela boca. Apertava os punhos. Andaram alguns passos.

Comportava-se exatamente como se estivesse sozinho no quarto, sem mais ninguém, não guardando as aparências perante o príncipe, absolutamente não o considerando motivo para se conter ou para se exceder. Até que refletiu e se dominou.

- Ora, aí está uma coisa que não entendo... Como foi que o senhor (um idiota, ajuntou mentalmente) se tornou de repente depositário da confiança dela, com menos de duas horas de conhecimento?

A inveja, que era o que ainda estava faltando para lhe completar o sofrimento, desencadeou-se então, imediatamente lhe pungindo o peito.

- Realmente, não lhe sei explicar - respondeu Míchkin.

Gánia rebateu com cólera:

- Foi, portanto, para lhe dar uma prova de confiança que o chamou até à sala de jantar? Disse que era para lhe dar uma coisa!

- Entendo que foi para isso.

- Mas, raios me partam! Que foi que o senhor fez para a agradar? Como foi que o senhor fez para conquistar o coração delas todas? Escute. - Estava horrivelmente agitado e em terrível tumulto íntimo; todos os seus cálculos se haviam dissipado. - Escute: não poderá o senhor se lembrar do que esteve conversando com elas? As palavras, uma por uma, desde o começo? Fazer uma espécie de relato disso tudo? Não se recorda de ter notado qualquer coisa?

- Um relato? Posso, sim - prometeu o príncipe. - Logo no começo, quando entrei, e nos ficamos conhecendo melhor, pusemonos a falar da Suíça.

- A Suíça que se dane!

- Depois, então, falamos da pena capital.

- Pena... capital?

- Sim, na conversa, qualquer coisa trouxe isso à baila, por qualquer analogia ou associação de idéias... Depois contei como passei três anos lá: narrei a história dessa pobre rapariga de aldeia...

- Para o diabo a tal rapariga. Adiante.

Gánia estava enfurecido e a sua impaciência não tinha limites

- Depois. de como Schneider me deu a sua opinião sobre meu caráter e como me forçou a...

- Raios partam Schneider e a opinião dele que se dane! Que mais?

- E aí, não sei o que me levou a falar sobre fisionomias, melhor, sobre a expressão que cada rosto tem e... coisa vai, eu disse que Agláia decerto era tão bonita quanto Nastássia Filíppovna. Aí está como foi que vim a fazer menção do retrato...

- Mas, diante delas, o senhor não repetiu o que ouviu esta manhã no escritório? Não? Não mesmo?

- Repito-lhe que não.

- Como demônio então... Ai! Ai! Ai! Será que ela mostrou a carta à velha?

- Com toda a segurança lhe garanto que não. Estive lá todo tempo e ela, ou não teve ocasião, ou não quis.

- Veja bem! Não terá o senhor omitido alguma coisa?... Que raio de idiota! - sussurrou completamente alucinado. “Não sabe nem contar as coisas direito.”

Gánia, uma vez tendo começado a abusar de alguém sem encontrar resistência, perdia o senso da restrição, como se dá sempre no caso de certas pessoas. Pelo caminho que ia, não estava longe de se exaltar, até ficar cego de fúria. E foi isso que sucedeu, do contrário teria compreendido que esse “idiota”, que estava sendo tratado tão grosseiramente, era, no mais dás vezes, penetrante e atilado na compreensão das coisas, e que o relato que pôde dar de tudo fora extremamente satisfatório. E aconteceu o que ele não esperava, pois o príncipe lhe disse, de repente:

- Em boa hora lhe confesso, Gavríl Ardaliónovitch, que em tempos estive tão doente, que realmente fiquei quase um idiota. Mas já há muito tempo que me restabeleci, e portanto não admito que me chamem de idiota no rosto. Conquanto eu, em consideração à sua má sorte de hoje, lhe possa perdoar isso, pois compreendo o que seja confusão, lhe faço sentir que o senhor foi muito maleducado para comigo, já por duas vezes. Não gosto disso, absolutamente, e de mais a mais, logo a seguir a uma apresentação e a um conhecimento tão recente!

Assim, pois, como estamos justamente em uma esquina e em um cruzamento, não será melhor nos separarmos? O senhor toma a direita, para a sua residência, e eu vou por aqui, pela esquerda. Tenho comigo vinte e cinco rublos e acho que isso dá para uma hospedaria.

Gánia ficou mortalmente desconcertado e vermelho de vergonha diante de tão inesperada recusa.

- Perdoe-me, príncipe! - E substituiu o tom ofensivo por um outro de extrema polidez:

- Peço-lhe, por misericórdia, que me desculpe! O senhor bem está vendo o meu atarantamento. O senhor só sabe muito por alto... mas se soubesse de tudo, estou certo que concordaria que eu mereço alguma desculpa. Muito embora, naturalmente, seja indesculpável que eu...

- Oh! Não é preciso o senhor se desculpar tanto! - apressou-se o príncipe em adverti-lo.

- Eu entendo bem quanto tudo isso lhe é terrível! Sei que foi por isso que o senhor se tornou grosseiro. Bem, vamos então para a sua casa. E o faço com prazer.

A caminho, olhando ressentido para o príncipe, Gánia ia pensando ocultamente: “Não! Isso não fica assim, tu me pagas! O velhaco extraiu-me tudo que lhe convinha e agora tirou a máscara... Atrás disso tem coisa. Mas veremos. Tudo se decidirá! Tudo! E tem de ser hoje!”

Estavam agora parados, em frente da casa.

 

O apartamento de Gánia era no terceiro andar, subindo-se até ele por umas escadas largas, claras e limpas.

Consistia de seis ou sete peças, umas grandes, outras pequenas. Embora fosse um apartamento comum, parecia estar um pouco além das posses de um escriturário com família, mesmo com um ordenado de dois mil rublos por ano. Gánia e a sua família o tinham tomado dois meses antes, com a intenção de admitir pensionistas, para satisfazer, malgrado o enorme aborrecimento que isso causava a Gánia, os urgentes desejos de sua mãe e de sua irmã que ansiavam por um meio idôneo que aumentasse um pouco a renda doméstica. Gánia fizera carranca, qualificando isso de tomar hóspedes como coisa degradante, achando que tal fato o humilhava perante a sociedade que costumava freqüentar, apresentando-se como um moço com um brilhante futuro diante de si.

Todas essas concessões ao inevitável, bem como as apertadas condições da sua vida, lhe eram uma profunda ferida interior. Durante certo tempo, no começo, isso o irritara extremamente, tais bagatelas o exasperando de maneira desproporcionadamente e agora, se se submetia a elas, por enquanto, era porque contava modificar tudo isso em um futuro que cuidava mais do que próximo.

Acontecia, porém, que mesmo o processo dessa alteração, através do qual se evadiria dessa rotina, trazia em seu bojo uma formidável dificuldade. Uma dificuldade cujo aplainamento ameaçava tornar-se mais perturbador e vexatório do que tudo isso por que estava passando.

O apartamento era dividido por um corredor onde logo deram. mal acabaram de subir e entrar. Em um dos lados da passagem estavam os três melhores quartos que se destinavam aos pensionistas “especialmente recomendados”. Na extremidade, lá perto da cozinha, havia um outro cômodo, menor do que os outros três, que era ocupado pelo chefe da família, o general reformado Ivolguin, que dormia sobre um largo sofá e tinha de passar, ao entrar ou ao sair, pela cozinha, servindo-se da escada dos fundos. Kólia, o caçula, um colegial de treze anos, compartilhava desse quarto. Tivera de ser socado lá; e aí preparava as suas lições, dormindo, sobre lençóis furados, em um segundo sofá curto e estreito, sendo obrigado, além do mais, a esperar pelo pai e a andar de olho nele. coisa que estava cada vez ficando mais imprescindível. Ao príncipe seria dado o quarto do meio. O primeiro, à direita, era ocupado por Ferdichtchénko e o outro, à esquerda, estava vazio. Mas Gánia conduziu o príncipe até à outra metade do apartamento, do lado oposto àpassagem e onde estavam a sala de jantar, a sala de visitas, que só era sala de visitas, ou de estar, de manhã, sendo depois transformada em escritório e quarto de dormir de Gánia, e uma outra terceira peça, muito pequena, sempre fechada, onde dormiam a mãe e a irmã. Emuma palavra, estavam todos apertadíssimos nesse apartamento. A impressão não era lá grande coisa. Gánia apenas cerrou os dentes e não disse nada para se desculpar. Conquanto fosse ou aparentasse ser respeitador da família, desde o primeiro minuto se percebia que era um grande déspota perante os seus.

Nina Aleksándrovna não se achava sozinha na sala de estar. Sua filha estava com ela e ambas estavam ocupadas, costurando, enquanto falavam com uma visita, iván Petróvitch Ptítsin. Nina Aleksándrovna aparentava ter cerca de cinqüenta anos, com faces murchas e encovadas e olheiras negras sob as órbitas. Tinha um ar de pouca saúde e certa melancolia; mas o rosto e a expressão dele eram agradáveis. Logo à primeira palavra se poderia ver que possuía muita dignidade e firmeza. A despeito do abatimento que a melancolia lhe dava, sentia-se que tinha vontade própria e ânimo resoluto. Estava modestamente vestida de preto e a maneira antiga. mas os seus modos, a sua conversa e todo o seu feitio evidenciavam plenamente que era mulher que já conhecera melhores dias. Varvára ArdaLiónovna era uma moça de uns vinte e três anos, de altura média e quase magra. O seu rosto, apesar de não ser muito bonito, possuía o segredo do encanto sem beleza e era extraordinariamente atraente. Parecia-se muito com a mãe e estava vestida quase que do mesmo modo, não demonstrando nenhuma preocupação de ser elegante. Os seus olhos castanhos deviam ter sido, alguma vez. alegres e cariciosos, mas sabiam como regra ser sérios e pensativos. principalmente nesta época. O seu rosto também mostrava decisão e até teimosia; de fato sugeria mais vontade e determinação do que o materno. Varvára Ardaliónovna era de temperamento brusco e seu irmão muitas vezes temia esse temperamento. E a própria visita que estava com elas, no momento, também tinha por que recear isso. Iván Petróvitch Ptítsin era um moço que ia fazer ainda trinta anos, vestia-se com elegância, mas modestamente, e tinha maneiras agradáveis, embora algo estudadas. A sua barbicha castanho-clara indicava logo que não era funcionário público. Sabia falar bem e expeditamente, mas era de seu natural calado. Dava uma impressão boa, em conjunto. Estava, via-se logo, atraído por Varvára Ardaliónovna, não sabendo esconder esse sentimento. Ela tratava-o de modo amistoso, mas parecia querer mistificar umas respostas que não lhe agradavam. Mas Ptítsin estava longe de perder a coragem. Nina Aleksándrovna tratava-o com cordialidade e ultimamente já confiava um pouco mais nele. Era notório que estava em vias de fazer fortuna, dedicando-se a empréstimos, ajuros altos, com garantias mais ou menos certas.

Era grande amigo de Gánia.

- Gánia saudou a mãe, friamente, não cumprimentou a irmã e, depois de apresentar o príncipe secamente, não levando mais do que um minuto a explicar de quem se tratava, logo arrastou Ptítsin para fora da sala. Nina Aleksándrovna trocou algumas palavras corteses com o príncipe e disse a Kólia, que apareceu espiando pela porta, que o conduzisse ao quarto do meio. Kólia tinha uma cara de garoto prazenteiro e agradável, e todo o seu modo era simples e confiado.

- Onde está a sua bagagem? - perguntou Kólia.

- Trouxe só um embrulho que deixei na ante-sala.

- Vou buscá-lo já. Como só temos o cozinheiro e a Matrióna eu também ajudo. Vária é quem olha por tudo eanda de lá para cá. Gánia disse que o senhor chegou da Suíça.

- Cheguei, sim.

- E sentiu-se bem na Suíça?

- Muito.

- Há montanhas por lá?

- Sim.

- Vou apanhar o seu embrulho.

Varvára Ardaliónovna entrou.

- Matrióna vai fazer a sua cama. Trouxe mala?

- Não, apenas um embrulho. O seu irmão já foi apanhá-lo. Deixeio na ante-sala.

Voltando ao quarto, Kólia perguntou:

- Onde foi que o senhor o deixou? Não achei lá nenhum pacote, exceto este embrulhozinho.

- Só tenho esse - respondeu o príncipe, pegando-o.

- Há! Levei um susto! Cuidei que Ferdichtchénko o tivesse carregado.

- Não digas asneiras, corrigiu Vária, veementemente. E mesmo com o príncipe falou de modo curto e com estrita civilidade.

- Chère Babette, por que não me tratas mais ternamente? Olha que eu não sou Ptítsin!

- Ainda queres mais é levar umas lambadas! Kólia, não sejas engraçadinho! O senhor sempre que quiser alguma coisa pode chamar Matrióna. O jantar é às quatro e meia. Tanto pode jantar conosco, à mesa, como no seu quarto, se preferir. Kólia, vem, não fiques no caminho.

- Vamo-nos, cabeçuda!

Quando saíam deram com Gánia, que perguntou ao irmão:

- Papai está em casa? - Depois da resposta, ciciou-lhe qualquer coisa ao ouvido, tendo Kólia seguido a irmã, após acenar com a cabeça.

- Uma palavra, príncipe. Com tanta coisa, ia até me esquecendo. Tenho um pedido a lhe fazer. Tenha a bondade, e não se moleste com o meu pedido, de não dizer uma palavra que seja do que se passou entre mim e Agláia; e muito menos de, do que ouvir aqui, contar lá, pois há degradação bastante aqui, também. Aliás, já me resignei a isto. Em todo o caso, contenha-se hoje.

Evidenciando certa irritação à advertência de Gánia, Míchkin respondeu, deixando transparecer que as suas relações estavam cada vez ficando mais prejudicadas:

- Posso garantir-lhe que falei muito menos do que o senhor supôs.

- Bem, o senhor hoje, querendo ou não, me encheu as medidas. Em todo o caso repito que me faça o favor de ficar calado.

- Perdão, o senhor, apesar dos pesares. devia ter percebido, Gavril Ardaliónovitch, que não me excedi absolutamente. Como havia eu de adivinhar que não devia falar na fotografia? O senhor não me avisou nada.

- Arre! Que quarto infame - observou Gánia, olhando em redor, com desprezo.

- Escuro e dando para a área. O senhor veio para a nossa casa em uma época péssima, sob todos os pontos de vista. Mas estou entrando em assunto que não me concerne. Não sou eu quem aluga os quartos.

Ptítsin meteu a cabeça para dentro do quarto e chamou Gánia que logo deixou o príncipe, saindo. Havia mais qualquer coisa que tencionava dizer, mas além de estar notoriamente sem jeito, demonstrou certopejo em fazê-lo. A desculpa com o quarto fora um modo de disfarçar.

Mal havia o príncipe acabado de se lavar e de se arrumar um pouco, quando a porta se reabriu e uma outra pessoa espiou lá para dentro. Era um indivíduo de uns trinta anos, baixo e corpulento, comu ma grande cabeça rodeada de melenas ruivas. Tinha uma cara vermelha e carnuda, uns lábios grossos e o nariz além de grande era chato. Os olhos pequeninos, esmagados em gordura, olhavam como se estivessem sempre pestanejando. Todo oseu semblante produzia uma impressão de insolência. Estava com uma roupa um pouco ensebada.

A princípio entreabriu a porta o suficiente para insinuar a cabeça. Essa cabeça, rolando, olhou todo o quarto, por uns cinco segundos; depois a porta começou a se abrir vagarosamente, rangendo, e toda a sua pessoa se patenteou no umbral. Não entrou logo, o estranho visitante; mas, mesmo sem entrar, aqueles olhinhos já examinavam o príncipe, da entrada. Por fim o homem fechou a porta atrás de si, aproximou-se bem, sentou-se em uma cadeira, tomou a mão do príncipe, obrigando-o a sentar-se no sofá, perto.

- Ferdichtchénko - disse, olhando com atenção e desplante para o príncipe.

- E que mais? - perguntou o príncipe, querendo até rir.

- Um inquilino - explicou o outro, continuando a examiná-lo.

- O senhor quer apresentar-se, não é.

- Isso! - disse o visitante, suspirando e encaracolando o cabelo. Desviou o olhar para o lado oposto, para poder fazer a seguinte pergunta: Tem dinheiro? - E logo se voltou para o príncipe.

- Um pouco.

- Quanto?

- Vinte e cinco rublos.

- Mostre.

O príncipe tirou do bolso interno do colete a nota de vinte cinco rublos e a estendeu a Ferdichtchénko que a esticou bem, examinou e a olhou por transparência na claridade.

- É estranho como, pouco a pouco, elas vão tomando uma cor de barro! Estas notas de vinte e cincorublos geralmente acabam tomando uma horrorosa cor escura, ao passo que as outras, essas então desbotam. Ei-la. Guarde-a.

Míchkin pegou-a de novo e Ferdichtchénko se levantou.

- A razão desta minha primeira visita foi preveni-lo de que não me empreste dinheiro, pois pode estar certo de que lhe pedirei.

- Perfeitamente.

- Tenciona pagar isto aqui?

- Decerto.

- Bem, mas eu, jamais! Nunca. Obrigado. Estou aqui ao lado. A próxima porta, à direita. Percebe? Não precisa vir ver-me muito amiúde. Deixe, que eu virei. Outra coisa, já viu o general?

- Não.

- Nem o ouviu, pelo menos?

- Naturalmente que não.

- Bem. Vê-lo-á e ouvi-lo-á. Outra coisa. Imagine que até a mim ele ensaia pedir dinheiro emprestado. Avis au lecteur. Até logo. Pode existir alguém com este nome Ferdichtchénko? Hein?

- Por que não?

- Até logo.

Dirigiu-se para a porta. Mais tarde veio o príncipe a saber que esse indivíduo se incumbira por conta própria de assombrar todo o mundo, fingindo-se de original e fora do comum, apesar de mesmo nisso malograr sempre.

Às vezes se saía tão mal nesse propósito que disso resultava mortificação e apuros para ele próprio. Ainda assim não desistia nem se emendava. A porta empertigou-se, esbarrando em um cavalheiro que ia entrando. Mostrando caminho, por  assim dizer, a essa nova visita que o príncipe não conhecia. pestanejou diversas vezes, por detrás dela, à guisa de advertência, obtendo assim uma saída razoavelmente eficiente.

Este outro cavalheiro era um homem de uns cinqüenta e cinco anos, agigantado e espadaúdo, com uma cara imensa, bochechuda. vermelha que nem púrpura, servida lateralmente por suíças grisalhas. e marcada por uns bigodões espessos. Os olhos enormes eram quase saltados. A sua aparência seria até impressionante se nao fosse o modo geral desmazelado, imundo e horripilante. Vestia. como roupa de estar em casa à vontade, uma usada sobrecasaca que além de mostrar o forro puído tinha os cotovelos esburacados. Nos recintos fechados ele fedia um pouco a vodca, mas os seus modos eram teatrais e solenes. Traía um cioso desejo de ostentar dignidade.

Aproximou-se do príncipe, resolutamente, com um sorriso afável. Tomou-lhe a mão, calado, e a mantendo algum tempo na sua, olhou para o rosto do príncipe com aquele feitio com que uma pessoa se alvoroça quando descobre em um suposto desconhecido traços de há muito familiares.

- Ah! Mas é ele! - solenemente, vagarosamente pronunciou isso. - É a sua figura viva! Ouvi-os, em minha própria casa, pronunciarem um nome que me é querido e familiar e que me levou, de súbito, a um passado que já se foi para sempre!... O Príncipe Míchkin?

- Sim.

- O General Ívolguin, reformado e desafortunado. Qual o seu nome e o de seu pai? Posso aventurar esta pergunta?

- Liév Nikoláievitch.

- Sim, sim! O filho do meu amigo, do meu companheiro de infância, devo dizer, Nikolái Petróvitch?

- O nome de meu pai era Níkolái Lvóvitch.

- Lvóvitch - corrigiu logo o general, mas sem pressa e com absoluta calma, como se absolutamente não se tivesse esquecido e apenas tivesse pronunciado errado por acidente. Sentou-se e tomando de novo a mão do príncipe também o fez sentar-se, mais ao seu lado. - Dizer-se que eu já o carreguei nos meus braços!

- Será possível? Meu pai morreu há Vinte anos.

- Sim. Vinte anos. Vinte anos e três meses. Estivemos juntos na escola. Eu entrei diretamente para o exército.

- Meu pai também esteve no exército. Chegou a alferes no regimento de Vassflievski.

- No de Bielomírskii. Foi transferido para o de Bielomírskii um pouco antes da sua morte. Estive no seu leito de morte e o abençoei para a eternidade. Sua mãe...

E como que interrompido pelo efeito de dolorosas recordações o general fez uma pausa.

- Sim, ela morreu seis meses mais tarde devido a um resfriado - explicou o príncipe.

- Não foi resfriado. Absolutamente. Deve confiar nas palavras e na memória de um velho. Eu estava lá. Fui dos que a sepultaram. Foi desgosto, pela morte do esposo. Absolutamente não foi resfriado. Sim, recordo-me também da princesa. Ah! A mocidade! Foi por causa dela que o príncipe e eu, amigos desde a infância, estivemos a ponto de nos tornarmos assassinos um do outro.

O príncipe começou a escutar com uma certa desconfiança.

- Eu estava apaixonado por sua mãe, quando ela ficou noiva de seu pai. Noiva de um amigo. O príncipe descobriu isso e foi um golpe para ele. Veio ver-me muito cedo, certa manhã, antes das sete horas, e me acordou. Ergui-me ao mesmo tempo estremunhado e cheio de assombro. Houve silêncio de ambos os lados.

Compreendi tudo. Ele puxou duas pistolas do bolso. “Através de um lenço, sem testemunhas”. Testemunhas para que, se, dentro de cinco minutos. teríamos mandado um ao outro para a eternidade? Carregamos as pistolas, estendemos o lenço, apontamos as pistolas para o coração um do outro, e nos encaramos. Subitamente, lágrimas golfaram dos olhos de ambos. As mãos tremeram. De ambos os lados, ao mesmo tempo. Depois, é lógico, ora essa, seguiram-se abraços e um conflito de generosidade mútua. O príncipe exclamava: “Ela é tua!”; e eu dizia “Não! Tua!” Com que então veio morar conosco?!

- Sim, por algum tempo, decerto - gaguejou o príncipe. Nisto Kólia apareceu à porta e disse:

- Mamãe mandou pedir para o senhor ir lá dentro, príncipe. - O príncipe levantou-se logo para atender ao chamado, mas o general afetuosamente lhe pôs a mão no ombro, obrigando-o a sentar de novo.

- Como um verdadeiro amigo que fui de seu pai, desejo preveni-lo. O senhor facilmente pode verificar que sou um homem que sofreu muitos reveses, vítima de uma trágica catástrofe que quase me levou à barra dos tribunais. Nina Aleksándrovna é uma rara mulher. Varvára Ardalíónovna, minha filha, uma filha rara. Fomos impelidos, malgrado nosso, a tomar pensionistas - uma incrível queda, não há dúvida! E eu que estive na iminência de chegar a governador-geral.

Mas ao senhor teremos sempre prazer em receber. E no entanto há uma tragédia no meu lar!

O príncipe olhava-o com uma curiosidade interrogativa.

- Está sendo arranjado um casamento. Um estranho casamento. Um casamento entre uma mulher de caráter duvidoso e um jovem que poderia vir a ser gentil-homem da corte. Essa mulher está na iminência de ser trazida para esta casa onde estão minha mulher e minha filha! Mas enquanto em mim houver hausto, ela não transporá a nossa porta. Atravessar-me-ei, deitado, no patamar e quero ver se tem a coragem de passar por cima de mim.

Deixei de falar com Gánia. Evito, em verdade, encontrar-me com ele. E como o senhor vai viver aqui conosco, terá ocasião de ver. De qualquer modo, terá ocasião de ver. Mas, como filho que o senhor é de um amigo, tenho direito de esperar que...

Mas Nina Aleksándrovna apareceu em pessoa, na entrada do quarto, e chamou o príncipe:

- Príncipe, queira ter a bondade de vir até à sala de estar!

- Imagina tu, querida - exclamou o general - que acabei por me lembrar que muitas vezes trouxe o príncipe, em criança, nos meus braços!

Nina Aleksándrovna olhou-o de esguelha, como a censurá-lo, depois procurou ver a impressão do príncipe; mas não disse palavra. O príncipe seguiu-a. Mal tinham entrado na sala e se sentavam, e ia ela, às pressas, em voz baixa, dizer qualquer coisa, quando o general apareceu. Nina Aleksándrovna parou logo de falar, curvando-se sobre a sua costura, com ar aborrecido, o que não passou despercebido ao general que ainda assim não perdeu o bom humor.

- Que coisa tão inesperada! O filho de um amigo meu! -dirigia-se à mulher.

- Nunca me passaria pela idéia... Tu, com toda a certeza, querida, te lembras do finado Nikolái Lvóvitch! Ainda estava em ver quando estivemos lá.

- Nikolái Lvóvitch? Não me lembro. Era seu pai? - perguntou ela ao príncipe.

- Sim, em Tver - teimava o general. - Foi transferido de Tver pouco antes de sua morte. E antes da doença lhe aparecer. Foi, sim. O senhor era muito pequeno, para se lembrar tanto da remoção como da viagem. Pavlíchtchev deve se ter esquecido! E que excelente homem!

- O senhor também conheceu Pavlíchtchev?

- Era um desses homens que não se encontram mais hoje. Mas eu estava lá. Abençoei seu pai no leito de morte.

- Meu pai faleceu enquanto estava aguardando um julga mento. Mas nunca conseguiu saber de que era ele acusado. Morreu em um hospital.

- Oh! Foi por causa do soldado raso Kolpakóv. E não há dúvida de que o príncipe seria absolvido.

- Foi, então, assim? Tem a certeza? - perguntou o príncipe cada vez ficando mais interessado.

- Posso afirmar - garantiu o general. - A corte dissolveu-se sem ter chegado a um veredicto. Foi um caso inacreditável. Misterioso, pode-se dizer. O Capitão Lariónov, comandante da companhia, veio a morrer. O indicado para substituí-lo no cargo foi o príncipe. Ora bem. Nisto o soldado Kolpakóv cometeu um furto.

Roubou as botas de couro de um camarada e as vendeu, gastando o dinheiro em bebida. Ora bem. Então o príncipe, observe bem, na presença do caporal e do sargento, lhe deu um empurrão e ameaçou açoitá-lo. Ora bem. Kolpakóv retirou-se para a barraca, deitou-se, e um quarto de hora depois estava morto. Excelente. Quem havia de esperar? Era incrível. Fosse como fosse, o enterraram. O príncipe instaurou um inquérito, fez um relatório do caso e o nome de Kolpakóv foi retirado da lista. Parecia que tudo estava muito em ordem. Seis meses mais tarde, nem mais nem menos, durante uma revista da brigada, reaparece o nosso Kolpakóv, como se nada se tivesse passado com eles antes. E aparece onde? Na terceira companhia do segundo batalhão do regimento de infantaria de Novozemliánskii, na mesma brigada e na mesmíssima divisão!

- Como? - perguntou o príncipe completamente espantado.

- Não foi assim; meu marido se enganou - corrigiu Nina Aleksándrovna, dirigindo-se imediatamente a ele com olhos de angústia. Mon mari se trompe.

- Mas querida, se trompe é fácil de dizer. Como explicas então um caso destes? Todo o mundo ficou boquiaberto! Eu teria sido o primeiro a dizer qu’e on se trompe. Mas, infelizmente, eu era uma das testemunhas e fazia parte da comissão. Todos que o viram testemunharam que se tratava do mesmo soldado raso Kolpakóv que tinha sido enterrado seis meses antes com a usual parada e rufar de tambores. Admito que foi um caso fora do comum, incrível mesmo, mas?

- Pai, o seu jantar está pronto - anunciou Varvára Ardalionovna, entrando na sala.

- Ah! Isso é o essencial. Excelente! E não resta dúvida que me sinto esfomeado... Mas foi, pode-se dizer, um caso psicológico...

- A sopa está esfriando - disse Vária, com impaciência.

- Já vou indo, já vou indo - murmurou o general. deixando a sala. - E. a despeito de todos os inquéritos... - ouvia-se o general falando lá do corredor enquanto se ia.

- Caso o senhor permaneça aqui, terá de desculpar muita coisa em Ardalión Aleksándrovitch – disse Nina Aleksándrovna. Mas não o importunará sempre. No mais das vezes janta sozinho. Todos têm os seus defeitos, o senhor sabe, as suas manias, e de certo algumas até que uma pessoa nem espera. E um especial favor lhe vou pedir: se meu marido, por acaso, lhe perguntar pelo pagamento, será favor responder-lhe que já me pagou. Naturalmente que lhe deduziremos da sua conta qualquer coisa que o senhor tenha dado a Ardalión Aleksándrovitch, mas só lhe peço isso para evitar uma complicação nas contas... Que é, Vária?

Voltando à sala, ela estendeu à mãe o retrato de Nastássia Filíppovna, sem dizer uma palavra. Nina Aleksándrovna, muito sobressaltada, ficou a contemplá-lo por algum tempo, sendo que no começo pareceu atemorizada, tomando-se depois de amarga emoção, que não soube dominar. Acabou olhando, inquieta, para a filha que explicou:

- Um presente dela para ele, hoje. E esta noite tudo vai ser decidido.

- Esta noite? - disse Nina Aleksándrovna, em voz baixa onde havia decepção.

- Bem, então não pode haver mais dúvida; não nos resta mais nenhuma dúvida. Com a oferta deste retrato a decisão já está mais do que clara! Mas foi ele próprio que te mostrou isto? - acrescentou, com surpresa.

- A senhora sabe que desde o mês passado nós mal nos falamos. Foi Ptítsin quem me contou tudo. E, quanto ao retrato, dei com ele no assoalho, perto da mesa. Apanhei-o.

- Príncipe - dirigiu-se Nina Aleksándrovna ao príncipe, de repente -, o senhor conhece meu filho há muito tempo? Se não me engano, quando me falou a seu respeito disse que o senhor acabara de chegar, não sei de onde, hoje.

Teve o príncipe de dar uma breve informação a propósito de sua vida, pondo de parte, entretanto, muita coisa, Nina Aleksándrovna e Vária escutavam.

- Com esta pergunta não estou experimentando descobrir seja o que for a respeito de meu filho – asseverou ela. Pode ficar certo disso. Se alguma coisa houvesse que eu não pudesse vir a saber através dele próprio, não a quereria saber por outro meio. Se estou lhe fazendo esta pergunta é porque ainda agora. Quando o senhor foi ver o seu quarto, Gánia, ao me responder quem era o senhor, me disse: “Ele está a par de tudo; não é preciso ter cerimônias com ele”. Que significa isso? Ou melhor, eu gostaria de saber até que ponto...

Inesperadamente Gánia e Ptítsin entraram. Nina Aleksándrovna calou-se instantaneamente. O príncipe não se mexeu, sentado ao lado dela, ao passo que Vária se retirou. Lá estava, sobre a mesinha de trabalho de Nina Aleksándrovna, bem perto dela e no lugar mais visível, o retrato de Nastássia Filíppovna. Gánia deu com ele e fechou o cenho. Atravessou a peça e foi apanhá-lo; depois, com ar de aborrecimento, o atirou, quase o deixando cair, sobre a sua escrivaninha, na extremidade oposta da sala.

De súbito, a mãe lhe perguntou:

- Então é hoje, Gánia?

- É hoje o quê? Gánia ficou zonzo. Imediatamente, porém. se voltou para o príncipe e disse insolentemente: - Ah! Compreendo. Obra do senhor, outra vez. Parece que se trata de uma doença incurável, essa sua! O senhor não sabe ficar calado? Mas deixe que lhe diga, Alteza...

Foi então que Ptítsin interveio, dizendo:

- Gánia, a culpa foi minha, e de mais ninguém.

Gánia esteve uns segundos a olhá-lo, como para se certificar. Mas Ptítsin continuou:

- É melhor assim, Gánia, principalmente tendo em vista que o caso já está deliberado.

- E foi sentar diante da mesa; tirou do bolso um pedaço de papel todo escrito a lápis, que ficou estudando.

A Gánia nem ocorreu pedir desculpas ao príncipe. Continuou de pé, carrancudo, à espera de uma cena de família.

- Se tudo está resolvido, então Iván Petróvitch tem razão - atalhou Nina Aleksándrovna. - E é favor, Gánia,não amuar. Desmanche essa carranca. Fique tranqüilo que não lhe vou perguntar nada que você queira me esconder. Asseguro-lhe que já estou completamente resignada. Por favor, não se preocupe.

Dito isto, continuou com o seu trabalho. E, realmente, parecia se ter acalmado. Gánia surpreendeu-se com isso, mas teve a prudência de ficar calado, diante da mãe, como que à espera de que lhe dissesse alguma coisa mais definitiva. As disputas domésticas já o tinham feito sofrer demasiado. Notando a sua prudência. Nina Aleksándrovna acrescentou, com um sorriso amargo:

- Você ainda está duvidando. Já não acredita em sua mãe. Não se inquiete mais com isso. Nunca mais verá lágrimas nem cenas. Pelo menos de minha parte. Tudo quanto desejo é que você seja feliz. E você bem que sabe disso. Submeto-me ao inevitável e o meu coração sempre estará com você, tanto se ficarmos juntos como se nos separarmos. Naturalmente que só respondo por mim. Mas não espere o mesmo de sua irmã!...

- Ah! Ainda e sempre Vária! - exclamou ele, olhando para a irmã com ódio e desdém.

- Mãe, torno a jurar o que já repeti mais de uma vez. Enquanto eu estiver aqui, enquanto eu viver, ninguém ousará faltar com o respeito à senhora. E insisto, perante quem quer, a quem estas palavras interessem, que exijo o mais alto respeito para com a senhora por parte de quem quer que entre nossas portas adentro.

Agora estava aliviado, tinha uma expressão conciliatória e ao mesmo tempo procurava demonstrar afeto.

- Você bem sabe, Gánia, que por mim não tenho medo. Não foi por minha causa que estive todo este tempo aborrecida e aflita. Disseram-me que hoje vai ficar tudo decidido. E eu pergunto, decidido o quê?

- Ela prometeu participar hoje se concorda, ou não - respondeu Gánia.

- Levamos quase três semanas sem tocar neste assunto. E foi melhor assim. Agora que tudo vai ser decidido, permito-me a mim mesma fazer-lhe apenas uma pergunta: como pode ela dar-lhe o seu consentimento e oferecer-lhe um retrato, se você não a ama? Como é que uma mulher assim tão...

- Experimentada... não é o que a senhora quis dizer?

- Não quero chegar a tanto. Como pôde você tapar-lhe os olhos assim, completamente?

E dentro dessa inesperada pergunta soava uma nota de intensa exasperação. Gánia ficou quieto, pensou um minuto e depois disse com indisfarçada ironia:

- A senhora está outra vez se exaltando, mãe, e de novo não se sabe dominar. E é sempre assim que isso começa entre nós, sempre cada vez se esquentando mais. Disse a senhora que não faria mais admoestações e todavia está recomeçando! Seria preferível acabar mos com isso de uma vez, não acha? Mas reconheço que suas intenções sempre foram boas... E nunca, em circunstância alguma abandonarei a senhora. Um outro homem se teria afastado léguas de uma tal irmã. Repare o modo dela me olhar! Terminemos com isto! Já estava ficando tão aliviado... E que idéia é essa da senhora imaginar que estou enganando Nastássia Filíppovna? Quanto a Vária, ela que se arranje, ora aí está. Bem, e acho que por agora basta.

A cada palavra se inflamava mais e dava passos sem direção. pela sala. Estas discussões sempre tocavam o ponto sensível de cada membro da família. Tanto que Vária reafirmou:

- Eu já disse que, se esta mulher vier aqui para casa, eu saio. Disse e cumprirei a minha promessa.

Gánia vociferou:

- Teima, teima, assim, sempre! E é por causa dessa tua obstinação que nunca te casarás. E não bufes comigo, que eu não tenho medo, estás ouvindo? Faze o que muito bem quiseres, que eu pouco me importo, Varvára Ardaliónovna! E podes transferir-te com teus planos, imediatamente até, se quiseres. Já não te suporto. Mas que é isso? O senhor resolveu deixar-nos afinal, príncipe? disse, voltando-se para Míchkin que se levantara do seu lugar.

A voz de Gánia traía o máximo de irritação de um homem que se entrega de tal maneira à própria irritação que em vez de se conter transforma isso em paradoxal prazer, sem olhar as conseqüências. Míchkin respondeu ao insulto lançando um olhar como que simbólico para a porta; mas vendo pela cara de Gánia que qualquer resposta agravaria a situação, virou-se e saiu em silêncio. Poucos minutos depois percebeu que as vozes na sala de estar indicavam que a conversa tinha adquirido, na sua ausência, um tom mais barulhento e mais categórico.

Atravessou a sala de jantar rumo ao vestíbulo, em direção ao seu quarto. Ao passar pela porta da frente do andar ouviu e percebeu que alguém, do lado de fora, estava fazendo desesperados esforços para tocar a campainha que parecia estar estragada, apenas balançando sem fazer nenhum som. O príncipe virou o trinco da porta, abriu-a e deu um passo atrás, sobressaltado. Diante dele estava Nastássia Filíppovna. Fácil foi reconhecê-la imediatamente, por causa do retrato. Os olhos dela fulguravam de nervosismo, quando o viu. Entrou logo para o vestíbulo, fazendo-o recuar e. arrojando o casaco de peles, lhe gritou:

- Já que a preguiça te impede de consertar a campainha, fica ao  menos na entrada para ver quem bate. E o molenga ainda por cima deixa cair o meu casaco!

De fato o casaco estava no chão. Nastássia Filíppovna não esperara que ele a ajudasse a despi-lo e lhe tinha jogado nos braços, já de costas, sem olhar para ele que, trapalhão como era, não tivera tempo de o segurar.

- Por que não te despedem? Vai anunciar-me.

O príncipe achou que era preciso naturalmente dizer qualquer coisa, mas a confusão o inibiu. A única coisa que soube fazer foi rumar para a sala de estar, com o casaco, que apanhara do chão, no braço.

- Ora essa, e agora ainda leva lá para dentro o meu casaco? Que é que vais fazer lá dentro com ele? Ah! Ah! Ah! É gira?

O príncipe voltou e a fixou, como se estivesse petrificado. Vendo-a rir, sorriu também, mas não pôde falar, mesmo assim. Ao abrir a porta, e dar com ela, tinha ficado lívido, mas agora estava rubro, como se o sangue lhe tivesse subido ao rosto em jacto.

-  Que idiota! - gritou Nastássia Filíppovna, batendo com o pé, indignada.

- Onde é que vais agora? E que nome vais anunciar lá dentro?

- Nastássia Filíppovna! - balbuciou ele.

- Tu me conheces? - perguntou ela, imediatamente. - Nunca te vi. Bem, vai anunciar-me. E que gritaria é essa, lá dentro?

- Estão brigando - respondeu. E enveredou para a sala de estar.

Entrou justamente no momento crítico. Nina Aleksándrovna estava a ponto de se esquecer que já “se tinha resignado a tudo”. Defendia Vária, a cujo lado se pusera também Ptítsin que até deixara de lado as suas contas a lápis. Vária não estava de maneira alguma intimidada; não era rapariga para se intimidar; mas a brutalidade do irmão se tornava mais grosseira e insuportável, àmedida que ia falando o que bem queria. Em momentos tais ela adotava um hábito: ficar calada, olhando com um silêncio desdenhoso para o irmão, pois sabia que com isso o levava ao auge do desespero mais ilimitado. E foi nesse momento que o príncipe, entrando, anunciou:

- Nastássia Filíppovna!

 

Fez-se silêncio completo na sala. Todos pasmaram para o príncipe, como se não tivessem ouvido ou não conseguissem compreender. Gánia ficou hirto de terror. A chegada de Nastássia Filíppovna, e justamente naquela hora, causou a maior e mais desordenada surpresa em todos. O fato mesmo de Nastássia Filíppovna se ter lembrado de visitá-los, já era assombroso. Até então fora tão altiva que nem em conversa com Gánia expressara. uma vez sequer, o desejo de lhe conhecer a família, sendo que, de modo algum, ultimamente, fazia a menor alusão a ela, como se nem existisse. Muito embora, de certa maneira, isso ao menos lhe proporcionasse alívio, por assim evitar um assunto melindroso, armazenara, todavia, em seu coração, um ressentimento contra ela. Verdade é que preferiria expor-se a receber da parte dela observações ferinas e irônicas, quanto à sua família, a recebê-la em casa. Tinha certeza de que ela estava a par de que em casa o seu compromisso despertava discórdias, não ignorando a atitude de tal família a seu respeito. Essa visita agora, logo a seguir ao presente do retrato, e no dia mesmo do seu aniversário, dia em que prometera dar a sua decisão, equivalia indubitavelmente à decisão mesma.

Mas não durou muito a estupefação com que todos fitavam o príncipe. E não durou porque Nastássia Fílíppovna apareceu, em pessoa, à porta da sala de estar, obrigando o príncipe a recuar outra vez para lhe dar passagem.

- Sempre consegui entrar. É de propósito que a campainha está travada? - foi dizendo, muito bem-humorada, estendendo a mão a Gánia que se precipitara ao seu encontro.

- Por que está assim tão transtornado? Faça o favor de me apresentar.

Gánia, completamente zonzo, a apresentou primeiro a Vária. As duas mulheres, antes de se cumprimentarem, se estudaram com os olhos, de modo estranho; mas como Nastássia Filíppovna ainda estava sorrindo, pôde mascarar os seus sentimentos sob essa amostra de expansibilidade. Mas Vária não escondeu os seus, fitando-a com uma intensidade esquisita. Não surgiu em seu semblante o sorriso sequer que a simples polidez exige.

Gánia estava em transe. Era inútil intervir e nem haveria tempo e modo; mas conseguiu atirar à irmã um olhar de soslaio tal que ela bem se deu conta do que esse momento representava para ele. Decidiu ceder e sorriu afetadamente para a outra. (Na família todos ainda gostavam bastante uns dos outros.) Quem, afinal, salvou a situação foi Nina Aleksándrovna a quem Gánia logo a seguir a apresentou, embora já irremediavelmente confuso. E tão confuso que em vez de apresentar Nastássia Filíppovna apresentou a mãe a esta. Mas tão logo Nina Aleksándrovna começou a falar no “grande prazer etc.”, já Nastássia Filíppovna, sem lhe dar atenção, se virava apressadamente para Gánia, sentando-se, sem esperar que lhe dissessem, em um sofazinho, a um canto, perto da janela.

- O seu escritório onde é? - perguntou logo. - E onde estão os inquilinos? Você recebe inquilinos, não é?

Gánia enrubesceu terrivelmente, e ia tartamudear qualquer resposta quando ela prosseguiu, não lhe dando tempo:

- Em que lugar você os aloja? Você nem ao menos um escritório tem? Dá lucro? - perguntou, já agora se dirigindo a Nina Aleksándrovna.

- Só dá incômodos - respondeu esta. - Naturalmente sempre compensa um pouco, mas só aceitamos justamente aqueles que...

Novamente Nastássia Filíppovna deixava de prestar atenção, fitava Gánia, sorria; até que exclamou:

- Mas com que cara você está! Meu Deus! Você está engraçadíssimo, agora!

A sua risada ressoou por diversos segundos e o rosto de Gánia se contraiu terrivelmente. A sua estupefação, o abatimento cômico que o atarantava desaparecera; mas estava agora tão pavorosamente pálido, com os lábios tão crispados, e tão solenemente calado, com um olhar mau e duro fitando a sua visitante, que a fez rir ainda mais.

Havia um outro observador que mal se tinha restabelecido do espanto que Nastássia Filíppovna lhe produzira; mas, apesar de estarrecido no mesmo lugar, em plena sala, pôde notar o pavor e a transformação de Gánia. Esse observador era o príncipe. Instintiva-mente, mesmo intimidado como estava, deu um passo à frente e disse a Gánia:

- Beba um pouco de água. Não fique assim.

Dissera isso compelido pelas circunstâncias, sem nenhuma intenção ou motivo segundo. Mas o efeito dessas palavras em Gánia foi formidável. Todo o seu ódio se voltou para o príncipe. Segurou-o pelo ombro e o encarou, calado, com ódio e desejo de vingança, mas impossibilitado de lhe dizer qualquer desaforo. Isso causou uma emoção geral. Nina Aleksándrovnaf soltou uma exclamação curta e fraca, enquanto Ptítsin dava uns passos à frente. Kólia e Ferdichtchénko, que tinham chegado à porta, estacaram, atônitos Apenas Vária, com aquele seu feitio teimoso, olhava em silêncio. provocadoramente, de propósito, em pé, como estava, ao lado da mãe, os braços cruzados sobre o peito.

Contendo-se, Gánia sorriu nervosamente. E tendo recuperado quase a naturalidade, disse:

- Ora essa. O senhor é médico, príncipe? Pois não é que nos surpreendeu? Nastássia Filíppovna, posso apresentá-lo? Trata-se de uma rara personalidade, embora eu só o conheça desta manhã para cá.

Nastássia Filíppovna olhou espantada para o príncipe.

- Príncipe? Ele é príncipe? Ora, imaginem que eu o tomei ainda agora por um criado, e até lhe disse que viesse participar a minha chegada. Ah! Ah! Ah!

- Não houve ofensa. Não houve ofensa! - entrou dizendo Ferdichtchénko, rapidamente se dirigindo para ela, aproveitando enquanto riam. - Não houve ofensa. Se non e vero...

- E eu que estive quase a descompô-lo, príncipe! Perdoe-me, por favor. Ferdichtchénko, que esteve você fazendo para chegar aqui a tal hora? Não contava de modo algum encontrá-lo aqui. Príncipe o quê? Míchkin? - perguntava ela a Gánia que. com o príncipe ainda preso pelo ombro, forcejava por apresentá-lo.

- Nosso inquilino - esclareceu Gánia.

Era notório que o estava apresentando e quase o empurrando para cima de Nastássia Filíppovna como uma curiosidade, como um meio de fugir à situação falsa em que estava colocado. E ao príncipe foi fácil colher no ar a palavra “idiota” pronunciada às suas costas, provavelmente por Ferdichtchénko, à guisa de informação complementar para Nastássia Filíppovna.

- Diga-me por que não me corrigiu ainda agora quando cometi a seu respeito tão tremendo equívoco? - perguntou Nastássia Filíppovna, observando-o da cabeça aos pés, sem cerimônia alguma. E ficou à espera da resposta, impacientemente, certa de que seria um despautério qualquer e tão estúpido que os faria rirem.

- Porque fiquei surpreendido! Dei convosco tão inesperadamente! - balbucíou o príncipe.

- Como soube que era eu? Onde me viu antes? Mas, espere um pouco. Acho que realmente já o vi em qualquer parte... Mas diga por que foi, afinal, que ficou tão assombrado? Que é que há em mim, de mais, para causar espanto?

- Agora é que eu quero ver... - insistiu Ferdichtchénko, com um risinho afetado.

- Ó Deus, as coisas que eu diria em resposta a isso! Vá, príncipe, não nos faça pensar que é um rematado paspalhão!

- No seu lugar, eu também diria o mesmo - observou o príncipe rindo para Ferdichtchénko.

- É que hoje o vosso retrato me deixou muito impressionado. - Dirigia-se finalmente a Nastássia Filíppovna. - Ainda por cima, acontece que estive falando com os Epantchín a vosso respeito. E, o que é mais, já esta manhã. no trem, antes mesmo de chegar a Petersburgo, Parfión Rogójin já me falara sobre vós... E eis que, ainda agora ao abrir a porta, juro que estava pensando em vós, não sei por quê... E não é que subitamente...

- E como reconheceu que era eu?

- Pela fotografia e...

- E o quê?

- Correspondeis exatamente ao que eu imaginara... Foi como se já vos tivesse visto também, não sei onde. Esta a sensação que tive.

- Onde? Onde?

- Senti como se tivesse visto os vossos olhos em alguma parte... Mas isso é impossível, é bobagem minha... Estive sempre ausente daqui. Talvez, em sonho!...

- Bravo, príncipe! - gritou Ferdichtchénko. - Agora retiro o meu se non é vero. - Arrependendo-se, porém, do elogio, acrescentou: - Mas tudo isso não passa de inocencia...

As poucas frases pronunciadas pelo príncipe foram em voz perturbada, sendo obrigado a parar para tomar fôlego. A menor coisa lhe causava emoção. Nastássia Filíppovna olhou-o com interesse ejá sem rir.

Nisto uma outra voz ruidosa ribombou por detrás do grupo, que se tinha fechado em volta do príncipe e de Nastássia Filíppovna, parecendo abrir uma passagem fendendo o grupo ao meio. E, diante de Nastássia Filíppovna, surgiu o chefe da casa, o General Ívolguin em pessoa. Vestia sobrecasaca e a camisa tinha um peitilho postiço alvíssimo. A bigodeira acabara de ser pintada.

Isso, para Gánia, era mais que insuportável.

De que lhe valera, ambicioso e frívolo, além de hipersensitivo em grau mórbido, ter procurado durante aqueles dois últimos meses, a todo custo, alcançar um meio de vida mais apresentável e distinto? Faltando-lhe experiência, embarafustara errado pelo caminho que se propusera. Era o déspota do lar, tendo assumido em desespero de causa uma atitude de completo cinismo.

Mas não pudera manter essa posição diante de Nastássia Filíppovna, que o deixara propositadamente na incerteza até ao derradeiro momento. O “pobretão impaciente”, como depois viera a saber que ela o chamava, tinha jurado por quantas juras sabia que a faria pagar amargamente por isso: mas ao mesmo tempo. como uma criança, sonhara reconciliar todos esses equívocos. E por cúmulo, agora, tinha de beber mais esta taça amarga, e bem nesta hora, ainda por cima. Mais uma tortura não prevista, a mais terrível de todas para um homem fútil: a agonia de ter de corar diante dos parentes e por causa deles, e em sua própria casa. Este o cruel e último quinhão. E pelo seu espírito acima subiu esta pergunta íntima: “A recompensa valerá tudo isto?”

Estava justamente acontecendo, nesse momento, o que durante dois meses fora o seu pesadelo, que o enregelava de terror e abrasava de vergonha. Afinal estavam aí face a face os dois: o pai e ela! Quantas vezes não o atormentara a visão imaginada do velho no dia do casamento! Mas é sempre assim com essa gente fútil.

Não se fartara naqueles dois meses de considerar em um modo global a questão, tendo decidido, custasse o que custasse, afastar o pai, no mínimo, momentaneamente, mandando-o até, se necessário fosse, para fora de Petersburgo, com ou sem anuência materna.

Dez minutos antes, quando Nastássia Filíppovna entrou, ele ficara tão zonzo e embaraçado que nem lhe ocorreu a hipótese de tamanha possibilidade, isto é, de Ardalión Aleksándrovitch aparecer em cena. E não procurara um meio de impedir isso. E eis que, diante de todos, solenemente vestido e garboso para a ocasião o general irrompe na sua sobrecasaca, justamente na hora em que Nastássia Filíppovna estava “apenas procurando um motivo para cobri-lo de ridículo, mais à sua família”. (Gánia estava mais convencido disso.) E essa visita, que intento tivera, se não esse? Viera para fazer amizade com a mãe e a irmã, ou para insultá-los a domicilio? E pela atitude de ambas as partes não restavam dúvidas a respeito. Sua mãe e sua irmã estavam sentadas à parte, muito envergonhadas, ao passo que ela, Nastássia Filíppovna, parecia esquecer intencionalmente que elas estavam ali naquela mesma sala, com ela. E se assim se comportava era lógico que tinha um intento com isso.

Ferdichtchénko logo se assenhorou do general, manobrando-o.

- Ardalión Aleksándrovitch Ívolguin-- disse o general, curvando-se e sorrindo, com dignidade. - Um antigo soldado hoje na desgraça, e pai de uma família que se sente feliz ante a perspectiva de incluir uma tão encantadora...

Mas não pode concluir, porque Ferdichtchénko, instalando às pressas de uma cadeira atrás dele, pesadamente o abateu sobre ela: o general inconscientemente anuiu porque uma coisa dessas logo depois do jantar o comovia tanto que as pernas lhe fraquejavam. Ou melhor, caiu sobre a cadeira. Mas isso não o desconcertou. Recuperou as maneiras, encarou Nastássia Filíppovna com um sorriso complacente, deliberada e galantemente ergueu os dedos dela até aos seus lábios. Tentar desconcertar o general era empresa difícil. Ele sabia perfeitamente que ainda tinha um exterior bem apresentável, e se não fosse certo desmazelo poderia passar... Movera-se no passado sempre em boas rodas sociais, das quais acabara sendo excluído havia apenas uns dois ou três anos. Dera daí para cá em se abandonar a certas fraquezas, sem peias. Apesar disso, porém. ostentava uns restos de maneiras agradáveis bem espontâneas.

O aparecimento do general, de quem já ouvira tanto falar, parece que deleitou Nastássia Filíppovna. E ei-lo que recomeçava:

- Segundo me consta, aqui o meu filho...

- Sim, o seu filho... Mas convenhamos que o pai não deixa também de ainda ser bonitão! ... Por que nunca foi me ver? Fechou-se assim, voluntariamente, ou isso foi obra de seu filho? A quem comprometeria o senhor, indo ver-me?

- Os filhos do século dezenove e os seus respectivos pais... - explicou o general.

- Nastássia Filíppovna, desculpe por um instantinho Ardalión Aleksándrovitch, pois alguém o está procurando... - disse Nina Aleksándrovna em voz alta.

- Desculpá-lo em quê? Já me tinham falado tanto dele! Almejava tanto conhecê-lo. Que faz ele, presentemente? Reformou-se? Ora, não vá me deixar, general! Fique, não vá embora!

- Eu lhe prometo que ele voltará, ou irá vê-la. Mas agora ele precisa descansar.

- Ardalión Aleksándrovitch, oh... - estão dizendo que o senhor precisa descansar - reagiu Nastássia Filíppovna, fazendo ar de decepção e de amuo, como uma criança a quem privam do brinquedo.

O general esmerou-se em tomar a sua posição ainda mais néscia do que antes. E pondo a mão sobre o coração, solenemente, desaprovou a ordem da esposa, dizendo:

- Oh! Querida, querida!

- Mamãe, a senhora não se retira? - disse Vária, de modo significativo. perto da porta para onde se arredara.

- Não, Vária, devo permanecer aqui, até ao fim...

Nastássia Filíppovna ouviu muito bem tanto a pergunta como a negativa, mas isso parece que aumentou o seu entusiasmo. Fez mais perguntas ao general, com muita vivacidade. Daí a cinco minutos o general, em estado triunfante de espírito, provocava risadas em certa parte do grupo.

Kólia puxou o príncipe pela aba do casaco.

- Saia com ele, de qualquer jeito. Isto não pode continuar. É um favor que lhe suplico.

- Havia lágrimas de indignação nos olhos do pobre rapaz. - Oh! Este maldito Gánia!

Enquanto isso, em resposta a dada pergunta de Nastássia Filíppovna, o general explicou:

- Tive a fortuna de ser, deveras, um amigo íntimo de Iván Fiódorovitch Epantchín. Eu, ele e o falecido Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin, cujo filho tive a fortuna de reabraçar hoje depois de vinte anos de separação, éramos, os três, inseparáveis; formávamos, por assim dizer, uma bela cavalgada, como os três mosqueteiros, Atos, Portos e Aramis. Mas, um está na sepultura, ai dele! Derrubado pela calúnia e por uma bala.

O segundo está diante da senhora, lutando ainda e sempre contra calúnias e balas.

- Que balas?

- As que estão aqui, no meu peito. Recebi-as debaixo das muralhas de Kars, e quando o tempo muda me dou conta delas. Malgrado isso, no mais que a mim respeita, vivo como um filósofo: passeio, jogo damas no meu café como um burguês comanditado, e leio o Indépendance. Mas com Epantchín, o terceiro, o nosso Portos, não tenho mais nada a ver, depois daquele escândalo, há dois anos, na estrada de ferro, com um cãozinho lulu.

- Um cãozinho? Como assim? - perguntou Nastássia Filíppovna com uma curiosidade faiscante.

- Com um cãozinho de colo? Vejamos. Na estrada de ferro, ainda por cima!... - insistiu, fechando um pouco os olhos, como quando alguém quer recordar alguma coisa.

- Foi um caso idiota. Nem merece a pena contar. E tudo por causa da governante da Princesa Bielokónskaia, mistress Schmidt. Nem merece a pena repetir.

- O senhor tem de me contar! - insistia alegremente Nastássia Filíppovna.

Ferdichtchénko observou:

- O senhor também nunca me contou. C’est du nouveau.

- Ardalión Aleksándrovitch! - suplicou outra vez Nina Aleksándrovna.

E Kólia exclamou:

- Pai, lá no corredor querem falar urgentemente com o senhor!

- Trata-se de uma história estúpida e pode ser contada em duas palavras - decidiu-se o general, com muita complacência. - Dois anos atrás, sim, aproximadamente há dois anos, logo depois da inauguração da estrada de ferro de X... estava eu já nesse tempo em trajes civis, mas ainda muito ocupado com um caso importante que se prendia à minha promoção antes da reforma. Tomei um bilhete de primeira classe, entrei, sentei-me, pus-me a fumar. Ou melhor, já entrei fumando; tinha acendido o meu charuto lá fora. Fumar nem era proibido nem permitido. Tolerava-se, pode-se dizer assim. Naturalmente depende da pessoa que fuma. De mais a mais a janela estava aberta. Um pouco antes do apito, duas senhoras subiram, com um cachorro pequenino assim, se sentaram no mesmo compartimento, diante de mim. Entraram atrasadas. Uma delas estava vestida de maneira extravagante, em azul-claro. A outra, mais sobriamente, de seda preta, com uma capa. Que eram bonitas, não havia dúvida; mas tinham um ar desdenhoso, e falavam inglês. Fiz que não reparei e continuei a fumar. Hesitei, mas estava ao lado da janela e como a janela estava aberta, prossegui. O cão estava sobre os joelhos da dama de azul-claro. Era um bichinho pequenininho, assim como o meu punho fechado, todo preto, com manchas brancas, uma perfeita raridade! Tinha uma coleira de prata, com uma inscrição. E logo percebi que as damas ficaram aborrecidas com o meu charuto, é lógico. Uma delas se pôs a fitar-me com o seu lornhão de tartaruga. Fiquei impassível; e elas... nem bico! Se me dissessem alguma coisa, me advertissem, me pedissem, para que é que a gente tem língua, afinal de contas? Mas estavam caladas. Subitamente, sem advertência, dou-lhe a minha palavra de honra, sem a menor advertência, como se inopinadamente tivesse ficado maluca, a tal de azul desmaiado me arrancou o charuto da boca e o atirou pela janela. O trem ia desembestado, a toda. Fitei-a, perplexo. Uma mulher selvagem, sim, positivamente uma mulher inteiramente do tipo selvagem, muito embora de maneiras, alta, bonitona, com faces rosadas, aliás rosadas até demais. Os olhos dela fulguravam, me hipnotizando. Sem proferir uma palavra, e com extraordinária cortesia, a mais perfeita, a mais refinada cortesia, eu, delicadamente segurei o cachorrinho pela coleira, com dois dedos, assim, e o atirei pela janela afora, em busca.., do meu charuto!... Ele apenas soltou um ganido! O trem ia por aí afora a toda velocidade.

- O senhor é um monstro! - ria-se, a perder, Nastássia Filíppovna, batendo as mãos, como uma criança.

- Bravo! Bravo! - aplaudia Ferdichtchénko.

Ptítsin, que quando o general apareceu na sala também ficara sem jeito, agora também ria. E riu o próprio Kólía que gritou ainda.

- Bravo!

- E eu tinha direito a fazer o que fiz! Perfeitamente! - explicou o general, todo entusiasmado, em triunfo.

- Se os charutos são proibidos em um carro de primeira classe, quanto mais os cachorros!

- Bravo, pai, esplêndido! Eu faria a mesma coisa! - exclamou Kólia, jovialmente.

Mas Nastássia Filíppovna perguntou, pressurosa:

- E a dama? Que fez ela?

- A dama? A de azul? É aí que a coisa descamba para o desagradável - redargüiu o general, franzindo as sobrancelhas. - Sem proferir uma só palavra e sem me avisar, me esbofeteou. Uma mulher selvagem, de um tipo inteiramente selvagem.

- E o senhor?

O general fechou os olhos, franziu ainda mais as sobrancelhas. encolheu os ombros, atirou as mãos para os lados, fez uma pausa, depois, de súbito, confessou:

- Perdi a cabeça.

- Maltratou-a? Deu-lhe uma lição?

- Por honra minha, não o fiz. O que se seguiu foi uma cena escandalosa. Maltratá-la, porém, não o fiz. Simplesmente brandi o meu braço, o necessário para afastá-la... Mas quis o demônio que a tal de azul-claro fosse a governante inglesa, ou uma espécie quase de amiga da família Bielokónskii, sendo que a de preto, conforme depois vim a saber, era a infanta mais velha das Bielokónskii, uma donzela já, velhusca, de uns trinta e cinco anos. Ora, a senhora sabe em que termos a Generala Epantchiná está ligada à família Bielokónskíi.

Todas as seis princesinhas tiveram chiliques, choramingaram, guardaram luto pelo cãozinho, a governante inglesa deu gritinhos! Um completo manicômio. Naturalmente que eu tinha de me desculpar, manifestar o meu arrependimento. Escrevi uma carta. Recusaram receber-me, a mim e à carta.

E a Epantchiná me descompôs, vedou-me a entrada em sua casa, rompeu comigo.

- Mas, permita uma observação: como é que o senhor explica isto? - perguntou Nastássia Filíppovna, atrapalhando-o. – Há cinco ou seis dias li, no Indépendance, sempre leio o Indépendance, uma anedota exatamente igual à sua história. Precisamente a mesma coisa! Só que tem que se passou entre um francês e uma inglesa, em uma estrada de ferro renana. O charuto foi arrancado da mesma maneira, o cachorro foi atirado pela janela como o seu. E acabou do mesmo jeito. E até o vestido também era azul!

O sangue subiu à cara do general. Kólia também enrubesceu e tapou o rosto com as mãos. Ptítsin virou-se e saiu precipitadamente Ferdichtchénko era o único que ainda ria. Quanto a Gánia, nem é preciso falar.

Todo o tempo estivera de pé, em uma agonia indizível.

Mas o general afiançou:

- Pois lhe asseguro que a mesma coisa se passou comigo.

- De fato, papai teve uma questão com mistress Schmidt, governante das Bielokónskii - asseverou Kólia -, estou me lembrando agora.

Mas a dama, sem piedade, persistiu:

- Como? Exatamente a mesma coisa? A mesma história nas extremidades opostas da Europa, e iguais, minúcia por minúcia, até a cor do vestido azul-pálido? Vou lhe mandar o Indépendance Belge.

- Mas note que o incidente que se passou comigo foi há dois anos - teimou ainda o general.

-Ah! Então, está bem! - E Nastássia Fillíppovna ria como se estivesse com um ataque histérico.

- Papai, estou lhe pedindo; ouça, vamos até lá dentro, preciso lhe dar uma palavrinha - disse Gânia, com voz entrecortada e com certa acrimônia, puxando o pai maneirosamente pelo ombro.

Havia um lampejo de infinito ódio em seus olhos.

Neste momento a campainha da porta da frente tocou de modo violento. E de maneira tal que devia até ter arrebentado. Anunciava uma visita excepcional. Kólia correu a abrir a porta.

 

De repente um vozerio de muita gente na entrada. Os que restavam na sala de visitas tiveram a impressão de que muitas pessoas tinham subido e que outras ainda estavam na escada. Uma porção de vozes falando e exclamando ao mesmo tempo; e isso tanto em cima como lá embaixo; a porta do patamar evidentemente tinha sido escancarada. Que visitas seriam essas. E todos, na sala, se entreolharam. Gánia saiu apressadamente em direção à sala de jantar, onde diversos dos recém-chegados já se aglomeravam.

E nisto gritou uma voz:

- Lá vem ele, o Judas! Como vai você, Gánia, seu tratante?

De onde estava, o príncipe ouviu e reconheceu de quem era essa voz. Uma outra voz prorrompeu:

- Cá está ele! Cá está ele em pessoa!

O príncipe não teve a menor dúvida: a primeira voz era de Rogójin e a segunda era de Liébediev.

Gánia estacou, petrificado, olhando para eles em silêncio; e apesar de parado na porta entre um cômodo e outro não conseguiu embargar a passagem de umas dez ou doze pessoas que acompanhavam Parfión Rogójin rumo à sala de jantar. Era um bando misturadíssimo, inconcebível, de gente ordinária. A maioria entrou conforme chegara, ainda com seus sobretudos e peles. Nenhum deles estava propriamente bêbado, mas vinham todos fazendo algazarra. Só mesmo assim em grupo é que poderiam ter a audácia de entrar, o que fizeram em bolo compacto. O próprio Rogójin conteve seu ímpeto à frente dos comparsas, malgrado seu ar resoluto. O rosto sombrio e façanhudo patenteava seu alvoroço. Depois de Liébediev apareceu Zaliójev, que arremessara a peliça sobre um móvel da saleta de entrada e ostentava sua decisão, assim com aquele cabelo revolto, e uma coragem de espalha-brasas. Seguiam-no outros dois indivíduos com o mesmo feitio, parecendo comerciantes, um homem com um capotão militar e o outro, gorducho. que entrou às gargalhadas. Depois um hércules espadaúdo, sombrio e silencioso, decerto porque confiava nos próprios punhos. Entrou também um estudante de Medicina, com um polaco mirrado que aderira ao bloco na rua, momentos antes. Duas mulheres quaisquer enfiaram os focinhos na porta do sobrado, mas não se aventuraram a entrar, mesmo porque Kólia lhes bateu com a porta nas fuças, correndo o ferrolho depois.

- Como vai a vidinha, Gánia? Hein, seu maroto?! Pela certa não esperava por Parfión Rogójin, hein? - tornou a falar Rogójin adiantando-se na direção da sala de visitas sem tirar os olhos de cima de Gánia.

Mas, de súbito, deu com Nastássia Filíppovna lá dentro, sentada de frente para a sala de jantar. Ah! Nem por sonhos esperava dar com ela naquela casa; a prova foi que. quando a viu, ficou tão atarantado que seu rosto se tornou lívido a ponto de os lábios tomarem uma coloração azul.

- Com que então é verdade? - disse isso bem devagar, inteiramente desconcertado; e até perdeu o modo insofrido com que entrara. - Então a coisa está liquidada mesmo?... Há... Você vai me pagar, e bem caro - rosnou, encarando Gánia com uma fúria repentina e incrível. - Há, há, vamos ver!

Faltou-lhe o ar, quase não pôde dizer as últimas palavras. Como um autômato penetrou na sala de visitas, logo se detendo, porém, ao dar com Nina Aleksándrovna e Vária. Emoção e embaraço o sustiveram. Atrás dele entrou Liébediev, bêbado que nem se agüentava, e ainda assim o seguindo como sombra. Também transpuseram o portal o estudante, o brutamontes dos punhos e Zaliójev, este então fazendo mesuras a torto e a direito; por último se insinuou o homenzinho gorducho. A presença de senhoras os constrangeu; mas tal respeito momentâneo não significava grande garantia; bastava que os quisessem expulsar, que alguém levantasse a voz por qualquer motivo, para que logo aproveitassem para armar um charivari.

- Olá! O senhor também aqui, príncipe? - disse Rogójin ainda se espantando mais ao deparar com Míchkin. - E sempre com as polainas, hein? - Respirou fundo, esqueceu-se logo do príncipe e tornou a olhar para Nastássia Filíppovna, dirigindo-se para ela como atraído por um imã.

Ela também estava olhando com inquieta curiosidade para aquela malta de invasores. Finalmente Gánia recuperou a presença de espírito.

- Permitam que lhes pergunte que significa isto? - disse com voz embargada, encarando com rosto severo os recém-chegados e se dirigindo principalmente a Rogójin. - Isto aqui não é uma cocheira, senhores. Minha mãe e minha irmã moram aqui.

- Estamos vendo perfeitamente que sua mãe e sua irmã estão aqui - respondeu Rogójin, por entre os dentes.

Liébediev sentiu que era chegada a hora de “colaborar”.

- Sim, claramente se vê que sua mãe e sua irmã estão aqui! - E o homenzarrão dos punhos compreendeu que a situação se ia azedando e se pôs a engrolar qualquer coisa, ele também.

- Mas, palavra de honra! - explodiu Gánia, erguendo a voz, sem se moderar.

- Primeiramente peço a todos que se dirijam para a sala de jantar e que depois, lá, educadamente me digam...

- Imaginem, ele não sabe!... - goelou Rogójin, rilhando os dentes, zangado, sem arredar o passo. - Diga-me uma coisa, você conhece Rogójin?

- Certamente que já o encontrei em algum lugar, mas...

- Em algum lugar, hein? Há três meses, perdi, para você, no jogo, duzentos rublos que eram de meu pai.

Ele até morreu sem descobrir isso. Você me distraía e Kniff me furtava!... E não está me reconhecendo mais,

hein? Ptítsin assistiu a isso. Quer você saber que espécie de homem você é? Se eu agora lhe mostrar três rublos, aqui do meu bolso, você engatinhará até a ilha Vassílievski. para os ganhar... E não pense que vim apenas com estas botas! Não! Arranjei uma bolada de dinheiro, irmão, posso comprar você inteiro com toda a tua gente.

Posso arrematar você; se eu quiser. arremato tudo! - Rogójin excitava-se cada vez mais e a sua bebedeira se ia exteriorizando. - Vê lá, Nastássia Filíppovna, não me enxotes! Dize-me só uma coisa: vais te casar com ele, ou não?

Foi uma pergunta feita em desespero, como apelando para uma divindade, mas com a coragem de um homem condenado à morte e que, portanto, nada tem de perder. E esperava a resposta, com mortal angústia.

Com altivez e expressão desdenhosa, Nastássia Filíppovna o examinou de alto a baixo; depois olhou de esguelha para Nina Aleksándrovna e Vária; daí fitou Gánia, e disse, mudando de tom:

- Certamente que não. Mas que foi que lhe aconteceu? E que lhe deu na cabeça para fazer uma pergunta destas? - Falou devagar. de modo grave, e, pelo menos aparentemente, com certa surpresa.

- Não? Não! - exclamou Rogójin quase louco de júbilo. -Então não vais... Mas como é que me disseram?

Há? Nastássia Filíppovna, contaram-me que estavas comprometida com ele! Como se fosse possível! Bem lhes disse eu que era impossível! Se eu quiser, compro-o por cem rublos. Se eu lhe desse mil, três mil rublos para desistir, ele fugiria no próprio dia do casamento, deixando a noiva para mim.

É ou não é verdade, Gánia, seu canalha? Você agarraria os três mil rublos, não é mesmo? Aqui está o dinheiro! Aqui o tem! Eu trouxe a bolada para facilitar a sua assinatura em uma renúncia categórica. Eu disse que o compraria, e o comprarei!

- Saia daqui, seu bêbado! - gritou Gánia que, depois de lívido, ficou vermelho. A esta explosão se seguiu uma outra, geral, pois todo o bando estava à espera apenas do sinal para a briga. Mas nisto, com solicitude, sibilantemente, Liébediev ciciou qualquer coisa ao ouvido de Rogójin.

- Tens razão, funcionário - respondeu Rogójin -, tens razão. alma de bêbado! Aqui vai, Nastássia Filíppovna - berrou, fitando-a, como um sujeito em delírio que da extrema timidez passa à maior audácia - aqui vai o dinheiro. Dezoito mil rublos! (E atirou sobre a mesa, diante dela, um maço de notas embrulhadas em papel branco amarrado com barbante.) Aqui vai! E ainda arranjei mais. que está para chegar.

Não se aventurou a dizer o que queria. Mas, arcado para ele. Liébediev sussurrava com um feitio atônito:

- Não, não, não!...

Adivinhava-se que estava horrorizado ante a grandeza da soma, incitando o outro a tentar a sorte com uma quantia menor.

- Não, irmão, você está doido! Não sabe como tem de ser o comporta-mento aqui. Pensa que sou maluco como você? - Mas, dando com os olhos chamejantes de Nastássia Filíppovna. Rogójin parou, sobressaltado e se dominou. - Ai, ai, ai! Já fiz embrulhada; pra que o fui ouvir, Liébediev! - exclamou com certo vexame.

Mas, inesperadamente, Nastássia Filíppovna deu uma risada, olhando para a cara atônita de Rogójín.

- Dezoito mil rublos para mim? Não passarás nunca de um mujique! - acrescentou com uma familiaridade insolente, levantando-se do sofá, como para se ir embora.

Gánia assistira à cena com o coração soterrado.

-Então - gritou Rogójin - quarenta mil! Quarenta, e não dezoito! Ptítsin e Biskúp prometeram arranjar-me, até às sete horas, quarenta mil! Dinheiro certo, ali!

O escândalo agravava-se, mas Nastássia Filíppovna, já de pé, continuava a rir, prolongando a cena de propósito. Nina Aleksándrovna e Vária também se tinham levantado e esperavam, em silencioso pasmo, até ver onde aquilo iria parar. Os olhos de Vária faiscavam e o efeito de tudo isso em Nina Aleksándrovna era pavorosamente cruel; tremia e estava a ponto de desfalecer.

-  Então, se é assim, cem. Dar-te-ei cem mil rublos, hoje. Ptítsin, empresta-me isso, já está valendo, está feito!

- Você está maluco! - balbuciou, sem se fazer esperar, Ptítsin que se encaminhou para ele e o segurou.

- Você está bêbado! Olhe que chamam a polícia! Onde é que você pensa que está?

- Está bêbado e quer se mostrar! - disse Nastássia Filíppovna, zombando dele.

- Não é ostentação, não! Arranjarei o dinheiro antes de anoitecer! Ptítsin, seu agiota, empreste-me isso, vamos! Peça os juros que quiser! Arranje-me cem mil rublos para esta noite! Quero mostrar que não vacilo diante de nada. - A excitação de Rogójin não tinha limites.

Foi então que, profundamente agitado, Ardalión Aleksándrovitch gritou com voz ameaçadora:

- Qual é o sentido disto? Vamos, diga! - e investia sobre Rogójin.

A subitaneidade da explosão do velho, até então em completo silêncio, foi muito cômica. Houve gargalhadas.

- Olá... Quem temos nós aqui! - riu Rogójin. - Venha cá. seu barbaças, vamos embebedá-lo!

- Isso é nauseante - proferiu Kólia, chorando de vergonha.

- Não há ninguém que expulse esta mulher desavergonhada daqui para fora? - exclamou Vária, tremendo de pejo.

E Nastássia Filíppovna respondeu com uma alegria onde havia desprezo:

- Chamam-me de mulher desavergonhada! A mim que vim, pressurosa, convidá-los a todos para a minha recepção desta noite! Eis como sua irmã me trata, Gavríl Ardaliónovitch!

No primeiro instante Gánia ficou aniquilado ante a explosão da irmã, mas quando viu que Nastássia Filíppovna ia embora. investiu desatinado para Vária e a agarrou pelo braço, com fúria.

- Veja o que você foi fazer! - Encarava-a como se a quisesse fulminar ali mesmo. Estava tão fora de si que não sabia o que estava fazendo.

- Que foi que eu fiz? Ora essa! E para onde me quer arrastar? Será para pedir perdão a ela por ter insultado mamãe e ter vindo aqui desgraçar nossa família, criatura vil!? - Vária gritou de novo. com ar impávido, desafiando o irmão. Ficaram assim, um encarando o outro. Gánia mantinha-a presa pelo braço; ela experimentou livrar-se duas vezes, até que, de repente, perdendo toda a compostura, cuspiu na cara do irmão.

- Que moça! Bravos! - exclamou Nastássia Filíppovna. - Ptístin, dou-lhe os meus parabéns!

Gánia viu tudo dançando diante dos seus olhos. E. completamente esquecido de si, arremeteu contra a irmã e teria acertado no rosto dela se uma outra mão estranha não agarrasse a sua. O príncipe estava entre ele e Vária.

- Não faça isso! Pare! - gritou, insistentemente; e era como se a sua violenta emoção sacudisse tudo.

- Atravessar-se-á você sempre no meu caminho? - berroulhe Gánia. Soltou o braço de Vária e, louco de raiva, recuando, deu uma bofetada em Míchkin, com a mão que tinha ficado livre.

- Ah! - gritou Kólia, juntando as mãos. - Meu Deus!

Exclamações foram ouvidas de todos os lados. O príncipe ficou sem cor. Olhou Gánia bem de frente, com olhos de estranhíssima censura. Quis proferir qualquer coisa, mas os lábios tremeram e ficaram contraídos em uma espécie de sorriso inconsistente. Por fim pôde dizer, brandamente:

- Bem, em mim pode; mas nela, não consentirei.

Não se podendo dominar mais, saiu de perto de Gánia, foi para um canto, com o rosto escondido para a parede; e pouco depois balbuciou com voz entrecortada:

- Oh! Como o senhor se deve envergonhar do que fez!

Gánia ficou, de fato, totalmente esmagado. Kólia correu para o príncipe, abraçou-o e o beijou. Seguiram-no Vária, Ptítsin, Nina Aleksándrovna e o próprio Rogójin, ficando todos, inclusive o general, aglomerados em volta do príncipe.

- Não se incomodem! Não se incomodem! - murmurava Míchkin, em todas as direções, ainda com o mesmo sorriso forçado.

- Ele se arrependerá - garantiu Rogójin. - Você não se envergonha, Gánia, de ter insultado um... cordeiro.., destes? (Não conseguiu achar outra palavra.) Príncipe querido, deixe-os, despreze-os e venha comigo. Hei de mostrar-lhe que amigo Rogójin pode vir a ser.

Nastássia Filíppovna também ficara estupefata com a ação de Gánia e a resposta do príncipe. A sua face, de hábito pálida e melancólica, que parecia até ali só se ter animado em um papel de comediante, estava agora indiscutivel-mente tomada por um sentimento novo. Todavia persistiu em esconder isso, conservando uma expressão sarcástica.

-  Com certeza já vi o seu rosto, não me lembro onde – falava agora, de modo sério, subitamente se recordando da sua primeira pergunta.

- Não estais envergonhada? Seguramente não sois o que pretendeis ser agora! Não é possível - exclamava o príncipe com uma censura profunda e sincera. Nastássia Filíppovna ficou perplexa, mas sorriu, para encobrir qualquer coisa. Olhou para Gánia, um tanto confusa, e se retirou da sala de estar; mas antes de chegar à porta voltou, e, com passo rápido, se aproximou de Nina Aleksándrovna; tomou-lhe a mão erguendo-a até os lábios.

- Efetivamente não sou o que pareço ser. Ele tem razão -sussurrou, enrubescendo fortemente. Voltou-se de todo, saiu tão depressa que ninguém percebeu para que foi que ela reentrara; tudo quanto se notou foi que dissera qualquer coisa, muito baixo, a Nina Aleksándrovna, e que pareceu lhe ter beijado a mão. Só Vária, além de ver, também ouviu e a acompanhou com o olhar, assombrada. até vê-la sair. Gánia refez-se e saiu para ver Nastássia Filíppovna retirar-se. Só a alcançou escada abaixo.

- Não me acompanhe. Até logo. Venha esta noite, está ouvindo? Sem falta.

Ele voltou abstraído, preocupado. Uma cruel incerteza pesava sobre o seu coração. E mais amarga do que até então. A figura do príncipe também ainda o obcecava... E estava tão absorto que nem percebeu o bando de Rogójin passar ao seu lado, já no corredor, preparando-se para descer. Discutiam entre si, estabanadamente.

Rogójin caminhava ao lado de Ptítsin, conversando sobre negócio urgente. Ainda assim ao passar por Gánia lhe gritou:

- Você perdeu a partida!

E enquanto o outro descia, Gánia o olhava, inquieto.

 

O príncipe saiu da sala de visitas e se encerrou no seu quarto. Kólia correu imediatamente para tentar acalmá-lo. O pobre garoto não se dispunha a deixá-lo.

- O senhor fez bem de ter vindo embora. Agora aquilo lá vai piorar. E todos os dias é isto, aqui em casa.

Tudo só por causa de Nastássia Filíppovna.

- Há tantas fontes de tribulação em sua família, Kólia! - observou o príncipe.

- Há, sim. Não se pode negar. E é tudo culpa nossa. Mas quer saber de uma coisa? Tenho um amigo que ainda é mais desgraçado. O senhor gostaria de conhecê-lo?

- Muitíssimo. É um camarada seu?

- Sim, quase como um camarada. Depois lhe contarei... Mas como Nastássia Filíppovna é linda, não acha?

Nunca a tinha visto antes, apesar de ter feito todo o possível. Fiquei deslumbrado. Se Gánia estivesse apaixonado por ela, eu lhe perdoaria tudo. Mas por que está ele contando com dinheiro? Isso é que é horrível.

- Realmente, não aprecio muito o seu irmão.

- Já percebi. Mas, como foi que o senhor pôde, depois... mas, quer saber? Não tolero certas idéias. Um espinoteado qualquer, um doido, um tratante, em um acesso de loucura dá uma bofetada em um homem e este se desonra por toda a vida, não pode resgatar o insulto a não ser com sangue, a menos que o outro se ajoelhe e lhe peça perdão. Na minha opinião isso é absurdo e é tirania. O drama de Lérmontov, O Baile de Máscaras, é baseado nisso e o acho estúpido. Ou, explicando-me melhor, não o acho natural. É verdade que ele o escreveu na meninice.

- Gostei muito de sua irmã.

- Viu? Escarrou na cara de Gánia! Ela tem cabelo nas ventas. Se o senhor não brigou com ele, estou certo de que não foi por falta de coragem. Mas aí vem ela. É falar-se no diabo e ele logo... Eu sabia que ela viria. Tem muitos defeitos, mas que é generosa, é.

Mal entrou, Vária implicou com o irmão:

- Você não tem nada que fazer aqui. E, antes de mais nada, vá ver seu pai. Ele o estava incomodando, príncipe?

- Absolutamente. Muito pelo contrário.

- Desta vez, mana, perdeste! Por que implicas comigo? Quanto a papai, pensei que fosse sair com Rogójin.

Está arrependido agora, com certeza. Ainda assim acho bom ir procurá-lo - acrescentou, saindo.

-  Graças a Deus Consegui tirar mamãe de lá e a obriguei a deitar-se. Acabou o barulho. Gánia está envergonhado e muito deprimido. Pudera! Que lição!... Vim para lhe agradecer, de novo, príncipe, e para lhe perguntar se já conhecia Nastássia Filíppovna, antes!

- Não conhecia, não.

- Então que foi que fez o senhor dizer, diante dela, que ela “não era assim”? E parece que o senhor acertou. Também acho que não seja. Mas não a compreendo. É evidente que teve o propósito de insultar-nos. Isso ficou mais do que claro. Eu sei que muita coisa que me falavam dela é falso. Mas, se realmente veio para nos convidar, por que se portou assim para com a mamãe? Ptítsin, que a conhece bem, me declarou que dificilmente a consideraria capaz de fazer o que nos fez hoje. E Rogójin, então? Como é que uma pessoa que se respeita pode agir desse modo na casa dos outros?  Como mamãe ficou aborrecida com o que lhe aconteceu! Não se incomodem com isso. - E o príncipe ajudou as palavras com um gesto.

- E não é que ela acabou obedecendo ao senhor?

- De que modo?

- O senhor lhe perguntou se não sentia vergonha e imediatamente ela mudou. Pode ficar certo que tem influência sobre ela príncipe. E Vária sorriu levemente.

Nisto a porta se abriu e, para grande surpresa de ambos, Gánia entrou. Não titubeou nem mesmo à vista da irmã. Ficou parado um pouco, à entrada, depois caminhou resolutamente para o príncipe.

- Príncipe, comportei-me como um sujeito à-toa. Perdoe-me meu caro camarada.

- Falava com sentimento, não encobrindo uma expressão de mágoa que havia no seu rosto.

O príncipe olhou-o espantado e não respondeu.

- Vamos, perdoe-me - insistiu Gánia, com humildade. E se deixar, estou pronto a beijar a sua mão.

O príncipe comoveu-se e, embora não dissesse nada, abraçou Gánia. Beijaram-se, com sinceridade.

Eu não tinha a menor idéia, a menor idéia de que o senhor pudesse ser assim - disse o príncipe, retomando o fôlego. -Julgava-o incapaz disso.

- De confessar o meu erro? E dizer-se que esta manhã o tomei por um idiota! O senhor percebe o que os outros não vêem. Explicando, ou não explicando, o senhor compreende tudo... Aqui está uma outra pessoa a quem o senhor também devia pedir perdão - e o príncipe apontou para Vária.

-  Não adianta, príncipe. São todos meus inimigos. Já fiz várias tentativas. Não há nenhum perdão sincero vindo da parte de certa gente - rematou impetuosamente Gánia, dando as costas para Vária, que inesperadamente disse alto:

-  Sim, eu te perdôo.

- E serás capaz de ir comigo esta noite à casa de Nastassia Filíppovna?

- Se exiges, vou. Mas cabe a ti próprio julgar se não é fora de propósito eu ir lá, esta noite.

- Ela não é como aqui pensam. Viste que ela hoje aqui cada vez se mostrou mais enigmática. Só usou de artifícios.

E Gánia riu de um modo vicioso.

- Eu sei perfeitamente que ela não é assim e que tudo não passa de maneirismo. Mas que pretende ela? Além disso, pensa bem, Gánia, afinal ela te toma por quem? Lá o ter beijado a mão de mamãe, não representa nada, pode ter sido uma impostura. Tu sabes que ela continuou rindo de ti, na mesma! Isso não vale setenta e cinco mil rublos, realmente não vale, tu bem sabes, mano! E é porque sei que ainda és capaz de sentimentos nobres que te falo assim. Pára com isso. Acautela-te. Isso não pode acabar bem.

Estava tão excitada que, mal acabou de falar, saiu quase a correr do quarto.

-  Elas todas são assim! - E Gánia sorriu. - E supõem que não conheço a vida. Ora, conheço muito mais do que elas. - E tendo dito estas palavras se sentou no sofá, dando mostras de querer prolongar a visita.

-  Se sabe as coisas tão bem, por que é que escolheu um tal tormento?- aventurou-se o príncipe a comentar. - O senhor sabe que tal situação não vale setenta e cinco mil rublos.

-  Não é a isso que estou me referindo - redargüiu Gánia. - Mas diga, já que falou neste assunto, o que pensa o senhor? Quero saber a sua opinião. Uma tal miséria vale ou não vale setenta e cinco mil rublos?

-  Acho que não vale.

-  Eu sabia que o senhor ia responder assim! E um tal casamento é vergonhoso?

-  Vergonhosíssimo.

-  Bem, deixe-me dizer que me vou casar com ela. Coisa, aliás, sobre a qual já não há dúvida. Cheguei a hesitar e bastante, mas agora resolvi ceder. Não fale! Eu sei o que é que o senhor quer dizer.

-  Eu não ia dizer o que o senhor pensa. Surpreende-me muito a sua imensa confiança.

-  Sobre quê? Qual confiança?

-  Ora! A respeito do seguinte: que Nastássia Filíppovna está certa que se casará com o senhor e que isso é caso resolvido. E a seguir que, se ela se casar com o senhor, os setenta e cinco rublos entrarão para o seu bolso. Mas naturalmente que em tudo isso há muita coisa que eu ignoro.

gánia chegou-se mais para perto do príncipe.

- É evidente que o senhor não sabe quase nada. Mas por que então me sujeitaria eu a tais cadeias?

-  Penso que no mais das vezes muita gente se casa por causa do dinheiro, que aliás fica com a esposa.

- Não, conosco não será assim... Neste caso há pontos a  considerar... - murmurou Gánia, com ar meditativo. - Quanto a resposta dela, hoje, não há dúvida - acrescentou apressadamente.

-  Em que se baseia o senhor para julgar que ela me dará o contra?

-  A esse respeito não sei senão o que vi, e o que acabou de dizer Varvára Ardaliónovna.

-  Ah! Foi bobagem dela. Elas não sabem mais o que dizer. Nastássia Filíppovna estava rindo de Rogójin. - dou-lhe a minha palavra. Eu vi. Tenho a certeza. Eu estive aturdido, mas agora compreendi. E relutanto ao modo dela se comportar perante mamãe, papai e Vária?

-  E perante o senhor, também.

-  Talvez. Foi uma maneira muito feminina de se cobrar de velhas contas. Ela é pavorosamente irritável, presunçosa e egoísta. Como qualquer escriturário que acabou de ser vítima de injustiça no seu serviço. Quis demonstrar pessoalmente todo o seu desprezo por todos e... por mim. Eis a verdade, não nego... E ainda assim quer se casar comigo. O senhor não sabia a que falsos papéis pode levar a vaidade humana. Repare só e verá que ela me considera um sem-vergonha porque a aceitei, a ela, amante de outro homem, e a aceito abertamente só por causa de dinheiro! E desconhece que qualquer outro homem a aceitaria de um modo ainda mais desavergonhado do que o meu, acenando-lhe com idéias liberais e progressistas, fingindo acobertá-la sob problemas femininos. E ela entraria direitinho nessa armadilha como um fio em uma agulha. Convenceria ele a tola vaidosa (e seria fácil) que se casasse com ela, apenas devido ao seu “nobre coração” e “desventura”, embora fosse, como no meu caso, por causa de dinheiro, tal e qual. Não me absolvem porque não finjo envergonhar-me. E é o que eu devia fazer. Mas, ela, que faz ela? Não dá no mesmo? Então que direito tem de desprezar e de armar jogos assim, comigo? Porque eu me mostro altivo e me vendo caro? Está bem, veremos!

-   O senhor a amou até que isso tivesse acontecido?

- No começo a amei. Basta! Há mulheres que só servem para.. amantes. Não digo que tivesse sido minha amante. Se ela sempre se comportar direito, o mesmo farei eu. Mas sei que é uma insubordinada. Já prevejo tudo: largo-a logo e levo o dinheiro comigo. Não quero que se riam de mim. Acima de tudo, tenho horror do ridículo.

- Eu, por mim, considero Nastássia Filíppovna muito sagaz, observou o príncipe prudentemente.

- Por que procuraria ela a arma dilha sabendo de antemão que miséria isso significaria para ela? O senhor bem vê que ela se poderia casar com qualquer outro. E é que me surpreende. Ora, é que há outras razões. O senhor não sabe de tudo, príncipe. É que... De mais a mais, está persuadida de que a amo até à loucura, garanto-lhe. E ainda por cima tenho fortes suspeitas de que também me ama à sua maneira, conforme o ditado que o senhor conhece: “Castigo quem amo”. Considerar-me-á toda a vida como um patife (e talvez seja isso o que ela deseje) e ainda assin me amará à sua maneira. Ela está se preparando para isso, o seu caráter é assim. É uma autêntica mulher russa, digo-lhe eu. Mas, tenho uma pequenina surpresa guardada para ela. Aquela cena de ainda agora com Vária foi ocasional, mas me serviu; viu como estou apegado a ela e ficou convencida de que estou pronto a romper com todas as amarras por sua causa. Não sou tão parvo, pode o senhor ficar certo. E já que nisso estamos, o senhor não vai inferir do que aqui lhe digo que sou tagarela, não é mesmo? Talvez, de fato, eu esteja errado em confiar no senhor, caro príncipe. Mas o senhor é o primeiro homem honrado com quem cruzei no meu caminho. Zangou-se por causa do que aconteceu ainda agora? Não? Esta é a primeira vez, de há dois anos a esta parte, creia, que eu falo de coração. Aqui há gente terrivelmente pouco honesta, e Ptítsin, por exemplo, é o mais honesto de todos. Acho que o senhor está rindo, não? Os canalhas admiram as pessoas honestas... O senhor ignorava isso? E por conseguinte, eu... mas em que sou eu um canalha, diga-me com toda a sua consciência!? Por que é que todos fazem coro com ela, chamando-me de canalha? E quer saber de uma coisa? Acabei seguindo o exemplo deles e dela e também me chamo um canalha! Isso é que é uma canalhice, realmente, uma canalhice!...

- Eu nunca o consideraria propriamente um canalha! - disse o príncipe.

- Ainda agora pensei no senhor como em um frasco, e imediatamente depois o senhor se reabilitou, causando-me júbilo à alma. Foi uma lição, para eu não julgar sem experiência. Agora concluo que o senhor não pode ser considerado sem moral e nem mesmo, realmente, um homem depravado Na minha opinião.

O senhor não é mais que um homem como tantos outros de qualidades sem interesse real, ou melhor, sem qualidades quaisquer. E, além disso, tendo fraqueza de mais e originalidade de menos.

Gánia sorriu sarcasticamente, mas não respondeu nada vendo que a sua opinião tinha sido mal aceita, o príncipe se embaraçou e também ficou calado. Pouco depois Gánia lhe perguntou:

- Meu pai lhe pediu dinheiro?

- Não.

- Se lhe pedir, não dê. Outrora foi um homem decente. Lembro-me. Freqüentava só gente direita. E com que rapidez fraqueja essa gente, decente, quando a velhice chega! Basta uma circunstancia mínima, e não fica mais nada dessa gente, tudo se vai em um relâmpago! Outrora ele não pregava mentiras deste jaez, posso lhe garantir. Outrora apenas foi um pouquinho entusiasmado, e veja em que deu! Naturalmente a bebida está no fundo de tudo isso. E quer saber de uma coisa? Tem uma amásia! E agora está ficando pior do que um simples mentiroso. Não entendo mais a capacidade de sofrimento de minha mãe. Ele lhe falou no cerco de Kars? E como o seu cavalo baio trotador começou a falar? Pois olhe que ele não se limita somente a tais despautérios!...

E repentinamente Gánia desferiu uma gargalhada.

- Por que é que está me olhando assim? - perguntou ao príncipe, interrompendo-se de repente.

- Estou surpreendido com a sua gargalhada tão franca. Ainda bem que pode rir como uma criança. O senhor entrou aqui para fazer as pazes comigo; disse, até: “Se consentir, beijarei a sua mão”, tal como uma criança o teria feito. Ainda é, pois, capaz de tais palavras e de tais impulsos. E depois o senhor começa uma enorme lengalenga a respeito desse negro caso e desses setenta e cinco mil rublos. Devo dizer-lhe quanto tudo isso me parece absurdo e incrível.

- E o que deduz disso?

- Não estará agindo impensadamente? Não deveria examinar-se antes? Varvára Ardaliónovna tem razão, decerto!

- Ah! Lições de moral!? Que eu sou rapaz desmiolado, estou farto de saber - interveio Gánia, acaloradamente. - E basta ver a conversa que acabo de ter com o senhor. Não é por motivos mercenários que vou fazer este casamento, príncipe - continuou espicaçado pela vaidade da mocidade que não o deixava calar-se.

- Certamente ainda não posso me orientar, porque sou fraco demais. em caráter e em espírito. A paixão me cega porque só tenho uma coisa em mira. O senhor pensará que, mal eu ponha a mão em setenta e cinco mil rublos, compro logo uma carruagem. Não. continuarei usando o meu paletó do ano retrasado e não prestarei atenção nos meus conhecidos que freqüentam clubes. Há pouca gente perseverante, entre nós, embora não passemos de cavadores de dinheiro. Mas eu. eu serei perseverante. A grande coisa é fazer isso cabalmente; esse é que é o problema. Ptísin, aos dezessete anos, dormia na rua e vendia canivetes. Começou com um copeque e hoje tem sessenta mil rublos. Pergunte a ele o que passou para chegar a isso. Mas eu começarei para cá dos empecilhos e já con capital. Dentro de quinze anos, dirão: “Ali vai Ívolguin, o rei dos judeus!” Disse-me o senhor, ainda agora, que não tenho nada de original. Observe, caro príncipe, que nada ofende mais a um homem da nossa raça e da nossa época do que lhe dizerem que não é original, que não tem força de vontade nem talentos especiais e que não passa de um indivíduo comum. O senhor nem sequer me deu crédito para me considerar um canalha de primeira ordem, e o senhor sabe que eu estaria pronto para aniquilá-lo, só por causa disso. O senhor me ofendeu mais do que Epantchín, o qual, sem discussão, sem experimentar tentar-me, na simplicidade do seu coração, repare bem, acreditou que eu fosse capaz de vender a minha vida.

Isso me exaspera há tempos e é por isso que eu quero dinheiro. Mas dêem-me o dinheiro e verão se me torno ou não um homem altamente original. O que há de baixo e de desprezível no dinheiro é que com ele se compra até mesmo talento, e assim será até o fim do mundo. Dirá o senhor que também isso não passa de infantilidade ou. talvez, de romantismo. Bem, para mim será melhor assim e hei de fazer o que desejo.

- Seja como for perseverarei e não desistirei. Rira bien qui rira le dernier. O que levou Epantchín a insultar-me desse jeito? Despeito, não podia ser! Nunca! Então foi porque me achou um tipo sem a menor importância. Mas, então... Agora, chega, porém. É tempo de me ir. Kólia já meteu o nariz pela porta duas vezes; ele quer avisar que o jantar está pronto. Preciso sair. Procurarei o senhor, de vez em quando. O senhor se sentirá à vontade, conosco; considerá-lo-ão da família, em pouco. Então, estamos de bem, outra vez? Creio que o senhor e eu seremos amigos ou inimigos. E que acharia, príncipe, se eu lhe tivesse beijado a mão como me prontifiquei com sinceridade? isso me tornaria seu inimigo depois?

- Estou certo que sim, mas não para sempre. Não agüentaria e haveria de me perdoar - respondeu o príncipe com uma risada, depois de ter pensado um pouco.

- Ah! Ah!... O senhor precisa ser vigiado com mais cuidado. Ora bolas! Também pôs a sua gotinha de veneno... E quem sabe o senhor, afinal, não é um inimigo? Por falar nisso ali! ali! ah! - ia me esquecendo de perguntar. Tenho razão em crer que o senhor também ficou arrebatado diante de Nastássia Filíppovna.

- Sim... Eu gosto dela.

- Ficou apaixonado?

- Não!

- Pois não é que o senhor está ficando vermelho e com ar infeliz?

- Ora, não faz mal, não tem importância, não vou rir por causa disso. Mas, quer saber de uma coisa? Ela é uma mulher de vida virtuosa! Não acredita?

- Pensa o senhor que ela está vivendo com esse tal Tótskii? Absolutamente. Há muito que isso acabou.

- E reparou que ela é terrivelmente retraída e que até ficou embaraçada por alguns segundos, hoje? Foi, sim. É gente dessa marca que gosta de dominar os outros. Bem, adeus.

Gánia saiu bem-humorado e muito mais à vontade do que quando entrara. O príncipe ficou pensando mais de dez minutos sem se mover.

Kólia meteu a cabeça pelo vão da porta, outra vez.

- Não quero jantar, Kólia. Almocei demais em casa dos Epantchín.

Kólia entrou logo e entregou um bilhete ao príncipe. Estava dobrado em um envelope fechado e era do general. A cara de Kólia, ao entregá-lo, deixava ver claramente quanto isso o desgostava. O príncipe leu, levantou-se e pegou no chapéu.

- É a dois passos daqui. Nem isso - explicou Kólia, ainda confuso. Ele está sentado lá, diante de uma garrafa. Que jeito faz para arranjar bebida fiado, não entendo. Príncipe, meu caro príncipe, não diga à minha gente que eu lhe entreguei esse bilhete. Já jurei mais de mil vezes não levar nem trazer bilhetes destes, mas acabo ficando com pena. E deixe que lhe diga, não fique com cerimônia diante dele; passe-lhe qualquer bagatela que ele logo o deixa em paz.

- Já era minha intenção procurar seu pai, Kólia .. por causa de um negócio. Vamos.

 

Kólia levou o príncipe pela Litéinaia abaixo até um café. Era ao rés-do-chão, com um bilhar aos fundos. Em um compartimento separado, à direita, Ardalión Aleksándrovitch estava instalado, como freguês habitual. Sobre a mesa, diante dele, uma garrafa. Segurava um número aberto do Indépendance Belge, a espera do príncipe. Logo que o viu, abaixou o jornal que acabou por abandonar, iniciou uma longa e calorosa explicação, que o príncipe não compreendeu, porque o general já não estava “bom”.

- Não tenho dez rublos trocados - foi logo dizendo o principe -, mas aqui está esta nota de vinte e cinco rublos. É favor trocá-la e me dar quinze, senão ficarei sem dinheiro nenhum.

- Oh! Certamente! E vamos tratar disso, já!

- E aproveito, general, para lhe fazer, também, um pedido. O senhor, por acaso, já esteve na casa de Nastássia Filíppovna?

- Eu? Sejá estive? O senhor me pergunta isso a mim? A mim. Inúmeras vezes, meu jovem camarada, inúmeras, incontáveis vezes. - exclamou o general em um excesso de triunfo a que se misturava um pouco de complacência.

- Devo dizer-lhe, porém, que interrompi minhas visitas, pois não hei de ser eu quem há de encorajar uma aliança tão inverossímil! Aliás, o senhor já teve ocasião de ver hoje, já testemunhou minha atitude, a respeito! Tenho feito tudo quanto pode fazer um pai sensato mas indulgente, é claro! Mas. deste minuto em diante, sobe à cena, irrompe um pai muito diferente do antigo; e então veremos se um militar, um militar, sim, que serviu com honra, triunfará sobre a intriga, ou se uma desavergonhada cocote forçará o caminho e entrará para uma família respeitável! Respeitável e decente!

- Ia perguntar se o senhor poderia levar-me, como amigo seu, à casa de Nastássia Filíppovna, esta noite. Tenho de ir lá, mas não sei de que modo arranjar isso. Fui apresentado a ela hoje, mas para a reunião desta noite não me foi feito convite de espécie alguma. Não ficaria bem que eu pusesse de lado as convenções. Por menores que elas fossem. Contanto que eu entre, podem até rir de mim.

- Esta é, precisamente, a minha idéia, meu jovem amigo. Precisamente! - disse o general. com entusiasmo. - E quer saber de uma coisa? Quando ainda há pouco lhe mandei pedir que viesse até aqui, não cuide que foi por causa da ninharia deste dinheiro. Absolutamente. Não! - garantiu ele, apropriando-se da nota, enfiando logo no bolo. - Mandei atrás do senhor. precisamente para lhe pedir que me desse a honra e a alegria de ser me companheiro em uma “expedição” à casa de Nastássia Filíppovna. Ou melhor: em uma “expedição” contra Nastássia Filíppovna. O General Ívolguin e o Príncipe Míchkin! Ah! Como isso a vai espantar! A pretexto de cortesia pelo seu aniversário, esclareço a minha vontade irrefutável; indiretamente, é lógico; não de frente será mais efetivo do que sendo feito diretamente. Depois do que então, Gánia verá o que lhe compete fazer. Terá ele de escolher entre o pai que serviu sempre com honra o seu soberano e... por assim dizer essa... Mas, agiremos! Agiremos! A sua idéia é feliz, muito feliz, e partiremos às nove horas. Temos muito tempo, ainda.

- Onde é que ela mora?

- Não fica perto, não. Ao lado do Grande Teatro, no edifício Mitóvtsov, mal se chega ao parque... E em um primeiro andar. Não vai ser uma grande reunião, embora se trate do seu aniversário. Acabará cedo...

A noite avançava. O príncipe ficara sentado, ouvindo e esperando o general que tinha começado um número extraordinário de anedotas. E que nunca mais acabava. Quando o príncipe chegara ele pedira outra garrafa que levou mais de uma hora para esvaziar. Depois, uma terceira. E nunca mais acabava. E provavelmente, durante todo esse tempo, o general esgotou o repertório de quase toda a sua história.

Não agüentando mais, o príncipe se levantou, dizendo que lhe era impossível esperar. Então, o general esvaziou o resto da garrafa. abandonando, a seguir, o “reservado”, espalhafatosamente. O príncipe estava irritado. Não compreendia como pudera ter acreditado no general de maneira tão cretina. Contara com ele, apenas como um meio de ser levado à casa de Nastássia Filíppovna, malgrado. mesmo, qualquer inconveniência. Mas não previra dificuldades nem complicações. E acontecia o quê? Que o general estava, agora. completamente bêbado; e não era que estivesse apenas eloqüente. falando por quantas juntas tinha.

Dera para ficar sentimental, já próximo às lágrimas, insistindo - e não havia paciência que suportasse! - que fora o mau comportamento dos membros de sua família que o pusera na ruína. mas que urgia, que já era tempo de se pôr um paradeiro nisso!

Finalmente conseguiram chegar ao fim da Litéinaia. Começando a degelar. Um vento quente e úmido, desses que deprimem qualquer mortal, varria as ruas, de alto a baixo. Carruagens rodavam por sobre a lama. Os cascos dos cavalos feriam os lajedos arrancando sons metálicos. Multidões desanimadas seguiam de cabeça baixa nos passeios, com sim ou outro bêbado, aqui e ali, no meio delas.

- Está vendo aquele primeiro andar, todo iluminado? - perguntou o general. - Pois é lá que moram os meus velhos camaradas. E eu, que servi muito mais do que eles, que me defrontei com muito mais perigos e incômodos, vou indo, com este passinho à casa de uma mulher de reputação duvidosa! Eu, um homem que tem treze balas no peito!... O senhor não acredita? Pois, olhe, foi por minha causa que o Dr. Pirogóv telegrafou para Paris arriscando se a sair de Sebastopol, que estava assediada, e conseguiu que Nelaton, o médico da corte francesa, obtivesse um passaporte, em nome da ciência, para poder entrar na cidade cercada. E só para me examinar! Isso foi com o assentimento das mais altas autoridades. “Ah! Cá está o nosso Ívolguin, o homem que tem treze balas no corpo!” Era como falavam! Está vendo, agora, esta casa aqui. príncipe? Pois, no primeiro andar, mora o General Sokolóvitch, um velho amigo meu, com sua numerosa e distinta família. Atualmente, este lar, mais três famílias que moram na Perspectiva Névskii e outras duas mais, para os lados da Morskáia, constituem o meu presente círculo de relações pessoais. Nina Aleksândrovnajá abdicou das circunstâncias, há muito tempo. Mas eu ainda gosto de recordar o passado, e encontro um como que refrigério na sociedade culta dos meus velhos camaradas e subordinados que me veneram até hoje. EsteGeneral Sokolóvitch... (Não tenho ouvido falar nele ultimamente e há muito que não visito Ana Fiódorovna!) Quer saber de uma coisa, príncipe? Quando a gente mesmo não se toma em consideração, insensivelmente se vai acostumando a não visitar mais ninguém. Mas, estou a ver que o senhor não parece acreditar em mim! Hum! Mas por que não apresentar o filho do meu mais dileto amigo da mocidade, do meu inefável companheiro de infância, a esta admirável família? O General Ívolguin e o Príncipe Míchkin! Por que negar-lhe a oportunidade de lhe fazer ver uma jovem estranhíssíma? Não um, com efeito, mas dois ou mesmo três ornamentos de Petersburgo e da alta sociedade? Beleza, cultura e educação! A questão “mulher”, a poesia, tudo unido em uma feliz e variada combinação! E não falando do dote de oitenta mil rublos em caixa-forte, já posto de lado para cada uma delas, coisa que não faz recuar, sejam quais forem as questões sociais ou feministas! Em verdade, devo apresentá-lo; nem há dúvida. O General Ivólguin e o Príncipe Míchkin! Uma sensação, deveras!

- Mas agora? Já? O senhor então se esqueceu de que?

- Não me esqueci de nada. Venha comigo. Por aqui! Subamos nesta magnífica escadaria. Admira-me não ver o porteiro! Ali! Mas hoje é dia santo! E por isso que o porteiro não está... Não sei o que esperam para despedir esse malandrão! De mais a mais, sempre bêbado! Este Sokolóvitch é muito reconhecido a mim (a mim e mais ninguém!) porque me deve toda a felicidade da sua vida e de sua carreira. Eis-nos chegados.

O príncipe resolvera não protestar mais. E para evitar que o general se irritasse, o seguiu submissamente, esperando, no intimo que o General Sokolóvitch e toda a sua família se evaporassem e como miragem, acabando até por nem sequer existirem, podendo assim, ambos refazerem seus passos escadas abaixo. Mas, para total desapontamento seu, esta esperança começou a se desvanecer pois à medida que o levava escadas acima, o general ia dando, com uma exatidão matemática, sem calar, minúcias biográficas e topográficas, devendo com certeza ter mesmo relações no prédio. Então, quando chegaram em cima, ao primeiro andar, e o general quebrou à direita, e se lhes apresentou a porta de um apartamento luxuoso, o príncipe decidiu fugir aproveitando estar o general a puxar a campainha. Mas uma estranha circunstância o reteve, por um momento.

- O senhor está enganado, general - avisou ele. - O nome que está escrito aqui na porta é Kulakóv, e o senhor quer Sokolóvitch.

- Kulakóv... Kulakóv não quer dizer nada. O apartamento é de Sokolóvitch. E é Sokolóvitch que vim procurar. Kulakóv que se dane! Aí vem gente.

A porta abriu-se, de fato. O lacaio que atendeu avisou que o patrão e senhora não estavam em casa.

- Que pena! Que pena! É sempre assim que as coisas me acontecem!

- Ardalión Aleksándrovitch repetiu isso, várias vezes, com profundo pesar.

- Diga-lhes, meu rapaz, que o General Ívolguin e o Príncipe Míchkin desejavam apresentar os seus respeitos, em pessoa, e que sentem, extremamente, extremamente...

- Nisto, de uma peça interior, uma outra pessoa espreitou para a porta aberta. Parecia uma arrumadeira, ou antes, uma governanta.

Mulher quarentona, toda de preto. E ouvindo os nomes do General Ívolguin e do Príncipe Míchkin se aproximou, meio desconfiada.

- Maria Aleksándrovna não está em casa - pronunciou, à medida que examinava cuidadosamente o general.

Foi com a Senhorita Aleksándra Mikháilovna à casa da avó.

-  Aleksándra Mikháilovna, também? Ó céus, que lástima. Acredite-me, minha senhora, eu tenho azar! Humildemente lhe rogo apresentar os meus cumprimentos. E quanto a Aleksándra Mikháilovna, peça-lhe que se recorde... ou melhor, transmita-lhe os meus sinceros votos de que obtenha aquilo que desejou quinta-feira, à noite, ao ouvir a balada de Chopin! Ela logo se dará conta. E que os meus desejos se realizarão, porque são sinceros! O General Ívolguin e o Príncipe Míchkin!

- Não me esquecerei - disse a criatura, com mais confiança, ao saudá-los.

E, escadas abaixo, o general continuava a lastimar, com a mesma veemência, não os ter encontrado, principalmente pelo que o príncipe perdera em não travar relações com gente agradabilíssima.

- E deixe que lhe diga, meu caro: tenho um pouco de poeta, na alma! Já tinha percebido isso? Bravos! Mas... que diabo! Estou em crer que fomos ter a um apartamento errado - concluiu inesperadamente.

- Os Sokolóvitch... é verdade.., não moram aqui! E até me parece que estão, atualmente, em Moscou. Sim, enganei-me. Mas, não faz mal.

- Há uma coisa que quero saber - observou o príncipe muito desconsolado -, devo eu desistir de contar com o senhor? Não seria melhor eu ir sozinho?

- Desistir? Contar? Sozinho? Mas por que e para que isso, quando para mim se trata de uma empresa vital, de que depende tanto o futuro de minha família?! Não, meu jovem amigo, o senhor não conhece o General Ívolguin. Dizer “Ívolguin” corresponde a dizer “um penhasco”. Eis o que costumavam dizer no esquadrão quando estreei no serviço. “Podes construir sobre Ívolguin como sobre uma rocha”. Atrasaremos nossa ida apenas por um minuto, detendo-nos um pouco na casa onde a minha alma, desde muito, encontra consolo depois das ansiedades e das provações.

- O senhor pensa voltar para a sua casa?

- Não! Quero mais é ir ver á Sra. Tieriéntieva, viúva do Capitão Tieriéntiev, meu antigo subordinado que também foi meu amigo. Em casa da Sra. Tieriéntieva encontro refrigério para o meu espírito! E é para onde levo os meus cuidados de todos os dias e todas as minhas angústias domésticas. E, como hoje estou vergado ao peso moral de atribuições pesadíssimas, é claro que...

- Pesa-me ter sido tão pavorosamente estúpido, a ponto de encomodar o senhor, esta noite - redargüiu o príncipe. - Além disso, o senhor está em um estado que... Sabe de uma coisa, adeus!...

- Mas não consinto. Deveras, não permito que o meu jovem amigo se vá - exigiu o general.- É uma pobre viúva, e mãe de família! E como sabe arrancar do ímo do coração os acordes que como nenhuns outros, ressoam dentro do meu ser! Visitá-la é questão de menos de cinco minutos. Não faço cerimônia nenhuma  quase que vivo lá. Preciso lavar-me, fazer um pouco a toilete. Depois, imediatamente partiremos para o Grande Teatro. Pois não está vendo que preciso do senhor a noite toda? É aqui, nesta casa. Eis-nos chegados. Olá, Kólia, já estás aqui? Márfa Boríssovna está? Ou também estás chegando como nós?

- Oh! Não - respondeu Kólia, que se encontrara com eles no portão de entrada.

- Estive um bocadinho, com Ippolít. Está pior, esteve de cama, desde manhã. Fui até ali, buscar um baralho em uma loja. Márfa Boríssovna está à sua espera. Mas, há uma coisa, papai: o estado em que o senhor se encontra!

- Kólia calou-se logo, ficando a reparar na maneira em que o pai estava. E resolveu acompanhá-lo. - Bem, entre, venha!

O encontro com Kólia induziu o príncipe a acompanhar por uns minutos o general até aos cômodos para onde já subiam. O príncipe precisava de Kólia. Resolvera desistir do general, fosse como fosse, e não havia meios de se perdoar ter confiado nele. Levaram muito tempo para subir até ao quarto pavimento, e isso mesmo pelas escadas dos fundos.

- O senhor quer apresentar o príncipe, não é mesmo?

- Sim, meu querido, quero apresentá-lo. O General Ívolguin e o Príncipe Míchkin! Mas, e lá por dentro? Como está Márfa Boríssovna?

- Para lhe falar com franqueza, e já que me pergunta, seria melhor o senhor não ir lá. Ela vai pô-lo em apuros. Há três dias que o senhor não dá sinal de si! Está cansada de esperar pelo dinheiro. Para que foi o senhor prometer dinheiro? O senhor não se emenda! Agora, arranje-se!

Pararam, já no quarto andar, diante de uma porta baixa. O general estava evidentemente atemorizado e empurrou o príncipe para a sua frente.

- Fico aqui atrás - murmurou. - Quero pregar-lhe um susto!

Kólia entrou logo. A tal surpresa do general negou fogo, pois uma mulher espiou para fora da porta. Estava exageradament pintada, com muito carmim, usava chinelas, uma blusa de lã e tinha o cabelo enrolado em trancinhas. Era uma quarentona. Logo que descobriu, gritou:

- Chegou o homem vil e malicioso! Bem que o meu coração suspeitou que era ele!

- Vamos entrando. Não há nada.. balbuciou o general tentando rir, muito sem jeito.

Mas como é que não havia nada? Com dificuldade conseguiram atravessar uma passagem, para uma saleta escura e abobadada, mobiliada com meia dúzia de cadeiras de junco e com duas mesas de jogo. E logo a dona da casa voltou à carga, em um tom frenético, descompondo-o como de hábito.

- Você não tem vergonha? Você não tem vergonha, seu selvagem? Tirano da minha família, seu monstro!?

Você me roubou tudo! Você me sugou, até eu ficar seca, e ainda não está contente, seu vampiro! Já não agüento mais! Seu descarado, sem brio!

- Márfa Boríssovna, Márfa Boríssovna! Este é o Príncipe Míchkin. O General Ívolguin e o Príncipe Míchkin! - disse, mas já sem solenidade, o general, trêmulo e desenxabido.

- Acredita o senhor - a viúva do capitão voltava-se agora para o príncipe -, acredita o senhor que este descarado não poupou nem os meus filhos órfãos? Roubou-nos tudo. Carregou com tudo! Vendeu e empenhou tudo, e nos deixou sem nada! Que é que eu vou fazer com as suas promissórias, homem sem escrúpulos e manhoso calculista? Responda, ande, impostor! Vamos, ande, responda, monstro insaciável! Como é que vou nutrir os meus filhos órfãos? E ainda por cúmulo me chega aqui bêbado desta maneira, que nem se agüenta nas pernas!... Que fiz eu para chamar a ira de Deus sobre mim? Responda, ande, vil e nojento hipocrita!

Mas o general não estava adequado à situação.

- Márfa Boríssovna, aqui estão vinte e cinco rublos..., foi tudo quanto pude arranjar, graças à generosidade de um nobre amigo. Príncipe, enganei-me, cruelmente. Assim.., é a vida. Mas agora vai me desculpar. Estou frouxo! - disse o general, cambaleando pela sala, em todas as direções. - Estou mole... bambo... frouxo.. Desculpe, sim? Liénotchka, um travesseiro, linda criança!...

Liénotchka, uma criança de oito anos, correu logo a buscar um travesseiro e o veio ajeitar no duro sofá que um encerado rasgado cobria. O general sentou-se, pretendeu dizer algumas coisas mais: nisto, sentindo o sofá, estirou-se, virou para a parede e instantaneamente caiu no sono profundo dos justos.

Márfa Boríssovna, com uma cerimônia lúgubre, avançou uma cadeira para perto de uma das mesas de jogo e a indicou ao príncipe. Sentou-se, por sua vez, voltada para ele, e ficou calada. Três crianças, um garoto e duas meninas, das quais Liénotchka era a maiorzinha, agruparam-se em redor da mesa, puseram os cotovelinhos em cima e ficaram a encarar o príncipe. Kólia apareceu vindo do quarto contíguo.

- Estou muito contente em encontrar você aqui, Kólia - disse-lhe o príncipe.

- Quem sabe se você me poderia ajudar? Tenho de ir à casa de Nastássia Filíppovna. Pedi a Ardalión Aleksándrovitch para me levar até lá; mas você está vendo, seu pai adormeceu. Quereria você me levar até lá? Não conheço as ruas, nem sei o caminho. Só me lembro do endereço: Edifício Mitóvtsov, perto do Grande Teatro.

- Mas Nastássia Filíppovna nunca morou ao lado do Grande Teatro, e nem nunca papai esteve em casa dela, pode ficar sabendo desde já. É engraçado que tivesse contado com ele para qualquer coisa. Ela mora perto da Rua Vladímirskaia, nas Cinco Esquinas. É pertinho daqui. Se quiser, eu o levo até lá e mostro onde é.

O príncipe e Kólia saíram imediatamente. O príncipe (ai dele!) não tinha com que pagar uma caleça. Tiveram de ir a pé.

- Quis apresentar Ippolít ao senhor - disse Kólia. - É o filho mais velho da viúva. Estava na outra sala.

É doente. Passou de cama o dia inteiro. Mas é tão original! Melindra-se à toa, e calculo como não estava envergonhado do senhor ter chegado em um momento como aquele... Eu não tenho de que me envergonhar, porque afinal de contas se trata de meu pai. Mas... é a mãe dele! E isso é diferente; em uma coisa assim, não há nenhuma desonra para o sexo masculino. Mas, talvez, isso não passe de um preconceito. Por que há de um sexo ser mais privilegiado do que o outro, em tais casos? Ippolít é um esplêndido camarada, mas se escraviza ainda a preconceitos!

- Você quis dizer, ainda há pouco, que ele é tísico?

- É sim. E, a meu ver, a melhor coisa, para ele, seria morrer logo. Se eu estivesse no lugar dele, desejaria, na certa, estar morto. Ele tem pena do irmão e das irmãzinhas, aquelas que o senhor viu. Se fosse possível, se ao menos tivéssemos dinheiro, eu e ele tomaríamos um pequenino aposento, juntos, e largávamos nossas famílias. É o nosso sonho. E o senhor quer saber? Quando, ainda agora. contei a ele o que tinha acontecido ao senhor, ele ficou possesso, e disse que um homem, que recebe uma bofetada, e não se bate logo a seguir, em duelo, é um desbriado. Como vê, ele é genioso. Pavorosamente. Até já desisti de argumentar com ele. Com que então Nastássia Filíppovna também convidou o senhor!?

- Aí é que está! Não me convidou.

- Então, como é que vai lá? - perguntou Kólia, parando logo no meio da calçada.

- E com essa roupa! O senhor não sabe que é uma reunião noturna?

- Deus sabe como é que irei lá. Se me deixarem entrar, ainda bem. Se não deixarem, que hei de fazer? E, quanto à roupa, que remédio?

- O senhor pensa em ir, por que? Ou vai somente pourpasser le temps em roda distinta?

- Não, nem por isso. Isto é... vou com um fim. É difícil explicar, mas...

- Está bem. Isso não é comigo. O que me inquieta é saber se o senhor não se está apenas convidando para uma reunião em uma fascinante sociedade de cocotes, generais e agiotas! Porque se fosse somente para isso, o príncipe vai me desculpar, mas eu me riria do senhor e não lhe daria mais a menor atenção. Gente honesta já por si mesma é terrivelmente rara. Além disso, não há mais ninguém que se possa respeitar. Não adianta querer uma pessoa topar com gente que faz questão de ser respeitada.

É o caso de Vária, por exemplo! E já reparou, príncipe, que hoje em dia está tudo cheio de aventureiros? E de modo particular entre nós, na Rússia, na nossa querida terra? Como foi que tudo isso ficou assim é que não posso compreender. Os alicerces pareciam tão firmes! E, todavia, que vemos nós, agora? Muito se fala e se escreve, mostrando este estado de coisas. Na Rússia, então, todo o mundo está pondo àmostra essas coisas todas. Nossos pais são os primeiros a retrogradar, e se envergonham de sua antiga moral. Ainda no outro dia os jornais deram que certo pai, em Moscou, ensina aos filhos que não vacilem diante seja do que for, para obter dinheiro. Olhe, por exemplo, para o meu general. Ao que chegou ele! E todavia fique sabendo que ainda não o acho dos piores... E falo sério. No fundo. a causa é a desordem e o vinho... Tenho certeza. Tenho pena dele, é lógico, e só não espalho essas coisas com medo de que se riam de mim. E essas pessoas sensíveis, que se escandalizam, que vem a ser elas? Cavadoras de dinheiro, sem exceção! Ippolít faz a apologia do usurário, diz que está direito. Fala de valorização econômica, de maré do capital, que tem que subir e descer... Entenda-se lá isso! Vexa-me ouvi-lo falar deste modo; mas ele, eu compreendo. É um exasperado, e com razão. Agora imagine, a mãe dele, a viúva do capitão. Ouça: essa mulher toma dinheiro do general e depois empresta a ele próprio, general, mas... com juros. Isso não é hedion do? E o senhor sabe que minha mãe (sim, estou me referindo a Nina Aleksándrovna) ajuda Ippolít, com dinheiro, roupas e tudo o mais? E provê as crianças de uma porção de coisas, por intermédio de Ippolít, com pena delas não terem quem as cuide direito? Vária também ajuda.

- Ora, aí está. Você diz que não há mais gente honrada, forte. honesta, que não passam todos de cavadores de dinheiro. Mas em sua casa, mesmo, há gente às direitas: sua mãe e sua irmã. Você então não acha que ajudar deste modo, e em tais circunstâncias, seja uma prova de força moral?

- Vária faz isso por vaidade, para mostrar-se, para não ficar inferior a mamãe. Mas esta, realmente, eu a respeito, deveras. Não só respeito, como até acho que está direito. O próprio Ippolít sente isso, e ainda fica mais amargo contra quase todos. No começo ele ria e achava que isso era degradante para mamãe; mas agora já começa a compreender bem. Hum! Então o senhor. acha que isso éforça? Preciso tomar nota disso. Gánia ignora tudo isso. E se viesse a saber, chamaria a isso ser “conivente”.

- Gánia não sabe? Acho que é muito ele não ter percebido isso ainda - ponderou o príncipe.

- Ouça, príncipe. Estou gostando muito do senhor. E não há meios de me esquecer do que lhe aconteceu esta tarde.

- Pois eu também estou gostando muito de você, Kólia.

- Escute, de que maneira pretende o senhor viver aqui? Estou dando um jeito de arranjar um emprego, e breve estarei ganhando alguma coisa. Moremos juntos. O senhor, eu e Ippolít. Alugaremos uma peça e consentiremos que o general venha ver-nos.

- Com o maior prazer. Mas havemos de estudar isso, pois ainda me sinto muito zonzo. Quê? Chegamos? É esta a casa? Que entrada magnífica! E tem porteiro, no vestíbulo! Bem, Kólia, não sei o que sucederá.

O príncipe deteve-se, deslumbrado.

- Amanhã o senhor me contará. O principal é não ficar constrangido. Deus o acompanhe, pois sei que as suas decisões têm sempre em mira o bem. Adeus. Volto e vou contar a Ippolít a nossa combinação. E não tenha dúvida, garanto que ela o recebe! Não se perturbe. Ela é muito extravagante. É no primeiro andar pela escadaria, pergunte ao porteiro.

 

Muito desajeitado, lá subiu ele, fazendo o que pôde para ganhar coragem.

O pior que pode acontecer é ela recusar-se a receber-me e pensar mal de mim! Ou me mandar entrar só para se rir na minha cara... Ora, não faz mal”. E de fato a perspectiva não o alarmou muito; mas quanto à pergunta “que ia ele fazer e por que ia lá”, não pôde encontrar resposta satisfatória. Muito díficilmente calharia a única eventualidade boa, isto é, arranjar um ensejo de poder dizer a Nastassia Filippovna: “Não case com esse homem, não faça a sua própria destruição. Ele não a ama, é o seu dinheiro que ele ama, já mo confessou; e Agláia Epantchiná também me disse e vim expressamente para a avisar.

Havia uma outra pergunta sem resposta, diante dele, e tão vital que Míchkin temia sequer considerá-la; não poderia, não ousaria, não admitiria. Não saberia como formulá-la. Só o pensamento o fazia corar e tremer. Mas, a despeito de todas essas dúvidas e apreensões, acabou entrando e perguntando por Nastássia Filíppovna.

Ela vivia em um apartamento realmente magnífico, embora não muito grande. Datava isso do começo dos seus cinco anos de Petersburgo, quando Afanássii Ivánovitch fora pródigo em gastos para com ela. Naqueles dias ele ainda tinha esperanças no seu amor e sonhara tentá-la principalmente com o luxo e o conforto, pois sabia quão facilmente se adquirem tais hábitos e quão dificilmente depois eles nos abandonam, quando já o luxo se tornou indispensável. A esse respeito Tótskii abraçou a velha tradição, sem modificá-la em nada, pois tinha um ilimitado respeito pela força suprema do apelo dos sentidos. Nastássia Filíppovna não recusou o luxo - gostava disso com efeito - mas, por mais estranho que pareça, não era absolutamente uma escrava do luxo: via-se logo que poderia passar sem ele a qualquer momento: dera-se mesmo ao trabalho de dizer isso várias vezes, o que causava uma desagradável impressão em Tótskii. Mas não era só. Mais coisas havia em Nastássia Filíppovna que desagradavam a Tótskii e subseqüentemente lhe causavam estranheza. A parte a deselegância da classe de gentt com a qual ela muitas vezes se juntava e pela qual se sentia atraída ostentava ainda outras propensões bem extravagantes. Mostrava uma espécie de selvagem mistura de gostos opostos, certa propensa para apreciar coisas e meios que mal se suporiam conhecidos por uma pessoa fina e bem-educada. Realmente, se Nastássia Filíppovna em vez disso demonstrasse, por exemplo, uma elegante e encanta dora ignorância do fato de que mulheres do campo não estavam em condições de usar as combinações de batiste que ela usava, Afanássi Ivánovitch teria provavelmente ficado em extremo satisfeito. O plano completo de educação de Nastássia Filíppovna fora elaborado desde o começo de modo a conferir com o de Tótskii, que era pessoa sutilíssima à sua maneira. E todavia o produto resultante fora esse, e bem estranho. Mas apesar disso, Nastássia Filíppovna conservara qualquer coisa, que muitas vezes impressionava o próprio Tótskii, por sua extraordinária originalidade, causando-lhe uma espécie de fascínio. E que mesmo ainda no presente o encantava, conquanto já todos os seus primitivos desígnios sobre Nastássia Filíppovna tivessem desmoronado.

Veio ao encontro do príncipe uma camareira. (Nastássia Filíppovna só tinha empregadas.) Deu-lhe ele o nome que devia ir anunciar e, com surpresa sua, a rapariga não estranhou e nem demonstrou hesitação à vista de suas botinas sujas, do seu chapéu de abas enormes, da sua capa sem mangas, e do seu ar embaraçado.

Segurou-lhe a capa, disse-lhe que aguardasse na sala de espera e foi logo anunciá-lo.

O grupo dessa noite, em casa de Nastássia Filíppovna, consistia do círculo que sempre estava à sua volta. Os convidados eram em pequeno número, com efeito, comparando com as recepções em idêntica data natalícia nos anos passados. Em primeiro lugar, estavam presentes Afanássii Ivánovitch Tótskii e Iván Fiódorovitch Epantchín. Ambos muito amistosos, mas intimamente entregues a sua mal disfarçada apreensão quanto à prometida declaração referente a Gánia. Este, naturalmente, lá estava também, e bem preocupado e soturno, com um feitio quase rude, desde o começo, afastado para um canto, e sem falar.

Não se arriscara a trazer Vária e nem Nastássia Filíppovna fizera qualquer referência a ela; mas logo que cumprimentara Gánia ao recebê-lo, aludira à cena com o príncipe. O General Epantchín, que ignorava o incidente, ficou muito curioso. Então Gánia, secamente e com certa reserva, mas perfeitamente franco, contou o que se passara aquela tarde e como depois se dirigira ao príncipe para lhe pedir desculpas.

Veementemente exprimiu a sua opinião de que era estranho e arbitrário chamar o príncipe de “idiota”, e que pensava dele o oposto - um homem que sabia, de fato, muito bem, o que valia.

Ouviu-o Nastássia Filíppovna, nessa asseveração, muito atenta. Observando-o com curiosidade, mas a conversa passou imediatamente para o nome de Rogójin como figura principal da cena em casa de Gánia, que Tótskii e Epantchín estavam também interessadíssimos em ouvir. Ptítsin era a pessoa que mais conhecia Rogójin e tinha estado com ele, ocupado e a seu serviço, até às nove horas dessa noite.

Rogójin insistira em obter, nesse dia mesmo, cem mil rublos. “É verdade que estava bêbado”, ponderou Ptítsin, “mas, por mais difícil que pareça, garanto que arranjou os cem mil. Só não sei se será para hoje e se será todo o dinheiro. Uma porção de gente está trabalhando para ele - Kinder, Trepálov, Biskúp. Não se importou com os juros a pagar, bêbado como estava e no entusiasmo ainda tão recente da fortuna.”

Toda essa informação foi recebida com interesse, embora parecendo ter deprimido alguém. Nastássia Filíppovna ficou calada, obviamente não querendo emitir opinião. Gánia, esse então, estava mudo. O mais secretamente preocupado de todos era Epantchín. As pérolas com que a havia presenteado aquela manhã tinham sido aceitas com uma quase fria polidez, e mesmo uma sombra de escárnio. De todo o grupo, Ferdichtchénko era o único de ânimo adequado ao dia festivo. Ria, às vezes, alto, sem nenhum motivo, simplesmente porque escolhera o papel de truão. O próprio Tótskii (que tinha a reputação de talentoso narrador de casos, e que de hábito, em tais reuniões, era quem dirigia a conversação), estava evidentemente fora de humor e de má-vontade, o que não era natural nele. Os demais convidados, em pequeno número, eram não só incapazes de uma conversa viva, mas positivamente incapazes, geralmente, de dizer qualquer coisa. Um velho professor fora convidado, sabe Deus por quê. Havia ainda um moço desconhecido e pavorosamente acanhado, que durante a recepção se mantínha integralmente mudo; uma senhora espaventada, quarentona. decerto alguma atriz; e uma jovem muito formosa, demasiado bem vestida mas extraordinariamente apática.

A aparição do príncipe. por conseguinte, foi recebida com posi tivo agrado. O seu nome produziu surpresa e certos sorrisos extra vagantes, especialmente quando o ar de espanto de Nastássia Filíppovna demonstrou que não o tinha convidado. Mas, logo depois do primeiro instante de pasmo. mostrou tanto prazer, que a maioria do grupo prontamente se preparou para ir, alegre, ao encontro do inesperado visitante.

- Conquanto seja inocência dele - observou Iván Fiódorovitch Epantchín - e mesmo seja perigoso encorajar tais tendências. bem dizer não há nada de mal que se lhe tenha encasquetado na cabeça aparecer, e de maneira tão original. Talvez venha a distrair-nos e até mais do que seria esperar dele.

- Especialmente tendo-se convidado a si mesmo - desfechou logo Ferdichtchénko.

- E que há de mais nisso? - perguntou o general secamente. Ele detestava Ferdichtchénko.

- Que há? Acho que deve pagar entrada! - explicou este último.

- Ora, vamos e venhamos, o Príncipe Míchkin não é Ferdichtchénko - disse o general sem poder resistir mais. Nunca se perdoaria a si mesmo estar no mesmo pé de igualdade com Ferdichtchénko, ao seu lado, em umarecepção.

- Pelo amor de Deus, general, poupe Ferdichtchénko - replicou este sorrindo amarelo.

- Eu me acho aqui em uma situação muito especial.

- Situação especial por quê?

- Já da última vez tive a honra de explicar exatamente isso àassistência, mas não deixarei de o repetir agora a Vossa Excelência. Vê Vossa Excelência, todos são espirituosos, ao passo que eu não. A fim de compensar-me disso, obtive permissão para falar a verdade, pois todo o mundo sabe que só quem não tem espírito é que diz verdades. Além disso, sou um homem muito vingativo e eis por que não sou espirituoso. Suporto qualquer insulto, mas somente até que o meu antagonista se dane; logo, porém, que ele se arruina, volto aos meus apontamentos de memória e me vingo, seja lá como for. “Dou o meu pontapé”, como disse Iván Petróvitch Ptítsin que, por sua vez, não dá pontapés em ninguém. Conhecerá Vossa Excelência a fábula de Krilóv, O Leão e o Asno? Ora, bem. Trata-se do senhor e de mim: foi escrita para nós.

- Ja está a dizer mais disparates, julgo eu, Ferdichtchénko, retrucou o general, esquentando-se.

- Como, Excelência? - retorquiu Ferdichtchénko que se apurara em responder com acerto, prolongando assim os seus despautérios - Não se preocupe, Excelência, conheço o meu lugar. Se digo: “O senhor e eu somos o leão e o asno da fábula de Krilóv”, naturalmente que tomo para mim a parte do asno, e Vossa Excelência fica sendo o leão, como na fábula de Krilóv:

 

Trôpego e velho, o ex-rei dos animais

Perdera a sua antiga força

 

Eu, Excelência, sou o asno.

- Lá com isso concordo plenamente - soltou o general, sem tomar as suas precauções.

Tudo isso era muito grosseiro e intencional, sendo coisa mais do que aceita que Ferdichtchénko, onde estivesse, conseguia sempre se apresentar como maluco.

- Aqui apenas me recebem, e me deixam estar, sob a condição de que eu só fale deste modo - explicara ele certa vez. - E de fato, a não ser assim, poderia uma pessoa como eu ser recebida? Claro que não. Poderia uma pessoa como eu estar ao lado de um gentleman como Afanássii Ivánovitch? Tal fato nos conduz à única explicação cabível: que só toleram isso justamente por ser inconcebível.

Mas, se era grosseiro, também era ferino, muito ferino, e Nastássia Filíppovna parecia gostar disso. Os que a queriam visitar tinham de acomodar seus espíritos de modo a suportar Ferdichtchénko. Talvez ele já tivesse adivinhado a verdade, isto é, que era recebido ali porque a sua presença se tornara, desde o começo, insuportável a Tótskii. Gánia também sofria indizível agonia nas mãos dele; e a tal propósito Ferdichtchénko era capaz, realmente, de vir a ser uma necessidade para Nastássia Filíppovna.

- O príncipe vai começar, cantandonos uma ária muito em voga – concluiu Ferdichtchénko, olhando logo para Nastássia Filíppovna, a ver o que ela diria. E então, secamente, ela lhe observou:

- Tenha a bondade, Ferdichtchénko, de dominar seus pruridos!

- Ah! Bem, se ele está sob a sua especial proteção, também eu serei indulgente.

Mas Nastássia Filíppovna se levantou, como se não tivesse escutado e foi encontrar-se com o príncipe.

- Estou envergonhadíssima - disse inesperadamente, surgin do diante dele - por me ter esquecido de convidar o senhor, esta tarde; mas me sinto muito honrada e satisfeita em o senhor me dar ensejo de lhe agradecer e lhe poder assegurar quanto fez bem em ter vindo.

À medida que falava, encarava o príncipe com a maior atenção tentando descobrir a explicação da sua vinda.

O príncipe deveria, decerto, responder qualquer coisa a estas palavras amistosas: mas estava tão zonzo e atrapalhado que não pôde articular palavra: atitude essa que Nastássia Filíppovna per cebeu com satisfação.

Nessa noite usava ela vestido de soirée e o seu porte era impressionante. Segurou-lhe a mão e o introduziu na sala. Mas, à porta, o príncipe parou, de repente, e balbuciou apressadamente, com extraordinária emoção:

- Tudo em vós é perfeito... mesmo o serdes delgada e pálida.. Quem gostaria de imaginar-vos de outro modo?... Desde muito desejava vir ver-vos... Peço... perdão!

- Perdão de quê? - sorriu Nastássia Filíppovna. - Isso destruiria todo o encanto e originalidade. Dizem, com efeito, que o senhor é um homem original. Então acha que eu sou uma perfeição! Verdade?

- Verdade!

- Embora seja um adivinhador de primeira ordem, desta vez se enganou. Ainda hei de lembrar-lhe isso hoje...

Apresentou o príncipe aos seus convivas, a metade dos quais já o conhecia. Tótskii logo disse qualquer gentileza. O grupo pareceureanimar-se, pondo-se todos a falar e a rir. Nastássia Filíppovna fez o príncipe sentar-se ao seu lado.

- Mas convenhamos que é extraordinário o príncipe ter vindo! - exclamou Ferdichtchénko, mais alto do que o diapasão das outras vozes.

- E o caso está tão claro que fala por si.

- É claro demais e fala plenamente por si só - atalhou Gánia, que até ali estivera calado.

- Estive observando o príncipe, hoje, quase que continuadamente, desde o instante mesmo em que ele viu o retrato de Nastássia Filíppovna, pela primeira vez, esta manhã, na mesa de Iván Fiódorovitch. Lembro-me até, perfeitamente, de que então pressenti qualquer coisa da qual agora estou mais do que convencido e que, aliás, o próprio príncipe acaba de confessar.

Esta longa observação de Gánia foi articulada do modo mais sério possível, sem traço sequer de mínima brincadeira e em tom quase sombrio, soando de modo estranho.

- Não fiz confissão de espécie alguma - replicou o príncipe. corando. - Apenas respondi a uma pergunta.

- Bravo! Bravo! - gritou Ferdichtchénko - reconheçamos que foi sincero; foi inteligente e sincero.

Todos riram alto. Mas Ptítsin retorquiu, aborrecido, em voz baixa

- Não grite, Ferdichtchénko.

- Eu não esperaria nunca por uma tal proeza, príncipe - redargüiu Iván Fiódorovitch.

- Quem haveria de pensar que o senhor fosse um camarada assim? Pois não é que eu apenas o tinha considerado, até aqui, como um filósofo? Ah! O pândego!

-E ajulgar pelo modo como o príncipe cora ante uma inocente brincadeira, feito uma jovem ingênua, concluo que, como rapaz honrado que é, alimenta louváveis intenções em seu coração!

- Quem disse, ou melhor, quem balbuciou isto agora, tão inesperadamente, foi o velho professor, ancião desdentado de mais de setenta anos. Isso então, sim, causou surpresa geral, pois não passara pela cabeça de ninguém que o velho abrisse a boca a noite inteira.

Todos riram mais do que antes. O ancião, provavelmente imaginando que estavam rindo da sua sabedoria, desandou a rir mais cordialmente ainda, à medida que olhava os circunstantes, até que acabou tossindo violentamente. Nastássia Fílíppovna, que tinha uma afeição sui generis por esses velhos e velhas extravagantes e principalmente por Iuróvidii, interessou-se logo por ele; foi beijálo e mandou que lhe servissem mais chá. Disse depois à criada que apareceu que trouxesse a sua capa, na qual ela se embrulhou.

E ordenou que pusesse mais lenha na lareira. Perguntou que horas eram, tendo a criada dito que eram dez e meia.

- Amigos, que tal um champanha? - sugeriu Nastássia Filíppovna inesperadamente.

- Mandarei abrir algumas garrafas.

Talvez elas vos façam mais espirituosos. É favor porem a cerimônia de lado.

A oferta de bebida, e especialmente de modo tão gentil, partida de Nastássia Filíppovna, causou estranheza, sabido por todos, como era, o rígido protocolo de decoro mantido nas recepções anteriores.

Os convidados estavam ficando mais animados, mas não da mesma maneira de sempre. O vinho foi, porém, aceito; primeiro pelo General Epantchín; em segundo lugar pela dama espetaculosa: depois pelo velhote; a seguir por Ferdichtchénko e, afinal, por todos. Tótskii também tomou uma taça, querendo mudar o atual tom da reunião, a ver se lhe dava um caráter expansivo de alegria total. Gánia foi o único que não bebeu.

Depois que Nastássia Filíppovna tomou uma taça de champanha, declarou que aquela noite ainda beberia mais três. Era difícil entender as suas extravagantes e, às vezes, inesperadas maneiras, essas suas risadas histéricas sem motivo, que se alternavam com súbitas depressões taciturnas e silenciosas. Alguns dentre os convidados suspeitaram que fosse febre; até que perceberam, por fim. que ela deveria estar esperando qualquer coisa, pois freqüentemente olhava para o relógio, tornando-se impaciente e preocupada.

- Acho que estás com uma pontinha de febre - disse-lhe a dama espetaculosa.

- Uma pontinha? Com muita. Foi por isso que me enrolei na minha capa - respondeu-lhe Nastássia

Filíppovna, que de fato estava ficando pálida e parecia às vezes combater um violento arrepio.

Ficaram todos consternados e fizeram um movimento que Tótskii soube expressar muito bem, dizendo a Iván Fiódorovitch:

- E se deixássemos a nossa aniversariante descansar?

- De modo algum. Peço-lhes que fiquem. Hoje, mais do que nunca, preciso não estar sozinha. - Houve nessa repentina solicitação uma ênfase que devia ter uma significação.

E como quase todos os convidados sabiam que uma importantíssima decisão estava para ser tomada essa noite, aquelas palavras pareceram-lhes cheias de sentido. Mais uma vez Tótskii e o General Epantchín trocaram olhares. Gánia estremeceu; convulsiva-mente.

- Não seria uma bela idéia, se jogássemos qualquer petit jeu? - lembrou a dama espaventada.

- Eu conheço um petit jeu, muito moderno, que é esplêndido - desferiu Ferdichtchénko. - Isto é, moderno! Só o vi jogarem uma vez; e mesmo assim falhou.

- Qual é? - perguntou a dama sôfrega.

- No outro dia o nósso grüpo estava reunido - tínhamos estado bebendo, a falar verdade – e repentinamente não sei quem fez a sugestão que cada um de nós, sem deixar a mesa, contasse qualquer coisa que tivesse feito, mas que fosse honestamente considerada como a pior de todas as ações más de sua vida. Mas tinha de ser feito honestamente, isso era essencial, tinha de ser verídico, não podia ser mentira.

- Estranha idéia - comentou o general.

- Nada pode ser mais estranho, Excelência. Mas é o que há de melhor.

- Idéia ridícula - achou Tótskii. - Mas eu a entendo. É uma espécie de fanfarronada.

- Quem sabe se não é isso que estamos querendo. Afanássii Ivánovitch?

- Mas esse petit jeu tem de ser instalado em pranto e não em risadas - propôs a dama extravagante.

- Isso é impossível e absurdo - comentou Ptítsin.

- Teve êxito? - perguntou Nastássia Filíppovna.

- Qual nada, malogrou. Cada qual certamente contou qualquer coisa: alguns deles falaram a verdade, e, acredite a senhora, alguns até positivamente estavam sentindo prazer. Mas depois todo o mundo ficou envergonhado; não houve meio de se refazerem. No conjunto, porém, esteve engraçado, de certo modo, naturalmente.

- Realmente devia ter sido interessante - observou Nastássia Filíppovna, começando a se entusiasmar. - Experimentemos, senhores! De fato não estamos muito animados. Se cada um de nós consentir em dizer qualquer coisa... conforme o jogo... naturalmente! Por vontade própria. Ninguém é forçado a fazê-lo, hein? Quem sabe se conseguimos? Seja como for será original.

- É uma idéia genial! - disse Ferdichtchénko. - Mas as mulheres ficam excluídas; os homens que comecem. Tiraremos a sorte, como fizemos naquela ocasião. É preciso, é preciso! Se alguém não quiser entrar, não entra. Mas seria pena! Joguem as suas sortes aqui no meu chapéu, senhores; o príncipe misturará. Nada pode ser mais simples. Cada um tem de descrever a coisa pior que fez em sua vida, o que é pasmosamente fácil, senhores! Vão ver! Se alguém se tiver esquecido, incumbo-me de lhe avivar a memória.

A idéia pareceu muito extravagante; quase ninguém gostou. Alguns ficaram carrancudos, outros riam, dissimulando. Houve uns protestos fingidos. Iván Fiódorovitch, por exemplo, não querendo contradizer Nastássia Filíppovna, notara que ela estava atraída por aquela idéia, decerto por ser ôriginal e irrealizável.

Nastássia Filíppovna sempre fora teimosa e inconsiderada ao manifestar qualquer desejo, mesmo que se tratasse de um capricho extremado que até a prejudicasse. E parecia estar agora em histerismo, indo vindo, rindo espasmodicamente, de modo violento, principalmente ante os protestos inquietantes de Tótskii. Os seus olhos negros faiscavam e havia um fluxo héctico em suas faces pálidas. O ar algo decepcionado e inibido dos seus convivas possivelmente au mentava o seu irônico desejo de fazer aquele jogo.

Talvez fosse cinismo ou a crueldade da idéia que a atraísse. Uma parte do grupo porém, percebeu que havia uma intenção toda especial nesses seus modos. Acabaram concordando. Seria curioso, afinal de contas; para muita gente a perspectiva era tentadora. O mais excitado de todos era Ferdichtchénko.

- E se houver qualquer coisa que não possa ser dita diante de senhoras? - comentou timidamente o jovem taciturno.

- Ora, não será preciso contar essa. Haverá muitas outras ações imorais, além dessa! - respondeu-lhe Ferdichtchénko. -Ah! Essa gente moça!

- E como hei de eu saber qual das minhas ações é a pior? titubeou a dama espaventada.

- Ficam as damas isentas dessa obrigação - repetiu Ferdichtchénko. - Mas apenas da obrigação: seja o que for que nasça de suas inspirações, será acolhido com gratidão! Os homens ficam, outrossim, isentos, se fizerem muita questão.

- Onde está a prova de que não estarei mentindo? - inquiriu Gánia. - E se minto, lá se vai o essencial do jogo! E como saber que ninguém está mentindo?

- Com certeza é o que se vai dar. Ora, pois até será uma coisa fascinadora ver que espécie de mentiras pode um homem pregar! Não há propriamente perigo algum em você contar mentiras, Gánia, visto nós todos sabermos a sua pior ação qual seja.

- E calculem agora, senhores - exclamou Ferdichtchénko em súbita inspiração - pensem apenas com que olhos nós nos olharemos uns para os outros amanhã, por exemplo, depois que tivermos contado nossos casos!

- Mas é isso possível? Você realmente está falando sério, Nastássia Filíppovna? - indagou Tótskii, com dignidade ofendida.

- Se está com medo dos lobos, não entre na floresta! - observou Nastássia Filíppovna, desdenhosamente.

- Deixe que lhe pergúnte, Ferdichtchénko, que espécie de petit jeu pode uma pessoa achar nisso? - prosseguiu Tótskii cada vez mais inquieto. - Garanto-lhe que tais coisas redundam em fiasco. Você, por exemplo, já disse que não deu certo, aquela vez.

- Sim, sucesso nenhum. Ora, pois, se eu apenas achei que a minha pior ação foi ter roubado três rublos! Foi a única coisa que lhes pespeguei!

- Ouso dizer: suponho que não houve possibilidade de você dizer isso a ponto de parecer verdadeiro e nem creio que tivessem acreditado! Gavríl Ardaliónovitch acabou de fazer ressaltar que a menor desconfiança de falsidade estragaria todo o jogo. Contar a verdade só é possível por acidente, através de uma especial ostentação, aliás de péssimo gosto! E inconcebível e totalmente impróprio nesta sala.

- Mas que pessoa sutil é o senhor, Afanássii Ivánovitch! -exclamou Ferdichtchénko.

- Positivamente, me surpreende! Ora, calculem, senhores meus: observando, como observou, que não consegui contar a história do meu furto de maneira a fazê-la parecer verdadeira. Afanássii Ivánovitch dá a entender que suspeita, e da forma mais sutil, que eu não teria furtado, realmente (pois não seria gentil dizer alto o que ele pensa), e todavia, em seu íntimo, ele está convencido de que Ferdichtchénko pode muito bem ser gatuno. Mas vamos ao caso, senhores, vamos ao jogo! As sortes já foram ajuntadas e ponha também a sua aqui, Afanássii Ivánovitch, para que não haja quem se tenha recusado. Príncipe, sacuda! E tire!

Sem uma palavra o príncipe meteu a mão dentro do chapéu e o primeiro nome que tirou foi o de Ferdichtchénko, o segundo o de Ptítsin, o terceiro o do General Epantchín, o quarto o de Tótskii, o quinto o dele mesmo, o sexto o de Gánia, e assim por diante. As senhoras não tinham entrado nisso.

- Bom Deus, que calamidade! - exclamou Ferdichtchénko.

- E eu que pensava que o primeiro fosse o príncipe e depois o general. Mas, graças a Deus, ainda bem que depois de mim vem Iván Petróvitch e serei compensado. Bem, senhores, preciso, naturalmente, dar um bom exemplo; mas o que mais lamento, de tudo, neste momento, é que eu não seja uma pessoa de categoria, distinguida por qualquer cargo - e nem mesmo de uma classe hierárquica decente. Que interesse poderá haver para vós, que Ferdichtchénko tenha cometido algo de hediondo? E qual será a minha pior ação? Aqui há um embarras de richesse. Devo confessar o mesmo furto da outra vez, para convencer Afanássii Ivánovitch de que se pode furtar sem ser ladrão?

- E também está me convencendo, Sr. Ferdichtchénko, de que é possível ter prazer, e até mesmo festejar a descrição de uma ação imunda, por vontade própria. Mas... peço desculpas, Sr. Ferdichtchénko.

- Comece logo, Ferdichtchénko, você está maçando demais Comece logo de uma vez! - insistiu Nastássia Filíppovna com irritada impaciência.

Todo o mundo já notara que depois de sua risada histérica ficara repentinamente mal-humorada, irritável, pouco cortês, teimando em seu selvagem capricho, com ar imperioso. Afanássii Ivánovitch sentia-se horrivelmente afrontado. Estava também furioso com Iván Fiódorovitch que dera para bebericar champanha, como se mais nada o afetasse. Pensando talvez o que contaria, quando a sua vez chegasse.

 

-  Eu não sou espirituoso, Nastássia Filíppovna, e é isso que me faz falar demais – exclamou Ferdichtchénko, começando a sua história. - Se eu fosse tão ajuizado quanto Afanássii Ivánovitch ou Iván Petróvitch, deveria ter ficado quieto, refreando a minha língua, esta noite, como Afanássii Ivánovitch e Iván Petróvitch. Príncipe, permita que lhe pergunte: Que acha? Não lhe parece que haja no mundo muito mais homens ladrões do que não ladrões? E que não há no mundo um homem, por mais honesto, que nunca tenha, uma vez pelo menos, roubado qualquer coisa em sua vida? Essa é uma idéia minha, pela qual todavia não concluo que todos os homens sejam ladrões; no entanto, Deus bem sabe, muitas vezes sou tentado a isso. Que é que o senhor acha?

- Ufa! Que maneira estúpida de começar a história! - comentou a dama espalhafatosa, cujo nome era Dária Aleksiéievna. - E que bobagem! E impossível que todo o mundo haja roubado qualquer coisa. Eu nunca roubei nada.

- A senhora nunca roubou nada, Dária Aleksiéievna? Mas, que dirá o príncipe, que está ficando vermelho!?

- Acho que o que o senhor diz é verdade, apenas com bastante exagero - afirmou o príncipe que, de fato, sem motivo, estava enrubescendo.

- E o senhor, príncipe, o senhor aí, nunca roubou nada?

- Arre! Que coisa ridícula! Que confiança é essa, Ferdichtchénko? - atalhou o general.

- O senhor está mais é envergonhado de contar o que lhe concerne e por isso está tentando arrastar o príncipe para assim se desvencilhar!... - aparteou Dária Aleksiéievna.

- Ferdichtchénko, ou conte a sua história, ou feche a boca de uma vez, e não se meta com os outros. Não há paciência que o suporte -  disse Nastássia Filíppovna irritadamente, de um modo agudo.

- Um minuto, apenas, Nastássia Filíppovna; mas já que o príncipe confessou, pois insisto em que o que o príncipe disse valeu por uma confissão, que diria mais alguém (para não mencionar nomes) se me desse na telha ao menos uma vez falar a verdade? Quanto a mim, senhores, não é necessário dizer mais; o caso que vou contar é simples, estúpido e imundo. Mas lhes dou minha palavra que não sou gatuno. Não sei como cheguei a furtar. Isso aconteceu no ano retrasado, certo domingo, em casa de Semión Ivánovitch Ichtchénko, que recebera artigos para o jantar. Depois do jantar os cavalheiros ficaram sentados, ainda sob o efeito do vinho. Ocorreu-me pedir à sua filha, uma senhorita chamada Maria Semiónovna, que tocasse piano. E eu fiquei perambulando em uma extremidade do salão. Sobre a mesa de trabalho de Maria Semiónovna estava uma nota de três rublos, dessas de papel verde. Devia tê-la tirado para alguma despesa. Não havia mais ninguém na sala. Peguei a nota e soquei-a no meu bolso. Para que, não saberei dizer. O que me levou a isso, não sei. Apenas vim, muito apressado, até ao salão e me sentei à mesa onde fiquei quieto, esperando alguma coisa, excitadíssimo. Continuei a tagarelar, contei anedotas, dei gargalhadas. Depois fui ter com as senhoras. Cerca de meia hora depois deram por falta da nota e começaram a interrogar a criadagem. As suspeitas caíram em uma de nome Dária. Mostrei extraordinário interesse e simpatia e recordo que, quando Dária estava totalmente zonza, me pus a persuadi-la a confessar, assegurando-lhe que a sua patroa seria generosa; e fiz isso alto, diante de todos. Todos prestavam atenção e eu sentia imenso prazer em passar uma raspança na criada. Enquanto isso a nota estava no meu bolso.

Gastei aqueles três rublos em bebida, em uma tasca, aquela noite mesmo; entrei e mandei vir uma garrafa de Lafitte. Nunca tinha pedido uma garrafa como essa, está claro. É que eu queria gastar o dinheiro de uma vez.

Não senti sobressaltos de consciência nem naquela ocasião, nem tempos depois. Cometeria outra vez o gesto, sem dúvida; podem acreditar, ou não, como preferirem; é-me indiferente. Ora aí está; foi tudo.

- Mas, sem dúvida essa não foi a sua pior ação - sentenciou Dária Aleksiéievna, com aversão incontida.

- Foi um caso psicológico e não uma ação - observou Tótskii. Então, sem encobrir sua repugnância, Nastássia Filíppovna perguntou:

- E a criada?

- Foi mandada embora no dia seguinte, naturalmente. A família, nesses pontos, era estrita.

-  E você deixou que isso acontecesse?

- Essa é boa! Ora essa, então eu haveria de ir e contar, eu? -torceu-se todo Ferdichtchénko, apesar de vexado pela péssima atmosfera causada pela história.

- Que horror! - exclamou Nastássia Filíppovna.

- Ora essa, a senhora quis ouvir a pior ação de um homem e estava a esperar uma coisa edificante! As piores ações de um homem são sempre repugnantes, Nastássia Filíppovna! Vamos ter a sanção disso

diretamente através de Iván Petróvitch. A maioria das pessoas são brilhantes pelo lado de fora e desejam parecer virtuosas só porque têm carruagem própria. Todo o mundo tem carruagem. E por que meios?...

Ferdichtchénko de fato se zangara repentinamente, a ponto de se esquecer que estava ultrapassando os limites; toda a sua cara se distorcera grotescamente. E que lá consigo esperam outro efeito da sua história. Tais erros de tato, essa especial maneira de “cartear”, como Tótskii chamava a isso, acontecia muitas vezes com ele e estava especificamente em seu caráter.

Nastássia positivamente tremia de fúria, olhando sem parar para Ferdichtchénko. Ele acabou ficando deprimido e recaiu em atroz silêncio, quase gelado de desaponto. Tinha ido longe demais.

- Não seria melhor acabarmos com isso? - perguntou Tótskii, com veemência.

- É a minha vez, mas requeiro isenção, já que tenho direito. E deixo de contar - declarou categoricamente Ptítsin.

- Então você não quer?

- Não posso, Nastássia Filíppovna. E quer que lhe diga? Considero este petit jeu fora de propósito.

- General, parece queé a sua vez - lembrou Nastássia FiLíppovna, virando-se para Epantchín.

- Se o senhor recusar, nos desarticulamos todos e é pena, porque eu estava aguardando o fim para contar um incidente da minha própria vida. Mas só queria fazer isso depois de Afanássii Ivánovitch e do senhor, porque ambos me devem dar estímulo - acrescentou, rindo.

- Já que a senhora promete isso - exclamou o general, enfaticamente - estou pronto a contar-lhe a minha vida inteira; confesso que tenho a minha história pronta para a minha vez... E basta o ar de Sua Excelência para se julgar do especial prazer com que trabalhou a sua anedotazinha - ousou observar Ferdichtchénko, com um sorriso sarcástico, apesar de ainda não estar muito à vontade.

Nastássia Filíppovna olhou de esguelha para o general e também sorriu consigo mesma. Mas a sua depressão e irritabilidade estavam notoriamente aumentando a cada momento. Tótskii ficou mais alarmado ainda depois que ela prometeu contar também alguma coisa.

- Já me aconteceu, amigos, como a todos nós, cometer ações em minha vida que não fossem la muito bonitas - começou o general. -É estranho que eu ainda considere o breve incidente que vou descrever como tendo sido a mais vil ação da minha vida. Já se passaram quase trinta e cinco anos e ainda não consigo conter uma dor no coração, se é que me exprimo bem, só em recordar. Trata-se, contudo, de um caso extremamente idiota; eu era, naquele tempo, simples tenente e estava abrindo a minha carreira no Exército. Ora, todos nós sabemos o que um tenente é: sangue moço e ardoroso, mas, dinheiro mesmo, nenhum! Eu tinha um ordenança, naqueles dias, chamado Nikífor, que era terrivelmente zeloso em minha defesa. Mexia-se, costurava, lavava, fazia a limpeza, e mesmo requisitava” à direita e à esquerda com mão forte, para ajudar nossa manutenção caseira. Além de sincero, era honestíssimo. Eu era severo, mas justo. Aconteceu permanecermos certo tempo em uma cidadezinha. Tinha-me acomodado em um subúrbio, em casa da viúva de um tenente reformado. A velhotajá passava dos oitenta anos. Morava em uma pequena e antiga casa em ruínas, de madeira, e era tão pobre que nem criada possuía. E o pior é que ela em tempos tivera numerosa família e parentela. Alguns haviam morrido, outros se dispersado, e os demais a tinham esquecido. O marido morrera havia quase meio século. Durante anos uma sobrinha vivera com ela. Uma rapariga corcunda, má como uma bruxa, conforme dizia o povo. Até mordera uma vez o dedo da velha. Mas até essa falecera. De maneira que a velhinha estava lutando sozinha, havia já três anos. Eu me sentia medonhamente instalado lá e a mulher era tão obtusa que ninguém lhe podia arrancar nada de compreensível. Uma ocasião ela me roubou um galo. O caso nunca pôde ser tirado a limpo, até hoje, mas não havia mais ninguém, deve ter sido ela.

Discutimos por causa do galo, mas discutimos feio e sério E aconteceu que logo que requeri fui transferido para outro quartel nos subúrbios do outro lado da cidadezinha, e me instalei na casa de um negociante, de imensas barbas e família patriarcal, lembro me bem. Nikífor e eu estávamos muito contentes com a mudança. Eu deixara a velhinha, indignado. Três dias depois, vindo eu das manobras, Nikífor me informou: “Fizemos mal, Excelência, em deixar nossa terrina em casa daquela megera. Onde é que vou pôr a sopa, agora?” Foi surpresa para mim. “Como assim?” - danei.

“Como é que você esqueceu a terrina lá?” Então, muito espantado. Nikífor me relatou que, quando estava mudando os nossos cacarecos, a mulherzinha não entregara a terrina em represália a lhe termos quebrado a tigela. Ficava com a terrina em lugar da tigela, declarando que eu é que resolvera isso para indenizá-la. Tal manha naturalmente me enfureceu. Isso faria ferver o sangue de qualquer jovem oficial.

 Dei um pulo e me precipitei para lá. Estava fora de mim, se assim me posso exprimir, quando cheguei à casa da anciã. Dei com ela sentada na soleira, acocorada em um canto, sozinha, como a apanhar sol, o queixo apoiado na mão, o cotovelo no joelho. Desfechei-lhe uma torrente de berros, chamando-a de toda a sorte de nomes; bem sabem como é boa a gíria russa. Mas uma coisa me parecia estranha, à medida que eu a olhava: estava com a cara voltada e um pouco para mim, os olhos muito redondos e fixos, e não respondia água-vai. Olhava-me de maneira esquisita, parecia vacilar para a frente, e só acabei de descompô-la quando a minha fúria se esgotou. Encarei-a, fiz-lhe perguntas, e ela: nada! Fiquei meio sem jeito. Moscas zuniam, o sol descambava e reinava uma tranqüilidade, por ali... Completamente desconcertado, fui embora. Antes de chegar a casa compareci à presença do major que me disse que fosse à companhia; de maneira que não voltei para casa senão quando já era bem noite. E eis as primeiras palavras de Nikífor: “Pois não é. Excelência, que a nossa velhinha morreu?”. “Morreu, quando?” “Ora, esta tardinha, há cerca de uma hora e meia”. Assim, pois, mesmo na hora em que, eu a estava descompondo ela teve o seu trespasse. Isso me causou tamanha impressão que não pude suportar.

O pensamento não me largava. De noite, era na certa: tinha de sonhar com isso. Não sou supersticioso, absolutamente, mas, dois dias depois, lá estava eu na igreja, no seu funeral. E na verdade. quanto mais o tempo passa, mais isso me reaparece. Não são aparições, propriamente, mas agora, como então, se me afigura vê-la ainda. E fico atordoado. Cheguei à conclusão de que o remorso consiste nisto. Em primeiro lugar, era uma mulher. Claro! Uma pobre criatura, uma criatura humana, como deram para dizer hoje em dia. Tinha vivido, vivido uma longa vida, vivido demais. Outrora tivera filhos, marido, família, parentes - tudo isso tagarelando, rindo, não é mesmo? Enfim, a vida em redor dela. E em seguida, de uma vez para sempre, completo vácuo, tudo acabara, fora deixada sozinha, como... mosca execrada desde o começo do tempo. E só depois, no fim, é que Deus a levara, ao pôr-do-sol, em uma sossegada tarde de verão, pobre da minha velhota se indo embora para sempre! Um tema para uma piedosa reflexão, não há a menor dúvida. E eis que bem nesse momento, em vez de lágrimas que a acompanhassem, não é mesmo? Um estourado de um tenenteco. espetaculosamente, com as mãos na cinta lhe faz cena reles e miserável, enquanto ela deixa a superfície da terra, com a fanfarra russa dos meus desaforos por causa de uma terrina! Naturalmente eu tinha razão para a descompor, mas, mesmo assim, com o correr dos anos, a mudança de temperamento, acabei desde há muito encarando a minha ação como a de um outro homem que não eu; e ainda tenho remorsos. Isso, pois, repito, me parece extravagante; pois, se tive de que me zangar, por que ficar assim? Que raio lhe deu na cabeça para morrer bem naquele momento?

Naturalmente há apenas uma explicação: que o que eu fiz foi de certo modo mórbido. E como não conseguisse paz de espírito, quinze anos depois, ainda, tomei a meu cargo duas velhas incuráveis em um asilo, a fim de lhes suavizar os últimos dias de existência terrestre com um ambiente confortável. Penso legar-lhes uma soma de dinheiro para uma aplicação perpétua. E é tudo, a respeito. Repito que posso ter feito outras coisas más em minha vida; mas este incidente, eu escrupulosamente o considero a pior ação da minha vida.

- Pois em vez da pior, Vossa Excelência descreveu uma de suas mais belas ações. O senhor me logrou! - comentou Ferdichtchénko.

- Efetivamente, general, nunca imaginei que o senhor tivesse um coração tão bom, apesar de tudo. Chego a lastimar-me - disse Nastássia Filíppovna descuidadamente.

- Lastima-se, por quê? - indagou o general com um sorriso afável: e, não sem complacência, sorveu o seu champanha. Mas era agora a vez de Tótskii e ele também se tinha preparado. Todo o mundo pensara que ele se recusaria como Ptítsin. Ainda assim todos, por certas razões, esperavam com curiosidade a sua confissão. E ao mesmo tempo, espiavam Nastássia Filíppovna.

Com um extraordinário ar de dignidade que condizia com a sua majestosa aparência. Afanássii Ivánovitch começou com sua voz calma e polida a contar uma de suas “encantadoras anedotas”. Ele era, diga-se de passagem, um homem de fina aparência, dignificante estampa, alto, corpulento, um pouco calvo e ficando já grisalho. Tinha bochechas rosadas, flácidas e dentes postiços. Usava roupas amplas e bem cortadas e camisas de preço. Quanto às suas mãos quase redondas e brancas, dava prazer olhá-las. Usava em um dos dedos da mão direita um anel de caríssimo diamante.

Enquanto esteve contando a sua história, Nastássia Filíppovna ficou contemplando sem parar a renda pregueada de sua manga. alisando-a com dois dedos da mão esquerda. Não olhou nem mesmo de relance para o locutor.

- O que torna a minha tarefa mais fácil - começou Afanássii Ivánovitch - é a estrita obrigação de descrever a minha ação mais vil em toda a minha vida. E em tal caso não pode haver hesitação. A consciência e a manifesta voz do coração ditam logo o que se deva dizer. Confesso com amargura que, entre todas as inumeráveis e decerto frívolas e impensadas ações de minha vida, uma há cuja impressão ficou algo mais forte, vincando o meu espírito. Aconteceu aproximadamente há vinte anos. Estagiava eu no campo com Platón Ordíntsev. Ele acabara de ser nomeado marechal da nobreza e viera com sua jovem esposa, Anfíssa Aleksiéievna, para aí passar as suas férias de verão. Fora isso pouco antes do dia de seu aniversário e dois bailes tinham sido arranjados. Por aquele tempo a encantadora novela de Dumas Filho, La Dame aux Camélias, estava no ápice da moda e fazendo grande sensação na sociedade. Trata-se de uma obra que, em minha opinião, jamais envelhecerá ou desaparecerá. Nas províncias provocava êxtase em todas as damas, pelo menos nas que a tinham lido. O encanto da novela, a originalidade da situação do principal caráter, aquele mundo fascinante analisado tão sutilmente, e os admiráveis incidentes disseminados pelo livro (por exemplo o uso de buquês com camélias brancas e cor-de-rosa alternativamente) todos aqueles encantadores pormenores, com efeito, e todo o ensemble causavam uma subjugadora sensação. As camélias tornaram-se extraordinariamente em moda. Todo o mundo as queria, todo o mundo procurava obtê-las. Agora lhes pergunto eu se era Possível arranjar camélias assim, em um distrito na campanha, quando a procura é enorme, mesmo não havendo muitos, bailes? Pétia Vorkhovskói estava rompendo o coração nesse tempo, coitado, por causa de Anfíssa Aleksiéievna Realmente não sei se havia qualquer coisa entre eles, isto é, quero dizer, se ele apoiava suas esperanças com quaisquer razões. O coitado andava louco por camélias Para Anfíssa Aleksiéievna para a noite do baile. A Condessa Sótskaia, uma nobre de Petersburgo em visita à mulher do governador e Sófia Bezpálova viriam, sabia-se ao certo, com buquês de camélias brancas. Anfíssa Aleksiéievna ansiava por despertar sensação com camélias rubras. O pobre Platón estava quase ficando maluco – naturalmente pois se ele era o marido! Prometera procurar as flores. Querem saber o que sucedeu? Exatamente na véspera do baile todas as camélías foram adquiridas por Ekaterína Aleksándrovna Mitíchtcheva, uma terrível rival de Anfíssa Aleksiéjevna E rival em tudo. Só faltou puxarem punhais! Naturalmente houve ataques e chiliques, Imaginem os apuros de Platón. Está-se a ver que se Pétia fosse capaz de arranjar um buquê nesse momento crítico, suas chances melhorariam muito. A gratidão de uma mulher, em tais casos, é ilimitada. Ele voou como um louco; mas era uma empresa difícil e nem adiantava falar nisso. E eis que de repente o encontro às onze horas da noite na véspera ainda do aniversário e do baile que seria dado por Madame Zubkóva, vizinha dos Ordíntsev. Estava radiante. “Que é que há?”. “Encontrei! Eureca!” “Bem, meu caro, és formidável. Onde? Como?”. “Em Iekcháisk um lugarejo a quinze verstás daqui, fora já do nosso distrito. Mora lá um mercador como esses de antanho, riquíssimo, chamado Trepálov; ele e a mulher, em vez de filhos, criam canários E têm ambos a paixão das flores! E o homem tem camélias” “E se não for verdade? E se ele não as quiser dar?”. “Atiro-me de joelhos e me humilho a seus pés até que ceda. Não saio de lá sem elas”. “Quando vais buscá-las?” “Amanhã cedo, ao clarear, às cinco da madrugada” “Bem, então sê feliz”. Palavra que me senti contente, também eu. Voltei para casa de Ordíntsev. Bateu uma hora da madrugada, e eu ainda estava pensando. Resolvi deitar-me; nisto, uma idéia muito original me veio. Embarafustei para a cozinha, acordei Savélii, o cocheiro, e lhe disse, dando-lhe quinze rublos: “Arranje-me os cavalos em meia hora”. Dito e feito. Meia hora mais tarde o trenó estavaca no portão. Tinham-me dito que Anfíssa Aleksiéievna estava com febre por causa da enxaqueca, e delirando! Entrei para o trenó e saí a toda. Antes das cinco estava eu em Jekcháisk, na estalagem. Esperei que rompesse o dia. E nada de clarear! Afinal, às sete horas, cheguei à casa de Trepálov. Falei sobre isso e aquilo, até que perguntei: “Terá o senhor camélias? Bom bátiuchka, ajude-me, salve-me! Inclino-me, arrojo-me aos seus pés!”

O velho era um homenzarrão, de cabeça grisalha, severa. um velho que dava medo. “Não, não! Lá por isso, não. Que é que há de parecer?” Arrojei-me aos pés dele. Positivamente caí sobre o assoalho.

“Não faça isso! Ora essa!” E ficou aparvalhado. “É que está em risco uma vida humana”, berrei-lhe. “Bem, neste caso. leve-as, em nome de Deus”. Cortei todas as camélias vermelhas. Eram maravilhosas, esquisitas. Havia uma estufa cheia assim. O velho até suspirava. Tirei uma nota de cem rublos. “O senhor está me insultando!”. “Então, pelo menos, valoroso senhor, entregue estes cem rublos ao hospital local, para mantimentos e outras despesas. “Bem”, disse o velho, “agora a coisa muda de figura; é uma obra meritória e nobre que compraz a Deus. Darei este dinheiro ao hospital, para que rezem pela sua saúde”.

Aquele velho russo de boa têmpera me agradou; era um russo de cem costados, de la vraie souche! Radiante, voltei. Mas por um caminho diferente, para evitar encontrar Pétia. Mal acabei de chegar enviei o imenso ramalhete a Anfíssa Aleksiéievna, com meus cumprimentos, quando acordasse. É fácil imaginar o seu júbilo, a sua gratidão, as suas lágrimas de alegria. Pláton, que na véspera estava até sem fôlego, soluçou sobre o meu peito. Arre! Todos os maridos são a mesma coisa, desde a criação do matrimônio legal. Não quero aventurar-me a dizer mais, mas as chances de Pétia acabaram completamente, depois deste episódio. No começo calculei que ele ao descobrir o que eu fizera quisesse me matar! Tanto que me preparei para o encontro; mas chego a não acreditar no que aconteceu. Sabem o que foi? Ele teve uma síncope; passou a noite delirando e no dia seguinte estava com febre cerebral e arquejava como uma criança; teve até convulsões. Um mês mais tarde, ao entrar em convalescença, inscreveu-se como voluntário e foi para o Cáucaso. Parece romance. Acabou sendo morto na Criméia. Naquele tempo o seu irmão, Stepán Vorkhovskói, comandava um regimento; Pétia distinguiu-se na batalha. Confesso que sinto agulhadas na consciência mesmo tantos anos depois. Ora, com que fim lhe desferi eu um tal golpe? E nem se diga que eu, então, estivesse também apaixonado. Foi mera travessura oriunda de um flerte; nada mais. Se eu não lhe tivesse arrebatado aquele buquê - quem sabe? - o homem podia estar vivo ainda hoje, podia ter sido feliz, podia ter triunfado. E nunca lhe teria passado pela cabeça ir brigar com os turcos!

Afanássii Ivánovitch acabou de falar com a mesma majestosa dignidade com que tinha começado. O grupo ali reunido notou que havia uma luz estranha nos olhos de Nastássia Filíppovna. Quando ele rematou a sua história, os lábios dela se contraíram. Todo o mundo prestava atenção em ambos, com uma curiosidade muito especial.

-  Enganaram Ferdichtchénko! Olá se enganaram! Isto realmente é que é fraude! – exclamou Ferdichtchénko, com voz lacrimosa. vendo que urgia dizer alguma coisa.

- E de quem é a culpa, se você não soube ganhar? Então você pensa que esta gente aqui é imbecil?

- Quem assim lhe cortou a palavra foi Dária Aleksiéievna, antiga e sincera amiga e aliada de Tótskii.

- Você tem razão, Afanássii Ivánovitch, o jogo é muito insípido e precisamos acabá-lo ligeiro – comentou Nastássia Filíppovna com ar descuidado. - Contarei o caso que prometi e logo os deixarei à vontade; poderão até jogar cartas.

- Mas antes disso, a sua anedota prometida - concordou o general, calorosamente.

Então, sem que ninguém esperasse, Nastássia Filíppovna se virou subitamente para Míchkin.

- Príncipe, aqui os meus velhos amigos, o General Epantchín e Afanássii Ivánovitch, querem que eu me case. Diga-me que éque o senhor acha. Devo casar-me, ou não? O que o senhor disser, eu farei.

Afanássii Ivánovitch tornou-se lívido. O general ficou petrificado. Todo o mundo olhou cheio de espanto e perplexidade. Gánia enterrou-se onde estava.

- Com.., quem? - perguntou o príncipe com voz quase imperceptível.

Firmando bem a voz, Nastássia Filíppovna pronunciou devagar:

- Com Gavríl Ardaliónovitch Ívolguin.

Seguiram-se alguns segundos de silencio. O príncipe parecia estar lutando para falar; e era como se um terrível peso, em seu peito, não o deixasse proferir palavra.

- Não... não vos caseis com ele - sussurrou, por fim, e respirou angustiadamente.

- Então, assim será! - Voltou-se imperiosamente e com ar de triunfo para Gánia:

- Gavril Ardaliónovitch, escutou a decisão do príncipe? Bem, a resposta dele é a minha resposta! E esta é a solução do caso, de uma vez para sempre!

- Nastássia Filíppovna! - Ela olhou. Era Tótskii, com voz trêmula.

- Nastássia Filíppovna! - Era o general em tom persuasivo. mas agitado.

Houve comoção geral, quase tumulto.

- Que é que há, amigos? - prosseguiu ela, encarando os convidados, surpreendida.

- Por que estão tão perplexos? Mas que fisionomias!

- Mas... você se esqueceu, Nastássia Filíppovna - balbuciou Tótskii gaguejando -, que havia feito uma promessa, aliás voluntária, e que poderia ter poupado, em parte... Estou estupefato... élógico, não compreendo... mas, enfim... fazer isso... diante de tanta gente... em uma hora destas, e fazer da forma por que fez, como umpetitjeu!, em um caso que afeta a honra e o coração... um caso que envolve...

- Não o compreendo, Afanássii Ivánovitch. Quer saber de uma coisa? Você nem sabe o que está dizendo. Em primeiro lugar que quer você dizer com “diante de tanta gente”? Não estamos nós diante de caros e íntimos amigos? É petit jeu, como? Por quê? Eu realmente pretendia contar a minha anedota! Pois não é que a contei? E não foi bonita? Por que há de então você dizer que isso não é sério? Então, não é sério? Você bem que me ouviu avisar o príncipe: “O que o senhor disser, eu farei”. Se ele tivesse dito: “Sim!”, eu imediatamente teria dado o meu consentimento. Mas ele disse” “Não!”, e eu recusei. Então não foi sério? Pois se toda a minha vida estava oscilando em uma balança! Mais sério do que isso?!

- Mas o príncipe... que tem o príncipe com isso? E quem é o príncipe, afinal de contas? - murmurou o general não podendo reprimir a sua indignação ante a autoridade (que o ofendia) dada ao príncipe.

- Ora, o que o príncipe tem com isso é que ele é o primeiro homem que encontrei em toda a minha vida, e em quem acreditei como em um sincero amigo. Ele acreditou em mim, mal me viu, e eu nele.

- Só me resta agradecer a Nastássia Filíppovna pela extraordinária delicadeza com que.., me tratou - articulou, finalmente, em voz entrecortada mal abrindo os lábios finos, Gánia, muito pálido.

- Respeito sua decisão.., naturalmente! Mas.., o príncipe... pôr o príncipe neste assunto!...

- E por causa dos setenta e cinco mil rublos? Não é o que você quis dizer? - interrompeu-o repentinamente

Nastássia Fílíppovna.

- Quis você se referir a isso? Não o negue, você certamente pensou nisso. Afanássii Ivánovitch, esquecime de acrescentar, ficam sem efeito os setenta e cinco mil rublos que me ofereceu! E deixe-me assegurar que o desembaraço de bom grado. Basta! Já era tempo de você também ficar livre. Nove anos e três meses! Amanhã, vida nova! Mas hoje é meu dia onomástico e pela primeira vez em minha vida inteira estou fazendo o que quero.

General, tome outra vez as suas pérolas; dê-as à sua mulher. Ei-las! Amanhã deixarei este apartamento, por bem, de maneira que não haverá mais recepções, amigos!

Dito isso, logo se levantou, como se pretendesse ir embora. -Nastássia Filíppovna! Nastássia Filíppovna! - Ouvia-se de todos os lados. Todos estavam emocionados, levantando-se e rodeando,. a, tendo ouvido, boquiabertos aquelas palavras ímpetuosas, febris e desesperadas. Todos sentiam que havia qualquer coisa errada que não era possível explicar nem descobrir. Bem nesse momento a campainha tocou violentamente Tão violentamente como, aquela tarde, a do apartamento de Gánia.

- Ah! É a solução! Afinal! Já são Onze e meia? – exclamou Nastássia Filíppovna - Peço-vos, que vos senteis. É a solução  amigos.

Dizendo isso, deu o exemplo, Sentando-se de novo. Um riso estranho lhe crispava os lábios. Ficou calada, em febre, olhando para a porta.

E então, lá consigo Ptítsin adivinhou: “Sem dúvida, é Rogójin com os seus cem mil rublos!”

 

Kátia, a camareira, entrou muito aflita.

- A senhora não imagina, Nastássia Filíppovna! Mais de dez homens! Quase arrombaram a porta! E bebados como nunca vi. E pretendem ser recebidos. Dizem que se trata de Rogójin e que a senhora sabe.

- Está bem, Kátia. Introduza-os para aqui, imediatamente.

- A senhora não imagina como eles estão, Nastássia Filíppovna... em que estado lastimável. Credo!...

- Que entrem todos, Kátia, sem exceção. Não tenha medo. Do contrário entram mesmo que você se oponha. Que rebuliço estão fazendo! Até parece esta tarde. Acaso aqui os meus amigos se sentirão ofendidos - voltou-se para os seus convidados - por eu receber um bando desta ordem? Lastimo, e desde já peço perdão. Mas não há outro jeito e estou ansiosa que consintam em ser testemunhas desta cena final. Espero e confio que isso não os moleste...

Os convidados continuaram atônitos, entreolhando-se e ciciando. Era perfeitamente claro que aquilo tudo fora calculado e arranjado de antemão, e que Nastássia Filíppovna agira em um momento de paroxismo, impossível lhe sendo agora remediar tal conjuntura. A curiosidade os atiçava; motivos para pânico não existiam, visto haver somente duas mulheres entre os convivas: Dária Aleksiéievna, uma dama desembaraçada que conhecia o lado pior da vida, não tendo portanto do que se escandalizar, e a formosa mas impassível estrangeira.

E essa taciturna estrangeira mal entendia o que se estava passando; era alemã, recém-chegada à Rússia, não sabia uma única palavra eslava e era tão obtusa quanto bonita. Tratavam-na como uma novidade, sendo moda convidá-la para recepções; comparecia suntuosamente vestida, penteada como para uma exibição teatral; faziam-na sentar na sala de visitas como uma decoração encantadora, da mesmíssima forma com que pessoas há que pedem às vezes a amigos, como empréstimo para uma festa de cerimônia, uma tela, uma estátua, uma porcelana ou um mármore de enfeitar lareira.

Quanto aos homens, por sua vez, Ptítsin, por exemplo, era amigo de Rogójin; Ferdichtchénko estava no seu elemento; Gánia, conquanto ainda não refeito, se sentia dominado pelo irresistível impulso de suportar a ignomínia até ao fim; o velho mestre-escola, que apenas poderia ter uma noção difusa do que iria acontecer, esse, de fato, estava quase em lágrimas e literalmente acobardado, tremendo de susto ante a agitação fora do comum que reinava na sala e no vestíbulo; tudo isso porque adorava Nastássia Filíppovna como se fosse sua neta; em uma circunstância destas preferia morrer a sair dali.

Pelo que dizia respeito a Tótskii devera ele, naturalmente, ter tomado antes suas providências para não se comprometer em aventuras semelhantes; mas o caso o interessava demasiado, mesmo a tão desmedido preço moral. Sem contar que Nastássia Filíppovna deixara escapar ainda agora duas ou três palavras favoráveis a ele, e isso já seria motivo por si só para não se ir embora sem que o caso se clareasse.

Resolveu permanecer e ficar calado, limitando-se apenas a observar, conforme exigia a sua dignidade.

O General Epantchín, ofendido abertamente com a ridícula devolução do seu presente, só podia se sentir mais agravado ainda com a entrada de Rogójin e as excentricidades anteriores. Um homem da sua posição já se rebaixara bastante, com efeito, sentando-se ao lado de Ptítsin e de Ferdichtchénko. E mesmo que a paixão pudesse haver contribuído para isso, não podia ele já agora deixar de tomar atitude, retirando-se, movido por um sentimento de dever que emanava concludentemente da sua classe, da sua importância e do respeito que devia a si mesmo. Ora, todas estas razões corroboravam para a impossibilidade da presença de Rogójin em uma sala onde Sua Excelência estivesse.

- Ah! general... - interrompeu-o logo Nastássia Filíppovna quando ele ia lançar o seu protesto.

- Eu me havia esquecido. Ainda bem que a lembrança me acudiu a tempo. Se isto é uma ofensa que o atinge, meu caro general, não sou eu quem insistirá em conservá-lo nesta casa. E isso por mais que eu estivesse, como deveras estou, ansiosa por merecer a honra de tê-lo ao meu lado em uma conjuntura tão especial como é a desta hora. Seja como for, agradeço-lhe muito, levando em conta a sua amizade de sempre e a sua atenção lisonjeira para comigo. Assim, pois, se estiver com receio...

- Permita-me, Nastássia Filippovna! - exclamou o general, em um rasgo de sentimento cavalheiresco. - A quem está a senhora dizendo isso? É tão só por devotamento para com a senhora, que resolvo permanecer ao seu lado, agora. E se houver algum perigo... Além do que, por que não confessar que estou profundamente apreensivo? Isto é,quero referir-me a que vão estragar seus tapetes e talvez quebrar coisas... E a senhora não devia se expor pessoalmente, a meu ver, Nastássia Filíppovna.

- Rogójin! Lá vem ele! - anunciou Ferdichtchénko. Enquanto isso o general segredava à Tótskii apressadamente:

- Qual é a sua impressão? Não lhe parece também que ela perdeu ojuízo? Não falo alegoricamente, falo no sentido literal. Hein?

- Já muita vez lhe contei que ela sempre teve predisposição para isso - sussurrou Tótskii, disfarçando.

- E creio, além do mais, que ela está com febre...

Rogójin se fazia acompanhar mais ou menos pelo mesmo séquito daquela tarde. Havia só mais dois acréscimos no grupo. Um velho descarado, outrora editor de um jornal de má reputação, difamador e de quem corria a história de que, por causa de bebida, tinha posto no penhor a dentadura, montada sobre ouro; e um subtenente, rival, por ofício e por título, do homem do boxe. Era completamente desconhecido de todos os do bando de Rogójin, mas fora apanhado na rua, no lado do sol da Avenida Névskii, onde costumava fazer parar os pedestres, pedindo auxílio, em uma linguagem de Marlínskii, falsamente alegando que, em seus tempos de rico, o mínimo que dava de esmola eram quinze rublos de cada vez. E os dois rivais imediatamente haviam tomado mútua atitude hostil. O indivíduo dos punhos considerara-se afrontado com esse acréscimo ao grupo. Calado por natureza, simplesmente grunhia como um urso, de quando em quando, e com profundo desprezo olhava para os estratagemas do rival que, tendo sido homem do mundo e diplomata, tentava obter boas graças, insinuando-se. O subtenente prometera, a julgar pelas aparências, maior “execução técnica” e desteridade, “no trabalho”, do que propriamente força, pois era menor do que o homem das munhecas. Delicadamente, e sem entrar em competição declarada, embora se vangloriando insistentemente, aludia reiteradamente à superioridade do boxing inglês. O que ele tinha mais era ar de um campeão da cultura ocidental. O dono das munhecas apenas sorria com desprezo e insolência, não se dignando contradizer abertamente o rival, muito embora, de quando em vez, lhe mostrasse. silenciosamentemovendo-o por acidente, quase nas fuças, um argumento profundamente nacional - um desproposital, musculoso e proeminente punho coberto de abundantes pêlos ruivos. E assim ficava perfeitamente esclarecido para cada um que, se esse argumento genuinamente nacional tivesse de ser empregado às direitas por qualquer motivo, reduziria tudo a massa informe.

Graças aos esforços de Rogójin, que estivera durante todo o dia fazendo preparativos para a visita a Nastássia Filíppovna, ninguém do grupo estava bêbado demais. Ele mesmo, por enquanto, estava até bem sóbrio, embora bastante estupidificado com o número de sensações por que passara nesse caótico dia em nada comparável a quaisquer outros de toda a sua vida anterior. Apenas uma coisa teimava em ficar aderida ao seu espírito e ao seu coração e de que se dava conta a todo instante e a todo minuto.

Por causa dessa coisa passara todo o tempo, das cinco horas da tarde às onze da noite, em contínua agonia e ansiedade, brigando com Kinder & Biskúp. judeus e agiotas, que também se mexiam como loucos por causa dele. Tinham eles, apesar dos pesares, conseguido levantar os cem mil rublos sobre os quais Nastássia Filíppovna, por zombaria. fizera uma rápida e vaga menção. Mas o dinheiro fora arranjado à razão de juros tais, que mesmo Biskúp não se aventurou a contar a Kinder senão ao ouvido, em um sussurro de espanto.

Da mesma maneira que de tarde, Rogójin caminhava à frente; os demais o seguiam um pouco sem jeito, embora perfeitamente cônscios de seus papéis. O que mais temiam - Deus sabe por quê - era Nastássia Filíppovna. Muitos estavam mesmo convencidos de que seriam sem a menor cerimônia “postos escadas abaixo, a pontapés”, e entre estes estava o dândi e dom-joão Zaliójev. Outros, porém - e o mais importante. era o homem dos punhos - acariciavam em seus corações profundos, embora tácito, desprezo e mesmo cólera por Nastássia Filíppovna, e haviam entrado na casa dela, a fim de pô-la em tempestade. Mas só a magnificência das duas primeiras salas, com coisas em que sequer tinham jamais ouvido falar, quanto mais visto, o mobiliário escolhido, os quadros, a Vênus de tamanho natural, tudo despertara neles um indômito sentimento de respeito e até de medo. Isso não os impediu, porém, de gradualmente se aglomerarem com insolente curiosidade na sala de visitas, atrás de Rogójin. Mas quando o homem dos punhos, o seu rival e mais alguns outros deram com o General Epantchín entre os convidados ficaram instantaneamente tão sucumbidos, que imediatamente procuraram retroceder para a sala anterior.

Liêbediev se achava entre os mais despachados e resolutos e caminhava quase rente de Rogójin, tendo alcançado a verdadeira significação de uma fortuna de um milhão e quatrocentos mil rublos, cem mil dos quais já embolsados. Convém observar, não obstante tudo isso, que todos eles, sem exceção, inclusive o espertalhão de Liébediev, estavam um pouco incertos quanto aos limites reais de suas forças, não sabendo mesmo se seriam capazes de fazer quanto quisessem ou resolvessem. Liébeíliev tivera o desplante de jurar pouco antes que agiriam; mas agora se sentia inquietantemente impelido a lembrar vários artigos do código penal, muito taxativos e categóricos.

Sobre o próprio Rogójin, Nastássia Filíppovna produziu uma impressão muito diferente da produzida em seus asseclas. Logo que a cortina da porta foi erguida e ele a viu, tudo o mais cessou de existir para ele, como já acontecera naquela manhã; e até mesmo de modo mais absoluto do que então. Ficou pálido e por um minuto se deteve, atônito. Deve-se conjeturar que o seu coração estava batendo violentamente, enquanto pasmava para ela timidamente, sem poder. no seu desespero, desprender dela os olhos. De súbito, como se tivesse perdido a razão, vacilando, prosseguiu até chegar perto da mesa. Antes de lá chegar tropeçou na cadeira de Ptítsin e pisou com suas enormes botas imundas na cauda compacta do magnífico e caro vestido azul da estúpida beldade alemã. Nem se desculpou. nem percebeu. Depôs sobre a mesa um estranho objeto que carregava com as duas mãos ao atravessar a sala de visitas. Era um grande pacote de seis polegadas de largura e oito de comprimento, embrulhado em um número da Gazeta da Bolsa, atado com duas voltas de barbante, como os embrulhos de pães de açúcar. Ficou parado, sem proferir uma palavra, e deixou cair os braços à espera da sua sentença. Estava vestido exatamente como antes, exceto quanto a um largo lenço de pescoço, de seda vermelha e verde, onde espetara um grande diamante em forma de besouro e mais um anel com outro diamante em um dedo sujo da sua grossa mão direita.

A três passos da mesa parou Liébedíev, os outros, como já disse, foram entrando gradualmente na sala de visitas. Kátia e Pácha, criadas de Nastássia Filíppovna, muito aflitas e nervosas. puseram-se a olhar pela nesga da cortina repuxada.

- Que é isto? - perguntou Nastássia Filíppovna, medindo Rogójin com uma viva atenção e olhando depois de soslaio para o embrulho.

- Cem mil rublos! - balbuciou Rogójin.

- Oh! Então manteve a sua palavra? Que homem! Sente-se, faça o favor, aqui nesta cadeira; tenho uma coisa a lhe dizer, ainda. Que gente é essa? A mesma? Bem, faça-os entrar e sentar. Sirvam-se deste sofá aqui e daquele outro acolá. Ali estão duas poltronas vagas. Que é que eles têm? Não estão querendo?

É que alguns estavam completamente envergonhados e, recuando, procuravam lugar na outra sala. Outros ficaram, sentando onde lhes foi indicado, a certa distância da mesa, os restantes ficando pelos cantos. Se um ou outro quis ir embora, a maioria, porém, recuperou a audácia com incrível rapidez.

Rogójin, que obedecera sentando onde lhe fora indicado, achou melhor se levantar de vez, decerto para poder distinguir e examinar os convidados. Viu Gánia, sorriu maldosamente e lhe sussurrou “Olá!” Fitou o general e Tótskii apaticamente sem interesse nem inferioridade Mas quando deu com o príncipe ao lado de Nastássia Filíppovna, admirouse tanto que levou muito tempo para poder despregar os olhos perplexos sem compreender aquela presença. Cuidou até quefosse delírio seu, conseqüência não só das violentas emoções desse dia inteiro como do cansaço da noite anterior. havendo mais de quarenta e oito horas que não dormia.

Mais eis que Nastássia Filíppovna se dirigiu aos convidados em uma espécie de desafio febril e vivaz:

- Amigos, estão vendo este embrulho aqui em cima da mesa? São cem mil rublos! Cem mil rublos embrulhados nesse pacote imundo. Hoje de tarde este homem gritou como um possesso que haveria de me trazer cem mil rublos esta noite! E estive esperando todo este tempo. Decidiu arrematarme em leilão.

Começou com um lance de dezoito mil, depois passou de um salto, inopinadamente, para quarenta mil e depois até àqueles cem mil que ali estão.

Manteve sua palavra. Oh! Como ele está lívido!... Deu-se isso em casa de Gánia, na tarde de hoje. Tendo eu ido em visita à mãe dele no meu futuro lar, a irmã vociferou nas minhas faces: “Por que não expulsam daqui essa criatura. E cuspiu na cara do irmão. É uma rapariga de caráter!

- Nastássia Filíppovna! - advertiua O General Epantchín que estava começando a compreender a situação.

- Que é, general? Acha impróprio? Vamos deixar de lérias! Preferia o senhor que eu me sentasse no camarote do Teatro Francês como um inacessível modelo de virtude? Que eu corresse como a corça selvagem de todos quantos me andaram perseguindo nestes últimos cinco anos, e desfrutasse ares de soberba inocência, tudo como se eu fosse uma criatura imbecil? Aqui na presença de todos, ele veio e depôs cem mil rublos sobre a mesa, após estes meus cinco anos de inocência! E não há dúvida que trouxeram tróicas que estão lá fora me esperando. Ele me avalia em cem mil rublos Gánia, pois não é que você ainda está com ar de estar zangado comigo? Teria você imaginado, realmente, que eu poderia fazer parte de sua família? Eu, a mulher de Rogójin? Que foi que o príncipe disse ainda agora?

- Eu não disse que éreis de Rogójin! Vós não pertenceis a Rogójin! - proferiu o Príncipe com uma voz entrecortada.

- Nastássia Filíppovna, deixa disso! Deixa disso, querida! -disse Dária Aleksiéievna, não se podendo conter. - Se te agoniam tanto, então larga-os! Mas como tens coragem, realmente, de ir-te com um sujeito como esse, mesmo por cem mil rublos? Concordo que cem mil rublos é alguma coisa! Fica com os cem mil rublos e manda-o às favas! É assim que se trata essa canalha! Ah! Estivesse eu em teu lugar, punha-os todos na rua!... Palavra de honra.

Dária Aleksiéievna estava positivamente irada. Ela que era uma mulher de natural calma, conquanto muito impressionável.

- Não te encolerizes, Dária Aleksiéievna! - riu para ela Nastássia Filíppovna.

- Pois se eu, que sou eu, não falei com cólera! Zanguei-me porventura? Apenas não posso compreender que bobagem me deu de querer entrar para a família daquele ali. Vi a mãe dele. Beijei a mão dela. E os artifícios que empreguei esta tarde em seu apartamento, Gánetchka, foram de propósito para ver pela última vez até onde você podia chegar. E, em verdade, você me surpreendeu. Eu contava com um arranjo qualquer, mas não este. Casar-se-ia você comigo, sabendo que aquele acolá me tinha dado pérolas quase às vésperas do nosso casamento, e que eu as aceitara? Ora, em sua casa, e na presença de sua mãe e de sua irmã, esse outro aqui esteve me pondo em leilão. E ainda assim, depois disso, você pôde vir até aqui para contratar casamento e esteve até para trazer sua irmã!? Teria razão Rogójin quando disse que você, por causa de três rublos, andaria de quatro patas até o Vassílievskii?

- Oh! Se ia... - reafirmou Rogójin, subitamente, com um ar quieto, mas onde havia profunda convicção.

- Eu chegaria a compreender, se você estivesse na penúria, mas contaram-me que você ganha um bom salário. E, a par da desgraça e de tudo o mais, pensar em levar uma mulher que você odeia para dentro de sua casa (sim, pois você me odeia, eu sei disso!). Sim, agora acredito que um homem como você até mataria qualquer pessoa por dinheiro! Todo o mundo está possuído hoje em dia a um tal grau, tão dominados todos pela idéia do dinheiro que parece que enlouqueceram. Desde a adolescência já começam a ser usurários! Um homem envolve em seda a sua navalha para que não deslize, vem por detrás de um amigo e lhe corta a garganta como a um carneiro, conforme li ultimamente. Afinal, você é um sujeito desavergonhado. Eu sou uma mulher desavergonhada, mas você é pior! Quanto a este porta-ramalhetes, nem digo nada... Mas é a senhora? A Senhora, Nastássia Filíppovna?! - E o General Epantchín bateu com as mãos uma na outra, verdadeiramente estupefato - A senhora, tão fina, com idéias tão delicadas! E agora. Isso é linguagem? Isso são expressões?

- Eu agora estou embriagada! General - e Nastássia FilípPovna deu uma gargalhada -, quero dar o meu salto! Hoje, o meu dia Onomástico, meu dia de festa! Como estive esperando isto? Dária Aleksiéievna estás vendo este porta-ramalhete? Est Monsieur aux camélias? Aquele que está ali, rindo de nós!..

- Eu não estou rindo, Nastássia Filíppóvna, Eu estou somente escutando com a maior atenção - protestou Tótskii, com dignidade. - Por que estive eu a atormentá lo durante estes últimos cinco anos não consentindo que se fosse? Valia ele isso? Ele é justamente o que devia ser... Provavelmente julga que o tratei muito mal. Deu-me educação, manteve me como uma condessa e o dinheiro, o dinheiro que despendeu comigo!. Outrora procuroume um respeitável marido, lá no campo, e agora, aqui, depois Gánetchka. E, podem acreditar não vivi com ele estes cinco anos últimos, e ainda por cima lhe tomei dinheiro e cuidei que tinha direito a isso! Fui tão completamente perdida, em todo o sentido! Dir-me-ão: “Fique com os cem mil rublos e livre-se dele; é um sujeito horrível”. E realmente ele é horrível... Eu podia ter me casado há muito tempo, não com Gánia, mas com qualquer outro. Verdade é que isso também teria sido horrível. E porque passei cinco anos com minha angústia? E - será que acreditarão? - há quatro anos passados cheguei a pensar que seria melhor casar-me com Afanássii Ivánovitch sem demora! Pensei nisso sem nenhum despeito. Eu tinha toda sorte de idéias na cabeça naquela época e, querem saber? Conseguiria fazê-lo resolver-se.

Sentia-se propenso a isso, embora vocês julguem impossível. Estava mentindo, acredito mas quando uma coisa se lhe mete na cabeça não sabe refrear-se. Mas depois, louvado Seja Deus, verifiquei que esse homem não valia a minha angústia! Repentinamente senti tal decepção que, se ele tivesse me proposto eu me negaria a casarme com ele. Durante cinco anos estive representando esta farsa. Não, melhor é estar em meu lugar adequado, nas ruas! Prefiro uma orgia com Rogójin ou ir empregar-me amanhã como lavadeira. Sim, pois nada tenho de meu. Ao me ir, desistirei de tudo isto, largo aqui até os meus trapos. E quem há de querer uma mulher sem nada? Perguntai ali a Gánia se me quereria! Ora, nem mesmo Ferdichtchénko!

- Talvez Ferdichtchénko não quisesse, Nastássia Filíppovna. Eu sou uma cândida alminha! - atalhou Ferdichtchénko. - Mas de um eu sei que a quereria. O príncipe a tomaria. A senhora está aí a lastimar-se, mas olhe um pouco para o príncipe. Faça como eu que o estou espiando há uma porção de tempo.

Nastássia Filíppovna voltou-se com curiosidade para o príncipe.

- Isso é verdade? - perguntou-lhe.

- É verdade - balbuciou o príncipe.

- Aceitar-me-ia, como estou, sem nada?

- Aceitaria, Nastássia Filíppovna.

- A coisa muda de figura - murmurou o general. - Já contava com isso.

O príncipe olhou de um modo sério, triste e penetrante para o rosto de Nastássía Filíppovna, que o continuava estudando.

- Aqui está um achado! - disse ela, voltando-se inesperadamente para Dária Aleksiéievna. - E simplesmente por bondade de coração. Conheço-o. Encontrei um benfeitor! Mas talvez seja verdade o que dizem a respeito dele, que é um... “não lá muito...” Mas, com que vai o senhor viver, se está assim tão apaixonado? O senhor, um príncipe, está pronto a casar-se com a mulher de Rogójin?

- Vou casar-me com uma mulher honesta, Nastássia Filíppovna, e não com a mulher de Rogójin - explicou o príncipe.

- Acha então que sou uma mulher honesta?

- Sim, quero dizer isso.

- Ora, todos esses gestos... são de romances! Fantasias fora da moda, príncipe inefável. Hoje em dia o mundo já se tornou bem mais sábio. E como pode casar-se, príncipe? Oh! Precisa de uma aia, bem mais do que de uma consorte!

O príncipe levantou-se e, com voz trêmula, e tímida, mas com ar de absoluta convicção, pronunciou estas palavras:

- Nada sei sobre isso, Nastássia Filíppovna. Nada vi da vida: vós, quanto a isto, tendes razão. Mas considero que vós é que me daríeis honra, e não eu, a vós. Eu nada sou; mas tendes sofrido tanto, que sairdes desse inferno que tem sido vossa existência já é imenso! Por que então vos envergonhais, prontificando-vos a ir com Rogójin? Isso é delírio, febre... Devolvestes ao Sr. Tótskii setenta e cinco mil rublos e acrescentastes que desistis de tudo quanto se acha nesta casa. Quem aqui há que faria uma tal coisa? Nastássia Filíppovna... eu... eu vos amo. Amar-vos-ei até a morte. Por vós.., morrerei, Nastássia Filíppovna. Não consentirei que digam uma palavra sobre vós. Sois pobre, mas que tem isso? Trabalharei. Nastássia Filíppovna trabalharei...

As últimas palavras foram cobertas por uma risada mal sufocada de Ferdichtchénko e de Liébediev. O próprio general emitiu uma espécie de bufo desaprovatório. Ptítsin e Tótskii a custo continham um sorriso. Os demais estavam ofegantes por causa da própria estupefação.

- Mas talvez venhamos a ser ricos e não pobres, Nastássia Filíppovna. Riquíssimos - prosseguiu o Príncipe no mesmo tom de antes. - Ainda não me certifiquei e lastimo que durante o dia não tivesse tido tempo de providenciar a respeito da carta que recebi de Petersburgo, quando ainda na Suíça, carta que tenho aqui comigo, assinada pelo Sr. Salázkin, na qual ele me comunica que devo receber uma grande herança. Aqui está a carta...

E o príncipe, com efeito, desembaraçou, da papelada do bolso, uma carta.

- Mas é de estarrecer! - murmurou o general. - Isto aqui não passa de um perfeito hospício de alienados.

Durante alguns segundos reinou silêncio total.

- Está o senhor dizendo, príncipe, que se trata de uma carta, essa aí, da parte de Salázkin? – perguntou Ptítsin. - É um homem muito conhecido nos meios bancários. Trata-se de um advogado muito Sério e se de fato lhe mandou essa notícia, o senhor pode confiar completamente que é verdade. Acontece, por acaso, que conheço a letra dele, pois tenho tido negócios com ele, ultimamente... Consente que eu olhe, só para examinar a letra?

Com a mão a tremer, o Príncipe estendeu a carta, sem proferir palavra.

- Esta agora!... Esta agora! - exclamou o general, olhando para todos, como fulminado.

- Será que se trata realmente de uma herança?

Ninguém tirava os olhos de Ptítsin que percorria as linhas da carta com olhos de perito. A Curiosidade geral recebera um novo e violento estímulo. Ferdichtchénko não conseguia ficar imóvel. Rogójin olhava cheio de espanto e ansiedade rondando os olhos do Príncipe para Ptítsin, e vice-versa.

Dária Aleksiéievna parecia suspensa no ar, tamanha era a sua Surpresa misturada de esperança. O próprio Liébediev não pôde deixar de sair do seu canto e, inclinando de viés, espiava a carta por cima do ombro de Ptítsin; mas às pressas e com medo, como quem pressente e pretende evitar uma pancada na cabeça por causa da ousadia.

 

- É autêntica - anunciou finalmente Ptítsin. dobrando a carta e a devolvendo ao príncipe.

- Sua tia deixou um testamento em ordem, mercê do qual o senhor se empossará de uma enorme fortuna, sem a menor dificuldade.

- Não pode ser...! - E o brado do general soou como um tiro de pistola.

Todos ficaram outra vez boquiabertos de assombro.

Ptítsin explicou então, dirigindo-se mais ao general do que aos circunstantes. que, segundo os termos da carta, o príncipe perdera. havia cerca de cinco meses, uma tia que o não chegara a conhecer pessoalmente, irmã mais velha de sua mãe e filha de um comerciante de Moscou, membro da terceira ghilda ou categoria, um tal Papúchin que morrera na pobreza após uma falência. Mas que esse Papúchin tinha um irmão que lhe sobrevivera ainda bastante tempo. Tratava-se de um rico comerciante, conhecidíssimo que, tendo perdido no mesmo mês os dois filhos, vira piorado com esse desgosto o seu já péssimo estado de saúde, morrendo logo a seguir. Viúvo, não tinha no mundo outro herdeiro a não ser a sobrinha, a tia do príncipe, mulher então totalmente pobre, sem nada de seu. Mas que a coitada herdara quando a bem dizer já estava também para morrer, vítima de uma hidropisia; tivera, porém, tempo e modo de, pensando no sobrinho distante, fazer testamento, servindo-se em tal conjuntura do advogado Salázkin. Todavia, nem o príncipe nem o médico a cujo cargo ele estava na Suíça, se tinham decidido a esperar pela notificação oficial. O príncipe, uma vez com a comunicação de Salázkin em mãos, resolvera pôr-se a caminho a fim de entabular averiguações.

- Desde já lhe posso assegurar, e acho que isso chega - concluiu Ptítsin, voltando-se de novo para o príncipe -, que o caso é verdadeiro e mais do que exato no que respeita à fortuna, e que tudo quanto Salázkin lhe participa é autentico e incontestável, o que equivale ajá estar o senhor com o dinheiro no bolso. Congratulome com o senhor, meu caro príncipe! Trata-se de um milhão e meio, ou possivelmente mais.

Papúchin era um comerciante riquíssimo.

- Viva o último dos príncipes Míchkin - berrou Ferdichtchénko.

- Hurra! - rosnou Liébediev com sua voz de bêbado.

“Pobrezinho! E não é que lhe emprestei esta manhã vinte e cinco rublos? Ah! Ah! Ah! Um conto de fadas, é o que isto é!” -raciocinou o general quase estupidificado de assombro.

- Bem, congratulo-me com o senhor, congratulo-me com o senhor! -acrescentou em voz alta.

E, levantando-se foi abraçar o príncipe. Os demais também se levantaram, rodeando o príncipe. Mesmo aqueles que se tinham retirado para detrás da cortina reentraram na sala de visitas. O falatório e as exclamações produziam algazarras, sendo que até se ouviu quem bradasse por champanha. O rebuliço excitava a todos, a ponto de por um Instante esquecerem Nastássia Filíppovna e o fato de que eram seus convidados. Mas, pouco a pouco e a todos ao mesmo tempo, ocorreu ter ele acabado de lhe fazer uma oferta de casamento. A situação agora se lhe apresentava por seu absurdo patético, três vezes mais extraordinAria do que antes. Assombrado, Tótskiiencolheu os ombros e foi a única pessoa que não se pôs de pé, tendo ficado como estava, enquanto todo o mundo começou a se aglomerar em desordem ao redor da mesa.

Houve, mais tarde, quem asseverasse que fora naquele momento que Nastássia Filíppovna ficara louca.

Ainda estava sentada e começou a olhar à sua volta com um estranho e espantado olhar, como se não atinasse e estivesse tentando apreender o que acontecera. Depois, subitamente, se virou para o Príncipe e, com o cenho fechado e ameaçador, o fixou com atenção. Mas isso durou pouco: talvez cuidasse que tudo era brincadeira e mofa. Mas a expressão do príncipe acabou por certificá-la. Refletiu um Pouco; depois, sorriu de um modo ainda vago, como sem saber por quê.

- Então, sou uma princesa de verdade! - ciciou para consigo mesma, como se estivesse zombando E, acontecendo olhar para Dária Aleksiéievna, deu uma gargalhada - Que fim surpreendente... nunca esperaría

Mas por que estão todos de pé, amigos? Por favor, sentem-se!

Congratulem-se comigo e com o príncipe! Quem foi que pediu champanha? Ferdichtchénko trate disso. Kátia, Pácha, venham cá! (Descobrira repentínamente as criadas lá na entrada.) Sabem vocês duas que eu vou me casar? Pois ouçam. Aqui com o príncipe. Ele tem um milhão e meio. É o Príncipe Míchkin e vai casar comigo.

E olhe que é um bom partido, mátuchka. Calhou bem. Não perca a ocasião.

O conselho era de Dária Aleksiéievna, tremendamente comovida  pelo que se tinha passado.

- Sente-se aqui ao meu lado, príncipe - chamou, Nastássia Filíppovna

- Isto, assim. Ah! Já estão trazendo champanha. Congratulemo-nos, amigos!

Hurra! - gritaram numerosas vozes.

Muitos se agruparam logo em volta das garrafas e entre eles estavam quase todos os companheiros de Rogójin. Mas embora soltassem exclamações e não estivessem dispostos a parar tão cedo, ainda assim alguns houve que, apesar da estranheza das circunstâncias e do ambiente, perceberam que a situação tinha mudado.

Outros estavam desnorteados e esperavam com desconfiança. Mas houve quem sussurrou que não havia nada de mais naquilo, pois os príncipes estavam dando, ultimamente, para se casarem com não importava que classe de mulheres, até mesmo com raparigas de campos de ciganos. Rogójin, porém, separado de todos, estarrecido, tinha a cara contraída em um sorriso fixo enigmático.

- Príncipe, meu caro amigo, pense no que vai fazer - murmurou o general com apreensão, aproximando-se furtivamente do príncipe e puxando-o pela manga.

Nastássia Filíppovna notou isso e deu nova gargalhada.

- Não, general! Agora sou uma princesa, está ouvindo? E o príncipe não permitirá que eu seja insultada.

Afanássii Ivánovitch. congratule-se comigo, você também. Agora posso sentar-me ao lado de sua esposa, esteja ela onde estiver. Que acha, não é uma pechincha, um marido como este? Um milhão e meio e um príncipe e ainda por cima um idiota, dizem eles. Que pode haver de melhor? A verdadeira vida está começando agora, para mim. Você veio muito atrasado, Rogójin. Leve outra vez o seu dinheiro. Vou me casar com o príncipe e sou mais rica do que você!

Rogójin, porém, resolveu tomar conta da situação. Com uma expressão de indizível sofrimento na cara juntou as mãos, e um grunhido partiu do seu peito.

- Largue-a! - gritou para o príncipe.

Houve gargalhadas.

- Largá-la para quem? Para você? - perguntou Dária Aleksiéievna, de modo triunfante.

- Estúpido, atreve-se a arrojar o dinheiro dessa forma sobre a mesa! Quem vai se casar com ela é o príncipe! Você entrou aqui só para fazer estardalhaço!

- Eu também quero casar com ela! Quero casar com ela neste minuto. Dou o que pedir!

- Saia daí, seu bêbado de rua! Você devia mais era ser jogado pela janela! - exprobrava-o Dária

Aleksiéievna, indignadíssima.

As gargalhadas agora eram mais altas do que antes.

- Está ouvindo, príncipe? - perguntou Nastássia Filíppovna, voltando-se.

- É assim que um mujique arrebata a noiva!

- É porque bebeu muito! E é sinal de um grande amor!

- E não se sentirá envergonhado depois, príncipe, ao se lembrar de que sua noiva quase saiu com Rogójin?

- Vós estáveis com febre e estais ainda agora em delírio.

- E não se sentirá enrubescer quando lhe disserem depois que sua mulher viveu com Tótskii no papel de amante?

- Por que me hei de envergonhar?... Não foi vontade vossa ter estado com Tótskii.

- E nunca me exprobrará por isso?

- Nunca.

- Olhe lá... Não responda pela vida inteira.

- Nastássia Filíppovna - disse o príncipe, vagarosamente e como se estivesse compadecido dela - acabei de dizer-vos ainda agora que tomaria vosso consentimento como uma honra conferida a mim e não a vós. Sorristes àquelas palavras e houve quem risse de nós. Pode ser que eu me tenha expressado de forma ridícula e que me tenha tornado ridículo, eu próprio! Mas penso que sempre entendi o sentido de honra e, portanto, estou certo de que o que eu disse é verdade. Vós vos quisestes arruinar ainda agora irrevogavelmente. E nunca vos perdoaríeis por isso, depois. Mas vós não mereceis censura alguma. Vossa vida não pode ser arruinada assim. Que importa que Rogójin tenha aparecido e que Gavríl Ardaliónovitch vos tenha ludibriado? Por que haveis de persistir nessa obstinação? Repito-vos que quase ninguém faria o que fizestes. Quanto à vossa decisão de vos irdes com Rogójin, estáveis doente quando vos acudiu esse plano. E doente ainda estais; devíeis ir para a cama. Se tivésseis saído com Rogójin, no dia seguinte iríeis ser até lavadeira; não suportaríeis viver com ele. Sois altiva, Nastássia Filíppovna; talvez sejais tão infeliz que realmente vos cuidais digna de censura. Precisais bem quem olhe por vós, Nastássia Filíppovna. Eu olharei por vós. Ainda esta manhã, ao ver o vosso retrato, senti uma coisa assim como se vos estivesse reconhecendo, como se já vos tivesse socorrido... Respeitar-vos-ei toda a minha vida, Nastássia Filíppovna.

O príncipe acabou. E tinha o ar de se estar lembrando de uma coisa súbita. Enrubesceu e então teve consciência da classe e gente em cuja presença dissera aquilo.

Ptítsin abaixou a cabeça, humilhado. Tótskii pensou consigo mesmo: “É um idiota, mas sabe que a adulação é o melhor meio de prender uma pessoa, e faz isso por instinto”. O príncipe notou em um canto também, os olhos de Gánia, fulgurando para ele como se o quisessem consumir.

- Que grande coração! - pronunciou Dária Aleksiéievna e mocionadíssima.

- Um homem fino, mas votado à ruína - ciciou o general Tótskii, tomou o chapéu e estava para levantar-se e esgueirar-se, olhando porém de esguelha para o general, fazendo-o compreender que deviam sair juntos.

- Obrigada, príncipe. Nunca ninguém me falou deste modo - disse Nastássia Filíppovna.

- Tentaram sempre comprar-me, mas nenhum homem decente pensou em se casar comigo. Ouviu Afanássii Ivánovitch? Que acha de tudo isso que o príncipe disse? Foi um pouco impróprio, não acha?... Rogójin, não se vá ainda. Perdão, pensei que ia indo. Quem sabe se, no fim de tudo, não é com você que me irei? Para onde pensava você levar-me?

- Para Ekaterinhóf! - informou Liébediev, lá do seu canto. Rogójin contentou-se em pasmar, contemplando-a com os olhos muito esgazeados, como se não acreditasse em seus sentidos de ver e ouvir. Jazia completamente zonzo, como se tivesse levado uma pancada na cabeça.

- Que é que estás pensando, querida? Qual! Estás mesmo doente! Perdeste a cabeça? - exclamou Dária Aleksiéievna, preodupadíssima.

- Pensaste que fosse verdade? - riu Nastássia Filíppovna. levantando-se do sofá.

- Arruinar uma criança como esta aqui! Isso seria papel para Afanássii Ivánovitch: ele gosta de crianças. Venha, Rogójin. O dinheiro está pronto? Lá isso de querer casar comigo, não! Mesmo assim, passe o dinheiro. Talvez mesmo não me case com você. Pensou que casando comigo ficaria com o dinheiro? Teve tal idéia, hein? Eu sou uma desavergonhada rameira! Fui a concubina de Tótskii... Agora, príncipe, case mas é com Agláia Epantchiná! Se casasse comigo, teria Ferdichtchénko, pelo resto da vida, a apontá-lo com o dedo, escarnecendo de sua coragem. Que não tenha medo, príncipe, compreendo, mas eu terei... Sim, teria medo de arruiná-lo e de vir a ser exprobrada, depois, por isso.

Quanto a dizer-me que lhe concedo uma honra, ali está Tótskii que. a tal respeito, lhe pode dizer alguma coisa. E você, Gánia, saiba que perdeu também Agláia Ivánovna. Não tivesse regateado com ela e ela casaria com você. Homens há que são assim, ficam sem optar. quando urge escolher de uma vez para sempre: ou mulheres à-toa. ou mulheres direitas. Do contrário sai barafunda. Olhem só: o general está de boca aberta, muito admirado!

- Mas isto é Sodoma... Sodoma! - apostrofou o general encolhendo os ombros. Não tardou que se levantasse do sofá. Todos os outros se ergueram também.

Nastássia Filíppovna chegara ao paroxismo da exaltação.

- Será possível? - soluçou o príncipe, torcendo as mãos.

- Cuidou então que podia ser? Mesmo sendo uma desavergonhada, também mantenho um certo orgulho. Disse-me, príncipe. esta noite, que eu era uma perfeição. Admirável perfeição sou eu. não resta dúvida, que apenas para me vangloriar de espezinhar um milhão e um título de princesa me arremesso em um esgoto! Que espécie de esposa lhe poderia eu ser, afinal de contas? Olhe, Afanássii Ivánovitch, atirei fora, de fato, um milhão, reparou bem? Já vê que se enganou terrivelmente ao pensar que eu me casaria de bom grado com Gavril Ardaliónovitch por causa de setenta e cinco mil rublos! Ora, Afanássii Ivánovitch, guarde os seus setenta e cinco mil rublos. Arre, você nem sequer chegou a fazer uma oferta de cem mil.

Rogójin subiu o lance. Pobre do Gánia, também. Mas não o hei de esquecer. Confortá-lo-ei depois, tenho cá uma idéia. Depois, depois... Agora quero um pouco de ar, de estúrdia! Sou uma mulher da rua! E dizer-se que estive durante dez anos em uma prisão! Mas agora vou gozar a vida. Vamos, Rogójin, está preparado?  Então vamos!

- Vamos!!! - urrou Rogójin, quase em delírio, tamanha era a sua alegria.

- Olá, vocês todos, vinho! Ufa!...

- Mande buscar vinho, eu também bebo. E música? Não há música, então?

- Sim, sim, haverá vinho! E música! Chegue pra lá! - berrou freneticamente ao ver Dária Aleksiéíevna se aproximar de Nastássia Filíppovna. - Ela é minha, muito minha! Chega. E tu, ó minha soberana...

Cambaleava de alegria. Andava em redor de Nastássia Filíppovna, gritando para toda gente.

- Que ninguém se aproxime dela!

Toda aquela sua espécie de escolta invadiu a sala. Uns bebiam outros gritavam, e todos riam, no auge da excitação, muito à vontade Ferdichtchénko tentou confraternizar com eles. O General Epantchín e Tótskii trataram de efetuar uma retirada precipitada. Gánia já estava também com o chapéu na mão, mas permanecia ainda sempre calado, chumbado ao chão, embora sentisse que devia fugir da cena que defrontava.

- Não se aproximem! - grunhia Rogójin.

- Por que está você se esgoelando? - dizia-lhe Nastássia Filíppovna, às gargalhadas.

- Quem manda aqui ainda sou eu. Se me der na veneta ainda o ponho para fora aos pontapés! E ainda está com o dinheiro, hein? Tire a mão desse embrulho aí em cima da mesa. Dê-mo. Neste pacote tem mesmo cem mil rublos? Credo que embrulho horrendo! Mas que é que tu queres, Dária Aleksiéievna? Achavas então que eu deveria me casar com o outro. com o príncipe? (Apontava para Míchkin.) Querias que eu me arruinasse com ele? O coitado necessita é de uma aia! Como pode ele casar? Ali o general bem podia ser a ama dele. Repara: não o quer largar. Olhe, príncipe, eu, sua ex-noiva, agarrei o dinheiro. Sou ou não sou uma mulher ordinária? E era com uma mulher assim, príncipe, que desejava casar? Mas... que é isso? Está... chorando?! Ficou triste? Ora, ria como eu.

- E ao  dar este conselho não pôde Nastássia Filíppovna evitar que duas grandes lágrimas lhe deslizassem pelo rosto abaixo. - Confie no tempo, que tudo faz passar. É preferível refletir dobrado agora do que mais tarde sem parar... Mas vocês todos deram agora para chorar? Pois não que Kátia também está chorando? Que é isso, Kátia? Vou deixar um presente para você e outro para Pácha. Não pensem que me esqueço de vocês, não. E agora, Kátia, volte para os seus. Fiz uma rapariga honesta como você perder o seu tempo com uma mulher ordinária como eu... Pois, príncipe, a falar verdade, é melhor assim, muito melhor. Mais tarde se arrependeria, príncipe, e não seríamos felizes. Não adianta jurar; sei que me desprezaria! E como tudo viria a ser estúpido, depois... Não, mais vale nos separarmos como amigos, pois não daria certo. Teria sido um sonho, nada mais. Não sonhei eu com príncipe? Claro que sonhei! Sim, sonhei, há muito tempo, quando morei solitária durante cinco anos, naquela casa de campo em plena estepe. Outra coisa não fazia eu senão pensar e sonhar... sonhar e pensar. Imaginava sempre alguém como o meu bondoso Príncipe Míchkin, correto e direito, e ao mesmo tempo tão ingênuo que não cessaria de proclamar diante de toda gente: “Por que censurar-te, Nastássia FiLíppovna? Em quê? Por quê? Eu... que te adoro!” Era hábito meu devanear assim. E tanto, tanto... que, quase perdi o juízo. E eis que vinha sempre aquele homem, quedava-se dois meses por ano, e me trazia o quê? Vergonha, desonra corrupção, degradação, posto o que, se ia embora. Como podia eu suportar aquilo? Milhares de vezes me vinha a tentação de me atirar na represa: mas tão pobre criatura era eu que nem coragem para isso me sobrava... Mas agora... Rogójin, você está pronto. Então vamos!!!

- Se estou! Não se aproximem!

- Estamos prontos! - Várias vozes fizeram coro.

E as mesmas vozes gritaram: - As tróicas estão esperando. Não ouvem os guizos?...

Nastássia Filíppovna abriu o pacote.

- Gánia, tive uma idéia formidável. Quero indenizá-lo: por que haveria você de perder tudo? Rogójin, será verdade mesmo que ele, por causa de três rublos, andaria de gatinhas até ao Vassílievskii?

- Que dúvida!

- Então escute, Gánia: quero ver dentro da sua alma, pela última vez. Você andou me torturando estes três últimos meses, e agora éa minha vez. Está vendo este rolo? Dentro dele tem cem mil rublos. Pois eu vou jogá-lo no fogo, diante de todos que, assim, serão testemunhas. Logo a seguir atiço o fogo; e então você, mas sem calçar as luvas, com as mãos nuas, apenas com as mangas arregaçadas, tirará o pacote para fora da lareira. Que mal faz que você chamusque as pontas dos dedos, já que se trata de cem mil rublos, está ouvindo bem, cem mil rublos? Mas não vá demorar em tirar. Admirarei sua habilidade vendo-o introduzir as mãos no fogo para salvar o dinheiro. E todos ficam sendo testemunhas de que eu disse que o pacote ficará sendo seu. E se você não o salvar então ele pegará fogo e se queimará todinho, pois não consentirei que mais ninguém tente tirá-lo. Agora, recuem todos. O dinheiro é meu. É a paga de uma noite com Rogójin. O dinheiro é, ou não é meu, Rogójin?

- Se é, minha alegria! Se é, minha rainha!

- Então recuem todos. Eu faço o que quero. Não se metam! Ferdichtchénko, atice o fogo. Quero  labaredas bem vivas e altas. Assim!

- Nastássia Filíppovna, minhas mãos não querem obedecer! - confessou Ferdichtchénko, sucumbido.

- Há, assim é que se faz! - exclamou Nastássia Filíppovna. - Está vendo? - Empunhou as tenazes, ajeitou duas achas de lenha bem acesas. Mal o fogo se abriu em labaredas, jogou o pacot lá para dentro.

Partiu de todos um grito que se continuou em um alarido. Uns esbarravam nos outros, querendo olhar. E exclamavam.

- Ela não está no seu juízo ! Enlouqueceu.

- Não deveríamos nós... não deveríamos nós segurá-la? - sussurrou o general para Ptítsin. trêmulo, com o rosto branco que nem um lenço, sem poder tirar os olhos do rolo prestes a inflamar.

- Está louca! Quem não vê que ela está louca, teimava o general, o que fez Afanássii Ivánovitch, cuja lividez se acentuava responder:

- Quanta vez não lhe disse eu que ela era uma mulher e excêntrica?

- Mas, vamos e venhamos, são cem mil rublos!

- Deus do céu! - ouviu-se de todos os lados em uníssono. E todos  se aglomeraram à frente do fogão. empurrando-se uns aos outros a fim  de ver bem, soltando exclamações. Houve quem subisse nas cadeiras  para enxergar melhor por sobre as cabeças dos que tapavam a cena.

Dária Aleksiéievna correu para a outra sala para confabular com Kátia e  Pácha, todas três muito assustadas. A bela alemã sumiu.

- Mátuchka! Minha rainha! Onipotente dama! - bradou Liébediev, arremessando-se de joelhos diante de Nastássia Filíppovna, com as mãos na direção do fogo. Mátuchka, insigne mátuchka! São cem mil! Cem mil! Eu vi! Ordene-me que as retire. Meter-me-ei lá dentro! Encaixo esta minha cabeça cheia de cãs lá dentro e... Minha mulher está doente, morrendo em uma cama. Tenho treze filhos, todos órfãos já! Enterrei meu pai não há uma semana, não tenho nem o que comer! Nastássia Filíppovna!

E tentou aproximar-se do fogo.

- Saia daí! - gritou-lhe Nastássia Filíppovna, afastando-o. - Recuem todos. Gánia, como é, você não se mexe? Está com vergonha? Tire o dinheiro lá de dentro, não vê que a sua sorte está ali?

Mas Gánia naquele dia já sofrera demais, e não estava preparado para mais esta prova última, ainda por cima tão inopinada. O grupo se bipartiu diante dele, deixando-o face a face com Nastássia Filíppovna, a menos de três passos. Perto do fogão, ela esperava atenta, olhando-o com olhos ardentes. Mudo, de braços cruzados as luvas e o chapéu nas mãos, com seu fraque, ele estacara, fitando o fogo. Um sorriso de demente se perdia em seu rosto branco que nem giz. Embora não conseguisse despregar a vista do fogo, do maço de notas quase a se inflamar, qualquer coisa nova e diferente parecia se ter inserido no vão da sua alma, dando-lhe ânimo para enfrentar a prova. Não se mexeu do seu lugar, ficando mais do que evidente perante todos que não tiraria o dinheiro.

- Pense bem no que está fazendo! Se o dinheiro pega fogo, esta gente aqui o estraçalha - advertia-o Nastássia

Filíppovna. - E você se dana todo. Olhe que estou falando sério.

O  fogo que no começo se avivara em labaredas saindo de duas achas rubras, ficou um pouco abafado quando o pacote caiu no seu centro. Mas uma pequenina labareda azul, uma língua de chama delgada e comprida, deu em serpentear lambendo o pacote. Depois o fogo subiu, envolveu-o pelos contornos e repentinamente o papel do maço se inflamou, produzindo um clarão vivo. Todos emitiram um suspiro ofegante.

- Senhora! - vociferou de novo Liébediev arremetendo: mas Rogójin o agarrou e puxou violentamente para trás. E enquanto fazia isso, e depois, seu olhar estatelado se fixava cada vez mais em Nastássia Filíppovna. Era-lhe impossível arredar os olhos daquele semblante. O prazer embebedava-o: estava no sétimo céu.

- Mas é uma perfeita rainha! - não cessava de repetir para quantos lhe estavam perto revezando-se. - Isso é que é atitude! Isso é que é ter raça! Qual de vocês, seus batedores de carteira, faria uma coisa destas? Qual?!...

O príncipe assistia, calado e soturno.

-  Por uma notinha de mil, eu tirava o pacote todo com os meus dentes! - propôs Ferdichtchénko.

- Também eu, também eu tirava com os dentes! - grunhiu o hércules dos munhecaços, lá da retaguarda do grupo, sinceramente alvoroçado. - Raios me partam! Está queimando! O fogo dá cabo do dinheiro já - gritou, vendo a labareda. E todos gritaram a uma voz, investindo para o fogão: - Está pegando fogo! Está pegando fogo!

-  Gánia, não finja! Pela última vez lhe digo: Não finja!

-  Que diabo, tire logo de uma vez! - rugiu Ferdichtchénko, avançando para Gánia em ímpeto nervoso e o puxando pela manga. -  Tire logo de uma vez, seu bestalhão. Está pegando fogo, não seja cretino!

Gánia desvencilhou-se violentamente de Ferdichtchénko, voltou-se e enveredou para a porta de saída. Mal deu dois passos, cambaleou e caiu no assoalho, pesadamente.

- Desmaiou! - exclamaram.

- Mátuchka, está ardendo! - soluçou Liébediev.

- Vai se perder tudo! - ouvia-se de todos os lados. E, de onde estava,  Nastássia Filíppovna gritou para as criadas:

-  Kátia, Pácha, dêem-lhe um copo com água. um cálice de vodca!

Dito isto, ela mesma segurou as tenazes e com elas retirou o pacote. Todo o papel de fora do embrulho se havia queimado, estava em cinzas, mas se via imediatamente que o conteúdo estava intato. O pacote fora embrulhado em pelo menos três folhas dobradas de papel de jornal e as notas estavam perfeitas. Todos respiraram livremente. E foi Liébediev quem comentou com grande alívio:

-  Talvez uma pobre nota de mil esteja chamuscada, mas o resto está que é uma beleza!

-  É tudo dele! O maço inteiro é dele! Estão ouvindo, amigos! - declarou Nastássia Filíppovna, depondo o pacote de notas ao Lado de Gánia. - Ele não faria isso, agüentou a prova e portanto o seu amor-próprio ainda é maior do que o seu amor pelo dinheiro. Mas não importa, ele chegará a isso ainda. Por dinheiro, ele mataria alguém... Ei-lo que está voltando a si. General Iván Petróvitch. Dária Aleksiéievna, Kátia, Pácha, Rogójin, estão me ouvindo? As notas são para ele, são de Gánia. Dou-lhas para que faça com elas o que quiser, como recompensa por seja lá o que for! Digam-lhe isso! Deixem o pacote ali ao lado dele... Rogójin, marche! Príncipe, adeus! Saiba que foi o primeiro homem que encontrei em minha vida! Afanássii Ivánovitch, adeusinho, merci!

O bando dos sequazes de Rogójin atravessou os salões em direção à porta da frente, atrás de Rogójin e de Nastássia Filíppovna, fazendo estardalhaço, aos berros e exclamações. No vestíbulo as empregadas deram a ela a capa de peles; a cozinheira Márfa entrou correndo, vindo da cozinha. Nastássia Filíppovna beijou-as a todas.

- Mas como pode a senhora deixar-nos sozinhas, querida Matuchka! Mas para onde vai a senhora? E logo no seu aniversário ainda por cima, em um dia como o de hoje! perguntavam-lhe as raparigas, em prantos beijando-lhe as mãos.

- Para onde vou? Para a sarjeta, Kátia. Já não ouviste dizer que la é que é o meu lugar? Ou talvez vá ser lavadeira. Larguei Afanasse Ivanovitch. Saúda-o da minha parte e não penses mal de mim...

O príncipe investiu precipitadamente para a porta da rua onde todo o bando estava se dispondo nas quatro tróicas com guizos. O General Epantchín conseguiu alcançá-lo escadas abaixo.

- Escute uma coisa, veja o que está fazendo, príncipe! - disse, segurando-lhe o braço.

- Desista! Não está vendo o que ela é? Falo-lhe como um pai.

O príncipe olhou para ele, e sem articular uma só palavra se desvencilhou e desceu precipitadamente Na porta da rua, de onde as tróicas acabavam de partir, o general viu o príncipe chamar o primeiro fiacre e bradar para o cocheiro. “Para Ekaterinhóf! Siga as tróicas!” Nisto, rente ao degrau os cavalos cinzentos do general se adiantaram; o general rumou para casa, com os seus novos planos, suas novas esperanças e suas pérolas que. malgrado tudo, não se esquecera de levar consigo. Entre os seus planos a fascinante figura de Nastássia Filíppovna esvoaçou duas ou três vezes. O general suspirou.

- É pena. Realmente, é uma pena. Essa mulher está perdida! É uma louca!... Mas o príncipe se livrou de Nastássia Filíppovna... de maneira que o que aconteceu no fundo foi bom...

E outras palavras edificantes, conquanto curtas, resumindo a situação, foram pronunciadas por outros dois convivas de Nastássia Filíppovna que tinham decidido fazer uma pequena caminhada.

- Quer o senhor saber de uma coisa, Afanássii Ivánovitch? Já ouvi dizer que algo de semelhante a isto é feito entre os japoneses - observou Iván Petróvitch Ptítsin. - É o caso que quando alguém se sente insultado vai onde está o seu inimigo e declara: “Você me desgraçou e como vingança vou abrir meu ventre diante de você!” E com tais palavras imediatamente rasga o ventre na presença do inimigo, sentindo, com certeza, grande júbilo em agir assim, como se realmente se estivesse vingando. Há gente muito esquisita, neste mundo, Afanássii Ivánovitch!

- E cuida você que se pode comparar este caso de agora com isso? - respondeu-lhe Tótskii, com um sorriso.

- Hum!... Não está mal comparado, você arranjou uma excelente imagem! Entodo o caso você viu, meu caro Iván Petróvitch, que eu fiz tudo quanto pude. E convenha comigo que fazer mais do que fiz era impossível. E você há de admitir, outrossim, que essa mulher tinha algumas qualidades brilhantes.., e certos pontos de primeiríssima ordem. Senti-me tentado, naquele concílio de loucos, mesmo que isso me rebaixasse ainda mais, a gritar alto e em bom som que ela própria era a minha melhor desculpa a todas as suas acusações! Quem não se sentiria muitas e muitas vezes fascinado por tal mulher a ponto de perder o juízo e... tudo o mais? Veja por exemplo aquele estúpido Rogójin como lhe arremessou aos pés a sua carga de dinheiro! A bem dizer, tudo quanto acabou de se passar não foi mais do que coisa efêmera, romântica e inverossímil; mas que houve colorido nisso tudo e originalidade, lá isso convenhamos que houve! Deus meu, o que não se faria com um caráter daqueles, com uma beleza daquelas! Mas apesar de todo o esforço, apesar mesma da sua educação, tudo está perdido! Ela é um diamante que não foi lapidado, não me fartarei de dizer muitas e muitas vezes!

E Afanássii Ivánovítch suspirou profundamente.

                                                                                              

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