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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS DONOS DA TERRA / Janet Dailey
OS DONOS DA TERRA / Janet Dailey

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Família Calder

Volume I

OS DONOS DA TERRA

 

Sob um céu límpido, as planícies de Montana se estendiam até o horizonte longínquo num mar ondulante de relva. Este pasto grande e esparramado era interrompido por morros isolados e ravinas ocasionais. Era uma terra imensa, quase vazia, sempre desafiadora. Sua vastidão fazia o homem pequeno menor e o homem grande rei.

Onde antigamente pastavam os búfalos felpudos, um rebanho de 600 animais de pêlo vermelho, gado Hereford, estava reunido num bolsão da planície. Forçados a ficar ali por um grupo de cavaleiros que os rodeavam, os animais mugiam o seu descontentamento. No meio de toda essa confusão, vaqueiros trabalhando aos pares entravam a cavalo no meio do rebanho para lenta e metodicamente separar o gado inferior... as vacas estéreis, as vacas com crias de primavera fracas, e o ocasional novilho castrado que escapara ao recolhimento de gado do outono anterior.

Webb Calder apontava o focinho do seu garanhão amarelado para a vaca que deveria ser separada do rebanho, depois sentava-se tranquilamente na sela e deixava o cavalo fazer o serviço. O garanhão era da cor do felino amarelo do qual tirara o nome, cougar. No instante em que a vaca era isolada, o garanhão frustrava todas as suas tentativas de se reunir ao rebanho abaixando-se, parando instantaneamente, e adiantando-se com a velocidade de um gato.

Para o homem forte na sela, o garanhão de pernas longas era uma fonte de orgulho. Escolhera o animal entre um grupo de potrinhos de um ano de idade, e o destinara para o seu rebanho de montarias pessoal. Ele próprio o domara e treinara, transformando-o no melhor cavalo-vaqueiro da região. Webb Calder nunca se jactava disso, e qualquer elogio era recebido com uma resposta tranquilamente indiferente:

O amarelado é bom.

Sua filosofia era que, se você era o melhor, não precisava contar a ninguém... e se não era, que diabo, era melhor ficar de boca fechada. Vivia de acordo com ela, e esperava que os outros à sua volta fizessem o mesmo.

Quando ele e o cavalo amarelo acabavam de separar a vaca do rebanho, os vaqueiros se adiantavam dos flancos para empurrar o animal por sobre a beirada do bolsão, levando-o para onde estava sendo mantido o grupo de animais feridos ou inferiores. Mais dois cavaleiros tomaram o seu lugar para trabalhar com o rebanho.

Voltando para junto do gado, Webb foi acompanhado por Nate Moore, que fizera a separação com ele. O cavaleiro magro e curtido fazia parte de um pequeno grupo de vaqueiros que tinham suas raízes tão enterradas nesta terra de Montana quanto Webb Calder. No entanto, alguma qualidade invisível marcava Webb Calder como o dono do gado.

Pois esta era terra dos Calders até onde a vista podia alcançar, na direção do sul, e além. Toda a criação, exceto os tresmalhados das pequenas fazendas fronteiriças ao norte, trazia a marca Triplo C da Calder Cattle Company. Era a herança deixada pelo primeiro Calder que saiu do Texas e levou seu rebanho na direção norte em 1878, para buscar pasto livre. Esse ancestral, Chase Benteen Calder, construíra um império que se media por quilómetros quadrados, chegando a mais de mil. Mantivera-o lutando contra bandos guerreiros de índios renegados, colonos, e estancieiros vizinhos invejosos e ambiciosos. Pagara-o com sangue dos Calders, nutrira-o com o seu suor e os ossos do gado atingido pela seca, e enterrara os Calders mortos sob o pasto de Montana.

Dos 20 vaqueiros que fizeram a viagem com Chase Benteen Calder, a maioria se dispersara, mas alguns tinham ficado para construir uma vida nova nessa terra bruta. Esses homens formaram o núcleo do grupo de antepassados de Nate Moore, da mulher de Virg Haskell, Ruth, de Slim Trumbo, de Ike Willis e de um punhado de outros nascidos e criados na fazenda Calder, como Webb. A lealdade deles era uma coisa com raízes profundas, entranhada nas suas almas como se elas levassem a marca da Triplo C.

Essa linha de continuidade corria através de cada geração, unindo-as. Os velhos acabavam por dar a vez ao sangue novo, trazendo mudança sem jamais mudar.

Subindo ao alto da elevação da planície indomada, Webb freou seu cavalo. A satisfação o percorreu ao observar a cena diante de si, o trabalho de equipe de todos os cavaleiros cuidando do rebanho com uma precisão eficiente e bem lubrificada. O que ele gostava mais era de se meter no meio deles. Embora estivesse ali por necessidade, já que a decisão dele determinava quais os animais inferiores a serem eliminados do rebanho, o simples prazer do trabalho fazia com que tomasse parte na separação do gado propriamente dita.

As pressões e responsabilidades eram enormes e intermináveis para o homem que era dono de uma fazenda enorme como essa. Novos vendedores ou compradores de gado com frequência comentavam o seu tamanho, e Webb retrucava secamente:

É preciso um bom pedaço de terra para caber debaixo de um céu dos Calders.

Não sabia como ela se comparava às outras grandes fazendas dos EUA, se era a primeira, segunda, terceira, ou se estava bem mais abaixo, na lista. Se alguém lhe perguntasse, não saberia responder, e nem se interessava em verificar. Seu único interesse era fazê-la prosperar e mantê-la intata para o filho.

As responsabilidades eram pesadas, mas o poder que tinha nas mãos era imenso. Webb Calder acreditava ser um homem justo. Alguns diriam que ele era exigente. Outros, que mandava com mão de ferro. O ressentimento nascido da inveja e do ciúme fazia com que fosse o objeto de ódio por parte de uns poucos silenciosos. No que lhe dizia respeito, Webb Calder jamais erguera a mão contra um homem sem motivo. Quando agia, era célere e propositadamente. A indecisão podia acabar em desastre para uma fazenda do tamanho da Triplo C.

Era uma das coisas que tentara ensinar ao filho, Chase Calder, que recebera o nome do ancestral texano. Dirigir uma fazenda não se limitava a ter os livros em dia, criar gado e ir ao banco. Mas, como se ensina um homem a ser um líder, a manejar os homens?

Antes de Chase ter dado o primeiro passo, Webb pusera o bebezinho numa sela em cima de uma égua velha e enrolara os pequenos pulsos no arção dianteiro para que desse seu primeiro passeio a cavalo. Quando Chase fez dois anos, deram-lhe as rédeas. Aos cinco, participou do seu primeiro recolhimento de gado, amarrado à sela para não cair, se pegasse no sono.

Cavalos e gado eram parte do viver. Chase aprendera essas coisas por osmose, absorvendo-as inconscientemente no seu organismo até que se tornaram uma segunda natureza.

Mas o que Webb queria que ele aprendesse eram as sutilezas do comando. Desde quando o garoto compreendera sua primeira sentença, Webb tentara enfiar essas coisas em sua cabeça, formando e moldando Chase para algum dia tomar conta da fazenda. Advertira Chase de que, como seu filho, teria que trabalhar mais, ser mais esperto e lutar mais duro do que qualquer outro por ali. Nenhum favor jamais lhe seria concedido por Webb, nenhuma concessão jamais lhe seria feita porque Chase era um Calder. Não haveria privilégios especiais porque ele era o filho do estancieiro. Na verdade, seria o contrário. Na sua adolescência, teve os serviços mais duros, os cavalos mais tinhosos, e as horas mais longas de trabalho do que qualquer outro homem no lugar. Os problemas que apareciam ele tinha que resolver. Se havia encrenca, tinha que ser homem o bastante para sair dela, com os punhos ou com a inteligência. Chase não podia ir procurar o pai e esperar ajuda. Webb o forçava o máximo que ousava sem quebrar o ânimo do rapaz.

Enquanto Webb Calder observava as duas dúzias de cavaleiros trabalhando, inconsciente e instintivamente ficava de olho no filho. Chase era mais alto do que a média dos vaqueiros, de ombros largos e peito sólido, e no entanto juvenilmente esbelto e flexível, com um jeito descontraído de cavaleiro. O sol queimara uma camada de bronzeado sobre as feições duras e angulosas dos Calders. De olhos e cabelos escuros, parecia ter mais de 22 anos... exceto quando sorria. Então parecia descuidado e ingénuo. O filho ainda era algo desconhecido para Webb. Talvez houvesse quem pensasse que exigia demais, porém ele estava firmemente convencido de que eram as coisas duras que eram boas para um homem.

O cavalo que estava atrás do garanhão amarelo soltou um bufido descontraído, fazendo com que Webb transferisse o olhar para Nate Moore. Este estava preparando um cigarro e lambia o papel com a língua áspera. Sem erguer os olhos, falou:

É um bom rapaz.

Adivinhara o objeto dos pensamentos de Webb.

Lil teria orgulho dele.

Webb pronunciou o nome de sua falecida mulher e quebrou um silêncio que durara mais de 20 anos desde a morte dela. O tempo apagara a dor da perda. Agora, sua lembrança era outra tradição.

Era algo que gente de fora não podia compreender essa falta de expressão que o verdadeiro homem do Oeste demonstrava quando perdia um camarada ou um ente querido: a não revelação da dor profunda. O que um homem sentia era guardado dentro dele. O rosto que os estranhos viam parecia frio e sem emoção. No entanto, por detrás do exterior duro desses homens havia toda a sensibilidade delicada de uma mulher, oculta aos olhos alheios. Revelá-la demonstrava fraqueza. Essa era uma terra onde só os fortes sobreviviam.

Teria, sim falou Nate, com o cigarro na boca, e apertou os olhos ante a fumaça acre que saía dele. A expressão aprofundou as rugas que se espalhavam dos cantos dos seus olhos. Sem virar a cabeça, a atenção dele se transferiu para o jovem vaqueiro, Buck Haskell, que cavalgava do mesmo lado do rebanho que Chase. Sem motivo aparente, Buck girara o seu alazão de frente para a direção oposta, e o esporeara para uma ligeira brecha entre os cavaleiros, atingindo um ponto invisível no instante que uma vaca tentava desgarrar-se do rebanho. O respeito brilhou nos olhos do vaqueiro mais idoso. Aquele Buckie entende mais de vacas do que muitos vaqueiros com o triplo da idade dele declarou Nate. E como adora um potro selvagem. Quanto mais tinhoso, mais ele gosta. A boca de Webb se estreitou.

É, e sempre está com o laço à mão. Nunca o peguei com a boca na botija, mas estou sabendo.

Que diabo! Nate soltou uma risadinha. Todo vaqueiro moço dá a sua laçadinha, de vez em quando.

Webb o admitiu, erguendo as sobrancelhas espessas.

O Buck é um rapaz simpático, mas me preocupa aquele seu jeito meio doidão.

De olhos azuis, cabelos louros e crespos e um sorriso perpétuo, Buck era o filho de Virg e Ruth Haskell, nascido dois dias antes de Chase. Quando a mulher de Webb, Lillian, não teve leite suficiente para dar de mamar ao Chase, Ruth passou a ser sua ama-de-leite. Um ano e meio depois, quando Lil morreu, Ruth passara a cozinhar e cuidar da casa para Webb. Assim, Buck e Chase tinham sido criados praticamente como irmãos. Era natural que Webb tivesse um interesse especial por Buck.

O cigarro feito à mão não saiu da boca de Nate, mas este conseguiu repuxar-lhe os cantos num sorriso seco.

Está-se esquecendo, Webb. Nós éramos mais doidões quando tínhamos vinte e dois anos.

O fazendeiro trocou um olhar irónico com o vaqueiro.

Pode ser.

Vindo da terra irregular do norte, um trio de cavaleiros se aproximou do ponto de agrupamento do rebanho. Webb focalizou o olhar no cavaleiro baixo, magro e musculoso que vinha meia passada à frente. O rosto dele perdeu a expressão, tornando-se duro e inflexível.

Quem está com O'Rourke? perguntou Webb, sem tirar os olhos do dono da pequena e ordinária fazenda que ficava numa faixa norte da fronteira dos Calders.

Nate olhou, os olhos se estreitando menos pela fumaça e mais pelo reconhecimento.

O garoto dele. A magricela deve ser a filha. Retirara o calor da voz, tornando-a seca.

Ao correr os olhos pelo par que cavalgava com Angus O'Rourke, Webb inspecionou primeiro o desajeitado rapaz de 18 anos, de cabelos negros e lisos que saíam de sob o chapéu. O rapaz ficava olhando o tempo todo para o pai, esperando alguma forma de orientação. A garota era um fiapo de gente, parecendo mais um rapazinho do que uma garota. Ele podia ver um pouco de cabelo preto e liso sob o chapéu, mas Webb não saberia dizer se o cabelo era bem curto ou se estava preso sob a copa do chapéu.

Tanto a camisa quanto a calça Levi's pareciam ser herdadas do irmão. Eram grandes demais, fazendo com que ela ficasse ainda mais magra e sem formas. Exceto pela franja espessa de cabelos nos olhos verdes, não havia nada em suas feições que a distinguisse de um garoto imaturo. Usava esporas nas botas gastas, um par de luvas de couro velhas e rachadas e uma jaqueta que engolia seu corpinho. Vê-la deu dor no coração de Webb.

Uma garota não devia estar fazendo trabalho de homem resmungou e virou a cabeça para olhar duro para Nate. Desça e diga aos homens para terem cuidado com o que falam. Se eu ouvir o menor palavrão na presença da garota, vai haver o diabo quando ela for embora.

Nate tirou com a ponta dos dedos a parte acesa do seu cigarro, deixando a brasa cair no punho da camisa de brim, onde foi esmagada e apagada. A parte do cigarro que não fora fumada foi guardada no bolso, enquanto ele guiava o seu cavalo para junto dos vaqueiros que cuidavam do rebanho.

Webb ficou olhando enquanto ele se afastava. O mundo moderno podia ter entrado na era espacial com computadores e alta tecnologia, mas havia partes do Oeste em que o tempo mudara muito pouco. Tudo era mais mecanizado, porém a maioria do serviço ainda era feita a cavalo.

Os velhos códigos ainda persistiam. As mulheres eram escassas e tratadas com respeito até mostrarem que não o mereciam. Um homem resolvia seus próprios problemas; não os levava para outra pessoa. Não era difícil de entender, quando posto em perspectiva. No caso da Triplo C, havia uma estrada para veículos de 55 quilómetros até se chegar à varanda da casa grande. Uma cidade de tamanho respeitável, de uma população de mais de 100 pessoas podia ficar a 160 quilómetros, ou mais.

A fazenda Calder ficava numa área de terra maior do que o Estado de Rhode Island. Com o tipo de poder que isso dava a Webb Calder, ele era virtualmente sua própria lei, e não respondia a quase ninguém exceto a Deus Todo-Poderoso. Sabiamente, nunca tentou tripudiar sobre ninguém, apenas deixando esporadicamente que sua autoridade fosse sentida. Fingia que não via a miserável família Andersen tentando sobreviver num pequeno pedaço de terra na sua fronteira leste. Webb sabia que eles matavam um ou dois dos seus novilhos por ano, mas não podia ver mulheres e crianças passando fome. Mas Deus se apiedasse do homem que erguia a mão contra a Triplo C em proveito próprio.

Seu olhar se estreitou num exame silencioso de Angus O'Rourke, que vinha em sua direção. O homem passava tempo demais sonhando e encontrava desculpas demais para o fato de não obter êxito na vida. O'Rourke era um homem fraco, sempre querendo o caminho mais fácil. Não havia lugar para gente assim nessa terra. Mais cedo ou mais tarde era extirpada.

O olhar duro e fixo de Calder deixou Angus sem jeito. Como adoraria aproximar-se dele e cuspir-lhe na cara. Lambeu os lábios secos nervosamente, dizendo a si mesmo que chegaria o dia em que não precisaria rastejar diante de tipos como Webb Calder. Mas essa afirmação era antiga e soava falsa a seus ouvidos. Já fora um homem moreno e bonitão, com um loquaz charme irlandês, mas os vincos da dissipação estavam começando a acabar com sua boa aparência, e as pessoas não mais acreditavam nos seus planos grandiosos para o futuro, já tendo ouvido tantos que não deram em nada no passado.

Se ele nos perguntar alguma coisa, o que devemos dizer?

A pergunta sussurrada ansiosamente veio do filho.

Angus não virou a cabeça ou olhou a seu redor para responder,

Não diga nada. Deixe que eu falo.

Eu lhe falei que deveríamos ter trazido aquelas trinta cabeças para o nosso lado da cerca na semana passada, papai declarou a garota, calmamente.

E eu lhe disse que elas precisavam de mais alguns dias de pasto bom, Maggie! Já tinham discutido a respeito várias vezes.

As vacas tresmalharam, foi só isso. E nós estamos aqui para separar as nossas tresmalhadas, como sempre fazemos.

Diminuiu a andadura do cavalo e cruzou a passo os últimos metros que o separavam de Webb Calder, parando em ângulo reto à sua frente. Lançando ao homem um dos seus sorrisos patenteados,-levou um dedo respeitosamente à aba pontuda do seu Stetson.

Bom dia, Sr. Calder - Angus O'Rourke soava deliberadamente alegre e despreocupado.

Angus. O homem de cara impassível e olhar duro simplesmente balançou a cabeça em resposta ao cumprimento.

A irritação percorreu Angus. Estava com raiva de si mesmo por não ter chamado Calder pelo primeiro nome e tê-los posto em termos de igualdade. O homem tinha um jeito de fazê-lo sentir-se inútil e fracassado. Que diabo, ele também era estancieiro, igualzinho a Calder... na sua cabeça. Angus, porém, escondeu bem seu amargor.

Que belo dia, não? comentou, fazendo um gesto amplo e abrangente para o céu límpido. São as manhãs como esta que fazem a gente esquecer do longo inverno que ficou para trás. As cotovias do prado cantando adoidado. Flores silvestres nascendo por toda a parte, e os bezerrinhos de cara branca novinhos e lustrosos.

Levou alguns segundos para se dar conta de que sua tagarelice não estava causando nenhuma impressão em Webb Calder. Angus controlou o seu orgulho ferido, escondendo-o atrás de um sorriso. Lembra do meu filho, Culley, e da minha filha, Maggie.

Webb Calder balançou a cabeça para acusar a presença do rapaz. O rapaz de cabelos negros empalideceu ante o olhar e murmurou formalmente:

Bom-dia, senhor.

Então, Calder olhou para a garota.

Você não devia estar na escola, Maggie? perguntou com desaprovação.

Na realidade, o nome dela não era Maggie. Era Mary Frances Elizabeth O'Rourke, o mesmo nome da mãe, que morrera fazia quatro anos. Porém, ter duas mulheres na família com o mesmo nome tinha sido confuso demais. Não se sabe quando, o pai começara a chamá-la de Maggie, e o nome pegara.

Ela deu de ombros ante a pergunta.

Papai precisou de mim hoje explicou.

A verdade é que ela faltava ao colégio mais do que comparecia. Na primavera e no outono, o pai alegava que precisava da ajuda dela na fazenda. Maggie acabara percebendo que ele era preguiçoso demais para trabalhar como tinha necessidade, sozinho. A fazenda deles era tão pobre que não podiam contratar gente de fora para ajudar, assim o pai se aproveitava do trabalho gratuito dela.

Durante o inverno, o trator vivia praticamente quebrado, o que significava que não tinham uma lâmina para tirar a neve dos oito quilómetros que iam da casa à estrada onde ela podia pegar o onibus escolar. Quando a mãe era viva, selava os cavalos e ia com Culley e Maggie até a estrada nessas ocasiões, e depois ia recebê-los com os cavalos, quando o ônibus os trazia de volta à tarde Mas sempre era frio demais e trabalho demais para o pai.

Maggie não sentia mais falta da escola. Já não cabia nas suas roupas, e tinha pouca coisa para usar, exceto jeans e as camisas velhas de Culley. Com 15, quase 16 anos, era muito cônscia de sua aparência. Tentara alterar algumas roupas da mãe para caberem nela, mas os resultados tinham sido, com boa vontade fracos. Nenhum dos seus colegas de classe ridicularizara abertamente o modo como se vestia, mas Maggie tinha visto os seus olhares de piedade. Com todo o seu orgulho, aquilo fora o bastante para incitá-la a aceitar as desculpas que o pai inventava para ela ficar em casa.

A mãe fora inflexível quanto à necessidade de os dois filhos estudarem. Era algo que Maggie recordava vividamente, porque era uma das poucas coisas de que a mulher, geralmente mansa, não abria mão. Nem a raiva do marido, nem o seu charme faziam-na mudar de ideia. Assim, Maggie tinha os seus livros escolares em casa e estudava sozinha, resolvida a não falhar à mãe nesse aspecto, como o pai lhe falhara tantas vezes.

A desaprovação na fisionomia de Webb Calder simplesmente reforçou sua resolução de continuar estudando. Maggie não arranjava desculpas para o que o pai era... um homem sem força de vontade, cheio de promessas e sonhos vazios. Todo o dinheiro do mundo não faria do pai um homem forte como era Webb Calder. Era uma coisa dura e amarga de se reconhecer sobre o próprio pai. E Maggie se ressentia com Webb Calder por apresentar um exemplo tão contundente do que o seu pai jamais seria.

Percebendo que a conversa não ia dar em nada, Angus O Rourke virou o olhar para o rebanho reunido na depressão da planície. O rosto dele assumiu a expressão de quem está relutante em deixar uma boa companhia, mas tem serviço a fazer.

Bem, estou vendo uma ou duas marcas de Shamrock no rebanho. Recuou com o cavalo antes de dirigi-lo para o gado Vou isolar os meus poucos tresmalhados e levá-los para o meu lado da cerca.

Vou mandar um dos meus rapazes ajudá-lo disse Webb e começou a erguer a mão para chamar um dos homens.

Nós damos conta aparteou Maggie. Podiam ser pobres mas ela tinha o seu orgulho. A mãe lhe ensinara a nunca aceitar favores a não ser que os pudesse retribuir, algum dia, e era ridículo pensar que um Calder jamais precisaria de um favor deles.

A mão de Webb Calder continuou parada no ar enquanto olhava calado para o pai dela, esperando a confirmação de que não queriam ajuda.

Nós três damos conta declarou o pai, para apoiar a alegação dela, embora viesse a aceitar prontamente a oferta se ela não tivesse aberto a boca.

A mão baixou para pousar no arção dianteiro da sela.

Como quiser, Angus.

Enquanto virava o cavalo, Angus lançou a Maggie um olhar irado, e cavalgou para junto do rebanho. Ela e Culley o seguiram. Sentindo os cavaleiros da Triplo C olhando para eles, Maggie sentou-se mais ereta na sela, cônscia da aparência geral maltrapilha deles, desde as roupas até as mantas de sela esfarrapadas.

Do outro lado do rebanho, Chase ficou vendo o trio heterogéneo de cavaleiros se aproximar. Nate Moore já comunicara as ordens do velho, portanto sabia que um dos três era mulher. Buck deixou seu cavalo se aproximar mais de Chase.

Como a gente vai saber qual deles é a garota? perguntou Buck, a voz baixa pontilhada de zombaria mordaz.

Deve ser o menor deles Chase permitiu-se um sorriso.

Dizem que é a mais moça.

É jovem, sem dúvida concordou Buck, secamente. Gosto das minhas mulheres com um pouco mais de idade e mais carne nos ossos. Crenshaw estava-me contando, hoje de manhã, que Jake Tomas está com uma nova "sobrinha" loura trabalhando no bar dele.

Verdade? murmurou Chase, sabendo, como todo o mundo sabia, que as "sobrinhas" de Jake eram prostitutas. Que família grande tem esse homem, hem?

Buck abriu um sorriso.

Quando este recolhimento de gado tiver acabado, você e eu vamos ter que dar uma espiada nela. Quem sabe a moça conhece alguns novos truques da profissão.

Mais uma semana de olhar para esse gado e já me darei por satisfeito, se só o que a nova garota souber forem os truques antigos replicou Chase, girando o cavalo para cortar o caminho de uma vaca errante, conseguindo mudar a ideia dela de abandonar o rebanho.

A essa altura, Buck já retomara sua posição, vários metros adiante de Chase. E não havia motivo para tentar retomar aquela conversa específica. A família O'Rourke circulava entre o rebanho para isolar os seus tresmalhados, enquanto Chase e os outros cavaleiros mantinham o gado frouxamente agrupado.

 

Durante o intervalo do meio-dia, os vaqueiros trocaram de cavalo, pegando animais descansados da manada que estava num curral de cordas junto ao acampamento. Chase jogou sua sela sobre um capão baio cor de sangue com uma tira branca no focinho, e apertou bem a cilha. Enquanto pisava no estribo e montava, Buck passou por ele num ruão de cara malhada de branco.

Ande com isso, peregrino. Já é quase dia falou Buck, numa imitação fajuta do sotaque arrastado de John Wayne.

Chase controlou um suspiro. Desde que se entendia por gente, Buck passara cada hora do dia rindo, pilheriando, sorrindo. Parecia nunca levar nada a sério. Girando seu cavalo, Chase emparelhou com ele.

Você é um caso perdido, Buck declarou, com uma ligeira sacudidela da cabeça.

Eu sei, mas é tão divertido! Ele sorria amplamente com tanta frequência que já havia vincos permanentes em suas faces, e ruguinhas de riso se espalhavam dos cantos dos olhos. Andei pensando, Chase disse Buck, com ar sóbrio e sério. Não seria direito eu e você irmos visitar a sobrinha do Jake ao mesmo tempo.

E por que não? indagou Chase, lançando-lhe um olhar de banda, sabendo que ele estava aprontando alguma.

Logo que a garotinha der uma olhada neste rosto e neste corpo, vai até se esquecer que você está por perto. Isso não seria justo. Somos praticamente irmãos.

Buck, você é sem dúvida o homem mais convencido que conheço. Chase ergueu um dos cantos da boca, enviesando-a num ângulo zombeteiro.

Buck estava adquirindo uma reputação de dom-joão, não totalmente injustificada. Havia algo no seu sorriso cativante e na malícia risonha dos seus olhos que atraía as mulheres. Por meio de histórias fantasiosas, lisonja descarada e pura persistência, Buck acabava por vencer a resistência de qualquer mulher. Não era o estilo de Chase, embora ele também geralmente conseguisse o que queria.

O comentário provocou uma risada de Buck.

Já lhe disse antes, Chase, que na verdade eu sou você e você é eu. A minha mãe trocou a gente quando éramos bebés para poder ficar com o mais bonito para ela falou, repetindo sua costumeira teoria com um brilho brejeiro nos olhos.

É mesmo? Chase zombou do amigo, com um desafio. Então, por que você tem cabelos crespos e olhos azuis como a Dona Ruth, ao invés de olhos e cabelos castanhos como eu e meu pai?

Porra, isso eu também ainda não descobri! O riso ecoou da garganta de Buck, alto e forte.

O estrondo de cascos que corriam chamou a atenção deles para o rebanho de que se acercavam. Uma vaca fora separada do resto, a marca Shamrock na anca. Agora, tentava fugir para a liberdade, a cauda erguida bem alto. Perseguindo-a vinha a jovem O'Rourke. Chase observou enquanto ela forçava a vaca a se virar, depois forçava violentamente seu cavalo a impedir que a vaca se mandasse de novo, batendo com uma corda enrolada na coxa.

Aquela garotinha sabe montar de verdade comentou Buck. Está fazendo aquele pangaré fazer coisas que ele nem sabia que podia fazer.

Falou cedo demais disse Chase, no momento em que a vaca fez nova arremetida para a liberdade. Quando a garota freou o cavalo e tentou forçá-lo a girar sobre si mesmo, o baio perdeu o controle das pernas e o equilíbrio. A garota foi jogada da sela, quando o bicho caiu de joelhos. Bateu no chão com força, e não se moveu imediatamente. Vou ver se ela está bem falou Chase, esporeando o cavalo.

Meia dúzia de outros cavaleiros também haviam visto o tombo. Se o cavaleiro caído fosse um homem ou um garoto, teriam esperado que ele se levantasse por si mesmo. Mas o cavaleiro caído era uma garota, e isso fazia toda a diferença.

Chase chegou junto da jovem em primeiro lugar, desmontando e caminhando para onde ela se encontrava esparramada na grama, de cara para baixo. Começava a se levantar tremulamente do chão. O chapéu estava de banda, mas o laço enrolado ainda estava na sua mão.

Está ferida? indagou.

Não.

Ele ouviu o som entrecortado da voz dela e percebeu que tinha perdido o fôlego. Inclinando-se, Chase tomou-lhe o braço.

Deixe que eu a ajudo a se levantar.

Quando começou a erguê-la, estendeu a outra mão para segurá-la sob o braço oposto e pô-la de pé. A jaqueta desabotoada estava bem aberta. Quando enfiou a mão dentro dela, ela se fechou sobre um seio macio de adolescente. Por um instante, ficou espantado com a forma arredondada escondida sob as roupas muito grandes.

Antes que pudesse retirar a mão, ela se pusera de pé.

Tire as patas nojentas de cima de mim! Derrubou o braço dele com uma pancada. A violência do gesto fez com que o chapéu dela caísse, e uma cabeleira negra soltou-se em ondas negras quase até a cintura. O que pensa que está fazendo?

Chase soltou-lhe o braço.

Desculpe, senhorita.

Enquanto pedia desculpas, seus olhos escuros notavam as mudanças na aparência dela, a massa de cabelos negros, o rubor embaraçado nas faces, as chamas ardentes nos zangados olhos verdes. Talvez o pedido de desculpas tivesse sido aceito, se o olhar curioso não se tivesse desviado para a jaqueta aberta, tentando ver a saliência arredondada que a mão tocara.

O laço enrolado estava na mão direita dela. Ergueu-o para bater em Chase, soltando uma torrente de imprecações. O rapaz levantou o braço para impedir o golpe e recuou. Mas ela veio atrás dele, chicoteando-o com a corda enrolada. Ele se protegeu com os braços erguidos, e continuou a recuar.

Já lhe pedi desculpas lembrou ele, tensamente, contendo sua raiva, enquanto se sentia um idiota, apanhando de uma garota diante de todos aqueles homens.

Uau! Olhem só para aquela garotinha enchendo o Chase de porrada! A voz de Buck debochou das proximidades, onde os outros cavaleiros estavam rindo baixinho da situação difícil dele. Mande brasa, meu bem!

Foi a gota d'água. Da próxima vez que ela girou a corda, Chase se desviou e agarrou-lhe o pulso, arrancando a corda dela com a outra mão. Quando tentou bater nele com a mão livre, capturou-a também. Ela jogara a cabeça para trás para olhar feio para ele, a respiração arquejante.

Sua estourada maluca, pare com isso! Chase deu-lhe uma sacudidela forte. Se não começar a se comportar, vou usar esta corda no seu lombo.

Os olhos dela desafiavam-no a tentar.

Quero minha corda ordenou.

O calor da raiva... ou algo igualmente violento... corria nas veias dele. Chase não perdeu tempo tentando descobrir o que era. Todos os seus músculos estavam-se retesando, uma tensão crua crescendo dentro dele e buscando um alívio.

Maggie! Angus O'Rourke apareceu, a passos largos, para tirar o assunto das mãos de Chase. Mas o que estava fazendo, afinal, menina? Chase entregou-a ao pai e afastou-se cautelosamente. Agora você vai pedir desculpas ao Sr. Chase Calder por ter feito que parecesse um idiota na frente de todos esses homens ordenou Angus.

Chase achou que a última frase fora desnecessária. Era o cutucão de um homenzinho na humilhação pública do filho de um grande estancieiro. Ele enrijeceu o maxilar ao ver os olhos da moça correrem pela plateia de vaqueiros antes de voltarem para ele, com um brilho irónico. Um nervo se crispou ao longo do seu osso malar, a única indicação visível dos sentimentos íntimos dele.

Peça-lhe desculpas insistiu o pai.

Chase sabia que ela não estava nem um pouquinho arrependida, e que O'Rourke também não tinha achado ruim. Não iria aceitar um pedido forçado de desculpas da moça.

Deixe pra lá, O'Rourke resmungou, e se dirigiu para seu cavalo.

Buck estava no chão, segurando as rédeas da montaria de Chase, e da sua própria. Entregou as primeiras para Chase, os olhos azuis brilhando de malícia e maldade. Porém não disse nada, percebendo o controle tenso que Chase estava exercendo sobre sua raiva.

Enquanto Chase montava, a garota dera-lhe as costas e estava enrolando o cabelo negro num coque para caber dentro da copa alta do chapéu. Tendo feito isso, montou e foi embora com o pai, sem olhar de novo na direção de Chase.

Você cortou um dobrado com aquela gata selvagem comentou Buck, achando que já se tinha passado um tempo razoável. O que deu nela, afinal de contas?

Eu a incomodei replicou Chase, friamente.

Buck! Não havia como confundir a voz autoritária de Webb Calder. Entrou com o seu cavalo no centro dos cavaleiros. Você ouviu minha ordem hoje de manhã. Nada de palavreado na frente da garota. Está a pé durante o resto do dia.

O castigo era severo para Buck, que curtia a emoção do cavalo e do laço.

Porra, escapuliu! protestou Buck.

Dois dias a pé. Escapuliu de novo.

O quê? Buck deu uma demonstração vívida de espanto incrédulo, os braços erguidos ao lado do corpo, num gesto de inocência. Ela não me pode ouvir, não de onde está!

Três dias. Isso é por ter discutido. Webb não cedia. Era mais severo com aqueles de quem gostava. Erguendo as rédeas, começou a virar o cavalo.

Buck levou as mãos aos quadris, enquanto sacudia a cabeça, enojado.

Mer...

A palavra não foi terminada, pois Webb Calder se virou.

Quer que sejam quatro dias, Buck?

Ele arrancou o Stetson preto empoeirado da cabeça e jogou-o ao chão.

Macacos me mordam! Buck expeliu as palavras de supetão.

Um sorriso rachou a severidade da expressão de Webb Calder.

Agora você me entendeu, Buck.

Encostando o calcanhar no flanco do cavalo, botou-o a caminho.

Três dias resmungou Buck.

Vou levar o seu cavalo para junto da manada. Nate Moore aproximou-se a cavalo e abaixou-se para apanhar as rédeas penduradas.

Quando Chase começou a se afastar, Buck segurou-lhe a brida para detê-lo.

Dê uma palavrinha com o seu velho. Não fiz nada para merecer três dias.

Fale com ele você mesmo.

Chase não era bobo de pedir ao pai um favor pessoal. Buck conhecia as regras, mas sempre achava que havia um jeitinho de contorná-las.

Voltando para junto do rebanho, Chase tomou seu lugar enquanto O'Rourke terminava de separar seu gado. Era um processo lento, devido à falta de cavalos treinados do pequeno fazendeiro e ao número excessivo de tresmalhados no rebanho. Qualquer um entre uma dúzia de vaqueiros da Triplo C poderia tê-lo terminado num terço do tempo, e todos estavam doidos para fazê-lo, inclusive Chase, mas, sem receber ordem do pai dele, ficavam sentados nas selas, observando. O'Rourke e o filho isolavam as reses, enquanto a garota guardava o seu gado a alguma distância, para além das vistas de Chase, atrás de outra elevação baixa nas planícies de aparência enganadoramente sem relevo. A imagem dela ficava voltando à mente dele, sua tensão não tendo sido inteiramente aliviada.

Os ferros de marcar estavam quentes quando Angus cavalgou por entre o rebanho pela última vez e não achou mais nenhuma rês de Shamrock. Fez um sinal para Nate Moore, muito ereto na sela, avisando que tinha terminado, e saiu do meio do rebanho da Fazenda Triplo C. A expressão impaciente dos cavaleiros indicava que sua inépcia havia causado uma demora desnecessária. Mentalmente, ele já tinha uma desculpa pronta, porque não podia dar-se ao luxo de ter os cavalos de alto preço especializados que eles montavam. Nem uma só vez O'Rourke levou em consideração as horas de treinamento gastas para se formar um animal daqueles, horas que ele não queria passar tentando melhorar a capacidade dos seus próprios animais.

Angus sabia que a demora lhe traria vantagens, portanto convenceu-se de que a lentidão fora deliberada. Se os Calders estavam impacientes para prosseguir o trabalho, ele seria ignorado como uma chateação irritante de que finalmente se haviam livrado. Enquanto ele se cumprimentava silenciosamente por ser tão inteligente, arquivou um lembrete mental para explicar ao filho como havia planejado tudo tão astutamente.

O prazer de Angus foi fugaz, desaparecendo no instante em que viu Webb Calder posicionado entre si e as reses que Culley e Maggie estavam guardando. Sua garganta e boca ficaram secas, e podia sentir as palmas suando. Não havia escolha exceto cavalgar até Calder. Silenciosamente, Angus xingou o homem que não tinha o direito de ficar ali sentado como um raio de um rei, esperando que todos tremessem diante dele.

Desculpe a demora, Sr. Calder. Pronto, repetira a dose, deu-se conta Angus, frustrado... humilhara-se ante o homem. Já estamos de partida.

Webb Calder não fez nenhum comentário. Seu olhar se dirigiu ao gado de Shamrock agrupado à sua esquerda, chamando deliberadamente atenção para ele.

Estou contando trinta e sete cabeças, mais os bezerros. É um número bem grande para tresmalhar para o pasto de Calder.

O suor nervoso estava formando gotas no lábio superior, mas Angus forçou um sorriso e uma risada.

Sabe como é, Calder. Uma vaca vê capim do outro lado da cerca e encontra um jeito de chegar até ela. Elas não respeitam fronteiras e limites. O olhar dele se desviou da mirada dura para fitar a pastagem densa sobre a qual estava. Ali havia pasto o bastante para alimentar ainda mais metade do gado que Calder possuía. O homem devia partilhar sua fartura com aqueles que tinham menos. As minhas poucas cabeças não privaram o seu rebanho de pastagem acrescentou, com ressentimento.

Não deixo o meu gado acabar com o pasto até as raízes exclamou Calder, bruscamente, e não disse mais nada, porém Angus entendeu as implicações. Abespinhou-se ante a crítica subentendida de que estava administrando mal sua terra, sem querer admitir que a observação era justificada. Vou acreditar desta vez na sua história de que todo esse gado tresrrudhou. Comece a vigiar sua cerca, O'Rourke... ou meus homens o farão por você. Se não consegue manter seu gado do seu lado da cerca, eu o manterei.

Angus empalideceu ante o tom ameaçador.

Culley e eu vamos apertar bem aquela cerca amanhã logo cedo, Sr. Calder. Não precisa mais se preocupar com isso. Tem sido um inverno duro, e sem ter direito quem me ajude, tive que descuidar de algumas coisas para tratar de outras, mas pode ficar descansado, Sr. Calder, que não vai ter problemas com a minha cerca.

Sei que não vou.

Webb desviou o cavalo e partiu a meio galope na direção do seu rebanho.

Angus girou o seu animal num quarto de círculo para ver Calder afastar-se. A subserviência fora substituída pela raiva. Cuspiu no chão.

O filho da mãe ganancioso. Todo metido a poderoso. A boca se encrespou, cheia de amargura. O meu dia chegará. Espere e verá.

Enfiou as esporas na montaria e puxou rudemente as rédeas, escancarando a boca do cavalo para impedi-lo de desatar num galope na direção do gado de Shamrock agrupado.

O que foi que o Sr. Calder lhe disse? indagou rapidamente Culley, no instante em que Angus chegou junto deles.

Estava só botando banca. Mexeu-se na sela, evitando o olhar dos filhos. Vamos levar essas reses para casa.

Maggie olhou do pai para o cavaleiro que desaparecia e tirou suas próprias conclusões sobre a conversa. Batendo com o laço enrolado na coxa, começou a levar para leste o seu lado do gado, enquanto o irmão fazia o outro flanco mover-se. Mais tarde fariam com que as reses virassem para o norte, quando chegassem ao cruzamento do rio.

Levar o gado para casa exigia pouca atenção consciente. Os gestos de Maggie eram quase automáticos, deixando-lhe muito tempo livre para matutar nos acontecimentos do dia. O incidente com Chase Calder se destacava vivamente em sua cabeça, em parte porque se sentira tão encabulada de levar um tombo na frente de tantos cavaleiros competentes, e em parte porque eles tinham vindo em seu auxílio, porque ela era uma garota, e portanto supostamente menos capaz de cuidar de si mesma.

Mas principalmente era por causa daqueles instantes fugazes em que a mão de Chase Calder tocara inadvertidamente no seu seio. A sensação estranha a percorrera como um choque elétrico, excitante e assustadora, como uma coisa geralmente proibida o é. A raiva inicial fora um resultado direto daquela onda de pânico.

Então, quando ela olhara no rosto dele e vira que a estava reconhecendo como mulher, ficara magoada porque não o fizera antes. Será que nunca a notara? Já o tinha visto mais de meia dúzia de vezes nos dois últimos anos, quando fora à cidade comprar suprimentos. Será que nunca havia olhado para ela antes?

Não estaria sendo honesta consigo mesma se não admitisse que o havia observado com uma certa dose de interesse. Afinal de contas, era rico, jovem, filho de um fazendeiro, o objeto das fantasias de um bocado de garotas. Mesmo descontando quem era, Chase era bonitão, à moda dos Calder.

Seu olhar baixou para as Levi's largonas que estava usando. Não iria sempre usar as roupas dos outros. Não viveria o tipo de vida que a mãe tivera com o pai. Ia ser alguém a dama que a mãe sempre quisera que fosse alguém importante. As pessoas iam-se adiantar para vir falar com ela na rua, e não sacudir a cabeça, com pena, quando ela passasse.

A mãe. Fora uma mulher tão meiga, tão esguia e frágil, envelhecida antes do tempo. Maggie estava com 12 anos, quando ela morreu. A causa da morte fora oficialmente atribuída à pneumonia, mas Maggie sabia que a mãe literalmente trabalhara até morrer. Podia lembrar-se dela nitidamente sempre trabalhando, desde a madrugada até tarde da noite, sempre lutando para manter um lar decente para sua família, sempre defendendo os fracassos do marido, jamais se queixando. Maggie crescera protegendo a mãe, defendendo-a prontamente quando o pai se queixava porque o jantar não estava na mesa no minuto em que entrava em casa. Não condenava a mãe por se auto-anular; considerava que a mãe estava enganada. Quanto a Maggie, não era absolutamente de se autoanular.

A ambição ardia dentro dela. Não a do tipo sonhador que o pai tinha. A dela era feroz e consumidora, impelindo-a a estudar mesmo sem ir à escola com regularidade, e a entesourar as moedas que conseguia poupar da quantia diminuta que o pai lhe dava para comprar a comida deles. Algum dia teria o dinheiro poupado para partir, e ninguém iria detê-la.

Quem sabe voltaria algum dia, usando um daqueles vestidos elegantes como os modelos nas revistas de moda. Adoraria ver a cara das pessoas. Sorriu só de pensar.

O local onde vadeariam o rio ficava logo adiante, à esquerda. Maggie recuou para a retaguarda do rebanho enquanto guinavam o gado para a margem, agrupando-o ainda mais. O rio estava na sua profundidade máxima. As neves derretidas do inverno e as chuvas da primavera faziam com que chegasse até a altura do peito, exceto onde havia bolsões mais fundos. No local da travessia o rio era largo e raso, chegando até o tornozelo, na maior parte do ano, e até a coxa na primavera.

A visão limpa e clara do rio piscando para ela por entre os choupos das margens fez Maggie se lembrar de como estava suja e suada. Há quase duas semanas que estavam sem água corrente em casa, desde que a bomba do poço se quebrara. O pai andara mexendo nela... sem êxito. Ela estava carregando a água que precisavam do celeiro, que era servido por um poço diferente. A ideia de carregar e aquecer água o bastante para um banho não parecia atraente, em vista das tarefas a serem feitas e o jantar ainda a ser preparado quando chegassem em casa.

A margem do rio inclinava-se suavemente para dentro d'água gasta pelos anos de vadeação. Fizeram o gado descer a encosta, agrupando-o compactamente. As reses da vanguarda recusaram-se a entrar na água. Gritando e assobiando, eles empurraram para frente as da retaguarda, forçando as primeiras para dentro d'água. A travessia foi feita facilmente, pois a correnteza morosa não oferecia problemas.

Maggie ficou para trás para cavalgar ao lado do pai. Daqui em diante era uma viagem fácil de quilómetro e meio até a cerca. O pai e Culley juntos poderiam cuidar do gado sem dificuldade. Tendo acordado ao alvorecer para ajudar com as tarefas da manhã, e não tendo parado um só minuto desde então, Maggie se achava com direito à meia hora ou mais de descanso e à chance de dar um mergulho, em vez de simplesmente tirar com uma esponja a sujeira do dia.

Você e Culley podem prosseguir daqui disse Maggie.

Aonde pensa que vai? O pai lançou-lhe um olhar de desafio.

Nadar. Jogou a resposta por cima do ombro enquanto desviava seu cavalo do dele e o encaminhava na direção do rio.

Há trabalho por fazer! berrou ele.

Estou certa de que estará esperando por mim, quando eu voltar para casa.

Não mandei que não fosse à escola hoje para ir nadar no rio gritou Angus, para a figura que se afastava.

Enquanto ia embora, Maggie não olhou para trás nem deu sinal de tê-lo ouvido. O pai sacudiu a cabeça, frustrado. Simplesmente não entendia aquela garota... sempre respondendo, nunca lhe mostrando nenhum respeito. Era a cara da sua querida e meiga Mary Frances, mas não possuía a suavidade de espírito dela, nem a doçura.

Deus sabia que tentara o máximo para ser um bom pai para ela. Tinham um lugar para dormir e comida na mesa. Prometera comprar-lhe todas as roupas e coisas bonitas que uma mocinha devia ter. Nunca nada que fazia era o bastante para essa garota. Era uma diabinha; nunca lhe dava um minuto de paz.

Já o Culley era um bom rapaz. Sempre escutava e compreendia por que as coisas eram como eram. Angus desejava que Maggie fosse mais como o irmão. Mas Culley era rapaz. Era mais fácil relacionar-se com um filho. Um pai tinha que escolher as palavras com cuidado, com uma filha. Se Mary Frances fosse viva, explicaria as coisas para Maggie e faria com que a garota compreendesse que não era culpa dele serem pobres. Eram as pessoas como Webb Calder que não davam a um homem a chance de progredir na vida.

 

Com uma torção hábil do pulso, Chase deixou a corda voar e fez um volteio ao redor do arção dianteiro da sela enquanto o laço pousava no pescoço de um bezerro. No dia a dia de trabalho do vaqueiro, laçar bezerros não incluía as freadas bruscas dos cavalos ou o bezerro sendo lançado ao chão quando chegava ao fim da corda, como os rodeios mostravam. Sem grandes extravagâncias, o bezerro era laçado e arrastado a pé para as equipes que o vacinariam e marcariam.

No entanto, a cena era mais emocionante e confusa do que um rodeio, nesta arena de pastos agrestes sob hectares de céu azul. Havia homens andando apressados por toda a parte, a pé e a cavalo. Havia constantes pilhérias e desafios, e o mugido dos bezerros e do gado, cavaleiros desviando-se de grupos a pé que perseguiam um bezerro, homens abaixando-se para não ser laçados. Cascos agitados haviam esmagado o capim, deixando o solo exposto e levantando uma fina névoa de pó para embotar os acontecimentos.

A cena atacava os sentidos, deixando tontos os olhos que tentassem enxergar tudo o que se passava, confundindo os ouvidos que tentavam separar a mixórdia de sons, e assaltando o nariz com os odores combinados de suor, estrume e pêlo queimando.

Por entre o labirinto de homem e animal, Chase arrastava o bezerro que protestava. Foi Buck quem se aproximou para flanquear o seu bezerro e levá-lo ao chão. O suor havia feito listas de lama no rosto de Buck. Enquanto ele espetava uma dose de vacina no bezerro caído, um segundo vaqueiro apertava o ferro de marcar quente da Triplo C na anca do bezerro. Em seguida, Buck estava afrouxando o laço e soltando-o para deixar o bezerro chorão correr de volta para sua mamãe.

Enquanto Chase começou a enrolar de novo seu laço, Buck parou para tomar fôlego.

Não aguento três dias disso, Chase. Tudo por causa de uma simples "porrada". Não é direito. Simplesmente não é direito insistiu.

O mundo é duro, Buck. A linha da sua boca se curvou, reduzindo um pouco da sua severidade natural.

Que frase profunda, vinda do herdeiro de tudo isto debochou Buck, e deu um passo cansado atrás de outro bezerro laçado.

O comentário não causou nenhuma impressão em Chase, enquanto dirigia seu cavalo para o rebanho. Aceitava sem questionar que o império dos Calders lhe pertenceria, algum dia. Crescera sabendo disso. Nunca houve um momento em que tivesse pensado em outra possibilidade qualquer. Alguém chamou seu nome, e ele parou. Olhando ao redor, viu o pai fazendo-lhe sinal para que se unisse a ele, como espectador. Atravessou a cavalo aquela confusão de marcar gado e veio postar-se ao lado do garanhão do pai, empurrando o chapéu para o alto da cabeça.

O que é?

Quero que venha jantar comigo em casa, hoje. Ante a vaga surpresa surgida nos olhos de Chase, o pai explicou: O Senador Bulfert deve chegar de avião, por volta das cinco. Vai jantar conosco e passar a noite lá em casa antes de seguir para Helena, pela manhã. Está na hora de você ter experiências de primeira mão com a politicagem dos bastidores.

Mais lições? O sorriso de Chase ficou um tanto estouvado, revelando divertimento pelas lições intermináveis do pai.

Até agora, só o que você aprendeu foi o básico respondeu Webb com seriedade total. Se espera dirigir bem esta fazenda algum dia, ainda tem muito que aprender.

No tocante a este assunto, o pai não tinha senso de humor. Endireitando-se na sela, Chase enterrou bem o chapéu na cabeça e apagou o sorriso do rosto.

Sim, senhor.

Sei que você acha que esta fazenda praticamente se dirige sozinha. Webb leu os pensamentos do filho. Mas, quando chegar a hora de você assumir a direção, vai ficar assoberbado, porque eles vão tentar tirá-la de você.

Você vive falando desses "eles", mas nunca me diz quem "eles são". Chase não podia imaginar alguém ameaçando tirar-lhe a estância. Como seria possível?

Isso vai ser problema seu, descobrir qual dos seus amigos ou vizinhos está aprontando alguma coisa contra você. A fazenda parece segura, mas é vulnerável porque é muito grande. Suas feições ficaram marcadas com uma tristeza sombria. Ninguém gosta realmente de você quando se é grande, filho. Às vezes, esta é a coisa mais difícil de se dar conta... e aceitar.

Parecia a Chase que o pai estava exagerando, mas ficou calado. Aprendera há muito tempo que geralmente havia grande dose de verdade no que o pai dizia, não importa com quanto ceticismo ele o encarasse na hora.

Deixei a pick-up estacionada na porteira leste do pasto. Nate virá conosco e trará os cavalos. Webb pegou as rédeas. Vamos. Não devemos deixar o senador esperando.

Você está com o senador no bolso, e sabe disso comentou Chase, secamente.

O pai apenas sorriu.

Se você está com um homem no bolso, ele geralmente está furtando.

Rindo baixinho do humor seco do pai, Chase o acompanhou para irem encontrar-se com Nate Moore, do lado mais próximo do rebanho. Quando o vaqueiro experiente notou Chase, voltou o olhar para Webb.

Não me disse que eu ia perder um homem. Qual é a ocasião importante? indagou, emparelhando o cavalo com os deles.

O senador vem passar a noite aqui.

Um brilho malicioso surgiu nos olhos do vaqueiro mais velho, embora sua expressão não tivesse mudado.

O velho Bullfart vem aí, hem? perguntou, adulterando grosseiramente o nome do senador.

É, o Senador Bulfert vem aí. Webb enfatizou o nome certo do senador, mas não havia censura no seu tom.

Imagino que seja uma boa ter amigos influentes admitiu Nate mesmo quando eles fedem.

Faço o que posso para ficar contra o vento, para que o cheiro dele nunca chegue até mim, replicou Webb e tocou seu cavalo a um meio galope acentuado.

Nate e Chase rapidamente o imitaram para cavalgar a seu lado, mas nunca à sua frente. Era uma das leis não escritas da terra... nunca cavalgue à frente do patrão.

A oito quilómetros do rebanho, os choupos enfiavam as suas cabeças verdes no horizonte, marcando o curso do rio. A rota deles era a mesma que O'Rourke tomara com o seu gado. A passagem do pequeno fazendeiro estava nitidamente marcada pela grama pisada, que se endireitava devagar. Ao se aproximarem do lugar de vadeação do rio, Webb Calder diminuiu a andadura para um meio galope, depois um simples caminhar, com o olhar se dirigindo para a margem oposta.

Depois que tivermos acabado de marcar o gado, quero que deixe um homem aqui para verificar a cerca de O'Rourke, Nate

ordenou Webb.

Já era minha ideia disse o capataz, balançando a cabeça.

Achei que tinham tresmalhado reses demais para ser um acidente.

O comentário tocou alguma coisa na memória de Chase, levando-o de volta aos seus 12 ou 13 anos. Tinha acompanhado o pai num recolhimento de gado de outono. Naquela ocasião, um estancieiro diferente tinha mais de 100 reses "tresmalhadas" no pasto dos Calders. Tinha havido uma discussão acalorada e amarga entre o estancieiro e o pai, aquele alegando que havia pasto mais do que suficiente para ambos, e que o pai devia partilhá-lo. O pai mandara que o homem e seu gado se retirassem da terra dos Calders, avisando que atiraria no próximo animal dele que aparecesse por lá.

Na época, pareceu-lhe que o homem tinha um argumento válido. Havia o bastante para todos. Mais tarde, quando interrogara o pai a respeito, Webb explicara que, se deixasse um pequeno fazendeiro trazer seu gado para o pasto dos Calders, abriria um precedente para admitir todos os outros dentro das suas fronteiras. Então, a terra não seria mais sua. Uma vez que se traça uma linha, nunca se deve recuar dela para traçar uma nova linha. Um homem tem que manter firme sua posição, ou viver recuando.

Passando o ponto onde os rastros do gado viravam para a encosta suave que descia até o rio, continuaram numa linha reta até a porteira leste. O rio fazia uma curva ampla, amoldando-se mais à trilha deles. Quando o seu cavalo virou a cabeça para o rio, erguendo as orelhas, interessado, Chase olhou na mesma direção para ver o que tinha atraído a atenção da sua montaria.

Através de uma brecha entre as árvores, viu um cavalo amarrado a um toro na margem oposta. Notando a marca de Shamrock na sua anca, Chase freou rapidamente. Franziu a testa enquanto procurava os cavalos dos outros dois cavaleiros e o motivo pelo qual o clã dos O'Rourkes tinha parado ali. Em vez disso, seus olhos depararam com roupas penduradas num galho seco do toro caído e, um segundo mais tarde, viu o clarão de um corpo branco no rio. A figura veio à tona e Chase viu os longos cabelos negros, molhados e lustrosos à luz do Sol. Um sorriso frio tocou-lhe a boca, um brilho de vingança faiscando nos olhos escuros.

Nate Moore foi o primeiro a notar que Chase não estava atrás deles. Diminuindo a andadura do cavalo, virou-se na sela para cruzar com o olhar os vários metros que os separavam.

Rapaz, você não vem?

Vão indo na frente. Daqui a pouco pego vocês. Chase fez um gesto distraído, mandando que seguissem, enquanto observava a moça nua no rio.

Aonde você vai? Webb parou o cavalo, quando Chase começou a voltar pelo mesmo caminho.

O rapaz parou o tempo suficiente para responder:

Terminar uns negócios inacabados e empatar o jogo.

O débil sorriso transformou-se num sorriso amplo e estouvado, enquanto terminava de virar o seu cavalo e o esporeava a um meio galope na direção do ponto de vadeação do rio.

O olhar vivo de Nate já percebera o motivo.

A garota O'Rourke está nadando pelada no rio. Webb soltou um suspiro levemente desgostoso.

Roubar as roupas de alguém é travessura de criança. Pensei que ele já tinha superado essa fase.

Porém Nate era menos crítico.

A garota feriu seu orgulho, quando fez com que parecesse um bobo na frente dos rapazes. Se eu fosse ele, poderia estar querendo ir à forra.

Com seu silêncio, Webb admitiu que havia alguma justificativa para a atitude do filho. Guinou o cavalo novamente para a porteira leste e deixou que andasse a passo, com firmeza.

Vadeando o rio, Chase virou o cavalo e seguiu o curso d'água por 400 metros até o local onde tinha visto a garota. Encontrou o corte na margem que ela usara para chegar até o banco de areia e fez o seu cavalo descê-lo, seguindo os rastros da montaria dela. O baio dela rinchou indagadoramente, ante sua aproximação, mas a garota que espadanava na água estava indiferente à sua presença. Chase cavalgou até o toro e se inclinou de banda na sela para apanhar as roupas penduradas no galho seco.

A água era fria e revigorante. Maggie descobrira que, se ficasse se mexendo, a temperatura gelada era tolerável. Era um pequeno desconforto, se comparado à agradável sensação de toda aquela água clara e brilhante fluindo sobre sua pele. Ao longo deste trecho do rio, a água batia pela altura do peito. Maggie deixou os pés baterem no fundo e jogou o cabelo pesado e molhado para as costas, tirando a água do rosto.

Ora, de quem serão essas roupas?

A pergunta irónica a percorreu como um choque elétrico. Deu meia-volta dentro d'água, quase perdendo o equilíbrio, enquanto os olhos arregalados buscavam o intruso. Chase Calder estava debruçado para frente, na sela, um braço apoiado no arção dianteiro, segurando as roupas dela na mão. O primeiro choque do embaraço cedeu lugar ao ultraje.

Ponha isso onde o encontrou e saia daqui! Maggie o confrontou, os braços boiando na água para manter o equilíbrio.

São suas? indagou ele, fingindo surpresa, o que a deixou com mais raiva ainda.

Sabe que são.

Chase levantou-as para examiná-las.

Não podem ser. São roupas de homem, grandes demais para uma coisinha como você zombou.

São minhas... e você sabe! A jovem tinha parado de se mexer e a água gelada começou a deixar sua carne dormente. Tinha que fechar firme a boca para impedir os dentes de baterem.

Mas eu não sei insistiu o rapaz.

Ponha-as de volta no galho, Chase Calder! A voz dela tremia, de raiva e do frio que a invadia. Ponha-as de volta e se mande daqui!

Não posso fazer isso. Enrolando as roupas numa trouxa, Chase virou-se parcialmente na sela e amarrou-as atrás da patilha.

Maggie o observava com pânico crescente.

O que está fazendo?

Levando-as comigo, é claro replicou, terminando de amarrá-las e se endireitando para pegar as rédeas do cavalo. Tem algum pobre vaqueiro andando por aí sem roupa. Isso não é possível. Estalou os dentes para fazer o cavalo andar e afastou-o do rio.

O pânico a inundou, quando se deu conta de que ele estava realmente indo embora com suas roupas.

Não! São minhas! Traga-as já para cá! A voz estava cheia de alarme, transformando a raiva em medo.

Parando o cavalo, o rapaz deu um quarto de volta com ele, deixando-o paralelo ao rio. Cascos de ferro bateram no solo arenoso enquanto o cavalo se mexia impaciente, esperando que o cavaleiro se decidisse aonde iriam.

O sol que batia na água clara como cristal do rio transformava sua superfície em vidro. Do seu ponto privilegiado na sela, Chase viu a forma nua e branca do corpo dela debaixo dágua, esbelta e de seios altos. Ele tinha um apetite de rapaz, e o recolhimento de gado na primavera significava um longo período de jejum, portanto a visão dela o excitou facilmente.

No começo, Chase tinha pretendido apenas tirar as roupas dela e se afastar um pouco, antes de deixá-las onde ela as pudesse encontrar. Agora, estava mudando os planos inconscientemente, querendo vê-la sem que a distorção da água interferisse com a visão.

Se as roupas são suas, por que não vem buscá-las? desafiou, com voz macia.

Maggie inspirou vivamente, pressentindo uma mudança no ar. Havia algo novo e sutil presente, vagamente ameaçador. Afundou-se mais ainda na água gelada, que lambia as concavidades de sua clavícula.

Não.

Se quer as roupas, terá que vir buscá-las.

Não. A recusa dela foi mais veemente, desta feita, mas os dentes já tinham começado a bater com o frio entorpecedor. Mexeu os braços dentro da água, tentando manter a circulação funcionando. Deixe as minhas roupas onde as encontrou insistiu, com voz trémula.

Não posso fazer isso. Sacudiu a cabeça brevemente e mudou de posição na sela, como que se ajeitando mais confortavelmente. Vou ter que esperar até você sair da água e vir buscá-las.

Não vou sair enquanto você estiver aí retrucou Maggie.

Não vou embora enquanto você não sair. Chase podia ver que ela estava tremendo, e adivinhou que a água estava gelada. Vai congelar nesse rio. É melhor sair daí antes de ficar azul.

Prefiro morrer congelada do que botar os pés nessa margem com você aí! Uma fúria impotente a percorria com violência.

Sua idiotazinha. Chase viu a expressão de pura teimosia no rosto dela, e enrijeceu o maxilar. Assumira uma posição e não podia recuar. Aquilo lhe deixava apenas um recurso... avançar. Nesse caso, terei que ir aí buscá-la.

O olhar arregalado dela estava cheio de pânico.

Não teria coragem falou, mas havia dúvida na sua voz trémula de frio.

Não? Ele ergueu uma sobrancelha e estendeu a mão para a corda enrolada amarrada abaixo do arção anterior da sela.

O cavalo ficou instantaneamente alerta. O laço representava o tipo de trabalho que o animal entendia e curtia. Quando o cavaleiro guinou o cavalo para a figura na água, este levantou as orelhas curiosamente para a garota, depois mexeu-as para frente e para trás, em dúvida de que o cavaleiro realmente pretendesse que o ser humano fosse o seu objetivo.

Soltando o laço, Chase entrou com o cavalo dentro d'água, ignorando o seu bufido ante essa história curiosa. O laço da corda estava seguro baixo e livremente a seu lado direito, pronto para entrar em ação quando chegasse a hora.

Durante vários e longos segundos, Maggie viu enquanto ele se aproximava, parte dela se recusando a acreditar que ele ia fazer aquilo. Depois, tentou nadar para longe do caminho dele. Chase esporeou o animal, metendo-o água adentro para fazê-la voltar.

O rio ultrapassou o topo das suas botas, a sua temperatura mais fria do que ele imaginara.

Enquanto ela tentava mudar de direção e se desviar dele de novo, o único alvo certo que seu laço tinha era a cabeça dela. A essa profundidade o laço ficaria na superfície, pegando-a pelo pescoço. Precisava levá-la para o raso, onde a corda pousaria na sua cintura. Tornou-se um jogo de gato-e-rato, com o resultado já previsto, porque o gato era ligeiro demais e o rato moroso demais.

A temperatura gelada do rio enrijecera os músculos dela, tornando seus reflexos lentos e os movimentos descoordenados. Maggie patinhou na água funda, mergulhando uma vez antes que os seus dedos raspassem o fundo para empurrá-la para a superfície. O frio esgotara suas forças. Fraca e trémula, estava assustada pelo novo perigo de afogamento.

Quando parecia que Chase a havia seguido longe demais no canal do rio, o seu cavalo bufando nervosamente ante a água que chegava a meio caminho das suas cernelhas, Maggie se lançou desesperadamente na direção da solidez da margem. Todo o seu esforço estava concentrado em tentar correr, quando alcançou a água que lhe batia pela barriga.

Um sorriso complacente curvava a boca de Chase. O seu cavalo começara a se dirigir para a terra um segundo após o início da fuga da garota. Arremetia-se pela água atrás dela, enquanto Chase erguia a corda para girá-la acima da cabeça. Enquanto fazia cálculos de distância e velocidade, a outra parte da sua mente notava o perfil saliente dos seios dela e as nádegas muito brancas enquanto a jovem corria para longe dele.

Girou a corda duas vezes acima da cabeça antes de deixar o laço voar para o alvo. Ele pousou sobre os ombros dela e Chase o apertou logo acima dos cotovelos. O cavalo parou o mais rápido que pôde na água para manter a corda esticada.

Maggie debatia-se loucamente, contorcendo-se e esforçando-se para afrouxar o laço que a prendia, emitindo ruídos animais de desespero. A despeito de todos os seus esforços, a tensão da corda não foi aliviada. Lançou um olhar desesperado por cima do ombro, uma cortina de cabelos negros e molhados a atrapalhá-la.

Com sua presa capturada, Chase instou o cavalo a se adiantar enquanto seus olhos percebiam a beleza nua dela. O cavalo ficou momentaneamente confuso com a ordem, treinado para manter a corda esticada até que o cativo fosse libertado, porém, ante a insistência do cavaleiro, obedeceu. Chase mantinha a corda esticada, passando o excesso para a mão esquerda e enrolando-o.

Não fez nenhuma tentativa para deter o cavalo até que ele ficou junto da garota que tropeçava, espadanava e ainda lutava. Vista de perto, a perfeição imaculada da sua carne nua ainda era mais bonita. Chase puxou-a um passo para trás para emparelhá-la com sua sela e se abaixou para pegá-la. O laço apertado prendialhe os braços aos lados.

Quando a envolveu pela frente da cintura, era como segurar um pingente de gelo. Mesmo através da sua jaqueta, podia sentir como a moça estava fria. Os pensamentos libidinosos de que podia estar possuído foram sobrepujados pela preocupação com uma pessoa exposta por tempo demais às águas gélidas do rio. Ficou com raiva de si mesmo, enojado com sua atitude. A garota estava quase congelada, e tudo porque o seu maldito orgulho quisera vingança. Chase ergueu o corpo que chutava e se retorcia para a sela à sua frente.

Largue-me!

O cabelo molhado cobria-lhe os seios como faixas de seda negra, enquanto seus braços amarrados se cruzavam para tapar a faixa inferior e triangular de cabelos negros.

Uma parte distante da mente dele notou a fúria da jovem; mesmo agora, quando tinha que estar assustada com as intenções dele, não implorava ou demonstrava medo. Registrou distraidamente um sentimento de respeito pelo seu espírito indomável. Mas outras considerações dominavam seus pensamentos, naquele momento.

Fique quieta e tiro a corda de você.

Chase deu a ordem enérgica, enquanto tentava segurar o corpo que Jutava e se contorcia na sela, e o cavalo se mexia inquieto sob o fardo indócil.

Ela ergueu os olhos para ele, cautelosa, sem confiar nele plenamente. Estava tremendo violentamente demais para ficar imóvel, porém parou de se debater. Quando Chase afrouxou a pressão nas rédeas para poder tirar a corda, o cavalo começou a se dirigir para a margem. Ele o deixou ir e tirou o laço pela cabeça dela, jogando a corda no cascalho. Imediatamente, ela tentou pular do cavalo, mas Chase a deteve.

Vista a minha jaqueta ordenou, tirando-a e colocando-a sobre os ombros dela. A jaqueta praticamente a engolia. Chase viu os cílios longos e negros se juntarem numa apreciação muda pelo calor do corpo dele que o casaco transmitia.

Segurando-a pela cintura, saltou da sela. Mesmo molhada de pingar, pesava quase nada. Podia sentir os tremores violentos que lhe sacudiam o corpo, mas ela não fazia um ruído, permanecendo rígida nos seus braços, rejeitando sua assistência. Um galho quebrado da árvore seca jazia no trecho ensolarado do banco de areia. Chase botou-a no chão ao lado dele e começou a quebrar a madeira seca em pedaços.

Daqui a dois minutos teremos uma fogueira falou, mas não recebeu resposta.

A madeira seca pelo sol era como mecha, ardeu ao primeiro fósforo. Chase abanou-a com o chapéu e deixou-a arder bem por um minuto, depois armou uma estrutura cónica de peças maiores para manter a fogueira acesa. A garota se aproximou mais do calor que ela transmitia, toda encolhida dentro da jaqueta dele, que lhe chegava até as coxas. O olhar dele percebeu as gotas de água na carne arrepiada das suas pernas nuas. Quando ele começou a desabotoar a camisa, ela lhe lançou outro daqueles olhares verdes enviesados e desconfiados.

Usando a camisa como toalha, começou a enxugar-lhe as pernas, começando com os pés, passando pela barriga da perna e indo até acima dos joelhos. Esfregava com força para estimular a circulação. Ela emitiu um som de protesto mal abafado. Chase sabia que estava fazendo com que mil extremidades nervosas tinissem dolorosamente.

Quando terminou, enfiou um galho comprido em pé no solo arenoso ao lado do fogo, e pendurou nele a camisa úmida para secar. Foi só então que se deu conta de que suas botas e meias também estavam todas molhadas. Tirou-as e torceu as meias de lã, colocando-as próximo ao fogo para secar ao calor.

O tempo todo, Maggie o observava calada. As sensações começaram a voltar-lhe ao corpo, os tremores reduzidos a arrepios ocasionais, graças ao calor do fogo e à grossa jaqueta.

Tanto o pai quanto o irmão, Culley, eram homens miúdos. Nenhum dos dois tinha o peito e braços largos e musculosos que Chase Calder tinha, nem aqueles tufos grossos de pêlos castanhos DO esterno. Ficou examinando os movimentos daqueles músculos fortes enquanto ele trabalhava, todo carne rija e osso. A seus olhos parecia uma montanha de homem. Um vestígio de admiração veio à tona, e Maggie abafou-o da única maneira que sabia.

Você está ridículo de chapéu e sem camisa e botas falou.

Estou, é? Tirando o chapéu, pousou-o no chão e correu os dedos pela revolta cabeleira escura. A seguir, lançou-lhe um olhar malicioso. Você também não está exatamente bem vestida, guria.

Isso é porque você tirou minhas roupas. Os cabelos longos e molhados de encontro à sua pele estavam começando a ficar desconfortáveis. Maggie tentou erguê-los para fora da gola, enquanto mantinha a jaqueta firmemente à sua volta, e os braços dentro dela. E não sou uma guria acrescentou em protesto, ainda lutando com o peso do cabelo.

Percebi murmurou ele, seco. Vividamente, lembrou-se de como ela era embaixo daquela jaqueta e podia atestar que possuía um corpo de mulher. A lembrança da visão excitou-o, enquanto via a dificuldade que ela estava tendo. Deixe que faço isso ofereceu-se Chase e foi ficar atrás dela.

Começando à altura das maçãs do rosto, os dedos dele passaram para trás das orelhas dela e se enrolaram naquela cabeleira pesada, retirando-a de sob a jaqueta e espalhando-a pelas costas, do lado de fora. Havia uma certa sensualidade em segurar todo aquele cabelo nas mãos. Queimava-o como um fogo negro. Chase soltou-o e se afastou para pegar um graveto, quebrando-o em dois num esforço para deter a excitação dos seus sentidos incandescentes. Agachou-se ao lado dela para acrescentar os pedaços quebrados de madeira ao fogo.

Quantos anos tem, Maggie? Usou o nome dela inconscientemente, fixando o olhar nas chamas oscilantes.

Dezesseis. Mordeu o lábio, ante a mentira, e admitiu. Vou fazer em agosto.

Chase virou a cabeça para olhar para ela, um sorriso enviesando-lhe a boca.

Dezesseis primaveras e nunca foi beijada. O seu tom zombeteiro era áspero e não combinava com o jeito com que a estava olhando.

As palavras dele fizeram com que Maggie se encolhesse mais ainda na jaqueta, abraçando os joelhos para envolver mais as pernas na sua imensidão.

Clyde Barnes me beijou uma vez, quando estávamos brincando no pátio da escola.

E quantos anos você tinha?

Ela baixou mais o queixo e evitou o olhar dele para fitar os dedos dos pés.

Treze. Havia uma brusquidão defensiva na resposta.

Ninguém pode dizer que você não tem experiência murmurou ele, com voz arrastada e áspera.

Nunca falei que tinha experiência. Lançou-lhe um olhar de esguelha de orgulho ferido. Clyde nem tinha treze anos. A intensidade do olhar dele estava ficando insuportável. Sei que é diferente quando um homem beija a gente.

Fez-se um segundo de silêncio; depois, a mão dele estava no pescoço dela, virando-lhe a cabeça e erguendo o queixo dela na sua direção.

Como é que sabe?

A escuridão penetrante do olhar dele perturbava-a de uma maneira excitantemente curiosa que parecia intensificar todos os seus sentidos. Não conseguia dar-lhe resposta, capturada demais pela certeza louca de que ele ia beijá-la e ela ia descobrir por si mesma se era verdade que um beijo de homem era diferente.

 

Inclinando vagarosamente a cabeça para ela, Chase exerceu uma leve pressão no seu pescoço para puxá-la para frente. Ela não tentou recuar ou resistir. Antes que a sua boca tocasse os lábios dela, Chase aspirou-lhe o cheiro fresco e limpo... como o do ar depois de uma chuva de verão. Sua terrenalidade simples o tocou. Quando sua boca pousou nos lábios fechados da moça, eles permaneceram imóveis, em inocência. Ele a esfregou sobre a maciez dos lábios dela, buscando uma resposta, e ficou insatisfeito quando não a obteve. A incerteza da moça quanto ao que se esperava dela conseguiu transmitir-se para ele.

Chase ergueu a cabeça dois centímetros dos lábios dela.

Não deixe a boca tão dura. Relaxe instou, num murmúrio tranquilizador. Deixe os lábios se mexerem contra os meus.

Está bem. O hálito doce dela o bafejou, excitando-o. Desta feita, Maggie ofereceu uma resposta tentativa para a pressão da boca do rapaz. Gostou daquela sensação engraçada e enroscada que criava dentro de si. Sob a orientação dele, sua confiança cresceu, e foi recompensada com o prazer.

O polegar dele começou a traçar círculos indolentes na concavidade sensível atrás da orelha dela, despertando mais sentidos. Havia tanto calor tinindo por seu corpo que Maggie achava difícil acreditar que há poucos minutos estivera tremendo de frio. Estava tremendo, mas por um motivo inteiramente diverso.

Quando Chase terminou o segundo beijo, os lábios dela se grudaram aos dele por um breve segundo. Ficou contente quando ele permaneceu junto dela e não se afastou. Fitou a linha masculina da boca que havia produzido aquelas maravilhosas sensações novas que a inundavam. O olhar dela subiu para a largura distendida do nariz e para os pontos angulosos das maçãs do rosto antes de ficar preso à intensidade dos olhos. Exceto pela vitalidade ardente dos olhos, ele parecia entalhado em pedra. Maggie não percebia que os desejos extremos dele o mantinham imóvel. Ficou levemente intrigada com a maneira fantástica como se sentia, perguntando-se se seria normal.

A expiração longa e trémula que ela soltou era quase um suspiro.

A gente tem que ficar toda trémula por dentro quando um homem nos beija? Era uma pergunta sem malícia, instigada por uma curiosidade que não podia conter.

Não com todo homem... só um ou dois. A voz dele vibrava de algum lugar dentro de si, bem profundo.

Aos pouquinhos, Maggie começou a mover os lábios mais para perto da linha da boca do rapaz. A hesitação era causada por um sentido interno que a advertia que esta era uma experiência que podia tornar-se incontrolável, mas sua audácia natural levou-a além do ponto de cautela. Chase não permitiu que ela fizesse tudo sozinha... foi encontrá-la a meio caminho.

Desta vez, quando sua boca se fechou sobre a dela, Maggie sabia exatamente o que fazer. A ansiedade do seu beijo de retribuição provocou uma reação instantânea e exigente da parte dele. Ela sentiu que estava sendo devorada, consumida inteira pela fome avassaladora daquele beijo. A fraqueza subsequente fez com que ela oscilasse, porém o braço livre dele se moveu, a mão segurando-lhe o ombro para firmá-la.

Mudou de posição para que ela não tivesse que se inclinar para alcançá-lo. A maciez dela parecia infinita. Seus lábios cederam à intrusão da língua dura dele, porém os dentes brancos provaram ser uma barreira irritante. Ele recuou. Não havia necessidade de forçar quando a experiência já demonstrara que ela era uma aluna aplicada, quando devidamente instruída.

Abra a boca, Maggie murmurou ele de encontro ao canto dos lábios da garota.

Desta feita, não houve resistência e sua língua penetrou nos recessos escuros e secretos da boca da moça. A princípio, ela manteve a língua bem apertada ao fundo da boca, evitando o contato com a dele. Aos poucos foi relaxando, deixando a língua tocar a dele e enroscar-se nela até que as duas estavam se acasalando doidamente, deixando Chase louco com uma necessidade maior. O braço dele a envolvia, uma mão espalmada entre as suas omoplatas, enquanto a outra permanecia na maciez do seu pescoço.

A jaqueta volumosa impedia-o de chegar tão perto quanto queria, a jaqueta e as mãos e os braços debaixo dela, segurando-a.

Frustrado e incapaz de controlar os desejos poderosos e primitivos sufocados há tempo demais, Chase soltou a boca da boca da moça e buscou-lhe o lóbulo da orelha, tomando-o entre os dentes e mordiscando-o, querendo comê-la toda e alimentar esse apetite insaciável que o consumia. Deslizou a mão pela garganta dela, abrindo caminho para seus beijos e afastando a gola empoeirada da jaqueta para expor-lhe a concavidade do pescoço e ombro. Sentiu-a tremer e ouviu um leve gemido. Ficou contente ao ver que a estava afetando com suas carícias, levando-a consigo para os redemoinhos da paixão. No entanto, o abraço era unilateral demais. Só ele estava tocando e acariciando. Seu corpo ansiava pela sensação da carícia dela.

Dê-me sua mão mandou sua voz rouca, e Maggie enfiou a mão pelas fartas dobras da jaqueta.

Ele a levou até a solidez do seu peito nu. Os dedos dela se espalharam sobre o Calor da pele dele, e os músculos se contraíram trémulos sob seu toque. Ela deu início a uma exploração tátil do tórax másculo, e achou-o mais excitante de tocar do que de admirar à distância. Os pêlos crespos do peito dele roçavam suavemente as suas palmas sensíveis; os terminais nervosos tiniam numa reação encantada. Músculos ondulavam no ombro e no braço dele, e Maggie curtiu a força contida sob seus dedos.

A boca de Chase voltou para tomar-lhe os lábios numa posse impetuosa. A urgência crua do beijo empurrou-a para trás, e o braço dele baixou-a devagarinho até o solo. A jaqueta protegia a pele nua dela do leito de areia e cascalho. A mão dele traçou-lhe o contorno do braço e aproveitou o expediente para insinuar-se dentro da jaqueta. Segurou-lhe o seio na palma da mão com segurança e tranquilidade, fazendo o gesto de intimidade parecer muito natural. Os dedos dela soltaram as abas da jaqueta. Perdera o motivo para deixá-la fechada. O frescor do ar contra sua pele só tornava mais agradável o calor do toque dele; e isso deixava sua outra mão livre para dobrar a extensão de território que podia explorar. Além disso, não ficava nada no caminho para detê-lo.

O seio firme e redondo foi a perdição dele. Se tivesse tido a força de vontade para parar antes de irem longe demais, Chase perdeu-a naquele momento. Tudo o que lhe restou foi o controle para ir com calma e tornar a experiência tão gratificante para ela quanto ia ser para ele.

O polegar dele rodeou o pico rosado do seio, sentindo-o endurecer sob a estimulação. Então sua boca começou uma expedição lenta até o seu alvo irresistível, mas teve sua atenção desviada por outras atrações no meio do caminho... a pulsação que saltava na garganta dela, a concavidade tentadora na base do pescoço, a curva encantadora do osso do ombro. Chegando finalmente a seu destino, a língua rodeou o botão duro do seio, e ela inspirou vivamente, reagindo, e se afastou dele.

Chase beijou a curva arredondada.

Não tenha medo murmurou.

Medo. Será que era isso o que estava sentindo? Estava nervosa, mas não havia medo no meio. Era uma aventura sensual, descobrir as profundezas insondadas dos seus desejos. Cada novo toque apresentava-a a uma esfera de sensações totalmente nova. Ela, que era tão prática, sensata e realista estava sendo levada nas águas da paixão. E o que era mais, estava desfrutando cada segundo da viagem atordoante.

As mãos dela deslizaram pelos músculos salientes dos braços dele até a parte de trás dos seus ombros, assegurando-lhe silenciosamente que não estava com medo. Uma das mãos esguias curvou-se para os músculos fortes do pescoço dele, os dedos enterrando-se, na cabeleira farta para aplicar uma pressão para baixo quando a boca se abriu sobre seu seio e engoliu o bico. O sugar erótico causou um retesamento peculiar nos músculos inferiores do estômago dela, criando uma dor crua que pedia para ser aliviada. Ela se contorceu ligeiramente numa tentativa de diminuir a pressão crescente, fechando fortemente as coxas.

Tomando consciência do movimento sinalizador, Chase foi descendo com a mão, enquanto a língua e os lábios continuavam dando atenção ao seio. Na descida vagarosa, a mão acariciou a curva da cintura e segurou brevemente o quadril, depois parou na parte inferior da barriga, trémula e plana. Quando ela arqueou levemente os quadris ao peso da mão dele, seus dedos deslizaram para o triângulo sedoso de cabelo e esfregaram a área com firmeza suave.

Instintivamente, os quadris dela começaram a se mover em rotações lentas e rítmicas. Desviando-lhe a atenção, ele arrancou a boca do pico de um dos seios e deixou-a subir para a crista do outro. Enquanto mordiscava o mamilo pontudo, seus dedos massageadores fizeram uma revista mais íntima, até que pôde sentir como ela estava molhada. Ruídos animais baixos de tormento e prazer saíam da garganta dela, enquanto se contorcia e arqueava mais os quadris para facilitar-lhe a entrada. Estava alucinada com a sensação.

Ante essa reação totalmente desinibida, uma onda de calor ardeu pelo corpo de Chase. Com um gemido, arrancou a boca do seio dela para esmagar-lhe os lábios, separando-os com a arremetida dura da língua. O seu próprio latejar febril o impulsionava; a necessidade vibrava no seu organismo. Enquanto uma das mãos continuava a massageá-la até que estivesse solta e pronta, a outra desafivelava o cinto e desabotoava a Levi's. Ela gemeu, em protesto, quando ele afastou a mão para tirar a calça.

Abrindo-lhe as pernas com o auxílio do joelho, deslizou para o meio delas, excitando-a de novo manualmente antes de tentar a penetração. Uma ansiedade quente fervia dentro dele, mas controlou-a entrando nela bem aos pouquinhos. Quando alcançou a barreira fina do véu da virgindade, sua primeira tentativa de penetrá-lo provocou um grito abafado de dor. Ela girou o rosto para longe da boca de Chase, empurrando-lhe o peito com as mãos enquanto apertava as pernas e os quadris, numa tentativa de forçá-lo a sair. Chase ficou imóvel, com esforço.

Não. Ela mantinha o rosto virado, os olhos muito apertados, enquanto os quadris continuavam a se afastar dele. Não repetiu, com voz rouca, perturbada, mas não súplice.

Ele acariciou-lhe os cabelos com mão trémula, roçando a boca no seu maxilar e face.

É tarde demais, Maggie. Não posso parar agora murmurou, com voz rouca. Não fuja de mim. Só vai piorar as coisas. Sempre dói da primeira vez, mas não lute contra mim, meu bem. Juro que não vai doer por muito tempo.

Depois de um longo segundo, Chase pôde sentir que ela forçava o corpo a relaxar, mas manteve o rosto virado para o outro lado. Ele começou a beijar-lhe o pescoço enquanto descia as mãos para manter imóveis os seus quadris. Chase estava sendo o mais gentil possível, mas sabia que não era o bastante, pois as unhas dela enterraram-se nos seus ombros e um ruído abafado de dor rasgou-lhe a garganta, quando ele a penetrou. Com arremetidas lentas e firmes foi fazendo a abertura. A tensão convulsa da quase satisfação aumentava dentro dele, porém sabia que era muito cedo, e forçou-se a parar para contê-la.

Quando ele cessou os movimentos, ela virou devagarinho o rosto para ele, que se concentrou na maciez de marfim de suas feições e no contraste vívido dos seus cabelos negros. Ficou emocionado com a rara combinação de orgulho, beleza e força.

Não sabia que era possível alguém ter uma pele tão branca e bonita e um cabelo tão negro... mais negro do que um céu de meia-noite. O olhar velado dele percorria lentamente o rosto e os cabelos dela, numa aprovação carinhosa.

Acabou? Foi uma pergunta rápida e concisa, com a desilusão toldando os olhos verdes dela.

Sua expressão fez-lhe lembrar uma criança a quem tivessem dado um pirulito que prometia doçura e soubesse a giz. Um sorriso suavizou os ângulos duros das feições dele.

A dor acabou, meu bem assegurou-lhe Chase, suavemente. Agora começa o prazer.

Encostou os lábios nos dela, beijando-os suavemente enquanto a mão segurava e acariciava o seu seio. A estimulação firme, constante, de todas as partes do seu corpo, logo persuadiram os quadris dela a se moverem num ritmo instintivo com ele. Gotas de suor formaram-se no lábio superior dele, enquanto Chase buscava as maneiras certas de agradá-la e erguê-la ao clímax da satisfação, enquanto prendia o seu próprio.

O sangue latejava nas veias dele, como lava quente. Começou a perder o contato com a realidade. Não havia mais dois batimentos de coração... apenas um. Não havia dois corpos, mas duas metades combinadas que se acasalavam numa reunião frenética. Continuou assim por uma eternidade de minutos até que o seu prazer um no outro culminou num clímax convulso.

Abraçando-a bem junto de si, Chase ficou deitado de costas fitando o céu azul brilhante. Ambos tremiam, numa espécie de choque posterior atordoado. A mão dele estava enfiada nos cabelos levemente úmidos da moça, enquanto ela pousava a face no duro travesseiro do seu peito. Totalmente satisfeito, inclinou a cabeça para ver o modo como ela se enroscava de encontro a ele.

Eu tinha razão, não tinha? Dei-lhe prazer. Queria ouvila falar que sim, queria saber sem sombra de dúvida que fora uma experiência partilhada.

Ela inclinou a cabeça bem para trás para encontrar os olhos dele, ousadamente orgulhosa, sem demonstrar nenhuma timidez.

Deu. A simples resposta afirmativa disse a ele tudo o que desejava saber, e mais.

Chase inspirou fundo e esqueceu de soltar a respiração enquanto corria os olhos por esta garota que era toda mulher. Nos seus 22 anos, conhecera apenas dois tipos de mulher aquelas que se respeitava, e aquelas que não se respeitava. Namorava as do primeiro tipo e ia para a cama com as do segundo. No entanto, Maggie não se enquadrava em nenhuma das duas categorias. Tinha de 15 para 16 anos. Era virgem quando ele a possuíra, mas agora não havia lágrimas de recriminação nos seus olhos. Embora parecesse uma loucura, tinha mais respeito por ela agora do que pelas mulheres que a sociedade indicava que o mereciam. Chase se deu conta de que não queria que fosse de outra maneira.

Apertou o braço ao redor da cintura dela para levá-la consigo quando se sentou. Enfiou a mão sob seus joelhos para tomá-la no colo enquanto se punha de pé. Automaticamente, ela curvou a mão no pescoço dele, para se apoiar. O olhar dela era curioso, mas não fez perguntas.

Chase parou junto do pedaço de pau em que pendurara sua camisa.

Pegue minha camisa.

Esperou até que ela a tivesse apanhado, depois carregou-a até o rio, pondo-a de pé junto da água. Tomando a camisa das mãos dela, mergulhou-a na água, depois virou-se para lavar suavemente a mancha escura da virgindade perdida do meio das suas pernas. Quando acabou, ela estendeu a mão para a camisa. Intrigado, Chase hesitou antes de entregá-la. Ficou vendo enquanto ela a enxaguava, depois se endireitava para lavá-lo. Ficou emocionado com o rosado das suas faces, sinal de que estava ligeiramente embaraçada por sua ousadia.

Tirando a camisa dela e jogando-a para o lado, dobrou um dedo sob seu queixo e ergueu-o. Ela fitou os seus olhos com uma franqueza natural, o topo da sua cabeça mal lhe chegando ao ombro. O seu tamanho diminuto fez Chase sentir-se enorme, o instinto protetor de macho vindo à tona com força dentro dele.

Maggie. Todas as centenas de coisas que não sabia dizer estavam contidas naquela única palavra. Suas mãos emolduraram-lhe o rosto enquanto se inclinava para beijá-la com meiga ferocidade. As mãos esguias da moça agarraram-lhe os pulsos, segurando-se nele. Com relutância, Chase ergueu a cabeça, sem notar que a brisa havia jogado sua camisa dentro do rio, onde a correnteza morosa foi levando-a rio abaixo. Está ficando tarde. Um sorriso sombrio tocou-lhe a boca, enquanto a soltava e caminhava para junto do fogo que se apagava.

Vestindo a calça, ele não puxou logo o zíper e abaixou-se para pegar as meias quase secas, ficando num pé só para calçá-las. Estava calçando as botas quando notou que Maggie o observava, agarrada à jaqueta para se aquecer, mas ainda nua.

O que foi? perguntou Chase, endireitando-se, erguendo uma sobrancelha intrigada.

Você não me devolveu minhas roupas lembrou ela.

O som da risada gostosa dele fê-la sorrir. O mundo jamais fora mais perfeito do que era neste minuto. Maggie não tinha certeza do que estava sentindo, exceto que era certo. Era por esse motivo que não se aprofundava demais, pois a sua beleza podia desvanecer-se como um dos sonhos fugidios do pai.

O cavalo de Chase se dirigira para debaixo dos choupos para pastar os brotinhos de grama que cresciam na base dos troncos. As rédeas presas impediam-no de ir muito longe. Ele recuou ante a aproximação de Chase. Uma ordem dada em voz baixa fez com que ficasse parado enquanto Chase desamarrava a trouxa atrás da sela. Voltando para o círculo da fogueira, jogou as roupas para ela.

Enquanto ela se vestia, ele se dirigia para a beira do rio, em busca da sua camisa, sem ficar observando-a, como ela o observara. Maggie supunha que haveria pessoas que teriam considerado imprópria a maneira como ela fitara tão abertamente o físico dele. Porém não entendia o que havia de errado em admirar um corpo de homem. Os homens ficavam olhando para as mulheres o tempo todo. Estava enfiando a camisa para dentro dos jeans quando Chase voltou, ainda sem camisa, para apanhar sua jaqueta. Enquanto ele a vestia, Maggie perguntou:

Cadê a sua camisa?

Deve ter sido levada pelo vento para o rio, e afundado. Não parecia preocupado, mas ela imaginava que provavelmente tinha um armário cheio de camisas. Sendo assim, o que significava a perda de uma? Ele chutou cascalho para cima do fogo e dispersou as brasas. Está pronta para ir embora?

Claro. Enrolou o cabelo sob o chapéu, enquanto se dirigia para o toro onde deixara o seu cavalo amarrado.

Chase estava na sela, e esperando por ela quando a moça montou.

Vou com você parte do caminho falou.

Maggie foi na frente por entre as árvores, subindo a ravina rasa que levava às planícies amplas e abertas. De frente para as colinas irregulares do norte, tocou o seu cavalo a meio galope. Chase emparelhou seu cavalo com o dela. Atravessaram a trilha pisada que o gado de Shamrock havia deixado e entraram nela. Havia cerca de dois quilómetros até a cerca limítrofe onde os fios de arame farpado os forçaram a parar.

Desmontando, Maggie foi até um poste de madeira e chutou a pedra que o calçava no buraco do poste. O arame frouxo permitiu que o poste desabasse ao chão. Chase pisou nele, mantendo-o horizontal enquanto Maggie cruzava o cavalo para o outro lado do arame farpado caído. Juntos recolocaram o poste no lugar, Chase firmando-o em pé enquanto Maggie encaixava o calço. Quando acabaram, ficaram dos lados opostos da cerca, adiando a partida por mais um momento.

Até qualquer hora disse Chase, insatisfeito com a frase, mas sem encontrar outra que estivesse disposto a dizer.

Cuide-se. Maggie deu uma resposta despreocupada. Na ponta dos pés, Maggie tomou a iniciativa e se debruçou sobre o arame de cima, instando Chase a beijá-la uma última vez.

Afastou-se da cerca antes que Chase o fizesse, pegando as rédeas do seu cavalo e saltando para a sela. Enquanto guiava o animal na direção da encosta que levava ao topo do morro, acenou para ele por cima do ombro, e recebeu um aceno em resposta. Sentiu-se subitamente triste ao ouvir os cascos que se afastavam a galope da cerca, enquanto começava a subir a encosta com o seu baio.

Perto da crista do morro, Angus O'Rourke sentava-se silenciosamente no seu cavalo, na sombra de um grupo de pinheiros. Tinha vindo ver por que Maggie estava demorando tanto, e se detivera ao vê-la se aproximando da cerca, acompanhada por nada mais nada menos do que Chase Calder. Seu primeiro pensamento fora que ela estava sendo posta para fora da terra dos Calder. E tinha ficado com raiva... mas não com raiva o bastante para descer e confrontar o sujeito. Suas imprecações resmungadas sobre os modos arrogantes e superiores dos Calders tinham sido proferidas à distância.

Porém Maggie o beijara... com a descontração de um par de namorados. Aquela visão abalou-o até os ossos. Ela não passava de uma garotinha. Amaldiçoou os Calders mil vezes por corromper crianças inocentes. Estava na hora de ter uma conversa com ela, de lhe explicar os fatos da vida. Ah, se Mary Frances estivesse aqui, pensou. Cuidaria de tudo muito melhor de mulher para mulher. Era difícil para um homem botar aquilo em termos delicados o bastante para os ouvidos de uma garota.

Ele a viu subir a encosta, vindo inconscientemente direto para ele. O cavalo dele relinchou ao ver o companheiro de estábulo. O sorriso sereno desapareceu da expressão dela ao vê-lo. Deu uma parada breve na sua montaria, depois deixou que continuasse.

O olhar vivo que lhe lançou fez Angus explicar sua presença:

Vim procurá-la.

O terreno ficou rochoso, forçando-a a diminuir o ritmo do cavalo para um simples andar, nos dois últimos metros.

Claro, papai.

Algo na atitude dela o irritou... um vago ar de convencimento, como se soubesse um segredo glorioso que não ia compartilhar.

Como é que o tal do Calder estava com você? Onde se encontrou com ele?

No rio respondeu Maggie, sem tirar os olhos da frente. A resposta dela não lhe disse nada, certamente não o que

mais o preocupava.

Ele a beijou.

Sim, beijou. A jovem virou a cabeça para lançar-lhe um olhar sereno.

A desconfiança entrou na mente dele. Os lábios dela tinham uma maciez intumescida, havia uma aura sigilosa a seu redor.

O que mais ele fez?

Ela não o encarou mais, desviando a cabeça para olhar reto para a frente, o queixo se empinando num ângulo desafiador.

Não creio que seja da sua conta.

Ele estendeu a mão, agarrou as rédeas do cavalo dela para fazê-lo parar.

Sou seu pai, e isso faz com que seja da minha conta. Exijo saber o que aconteceu.

Por quê? desafiou, enfrentando a raiva dele com uma sinceridade inabalável, a cólera faiscando nos olhos verdes. Se aconteceu alguma coisa, o que você faria, papai? Ia ao menos tentar tomar alguma providência? Ou ia ficar andando por aí, fazendo ameaças vazias para o ar?

Juro por Deus, se ele botou a mão em você, eu...

Sim? O que vai fazer? Debochava dele, abertamente.

Diga, papai.

Angus engoliu sua raiva, precisando saber primeiro se estava sendo atiçado sem razão.

Quero saber se ele... fez alguma coisa com você. Tropeçava nas palavras, a voz baixa e trémula.

Maggie ficou vendo o rubor vermelho ir e vir no rosto dele. Sua própria raiva defensiva sumiu ante aquela tentativa constrangida de fazer uma pergunta. Era provavelmente mais difícil para os pais aceitarem a sexualidade das filhas, imaginava. Descobriu um pouco de piedade, uma emoção que pensava que o pai já tinha esgotado, pela figura patética tentando tão desesperadamente defendera honra dela, e sem garra para levar tal propósito adiante.

Sim, papai, ele fez amor comigo suspirou, cansadamente. Nunca ocorrera a Maggie mentir.

Houve um longo momento de silêncio, enquanto ele virava a cabeça para o outro lado, piscando furiosamente.

Aqueles malditos Calders! xingou, numa voz vibrante.

Sempre têm que ter tudo.

Ora, papai, será que não dá nunca para você botar a culpa no culpado? indagou, numa exasperação cansada. Se alguém tem culpa, sou eu. Era o que eu queria. Podia ter impedido o Chase, porém não quis.

Ele sacudiu a cabeça, em negativa.

Um homem sempre consegue o que quer com uma mulher. Calder merece ser chicoteado por ter forçado você.

Papai, você não está prestando atenção.

O protesto dela parecia inútil. Por que ele sempre tinha que torcer as coisas para pôr a culpa nos outros? Num rasgo de sabedoria, Maggie se deu conta de que o pai não podia aceitar a verdade de que ela fora uma participante voluntária, porque, para ele, aquilo significaria que falhara como pai, de alguma forma. O pai não conseguia aceitar o fracasso pessoal. Ele sempre tinha que ser causado por alguém, maior, mais forte ou mais poderoso. Os Calders eram um bode expiatório natural para todos os seus problemas.

Não se preocupe, menina. Ninguém vai arruinar minha filha e ficar impune. Havia um brilho malévolo nos olhos dele. Eis mais outro motivo para odiar os Calders... um motivo que qualquer homem, qualquer pai, compreenderia.

Porém tudo o que Maggie via era o quanto ele adorava o papel de mártir. Pois ela, não. Bateu no cavalo com as rédeas, e o animal saltou para frente.

 

Deixando Maggie, Chase esporeou o baio cor de sangue e saiu disparado. Ia comer o pão que o diabo amassou por ter deixado o pai esperando. O fato de ter esquecido completamente daquilo até há alguns minutos revelava bem sua total absorção com Maggie.

Cavalo e cavaleiro vadearam o rio a galope, depois subiram a encosta da margem para o outro lado. Com uma virada larga, dirigiram-se para a porteira leste. Um berro vindo às suas costas ressoou acima do estrondo dos cascos céleres do cavalo. Chase olhou para trás e viu Nate Moore acenando para ele. Com relutância, freou bruscamente o animal. O baio cor de sanque dançava debaixo dele, soprando e bufando, enquanto Chase esperava que o capataz o alcançasse.

Já virei meio rio atrás de você. Que diabo, onde andou metido? O capataz exprimia claramente o seu desprazer por ter sido afastado do rebanho por um motivo tão idiota.

Desculpe. Chase não ofereceu explicação alguma.

Seu pai não pôde esperar mais. Saiu há cerca de meia hora informou Nate. Disse que, quando eu o achasse, para avisar que ele o esperava para jantar em casa, logo mais. E estou-lhe dizendo que é melhor você ter um motivo danado de bom para não ter vindo imediatamente.

Certo murmurou Chase, a boca retesada. Novamente as esporas enfiaram-se no baio, impulsionando-o a uma corrida já na segunda passada.

Nate deixou os olhos acompanharem o cavaleiro por um minuto antes de virar a montaria na direção do rebanho distante.

Ele tem uma cavalgada dura e desgastante à sua frente, cavalo. Era um hábito que vinha dos seus dias de jovem patrulhando as cercas, quando o cavalo de um vaqueiro às vezes era a única coisa viva por perto, para escutar. O rabo dele vai perceber, quando chegar lá. Se a viagem não o deixar doendo, o esporro que vai levar vai terminar o serviço.

Ao chegar à trilha que cruzava o ponto de vau do rio, alguma coisa no curso d'água chamou a atenção do vaqueiro. Diminuiu a andadura do cavalo, tentando identificar o objeto colorido. Àquela distância, parecia algum tipo de fazenda presa numa pedra, uma camisa, quem sabe. Uma forte curiosidade fez Nate virar o cavalo e ir investigar mais de perto.

A peça de roupa estava no lado oposto do rio. Nate foi até lá e desmontou para tirá-la da água. Era uma camisa. Em perfeito estado, a seus olhos. As iniciais marcadas na etiqueta fizeram com que ele parasse.

Agora que estou reparando murmurou de novo para o cavalo que Chase estava com a jaqueta abotoada até em cima. O dia está frio, mas não tão frio. Torceu a camisa e enfiou-a no bolso do seu alforge antes de voltar para a sela. Ora, como será que foi que ele perdeu a camisa no rio?

Aquilo o intrigava. E se havia uma coisa que deixava Nate doido era não ter todas as peças de um quebra-cabeça. Aquilo lhe acontecera uma vez. Ficara preso pela neve num acampamento durante um mês e meio, num inverno, esperando um vento quente e seco soprar das Montanhas Rochosas. Tinha um quebracabeças de um barco a vela de mil peças consigo. Passara o tempo todo tentando armá-lo, até que finalmente descobriu que faltavam

200 peças, quando as contou. Era um homem tenaz; uma vez que encasquetava alguma coisa na cabeça, não desistia. Ainda tinha aquelas 800 peças do quebra-cabeça guardadas numa caixa, imaginando que um dia acharia o resto delas e terminaria o trabalho.

Virou o cavalo rio acima. Anteriormente, quando estivera procurando pelo Chase, dera uma paradinha para uma olhada superficial na curva do rio onde a garota estivera nadando... e isso da margem oposta. Nate concluiu que uma inspeção mais de perto poderia fornecer-lhe mais algumas peças do quebra-cabeça.

Seguindo os rastros de dois cavalos ferrados, desceu o corte na margem que levava ao banco de cascalho. No seu limiar, parou o cavalo para examinar o chão. Havia excrementos de cavalo junto do toro caído, o que significava que um dos cavalos provavelmente tinha estado amarrado ali. Perto de uns dois choupos o capim fora comido, o que significava que um segundo cavalo tivera tempo de pastar.

Levou o seu cavalo a meio caminho do círculo de fogo enegrecido, que estava cercado por galhos espetados no chão. O único motivo para os galhos que surgiu na cabeça de Nate foi que eram para se pendurar roupas para secar. Examinando as marcas feitas pelo homem no chão ao lado do fogo, e o cascalho remexido, Nate leu a história escrita ali. Tirou o chapéu e o recolocou num só gesto que indicava o seu constrangimento ante a descoberta.

Às vezes fico curioso demais, cavalo, e descubro coisas que não são da minha conta. Puxou a rédea esquerda ao longo do pescoço do cavalo para virá-lo, depois parou a virada a meio caminho quando notou uma corda parcialmente desenrolada quase escondida pelo cascalho chutado pelos cascos de um cavalo.

Uma corda boa e flexível era um instrumento vital para um vaqueiro, não devia ser largada ao acaso para ser enrijecida pelos elementos. Saltando, Nate terminou de enrolá-la e amarrou-a à sela. Voltou a montar rapidamente e se dirigiu para a ravina que levava para o alto da margem, já tendo sido afastado tempo demais dos seus deveres por sua curiosidade obsessiva.

A estrada da fazenda que saía da porteira leste era parte de uma rede interligada de estradas que cruzavam toda a vasta extensão da Triplo C. Algumas das estradas, como esta, pouco mais eram do que dois sulcos paralelos feitos na terra por pneus de caminhão. As estradas com maior movimento eram duras e lisas como cimento.

Evitando o terreno irregular da pista com sulcos, Chase corria com seu cavalo no capim que a ladeava. Durante oito quilómetros, fez o baio cor de sangue galopar, depois passou para um trote por três quilómetros, para deixá-lo descansar um pouco, depois fê-lo correr desabaladamente por mais oito. Depois de deixá-lo andar por um quilómetro e meio, cobriu os nove quilómetros que levavam até a sede da fazenda num galope puxado, o cavalo espumando e se esforçando, já no final.

A sede da Fazenda Triplo C parecia uma cidade em miniatura. O amontoado de construções incluía os costumeiros celeiros e estábulos, barracões e um alojamento para os homens, além de uma pequena loja provida de todo o tipo de suprimentos essenciais, que iam de ferramentas e peças de veículo até roupas básicas e alimentos. A loja também era o lugar onde se coletava e distribuía a correspondência, e do lado de fora havia bombas de gasolina para os veículos da fazenda. Um outro prédio era um centro de primeiros-socorros e semidispensário, além de ser uma espécie de hospital de animais. Uma outra loja servia para fazer soldas e serviços de ferreiro. Além disso, havia meia dúzia de pequenas casas onde moravam os empregados casados, aqueles que não eram homens de acampamento morando em seções distantes.

No lado nordeste da coleção de prédios, uma longa faixa de grama servia como pista de pouso particular para os aviões da fazenda, guardados no barracão de metal vizinho, e para os aviões de convidados.

A casa maciça de dois andares dominava o enclave da entrada: os vaqueiros referiam-se a ela apropriadamente como "A Casa Grande". A frente dela dava para o sul, uma varanda larga acompanhava toda a sua extensão para dar uma boa vista dos outros prédios reunidos a seus pés. Chaminés de pedra pontuavam o telhado inclinado, poucas delas usadas desde que se instalara aquecimento central, há alguns anos.

Entrando no perímetro da fazenda, Chase diminuiu o ritmo do cavalo espumante para um meio galope e levou-o direto para os estábulos anexos aos celeiros. Antes de o baio ter parado completamente, o rapaz já estava pulando da sela e jogando as rédeas por sobre a cabeça do animal para levá-lo para dentro. Abe Garvey, um nativo da Triplo C relegado à posição de cavalariço pela idade avançada, apareceu vindo das sombras interiores. Chase identificou-o com um breve olhar ao levar o cavalo para dentro de uma baia e prender um estribo no arção dianteiro da sela para afrouxar a cilha.

O avião do senador já chegou? Com ambas as cilbas livres, tirou a sela do lombo do cavalo e pendurou-a na grade da baia, por enquanto.

Faz uma meia hora, mais ou menos. O velho vaqueiro continuou tratando da sua vida, enquanto Chase enxugava o suor do cavalo com a manta de sela molhada.

O cavalo de laçar era um animal valioso demais para ser guardado ainda quente, não importa há quanto tempo o pai de Chase estivesse esperando por ele. Ninguém se ofereceu para fazer o cavalo andar por ele, e Chase não pediu. Um homem era responsável pelo cuidado com sua própria montaria. Até que seu pai lhe delegasse alguma autoridade, Chase não era em nada diferente de qualquer outro vaqueiro na fazenda. Era assim que o tratavam, especialmente os veteranos, porque sabiam que, à sua moda, estavam treinando seu futuro líder. Chase tinha que estar à altura dos padrões deles, tanto quanto os do pai, se queria ter o respeito deles, além de mandar nas suas vidas.

Depois que o cavalo se refrescou, Chase deixou-o na baia e levou a sela para a sala de equipamentos. Abe estava sentado num banco, consertando uma alça de brida quebrada, as pernas doentes de artrite dobradas sob ela.

Cuide para que meu cavalo tenha uma ração extra hoje, Abe pediu Chase, e o velho simplesmente balançou a cabeça, pois não era de falar, a não ser que fosse necessário.

Saindo do estábulo, Chase começou a longa caminhada pelo pátio da fazenda até a Casa Grande. Enquanto pusera o cavalo para andar e se refrescar, aliviara um pouco a rigidez do corpo, mas ainda estava exausto da longa e desgastante viagem... os músculos doloridos exigindo um descanso. Sempre havia atividade na sede empregados que iam e vinham. Chase cumprimentou de cabeça aqueles com quem cruzava e acenou para aqueles à distância, um gesto que era pouco mais do que um braço levantado.

Sem se desviar, foi direto para a Casa Grande, onde se forçou a subir os degraus, as esporas batendo em uníssono com o pisar forte das botas nas tábuas da varanda. Quando cruzou a soleira da porta da frente, ouvia a voz ribombante do senador vinda do escritório, à sua esquerda. Chase parou no hall de entrada, que era uma extensão da ampla sala de estar, separada pela disposição dos móveis. Desviou o olhar para o corrimão de carvalho lustroso da escadaria que desembocava na sala, mas resistiu a seu convite.

Sacudindo o grosso do pó das roupas, dirigiu-se para as portas abertas do escritório, e tirou o chapéu enquanto entrava na sala. Além do senador de rosto rosado, aparentemente jovial, e do pai, havia mais três homens na sala. Dois deles Chase reconheceu de visitas anteriores como assessores do senador, e o terceiro era um influente funcionário do governo estadual, George Bidwell.

Sua chegada naturalmente transformou-o no centro das atenções, o seu atraso merecendo-lhe um vivo olhar de reprovação por parte do pai. Um sentido de protocolo dirigiu Chase para o convidado de honra.

Bem-vindo à Triplo C, Senador. Cumprimentou o político e submeteu-se ao aperto de mão espalhafatoso do homem. Que bom tê-lo de volta. Desculpe não estar lá para recebê-lo, quando o seu avião pousou.

Seu pai nos disse que você ficou retido. Ajudando no recolhimento do gado, não é mesmo? falou na sua voz estentórea.

É, sim.

Uma época atarefada do ano. O senador falava em sentenças curtas e incisivas. Deu uma palmada no ombro de Chase, num gesto de camaradagem. Você me lembra mais o seu pai a cada dia que passa. Não é, George?

É, mesmo. Só que ele é mais bonitão. George Bidwell levantou-se da poltrona de couro para cumprimentá-lo. Alo, Chase.

Depois de trocar um aperto de mão com o homem de cara de pardal, Chase foi passando pela sala, renovando o conhecimento com os assistentes do senador. Depois disso terminado, Chase viu-se parado ao lado do senador, mais uma vez.

Tome um charuto. A minha marca especial. O político colocou-o nas mãos de Chase, sem se dar ao trabalho de ver se ele o queria, ou não. Wes, prepare-me outro uísque. Dirigiu a ordem a um dos assessores, depois ergueu uma sobrancelha indagadora para Chase. Toma um drinque conosco? Prepare dois, Wes.

Se não se importa, Senador Chase ergueu a mão para vetar o pedido de uísque gostaria de lavar essa poeira e o cheiro do gado antes de tomar o drinque com vocês. Se me dão licença? A última frase foi um pedido polido que abrangia todo o grupo.

Saindo do escritório, o rapaz começou a cruzar a sala até a escadaria, as esporas tinindo a cada passada. Mal cruzara metade da sala, quando uma voz de mulher o interrompeu.

Chase Calder, não ouse andar nesse lindo piso de carvalho com essas esporas!

Uma mulher estava na outra extremidade da sala, onde um corredor dava para a cozinha; o seu cabelo louro parecia mais claro com os acréscimos acumulados de mechas grisalhas. A expressão severa no rosto de Ruth Haskell fazia-o lembrar-se dos seus dias de criança, quando ela ralhava com ele por fazer travessuras com a mesma presteza com que ralhava com o filho, Buck. Chase nunca compreendera direito como é que ela sempre sabia, quando ele estava fazendo alguma coisa que não devia.

Desculpe. Um sorriso estouvado proclamou sua culpa, quando Chase se abaixou para soltar as esporas. Ela já se fora quando ele se endireitou, tendo voltado para a cozinha para continuar o preparo do jantar.

Com o chapéu e as esporas na mão, subiu as escadas, divididas no meio por um patamar. O alto das escadas dava para o sul, e o quarto dele ficava no canto noroeste, o único, além da suite principal, que tinha banheiro particular. Todos os quartos de hóspedes partilhavam banheiros adjacentes. Entrando no quarto, jogou o chapéu e as esporas sobre a colcha da cama e começou a desabotoar a jaqueta.

No escritório, Webb escutara a reprimenda dada por Ruth Haskell e esperara até ouvir os passos de Chase nas escadas antes de pedir licença aos convidados, sob o pretexto de ir dar uma olhada no jantar. Subiu as escadas atrás do filho e bateu à porta uma vez, antes de abri-la sem esperar pela permissão para entrar.

De peito nu, Chase estava de pé no centro do quarto, acabando de tirar o braço da manga da jaqueta. A incongruência de usar uma jaqueta sem camisa registrou-se inconscientemente na cabeça de Webb, mas seus pensamentos estavam concentrados alhures, no momento.

Por que demorou? Webb não se deteve nas preliminares, foi direto ao assunto.

Não tenho desculpas, senhor. Chase foi até o armário e pendurou o casaco na maçaneta.

Que bom que concordamos neste ponto. Webb acompanhou-o com os olhos, observando-o atentamente. Sabe quanto tempo eu o esperei junto à porteira? Por que demorou tanto?

O rapaz ergueu os ombros nus expressivamente.

Perdi a noção da hora disse, cruzando na frente de Webb e parando diante da cómoda.

Estava-se divertindo tanto que não prestou atenção que o tempo estava passando concluiu Webb, com impaciência. Notou que a boca do filho ficou com uma expressão sombria.

Qualquer coisa desse género murmurou Chase formalmente, e abriu uma gaveta para pegar cuecas e meias limpas.

Os músculos se flexionaram ao longo dos seus ombros. O movimento chamou a atenção de Webb para as pequenas marcas em meia-lua no ombro do filho, uma fileira de quatro. Apertou os olhos, fitando-as com viva curiosidade. A única coisa que conseguia visualizar deixando tais marcas eram unhas. Sua mente registrou a lembrança de que Chase não estivera usando camisa debaixo da jaqueta. Não havia indícios de que as unhas tivessem tentado arranhá-lo. Era como se se houvessem enterrado na pele de Chase para segurá-lo.

Então, Webb juntou os ingredientes da cena: uma adolescente nadando nua num rio, e um jovem viril com quase três semanas anteriores de celibato forçado, os dois sozinhos num trecho deserto do rio. Podia adivinhar o resultado dessa situação. Fitou as marcas nos ombros de Chase, sem querer tirar a conclusão óbvia.

Fechando a gaveta, Chase olhou para o pai para ver por que ficara tão calado. O olhar concentrado com que fitava seu ombro fez Chase girar a cabeça num esforço para enxergar o que o pai examinava tão atentamente.

Alguma coisa errada? perguntou, estendendo a mão para trás e rompendo a concentração do pai.

Webb ergueu vivamente os olhos.

Estava tentando lembrar-me da idade da garota O'Rourke. O movimento brusco da cabeça de Chase disse a Webb que

sua pergunta acertara em cheio, mas o filho se recuperou rapidamente.

Dezesseis. Chase caiu na mesma armadilha que Maggie, tentando acrescentar aqueles poucos meses para fazê-la parecer mais velha do que era. Por quê?

Sentia-se pouco à vontade com as sondagens do pai, mas não deixou transparecer... pouco à vontade por causa de sua forte necessidade de proteger Maggie, de escondê-la de olhares que poderiam julgá-la pelos padrões aceitos... padrões errados.

Examinando a fisionomia fechada do filho, Webb guardou suas suspeitas para si mesmo, por enquanto.

Por nada. Virou-se para sair. Ande depressa com o seu banho. Ruth vai servir o jantar daqui a quarenta e cinco minutos.

Desço já prometeu Chase, mas só se mexeu depois que o pai se retirou.

Ao som dos passos que se afastavam da porta do quarto, Chase entrou no banheiro e parou na frente do espelho. Virando-se para um lado, conseguiu enxergar as marcas vermelhas no seu ombro, onde Maggie enterrara as unhas. Era óbvio que o pai também as notara. Será que adivinhara o que as causara? Chase soltou um suspiro pesado enquanto se voltava para o chuveiro.

Durante o jantar, e o café e o conhaque servidos no escritório, depois, Chase tentou parecer interessado nas várias discussões, mas a maior parte do tempo o seu pensamento estava longe.

O senador distribuíra outros dos seus charutos. Desta feita, Chase fumou o dele, a fumaça flagrante de tabaco erguendo-se como uma nuvem acima de sua cabeça. Rolou a ponta entre os dentes e ficou vendo a fumaça branca.

A brancura da fumaça fê-lo pensar na perfeição branca como a neve da pele de Maggie. Tinha consciência do quanto ela despertara os seus instintos protetores. Um súbito sorriso rasgou seu rosto ao se dar conta de que queria proteger uma garota que lhe dera uma surra de corda diante de uma dúzia de vaqueiros.

Olhem, o Chase gostou da minha piada, embora mais ninguém tenha gostado declarou o Senador Bulfert. Ao ouvir seu nome, Chase foi trazido bruscamente para o presente. Acompanhou as risadas dos outros homens e torceu para que ninguém lhe perguntasse sobre a história que o senador acabara de contar. Encontrou o olhar firme do pai, e soube que aquele homem ele não tinha enganado.

Tirando a panela de água do fogão, Maggie enxaguou a espuma de sabão dos pratos empilhados na pia. Tanto o pai quanto o irmão estavam sentados à mesa da cozinha, cuja tinta esmaltada branca estava virando amarela com o tempo. Não se deu ao trabalho de sugerir que, como havia preparado a comida e lavado os pratos, um deles podia ajudá-la a secá-los. Nenhum dos dois fazia trabalho de mulher. Pegou uma toalha de pratos e começou ela mesma a secá-los.

O ambiente estava pesado. Maggie podia senti-lo. O irmão não lhe dissera nada, porém ela sabia que o pai lhe contara sua versão do que acontecera entre ela e Chase Calder. Culley evitara o seu olhar a noite toda, mas ficava lançando-lhe olhares de esguelha, quando achava que ela não estava olhando.

Como sinto falta de sua mãe murmurou o pai, numa voz melancólica, e tomou outro gole do seu copo de uísque. Um cavalheiro sempre tomava uma dose de uísque depois da refeição, ou pelo menos era o que sempre dizia para a mãe deles, defendendo a prática. Ainda me lembro do dia em que meu navio atracou em.San Diego e eu tive um passe de três dias. Há quase três meses que o nosso cruzador estava no mar. Debruçou-se sobre a mesa, dirigindo as palavras para Culley. Eu e um colega fomos fazer uma farra. Mas uma farra das boas. Fiquei de porre um dia inteiro, e não me lembro de nada que fizemos. Finalmente, apaguei de vez, e meu colega me deixou dormindo no carro, para curar o porre.

E quando acordou, você ouviu sinos de igreja tocando. Culley já ouvira a história antes, o seu comentário era um incentivo para o pai continuar.

Isso mesmo. O pai voltou a encher o copo de uísque sem deixar que primeiro esvaziasse. Do jeito que eu me estava sentindo, sabia que tinha cometido pecados que precisavam de perdão, assim segui o som daqueles sinos por dois quarteirões antes de encontrar a igreja. Eu estava de farda branca, assim me escovei bem antes de entrar. A missa já ia começar quando entrei, portanto me sentei num dos bancos de trás.

Foi aí que você viu mamãe pela primeira vez. Também era uma velha história para Maggie, mas esta era a parte de que gostava.

Olhando objetivamente para o pai, podia ver como ele tinha sido extremamente bonito. Lembrava-se das fotos que tinha visto dele com a farda da Marinha. Não era de admirar que tivesse deixado a mãe dela fascinada.

Eu estava olhando para todos aqueles vitrais, quando notei sua mãe sentada no banco seguinte, com os pais e a irmã, Cathleen. Sorri para ela e ela retribuiu o sorriso. Com aquela mantilha branca na cabeça, ela me fazia lembrar os quadros que tinha visto da Madona. Era tão bonita que não consegui tirar os olhos dela. Um pouco do vívido charme atrevido que possuíra no passado apareceu de novo no seu sorriso. Pode apostar que, depois da missa, fiz questão fechada de conhecê-la.

E você a convidou para vir a seu navio e prometeu mostrar-lhe tudo, pessoalmente disse Culley.

E ela veio, mas trouxe junto a irmã, Cathleen. Tive um trabalhão convencendo Mary Frances de que eu não era como alguns dos outros marujos no porto. Tive mais trabalho ainda convencendo os pais e a irmã dela. Porém eu soube, no momento que a vi, que ela era a garota para mim. Casamo-nos quatro semanas depois. E eu pensei que era o dono do mundo suspirou.

O pai não deixava a história passar daí, mas a mãe contara o resto a Maggie: como o pai não conseguira arranjar um emprego decente na Califórnia, depois de ser dispensado da Marinha. Como sempre fora o sonho dele ter uma fazenda de gado, usara o dinheiro que a mãe herdara dos avós e comprara esta fazenda em Montana, sem sequer tê-la visto primeiro. Maggie se lembrava de como a mãe costumava falar sobre os seus planos para reformar a casa, planos que nunca se realizaram. Os acréscimos foram anexados à construção principal atabalhoadamente. Durante os dois últimos anos antes de a mãe morrer, ela raramente mencionava os planos para reformar a casa, como se soubesse que era outro dos sonhos do marido que nunca se tornaria realidade.

Muito do que Maggie sabia dos primeiros anos, aprendera lendo nas entrelinhas. Logo que o pai chegara, acreditara que o trabalho seria uma sopa. Só o que um homem tinha que fazer (era o que ele pensava) era soltar um bando de vacas no pasto com um touro e no ano seguinte vender os bezerrinhos com grande lucro. Não se dava conta de quanto trabalho aquilo significava, desde constantemente verificar e consertar cercas até armazenar feno para a alimentação de inverno, sem falar em bancar a babá de um bando de vacas e bezerros burros.

A terra na qual estava localizada a Fazenda Shamrock parecia ideal para a criação de gado, mas o terreno árido não dava muito pasto. A cada ano era preciso exterminar vacas com pernas quebradas. As cascavéis também causavam baixas, assim como os coiotes que atacavam os bezerros ou as vacas incapacitadas. E o suprimento de água era insuficiente. Nos anos ruins, até o poço da casa secava. Mas a fazenda dos Calders se estendia ao sul com sua abundância de pasto farta e de água.

O pai estava sempre sonhando com maneiras de ficar rico. Houve um ano em que tentou garimpar ouro... certo de que ia achar uma mina riquíssima. Mas o garimpo de ouro era um serviço duro, estafante, exigindo horas de trabalho sem garantia de encontrar nada. Logo desistiu, por falta de persistência. Noutro ano. tentou convencer companhias de gás e petróleo a perfurarem sua terra, mas todas as suas pesquisas foram negativas. Com visões de atingir um rico poço de petróleo, ele mesmo tentou a perfuração, mas desistiu antes de chegarem a uma profundidade de encontrar água. Era esforço demais. Ele sempre tinha certeza de que havia um jeito fácil de enriquecer... como os Calders.

Nem uma só vez, em todos aqueles anos que viveram, ali, sobrara um dinheirinho para a mãe voltar para a Califórnia e visitar a família. Os pais da mãe faleceram e não havia dinheiro para ela ir ao enterro. Então, a mãe chorara. Ainda recebiam um cartão de Natal todos os anos da irmã dela, Cathleen, uma viúva que morava em Los Angeles.

Angus deu um soco na mesa, acordando Maggie do seu devaneio com uma demonstração explosiva do seu génio irlandês. Virou-se para olhar para ele e viu a petulância sombria de sua expressão.

Calder não vai ficar impune!

Papai, não vá começar protestou Maggie, severamente. Mas ele tomou outro gole de uísque e não prestou atenção a ela.

Para ele não teve importância o fato de que você era uma moça direita. Teve algum respeito por isso? Não, ele é um Calder. Faz o que lhe dá na telha e não se importa se algum inocente tem que sofrer.

Ela se deu conta de que ele se estava acumulando para essa explosão a noite toda. Nada que ela dissesse ou fizesse calaria sua arenga, assim cerrou firmemente a boca.

Calder não vai ficar de boca calada. Não, vai-se vangloriar, vai espalhar histórias sujas sobre Maggie declarou.

Se ele abrir a boca, eu a fecho para ele ameaçou Culley.

Você não vai fazer coisa nenhuma. A despeito de sua resolução de não se meter, a cólera dela irrompeu. Tudo isso não passa de papo-furado!

Isso é o que você pensa, garotinha. Angus O'Rourke se pôs de pé, oscilando um pouco, o rosto branco debaixo do bronzeado. Vou ter uma conversinha com o velho Calder. O homem pensa que ele e o filho podem fazer qualquer coisa, mas eu vou lhe dizer que não podem. Não vão se livrar impunemente do que aconteceu hoje. Espere e verá. Vou deixá-los mortos de medo.

Papai, pare de falar coisas que não tem intenção de fazer. Maggie virou o rosto para o outro lado. Estava cansada das palavras vazias dele.

Vou ver o Calder! declarou ele, enfaticamente.

Quando, papai? Olhou para ele com ceticismo zombeteiro. Quando o céu ficar verde?

Não me provoque, menina! Apontou-lhe um dedo ameaçador, porém ela demonstrou sua indiferença afastando-se.

 

                                   Um céu de justiça Um céu tão forte

                                   Este céu que paga Pelo erro de um Calder

 

O senador e seus acompanhantes partiram no meio da manhã do dia seguinte. Chase e o pai foram com os visitantes até a pista de grama da fazenda, para se despedir deles. Quando o avião decolou, balançou as asas num aceno final de despedida, a luz do sol rebrilhando na superfície lustrosa de metal.

Riscando um fósforo na coxa coberta de brim, Chase levou a chama resultante ao charuto que o senador lhe dera antes de tomar o avião. Tirou uma baforada, depois prendeu-o entre os dentes enquanto a fumaça aromática subia-lhe pelo nariz. Ao se virar para voltar para o carro com o pai, curvou o indicador ao redor do charuto para afastá-lo da boca.

Pelo menos o senador conhece um bom charuto. E enviesou um olhar irónico para o pai.

Sua mãe nunca suportou o cheiro dessas coisas. A expressão de Webb Calder denotava uma lembrança carinhosa. A seguir, perpassou por ele um divertimento seco. Nunca entendi por que tantas mulheres detestam charutos.

Também não entendo concordou Chase, e abriu a porta de passageiros do carro para enfiar lá dentro o corpo comprido. Pode me deixar no Estábulo Número Dois para eu pegar minha sela. Pego uma carona com o cozinheiro quando ele for levar o almoço para os vaqueiros.

Não há necessidade. Webb engrenou uma primeira e foi descendo a pista lisa. Daqui a mais um dia terão acabado por lá. Quero que você faça algumas coisas aqui.

Terei que ir até lá, de qualquer modo, para apanhar o meu equipamento. Seu saco de dormir e tudo o mais ainda estavam no acampamento.

Não há problema disse o pai, serenamente. Avisarei a Nate que o traga, quando vier.

Chase perdeu o gosto pelo charuto e apagou-o com irritação no cinzeiro do carro. O queixo duro estava empinado para frente, enquanto olhava pela janela, um ar de severidade repuxando para baixo os cantos da boca.

Não está com uma cara muito boa. Alguma coisa o está preocupando, filho?

Não. A negativa foi brusca e rápida. Chase suavizou-a, virando para o pai um rosto despido de emoção. O que poderia estar errado?

Achei que você poderia dizer-me.

A expressão astuta nos olhos do pai fez Chase se virar para a frente de novo.

Não há nada a dizer falou, dando de ombros.

Nem mesmo sobre a garota O'Rourke... Maggie? Webb continuou, sem permitir que fosse dada uma resposta ao desafio feito serenamente: Quando um homem necessita da satisfação de ir para a cama com uma mulher, subentende-se que fique longe das mocinhas e das moças de família decente. Há prostitutas e mulheres experientes de sobra por aí para satisfazer o apetite de um homem por sexo. Fez uma pausa e percorreu Chase com um olhar. Aceite os conselhos do seu pai e pense no assunto, filho.

Mas algo dizia a Webb que seu conselho chegara tarde demais. Imediatamente, começou a considerar as opções se houvesse alguma reação ao acontecido; enquanto isso, enumerava as tarefas que queria que Chase fizesse naquele dia.

Naquela noite, Chase encontrou o saco de dormir e os alforges no quarto. Entre as roupas estava a camisa que perdera. Fitou-a, sabendo as perguntas que devia ter despertado, e sabendo que nenhuma delas jamais seria formulada. Ficou deitado na cama à noite, olhando para o teto durante horas, sabendo que o pai tinha razão. Maggie era uma criança, não tinha nem 16 anos. Não tinha nada que ter-se metido com ela.

Apoiado no balcão da seção de armazém do depósito, Webb correu os olhos pela lista de suprimentos incluída no pedido de compras.

Está encomendando muito açúcar, Bill. Tem certeza de que não há ninguém operando um alambique clandestino? Enquanto questionava a quantidade de maneira jocosa, já ia assinando a autorização no final, sorrindo para o homem na cadeira de rodas atrás do balcão.

Bill Vernon era da quarta geração na Fazenda Triplo C. Exceto pelos cinco anos que passou treinando e trabalhando como programador de computação, passara toda a sua vida ali. Voltara há sete anos, desencantado com a vida na cidade, a despeito dos maiores salários, para ser vaqueiro de novo. Apenas três meses mais tarde, uma queda de um cavalo o deixara paralítico.

A Triplo C cuidava de sua gente. Quando Bill se recuperou, Webb colocou-o como encarregado do armazém, expandindo as responsabilidades para incluir o estoque do depósito e fazendo Bill uma espécie de guarda-livros. Ele, a mulher e dois filhos moravam numa casa cedida pela fazenda.

Havia um sentido de família entre os descendentes daqueles que tinham ficado com o primeiro Calder. Estavam todos presos à terra e presos uns aos outros, não como o pessoal que trabalhava um mês ou um ano e seguia o seu caminho. Formavam um bando de seguidores fiéis, cuja lealdade primordial era para com a marca.

Tenho que admitir que parece um bocado de açúcar replicou Bill Vernon com um sorriso fácil. Mas, com a chegada do verão as mulheres vão fazer conservas, assim precisaremos ter mais do que o costume à mão... pelo menos é o que a Marlyss me disse.

O sorriso dele tornou-se mais amplo. Marlyss era sua mulher, uma moça sardenta e espevitada do norte de Montana, da terra do trigo. Tinham-se conhecido e casado na escola de computadores. Ela o ajudava no armazém, trabalhando atrás do balcão e arrumando as prateleiras, enquanto ele cuidava da papelada.

Tenho certeza de que Marlyss sabe o que está falando. Era uma excelente dona-de-casa, pelo que Webb soubera e vira.

A propósito, onde ela está? indagou, correndo os olhos pela pequena loja.

Lá em casa, dando uma olhada no Timmy. Está com as amígdalas inflamadas de novo.

Patrão! Um dos empregados chamou-o da soleira da porta iluminada pelo sol, e Webb se virou. O'Rourke está aqui fora, pedindo para vê-lo.

Durante uma fração de segundo, Webb ficou imóvel. Nesses últimos quatro dias andara esperando alguma coisa, sem ter certeza direito do que seria. Agora, estava aí. Endireitou-se do balcão, acumulando os pensamentos e formulando seus planos para enfrentar o problema.

Diga-lhe que já vou. Deu o recado ao vaqueiro e olhou para Bill. Na superfície, mantinha uma expressão calma e natural.

Mais alguma coisa que tenhamos que ver juntos?

Não, acho que não. Bill Vernon sacudiu a cabeça e girou sua cadeira de rodas num ângulo reto, pegando a ordem de compras que Webb assinara.

Com um breve aceno de cabeça, Webb começou a retirar-se.

Cuide-se disse, virou-se e saiu pela porta do armazém para a luz clara do sol.

Depois de quatro dias de esbravejar, principalmente consigo mesmo, e instigado pela insistência irónica de Maggie de que não faria outra coisa senão falar, Angus O'Rourke se pusera num estado febril de ódio que finalmente o levara a enfrentar Webb Calder cara a cara. Ficara do lado de fora da loja deliberadamente para fazer Webb Calder vir até ele, como se esta pequena coisa lhe desse uma vantagem psicológica.

Se deu, ela lhe foi tirada quando Webb parou diante dele, alto e de peito largo, forçando Angus, que era um palmo mais baixo, a inclinar a cabeça para trás para olhar Webb na cara. Angus detestava que as pessoas olhassem "de cima" para ele, especialmente Webb Calder. Sua boca se retorceu num desprezo complacente ao pensar em como esse homem poderoso ia rastejar diante dele, daqui a pouco.

Alo, O'Rourke. Queria me ver?

Angus ergueu o queixo dois centímetros beligerantemente mais alto.

É, quero falar com você.

Com um breve aceno de cabeça que indicava sua disposição para ouvir, Webb Calder falou:

Eu estava indo lá para a casa. Por que não falamos lá? Angus já inspirara fundo para soltar suas acusações. A oferta de hospitalidade deixou-o completamente desconcertado. Nas raras vezes em que estivera na sede da Triplo C, nunca fora convidado a entrar na casa principal. Era uma construção imponente. Por um breve minuto, sentiu-se constrangido à ideia de entrar lá. Depois, tranquilizou-se com a certeza de estar finalmente sendo tratado como um igual, o que achava que merecia, com toda a justiça.

Era impossível conversar enquanto cruzavam o pátio. As passadas longas do homem forçavam Angus a andar mais depressa do que de costume. Estava arfando ligeiramente quando chegaram à casa, e ficou irritado ao ver que Calder não parecia sem fôlego.

Ao entrar na casa, Angus não pôde deixar de fitar a sala de visitas imensa, com seus confortáveis móveis de primeira fortes e sólidos, construídos para durar. Era uma casa masculina, não possuía nenhum dos toques delicados de uma mulher. Sua própria casa parecia um barraco, em comparação. Seu sonho de viver num lugar desses parecia mais distante, agora que sabia o quanto lhe faltava. Aquilo o encheu de uma sensação de louco desespero.

Calder estava abrindo um largo par de portas duplas à sua esquerda, e Angus percebeu que a discussão deles não ia ser realizada na sala espaçosa à sua frente. Virou-se para seguir Webb para a biblioteca. Havia uma enorme lareira com os chifres largos e imponentes de um novilho longhom a encimá-la, e móveis forrados com couro legítimo. Prateleiras exibiam livros encadernados com trabalhos que iam desde os mestres até administração dos animais. Por trás de uma imensa escrivaninha, um mapa emoldurado estava pendurado na parede, amarelado com o tempo e mostrando os limites da Triplo C. Angus fitou-o enquanto Calder ia para trás da escrivaninha sentar-se na poltrona estofada.

É o primeiro mapa da fazenda explicou Calder, notando o interesse de Angus nele. Tem quase um século de idade, agora.

Angus sentiu-se novamente sufocado pela sensação de que era errado para uma pessoa possuir tanto. Aquilo supurava dentro dele, uma ferida infeccionada que o envenenava. O mapa, a casa, o homem... tudo fazia com que se sentisse pequeno.

Sobre o que queria falar comigo, Angus? indagou Calder, calma e autoritariamente.

Minha filha, Maggie. Seu filho possuiu-a à força. Encontrou-a nadando no rio e se aproveitou dela. Atropelou as palavras, a voz ficando mais acalorada. É verdade. Ela mesma me contou, não adianta você negar.

Jamais me passaria pela cabeça chamar sua filha de mentirosa replicou Calder, serenamente. Meu filho é um jovem saudável, e a sua Maggie está virando mulher. Não negaria que é concebível que possa ter havido uma ligação entre os dois.

Ele tinha esperado uma discussão, uma negativa seca de que um Calder não faria uma coisa dessas. Sua raiva ficou temporariamente sem direção, até perceber que na frase de Webb nada fora admitido e nenhuma culpa assumida.

Seu filho não vai ficar impune por ter desgraçado minha filhinha. Estou aqui para me certificar disso declarou. Não importa o quanto você queira torcer as coisas. O que ele fez significa estupro. Ela tem quinze anos, é menor de idade. Ele pode ir para a prisão por isso.

Houve uma pequena pausa, durante a qual Webb Calder fitou-o com olhar firme.

Estou certo de que já pensou que, se formalizar a acusação, sua filha terá que ir ao tribunal. O testemunho dela seria público. É uma pena, mas infelizmente é verdade, nos casos de acusação de estupro é a moça que perde sua reputação. Nenhum pai ia querer ver a filha publicamente envergonhada.

A vergonha os tocaria a todos. Um julgamento assanharia toda esta parte do Estado. Aonde quer que um deles fosse, as pessoas murmurariam às suas costas, e apontariam. Era uma coisa em que Angus já pensara inúmeras vezes. O rosto dele ficou vermelho de frustração porque Calder sabia que eles iriam sofrer mais do que ele e o filho.

Seu filho pegou a minha garotinha e usou-a para o seu próprio prazer. Não vou deixar que fique impune insistiu Angus, com voz tensa. Exijo que ele faça o que é certo.

Uma sobrancelha se ergueu numa surpresa desafiadora, um gesto estudado que parecia insinuar que Angus não era muito inteligente.

Espero que não esteja sugerindo casamento, Angus, porque isso seria um erro maior do que o que eles cometeram. Sua filha é jovem demais para ser a mulher de qualquer homem, e meu filho ainda não está pronto para se acomodar à vida de casado. Sei que está tentando se assegurar de que sua filha não sofra nenhuma perda de respeito, mas os pais forçarem os filhos a casar por causa de um único passo em falso seria errado. Ela seria infeliz com o meu filho, e sei que isso é algo que, como pai dela, você desejaria evitar.

Angus odiava Webb por ser tão prático e sereno. Mudou de posição na cadeira, sabendo que estava fazendo papel de idiota, mais impotente para mudar a situação. Agarrou-se ao único pensamento que ardia firmemente dentro dele.

Ele não vai-se livrar sem mais nem menos. Tem que pagar pelo que fez repetia Angus, com firmeza e determinação.

Se eu tivesse uma filha Webb Calder debruçou-se para frente na cadeira e apoiou os braços sobre a escrivaninha para examinar o outro - e se acreditasse que algo desse género tinha acontecido com ela, estou certo de que me estaria sentindo tão ultrajado quanto você. Também insistiria numa forma de retribuição. Seria razoável esperar uma compensação... um acordo por danos, se prefere.

Está dizendo que quer me comprar? disse Angus, estreitando os olhos, o orgulho ferido pela oferta. Acha que o dinheiro pode apagar da lembrança da minha filha o que aconteceu junto ao rio?

Um leve sorriso tocou a boca de Calder, com um toque de astúcia.

Estou certo de que não há quantia que seja uma compensação adequada. É simplesmente um gesto de boa vontade. Você e eu somos homens razoáveis, Angus. Não traria benefício a nenhum de nós dois se essa história se espalhasse, criando mexericos e escândalo. A coisa sensata a fazer é acertarmos o assunto da melhor maneira possível. Que outra alternativa temos?

Olhou para o outro lado da mesa, esperando uma sugestão. Sem conseguir enfrentar a franqueza daquele olhar, Angus vacilou. Nenhuma das suas ameaças parecia ter tocado o homem. Todas tinham sido jogadas de lado. Não tivera nem mesmo a satisfação de ver o homem rastejar. Antes que o silêncio ficasse constrangedor, Calder passou a mão numa caneta.

Por que não lhe passo um recibo de venda de, digamos, vinte e cinco cabeças do melhor gado... à sua escolha... declarando que o pagamento foi integral? Estendeu a mão para um pedaço de papel.

Observando Calder, a cabeça de Angus estava a mil. Se deixasse esta fazenda de mãos vazias, sem ao menos ter a satisfação de saber que pusera Calder numa posição difícil, então, só o que teria conseguido era ter feito papel de idiota. Não poderia nem ao menos se vangloriar de ter encostado Calder à parede. Este percebera seu blefe. Algo tinha que ser salvo disso tudo. Não cabia a Calder estar discutindo os termos do acordo, cabia a ele. Calder já começara a escrever.

Quero cinquenta cabeças, à minha escolha exigiu Angus. Erguendo a cabeça, Calder lançou-lhe um olhar gélido.

Então, são cinquenta cabeças concordou, e Angus ficou se perguntando se devia ter exigido mais... 100, quem sabe. Amaldiçoou-se por ter feito um acordo tão por baixo. Calder era dono de 200 vezes este número, talvez mais. Porém algo naquele olhar duro e frio fez Angus resolver não pedir mais. As palmas de suas mãos estavam pegajosas, enquanto Calder voltava a atenção para o recibo que estava escrevendo, a caneta cruzando o papel em traços largos.

Depois que escreveu, Calder ofereceu o recibo, forçando Angus a se erguer da cadeira para pegá-lo. Olhando para o recibo, novamente sentiu-se arder com a certeza de que vendera barato demais. Parecia muito para ele, porque tinha tão pouco, mas nem sequer fizera uma mossa no bolso de Calder. Não fizera Calder pagar... fora comprado. Sentiu-se insignificante e doente por dentro.

Webb pegou o telefone na escrivaninha e discou um número. Olhou uma vez para O'Rourke, observando o arrependimento amargo na expressão do homem. Era sempre assim quando um comprador fechava o negócio; o vendedor sempre ficava se perguntando se não poderia ter obtido mais.

O telefone foi atendido.

Aqui é Calder Webb identificou-se e não esperou uma resposta. Nate está aí? Ante a resposta afirmativa, falou: Diga-lhe que quero vê-lo na Casa Grande.

Desligando o aparelho, Webb empurrou a cadeira para longe da mesa e se levantou. O'Rourke continuava fitando o recibo, sem notar imediatamente que o outro tinha-se levantado, até que ele deu a volta à escrivaninha. Então, pôs-se de pé rapidamente.

Nate Moore é um dos meus capatazes. Webb dirigiu-se para o hall de entrada. O'Rourke seguiu-o. Tem um olho excelente para o gado... um homem muito experiente, bem qualificado. Estou certo de que ele lhe será muito útil. Conhece-o, não é? Abriu a porta da frente e fez sinal a O'Rourke para passar primeiro.

Falei com ele algumas vezes... na cidade. Foi uma resposta concisa, que exagerava uma troca de cumprimentos e comentários sobre o tempo.

Naturalmente. Webb meneou a cabeça enquanto guiava o homem para o topo dos degraus da varanda. A figura esguia de Nate vinha cruzando o pátio. Aí vem ele.

Quando o capataz se aproximou dos degraus, lançou um olhar ao homem mais baixo, depois focalizou vivamente o patrão, especulando em silêncio. Porém, simplesmente fez um cumprimento de cabeça para os dois homens.

Queria me ver? perguntou a Webb Calder.

Sim. Acabo de vender gado a O'Rourke... cinquenta cabeças, à escolha dele. Pensei que seria melhor se você se encarregasse de mostrar-lhe as reses e de marcar uma hora de entrega.

Podemos ver os animais amanhã de manhã, lá pelas nove horas, se está bem para você? Nate virara-se para O'Rourke.

Nove... nove horas está ótimo respondeu, mexendo-se pouco à vontade.

Quanto à entrega, podemos levá-las de caminhão, ou você pode conduzi-las até a sua casa... o que preferir disse o capataz, dando de ombros.

Eu lhe aviso pela manhã resmungou Angus, de mau humor, enquanto dobrava o recibo de venda e o enfiava no bolso.

Encontro-o em frente aos celeiros às nove horas disse Nate, marcando o local do encontro.

O'Rourke concordou com um gesto de cabeça e lançou um olhar feroz a Calder antes de descer os degraus e se dirigir para a castigada pick-up estacionada no pátio. Tanto Nate quanto Webb ficaram vendo Angus se afastar.

Não parece muito satisfeito com o negócio observou Nate, numa voz deliberadamente baixa.

Ninguém jamais fica replicou Webb, depois virou-se para entrar na casa, dispensando o capataz com este gesto.

Nate demorou um pouco, depois andou de volta para os celeiros. De um jeito ou de outro, as mulheres sempre estavam no centro dos problemas de um homem. Todo homem bancava o idiota por causa de uma delas, pelo menos uma vez na vida. Nate estava bem contente por nunca ter sido idiota o bastante para se casar. Gostava de ser livre e de ir e vir como lhe desse na telha, sem ninguém a chateá-lo, perguntando onde ia ou a que horas ia voltar. Triplo C lhe dava toda a família de que necessitava.

Depois que o jantar acabou, Chase e Webb levaram o café para o escritório, deixando a mesa para Ruth tirar. Chase dirigiu-se para o bar de nogueira todo entalhado que ficava num canto do aposento e desarrolhou uma garrafa de cristal de conhaque.

Quer um pouco no seu café? Virou-se parcialmente para olhar o pai.

Hoje, não recusou Webb, e examinou o filho alto e de ombros largos. O'Rourke veio me ver hoje.

Chase começara a pousar a garrafa, mas a frase detivera o gesto no ar. Depois de um instante de demora, completou-o.

Sobre o quê? Chase rompeu o silêncio que se seguiu, porém não se virou.

Intimamente, Webb admirou o modo como o filho se controlava. Não era bom se alguém podia ler os pensamentos de uma pessoa por sua expressão. Com o tempo aprenderia a controlar com mão de ferro o resto de suas emoções. O rapaz ainda era jovem.

Ele alega que você forçou as suas atenções sobre a filha dele replicou Webb. Você o nega?

Não. Continuava de frente para o bar, mexendo o café.

Webb gostou da dureza da resposta, da ausência de uma desculpa e da falta de qualquer referência desrespeitosa à garota. Mostrava raça, e a aceitação da responsabilidade total pelo que acontecera.

Fez alguma promessa que me deva contar? Novamente a resposta foi direta.

Não. A imobilidade foi quebrada por uma onda de energia que fez Chase virar-se, com os lábios apertados de raiva. O'Rourke não tinha o direito de metê-lo nisso. Devia ter falado comigo.

Está tudo acertado.

Acertado? Como? Chase disparou as perguntas em cima do pai, como que exigindo as respostas.

Dei-lhe um recibo pela compra de cinquenta cabeças de gado.

Cinquenta cabeças. E ele aceitou?

Aceitou.

Chase desviou parcialmente a cabeça, com a boca encrespada de nojo.

Teria tido mais respeito pelo sujeito, se ele me tivesse amarrado a um poste e me dado uma surra. Por que não veio até aqui e me encheu de porrada?

É o que eu teria feito, no lugar dele. Não tenho certeza se eu não devia fazê-lo, de qualquer maneira declarou Webb, com ar severo. É natural que um homem cometa as diabruras da mocidade, mas não deve escolher para isso campos jovens e virgens.

Isso já me ocorreu mais do que uma vez nesses últimos dias concordou Chase, zombando de si mesmo. Largou a xícara de café com o conhaque sobre uma mesinha lateral, sem tê-la tocado. Vou dar uma volta e respirar ar fresco.

 

A cidade que ficava mais perto da sede da Triplo C era um trecho largo na estrada e se chamava Blue Moon. O pessoal da cidade comentava que ali só acontecia alguma coisa excitante uma vez na vida e outra na morte. O posto de gasolina era também o armazém e a agência dos Correios. Havia um café ao lado do que já fora uma estalagem de beira de estrada, com quartos para os viajantes, mas a estalagem agora era um saloon-bar chamado Jake's Place, que tinha até uma sala de jogo particular nos fundos. Era nos quartos do andar de cima que as "sobrinhas" de Jake recebiam seus clientes. O café ao lado possuía boa freguesia, especialmente porque o dono, Bob Tucker, tinha a fama de ser o melhor cozinheiro do Estado de Montana.

Além desses estabelecimentos comerciais, havia uma loja de ferragens e fazendas num prédio só, um elevador de cereais abandonado, e uma casa que fora convertida em clínica, onde o Dr. Barlow aparecia duas vezes por semana para ver seus doentes. Mais além, havia meia dúzia de casas para os cerca de 30 residentes de Blue Moon.

Uma pick-up com a marca da Triplo C saiu da auto-estrada e foi sacolejando pelo chão sulcado, levantando uma nuvem de poeira quando freou na área de estacionamento entre o posto de gasolina-armazém e o saloon. Buck Haskell saltou pelo lado do passageiro, as botas batendo no chão antes mesmo de Chase abrir a porta do lado do motorista.

É melhor que Tucker tenha torta de amora sobrando! declarou Buck. Estou com o gosto dela na boca nos últimos quinze quilómetros.

E também está-me dizendo isso há quinze quilómetros falou Chase, a secura perpassando pela voz.

Ei, Chase, tem um cigarro? Buck bateu no bolso vazio da camisa. Os meus acabaram.

Só o que tenho é um maço de cigarrilhas.

Espere por mim. Vou dar um pulinho na loja e comprar cigarros.

Buck começou a se dirigir para o armazém enquanto forçava a mão no bolso da Levi's justa, para pegar o dinheiro.

Chase apoiou-se na traseira da pick-up para esperar por ele, inclinando o chapéu para trás da cabeça, um leve sorriso lhe aparecendo na expressão. A porta do armazém bateu duas vezes: uma vez quando Buck entrou e, logo depois, quando alguém saiu. Chase olhou com interesse superficial.

A visão de Maggie O'Rourke era como um vento selvagem e limpo que o varresse. Nas duas últimas semanas conseguira afastá-la do pensamento, mas vê-la de novo apagou as duas semanas de esquecimento. O cabelo negro e farto estava preso na nuca com um lenço azul desbotado. Usava blue jeans e botas e uma espécie de blusa branca que ele não podia enxergar muito bem por causa dos dois grandes sacos de compras que ela estava segurando. Uma ligeira ruga marcou sua testa lisa enquanto ela olhava para o Sol. Chase percebeu que ainda não o havia notado. Endireitou-se da traseira do veículo, ajeitando o chapéu para ficar certo na cabeça, e se adiantou.

Alo, Maggie falou ele, suavemente.

Ela parou, o olhar correndo para ele. Alguma emoção faiscou nos seus olhos, antes que o rosto ficasse inexpressivo.

Alo, Chase. Não gaguejou o nome dele ou pareceu constrangida ao vê-lo de novo. Como tem passado? Era uma pergunta polida, e ele notou como os lábios dela se juntavam, cheios no centro.

Ocupado. Arrancou o olhar da boca da moça. Deixe que eu carrego um desses sacos para você.

Ela hesitou um instante antes de entregar-lhe um dos sacos. A blusa branca que usava era pequena demais. Os jovens seios redondos faziam a fazenda abrir-se, entre os botões. Ela mudou o saco para a frente do corpo, para escondê-lo.

Nós também estivemos ocupados. Recomeçou a andar e Chase diminuiu as suas passadas para acompanhá-la, carregando o saco na curva do braço. Ficaria surpreso de ver como se tem trabalho extra, quando se adquire mais cinquenta cabeças de gado. A voz era severamente orgulhosa, como o porte.

E o que está querendo dizer com isso? perguntou Chase, com uma ligeira irritação ante o tom de voz dela.

Ela lhe lançou um daqueles olhares enviesados que ele estava começando a associar com ela.

Que não sou nenhuma vagabunda cujos favores podem ser comprados por cinquenta cabeças de gado. Talvez o que eu tenha feito seja errado, mas isso não quer dizer que eu não preste.

Maggie, você não esteve errada, eu estive. Assumiu a culpa. O presente do gado foi um modo de dizer "sinto muito".

Bem, eu não sinto. Seus lábios estavam muito apertados. Não pensei que papai fosse criar problemas para você. Quero dizer, ele falava muito, mas nunca pensei que fosse realmente tentar. Quando penso nele indo falar com o seu pai e contando o que fizemos, isso me faz sentir como... estavam passando pela estalagem no momento em que ela fez uma pausa e lançou um rápido olhar às janelas do andar de cima...uma das "sobrinhas" de Jake.

Você não devia saber a respeito delas. A boca do rapaz se retorceu num quase sorriso, divertido com a franqueza dela.

O que quer dizer é que não devo deixar que saibam que sei a respeito delas. Todos sabem replicou, secamente e apenas fingem que não sabem.

Não deve sentir-se como uma delas insistiu ele. Sei que meu pai não pensa assim de você.

Ela parou ao lado da porta de passageiros de uma pick-up castigada e virou-se para olhar para ele.

E o que você pensa de mim, Chase?

Acho que você é uma moça notável e muito bonita. Fitando os sinceros olhos verdes, sentiu a atração da sua presença. Desta vez, resistiu ao impulso de tomá-la nos braços.

Bonita? Nisto? Olhou para as próprias roupas com um olhar cético e irónico. Depois, ficou séria. Acho que está apenas tentando ser educado, mas não é preciso. Sei o que o povo pensa do meu pai... e do resto de nós, O'Rourkes. Papai sempre culpa os outros por seus problemas. Mas não quero que pense que o culpo pelo que aconteceu. Eu sabia o que estava fazendo. Sei que você falou "até qualquer hora", mas depois da encrenca que papai causou, quero que saiba que não estou esperando que apareça.

Por que não? Um ar suave tirou a rudeza das feições másculas de Chase.

Um vinco marcou brevemente a testa da jovem.

Porque...

Chase! chamou Buck e veio vindo da direção do armazém. O que está fazendo? Bancando o entregador?

Encontre-me amanhã na cerca por volta das dez. Pode? murmurou Chase, rapidamente. Ela fez que sim, insegura. Em voz mais alta, Chase perguntou: Onde quer que coloque este saco? Na boleia ou na parte de trás?

Atrás está ótimo.

Depois de colocar o saco na traseira da pick-up, tirou o que estava no colo dela e botou-o junto ao outro. Levou a mão ao chapéu.

Até qualquer hora. Depois, Chase virou-se para ir encontrar o amigo. Está pronto para aquela torta de amora?

Se estou.

Da última vez que Buck vira a garota O'Rourke tachara-a de gata selvagem e de moleque. Agora, estava tendo uma impressão diferente. Seus olhos azuis curiosos e brejeiros examinaram a diferença.

A ousadia da sua inspeção tornou Maggie mais constrangida. Enfiou as pontas dos dedos nos bolsos da frente dos jeans, curvando os ombros para diante a fim de aliviar a pressão nos botões da camisa. Inclinava a cabeça num ângulo orgulhoso e desafiador, ante o olhar grosseiro, mas Chase já se estava virando, fazendo com que Buck o seguisse um segundo mais tarde. Buck alcançou-o numa passada, lançando um meio olhar em sua direção.

Retiro o que disse dela no outro dia murmurou Buck, em voz baixa. Porra, dá para ver direitinho que é mulher. Enquanto abria a porta do café, olhou de novo para a garota. Quem sabe está na hora de eu começar a visitar os vizinhos.

O brilho no olhar do amigo fez correr um arrepio inquieto pela espinha de Chase. Buck inclinava-se a não ligar para os sentimentos das garotas, não tendo consciência quando se tratava de conquistas sexuais. Aquele instinto protetor assanhou-se dentro de Chase, e arrogantemente cego à possibilidade de que não estava em posição de julgar.

Deixe-a em paz, Buck. Era uma resposta seca, o tom de voz quase autoritário.

E por quê? desafiou Buck, com um sorriso de testa franzida, entrando atrás dele no café.

Chase tentou suavizar sua irritação com o amigo, e conseguiu tornar a voz despreocupada.

Digamos que a vi primeiro, e ponto final. Mas havia um ar de advertência sombria no olhar.

Porra, mas você é egoísta, Chase implicou Buck. Sempre racho com você, não é? Mamamos no mesmo peito, não foi? Eu até mesmo deixo você tomar o lugar que é meu por direito como herdeiro dos Calders, e é assim que você me paga. Fingiu um ar magoado e jogou a perna por cima das costas de uma cadeira para se sentar a uma das mesas do café. Só por isso, você pode comprar a minha torta. Ei, Tucker! gritou para o homem atrás do balcão. Quero dois pedaços de sua torta de amora, e Chase é quem vai pagar.

Chase notou Angus O'Rourke sentado num banquinho junto ao balcão, porém deixou seu olhar passar por ele e se fixar no rotundo proprietário do café.

Só café para mim, Tucker, já que vou ter que pagar a conta.

O ricaço está tentando fingir que está duro. Buck riu, um cigarro apagado pendurado na boca, enquanto virava os bolsos atrás de um fósforo. Tem fogo?

Tenho um amigo que é aproveitador. Chase jogou uma caixa de fósforos sobre a mesa, diante de Buck. Você ganha mais do que eu. O que faz com seu dinheiro?

Quando acabo de tomar um pouco de uísque, jogar um pouco de pôquer, e fazer as damas felizes, ele parece desaparecer. Buck abriu um sorriso e soltou baforadas do cigarro.

Tucker atravessou o pequeno café, carregando dois pratos de torta e duas xícaras de café nas mãos gorduchas, a frente do avental branco respingada de gordura e comida. Quase calvo, tinha a cabeça pequena demais para o corpo solidamente redondo. Parou ao lado da cadeira de Chase para deixar a comida.

Diga a Webb que o meu congelador está ficando com pouca carne, portanto qualquer dia passo por lá para comprar gado Calder para abater. A voz dele era uniforme, como se exigisse esforço demais alterar seu tom monótono.

Pode deixar que eu digo prometeu Chase, e ficou vendo o homenzarrão voltar para trás do balcão. Não se enganava com a lentidão do homem, ou seu corpanzil. Aquela barrigona saliente era dura como ferro. Um ano antes, Chase o tinha visto mover-se com uma rapidez incomum num homem do seu tamanho e derrubar um freguês inconveniente com um golpe com as costas da mão, quando o homem começara a soltar palavrões na frente de algumas senhoras da cidade. E vira Bob Tucker levantar uma carcaça inteira de boi como se fosse um saco de batatas. Não era um sujeito com quem alguém se devesse meter a engraçado.

Todos os vaqueiros se comportavam direitinho no seu estabelecimento, ou Tucker os jogava lá fora, pessoalmente. A comida dele era a mais gostosa num raio de quilómetros, e no entanto havia algo nele em que Chase não confiava, porém não sabia o que era.

No balcão, Angus O'Rourke escutara o recado que Tucker dera a Chase para transmitir ao pai. Depois de duas semanas, Angus ainda estava remoendo os resultados do seu confronto com Webb Calder, ficando mais certo a cada dia que passava que fora roubado no que lhe era devido. A visão de Chase Calder sentado no café, virtualmente impune pelo mal que fizera a Maggie, despertou a hostilidade em Angus. Ao invés de dirigir o calor de sua raiva para aquele que a despertara, descontou em cima do dono do café.

Para que está fazendo negócio com Calder? perguntou Angus, mantendo a voz baixa para que outros não o ouvissem. Ele já não é rico o bastante sem você comprar carne dele? O que há de errado com os pequenos fazendeiros da região? Você quer que sejamos seus fregueses, mas não está interessado em comprar da gente.

Tucker parou diante de Angus, os olhos do tamanho de bolas de gude fitando-o com indiferença.

Não é por vontade que negocio com Calder. Não gosto dele mais do que você. Mas é que sirvo apenas carne de primeira qualidade. Todos os outros fazendeiros têm carne dura e fibrosa, por isso tenho que comprar dele para obter carne decente.

Mas Tucker ficava irritado porque sempre lhe parecia que Calder agia como se lhe estivesse fazendo um favor em vender carne dos Calders. Nada nunca foi dito ou sequer insinuado, mas Tucker sabia que outros compradores de gado faziam compras por lote, não uma cabeça de cada vez. Se ele não fosse habitante local, não valeria a pena uma fazenda do tamanho da Triplo C ter o tempo e o trabalho de vender para ele. Eles não se importavam com ele, como freguês. Para ele estaria ótimo ir comprar noutro lugar, porém mais ninguém tinha a qualidade que exigia.

Se a única coisa que lhe serve é carne dos Calders, então compre de mim desafiou Angus. Comprei cinquenta cabeças de gado dele faz duas semanas.

Cinquenta cabeças? Tucker fitou-o com ceticismo. Onde arranjou dinheiro para comprar gado de primeira?

Isso não é da sua conta, porra. Angus sentou-se mais ereto no banquinho, ofendido pela pergunta que insinuava que era pobre demais para comprar gado da fazenda de Calder. Está interessado em comprar a minha carne, ou não?

Você provavelmente comprou algum refugo dele, mas vou dar uma passada lá na sua casa amanhã, e dar uma olhada. Tucker não acreditava muito na alegação de O'Rourke de ser dono de carne de primeira da Triplo C. Passo por lá na parte da manhã.

Não se esqueça de trazer o dinheiro ironizou Angus, e empurrou sua xícara vazia para junto do homem corpulento. Sirva-me um pouco de café enquanto está por aí, todo cheio de vento.

Se houver vento circulando por aqui, provavelmente está vindo de você. Tucker pegou a xícara e girou o corpo maciço para colocá-la sob a bica da máquina de café.

Espere até amanhã de manhã, e veremos quem está cheio de vento replicou Angus, todo convencido.

Depois que Chase a deixou, Maggie ficou parada junto da pick-up, sabendo que o pai estava lá dentro tomando café, enquanto ela e Culley faziam as coisas que precisavam ser feitas. Entrar no café enquanto Chase estava lá sem dúvida faria o pai começar outra das suas arengas contra os Calders. Só o fato de ver Chase provavelmente o faria iniciar. Maggie decidiu que a coisa sensata a fazer era achar o irmão e ver se tinha completado suas tarefas. Ao se afastar do café, viu Culley cruzando a auto-estrada vindo da loja de ferragens. Esperou junto ao veículo que ele viesse ter com ela, notando sua cara fechada.

Vi você com Calder. O que ele queria? perguntou, parando diante dela.

Ele me ajudou a carregar os mantimentos. Havia um toque de desafio na voz da moça, que questionava o direito dele de insistir numa resposta. Conseguiu a peça para a bomba do poço?

Ainda não chegou. A resposta do irmão era cheia de impaciência. A conversa que teve com ele... suponho que espera que eu acredite que falaram de mantimentos.

Falamos de muitas coisas... que não são da sua conta retrucou Maggie.

A boca do rapaz estreitou-se numa linha zangada.

Suponho que ele a queira ver de novo.

E se quiser? desafiou Maggie.

Suponho que pediu para você se encontrar com ele, em algum lugar adivinhou Culley. E ordenou: Fique longe dele, Maggie. Só quer entrar nas suas calcinhas de novo. Não está vendo? Não aprendeu nada com a última vez?

É tão impossível que ele possa gostar de mim?

Pode gostar de você, sem dúvida admitiu o irmão. Mas você não está pensando por um minuto que ele vai levar a coisa a sério, está? Você não passa da filha de um estancieirozinho qualquer, para ele. Jamais vai pensar que você é boa o bastante para um Calder.

Quem disse que quero que ele leve a sério? explodiu ela. Uma garota gosta quando um homem dá atenção, mas isso não significa necessariamente que queira casar-se com ele! Você pode se contentar em ser o filho de um pequeno estancieiro com sonhos que nunca se tornarão realidade, mas eu não. Quero uma educação, porque não vou viver desse jeito o resto da vida!

Você é minha irmã. Havia ocasiões em que o génio do irmão podia igualar-se ao de Maggie. Esta era uma delas. Não quero vê-la magoada. E é isso que vai acontecer, se você vir Chase Calder de novo. Um belo dia vai acordar na maior encrenca, e ele vai esquecer seu nome.

Não vou ficar em encrenca nenhuma. Maggie negou isso primeiro. E Chase tem sido simpático comigo.

Isso é porque ele ainda está querendo alguma coisa. Porém, logo que terminar com você, vai tratá-la como lixo. Ele é um Calder. E se você tiver um grama de juízo, não se esquecerá disso. Nunca será nada para ele, exceto alguém com quem rolar na grama. Fique longe dele, Maggie. Não prove que estou certo advertiu Culley, e passou por ela para entrar no café, como se tivesse medo de que, se ficasse mais tempo, faria alguma coisa violenta.

Maggie fitou as costas dele que se afastavam. Também tremia, com a força da raiva dele. Escancarou a porta da pick-up e subiu na boleia. Esperou num silêncio rígido que Culley fosse buscar o pai para poderem voltar para a fazenda.

Mas as palavras do irmão não a largavam, nublando-lhe os pensamentos.

Chase já estava junto aos limites da cerca, quando ela finalmente apareceu, na manhã seguinte. Debatera silenciosamente consigo mesma por quase uma hora tentando decidir se iria encontrar-se com ele ou não. No final, veio porque precisava saber se Culley tinha razão quanto a Chase.

Desmontando, Chase meteu-se pelo meio dos fios de arame farpado da cerca para pegar as rédeas do cavalo dela, quando o animal parou. O olhar dela correu desconfiado pelo sorriso indolente de boas-vindas que ele lhe deu, sem conseguir fazer nenhum julgamento baseado nele.

Está atrasada. Moveu-se até a sela, estendendo as mãos para envolver-lhe a cintura fina e botá-la no chão. Estava começando a pensar que você não viria.

Eu estava tentando me decidir se devia vir ou não replicou Maggie, honestamente.

Já estava com os pés no chão, mas ele continuava a deixar as mãos pousadas na sua cintura. Sentiu como ela estava rígida, e ficou impaciente. Subconscientemente estivera antecipando sua terna suavidade. Inclinando a cabeça, Chase buscou estabelecer seu domínio sobre os lábios dela. Houve uma pressão em resposta a seu beijo, mas era fria. Ergueu a cabeça para olhar para ela, e deparou com seu olhar firme a estudá-lo, avaliá-lo.

Que bom que você veio declarou ele.

Por quê?

Porque queria falar com você replicou Chase, tentando afastar com um sorriso a seriedade dela.

As mãos dela empurraram-lhe os braços para retirá-los com naturalidade da cintura e poder afastar-se dele.

Isso é o que você diz que quer. Sua voz parecia indicar que ele pretendia algo diferente. Chase seguiu-a e ela se virou para confrontá-lo com as suas suspeitas. Culley diz que o único motivo pelo qual você me quer ver é para ter sexo.

Por um instante, Chase ficou espantado com a franqueza dela, antes de se sentir divertido.

Você é sempre tão franca?

É verdade? insistiu. É por esse motivo que quer me ver?

A teimosia na expressão dizia a Chase que ela estava a fim de uma resposta direta. Ele abriu a boca para assegurar-lhe que havia concluído que ela era jovem e inexperiente demais e que a sedução da última vez fora um erro que ele não pretendia repetir. Porém, olhando nos seus olhos, Chase percebeu que estava apenas se enganando. Tendo chance, iria fazer amor com ela de novo. Aquele limiar tinha sido cruzado uma vez e seria cruzado de novo a qualquer hora que houvesse oportunidade. Não havia como voltar a um relacionamento inocente, de ficar de mãos dadas. Aquilo não o deixou satisfeito, e tentou evitar admiti-lo.

Não sei com que frequência a Fazenda Triplo C ia poder custeá-lo, pagando cinquenta cabeças de gado cada vez que eu o fizer pilheriou ele.

A raiva faiscou nos olhos dela, antes de se afastar.

Não tem graça.

Ele notou, enquanto ela se afastava um passo, e soltou um suspiro.

Não, não tem. Mas também não há uma resposta simples para sua pergunta. Ela lhe lançou um olhar de banda, e ele não desviou os olhos. Estaria mentindo se dissesse que jamais iria querer fazer amor com você de novo, porque iria. Mas o sexo não é o único motivo. Se fosse apenas a satisfação física que eu quisesse, poderia obtê-la das garotas do Jake. Portanto, tem que significar que quero sua companhia, também. Acho que a verdade é que estou um pouco fascinado por você.

Por quê? Mas a pergunta era menos incisiva. Chase sacudiu a cabeça, porque não sabia.

Talvez porque você seja tão honesta e franca sobre o que pensa e quer. A maioria das mulheres tenta fingir. Você ainda não aprendeu.

Isso é ruim? indagou, inclinando a cabeça para o lado.

Não. Chase sorriu, suavemente. Torna você especial.

Havia uma profunda verdade nesta frase, e Chase estava apenas começando a percebê-la. Havia satisfação em possuir o corpo dela, porém ele queria mais do que isso. Este encontro era um teste. Se tentasse fazer amor com ela hoje, perdê-la-ia. Mas ele sabia, também, que se não a possuísse desta vez, possuiria na próxima, e na próxima. E ela viria para ele tão espontaneamente quanto o fizera da primeira vez. Sabendo disso, Chase podia esperar.

Tanto seu pai quanto seu irmão devem tê-la alertado para não me ver adivinhou Chase, e desafiou-a a deixar claros os seus motivos. Então, por que veio se encontrar comigo?

Porque queria. O dar de ombros era uma declaração expressiva de sua independência, mas ela deixou o olhar desviarse dele.

Por quê? Era a vez dele insistir.

Talvez voltou a olhar para ele, um brilho dançando nos olhos porque você não seja nada do que eu esperava que um Calder fosse.

Como esperava que eu fosse?

Imagine que eu achava que fosse metido a besta e arrogante admitiu, um pouco constrangida. Desalmado, também, acho. Mas... você é bonzinho.

Chase tentou conter um sorriso, os cantos da boca se aprofundando com o esforço.

Muita gente espera que tenhamos chifres e rabo. Tendem a ficar espantados quando descobrem que somos feitos de carne e osso, como todo o mundo.

Maggie riu, um som puro e cristalino.

Como todo o mundo, não. Todo o mundo não tem tanta terra quanto vocês... ou gado, ou cavalos, ou todo o resto.

Mas todos temos as mesmas necessidades insistiu Chase, estendendo-lhe a mão mesmo que seja uma coisa tão simples quanto alguém com quem dar um passeio.

Ela olhou para ele e sorriu, depois deu-lhe a mão. O sol estava forte e o céu claro. No capim alto, uma cotovia do prado cantava.

As imensas proporções de Bob Tucker enchiam o assento da sela, não deixando lugar entre o arção dianteiro e a patilha. O tamanho dele parecia ananicar o pónei baio que cavalgava, uma imagem tornada ainda mais incongruente pela aba larga do Stetson de feltro na sua cabeça pequena, e contrastada pelo cavaleiro baixo e esguio que o acompanhava. Tucker parou o cavalo perto do gado que pastava e se mexeu nos estribos, a sela gemendo sob seu peso.

Retiro tudo o que disse, Angus. Examinou o rebanho cor de ferrugem de cara branca. Esse gado não é refugo da Triplo C. É gado de primeira. Como conseguiu persuadir Calder a se desfazer dele? Ou será que estou olhando para gado roubado?

Um ar de indignação cruzou o rosto de O'Rourke. Antes que Angus pudesse abrir a boca para negar a alegação, Tucker riu.

Acho que, se o tivesse roubado, não iria andar por aí contando que era dono dele, não é?

Com toda a certeza retrucou Angus. O gado é meu e tenho o recibo para provar.

Não estou duvidando de sua palavra. Tucker ainda sorria. A mim não me interessa se você tem recibo ou não. Se não tivesse, não seria o primeiro gado roubado que eu compraria.

O roubo de gado se tornara um grande negócio, hoje em dia. Tucker sabia que um homem podia ganhar muito dinheiro com ele, se tivesse as ligações certas. E não era homem de desprezar dinheiro. O fazendeiro é o único que perde, numa transa dessas.

É, e o cara que é apanhado.

Sabe quais são as probabilidades contra isso? Tucker olhou para O'Rourke e deu um sorriso afetado. Para provar qualquer coisa, teriam que pegá-lo com a boca na botija, e as chances de isso acontecer são de um milhão contra um. Mesmo que o fizessem, o homem provavelmente nunca iria para a prisão. É um negócio lucrativo, com pouco risco envolvido. Os dias em que um fazendeiro enforcava um ladrão de gado por mera suspeita pertencem ao passado.

É verdade concordou Angus, e fitou o corpanzil do dono do café com curiosidade. Não sabia que você tinha tanto furto no sangue, Tucker. Vou ter que prestar atenção quando começarmos a negociar esse gado, para você não me passar a perna.

Basicamente sou uma pessoa honesta, Angus. Nunca tento foder as pessoas com quem faço negócios... só os terceiros explicou, com humor seco e irónico. Mas estou tão interessado em ganhar dinheiro quanto outro pobre-diabo qualquer. Se isso significar fazer algo meio escuso, então um homem tem que pesar os lucros contra os riscos, e resolver se vale a pena.

Suponho que sim falou O'Rourke, hesitante.

Tucker estava um pouco desdenhoso da cegueira do estancieiro para com os fatos.

O crime compensa, nos dias de hoje. Não aceite só a minha palavra. Olhe a seu redor e veja você mesmo. Aqui é uma grande extensão vazia de Montana, e só o que temos em termos de policiamento são uns dois policiais estaduais na auto-estrada, e Potter e seus delegados fajutos no departamento do xerife do condado. Se um ladrão quisesse roubar um pouco de gado da Triplo C, não haveria ninguém para impedi-lo... ou apanhá-lo. Até mesmo Calder não pode patrulhar cada centímetro do seu pasto.

Acho que tem razão. A despeito da afirmação, Angus continuou a soar cético.

Tucker olhou em derredor, como que para se orientar, depois virou o cavalo na direção de um morro.

Vou-lhe mostrar o que quero dizer. O gado se dispersou enquanto o par cavalgava pelo meio dele para subir a colina irregular. Na crista, Tucker freou seu cavalo. Para além dele estendia-se a terra dos Calder. Está vendo aquela estrada secundária ali? Apontou para uma faixa estreita de terra à distância. Só o que um ladrão tem que fazer é ter um semi-reboque esperando ali, enquanto uns dois cavaleiros conduzem o gado até a cerca e o enfiam lá dentro. £ uma operação facílima... é entrar e sair em menos de uma hora. Não há ninguém para ver ou ouvir você. Pode levar dias até que alguém saiba que está faltando gado.

Se é tão fácil, como ninguém ainda tentou? perguntou Angus.

É em geral uma operação de curtíssima duração. Eles entram numa área, trabalham nela por um mês, roubam três ou quatro carregamentos, e passam para outra área. A última vez que me lembro de terem roubado gado por essas bandas foi há uns dez anos falou Tucker, e fitou pensativo a vista ampla à sua frente. Quem quer que tenha sido, escapou numa boa. Por aqui, no entanto, todo mundo conhece todo mundo, portanto logo se nota um veículo ou uma cara estranha, e não se presta atenção a um morador local... parou abruptamente, sem terminar a frase. Estivera pensando em voz alta. Agora, queria guardar aquelas ideias para si mesmo, numa chance arrojada de que aquilo desse em alguma coisa. Com uma rápida olhada para O'Rourke, mudou de assunto: Você acabou não me dando um preço para aquela carne.

Angus estava remoendo a sentença inacabada, terminando-a na sua cabeça. Percebeu que era verdade; as idas e vindas de um morador local não despertariam a curiosidade de ninguém... pelo menos não tão rapidamente quanto um estranho. Custou a acompanhar a mudança na conversa.

Ainda não falou o que está disposto a pagar retrucou, finalmente.

Com uma torção do pulso gordo, Tucker começou a girar seu cavalo num semicírculo. Seu olhar errante notou movimento na cerca limítrofe entre a propriedade de O'Rourke e a Triplo C, e se deteve. O interesse dele se aguçou, quando reconheceu o casal andando de mãos dadas. Lançou a O'Rourke um olhar cheio de curiosa especulação.

Então Chase Calder está cortejando sua filha. Sabia que tinha que haver alguma coisa por trás disso. Não posso imaginar Webb Calder vendendo gado de tão alta qualidade para qualquer um.

Ante aquele comentário, a cabeça de O'Rourke girou bruscamente para ver o par. A fúria perpassou por sua expressão, mas seu rosto estava desviado, e Tucker não notou. Angus esporeou o cavalo para virá-lo para o outro lado e começou a descer a encosta na frente do cavaleiro mais gordo, levando-o para longe do casal.

 

Angus remoeu aquela cena durante três dias. Não confrontou a filha com seu conhecimento do encontro dela com Chase Calder; nem ela o mencionou a ele. Os seus pensamentos sombrios perceberam que sua visita a Webb Calder nada tinha conseguido e que levar-lhe um outro protesto seria igualmente em vão. Não havia justiça no mundo, quando um homem podia tirar a inocência de uma moça e não ser punido.

Antes de resolver pessoalmente o assunto, achou melhor dar a Calder mais uma chance de ficar longe da filha. Se a deixasse em paz, Angus esqueceria tudo. Se não, Angus faria com que ele pagasse. Tinha jurado a si mesmo.

O vazio do seu estômago dizia-lhe que era quase meio-dia, assim deixou de lado o motor da bomba do poço, semimontado, e foi-se dirigindo para a casa. O barulho de um cavalo e cavaleiro que se aproximavam a meio-galope fê-lo parar. Seu olhar se estreitou numa viva desconfiança quando reconheceu Maggie cavalgando até o curral. Mudou de direção para andar até o curral, onde ela estava desmontando para tirar a sela do cavalo.

Desculpe o atraso, papai. Não vou demorar mais do que uns minutos para preparar o almoço.

O rosto dela estava afogueado e seus olhos brilhavam, quando ele parou junto à cerca de tábuas.

O olhar dele pousou na boca da filha e ele notou a curva macia e intumescida dos lábios. Não precisava que lhe contassem o que a havia causado.

Andou com o Chase Calder de novo acusou. Ela focalizou toda a sua atenção em soltar a cilha.

Não sou mais uma garotinha, papai. Sua voz baixa era formal e defensiva.

Uma raiva cega retesou o maxilar de O'Rourke, mas não era dirigida a ela. Para ele, a filha era a vítima, uma mulher indefesa, assim incapaz de saber o que queria. Ele só tinha como escolha cuidar do assunto pessoalmente.

Não se incomode em preparar almoço para mim. Tenho que ir à cidade buscar outra peça do motor da bomba mentiu. Era apenas uma mentira parcial; ele ia à cidade, mas não atrás de uma peça de motor.

Maggie percebeu a nota de falsidade na voz dele.

Papai, você não vai...

Vou à cidade, já lhe falei! disse bruscamente, e deu meia-volta, afastando-se do curral. Impulsionado por uma fúria malcontida, cruzou o pátio em desordem até a pick-up.

Enquanto Maggie arrastava a sela e a manta até o estábulo, ouviu a porta da boleia bater e o motor engasgar um pouco antes de pegar. A pick-up sacolejava pela estradinha cheia de sulcos, quando ela saiu do estábulo para se dirigir para a casa.

Ainda tinha que ver a comida do irmão, sendo assim Maggie foi até a pia lavar as mãos antes de começar o almoço. Fitou seu reflexo no espelho, sem conseguir compreender como o pai soubera que estivera com Chase pela manhã, ou como adivinhara que haviam feito amor.

O acelerador da pick-up foi apertado até o fundo, durante toda a viagem até a cidade, onde o veículo parou ruidosa e bruscamente diante do pequeno café. Angus saltou violentamente da boleia, batendo a porta e entrando com largas passadas no estabelecimento. Era a hora do almoço e o local estava parcialmente cheio de fregueses. Correu o olhar pelos ocupantes com irritação indisfarçável, enquanto cruzava a sala para se sentar num banquinho no fim do balcão. O dono de cabeça redonda estava de pé junto à grelha, atrás do balcão, com uma espátula de metal na mão gorducha.

O que vai querer, Angus? Tucker não se moveu, exceto para virar a cabeça e olhar para o seu mais recente freguês.

Café.

O dono-cozinheiro virou um par de hambúrgueres com a espátula e achatou-os, depois andou com seu corpanzil os dois passos necessários para atingir a máquina de café. Depois de encher uma xícara branca, atravessou todo o balcão e veio colocá-la diante de Angus.

Mais alguma coisa? perguntou Tucker, parando para limpar as mãos na frente manchada do avental branco.

Sim.

Aguente as pontas aconselhou Tucker. Daqui a meia hora o lugar vai ficar vazio. Então a gente conversa. Um brilho deixou mais vivos os olhinhos do dono do bar, quando ele acrescentou baixinho: Sócio.

Duas semanas mais tarde uma lua cheia veio espiar de detrás de uma nuvem, lançando sua luz sobre um par de cavaleiros andando a passo através do capim alto da terra dos Calders. O ranger do couro da sela soava alto no silêncio. Angus olhava para o filho, cuja cabeça parecia estar num tonel, sempre olhando nervosamente a seu redor. Ele tinha a mesma sensação angustiante na boca do estômago, e a boca seca. Porra, mas como queria uma bebida. Olhou para frente novamente, tirando coragem do seu ódio devorador.

Aquelas cabeças de gado que vimos devem estar do outro lado daquele outeiro ali sussurrou para Culley, apontando.

Papai, o que acontecerá se a gente for apanhado?

Não vamos ser apanhados. Tucker e eu já bolamos tudo. Só o que temos a fazer é conduzir o gado até a estrada onde o caminhão está esperando.

Vários segundos de silêncio se passaram, antes que Culley perguntasse:

Você está... nervoso, papai?

A escolha do adjetivo fora de um que Angus podia admitir estar sentindo.

Um pouco. Mas fico imaginando a cara do Calder quando descobrir que lhe está faltando gado. O filho da mãe vai ficar furioso. Angus parou para rejubilar-se silenciosamente com a ideia. Ninguém teve peito para enfrentá-lo até que aparecemos. Nenhum Calder vai tripudiar sobre a gente pobre e ficar impune de novo. Vou-me vingar daquele filho da puta por toda a dor e sofrimento que ele causou, nem que seja a última coisa que faça jurou Angus. Vamos roubar cada rês desta fazenda antes de encerrarmos os nossos passeios da meia-noite. Vamos destruí-lo, Culley... você e eu. Soltou uma risada baixa e maliciosa. Vamos ser ricos, e ele pobre. Vai-se arrepender do dia em que deixou o filho botar a mão na sua irmã. Vai-se arrepender amargamente.

E nós vamos cuidar para que isso aconteça murmurou Culley, num acordo fervoroso.

Tirando o chapéu, Chase correu os dedos pelos cabelos castanhos revoltos e colocou o Stetson de volta no lugar. O Sol estava diretamente acima dele, queimando o metal da pick-up onde não estava sob a proteção da sombra da árvore. Perscrutou os morros na direção de onde Maggie viria. Já estava quase uma hora atrasada.

Geralmente conseguiam encontrar-se duas vezes por semana num local pré-combinado. Não era a solução mais satisfatória, encontrarem-se durante o dia com tempo limitado para estar juntos. Mesmo que ele ignorasse o fato de que o pai jamais daria permissão a Maggie para sair com ele abertamente, aonde levaria uma garota de 15 anos? O único local de reunião social por perto era o Jake's, e não podia levá-la ali.

Sendo assim, tinham-se encontrado quando e onde puderam. Por duas vezes o trabalho na fazenda impedira Chase de comparecer, mas esta era a primeira vez que Maggie não vinha. Sentia-se em carne viva por dentro, devorado por uma necessidade que não podia controlar.

Já esperara o máximo que podia. AbandonandO sua vigília, Chase se virou e agarrou a camisa dobrada sobre a lateral da pick-up. Enquanto enfiava os braços nas mangas, ia-se dirigindo para a boleia do veículo. Já escancarara a porta do motorista, quando ouviu o ruído dos cascos de um cavalo que se aproximava.

Parado junto à porta aberta, Chase se virou na direção do som. Um pouco da sua tensão o deixou, ao ver o cavaleiro. Era Maggie, uma esbelta extensão do animal que montava. Vinha a meio galope na sua direção, costurando com o baio por entre as árvores para chegar até ele, O prazer o inundou, suave como o calor de uma brisa de verão, quando ela freou o cavalo junto à pick-up e chutou fora os estribos para deslizar para o chão.

O sorriso dela tinha um certo ar astuto, uma consciência de que a forma arredondada da parte superior do seu corpo mexia com ele, excitando seu interesse masculino. Ela era a imagem do frescor rural, emoldurada diante dos olhos famintos dele. A atração que sentia por ela era urgente, mas Chase continuou junto à porta do veículo, fazendo com que ela viesse até ele.

Desculpe o atraso, mas praticamente tive que arrancar papai e Culley da cama, hoje de manhã explicou, atropeladamente e sem fôlego. Daí em diante tudo foi ficando atrasado. Não tinha certeza se você ainda estaria aqui.

Maggie parou a 30 centímetros de Chase e inclinou a cabeça para trás para examinar-lhe o rosto ossudo e másculo. Intimamente, estirou-se na sua direção, afirmando sua vontade sobre ele. Dava-lhe uma sensação de poder ver o brilho do desejo aparecer-lhe nos olhos. Estava lá, agora, mas ele resistia.

Já estava indo embora. Sentiu uma pontada de irritação por lhe estar sendo negada a visão de toda aquela cabeleira negra enfiada sob o chapéu dela. Tire o chapéu. Parece ter doze anos quando prende o cabelo debaixo dele. Chase sofria pequenos espasmos de culpa, quando algo lhe lembrava a juventude dela, porém as pontadas de consciência nunca eram fortes o bastante para fazer com que parasse de vê-la.

Com uma risada suave, Maggie tirou o chapéu da cabeça e soltou a cabeleira. Fitou-o com um desafio inconscientemente provocante antes de baixar o olhar para admirar ousadamente o tórax musculoso onde a frente desabotoada da camisa se abrira.

Está gostando do que vê? Os olhos escuros dele estavam três quartos fechados e o rapaz curvara preguiçosamente a boca.

Gosto... do pouco que posso ver.

Essa resposta audaciosa fez com que ele emitisse uma risadinha abafada.

Você está ficando uma assanhada de marca zombou Chase.

Já que você foi o meu professor, está-se vangloriando ou se queixando? retrucou Maggie.

Vangloriando. Quando ela se virou para pegar as rédeas penduradas do cavalo, ele franziu a testa e estendeu a mão para detê-la. Aonde pensa que vai?

Ela não resistiu, quando ele a virou para olhá-lo novamente.

Você falou que já estava indo embora quando cheguei. Não queria atrapalhar seu trabalho disse, e seus olhos verdes brilhavam de inocência excessiva. Maggie gostava de exercer o poder que descobrira ter sobre ele, a capacidade de fazer com que a desejasse a despeito de outras coisas que exigiam sua atenção... até mesmo do pai dele.

Sua mentirosazinha. Chase sorriu e tirou as rédeas da mão dela, deixando-as cair enquanto enganchava o chapéu dela no arção dianteiro da sela. Depois, colocou as mãos nos ombros dela, massageando-lhe a curva arredondada dos ossos e sentindo a carne macia da parte superior dos seus braços. Sabe... que agora que está aqui... vou ficar. E para o diabo o trabalho.

Não havia nada nas mãos dela, e nada para impedi-la de tocálo. Seus dedos sentiram o achatamento do estômago dele e a contração involuntária dos seus músculos. Vagarosamente, deixou os dedos subirem pela caixa torácica até o peito cheio de pêlos, e ombros, ainda sob a camisa. As mãos dele apertaram-se nos ombros dela para levantá-la nas pontas dos pés a fim de encontrar-lhe a boca a meio caminho. O beijo esfaimado fazia coisas quentes e deliciosas com ela. Às vezes, Maggie sentia que havia uma exposição de fogos dentro dela, com estrelas alegremente coloridas explodindo por toda a parte, espalhando sua luz e calor a todos os cantos do seu corpo.

Apertou-se mais junto a ele, envolvendo-lhe o pescoço com os braços e arqueando o corpo contra seu corpo duro e esguio, sem se dar por satisfeita até que estivesse moldada intimamente a ele, e o calor de sua carne tivesse deixado sua marca nela. O forte abraço que ele lhe deu ecoava a fome de proximidade absoluta. Quando o rapaz começou a mordiscar a curva do seu pescoço, Maggie não pôde conter o ruído baixo e animal que lhe saiu da garganta, porém tentou negar que ele era igualmente capaz de devastá-la.

Às vezes a voz dela era um sussurro rouco e perturbado: acho que você só está interessado em sexo.

As mãos dele moveram-se para segurar-lhe o traseiro firme e ajustar os seus quadris aos dele, para que soubesse que o estava deixando duro.

Você fez isso comigo deliberadamente. Agora, está dizendo que é minha culpa. Parecia divertido, ao invés de zangado.

Maggie baixou a cabeça, imaginando se tal agressão por parte de uma mulher era imprópria, no entanto incapaz de sentir vergonha, se o fosse. Apertou os lábios contra o peito nu para sentir o gosto da pele dele, gostando da textura macia e sabor salgado.

Acho que não há nada que eu possa fazer murmurou, e ouviu o profundo gemido que ele soltou.

Maggie, você ainda não percebeu que não há nada que nenhum de nós dois possa fazer? murmurou Chase roucamente, e tomou-a nos braços para levá-la a um trecho de grama à sombra, onde a deitou.

Depois que as chamas primitivas arderam até se esgotar, houve tempo para conversa. Chase curtia a companhia de Maggie tanto quanto curtia o seu corpo. Ela era viva e inteligente, tinha uma conversa agradável. A responsabilidade do serviço de casa e de uma família quando muito jovem, amadurecera-a muito além de sua idade real. A despeito da crua diferença entre o ambiente familiar dos dois - Maggie vinda de uma família pobre e de um lar com pouquíssimo conforto, Chase nascido num meio de fortuna e poder - ambos tinham sido criados em meio à dureza; no caso dele, por imposição do pai, no dela, pela realidade. A vida tinha poucas ilusões, para eles. Nada era grátis; tinha-se que pagar um preço por tudo. No entanto, havia algo especial entre eles, dado livremente e sem expectativas além daquilo que era recebido.

Com pesar, Chase fez sinal de que precisava partir. Tinha-se permitido mais de uma hora para ficar com ela, mas gastara a maior parte esperando que chegasse. O tempo que passaram juntos deixara-o com mais de uma hora de atraso. Levou-a até o cavalo que pastava e tomou-a nos braços para um último e demorado beijo. O barulho de uma buzina encerrou-o antes que qualquer um dos dois estivesse satisfeito.

Chase se endireitou e lançou um olhar impaciente por cima do ombro. Uma pick-up da fazenda vinha sacolejando pelo terreno irregular na direção deles, um trio de vaqueiros rindo e gritando da boleia. O que estava com a cara sorridente metida para fora da janela era Buck. Um ar severo cobria as feições de Chase, quando se virou para Maggie.

É melhor que vá disse, querendo protegê-la de qualquer comentário grosseiro que pudesse ser feito.

Ajudou-a a montar e passou-lhe as rédeas, esperando até que ela tivesse entrado com o baio no meio das árvores, antes de se virar para se defrontar com o veículo que se aproximava. O carro diminuiu a velocidade apenas o tempo suficiente para deixar Buck saltar, depois fez um arco amplo para voltar por onde tinha vindo. A pick-up que Chase viera dirigindo estava parada na terra aberta entre os dois. Chase começou a se dirigir para ela, e Buck também.

Se é que esqueceu, devia ter-me apanhado há uma hora para carregarmos aquele touro no pasto de Crosstree lembrou Buck com amplo sorriso, e se aproximou de Chase com um andar afetado. Clay e Jerry vinham para esses lados. Peguei uma carona com eles para ver se você havia enguiçado em algum lugar.

Não esqueci replicou Chase, referindo-se apenas ao comentário inicial.

Acho que não preciso perguntar o que o deteve. O olhar dele buscou cavalo e amazona que desapareciam do outro lado do morro, depois voltou para percorrer Chase, um brilho maroto dançando nos olhos azuis de Buck. Ou como arranjou essas manchas de grama nos joelhos. Aquela era a garota O'Rourke, não era?

Chase fechou a cara de raiva, as feições másculas endurecendo enquanto ignorava os comentários do amigo e passava por Buck diretamente para a pick-up.

Vamos andando.

Buck subiu pela parte traseira aberta do veículo, ao invés de dar a volta para chegar ao lugar do passageiro. Ambas as portas foram fechadas em uníssono e Chase girou a chave na ignição.

Agora estou entendendo por que comprou aquelas camisinhas há duas semanas. Buck ainda estava exibindo um largo sorriso, o chapéu inclinado para trás da cabeça, um braço apoiado na moldura da janela aberta. Adorava implicar, especialmente quando obtinha reação da vítima. Não vai querer fazer neném numa coisinha jovem daquelas, mas não sei se confiaria naquelas camisinhas, se fosse você. Não sabe há quanto tempo estão ali na prateleira debaixo do balcão do Lew. Provavelmente estão amarelas de velhice, a essa altura. São capazes de rasgar justo na hora em que você mais precisar delas.

Pare com isso, Buck avisou Chase, e engrenou uma primeira. O veículo saltou para frente, quando ele pisou fundo no acelerador, depois aliviou a pressão, tentando controlar-se.

Como é que você nunca me contou que estava dando suas voltinhas por aí? insistiu Buck, fingindo reclamar. Nunca tivemos segredos um com o outro, antes. Somos praticamente irmãos. Sabe que eu jamais tentaria invadir seu território, portanto como é que nunca mencionou esse caso apaixonado que está tendo com a garota O'Rourke!

Era verdade. Raramente guardavam segredos um do outro, trocando histórias e experiências, vangloriando-se das mulheres que tinham tido, pilheriando.

Quem sabe simplesmente não estava com vontade de ouvir seus comentários grosseiros. A expressão de Chase continuava severa, e não desviava o olhar da trilha cheia de solavancos por entre a grama.

Qual é, Chase resmungou Buck. Cadê o seu senso de humor?

Vou achá-lo quando você mostrar um pouco de senso de decência.

Cara, você está parecendo um touro sendo aguilhoado. Buck escorregou no assento, puxando o chapéu para frente e desabando-o sobre a testa, e ficou olhando pela janela, emburrado. O que você precisa é de algumas cervejas para relaxar falou, finalmente. É sexta-feira e vou até a cidade. Por que não vem comigo?

Não, obrigado.

Vamos, Chase - insistiu Buck. Ainda não provou o novo entretenimento do Jake. Precisa de uma noite bem doida de putaria e bebedeira para se livrar desse grilo.

Não estou interessado o rapaz repetiu a recusa. Não estava interessado em fazer sexo com uma prostituta, não quando acabara de ter a satisfação de uma coisa para valer. Quanto à bebida, também não o atraía.

Então, vou sozinho. Buck deu de ombros, fez uma pequena pausa, depois lançou um olhar ao amigo. Empreste-me vinte dólares até o dia do pagamento.

Vinte? Lançou um olhar impaciente para Buck. Já está-me devendo trinta. Isso dá cinquenta que você está-me devendo este mês.

E daí? Pago a você quando receber.

É, e depois pede tudo emprestado de novo na semana seguinte.

Porra, não lhe vai fazer falta retrucou Buck. Não sou eu que vou herdar tudo isso. Grande coisa, afinal! Só o que estou pedindo é um mísero empréstimo de vinte dólares de um sujeito que diz ser meu melhor amigo.

Chase esticou a perna direita e se ergueu ligeiramente do assento para enfiar a mão no bolso dos jeans, para pegar a grana. Só o que tinha eram quatro notas de um dólar e uma de 20. Separou a de 20 das outras e entregou-a a Buck.

Tome. Percebeu o ar enfarruscado no rosto geralmente risonho e um sorriso aliviou a rigidez da própria boca. Quem está sendo o suscetível, agora?

Buck enfrentou o olhar do amigo, depois riu devagarinho de si mesmo, e pegou o dinheiro, metendo-o no bolso da camisa.

Obrigado, Chase. Vai recebê-lo de volta. Gostaria que mudasse de ideia e viesse comigo. Poderíamos nos divertir às pampas, você e eu.

Da próxima vez eu vou falou Chase, dando-se conta de que estivera negligenciando o melhor amigo e sentindo-se obrigado, pela amizade, a fazer qualquer coisa a respeito.

Apoiando o calcanhar no estribo da camioneta, Nate Moore tirou do bolso da camisa o material para enrolar um cigarro, enquanto observava os cavaleiros reunindo as reses num cercado. Webb Calder estava a seu lado, o braço apoiado na boleia do veículo, a expressão sombria.

Passei por aqui há uns dez dias e notei que um novilho com a orelha fendida não estava no cocho de sal. Ele sempre esteve lá de manhã. Eu já o procurava automaticamente explicou Nate. A princípio pensei que talvez tivesse quebrado a perna ou sido mordido por uma cascavel, então falei para o Slim ficar atento a ele quando fosse verificar o rebanho, na primeira parte da semana. Dois dias depois ele me falou que não vira nem sinal do novilho. Isso me intrigou, e fui dar uma espiada eu mesmo.

Quantos acha que estão faltando? perguntou Webb, vendo os cavaleiros trazerem o gado para o cercado em pequenos grupos.

Uma estimativa razoável seria de quarenta a cinquenta cabeças. Pode ser mais. Devolveu os papéis de cigarro e bolsa de fumo ao bolso, um cigarro enrolado pendendo dos lábios, e riscou um fósforo nos jeans para acendê-lo.

Tem ideia de quando os ladrões agiram?

É difícil dizer. Há mais de dez dias. Apertou os olhos ante a fumaça. Provavelmente encostaram um semi-reboque na porteira da cerca e os carregaram. É assim que geralmente se faz.

Webb inspirou fundo e endireitou-se da sua posição apoiada à camioneta.

Certo. Era uma concordância sucinta. Nate saiu do caminho enquanto Webb estendia a mão para a maçaneta. Avise-me qual a contagem final, logo que a obtiverem.

Pois não.

Saindo do pasto, Webb pegou a estrada da fazenda que levava à sede e parou a pick-up diante da Casa Grande. Chamou um dos empregados que ia passando:

Encontre Virg Haskell e mande-o vir até a casa. Quero vê-lo.

O empregado ergueu a mão, acusando o recebimento da ordem, e Webb continuou seu caminho para a casa.

Vinte minutos depois um homem esbelto e de cabelos castanhos entrou sem se dar ao trabalho de bater. Nenhum dos empregados observava essa formalidade. Um Calder estava sempre acessível para aqueles que trabalhavam para ele. Virgil Haskel caminhou diretamente para o escritório de Calder e tirou o chapéu quando entrou no aposento.

Bevins disse que queria me ver.

Sim. Webb recostou-se na cadeira para olhar para o homem. Haskell nunca o impressionara, embora não pudesse achar defeitos na folha de trabalho do sujeito. Virg fora a escolha de Ruth para marido, e Ruth era uma amiga querida, muito ligada à família. No entanto, Webb sempre suspeitara de que Haskell se aproveitava desse relacionamento para se promover na fazenda. Nunca houve prova conclusiva disso, e Webb aceitara que era um preconceito natural. Ninguém seria bom o bastante para Ruth. Embora jamais o tivesse admitido, nem mesmo para si mesmo, Webb estava um pouco apaixonado por ela. Depois que superara a morte da mulher, provavelmente se teria casado com ela, se Ruth fosse livre. Mas não era, e portanto ele canalizara seu afeto por ela numa preocupação fraternal, a cabeça governando o coração, com típica disciplina Calder. Andaram roubando nosso gado, cerca de cinquenta cabeças, do pasto norte começou Webb.

Quando? perguntou Haskell, franzindo a testa, surpreso.

De dez dias a duas semanas atrás, ao que nos consta. A primeira coisa que quero que faça é organizar uma contagem do resto dos nossos rebanhos, começando com aqueles que estão nos pastos próximos às estradas principais. Depois, quero que leve dois homens e interrogue todo o mundo nas vizinhanças do pasto norte. Alguém pode ter notado um semi-reboque, ou algo fora do comum. Venha contar-me qualquer coisa que descubra, imediatamente.

Vou começar neste instante. O chapéu foi colocado na cabeleira castanha, enquanto Virgil Haskell saía do gabinete para começar a cumprir as instruções que recebera.

Já tendo dado início à sua própria investigação, Webb pegou o telefone para avisar ao departamento do xerife. Foi estritamente uma reflexão tardia o fato de observar a formalidade de deixar que as autoridades soubessem do roubo.

 

Maggie deu uma olhada no relógio de parede para ver a hora. Eram quase onze e meia. Se andasse depressa, conseguiria acabar de tirar o pó antes da hora de começar o almoço. Erguendo um cinzeiro, correu o pano com lustra-móveis sobre a parte de cima de um porta-revistas colocado sobre a escrivaninha. Era uma coisa velha, muito arranhada e marcada. A parte de cima estava atulhada de papéis, na sua maioria anúncios, que Maggie empilhou direitinho. Enquanto erguia a caixa de charuto onde eram guardadas as contas, bateu acidentalmente na caneca de barro de cerveja que servia como enfeite. Ela balançou na beira da escrivaninha e caiu no chão duro, a tentativa de salvá-la por parte da jovem tendo falhado. A caneca se quebrou em três pedaços.

Merda! Amaldiçoou sua falta de jeito enquanto se ajoelhava para juntar os pedaços.

Uma parte da alça estava quebrada, e a tampa com dobradiça tinha-se soltado da caneca. Havia uma lasca em forma de v no corpo da caneca. Enquanto Maggie pegava a parte principal para ver se podia colar a lasca no lugar, notou alguma coisa lá dentro. Enfiou os dedos para pegá-la, tomando cuidado com as lascas da borda, e tirou um rolo de papel escuro.

Só que não era papel. Era dinheiro. Sentou-se nos calcanhares, num espanto incrédulo. Nunca tinha visto tanto dinheiro na vida. Tocou as notas, verdes e novas. Não pareciam ser falsas; o dinheiro parecia real. Maggie começou a contá-lo com dedos trémulos e ansiosos. Atordoada demais com a descoberta, não escutou os passos na varanda. Não percebeu nada até ouvir a porta de tela bater. Então, ergueu os olhos e viu que o pai e o irmão tinham entrado em casa.

Vejam o que achei! Maggie levantou a mão para mostrar-lhes o dinheiro, risonha e excitada. Aqui há centenas, e mais!

O que está fazendo com isso? A interpelação irada do pai foi seguida pela ação, quando se dirigiu para ela em largas passadas para tirar o dinheiro de suas mãos.

Estava na caneca de cerveja. Quando caiu... Maggie parou, ao se dar conta de que nenhum dos dois estava surpreso. Culley parecia pouco à vontade... preocupado, quase. O brilho de excitação da descoberta sumiu dos olhos verdes. Uma tensão aguda tomou conta dela, correndo por seus terminais nervosos. Onde arranjou este dinheiro, papai?

Não é da sua conta. Evitou o olhar dela e enfiou o maço de dinheiro no bolso.

Maggie se pôs de pé, um medo desconhecido roendo-lhe a boca do estômago.

É, sim. Quero saber como conseguiu tanto dinheiro.

O pai lançou um olhar para Culley, um brilho sigiloso dançando nos olhos escuros.

Temos feito serviço extra falou, soando deliberadamente misterioso. Um sorriso não chegou a aparecer no rosto do irmão, mas Maggie podia ver que estavam partilhando de uma piada particular. Aquilo aumentou suas suspeitas.

Está tentando dizer-me que ganhou todo esse dinheirão trabalhando para outra pessoa? falou, sem acreditar neles. Quem? Quando? Vocês estiveram aqui o tempo todo.

É trabalho noturno falou Culley, abrindo um amplo sorriso para o pai.

Trabalho noturno? Fazendo o quê? A inquietação dela crescia, enquanto olhava de um para o outro.

E o que você acha que andamos fazendo, garotinha? desafiou o pai, com um olhar atrevido.

Uma sensação horrível deixou-a gelada. O único pensamento que sua cabeça estava evitando tornou-se o derradeiro. As pistas estavam todas lá - trabalho noturno, uma grande quantia de dinheiro e o fato amplamente conhecido de que alguém andava roubando o gado dos Calders. Não se falava noutra coisa nas duas últimas semanas. E o pai sempre dera um sorriso retorcido e satisfeito cada vez que o assunto era discutido na sua frente.

Vocês... tiveram algo a ver com o gado que foi roubado? Maggie teve que forçar a pergunta a sair, a voz seca e dura na acusação.

Uma expressão convencida tomou conta do rosto do pai.

Está olhando para o cérebro por trás de tudo.

Seus idiotas! Seus malucos idiotas! explodiu Maggie. Acham que vão sair impunes?

Não nos pegaram nas três últimas vezes... e jamais nos vão pegar! O pai esticou o corpo curto para chegar ao máximo de sua altura e empinou o peito para frente.

Três? Maggie franziu o cenho. Mas só ouvi contar de...

É. Havia um sorriso malicioso no rosto do pai. Calder ainda não descobriu o último. Este é o problema, quando se tem tanto. Leva tempo para descobrir que há algo faltando.

Nós somos como dois mosquitos impertinentes aparteou Culley zumbindo e mordendo-o onde ele não espera, dando mordidinhas aqui e mordidinhas ali... até que não demora e ele está todo comido. Achou graça, e o pai lhe fez companhia.

Maggie fitou-os, gelada até os ossos, e assustada, embora não deixasse transparecer.

O que acontece quando ele fica com raiva, papai? O que acontece quando você o morde tanto que ele sai atrás de você?

Como ele vai saber qual o mosquito que tem que acertar?

retrucou. Vai sair por aí, abanando a torto e a direito, mas nunca vai poder provar nada.

Maggie sacudiu a cabeça devagar, sem acreditar.

Vocês tiveram foi sorte.

Sorte, uma ova! Fomos espertos! Tucker e eu bolamos a coisa e não há margem de erro! vangloriou-se. Nem mesmo o cara para quem estamos vendendo a carne sabe quem somos. Não podem chegar até nós. Até o reboque troca de motorista, para que o sujeito que está fazendo a entrega não saiba os nomes na outra extremidade.

Por que está agindo assim, papai? interpelou Maggie.

Por causa do Chase? Por causa do...

Calder teve tudo à sua moda nesta parte do país por tempo demais. Chegou ao ponto em que acha que ele e os seus podem fazer de tudo sem ser tocados... sem ter que pagar. Apertou a gente ao máximo, tomando a melhor terra e a água, controlando o mercado para não obtermos preços decentes para a nossa carne e mandando na gente como se fosse uma porra de um rei! Angus curtia o seu papel de campeão dos oprimidos, David se levantando para derrubar Golias. Vamo-nos vingar de Calder por todos! E mal começamos!

Você tem que parar! insistiu Maggie, e vibrou com uma raiva que vinha de um medo interior. Pare enquanto está ganhando, papai. Tem todo esse dinheiro. É mais do que jamais tivemos. É o bastante. Já mostrou a Calder... agora pare enquanto pode.

Não vamos parar. Vamos continuar tirando dos ricos e dando para os pobres até que não sobre mais nada para tirar. Vamos arruinar Calder.

Não. Se não parar de roubar o gado, vou contar a Calder o que está fazendo ameaçou Maggie.

Não, não vai. Sacudiu a cabeça, indiferente à ameaça. Não vai mandar seu pai e seu irmão para a cadeia. No momento, está cega por Chase Calder, mas vai chegar o dia em que verá como os Calders realmente são. Acham que são tão grandes e poderosos que podem fazer o que quiser sem que nada lhes aconteça. Mas não vão fazer... não enquanto houver um O'Rourke por perto. Olhou para ela, depois meneou a cabeça decisivamente. Fique de boca fechada sobre o que sabe.

O pai tinha razão. Fora uma ameaça vã. Não diria ao velho Calder ou a Chase que o pai e o irmão tinham-se unido a Bob Tucker para roubar o gado da Triplo C. Não podia denunciar a própria família.

É melhor ir botando o almoço na mesa avisou Angus, agora que silenciara o argumento dela definitivamente. Trabalhamos a manhã inteira e temos que ir encontrar Tucker na cidade para começar a estudar os detalhes de onde vamos atacar na próxima vez.

Totalmente atordoada, Maggie preparou o almoço e botou-o na mesa para eles. Não tinha apetite, somente beliscando a comida no prato. Enquanto escutava as vozes confiantes do pai e do irmão, não havia dúvidas em sua mente de que sua lealdade pertencia a eles, mas como poderia encontrar Chase de novo, sabendo o que sabia? Se o visse e não mencionasse nada, não se estaria tornando cúmplice do roubo? Porém, se parasse de vê-lo, não ficaria desconfiado e se perguntaria o porquê? Estava presa no meio, sem ter para onde escapar.

O roubo do gado significara muito trabalho extra na Fazenda Triplo C, portanto fazia uma semana desde que o vira por dois minutos, o tempo suficiente para Chase explicar por que não podia ficar. Quem sabe também não ia aparecer amanhã à tarde, pensou Maggie, esperançosa. Então quem sabe ela teria tempo para decidir qual o melhor meio de lidar com a situação.

Mas ele estava lá esperando por ela, quando chegou no dia seguinte. O cavalo dele pastava no prado pontilhado de flores silvestres, na parte a que chamavam Broken Butte. Chase adiantou-se para encontrá-la, o sorriso branco contrastando com o bronzeado das feições. Maggie parou o cavalo um pouco afastada dele, e saltou da sela antes de dar-lhe uma chance de ajudá-la a descer. Deixou as rédeas soltas no chão e deu uma palmadinha no pescoço do cavalo, sem olhar para Chase, quando veio a seu encontro, adiando o momento em que teria que fitá-lo nos olhos.

Pensei que estaria ocupado demais para vir hoje. Deu-lhe uma abertura imediata para dizer que tinha que ir embora.

Estamos ocupados, sim, mas não tão ocupados. Ele estava com uma das mãos escondidas atrás das costas. Trouxe-a para frente, oferecendo-lhe um buquê de flores silvestres. São para você, Maggie.

A garganta dela ficou apertada ao olhar para a coleção de cores vivas seguras naquela mão grande e masculina. Estendeu a mão para elas, hesitante, rodeando-lhes os caules com os dedos e levando-as ao rosto para aspirar a fragrância silvestre.

Ninguém nunca me deu flores antes. Olhou para a intensidade escura dos olhos dele, e sentiu uma dor por dentro.

A boca do rapaz estava levemente curvada.

Se algum dos rapazes me visse colhendo essas flores, cairiam todos no meu pêlo.

Ela bem que podia imaginar o quanto o gozariam, se fosse visto fazendo uma coisa tão abertamente romântica. Era difícil para ela imaginar esse homem viril e forte colhendo flores. Tal sentimentalismo não parecia combinar com a imagem de macheza.

Gosta delas? indagou Chase.

Gosto. Maggie acenou com a cabeça, incapaz de erguer o olhar do buquê, as pontas dos dedos contornando de leve as pétalas acetinadas.

A ponta do dedo dele ergueu-lhe o queixo.

Então, que tal me agradecer? sugeriu.

O olhar da jovem não subiu além da boca do rapaz, as linhas firmes e fortes vindo na sua direção. Sentiu-se tomada de uma necessidade fervorosa de conhecer o esquecimento do seu abraço, a loucura inebriante que seu beijo podia trazer. Não esperou que os lábios dele completassem sua descida para buscar os dela. Em vez disso, jogou-se nos braços dele, o buquê escorregando das mãos enquanto envolviam a grossa coluna do pescoço dele. A boca moveu-se faminta, desesperadamente, sobre a dele.

Estava buscando e exigindo, jogando-se contra ele com os lábios e o corpo. Havia calor. Havia fogo. Havia aquele formigamento louco no sexo. Mas não encontrou o alívio necessário para aquela sensação persistente de duplicidade. A tira de aço dos braços e a pressão feroz das mãos errantes dele tentaram absorvê-la no seu corpo, mas a impossibilidade física de tal feito logo se fez sentir. Lentamente, chorando por dentro, virou o rosto para longe dele e empurrou-lhe os ombros.

As flores. Deixei cair as flores. Usou-as como desculpa para terminar um abraço que preenchia todas as necessidades físicas e emocionais, exceto uma.

Chase sentiu-se relutante em soltá-la porque pressentia que, de alguma forma, falhara com ela. Beijou o local sensível na curva do seu pescoço, sabendo como aquela carícia sempre a excitava, e sentiu os arrepios subsequentes do estímulo, mas ela continuou a resistir. Confuso com os sinais conflitantes, afrouxou o abraço e ela saiu rapidamente dos seus braços, agachando-se para pegar as flores dispersas. Quando se endireitou, estava de costas para ele, que começou a massagear as pontas macias de seus ombros.

Senti falta de estar com você, Maggie. A voz era rouca e significativa. Senti falta de você.

Eu sei. A cabeça dela estava inclinada, a expressão oculta aos olhos dele. Também senti falta sua. Mas o tom da voz dela era deliberadamente frívolo. No instante seguinte, estava-se afastando das mãos dele. Obrigada pelas flores. São lindas.

Uma ruga abriu um sulco entre as sobrancelhas do rapaz, enquanto a observava dirigir-se para um afloramento de rochas e sentar-se no chão apoiada nele. Seguiu-a depois de alguns segundos, o olhar atento examinando-lhe as feições lisas, sem expressão. Parou junto a seus pés, agigantando-se a seu lado.

O que a está preocupando, Maggie?

Nada - insistiu, depois ergueu os olhos para ele. um tanto pensativa. Quer fazer amor comigo, não quer?

Essa franqueza não era o que ele esperava, não que ela não fosse geralmente objetiva em suas frases. Não podia negar a pergunta dela, mas adivinhava que não era sexo que queria dele.

Sim, quero fazer amor com você. Sentou-se no chão ao lado dela. Mas não se não for o que você quer que eu faça. Com as costas apoiadas na mesma rocha, enlaçou-lhe a cintura com o braço e começou a puxá-la para si. Venha cá.

Não, acho que não quero...

Sei que não quer. Chase adivinhou o que ela ia dizer. E não vou tentar persuadi-la a mudar de ideia e deixar que a ame. Só o que quero é abraçá-la. Pode ser?

Ela perscrutou o rosto dele por um instante, depois deixou que a virasse de lado para deitar-se sobre seu peito. Chase tirou-lhe o chapéu para que sua cabeça pudesse descansar no ombro dele, e alisou o emaranhado de longos cachos negros. Ela estava com uma das mãos dobrada junto à boca, enquanto a outra pousava de leve no peito dele. Podia sentir a tensão no corpo da moça, e a segurava frouxamente, uma das mãos apoiada no quadril e a outra na caixa torácica logo abaixo da curva do seio.

Não tentou puxar conversa, simplesmente segurou-a nos braços. O sol estava quente e uma brisa leve agitava o capim. Aos poucos, sentiu-a relaxar de encontro a ele, como uma mola que se soltasse devagarinho. Um contentamento tranquilo parecia tomar conta de ambos. Chase não tinha ideia de quanto tempo ficou abraçado com ela daquele jeito; cinco minutos ou 20. Os músculos dele estavam começando a ficar doloridos. Logo estariam dormentes, se ele não se mexesse. Mudou ligeiramente de posição, encostando o queixo no peito para olhar para ela. Maggie estava de olhos fechados, os cílios longos e curvos unidos.

Está dormindo? murmurou.

Hmm-mm. Era um som de negativa. Pensando.

Em quê?

Uma mecha de cabelos pretos jazia sobre a face dela, e Chase empurrou-a suavemente para junto das outras. Ela sorriu, quase com tristeza.

Não creio que você compreenderia.

Experimente.

Estava pensando - ela abriu os olhos devagar enquanto mudava de posição nos seus braços, ficando com os dois ombros contra o peito dele e fitando o céu aberto - que não vou ficar para sempre cozinhando e arrumando e remendando roupas gastas para papai e meu irmão. Quando acabar o colégio, vou embora da fazenda. Vou arranjar um emprego em algum lugar e ter meu próprio canto... e roupas novas. As pessoas não vão olhar para mim e estalar a língua dizendo: a pobrezinha não tem uma coisa decente para usar. Imitou as palavras com um orgulho amargo. Vou trabalhar e ser alguma coisa. E as minhas mãos não vão ter calosidades. Vão ser macias, como as de uma dama. Parou para olhar para as mãos. Suponho que isso pareça uma bobagem, para você.

Não, não parece bobagem. Chase sorriu de encontro ao cabelo dela, aspirando o cheirinho de recém-lavado. É o tipo de sonho para o futuro que quase todo o mundo tem. Ele não tinha, porque seu futuro fora planejado para ele desde o dia do seu nascimento... tomar conta da Fazenda Triplo C. Um homem não podia sonhar mais alto do que isso. Mas raramente dá em alguma coisa. Você provavelmente se casará com um vaqueiro e terá três filhos antes dos vinte anos.

As palavras o feriram como uma faca afiada ante a imagem de Maggie nos braços de outro homem, a barriga inchada com o filho de outra pessoa. O sentimento violento de ciúme pegou-o de surpresa. Desligou-se da descoberta quando Maggie se retorceu iradamente e saiu dos seus braços, pondo-se bruscamente de pé, os olhos verdes faiscando.

Não! Explodiu numa fúria desenfreada que fez Chase se levantar. Não vou-me casar com um vaqueiro miserável e viver desse jeito o resto da minha vida! Não vou ser como a minha mãe, existindo de sonhos e promessas quebradas! Não vou! Está-me ouvindo?!! Os punhos cerrados socaram-lhe o peito para enfatizar as palavras. Vou ser alguém! E ninguém vai-me deter! Não vou permitir!

Ei, acredito em você. Chase segurou-lhe as mãos, espantado com sua veemência. O sorriso dele era de admiração e respeito. Porém Maggie percebeu a inflexão de riso na sua voz e olhou feio para ele, desafiando-o a rir dela. Acredito em você, Maggie repetiu Chase, desta vez sem a inflexão. Por falar nisso acrescentou com secura e ironia sinto pena de qualquer um que tente interpor-se entre você e o que deseja.

A raiva dela sumiu, mas a determinação permaneceu.

Não sou como meu pai, Chase. Não sou absolutamente como ele. E não sou fraca e passiva como minha mãe.

Estou convencido de que não há ninguém como você declarou ele, e soltou as mãos dela para enterrar os dedos nos seus cabelos. Inclinando a cabeça, beijou-lhe a boca. Com pressão persuasiva, forçou-a a abrir-se, enquanto segurava a ponta empinada do seio dela na palma da mão.

Depois disso, seguiu-se uma progressão natural de acontecimentos e logo estavam no chão de novo, a barreira das roupas sendo derrubada com facilidade consumada. Alisaram, acariciaram, exigiram e excitaram-se mutuamente, depois fundiram-se numa união apaixonada que não deixou sombras entre eles, mentais ou de outro tipo.

Desta vez foi mais difícil para Chase deixá-la, e não podia dizer por quê. Insistiu em acompanhá-la até parte do caminho. Havia um local onde poderia cortar caminho retomando sua rota original.

Ninguém vai perguntar aonde você foi? quis saber Maggie, enquanto ele conduzia o cavalo dela pela grama, ao lado do dele.

Podem perguntar, mas Buck me dará cobertura tranquilizou-a Chase. Vamos trazer um rebanho do pasto adjacente a este aqui para o Broken Butte.

Por quê? O comentário despertou uma curiosidade superficial. Nessa época do ano, o pasto de verão era geralmente estabelecido para um rebanho.

Para afastá-lo da estrada principal, onde seria fácil demais para os ladrões de gado chegarem até ele replicou.

Ah. Olhava direto para frente, dando-se conta de que inadvertidamente obtivera uma informação importante. Prendeu o lábio entre os dentes, a boca seca. Tem alguma ideia de quem está roubando seu gado?

Não. Se tivéssemos, nós os deteríamos. Mas eles vão descobrir que agora a coisa não é mais tão fácil declarou Chase, confiante.

Porque estão mudando o gado de lugar concluiu Maggie. Um sentimento de culpa fez com que tentasse fazer os O'Rourkes parecerem inocentes. Quem sabe eu devia falar com papai para mudar o nosso rebanho de lugar, para o caso de resolverem deixálos em paz e roubar a gente.

Pode ser uma boa ideia. Com ladrões agindo na área, vocês deveriam tomar algumas precauções advertiu Chase.

Tem razão concordou, esperando que ele não notasse o tremor nervoso na sua voz.

A maior parte das flores silvestres murchou durante a longa cavalgada até em casa. Maggie colocou as frescas num vasinho e botou-as na mesa. O pai as notou logo que se sentou para o jantar. Olhou-a com curiosidade enquanto ela lhe passava a travessa de carne.

Qual é a ocasião especial?

Nenhuma respondeu numa voz calma e serena. Não estava disposta a contar-lhe que eram as primeiras flores que um homem lhe dera, não quando aquele homem era Chase Calder. Achei que ficaria bonito.

Esteve com ele hoje adivinhou o pai.

Maggie sabia que não havia deixado escapar nada, no entanto podia ver a certeza nos olhos do pai todas as vezes que voltava de um encontro com Chase. O que havia de diferente nela depois de estar com Chase?

Estive.

O que falou para ele? perguntou, passando a carne para Culley.

Nada.

A satisfação recurvou a boca do pai.

Ele falou alguma coisa sobre o gado que foi roubado?

Só que não sabem quem é o ladrão admitiu, servindo-se das batatas.

O'Rourke riu, com alegria exultante.

Não lhe disse!

Papai, não vai ser tão fácil daqui para frente protestou Maggie. Eles estão mudando os rebanhos de lugar.

Ele ficou sério e lançou-lhe um olhar esperto.

Para onde?

Não sei. Chase só mencionou que iam mudar um dos rebanhos para o pasto de Broken Butte, para longe das estradas principais informou-lhe, com uma ruga de preocupação na testa. Vai ser arriscado demais você tentar alguma coisa.

Mas ele não estava prestando atenção a ela. Estava concentrado em Culley.

Quem sabe eu e você devamos ir à cidade tomar uns drinques, hoje à noite. Tucker pode nos fazer companhia, depois que fechar o café. Talvez devamos modificar um pouco os nossos planos. Parece que me estou lembrando de uma estrada secundária que não é mais usada. Passa bem junto de Broken Butte.

Os olhos do irmão brilharam, um verde endiabrado.

Seria ótimo se atacássemos um rebanho que eles pensavam estar seguro, não é?

Só seria disse o pai, com amplo sorriso. Maggie fitou-os.

Vocês estão malucos! Todos os dois! Não sei por que me importaria se os apanhassem ou não!

Contudo, ela se importava, porque eles eram a sua família. Os laços sanguíneos não se partiam por causa de uma coisa certa ou errada.

Uma dúzia de homens estava reunida em volta da escrivaninha maciça do escritório, a atenção fixa em Webb Calder, parado diante de um grande mapa na parede. Chase estava sentado com um quadril no canto da mesa, inclinando a cabeça para acender uma cigarrilha com a chama de um fósforo.

A começar de hoje, vamos patrulhar todas as estradas da fazenda anunciou Webb. Isso quer dizer cada estrada principal, estrada secundária e estrada lateral. Dividimos a fazenda em oito setores e bolamos um esquema que cobrirá todas as estradas. Destacou um setor para cada homem e esboçou a rota individual para cada um. Quando ficou satisfeito que as rotas tinham sido compreendidas, continuou com as instruções gerais. Quero as pick-ups movendo-se constantemente, sem parar para tirar um cochilo... só para abastecer. Quando falo em não parar, é isso mesmo que estou dizendo. Se vocês acham que vão precisar urinar, então levem uma lata com vocês. E variem o padrão... da esquerda para a direita uma vez, da direita para a esquerda da outra. Não quero que nenhum semi-reboque possa prever quando vão passar num dado local e entre e saia enquanto estão longe. Compreenderam?

As cabeças balançaram, em silêncio. Alguém do fundo do circulo perguntou:

E o que acontece quando a gente vir alguma coisa? O que devemos fazer?

Torço para que não vá lá dar um beijo neles declarou Webb, com um meio sorriso que provocou risadas discretas.

Acho que o que quero saber é como vamos deixar os outros saberem? esclareceu o homem.

Infelizmente não somos equipados com rádios, embora algum dia, quem sabe... declarou Webb. Bill... Bill Vernon... identificou o gerente-guarda-livros do depósito pelo nome todo já providenciou para que todos os veículos tenham uma pistola sinalizadora. Se virem alguma coisa de suspeito, disparem-na para o ar. O resto de nós virá.

E enquanto não chegam? perguntou um outro vaqueiro.

Enquanto não chegamos... todos vocês têm fuzis. Webb lançou um olhar pelo semicírculo de homens. Passem no armazém antes de partir e Bill Vernon lhes dará um suprimento de munição. Façam o que for necessário para mantê-los ali até chegar auxílio.

Quer dizer, atirar nos pneus?

Se é só nisso que tem peito para atirar retrucou Webb, e fitou com um olhar duro o sujeito que fizera a pergunta. A seguir, correu os olhos pelo restante deles. Mais alguma pergunta?

Os homens se entreolharam, o silêncio aumentando. Chase examinou os seus rostos. Todos estavam sérios, mas havia um certo brilho no olhar deles. Ardia neles como uma febre contagiosa, porque ali estava uma coisa fora da rotina normal do trabalho algo que continha um elemento de perigo e excitação, algo que todo vaqueiro que se preza curte.

Muito bem. Todos os que receberam uma patrulha, podem se pôr a caminho ordenou Webb. Os outros ficarão aqui com Nate, Virg e o resto de nós disse, incluindo Chase com o olhar. Um sorriso irónico enviesou-lhe a boca. Seremos a cavalaria, chegando justo em cima da hora.

Com um breve aceno de cabeça, dispensou-os. Chase ficou, enquanto os outros saíam em grupo da sala, falando baixo entre si, mas sem sinal de desaprovação ou desacordo nas vozes. Chase olhou para o pai, que se sentara atrás da escrivaninha.

Acha que vai dar certo?

Webb ergueu uma sobrancelha e deu de ombros.

Juntando as patrulhas e a mudança do gado de lugar, deve dar. Os ladrões são basicamente uns preguiçosos. Servem-se do que está à mão. Se é arriscado ou difícil de obter, tendem a passar adiante para algo que seja mais fácil. São alérgicos ao trabalho, ou não estariam roubando. Meu palpite é que se mudarão para um clima mais ameno para eles.

Espero que tenha razão disse Chase, endireitando o corpo.

Eu também. Não podemos continuar perdendo gado replicou o pai, com ar sombrio.

 

Depois disso, vai ser moleza insistia o pai enquanto Maggie continuava a fitá-lo, assombrada, sem conseguir acreditar no que ele lhe estava pedindo. Carregaremos os cavalos no reboque para cavalos e partiremos numa direção. O semi-reboque partirá na outra com o gado.

Não pode esperar que eu concorde com isso, quando sabe como me sinto protestou ela.

Broken Butte é uma terra irregular lembrou o pai. O gado estará espalhado ao longo da base do morro. Vai levar tempo para reuni-lo, a não ser que tenhamos um terceiro cavaleiro para ajudar. Se você vier conosco, podemos entrar e sair rapidamente. Se não vier, Culley e eu poderemos ficar ali tempo demais.

Então, não vá argumentou Maggie. Ou faça Tucker montar com vocês e fazer jus à "parte que está recebendo.

Ele não pode. Tem que viajar junto com o motorista para mostrar-lhe onde se encontrar conosco para pegar o gado explicou. Não é fácil achar o caminho, quando se está guiando de farol apagado. Não, Tucker tem que ir com o semi-reboque para ficarmos dentro do horário. Você vem, ou não? O pai fez uma pausa, depois acrescentou: Se não vier, vamos correr o risco sem você.

Ela podia ver a determinação implacável no rosto dele, e no de Culley também. Deu-lhes as costas parcialmente, esfregando os braços de agitação e incerteza.

Não há dificuldade alguma assegurou Culley. Você só agrupa um pouco de gado e o conduz para dentro do caminhão. Eu também fiquei nervoso da primeira vez, mas é fácil, Maggie. Juro.

Ela teve vontade de rir, mas não pôde.

Quando? perguntou, olhando para o pai.

Esta noite declarou, e Maggie ficou rígida, porque não lhe estavam dando uma chance de pensar no assunto. Sairemos daqui por volta de duas da madrugada, o que nos dá tempo para umas duas horas de sono antes de termos que nos mandar.

Isso não é justo, papai. Estava zangada com ele. Você esperou deliberadamente até o último minuto antes de me chamar para ir com vocês.

Você é igual a qualquer mulher. Se eu lhe tivesse pedido mais cedo, teria ficado remoendo o assunto e se preocupando. Sua imaginação teria ido longe raciocinou.

Não irei! Não há nada que você possa dizer que me faça mudar de ideia! Nunca! Saiu violentamente da sala, recusando-se a ser manobrada para fazer uma coisa que sabia ser errada. Achava-se com raiva porque estava com medo... medo pelo irmão. Por causa de Chase, não podia partilhar do ódio irracional do pai pelos Calders, mas aquilo não diminuía o medo pela segurança da sua família. Maggie correu para o quarto.

Bateram à porta do quarto, e Maggie virou-se de frente para ela. Ainda fervendo, adivinhou que era o irmão. O pai não iria aparecer para acalmá-la ou tentar consertar seu gesto, não quando ela se rebelara contra sua autoridade.

Entre. A permissão foi abrupta e seca, e ela deu as costas para a porta. Esta se abriu.

Sou eu... Culley. O rapaz entrou no quarto pequeno, de teto baixo, um acréscimo feito de improviso no lado da casa.

Mal havia lugar para uma cama de solteiro e uma cómoda, e o espaço para caminhar entre elas. Uma das paredes ainda era a parede exterior original. Ele se aproximou dela e hesitou.

Não fique chateada sobre hoje à noite, Maggie. Não precisa ter medo por nós. Nada vai acontecer.

Estou com raiva. Estou uma fera. Estou chateada. Mas também estou com medo. O que vocês estão fazendo é uma burrice. Vão ser apanhados.

Não, não vamos. Já o fizemos antes e nada nos aconteceu. Vamos fazê-lo de novo prometeu o rapaz.

Ah, Culley. Ele estava tentando tranquilizá-la, mas não da maneira que ela precisava. Maggie virou a cabeça para o lado para trazê-lo para dentro do seu raio de visão. É uma loucura. Você sabe.

Você só pensa assim porque Chase Calder virou sua cabeça. Você não está enxergando direito, ou veria que estamos dando aos Calders o sofrimento que merecem.

Você não conhece Chase. Não podia aceitar essa condenação global dos Calders. Ele me trata bem, Culley. Colhe flores para mim. Às vezes apenas conversamos sobre todo o tipo de coisas e ele me abraça. Faz com que eu me sinta bem, Culley. Tentou fazer com que o irmão compreendesse. Como se eu fosse alguém especial.

Isso não vai dar em nada, Maggie. Não está vendo? argumentou Culley. Ele só a está usando agora... então claro que a trata bem. Mas, e depois? O que vai acontecer se você ficar grávida?

Ele toma cuidado disse ela, desviando o olhar.

E se isso não bastar, quem vai passar a vergonha? Pode apostar que não vai ser ele. Vai até alegar que não a conhece. Culley podia ver que ela não estava ligando para os seus argumentos, e soltou um grande suspiro. Escute, ele por acaso a leva a algum lugar? Já teve um encontro de verdade com ele? Não! Ele próprio respondeu à pergunta. Porque não quer ser visto com você. Então, combina encontrar-se com você, toma o que deseja, e a manda para casa. Você diz que ele é bonzinho para você, mas será esse o modo como trataria uma garota que ele acha que é respeitável e decente?

As perguntas dele tocaram no nervo de emoções já sensíveis. Antes que se desse conta do que estava fazendo, sua mão arqueou-se e esbofeteou-lhe o rosto. O contato fê-lo girar a cabeça, e Culley voltou-a ao lugar vagarosamente. Maggie fitou com pesar a marca branca na sua face, que estava aos poucos ficando vermelha. Mordeu o lábio, incapaz de pedir desculpas.

Então, Culley pediu.

Desculpe. Não foi minha intenção aborrecê-la. Olhou-a com tristes olhos verdes. É melhor você ir dormir um pouco.

Os olhos dela arderam com lágrimas não vertidas, enquanto ele se virava e saía do quarto. Com gestos zangados, enxugou os cílios e começou a arrancar as roupas para ir para a cama. Sabia que a preocupação a impediria de dormir. Não teria um minuto de descanso até que Culley e o pai voltassem de sua aventura noturna... se é que voltariam.

Estava escuro como breu..As formas eram apenas distinguíveis pelos graus variáveis de escuridão. Um céu coberto de nuvens ocultava as estrelas. Se havia Lua, Culley não a tinha visto. Todos os seus sentidos estavam aguçados ao máximo, amplificando o bater combinado dos cascos dos cavalos que trotavam e do gado para um bater de tambor muito alto. O tinir de freios e esporas e o gemer do couro de sela competia com o respirar arquejante dos cavalos em movimento e os mugidos de protesto do gado. Culley olhou para o lado, tentando identificar a figura do pai contra a paisagem escurecida pela noite. Era uma forma indistinta e irregular, delineada brevemente, depois fundindo-se à paisagem.

A alguma distância deles, à frente, um motor diesel roncava impaciente onde o semi-reboque esperava para carregar o gado que estavam conduzindo. Ele o havia ouvido chegar e manobrar em posição não fazia 10 minutos, o seu ronco estilhaçando a quietude da noite. Culley tinha certeza de que estavam fazendo barulho suficiente para acordar o Estado inteiro.

Parecia que estavam ali há uma eternidade, mas Culley sabia que a passagem aparentemente lenta do tempo era outro exagero dos seus nervos. Quando chegaram, haviam-se espalhado em leque, rapidamente, tocando o gado que encontravam para o centro até terem reunido esse grupo. Era o nervoso da culpa que dera esse nó nauseante que sentia no estômago. Não havia propriamente medo, embora pudesse ouvir o martelar do coração bombeando adrenalina por todo o organismo.

Seu olhar constantemente em movimento viu a forma preta retangular do semi-reboque delineada pela escuridão menos densa da estrada. Estavam quase lá. O alívio inundou-o, na certeza de que sua provação já tinha quase acabado. Baixou a guarda por um instante. O cavalo tropeçou, jogando seu corpo relaxado contra o arção dianteiro antes que pudesse endireitar-se. O coração subiulhe violentamente à garganta e ficou lá mesmo depois do cavalo ter se recuperado.

Um par de luzes fortes apareceu na sua visão periférica. Um alarme tocou na sua cabeça enquanto voltava bruscamente o olhar para identificar a fonte das luzes. Um dedo gelado de medo correulhe pela espinha.

Papai, vem vindo uma pick-up pela estrada! falou, com voz forte e clara.

Não havia tempo para entrar em pânico, só para reagir. Sua advertência mal fora dada, quando um assobio e um berro vieram da direção onde Culley imaginava que o pai estivesse. Aquilo fez o gado disparar, e o cavalo dele começou a galopar para acompanhar-lhes a fuga. Estavam a menos de 30 metros do semi-reboque quando foram descobertos, a operação se transformando numa confusão dos diabos.

O solo vibrava com o estrondo dos cascos em disparada, e o ar estava cheio de gritos e dos mugidos do gado assustado. Lá em cima, o céu explodiu em luzes, e Culley viu a abertura preta do reboque escancarar-se à sua frente. Então, seus ouvidos ficaram surdos com o disparo de um tiro de fuzil. Chicoteou o cavalo com as pontas das rédeas, a mente vazia de qualquer pensamento consciente, operando agora por puro instinto. O céu artificialmente iluminado permitiu que Culley visse o pai correndo com ele pelo longo trecho de chão aberto.

Tirem o reboque para cavalos daqui! o pai berrou para Tucker e para o motorista. Nós vamos viajar no caminhão de gado!

Culley se deu conta de que não havia tempo de carregar os cavalos se estavam esperando fugir. Viu de relance a forma maciça de Tucker correndo para a camioneta e o reboque para cavalos estacionados na estrada, o semi-reboque dobrado em dois ocultando-os de vista. Explosões vermelhas de luz pontuavam os tiros de fuzil sendo trocados entre a pick-up e o semi-reboque. Um dos faróis da pick-up já estava apagado, o outro facho de luz iluminando os lados do longo reboque para animais, todos feitos de tabuinhas.

Algumas das reses desviaram-se da abertura negra do reboque e da porta abaixada que fazia as vezes de rampa. O resto disparou para dentro dela, os cascos batendo ruidosamente no piso do reboque. O cavalo do pai subiu rampa acima, na frente de Culley. O pai fez um gesto ao rapaz para segui-lo, mas o novilho que corria ao lado de Culley refugou ao ver a rampa, e deu um encontrão no cavalo dele. A montaria bateu com o flanco numa estaca da cerca, mas mesmo assim conseguiu manter o equilíbrio. Culley ignorou o raspar da sela contra o poste da cerca, enquanto instigava seu animal a seguir o do pai, entrando na negra confusão que se processava dentro do reboque.

O gado estava tentando sair pela abertura, mugindo em pânico, o ruído dos cascos misturando-se aos relinchos assustados dos cavalos. Os animais tontos viraram o cavalo de Culley de lado, bloqueando eficazmente o caminho e fazendo com que as vacas voltassem atrás. O rapaz tinha consciência do zunir das balas e dos tiros de fuzil, mas sua atenção estava concentrada em controlar sua montaria que pinoteava e semi-empinava incansavelmente. Nalgum lugar da escuridão do reboque, escutou o pai praguejando. Parte dele sabia que, se qualquer um dos dois caísse, seria pisoteado até a morte.

Cubra-me! uma voz gritou ao lado da abertura que Culley bloqueava.

Olhou para baixo e viu um estranho que lhe jogava um fuzil, o cano de metal brilhando brevemente à luz do farol. Com um reflexo relâmpago conseguiu agarrar a arma com uma só mão. O homem deixou a proteção do lado do reboque para levantar a parte traseira que tinham usado como rampa, expondo-se desse modo ao fogo de fuzil da pick-up.

Chutando e puxando, Culley forçou seu cavalo a emparelhar com a parede do reboque. Animais assustados batiam nas suas pernas, e ele deu com o joelho dolorosamente contra o lado do reboque. Espremido contra o lado pelas vacas. Culley enfiou a boca do fuzil por uma das aberturas entre as tabuinhas e mirou o farol da pick-up. Depois do primeiro coice da coronha do fuzil contra o ombro, ficou indiferente à dor enquanto fazia chover balas no capo da camioneta. Podia estar atirando num coiote, de tal maneira estava conscientemente desligado do que fazia. A autopreservação ditava-lhe os gestos.

O aceleramento do motor a diesel foi seguido por uma mudança de marchas que sacudiu o reboque. O cavalo dele se agachou e Culley teve que se agarrar ao arção de sela enquanto o cavalo se mexia desesperadamente debaixo dele para conseguir manter o equilíbrio no veículo em movimento. Uma bala acertou uma tábua perto da sua cabeça, estilhaçando-a. Outro tiro e algo desabou no piso do caminhão com um baque surdo. O medo correu-lhe pelas veias. Podia ter sido seu pai quem caíra.

Papai?

Estou bem. A resposta do pai continha apenas um débil eco de sua antiga confiança. Derrubaram uma das vacas.

O semi-reboque descia rapidamente a estrada, e não havia mais sons de disparos. Culley forçou os olhos, mas não podia ver nenhum veículo no seu encalço. Iam conseguir escapar, afinal. Por um momento, lá atrás, pensara que Maggie iria ter razão. Até este minuto, não estivera certo de que teriam êxito na sua fuga. O mesmo pensamento pareceu ocorrer ao pai, enquanto ria.

Conseguimos, Culley! declarou Angus, triunfante. Tentaram surpreender-nos com aquela patrulha, mas passamos a perna neles e demos no pé direitinho!

É. A princípio estava hesitante na sua concordância, depois adquiriu confiança com uma crescente sensação de vitória. É, foi mesmo! E soltou um grito que deixou o gado indócil de novo.

A euforia não demorou muito, pois a reação começou, e o rapaz se pôs a tremer incontrolavelmente. Era uma combinação da proximidade do seu encontro com o perigo e mais sua atuação que ajudara na fuga. E se tivesse atingido alguém? Era verdade que não estivera apontando para um alvo humano, mas uma bala poderia ter ricocheteado. Era uma possibilidade muito real.

Ficou sentado no seu cavalo em estado de choque, malconsciente dos ruídos característicos do caminhão enquanto diminuía a velocidade. Finalmente parou, o motor a diesel ainda ligado, enquanto a porta da boleia batia. Bateram na porta traseira.

Estão bem aí dentro? perguntou a voz de Tucker.

Estamos jóia! replicou o pai, mas Culley sentia-se muito abalado.

Aguentem firme. Vamos tirá-los daí.

O gado se mexeu enquanto o pai veio trazendo o seu cavalo com cuidado até a traseira do caminhão. O cavalo de Culley levantou as orelhas e soltou um bufido ante o barulho da porta sendo baixada. O corpanzil de Bob Tucker estava na abertura para afastar as vacas. Enquanto o pai descia, Culley esperava. Depois, instou seu cavalo a fazer o mesmo. Não tinha consciência de que ainda estava firmemente agarrado ao fuzil, até que o motorista do caminhão estendeu a mão para a arma.

Agora pode devolver-me o fuzil. Fez um bom trabalho em mantê-lo imobilizado, garoto. O rosto do homem estava nas sombras, mas Culley percebeu o lampejo dos dentes brancos, quando ele sorriu e tirou o fuzil dos seus dedos duros.

Não acertei nele, não é? perguntou Culley, com voz rouca.

Não. O homem sacudiu a cabeça, com firmeza. Estava deitado na vala ao lado da estrada, mas você desarranjou a pick-up dele.

Quanto ao semi-reboque, algum dano? indagou Tucker do motorista.

Fez um buraco em dois pneus, mas eu dou um jeito falou, e ajudou o homenzarrão a prender a porta traseira.

Haviam parado numa bifurcação na estrada secundária, o semi-reboque de gado apontado numa direção e a pick-up e o reboque para cavalos virado para outra. Culley desmontou para ajudar o pai com os cavalos. Acabaram enquanto o semi-reboque se afastava, descendo sua estrada com a viagem de uma noite ainda por fazer. O trabalho deles tinha acabado, e pegaram a outra estrada que ia dar em casa.

Sem conseguir dormir, Maggie finalmente desistiu de tentar. Levantou-se e vestiu-se, foi para a cozinha fazer um bule de café, embora não precisasse do estimulante para mantê-la acordada durante a longa vigília.

O bule estava quase vazio quando ouviu o barulho da pick-up e do reboque para cavalos entrando no pátio da fazenda. Um estremecimento de alívio a percorreu ao ver que tinham voltado em segurança. Abriu a porta da frente e foi lá para fora. Não viu o pai imediatamente na escuridão do pátio, mas Culley estava tirando os cavalos do reboque.

Estão bem? perguntou.

Não graças a você. O pai apareceu vindo do outro lado do reboque, para pegar as rédeas do cavalo. Por que não nos contou que Calder tinha posto patrulhas?

Oh, não! Não era nenhum conforto ver que tinha motivos para se preocupar. Eu não sabia. Chase não as tinha mencionado. Se tivesse, ela se teria esforçado mais para impedi-los de ir. O que aconteceu?

Quase nos pegaram... foi isso o que aconteceu! retrucou o pai.

Viram vocês? Reconheceram vocês? As perguntas dela pareciam disparos de fuzil, quando emparelhou com o pai e o irmão que iam tirar as selas dos animais e soltá-los no curral. O olhar dela ficava se desviando para Culley, que não havia feito um único comentário, mas não podia ler o que havia na sua expressão nublada.

Não. Não chegaram perto da gente para poder dar uma boa espiada, não com todo aquele tiroteio. Novamente, foi o pai que respondeu.

Tiroteio? Alguém se machucou? indagou, pensando imediatamente em Chase.

Não. Ninguém teve um arranhão jactou-se o pai. Tentaram nos surpreender, mas não deu certo. Escapamos... e com o gado. Dois minutos, se tivéssemos tido mais dois minutos poderíamos ter carregado o semi-reboque e ido embora sem que eles sequer soubessem que tínhamos estado lá. Poderíamos ter feito isso, se você tivesse vindo junto, Maggie. Se alguma coisa nos tivesse acontecido hoje, teria sido culpa sua por não ter vindo conosco e nos dar a vantagem de um terceiro cavaleiro.

O'Rourke já tinha arranjado uma justificativa para o susto de hoje. Estava pondo a culpa em Maggie. Ela resistiu à culpa que o pai tentava botar nela, reconhecendo a tentativa pelo que era realmente outra das suas desculpas pelo fracasso mas não era fácil.

Quando chegaram ao curral, Angus entregou a Maggie as rédeas do seu cavalo.

Tire a sela dele para mim ordenou. Vou soltar o reboque.

Não discutiu. Enquanto o pai se afastava, lançou um olhar ao irmão, que tirava, calado, a sela do seu cavalo.

E o que vai acontecer agora, Culley? Maggie deliberadamente evitara fazer tal pergunta ao pai. Vindo dela, ele a teria considerado má-criação. Ele finalmente vai dar a coisa por encerrada?

Vamos ficar na moita por uns tempos... até a coisa esfriar.

Tiveram sorte, hoje lembrou ela. Da próxima vez, poderão ser reconhecidos.

Mas também pode ser que não. Culley deu de ombros e tirou a sela do seu cavalo e pousou-a no chão.

Depois que os animais tinham sido largados no curral, eles levaram as selas e o equipamento para o estábulo. Maggie estava ajustando a sela do pai no descanso de madeira para selas, quando notou que Culley fitava sua sela.

O que foi? Adiantou-se para ver o que ele estava olhando.

Está faltando uma roseta. Apontou para o pedaço redondo de couro novo onde estivera preso o ornamento. Deve ter sido arrancada quando meu cavalo raspou contra o poste da cerca. E se a encontrarem, Maggie?

Ela sabia o que ele estava pensando. Era prova de que tinha estado no local.

Pode deixar que eu a apanho para você prometeu.

A estrada diante da porteira que dava para o Broken Butte estava cheia de veículos estacionados, na manhã seguinte. Todos eles pertenciam à Fazenda Triplo C, exceto o carro do xerife. No pasto cercado, os cavaleiros estavam reunindo o restante do rebanho para fazer uma contagem da perda. Noutra parte, uma corrente estava sendo amarrada à camioneta atingida pra que pudesse ser rebocada para a garagem da estância, onde seria consertada. O Xerife Potter, um homem com cara aflita num uniforme muito bem engomado, estava a um canto conversando com Slim Bevins, o homem que surpreendera os ladrões. O trio com ar severo que estava à sombra de um dos reboques para cavalos era formado por Webb Calder, Nate Moore e Virg Haskell.

Quase os pegamos resmungava Virg. Se Slim tivesse conseguido detê-los mais uns quinze minutos, seu plano teria dado certo.

Quase não conta, Virg replicou Webb.

Sejam quem for esses ladrões, conhecem o local observou Nate. Ou vasculharam o lugar bem à beça, ou são gente daqui. Esta estrada não fica em nenhum mapa. E não parece mais do que um par de sulcos onde se junta com a outra.

São espertos declarou Virg.

Não podem ser muito espertos negou Webb ou teriam imaginado que estaríamos patrulhando as estradas e tínhamos alguém de vigia. Lançou um olhar a Nate. Mas você está certo quanto a uma coisa, Nate. Somente alguém que já esteve nessa estrada antes saberia que não é abandonada. É inteiramente possível que haja algum morador local trabalhando com esse bando. O problema é... quem?

Nenhum dos três quis dar palpites. A discussão não foi continuada quando Webb notou que o Xerife Potter vinha cruzando a estrada na sua direção. O homem baixo e de quadris largos andava com passos pequenos e sacudidos, como se os pés lhe doessem. Não era homem de se esforçar demais, acreditando firmemente que as coisas se acabavam resolvendo por si mesmas, se não houvesse interferência. Não era nem incompetente nem desonesto, mas tinha sua quedazinha para a preguiça.

Falei com o seu homem, Webb declarou, enquanto parava afetadamente para completar o círculo formado parcialmente pelos três homens. Não há mais nada para nos basearmos do que já havia antes. O solo está revolvido demais para deixar marcas de pneus que sirvam para alguma coisa. As balas que tiramos da camioneta não vão poder dizer-nos nada. São do tipo comum, trinta-trinta. Todo homem no Estado de Montana tem um fuzil de caça. Sem número da placa, sem uma descrição que sirva para alguma coisa, eu diria que ainda estamos na estaca zero. Mas... o xerife se animou, pelo menos até onde sua expressão cansada o permitiu acho que você lhes deu um susto dos bons, surpreendendo-os daquele jeito. Estou certo de que não voltarão.

Espero que tenha razão, Potter. Obrigado por ter vindo pessoalmente. Webb apertou a mão frouxa do homem.

É o meu trabalho, Webb respondeu, dando de ombros e caminhando com passos incertos para o carro.

E o que acontecerá, se voltarem? resmungou Nate, para as costas do xerife.

Houve um lampejo de divertimento nos olhos escuros de Webb antes que se voltassem para o rosto cansado e abatido de Slim Bevins, que ainda não dormira nem um pouco. Depois que o xerife se foi, ele atravessou a estrada para unir-se a eles. Sua expressão ainda era de quem pedia desculpas, sem conseguir livrarse da sensação de que desapontara o patrão.

Desculpe eu não poder ajudar mais desculpou-se ele com Webb, e não pela primeira vez. Tudo aconteceu tão depressa que não pude dar uma boa olhada em nada ou ninguém. Os cavaleiros estavam debruçados sobre as selas de tal jeito que não pude ver se eram altos ou baixos, magros ou gordos. Só o que vi ao certo é que eram dois, mais o motorista e outro grandalhão. O reboque era um caminhão para gado comum, e não enxerguei nada escrito na boleia. Se havia placa, estava toda coberta de lama suspirou, e balançou a cabeça. Teve uma faora em que havia tanto chumbo voando pelos ares que pensei que estava no meio de um tiroteio de filme bangue-bangue.

Você fez o melhor que pôde, dadas as circunstâncias. Não peço a um homem mais do que isso. Mas Webb estava consciente da frustração que sentia ante a falta de informações que o homem oferecia.

Tem certeza de que não há nada, Slim? insistiu Virg Haskell. Nenhum deles chamou o outro pelo nome?

Não. O homem se mexeu, inquieto e mordiscou a parte interna do lábio. Havia algo de familiar na voz de um dos sujeitos.

Quer dizer que já a ouviu antes? indagou Webb, olhos fitos nele.

Bem, parecia um pouco com... Angus O'Rourke admitiu Slim, finalmente.

Tem certeza? Havia uma quietude de aço na voz de Webb.

O problema é esse suspirou o vaqueiro. Não tenho certeza. Foi por isso que não falei nada antes. Que diabo, poderia ter sido a voz de qualquer um.

Depois da negativa, Webb virou-se para o homem à sua direita.

Leve Slim de volta para a sede, para ele dormir um pouco. E Virg, avise a Ruth que provavelmente não estarei em casa para o almoço antes da uma.

Direi a ela. Virg acenou com a cabeça e se dirigiu para uma das camionetas estacionadas, com Slim Bevins vindo um passo atrás dele.

A mim está parecendo que você também podia dormir um pouco. Nate correu um olhar crítico pelos vincos vívidos no rosto de Webb. Se é que já esqueceu, você também passou toda a noite acordado.

Já fiquei sem dormir antes retrucou Webb.

É, mas não estava quase na casa dos cinquenta quando o fez ressaltou Nate.

Qual é, Nate? Webb lançou um olhar seco e irónico na direção do capataz. Quer que eu o mande de volta para o alojamento para dormir um pouco? Você também passou a noite inteira acordado, e está bem junto de mim, chegando ao meio século.

Mas Nate apenas abriu um sorriso.

Não sou eu quem tem um filho que você acha que não o pode deixar para trás. Lançou um olhar para os vaqueiros com o rebanho onde Chase estava. Parece que ele já esgotou um cavalo observou Nate, enquanto tanto Chase quanto Buck deixaram o rebanho para dirigir seus cavalos suados para a porteira, onde pegariam cavalos descansados que estavam amarrados nas estacas. O fato de ver Chase fez Nate ficar pensando, e pensou em voz alta: Será que era O'Rourke?

Webb lançou-lhe um olhar penetrante mas não respondeu, enquanto saía da sombra do reboque para caminhar até a cerca.

Que tal está indo?

O rebanho não teve chance de se dispersar muito replicou Chase, já tendo desmontado, e começando a soltar a cilha da sela. Devemos ter o resultado da contagem lá pelo meio-dia.

Ainda tem café na garrafa térmica? perguntou Buck, enquanto amarrava as rédeas do seu cavalo na cerca da porteira. Bem que eu gostaria de um pouco.

Pode restar uma meia xícara no fundo. Está na boleia. Nate fez sinal por sobre o ombro para o caminhão estacionado às suas costas.

Buck já ia abrir a porteira, quando algo no capim chamou sua atenção. Debruçou-se para apanhá-lo.

Isso caiu da sua sela, Chase?

Chase olhou para ver o que era, depois sacudiu a cabeça. Não precisava examinar sua sela para saber.

Não é minha. Os laços de couro da minha roseta são círculos simples. Esses são recortados.

Nem minha. Buck voltou a olhar para ela. Quem sabe caiu da sela de Clay.

Ou pode ter caído da sela de um dos ladrões sugeriu Webb, adiantando-se. Deixe-me ver.

Tal sugestão fez com que tanto o capataz quanto Chase se aproximassem para olhar melhor. Era uma pista muito pequena, mas, a esta altura, podia vir a ser a única importante que tinham. Nate foi o primeiro a escutar o meio galope de um cavalo na estrada, e ergueu os olhos justo quando o cavaleiro apareceu.

Vem vindo alguém disse para os outros, e eles voltaram sua atenção para o cavaleiro.

Quando Chase reconheceu a amazona esguia e flexível, todo o seu cansaço desapareceu. Maggie freara o seu cavalo ante a visão de todos aqueles veículos e pessoas. Virando em ângulo reto em relação a eles, o cavalo dela saltitou de banda por vários passos, antes que ela o fizesse guinar e aproximar-se deles a trote. Uma única trança negra caía na frente do seu ombro. Quando parou o cavalo perto da porteira, o rapaz pôde ver a leve tensão nas feições da moça, o lampejo recalcado de desafio nos olhos verdes. O pai dele tinha um jeito de intimidar as pessoas; por causa do seu leve complexo de inferioridade, Maggie era obviamente afetada por ele.

Alo. Era um cumprimento global, dado quando ela saltou da sela num único movimento fluido. Ouvi contar que as coisas andaram quentes por aqui, ontem.

E onde ouviu contar? A interpelação brusca do pai chamou a atenção de Chase. Aquela aspereza não parecia necessária.

Porém Maggie apenas sorriu, o verde faiscando um pouco mais vivamente nos seus olhos.

Tudo o que acontece a um Calder se espalha por essa área rapidamente. Birdie Johnson me ligou hoje de manhã. Então, seu olhar pousou na roseta de couro com as suas tiras gémeas de couro cru. Ei, isso aí é meu. Onde a achou? Tirou a roseta das mãos de Webb antes que algum deles pudesse reagir à sua espantosa declaração.

Buck encontrou-a no capim, junto à porteira respondeu Webb.

Notei que tinha sumido, no outro dia, mas não tinha ideia de onde a perdera disse, relaxando a boca num ligeiro sorriso.

Pensamos que podia ter caído da sela de um dos ladrões falou Webb, olhando para ela com atenção.

A risada que ela deu era ligeiramente forçada.

Asseguro-lhe que caiu da minha sela, e ontem à noite eu estava na cama às nove e meia.

Webb deixou o olhar correr pela área circunvizinha antes de voltar para ela com dureza.

Isso aqui fica muito longe da casa do seu pai. O que estava fazendo aqui quando a perdeu?

Chase já ia manifestar-se, mas ficou calado quando viu o jeito ousado com que ela desafiava o pai dele. Ele próprio já tinha recebido um daqueles olhares arrogantes antes. Sentiu-se inundado por uma mistura de orgulho e divertimento.

Tinha combinado encontrar-me com seu filho retrucou, com voz bem clara.

Ao lado dele, Buck se mexeu e pigarreou. Seus olhos azuis brilhantes diziam que estava achando a situação muito divertida.

E encontrou-se com ele? indagou o pai.

Encontrou-se, sim respondeu Chase por ela, vindo em sua ajuda, mas o olhar que ela lhe lançou não era de agradecimento.

Encontrei-me, sim confirmou Maggie, numa explosão de génio. E não gosto quando as pessoas insinuam que estou mentindo, Sr. Calder. A ênfase era arrogantemente sarcástica, enquanto ela dava meia-volta e ia montar seu cavalo.

Chase começou a se adiantar para impedi-la de partir, mas o pai colocou-lhe uma mão no braço, segurando-o, sem tirar os olhos da garota que virava o cavalo num círculo. Quando Chase tentou livrar-se da mão do pai, este apertou mais o braço do rapaz.

Deixe-a ir, filho foi só o que Webb disse. Temos trabalho a fazer.

O incidente deu a Webb motivos para pensar. Estava disposto a admitir que a garota O'Rourke não fora um dos ladrões de gado, mas era inteiramente possível que estivesse dando cobertura a um deles. Mesmo que não estivesse, e a roseta tivesse caído da sua sela quando viera encontrar-se aqui com Chase, isso tornava muito provável que soubesse que o gado estava sendo mudado para este pasto, informação que os ladrões tinham que ter obtido de alguma fonte. Havia várias possibilidades definidas a ter-se em mente.

 

Um céu de desafio, Um céu de justiça, Este céu que ataca com O poderio de um Calder.

 

A maioria das roupas na pequena loja de fazendas em Blue Moon era roupas de trabalho, criadas para durabilidade e não para elegância. Dos dois cabides de vestidos na seção feminina da loja, apenas metade de um deles era reservado para vestidos melhores. O resto todo era ocupado por vestidos de andar em casa. Sempre que Maggie tinha um tempo sobrando, examinava os vestidos pendurados. Era melhor do que um catálogo, porque ela podia tocar os vestidos, de verdade, e segurá-los de encontro ao corpo enquanto se olhava no espelho de corpo inteiro.

Essa tarde tinha um tempo de sobra, porque o pai e o irmão estavam no Jake's tomando uma cerveja. Entrou na loja e foi-se dirigindo devagarinho para a seção feminina. Lew Michels, o proprietário, estava medindo uma peça de cambraia para um freguês quando Maggie passou pela seção de fazendas propriamente dita. Ele ergueu os olhos e sorriu, reconhecendo-a.

Alo, Maggie. Dorie está lá atrás no depósito. Vá dar-lhe um alo. Isso lhe dará uma desculpa para dar uma paradinha falou.

Doris Michels era a filha dele e colega de classe de Maggie, Nunca tinham sido amigas, mas não porque Maggie não gostasse dela. Dorie era boazinha, mas sua melhor amiga era Cindy Schaeffer, que também morava na cidade. As duas eram inseparáveis, e nunca parecia haver lugar para uma terceira pessoa participar de suas fofocas. Além disso, como os pais eram donos da loja, Dorie sempre tinha roupas bonitas para usar, e a mãe de Cindy podia costurar qualquer coisa que não ficava com jeito de feita em casa.

Obrigada, Sr. Michels.

Contudo Maggie duvidava de que Dorie fosse ficar radiante ao vê-la. Elas geralmente não tinham mais o que dizer uma para a outra depois de alguns minutos. Foi até o fundo da loja e bateu à porta do depósito. Houve uma barulheira de alguém tropeçando em caixas antes que a porta se abrisse. Uma garota ligeiramente gorducha com cabelos cor de areia piscou para ela, surpresa.

Oi, Maggie. Puxa, não a vejo desde que as férias de verão começaram. Depois, achou graça. Também não a vi muito durante as aulas. Você quase nunca ia.

Faltei muito à escola para ajudar meu pai admitiu Maggie. Seu pai falou que você estava aqui. Já estava procurando alguma coisa para dizer.

É. Ele me botou para trabalhar à tarde agora que a escola fechou para o verão, para eu poder ganhar algum dinheiro. Por aqui não há nenhum lugar onde arranjar emprego explicou a garota.

É dureza concordou Maggie, e começou a recuar.

Por que não vem cá para os fundos? convidou Dorie. Eu lhe mostro os novos vestidos que acabaram de chegar. Eu os estou desempacotando agora. Isso nos dará uma chance de conversar um pouco. Maggie aceitou a oportunidade de ver os vestidos antes de qualquer outra pessoa da cidade, e acompanhar a coleguinha para o depósito. Soube que os pais de Cindy Schaeffer talvez se mudem para Miles City?

Não, não sabia.

Pois é, talvez mudem. Não é horrível? Dorie fez uma careta só em pensar. Olhe aqui os vestidos. Não são lindos? Apanhou um vestido de malha de mangas compridas, num tom de verde escuro. Claro que são para o inverno. Não é uma loucura receber vestidos de inverno no meio do verão? Mas é assim que funciona o mundo da moda.

É bonito disse Maggie, tocando de leve o vestido e gostando da maciez da fazenda pesada.

Dorie enfiou-o nas mãos dela e foi pegar outro.

Não se preocupe de amassá-lo. Tenho que passar todos a ferro depois de desempacotá-los. Este aqui também é bonito. Ergueu um outro da pilha. Mas tem babados demais e me faz ficar mais gorda do que sou. Mamãe diz que é gordura infantil, mas não acho que vá desaparecer nunca. Ah! Este aqui ficaria fabuloso em você, Maggie.

Era cor de ferrugem, do mesmo modelo e fazenda daquele que ela estava segurando. Maggie dobrou o primeiro sobre uma caixa para pegar aquele que Done lhe estendia.

Há um espelho logo atrás de você indicou Dorie, e Maggie se virou para ver como ficava nela.

Gostou do contraste da cor vívida com os cabelos escuros e do estilo sofisticado que a fazia parecer mais velha.

É lindo murmurou.

Por que não o experimenta? insistiu a coleguinha loura e gordinha. Ali há um vestiário.

Maggie hesitou apenas ligeiramente antes de aceitar o convite. Não podia resistir à chance de ver como ficava com o vestido. Usando o vestiário que Dorie tinha indicado, tirou as roupas e botas e enfiou o vestido pela cabeça, torcendo os braços para trás das costas para puxar o zíper.

Ficou perfeito em você! declarou Dorie, no minuto em que Maggie saiu do vestiário. Sabia que ficaria. Venha espiar no espelho comprido lá na frente.

Quando Maggie viu seu reflexo, todas as suas expectativas foram superadas. A transformação de moleque de jeans em senhorita era uma mudança espantosa; o vestido realçava seu corpo de seios altos de uma maneira que as roupas masculinas mal-enjambradas jamais poderiam. Nem mesmo os pés descalços interferiam na feminilidade elegante da imagem no espelho.

Não imagina como ficaria sofisticada com o cabelo preso para cima? A sugestão de Dorie fez com que Maggie puxasse a cabeleira pesada para o alto da cabeça. Um vislumbre de todas as possibilidades era só o que a lourinha precisava. Espere aqui, Maggie. Vou ver se acho uns grampos lá nos fundos.

Na seção masculina da loja, Chase esperava com paciência cada vez menor enquanto Buck experimentava uma variedade de Stetsons de palha em diferentes formatos e estilos. Quando haviam chegado a Blue Moon, há 20 minutos, Chase reconhecera a camioneta enferrujada e cheia de mossas estacionada diante do Jake's como sendo de Angus O'Rourke. Usara a desculpa de comprar charutos para parar no armazém e descobrir se Maggie estava lá fazendo compras, parando lá o tempo suficiente para se certificar de que não estava. Depois, deixara que Buck o arrastasse para o outro lado da rua, para a combinação de loja de ferragens e de fazendas. Já tinha corrido os olhos pela loja sem encontrar Maggie, aqui também. Estava tentando apressar Buck a fazer sua escolha, quando ouviu a voz de uma mocinha dizer o nome de Maggie.

Este não está mau. Buck se contorceu e posou para estudar o Stetson de palha de todos os ângulos, depois deixou-o de lado. Viu aquela sela feita à mão que Lew tem lá na frente? Devia comprá-la para mim, Chase. É uma beleza.

Economize o seu dinheiro e compre-a você mesmo. Chase estava-se afastando, atraído na direção da voz, como se fosse um sinalizador.

Porra, eu ia levar um ano para economizar o bastante bufou Buck, mas Chase não estava lá para ouvir.

Atravessando a loja, parou a um metro e meio de uma moça de cabelos escuros parada diante de um espelho de corpo inteiro, dando-lhe as costas. Quando o seu olhar encontrou os olhos verdes no reflexo do espelho, Maggie se virou, fazendo pose como modelo. O estilo do vestido cor de ferrugem viva era velho demais para ela, mas permitia que Chase tivesse uma noção da mulher que ela seria daqui a alguns anos. Muitas reações ocorreram dentro dele; quente e perturbadora, a principal delas todas era um desejo de posse única. Chase examinou-a serenamente, sem demonstrar no rosto seus sentimentos; não se sentia à vontade com eles.

Que bom que você me viu vestida assim. A voz dela era baixa, mais baixa do que um sussurro, porém firme e franca. Queria que visse que eu poderia ser uma dama de verdade, algum dia.

A frase sacudiu-lhe a memória, fazendo com que se lembrasse da sua declaração de que um dia iria embora para subir na vida e tornar-se uma dama. Incomodava-o que ela falasse em partir. Sentiu um desejo cruel de esmagar a pose dela, sua certeza tranquila. O olhar dele varreu a moça e vestido.

Não vai conseguir falou, a secura farfalhando na voz. Ainda não vi uma só dama que andasse por aí de pés descalços.

Uma fúria de olhos verdes destroçou a imagem de serenidade, quando Maggie procurou à sua volta a primeira coisa em que pudesse deitar as mãos. Foi uma combinação de algodão dobrada que saiu voando na direção dele. Chase abaixou-se e se adiantou para segurar-lhe as mãos antes que pudessem achar um míssil mais mortífero para arremessar em cima dele. Maggie se debateu e ele riu baixinho, porque com esse tipo de dama sabia lidar. Puxou-a para si e forçou as mãos dela a se espalmarem contra seu peito.

Eu vou ser uma dama sibilou, e tentou libertar-se do seu aperto de aço.

Não importa. Indolente de satisfação, correu os olhos pelas feições animadas dela. Qual o homem que quer uma dama mansa e chata quando pode curtir a emoção de alguém que é toda mulher? Você não precisa mudar para me satisfazer.

A necessidade de impor-lhe sua vontade percorreu-o. Seu arrebatamento fê-lo tomá-la nos braços e puxá-la contra si. Silenciou o leve protesto da moça com o domínio do seu beijo forte. Ele durou apenas segundos. Interrompido por alguém que se aproximava, Chase soltou-a e se afastou, tentando controlar a turbulência de suas emoções.

Alo, Chase. A voz ligeiramente tímida de uma mocinha anunciou a intrusa.

Um reconhecimento indiferente registrou-se no rosto de Chase.

Alo, Dorie.

Ignorou o olhar timidamente coquete que ela lhe lançou, mentalmente considerando-a jovem demais para merecer outra coisa exceto uma atenção educada.

Posso ajudá-lo em alguma coisa? ofereceu a garota.

Não, obrigado.

O olhar dele já voltara para Maggie, chocando-se com o dela, quando subitamente se deu conta de que as duas garotas eram praticamente da mesma idade. Sua boca se retorceu, zombando de si mesmo enquanto o castanho duro dos seus olhos transformava-se em veludo num pedido mudo de desculpas a Maggie por sua atitude Um pouco da rigidez dela se suavizou numa aceitação igualmente muda do pedido de desculpas. Levou o dedo rapidamente à aba pontuda do chapéu para despedir-se das garotas antes de se virar para ir procurar Buck.

Puxa murmurou Dorie com inveja, enquanto o via afastar-se. Gostaria que Chase Calder olhasse para mim como olhou para você. Com um suspiro, voltou a olhar para Maggie e sorriu para mostrar que não havia ressentimentos. Encontrei uns grampos. Quer que eu ajeite seu cabelo?

Não. Desta feita, quando Maggie olhou no espelho, viu o que Chase tinha notado. Ela era moça demais para esse modelo de roupa e uma mudança no penteado não alteraria esse fato. Sentiu-se como uma adolescente apanhada usando batom e brincando de gente grande. Isso era o que o espelho lhe mostrava, a despeito da maturidade que sentia dentro de si. No entanto, o comentário de Chase não havia abalado a resolução de que um dia usaria um vestido desses... com sapatos de salto alto, jóias, e todos os acessórios que combinavam com ele. Ninguém ia dizer que não podia ser uma dama, especialmente um Calder. Inconscientemente, Maggie partilhava do ressentimento do pai quanto ao status, poder e prestígio dos Calders.

Depois de uma última olhada em si mesma no espelho, Maggie afastou-se dele.

É melhor eu ir vestir minhas roupas. Dirigiu-se para o vestiario nos fundos, e a colega de turma acompanhou-a, fitando-a com novo interesse.

Contaram-me que você tem visto Chase Calder muito, ultimamente comentou Dorie. É verdade?

Quem lhe contou?

Não me lembro. A garota deu de ombros, porque a fonte não parecia importante. Sabe como é aqui na loja; metade do pessoal vem só para fofocar. Tem-se encontrado com ele?

Algumas vezes admitiu Maggie, e sentiu-se elevada a uma nova posição de importância, por associação.

Como é que é... quando... ele faz com você? A garota gaguejou encabulada demais para falar às claras, mas bastante curiosa para ficar calada.

E Maggie percebeu qual o tipo de fofoca que estava circulando. Fechou os lábios numa linha reta, enquanto fitava a suposta amiga com uma firmeza que Dorie não podia igualar.

Quando ele faz o quê? desafiou Maggie. Depois acrescentou, sem rodeios. Quer dizer quando ele faz amor comigo?

Eu não estava tentando me meter, Maggie, juro.

O resultado final foi o mesmo, e magoou Maggie, fazendo-a perder a paciência.

Por que não vai pedir a Chase para lhe mostrar? Aí não precisará me perguntar como é. Pode descobrir por si mesma.

Eu não poderia! exclamou a outra, chocada.

Por que não? Ele é muito bom para deflorar virgens. Maggie fechou a porta do vestiário e começou a tremer. As lágrimas lhe ardiam nos olhos, mas ela piscou, resoluta, para afastá-las e despiu o vestido. Dorie tinha sumido da área de depósito dos fundos quando Maggie saiu, usando de novo sua blusa e jeans.

Webb chegou junto das bombas de gasolina e parou a camioneta Enquanto saltava, um adolescente saía do prédio.

Quer que encha o tanque, Sr. Calder?

Quero, e verifique o óleo.

Automaticamente, lançou um olhar aos veículos estacionados por perto. Ignorou a pick-up da fazenda, mas seu olhar se fixou na camioneta pertencente a O'Rourke, Ao vê-la, sentiu despertarem as perguntas desconfiadas que andava ruminando durante a última semana. Eram pouco mais do que palpites, mas Webb com frequência confiava nos seus instintos, que acabavam por ser corretos.

Caminhou até o veículo e rodeou, parando para cutucar a sujeira e o cascalho grudados nas reentrâncias dos pneus e arrancar os longos fios de grama presos nas rachaduras enferrujadas do pára-choque cromado. A grama era de tipo comum, embora crescesse em abundância nas terras da Fazenda Triplo C, especialmente por volta do Broken Butte. A estrada principal que passava pela trilha pouco usada daquele setor fora recentemente pavimentada com cascalho novo. Uma lasca de pedra pontiaguda estava enterrada na reentrância do pneu. Nenhuma das duas coisas era prova conclusiva de que O'Rourke estivera na vizinhança, no entanto ambas demonstravam que poderia ter estado. Webb voltou, pensativo, para seu carro, repassando essa informação na cabeça.

Às vezes eu me pergunto como é que Angus mantém aquela camioneta funcionando comentou o rapaz do posto de gasolina, com uma sacudidela da cabeça. O comentário revelava que tinha observado a inspeção detalhada que Webb fizera da pick-up. O óleo estava baixo, botei uma lata.

Ótimo. Meneou a cabeça, porém estava mais interessado no que mais o adolescente podia ter percebido. As pick-ups se desgastam nessa região, especialmente no tipo de terra que Angus tem.

- É, acho que sim. Ultimamente, a maioria da sua quilometragem tem sido feita indo e vindo para a cidade. Aposto que tem passado tanto tempo aqui quanto em casa. A mangueira da bomba desligou automaticamente e o rapaz mudou-a para manual para encher o tanque de gasolina até a borda.

É? perguntou Webb, como quem queria saber mais.

Se não está no café, está no Jake's tomando uma cerveja com o Tucker explicou o garoto. Não é de admirar que a fazenda dele esteja caindo aos pedaços.

Tucker. Webb lançou um olhar ao café. Um cartaz de "Fechado" estava pendurado na porta. Peneirou as informações que tinha do homem, ignorando sua reputação como cozinheiro. Há alguns anos tinha havido um envolvimento duvidoso na compra de artigos roubados, mas não houve provas de que Tucker sabia o que estava comprando. O sujeito mantinha as mãos limpas, porém Webb estava igualmente certo de que Tucker tinha contatos com sujeira nas mãos. Tucker poderia facilmente estar agindo como intermediário para O'Rourke, possivelmente até mesmo como sócio. Duvidava de que o O'Rourke estivesse nisso sozinho... se é que era ele que tinha roubado o gado.

Os coiotes eram ladrões covardes. Um coiote sozinho se esgueirava e ia embora, ao invés de defrontar-se com um oponente de força igual ou superior, mas com outros coiotes ganhava coragem e exibia uma astúcia inigualada por qualquer outro predador mais direto. Webb classificava Angus O'Rourke nessa categoria, um homem essencialmente fraco com lampejos de genialidade.

Webb estava convencido de estar sendo afligido por coiotes que atacavam à sombra da escuridão e depois sumiam na noite. Até mesmo dava um palpite para a justificativa covarde para o ato ilegal o caso entre Chase e a filha de O'Rourke. As 50 cabeças de gado que dera a O'Rourke não haviam satisfeito o homem, apenas aguçaram seu apetite. O gado roubado equivalia a pagamentos involuntários de chantagem. A ideia queimou Webb como ferro em brasa. Era uma posição intolerável, e ele reagiu adequadamente.

Com uma sacudidela da cabeça, dominou suas emoções. Até agora suas suspeitas não tinham redundado em nada, exceto uma teoria exequível, não importa o quanto seus instintos insistissem que era verdade.

Até mesmo ele não iria condenar um homem apenas por tal motivo. Se não pudesse provar sem sombra de dúvida perante a lei, provaria sem sombra de dúvida para si próprio. Nesses casos, havia meios de a justiça da terra ser feita, enquanto o ramo legal do governo usava sua venda.

Webb assinou o nome na nota, para ser debitada na conta da fazenda.

Obrigado, Sr. Calder disse o rapaz.

Um sorriso distraído apareceu e desapareceu do rosto de Webb, enquanto se afastava. Lembrou-se de que o garoto dissera que, se O'Rourke não estava no café, geralmente estava no Jake's tomando uma cerveja. Dirigiu-se para o bar. O interior tinha um sabor definido de um saloon à antiga, incluindo o bar de mogno entalhado à mão e o descanso para pés de latão. Atrás dele ficava o grande espelho em que se encostavam prateleiras de mogno entalhadas para garrafas de bebida e copos. Havia uma variedade de mesas redondas e cadeiras de espaldar reto descombinadas. Escarradeiras sujas estavam estrategicamente colocadas para aqueles que mascavam ou cheiravam rapé; uma abundância de serragem estava espalhada no chão de tábuas, para aqueles que erravam. Ao lado do bar havia uma escadaria que dava para os quartos do segundo andar, os degraus gastos por milhares de pisadas. A escadaria ficava convenientemente situada junto ao bar, para permitir que Jake visse quem subia e descia com as suas "sobrinhas". Além da sala de pôquer particular nos fundos, havia uma vitrola automática movida a moedas e uma mesa de sinuca.

Ao contrário dos antigos saloons, não tinha portas de vaivém... havia moscas demais no verão. As paredes eram pardacentas, a sua cor original há muito sumida sob as camadas de nicotina, fumaça, bebidas derramadas e sumo de tabaco, sem falar na boa e velha sujeira. Não havia papel de parede de brocado vermelho ou lambris de madeira. Não havia lustres nem apliques. As luzes eram poucas e esparsas, o que era bom, porque a penumbra escondia a sujeira. A maioria dos quadros na parede era constituída de gravuras baratas, não retratos de mulheres nuas e voluptuosas deitadas em camas roxas. Em vez de um ventilador girando devagarinho lá no teto, um ar-condicionado roncava no canto. Na verdade, o Jake's era provavelmente uma representação mais exata do verdadeiro saloon do Oeste do que aqueles que apareciam nos filmes de Hollywood.

Servia o seu propósito como um local de reunião para trocar fofocas e reclamar da vida, ou passar o tempo tomando umas e outras. Geralmente havia pouca gente lá dentro, a não ser que um bando de vaqueiros entrasse para fazer uma farra. Era então que Blue Moon ficava no auge da sua animação.

Webb parou dentro da porta de tela enquanto seus olhos se adaptavam da claridade da luz da tarde para a relativa penumbra do saloon. Sua aparição provocou uma pausa em todas as conversas, exceto por uma troca de sussurros rápidos à sua esquerda. Na sua visão lateral notou o trio sentado à mesa, e identificou o homenzarrão que ananicava os outros dois. Não havia outro homem na cidade tão grande ou tão sólido, ou que possuísse uma cabeça tão pequena para o tamanho do corpo. Sem dúvida que era Bob Tucker. Segundos depois que Webb entrou, Tucker levantou o corpanzil da cadeira e falou numa voz deliberadamente alta.

É melhor eu ir abrir o café, antes que o pessoal que quer jantar apareça. Até qualquer hora, Angus. Tudo muito despreocupado, muito natural.

O comentário permitiu a Webb olhar para a mesa. Deu um passo para longe da porta, mas continuou no caminho que levaria Tucker até ela. Trocaram cumprimentos de cabeça, ao invés de verbais, e Webb parou, forçando Tucker a fazer o mesmo.

Faz mais de um mês que você falou para o Chase que ia aparecer para comprar gado para abater. Estivémo-nos perguntando o que lhe acontecera. A leve curvatura da sua boca era desafiadora.

Angus me fez um bom preço no gado que comprou de você. Então ainda estou vendendo carne dos Calders no meu estabelecimento, por tabela replicou Tucker, sem sinal de constrangimento, depois deu de ombros. Acho que devia tê-lo avisado, mas não sou o que chamaria de um dos seus grandes compradores, portanto não achei que era importante.

Não é. A menção do nome de O'Rourke deu a Webb a abertura para desviar sua atenção para o homem baixo ainda sentado à mesa com o filho. Como vai indo aquele gado, Angus?

Bem, muito bem. A despeito do tom de voz despreocupado, O'Rourke o observava atentamente, como que tentando perceber outro significado na pergunta.

Tenho que ir andando. Tucker rodeou Webb. Venha tomar um café, qualquer hora dessas.

Vou, sim, Tucker prometeu Webb, com um olhar fixo para o homenzarrão. Percebeu que o olhar de Tucker dardejava para Angus.

Era uma coisa pequena, mas na cabeça de Webb formava uma ligação mais forte entre os dois homens do que um simples batepapo enquanto tomavam uma cerveja. O velho ditado "diz-me com quem andas que te direi quem és" parecia aplicar-se bem ali. Os ladrões geralmente buscavam a companhia um do outro para apoio moral. Não tentou ocultar a especulação muda no seu olhar, quando voltou a fitar O'Rourke.

Porque não se senta, Webb? Deixe-me pagar-lhe uma bebida. Angus transpirava uma confiança atrevida tanto no convite quanto no uso familiar do primeiro nome de Calder, quando geralmente se dirigia a ele com mais respeito. Webb dirigiu-se para a cadeira que Tucker deixara vaga, numa aceitação muda da oferta. O que vai tomar? Uísque? Cerveja?

Cerveja está ótimo. Webb sentou-se e fez um cumprimento de cabeça para o filho de O'Rourke.

Dolly? Angus fez um gesto para a loura que mascava chiclete encarapitada num banquinho na extremidade do bar. Traga uma cerveja para o Sr. Calder.

O nome Calder provocou uma resposta imediata da loura oxigenada. Deslizando do banquinho, abaixou-se atrás do bar para servir chope do barril. Enquanto o copo enchia, ela discretamente tirou o chiclete da boca e afofou o cabelo já muito fofo. Ao atravessar a sala com a cerveja, veio rebolando provocantemente, o que Webb observou com interesse passageiro. Há muito tempo ele se comprometera consigo mesmo a evitar as garotas do Jake e satisfazer suas necessidades ocasionais durante visitas a Miles City ou Helena. Às vezes era inconveniente, mas garantia que sua vida particular continuasse particular e não se tornasse objeto das conversas locais.

Teve mais problemas com aqueles ladrões de gado? perguntou Angus. Webb se perguntou se o homem era esperto ou simplesmente um tolo, por puxar o assunto.

Não nos últimos dias admitiu. Depois que botei os homens para patrulhar as estradas, parece que eles decidiram ficar na moita por alguns tempos.

Acha que ainda estão por aqui? Angus pareceu surpreso. O pessoal todo da cidade anda dando palpite de que os ladrões se mandaram da região, em busca de pasto mais verde e gado mais gordo.

Ainda estão por aqui. Webb sacudiu enfaticamente a cabeça e não desfitou os olhos do outro. Estou apostando.

Por que diz isso? falou Angus, recostando-se na cadeira.

Porque eles foram espertos demais, mostrando que conheciam intimamente essa região. Esses ladrões de gado não são de fora. São gente daqui. Com o canto dos olhos, Webb notou que o garoto se mexia na cadeira, mas Angus soltou uma risada incrédula.

Não está pensando mesmo que é alguém que todos conhecemos, não é? ironizou.

Estou convencido de que é.

E de quem suspeita? Angus ainda fingia que era uma pilhéria.

Nem uma vez Webb livrou-o do seu olhar fixo e inflexível.

Podia ser qualquer um, entre muitos, mas você sabe quem eu creio que é. A ênfase no pronome foi deliberada, para indicar O'Rourke sem lhe dar o nome.

Houve uma pausa significativa antes que Angus replicasse com um desafio.

Se tem tanta certeza de que sabe quem é, por que não tomou nenhuma providência? Está só arriscando um palpite. Não tem nenhuma prova. Se tivesse, Potter já teria um mandado de prisão pronto.

A lei é muito lenta, e não muito confiável. Mesmo que Potter tivesse provas o bastante para prender o sujeito, o ladrão pagaria fiança até o julgamento, que pode levar meses. Não há garantia de que seria condenado por um júri. E se fosse, é concebível que receberia livramento condicional depois de cumprir apenas uma curta sentença. O que o impediria de roubar mais gado enquanto está esperando o julgamento, ou depois de ter saído da prisão? Webb fitou Angus friamente. As coisas eram bem diferentes antigamente. Os ladrões eram enforcados na hora, e um ferro de marcar era toda a prova de que um fazendeiro precisava.

Achou um ferro de marcar? Por dentro, Angus estava-se contorcendo. O desafio era pura bravata.

Não, mas Slinr Bevins reconheceu uma voz quando surpreendeu os ladrões no Broken Butte. Webb viu Angus perder a cor e soube com certeza absoluta que ele era o ladrão de gado.

E daí?

Daí... que quero advertir claramente a esse homem. Se mais uma cabeça de gado dos Calders for roubada, irei atrás dele pessoalmente. Foi uma declaração tranquila, mas ameaçadora no seu tom monótono.

Por que está-me dizendo iSsO? Angus sentou-se mais ereto na cadeira. Você está só blefando, Calder.

Só o que o homem tem a fazer é pagar para ver. Webb afastou a cadeira da mesa e se levantou, largando sobre a mesa uma nota para pagar a cerveja na qual nem tocara.

 

Quando saiu do saloon de Jake, Webb voltou para o armazémposto de gasolina. A camionete ainda estava estacionada junto das bombas de gasolina, mas ele passou por ela e entrou na loja. Por trás do balcão onde ficava a registradora havia uma janela lateral que lhe dava uma vista tanto da frente do saloon quanto do café. Webb comprou um pacote de chiclete e bateu papo com Helen Kirby, a mulher gorducha do dono, enquanto disfarçadamente vigiava os dois prédios.

Viu Chase e Buck entrarem na pick-up e se afastar na direção da fazenda, mas foi só cinco minutos mais tarde que Angus O'Rourke e o filho saíram do saloon e se dirigiram diretamente para o café. Webb não acreditou por um minuto que O'Rourke ia atrás de café ou comida, mas sim da coragem da matilha. Tucker estava envolvido, sem dúvida.

Satisfeito com a confirmação que tivera, Webb saiu da loja. Na saída encontrou a filha de O'Rourke que se vinha aproximando da porta. Notou que ela ergueu a cabeça subitamente quando o viu, e um ar de desafio cauteloso fez com que o fitasse nos olhos. Não era apenas uma garota excepcionalmente atraente, era também cheia de garra e vivacidade. Sentiu uma pontada de pena por ela ter um pai tão indigno. Era desastroso que teria que sofrer por causa do pai.

Uma cortesia tradicional insistiu para que segurasse a porta para esse jovem membro do sexo oposto, enquanto um sentimento de responsabilidade masculina fez com que falasse.

Srta. O'Rourke. As circunstâncias faziam com que fosse formal.

Sim? Ela parou, rígida e na defensiva, mas não intimidada.

Diga a seu pai que nunca advirto um homem duas vezes falou. Quero que ele compreenda isso... para o seu bem e o do seu irmão.

Houve um lampejo momentâneo de ansiedade nos olhos dela antes que o ocultasse com um rápido fechar de pálpebras. Quando as abriu, estava novamente fria e serena.

Direi a ele o que falou, embora esteja certa de que não vai fazer mais sentido para ele do que faz para mim replicou, e Webb teve que admirar sua calma, incomum numa pessoa tão jovem.

Estou certo de que ele entenderá. Levou os dedos ao chapéu, enquanto ela passava tranquilamente por ele para entrar na loja. Webb fechou a porta atrás da jovem e se dirigiu para a camionete.

Buck entrou na Casa Grande todo elegante numa camisa de cowboy branca com botões de pérolas e gravata de laço. O novo Stetson de palha estava encimando os cabelos crespos, e as faces lisas exalavam a fragrância forte de uma loção pós-barba. Tinha um ar de impaciência ansiosa enquanto olhava em derredor pela sala de visitas. As portas duplas da sala de jantar estavam abertas. Quando escutou um som vindo de lá, Buck moveu-se em passadas animadas naquela direção, e enfiou a cabeça pela porta.

Webb estava sentado à cabeceira da grande mesa de nogueira, fumando um charuto, uma xícara de café na sua frente. A mulher loura que tirava a louça do jantar da mesa ergueu os olhos e parou quando viu o filho, um sorriso vindo-lhe à boca. O olhar dele foi da mãe para Webb Calder e voltou de novo para a mãe. Mais de uma vez suspeitava que entre eles havia mais do que simples amizade. Se seu pai estivesse morto, Buck suspeitava de que a mãe poderia casar-se com Webb Calder. Às vezes não conseguia resistir e fantasiava sobre seu papel como enteado de Webb Calder, e a importância aumentada do seu lugar na fazenda, uma parte da hierarquia. Imaginava possuir tudo isso, algum dia.

Quer alguma coisa, Buck?

O rapaz sacudiu a cabeça, sorrindo rapidamente.

Só estou procurando pelo Chase.

Ele subiu para se arrumar replicou Ruth Haskell.

O sujeito é vagaroso queixou-se Buck, com um amplo sorriso. Vou fazer com que se apresse. Não espere por mim, mamãe. Talvez a gente só volte de manhã. A diabrura dançava nos seus olhos enquanto o rapaz saía da porta da sala de jantar e se dirigia para as escadas, conhecendo bem o caminho para o quarto de Chase.

O olhar sorridente que Webb lançou a Ruth era inconscientemente suave.

Quantas noites esperamos acordados pelos nossos rapazes, hem, Ruth? Bateu a cinza do charuto num cinzeiro de cristal.

Nem fale concordou ela, olhando para o vão da porta. Imagino que vamos ficar acordados outras tantas noites, mesmo que digam que não devemos.

Deixe a louça por um minuto e venha tomar um café comigo sugeriu Webb, impulsivamente.

Ela hesitou, depois sacudiu a cabeça, negativamente, sem olhar para ele.

Vig está esperando por mim em casa. Seu débil sorriso exibia um lampejo de pesar. É melhor eu não ficar remanchando com a louça.

Não, claro que não. A aspereza da resposta de Webb continha compreensão e uma vaga irritação consigo mesmo por ter feito a sugestão. Levantou-se da cadeira. Vou terminar o meu café no escritório. Tenho uns papéis para examinar.

Enquanto cruzava o saguão que separava a sala de jantar e o escritório, Chase e Buck vinham descendo as escadas para a sala de visitas. Olhou para o filho, ciente de que esta era a época da vida de Chase para ser doidivanas e farrear com os rapazes. Muito em breve esses dias teriam passado e ele estaria assumindo o papel de um homem na administração da fazenda.

Comportem-se, rapazes advertiu Webb, usando o plural mas olhando para o filho.

Sim, senhor. Buck fez-lhe uma continência simulada enquanto Chase acenava com a cabeça. Não se preocupe com Chase. Cuidarei dele como se fosse meu irmãozinho.

Se estiver cuidando de mim, quem estará evitando que se meta em encrenca? zombou Chase.

Que diabo, eu sou a própria encrenca! vangloriou-se Buck com uma risada, enquanto abria a porta da frente e fazia sinal a Chase para dirigir-se antes dele para a pick-up estacionada na frente.

Quem vai dirigir? quis saber Chase.

Eu, já que talvez não esteja sóbrio o bastante para voltar dirigindo declarou Buck, e saltou para trás do volante. Então, o problema passa a ser seu. Eu levo a gente e você se encarrega de nos trazer para casa.

Tudo bem. Geralmente era assim mesmo.

Cara, que bom que não pegamos serviço de patrulha hoje.

Buck ligou o motor e acelerou-o ruidosamente antes de engrenar a marcha, fazendo girar os pneus. Pensei que ia ser excitante patrulhar armado aquelas estradas à noite, mas é chato como o diabo! Vou ficar contente quando o Velho acabar com isso. Aqueles ladrões provavelmente já estão no Estado vizinho, a esta altura.

Podem estar admitiu Chase.

Já havia uma dúzia de vaqueiros da Triplo C, assim como outros fregueses locais, no Jake's, quando eles chegaram. Um jogo de pôquer estava em andamento na sala dos fundos. Chase pegou uma cerveja e foi espiar, e acabou participando de algumas rodadas, mas não conseguia concentrar-se nas cartas, e a sorte estava contra ele, sendo assim voltou de novo para o salão principal.

Em meio à névoa de fumaça existente enxergou Buck sentado a uma das mesas com o braço envolvendo o pescoço de uma "sobrinha" sensual de cabelos castanhos, chamada JoBeth. Buck sorria, cheirando-a e sussurrando coisas no ouvido da mulher enquanto enfiava a mão pelo decote fundo para acariciar um seio farto.

Ciente de que seu amigo não iria apreciar sua companhia a esta altura, Chase foi espiar dois vaqueiros da Triplo C que jogavam sinuca. Colocou algumas moedas na vitrola automática e apertou uma seleção de discos que aumentaram ainda mais a baruIheira do recinto. Dolly veio passando com uma bandeja de bebidas e Chase pagou mais uma.

Já tinha tomado a metade quando notou Buck andando para a extremidade do bar mais próxima da escadaria, a garota morena apertando-se toda contra ele, os lábios cor de escarlate virados para cima o tempo todo. Buck gritou chamando Jake e bateu com a mão espalmada no balcão para atrair a atenção do homem. Jake era um homem magro de ossos grandes com cabelos ralos que formavam tufos dos lados.

Precisamos da chave do quarto de cima exigiu Buck. Houve uma troca de uma nota dobrada pela chave.

Não demore demais. Estamos com muito movimento hoje.

Informou Jake à sua "sobrinha".

Buck riu e deu um apertão na garota.

O tempo que for preciso, Jake. Só o tempo que for preciso. E então os dois estavam subindo as escadas que levavam ao

segundo andar.

Chase ficou observando enquanto eles subiam, e engoliu o resto da cerveja. Correu o olhar devagar pelo bar sujo e enfumaçado, tomando nota da risada e das vozes divertidas. Havia algo errado com ele. Cá estava ele, no meio de um bar e de um bordel e estava entediado.

A cerveja estava com gosto de choca, então ele foi até o bar para que lhe servissem outra direto do barril. Clay Vargas, um vaqueiro que viera do Colorado para trabalhar na Triplo C, estava parado no bar, falando com dois outros empregados não nativos da fazenda. Deram lugar a Chase para se juntar a eles. Era um convite mudo feito devido à sua posição como herdeiro, um gesto de respeito que Chase aceitou pelo mesmo motivo.

Enganchando o salto da bota no descanso para pés de latão, pediu uma cerveja e ficou escutando o trio tentando suplantar um ao outro contando histórias fantásticas de antigos empregos. Jake botou o copo na frente de Chase e pegou seu dinheiro, tudo no mesmo movimento. Embora Chase achasse graça nos momentos certos, seu humor não melhorou nem com a cerveja nem com a companhia dos loroteiros.

Albert era o vaqueiro com dois dentes da frente quebrados, resultado do coice de um cavalo na boca, há um ano. Baixou a cabeça e sussurrou para Clay Vargas.

Está vendo como a Dolly está-me dando bola?

A você? Porra, está olhando é para o Chase! disse Clay, rindo.

Albert olhou de novo e admitiu que podia estar errado.

Quem dera ela me olhasse daquele jeito.

Chase olhou à sua volta enquanto a loura oxigenada o fitava devagar da cabeça aos pés, e depois deu-lhe as costas, indiferente ao óbvio convite.

Olhará... por um preço.

É, mas você está ganhando o olhar de graça protestou o rapaz. Não vai topar?

Não estou interessado. Ergueu o copo para tomar um gole da cerveja.

Chase tem a sua Lolita que lhe dá o quanto ele pode aguentar falou Clay Vargas, com voz arrastada. Hoje deve ser a noite de descanso dele. O que aconteceu, Chase? Papai não a deixou sair esta noite? disse Clay, dando-lhe uma palmada no ombro e rindo.

Num único movimento, Chase pousou o copo no balcão, virou-se para derrubar a mão do homem do seu ombro e enfiou o punho cerrado na barriga relaxada do sujeito. O ar foi expelido bruscamente dos pulmões de Vargas, dobrando-o em dois e dando à sua fisionomia um ar de choque espantado. O sangue cantava nas suas veias. O contato impetuoso e violento era justo o que Chase estava precisando. Sentiu-se bem pela primeira vez em toda a noite. Quando já ia acabar com Vargas com um direto no queixo, o vaqueiro do outro lado agarrou-lhe o cotovelo.

Ei! Que diabo está fazendo?!!

Chase não tentou livrar-se do contato. Em vez disso, enfiou o cotovelo para trás no estômago do sujeito, depois girou para plantar os pés no chão e socar o próximo companheiro de Vargas que vinha em seu auxílio. Seu primeiro soco foi bloqueado; depois, alguém agarrou-lhe os braços. Um punho cerrado explodiu de encontro à sua boca antes que Chase pudesse afastar o homem que o segurava. Sentiu o gosto de sangue na boca e sacudiu a cabeça para parar com o zunido nos ouvidos, virando-se bem a tempo de ver Vargas vindo para cima dele.

Desviou-se do primeiro soco, mas o segundo pegou-lhe no ombro. E então os dois estavam engalfinhados, arfando e retorcendo-se, grunhindo como dois animais enquanto se esmurravam e tentavam enfiar o dedo no olho um do outro, antes de se separar. Vargas atingiu-o acima do olho com um golpe desajeitado, mas Chase acertou três socos fortes e rápidos no corpo do adversário e atingiu-lhe a ponta do queixo com um direto. Vargas veio para cima dele dando socos a torto e a direito, um deles passando de raspão no malar de Chase, mas este se aproximou, ao invés de fugir do ataque, e enterrou um forte direito na barriga do homem. Um esquerdo, ligeiro, seguido de uma finta com a esquerda que fez Vargas levantar o braço para bloqueá-la, e Chase entrou por baixo com um forte murro de esquerda no peito. Vargas acertoulhe um golpe desordenado, mas Chase atingiu-o com outro esquerdo e derrubou-o ao chão com um belo direito.

O instinto assassino era forte. Chase agarrou Vargas pelo colarinho para levantá-lo do chão, mas um par de braços o rodeou para arrancá-lo dali. Chase deu meia-volta e entrou em cima do novo atacante, erguendo os braços bem alto para soltar-se e socando o sujeito para trás, antes mesmo de ver quem era. Os dois lutadores estavam rodeados por um círculo de vaqueiros, um deles segurando um Buck desequilibrado.

Que merda, Chase! xingou ele. Por que me acertou, porra? Esfregou o maxilar, mexendo-o para ver se funcionava. Quase que me quebra o queixo! Chase voltou a olhar para o sujeito no chão. Vargas está apagadão. Estava tentando impedi-lo de massacrá-lo.

Desculpe. A respiração de Chase estava entrecortada, pesada e dolorosa. Oscilou de leve, o corpo entorpecido pela luta, começando a sentir os golpes que recebera. Virou-se para os dois vaqueiros amigos de Vargas. Digam a ele... quando voltar a si... para tomar cuidado com os comentários que faz sobre as pessoas.

Moveu-se para o bar, aos solavancos. Alguma coisa escorreu para dentro do seu olho. Enxugou-a, pensando que era suor, mas viu sangue na mão, do corte acima do olho. O lábio também estava aberto. Ardeu quando tomou um gole do uísque que Jake enfiou na sua mão. Fez uma careta e apertou o corte com as costas da mão.

É melhor lavar esses cortes. Dolly estava a seu lado, apertando uma toalha contra o corte acima do olho. Não quer deixar que eu faça isso?

Chase submeteu-se aos cuidados da mulher sem protestar, porém totalmente indiferente. Era estranho como a dor física o fazia sentir-se bem. A tensão que o acometia há dias tinha sumido.

Olhando no espelho atrás do bar, viu seu próprio reflexo machucado e Buck ajudando os dois outros vaqueiros da Triplo C a botar Vargas de pé, arrastando-o até uma mesa de canto. Depois, Dolly virou sua cabeça para enxugar-lhe a boca com a toalha, e alguém apareceu para devolver-lhe o chapéu.

Quem começou a briga? perguntou Buck, enquanto jogava um braço frouxo de Clay sobre o ombro, e Albert fazia o mesmo com o outro braço. Juntos, eles o carregaram para a cadeira junto à mesa vazia.

Num minuto nós estávamos falando da Dolly. Então, Clay falou qualquer coisa sobre Chase ter uma namorada chamada Lolita. No minuto seguinte, começou a pancadaria disse Albert, ajudando a firmar o homem inconsciente na cadeira.

Algo caiu ao chão, e Buck se agachou para apanhar.

O chapéu do Clay está lá no chão. Não quer pegá-lo antes que alguém pise nele, Albert? sugeriu.

O terceiro vaqueiro já tinha ido molhar uma toalha para lavar o rosto ensanguentado. Não havia ninguém por perto para ver a carteira de couro ou as notas que tinham caído de dentro dela. Buck hesitou, depois apanhou as duas coisas, enfiando o dinheiro no próprio bolso e a carteira no bolso da calça de Clay.

Não é direito tentar um homem carregando o pagamento de um mês na carteira, Clay Buck ralhou com o homem inconsciente, num murmúrio muito baixo.

Albert voltou com o chapéu e olhou ansioso para o amigo.

Acha que ele está tão ferido que precise de um médico?

Sei lá. Buck esbofeteou as faces do sujeito umas duas vezes e Vargas se mexeu, levantando as mãos pesadamente. Buck se afastou. Ele vai ficar bom. Provavelmente até vai parecer humano, depois que vocês limparem todo esse sangue.

Saindo do caminho para que o vaqueiro que voltava pudesse fazer exatamente isso, Buck demorou-se mais um minuto, depois se dirigiu para o bar, onde Chase estava encostado. As notas formavam um bolo duro no seu bolso, mas racionalizou que Vargas era um sujeito sem eira nem beira, não era sua gente, criada na fazenda dos Calders. Além disso, era um fato comprovado que um tolo e o seu dinheiro logo se separavam. Vargas era obviamente um tolo, caso contrário não teria enfrentado um Calder. O Velho ensinara tanto a Buck quanto a Chase todo truque sujo que podia haver numa briga. Buck chegou por trás de Chase e enterrou os dedos no músculo do ombro do amigo.

Que diabo de ideia foi essa de começar uma briga enquanto estou ocupado com outra coisa? acusou. Assim um cara perde o melhor da festa.

Chase tirou a toalha da mão da loura, fazendo sinal de que não precisava mais da ajuda dela.

Vou tentar me lembrar, da próxima vez. A boca ferida mexia-se com dificuldade, enquanto falava.

O que aconteceu? Buck olhou para o amigo, já sabendo a resposta.

Chase deu de ombros, com displicência.

Sabe como é. Alguém diz alguma coisa que por acaso o incomoda... e pronto.

Às vezes é só uma palavra concordou Buck, e fez uma pausa deliberada. Como Lolita. Chase lançou-lhe um olhar duro. Buck abriu um sorriso. Não vai demorar e o pessoal vai perceber como você é sensível a respeito dela. Alguém pode usar isso contra você, se não tiver cuidado.

Chase inspirou funda e lentamente e se deu conta de que Buck tinha razão. Precisava aprender a controlar isso. Olhando no espelho, Chase viu Vargas apoiando-se na mesa e segurando a testa.

Jake. Afastou-se do apoio do balcão. Dê-me uma garrafa de bom uísque e dois copos.

No instante em que começou a se dirigir para a mesa onde Clay Vargas estava sentado, fez-se um súbito silêncio na sala. Albert cutucou Vargas nas costelas para avisá-lo da chegada de Chase. O vaqueiro ergueu os olhos, machucado e desconfiado. Chase parou diante da mesa e botou os copos vazios no tampo.

Gostaria de lhe oferecer um drinque, Clay falou, e desarrolhou a garrafa de uísque, esperando uma resposta.

Você me bateu. Porra! Você me espancou retrucou o vaqueiro, mas o ressentimento deu lugar a uma derrota honesta. Acho que talvez eu merecesse, por causa da piadinha que fiz sobre sua garota.

Sem ressentimentos assegurou Chase, e encheu os copos com uísque, empurrando o primeiro na direção do outro homem. Tomaram mais outro drinque e conversaram antes de Chase voltar para o bar.

Só dali a mais uma hora é que Chase e Buck deixaram o saloon para voltar para a fazenda. Passava bastante da meia-noite. Buck foi dirigindo.

Pensei que você não ia estar sóbrio o bastante para ir guiando para casa lembrou Chase.

Mudei de ideia. Buck deu de ombros e mudou de assunto. Da próxima vez que viermos, você precisa reservar um tempinho com a JoBeth. Ela é a coisinha mais sexy... e doidona! Uau! A sacaninha encheu a minha cueca de batom escarlate antes que eu pudesse tirá-la. Já pensou na cara da mamãe quando achá-la na cesta de roupa suja? Riu e sacudiu a cabeça. Estou-lhe dizendo, Chase, aquela JoBeth é um barato!

Chase emitiu um murmúrio de concordância e fitou pela janela o céu negro da meia-noite. Era uma morena diferente que lhe ocupava os pensamentos.

A louça do jantar estava lavada, enxugada e guardada no armário, mas Maggie ainda estava na cozinha, só, fitando o calendário junto da porta dos fundos. Contou e contou de novo, sem conseguir acreditar que estava atrasada. Não podia estar grávida. Simplesmente não podia estar.

O que iria fazer? Deu as costas ao calendário, lutando contra as ondas de pânico que a assaltavam. Forçando-se a pensar calma e racionalmente, disse a si mesmo que o fato de estar três semanas atrasada não significava necessariamente que estivesse grávida. Havia outros fatores que podiam ter afetado seu ciclo.

Iria ver o Dr. Barlow na quinta-feira, para descobrir ao certo. Até lá, era ridículo preocupar-se e ficar nervosa. Afinal de contas, Chase lhe assegurara que tomava cuidado. Mas, e se estivesse grávida, uma parte assustada da sua mente lhe perguntava. E então? O que faria? O que Chase diria, quando ela lhe contasse?

Uma porta bateu; Maggie deu meia-volta. Havia três pares de passos diferentes se aproximando da cozinha. Dois eram obviamente do pai e do irmão, e ela se deu conta de que o terceiro era de Bob Tucker, quando o ouviu falar.

aconteceu faz três noites, na sexta-feira.

Como começou? perguntou o pai.

Jake escutou que falavam sobre a Dolly, então, de repente, estavam brigando. Os três entraram na cozinha, quando Tucker terminou sua resposta. Ele tirou o chapéu quando viu Maggie, sorrindo com sua boca pequena. Alo, Maggie. Como está passando?

Tucker era sempre educado para com ela, respeitoso e carinhoso. Nunca havia piedade nos seus olhos, apenas uma aprovação muda. Embora sua forma desproporcionada fosse um tanto grotesca, o corpo grande e a cabeça pequena, ela gostava dele assim mesmo. Quando dizia alguma coisa, Maggie sentia que podia acreditar nele.

Estou bem. Não esperava vê-lo por aqui durante um bom tempo. Pensara que eles tinham resolvido ficar longe um do outro depois que Calder os vira juntos. Iam deixar as coisas esfriarem um pouco, pelo menos fora o que o pai dissera. Lançou um olhar ao pai. Calder já está desconfiado de você lembrou a garota, e notou a maneira como o pai evitou o olhar dela.

Faça um pouco de café, Maggie disse O'Rourke, ao invés de responder a seu comentário. Tucker e eu temos umas coisas a discutir.

Mas ela não estava disposta a ser enganada.

Que coisas? perguntou, com um arrepio correndo pela espinha.

Calder está absolutamente certo de que nos assustou com suas patrulhas. Achamos que está na hora de atacar de novo admitiu o pai, andando com ar atrevido até a mesa. Ele pode estar desconfiado até dizer chega, mas não pode provar nada. Se pudesse, já teria dado em cima da gente. Tucker e eu resolvemos pagar para ver.

Mas as patrulhas! Maggie tentou pensar em alguma coisa para fazê-los mudar de ideia.

Depois de todo esse tempo, não estarão tão alertas quanto estavam no começo assegurou Tucker. Já estarão chateadas com a rotina. Não se preocupe.

Quando?

É o que vamos resolver agora. Ande, menina, vá fazer o café como mandei falou o pai.

Duas noites mais tarde, Webb Calder estava dormindo na sua cama de madeira pesada quando o alarme contra incêndios soou lá fora. O sinal deixou-o inteiramente desperto, instantaneamente. Afastando as cobertas, enfiou a calça enquanto se levantava da cama. Pela janela, pôde ver o débil brilho alaranjado de um foguete sinalizador.

Fitou-o por um longo minuto, de pé, com a calça vestida, mas ainda por abotoar. Sacudiu a cabeça com pesar, mas sem incerteza. Havia assumido sua posição, feito sua declaração; agora, tinha que ir até o fim.

Maldito seja, Angus falou, soltando um fundo suspiro, depois estendeu a mão para a camisa.

O Sol lá em cima estava muito quente. Webb enxugou o suor do lábio superior com um lenço, depois esfregou o pano pelo pescoço.

Quantos, Nate? A voz era dura, tão inflexível quanto os olhos de granito.

O avião está dando uma última volta para ver se deixamos escapar algum. No momento, parece que foram vinte e oito.

É o Angus O'Rourke afirmou Webb, e seu capataz não pareceu surpreso.

O que vamos fazer? Nate tomava por certo que iam fazer alguma coisa. Estava apenas esperando as ordens para cumpri-las.

Avisei-lhe que iria atrás dele, pessoalmente, se houvesse mais algum gado roubado. Até esta altura, Webb não tinha tirado os olhos do rebanho que estava sendo contado. Quero que você, Chase e mais três outros homens me encontrem no prado norte às dez horas da manhã de amanhã. De lá, iremos para a fazenda de O'Rourke. Agora, voltou a olhar para fitar fixamente o rosto do capataz. Vamos levar uma corda, portanto leve isso em consideração quando escolher os três homens.

Estaremos lá às dez. Nate esmagou um cigarro sob a bota, com naturalidade, e depois se afastou lentamente.

Parte das instruções tinha sido entendida sem ter sido explícita. Os três homens seriam gente de Calder, nascidos na fazenda, em vez de homens de passagem que seguiriam o seu caminho depois, e falariam. Receberiam as suas ordens em particular... ordens que jamais seriam mencionadas de novo, nem mesmo nos seus quartos de dormir. Todos sairiam dos seus respectivos locais na fazenda separadamente, sem dizer a ninguém aonde iam. Tudo isso por conta da natureza da missão.

 

Os seis homens se encontraram em silêncio e cavalgaram em silêncio, os rostos sombrios e resolutos. Na cerca limítrofe com a Fazenda Sharmrock, Chase tirou a pedra que calçava o poste no lugar, derrubando a cerca para os cavaleiros. A explicação particular que o pai lhe dera para a missão fora breve... uma simples declaração de que O'Rourke era o ladrão de gado e que lhe iam fazer uma visita.

Chase se perguntava por que não ficara mais surpreso com a afirmação da culpa de O'Rourke. Talvez porque o homem sempre fora um fraco, um preguiçoso. Embora O'Rourke fosse o pai de Maggie, ele não os ligava, na sua cabeça. Eram duas pessoas separadas, inteiramente diferentes tanto em caráter quanto em valores.

Dera uma olhada nos cavaleiros escolhidos a dedo e adivinhara que o seu papel era o de observar e aprender. O pai não confiara nele nem o consultara com relação à sua decisão e seus planos. Isso viria mais tarde... depois do fato consumado, com uma análise passo a passo de tudo que acontecera.

Havia certas coisas que a sua experiência limitada podia concluir dessa demonstração de força. Eram todos homens caladões, leais à marca. Nada do que acontecesse hoje passaria dessas seis pessoas. Era igualmente óbvio que Angus O'Rourke ia receber uma lição da qual não se esqueceria tão cedo. Chase não sabia qual seria, mas ocorreu-lhe que havia um motivo que seu pai não lhe havia contado.

Subiram a encosta acima da cerca a meio galope, passando para um trote entre as árvores dispersas onde o terreno era irregular. Chase cavalgava ao lado direito do pai; ali era o seu lugar. A rota deles era uma linha direta para a casa da Fazenda Sharmrock.

Maggie inclinou rapidamente a cabeça para desviar-se de um galho baixo, enquanto cavalgava com o irmão por entre as árvores. Estavam-se dirigindo para casa a fim de almoçar, com um desvio para verificar um bloco de sal. À frente dela, Culley freou abruptamente o cavalo.

O que f...

Ele calou a pergunta da irmã com um dedo à boca e a cara fechada. Então ela ouviu o ranger de couro de sela e o ruído abafado dos cascos de vários cavalos. Olhou para além dele, sua visão parcialmente obscurecida pelo bosque em que estavam. Teve uma visão rápida do grande cavalo amarelo que Webb Calder sempre cavalgava. Um medo frio e agudo fez seu coração disparar violentamente. Lançou um olhar ao Culley, que mal movera um músculo desde aquele primeiro sinal pedindo silêncio. Os cavalos estavam a mais de 100 metros de distância, dirigindo-se para a casa, mas Culley esperou até que tivessem sumido de vista.

Temos que avisar papai sussurrou Maggie. Ele está lá sozinho.

Eu sei falou Culley, com impaciência, e esporeou seu cavalo para longe da proteção das árvores. Siga-me.

Metendo com força as esporas, puseram os cavalos a galope. Cavalgaram num amplo círculo para evitar que os Calders os vissem e para chegar perto da casa da fazenda pelo lado do celeiro, onde havia mais proteção. Mas o caminho também era mais longo, e perderam um tempo precioso. Os Calders estavam entrando no pátio da fazenda, quando Maggie e Culley chegaram à cerca que ficava atrás do curral.

Chegamos tarde demais percebeu Maggie, quando viu os cavaleiros se espalhando em leque para bloquear o caminho do pai até a casa prendendo-o na área descampada na frente do celeiro em ruína. Seus olhos arregalados notaram os fuzis sobre as selas. Olhou para Culley. O que vão fazer com ele?

Não sei. O rapaz desmontou e amarrou as rédeas do seu cavalo à grade do curral. Maggie fez o mesmo, seguindo-o enquanto Culley se agachava para chegar mais perto.

Eu lhe avisei, Angus. Webb montava seu cavalo no meio dos cavaleiros que se abriam em leque de cada lado dele. Devia ter-me acreditado.

Avisou-me do quê? Do gado que lhe roubaram? falou O'Rourke, com bazófia, mas seu rosto estava branco. Não tem nenhuma prova de que tive alguma coisa a ver com isso.

Já lhe disse antes, Angus, que não me importo com o tipo de prova de que você está falando. Sabe que andou roubando meu gado. E eu também sei. A um sinal de Webb um cavaleiro de bigode desmontou e se dirigiu para O'Rourke com um pedaço de fio na mão. Devia ter parado quando lhe dei a chance, Angus.

Que chance? O'Rourke lançou um olhar ansioso ao homem que se aproximava dele, mas não correu. Os pés estavam como que presos ao chão. Qual a chance que um cara como eu tem contra uma fazenda grande como a sua? Você compra suprimentos mais barato do que eu posso comprar. Não há mercado para o meu gado, porque está entupido com o seu. Fica com o melhor pasto e a melhor água e fica olhando o resto de nós tentar sobreviver a duras penas com o que sobrou.

Seus braços foram puxados para trás e O'Rourke cambaleou um passo, mas não resistiu. Com duas voltas do fio seus pulsos foram unidos e amarrados, e o vaqueiro deu um passo atrás para se postar às suas costas. Nate tirou seu cavalo do semicírculo e se dirigiu para as portas abertas do misto de celeiro e estábulo.

Você pensa que é uma porra de um rei por aqui. O ódio dava a O'Rourke a força para desafiar Calder, embora estivesse tremendo de medo por dentro. Acha que pode cavalgar pela região e nós camponeses temos que nos curvar e humilhar e fazer tudo para agradá-lo, mesmo que isso signifique que você ou os seus queiram foder as nossas filhas. O olhar dele se dirigiu para Chase com veneno puro. Devemos aceitar isso e ficar agradecidos pelas gorjetas que nos dá.

O garanhão amarelado moveu-se inquieto sob Webb e escarvou o chão impacientemente, sensível à atmosfera explosiva, mas Webb sentava-se calmamente na sela, escutando o discurso vingativo. Um homem tinha o direito de falar o que queria, antes de morrer.

Roubei seu gado, Calder, e estou contente de tê-lo feito! O'Rourke jogou a cabeça para trás e enfrentou Webb com a verdade. Estava na hora de alguém começar a tirar de você, como você tem tirado de nós todos esses anos. Está entalado na sua garganta, não está? Então o homem grande e corajoso vem aqui com cinco dos seus empregados para ensinar uma lição ao homenzinho. O que vai fazer comigo? interpelou-o. Mandar que eles me dêem uma surra? Que me espanquem? Isso não vai-me deter. Vou tirar cada cabeça de gado que você tem e destruí-lo. Você vai ser um nada, como o resto de nós, antes que eu termine.

Você acaba de enfiar o pescoço num laço, Angus declarou Webb.

Junto do celeiro, Nate desmontou, carregando uma corda enrolada na mão. O'Rourke só prestava atenção a Webb, mas Chase

viu o capataz entrar no celeiro. As portas largas das duas extremidades estavam abertas, deixando apenas o meio do corredor do celeiro nas sombras. Nate parou no meio e jogou uma extremidade da corda sobre uma viga grossa. Um nó corrediço branco ficou pendurado no ar, amarrado de forma a fazer um laço de carrasco. Chase lançou ao pai um olhar indagador, enquanto seu cavalo se movia debaixo dele, reagindo à pressão que aplicara inconscientemente no freio. Não havia nada no rosto de Webb Calder para revelar suas intenções. Apenas uma dureza ininterrupta que cobria olhos, boca e maxilar.

Sem se dar conta de que o comentário de Calder era mais do que uma simples força de expressão, O'Rourke reagiu a ele.

Por quê? Essa confissão não lhe vai adiantar de nada. Simplesmente negarei que a fiz, e será sua palavra contra a minha. Não importa quantas testemunhas tenha. Todos sabem que são seus homens e dirão o que você mandar que digam. Roubei seu gado, mas você jamais o provará.

Já lhe disse antes, Angus, tinha toda a prova de que precisava. Fez um gesto de cabeça para o homem atrás de O'Rourke.

O vaqueiro de bigode se adiantou para segurar O'Rourke pelos ombros e voltá-lo na direção do celeiro. O'Rourke demonstrou resistência e desprezo, retorcendo os ombros e se soltando enquanto se virava. O vaqueiro agarrou-lhe firmemente as mãos amarradas e fez com que andasse.

Quando Angus viu o laço à sua espera, tropeçou e lançou um olhar de pânico por cima do ombro. O medo saía dele como se fosse uma coisa viva, mas aquilo não causou impressão em Webb Calder. O vaqueiro continuou a empurrá-lo para adiante e Angus olhou de novo para a frente, hipnotizado pelo laço que oscilava ao sabor da brisa leve. Nate tinha pegado um caixote de madeira e o colocara de pé diretamente sob a corda. Os cavaleiros seguiram o exemplo de Webb e se agruparam junto à porta do celeiro.

Agachados no meio de um grupo de amieiros novos que crescia ao longo do açude do curral, Maggie e Culley tinham uma visão clara de tudo o que estava acontecendo através da extremidade oposta do celeiro. Era uma cena de pesadelo que se desenrolava diante dos seus olhos, enquanto cada um esperava que o outro acordasse. A realidade daquilo tudo finalmente tirou Maggie do seu transe incrédulo, e ela começou a se mover para ir em ajuda do pai, mas Culley agarrou-a e puxou-a de novo para a proteção das árvores novas.

Temos que ajudá-lo. Debateu-se sem ruído nos braços do irmão.

Não. Não sei o que podem fazer conosco, e preciso pensar em você, Maggie insistiu ele, apertando-a ainda mais, mesmo depois que ela parara de tentar se soltar dos seus braços.

O olhar dela voltou para o celeiro.

Eles não vão enforcá-lo. Era uma esperança desesperada porque Chase estava lá, montado num cavalo castanho-avermelhado, à direita do pai.

Chase não ia deixar que enforcassem seu pai... não o Chase, que a possuíra tão gentilmente da primeira vez, depois lavara as manchas de sangue das suas pernas; não o Chase, que colhera para ela um buquê de flores silvestres. Os olhos dela grudavam-se nele, mas não se parecia em nada com aquele homem meigo. Não era o Chase. Era um Calder, e uma tira de aço gelada fechou-se ao redor do coração dela.

Um dos vaqueiros entrou com o cavalo no celeiro enquanto o outro ajudava O'Rourke a subir no caixote. Chase lançou novo olhar para o pai, inseguro de até onde essa cena seria representada. Sua garganta estava ficando contraída, à medida que a tensão aumentava.

Você não vai-me enforcar, Calder. A voz de O'Rourke tremia, sem confiança, enquanto o cavaleiro parava sua montaria ao lado de O'Rourke e jogava o laço no seu pescoço, ajustando-o bem. Nate pegou a outra ponta, e prendeu a corda num suporte. Branco como mármore, O'Rourke se mantinha rígido, com medo de se debater e tirar o caixote de debaixo de si. Olhava para frente, os olhos alucinados e totalmente abertos. Não vai fazer isso impunemente, Calder advertiu, com voz rouca.

Você se enforcou, Angus. É o que todo mundo vai pensar, exceto os seus sócios na empreitada. A notícia vai-se espalhar, e vai demorar muito antes que alguém se apodere novamente do gado da Triplo C.

Webb Calder não prolongou sadicamente o momento e esperou até que O'Rourke se dissolvesse numa massa gaguejante de medo, implorando misericórdia. Deu o sinal enquanto o homem estava ereto, com um vestígio de débil desafio. E o sinal não foi um aceno óbvio de cabeça, apenas um piscar de olhos.

Quando o caixote foi chutado de sob O'Rourke, Chase ficou atónito. Ouviu o ranger estranho da corda, esticada ao máximo pelo súbito peso, e a exclamação abafada e surpresa de O'Rourke. As pernas curtas chutaram o ar numa tentativa de encontrar algo sólido debaixo delas, um gesto que durou apenas segundos mas tornou-se indelevelmente marcado na sua mente. O rosto de O'Rourke estava ficando cinza, os olhos e a língua saltados. Os rins e os intestinos haviam-se soltado, aumentando o fedor da morte.

Chase sentiu o estômago virar violentamente. Nunca tinha visto um homem morrer antes. Nunca tinha visto um homem ser enforcado. Aquilo o deixou nauseado. Chase encolheu os ombros e começou a baixar a cabeça mas o garanhão amarelado encostou-se no seu cavalo, sacudindo-o.

A voz do pai chegou até ele, baixa e cheia de nojo.

Se botar as tripas para fora na frente desses homens, juro que...

Cerrou os dentes e não terminou a ameaça, mas o desprezo na voz dele fez Chase enrijecer, endireitando-lhe os ombros e erguendo-lhe o queixo. Fitou o corpo flácido que pendia da corda, sem mais ver um ser humano, porém uma coisa. A corda fazia um som rascante enquanto se esfregava na viga sob o peso oscilante do seu fardo.

Está morto. A voz era de um dos três homens dentro do celeiro; Chase não sabia qual.

Desamarre as mãos dele ordenou Webb, e o homem a cavalo foi até lá e desatou o fio.

A mão de Culley ainda tapava a boca de Maggie, onde ele a colocara quando o caixote fora chutado de sob o pai deles para abafar o grito dela. Seu braço a esmagava, apertando-a firmemente contra seu corpo. Tentara virar-lhe a cabeça para que ela não visse o enforcamento, contudo ela se recusara a desviar os olhos de todo aquele horror.

Quando todos os cavaleiros estavam montados, deixaram o pátio da estância num trote sem pressa, voltando por onde tinham vindo, com Calder e o filho na vanguarda. Logo que tinham sumido de vista, Culley afrouxou seu aperto e Maggie livrou-se dele para correr para o celeiro, sem parar até chegar à corda amarrada ao suporte do telhado. Seus dedos tentavam desesperadamente soltar o nó, muito apertado, enquanto emitia pequenos sons animais de frustração. Seus esforços alucinados quebraram e rasgaram as suas unhas até o sabugo, fios de sangue dos cortes manchando a corda branca. Ficou indiferente à dor, só parando quando conseguiu desatar o nó. Enquanto tentava descer o pai devagar até o chão do celeiro, o peso morto dele puxava a corda por entre as mãos dela, queimando-lhe as palmas. Mordeu o lábio e aguentou firme, abaixando-o gradativamente.

Antes que as botas do morto tocassem o chão, Culley já estava segurando o corpo, e Maggie soltou a corda. Ela deslizou pela viga como uma cobra branca e traiçoeira, acompanhando o corpo que Culley deitava gentilmente no chão. Quando Maggie chegou junto deles, o irmão já jogara uma manta de sela sobre a cabeça e os ombros do cadáver. Ela caiu de joelhos ao lado dele e estendeu a mão para agarrar a manta. Culley puxou-a para trás.

Não olhe para ele, Maggie. A voz do rapaz era um som áspero e angustiado.

Quero olhar para ele! Virou-se para o irmão, o rosto mortalmente pálido, mas uma luz ardendo ferozmente nos olhos. Quero me lembrar de como os Calders assassinaram meu pai!

As mãos de Culley emolduraram o rosto da irmã e apertaram-no com firmeza. As lágrimas escorriam pelo rosto dele e sua boca estava retorcida num ricto para controlá-las.

Não olhe, Maggie. Você se lembrará de como eles o mataram igualzinho a mim. Não precisa vê-lo para se lembrar.

E então ela foi envolvida no aperto violento dos braços dele. Maggie agarrou-se ao irmão, partilhando da dor intensa que fazia seu corpo estremecer, mas não havia lágrimas para trazer-lhe alívio. Invejava o irmão porque conseguia chorar. A garganta queimava e doía, os olhos ardiam, mas ela não vertia nenhuma lágrima.

Finalmente, encontraram forças para se separar, irmão e irmã, partilhando da mesma expressão cheia de dor. Culley sempre fora mais chegado ao pai do que Maggie, fora mais compreensivo com suas fraquezas, enquanto ela as condenava. Agora, lamentava não ter sido mais condescendente com as falhas do pai. Ele fora um homem fraco, não um mau homem.

Teremos que chamar o xerife disse Maggie, sem tentar voltar para junto do corpo do pai, respeitando os desejos do irmão.

Sim concordou Culley, e pousou de leve a mão no braço dela para afastá-la dali. Eu chamo. Começaram a caminhar, lentamente, trocando a sombra da morte do celeiro pela luz forte do sol. Maggie, preste atenção. Quando eu falar com o xerife, vou contar-lhe que chegamos e o encontramos...

Não vai contar que... interrompeu numa explosão de raiva, porém Culley cortou seu protesto pelo meio.

Não. Ele parou. Suas faces ainda estavam molhadas de lágrimas, mas o rosto não mais pertencia a um rapaz de 18 anos. Era o rosto de um homem, amargurado e duro. Quem vai acreditar na gente, Maggie? desafiou Culley. Calder tem todo o mundo aqui no bolso. Que provas temos, exceto a nossa palavra? Ninguém vai aceitá-la, contra a de um Calder.

Ela sabia que o irmão tinha razão, e ficou olhando para o sul, cheia de ódio.

Não podemos deixar que isso fique assim!

Não deixarei. Chegará o dia em que pagarão por isso prometeu Culley. Eu juro.

Quando se afastaram do pátio da fazenda, não havia dúvidas na mente de Webb Calder de que tinha feito a coisa certa. Havia sopesado as outras alternativas e escolhido sua solução. Não fingia que outro homem talvez não tivesse agido daquela maneira, mas também não ficou remoendo o assunto. Fora um negócio desagradável, sem satisfação no término da tarefa.

Sentia-se com 1.000 anos de idade, enquanto voltavam para o ponto de encontro deles no pasto norte. Fizera o que aquela terra exigia dele, pela maneira como fora criado, nem mais nem menos. A pena que havia no seu coração era reservada para o filho e a filha de O'Rourke.

Com os cavalos carregados no reboque, Webb subiu ao volante do caminhão -e lançou um olhar ao filho. Não haviam trocado uma só palavra desde que o havia xingado no pátio da estância, mas aquilo fora para o bem do rapaz. Notou a pele retesada sobre o malar e o maxilar. Chase se comportara bem, sem demonstrar fraqueza ou debilidade. Webb lhe dera tempo para pensar por si mesmo durante a viagem de volta. Agora chegara a vez de falar, não para defender seu gesto, porque Webb nunca defendia uma decisão. Não, queria falar para descobrir o que havia no coração do filho.

Existem muitas decisões difíceis que um homem tem que ter estômago para tomar, algumas mais desagradáveis do que as outras. Angus foi advertido e teve a chance de poder deixar a Triplo C em paz, porém voltou para roubar mais gado. Se você deixa um homem pisar em você, então dois pisarão, depois três, depois quatro... tantos que você não conseguirá detê-los. Terá que deter o primeiro, ou os outros acabarão por vir. Angus deixou bem claro que queria deixar a Triplo C de joelhos.

Tudo começou porque eu possuí a filha dele falou Chase numa voz monótona, despida de emoção.

Não. Isso Webb não aceitava. O lavrador Anderson tem um filho mais ou menos da sua idade. Se a filha de O'Rourke tivesse começado a dar suas fugidas para ir encontrar-se com ele, Angus fingiria não ver e encararia tudo como parte de ser jovem e impetuoso. Mas você é um Calder, e Angus usou-o como desculpa. Você se tornou a justificativa dele para roubar o gado da Fazenda Triplo C. Se não tivesse sido você, ele teria achado outra coisa qualquer. E teria continuado a roubar porque aquilo o fazia sentir-se grande. Angus odiava ser pequeno.

Chase inspirou e soltou a respiração, olhando desolado pela janela.

Não houve nada de bom no que aconteceu hoje. Webb sentia-se mais tranquilo. Um homem tinha que enfrentar as coisas sem gostar delas, e era o que seu filho estava fazendo. Não se pode passar pelo mundo sem ganhar cicatrizes. Faz parte da vida. Não se vive num paraíso. Sempre existe trabalho sujo para ser feito, mas jamais mande outra pessoa fazê-lo em seu lugar.

Webb ficou satisfeito com a atitude do filho e ficou em silêncio para deixar que Chase pensasse no que ele dissera. Até agora a estrada para a vida adulta fora relativamente suave para o filho, mas ia ficar mais dura e mais solitária. Webb já passara por ela, portanto sabia para o que devia preparar o filho.

Pouco antes do jantar o telefone tocou. Webb fez sinal a Chase para não sair da cadeira.

Deixe que eu atendo. Foi até a extensão que havia na sua escrivaninha no escritório e levantou o fone. Triplo C.

Webb? Aqui fala o Xerife Potter disse a voz arrastada na outra extremidade da linha.

Sim, Xerife. Em que posso servi-lo? Webb pousou seu drinque na escrivaninha e passou para trás dela para se sentar na cadeira giratória, recostando-se para olhar fixamente para o teto do escritório.

Pensei que gostaria de saber que Angus O'Rourke foi encontrado morto hoje, no seu celeiro. Enforcado falou, com voz muito arrastada.

Cometeu suicídio, foi?

Fez-se uma longa pausa antes que o xerife respondesse.

É o que me parece.

Que pena.

É, sim confirmou o xerife, com um suspiro. Bem, achei que você gostaria de saber.

Agradeço por ter-me telefonado.

Mais algum problema com aqueles ladrões?

Não. Acho que vão-nos deixar em paz.

ótimo. Cuide-se, Webb.

Você também. Desligou o aparelho com um olhar pensativo, lançando um olhar a Chase, mas não fez comentários.

 

A tesoura estava a seu lado na mesa, mas Maggie cortou a linha escura com os dentes e deixou o retrós de lado. Umedecendo a extremidade da linha para formar uma ponta, enfiou-a certeiramente pelo buraco da agulha; depois, seus dedos rolaram a extremidade da linha e formaram um nó. O botão não combinava exatamente com os outros no paletó do terno, mas era o mais parecido que conseguira encontrar na cesta de costura da mãe. Sua mente estava vazia, abençoadamente vazia, enquanto segurava o botão no lugar com o polegar e o indicador e enfiava a agulha no pano, a ponta prateada aparecendo no buraco do botão. Prender um botão que faltava era uma tarefa simples que exigia pouca concentração, algo que podia ser feito automaticamente, mas era infinitamente melhor estar ocupada. Podia vagar, sem sentir dor, sofrimento, amargura ou ódio, apenas entorpecimento, enquanto a agulha prateada entrava e saía do botão.

Uma pick-up entrou no pátio, rompendo o silêncio. O olhar dela ergueu-se do paletó para a janela da frente. Provavelmente era Culley vindo da cidade, pensou distraidamente. Mas era um homem alto, de passadas largas que se vinha aproximando dos degraus da varanda. Os dedos dela perderam seu ritmo com a agulha e a ponta aguda espetou um dedo sensível. Todo o emaranhado de emoções quentes voltou para queimar sua consciência enquanto chupava o ponto vermelho de sangue no dedo. Quando Chase Calder bateu à porta de tela, esta chocalhou contra a moldura.

Maggie nem se mexeu de sua cadeira nem ergueu os olhos.

Entre. Na sua voz não havia vestígio do que lhe fervilhava por dentro.

A porta foi aberta, este som sendo seguido pelo de passos que entravam. Hesitaram, depois cruzaram o resto da sala e vieram parar junto à cadeira dela. Ela podia ver as pontas marrons das botas dele enquanto dava o nó na linha e pegava a tesoura para cortá-la em dois.

Alo, Maggie. A voz dele era suave.

Estava faltando um botão neste terno. Enfiou a agulha e linha no porta-alfinete cor de morango e dobrou o paletó sobre o braço da cadeira. Tive que prendê-lo porque meu pai vai ser enterrado com ele. É o único terno que possuía. Maggie se levantou, os dedos ainda agarrando com força o cabo da tesoura.

Chase tinha tirado o chapéu e segurava-o à sua frente. Seu peito largo se ergueu quando ele inspirou fundo e levantou os olhos para fitar os olhos verdes dela.

Sinto muito o que houve com seu pai, Maggie falou, com ar sombrio. Se houver algo que eu possa fazer...

A hipocrisia dele fez com que o sangue corresse violentamente pelas veias dela.

Agora, não há nada que você possa fazer! Se queria fazer algo para ajudá-lo, por que não os impediu de o enforcarem?!!! explodiu. O choque tremulou nas feições duras dele. Aquilo fez com que ela o provocasse com o que sabia. Vi você com seu pai e os outros. Não pensaram que havia alguém vendo vocês o enforcarem, não é? Mas nós vimos tudo!!

O rapaz virou a cabeça para o lado, deixando ver o perfil aquilino. Um músculo se mexia ao longo do seu maxilar enquanto parecia lutar para controlar alguma emoção. Depois voltou a olhar para ela, sem que nada transparecesse na sua expressão, nem pesar nem tristeza.

Gostaria que não tivessem visto. Não havia alteração na voz dele, todo o sentimento reprimido. Ela o fitou, olhando para um estranho, não para um homem em cujos braços tinha-se deitado tantas vezes. Por dentro, a jovem estava-se enroscando como uma cascavel que prepara o bote. Os olhos dele se estreitaram, sondando-a na sua intensidade. Você ouviu seu pai admitir que era quem estava roubando nosso gado.

Não roubou sozinho! explodiu Maggie. E quanto aos outros? Também vão enforcá-los? Sou parte da coisa. Sabia das incursões deles. Até mesmo dei-lhes cobertura. Também vão-me enforcar?

A admissão pegou Chase de surpresa. Até aquele momento acreditara que ela nada soubesse do envolvimento do pai no roubo do gado dos Calders. Uma sensação fria de traição percorreu-o.

Por que não me contou antes? interpelou-a.

O que você teria feito? Você me entregaria a seu pai?

Ela tremia com a raiva que fervia dentro de si. Ela martelava de

encontro a seu controle, buscando uma saída, uma fuga. O que

acha que ele teria feito comigo? Ia pendurar-me ao lado de papai?

Chase abespinhou-se.

Meu pai não teria levantado uma mão contra você. Não feriria uma mulher intencionalmente.

Foi aí que cometeu seu erro! Sacudia-se de fúria, a mão crispando a tesoura. Deviam ter-se livrado de todos nós! Todos nós! Está ouvindo?!!

Algo o avisou no último segundo. Talvez fossem as lâminas de aço da tesoura falseando ao sol ou o ligeiro movimento da cabeça dela que assinalou o bote. Mas, quando a mão dela se dirigia para a barriga dele, Chase se encolheu e jogou o braço para frente para desviar a tesoura do alvo. As pontas da lâmina rasgaram sua camisa e abriram um corte diagonal em toda extensão do seu antebraço. Parecia que um ferro quente tinha sido encostado na sua pele, mas não havia tempo de pensar no ferimento.

Agarrou o pulso da mão que segurava a tesoura e torceu-o para trás até escutar a exclamação abafada de dor misturada a sons animais de raiva encurralada, e depois os dedos dela soltaram involuntariamente seu aperto. Uma faixa larga de sangue já manchava de vermelho a camisa e escorria pelas costas da mão dele, quando Chase tirou a tesoura dela e empurrou-a para trás, para longe de si.

Com um arremesso violento jogou a tesoura para o lado oposto da sala. O gesto fez com que uma pontada de dor percorresse seu braço inteiro. A dor lhe provocou uma careta involuntária, enquanto ele segurava com a outra mão a ferida latejante e sentia o sangue pulsar dela e escorrer por entre os dedos, quente e pegajoso.

Sua tonta, sua maluca! Fitou Maggie, furioso, segurando o braço ensanguentado. No estado em que ela estava, não havia esperanças de argumentar com ela, mas não podia culpá-la pelo ódio amargo que sentia pelo que haviam feito. Apanhou o chapéu do chão e enfiou-o na cabeça, enquanto se virava e saía, o sangue pingando das extremidades dos dedos.

Na boleia da pick-up, Chase tirou o lenço do bolso de trás da calça e enrolou no braço, logo abaixo do cotovelo. Segurando uma das pontas nos dentes, amarrou o nó bem forte num esforço para aplicar pressão à ferida e deter o fluxo do sangue. Todo o seu braço parecia que estava pegando fogo.

Quando finalmente chegou à Triplo C, estava cerrando os dentes para suportar a dor. Dirigiu-se diretamente ao dispensário de primeiros-socorros e estacionou em frente ao prédio. O sangramento tinha praticamente parado, mas a metade inferior da manga estava saturada de sangue que já começara a secar na sua mão e nos dedos. Saiu da camioneta, segurando com cuidado o braço.

Ei, Chase! Buck apareceu vindo rapidamente na sua direção. Webb está procurando por você. Por onde andou? Então, notou o braço do amigo, e o sorriso indagador sumiu-lhe do rosto. Puta merda! O que foi que fez isso em seu braço?

Chase ignorou as perguntas e continuou o seu caminho para o gabinete de primeiros-socorros.

Entre e venha me ajudar a dar um jeito nisso. Buck apressou-se a abrir a porta e Chase caminhou diretamente para a pia, tentando soltar o nó do lenço. Quando o conseguiu, virou-se para Buck. Rasgue a manga na altura do cotovelo. A camisa está perdida, de qualquer maneira. A frente dela estava toda manchada de sangue.

A fazenda rasgou com facilidade ao puxão de Buck e caiu ao redor do pulso. Chase desabotoou o punho e jogou a manga ensopada de sangue na cesta de lixo. Abrindo a bica, manteve o braço debaixo d'água para lavar o grosso do sangue. A força da água batendo contra a ferida irregular reacendeu a dor violenta. Chase estava branco em volta da boca quando terminou, e com os joelhos trémulos.

Agarrando uma cadeira, puxou-a para junto da pia e se sentou, apoiando o braço no balcão.

Termine você disse para Buck, tirando o chapéu e pendurando-o nas costas de outra cadeira. O sangue começava a escorrer devagarinho do corte.

Buck olhou para o amigo e sacudiu a cabeça.

O que foi que você fez? Meteu-se numa briga de faca com alguém? disse, enquanto limpava com cuidado a feia ferida.

Quer calar a boca e cuidar da ferida? exigiu Chase, lutando contra as ondas de fraqueza que o acometiam.

Está parecendo funda, Chase. Havia um ar de concentração preocupada no rosto do amigo. Talvez eu deva levá-lo ao médico para dar uns pontos.

Chase flexionou os dedos da mão e cerrou o punho. Doía como o diabo, mas ele não podia sentir nenhum dano para os músculos ou os nervos.

Se precisar ser costurado, você mesmo pode fazê-lo. Já costurou um bocado de animais; sabe como se faz.

Buck hesitou, incerto.

Você pode precisar de uma injeção antitetânica.

Não, a tesoura estava limpa. Além do mais, ele sangrara o suficiente para eliminar qualquer risco de infecção.

Tesoura? Buck olhou para ele, de sobrancelhas erguidas. Foi uma mulher que fez isso?

Quer tirar o raio das suturas da gaveta e costurar isso! E pare de fazer perguntas! explodiu Chase.

Está bem! Não precisa me arrancar a cabeça. Buck recuou com exagero simulado e se dirigiu para o armário onde eram guardadas as agulhas esterilizadas e a linha de sutura. Antes de começar a costurar a ferida, lançou um olhar para Chase. Isso vai doer. Sabia? Ante o feio olhar que recebeu em resposta, Buck deu de ombros para indicar que ele fora avisado e enfiou a agulha na carne para dar o primeiro ponto.

A testa de Chase ficou molhada de suor enquanto ele cerrava os dentes com força contra as ondas de dor. O braço dele tremia com o esforço de tentar manter-se imóvel, ajudado pela mão de ferro de Buck. Cada respiração era quase um gemido.

Ouviu contar que Angus O'Rourke se enforcou ontem? perguntou Buck, para puxar conversa.

É, ouvi. Chase gostaria que ele tivesse escolhido um assunto diferente. Que merda, como eu gostaria de uma bebida.

Deviam guardar um pouco de uísque aqui refletiu Buck, depois sorriu por um segundo. É claro que esses vaqueiros viriam correndo para cá cada vez que machucassem um dedo.

Ainda não acabou? perguntou Chase, por entre os dentes, e deu uma olhada para ver Buck terminar o último ponto e dar um passo atrás para apreciar seu trabalho.

Aposto que daria um bom cirurgião declarou, enquanto começava a fazer o curativo com habilidade no ferimento.

Não com o seu jeito de tratar o doente retrucou Chase. Você curte demais a dor das outras pessoas.

A porta se abriu quando Buck estava colocando o último pedaço de esparadrapo para segurar a gaze no lugar. Chase olhou por cima do ombro, depois desviou o olhar sem encontrar o do pai.

Vi a pick-up lá fora. Webb Calder franziu a testa ao ver o curativo que cobria toda a extensão do antebraço de Chase.

O que aconteceu?

Eu me cortei. Buck exagerou no curativo. Chase tentou fazer com que parecesse uma ferida sem importância, mas custou a ficar de pé, inseguro quanto à sua estabilidade. Acho que ele está praticando para se tornar médico.

Buck entendeu a indireta e discretamente juntou os instrumentos cirúrgicos antes que Webb os notasse, escondendo-os na dobra de uma toalha. Levou-a para o outro lado da sala para deixá-los ali, momentaneamente. Ouviu Webb perguntar a Chase onde tinha estado e esforçou-se para escutar a resposta dada em voz baixa.

Fui ver Maggie. Chase pegou o seu chapéu e ficou examinando a carneira interna. Ela estava lá... tanto ela quanto Culley. Eles nos viram... a todos nós.

Webb inspirou fundo e soltou um suspiro perturbado.

Não sabia.

Não. Chase colocou o chapéu, apoiando-o primeiro na testa, depois enterrando-o na parte de trás da cabeça. Vou ficar fora por uma semana ou duas.

O pai deixou a frase pender no ar durante um ou dois minutos, depois perguntou simplesmente: Onde?

Pensei em levar uma besta de carga e subir as montanhas, quem sabe verificar algumas cercas. Chase examinou o padrão do chão de ladrilhos. Acho que não ia dar mesmo em nada. Talvez eu já tivesse sabido, desde o começo.

Buck levou um minuto para se dar conta de que Chase estava-se referindo a Maggie O'Rourke. Soltou um assobio mudo enquanto adivinhava quem era a mulher com a tesoura. A outra parte sobre ela os tendo visto, ainda não conseguira destrinçar. A princípio pensara que Chase queria dizer que a garota vira o pai se enforcar, mas quando ele acrescentara que ela os tinha visto, deixava de fazer sentido. O que Webb e Chase estariam fazendo lá? Porém ele dissera "todos nós". Webb e Chase tinham ido a algum lugar ontem de manhã. Ele os vira carregarem os cavalos e sair juntos. Nate também se mandara... e Stumpy. Buck concluiu que seria interessante descobrir quem mais desaparecera à mesma hora.

Se você acha que é necessário partir, não tentarei detê-lo.

Mas Webb não parecia satisfeito.

Preciso de tempo para pensar numas coisas. Chase não recuou.

Quando parte?

Agora... hoje à tarde, logo que arrume algumas coisas.

Segurando o braço ferido de encontro à cintura, Chase passou pelo pai e saiu pela porta do dispensário.

Às quatro da tarde, ele saía do pátio da fazenda montado num cavalo castanho-avermelhado, um saco de dormir amarrado atrás da sela e suprimentos colocados sobre a besta de carga malhada que puxava. Dirigia-se para a pequena cordilheira que se intrometia no limiar Oeste da Fazenda Triplo C.

O dia seguinte era quinta-feira, o dia em que o Dr. Barlow abria regularmente sua clínica. Quando Maggie saiu da sala de exames ninguém achou estranho que parecesse tão branca e tensa, ou que não falasse com ninguém. A pobre criança ia enterrar o pai no dia seguinte. Que coisa terrível Angus ter cometido suicídio, deixando dois adolescentes órfãos. Todos comentavam, cheios de piedade.

Culley estava esperando por ela no café do Tucker. Este era o único que realmente sabia a verdade sobre o modo como o pai deles morrera. Culley o havia informado no dia em que acontecera. Tucker ficara branco como um lençol e os interrogara para descobrir se Calder sabia que ele estava envolvido. Culley negara iradamente a insinuação de que o pai dera algum nome para Calder. Mas Tucker ficara igualmente preocupado com o que Calder pudesse fazer com eles, e concordara que ninguém iria acreditar na história deles.

Quando Maggie entrou no reservado em que Culley estava sentado, ele perguntou:

O doutor lhe deu uns comprimidos para ajudá-la a dormir?

Aquela tinha sido a sua desculpa para ir consultar o médico. Ainda não se achava pronta para contar ao irmão que estava grávida, portanto deixou que ele acreditasse no outro motivo por mais algum tempo.

Deu.

Tucker trouxe-lhe uma fatia de torta de maçã e um copo de leite, sem se dar ao trabalho de perguntar se ela queria alguma coisa.

Como está-se sentindo? Assumira o papel de parente distante, uma espécie de tio postiço do casal.

Bem respondeu, a jovem, lançando um olhar inseguro para a torta.

É por conta da casa tranquilizou Tucker, e depois se afastou com a chegada de outro freguês.

Tucker e eu estivemos conversando começou Culley, inclinando-se para frente, um tanto ansioso. E andei pensando um bocado sobre o que vamos fazer, agora que papai se foi. Achei o telefone da Tia Cathleen num antigo caderno de endereços da mamãe. Liguei para ela há pouco para falar da morte do papai... e para indagar-lhe se você podia ir morar com ela.

Como? exclamou Maggie, sem ter certeza se havia entendido direito.

Você vai embora daqui e vai morar na Califórnia com Tia Cathleen. Amanhã depois do enterro, vou botá-la num ônibus. Parou de olhar para ela e começou a mexer num guardanapo de papel. Você sempre teve vontade de sair daqui e ser alguém na vida. Vai ter sua chance, agora.

Esse sempre fora o sonho dela, no entanto as circunstâncias atuais estavam todas erradas.

Mas, e você, o que vai fazer?

Vou ficar aqui e tentar manter a fazenda funcionando.

Não vai conseguir sozinho. O pai falhara com eles dois a ajudá-lo.

Não vai ser fácil admitiu, com um dar de ombros defensivo. Posso usar um pouco do dinheiro do papai para contratar um empregado regular, e Tucker falou que me ajudaria. Mas quero que leve a maior parte do dinheiro com você. Quando viu o protesto se formando, aparteou rapidamente. Se alguém lhe perguntar onde o conseguiu, diga que papai tinha algum seguro de vida.

Não posso ir morar com Tia Cathleen declarou Maggie, com firmeza.

Por que não? Não quero que fique aqui declarou Culley, com uma ponta de raiva.

Ela estreitou a boca, numa resignação sombria.

Culley, fui ver o Dr. Barlow porque estou grávida. Vou ter um filho de Chase Calder disse, a voz tremendo de amargura ao pronunciar seu nome.

Culley fixou-a com olhar desolado antes de finalmente encostar a testa nas mãos, segurando a cabeça enquanto a sacudia de um lado para o outro.

Eu sabia. Sabia que aquele demónio filho da mãe plantaria sua semente em você. Passou-se um longo momento antes que ele erguesse a cabeça e soltasse um suspiro. Mais um motivo para você não ficar aqui, Maggie. Contou ao Dr. Barlow quem é o pai?

Não. Ele me perguntou se era Chase. Já tinha ouvido comentários de que eu estava saindo com ele. A moça enterrou os dedos nas palmas das mãos, fervendo com a lembrança do embaraço. Fiz com que ele jurasse que não falaria.

Todos estão comentando porque todos sabem... e vão adivinhar. Não está vendo, Maggie? falou Culley, ansioso. Vai piorar se você ficar aqui. Além disso, Tia Cathleen quer que você vá.

Mas vai querer, quando descobrir que estou grávida? indagou Maggie.

Uma vez que esteja lá, como poderá mandá-la embora? argumentou ele. E se mandar, você pode tomar outro ônibus e voltar para cá. Mas ela se mostrou um amor ao telefone, Maggie. Muito parecida com mamãe. Olhou para ela com olhos atormentados e tristes, queimados com um ódio amargo que jamais iria embora. Estou tentando fazer o que acho que é melhor. Não sei se estou certo, mas ficar aqui não vai ser bom para você. Vá embora amanhã, Maggie. Vá embora antes que os Calders a magoem de novo.

Eu vou, mas não estou fugindo deles insistiu a moça.

Em dois dias, Chase chegou às montanhas. Durante uma semana cavalgou pelos montes rochosos e encostas pontilhadas de pinheiros, olhando para o vasto céu azul, sempre em mutação, sempre constante, e pensando... às vezes em nada mais significativo do que o modo como o Sol que se filtrava por entre as árvores iluminava o solo.

Acampado sob as estrelas com os cavalos amarrados numa clareira gramada, Chase fumava um charuto fino, esticado no chão e com a sela lhe servindo de travesseiro. Numa colina distante um coiote uivava, o seu uivo o som mais triste e solitário do mundo. A fogueira do acampamento tinha-se apagado, deixando apenas o coração vermelho ardendo. Uma estrela cadente passou, a luz dos seus milhões de anos deixando um arranhão branco no céu negro que logo desapareceu, como se não tivesse existido.

A vida nem sempre é aquilo que uma pessoa deseja, ou mesmo aquilo que ela tenta fazer com que seja. Ele pegara uma garota e a transformara em mulher antes do tempo. Ignorara sua juventude, o seu ambiente familiar, o ressentimento do pai dela contra os Calders, certo de que esses fatores jamais poderiam tocá-los, que poderiam ficar isolados do que havia de desagradável no mundo. Chase se deu conta de que o relacionamento deles fora sem profundidade porque negava o que cada um deles era. Uma coisa perdura quando há compromisso, e desaba quando não há nenhum.

Chase flexionou o braço. Agora podia movê-lo com mais liberdade; já não o incomodava tanto. Com o tempo, ficaria completamente bom, mas a cicatriz permaneceria.

Depois de duas semanas nas montanhas, Chase se pôs a caminho. Fez um desvio para o pasto Norte, um passeio de despedida aos dias simples que jamais voltariam. Finalmente aceitara isso, e virou seu cavalo na direção da Casa Grande, sem olhar para trás.

Logo que o cavaleiro e a besta de carga foram avistados aproximando-se da sede da Triplo C, um empregado da fazenda foi despachado para a Casa Grande a fim de avisar que Chase vinha chegando. Todos evitaram cuidadosamente notar a presença de Webb Calder, enquanto ele se dirigia calmamente para os celeirosestábulos. Não havia ninguém num raio de 20 metros de pai e filho que se encontravam depois de uma separação de duas semanas.

Estou vendo que finalmente voltou comentou Webb com um ar fingido de leve interesse. Mas seus olhos estudavam atentamente o cavaleiro, com uma espessa barba sombreando as feições severas.

A boca de Chase se abriu num sorriso, mostrando os dentes brancos contra a barba escura, e havia um brilho cintilante nos olhos castanhos.

Os meus charutos acabaram respondeu, e fez sinal

para o cavalo andar, passando com ele pelo pai para entrar no celeiro, puxando a besta de carga.

Havia orgulho na postura da cabeça de Webb Calder. O filho estava de volta, e se achava inteiro. Nate Moore veio saindo do celeiro e parou ligeiramente ao lado de Webb. Olhou para trás, para a abertura pela qual Chase tinha desaparecido.

Não tem a sensação de que ele partiu um rapaz e voltou um homem? perguntou Nate, seguindo seu caminho sem esperar resposta.

Só dali a vários segundos foi que Webb entrou atrás do filho e caminhou até a baia onde Chase tirava a sela do cavalo.

Maggie O'Rourke foi embora. Foi para a Califórnia morar com uma parente da mãe... uma irmã, parece.

O ritmo das mãos que afrouxavam a cilha da sela não se alterou.

Fico contente por ela afirmou Chase, e tirou a sela do lombo do cavalo. Dando meia-volta, jogou-a no topo da parede divisória da baia e enfrentou serenamente o olhar do pai, por cima da sela. É o que ela sempre desejou... uma chance de ir embora daqui e ser alguém na vida. É o melhor.

Sim concordou Webb.

 

Um céu de separação, Um céu em dois, Este céu Que ampara um Calder.

 

Havia muita coisa na tia que fazia Maggie lembrar-se da mãe. O colorido era o mesmo, exceto que fios grisalhos já tinham começado a pratear os cabelos negros da tia, e seus olhos eram de um tom mais escuro de verde. Cathleen era mais alta do que fora a mãe, e mais gordinha, porém durante os últimos anos de sua vida a mãe trabalhara tanto que ficara magra. O mais importante é que a tia tinha o mesmo temperamento meigo e carinhoso. Recebera Maggie na sua casa de braços abertos.

Maggie fitou as mãos que envolviam com tanto carinho os seus dedos muito apertados. Não tinha sido fácil informar à tia que ia ter um bebé. A despeito deste gesto de afeto e compreensão, Maggie se preparou para as palavras de reprimenda.

Mas elas não vieram.

É possível que isso possa até ser uma bênção disfarçada sugeriu Cathleen Hogan.

Maggie levantou a cabeça, desconfiada e cética.

Como assim?

Contara por alto as circunstâncias do seu relacionamento com Chase Calder, assim como fora pouco comunicativa quanto à morte do pai, contando apenas que seu pescoço fora quebrado e ele morrera instantaneamente, deixando que a tia imaginasse que tinha sido um acidente. Aproveitou-se do fato de que Cathleen esperava que ela estivesse nervosa demais para discutir o assunto.

Fico preocupada em deixar Mamãe e Papai Hogan sozinhos o dia inteiro, enquanto estou trabalhando explicou Cathleen, referindo-se aos pais do seu falecido marido, que atualmente também moravam com ela. Há dias em que Mamãe Hogan fica tão atacada de artrite que nem pode se mexer. Com Papai Hogan ficando mais surdo a cada dia que passa, fico preocupada que, caso ela caia, o velho possa deixar de ouvir seu pedido de socorro. Minha vizinha, a Sra. Houston, dá uma espiada neles uma ou duas vezes por dia, mas não posso pagar alguém para ficar com eles o tempo todo. Com você aqui, Mary Frances... Usou o nome de batismo de Maggie, e fez uma pausa.

Cuidarei deles e prepararei suas refeições ofereceu Maggie, aliviada por poder ajudar a tia, e não ser um peso. Era mais do que o seu traço férreo de independência poderia tolerar... estar grávida e dependente de uma pessoa relativamente estranha.

Para mim seria um alívio, se você fizesse isso. Cathleen sorriu, calorosamente. Estava com medo de ter que largar meu emprego e os Gordons têm sido muito bons e compreensivos. Apertou as mãos de Maggie de maneira confortadora. Terei que pedir ao Dr. Gordon para recomendar um obstetra para você. Quero que você e o bebé fiquem saudáveis.

Desde que chegara na área de Chatsworth, do Vale de San Fernando, na Califórnia, há três dias, Maggie soubera que a tia trabalhava para uma família chamada Gordon. Tinha sido contratada como governanta para o casal de irmão e irmã, mas seus deveres gradativamente tinham evoluído e agora também tomava conta pessoalmente da irmã, Pamela Gordon, que ficara parcialmente paralisada após uma queda de cavalo. Naturalmente, era Pamela que a tia mencionava com mais frequência. Pouco sabia do irmão.

Que espécie de médico é o seu patrão? perguntou Maggie, a curiosidade despertada pelo comentário.

É um cirurgião plástico, muitíssimo conhecido. Cathleen parecia pessoalmente orgulhosa disso. As pessoas desfiguradas em incêndios ou acidentes estão sendo sempre recomendadas para procurá-lo. Ele tem consultório e clínica em Los Angeles, que fica a uns quarenta e cinco minutos de carro de sua casa, portanto vai e volta diariamente.

Maggie não lhe invejava a viagem diária de ida e volta. As ruas e auto-estradas estavam entupidas de veículos. Tinha ouvido falar no tráfego de Los Angeles, mas vê-lo era uma outra história.

Que bom que você está aqui comigo, Mary Frances. A tia preencheu o breve silêncio que se seguiu a seu comentário. Sei que é o que a sua mãe teria querido.

O que fez Maggie dizer:

Mamãe sempre esteve decidida a que Culley e eu tivéssemos instrução. Apesar de estar esperando bebé, ainda vou me formar.

Isso não será problema. As escolas aqui têm cursos noturnos três vezes por semana. Além disso, há cursos por correspondência disponíveis que permitem que você aprenda em casa replicou a tia. Vamos verificar as duas coisas para ver qual será a melhor para você. Tudo vai dar certo. Você vai ver.

Quando a tia saiu do quartinho que era de Maggie para voltar para a sala onde os sogros assistiam à televisão, Maggie sentiu-se mais otimista em relação ao futuro do que se sentia há muitos dias. Pelo menos agora ela tinha algo de definitivo para escrever e contar a Culley.

Quase um mês se passou antes que recebesse uma resposta do irmão. Nesse meio tempo, começara a fazer cursos por correspondência e sua vida se acomodara numa rotina tranquila de cuidar da casa e da Vovó e do Vovô Hogan, como começara a chamá-los. A carta de Culley chegou quando ela estava botando o almoço na mesa. Deixou seu prato de sopa esfriar enquanto a lia.

 

         28 de setembro Querida Maggie,

Como vai? Eu vou bem. Está começando a esfriar por aqui. Que tal está o tempo na Califórnia? Que bom você gostar daí.

O café de Tucker se incendiou na semana passada. Jake viu o fogo da sua janela quando estava fechando, e deu o alarme. O prédio inteiro estava em chamas quando o carro de bombeiros do condado chegou. Deixaram o café arder e jogaram toda a água no estabelecimento de Jake para impedir que o fogo se espalhasse para o prédio dele. Só sobrou do café de Tucker o esqueleto incendiado. Ele perdeu tudo, até mesmo o dinheiro que guardava numa caixa de metal no quarto dos fundos. O fogo estava tão quente que acho que transformou as notas em cinzas. E ele não tinha seguro.

Dizem que o fogo começou na cozinha. Alegaram que foi causado pela gordura. Mas aposto que foi Calder quem o começou. Tucker também acha a mesma coisa, mas não pode dizer nada, como nós não pudemos.

Tinha contratado um homem para me ajudar na fazenda, mas ele se despediu ontem. Ninguém vai-me convencer de que o Calder não teve nada a ver com a saída dele. Ele jamais me forçará a sair daqui. Eu me vingarei dele pelo que fizeram. Pode levar algum tempo, mas eu o farei.

Não há mais novidades, portanto vou ficando por aqui. Cuide-se.

                           Seu irmão, Culley

 

Maggie releu a carta toda, depois dobrou-a devagar e enfiou-a de novo no envelope. Ficou melancólica, as lembranças doloridas revividas.

De quem é a carta, Mary Frances? indagou Vovô Hogan, numa voz alta, para poder ouvir a si próprio. Sempre usava o nome de batismo de Maggie, como Cathleen.

De Culley. A voz dela era monótona, sem vida.

Quem? Ele franziu a testa e levou a mão ao ouvido.

Meu irmão! Desta feita, Maggie respondeu alto o bastante para o velho ouvir.

No domingo seguinte, Cathleen preparou uma cesta de pique nique e surpreendeu Maggie com um passeio até a praia, depois da missa. Era a primeira vez que a jovem via o oceano. No minuto em que Cathleen assegurou-lhe de que ela e Mamãe Hogan podiam dar conta de arrumar as coisas do lanche sozinhas, Maggie tirou as sandálias e caminhou descalça pelas areias aquecidas pelo sol até a água.

Parando pouco antes das ondas que lambiam a praia, ela fitou a vasta extensão de vagas do oceano, verdes-escuras abaixo de um envolvente céu azul. Por um instante, sentiu-se transportada numa lembrança de Montana, um mar de pasto sob um imenso céu.

Um dedinho de água salgada enroscou-se nos seus dedos, trazendo-a de volta ao presente. Estava fresquinha, depois do calor do sol. Entrando um pouquinho na água, virou-se e andou paralelamente às marcas da maré enquanto as ondas quebravam suavemente nos seus tornozelos. O ar tinha um travo. Subitamente curiosa, Maggie se abaixou e pegou um pouco de água na concha da mão. Tocou a umidade com a ponta da língua e torceu o nariz ante o gosto salgado, de peixe, sacudindo as gotas da mão.

A praia começou a encher com o pessoal de roupa de banho, tornando Maggie cônscia de que estava deslocada no seu vestidinho de verão. Era um vestido velho da tia, reformado para servir no corpo em transformação de Maggie... não que já estivesse aparecendo muito. Só quando olhava de lado no espelho é que notava a saliência do estômago.

Partilhar a praia e o oceano com os outros não diminuía sua satisfação na experiência, mas mesmo assim Maggie voltou para se reunir à tia e ao casal idoso. Cathleen sorriu quando viu Maggie aproximar-se.

O que você acha do Pacífico?

É uma maravilha admitiu Maggie, caindo de joelhos na manta que a tia abrira no chão. Preciso escrever a Culley hoje à noite e dizer-lhe que o oceano é realmente salgado.

Está com fome? Temos frios, salada de abacate, queijo frutas. Cathleen passou-lhe um prato.

Está tudo com ótima cara. Começou a encher o prato, servindo-se de um pouco de cada coisa.

O que gostaria de beber, Mamãe Hogan? perguntou Cathleen à sogra. Tenho água gelada e limonada.

Limonada. Virou-se para o marido. O que você

quer beber, John?

Art ainda não voltou com a cerveja? perguntou ele, referindo-se ao falecido marido de Cathleen, seu filho.

John, você está ficando velho reclamou vivamente a mulher. Está caducando. Há doze anos que nosso filho morreu. Lançou um olhar triste, de quem pedia desculpas, para Cathleen.

Não se preocupe, Mamãe Hogan. Está tudo bem disse a nora, com um sorriso.

Maggie adivinhava que estava mais a par do que a tia da frequência com que esses lapsos de memória do sogro de Cathleen aconteciam. Eram costumeiros durante a semana. Por mais que se tivesse afeiçoado ao casal idoso, aquilo tornava difícil a manutenção de uma conversa. Não falou nada para a tia, mas contou a Culley numa carta.

Alguns dias após o Dia de Ação de Graças, chegou uma carta dele.

30 de novembro Querida Maggie,

Desculpe não ter tido tempo de escrever para você, mas tenho andado muito ocupado.

O que fez no Dia de Ação de Graças? Tucker veio até aqui. Trouxe comida e preparou o jantar. Está trabalhando agora para Calder como cozinheiro. Mal pude acreditar quando me contaram, na cidade. Falou que foi o único lugar em que arranjou emprego. Disse a ele que poderia ter ficado aqui, mas ele falou que era cozinheiro, não vaqueiro. Porém ele ainda odeia Calder do mesmo jeito que a gente.

Houve uma briga e tanto no Jake's, no fim de semana passado. Um cara novo por aqui acusou Buck Haskell de roubar-lhe o dinheiro da carteira. Eles discutiram e a coisa pegou fogo, com Chase Calder e a Triplo C contra os outros. O xerife teve que vir acabar com a briga. Eu sempre soube que eles eram um bando de ladrões, lá na Triplo C.

Está começando a nevar. Tenho que ir ver o gado.

Seu irmão, Culley

Duas semanas antes do Natal, Maggie estava sentada no chão, de pernas dobradas, no meio da sala de visitas, embrulhando as camisas que comprara para Culley para poder mandá-las para ele. Uma árvore de Natal artificial estava diante da janela panorâmica, tendo um presépio aos pés da base enrolada em algodão. Do lado de fora a grama e as árvores ainda estavam verdes, o ar quente.

É difícil acreditar que já é quase Natal declarou Maggie, lançando um olhar à tia, que estava atarefada escrevendo seus cartões de Natal. Aposto que Culley não pode nem sair, por causa da neve.

Cathleen parou o que fazia.

Sente muita falta dele, não é?

Sinto. Era uma simples admissão, e Maggie não tentou dar maiores explicações.

Por que não escreve e pede a ele que venha passar os feriados aqui? sugeriu a tia.

Maggie sacudiu a cabeça com tristeza, sabendo que não era possível.

Nessa época do ano o tempo é muito imprevisível, nevascas e tempestades de gelo. Ele não pode se arriscar a deixar a fazenda.

Sua resposta foi lógica e sensata, mas isso não impedia que ela desejasse poder vê-lo. Precisava de alguém com quem pudesse falar, alguém que conhecesse os fatos que cercavam a morte do pai, alguém que compreendesse sua angústia interior. Embora Cathleen tivesse sido boa e maravilhosa para ela, Maggie não lhe podia confiar esses segredos. Estavam todos guardados dentro dela, silenciados pelo orgulho.

Como que pressentindo que era melhor mudar de assunto, a tia perguntou:

Já escolheu algum nome para o bebé?

Já. Maggie ouviu o barulho de uma bengala no corredor e se levantou automaticamente para ajudar Mamãe Hogan, muito atacada de artrite, a entrar na sala, sentando-a numa poltrona. Se for menino, vou chamá-lo de Tyrone disse à tia. Se for menina, gostaria de chamá-la Cathleen, em sua homenagem.

Desde o minuto em que tomara consciência da vida que crescia dentro de si, Maggie começara a bloquear a parte que Chase desempenhara na concepção do bebé. Considerava o bebé exclusivamente seu.

Mas que ideia gentil, Mary Frances! exclamou a tia, genuinamente emocionada pelas palavras dela. Obrigada.

Quando Maggie se sentou para terminar de embrulhar o pacote de Culley, parou para puxar a camiseta cinzenta até os quadris. A camiseta se esticou sobre sua barriga.

Vai ser menino declarou Mamãe Hogan. Veja como o bebé está baixo.

Isso é conversa de comadres. Cathleen sorriu e fez pouco caso do comentário. Não tem nada a ver com o sexo do bebé.

Até aquele momento, Maggie não tinha considerado se preferiria ter um menino ou uma menina. Os meninos sem dúvida tinham uma vida mais fácil nesse mundo do que as meninas.

Imagino que o Dr. Gordon lhe tenha dito isso replicou Mamãe Hogan, num tom de quem duvidava do seu conhecimento.

Ele tem filhos? perguntou Maggie. A irmã, Pamela, ao que se recordava, nunca tinha-se casado, mas não se lembrava de a tia ter dito nada sobre o irmão.

Não, ele e sua falecida mulher não tiveram filhos respondeu Cathleen.

A mulher dele morreu? Maggie apertou o último pedaço de fita adesiva no embrulho de Culley.

Morreu, há alguns anos, num acidente de automóvel. A tia fez uma pausa, e um súbito sorriso lhe iluminou a expressão. Gostaria que você pudesse ver como a casa está decorada para as festas, Mary Frances. Juro, Pamela convenceu o doutor a pendurar enfeites em cada aposento da casa. Você nunca viu na vida um irmão e uma irmã tão devotados um ao outro.

Maggie ficou pensando nisso, enquanto escrevia o nome de Culley no pacote. Talvez estivessem separados por milhares de quilómetros; talvez nem sempre tivessem concordado em tudo; apesar disso, eram ligados um ao outro.

Mas o Natal veio e passou, e Maggie não recebeu uma só palavra de Culley. Ela se preocupava, calada, enquanto escutavam os boletins metereológicos que falavam da nevasca que desabara sobre o Estado de Montana. Foi depois do Ano Novo que a moça recebeu o cartão de Natal do irmão com uma nota de 10 dólares enfiada dentro, e um bilhete escrito às pressas.

 

               3 de janeiro Querida Maggie,

Desculpe o atraso, mas não pude sair para botar o cartão no Correio. Até agora o inverno tem sido ruim. Um dos cavalos escorregou no gelo junto do bebedouro e quebrou a perna. Tive que atirar nele.

Desculpe não poder escrever uma carta maior, mas estou com uma dúzia de cabeças de gado desaparecidas. Posso ouvir o avião de Calder sobrevoando a fazenda. Está jogando feno para o gado dele. Duvido que tenha perdido uma única vaca. Tem a sorte do demónio.

Obrigado pelo cartão de Natal e as camisas. São bonitas. Tenho que ir agora.

                               Seu irmão, Culley

 

Ela estremeceu, lembrando-se daqueles invernos de Montana - o ar frígido apertando uma faixa gelada invisível na testa e congelando a umidade no nariz; a neve soprada pelo vento grudando-se às sobrancelhas e cílios; e o frio que entorpecia as pernas até que o cavaleiro não conseguia sentir o cavalo debaixo de si.

O bebé chutou dentro dela, e Maggie esfregou a mão pela barriga intumescida, como que a confortá-lo. As paredes da casa pareciam fechar-se sobre ela, confinando-a. Queria sair ir para algum lugar, qualquer lugar mas não podia. Estava quase na hora do almoço e ela ainda tinha uma lição de História Americana para estudar, sem falar nos dois membros mais velhos da casa, que não podiam ficar sozinhos. Lutou contra a melancolia inquietante e caminhou pesadamente para a cozinha.

No último fim de semana de março, Maggie entrou em trabalho de parto. Sete horas depois, deu à luz um bebezão de 3,850kg. Permitiram que ela segurasse o menino chorão, com sua cara vermelha de ameixa seca e a massa de cabelos negros e molhados. Nada daquilo pareceu muito real até mais tarde, depois que foi levada para o quarto para descansar.

Foi só no dia seguinte, quando a enfermeira o trouxe para mamar, que Maggie examinou os dedinhos minúsculos dos pés e das mãos, perfeitamente formados, e riu da boquinha que buscava ansiosa o bico da mamadeira. Foi então que veio a onda de amor materno. Era um brilho cálido que vinha de dentro e se irradiava das suas feições, quando ela lançou um olhar para a tia, do outro lado do quarto. Cathleen chegara há poucos minutos.

O Ty não é o bebé mais bonito que já viu? insistiu Maggie.

O comentário era um convite indireto para fazer parte da cena, e Cathleen se aproximou, parando ao lado da cama. Seus dedos roçaram carinhosamente a cabeleira espessa e macia do bebé.

Sem dúvida concordou Cathleen, rindo baixinho. Sinto-me como uma avó, em vez de uma tia-avó. Parou para admirar de novo o sobrinho. Ele tem muito cabelo. Acho que os seus olhos vão ser castanhos.

Meu pai tinha olhos castanhos. Maggie recusava-se a lembrar que os olhos de Chase eram castanhos. A mamadeira ficou vazia. Ela a deixou de lado e levou o pequeno Tyrone O'Rourke ao ombro, batendo nas suas costas para que arrotasse.

Mamãe Hogan mandou um presente para o bebé disse Cathleen, entregando a Maggie uma caixa embrulhada para presente.

Ela conseguiu equilibrar o bebé contra o ombro e tirar a fita para abrir a tampa da caixa. Dentro dela havia um casaquinho azul e um bonezinho de tricô combinando, com um biquinho redondo.

Vou vesti-lo com essa roupa no dia em que ele for para casa resolveu Maggie. Quando ergueu os olhos, viu a Bíblia encadernada que Cathleen segurava, de extremidades gastas.

Isso é para você. A tia correu a mão com carinho pela superfície do livro antes de oferecê-lo a Maggie. É a Bíblia da família Malloy, meus pais e de sua mãe. Já que você, o pequeno Tyrone e seu irmão representam os últimos descendentes que restam, quero que fique com ela. Minha mãe me deu, mas não tenho filhos. É justo que fique com você.

Maggie fitou-a, sem saber direito o que dizer.

Obrigada murmurou finalmente, um leve aperto na garganta.

A enfermeira entrou no quarto, alegre e animada, como pareciam ser todas as enfermeiras da maternidade.

Tyrone já tomou a mamadeira?

Até o finzinho confirmou Maggie.

Puxa, que garotinho esfomeado, hem? declarou a enfermeira, com um amplo sorriso de aprovação, o olhar meigo enquanto fitava a cabecinha adormecida pousada no ombro de Maggie. Vai crescer e ser grande e forte e tomar conta da mamãe. Lançou um olhar de desculpas para Maggie. Está na hora de levá-lo de volta para o berçário.

Está bem. Entregou, relutante, o filho à enfermeira.

Parece que Tyrone recebeu um presente hoje. A enfermeira parou ao lado da cama com o bebé nos braços para admirar o casaquinho. Quando notou a Bíblia no colo de Maggie, sua expressão ficou curiosa. O que é isso?

A Bíblia da família. Abriu o Livro Sagrado na página que registrava os nascimentos, mortes e casamentos da família Mailoy e seus filhos.

Puxa, que bacana! declarou a enfermeira, e se aproximou mais para enxergar melhor. Ali é o lugar onde você vai escrever as informações sobre o nascimento de Tyrone, dizendo a data, hora e local, o seu nome e o do pai, se você souber.

Foi um comentário inocente, sem nenhuma intenção de desdouro para o caráter de Maggie. No entanto, esta enrijeceu ante a insinuação de que não sabia o nome do pai de Ty. Para ela, este era um pecado pior do que dar à luz um bebé sem ser casada.

Quer me emprestar sua caneta, Tia Cathleen? pediu. Quero anotar o nascimento de Ty na Bíblia.

A enfermeira saiu do quarto antes de ver a caligrafia claramente legível escrever o nome de Chase Calder. A tia não pôde demorar-se muito porque os sogros estavam em casa sozinhos. Quando ela se foi, Maggie escreveu a Culley para informá-lo do nascimento do sobrinho.

 

           2 de abril Querida Maggie

Que bom que você e o bebé estão bem.

Espero que não tenha ficado preocupada por não ter tido notícias minhas durante tanto tempo. Foi um inverno duro, mas até que sobrevivi direitinho. As vacas estão dando cria, portanto ando muito ocupado. Emagreci um pouco. Acho que sinto falta da sua comida. Do jeito que a casa anda, sente falta sua também.

Buck Haskell foi acusado de roubo, assalto e agressão. Neil Anderson se embebedou no Jake's na outra noite. Buck seguiu-o até o caminhão e deu-lhe uma pancada na cabeça e roubou-o. Uma das garotas do Jake viu tudo de uma das janelas do andar de cima. Quer apostar que Calder vai livrar a cara dele?

Cuide-se.

                           Seu irmão, Culley.

 

Buck deu meia-volta, agitado, depois tornou a se virar para Webb Calder, à escrivaninha, as feições juvenis retorcidas de fúria.

Vai aceitar a palavra de uma puta contra a minha? Já falei que nem cheguei perto do Anderson! Nem vi quando ele saiu! Aquela piranha está mentindo descaradamente!

Webb olhou para Ruth, que estava parada a um canto. Ela mordia o lábio, piscando os olhos como se estivesse contendo as lágrimas.

Cuidado com o palavreado, Buck advertiu. Não era a favor de dizer palavrões diante de mulheres. Demonstrava falta de respeito. E especialmente não gostava da ideia de Buck dizer palavrões diante da mãe.

Não posso fazer nada! O punho cerrado dele cortou os ares, num golpe para baixo. Nunca esperei que você fosse duvidar...

Não é uma questão de dúvida, ou do que acredito interrompeu Webb, vivamente. São acusações sérias, as que foram levantadas contra você. Não as estou tratando com superficialidade, nem você devia fazê-lo. Sempre estive ao lado dos meus homens, quando estavam em dificuldades. Ficarei a seu lado. Agora, a moça alega que o viu dar uma pancada na cabeça de Anderson e roubálo. Temos que estabelecer onde você estava e o que fazia, naquela hora.

Quem presta atenção na hora, quando está bebendo? argumentou Buck. Eu não sabia que ia precisar de um álibi. Joguei um pouco de pôquer, bebi... Fez uma pausa, lutando para achar algo mais específico. Então seu olhar pousou em Chase, de pé junto à lareira, o braço apoiado na cornija. Estive com o Chase a maior parte do tempo. Pergunte a ele.

É verdade. Chase balançou a cabeça, com a mesma expressão sombria que estava no rosto de todos no escritório... o do pai, e os dos pais de Buck, Ruth e Virgil Haskell. Só que no de Buck, ela apresentava uma qualidade de desespero. Buck e eu estivemos juntos quase que toda a noite inteira, porém, como ele, também não prestei atenção na hora.

Eu podia estar no banheiro quando Anderson levou a pancada na cabeça. Buck ergueu as mãos, num gesto de súplica.

Aquela... moça alega que me viu, mas quem sabe falou isso porque foi ela mesma que o agrediu. Cadê o álibi dela? Quem estava lá em cima com ela, quando supostamente me viu? Ela bem que podia ser a pessoa que derrubou Anderson e o roubou. Aposto que foi isso que realmente aconteceu. Anderson nem viu quem o atingiu. Ele mesmo disse. Por que não podia ter sido uma mulher?

Admito que é possível falou Webb.

Por que outro motivo ela teria esperado até o dia seguinte para contar ao xerife? Por que não se apresentou naquela noite, quando o encontraram? Isso não me está cheirando bem insistiu Buck. Espere aí! Virou-se de novo para Chase, tendo-se lembrado de uma coisa. Eu lhe pedi cinco dólares emprestado, ontem... antes de eles terem achado o Anderson lá fora. Será que eu estaria pedindo dinheiro emprestado, se tivesse acabado de roubar alguém?

Não, isso não faria sentido concordou Chase.

Pronto! Está vendo! Isso prova o que digo! declarou Buck, com um aceno decisivo de cabeça.

Webb passou a mão pela boca de uma maneira pensativa, depois bateu-a no tampo da escrivaninha.

Vou ver o que posso fazer para acertar tudo isso. Nesse meio tempo, Buck, aconselho-o a ficar afastado do Jake's, até que tudo se esclareça.

Pode deixar por minha conta afirmou Virg. Vamos, rapaz. Fez sinal ao filho para vir com ele, depois lançou um olhar ao homem que se erguia da cadeira atrás da escrivaninha.

Obrigada, Webb, por apoiar o rapaz.

Buck é da família. A frase explicava tudo. Virg virou-se para a mulher.

Você não vem, Ruth?

O olhar dela dardejou de Webb para o marido.

Num minuto, Virg. A expressão de Virgil Haskell endureceu ligeiramente, quando lançou um olhar agudo para Webb, depois virou-se para acompanhar o filho para fora da sala. Depois que os dois tinham saído, Ruth deu um passo hesitante na direção de Webb. Estava com as mãos fortemente entrelaçadas, formando uma bola. O seu sorriso forçado revelava a extensão da sua preocupação. Só queria agradecer-lhe... por ajudar o Buck. A voz era muito baixa, mas estava firme.

Sabe que farei tudo o que puder, Ruth. Sentiu um forte impulso de tomá-la nos braços, segurá-la e confortá-la, mas não lhe cabia oferecer tal tipo de conforto.

Buck é doidivanas, às vezes, mas não é mau insistiu Ruth.

Eu sei. Webb tomou-lhe as mãos crispadas e alisou-as entre as suas palmas ásperas. Não se preocupe. Está bem?

Está. Ruth sorriu, mas havia um brilho de lágrimas nos seus olhos azuis. Obrigada. Era um sussurro, dado enquanto apertava as mãos dele e logo retirava as suas, para sair atrás do marido e do filho.

Webb ficou parado por muito tempo depois que a porta da frente se fechara, fitando a direção que lhe dera o último vislumbre de Ruth. Detestava admiti-lo até para si próprio, mas estava preocupado com Buck. O rapaz era inteligente, talvez metido a esperto demais para o seu próprio bem. Havia um conflito acontecendo dentro de Buck, parte da transformação em adulto, quando os impulsos para o bem e o mal permanecem equilibrados ou se inclinam para um lado ou para o outro. O furto existia na alma de todo homem; era apenas uma questão de grau.

Inspirou fundo e se virou para olhar o filho. Webb também estava preocupado com a lealdade cega de quase-fraternidade que ligava Chase a Buck. Havia falhas que se deviam ignorar nos amigos, mas primeiro era preciso que fossem vistas e reconhecidas, antes que pudessem ser ignoradas. Caso contrário, haveria uma dura estrada de desilusão à frente. Se Chase tinha um ponto fraco, era o Buck. Webb queria abrir os olhos do filho.

O que você acha? Foi o Buck? O desafio penetrante dentro da pergunta estava oculto pela maneira tranquila e natural com que foi feita.

Buck? Chase ergueu a cabeça e franziu a testa, olhando para o pai. Claro que não. Um dólar não fica no bolso dele por mais de dez minutos, mas ele não o rouba de outra pessoa. Afastou-se da lareira, uma certa agitação no gesto, que revelava que se ressentia da pergunta ter sido feita. Além disso, ele estava comigo, quando a coisa aconteceu.

Pensei que você não tinha certeza lembrou Webb.

Mas tenho. Jurarei, se for preciso afirmou Chase.

Se você lhe fornecer um álibi, as acusações serão arquivadas. Webb estava tentando deixar bem claro o poder que tinha a palavra de um Calder, um poder de que não se devia abusar.

As acusações devem ser arquivadas, porque sei que não foi ele. A tal garota não pode ter certeza absoluta de que foi o Buck que viu da janela. Estava escuro demais lá fora, sombras demais. Cometeu um erro.

Contanto também que você não esteja cometendo um erro murmurou Webb, dirigindo-se para a escrivaninha.

 

Um mês após Maggie ter voltado do hospital com Ty, Papai Hogan sofreu um derrame que o deixou paralisado. Cathleen foi forçada a interná-lo numa casa de saúde, onde havia as condições adequadas para cuidar dele. A rotina doméstica, que já fora alterada uma vez para acomodar o acréscimo de um bebé, foi mudada de novo para incluir duas visitas diárias à casa de saúde pela artrítica Mamãe Hogan.

Cathleen a levava para fazer uma visita de uma hora todas as noites, enquanto Maggie acompanhava a senhora idosa à casa de saúde todas as manhãs, depois que Ty tomava o seu banho diário. A situação era difícil para todos, mas era especialmente dura para Mamãe Hogan. O casal jamais dormira separado durante toda a sua vida de casados. Durante horas a mulher ficava sentada na sala da frente fitando o espaço, perdida sem a companhia do marido de 50 e tantos anos.

Voltando de uma visita matinal, Maggie soltou um suspiro desanimado e ajeitou Ty na curva de um dos braços para poder destrancar a porta. Jamais trancavam a porta de casa em Montana, mas ela logo aprendera que era quase uma regra fundamental na cidade. Escancarou a porta e se virou para ajudar a mulher idosa a subir os degraus da frente e entrar em casa, depois voltou lá para fora para apanhar a correspondência diária na caixa.

Chegou o novo número de Seleções, Vovó Hogan. Notara a revista entre os poucos envelopes enquanto voltava a entrar na casa, fechando e trancando a porta. Quer dar uma espiada?

Não houve resposta, nem sinal de que a mulher a escutara, enquanto usava a bengala para se apoiar e tomar assento na poltrona da sala da frente. Maggie não insistiu numa resposta. Ty começava a dar sinais de estar com fome, sendo assim ela o levou para a cozinha para esquentar a mamadeira e um pouco de comida para bebés. Felizmente ele era um bebé bom, um bebé sadio, que quase não chorava e dormia a noite toda.

Depois de alimentar Ty e colocá-lo no seu cesto para dormir, foi aquecer um pouco de sopa para si e para Mamãe Hogan, depois deu uma olhada no resto da correspondência. Um dos envelopes tinha o carimbo postal de Montana. Maggie abriu e leu:

 

               20 de maio, Querida Maggie,

Lamentei saber sobre o sogro de Tia Cathleen. Espero que ele esteja melhor.

Eu tinha razão. As acusações de roubo contra Buck Haskell foram arquivadas. Chase Calder alegou que Buck estava com ele quando Anderson foi roubado. Os idiotas acreditaram na palavra do criminoso. E o xerife obrigou a garota do lake aquela que viu Buck Haskell a deixar a cidade.

Aquele pessoal do Calder acha que pode safar-se de qualquer coisa. Mas não pode. Mais cedo ou mais tarde eu acharei um jeito de detê-los.

Eu estou bem. Vou ficando por aqui.

             Seu irmão, Culley

 

Maggie dobrou a carta e voltou a colocá-la no envelope. Podia sentir a necessidade de vingança do irmão correndo nas próprias veias. Era um veneno penetrante que invadia seu organismo, endurecendo-a para que jamais pudesse perdoar.

Aquilo a afetou, assim como a tensão das últimas semanas e a depressão natural que sucede ao parto. Tanto ela quanto Mamãe Hogan mal tocaram no almoço que preparou. Logo que a mesa da cozinha ficou limpa, Maggie pegou nas suas lições. Durante todo aquele tempo, não se descuidara dos estudos, mas hoje não conseguia concentrar-se. Estava inquieta demais, confinada demais. Finalmente, desistiu de tentar e escreveu uma carta para Culley, ao invés disso.

Quando Ty acordou da sua soneca da tarde, ela usou a carta terminada como desculpa para sair de casa. Pediu à vizinha para dar uma espiada na velha Sra. Hogan enquanto ela levava o bebé para dar uma volta e punha a carta do irmão no Correio.

Logo que a carta de Culley foi colocada numa caixa de coleta de esquina, Maggie continuou seu passeio. Era uma distância considerável até a casa onde a tia trabalhava para a família Gordon, mas ela sabia que podia voltar de carro com Cathleen, portanto não se apressou. Essas saídas eram raras demais para ela fazer tudo às carreiras. Carregando o bebé de olhos e cabelos escuros nos braços, foi caminhando ao longo da borda gramada da auto-estrada que serpenteava por aquela extremidade superior do Vale de San Fernando.

Ficar sozinha sem amigos não era novidade para ela. Tampouco o era a responsabilidade de cuidar de uma casa e de outras pessoas, embora só fosse fazer 17 anos no verão. Mas ficar confinada por longos períodos era incomum. Maggie se adaptara ao clima mais quente, à grande população da área, até mesmo a cuidar de uma criança, mas o fato de ficar confinada à casa e ao pequeno quintal a estava sufocando.

A ambição de toda uma vida de deixar Montana não saíra de acordo com suas expectativas, e ela culpava os Calders por isso. Porque eles tinham matado seu pai, ela fora forçada a deixar a casa antes de estar pronta. Embora amasse Ty e nem sequer cogitasse de dá-lo para adoção, tinha consciência de que ele era um fardo para uma garota de 16 anos. Aquilo era culpa de Chase Calder, porque ele a enganara fazendo-a acreditar que não ia deixá-la grávida. Todos os problemas dela remontavam aos Calders.

Não havia como apagar as lembranças do passado. Estava ligada a elas pelas cartas do irmão e pelas suas referências amargas aos Calders. À noite, tinha sonhos eróticos de Chase fazendo amor com ela... sonhos que sempre acabavam em pesadelos, com o enforcamento do pai. E o passado vivia nesse filho homem que ela estava carregando, um menino que já mostrava a estrutura óssea grande dos Calders, ao invés da ossatura estreita dos O'Rourkes. Maggie não podia esquecer, portanto aquilo ardia dentro dela, tornando-a resolvida a ter êxito, a despeito de todos os obstáculos.

Andando ainda mais devagar, fitou as propriedades por que passava, casas tão belas quanto a Casa Grande, exceto que estavam situadas em pedaços bem menores de terra... de 20 a 50 hectares, em comparação com centenas de milhares. Grades brancas de cercados brilhavam ao sol da Califórnia, enquanto mansões brancas sombreadas por árvores marcavam o final da alameda. Dentro dos cercados, havia cavalos pastando, o pêlo liso escovado e lustroso.

No passado, Maggie encarara os cavalos como um meio de transporte necessário e associara o cavalgar com longas e cansativas horas numa sela. Agora, não conseguia imaginar nada de mais prazeroso do que ter um cavalo sob si e o espaço para montá-lo... sentir o estrondo dos seus cascos no solo. Sentia falta do cheiro de suor de cavalo e couro de sela, todas as coisas familiares, o mugido do gado e o gosto de um café feito na fogueira de um acampamento. Sentiu uma dor dentro de si e cerrou os dentes porque dera as costas a tal tipo de vida. Sua pele jamais sentiria de novo flanelas e brins. Seriam sedas e rendas e perfumes.

Mudando Ty para uma posição mais confortável nos braços, Maggie dobrou na alameda particular que levava à casa dos Gordons, uma mansão colonial de dois andares com uma frente em colunata, e a amplidão verde de um gramado com arbustos e árvores frondosas. O carro da tia ficava sempre estacionado junto à garagem nos fundos da casa, local onde Maggie sempre esperara nas poucas vezes em que viera encontrar a tia aqui. Seu destino era o mesmo, hoje, até que teve sua atenção despertada por uma comoção nos estábulos.

Um cavalo castanho lustroso tinha fugido do cavalariço e estava solto fora do estábulo e dos cercados. Três homens estavam tentando apanhá-lo, aprisionando-o num canto formado por uma parede externa do estábulo e as grades brancas de uma cerca. Tinham conseguido confiná-lo naquela área geral e fazê-lo recuar cada vez que o cavalo tentava correr para a liberdade do terreno sem cercas, mas o castanho se esquivava de toda a tentativa de agarrar seu cabresto, escoiceando com as patas dianteiras. Toda a gritaria e agitação estavam deixando mais excitado o animal já muito nervoso, que girava os olhos escuros de pânico, deixando o branco à mostra, e cujo pescoço escurecia de suor nervoso.

Um homem dobrou o canto dos estábulos com uma corda enrolada nas mãos. Quando ele apareceu, um homem alto, magro e grisalho se destacou dos demais para dirigir a captura. Maggie lançou-lhe um olhar de inspeção, notando a camisa de malha branca de gola roulée e os culotes pretos enfiados nas botas de couro até os joelhos. Suas vestes já o destacavam dos demais homens, que usavam camisas e jeans, assim como sua autoridade tranquila.

O movimento chamou a atenção dela para o homem com a corda. Com a primeira laçada débil que deu, tornou-se aparente para Maggie que ele jamais laçara outra coisa senão um poste, em toda a sua vida. Cada tentativa era mais patética do que a anterior. O bater da corda no flanco ou na perna do cavalo assustava-o ainda mais e o deixava num estado pior de agitação. O capão castanho estava desesperadamente assustado em relação a qualquer coisa que se mexesse. Maggie se deu conta de que, a qualquer minuto, o pânico puro do animal faria com que se machucasse. A inépcia dos seus pseudocaptores era mais do que a moça podia suportar. Aborrecida e impaciente com o que estava vendo, adiantou-se para o homem alto e grisalho. Ele baixou os olhos, surpreso, quando ela lhe enfiou o bebé nos braços.

Segure Ty para mim ordenou, sucintamente, e não esperou a resposta dele, parcialmente cônscia de que o havia deixado mudo e confuso. Sem Ty a atrapalhá-la, correu para o homem com a corda e estendeu a mão para tirá-la dele. Dê-me essa corda.

Ei! O homem fechou a cara, surpreso, ante a garota de ar severo com os cabelos pretos presos num rabo-de-cavalo, e tentou arrancar a corda das suas mãos. O que você está fazendo? Saia daqui antes que se machuque.

O único que vai acabar se machucando é o cavalo. Agora, passe a corda. É óbvio que você não sabe usá-la. Maggie plantou os pés firmemente no solo e usou cada centímetro do seu corpinho de 1,60m como alavanca para arrancar a corda dos dedos dele. Sem estar preparado para a força e determinação dela, o homem soltou a corda e Maggie acabou com ela nas mãos, recuando rapidamente para longe do homem. Emitiu uma ordem brusca para os outros. Todo o mundo cale a boca e fique parado. Toda essa agitação só está assustando o cavalo.

O choque e a visão de uma garota miúda assumindo o controle fizeram com que todos obedecessem, e Maggie se adiantou devagar para o cavalo, enquanto seus dedos distraidamente sentiam a corda e formavam o laço. O cavalo fitou-a por um segundo desconfiado, depois correu para uma brecha entre dois homens. Os reflexos de Maggie eram igualmente rápidos, o padrão de ação firmemente entranhado em sua mente, embora há meses não fosse preciso ultilizá-lo. Girando o braço uma vez acima da cabeça, jogou o laço, antecipando para que lado o cavalo se moveria, e o conduzindo. O cavalo se desviou e enfiou a cabeça no laço.

Não havia nada em que amarrar o cavalo, e Maggie escorou a extremidade da corda com o quadril, usando todo o peso do corpo para segurar o animal, em vez de confiar na força dúbia dos braços. Preparou-se para o instante em que o castanho atingiria o final da corda e deixou o ímpeto do animal carregá-la num caminhar deslizante. Logo que o laço se apertou no pescoço do animal, ele deixou de resistir à pressão, embora continuasse a semi-empinar e a saracotear ansiosamente. Dois dos cavalariços vieram correndo para agarrar-lhe o cabresto, enquanto o terceiro homem, o tal que trouxera a corda, adiantou-se para ajudar Maggie. Havia admiração a contragosto no seu olhar, além de uma sensação de ressentimento por aquele fiapo de gente ter tido êxito tão facilmente onde ele falhara.

Eu fico com ele agora insistiu o homem. Maggie entregou-lhe a corda sem protesto. A euforia do sucesso estava nos olhos da garota.

Um choramingo queixoso de Ty fez Maggie se dar conta de que deixara seu bebé com um total estranho. Tyrone estava-se contorcendo nos braços do homem, socando o ar com o punho como se, também ele, estivesse percebendo que não conhecia o homem que o segurava. Ela correu para pegá-lo antes que começasse um protesto maior.

Obrigada por segurá-lo. Mal fitou os olhos cálidos e cinzas do homem, enquanto estendia as mãos para Ty, que estava fazendo bico para chorar, quando ela o tomou nos braços. O bebé levou um segundo para perceber que estava em território familiar, antes de relaxar.

Eu é que devia estar-lhe agradecendo declarou o homem, e inclinou a cabeça para o lado, examinando-a com interesse. Onde aprendeu a laçar desse jeito?

Fui criada numa fazenda. Aprendi a laçar quase que ao mesmo tempo que aprendi a montar.

Maggie deu uma palmadinha nas costas de Ty de uma maneira que confortava e tranquilizava. Depois da sua experiência com Chase, criara uma desconfiança dos homens, portanto, quando ergueu os olhos para o homem não confiou totalmente na simpatia do seu rosto bonito e sorridente. Seu cabelo era um pouco grisalho, mas a vitalidade bronzeada de suas feições fazia com que parecesse maduro e distinto, em vez de velho.

Folgo com isso. Se Copper's Chance tivesse fugido de nós e chegado à rua... com todo aquele tráfego, nem gosto de pensar no que lhe poderia ter acontecido. Não paguei vinte e cinco mil dólares por esse cavalo para que ele seja atingido por um carro, portanto sou-lhe eternamente grato por ter aparecido no momento certo.

Maggie fitou-o incrédula por um momento, depois deu uma breve risada.

Acho que não entende muito de cavalos. Passaram-lhe a perna. Esse cavalo é capado.

A cabeça dele se moveu para trás, e ele soltou uma risada gostosa para o alto.

Estou perfeitamente ciente de que Copper's Chance é um capão. Não o comprei para reprodutor, mas para exibição, Srta...?

Maggie. Maggie O'Rourke. Ela deu o seu nome distraidamente, ainda tentando compreender a explicação dele. Quer dizer que esse cavalo vale mesmo tanto dinheiro?

Vale. É um saltador de primeira.

Maggie sabia que havia cavalos que saltavam, mas não imaginara que pudessem ser tão valiosos. Um garanhão de qualquer raça podia, concebivelmente, valer tanto, mas um capão sem capacidade reprodutora... aquilo lhe dava o que pensar.

O que o assustou? perguntou ela.

Não sei admitiu o homem. Ele chegou da Virgínia de avião hoje de manhã. Nós o tiramos do reboque faz vinte minutos. Pode ser que tenha ficado nervoso com tanta viagem. Sacudiu a cabeça como que a demonstrar que apenas podia imaginar a causa.

A última frase mal acabara de ser pronunciada, quando Maggie sentiu uma estranha vibração. Parecia que o solo estava-se movendo debaixo dela. Arregalou os olhos de alarme quando a sensação aumentou.

O que está acontecendo? Apertou Ty mais junto ao corpo e olhou em derredor, vendo os galhos das árvores se mexendo, muito embora não houvesse brisa.

Vamos. O braço do homem estava a seu redor, empurrando-a e dirigindo-a para uma área mais aberta. Estendeu a mão para incluir protetoramente o bebé e mantê-lo em segurança nos braços dela. Quando tinham dado meia dúzia de passos, a curiosa vibração cessou.

O olhar arregalado de Maggie se ergueu para o homem, buscando uma explicação.

Era... um terremoto? Ouvira falar deles, mas não estava inteiramente certa de que fora o que experimentara.

Era. Deve ser isso que assustou o cavalo. Dizem que os animais podem pressentir a chegada de um terremoto. Sorriu para ela, soltando os braços dos seus ombros para deixá-la livre. Seu primeiro? adivinhou o homem.

É respondeu Maggie, os joelhos ainda trémulos.

De onde você é?

Montana. Quando Ty gorgolejou de encontro ao ombro dela, Maggie olhou rapidamente para ele para ver se estava assustado, mas ele estava com um daqueles sorrisos desdentados de bebé na cara que indicava alegria, ao invés de medo. Tudo bem, Ty confortou-o, para tranquilizar-se, já que ele não estava precisando.

Que menino saudável observou o homem. É o bebé dos Van Dorens?

Não, Ty é meu afirmou Maggie, com um olhar rápido e orgulhoso que também era defensivo. Viu a surpresa e as perguntas que apareceram nos olhos cinzentos. Respondeu-as sem esperar para ver se a boa educação o impediria de fazê-las. Tenho dezesseis anos e não sou casada. Estava preparada para o aparecimento de uma expressão de desdém no rosto dele, mas ela não veio, embora a examinasse mais atentamente.

Ty. Um sorriso de aprovação começou a despontar enquanto ele dizia o nome do filho dela. É um bonito nome.

Maggie baixou os olhos para o bebé, sem ter certeza se a reação do homem era sincera.

Obrigada.

Houve uma pausa antes de o homem sugerir.

Posso oferecer-lhe uma carona para algum lugar? É o mínimo que posso fazer depois que salvou meu cavalo explicou, como que adivinhando que ela se ressentiria de qualquer coisa que se assemelhasse a caridade ou pena.

Não, obrigada. Maggie ficou feliz por poder recusar. Vou-me encontrar com minha tia. Vou de carro com ela para casa. Ela trabalha para o Dr. Gordon e a irmã.

A Sra. Hogan... Cathleen Hogan é sua tia? A testa franzida denotava curiosidade e surpresa agradável.

Sim.

Perdoe-me por não ter-me apresentado. Sou o Dr. Phillip Gordon. Estendeu a mão para ela. Notou que seus dedos eram longos e quase femininamente esguios. Lembro-me agora de que Cathleen mencionou que tinha uma sobrinha morando com ela. Não liguei as coisas e não pensei que poderia ser você.

Também não sei quem pensei que o senhor poderia ser. Maggie apertou a mão dele, sentindo a forma dos seus dedos

enquanto tentava lembrar-se de tudo o que Cathleen lhe contara sobre seus patrões. Ele acabara de fazer 40 anos, lembrava-se Maggie. Tia Cathleen só falara coisas boas dele. Maggie estava mais propensa a confiar no julgamento da tia do que no próprio. Relaxou ligeiramente suas defesas.

Por que não vem até lá em casa? convidou ele. Sei que minha irmã, Pamela, gostaria de conhecer você e o bebé.

Maggie hesitou apenas um instante antes de aceitar.

Está bem, assim posso avisar a Tia Cathleen que estou aqui.

A casa era tão imponente por dentro quanto por fora. Espaçosa e arejada, decorada em vivas cores da Califórnia, tinha pisos frescos de azulejos e mobiliário luxuoso com antiguidades espalhadas por toda parte. Havia uma certa fragilidade na decoração que refletia uma influência feminina.

Maggie perdeu a respiração quando o Dr. Gordon lhe apresentou a irmã. A despeito de estar confinada a uma cadeira de rodas, Pamela Gordon personificava tudo o que Maggie esperava alcançar, um dia. Tinha os olhos da mesma cor cálida de cinza do irmão, mas com cílios espessos e um traço de sombra cor de lavanda nas pálpebras. As feições eram esguias, como as dele, mas lindamente femininas. Em vez de cabelos grisalhos, os dela eram de um louro-prateado e elegantemente penteados. Usava um robe oriental sem mangas com uma gola de mandarim, as pernas sem vida escondidas sob a veste comprida. Tudo nela parecia a epitome da beleza e da graça. Se isso não fosse o bastante para merecer a admiração de Maggie, ela foi selada pelo fascínio da mulher loura pelo Ty.

Posso segurá-lo? perguntou Pamela Gordon, numa voz suavemente modulada. Maggie entregou Ty em seus braços. O bebé imediatamente agarrou um punhado dos cabelos louros-prateados. Maggie, que sempre se surpreendera com a força da mão de um bebé, rapidamente foi salvar a mecha de cabelo, libertando-a dos dedos dele antes que lhe desse um puxão.

Quem sabe é melhor que eu o segure disse Maggie, em tom de desculpas.

Oh, não, por favor protestou Pamela, e abraçou-o ainda mais, segurando a mãozinha antes que ela pudesse agarrar outro punhado de cabelo. Ele pode puxar o meu cabelo na hora que quiser. Apertou uma face perfumada contra a do bebé. É uma fofura.

Essa é uma coisa que nos faltou na vida, tanto a Pamela quanto a mim Phillip explicou discretamente para Maggie, vendo a irmã brincar com o garotinho. A alegria de ter crianças à nossa volta.

Quando a tia Maggie apareceu dali a alguns minutos para dizer que estava pronta para partir, Pamela pediu-lhes para ficar.

Só mais um pouquinho... o tempo de tomar um refresco insistiu.

Não podemos recusou Maggie, gentil mas firmemente. Vovó Hogan nos está esperando. Prometi que iríamos direto para casa para ela poder ir cedo para a casa de saúde ver Vovô Hogan.

Houve um momento de resistência quando ela começou a tirar Ty dos braços de Pamela, antes que a mulher o soltasse, com relutância.

Você volta de novo? Pamela virou os olhos cinzentos ansiosos para Maggie, tão meigos e brilhantes, como um veludo. E traz o Ty?

Sim prometeu Maggie.

No dia seguinte ela escreveu outra carta para Culley, enquanto Ty tirava a sua soneca. Descreveu seu primeiro terremoto, como laçara aquele cavalo custoso, e como Phillip e Pamela Gordon tinham sido simpáticos com ela. Era a primeira coisa especial que lhe tinha acontecido desde que chegara à Califórnia, exceto dar à luz o Ty, é claro.

 

A campainha da porta tocou. Maggie alisou a saia preta do vestido. Era a segunda vez que estava tendo que usar preto, nas duas últimas semanas. A primeira fora em junho, para comparecer ao enterro de Papai Hogan. A segunda era para comparecer ao enterro de Mamãe Hogan, que se deixara morrer uma semana depois do marido.

Maggie não tinha chorado quando o pai morrera, e não derramara lágrimas com o falecimento do casal idoso. Perguntou-se intimamente se havia algo de errado com ela... se Chase havia tirado sua capacidade de sentir as coisas. A tensão de manter aquilo tudo preso dentro de si aparecia no retesamento de suas feições, tornadas ainda mais brancas pelo vestido preto que usava e a cor negra retinta do cabelo.

Quando ela entrou na sala de visitas da casa da tia, Cathleen já tinha atendido à porta. Maggie observou, externamente impassível, enquanto a tia se submetia ao abraço compassivo e reconfortante de Phillip Gordon, depois tocava os olhos vermelhos de lágrimas com um lencinho de renda. Pamela o acompanhava, na sua cadeira de rodas, e abraçou Cathleen quando a mulher mais velha se abaixou para cumprimentá-la.

Phillip atravessou a sala, resplendente num terno cinza. Sorriu para Maggie com aquele seu jeito tranquilo, e segurou as mãos que ela inconscientemente agitara em frente de si.

Como vai, Maggie? perguntou, e examinou a imobilidade das suas feições. Ele enxergava a perfeição, quando a via; os contornos equilibrados da estrutura óssea, tudo na proporção adequada. Não havia meio de sua perícia cirúrgica melhorar o dom da beleza natural.

Estou bem, obrigada replicou ela, numa voz sem emoção.

Ele correu os olhos pela expressão propositalmente inexpressiva. Já tinha visto essa parede levantada nas poucas vezes em que ela visitara a casa dele. Geralmente, acontecia quando lhe faziam uma pergunta inocente sobre os pais, sua infância, ou o pai do seu filho ilegítimo. O último tópico ele podia entender que ela se sentisse relutante em discutir. No entanto, não queria falar nos pais, especialmente no pai, ou no que fora sua vida antes de se mudar para a Califórnia.

Isso deve ser difícil para você. É muita coisa para enfrentar, na sua idade condoeu-se Phillip.

Maggie retirou as mãos, recusando o conforto que ele oferecia.

A morte só é difícil para os que estão vivos. Sua sabedoria e experiência estavam além de sua idade.

Pamela e eu viemos oferecer os nossos pêsames e ver se havia alguma coisa que pudéssemos fazer para ajudar. Teve consciência da rejeição dela. Phillip não se lembrava de ter conhecido alguém tão jovem e que tivesse tanto orgulho e independência. Já disse a Cathleen que ela pode sentir-se à vontade para consultar meu advogado, se houver alguma questão legal referente à herança dos seus falecidos sogros. Quanto a contas de médico ou...

Maggie o interrompeu antes que pudesse oferecer qualquer assistência financeira.

Creio que havia seguro de vida suficiente para pagar as contas e o enterro. Não tinham bens, exceto os seus pertences pessoais. Tardiamente, deu-se conta de que tinha sido fria ao negar o oferecimento de ajuda. Mas é gentileza sua oferecer, de qualquer forma. Sorriu, um tanto formalmente.

Não é questão de gentileza, mas de querer bem insistiu ele. Ao longo dos anos, a Sra. Hogan... sua tia... tornou-se mais do que uma empregada para Pamela e eu. Este é um período difícil para ela... e para você. Gostaríamos de torná-lo o mais fácil possível.

Naturalmente.

Ela não podia pensar em mais nada para dizer.

O que vai fazer agora, Maggie? Não gostava do nome. Não parecia combinar com a moça confiante parada diante dele.

Vou continuar meu curso por correspondência para obter meu diploma replicou, sem hesitação. Nesse meio tempo, vou procurar um emprego e uma boa creche onde deixar Ty enquanto eu estiver trabalhando.

Não é fácil arranjar emprego murmurou Phillip.

Eu vou arranjar um afirmou ela. Logo que obtiver meu diploma da escola secundária, vou fazer faculdade.

A admiração brilhou nos olhos dele ante a determinação inflexível dela. Ela ia arranjar emprego e ela ia para a faculdade, Não era "eu quero", porém "eu vou". Era uma moça notável, linda e resoluta.

Ela virou-se parcialmente para incluir Pamela.

Querem um pouco de café ou chá?

O consenso foi pelo chá. Cathleen soltou a mão de Pamela para se levantar.

Deixe que eu preparo, Mary Frances.

Fique aqui e faça sala para os Gordons insistiu Maggie. Eu me ajeito.

Enquanto saía da sala, ouviu Cathleen dizer:

Deus me enviou essa menina porque sabia que precisaria dela para suportar essas semanas.

O comentário fez Maggie se sentir feliz porque sua presença tinha um propósito e não era um fardo para a tia. Fez o chá direitinho, como a tia lhe ensinara, deixando o bule esquentar enquanto a água estava no fogo. Encheu o bule com a água quente, mas não fervente, e acrescentou as folhas de chá soltas. Deixando o chá de lado em infusão, arrumou a bandeja com a mesma precisão que vira na casa de Pamela Gordon, incluindo as frágeis xícaras de porcelana, creme e açúcar e fatias de limão.

Quando levava a bandeja para sala, ouviu Pamela Gordon insistindo:

O que você realmente precisa, Cathleen, é de uma mudança de ambiente. Phillip e eu sempre quisemos que você morasse conosco. Nunca insistimos porque sabíamos que precisava cuidar dos pais do seu marido. Venha morar conosco, agora.

Ela era tão linda, tão persuasiva, que Maggie se perguntou como é que alguém poderia resistir, mas a tia lançou um olhar para Maggie.

Não poderia deixar Maggie e o bebé sozinhos. Cathleen sacudiu a cabeça com tristeza, relutando em recusar qualquer coisa à patroa.

Phillip estivera observando Maggie desde que ela voltara para a sala com a bandeja de chá. Era como um imã, atraindo o olhar dele sempre que estava por perto. A simplicidade severa do vestido preto revelava claramente ter sido feito em casa, porém dava a seu corpo uma sexualidade atenuada. Os seios maduros e empinados enchiam o corpinho simples antes de a fazenda ser ajustada à cintura fina. Quando ela se debruçou para pousar a bandeja na mesa, a saia foi repuxada sobre as nádegas arredondadas. O desejo mexeu dentro dele, mas Phillip controlou-o raivosamente. Meu Deus, tinha idade para ser pai dela, lembrou a si mesmo. Seu interesse nela era estritamente paternal. Esse raciocínio permitiu que sugerisse:

Maggie e o bebé também serão bem-vindos. O apartamento em cima da garagem não é usado há anos, mas acho que podemos transformá-lo em alojamentos confortáveis. Forçando-se a desviar o olhar da expressão desconfiada de Maggie, dirigiu-se para a tia dela. Do jeito que os valores imobiliários continuam subindo, eu não sugeriria que você vendesse esta casa. Alugue-a e conserve-a como investimento. Assim, se algum dia quiser voltar, poderá fazê-lo.

Suponho que sim disse Cathleen Hogan, ainda hesitante.

Maggie ficou fora da discussão que se seguiu. Sentada na beira da cadeira, serviu as xícaras de chá e tentou fazê-lo tão graciosamente quanto vira Pamela fazer. A perspectiva de morar na propriedade dos Gordons, onde poderia observar Pamela e aprender mais sobre como se tornar uma dama, era como um sonho feito realidade, mesmo que isso significasse morar em cima da garagem. Eram as desilusões anteriores que a mantinham calada. Mas Phillip e Pamela convenceram a tia a se mudar.

Você não deu sua opinião sobre o assunto, Maggie instou Phillip. Tem alguma objeção ao plano?

Não, mas logo que eu arranjar emprego vou começar a lhe pagar um aluguel por mês declarou.

Phillip sabia que não devia discutir.

Você disse antes que ia procurar trabalho e eu fiquei pensando no assunto. Não precisa mais procurar emprego. Preciso de alguém para exercitar os meus cavalos e ajudar com os serviços ligeiros no estábulo. Estou convencido de que você tem a experiência com cavalos necessária para dar conta. E isso significará que terá mais tempo para o Ty.

Ah, sim! Pamela apoiou entusiasticamente a proposta. Eu adoraria tomar conta dele para você, Maggie. Não haveria necessidade de você contratar uma babá. Bastaria levá-lo lá para casa. Como que percebendo que era o tópico da conversa, Ty começou a chorar no seu berço, espremido no quartinho de Maggie. Pamela riu, encantada. Eu sabia que, se nos demorássemos bastante, Ty acordaria de sua sesta.

A mudança foi feita muito mais depressa do que Maggie imaginara ser possível, o seu estilo de vida se alterando tão celeremente que ela ficou um pouco atordoada. Era como se tivesse saído das sombras atormentadas do passado e entrado na luz forte do sol de uma nova vida.

As cartas que escrevia para Culley estavam cheias do entusiasmo pela nova casa e o novo emprego. Quando Phillip falara num apartamento em cima da garagem, ela imaginara algo totalmente diverso dos imensos aposentos com paredes recém-pintadas e carpete novo no chão.

Havia um quartinho para Ty e espaço bastante no quarto de Maggie para permitir que tivesse não apenas uma cama, penteadeira e cómoda, mas também uma cadeira e escrivaninha para que pudesse estudar suas lições. Pamela lhes dera alguns móveis da casa principal, insistindo que os daria para alguma instituição de caridade, se elas não o aceitassem.

Seu novo emprego incluía acordar cedo todas as manhãs para cuidar dos cavalos de exibição de Phillip, e exercitá-los. A coisa era diferente do que ela esperava, já que nunca montara antes com sela inglesa. Sentiu-se muito desajeitada, a princípio. Phillip insistia que ela possuía mãos naturais, e um assento natural. Quando primeiro lhe sugeriu que podia ensinar-lhe a arte de saltar para exibição, à noite, ela se mostrara relutante, mas quando ele mencionou que a maioria das amazonas de exibição eram senhoritas de famílias de sociedade, Maggie aceitou sua oferta. Se montar à moda inglesa, ao invés de à moda do Oeste fazia dela uma dama, então era o que faria.

O mês de agosto veio e se foi, e seu 17º aniversário com ele. Depois que a louça da noite fora lavada, Maggie beijou Ty e deixou-o aos cuidados da tia para poder encontrar-se com Phillip no estábulo, para sua aula de montaria. Ele esperava por ela na sala de equipamentos quando ela chegou.

Chamar aquilo de sala de equipamentos era quase uma designação incorreta, embora fosse onde se guardasse todo o equipamento de montaria. Era uma combinação de escritório e sala de estar, incluindo banheiro, para que Phillip pudesse lavar-se antes de voltar para casa. Trofeus e fitas ornavam as paredes, misturados a fotografias dos seus cavalos. Ao lado de uma escrivaninha antiga de mogno, havia um divã e cadeiras de couro num tom de marrom claro da Califórnia para complementar as paredes em lambri.

Esperou muito tempo?

Ela desejava que não, mas ele tinha o ar acomodado de quem estava sentado na cadeira giratória atrás da escrivaninha por muito tempo.

Horas pilheriou Phillip, secamente.

No seu novo meio ambiente, Maggie achava mais fácil corresponder ao senso de humor cálido dele. Começara a gostar dele... do seu jeito meigo, da sua maturidade confortável e autoridade tranquila.

Não está esperando há tanto tempo. Lançou-lhe um olhar reprovador que a um só tempo zombava dele e ria com ele. Quando começou a atravessar a sala para pegar o seu equipamento de montaria, ele a chamou de volta.

Há um presente em cima do divã para você. Ele acenou com a mão na direção do estofado de couro.

Um presente?

É um presente de aniversário atrasado... de Pamela e meu.

Em dúvida se seria apropriado aceitar o presente, Maggie dirigiu-se devagar para o divã. Arrumadinhos sobre as almofadas estavam um par de culotes marrom claro, uma jaqueta de caça preta e uma blusa branca. Um par de botas de montaria de cano alto estava pousado no chão, na frente do divã. Maravilhada com a generosidade dele, pôde apenas fitá-lo.

Gostou? Ele puxou uma resposta dela, os olhos cinzentos sorrindo.

Gostei. Mas ela meneava a cabeça.

Decidimos que uma dama devia ter o traje de montaria adequado.

Já fizeram tanto.

Maggie... Ele se interrompeu, retorcendo a boca. Esse nome não combina nada com você.

É o apelido que meu pai me deu. Ficou quase contente com a mudança de assunto. Aquilo lhe dava tempo para pensar. Tia Cathleen me chama de Mary Frances.

Com o devido respeito à religião da sua tia, o nome parece pertencer a uma freira... Irmã Mary Frances.

É mesmo admitiu Maggie, com um sorriso alegre.

Esse é o seu nome completo? Mary Frances O'Rourke? perguntou Phillip.

Mary Frances Elizabeth O'Rourke corrigiu ela. Um nome e tanto, hem?

Elizabeth. Ele saboreou o nome com satisfação. Você se parece com uma Elizabeth. É um nome de rainha. Importar-se-ia se eu a chamasse assim?

Ela mordeu o lábio inferior para impedir a permissão de sair aos borbotões. Ele a fazia sentir-se tão importante que ela esperou até que a bolha de prazer tivesse estourado.

Tudo bem. Hoje em dia respondo a praticamente qualquer nome falou, com um leve dar de ombros que disfarçava seu prazer.

Pois bem, Elizabeth. Vista sua roupa nova de montaria enquanto selo seu cavalo.

Parou apenas para pegar a sela e a brida no descanso, depois saiu. Foi só um segundo inteiro depois que a porta se fechou que Maggie se deu conta de que não lhe dissera que não podia aceitar o presente. Olhou de novo para as roupas e reconsiderou. Quem sabe não fazia mal aceitar, por esta vez.

Durante o mês seguinte ela descobriu como era difícil resistir aos Gordons a ambos. Ante a insistência de Phillip, a imensa biblioteca da casa principal foi posta à sua disposição. E Pamela, que adorava qualquer motivo para tomar conta do Ty, mostrou-lhe como usar maquiagem e levou Maggie às compras para dar-lhe conselhos sobre roupas.

Quando recebeu uma carta de Culley, sentiu uma pontada de culpa. Sua vida se tornara tão mais fácil, tão rica e plena, enquanto ele continuava a lutar para sobreviver... contra o tempo, contra a terra e contra os Calders.

 

         23 de setembro Querida Maggie,

Folgo em saber que tudo está saindo tão bem para você. Os Gordons parecem ser uma gente muito boa.

O recolhimento de gado se encerrou por mais um ano. Duas das minhas vacas tresmalharam para o pasto dos Calders, e eu tive que ir até lá e isolá-las do rebanho deles. Calder estava lá, sentado no seu cavalo amarelo, todo imponente, como se fosse o dono do mundo. Tucker também estava lá. Ofereceu-me uma xícara de café, mas eu falei a ele que preferia tomar veneno do que café feito num bule da Triplo C. Ele pode ter-se vendido, mas eu jamais o farei.

Aquela turma provavelmente estará no Jake's hoje à noite, farreando depois de três semanas de recolhimento do gado. Eu não vou mais ao Jake's. Ele e Tucker podem não se importar de se misturar à escória, mas eu me importo.

Estou cansado e tenho que cortar feno amanhã para o inverno. Simplesmente não consigo achar ninguém para trabalhar para mim.

Que bom que tudo está saindo bem para você, Maggie. Cuide-se.

                             Seu irmão, Culley

 

Por um instante fugaz, teve vontade de que Culley vendesse a fazenda e viesse para a Califórnia, mas sabia que ele não viria. Até mesmo achava que não queria que ele viesse, porque, bem lá no fundo, queria que o irmão se vingasse dos Calders, algum dia. Não sabia como, e não se importava. Só queria saber que algum dia eles teriam que se ajoelhar.

 

O saloon do Jake estava uma baderna. A Triplo C estava curtindo sua primeira saída de verdade desde o recolhimento do gado de outono. Mas não eram somente os vaqueiros da Triplo C que estavam comemorando, embora superassem em número os outros pequenos fazendeiros e moradores da cidade. Parecia que todos tinham escolhido essa noite de sábado para se divertir antes da chegada do comprido inverno. Ela forneceria material para conversas durante as frias noites que viriam.

Enquanto Chase se dirigia para o bar, para se servir de mais bebida, uma mão bateu-lhe nas costas.

Ei, Patrão! Buck debochava de sua nova posição na Triplo C. Chase não era mais apenas um vaqueiro. Fora promovido a capataz. Já não fica mais bem para você ficar de porre avisou Buck. Precisa cuidar do resto de nós e impedir que nos metamos em encrenca, Patrão.

Buck estava encarnando nele desde o dia em que Webb Calder fizera a mudança. Chase achava que a implicância constante estava começando a perder a graça, mas ignorou o comentário de Buck, como ignorara todos os outros.

Pensei que você estava na sala dos fundos jogando póquer comentou.

Resolvi parar enquanto estava ganhando.

Quer uma bebida? ofereceu Chase.

Não. Buck sacudiu a cabeça e piscou o olho. Vou esfregar a barriga na da Connie Sue, enquanto estão tocando alguma coisa que eu sei dançar, com toda a minha falta de jeito.

Com essas palavras, Buck se dirigiu para o pequeno espaço junto da vitrola automática que era usada como pista de dança.

Connie Sue Bingham era uma garota local, que se divorciara recentemente. Viera com alguém, naquela noite, mas Chase a tinha visto com tantos vaqueiros que tinha desistido de tentar concluir quem era. Viu Buck pedir licença e tirá-la do parceiro anterior, e sorriu enquanto continuava o seu caminho até o bar. Havia vezes em que Buck parecia totalmente irresponsável, mas era um vaqueiro danado de bom.

Abriu caminho até o bar e fez sinal a Jake para voltar a encher seu copo. Vários vaqueiros no bar estavam entretidos numa discussão sobre a previsão meteorológica a longo prazo para o inverno que se aproximava. Chase prestou atenção, querendo, como qualquer fazendeiro, um jeito de passar a perna no clima. Alguém enfiou o ombro no pequeno espaço a seu lado, e Chase se mexeu para dar-lhe lugar, virando-se para ver quem era.

Alo, Fred. Chase cumprimentou o homem, um cavaleiro que montava touros no circuito de rodeios, dono de alguns hectares fora da cidade, onde passava os invernos. Que tal se deu este ano?

Nada mal, nada mal falou o vaqueiro, com voz arrastada. Quebrei duas costelas em Wolf Point, desloquei o ombro em Miles City, e rachei o pulso em Butte. Levando tudo em consideração, foi um bom ano. Nem me machuquei tanto que não pudesse montar.

Não foi mal concordou Chase.

Fred abriu a tampa de uma lata de cerveja e tomou um gole.

É melhor ensinar a seu amigo a jogar pôquer. Perdeu praticamente tudo, exceto a camisa.

Está-se referindo a Buck Haskell? Chase franziu a testa. Tinha tido a impressão de que Buck estivera ganhando na mesa de pôquer, para variar.

Sim. Acho que não gastou uma só mão, hoje, mas jgou até ficar duro. Ou é teimoso ou é burro. O vaqueiro se afastou do bar com a cerveja na mão. Acho melhor ir-me embora enquanto ainda possa andar. Ergueu a cerveja numa saudação de despedida. Até qualquer hora, Chase.

Cuide-se, Fred.

Apoiando um cotovelo no balcão cheio de marcas de copos, Chase virou-se em ângulo reto e ficou vendo o vaqueiro de rodeio abrir caminho até a porta da frente naquele andar peculiar que acompanhava as pernas encurvadas. Seu olhar se dirigiu para Buck, na pista de dança com Connie Sue. Não entendia essa coisa do Buck com dinheiro. Jamais conhecia alguém tão ansioso para arranjá-lo e tão ligeiro em se livrar dele.

Com uma sacudidela irónica de cabeça, voltou a ficar de frente para o bar e apoiou os dois cotovelos no balcão. À sua volta ainda se discutia o clima, principalmente numa narração individual de invernos difíceis anteriores, e no debate de qual fora o pior.

Enquanto erguia o copo para tomar um gole, seu olhar se desviou automaticamente para o espelho comprido atrás do bar. De onde estava, o espelho refletia uma visão da porta da frente. Buck estava parado ao lado dela, olhando à sua volta de um jeito estranho, como que vendo se alguém o observava. Chase franziu a testa e estreitou os olhos enquanto via o amigo se esgueirar lá para fora. Baixou o copo, a ruga na testa se aprofundando enquanto girava os cubos que se derretiam no líquido cor de âmbar. Quem sabe Buck ia-se encontrar disfarçadamente com Connie Sue lá fora, pensou Chase e tentou ignorar o incidente, com um dar de ombros. Buscou a moça distraidamente pelo espelho até encontrá-la. Estava sentada com outra pessoa, e não dava sinais de ter um encontro marcado.

Cheio de curiosidade quanto ao paradeiro do amigo e seus motivos, Chase se afastou do bar. Um impulso que nem entendeu direito levou-o à porta dos fundos do saloon, em vez da entrada principal. Ela era usada principalmente como acesso de fundos ao segundo andar, permitindo aos fregueses ir e vir sem ser necessariamente vistos pelas pessoas no bar, se assim o desejassem.

Antes que chegasse à porta ela se abriu e Buck entrou, esfregando as mãos e soprando-as numa tentativa de aquecê-las depois de terem estado expostas à friagem da noite de novembro. Teve um sobressalto de culpa logo que viu Chase, mas se recuperou rapidamente e sorriu.

O que está fazendo, Chase? Esgueirando-se pela escada dos fundos?

Por onde andou? Um meio sorriso suavizava o desafio, mas Chase não conseguia deter a suspeita que o invadia pelo comportamento estranho de Buck.

Saí "para tomar um pouco de ar". Buck deu de ombros e continuou a sorrir. A fumaça aqui está tão densa que arde nos olhos.

É por esse motivo que você saiu pela porta da frente e voltou pelos fundos? perguntou Chase e viu o ar desconcertado nos olhos de Buck.

Do que você está falando? disse Buck, rindo. Escutou-se um grito vindo do bar.

Ei! Alguém ajude! Fred Dickens está lá fora com a cabeça esmagada! Temos que levá-lo a um hospital!

Chase lançou um olhar a Buck, os olhos apertados numa acusação incrédula. O amigo também estava com uma expressão de surpresa no rosto. Chase não sabia dizer se era fingida ou real. Buck começou a passar por ele.

Vamos ver o que está havendo instou, mas Chase segurou-lhe o braço para detê-lo.

Com quanto dinheiro você está? interpelou Chase. Buck recuou, parecendo confundido pela pergunta.

O quê? Alguns dólares. O que isso tem a ver? Vamos. Quero ver o que está acontecendo.

Mas Chase não o deixou passar.

Pensei que tinha tido sorte na mesa de pôquer.

Tá legal. Então pode ser que eu esteja com uns duzentos dólares no bolso. O génio de Buck tinha pavio curto. Estava pronto a estourar, enquanto ele ficava zangado e desafiador.

Fred me contou que você ficou a zero no jogo, hoje.

Tive uma maré de azar admitiu Buck.

Então onde conseguiu o dinheiro que está no seu bolso? Chase jogou o comentário anterior na cara de Buck.

Eu falei que "podia ser" que estivesse. Não falei que estava!

Chase agarrou-o pela frente da camisa e bateu com as costas dele contra a parede, sacudindo a poeira do madeiramento.

Que merda! Não minta para mim! Segurou com mais força a fazenda da camisa e levou o punho cerrado até a garganta de Buck. Vi você se esgueirar pela porta da frente dois segundos depois que Fred saiu. Agora, ele está lá fora com a cabeça esmagada. Aposto que foi roubado como os outros, também! E estou querendo saber o que você teve a ver com isso!

Chase! Você está maluco! falou Buck, sua raiva focalizada estritamente na sua defesa. Não tive nada a ver com isso!

Com esforço, Chase soltou a camisa do outro e deu um passo atrás.

Prove desafiou. Esvazie os bolsos.

Buck lambeu os lábios e afastou os olhos da mirada inflexível de Chase.

Não aconteceu do jeito que você está pensando murmurou, e Chase se pegou desejando não ter forçado a barra. Uma desilusão amarga subia por sua garganta, sufocando-o com o gosto de bile. Eu só queria o meu dinheiro de volta insistiu Buck, mas sua voz estava ficando choramingueira. O jogo era desonesto. Fred estava dando as cartas de baixo do baralho. Eu não podia deixar que ele saísse numa boa, não é? Quero dizer, precisava ensinar-lhe uma lição. Só o que fiz foi dar-lhe uma pancadinha na cabeça.

E quanto a Anderson? E Jeffers? Chase deu o nome das duas outras vítimas e sentiu a mão fria da traição tocando-o. Deixou-o duro como o gelo. Nas duas vezes você me usou. Forneci o álibi porque você era meu amigo e eu acreditava em você.

Virou-se e se afastou, com medo do que poderia fazer àquele homem, que tinha sido como um irmão, se ficasse.

Buck foi atrás dele, entrando no aposento principal do saloon, murmurando com insistência:

Chase, não vai acontecer de novo... juro! Deixe explicar como foi, para você entender. Havia raiva e impaciência contidas na voz dele, enquanto exortava Chase a escutar.

O saloon estava quase vazio. Os poucos fregueses que tinham permanecido estavam agrupados conversando sobre esta última agressão e roubo. Antes que Chase chegasse ao bar, a porta da frente se abriu para deixar entrar o Xerife Potter. Seus olhos cansados vasculharam o grupo remanescente, provocando um silêncio imediato. Sua busca cessou quando viu Buck e Chase.

Buck. Adiantou-se, arrastando as botas no piso de madeira, como se fosse muito esforço levantá-las. Vai ter que dar um passeio comigo.

Não tem motivo para me prender negou Buck, aproximando-se mais de Chase. Se alguém falou que me viu lá fora, está mentindo.

Desta vez é diferente, Buck falou o xerife. Fred Dickens recobrou a consciência antes de os rapazes o levarem para o hospital. Citou seu nome. Reconheceu-o pouco antes de você acertar-lhe a cabeça.

Ele cometeu um engano! Eu estava com Chase. Pergunte a ele!

O xerife repuxou a boca enquanto olhava relutante para Chase.

Ele estava com você?

Chase não precisou pensar na sua resposta, nem olhar para Buck.

Não. A resposta foi seca e definitiva.

O que está fazendo comigo, Chase? protestou Buck, tentando impedi-lo de se dirigir para o bar, colocando-se na sua frente, mas Chase fez de conta que não o estava enxergando. Você não é o meu melhor amigo? Crescemos juntos. Minha mãe nos criou aos dois. Diga ao xerife que eu estava com você.

Chase não deu resposta e passou por Buck como se ele não estivesse ali. Buck mentira para ele e o enganara. Em nome da amizade que tinham partilhado, Chase não iria acrescentar sua voz à condenação. E tampouco diria qualquer coisa em sua defesa, porque o que ele fora não era aquilo em que se tornara. Portanto, qualquer coisa boa que pudesse dizer não tinha nada a ver.

É melhor vir comigo, Buck disse o xerife de novo, pegando-o pelo braço.

Não! Buck livrou bruscamente o braço e explodiu sua fúria nas costas de Chase. Que tipo de amigo você é? Era para você ser o meu amigão, meu chapa! Acha que é todo cheio de coisa só porque é um Calder! Pois bem, podia ter sido eu ao invés de você! Espetou o próprio peito com o dedo, para enfatizar seu ponto. Podia ter sido eu, seu filho da mãe!

Chase olhou para o bar onde se encontrava Jake.

Quero um uísque puro pediu.

Buck, você vem comigo. Desta feita a voz do xerife estava mais decisiva. Não me faça acrescentar resistência à prisão às outras acusações.

Buck continuou a gritar e xingar Chase até que o xerife o levou para fora do saloon. A área do bar à volta de Chase ficou desimpedida. Nem mesmo o pessoal da Triplo C se aproximou dele. Deixaram-no sozinho para chorar em particular a perda do amigo.

 

Os presentes estavam empilhados sob a árvore de Natal. Era o primeiro Natal de Ty e a maior parte dos embrulhos era para ele, principalmente da parte de Pamela. Ela teria comprado para ele tudo o que via, se Maggie finalmente não a tivesse ameaçado de não deixá-la mais tomar conta dele.

Maggie sorria enquanto via Ty bater com um chocalho no chão, e distraidamente abria o cartão de Natal de Culley. No interior, havia uma carta.

 

               13 de dezembro, Querida Maggie

Lembra que lhe contei que Fred Dickens, o cara do rodeio, entrou em coma e morreu? Bem, Buck Haskell foi condenado por homicídio não premeditado. Alegou que estava bêbado e não sabia o que estava fazendo. Ouvi contar que Chase Calder nem mesmo testemunhou em favor de Buck, defendendo seu caráter. Nisso eu posso acreditar. Um dos ladrões deles foi preso, e eles lavaram as mãos, ignorando-o. Eu lhe disse que eles eram assim... basta você se meter em dificuldades, que eles nem mais o conhecem.

Quando o Juiz sentenciou Buck à prisão, parece que ele começou a berrar e fazer todo o tipo de ameaças de ajustar as contas com Chase. Ouvi contar que foi preciso três homens para arrastá-lo para fora do tribunal.

Está nevando.

                               Feliz Natal, Culley

 

Ela sentiu pena de Buck Haskell... pena porque fora traído pelos Calders, especificamente pelo Chase, que fora seu amigo. Traído como ela fora traída. Seu olhar se ergueu para a estrela no topo da árvore; esperava que os Calders jamais conhecessem a paz que ela simbolizava.

O potrinho do começo da primavera oscilava incerto nas pernas arqueadas, a cauda espetada girando loucamente, buscando equilíbrio. Com as pernas compridas demais, a cabeça e os olhos grandes demais, ele piscava para o mundo vivo e estranho em que estivera tão ansioso e insistente para entrar, há poucos minutos. Ele rinchava, um som que necessitava um pouco de prática antes de se parecer com um relincho de cavalo. Para um potro recémnascido, era de bom tamanho, e obviamente sadio. Devia ser o centro das atenções, com a mancha branca como a neve descendo pelo centro da testa côncava.

Mas os olhos de todos estavam fitos na velha égua deitada na palha. Cada respiração que dava era sofrida. Os dedos de Maggie se enterravam na grade lateral da baia; estava instando mentalmente a égua a se mexer. Morning Mist era uma égua de caça, uma favorita sentimental do Dr. Phillip. Depois que sua carreira no picadeiro finalmente terminara, ele a conservara como sua única reprodutora. Aos 21 anos, aquilo estava-se tornando demais para ela. Desta feita tinha sido um parto longo e difícil. As poucas forças que tinha, o potro as levara, e agora a égua parecia não ter mais nenhuma.

Quando o potro rinchou confusamente de novo, a égua soltou um débil bufido e tentou levantar a cabeça, mas não conseguiu tirá-la da palha. Enquanto Maggie olhava, os olhos da égua se fecharam, pois o esforço lhe tirara o último grama de energia. Com as mangas da camisa enroladas, o Dr. Phillip estava parado num canto da baia, perto do cavalariço. Uma expressão sombria de preocupação estava estampada no seu rosto bonito e bronzeado.

Vamos tentar ajudá-la a se levantar sugeriu. Enquanto Maggie observava, os dois homens se ajoelharam

junto da égua e tentaram erguê-la e empurrá-la numa posição em que ficasse com as pernas debaixo do corpo, mas a égua não tinha forças para cooperar. Depois de muita luta, Ralph, o cavalariço, pousou suavemente a cabeça da égua no solo coberto de palha.

Não adianta disse Ralph, ofegando pesadamente com o esforço.

Preparei um pouco de mingau quente para ela. Maggie destrancou a porta da baia e entrou. Quem sabe se conseguirmos que coma alguma coisa recuperará as forças.

Tente conseguir isso, Elizabeth. Phillip concordou com a sugestão, mas não confiou exclusivamente nela, virando-se para o cavalariço. Arranje umas cordas e vamos fazer uma tipóia. Se pudermos botá-la de pé e fazer com que fique de pé, o potrinho poderá mamar, e Misty também terá uma chance melhor.

Ajoelhando-se ao lado da égua, Maggie colocou o balde com mingau no chão e tirou um trapo limpo do bolso do quadril. Mergulhou-o no mingau e espremeu-o dentro da boca da égua. A maior parte escorreu para fora. Ela alisou o pescoço do animal para ajudálo a engolir o que podia, depois repetiu o processo.

Ralph voltou.

Já trouxe as cordas, Dr. Phillip. Como quer que eu faça?

Vamos usar esta viga. Deve ser forte o bastante para aguentá-la.

Concentrada na sua tarefa, Maggie estava apenas parcialmente consciente do que os dois homens estavam fazendo. Um baque suave foi seguido por uma coisa branca deslizando na sua linha lateral de visão. Maggie ergueu os olhos e viu a corda branca pendendo da viga. Sua mente visualizou uma outra imagem do celeiro da fazenda e da corda que pendera da viga central.

Um aperto terrível sufocou-lhe a garganta e Maggie se levantou. Viu novamente a corda simples sobre a viga do estábulo. Então outra imagem tomou-lhe o lugar. Era o celeiro de novo e havia um laço oscilando na ponta da corda. Ela recuou para fugir ao quadro assustador e teve um momento de alívio quando a realidade se sobrepôs e colocou o estábulo em foco. Mas sua mente não acabava com as lembranças horrendas. A cor fugiu do seu rosto enquanto a última imagem vinha à sua mente e ali permanecia... o corpo do pai pendendo do laço.

Aquilo não ia embora. Ergueu as mãos espalmadas perto do rosto. Maggie fechou com força os olhos, tentando bloquear a imagem mental. Mas todas as sensações, todo o horror e angústia voltaram de roldão para tornar a coisa tão real como se estivesse acontecendo agora. De muito, muito longe, ouviu alguém gritando, incessante e interminavelmente.

Precisava descê-lo! Precisava soltar a corda! Correu para baixá-la, unhando as mãos que a seguravam. Mesmo quando percebeu de novo que era uma corda sem laço, continuou imperativo que a baixasse.

Quando ela recuara de perto da égua, atraíra o olhar de Phillip. Ele franziu a testa ante o ar de terror no rosto branco da moça, confuso com sua fixação pela corda. Já ia perguntar-lhe o que estava errado quando ela começou a gritar. O cavalariço ficara imóvel, num choque atordoado, quando ela o atacara para arrancar-lhe a corda das mãos e tirá-la da viga da baia. Phillip correu e a agarrou pelos ombros, tirando-a de cima do homem indefeso.

Tem alguma coisa a ver com a corda. Desça-a daí ordenou por cima do ombro, instigando o cavalariço a se mexer e arrancar a corda da viga. Elizabeth, a corda sumiu! Olhe! Não está mais lá! Sua voz era firme e autoritária, forçando-a a obedecer. Abra os olhos e veja. Sumiu. Não existe.

Ela parou de se debater para se soltar e virou a cabeça para olhar. Durante um instante, ficou imóvel. A corda estava enrolada num monte indefeso, no chão. Estremeceu violentamente. Soluços secos e sentidos começaram a sacudir-lhe os ombros, enquanto Phillip a abraçava.

Vamos. Vou tirá-la daqui murmurou ele.

O que eu faço com a égua e o potro? perguntou Ralph, com ar de impotência.

Phillip conduziu Maggie para fora da baia e parou para lançar-lhe um olhar impaciente.

Tente encontrar alguém para vir até aqui e dar-lhe uma mão. Chame Simmons na Fazenda Van Doren.

Ela tropeçou, mas o braço forte dele amparou-a e guiou-a até a privacidade da sala de equipamentos. Maggie sufocava com os soluços que tentava engolir e enxugava desajeitadamente as poucas lágrimas que lhe escorriam dos cílios. Phillip levou-a até o divã e sentou-a nas almofadas.

Desculpe. Ela estava tentando controlar-se. Phillip sentava-se no divã a seu lado, inclinando-se para ela com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos entrelaçadas à frente. Os olhos cinzentos e pacientes fitavam-na atentamente.

Não precisa desculpar-se tranquilizou-a. A corda acionou alguma lembrança traumática que sua mente não pôde suportar, e você ficou desnorteada. O leve sorriso dele parecia dizer que tudo era perfeitamente normal. Aquela compreensão tranquila era demais para ela. Inspirou vivamente, com vontade de chorar. Quer falar comigo a respeito disso, Elizabeth? sugeriu Phillip. Às vezes ajuda.

As lágrimas começaram a correr pelas faces da moça.

Queria que meu irmão estivesse aqui. Maggie virou a cabeça para o lado. Poderia falar com Culley. Uma lágrima desceu-lhe pela boca, e ela a enxugou com mão trémula. Não chorei quando enterraram meu pai. Nem mesmo chorei quando aquilo aconteceu.

Você estava presente quando houve o acidente que matou seu pai? O médico estudava cada nuança da expressão da jovem, adivinhando que estava perto da verdade. De algum modo aquilo estava ligado à morte do pai dela.

Não foi um acidente. Embora ela soubesse que a tia, e todos aqui, tinham sido levados a acreditar que fora. Ele foi assassinado.

Antes que pudesse deter-se ou pensar no que dizia, Maggie estava botando para fora toda a história... os Calders, seu caso com Chase, o roubo do gado e o enforcamento do pai. Durante toda a narrativa, ela chorou como não conseguira chorar antes. Chegou uma hora em que Phillip se sentou na beira do divã e tomou-a nos braços enquanto ela contava sua história, aos soluços.

Era uma narrativa bizarra, imaginosa e difícil de acreditar, no entanto a dor e a angústia dela eram bem reais e genuínas. Mesmo que houvesse um exagero da verdade, suas perguntas com relação à reticência dela de falar no passado tinham sido respondidas. Metade do que tinha suportado teria derrotado uma moça de resistência normal.

Alisou-lhe os cabelos negros, enquanto apoiava a cabeça da moça no ombro.

Vocês deviam ter ido à polícia e contado tudo afirmou Phillip, com ar sombrio.

Não teriam acreditado na gente. Maggie soltou uma risada amarga que mais parecia um soluço. Provavelmente teriam achado que estávamos malucos. Além disso, de qualquer forma, eles recebem ordens de Calder. Não tínhamos provas, exceto a nossa palavra. E eles teriam perguntado qual fora o motivo de Calder. O que nos teria acontecido se disséssemos que o pai estava roubando gado, e da nossa parte do roubo? Culley podia ter ido para a cadeia, e eu para um reformatório.

Phillip podia entender que tinham sido forçados a ficar em silêncio para se proteger. A única coisa que ele achava muito difícil de aceitar era a existência continuada de uma justiça do tipo de vigilantes. Mais objetivo do que ela podia ser, ele reconhecia que tanto o pai dela quanto Calder tinham alguma justificativa para as suas ações, embora erróneas. Naturalmente, por causa do seu interesse nela, sua simpatia jazia com a moça, mas aquilo não o cegava para o outro lado.

Disseram que a morte dele foi suicídio. A voz dela continuava a tremer com o fluxo de lágrimas. Foi por isso que deixei tia Cathleen pensar que fora um acidente. Não podia dizer nada para ela... é católica devota. De qualquer forma, não foi suicídio, embora às vezes eu creia que ele tinha subconscientemente um desejo de morrer. Começou a tremer violentamente, vibrando nos braços dele. Eu os odeio. Odeio os Calders pelo que fizeram. Espero que alguém os destrua, algum dia.

A profundidade do seu ódio apaixonado abalou Phillip.

Não os odeie, Elizabeth. O ódio invariavelmente destrói aquele que odeia. Deixe tudo isso para trás instou. Não se esqueça de que o pai do seu filho é um Calder.

Ty jamais saberá disso declarou, enfaticamente.

Algum dia ele lhe fará perguntas sobre o pai. Phillip tentava raciocinar com ela.

Nunca lhe contarei quem é. Inventarei alguma história jurou e começou a chorar de novo.

Phillip a apertou mais forte e encostou os lábios contra a sua têmpora numa tentativa de confortá-la, como um pai beijaria um filho para fazer a dor passar. Foi assim que começou... com Phillip dando-lhe beijos leves na testa e nas faces e murmurando palavras de alívio para sua alma torturada. Ela virou o rosto para ele, inclinando a cabeça para trás para que ele pudesse continuar a acalmar sua dor e sofrimento.

Quando sua boca roçou os lábios dela e ele os sentiu se entregando suavemente, tudo mudou. Os sentidos dele tiveram consciência dos seios firmes apertados contra o seu peito e dos contornos macios do corpo esguio moldado ao seu. Era totalmente desejável e estava nos seus braços. Sua boca voltou para buscar o gosto doce dos lábios dela sob a cobertura salgada das lágrimas. O calor do corpo dela acendeu o desejo que fervia lentamente sob a superfície sempre que ele estava por perto dela. No meio do caminho, perdera a capacidade de controlá-lo. A paixão ardeu no beijo dele, e ela correspondeu, os lábios movendo-se contra os dele na mesma reação espontânea. Ele aprofundou o beijo, esfaimado, e sentiu-a entregar-se a ele.

Subitamente, as mãos dela empurravam-lhe o peito e ela se livrava alucinadamente do beijo dele, fitando-o com aqueles olhos verdes que pareciam ver um estranho. Ele começou a estender as mãos para ela, mas ela recuou.

Não me toque advertiu, e conseguiu se pôr de pé, afastando-se dele.

Elizabeth, eu... buscou as palavras para desculpar se

por seu comportamento por ter-se aproveitado dela, quando

estava num estado tão vulnerável.

Ela correu para a porta aberta, parando apenas o suficiente para se orientar antes de correr pelo pátio para o apartamento sobre a garagem. Phillip fitava-a, de junto das portas do estábulo.

 

Alguém vinha subindo as escadas do lado de fora da garagem. Maggie podia ouvir os passos, mas fingiu que não ouvia, e continuou a alimentar Ty na sua cadeirinha alta. Ty tentou agarrar a colher, então ela prendeu a mão dele e segurou a colher junto da sua boquinha fechada. Ele a fitou por vários segundos com os olhos castanhos firmes, depois sacudiu a cabeça.

Vamos, Ty. Só mais um pouquinho insistiu Maggie, no mesmo instante em que bateram à porta do apartamento. Lançou um olhar à tia, que estava raspando os pratos do jantar antes de lavá-los.

Deixe que eu atendo. A tia sorriu para a jovem mãe e o filho.

Enquanto a atenção de Maggie estava distraída, Ty agarrou a colher com a mão livre. Papa de abricó esguichou por entre seus dedinhos e pingou no tampo da cadeirinha alta. Soltando um suspiro exasperado, Maggie pegou o pano de prato úmido que ficava à mão para tais emergências. Depois de soltar a colher do aperto de mão firme do menino, limpou-lhe as mãos e a boca, depois as suas próprias, e o tampo da cadeira. Tinha sido a última colherada de papa de abricó do vidro, portanto ela desamarrou o babadouro que protegia a camiseta dele. Ty balançou as perninhas enquanto arrulhava, todo contente.

Quer descer e ir brincar, não é? implicou Maggie com ele, enquanto parte dela escutava Phillip cumprimentando a tia. Imaginara que ele viria vê-la depois do que acontecera naquela tarde. Tinha vontade de entrar em pânico, mas aquilo era contra sua natureza.

Posso falar a sós com Elizabeth? ouviu Phillip perguntar.

Houve uma fração de segundo de hesitação antes que a tia concordasse com o pedido.

Claro. Eu já ia levar o lixo lá para fora, de qualquer forma.

Maggie nunca vira a tia fazer perguntas pessoais, e ela não as fizera essa tarde, quando Maggie entrara correndo no apartamento delas, em cima da garagem. Cathleen nem mesmo se aprofundara no motivo pelo qual Maggie desmaiara, exceto para perguntar se ela se sentia melhor. Essa consideração oferecia a Maggie a privacidade de que precisava.

Elizabeth, o Dr. Phillip veio vê-la. A influência dos Gordons fizera com que a tia parasse de chamá-la pelo nome de Mary Frances. Maggie estava começando a acreditar que este era o nome de outra pessoa. Ergueu os olhos e deparou com a mirada firme nos olhos cinzentos dele. E então a tia estava pegando o saco de lixo para levá-lo lá para baixo e deixá-los a sós.

Ty estava ficando impaciente com Maggie por demorar tanto a soltar o tampo da cadeirinha alta e libertá-lo. Quando ela o tirou da cadeira, não o colocou no chão, como ele queria. Segurá-lo no colo fornecia-lhe uma distração conveniente, uma desculpa para evitar os olhos de Phillip.

Elizabeth, vim pedir-lhe desculpas por minhas atitudes de hoje à tarde falou Phillip.

Não é necessário negou ela, formalmente, enquanto Ty se contorcia nos seus braços.

Temo que seja muito necessário insistiu ele. Não posso achar desculpas para o que fiz. A única explicação é que descobri uma bela mulher nos braços e fiz o que qualquer homem normal faria no meu lugar... beijei-a. Não era minha intenção assustá-la.

A última frase fez com que ela erguesse os olhos. Finalmente olhou para ele e viu todas as coisas que estivera tentando não notar nesses últimos sete meses. Ele era bonito e esbelto, bronzeado e vigoroso. Seus cabelos tinham a cor do aço, porém os olhos eram de um cálido veludo cinzento. Enquanto Chase Calder era composto de bordas ásperas e inacabadas, e era agressivamente másculo, Phillip Gordon era o produto final e bem-acabado da virilidade, suave e encantador, sempre imaculadamente vestido. Um verdadeiro cavalheiro.

Não me assustou. Quando Ty começou a gritar de raiva, ela o botou no chão. Ele foi engatinhando apressadamente para junto dos seus brinquedos, no meio da sala. Maggie virou-se para ele para terminar de explicar a sua resposta. Fui eu. Parou de tentar ocultar os seus sentimentos. Sabe, queria que você me beijasse. Queria que me tocasse. Mais do que isso. Ficou mais ousada com a confiança que voltava. Queria que fizesse amor comigo. Não pensei que um homem poderia me fazer sentir desse jeito de novo. Não pensei que seria assim outra vez.

Elizabeth. Ele deu um passo involuntário na direção dela, o desejo brilhando-lhe nos olhos. Ficou ali por um instante fugaz; logo desapareceu, quando ele se conteve e sacudiu a cabeça.

Não sabe o que está dizendo.

Sei, sim, Phillip. Por conta própria ela deixou de lado o título profissional que geralmente precedia-lhe o nome quando se dirigia a ele.

Você tem dezessete anos e eu acabei de fazer quarenta e um.

Tenho idade bastante para ser seu pai explicou ele, suavemente.

Não estou fingindo que seja certo desejar que você faça amor comigo, mas não posso negar que é o que sinto declarou, jogando a lógica dele pela janela com sua afirmação da verdade.

Isso é apenas porque eu sou o homem mais à mão, e você é uma garota naturalmente carinhosa. Não vou permitir que se envolva comigo. Você tem demais pela frente, Elizabeth. Roçou-lhe a face com o dedo, numa carícia relutante. É inteligente, determinada e ambiciosa. A última coisa de que precisa é um caso com um velho.

Você não é velho, Phillip.

Suponho que esteja achando que todo esse cabelo grisalho é apenas uma forma de camuflagem ironizou ele.

Faz com que pareça muito distinto insistiu ela.

O que é apenas uma outra forma de dizer "velho". Sacudiu a cabeça, e sorriu. No outono, quando começar a faculdade, estará cercada de um bando de moços bonitões. Será mais feliz com alguém com idade semelhante à sua.

Como Chase Calder! Maggie cuspiu o nome, o seu génio vindo à tona. Não me lembro dessa experiência ter sido feliz.

Chase Calder foi apenas um homem. Não pode julgar todos os outros homens por sua experiência com ele. Pode apenas aprender com ela.

Chase estava sempre me ensinando alguma coisa lembrou-se ela, com amargura. Infelizmente era sobre sexo, em vez de amor.

Você tem muito que aprender sobre muitas coisas.

E vou aprender sobre tudo o que puder. Pelo que aprendera até então, Maggie soubera que era preciso muito mais coisa para se fazer uma dama do que simplesmente belas roupas e belas casas. Havia todo o mundo cultural para ser absorvido. Quero conhecer a arte e a música, o teatro e os clássicos. Quero falar outras línguas fluentemente... Parou porque a sua lista ficava interminável, quanto mais ela se expunha a coisas diferentes. Ergueu os olhos e deparou com um brilho malicioso e benevolente nos olhos de Phillip.

E quer viajar e ver os lugares por si mesma acrescentou ele com percepção outro item da longa lista de Maggie. Não há lugar para um velho na sua vida jovem. Você ainda tem muito que crescer.

Phillip tentou ela protestar. Mas ele a interrompeu.

Sinto-me lisonjeado que você me ache atraente, Elizabeth. Estou numa idade em que gostaria de chutar tudo para o alto e recapturar minha juventude perdida com alguém como você. Por favor, não me tente. Gostaria que me fosse poupada a indignidade de bancar o idiota por sua causa.

Jamais o faria de idiota. Sei o quanto isso dói. Ele segurou-lhe a face na palma da mão.

Vamos fazer um pacto. Quando você terminar a faculdade, veremos se ainda sente o mesmo a meu respeito, ou se tomou gosto pelo tipo jovem e aventureiro.

Ela virou o rosto na palma dele, fechando os olhos e curtindo silenciosamente o toque da mão macia contra a pele. Com uma certeza consciente, enfrentou o olhar dele.

Veremos o que acontece quando eu terminar a faculdade concordou, porque pressentia a sabedoria da sugestão dele, e porque tinha certeza de que seus sentimentos não mudariam. Eles haviam crescido lentamente, e não explodido de sopetão.

Nesse meio tempo, verei o que posso fazer para expandir os seus horizontes culturais. Esta simples frase indicava as coisas que estavam por vir.

Num fim de tarde no princípio de junho, Maggie subia as escadas que levavam ao apartamento em cima da garagem. Estivera com Pamela Gordon numa exposição de arte itinerante numa galeria local. Cada mês visitavam uma galeria de arte diferente na área de Los Angeles como cumprimento da promessa de Phillip de educála nas artes. Além disso, Pamela e Phillip, sempre os dois juntos, tinham levado Maggie para assistir a diversas sinfonias, a um bale e à ópera.

Quando entrou no apartamento, Maggie chamou alegremente:

Alo! Tem alguém em casa? Um gritinho feliz veio da direção da cozinha, seguido pelo som de pezinhos correndo. Ty cruzou a sala para recebê-la com o máximo de rapidez que lhe permitiam as perninhas gordas. Tinha quase um ano e meio... e era um garotão. Rindo, ela o tomou nos braços. Você agora não anda mais, Ty. Sempre corre. Abraçou-o enquanto ele dava uma resposta qualquer, atropeladamente. Está crescendo muito depressa suspirou Maggie, e recuou a cabeça para olhar para ele. Foi um bom menino, Ty? Ele a fitou silenciosamente com os olhos que eram decididamente castanhos.

Claro que foi. Cathleen deu a resposta, entrando na sala. Que tal a exposição?

Carregando Ty nos braços, Maggie foi até o sofá azul e se sentou.

Faiscante. Fez cócegas no garotinho no colo e ficou vendo-o rir enquanto continuava a conversar com a tia. Mesmo quando não entendo alguns dos quadros, é fascinante. Riu, lançando à tia um olhar desanimado. As sinfonias, a ópera, o balê, os museus de arte... todos se confundem na minha cabeça, às vezes. Os termos são tão novos que misturo surrealistas, impressionistas e cubistas com contraponto, fugas, e árias. Tenho muito o que aprender.

Aprenderá assegurou Cathleen. Depois, falou: Chegou uma carta para você, hoje.

De Culley? perguntou Maggie, esperançosa. Ele não escreve desde o Natal. Sei que tem andado ocupado, mas estou começando a me preocupar com ele.

Não é do seu irmão.

O envelope estava sobre uma mesinha lateral. Cathleen trouxe-o para ela, uma expressão satisfeita na fisionomia.

Quando Maggie viu o endereço do remetente carimbado no envelope, botou Ty no chão e rasgou a borda ansiosamente.

É o meu diploma do curso secundário! Exibiu-o orgulhosamente para Cathleen enquanto continuava também a fitá-lo. Agora vou poder ir para a faculdade no outono. Já lhe contei? Phillip acha que pode conseguir-me uma bolsa. Claro que isso significará fazer mais provas para demonstrar minha capacidade, mas não me importo. Mesmo que a universidade não me aceite, posso me matricular numa das faculdades comunitárias.

Maggie ganhou a bolsa e se matriculou na universidade. Recebeu uma breve carta do Culley naquele verão, mas as cartas dele foram-se tornando menos frequentes. Em geral, consistiam de bilhetes rabiscados num cartão de Natal ou no cartão de aniversário que enviava todo mês de agosto, com uma carta ocasional de meia página entre um cartão e outro. Todos continham alguma referência venenosa aos Calders, e uma jura de vingança. Elas nunca permitiam que Maggie expulsasse o passado totalmente da cabeça.

A moça também estava muito atarefada. Além das aulas na faculdade, tinha que cuidar de um menino arteiro, exercitar e exibir os cavalos de Phillip, e ainda usufruir de todo o entretenimento cultural que Los Angeles tinha para oferecer. Às vezes era acompanhada por Phillip e Pamela, nunca por Phillip sozinho. Com frequência tinha por companhia um colega de turma. Essas eram as ocasiões em que saía com rapazes, e não eram tantas assim. Tentou seguir os conselhos de Phillip e sair com homens mais ou menos da sua idade. Poucos a haviam impressionado, mas um ou dois tinham sido bem divertidos. Descobrira que a paixão podia ser uma emoção fabricada.

Era apenas com Phillip que se sentia segura e à vontade. O médico exercia uma boa influência sobre ela, conseguindo fazê-la controlar seu génio e fazê-la rir. Geralmente cavalgavam juntos de manhã cedo, treinando e exercitando os cavalos de exibição. Às vezes, ele falava do seu trabalho e das recompensas existentes em se pegar uma coisa quebrada e deformada e consertá-la. Parecia que era o que estava fazendo com ela. Como cirurgião plástico, sua perícia era renomada nos círculos médicos. Maggie o admirava, respeitava e confiava nele, e a atração física ainda perdurava.

Para ele era a mesma coisa. Ela sabia disso porque tinha observado com frequência o modo como ele a olhava quando pensava que ela não estava vendo. Ao se encontrarem no meio da multidão, num intervalo de teatro, sempre havia algo de possessivo no jeito como ele a tocava e a mantinha a seu lado. Muitas vezes Maggie se sentiu tentada a usar os artifícios femininos que aprendera e acender o desejo que ardia sob a superfície controlada dele. Não o fez porque se lembrava do tipo de conversas que circulara sobre ela e Chase. Phillip se grilava tanto com a diferença de idade entre eles que ela sabia que seria a primeira coisa com que os fofoqueiros implicariam. Gostava demais dele para querer que as pessoas fizessem comentários mordazes por suas costas. Sendo assim, deu tempo ao tempo.

As lágrimas brilhavam nos seus olhos verdes enquanto agarrava o diploma da faculdade numa das mãos e abraçava o menino moreno de cinco anos que lhe enlaçara o pescoço e lhe dera um beijo molhado na face.

Congratulações, mamãe. Ty pronunciou a palavra corretamente. Era grande para a idade, com uma ossatura larga que indicava que ainda cresceria muito mais. Tinha os cabelos castanhos, não negros, parcialmente descorados pelo sol da Califórnia, e seus olhos eram castanhos, mas Maggie se negava a ver a semelhança da criança com Chase Calder. Ty era filho dela.

Obrigada. Beijou o ar perto da bochecha do menino porque ele detestava quando o seu batom deixava marca vermelha nele. Ainda se inclinando até a altura dele, recuou para olhá-lo e sorriu. Quem lhe disse para falar isso?

Pip. Nunca conseguira pronunciar Phillip direito quando estava aprendendo a falar. Há muito tempo que virara Pip.

Ela ergueu os olhos para deparar com o orgulho carinhoso na expressão dele, mas quando soltou os braços do filho do pescoço e se endireitou, foi a tia que abraçou. Esta mulher bondosa e meiga a escolhera, sem fazer perguntas, sem jamais fazer recriminações quanto à ilegitimidade do nascimento de Ty, e sempre tratara Maggie como se fosse sua própria filha, uma mulher que não se queixava, tão parecida com a irmã... a mãe de Maggie, que desejara acima de tudo que Maggie tivesse instrução. Agora, aquilo se tornara realidade.

Sei que sua mãe sente muito orgulho de você, Elizabeth. Cathleen chorava suavemente... como fazia todas as outras coisas.

Os pensamentos dela também tinham tomado a mesma direção que os de Maggie. Esta sentiu um bolo na garganta que não lhe permitiu mais do que um enfático:

Obrigada, Cathleen.

A tia abraçou-a forte, mais uma vez, depois recuou.

Só queria que seu irmão estivesse aqui para vê-la. Acha que ele não recebeu a passagem de avião que você lhe mandou?

Culley... provavelmente estava ocupado demais. Há muito trabalho para ser feito numa fazenda nessa época do ano.

Ela deu as desculpas por ele. Desejava que Culley pudesse estar ali para partilhar este momento com ela, mas também se dava conta de que ele se sentiria constrangido nesse ambiente, pouco à vontade. Talvez ele soubesse disso. Ou quem sabe estava realmente ocupado. Provavelmente este era o motivo real, mas não pôde deixar de desejar que o rapaz estivesse ali. Virando-se, debruçou-se para apertar a face contra a de Pamela. A bela loura estava estupenda, como sempre, vestindo um longo cor-de-rosa que descia suavemente pela frente da cadeira de rodas. Maggie perdera algumas das suas ilusões sobre Pamela. A mulher fora prestativa e educativa, mas Maggie era aceita pela irmã de Phillip por causa do Ty. Ela adorava o filho de Maggie. Ty até mesmo a chamava de "Tia" Pam.

Parabéns, Elizabeth. O sorriso dela era encantador, porém não mais do que agradável.

Obrigada, Pamela.

O coração dela batia com força enquanto olhava para Phillip, parado ao lado da cadeira de rodas da irmã. Os cabelos cor de aço tinham ficado prateados nas têmporas, mas parecia vigorosamente bonitão, tão alto e esbelto e queimado de sol.

Você está muito distingué, Phillip. disse Maggie, treinando um pouco do francês que agora falava fluentemente. Parece que guardei o melhor para o fim. Estendeu-lhe a mão esquerda, que ele usou para puxá-la para frente. Obrigada, por tudo.

Este é um dia glorioso... para todos nós. Parecia que tinha acrescentado o restante da frase para disfarçar a intensidade do seu olhar.

Ela ficou parada diante dele, deixando que a percorresse com os olhos enquanto irradiava uma sensação de confiança serena. Usava os cabelos negros até os ombros, num corte destinado a realçar a tendência para ondular. A maquiagem hábil e sutilmente aplicada enfatizava todos os seus melhores pontos... suavizava as maçãs do rosto fortes e realçava o verde brilhante dos olhos com os cílios negros e espessos. O batom vermelho vivo delineava os contornos suaves dos seus lábios. Maggie sabia que estava com jeito chique de adulta, e se portava com um ar de maturidade.

Quando ele inclinou a cabeça para ela, Maggie ficou desapontada quando apenas roçou a boca de encontro à sua face.

Será que não mereço mais do que um beijinho na face? admoestou-o e se levantou para levar os lábios para junto dos dele.

Ele levou as mãos aos ombros dela para manter sua posição, enquanto um fogo agradável aquecia-lhe o sangue. Os lábios deles se tocaram por apenas alguns segundos, mas o beijo cobriu o espaço de quatro anos de expectativa e tornou válida a longa espera. Um brilho suave estava na fisionomia dela, quando se afastou.

Pip está com o batom da mamãe na boca disse Ty, rindo e apontando.

Tem um gosto bom assegurou Phillip enquanto tirava o lenço de linho do bolso do terno para limpar o vermelho da boca. Fê-lo com uma certa ostentação que indicava orgulho no seu gesto, como se tivesse esperado por um motivo para limpar o batom dela.

A referência ao gosto fez Ty se lembrar de outra coisa.

Podemos ir, mamãe? Tia Cathleen fez bolo e doces e tudo. Eles podem estragar, se não formos para casa.

Podem mesmo disse ela rindo e concordando.

Esperem aqui falou Phillip, e acrescentou com um erguer meio irónico da sobrancelha: Vou ver se encontro o carro.

Além do bolo e chá (leite para o Ty) havia presentes à espera dela na casa dos Gordons. Antes que Maggie tivesse uma chance de abri-los, chegou um telegrama entrega-rápida da parte do irmão. Ela assinou o recibo e rasgou o envelope.

Dizia:

 

                 MAGGIE PARABÉNS.

                 DESCULPE EU NÃO TER PODIDO IR.

                 SEMPRE SOUBE QUE VOCÊ ERA CAPAZ.

                 AINDA VAMOS MOSTRAR ÀQUELES CALDERS.

                 CULLEY

 

O nome dos Calders invadia até mesmo aquele dia especial.

Mais tarde, depois que Maggie tinha posto Ty para dormir, disse à tia que ia dar uma volta, explicando que o dia fora excitante demais e que não conseguiria dormir. Cathleen concordou que um passeio lhe faria bem.

Uma luz ardia na janela da sala de equipamentos no estábulo. Maggie meio adivinhava e meio esperava que fosse Phillip. Quando ela entrou, a mistura aromática de fumo de cachimbo e sabão de sela chegou-lhe em primeiro lugar. Phillip fitava uma foto na parede, de Maggie montando o cavalo saltador preto dele, Sable. Estava vestido de cinza, uma cor que lhe ficava tão bem, uma camisa cor de pérola e calça cinza escura ao estilo continental justo. Virou-se para ela, quando a moça se aproximou.

Lembra-se do pacto que fizemos há quatro anos? disse parando diante dele.

Lembro-me muito bem, Elizabeth. A voz dele estava rouca, mas ainda usava a máscara que ocultava seus pensamentos sempre que ela estava por perto.

Nada aconteceu para modificar o jeito como me sinto. Antes que ele pudesse dizê-lo, Maggie o fez. E não me diga que tem idade para ser meu pai porque não faz nenhuma diferença. Então o que vamos fazer a respeito?

A sombra de um sorriso espalhou-se lentamente na fisionomia dele.

Acho que um homem tem o direito de bancar o idiota por causa de uma mulher pelo menos uma vez na vida. Porque não vem beijar este velho idiota?

Com uma risada suave e exultante, ela deslizou para os braços abertos dele e ergueu a boca para encontrar os lábios que desciam. O beijo era firme na sua posse, tomando o que era dele havia muito tempo. Se lhe faltava o fogo espontâneo, sua experiência em despertar uma resposta compensava-o amplamente. Além disso, Maggie se queimara com o seu caso com Chase, um caso que se iniciara com substâncias químicas combustíveis. Não estava buscando essa volatilidade sexual com um homem. Queria uma coisa segura e sólida, um relacionamento que fosse a antítese completa daquele que conhecera com Chase. O jeito de fazer amor de Phillip oferecia-lhe isso, o seu beijo excitando-a sem fazer com que perdesse a cabeça.

Quando Phillip começou a chover beijos deliciosos sobre o seu rosto, ela fechou os olhos de puro contentamento. Apoiava as mãos serenamente na parede magra do peito dele, sentindo o bater errático do seu coração. Seus braços lhe ofereciam um abrigo seguro. Prometiam segurança, conforto, devoção... todas as coisas que ela estava buscando. Ele era o pai que nunca tivera; o amigo que jamais conhecera.

Eu o amo, Phillip. As palavras vieram-lhe facilmente aos lábios.

A boca exploradora do homem parou junto ao canto da dela, e um estremecimento o percorreu.

Esperei tanto para ouvi-la dizer isso, minha querida, tanto. Beijou-a confiante e seguramente.

Ela não desejava fogo ou chamas, só uma incandescência intoxicante. As mãos dela não acariciavam músculos possantes, apenas carne esbelta, esguia. Preferia a perícia à paixão crua. Não queria nenhum homem nos seus braços que a recordasse Chase Calder... nenhum fantasma do passado para confundi-la com relação à pessoa com quem estava no presente, portanto não ficou desapontada. Ficou radiante por ter encontrado exatamente a pessoa que buscava, alguém a quem podia ligar-se emocionalmente, e que atenderia às suas necessidades sexuais.

 

A espreguiçadeira dela estava colocada à sombra de uma árvore para que Maggie pudesse fugir ao calor do sol de julho e ainda ver Ty brincando de bandido e mocinho sobre a grama. Lançou um breve olhar à carta no seu colo, mas sua atenção ficou presa ao pesado anel de diamantes no seu dedo, o anel de noivado que Phillip lhe dera.

O casamento iria realizar-se em setembro. Antes disso Phillip não conseguiria livrar-se dos seus compromissos profissionais para poderem ter uma lua-de-mel apropriada. Maggie tinha sugerido que se casassem agora e saíssem posteriormente para a lua-de-mel, porém ele tinha rejeitado o plano, insistindo que queria fazê-lo à moda antiga... o casamento, seguido imediatamente pela lua-de-mel. Maggie tinha certeza de que suas suspeitas eram corretas: o verdadeiro motivo disso era dar-lhe esses meses de verão para pensar bem, mas ela não tinha absolutamente dúvida alguma de que queria casar-se com ele.

Ninguém tentara convencê-la a não se casar com Phillip. A tia hesitara apenas um instante até que observara como Maggie parecia feliz e satisfeita, e imediatamente dera-lhe sua bênção. Pamela era a única que tinha suas dúvidas quanto ao casamento deles, mas por um motivo inteiramente diverso do de Phillip, que era a diferença de idades. Como Maggie aprendera a descobrir, Pamela era essencialmente egocêntrica, acostumada a um irmão devotado. Ao mesmo tempo que estava radiante com a perspectiva de Ty morar na mesma casa que ela, Pamela não gostava da ideia de ter que competir com outra mulher pela atenção do irmão. Exigira um pouco de tato por parte de Maggie convencê-la de que não havia motivo para preocupação. Agora era a futura cunhada quem estava organizando todos os detalhes para a cerimónia, que ia ser simples, nada ostensivo ou elaborado.

Naturalmente, Maggie informara Culley do seu próximo casamento, e lhe escrevera sobre o noivo. Havia algumas coisas que não lhe dissera, coisas que ele não compreenderia. Grande parte da atração que sentia por Phillip provinha da imagem paterna positiva que ele representava. Maggie não podia explicar isso ao irmão. O pai deles não tinha sido uma pessoa a quem pudesse admirar ou respeitar. Angus O'Rourke jamais assumira a responsabilidade de tomar conta da filha. Na verdade, fora o contrário. Ela sabia que Phillip sempre cuidaria dela e se preocuparia com os seus interesses, além dos dele próprio. Estaria presente quando ela precisasse do apoio de alguém, porém, ao mesmo tempo, Phillip deixaria que fosse independente, dona do seu nariz, como um pai devia fazer.

Era um relacionamento de muitas facetas. Maggie escrevera para Culley apenas aquela parte que ele compreenderia. Releu mais uma vez a resposta do irmão.

 

               12 de julho Querida Maggie,

Parabéns por seu noivado. Espero que Phillip a faça muito feliz. Pelas coisas que você disse dele na sua carta, parece que fará. Gostaria de poder conhecê-lo, mas não estou vendo jeito de poder comparecer ao casamento.

As coisas por aqui não vão indo muito bem. Não chove desde abril. O solo está todo rachado e duro. O único riacho já secou e o capim está pegando fogo. Se não chover logo, vou ter que dar o feno do inverno para o gado, para ele ter alguma coisa para comer. Praticamente todo o mundo está carregando água... exceto os Calders, é claro. Eles têm muita água. Estão distribuindo-a para o resto de nós como se fosse balas, dando-nos apenas o bastante para não deixar que morramos, mas não o bastante para satisfazer nossa sede.

Que bom que você saiu daqui, Maggie. Por aqui não há médicos ricos para marido, só um bocado de poeira e calor. Não posso estar presente, mas desejo-lhe todas as felicidades.

                     Seu irmão, Culley

 

Ela deixou o papel pousar no colo mais uma vez e lembrou-se de como o Sol podia ressecar o céu de Montana. Ouviu passos na grama que se aproximavam da espreguiçadeira. Maggie ergueu os olhos e deu um sorriso de boas-vindas, quando viu Phillip caminhando em sua direção.

Alo. Ele parou ao lado da cadeira e debruçou-se para beijar-lhe de leve a boca. Seu olhar pousou na carta no colo da moça. O que é isso? Uma carta de amor? Implicou com ela com um sorriso, enquanto puxava outra espreguiçadeira e se sentava mais perto dela.

É do meu irmão. Dobrou a carta pelos vincos e devolveu-a ao envelope. Ele não vai poder vir ao casamento. Setembro é um mês muito atarefado na fazenda.

Esta não era a primeira vez que Phillip observava como ela ficava quieta e introspectiva depois de receber uma carta do irmão. Ele adivinhava que elas abriam velhas feridas. Percebeu um vestígio de desapontamento na expressão da noiva.

Sei o quanto você estava contando com a presença do seu irmão. Quem sabe se adiássemos o casamento para outubro ou novembro... Phillip nem pôde completar sua proposta.

Não. A recusa dela foi firme. Tudo já está resolvido. Vamo-nos casar em setembro.

O médico não tentou discutir com ela, ficando mais alegre, sorrindo e dizendo:

Ótimo. Enfiou a mão no bolso do paletó do terno de verão e tirou de lá meia dúzia de folhetos de viagem. Porque acabo de chegar do meu agente de viagens. Que tal lhe parece uma lua-de-mel em setembro em Paris? Passou-lhe os folhetos e as reservas. Achei que gostaria de treinar o seu francês.

Paris?! Phillip, é maravilhoso! Inclinou-se para beijálo, depois começou a examinar ansiosamente os folhetos. Sempre sonhei em ir lá.

Então, estou duplamente feliz porque escolhi essa cidade.

Eu também. Estendeu a mão para ele e ficaram de mãos dadas. Com um olho atento de mãe, notou Ty tocaiando um inimigo imaginário perto dos canteiros. Ty, não se meta no meio das rosas! avisou. O garotinho parou, depois começou a escapulir noutra direção. Ele está chegando numa idade onde eu nunca sei o que vai fazer a seguir. A qualquer minuto espero que se pendure numa árvore e banque o Tarzan murmurou, com um leve aceno de cabeça.

Ando querendo conversar com você sobre Ty disse Phillip.

O que ele fez, desta vez? perguntou ela, sorrindo.

Não é nada que ele tenha feito, Elizabeth assegurou Phillip. É o que eu quero fazer. Gostaria de adotá-lo. Sempre quis ter um filho.

A voz dela estava rouca, quando replicou:

Ty não poderia escolher um homem melhor para ser o seu pai.

Ligarei amanhã para os meus advogados para começar o processo de adoção. Se Deus quiser até setembro nós três seremos legalmente uma família.

Gostaria muito disso falou, apertando mais a mão dele. Ty berrou um cumprimento para alguém e Phillip olhou e viu Cathleen empurrando a cadeira de rodas da irmã pelo relvado, vindo na direção deles.

Vocês dois estão parecendo um velho casal casado, sentado aí de mãos dadas observou Pamela. Espero que não se importem se eu lhes fizer companhia.

Claro que não. Maggie apressou-se diplomaticamente em dar-lhe as boas-vindas.

Foi uma cerimónia muito simples. Um dos colegas de Phillip, amigo dele, foi o padrinho, e Pamela foi a madrinha de Maggie. Como Culley não estava presente para levá-la ao altar, ela e Phillip caminharam juntos até ele para receber o sacramento do matrimónio, enquanto Cathleen e Ty a tudo assistiam.

A recepção foi realizada ao ar livre no gramado da casa dos Gordons, com cerca de 50 amigos presentes. Pamela contratara um bufê com garçons uniformizados. Havia champanha, uma variedade de horsd'oeuvres, inclusive caviar, e o bolo de noiva tradicional. Tudo foi feito em escala pequena mas suntuosa, incluindo um fotógrafo para documentar o acontecimento.

Durante um raro momento em que estavam sós, um pouco afastados do grupo de convidados, Phillip sorveu sua taça de champanha e examinou serenamente a jovem noiva.

Está feliz, Elizabeth?

Estou. A resposta foi meiga e positiva, reafirmando o que os olhos dele viam. Somente uma coisa poderia tornar-me mais feliz do que estou neste minuto. Gostaria que Culley estivesse aqui. Teria sido ótimo se ele pudesse tê-lo conhecido.

Posso alterar as nossas reservas para incluir uma parada em Montana. Não seria difícil de arranjar isso.

Não. Era uma resposta definitiva. Enfiou a mão na curva do braço dele. Esta é uma época feliz para nós. Não quero nada atrapalhando ou modificando isso.

Ele sorriu, aceitando a decisão dela, e se perguntou se jamais conheceria toda a verdade sobre o seu passado. Passara por tanta coisa, na sua jovem vida. Tudo acontecera lá em Montana. Ele estava começando a se dar conta de que ela precisava da estabilidade que ele podia oferecer. Precisava dele tão desesperadamente quanto ele a amava e necessitava.

 

Um céu de crescimento, Um céu de dor, Este céu que vê Um novo Calder reinar.

 

O capim farfalhava como palha seca sob os cascos do seu cavalo. A terra parecia cozida e ressequida pelo sol fortíssimo e a falta de chuva. Chase apertou os olhos contra a luz enviesada do sol da tarde. Acima dele não havia nada exceto um céu de azul vivo. Estreitou os lábios ao ver uma vaca pastando, ao invés de estar deitada à sombra, ruminando. Não gostava de ver isso a esta hora do dia, porque significava que não havia pastagem suficiente.

Os suprimentos de água das fazendas das colinas em volta da Triplo C já tinham secado e sua grama queimado. A Triplo C partilhara o máximo de água que pudera com seus vizinhos. Ainda tinha água, mas o viçoso pasto dos Calders estava chegando a um ponto crítico. Iam ter que recolher os novilhos de um ano cedo, naquele outono, antes que começassem a perder peso. Era isso o que as pequenas fazendas vizinhas deviam ter feito mais cedo para poupar seu pasto e água, mas ficaram se segurando, certos de que acabaria por chover. Mas não chovera. E os outros fazendeiros não tinham os recursos para se aguentar por tanto tempo quanto a Triplo C.

Uma buzina fez com que Chase freasse o cavalo e se virasse na sela. Parecia que alguém tinha esquecido a mão na buzina. Uma pick-up apareceu, sacolejando, correndo desesperadamente pelo terreno irregular. Chase reconheceu Stumpy ao volante. Acenava para ele feito louco. Girando o cavalo, Chase saiu a trote para interceptar o veículo.

O que foi? O cavalo girou o traseiro quando a pick-up freou, guinchando.

Entre - Stumpy estendeu o braço e abriu a porta do lado do passageiro. O patrão está ferido.

Chase enrolou as rédeas no arção dianteiro enquanto pulava da sela e soltava a montaria. Não fez nenhuma pergunta até estar dentro da boleia. Stumpy arrancou antes que ele tivesse acabado de fechar a porta.

O que aconteceu? Se o pai de Chase estava ferido, isso queria dizer muito ferido, e a mente dele repassava todas as possibilidades.

A pick-up capotou. Ele foi jogado para fora, mas ela caiu em cima dele.

Stumpy Niles pisava no acelerador até o fundo e segurava o volante com as duas mãos para impedir que fosse arrancado dele pelos solavancos, enquanto o veículo corria sobre o terreno irregular.

Chase fitou rapidamente o motorista, abalado com o choque.

Ele está muito ferido?

O peito dele foi esmagado. Stumpy não tirava os olhos do terreno à frente, mas seu perfil demonstrava uma expressão sombria. Estava chamando você. Houve uma pausa enquanto ele diminuía a marcha da pick-up para parar diante da porteira.

Saltando da boleia, Chase saiu correndo para abrir a porteira para Stumpy poder passar. Soltava palavrões baixinho, e distraidamente se perguntou por que o homem sempre usava palavras de baixo calão nas situações em que se sentia impotente. Logo que a traseira da pick-up ultrapassou a porteira, Chase fechou-a e correu para se juntar a Stumpy na boleia.

Quando chegaram ao local, uns bons 20 minutos mais tarde, uma meia dúzia de cavaleiros tinha tirado a pick-up de cima do pai dele, com a ajuda de um punhado de homens a pé. Estavam enrolando as cordas de nylon brancas que tinham sido amarradas à pick-up. Chase viu Nate ajoelhado junto à figura do pai, deitado na margem inclinada de uma vala.

O silêncio entre os homens era impressionante, enquanto Chase saltava do veículo. Nate se endireitou e recuou, quando ele apareceu, deixando Chase ver pela primeira vez o rosto sem cor do pai e seu peito esmagado. O rapaz caiu de joelhos ao lado dele, estendendo parcialmente os braços, querendo fazer alguma coisa para aliviar a dor que o pai tinha que estar sentindo. Os olhos do homem se abriram, da mesma cor castanha que os seus, mas a luz que havia neles estava sumindo.

Eles o encontraram, filho. Graças a Deus. A voz rascante foi interrompida por uma tosse que fez sair sangue pelo canto da boca e tirou ainda mais um pouco de cor do rosto.

Chase trincou os dentes para impedir o gemido angustiado de sair. Tirando o chapéu, ergueu com carinho e cuidado a cabeça do pai e fez o chapéu de travesseiro. Depois, enxugou o sangue com o lenço.

Não tente falar, papai. A voz dele era tensa, espremida para manter-se firme. Ergueu os olhos para Nate. Vamos improvisar uma padiola para ele na traseira da pick-up do Stumpy. Certifique-se de que o avião esteja pronto para decolar na pista.

Nate apenas olhou para ele com tristeza por um longo segundo, depois virou-se para ir juntar-se ao resto dos homens, reunidos a alguns metros de distância.

Não adianta, filho. Mas a força na mão que segurava o braço de Chase parecia refutar a afirmação. Nenhum homem forte assim podia morrer. Posso ouvir as minhas costelas raspando umas nas outras, parecendo um monte de louça quebrada. Eu vou me afogar no meu próprio sangue antes que vocês consigam levarme a um médico insistiu o pai. Havia um chocalhar terrível a cada respiração curta e dolorosa que ele dava.

Aguente firme, papai instou Chase, recusando-se a desistir.

Os olhos castanhos fecharam-se, numa negativa, depois se abriram para fitar Chase carinhosamente.

Agora é tudo seu. Webb perscrutou o rosto do filho com profunda tristeza. Você é jovem demais, apenas vinte e sete anos. Precisava de mais alguns anos de amadurecimento. Apertou os dedos no braço do filho. Eles vão ver isso e virão atrás de você. Sabe disso?

Sei, papai.

Lá estava aquele misterioso "eles" de novo. O braço dele estava sendo apertado com tanta força que a circulação quase se interrompera. Era impossível acreditar que qualquer coisa pudesse matar este homem. O pai sempre parecera indestrutível.

Terá que lutar para manter a Triplo C intacta. Terá que estar pronto. A voz fraca e rascante tinha uma nota de desespero, enquanto um outro espasmo de tosse o atacava.

Você não vai morrer insistiu Chase, enquanto enxugava o sangue que escorria da boca do pai.

Pareceu passar-se muito tempo até que a tosse cessou e o sangue ficou reduzido a um filete que escorria do canto da boca. Webb descansou por um momento, tentando conservar as forças que lhe restavam, mas havia tanta coisa que precisava dizer a Chase.

Um homem tem que viver de modo a não ter medo de morrer. Não estou com medo, mas não quero ir. Não quero deixá-lo ainda. A dor contorceu-lhe o rosto. Dói... parece que meu peito está em fogo... me incendiando.

Chase virou parcialmente a cabeça para dar uma ordem ao grupo de vaqueiros parados silenciosamente a um canto.

Alguém me traga um pouco d'água.

Não notou quem trouxe o cantil. Simplesmente o desarrolhou e deixou um pouco de água cair na boca do pai. A dor nas suas feições foi-se suavizando. A boca relaxou ligeiramente, quase formando um sorriso.

Está melhor suspirou Webb e ergueu os olhos para o céu que encimava a Triplo C. As nuvens estão-se formando. murmurou. Que bom. Precisamos da chuva.

Um arrepio gelado correu pela espinha de Chase. O céu estava de um azul sólido. Não havia uma só nuvem à vista. Os músculos da sua garganta crisparam-se ferozmente para controlar o soluço de protesto que vinha subindo. Os olhos dele ardiam.

Quem me dera poder ficar. A voz do pai era pouco mais do que um sussurro, o chocalhar ficando mais alto. Diga a Ruth... Parou para inspirar, mas não chegou a fazê-lo.

Chase esperava, fitando-o numa descrença entorpecida, a mente se recusando a aceitar que o pai tinha morrido. Não o seu pai. Não Webb Calder, o patriarca do império Calder. Mas a cabeça grisalha tinha caído para o lado, e Chase desviou o olhar enquanto fechava os olhos castanhos que nada enxergavam.

Sentiu uma mão no ombro. Chase ergueu os olhos e viu Nate parado a seu lado. Não havia expressão no rosto do homem. Chase apagou qualquer uma do seu, enquanto se levantava e corria os olhos pelos outros empregados da fazenda. Alguns desviavam os olhos; outros o encaravam; mas ninguém falou. Tantos dos filhos nativos da fazenda estavam ali - Stumpy, Nate, Slim Trumbo, Ike Willis. Todos tinham o chapéu nas mãos.

Ninguém apareceu na Casa Grande naquela noite, mantendo-se todos distantes como ditava seu código, para dar a Chase tempo de reconciliar-se com a perda do pai e para chorar sua dor em particular. Não foi a Ruth, mas outra das mulheres dos vaqueiros quem preparou sua refeição naquela noite, colocou-a na mesa de jantar, e se retirou silenciosamente.

A mesa parecia imensa. Chase ficou ao lado dela e fitou a cadeira vazia à cabeceira, onde o pai sempre se sentava, e onde o prato de comida esperava por ele. Virou-se e saiu da sala. Entrando no escritório, fechou a porta atrás de si e se dirigiu até o bar. Serviu-se de uma dose dupla de uísque, engoliu-a, e voltou a encher o copo.

O silêncio da casa o sufocava enquanto caminhava até a enorme lareira de pedra e apoiava o pé na parte inferior alta. Ergueu os olhos da boca negra e escancarada para o par de chifres que encimava a cornija de pedra. A história lhe era familiar, uma história de sua infância, muitas vezes narrada. Cada rebanho em viagem tinha um novilho na liderança. Captain era o longhorn malhado que liderara o rebanho do seu xará, Chase Benteen Calder, na viagem longa e árdua do Texas até Montana. O animal vivera até uma idade provecta nos ricos pastos de Montana. Quando morreu, seus chifres majestosos foram armados e pendurados acima da lareira para que as gerações futuras apontassem e contassem aos filhos a história da perigosa viagem conduzindo o gado; os homens perdidos nas travessias de rios, o jovem vaqueiro morto num estouro da boiada... o preço pago para se chegar até o ponto livre e se forjar um novo começo no que era então o Território de Montana.

Chase virou a cabeça para olhar para o mapa amarelecido na parede atrás da escrivaninha. Um músculo se crispou no seu maxilar, quando recuou intimamente ante o tamanho da fazenda. Toda a vida fora criado na certeza de que um dia tudo aquilo seria seu. Nada mais lhe passara pela cabeça. Subitamente perguntou-se se era aquilo o que queria. Seus ombros se curvaram sob o peso da responsabilidade que aquilo acarretava... não apenas administrá-lo com êxito, mas todas as pessoas cujas vidas agora dependiam de suas decisões. Era assustador. Sentiu-se abalado por uma incerteza de que seria capaz.

"É tudo seu agora, filho." A voz rascante do pai falava com ele de novo. "Mantenha-o intacto."

Seus dedos se apertaram no copo de uísque, os nós ficando brancos. Jamais se sentira tão só na vida. Tinha vontade de gritar chamando alguém para aliviar essa dor aguda. Mas não havia ninguém. A mãe há muito morreu, nem mesmo uma lembrança dela sobrara em sua mente. Buck, seu melhor amigo, o traíra. Agora o pai também se fora, a única força inabalável da sua vida arrancada de si.

Pegou-se desejando a maciez de uma mulher. Maggie. Foi a imagem dela que lhe veio à mente. Nos seus braços sempre se sentira muito vivo. Santo Deus, como precisava dela hoje. Mas ela estava em algum lugar da Califórnia... muito longe do seu alcance. Parte dele sabia que, se ela estivesse na sala ao lado, ele não teria ido procurá-la. Eles não tinham compartilhado outra coisa que não sexo, e sexo não era do que estava precisando esta noite. Precisava do apoio e conforto de alguém que gostasse dele, alguém que ficasse a seu lado em silêncio.

Não havia ninguém. Estava só. Amanhã todos buscariam orientação com ele... para continuar a tradição dos Calders. Com passos pesados, atravessou a sala até a escrivaninha. Será que conseguiria seguir as passadas do pai? Não, não era assim que devia ser feito. Um líder tinha que abrir a fogo seu próprio caminho.

Sentando-se à cadeira atrás da escrivaninha, Chase começou a folhear a correspondência sobre o tampo. Uma carta com aparência oficial deu a Chase o primeiro indício dos problemas que o pai avisara que esperasse.

Num terno marrom escuro de estilo do Oeste, Chase estava de pé ao lado do pastor junto ao túmulo, segurando o Stetson de cor creme à sua frente. Um vento seco arrepiava seu cabelo castanho e levantava a poeira do chão. Indiferente às palavras de oração que o pastor dizia, Chase examinava o grande grupo de pranteadores que comparecera à cerimónia. Seu olhar pousou primeiro na delegação da fazenda. Todas as cabeças estavam inclinadas, exceto a de Tucker. Chase ainda não entendia por que o cozinheiro ainda trabalhava para a Triplo C, por que não se mandara depois de guardar algum dinheiro. Tucker enfrentou o seu olhar sem vacilar. Chase arquivou mentalmente a advertência de que Tucker lhe causaria problemas.

Desviou o olhar para Ruth e Virgil Haskell. O homem abraçava a mulher, que chorava silenciosamente. Chase jamais contara a Ruth que o seu nome fora a última palavra que o pai pronunciara. Não havia outro recado a dar, exceto este e, olhando para Virg, concluiu que estivera certo em não falar. Não se conseguiria nada com isso, salvo talvez mais sofrimento.

Quando se fixou no pessoal da cidade e nos estancieiros vizinhos que se haviam reunido para prestar as últimas homenagens ao pai, sentiu um leve choque percorrê-lo. Lembrou-se de que certa vez, há muito tempo, o pai lhe dissera que ninguém gosta de alguém que seja mais forte, mais rico ou mais poderoso do que ele. Estavam todos sempre procurando um jeito de derrubá-lo. Agora, Chase podia ver isso por si mesmo. Estava nos olhos deles que esperavam que ele quebrasse a cara e arrastasse consigo a Triplo C.

Por último o seu olhar pousou no Senador Franklin T. Bulfert, que viera de avião para assistir ao enterro e ia partir logo em seguida. Ficou pensando nas coisas que sabia sobre o político, e que o povo não sabia. Aquela seria sua munição... o seu conhecimento e a sua disposição em utilizá-lo.

O "Amém" do pastor teve eco no murmúrio suave da multidão. A cerimónia acabara. Chase lançou um olhar ao caixão e meteu o chapéu na cabeça. Sabia que o pai o perdoaria por não se demorar junto ao túmulo, quando havia negócios importantes da Triplo C a tratar. Parando para apertar a mão do pastor, murmurou uma resposta sem sentido para as condolências oferecidas, depois dirigiu-se para junto do senador.

É um dia sombrio, Chase, um dia sombrio declarou o político solenemente. Gostaria de poder expressar o que a perda de um bom amigo como Webb Calder significa para mim. Lamento precisar ir embora...

Sei que seu tempo é curto interrompeu Chase. Levá-lo-ei até o avião. Isso nos dará uma chance de conversarmos em particular.

A desconfiança tremeluziu nos olhos do homem.

É muito gentil da sua parte, mas sei que há outros aqui que querem expressar sua tristeza. Não quero atrapalhar.

Mas aqui não há ninguém tão importante quanto o senhor, senador.

Chase retorceu a boca num sorriso um tanto cínico, enquanto dava a desculpa. Acompanhou pessoalmente o senador até a limusine preta que esperava, com o motorista, agradecendo polidamente a todos que se acercavam dele para oferecer-lhe condolências. Depois que tinham entrado no espaçoso banco de trás da limusine, Chase fechou a divisória de vidro para que o motorista não escutasse a conversa deles. O senador lhe ofereceu um grande charuto. Chase recusou.

Não, obrigado, tenho os meus. Tirou do bolso de dentro do paletó uma cigarrilha fina e dobrou um fósforo de papelão, riscando-o com um trejeito do polegar. Soltou uma baforada, depois examinou a ponta incandescente, o brilho vermelho sob a cinza branca. Dentro dos limites oficiais da Triplo C existe um trecho de dois mil e quinhentos hectares que é pasto federal arrendado. O contrato vence no ano que vem e fui informado de que o governo não quer fazer novo arrendamento a longo prazo. Prefere fazê-lo numa base anual.

Isso é uma pena murmurou o senador, rolando o charuto entre os lábios. realmente é uma pena, mas parece ser esta a tendência que o governo está seguindo em tais assuntos.

Também não estou interessado num arrendamento a longo prazo declarou Chase, e sentiu o olhar agudo do senador sobre si- Quero negociar a compra desse trecho. Já está cercado por terra da Fazenda Calder passada por escritura. Como o governo já é dono de uns trinta por cento do Estado de Montana, não vai sentir falta de dois mil e quinhentos hectares.

O senador deu uma risadinha abafada.

O mesmo podia se dizer da Triplo C. O que são dois mil e quinhentos hectares comparados com o que vocês já têm?

A diferença, senador Chase virou o olhar apertado para o homem é que o senhor está falando de terra Calder. Vou corrigir o erro que meus antecessores cometeram e comprar aquele pedaço de terra. Não vou-me sujeitar aos caprichos do Tio Sam.

Não creio que você entenda o que está pedindo disse o homem, sacudindo a cabeça com ceticismo.

Estou-lhe pedindo que consiga a venda da terra para mim.

Está pedindo demais. Não sei se poderei conseguir desconversou o político, sem querer comprometer-se.

Chase deixou que se passasse um intervalo de silêncio.

O senhor é candidato à reeleição agora em novembro. Soube que seu adversário está-se emparelhando com o senhor, e que o páreo é duro. Dizem até que ele poderia derrotá-lo, com fundos suficientes para a campanha. Pergunto-me o que aconteceria se a Triplo C resolvesse apoiá-lo.

O homem não poderia ajudá-lo em nada. Não tem as ligações que tenho protestou o senador. Além disso, seria preciso mais do que dinheiro para ele me vencer.

O que seria preciso? Quem sabe se alguém deixasse "vazar" para a imprensa sobre o seu apartamento num bairro da periferia de Washington onde vivem uma loura e um garotinho chamado Frank Júnior, isso seria o bastante? sugeriu Chase.

Isso é chantagem. O senador olhou para ele, furioso. Fiz muitos favores para seu pai, no passado. Não posso deixar de pensar que ele não aprovaria as ameaças que está fazendo a um amigo leal.

Só o mencionei, senador, para deixar claro que precisamos um do outro. Chase bateu a cinza da cigarrilha no cinzeiro de metal localizado no descanso estofado para braços do carro. O senhor precisa do meu apoio para assegurar sua reeleição. E eu preciso de suas ligações para comprar aquela terra do governo. Se quiser interpretá-lo como ameaça de chantagem, é problema seu. A limusine parou junto da pista. Seu avião está esperando, senador. Espero ouvir notícias suas no final da semana.

Havia uma expressão de admiração relutante no rosto do senador, enquanto apertava a mão de Chase.

Acho que nos entendemos, Chase.

Estou certo que sim concordou o fazendeiro, secamente.

Da pista de pouso, Chase voltou diretamente para a Casa Grande e entrou no escritório. Passou uma hora estudando o mapa na parede antes de mandar um recado a Nate, dizendo que queria que ele e os outros capatazes o encontrassem no gabinete após o jantar.

Estava sentado atrás da escrivaninha quando eles entraram. Notou o lampejo de surpresa nos seus olhos quando o viram; estavam acostumados demais com o pai dele ocupando aquela cadeira. Era algo a que ele próprio também não se adaptara inteiramente, portanto compreendeu o breve choque e não o interpretou como desdouro à sua liderança.

Quando o último homem chegou, Chase fez a todos uma pergunta.

Onde ficam o melhor pasto e a melhor água da Triplo C?

Ao norte replicou Virgil Haskell, e franziu o cenho. Nós os estamos poupando para servir de pastagem durante o inverno.

Eu sei. Chase se levantou e se dirigiu para o mapa. Nos limites do pasto norte temos a Fazenda Shamrock, a Circle Six e a estância de Bill MacGruder. Todos estão na pior. Tenho o palpite de que vão decidir invadir com o seu gado o pasto norte... individualmente, ou em grupo.

Imagino que para eles seja uma tortura ver o seu gado morrendo de fome com todo aquele pasto e água do outro lado da cerca comentou Stumpy, com um aceno de concordância.

Exatamente o que pensei. Chase observou os olhares afirmativos dos demais.

O que quer que a gente faça a respeito? perguntou Ike Willis, observando Chase atentamente, como todos os outros. Detesto ver gado morrendo de fome.

Todos os vaqueiros, detestam, mas eles deviam ter feito algo a respeito antes... vendido e reduzido os seus rebanhos a um tamanho que os seus pastos pudessem alimentar numa seca. Poupamos o pasto norte para o nosso gado e vamos precisar de cada centímetro dele se não quisermos acabar como os outros. Quando eles agirem, nós estaremos esperando por eles para conduzir seus rebanhos para o seu lado da cerca.

Ao alvorecer da manhã seguinte, três grupos de vaqueiros se separaram para patrulhar a longa cerca divisória da fronteira norte da fazenda. Chase ia com o grupo de Nate. Todos os homens tinham um fuzil carregado na bainha, com ordens para usá-lo se precisassem.

Chase se perguntava se tinha adivinhado errado. Talvez houvesse outros fazendeiros na fronteira oeste, ou sul, que estavam numa ainda pior. Mas os pastos da Triplo C naquelas áreas foram praticamente todos utilizados, e a água era escassa. A totalidade de seus instintos insistia em que, se ia ter encrencas com os vizinhos, seria aqui no pasto norte, onde havia muita grama e água. Era daqui que a encrenca viria... se viesse, e ele esperava em Deus que não. Queria estar errado.

Foi lá pelo meio da manhã que ouviram o mugido distante do gado e se dirigiram para onde vinha o som. Quando depararam com os rebanhos conjuntos que cruzavam o buraco na cerca onde os arames tinham sido cortados, Chase freou o cavalo. Este dançou impaciente sob ele, sacudindo a cabeça e forçando o freio.

Chase abaixou-se e tirou o fuzil da bainha, e com seu gesto deu um sinal para que os demais fizessem o mesmo.

Os cavaleiros espalharam-se em leque atrás dele, com Nate vindo para o seu lado direito. Chase esporeou seu cavalo a trote, enquanto os outros o seguiram. Seu olhar percorreu o gado esquelético, notando as marcas misturadas. Depois percebeu os respectivos donos das fazendas agrupando-se num trio para enfrentálo: MacGruder, Hensen, da Circle Six, e Culley O'Rourke. Não pôde deixar de notar como Culley estava magro e de olhos fundos, mas o brilho do ódio achava-se nos seus olhos verdes... uma expressão que lhe fazia lembrar Maggie. Mas não podia permitir que essa lembrança o amolecesse, portanto bloqueou-a.

Ele e seus vaqueiros pararam suas montarias na frente do gado, diminuindo o fluxo que entrava pela cerca e dispersando as vacas. Os animais imediatamente começaram a atacar a grama, esfaimados.

Estão invadindo propriedade particular declarou Chase. Voltem com o seu gado para seu lado da cerca.

Você tem pasto de sobra aqui. Foi Culley quem o desafiou. E água também. Nosso gado está morrendo de fome. Precisamos deste pasto, e você não.

Não havia como tentar argumentar com um fazendeiro que via o seu rebanho ficar mais fraco a cada dia. Ele não ia querer ouvir sobre a necessidade que dentro em breve a Triplo C teria deste pasto. Não se importava com a Triplo C... apenas com salvar as próprias vacas.

Dou-lhes um minuto para darem meia-volta com o rebanho avisou Chase.

Ou você fará o quê debochou Culley, olhando para os fuzis nas mãos deles. Começará a atirar na gente?

Não. Chase sentiu o olhar curioso que Nate lhe dardejou. Não preciso atirar em vocês. Trouxeram seu gado para cá para salvá-lo. Se querem que continue vivo, vocês o retirarão da terra da Triplo C.

Está ameaçando atirar no nosso gado? perguntou Bill MacGruder, endireitando-se na sela e franzindo o cenho, incrédulo.

Se não começarem a levá-los em... trinta segundos, é o que farei declarou, e viu os três fazendeiros olharem entre si.

Você está blefando zombou Culley.

Chase não disse mais nada, movendo-se com seu cavalo que se desviava de uma mosca que o mordia. Mentalmente, foi contando os segundos enquanto observava a incerteza nos rostos dos três homens. Finalmente, ergueu o fuzil e mirou uma vaca de cara branca. Apertou o gatilho e não esperou para vê-la cair enquanto enfiava outra bala na câmara e derrubava um segundo animal. As outras vacas que estavam perto do par abatido se dispersaram num breve pânico ante a explosão dos tiros.

Seu filho da mãe assassino!

Com o canto dos olhos, Chase viu o cavalo e o cavaleiro que partiam para cima dele e girou sua montaria bruscamente para desviar-se deles. Notou o ódio na expressão de Culley O'Rourke quando ele tentou agarrar o fuzil. Chase mudou a direção do cano e acertou seu atacante no queixo com a coronha da arma. O golpe fez Culley cair da sela. Às suas costas ouviu fuzis serem engatilhados enquanto seus homens viravam as bocas das armas ameaçadoramente para os dois fazendeiros restantes, cujas mãos tinham descido em busca dos fuzis que carregavam nas suas bainhas.

Vão levar embora os rebanhos? desafiou Chase, ciente de que Culley estava-se pondo de pé, tropegamente.

Que merda, Chase! Esses animais estão morrendo de fome! MacGruder fez um apelo.

Nate, quero mais dez cabeças para fazer companhia àquelas duas no chão ordenou Chase, sem olhar para o capataz. E dez mais para cada minuto que eles esperarem.

Uma mistura de choque e ultraje penetrou na fisionomia dos dois fazendeiros quando se ouviu o estalido imediato de um fuzil, seguido pelo gemido do animal que caía. Chase contou mentalmente os tiros enquanto os estancieiros atordoados viam suas vacas caírem de uma em uma. Até mesmo Culley olhava com choque e sofrimento.

Não pode fazer isso! protestou Hensen, quando o silêncio finalmente se seguiu ao décimo tiro.

Faça-os voltarem.

Os loucos continuaram a hesitar até ouvir o estalido de uma bala de fuzil sendo colocada na câmara.

Está bem!! Bill MacGruder gritou, e ergueu a mão para que não atirassem mais. Nós os levaremos de volta. Pelo amor de Deus, não atirem em mais nenhum animal!

Culley olhou para Chase com ódio, enquanto segurava as rédeas caídas do seu cavalo e montava para se unir aos colegas. Moveram-se rapidamente para agrupar o rebanho e empurrá-lo de volta pelo buraco na cerca, enquanto Chase e seus homens observavam.

Nate fitou o homem sentado tão ereto na sela, inflexível, à moda dos Calders, e murmurou numa voz que apenas ele ouviu: O rei está morto. Viva o rei.

 

Chase subiu os degraus da varanda da Casa Grande e parou para olhar por cima do ombro. Sentiu um orgulho inconsciente quando seus olhos correram pela sede da Triplo C. Dirigir a fazenda tornara-se uma segunda natureza para ele desde a morte do pai, há cinco anos. Durante os primeiros meses fora testado a cada momento. Ocultando qualquer incerteza que pudesse sentir, enfrentara cada desafio e a Triplo C estava intacta, funcionando tranquila e eficientemente. Este era o serviço para o qual nascera e fora criado, e fazia-o bem. Se havia quem considerasse seu orgulho como arrogância, então era uma arrogância merecida.

Virou-se para a frente e dirigiu-se para a porta de entrada, os passos cadenciados soando alto no piso de madeira da varanda. Fechando a porta depois de ter cruzado a soleira, dirigiu-se imediatamente para o escritório.

Chase? A voz hesitante de Ruth Haskell fez com que parasse e se virasse para olhar para a sala de jantar. Depois da morte do pai dele, ela começara a aparentar a idade que tinha. Parecia sempre haver uma tristeza atormentada nas sombras dos seus olhos azuis.

Mas não foi em Ruth que seu olhar pousou. Houve um momento em que Chase pensou estar vendo um fantasma, fitando o homem pálido parado a seu lado. Segurava o chapéu de cowboy nervosamente diante de si, deixando à mostra os cabelos encaracolados e louros escuros. Quase não havia luz nos olhos azuis, pelo menos não o brilho alegre de que Chase se recordava.

Alo, Chase. A voz era submissa e hesitante, como se não soubesse se ia ser bem recebido.

Mas era a voz de Buck. Por um momento fugaz, Chase sentiu ímpetos de cruzar o espaço que os separava e apertar a mão do amigo de tantos anos. Depois, lembrou-se das circunstâncias em que Buck deixara a fazenda e permanecera onde estava.

Alo, Buck. Não sabia que tinha saído.

Sua voz era tão inexpressiva quanto o rosto. Desviou o olhar para Ruth, notando como ela mordia o lábio. A mulher sabia, ele se deu conta, e simplesmente deixou de contar-lhe.

Soltaram-me ontem, reduziram minha sentença por "bom comportamento", imagine só! A risada dele era oca, e Buck baixou a cabeça, mexendo nervosamente no chapéu. Sei que dizer "sinto muito" provavelmente não vai significar nada, Chase, mas quero que saiba que sinto.

Chase apertou os lábios, estreitando a linha da boca. Não gostava de ver Buck se humilhando, e ficou contente quando Ruth saiu da sala, deixando-os a sós. Como não sabia o que dizer, ficou calado enquanto Buck entrava desajeitadamente no vestíbulo.

Não há nada que eu possa dizer que possa desculpar o modo pelo qual me portei com você - continuou Buck - ou que vá fazer com que você esqueça as coisas que eu disse. Quando me dei conta de que ia para a cadeia pelo que tinha feito, entrei em pânico. Já teve medo, Chase... quero dizer medo de verdade, até a ponta dos dedos dos pés? Eu era como um animal preso numa armadilha e que começa a morder a si mesmo. Fez uma pausa e soltou um pesado suspiro, finalmente erguendo os olhos para encontrar o olhar firme de Chase. Tive um bocado de tempo para pensar nisso tudo na prisão. Só queria que você soubesse como me sinto. E lamentei muito saber sobre seu pai. Sei que deve ter sido dureza para você. Os dois eram muito chegados. Bem - mexeu no chapéu de novo e deu um sorriso formal - não vou prendê-lo mais. Sei que está ocupado, portanto... vou andando.

Havia um conflito dentro de Chase, enquanto via Buck começar a se afastar. Metade dele dizia que o deixasse ir, mas o lado mais forte ficava lembrando-se dos bons tempos.

Que tal uma bebida? perguntou, e sorriu pela primeira vez ao ver a velha vivacidade voltar aos olhos de Buck.

Adoraria declarou Buck. Não provo um bom uísque há quase dez anos.

Vamos corrigir isso. Apoiou com naturalidade a mão no ombro do velho amigo, enquanto entravam juntos no escritório.

Nada mudou muito. Buck correu os olhos pelo aposento enquanto Chase se dirigia para o bar a fim de servir-lhes uma bebida. Tudo está do jeito que eu me lembrava.

O que pretende fazer agora? indagou Chase, entregando-lhe um copo.

Arrumar emprego. Por acaso conhece alguém que esteja disposto a contratar um vaqueiro enferrujado que passou alguns anos fora de circulação? zombou, com um pouco da antiga vivacidade.

Chase fitou o seu copo por um minuto, o conflito vindo à tona de novo.

Quem sabe.

Ei! Eu não lhe estava pedindo emprego insistiu Buck, rapidamente. Quero dizer...

Chase lançou-lhe um olhar de banda, avaliando-o.

Quer dizer que não quer trabalhar de novo para a Triplo C?

Estaria mentindo se dissesse que não. Havia ansiedade na sua resposta suspirosa. Buck girou o líquido no copo e ficou vendo os tons de âmbar em mutação. Só com o que sonhei durante dez anos foi voltar para casa. Sacudiu a cabeça, num pesar mudo. Mas não é direito para mim esperar que você me dê uma segunda chance.

Isso quem decide sou eu, Buck. E se descobrir que você não a merece, boto-o daqui para fora a pontapés, pessoalmente.

Ei, eu pinto os alpendres, limpo os estábulos, conserto os moinhos... o que você mandar prometeu Buck. Não precisa botar-me em cima de um cavalo até que eu prove o meu valor de novo.

Desculpe. Chase sacudiu a cabeça. Só estou interessado em contratar Buck Haskell, o vaqueiro.

Darei mais duro do que qualquer pessoa que você já viu. Prometo-lhe, Chase.

No final do segundo mês, Chase acreditou nele. Buck era o primeiro a sair para o trabalho de manhã e o último a voltar à noite. Havia vezes em que fazia o trabalho de dois homens. Não ia até o Jake's e raramente bebia, exceto uma cerveja gelada ou um copo de uísque com Chase, se por acaso aparecia na Casa Grande à noite, o que era raro. Pelo que Chase pudera perceber, não estava esbanjando o seu dinheiro, mas guardava um pouco de cada cheque de pagamento. E também não tentara recomeçar a amizade de onde ela parara, como se soubesse que tinha que merecer a confiança de Chase antes que os velhos elos pudessem ser restabelecidos.

Elizabeth brincava com a entrada, toranja grelhada com uma mistura de açúcar e licor Galliano, geralmente um prato que apreciava muito. Phillip a examinava discretamente da outra cabeceira da mesa, e reconheceu o humor introspectivo, adivinhando-lhe a causa.

Teve notícias do seu irmão, hoje.

Ela ergueu os olhos, numa confusão espantada.

Como é que soube?

Eu sei murmurou ele, largando a colher serrilhada de comer toranja. O que foi que ele contou?

As coisas de sempre. Maggie deu de ombros e não explicou mais nada. Phillip já lera muitas cartas de Culley e sabia que ele ficava esbravejando sobre Chase Calder. Ela ficava preocupada, às vezes, com a obsessão em que o ódio do irmão se transformara. O seu próprio se suavizara com o passar do tempo e com a influência carinhosa de Phillip, que havia curado grande parte de sua dor.

Eu conheço o meu tio? perguntou Ty, com uma ruga profunda na testa.

Com 10, quase 11 anos, ele ficava cada vez mais parecido com Chase. Maggie tinha mais consciência disso em certas horas, como agora, quando a carta de Culley tinha refrescado todas as suas lembranças do homem.

Não, não conhece. Mudou rapidamente de assunto. Aonde você e Jeff vão hoje à noite?

Jeff Broadstreet era amigo de Ty. Os dois meninos estudavam no mesmo colégio particular. Os pais de Jeff iam levar os dois para sair naquela noite.

Ao cinema, ver um bangue-bangue. Jeff falou que o trailer parecia ótimo - falou, entusiasmado. Tio Culley tem uma fazenda, não é?

Tem, sim respondeu Phillip, quando Maggie não respondeu à pergunta.

Por que nunca vamos visitá-lo? Seria legal ficar numa fazenda de verdade. Não podemos ir, um dia, mamãe?

Vamos ver disse, vivamente. Sabia que nunca iriam, mas não contou a Ty, porque isso exigiria uma explicação.

Que tal neste verão? sugeriu o garoto.

Vamos para Londres no verão lembrou-lhe a mãe.

Londres não passa de um amontoado de prédios velhos e museus bolorentos queixou-se Ty. Prefiro ir para a fazenda.

Vamos para Londres declarou Maggie. Todas as nossas reservas já estão feitas e é tarde demais para cancelá-las. Notou como sua voz ficara cortante, e suavizou-a. Londres é uma cidade fascinante. Você vai gostar. Seu pai e eu nos divertimos muito lá, na nossa lua-de-mel.

Pensei que tinham passado a lua-de-mel em Paris.

E passamos, mas também estivemos alguns dias em Londres explicou ela.

Ainda prefiro ir para a fazenda do meu tio em Montana - resmungou Ty.

Chega de discussão agora, Ty advertiu Phillip, e mudou de assunto, conversando sobre algo menos doloroso para a mulher. Mas aquilo precisava ser ventilado. Phillip esperou até o jantar ter terminado e Ty ter pedido licença para sair da mesa, antes de abordá-lo de novo. Ty devia conhecer seu irmão, Elizabeth. Afinal de contas, Culley é o único tio que ele tem.

Vou convidar Culley para vir à Califórnia.

Ele não virá. Não veio à sua formatura, nem ao nosso casamento. Está sempre ocupado demais lembrou Phillip. Além disso, é a fazenda que Ty realmente deseja conhecer.

É só uma fase que ele está atravessando. Vai superá-la disse a moça.

Tenho minhas dúvidas, Elizabeth. Ty é um cavaleiro natural. Isso é algo que não vai superar raciocinou.

Não me importa. Ele não vai para Montana... nem agora, nem nunca. Aborreceu-se por ver que Phillip estava tomando o partido de Ty.

E o que vai acontecer quando for mais velho? Quando você não puder mais dizer-lhe o que pode e o que não pode fazer? Examinou a fisionomia fechada dela e soltou um suspiro. Elizabeth, Ty tem o direito de saber que é adotado. Já falei isso antes. Esse era um dos poucos pontos na vida deles em que discordava da mulher.

O que isso mudaria? O que conseguiria, exceto confundi-lo? Ty acredita que você é o seu pai. Você é o seu pai insistiu ela.

E se algum dia ele descobrir?

Não vai. Não vai descobrir nunca.

Com um suspiro pesado, Phillip deixou o assunto morrer. Maggie simplesmente se recusava a ver os problemas que viviam. Aquilo o preocupava, mas, como em todas as coisas, cedeu aos desejos dela, e ficou calado.

 

                     Um céu de união,

                     Um céu completo,

                     Este céu que contempla

                     O encontro de dois Calders.

 

Ela acariciou com as pontas dos dedos a foto do homem, esbelto e grisalho enquanto seus olhos se nublavam de lágrimas.

Meu querido Phillip - sussurrou Maggie - tivemos dez anos maravilhosos de casados. Sempre os guardarei na lembrança.

Ainda era tão difícil acreditar que ele tinha morrido, roubado dela tão rapidamente, sem aviso, vítima de um enfarte violento, há dois meses.

Correu os olhos pelo quarto que haviam compartilhado, cheio de caixotes com roupas a serem dadas para uma instituição de caridade local. Adiara essa tarefa por muito tempo, sabendo como o quarto ficaria vazio sem as coisas dele. Seu olhar pousou na Bíblia de família sobre a mesinha-de-cabeceira. Estivera enfiada numa prateleira do armário. Tudo agora parecia tão definitivo, depois que registrara nela a data da morte de Phillip.

Um carro subiu roncando a estrada particular, o motor aberto estilhaçando a quietude da noite. No cercado, um cavalo relinchou, alarmado. Maggie olhou para o mostrador luminoso do relógio da mesinha. Ty devia estar em casa há mais de uma hora. A combinação do seu 15º aniversário com a morte do pai convencera-o de que, como o homem da casa, podia descumprir as regras. Para piorar as coisas, Jeff acabara de fazer 16 anos e tirara carteira de motorista, portanto sempre havia transporte disponível para Ty.

Pegando o robe de cetim que jazia ao pé da cama, Maggie vestiu-o enquanto saía do quarto principal, onde agora dormia sozinha. Já tinha descido metade da escadaria branca, quando ouviu a porta bater e o carro acelerando o motor enquanto dava marcha à ré para sair. Uma luz já estava acesa na sala de visitas. O motivo para ela tornou-se aparente quando Pamela entrou com a sua cadeira de rodas no saguão.

Alo, Ty. Divertiu-se, hoje?

A pergunta irritou Maggie. Pamela virtualmente encorajava Ty, com sua atitude, de que qualquer coisa que ele fizesse estava perfeitamente certa. Aquilo estava minando a autoridade que Maggie exercia sobre o filho.

Devia ter vindo com a gente, Pamela! Foi um espetáculo! Aos 15 anos, a voz dele estava mudando, indo de uma oitava baixa até um guincho alto. Já esteve num rodeio? Cara, é um barato!

Ty, está sabendo que horas são? Maggie desceu o resto das escadas, mais perturbada do que poderia estar, graças a Pamela.

Desculpe, mamãe. Não estava tendo muito êxito em parecer contrito. Com 1,80m, estava começando a tomar corpo nos ombros e no peito. Sua altura e feições de ossos largos faziam com que parecesse mais velho. Tinha no rosto uma penugem forte o bastante para precisar barbear-se, o que ainda fazia com que se sentisse mais homem. Respeitara naturalmente a autoridade de Phillip porque este era um homem, mas encarava as ordens de Maggie com uma espécie de indulgência, como se tivesse de agradá-la porque era mulher. Mas a última parte era, manter os touros. Jeff e eu não queríamos perdê-la.

Será que devo ignorar o fato de que está mais de uma hora atrasado para chegar em casa?

Ora, Elizabeth Pamela repreendeu-lhe a severidade. Não é como se o Ty tivesse ido a uma bacanal e tivesse vindo para casa bêbado. Foi tudo muito inocente.

Se não se importa, Pamela, eu cuido disso retrucou, cheia das constantes interferências da mulher. Era difícil acreditar que alguma vez a considerara um modelo do que desejava ser. Tinha sido apenas superficial. Frequentemente sentia pena de Pamela por causa do vazio de sua vida, mas ela era vazia porque Pamela era essencialmente vazia. Era algo que Maggie levara tempo a descobrir. Foi só depois que Maggie entrara para a equipe executiva de uma organização internacional de caridade, onde sua facilidade com idiomas era útil, e tentara interessar Pamela em algum trabalho voluntário, que se dera conta de que a irmã de Phillip era uma pessoa muito superficial, incapaz de se ajudar ou ajudar a mais alguém. Era mais do que seu corpo que era aleijado.

Você é severa demais com ele, Elizabeth criticou Pamela. Controlando-se com esforço, Maggie virou-se calmamente para o filho.

Ty, quer fazer o favor de subir e esperar por mim no meu quarto? Aguardou calada enquanto o rapaz subia as escadas e ela ouviu a porta do quarto principal se fechar. Depois, virou-se para a cunhada. Não me interrompa novamente quando eu estiver repreendendo meu filho, Pamela. Não tolerarei mais isso.

O que foi que eu fiz? exclamou, com ar adequadamente atónito.

Você encoraja Ty a não ligar para o que eu digo. Não tolerarei mais interferências suas em assuntos que são estritamente entre meu filho e eu.

Não admito que me diga como devo conduzir-me na minha própria casa! explodiu Pamela. Para o caso de ter-se esquecido, esta é a minha casa! Você não passa de uma hóspede.

Sim, esta é a sua casa. Phillip deixou-a para você, e folgo com isso. Mas, para o caso de ter-se esquecido, Ty é meu filho. Se eu me for, ele vai comigo. Ficou pensando na ideia por um momento. Talvez seja mesmo o melhor, porque está evidente que eu e você não vamos conseguir nos entender.

Não pode estar falando sério! A possibilidade assustava Pamela.

Se você e eu não pudermos chegar a um acordo sobre Ty, não vejo alternativa.

Maggie girou sobre si mesma, com um rodopio do robe de cetim, e subiu as escadas até o segundo andar. Não tinha vontade de deixar esta casa, onde ela e Phillip tinham sido tão felizes. Estava cheia de tantas lembranças felizes. Talvez a ameaça de partir fosse o suficiente.

Quando entrou no seu quarto, olhou automaticamente ao redor para localizar o filho. Estava sentado no lado da grande cama, de costas para ela, os ombros largos ligeiramente curvados. Tinha um jeito atordoado, confuso que fez Maggie franzir o cenho.

Quem é Chase Calder? perguntou ele, com voz rouca. O choque tirou a ruga da testa de Maggie e a cor das faces.

Onde ouviu esse nome? acusou ela, num sussurro.

Eu o li. Aqui. Endireitou-se da cama e virou-se para mostrar-lhe o livro na mão.

Maggie reconheceu a Bíblia da família Malloy.

Não. Era pouco mais do que um arquejo.

Aqui diz que ele é meu pai. Isso é verdade? Estava torturado pela confusão. Quem foi o papai? Você sempre me disse que ele era o meu pai, que vocês dois apenas esperaram até você ficar mais velha para casar.

Phillip... foi seu pai de todo o jeito que importa.

Mas quem é Chase Calder? insistiu Ty, a voz fraquejando. E por que aqui diz que ele é meu pai?

Porque... Maggie se deu conta de que era inútil tentar continuar a mentira; lamentou profundamente o impulso que havia feito com que escrevesse o nome de Chase na Bíblia... ele é o seu pai biológico. Mas Phillip foi quem criou você, quem o amou como só um pai pode amar o seu filho.

O que você está dizendo é que ele me adotou e que Chase Calder é o meu pai de verdade.

Chase foi o seu pai natural, mas Phillip foi o seu pai de verdade argumentou ela. Fez todas as coisas com você que um pai de verdade faz.

O garoto fitou a Bíblia, aberta nas mãos.

Lembro de quando estávamos estudando genética na aula de biologia e eu lhe perguntei por que eu tinha olhos castanhos quando os seus eram verdes e os do papai cinzas, você falou que eu tinha puxado a meu avô. Mas foi a meu pai, não é?

É.

Ele se virou, fechando abruptamente as páginas.

Não posso acreditar!

Ty, não faz nenhuma diferença.

Maggie atravessou o quarto, tentando confortá-lo e aliviar-lhe a confusão e dor, mas ele virou-se contra ela quando se aproximou, o olhar duro penetrando-a de um modo que lhe lembrava vivamente o de Chase.

Quero saber a respeito dele.

Não. Ela recuou.

Ele é meu pai! insistiu.

Ele era apenas alguém que morava na fazenda vizinha à nossa. Como minimizava a verdade! Ele não nos queria, Ty. Phillip quis.

Eu nasci na Califórnia. Ele nem sequer me conhece. Como sabe que não me quer?

Ty, pare com isso. Pare de imaginar coisas. Pare de criar um mundo de ideias românticas na cabeça argumentou Maggie, com medo.

Mas eu tenho um pai por aí que nem sequer conheço. Ele está vivo, não está? Embora fosse em forma de pergunta, era uma afirmação convicta.

Maggie hesitou uma fração de segundo, depois mentiu:

Não sei.

Está afirmou Ty. É por isso que você nunca quis ir visitar o seu irmão... porque não quer vê-lo de novo.

Não é verdade. Mas era.

O garoto passou a mão pelo rosto, como se o gesto fosse apagar a confusão e permitir que entendesse o que estava ocorrendo.

Por que não me falou dele antes? Por que deixou que eu viesse a descobrir desse jeito?

Ty, sinto muito. Sentia que ele tivesse descoberto, isso sim! - Sei que é difícil para você, mas de que adiantaria se eu lhe tivesse contado a respeito dele?

Você não entende! Ele é meu pai gemeu, e passou por ela, mas não antes que ela tivesse visto o brilho das lágrimas nos seus olhos. Passadas longas levaram-no para fora do quarto antes que fizesse algo pouco másculo, como chorar diante dela. Sentiu a dor dele, mas duvidava que ele conhecesse a dela. Ele estava naquela idade difícil em que estava convencido de que ninguém podia compreender.

Durante os dias que se seguiram, ele ficou silencioso e sorumbático, isolando-se no seu quarto ou saindo sozinho sem dizer aonde ia ou quando voltaria. Maggie deu-se conta de que estava sendo castigada, no entanto agarrava-se à esperança de que mais cedo ou mais tarde ele a escutaria e esqueceria do homem que o tinha gerado.

O barulho do despertador acordou-a e ela rolou para o lado a fim de desligá-lo. Roçou a mão num pedaço de papel, derrubando-o ao chão. Estendeu a mão pelo lado da cama, para apanhá-lo. A letra familiar que ocupava o papel afugentou o sono dos seus olhos enquanto ela se sentava na cama para ler o bilhete.

 

       Querida mamãe,

Desculpe não ter-me despedido pessoalmente, mas sabia que iria tentar impedir-me. Não se preocupe comigo. Sei cuidar de mim. Por favor tente compreender. Precisava fazer isso.

                 Eu a amo, Ty

 

Jogou longe as cobertas e correu para o quarto dele, descendo o corredor, mas não estava lá. O aparelho de barbear, escova de dentes e pente tinham sumido do banheiro. Revistou o armário e as gavetas dele, tentando determinar quais as roupas que levara, mas estava nervosa demais para lembrar-se exatamente de quais ele possuía. O filho tinha fugido. Começou a imaginar todo o tipo de coisas terríveis, desde Ty sendo atingido por um carro enquanto pedia carona na estrada até um motorista tarado assassinando-o.

Quando ligou para a polícia, explicaram que ele tinha que estar desaparecido há um mínimo de 24 horas antes de poderem registrar o caso. Embora Maggie pudesse apenas adivinhar que ele se fora durante a noite, vestiu-se, ligou para o escritório avisando que ia faltar e saiu ela mesma à procura, correndo de carro cada rua, rodovia e auto-estrada em busca do garoto.

 

Chase envolveu com ambas as mãos a caneca quente de café, para aquecê-las. Era um dia frio de primavera que transformava sua respiração em vapor branco. A gola da jaqueta de pêlo de carneiro estava levantada para protegê-lo do frio, e o Stetson achava-se enterrado na cabeça para mantê-la aquecida. Ficou vendo o rebanho de cavalos subir a colina, um mar de castanhos, baios, amarelados e alazões, os pêlos felpudos de inverno escondendo as linhas macias e musculosas dos seus corpos. O solo vibrava com o trovão dos seus cascos galopantes, e Chase sentiu surgir aquela velha excitação.

Era sempre assim quando os cavalos eram reunidos e trazidos do pasto de inverno. Sua chegada assinalava o começo de outra estação; o recolhimento do gado da primavera não estava longe. Uma temporada turbulenta esperava os vaqueiros que escolhiam suas montarias e jogavam selas no lombo de cavalos que tinham vivido à solta durante o longo inverno. Ali havia alguns que corcoveariam feito animal de rodeio, mas seus cavaleiros não teriam muito tempo para a tarefa. Não, teriam que montar os animais até que eles se cansassem de dar corcovas e amansassem totalmente. Ia haver emoção de sobra por aqui durante alguns dias até que as equipes fossem escolhidas e enviadas para o recolhimento da primavera.

O oceano de cavalos cruzou as porteiras abertas de um grande cercado. Apesar de todos os bufidos e pinotes, eles sabiam que os prédios da fazenda significavam feno e cereais, portanto não precisaram de muita insistência para entrar no cercado. Quando a porteira se fechou atrás do último cavalo, um cavaleiro se separou dos demais e trotou com o seu cavalo para junto de Chase.

Parecem gordos e bem-dispostos. Buck abriu um sorriso e saltou da sela. Farejou o café, apreciativamente. Puxa, mas que cheiro bom.

Chase tomou um gole do líquido escaldante e depois passou a caneca para Buck. Não havia mais traços da palidez do presídio, e o sorriso estava de volta, mas ele sofrera mudanças... para melhor, na opinião de Chase. Buck era competente, trabalhador, confiável, jamais se esquivava de tarefas ou responsabilidades, Buck se transformara num dos principais capatazes da Triplo C. Ele e Chase agora eram a combinação de trabalho que Chase sempre imaginara que seriam. Era uma boa sensação ter o amigo de volta.

Enfiando as mãos nos bolsos forrados da jaqueta onde estavam as luvas, Chase caminhou até a cerca para dar uma olhada mais de perto nos cavalos. Buck o acompanhava, puxando seu cavalo. Concordou com a avaliação anterior de Buck.

Passaram bem o inverno.

Hã-hã. Buck fez um som afirmativo enquanto tomava um bocado do café quente e dobrava o cotovelo no pau superior da cerca. Quando estive na cidade, no outro dia, andei conversando com Lew.

Conversando ou fofocando? zombou Chase.

Com ele, é tudo uma coisa só. Abriu um sorriso. De qualquer maneira, ele estava-me contando que o velho Anderson não tinha testamento, quando morreu naquele acidente na fazenda, no outono passado. Parece que tinha sido casado antes e tinha dois filhos da primeira mulher. Eles contrataram uns advogados e reclamaram uma parte da herança. Parece que a viúva do Anderson vai ter que vender a fazenda para que os dois primeiros filhos possam ganhar a parte que lhes cabe.

Não sabia disso. É dureza comentou Chase, correndo um olhar avaliador pelos cavalos que se dispersavam para pastar.

Isso me fez pensar no que aconteceria à Triplo C, se alguma coisa lhe acontecesse. Você tem um testamento, não tem? indagou Buck, franzindo o cenho.

A pergunta fez Chase fazer uma pausa, encurvando os ombros ligeiramente.

Não. Nunca me dei ao trabalho de fazê-lo.

Tem algum parente? Primos ou coisa parecida.

Não que eu saiba. Por quê?

Buck mexeu a cabeça, num gesto de banda.

Detesto a ideia de ver esta fazenda dividida e vendida e todo o dinheiro indo para os cofres do Estado. Não seria direito. Nate eu, meu pessoal, todo o resto de nós... ficaríamos a ver navios. Se você não tem ninguém para quem deixá-la, quem sabe podia pensar em deixar as ações da companhia para todos nós para podermos manter a Triplo C operando intacta sugeriu.

Não é uma má ideia. Parecia a um só tempo lógica e justa.

Fale com um advogado. Ele provavelmente terá algumas ideias. Buck ofereceu-se para devolver a caneca para Chase, cheia até a metade de café. Quer o resto? A mudança de assunto indicava que tinha dito o que o preocupava; o resto dependia de Chase.

Não. Termine você. Apertou os olhos, fitando o rebanho de cavalos, mas seu pensamento estava perdido em outro assunto.

Imagino que eu devia estar pensando em casar e formar uma família.

Mostre-me alguém que sirva para a gente casar nas vizinhanças, e depois saia do meu caminho avisou Buck, com um meneio irónico da cabeça. Não sou mais moço, e quero um bando de filhotinhos antes de morrer. O problema é encontrar uma mulher que não esteja querendo morar na cidade. Tomou um gole do café e lançou um olhar a Chase por sobre a beira da caneca.

E quanto a Sally Brogan?

Chase baixou os olhos para o chão e ficou pensando na viúva ruiva com quem vinha-se encontrando regularmente há algum tempo. Pouco depois que Buck voltara, ela e o marido, um antigo vaqueiro de rodeio, tinham aparecido na fazenda guiando uma velha pick-up com reboque. Embora na época estivesse com falta de homens, Chase sentira-se relutante em contratá-lo porque parecia o tipo de homem mais interessado em bebida e farras do que em trabalho, mas não fora capaz de ignorar o olhar cúmplice da ruiva. Contrariando o que lhe dizia o bom senso, contratara o marido dela. Um mês e meio mais tarde o marido tivera morte instantânea, quando enfiara o carro num pilar de ponte às duas da manhã.

Mais ou menos na mesma época, Jake fechara as portas do seu saloon. Um outro bar abrira na cidade. Como não havia freguesia para os dois, Jake resolvera que estava na hora de ir mais para o sul. Sally comprara o estabelecimento dele com o dinheiro do seguro de vida do marido. Chase achara que ela estava maluca, mas ela calmamente lhe explicara que estava cansada de mudanças. Queria acordar de manhã, olhar pela janela e ver a mesma coisa todos os dias, pelo resto da vida. Depois de muito esfregar, limpar e reformar, ela transformara o saloon num restaurante e morava nos quartos do andar de cima.

No começo, Chase aparecia por lá para ver se ela estava-se saindo direitinho sozinha. Depois, seu motivo ficou sendo que ela era uma excelente cozinheira. Finalmente, certa noite, ela pediu-lhe que ficasse enquanto terminava de fechar e verificar os recibos. Quando deu conta de si, estava beijando-a e levando-a escadas acima... apenas para vê-la descer correndo e trancar a porta da frente. Sorriu à lembrança.

Há quantos anos você se encontra com ela regularmente... uns três anos? Buck arqueou uma sobrancelha indagadora e tomou novo gole de café.

Sabe como é, Buck. Havia um vestígio de auto-escárneo no modo como Chase retorcia a boca. Um homem não quer entrar de ponta-cabeça nessas coisas.

Buck deu uma risada e sacudiu a cabeça.

Sally é uma mulher simpática e meiga. Deve ter uns trinta e cinco anos. Não tem mais muitos anos férteis. Por que não se casou com ela?

O próprio Chase não sabia a resposta para isso. Eles se davam bem juntos. Tinham um relacionamento gostoso e tranquilo. Ela daria uma boa mulher e mãe. Franziu a testa quando se deu conta de que sempre fugira do assunto casamento, em se tratando de Sally. Jamais se considerara um solteirão convicto. Queria um filho e herdeiro.

Deu de ombros e levou a pergunta na brincadeira.

Quem sabe eu esteja esperando que os sinos toquem?

Escute, cara, se eles não tocaram em três anos, não vão tocar declarou Buck. Depois de tomar a última gota do café, entregou a caneca vazia para Chase e pegou as rédeas do seu cavalo para montar. Tenho que voltar para o trabalho. Passando as rédeas pela cabeça do cavalo, enfiou a ponta do pé no estribo e continuou o movimento, subindo na sela. Até mais. Fez um aceno com a cabeça e partiu.

Chase se deu conta de que tinha ficado com diversos assuntos nos quais pensar, mas todos tinham um tema central... o futuro da Fazenda Triplo C.

Antes do término da semana, Chase fez um testamento preliminar com a assistência de sua firma de advogados. Naturalmente, era difícil, porque a estrutura da Calder Cattle Company era complicada para obter o tratamento fiscal mais favorável. Essencialmente, continha provisões para que, se ele morresse sem um herdeiro ou cônjuge vivo, as ações seriam distribuídas por aquele grupo leal de filhos e filhas nativos da Triplo C. Eram necessárias algumas revisões de pouca monta, mas depois de uma longa tarde de reunião com os advogados, Chase ficou satisfeito ao verificar que estavam no caminho certo.

Como Ruth não o estava esperando para jantar naquela noite, ele parou para comer no restaurante de Sally e passar o resto da noite com ela. Por causa do compromisso de negócios na cidade, Chase abandonara suas vestes de fazenda de brim e cambraia de lã, e usava calças marrom social, mas no estilo do Oeste, camisa creme e paletó de camurça. Enquanto saltava do carro, colocou seu Stetson social de camurça natural com a fita de chapéu prendendo uma pena marrom, e depois andou até a escada de entrada do saloon transformado em restaurante. O prédio de madeira tinha sido todo pintado de branco, orlado de azul, um pequeno indício das mudanças havidas lá dentro.

Enquanto subia os degraus, em algum lugar por perto ouviu o som rascante de uma corda sendo puxada por sobre a madeira. O seu andar cadenciado perdeu o ritmo ao ouvir o som que lhe causou um arrepio nas costas, um som que jamais conseguira esquecer. Lançou um olhar ao balanço de madeira, suspenso do telhado da varanda por cordas de nylon, e entrou no prédio.

Todas as paredes de lambri achavam-se pintadas de branco e o chão era de ladrilhos brancos e brilhantes. As mesas e cadeiras eram pintadas de branco com uma variedade de toalhas de mesa coloridas de tecido riscadinho cobrindo-as. Cortinas de babados enfeitavam as janelas, as vidraças agora sem aquele véu espesso de nicotina. Onde antes ficava o bar, agora havia um balcão com banquinhos e caixas de tortas e geladeiras encostadas à parede.

A hora atarefada do jantar estava começando a passar. Uma meia dúzia de mesas e três banquinhos no balcão estavam ocupados. Sally estava servindo mais café numa das mesas quando Chase entrou. Lançou-lhe um dos seus sorrisos tranquilos que era mais uma expressão com os olhos e um leve erguer dos cantos da boca. Seu cabelo era da cor de um penny de cobre brilhante, enroscando-se em ondas soltas abaixo das orelhas. A despeito de toda a cabeleira vermelha, era calma e tranquila, com serenos olhos azuis.

Chase tomou assento numa mesa que dava as costas para o balcão, mas que lhe permitia ver a porta da frente e a porta de vaivém que dava para a cozinha, nos fundos. DeeDee Rains, uma índia blackfoot, ajudava Sally com a comida e a lavagem de louça, para que ela ficasse livre para atender às mesas, à registradora, tirar as mesas e também cozinhar. Chase alegava que ela trabalhava demais, porém Sally insistia em que gostava de ser independente... e o trabalho era bom para a alma.

O que vai comer hoje, Chase? Ela veio até a mesa e encheu o copo cor de âmbar com água gelada.

Olhando para ela, deu-se conta de que era muito franca e direta e que ele nunca lhe respondia de modo sugestivo. Ficou-se perguntando por quê.

Filé com fritas pediu. Depois, café.

O sibilar dos freios a ar coincidiu com a mudança de marcha, quando o caminhão parou no acostamento da auto-estrada. A camiseta branca do motorista estava cheia de manchas marrons de café derramado. Virou o rosto por barbear para o passageiro e nem se deu ao trabalho de tirar o cigarro que pendia dos seus lábios.

Chegamos, garoto anunciou.

Ty fitou a coleção esparsa de prédios. O céu estava ficando escuro, ao crepúsculo, lançando sombras sobre a cidade, dando a impressão de que alguém a colocara ali, depois a esquecera. Ficava a quilómetros de qualquer lugar, no entanto tudo parecia ficar a quilómetros de qualquer lugar. Nunca vira tanto vazio na vida. Continuou a fitar, achando difícil acreditar que aqueles poucos prédios formassem uma cidade.

Você falou que queria saltar em Blue Moon, não foi garoto? perguntou o motorista, franzindo a testa, impaciente.

Foi. Ty notou o cartaz pintado no prédio que tinha as bombas de gasolina na frente, identificando o lugar como Blue Moon, e dando o código postal. Era mesmo aqui. Agarrou a mochila que estava no assento a seu lado e abriu a porta, agradecendo ao motorista enquanto saltava da boleia. Obrigado.

O acelerador do motor a diesel encheu de fumaça azul a noite que escurecia. Ty teve que fechar os olhos para protegê-los da poeira levantada pelas 18 rodas enquanto elas rolavam o imenso caminhão para a estrada novamente. Quando a poeira se acomodou, ele piscou os olhos, limpou as partículas com a mão e olhou de novo à sua volta.

Havia pick-ups estacionadas diante do prédio ao lado. As luzes lá dentro estavam acesas e havia um cartaz no telhado da varanda que dizia RESTAURANTE DA SALLY. Limpou a poeira dos jeans novos e meteu a mão no bolso para verificar quanto dinheiro lhe sobrara. Não sonhara que ia levar quase uma semana para chegar lá, pegando carona. Na Califórnia fora fácil, mas depois ele pegara aqueles trechos vazios em Nevada e Utah. Então, caminhara quase tanto quanto andara de carona. No começo não prestara atenção ao quanto estava gastando, comendo três grandes refeições por dia e fazendo boquinhas nos intervalos, até que agora estava praticamente duro.

Um sentimento de insegurança tomou conta dele. E se sua mãe tivesse razão? E se tivesse vindo até aqui e o pai não quisesse vê-lo? Sacudiu a cabeça, afastando o pensamento. Depois de vir até aqui, não podia desistir. Tinha dinheiro bastante para comer um hambúrguer. Se ninguém soubesse onde morava Chase Calder, ele podia encontrar o tio. Copiara o endereço dele do caderninho da mãe.

Se todo o resto falhasse, podia ligar para a mãe a cobrar e pedir-lhe que lhe enviasse algum dinheiro para poder voltar para casa.

Inspirando fundo, jogou a mochila sobre um dos ombros, colocou-a em posição, depois começou a andar na direção do restaurante. Dois vaqueiros vinham saindo, portanto ele se afastou para um lado até que tivessem passado pela porta, depois entrou. Seu estômago roncou ao sentir o cheiro da comida. Havia um cartaz perto da escadaria que dizia BANHEIROS e foi para lá que Ty se dirigiu.

Chase tinha pendurado o chapéu nas costas torneadas de uma cadeira e estava fumando uma cigarrilha enquanto esperava por seu pedido. Reparou quando o jovem entrou - o cabelo castanho espesso chegando quase até a gola, a jaqueta amarela, a mochila, os ténis de corrida, os blue jeans duros e novos que faziam barulho quando ele andava. Mentalmente, classificou-o como um desses hippies ou fosse lá qual fosse a última terminologia para eles.

Lew, da loja de fazendas do outro lado da rua, saiu do balcão e trouxe sua xícara de café para vir fazer companhia a Chase. A mulher estava visitando a filha deles, e Lew estava bancando o solteiro por alguns dias. Quando o garoto saiu do banheiro e se sentou a uma mesa perto de Chase, este mal deu atenção.

Com a mochila enfiada sob a mesa, Ty aboletou-se na cadeira. Uma mulher ruiva de vestido azul e avental branco parou para encher seu copo com água. Tinha um rosto agradável que lhe fazia lembrar uma das suas professoras do primário.

Quer um menu?

Sim, por favor. Desta feita, a voz dele não mudou.

O menu que ela trouxe era um desses de vinil preto com a palavra MENU na frente e bolsos de plástico transparentes para que os restaurantes pudessem colocar seu cardápio datilografado. O jovem começou a correr os olhos pela lista, quando se deu conta de que esta era sua chance de perguntar se ela conhecia Chase Calder. Por que esperar?

Moça? Chamou-a de volta para a mesa e olhou rapidamente para o preço de um hambúrguer para ver se podia pagá-lo. Quero um hambúrguer com tudo a que tiver direito e um copo de leite. Esperou até que ela tivesse tomado nota, depois lambeu nervosamente os lábios. Moça, por acaso conhece um homem chamado Chase Calder?

Notou o lampejo de surpresa nos olhos dela; depois, os cantos de sua boca se ergueram num débil sorriso.

Conheço.

A primeira pessoa a quem perguntava! Nem podia acreditar na sua sorte.

Sabe onde posso encontrá-lo?

Ela o examinou atentamente por um segundo, depois replicou:

Está sentado na mesa ao lado... é o que está de paletó de camurça. Fez um gesto de cabeça para indicar qual a mesa.

Ty olhou por cima do ombro, um arrepio de apreensão correndo-lhe pela espinha. Ficou repentina e inesperadamente nervoso e assustado. Podia sentir as palmas das mãos começarem a suar.

Obrigado acrescentou rapidamente para a garçonete, e ficou fitando o homem muito tempo depois de ela ter ido embora.

Aquele era o pai dele, o homem que viera procurar, aquele com as feições másculas e marcadas, que o sol bronzeara deixando-as da cor do couro. Tinha ombros largos e olhos e cabelos castanhos. Ty tentara visualizá-lo antes, mas lá estava ele em carne e osso!

A garçonete trouxe um prato com um enorme filé e uma porção de batatas fritas para a mesa onde o pai estava sentado.

Um filé torrado e fritas anunciou, colocando-os diante dele

Está com boa cara. Sally.

Ty escutou o timbre sonoro da voz de Chase e viu o sorriso que lançou à ruiva. Ficara mudado. Não parecia tão duro e distante; poderia ser divertido. Depois a garçonete ergueu os olhos, mirando-o com curiosidade antes de voltar para a cozinha.

O que estava esperando?, perguntou-se Ty. Viajara tanto apenas para olhar para ele? Por que não ia lá conhecê-lo?

Seus joelhos estavam trémulos quando afastou a cadeira da mesa e o coração estava disparado quando se pôs de pé, porém conseguiu dar os poucos passos que o separavam da mesa. O pai estava cortando o bife e não o notou parado ali. Ty pigarreou nervosamente, e ele ergueu os olhos.

Com licença. Subitamente, Ty não conseguia lembrar-se do que queria dizer. Ensaiara tudo tão cuidadosamente, e agora não conseguia lembrar das palavras. Viu o pai descansar a faca e o garfo no prato e fitá-lo com frios olhos castanhos.

Queria alguma coisa? perguntou.

Sou Ty Gordon. O nome não iria significar nada para ele, mas quem sabe notaria uma semelhança. Ty podia vê-lo. Oh, não era assim tão evidente, mas... o colorido era o mesmo, e ambos eram altos.

Sim? A expressão de Chase não se alterou.

Queria falar com o senhor gaguejou Ty, porque não sabia como devia chamá-lo.

- Sobre o quê?

O rapaz lançou um olhar nervoso ao homem mais velho sentado à mesa com o pai, e aos outros fregueses no restaurante. É um negócio pessoal, senhor.

Nesse caso correu um olhar preguiçoso e avaliador pelo rapaz por que não deixamos para discutir isso mais tarde? Não gostaria de estragar o meu apetite por este filé com conversas de negócios. Creio que você também tem comida à sua espera falou, fazendo um gesto com a ponta da faca.

Ty olhou para trás e viu a garçonete botando o hambúrguer e o leite na mesa.

Conversaremos depois de termos comido confirmou o rapaz, e Chase acenou com a cabeça.

Apertou os olhos, pensativo, enquanto via o rapaz alto voltar para sua mesa. Bem-educado, roupas boas, relativamente sereno, embora estivesse nervoso quanto à alguma coisa. Chase recomeçou a cortar seu bife.

Que negócio "pessoal" você acha que seja? perguntou Lew, em voz baixa.

Chase deixou seu olhar se desviar do filé para o garoto.

Provavelmente está querendo emprego. Veio de carona até aqui para aprender a ser cowboy. Parecia evidente. Há sempre um garoto novinho nos pedindo emprego. Geralmente, nunca viu um cavalo na vida.

Enfiando um pedaço de filé na boca, começou a mastigar a carne saborosa e bem passada. Um fazendeiro simplesmente não tinha tempo para treinar cada novato ansioso que dava as caras por lá. Levava tempo, energia e paciência demais.

 

Chase terminou sua refeição, fumou outra cigarrilha com o café e mirou distraidamente o garoto. Ele estava sentado de ombros encurvados, um pouco deprimido, e recusou a sobremesa. Chase viu enquanto ele contava cuidadosamente o dinheiro para pagar a refeição, e notou que apenas uns trocadinhos voltaram a seu bolso. Já identificara o garoto como fugitivo de casa, moço demais para estar por aí por sua conta, e agora obviamente sem dinheiro. Gostava da paciência do garoto; não tentou recomeçar a "discussão" deles até Chase indicar que estava pronto. A melhor coisa que podia fazer pelo guri era mandá-lo de volta para casa.

Terá que me dar licença, Lew. Chase empurrou a cadeira para trás e se pôs de pé. Tenho que cuidar de uns negócios. Pegou o chapéu e colocou-o na cabeça. Passou pela mesa do garoto enquanto se dirigia para a registradora. Às suas costas escutou o raspar apressado da perna de uma cadeira no chão. Um instante mais tarde o rapaz estava a seu lado, quase tão alto quanto ele. Quando Sally lhe deu seu troco, ele perguntou: Sally, será que podemos usar o seu escritório para uma conversa particular?

Claro. Não está trancado. Seu olhar correu curiosamente de um para o outro, mas não fez perguntas.

O escritório dela era o antigo salão de pôquer. Chase conduziu o garoto pela porta marcada PARTICULAR e foi até a escrivaninha bem-arrumada, apoiando o quadril nela e enganchando um joelho no canto. O garoto olhava-o com tanta intensidade que Chase ficou-se perguntando se estava com migalhas no rosto.

Que assunto pessoal é esse?

Ty engoliu com força, todo o nervosismo que voltava. Não havia nenhum jeito fácil de falar, portanto simplesmente botou para fora:

Sou seu filho. Esperou que a expressão mudasse para surpresa, confusão, ou negativa irada, mas ela nada mostrou.

Acho que cometeu um erro disse Chase, calmamente. Não tenho filho.

Você não sabia que tinha um filho corrigiu Ty. Minha mãe nunca lhe contou a meu respeito.

Como se chama sua mãe?

Elizabeth.

Não conheço nenhuma mulher com esse nome. Meteu a mão no bolso e tirou de lá um charuto fino, acendendo-o. Se é uma espécie de piada, não estou achando graça. Ou é uma nova maneira de arrancar dinheiro de estranhos, chegando até eles e dizendo que é seu filho?

Não. Ty sentiu-se enrubescer. É a verdade. Sou seu filho. Minha mãe me contou.

Então ela me confundiu com outra pessoa.

Não. Ela me contou que meu pai verdadeiro era Chase Calder. Eu também não sabia, até algumas semanas atrás. Não sabia que papai... Phillip... tinha-me adotado. Pensei que ele era o meu pai de verdade, até ver o seu nome inscrito na Bíblia da família.

A voz urgente insistia para que Chase acreditasse nele.

Ela cometeu um erro. Não conheço nenhuma mulher chamada Elizabeth repetiu.

O nome todo dela é Mary Frances Elizabeth.

Ty esperou por um sinal de que aquele nome significasse alguma coisa.

Chase sacudiu a cabeça.

Não a conheço.

Mas eu viajei até aqui para encontrá-lo! Ele estava doendo por dentro, zangado e magoado por estar sendo negado.

Vim lá da Califórnia! Você é meu pai!

Lamento você ter perdido seu tempo. Não sou seu pai. Chase viu as lágrimas de frustração começando a aparecer nos

olhos do rapaz. Ia ser embaraçoso para ambos, se ele começasse a chorar. Fingiu não notar enquanto se endireitava da mesa e apagava o charuto no cinzeiro.

Minha mãe não me mentiria sobre isso! Não mentiria!

Não estou dizendo que sua mãe mentiu. Quem sabe algum homem contou a ela que era eu e ela acreditou nele. Lamento, garoto, mas não conheço sua mãe. Nem sequer ouvi falar nela.

Chase foi até a porta e abriu-a.

Bem, mas ela conhecia você! esbravejou o garoto. Ela morava aqui! Foi por isso que eu soube como encontrá-lo!

Chase parou, segurando a porta com uma das mãos enquanto se virava, e franzindo o cenho para o rapaz.

Onde ela morava?

Os dentes do garoto estavam cerrados para conter os soluços.

Bem que ela disse que você não ia me querer, mas não acreditei nela. Por que não diz logo a verdade em vez de fingir que nunca ouviu falar nela? desafiou, com voz rouca. Imagino que também nunca tenha ouvido falar na Fazenda Shamrock! Ou no meu Tio Culley O'Rourke!

O choque percorreu o corpo de Chase como a lâmina gelada de uma faca. Estava atónito demais para reagir, quando o garoto passou por ele para sair porta afora. Mas era a sacudidela de que estava precisando. Em duas passadas ele o alcançou, agarrando-o pelo braço e virando-o bruscamente. Chase estava zangado, porque se aquilo era uma piada, era uma piada cruel.

Maggie é a sua mãe? Chase exigia uma resposta. Maggie O'Rourke é sua mãe?

A raiva do garoto se equivalia à dele, a despeito da lágrima que lhe escorria pela face.

Já lhe disse! O nome dela é Mary Frances Elizabeth O'Rourke Gordon! Ninguém a chama de Maggie!

Meu Deus. Era um som sussurrado, como se uma dor lhe contorcesse o cenho. Quantos anos você tem? Ty... não é?

Sim. Ty fitou-o, desconfiado. Tenho quinze anos. Um olhar sombrio e distante apareceu nos olhos de Chase.

Já faz tanto tempo assim? comentou.

Você conheceu minha mãe. Ty se deu conta de que Chase o estava admitindo.

Sim, eu conheci Maggie O'Rourke. Chase relaxou o aperto de ferro no braço do garoto e inspirou fundo. É tarde. É melhor você vir para casa comigo.

A lua estava no céu, juntamente com imensos amontoados de estrelas, um dossel de luzes sobre o carro que corria. Durante os primeiros 50 quilómetros, viajaram em silêncio. Chase fitava a estrada, guiando como se não houvesse mais ninguém no carro, além dele mesmo. O ar da noite entrava pelas janelas abertas. Chase apoiava o cotovelo esquerdo na janela e esfregava a boca com a mão, distraidamente.

Sua mãe sabe que você está aqui?

A pergunta surgiu tão repentinamente do silêncio que Ty quase deu um salto.

Não. Mas acho que provavelmente adivinhou.

Você fugiu?

Fugi.

Você mencionou que tinha sido adotado. Suponho que sua mãe agora esteja casada.

Estava. Meu... Phillip teve um ataque do coração há seis meses e morreu. Não estava nem um pouco doente. Foi um choque... para todos.

Ainda se sentia doente e vazio por dentro quando pensava no assunto.

O que ele fazia?

Era médico, cirurgião plástico, bom de verdade, não um charlatão.

Estou certo de que era um excelente médico. Onde vocês moram?

Em Malibu. Temos cerca de quarenta hectares. Temos cavalos para exibição. Ty olhou pela janela. Não havia nada num raio de quilómetros... nenhuma luz, nenhum sinal de vida. Para onde estamos indo?

Para a Fazenda Triplo C. Houve uma breve hesitação. Isso quer dizer Calder Cattle Company. Chase olhou pela janela, para se orientar. Cruzamos a fronteira leste mais ou menos uns dezesseis quilómetros atrás.

Quanto ainda falta?

Uns quarenta ou cinquenta quilómetros. Escutou o assobio baixo do garoto ante a implicação do tamanho da fazenda, algo que obviamente desconhecia. O que sua mãe lhe contou a meu respeito?

Nada, exceto que morava na fazenda vizinha.

À luz fraca do painel, Chase deixou o olhar correr para o rapaz que era seu filho. O choque da descoberta se desvanecera, e agora chegara a aceitação. Ty era um garoto bonitão, obviamente corajoso; caso contrário não teria vindo até aqui sozinho, defrontar-se com um pai que jamais tinha visto. Havia um grande potencial nele. Chase sentiu uma onda forte de orgulho. Tinha um filho. Um garoto sangue do seu sangue, carne da sua carne. Tinha vontade de gritar este fato. Não pôde deixar de se perguntar se todos os pais sentiam esse mesmo orgulho atordoado.

Eu não o conheço e você não me conhece. Acho que estamos começando em bases iguais, filho. O simples fato de dizer a palavra trouxe-lhe um sorriso à boca.

Ty sentia uma sensação engraçada e sufocante na garganta, e a ardência das lágrimas subindo-lhe aos olhos. Não entendia o que causara essa onda de emoção. Lutou contra ela porque não queria que o pai pensasse que era um bebê-chorão.

Quero aprender a conhecê-lo. A voz dele era rouca mas firme. Foi por isso que vim até aqui. Gostaria de ficar por algum tempo? A inflexão da última palavra transformava a frase em pergunta. Talvez fosse constrangedor para o pai tê-lo por perto.

Quero que fique. Foi uma resposta muito definitiva que não deixou margem para dúvidas sobre se Ty era desejado ou não.

É casado? Tem outros filhos? perguntou Ty.

Se você me tivesse perguntado quando entrei no restaurante hoje à noite eu teria dito que não tinha filhos. Agora, respeitosamente nego-me a responder à pergunta. Um divertimento seco e irónico faiscou no breve olhar que lançou ao filho. Quanto à sua primeira pergunta... não, jamais me casei.

Ainda sente amor por minha mãe? Parecia uma pergunta lógica para Ty.

Chase inspirou, prendeu a respiração, depois soltou-a.

Não creio que seja justo usar a palavra "amor" para descrever o que houve entre Maggie e eu. Ambos nos sentíamos solitários. Ambos tínhamos uma necessidade física... um desejo por alguma coisa que pudéssemos desfrutar e que, para variar, não exigisse nada de nós. Se algum sentimento tinha começado a crescer, foi arrancado pela raiz por circunstâncias que nenhum de nós podia controlar. Olhou para Ty. Duvido que isso esteja fazendo sentido para você.

É, não está muito, não falou Ty, franzindo o cenho.

Foi o que pensei. Crispou a boca, com dureza. Fale-me da escola pediu, mudando de assunto, e escutou calado enquanto Ty falava da escola, dos amigos, da sua vida em geral.

À distância, viram um leve brilho no céu que ficava cada vez mais forte à medida que se aproximavam... a sede bem iluminada da Triplo C. Quando os prédios principais apareceram, iluminados pelas luzes do pátio, com outras luzes menores brilhando nas janelas das casas, Ty ficou olhando, vagamente confuso.

Aqui é uma cidade?

Quase. Chase deu um leve sorriso e fez uma volta ampla com o carro para parar diante dos degraus da varanda da Casa Grande. Esta é a sede da Triplo C falou, desligando o motor e abrindo a porta.

Enquanto Ty tirava a mochila do banco de trás, Chase deu a volta no carro, dirigindo-se para a escada da varanda. Ty demorou-se um pouco fitando o grupo de construções esparramadas. Chase esperou por ele no topo da escada. Quando Ty o percebeu, correu com ar de culpa para se unir a ele. Logo que o rapaz o alcançou, Chase mudou o olhar para os prédios que formavam a sede da Triplo C, ciente de que Ty também os fitava.

Dê uma boa olhada, filho avisou Chase. Tudo isso vai ser seu, um dia. Quando sentiu a olhadela rápida, virou a cabeça para enfrentar o olhar, o orgulho suavizando-lhe os olhos castanhos. A boca se retorceu num leve sorriso enquanto segurava com força o ombro do rapaz. Claro que você tem um bocado que aprender entre agora e então... mas um bocado, mesmo.

Aplicando pressão ao ombro de Ty, Chase virou-o na direção da porta da frente e fê-lo entrar na casa. As luzes estavam acesas na sala e no vestíbulo, mas Chase teria achado o caminho se estivesse escuro como breu. Nem uma peça de mobiliário tinha sido trocada de lugar desde a sua infância; alguma coisa tinha sido reestofada, mas eram móveis antigos e sólidos que durariam séculos, com o cuidado adequado. Notou o modo como Ty olhava à sua volta, observando tudo. Lembrando-se do hambúrguer simples que Ty comera, Chase se deu conta de que provavelmente não satisfizera o apetite de um rapaz em crescimento. Quando estava com a idade de Ty, a comida nunca era suficiente.

Está com fome? perguntou.

Um pouquinho admitiu Ty, um tanto constrangido.

Vou ver se descubro alguma coisa para se comer na cozinha. Pode ficar à vontade.

Deixou o garoto livre para explorar a casa por sua conta.

Havia rosbife frio na geladeira. Chase cortou-o em fatias e fez um grande prato de sanduíches. Sobrara também metade de um bolo de chocolate em camadas, e ele a colocou na bandeja junto com dois copos e uma jarra de leite. Quando voltou para a sala de visitas, Ty estava começando a entrar no escritório. Já ia recuar, mas Chase fez sinal para que continuasse.

Vamos comer aí. Levou a bandeja para o escritório e colocou-a sobre a mesinha-de-centro.

Aqueles chifres são de verdade? perguntou Ty, examinando o par colocado acima da cornija da lareira.

Com uma estranha sensação de déjá vu, Chase contou-lhe a história de Captain, o novilho malhado, e da longa viagem trazendo o gado que o primeiro Calder fizera até esta terra. Escutando embevecido, Ty conseguiu devorar o prato de sanduíches e os três copos de leite, enquanto Chase tomou apenas um. Quando Chase se levantou para mostrar-lhe o velho mapa na parede, Ty serviu-se de uma fatia de bolo.

Onde minha mãe morava? Ty mantinha uma das mãos sob o bolo, para aparar as migalhas.

Chase apontou a localização da Fazenda Shamrock no mapa, em relação à sede da Triplo C.

Fica aqui.

É bem menor do que a Triplo C, não é?

É. Chase estava relutante em discutir os O'Rourkers, e essa impressão foi transmitida a Ty pela brevidade de sua resposta.

Existe... animosidade entre você e mamãe?

Duvido que ela goste muito de mim admitiu Chase.

E você, como se sente? Ty franziu a testa, ansioso, preso a meio caminho.

Eu... Chase se afastou para voltar para a poltrona de couro... não tenho nada contra ela. Distraidamente, esfregou o antebraço esquerdo onde a manga da camisa cobria a longa cicatriz em diagonal.

Ty pressentia que havia mais.

O que aconteceu para você e mamãe romperem? Lembrou-se de que o pai dissera anteriormente que fora algo que fugira ao controle deles. A fisionomia fechada do pai deixava-o inquieto... assim como o olhar longo e avaliador que estava merecendo.

Essa... um véu ocioso parecia ter caído sobre as feições do pai, mas essa impressão se dissipou quando ele se levantou da poltrona.... é uma outra longa história, e está ficando tarde. Vou-lhe mostrar qual vai ser o seu quarto. Deve estar cansado.

Sim admitiu Ty. Há dois dias que não durmo numa cama. Dormia sacolejando numa boleia de caminhão.

Então hoje você vai dormir.

Chase parou na sala de visitas enquanto Ty pegava sua mochila, depois levou-o escada acima para o quarto que pertencera a seu pai. Todos os quartos estavam sempre prontos para receber hóspedes, portanto havia bastantes toalhas no banheiro e lençóis limpos na cama. Quando verificou que Ty estava acomodado, Chase tirou um bloquinho e um lápis do bolso do paletó e entregou-os ao menino.

Escreva aí o número do telefone de sua mãe mandou.

Não vai ligar para ela? protestou Ty, franzindo a testa, ansioso. Pelo menos não durante alguns dias?

Sabe que ela está preocupada com você. A frase continha uma crítica sutil.

Sim, mas... Apertou os lábios, com ar sombrio. Ela vai querer que eu vá para casa. E eu não quero ir para casa.

Eu cuido disso afirmou Chase. Basta me dar o número do telefone, e eu falo com ela.

Está legal. Ty anotou o número e devolveu o bloquinho e o lápis para Chase. Não se esqueça de dizer a ela que estou bem.

Pode deixar. Chase foi até a porta, abriu-a e fez uma pausa. Ouça uns conselhos para ficar matutando. A vida na cidade gera a fraqueza num homem. Aqui não temos sinais de trânsito dizendo quando andar ou quando parar, quando esperar ou seguir em frente. Não há ruas com setas dizendo que a mão a se seguir é aquela. Na cidade, tudo é arrumadinho... suave... governado por uma ideia feminina de como devem ser as coisas. Aqui, ainda é terra de homem, onde se espera que você cumpra sua palavra e não peça nunca favores. Vai ser duro para você, e não apenas porque desconhece o nosso jeito. As pessoas vão esperar mais de você porque é meu filho, portanto... Chase sorriu de leve, porque as palavras seguintes lhe eram tão familiares... você vai ter que dar mais duro, ser mais esperto e brigar melhor do que qualquer homem no Estado. Se não for capaz disso, então será melhor para você voltar para a Califórnia e ficar com sua mãe, caso contrário esta terra o destruirá. Pense nisso nos próximos dias.

Sim, senhor. Era um som sóbrio, com apenas um leve toque de ceticismo.

Chase sorriu, divertido, porque também ele sempre acreditara que o pai exagerara muito.

Boa noite, Ty.

Boa noite.

Voltando ao escritório, Chase sentou-se na cadeira atrás da escrivaninha e apanhou o telefone, discando o número que Ty lhe dera. Atenderam ao terceiro toque.

Residência dos Gordons. Era uma voz de mulher, altiva e formal, não a de Maggie.

Quero falar com Elizabeth Gordon pediu Chase.

Creio que ela já se recolheu. Aqui fala a cunhada dela, Pamela Gordon. O que deseja?

Quer verificar se se recolheu mesmo? Diga-lhe que estou ligando com relação ao filho dela.

Ty? Encontrou-o? Ele está bem? A mulher lançou-lhe uma enxurrada de perguntas ansiosas.

Diga a Sra. Gordon que quero falar com ela. Enfatizou a última palavra para deixar bem claro que não falaria com mais ninguém.

Um momento. Ouviu o barulho do fone sendo largado. Ao fundo, podia ouvir a mulher chamando "Elizabeth". Chase esperou, brincando com a tira de papel com o número escrito.

O comprimido para dormir que Maggie tomara para ver se conseguia descansar um pouco, depois de tantas noites insones preocupando-se com Ty, a deixara descoordenada. Sentia-se grogue quando veio ao telefone, e apertou a mão contra a testa para eliminar o atordoamento.

A voz dela mudara ligeiramente, uma variação do sotaque, mas tocou-lhe a memória. Por um instante, os anos recuaram, e ele pôde ver-lhe os olhos verdes, verdes como a grama luxuriante da Triplo C, e os cabelos negros como a meia-noite. Apertou a mão no fone, como que para trazê-la mais para perto.

Alo, Maggie.

Ninguém mais a chamava assim, exceto Culley. Não parecia a voz dele, no entanto os telefones às vezes distorciam as vozes das pessoas. Maggie agarrou o fone com ambas as mãos.

Culley? Graças a Deus você telefonou. Tentei ligar para você, mas a telefonista falou que seu telefone tinha sido desligado, e eu... Ty fugiu. Acho que ele...

Maggie, é Chase interrompeu ele. Ty está aqui comigo. Ele queria que você soubesse que está bem.

Ela reconheceu a voz no minuto em que ele recomeçou a falar. O chão pareceu balançar sob os pés dela. Havia aquela mesma qualidade persuasiva e meiga na voz dele. Sentiu-se totalmente confusa, e o efeito do comprimido para dormir não a ajudava a clarear rapidamente as ideias.

Quero-o aqui em casa... comigo. Quanto a isso, Maggie não estava confusa. Ponha Ty no próximo avião de volta para casa. Eu pago a passagem.

Não.

Chase, eu quero meu filho. A voz dela tremia numa nota de advertência.

Se o quer, terá que vir buscá-lo.

Não. Não voltaria para lá. Ty é menor... um fugitivo. Se não o mandar de volta, comunicarei às autoridades e elas irão buscá-lo e trazê-lo de volta para mim.

Você está longe daqui há muito tempo, Maggie. Acho que se esqueceu do quanto território este céu dos Calders abrange. Eu sou a autoridade aqui. Se o quer, terá que vir pessoalmente. Sabe onde nos encontrar.

Chase botou o fone no gancho, plenamente consciente de que agira de acordo com a má imagem que a mulher tinha dele, mas isso tinha que ser resolvido. E ele preferia que fosse feito cara a cara. Recostou-se pesadamente na cadeira e fitou o telefone, perguntando-se o quanto ela se modificara nos últimos 15 anos. Será que ainda era tão linda como quando mocinha? Ainda tinha aquele corpo? Ou o estragara na gravidez do filho deles? Cansadamente, esfregou os olhos.

Quando alvoreceu, no dia seguinte, Chase já tinha tomado banho, feito a barba e se vestido. Antes de descer, parou no quarto de Ty e abriu a porta. O garoto estava esparramado na cama, deitado de bruços, de boca aberta. A novidade de saber que tinha um filho continuava a espantá-lo e encantá-lo. Bateu com força na porta aberta.

Hora de levantar, Ty!

Chase ficou vendo o adolescente apoiar-se atordoadamente nos cotovelos, e franziu a testa enquanto olhava à sua volta, tentando lembrar-se de onde estava.

Que horas são? Ty passou uma mão sonolenta pelos cabelos, tentando forçar-se a acordar.

Cinco horas.

Da manhã! Com um gemido, desabou de cara em cima da cama.

Levantamo-nos cedo, por aqui.

Chase saiu do vão da porta e foi para as escadas. Aqui também não havia luzes para fazer um garoto saltar da cama. Ele tinha que aprender a fazê-lo por si mesmo.

Ruth acabara de colocar o seu prato de filé, ovos e ensopado na mesa da sala de jantar quando um Ty de olhar sonolento entrou tropegamente na sala. Chase os apresentou. Ruth derreteu-se toda, de modo embaraçoso, os olhos marejados de lágrimas quando murmurou que gostaria que Webb tivesse vivido para ver o neto. Depois, saiu às pressas para a cozinha, enxugando os olhos com o canto do avental.

O que foi que mamãe falou quando você ligou para ela, ontem à noite? perguntou, quando estavam a sós.

Chase evitou habilmente dar uma resposta direta.

Ela vem para cá hoje ou amanhã. Vai depender de quando conseguir lugar no avião.

Ela vai querer que eu volte com ela disse Ty, emburrado.

Eu cuido disso. Chase repetiu a calma resposta que dera na véspera.

Quando Ruth trouxe para Ty o seu prato de filé, ovos e ensopado, ele olhou-o fixamente.

Não sei se vou conseguir comer tudo isso a esta hora da manhã.

Chase ergueu os ombros expressivamente, como quem dizia que isso era com ele, mas acrescentou:

Vai demorar um bocado até o almoço.

Ty já tinha comido uma bela quantidade, quando Buck apareceu. Chase tinha terminado, e estava recostado na cadeira saboreando sua terceira xícara de café. Viu o olhar intrigado que Buck lançou ao rapaz.

Ty, quero que conheça Buck Haskell, um dos meus principais capatazes e um bom amigo. Apresentou Buck e viu Ty largar os talheres, levantar-se e apertar a mão do homem, educadamente. Buck, este é meu filho.

Seu... o quê? Buck lançou-lhe um olhar vivamente incrédulo. Mas onde... quem...

Maggie é a mãe dele.

Maggie O'Rourke? Ante o aceno afirmativo de Chase, Buck inspirou fundo e expirou. Ora, mas se não é o fim da picada! O rosto dele estava estranhamente inexpressivo, um toque de exasperação na voz. Logo a seguir estava olhando para Chase e abrindo um amplo sorriso. Parece meio esquisito dar os parabéns a esta altura dos acontecimentos.

 

Maggie chegou quase ao meio-dia do dia seguinte, guiando um carro alugado. Como mais ninguém batia à porta antes de entrar na Casa Grande, Chase soube que era ela antes de abrir a porta. Fitou-lhe os olhos verdes e frios, depois correu os olhos pelo corpo esbelto, vestindo um elegante costume preto debruado de branco. Certas coisas que recordava a seu respeito, como o orgulho e a vontade forte, estavam evidentes no seu porte rígido.

Chase olhou para além dela, fitando um empregado da fazenda que ia passando pela casa.

Charley, traga a bagagem da Sra. Gordon do carro.

Não há necessidade. Ela se virou para contradizer a ordem. Eu não vou ficar.

Pode trazê-la, Charley repetiu Chase, firmemente. Ela o enfrentou de novo, com fria serenidade.

Vou ficar aqui apenas o tempo bastante para apanhar o Ty. Depois, vou-me embora.

Ótimo. Inclinou a cabeça numa aceitação implícita e deu um passo para o lado, convidando-a a entrar. Deixando a porta aberta para o empregado, Chase moveu-se na direção do escritório, escutando o tinir dos saltos altos de Maggie no chão de azulejos, enquanto ela o seguia. Deixou que passasse por ele e entrasse no escritório, fechando as portas duplas para assegurar-lhes a privacidade. Há café quente na baixela sobre a mesa-de-centro.

Depois que correra o olhar pela sala sem encontrar Ty, Maggie se virou para confrontar Chase.

Onde meu filho está?

Foi com Nate hoje de manhã dar uma primeira espiada num recolhimento de gado de verdade. Chase serviu duas xícaras de café da baixela de prata. Creme ou açúcar?

Você sabia que eu vinha buscá-lo. A irritação emanava dela como um campo de força elétrico, deixando o ar carregado. Chase sentiu-o sem ter que olhar para ela.

Mas não sabia quando lembrou-lhe.

Ela girou parcialmente, mostrando-lhe o seu perfil. O corpo dela estava cheio e completo, de um modo que mexia com ele e atiçava seus desejos masculinos. Ela devia saber que era uma pintura para o olhar faminto dele, despertando lembranças de quando vira mais daquelas pernas bem torneadas do que a saia negra fendida no joelho agora revelava. Ele se recostou na poltrona, segurando a xícara.

Quando é que Ty volta?

Hoje à noite. Sorveu o café e evitou os olhos acusadores dela.

Você fez isso deliberadamente. Por quê?

Olhou para ele, percebendo a vitalidade dura que marcava as suas feições. Transformara-se numa figura poderosa de homem, com as rugas de expressão dando-lhe mais charme à aparência, ao invés de enfeá-lo. Sua boca se retorceu naquele jeito duro e familiar que ela recordava.

Para nos dar tempo de conversar em particular. Por que outro motivo?

Não temos nada para discutir insistiu ela, friamente.

Por que não me contou que ia ter o meu filho? Chase finalmente tocou no assunto que ambos estavam evitando.

Ty é meu filho. Sua parte na concepção dele foi puramente incidental. Ela mantinha o olhar desviado, a voz formal e a cabeça bem erguida.

Você ainda me odeia, Maggie? Viu o olhar dela se dirigir para ele.

Ódio é uma palavra apaixonada. Desprezo ou abominação seriam mais adequadas. Esta era uma coisa que o casamento com Phillip tinha feito por ela. Retirara a semente venenosa do ódio que poderia tê-la deformado. Meu marido era um homem amoroso e compassivo. Ensinou-me a esquecer o que eu não podia perdoar.

Naquele dia em que fui procurá-la... a última vez que a vi, foi para dizer-lhe que lamentava de verdade sobre seu pai. Na época, eu não tinha ciência de que você conhecia toda a história. Podia ver que ela estava fechando a mente para ele, sem querer lembrar-se de nada. Sei que não quer falar nisso, mas tem que ser dito.

Por quê? Meu pai está morto e enterrado.

E nós temos um filho, portanto você vai escutar, quer queira, quer não replicou Chase, sem alterar a voz. Compreendo quais foram as razões do meu pai para o seu gesto, mas não tinha ideia de suas intenções, quando entramos no pátio da fazenda, naquele dia. Até o minuto em que colocaram a corda no pescoço de Angus, eu estava pensando que ele planejava apenas assustá-lo. Quando eles... fechou a boca por um momento, antes de continuar. Eu não poderia tê-lo salvado, Maggie. O seu pescoço já estava quebrado. Fez nova pausa. Mesmo depois de todo esse tempo, não posso dizer que meu pai estava errado. O ódio do seu pai pela gente era uma obsessão. Você sabe disso, Maggie, provavelmente melhor do que eu. Num certo sentido foi uma morte misericordiosa, porque seu pai acabaria por destruir não apenas a si próprio, mas a você e Culley, também.

Acabou? perguntou, olhando para ele, e Chase não soube dizer se ela compreendera qualquer coisa que ele dissera.

Com esse assunto, sim. Olhou para o relógio. Ruth vai servir o almoço.

Não estou com fome.

Largando a xícara, ele se pôs de pé e caminhou para junto dela, segurando-lhe o braço com firmeza.

Faça um esforço disse, secamente. Podia sentir a alta tensão que fluía dela, mas Maggie não resistiu à pressão da mão dele, conduzindo-a.

Ele não tentou puxar conversa durante o almoço, mas deixou um silêncio pender sobre a mesa. A princípio, Maggie beliscou a comida no prato, até que a atmosfera tranquila abriu-lhe o apetite, lembrando-lhe que não comia há 24 horas. Relaxada e satisfeita com a refeição, recostou-se na cadeira e sorveu seu café.

Importa-se se eu fumar? Chase levava um charuto fino a meio caminho da boca.

Não, de modo algum. Gosto do cheiro de um bom charuto replicou Maggie, com indiferença.

É uma raça rara de mulher, a que gosta do cheiro de charutos. Levou o fósforo à ponta e soltou uma baforada.

Phillip geralmente fumava um charuto depois do jantar. Inconscientemente, a voz dela se suavizou, com carinho, portanto não compreendeu por que a boca do homem se estreitou subitamente.

Você está sabendo que Ty quer ficar aqui.

Maggie estava desprevenida, despreparada para tal frase, portanto reagiu vivamente:

Não importa o que ele quer. Vai voltar para casa comigo.

Havia algo de ocioso e perigoso no modo como ele olhou para ela.

Acha mesmo que vou deixar que o leve?

Maggie largou com força a xícara de café na mesa, enquanto se levantava. Era exatamente disso que tinha medo... de que, se Chase algum dia soubesse que tinha um filho, tentasse tomá-lo dela. Cruzou os braços, esfregando-os como se estivesse com frio.

Vou lutar contra você antes de deixar que o tome de mim, Chase Calder advertiu. Não sou mais Maggie O'Rourke, uma maria-ninguém. Sou Elizabeth Gordon, uma viúva rica cujo marido tinha muitos amigos influentes. Agora estamos em condições iguais, você não pode simplesmente me empurrar para o lado.

É isso o que você quer, Maggie? Uma feia batalha pela custódia dele? desafiou numa voz que continha a aspereza irregular da raiva. Vamos brigar para ver qual dos dois seria o melhor dos pais? Qual tem mais a oferecer-lhe? Quer jogar um cabo-de-guerra cruel com ele?

Não, não é, mas tenho muito pouca escolha no assunto, se você quer chegar às últimas consequências.

Não sou eu quem está chegando às últimas consequências, é você, insistindo para que volte para casa com você replicou Chase, novamente sob controle.

Não acha que vou deixá-lo ficar, não é?

Ele vai fugir de novo, se você o levar de volta avisou, calmamente. Você acabará por perdê-lo. Daqui a mais três anos ele terá dezoito anos... e será livre para morar onde bem quiser.

Não está mesmo pensando que vou desistir dele, não é? Simplesmente ir-me embora e deixar que fique com ele?

Não.

Então, o que está querendo de mim?

Case-se comigo.

Maggie fitou-o, boquiaberta do choque.

Não pode estar falando sério! E finalmente conseguiu rir da ideia.

Mas estou. Não se preocupe. Retorceu a boca, secamente.

Não estou alimentando nenhuma grande paixão por você. Meu interesse em casar com você é baseado exclusivamente em Ty. Primeiro, legitimará o nascimento dele. Não quero nenhum filho meu sendo chamado de bastardo.

É um pouco tarde para isso sugeriu Maggie, sarcasticamente.

Como não fui informado de sua existência... ou mesmo da sua esperada existência... a hora é a mais apropriada para mim retrucou Chase. Em segundo lugar, quero assegurar-me de que Ty seja reconhecido legalmente como meu herdeiro. A Fazenda Triplo C é herança dele e pretendo tomar todas as providências necessárias para que ele a receba.

Não me deu um único motivo pelo qual eu deva concordar com esse casamento absurdo. Ela estava imóvel e tensa, ainda escutando a voz dele, com seus sentimentos reprimidos.

Você quer o seu filho, não quer? Se brigarmos por ele, Maggie, ambos perderemos. E Ty será o maior perdedor de todos, porque estará confuso, dividido entre nós dois. Casando-se comigo, você manterá o seu papel de mãe, viverá aqui nesta casa com ele, e será uma parte integral da vida dele. Além disso, será a dona desta casa e terá toda a importância decorrente do nome Calder.

Não estou interessada no seu nome, ou na sua cama. Não discutiu a parte tocante ao Ty.

Pouco se me dá se você partilhe a minha cama. Isso fica exclusivamente a seu critério. Eu lhe sugeriria que morasse aqui sem casamento, não fosse pelos dois motivos que lhe dei e... pelos comentários que isso criaria. E você sabe que as pessoas falariam, se você voltasse a viver nessa área, que dirá aqui na casa. Não importaria se as histórias fossem verdadeiras ou não; elas chegariam aos ouvidos do Ty. Não creio que isso lhe agradasse. O casamento é uma formalidade. Logo que ele tenha conseguido o seu objetivo de estabelecer Ty como meu herdeiro legítimo, você pode pedir divórcio. Imponho apenas uma condição... Ty fica comigo.

Isso não é justo falou ela, secamente.

Mais cedo ou mais tarde você terá que soltá-lo... quando ele se casar, ou partir para ver o mundo. Você pode ficar aqui o tempo que desejar... até que ele tenha dezoito ou vinte e um anos... ou pode dividir o seu tempo entre aqui e a Califórnia. Ou ficar na Califórnia e vir para cá de visita. Para mim é indiferente. Se tiver uma solução melhor, eu a ouvirei com prazer.

A frase dele zombou dela. Não havia outra solução que fosse de encontro às condições dele. E se isto não acontecesse, ele a levaria aos tribunais para obter a custódia de Ty. Não importaria que ela acabasse por ganhar a batalha. Ele deixara isso bem claro. Podia bem imaginar a reação de Ty a esta fazenda. Pareceria a realização do sonho romântico de qualquer garoto sobre o Oeste, incluindo uma figura de herói como pai. Jamais poderia ganhar contra os sonhos de um garoto, embora ganhasse a custódia legal.

Ty tem uma afinidade natural pela terra, um sentimento por esta região continuou Chase, quando ela não preencheu o silêncio. Você não pôde reprimi-los, embora tenha tentado. É algo que ele herdou de nós dois, Maggie. Estou apelando para o seu instinto maternal. Estamos ambos interessados na mesma coisa: Ty.

Pelo menos o nosso casamento pode começar com isso como base comum. Ficou olhando para ela, serenamente. Não espero que você me dê uma resposta agora. Vai querer falar com o Ty. Amanhã será uma boa hora.

Amanhã? Ficou irritada. Quanta generosidade sua dar-me tanto tempo!

Já se perdeu tempo demais. Saiu da sua poltrona. Vou levar sua bagagem para seu quarto.

Eu não disse que ia ficar lembrou Maggie.

Ele olhou para ela, correndo um olhar seco por seu rosto.

Vai ficar.

Não. Não ia dobrar-se à vontade dele. Se tiver que passar a noite aqui, prefiro fazê-lo na casa do meu irmão.

Ele franziu o cenho.

Ao que me consta, um rato não dormiria lá. O lugar deteriorou muitíssimo desde que você partiu. E seu irmão também.

Maggie saiu da sala de jantar e dirigiu-se diretamente para a porta da frente, os passos apressados. Chase não tentou detê-la enquanto ela saía da casa e descia os degraus até o carro de aluguel. A moça fez a longa viagem até a casa do irmão num estado de entorpecimento, sem ter certeza do que encontraria ao chegar lá.

Porém a descrição de Chase não a havia preparado para a visão dos prédios delapidados que pareciam prestes a desabar com o primeiro vento forte. Parecia que há anos não se fazia uma tentativa de consertar coisa alguma. A casa, o lar de sua infância, parecia abandonada.

Nunca fora grande coisa, para começo de conversa, mas agora as janelas estavam quebradas, metade dos degraus tinha sumido e o chão da varanda estava podre e parcialmente afundado. Maggie caminhou com cuidado até a porta da frente, que estava aberta. O cheiro que veio às suas narinas era nauseantemente podre. Cobrindo a boca, deu um passo cauteloso para dentro. Estava escuro e sujo. Estendeu a mão para o interruptor perto da porta, mas nada aconteceu. Cautelosamente, moveu-se para o lado, tateando até encontrar um abajur. Puxou a correntinha, mas nada aconteceu. Não havia eletricidade na casa. Algo passou correndo nas sombras e Maggie recuou ante o som. Isto não era uma casa; era uma pocilga. Estremeceu e voltou para junto da porta, enojada porque o irmão morava naquilo.

Do lado de fora, inspirou o abençoado frescor do ar e olhou em derredor. Os saltos altos que usava tornavam impraticável uma investigação dos outros prédios, a não ser que desejasse arriscar torcer um tornozelo no terreno irregular. Chamou o nome do irmão, mas não esperava uma resposta. Esperou no carro durante mais de uma hora, antes de finalmente desistir. Não queria estar ali quando escurecesse.

Enquanto se afastava, de carro, Maggie sentia-se abismada com o estado da casa. Primeiro a mãe, depois ela, tinham-se matado de trabalho para torná-la habitável, embora nem o pai nem o irmão parecessem dar valor ao esforço. Havia algumas verdades dolorosas que era preciso enfrentar, com relação à sua família, mas ela ainda não estava preparada para enfrentá-las frontalmente.

Pelo canto dos olhos, percebeu o cemitério, e parou o carro para dar marcha à ré e entrar nele. Saltando do carro, Maggie subiu o outeirinho gramado e parou ao lado do túmulo da mãe. Nenhum pensamento consciente cruzava sua cabeça. Um vento frio finalmente fê-la perceber a sombra comprida lançada pela pedra tumular. Estava ficando tarde, e Ty logo iria voltar.

Movendo-se rigidamente, começou a descer a trilha estreita entre as tumbas. O solo era razoavelmente liso, mas ela olhava onde pisava, até que um sexto sentido alertou-a de que estava sendo observada. Maggie parou, erguendo os olhos.

Uma pick-up estava estacionada ao lado do carro. Chase se apoiava contra a lateral do veículo, fumando uma cigarrilha. Algo disse a ela que esperava ali há muito tempo. Afastando-se da pick-up, esmagou a cigarrilha sob o calcanhar e adiantou-se para ir a seu encontro. Sem dizer palavra, virou-se para caminhar a seu lado, curvando a mão grande sob o cotovelo dela, para sustentá-la e guiá-la. Entorpecida, quase anestesiada, Maggie deixou que ele a acompanhasse até a pick-up.

O toque da mão no seu quadril quando a ajudou a entrar na boleia afastou a apatia da moça. Virou a cabeça para olhar para ele. Estava parado à porta, uma das mãos segurando a moldura da porta, a outra a porta propriamente dita. O olhar dele era calmamente avaliador e astuto.

Não foi uma volta ao lar das melhores para você, não é? murmurou.

Fitando aquele rosto duro e viril, Maggie sentiu-se transportada na lembrança dos seus dias de alegre abandono. Queria estender a mão e agarrar um pedaço daquela alegria descuidada que conhecera, recapturar a luz brilhante do sol que havia iluminado o seu mundo. Algo faiscou nos olhos dele, como se pudesse ler os pensamentos na sua expressão. Aquilo a trouxe de volta à realidade.

Deixe-me em paz. A voz dela era parada, morta.

Com um dar de ombros indiferente, ele fechou a porta do passageiro e deu a volta para subir atrás do volante. Quando deu partida no motor e começou a entrar na auto-estrada, Maggie notou o carro de aluguel estacionado ao lado deles.

Mandarei um dos rapazes vir buscá-lo.

Enquanto passavam pela cidade, Maggie notou o cartaz do restaurante no antigo Jake's Place.

Quando foi que Jake abriu um restaurante?

Jake vendeu o estabelecimento há quatro anos. A nova proprietária remodelou tudo e abriu um restaurante.

Quem é a proprietária?

Quando ele não deu uma resposta imediata à pergunta dela, lançou-lhe um olhar, perguntando-se se haveria algum significado para sua hesitação.

Uma mulher chamada Sally Brogan replicou ele, parecendo preocupado com outros assuntos.

Maggie deixou o silêncio continuar por alguns quilómetros.

O que estava fazendo no cemitério, esperando por mim?

Vi seu carro estacionado ali, portanto parei. Estava indo para a casa do seu irmão, apanhá-la. Passou-me pela cabeça que podia ser teimosa o bastante para querer ficar ali, e não é um lugar adequado para uma dama. Deixou o olhar se desviar da estrada para pousar nela brevemente, percorrendo-a. É, você conseguiu sua ambição de se tornar uma dama. Elegante, sofisticada, reservada, nem um fio de cabelo fora do lugar.

Você não parece impressionado. O tom de voz dele fora quase insultuoso.

Quem sabe eu esteja imaginando se sobrou alguma coisa da garota que conheci, ou se ela foi tão polida que deixou de existir. Fitou a estrada, a cabeça inclinada para o lado. Lembro-me de uma vez em que perdi o controle quando estava fazendo amor com você e fui um pouco rude. Você começou a me morder... com força. Quando me queixei, você me disse que, se eu quisesse bancar o grosso, você faria o mesmo. O cinismo enroscou-lhe os cantos da boca. O que será que faria hoje. Bocejaria?

Maggie deu-lhe as costas. Pelo resto da viagem ficou olhando pela janela de passageiros, o cotovelo apoiado na vidraça aberta e o punho cerrado apertado contra a boca.

Naquela noite, à mesa do jantar, Maggie fitava Chase de uma cabeceira da mesa para a outra, enquanto Ty se sentava, simbolicamente, a meio caminho dos dois, do lado direito. No momento estava usando uma camisa branca limpa e calça social escura, e parecia-se com o seu filho. Mas quando entrara porta adentro no começo da noite, parecera quase um estranho, vestindo empoeiradas roupas do Oeste. Inicialmente, Ty ficara constrangido diante dela, ciente de que a magoara quando fugira, mas quando ela não tocou no assunto, ele começou a relatar excitadamente suas aventuras dos dois últimos dias. Chase sentava-se, complacente, à cabeceira da mesa, enquanto Ty provava todos os pontos que ele havia mencionado, e deixando o entusiasmo do rapaz envolvê-la.

Aos poucos, Maggie foi puxando a conversa para a casa deles na Califórnia, mencionando os amigos de Ty e os cavalos de provas de equitação que ele exibia. As respostas dele foram ficando mais breves, e logo não estava falando mais nada. Então, ela começou a perguntar-lhe diretamente se estava preparado a desistir dos amigos, da casa, da sua vida na Califórnia.

Vou sentir falta disso tudo por algum tempo admitiu Ty, e se mexeu constrangido na cadeira antes de continuar: Mamãe, não quero magoá-la. Sei que você quer que eu volte, mas... eu quero ficar aqui.

Você não quer me magoar, mas magoaria, não é? deu-se conta Maggie. Se eu insistisse para que você...

Não faça isso, mamãe! pediu Ty, com a voz alterada pela tensão.

Se sua batalha tivesse sido apenas com Chase, teria lutado com unhas e dentes pelo filho, mas não podia também lutar contra o Ty. Sabia quando estava derrotada. Começou a empurrar as ervilhas de um lado para o outro do prato, com o garfo.

Ty, o que você diria se eu lhe dissesse que Chase e eu estivemos falando em casamento? perguntou, erguendo os olhos ao sentir a arremetida penetrante do olhar de Chase.

É mesmo? perguntou Ty, cautelosamente, não querendo comprometer-se até saber se era verdade.

É - admitiu, e enfrentou o olhar firme do homem à cabeceira, um Chase Calder maduro, lacónico e difícil de decifrar.

Quer dizer que moraríamos aqui? Nós dois?

É - disse, meneando a cabeça, e continuando a encarar os firmes olhos castanhos.

Esta é a sua resposta, Maggie? perguntou Chase, serenamente.

Se é o que meu filho deseja replicou sim, é a minha resposta.

Vou tirar a licença de casamento e mandar buscar o pastor. Nós nos casaremos aqui na casa... sem estardalhaço falou Chase.

 

A decisão de ficar e casar-se com Chase deixou uma infinidade de assuntos pendentes na Califórnia. Tinha que pedir demissão do seu posto como executiva da organização de caridade. Precisava tomar providências para vender os cavalos de exibição. Naturalmente, havia todas as roupas dela, e as do Ty, que tinham que ser empacotadas e enviadas para a Triplo C. Essa parte foi resolvida com um telefonema para Tia Cathleen. Esta era uma romântica incurável, portanto ficou radiante pelo fato de Maggie estar finalmente se casando com o pai do seu filho.

Já Pamela, foi outra história. Primeiro, ficou raivosamente incrédula quando Maggie contou sua decisão. Depois, chorou e suplicou a Maggie que pensasse melhor e trouxesse Ty de volta. Maggie não estava disposta a fazer confidências à cunhada e explicar por que não tinha escolha. Antes de a conversa ter acabado, Pamela estava lívida, acusando Maggie de estar sendo infiel à memória de Phillip, de nunca tê-lo amado, de ter-se casado com ele apenas pelo dinheiro, e ameaçando ir aos tribunais para contestar o testamento dele, retirando tanto Maggie quanto Ty da lista dos beneficiários. A índole vingativa da cunhada foi o suficiente para convencê-la de que jamais queria voltar.

Depois da conversa com Pamela, Maggie fora dar uma volta para esfriar a raiva. Chase não estava por perto, mas raramente estava. Com o recolhimento do gado da primavera em pleno andamento, geralmente ficava fora de casa do alvorecer até o crepúsculo. Ela já passara dos celeiros e estábulos e estava a meio caminho do alojamento dos homens, quando finalmente diminuiu o passo e olhou em derredor.

Teve a atenção despertada por um veículo esquisito estacionado na frente de um dos prédios logo adiante. Levou um minuto para reconhecer que era um carro para transportar provisões e utensílios de cozinha para os vaqueiros. Chegou mais perto para olhar para dentro da cozinha móvel, que tinha um fogão a gás butano, geladeira e reservatório de água. Ele tinha voltado para a sede da fazenda para se reabastecer de suprimentos e combustível.

Quando uma figura imensa saiu de dentro de um prédio, uma cabeça redonda estava quase escondida atrás do saco de batatas de 20 quilos que levava ao ombro. Maggie piscou incrédula, fitando o homem, enquanto um sorriso rasgou-lhe o rosto.

Tucker! exclamou, encantada. O cozinheiro girou o tórax para ver quem tinha chamado seu nome. Fitou-a vagamente e ela riu. Sou eu! Maggie!

Ele jogou o saco ao chão como se fosse uma pena.

Tinha ouvido contar que estava de volta, mas não a teria reconhecido. Olhou para ela com orgulho, fitando o corte de cabelo elegante, a blusa assinada cinza clara, a calça justa e preta. Bem-vinda ao lar, Maggie.

Ela sentiu um bolo estranho na garganta enquanto ria de novo, desta vez mansamente.

Sabe que é a primeira pessoa que me disse isso?

Que bom. Pensei em você, e em como se estava saindo disse. Vi o seu garoto. É filho do Chase?

É respondeu, observando a reação dele, lembrando-se do respeito que sempre demonstrara por ela, e perguntando-se se isso modificaria alguma coisa.

Os rapazes estão falando que você vai-se casar com ele.

Vou. Ele não parecia estar julgando o comportamento dela de anos atrás. No entanto, sentia-se obrigada a explicar a este homem os seus motivos para se casar com Chase, depois do que os Calders tinham feito a seu pai. Não tenho escolha. Ty está fascinado por ele. Se não quiser perder meu filho, terei que me casar com ele, para poder ficar perto do Ty. Inspirou tremulamente e olhou para longe. Tem visto Culley ultimamente? Já fui à fazenda umas duas vezes, mas ele não está lá e eu... Não pôde terminar a frase, incapaz de expressar suas reações às mudanças ocorridas ali.

Eu sei. O comentário de Tucker dizia que ela não precisava dizer-lhe nada. Culley não fica muito lá. Aquilo é uma obsessão para ele. Devia ter ido embora com você e não ter tentado manter o lugar. Era demais para um homem, que dirá um menino. Tentei falar com ele, mas não quis escutar... disse que os Calders tinham conseguido pegar-me.

Ele me escreveu contando que você estava aqui, mas pensei que a esta altura já tinha ido embora. Olhou para ele, tentando compreender por que tinha ficado. Incendiaram o seu café. Eu imaginava que você se iria daqui o mais depressa que pudesse.

Eu achava que Calder o incendiou. Mas pode ser que o fogo tenha sido causado pela gordura, como disseram. Deu de ombros.

Tenho sido tratado com justiça, aqui. E sou dono do meu nariz. Acho que Webb Calder me apavorou de verdade. E Chase ainda me olha com certa desconfiança.

Então você perdoou a ambos pelo que fizeram a meu pai?

Parecia outra traição.

Você, não? retrucou Tucker, com um olhar enviesado dos seus olhinhos.

Não.

Acredita que um filho tem que pagar pelos pecados do pai?

Quando ela ia começar a responder, ele interrompeu. Cuidado com o que vai dizer, porque se vai fazer Chase pagar pelo que o pai dele fez, não se esqueça de que o pai do seu filho é Chase Calder.

Uma minúscula onda de choque a percorreu, as palavras dele ecoando em sua cabeça... pagar pelos pecados do pai. Tremia por dentro, sem ter certeza do por quê. Havia uma súbita confusão na sua cabeça, que não estava conseguindo dominar. Seus pensamentos rodopiavam depressa demais.

Bem... Tucker levou o saco de batatas ao ombro. Tenho que ir trabalhar. Daqui a pouco os rapazes vão ficar com fome. A seguir, fez uma pausa. Mandarei avisar a Culley que você quer vê-lo.

Obrigada, Tucker. Foi uma resposta quase distraída, enquanto ela se virava para andar devagarinho na direção da Casa Grande.

A cerimónia de casamento foi rápida e indolor, realizada à noite para não interferir com o esquema de trabalho de Chase. Ruth e Virgil Haskell foram as testemunhas. Ty foi a única outra pessoa a comparecer. Houve apenas um momento constrangedor, quando chegou a hora de trocar as alianças simples de ouro. Maggie tinha-se esquecido de tirar o jogo entrelaçado de aliança e solitário que Phillip lhe dera. Em retrospectiva, ela não saberia dizer ao certo se fora esquecimento ou um gesto subconsciente. De qualquer modo, quando Chase viu o jogo, sua boca se apertou enquanto habilmente o retirava do dedo dela e o enfiava no bolso. Depois da cerimónia devolvera-lhe a aliança e o anel. Mais tarde, seu beijo fora frio e impessoal, praticamente não fora um beijo.

Enquanto a certidão era assinada e testemunhada, Chase preparara bebidas no escritório. O pastor fizera um brinde à futura felicidade deles, antes de se retirar. Os Haskells não se demoraram, e até Ty fora embora discretamente para deixá-los a sós. Chase imediatamente se desculpara e fora cuidar de uns papéis, deixando Maggie com a sensação de que tudo fora uma farsa.

O que tinha esperado? Deitada na cama do quarto principal, fitou os desenhos que a lua fazia no teto. O seu ego estava sofrendo. Queria ser ela a esnobar e ignorar. Ficou enojada com sua reação infantil. O que importava qual deles estabelecesse o padrão de discreta civilidade?

Escutou os passos dele que subiam as escadas até o topo, e o andar sem pressa que o fez passar pela porta dela, sem nenhuma hesitação. O quarto de dormir dele estava localizado no canto noroeste do segundo andar. Indicara-o para ela, secamente, quando lhe dera a suite principal, naquela primeira noite. A porta do quarto dele abriu e fechou. A seguir, fez-se silêncio.

Ela rolou para o lado, enfiando as mãos sob o travesseiro debaixo da cabeça. A larga aliança de ouro parecia estranhamente pesada no dedo. Não estava acostumada com ela, e sim com a coroa de diamantes da aliança de Phillip. Mal havia fechado os olhos quando a maior barulheira e estardalhaço chegou-lhe aos ouvidos. A algazarra ensurdecedora fez Maggie saltar da cama. Agarrou o robe que fazia jogo com sua camisola de cetim e se mandou para o corredor, quase atropelando Chase.

O que é isso? A barulheira não arrefecia.

Não sei. A camisa dele estava desabotoada e para fora da calça. Ele estava começando a enfiá-la para dentro da cintura, quando parou e inspirou vivamente, em reconhecimento. Ah, não! Era um suspiro exasperado.

O que foi? perguntou, olhando para ele, intrigada e vagamente alarmada.

Ele lhe lançou um olhar enviesado, seco e irónico a um só tempo.

Estão-nos dando uma festa. Aposto que foi ideia do Buck. Uma risada irrompeu da garganta dela, curta e aliviada, logo

interrompida pela porta da frente sendo aberta e pela invasão de botas pisando forte e pelo bater de panelas umas nas outras.

Queremos os noivos! gritou um coro de vozes turbulentas.

Maggie começou a dar um nó na faixa do seu robe. Chase varreu-a com um olhar que notava especialmente como o tecido de cetim se amoldava aos seios e quadris dela, deixando muito pouco à imaginação.

Não pode ir lá para baixo usando isso falou bruscamente, em voz baixa.

Por um segundo atónita, pôde apenas olhar para ele.

Tenho meia dúzia de vestidos de noite mais reveladores do que este! retrucou. Phillip jamais achou que eu estivesse vestida de modo indecente.

Bem, não sou Phillip e não estamos na Califórnia. As nossas mulheres não andam por aí mostrando o corpo na frente dos outros homens.

A voz dele era um lembrete agudo que pertencia a uma raça de homens que julgava as mulheres por padrões diferentes daqueles do mundo exterior. A rebelião percorreu-lhe as veias, ou atiçada pela reprimenda dele ou pelo tom de posse de sua voz, quando a grupara na categoria de "nossas mulheres".

Ei! Vocês vão descer ou vamos ter que subir? desafiou uma voz, do pé da escada.

Dêen-Mios dois minutos para botarmos uma roupa decente! Chase ergueu a voz para replicar, depois tomou Maggie pelos ombros e levou-a até a suite principal, em meio aos gritos e assobios vindos lá de baixo.

Se não fosse pela possibilidade bem real de que Ty fizesse parte do grupo lá embaixo, e Maggie não querer embaraçá-lo, ter-se-ia recusado a trocar de roupa. Chase já tinha acendido a luz e estava examinando seu guarda-roupa escasso, já que o resto de suas roupas não tinha chegado. Maggie ficou ainda mais irritada pela insinuação de que não confiava nela para escolher algo adequado. Raivosamente, tirou o robe e jogou-o sobre as cobertas revoltas.

Acabara de arrancar a camisola pela cabeça e estava apanhando as roupas íntimas, quando ouviu Chase dizer:

Tome. Use isto.

O quê? Quando se virou para ver o que ele havia escolhido, ficou imobilizada pela expressão dos seus olhos.

Eles percorriam sua nudez, demorando-se nos bicos dos seios, na planura do estômago, no triângulo preto de pêlos crespos. Depois percorreram vagarosamente a mesma rota, ao contrário. Maggie ficou abalada pela sensação de que ele estava fazendo amor com ela com os olhos, e sentiu o calor inundar-lhe o corpo, o calor do desejo. Tinha que defender-se contra esta invasão tão íntima.

Pare de me olhar com essa cara de bobo, feito um vaqueiro, Chase. Falou secamente porque estava tremendo por dentro. Já me viu nua antes.

A ironia quebrou o encanto, e Maggie adiantou-se rapidamente para vestir o sutiã e a calcinha. Chase escolhera um vestido sem mangas azul-pálido, feito de uma fazenda atoalhada lustrosa. Quando ela foi pegá-lo das mãos dele, o homem segurou-o por um instante, forçando-a a fitá-lo nos olhos, que brilhavam como pedras polidas.

Mas quando eu a vi nua antes, Maggie, eu sempre olhei ele lembrou simplesmente, e soltou o vestido e se afastou.

Uma cantoria começou lá embaixo.

Queremos os noivos! Queremos os noivos!

Chase esperava à porta com impaciência mal disfarçada enquanto Maggie abotoava a frente do vestido e enfiava os pés sem meias em sandálias tipo chinelo. O olhar dele inspecionou-a rapidamente, quando ela se reuniu a ele. Ela ferveu por dentro, sentindo-se exposta, como se o muro que erigia tão cuidadosamente para deixar de fora as sensações indesejadas estivesse sendo corroído, e ela precisava da proteção contra a atração animal vibrante dele.

Ficou rígida sob a mão que a conduzia escada abaixo, onde foram imediatamente engolidos pela maré ruidosa dos trabalhadores da fazenda e suas famílias, rindo, turbulentos, gozadores na sua alegria. Podia ter sido negado a eles um casamentão, mas não lhes ia ser negada a oportunidade de comemorar o casamento do patrão. No meio da multidão que os cumprimentava, Chase curvou um braço possessiva e protetoramente na cintura de Maggie, moldando-a firmemente a seu lado esquerdo, para não serem separados. O corpo musculoso dele era como uma rocha viva, gemendo um calor que queimava a pele da moça. Estava consciente de sua virilidade rude que não se apoiava em charme sexual. Era uma coisa mais simples e básica do que isso, algo terreno inserido nele pela região. Ela resistiu-lhe, concentrando a atenção no fluxo de vaqueiros.

Foram presos e envolvidos na corrente de corpos que os levou para fora de casa, onde uma multidão maior os esperava. Uma parelha de cavalos, agitada com todo o barulho, estava atrelada a uma velha carruagem. Ela e Chase foram colocados no assento enquanto um par de cavaleiros ladeava a parelha agitada e desfilava a carruagem e seus ocupantes pelo pátio da fazenda para alegria da multidão. Maggie conseguiu igualar a aceitação calma e sorridente de Chase de tudo aquilo.

Finalmente, os cavaleiros devolveram o casal às escadas de entrada da Casa Grande. Enquanto Chase tirava Maggie da carruagem, Ruth Haskell apareceu para murmurar-lhes:

Tenho comida e bebida para todo o mundo lá dentro. Estava mantendo o costume de alimentar os farristas.

Chase e Maggie ficaram parados à porta, cumprimentando os indivíduos à medida que iam entrando, e aceitando os seus parabéns. Alguns deles Maggie conhecia, outros lhe pareciam familiares. Chase apresentou a todos, sem gaguejar num só nome. Lá de vez em quando um vaqueiro servia-se do direito de beijar a noiva, mas era sempre um gesto muito respeitoso e reservado. Ninguém se aproveitou do privilégio, não com o Chase parado ao lado dela.

Enquanto um vaqueiro se adiantava para apertar a mão do noivo, Maggie se virou para a próxima pessoa na fila. Havia um ar de quietude na mulher ruiva que vinha a seguir, uma qualidade que se destacava no meio de toda a barulheira. Maggie sentiu Chase enrijecer e olhou rapidamente para ele para determinar a causa, no entanto nada havia na expressão do marido para indicar que havia algo errado. Ele fez as apresentações, como havia feito a noite toda.

Esta é Sally Brogan, uma amiga minha. É dona do restaurante na cidade.

Parabéns, Sra. Calder. Enquanto a mulher discretamente apertava a mão de Maggie, esta notou a leve tensão nas suas feições. Havia dor por trás daqueles plácidos olhos azuis. É uma mulher de muita sorte.

Sorte? Maggie supunha que havia muitas mulheres que trocariam de bom grado de lugar com ela. A certeza veio instantaneamente que esta mulher era uma delas. Teve a consciência súbita de uma certa quietude à volta delas, como se os outros estivessem observando o diálogo. Quando a ruiva seguiu seu caminho para cumprimentar Chase, alguém se adiantou imediatamente para reclamar a atenção de Maggie.

Era Buck Haskell, rindo e falando bem alto.

Você é uma bela noiva, mas, afinal, sempre foi uma beldade. Ela mal escutou uma das palavras que ele dissera. Bem a seu

lado, estava consciente da mulher murmurando para Chase.

Desejo a ambos todas as felicidades.

E esticou-se para beijá-lo. Ficou evidente para Maggie que tinha havido mais do que amizade entre eles. Ficou ainda mais convencida disso quando ouviu Buck dizer, numa voz que não era para ela ouvir:

Desculpe, Chase, mas a Sally pediu para vir, para você saber que ela não ficou zangada nem chateada.

Houve mais rostos e mais apresentações até que Maggie e Chase se pudessem reunir aos que estavam dentro da casa, provando as guloseimas que Ruth preparara. Ainda se passou uma hora até que os empregados da fazenda e suas famílias começassem a ir embora da casa, bem mais serenamente do que tinham entrado.

Enquanto Chase começava a apagar as luzes lá embaixo, Maggie ia subindo as escadas. Parou no patamar onde as escadas faziam uma virada abrupta à esquerda.

Cadê o Ty?

Depois de apagar a luz do corredor que dava para a cozinha, Chase parou para responder-lhe, erguendo secamente o canto da boca.

Pareceu achar necessário dormir nos alojamentos hoje, para podermos ter a casa toda para nós, na nossa noite de núpcias.

Os dedos dela se curvaram no corrimão liso da escada. A menção da noite de núpcias e das intimidades que a acompanhavam tinha causado uma estranha sensação de enroscamento no seu estômago.

A mulher ruiva, Sally Brogan? começou Maggie, sem ter certeza por que estava trazendo o assunto à baila, exceto que queria ver a reação do Chase.

Ele parou naturalmente junto a uma lâmpada acesa, e virou a cabeça.

O que tem ela? O desafio era suavíssimo.

Estava-se encontrando com ela, não é?

Não houve negativa. Nem Chase pareceu pouco à vontade porque ela tinha adivinhado.

Nunca fiz a ela nenhuma promessa foi só o que disse. A resposta dele reabriu uma velha ferida, porque ele também

não tinha feito a ela nenhuma promessa, há 16 anos. Simplesmente curtira os prazeres que Maggie tinha a oferecer, tomando o que aparecia no seu caminho.

Nunca fez promessas, não é?

Sua memória é curta. Subitamente, houve um ar de aspereza nas suas feições. Ainda hoje, mais cedo, creio que prometi "honrá-la e mantê-la até que a morte nos separe". Moveu-se na direção da luz que brilhava na sala de jantar.

Maggie sentiu-se abalada pela convicção na voz dele, enquanto permanecia no patamar da escada. Nesta região, um homem cumpria sua palavra, ou não era um homem. Uma promessa não era uma coisa que se fizesse despreocupadamente. As juras que fizera hoje tinham sido palavras sem sentido, para ela, um expediente para conservar Ty. Independente do quanto ela as considerasse superficiais, o código de Chase não permitia que ele as ignorasse. Estava preso pelas promessas feitas, quer ela própria acreditasse que estava, ou não.

Sentiu-se vagamente envergonhada. Aos olhos de Deus e dos homens, ele era o seu marido. Será que estava certa em ser menos do que uma esposa para ele? No entanto, fora coagida a fazer esse casamento. Que tipo de homem ameaçaria tirar um filho da sua mãe? Porém outra voz, mais serena, perguntava: que tipo de mulher negava a um pai o direito de conhecer o seu filho? Subitamente sentiu-se assaltada por uma tempestade de dúvidas.

Quando ouviu os passos dele se aproximando da sala de visitas, recomeçou a subir. Toda ess aconfusão tinha-lhe dado dor de cabeça. Não prestou atenção ao ruído de pneus no cascalho lá fora, imaginando que fosse um membro da festa que ia para casa atrasado. Chase também não ligou para o ruído. Estava quase no topo das escadas quando um tiro de fuzil explodiu na quietude da noite, arrancando-lhe um grito da garganta.

A reverberação mal tinha terminado quando uma voz lá de fora gritou:

Calder! Quero minha irmã!

Culley! Reconheceu a voz do irmão e desceu correndo as escadas. Na semi-escuridão da sala de visitas, colidiu com Chase. Quando tentou passar por ele, sentiu-se envolvida por braços de ferro. Empurrou-lhe o peito, inclinando a cabeça para fitá-lo, irada.

Quero ver meu irmão.

Ainda não. A voz dele era dura e inflexível como o seu aperto.

O tiro seguinte destroçou uma janela da sala de jantar, e Maggie foi puxada de encontro ao peito dele, esmagada contra o seu corpo, enquanto os ombros largos se encurvavam protetoramente para adiante, como que para formar um escudo para ela. Espantada com esse gesto altruísta, ela parou de se debater. Sob a cabeça, podia ouvir as fortes batidas do coração dele. Quando não houve mais outro tiro, ele se moveu, empurrando-a na direção da escada.

Calder! Está-me ouvindo? berrou Culley.

Estou! respondeu. E falou para Maggie numa voz baixa.

Fique aqui, e abaixada.

Ele só quer me ver argumentou ela.

Então não devia ter vindo com um fuzil replicou ele, bruscamente.

Calder! Sei que Maggie está aí! Deixe-a sair ou eu atiro em cada vidraça da casa! ameaçou o irmão.

Chase afastou-se suavemente de Maggie e entrou nas sombras da sala de visitas às escuras. Só respondeu depois que estava do outro lado do aposento.

Se sabe que ela está aqui, largue o fuzil antes de feri-la.

Só o que você tem a fazer é deixá-la sair e ela não vai ficar ferida... porque eu não vou deixá-lo feri-la desta vez! Culley ergueu a face do fuzil para responder, enquanto se agachava atrás do capô de sua pick-up.

Houve um leve arrastar no cascalho às costas dele, um sussurro de advertência. Ele deu meia-volta vivamente, girando com o fuzil para responder à ameaça que vinha de sua retaguarda desprotegida. Um braço bateu no cano, levantando-o, e a bala foi disparada inofensivamente para o ar, enquanto três homens o atacavam. Tentou lutar contra eles, mas eram em número maior, e mais deles vinham vindo. Algo enfiou-se na sua barriga, dobrando-o em dois de dor, e um punho cerrado abriu o seu lábio e jogou-o sobre a pick-up. Completamente grogue, tentou afastar a escuridão dos olhos, mas eles o agarraram, batendo com os seus ombros e costas contra o lado da pick-up. Sentiu um estalido de dor ao longo do maxilar. Logo a seguir estava afundando num mar de escuridão, e nem escutou a ordem dada:

Agora chega.

Quando Maggie escutou os ruídos de uma briga lá fora, ignorou a ordem de Chase para ficar dentro de casa e saiu atrás dele. Culley estava inconsciente, no chão, largado de encontro à pick-up, quando ela chegou ao local. Nem prestou atenção aos homens que o rodeavam, enquanto corria para junto do irmão.

O que quer que a gente faça com ele, patrão? perguntou um deles.

Chase nem teve chance de responder, enquanto Maggie dava uma olhada no rosto machucado e no lábio ferido.

Tragam-no para dentro de casa ordenou a moça. Ninguém se mexeu para obedecer, e ela olhou para Chase por cima do ombro, com um olhar gélido. É meu irmão e está ferido.

A pausa não durou mais do que um batimento de coração.

Ouviram minha mulher falou Chase. Buck, você e Dave carreguem-no para dentro de casa. Logo a seguir adiantou-se e puxou Maggie para longe do irmão. Murmurou junto à orelha dela, a raiva vibrando no tom baixo de voz. O que acha que eu ia mandar que fizessem com ele? Largá-lo numa vala?

Como é que eu podia saber? sibilou ela, igualmente baixo. Deixou que o espancassem.

Ele tinha um fuzil que estava usando. O que esperava que eles fizessem... que lhe dessem uma batidinha amistosa no ombro e pedissem que largasse a arma? resmungou, bem baixo, sem olhar para ela, enquanto sua mão de aço a empurrava atrás dos dois homens que levavam Culley para dentro da casa.

 

À luz acesa da sala de visitas, os cortes e ferimentos não pareciam de grande monta. Foi o estado físico geral do irmão que deixou Maggie alarmada. Seu cabelo negro achava-se longo e sem vida, e estava magro como um esqueleto. Havia profundas olheiras escuras no seu rosto, como se os olhos tivessem afundado nas órbitas. Seu comportamento parecia compreensível. Era uma mola muito bem enrolada que se soltara e ficara errática.

Chase entregou-lhe uma dose de uísque para reviver Culley, e fez sinal a Ty para levar embora o equipamento de primeiros-socorros. Segurando a nuca do irmão, Maggie derramou um pouco de uísque em sua boca. Ele se engasgou e começou a tossir, as pálpebras esforçando-se por se abrir enquanto tentava afastá-la. Com o canto dos olhos, ela percebeu que Chase tinha dado um passo na sua direção, pronto a interferir, se Culley se tornasse violento.

Culley, é Maggie disse rapidamente, para acalmá-lo. Não deixou de perceber, indiferentemente, que depois de 16 anos sendo Elizabeth, era Maggie de novo.

Viu que Culley a focalizava, e franzia o cenho, os olhos ásperos e vermelhos, demonstrando a tensão do trabalho demais e descanso de menos que marcava o resto de sua pessoa.

Maggie?

Sim. Ela sorriu. Como está-se sentindo?

As mãos dele agarraram-lhe os braços, os dedos enterrando-se na sua carne como garras de aço, revelando uma necessidade de se certificar de que ela era real, e não uma miragem.

É mesmo você. Sorriu, e o gesto repuxou o lábio rachado e provocou uma careta imediata de dor. Esmagou-a contra o peito, abraçou-a com toda a força. Enterrando o rosto nos cabelos perfumados dela, fechou os olhos para esconder as lágrimas, porque um homem não deve chorar. Senti saudades falou, com voz baixa e abafada.

Também senti saudades suas, Culley.

A emoção engasgava sua voz e ela piscou para conter as próprias lágrimas. Viu que Chase os observava com ar sombrio e lábios cerrados, e soltou-se devagar do abraço apertado de Culley.

Você conseguiu. Culley corria os dedos maravilhados pelo rosto dela, tocando-a numa espécie de adoração espantada. É uma bela dama. Ela tomou a mão magra e beijou-a, piedade e culpa misturando-se nela pelo sofrimento que ele conhecera enquanto ela vivera cercada por tudo o que uma mulher pode desejar. Recebi o recado de Tucker de que você estava aqui e que Calder a estava obrigando a ficar. Ergueu os olhos, tomado de alucinação quando viu Calder e, a um canto, Buck Haskell e dois outros vaqueiros posicionados dentro da sala, para o caso de haver encrencas. Vamos. Vou levá-la comigo, Maggie, e eles não vão poder deter-me.

Culley, não. A resistência dela intrigou-o, o que era aparente. Por favor, escute-me. Preciso explicar-lhe uma coisa. Já estava procurando as palavras para fazê-lo compreender, sabendo que não havia nenhuma.

O quê? indagou, fitando-a com olhos estreitados.

É aqui que eu moro, agora. Nós nos casamos. Falou calma e concisamente, tentando não deixar que as palavras causassem muito impacto, mas viu o choque e a raiva registrarem-se nas feições dele. Chase é meu marido.

Havia uma luz alucinada e instável nos olhos dele.

Esqueceu o que ele fez?

Ela deitou os dedos sobre a boca do irmão, para silenciá-lo, os olhos suplicando para que não dissesse mais nada.

Há alguém que quero que conheça. Tentou distraí-lo, e virou-se para chamar Ty. Levantando-se do seu assento bem na beirada do sofá, foi pegar a mão do filho para puxá-lo mais para perto. O garoto estava com a testa franzida, confuso e desconfiado, constrangido com a atitude e comportamento estranhos do homem que era seu tio. Culley se pôs de pé, inseguro, olhando com suspeita para o menino com a irmã. Este é meu filho, Ty. Apresentou o filho e sorriu. Este é o seu Tio Culley.

Como está, senhor? Ty estendeu a mão formalmente, mas Culley nem a notou enquanto o examinava com um olhar penetrante que aumentava o desconforto do filho... e de Maggie.

Culley? Instou-o nervosamente a dizer qualquer coisa, um pouco assustada pelo longo silêncio.

Saia de perto dele, Maggie ordenou Culley, e estendeu a mão para pegar a dela, sem deixar de fitar o garoto alto. Ela hesitou, depois colocou a mão na dele, deixando que a puxasse. Olhe para ele insistiu o irmão, com olhos ardentes. Não está vendo? É um Calder!

Ela sentiu o rápido bater de sua pulsação e tentou desviar Culley daquela condenação com o tom calmo e razoável da voz.

Ele é meu filho.

Culley puxou-a para si, segurando-a pelos ombros para mantê-la imóvel.

É o filho dele, Não está vendo? As palavras se atropelavam. Por que o trouxe de volta? Por que não se livrou dele? Não está vendo, Maggie? Agora são dois deles! São tão fortes quanto eram antes! Tem que vir embora comigo esta noite, Maggie! Tem que me ajudar a me vingar deles pelo que fizeram! Você finalmente voltou para me ajudar, não foi? Temos que nos vingar deles pelo que fizeram!

Os olhos dela ardiam com lágrimas não derramadas ao ver como o ódio tinha destruído o irmão, cegando-o a tudo exceto à sua obsessão em se vingar dos Calders. Ele se alimentava do ódio, ao invés de comida, dormia com ele, ao invés de descansar, respirava-o como um ar envenenado. Jamais tinha deixado a ferida sarar, e ela tinha infeccionado sua alma.

Oh, Culley sussurrou, debilmente. Por que não veio para a Califórnia comigo?

Maggie não notara que, às suas costas, Chase fizera sinal para um dos homens, indicando que queria que Ty fosse levado da casa antes que sua presença precipitasse um incidente violento. Ela fitou o brilho de suor na testa de Culley, um indício do inferno que vivia dentro dele.

Eu tinha de ficar! A voz dele ergueu-se a um tom alto e dissonante, em resposta à pergunta dela. Você tem que vir comigo, Maggie! Preciso de ajuda!

Ela gemeu, porque ele precisava. As mãos dele apertaram-lhe os ombros. A dor que aquilo lhe causou deu-lhe uma indicação das forças que o apertavam e pressionavam. Enfiou os dentes no lábio inferior para não gritar um protesto pelo modo como ele a estava machucando. Mas logo não precisou mais fazê-lo, pois Buck e o outro vaqueiro chegaram por trás dele, tomando-o firmemente pelos braços e forçando-o a soltá-la. Culley levou um segundo para se dar conta do que estava acontecendo e começar a se debater para se soltar. Ela deu um passo instintivo na direção do irmão, querendo ajudá-lo de alguma forma, mas um par de mãos fechou-se nos pontos encurvados dos seus ombros. Chase estava atrás dela.

Quando a imagem dele apareceu para ficar ao lado de Maggie, Culley começou a gritar:

Largue-a! Não vai mantê-la aqui! Vou tirá-la de você e mandá-la para bem longe daqui, como já fiz uma vez! Não pode ficar com ela! Está-me ouvindo, Calder?!!

Não. Ouça-me você, Culley. A voz dura dele era nítida

e forte. Não posso impedir Maggie de visitar o irmão dela, mas

você jamais ponha os pés em terra Calder de novo. Havia um tom agourento na fria advertência. A seguir, Chase estava-se dirigindo a seu amigo e capataz. Buck, acompanhe-o para fora da propriedade, e não o deixe até que esteja fora da Triplo C.

Torcendo os braços bem no alto de suas costas, os dois homens foram quase carregando Culley para fora da casa, até a pick-up.

Vou com O'Rourke para me certificar de que não vai inventar nenhuma gracinha daqui até a porteira principal falou Buck. Você segue a gente, Dave.

Certo.

Maggie não resistiu à pressão das mãos que a afastaram da porta da frente. Ergueu os olhos para a fisionomia máscula e severa.

Estou falando sério. Não quero vê-lo nunca mais em terra Calder repetiu Chase.

Ele é meu irmão.

Foi por isso que saiu daqui andando. As mãos dele a apertaram, como se quisesse sacudi-la para a percepção do quanto ele se contivera. Voltou a se controlar, contraindo um músculo ao longo do maxilar. Não posso impedi-la de vê-lo do lado de fora desta fazenda. Creio que jamais a magoará, mas vi o jeito como olhou para o Ty.

O medo a sufocou por um instante, porque ela também o vira, e aquilo a assustara.

Ele precisa de ajuda.

O apelo mudo nos olhos verdes tocou Chase.

Eu sei. Tomou-a meigamente nos braços, deixando a cabeça dela pousar no seu peito. O queixo roçava os cachos lustrosos do lado da cabeleira da moça. Mas não há nada que você possa fazer por ele, Maggie. O que ele precisa é de ajuda profissional. Esfregou as mãos nas costas dela. Sua intenção era confortá-la e tranquilizá-la, mas também estava sentindo os contornos femininos do corpo esbelto. Aquilo mexeu nos desejos que dormiam dentro dele. Como se pressentisse a mudança, ela saiu dos seus braços, e Chase a soltou. Vou ver o Dr. Barlow amanhã e pedir-lhe para dar uma passadinha na casa do Culley uma noite dessas, para falar com ele. Quem sabe seu irmão o escutará sugeriu, notando que ela estava evitando os seus olhos.

É. Era uma concordância simples, sem sentimento ou especulação. Foi-se dirigindo para as escadas. Boa noite. Também a despedida era morta, despida de emoção.

Maggie? A urgência baixa da voz dele fê-la levantar a cabeça, vivamente. Parecia frágil e quebradiça. Você está bem?

Ela tremulou, depois acenou com a cabeça, friamente.

Estou.

Depois que desapareceu escada acima, Chase saiu silenciosamente da casa e ficou parado na varanda, onde a friagem do ar o inundou.

A manhã já ia pelo meio, quando Chase conseguiu arranjar algum tempo livre no seu horário. A buzina de um veículo fê-lo parar perto do armazém. Virou-se, impaciente com o atraso, e viu Nate ao volante de uma pick-up, a cabeça enfiada para fora da janela.

O garoto está limpando o estábulo dos garanhões, hoje! gritou-lhe.

Um sorriso enviesou-lhe a boca, enquanto fazia um esboço de saudação ao velho capataz. Aquele velho sabia ler os seus pensamentos. Alterou o seu rumo e dirigiu-se para o estábulo isolado onde os garanhões da estância eram mantidos separados dos demais cavalos. Ty se encostava numa cerca resistente, uma bota apoiada no pau inferior e os braços cruzados sobre o pau superior da cerca. Um carrinho de mão cheio de estrume e palha estava a seu lado. Chase diminuiu o passo para examinar o perfil confuso e levemente deprimido do filho. Quando se aproximou do garoto, fitou deliberadamente o cavalo amarelado dentro do curral, como se ele fosse realmente o objeto dos pensamentos de Ty.

O garanhão é um animal e tanto, não é? comentou Chase, consciente do sobressalto de culpa de Ty por ter sido apanhado vadiando no serviço.

É, sim, senhor.

Cougar era a montaria pessoal do meu pai, e é provavelmente o melhor cavalo para isolar vacas que temos na fazenda. Ele passa para sua descendência esse jeito com as vacas. Isso é que o torna um reprodutor tão bom.

Examinou o focinho pesado do garanhão, que ia embranquecendo.

Ninguém mais o monta? perguntou Ty, com interesse apenas superficial.

Não. Aposentei-o e deixei-o como reprodutor, quando meu pai morreu e deixou a fazenda para mim. Chase fez uma pausa, depois continuou no mesmo tom de conversa: É natural que esteja confuso e perturbado com o que aconteceu ontem à noite, Ty.

O garoto pareceu surpreso, depois enfiou a ponta da bota na terra.

Por que ele me odeia?

Ele não o conhece, portanto não é a você que odeia... é o que você representa. Fora difícil para ele aceitar quando era jovem. Não seria mais fácil para o filho. Você é um Calder.

Por que ele devia odiar um Calder? A resposta não fazia sentido para ele. A ruga da sua testa ficou mais profunda, quando viu o pai abaixar-se e apanhar um punhado de cascalho, penetrando-o entre os dedos.

Se um homem está andando e cai, automaticamente olha para ver o que provocou sua queda. Chase se abaixou de novo e apanhou um pedaço grande de cascalho. Ele vai culpar esta pedra grande... ou esta pedrinha?

Mostrou ao filho as duas pedras de tamanho diferente na palma da mão coberta de couro.

A pedra grande. Era óbvio.

Porque é a maior. Portanto, sempre leva a culpa. Mas quem pode dizer que esta pedrinha não estava embaixo da rocha, e quando se mexeu forçou a rocha a se mexer?

Acho que podia ser admitiu Ty.

Quando as coisas dão errado para alguns homens nessa área do Estado, eles procuram alguém em quem botar a culpa. E lá estão todos esses quilómetros quadrados da Triplo C, tão maiores do que qualquer coisa à sua volta. Botam a culpa na gente. Por exemplo, o preço do gado cai. Todos os outros pequenos fazendeiros apontam o dedo para nós porque alegam que saturamos o mercado.

Observou a ruga da testa do filho transformar-se num ar pensativo. Quando se é grande e próspero, sempre há gente querendo derrubar-nos. Eles se mexem... e a rocha se mexe. Às vezes, a rocha cai em cima da pedrinha. É aí que o ressentimento pode transformar-se em ódio.

O que aconteceu para fazer com que meu tio nos odiasse?

Ty ergueu os olhos das pedras que Chase segurava e perscrutou seu rosto.

Um conjunto de coisas, Ty. Algumas delas remontam ao tempo do pai dele e do meu, e à sua mãe. Depois que assumi o controle da fazenda, Culley e eu tivemos um desentendimento. É uma história muito longa, mas ele acredita que tem um bom motivo para odiar os Calders. E há quem concorde com ele acrescentou Chase, com um leve dar de ombros. O que você precisa lembrar, Ty, é que, quando alguém odeia, não deve encorajar isso como coisa pessoal. Não é uma condenação de você como indivíduo, portanto não fique pensando que existe algo errado com você. Continue fazendo o que acha que é direito e justo, e deixe os outros pensarem o que quiserem.

É suspirou o jovem, uma resignação sombria instalando-se na sua expressão. Chase fechou a mão enluvada em volta das duas pedras, depois largou-as ao solo.

Não acha melhor ir trabalhar? sugeriu.

Certo. Ty forçou um sorriso e se virou para o carrinho de mão. Chase observou-o por um segundo, antes de ir cuidar das próprias tarefas.

Maggie ficou surpresa ao ver com que rapidez se acomodou de novo à rotina da vida na fazenda. Dentro de duas curtas semanas, era como se tivesse estado fora apenas alguns meses, ao invés de 16 anos. Levantava-se com o Sol e já estava com o café na mesa, quando Ty e Chase desciam. Ruth deixara de bom grado as tarefas da cozinha para Maggie, embora ainda ajudasse na limpeza da casa.

Mas era mais do que simplesmente preparar refeições e cuidar da casa, o que fora responsabilidade de Pamela supervisionar quando Maggie estivera casada com Phillip. A terminologia da fazenda e o jargão do Oeste voltaram à sua cabeça, ínserindo-se naturalmente na sua conversa. Depois de duas tardes montando a cavalo, adaptara-se, do modo de cavalgar inglês, ao estilo do Oeste, menos estruturado. Havia breves momentos, quando estava cavalgando, em que chegava a se esquecer que não tinha vivido sempre nesses vastos espaços abertos. Durante os seus passeios, aos poucos começou a notar menos a beleza natural e a prestar mais atenção a assuntos terra-a-terra como a condição do pasto ou das cercas, e a quantidade de água existente. Essas observações ela transmitia distraidamente a Chase durante a refeição, em conversa.

Por três vezes tinha ido até a casa do irmão, sem encontrá-lo. -Essas visitas ela não mencionou a Chase. Era difícil descrever seu relacionamento com Chase. Raramente o via, exceto às refeições. Ele passava as noites no escritório com um sem-fim de papéis que não podiam ficar entregues a seus contadores, já que exigiam sua atenção pessoal. No todo, eram mutuamente civilizados, com breves momentos em que chegavam a relaxar na companhia um do outro, e outros momentos em que sua conversa era afetada e forçada. Os últimos ocorriam quando Maggie não podia fingir que ele não existia e que ela não estava usando sua aliança. Invariavelmente, coincidiam com as épocas em que ansiava ser abraçada e tocada... e os desejos naturais e biológicos do seu corpo não estavam sendo satisfeitos. Não era fácil olhar para ele, então, e não se lembrar de outros dias em que ele cuidara tão completamente dessas necessidades. Para piorar as coisas, Chase era tão danado de atraente naquele jeito rude e curtido de um Calder.

Vendo-o diariamente e observando-o com Ty, estava ficando cada vez mais difícil convocar sua velha antipatia e fazer com que ela viesse com a mesma intensidade feroz de antigamente. Nas noites em que não conseguia dormir, ficava deitada na cama e deliberadamente comparava Chase com Phillip: Phillip com as suas belas maneiras, vestimentas impecáveis e charme distinto, versus Chase, com sua autoridade rude, roupas grosseiras e mundanidade crua. Com Phillip, estivera emocionalmente segura. Com Chase, não estava.

As longas cavalgadas à tarde funcionavam para encher o tempo e para se afastar da influência dos Calders na casa. Jamais admitiu que o que buscava era exercício para ficar bem cansada à noite e pegar no sono. Vestir-se especialmente para o jantar era uma tentativa de manter vivo o elo com o antigo casamento, quando aquilo era o costume, e não um desejo de impressionar o Chase.

Ameaçara chuva o dia inteiro, portanto ela ficara dentro de casa. Sendo assim, Maggie concentrou seus esforços em preparar um jantar especial para aquela noite. Fora procurar Tucker no barracão da cozinha e pedira-lhe que cortasse fatias de costela de primeira de uma das carcaças mantidas no congelador grande para o consumo na fazenda. Todos os pratos que escolheu para acompanhamento eram os favoritos de Phillip: desde a entrada de toranja grelhada até os petit-pois e as cebolinhas num molho leve de creme. Até mesmo o vestido que usava era um que lhe agradava particularmente, um vestido de seda de azul-pavão com desenhos em tom de verde.

No final de um dia de trabalho, Chase sempre tomava banho antes de sentar-se para jantar. Como concessão ao hábito dela de se vestir com elegância para o jantar, ele geralmente punha uma camisa branca, mas aberta no pescoço e com os punhos enrolados para deixar à mostra os pulsos chatos e largos e os antebraços peludos. Ty o copiava.

Foi a mesma coisa naquela noite, quando os dois entraram na sala de jantar. Chase mal olhou para ela, enquanto prestava atenção na mesa, posta com a louça especial, taças de vinho, e os castiçais de prata pesados. Dirigiu-se para a cabeceira, erguendo uma sobrancelha indagadora na sua direção.

Qual é a ocasião especial? perguntou.

Nenhuma insistiu serenamente, depois foi para a cozinha buscar a entrada de toranja.

Maggie tinha plena ciência de que, conquanto Ruth Haskell fosse uma excelente cozinheira, não tinha imaginação. Suas refeições sempre eram variações do mesmo tema: sopa, carne, batatas, legumes e sobremesa. Assim, quando Maggie colocou a meia toranja grelhada diante de Chase, observou o leve alçar surpreso de sua sobrancelha, mas ele não fez comentário sobre a mudança do cardápio. Nem mesmo disse se tinha gostado ou não, o que a deixou vagamente irritada. Nem fez comentários sobre a salada, feita com espinafre fresco que ela colhera da horta de Ruth. O molho era feito de uma receita que Maggie copiara da cozinheira de Phillip. Nenhuma apreciação foi expressa pela variedade que conseguira injetar na dieta deles, ou por suas habilidades culinárias.

A costela tinha saído perfeita: suculenta, malpassada e tenra. Quando serviu a Chase o prato principal, ele o fitou.

Esta carne não está cozida.

Claro que está. As costelas de primeira são para serem servidas malpassadas. Olhou para o filho. Quer passar o molho de rábano silvestre?

Quando Ty começou a estender a mão para a molheira de prata, Chase declarou:

Prefiro a minha carne bem passada. Quer levá-la para a cozinha e terminar de cozinhá-la? A pergunta era uma ordem.

De jeito nenhum! Maggie recusou vivamente, porque tinha-se dado a tanto trabalho para tudo sair perfeito, inclusive a costela.

Dobrando o guardanapo ao lado do prato, Chase afastou a cadeira da mesa, e se levantou. Maggie fitou-o, franzindo a testa. O que está fazendo?

Se você não quer cozinhá-la, cozinho eu replicou, e foi indo para a cozinha, levando seu prato.

Ela ficou olhando para ele, por um instante espantada. Logo a seguir estava de pé, seguindo-o zangada. Entrou na cozinha quando ele estava espetando a costela com um garfo e colocando-a na assadeira para ir ao forno.

Não percebe a trabalheira que tive hoje? A voz dela tremia com o esforço para controlar a cólera. Esforcei-me tanto para que tudo saísse perfeito, e você está estragando tudo!

Devia ter-se lembrado de que gosto da minha carne bem passada.

Gosta? Você não tem absolutamente gosto nenhum! Os seus maxilares estavam cerrados. Ficaria contente com filé e batatas.

Ele apoiava as mãos nos quadris, enquanto a fitava.

Estava com um palpite que tudo isto ia dar em alguma coisa. Se não, por que toda essa exibição de habilidades de gourmet!

Como se você já tivesse provado outra coisa que não bifes estorricados ironizou ela.

Ele estreitou os olhos.

Fique sabendo que já comi toranja grelhada mais gostosa em Dallas, e o molho da salada tinha vinagre demais. A crítica dele fê-la parar de chofre. Não faço objeções à variedade. E não faço objeções ao incomum. Mas, na próxima vez em que quiser exibir-se, não o faça com o nariz no ar, pensando que é a única que conhece o que é bom. E não se esqueça... gosto da minha carne bem passada!

Ela rodopiou para longe dele, sentindo a dor dos comentários, porque eram verdadeiros. Tinha querido provar que ele não entendia nada da boa cozinha. Tinha querido a chance de ser condescendente, dona da verdade. Tinha querido ser melhor do que ele, para que fosse menos digno do interesse dela. Tinha querido que ele fosse o roceiro, enquanto ela era a dama. Mas agora ela era que saía ferida do entrechoque.

Enquanto entrava na sala de jantar, deparou com Ty que saía, carregando o prato com a carne na mão.

Aonde está indo com isso?

O rapaz deu de ombros, pouco à vontade.

Nunca comi costela de primeira bem passada; achei que devia experimentar.

Mas você sempre gostou dela malpassada protestou. Esta parecia a deserção definitiva.

Nunca a comi de outro jeito, portanto como é que vou saber que é o único jeito de que gosto? argumentou ele.

E Maggie sentiu-se impotente para discutir contra isso. Comeu sua carne malpassada sozinha, enquanto o marido e o filho esperavam na cozinha que a sua carne ficasse bem cozida.

 

O capão baio forçava o freio, dançando de banda na sua ansiedade de chegar aos estábulos, mas Maggie manteve o passo num caminhar rápido enquanto entravam no pátio da fazenda. Viu Tucker acenar para ela da porta dos fundos da cozinha e fazer sinal de que queria falar com ela. Foi levando o cavalo que protestava na direção dele, o baio relutante em ser desviado dos estábulos e do cereal que o esperava.

Alo! Freou o cavalo e saltou da sela quando chegou junto de Tucker. Uma cavalgada animada trouxera cor às suas faces e despenteara os cabelos pretos que apareciam por debaixo do chapéu.

Culley mandou recado que queria vê-la às quatro horas junto à porteira leste do pasto norte. Tucker não perdeu tempo dando o recado. Tome as chaves da minha camionete. É a verde. Você está em cima da hora. Pode deixar que cuido do seu cavalo.

Uma rápida olhadela no seu relógio confirmou o que ele dizia, e ela passou-lhe as rédeas do cavalo e pegou as chaves que ele oferecia. O impacto total do recado só a atingiu depois que virara na estrada da fazenda que dava para o norte. Culley tinha pedido para se encontrarem no pasto norte... onde ela e Chase costumavam encontrar-se. Propriedade dos Calders. E Chase o advertira de que não botasse os pés em sua terra.

O pé dela apertou o acelerador e a agulha do velocímetro subiu para 90. Ficou subitamente amedrontada com o risco que o irmão estava correndo, deliberadamente desafiando Chase... como seu pai havia desafiado a advertência do pai dele. Uma nuvem de pó seguia o veículo que corria pela estrada.

Quando se acercou do pasto norte, diminuiu a velocidade ao ver um cavalo e cavaleiro a meio galope por um trecho aberto.

Por um instante, Maggie pensou que o cavaleiro era o irmão, e teve outro momento de medo por vê-lo cavalgando tão abertamente pela terra dos Calders. Então, reconheceu Buck Haskell. Felizmente, ele estava indo na direção oposta à porteira leste. Ela soltou um suspiro de alívio.

Não havia sinal de Culley quando ela chegou ao local combinado para o encontro. Saltou da camioneta e olhou para o relógio. Estava cinco minutos atrasada. Será que ele tinha ido embora, quando ela não aparecera na hora? Esperava que sim.

Postes altos ladeavam as duas extremidades da porteira para marcarem onde ela estava localizada, para que um cavaleiro pudesse enxergar de longe o lugar para onde se dirigir. Maggie subiu até o segundo pau mais alto da cerca para ver se ainda enxergava Culley, e usou o poste alto na extremidade como ponto de apoio.

Um assobio agudo veio do meio das árvores junto ao rio sinuoso. Maggie olhou à sua direita e viu o cavalo e o cavaleiro nas sombras. Culley acenou para ela com o chapéu. Ela jogou uma perna por cima do pau superior da cerca, firmando o pé no mesmo pau do lado oposto. Rapidamente passou também a outra perna e saltou para o chão. Apressou-se a cruzar o espaço aberto e entrar no meio das árvores.

O que está fazendo aqui, Culley? Vi Buck Haskell indo daqui para o sul. Se ele o encontra...

Não se preocupe com ele. Ignorou a preocupação dela. Já se foi há muito tempo, para a fazenda. Ele estava com ar de imprudência, podia ver nos olhos dele. Sabia que você viria.

Você mandou chamar-me. Claro que vim. Tentou acalmar os seus próprios nervos antes de tentar raciocinar com ele e convencê-lo a ir embora antes que fossem descobertos.

Você pode estar casada com Calder, mas sua família ainda é importante para você. Falou as palavras com ferocidade, como se precisasse da reafirmação da lealdade dela.

Você é importante para mim. Exceto pelo Ty, é a única família que tenho.

Agarrou-a pelos ombros de novo, como o havia feito naquela noite na casa, e olhou fundo nos seus olhos.

Por que fica aqui? Por que não vem para casa, que é o seu lugar?

Não posso deixar meu filho. Ty tem apenas quinze anos. Culley, ele precisa de mim.

Mas ele não presta. É um Calder. Deixe-o, Maggie. Deixe-o antes que seja tarde demais. Você tem que sair daqui. Não a quero metida nisso.

Metida no quê? Do que está falando? Maggie franziu o cenho, preocupada com a intensidade da voz do irmão.

Ele sacudiu a cabeça com impaciência, ante a interrupção das perguntas dela.

Você tem que confiar em mim, Maggie. Não fiz a coisa certa quando a mandei para longe daqui antes?

Sim, mas...

Então confie em mim agora insistiu. Sei que Calder se casou com você, mas não se importa com você. Só o fez porque queria o filho. Já tem uma amante na cidade, então o que quer com você? Tentei dizer a Sally que ele a magoaria, mas ela não quis me escutar... como você não quis me escutar há muito tempo. Mas eu tinha razão. Tem que me escutar agora, Maggie. Ele vai magoá-la. Quando tudo isso começar, vai-se virar contra você.

Tudo no irmão era rápido e inquieto, o seu humor mudando de exigências iradas a súplicas mansas num espaço de segundos. Essa flutuação louca alarmou Maggie, embora tentasse não demonstrar.

Estou escutando assegurou-lhe. Mas por que não confia em mim, Culley? Fica me dizendo que vou ficar magoada quando tudo isso começar, mas não quer me contar o que vai acontecer. Por que não confia em mim?

Não lhe posso dizer, não está vendo? Uma veia saltava nitidamente na sua testa enquanto continuava, com insistência: Até você estar definitivamente fora da fazenda dele, não posso arriscar-me a que Calder ache um jeito de fazê-la falar. Você amoleceu vivendo na cidade, Maggie. Está acostumada a ser enrolada em algodão e tratada como uma dama. Esqueceu como se é uma mulher, por essas bandas.

Posso ter-me esquecido de algumas coisas como a promessa de compromisso inerente na palavra de um homem, ou como são fortes as necessidades básicas entre um homem e uma mulher mas não amoleci, Culley.

As linhas duras à volta da boca do homem afrouxaram-se, permitindo um sorriso fugaz.

Talvez não. Mas tem que ir embora desse lugar. Vamos finalmente nos vingar dos Calders por terem enforcado papai. Nós temos um plano.

Nós? Tucker também está metido nisso? Havia surpresa na voz dela, porque acreditava que Tucker tinha deixado tudo isso para trás.

Ele lançou-lhe um olhar vivo, astuto.

Não há como chegar aos Calders pelo lado de fora. Mas, pelo lado de dentro sua barriga está exposta. Desta vez, nós o pegaremos. Mas você tem que ir embora antes que tudo comece a acontecer. Não há muito tempo.

Quando vai começar? perguntou.

Logo - era só o que ele dizia. Você tem que ir embora, Maggie. Quero-a longe, onde esteja segura. Você acha que, porque ele se casou com você tudo vai ficar bem, mas não vai. Nunca ficará até que Calder esteja na sepultura.

Culley... De repente sentiu muito medo... medo por ele e medo por Chase. Contudo, no fundo do seu coração, não podia acreditar que o irmão pretendesse matar Chase. Falara apenas figuradamente. Nem mesmo no seu momento mais alucinado seria capaz de um ato de tal violência. Culley começou de novo, numa voz mais controlada, desviando-se do assunto. vi o Dr. Barlow na cidade, no outro dia. Mentia, porque fora Chase quem falara com ele. Mencionou que estava planejando fazer-lhe uma visita. Apareceu por lá?

Apareceu. Soltou-a. Os ombros de Maggie ardiam onde ele os agarrara com tanta força. Passou por lá na semana passada, disse que eu parecia cansado e com excesso de trabalho, e queria que eu fosse ao consultório para me examinar. Falou que podia me dar uns comprimidos que me fariam descansar melhor à noite.

Pois é insistiu Maggie.

Pensei que você compreenderia. Olhou para ela, com ar sombrio. Não quero descansar até ter acertado as contas com Calder. Caminhou até o cavalo e montou. Não fique lá, Maggie. Não posso tomar conta de você como devia quando você está lá. Girou o cavalo e entrou no meio das árvores, desviando-se de um galho baixo.

Naquela tarde, ela mal teria tempo de se trocar para o jantar antes de Chase chegar em casa. Falaria muito pouco durante a refeição, e comeria menos ainda. Sentia grande vontade de contar a Chase o seu encontro com Culley, de avisá-lo, mas precisava pensar no irmão. Talvez não tivesse falado a sério. Talvez estivesse apenas falando por falar. Externamente, parecia muito calma e quieta, mas por dentro era uma massa de incerteza. Como poderia deter o irmão, quando não sabia o que ele ia fazer, ou até mesmo se ia fazer alguma coisa?

Chase andou até a varanda, sacudindo a poeira da roupa com o chapéu. Uma série de pequenas irritações naquele dia o deixara de péssimo humor. Não que estivesse no melhor dos humores, nesta última semana. Maggie andava silenciosa demais, mal falava com ele.

Dentro da casa ele parou, prestando atenção, mas nenhum som o recebeu. Era cedo. Maggie provavelmente ainda estava andando a cavalo. Gostaria de saber aonde ia nos seus passeios... e quem encontrava... se era o irmão, ou outra pessoa. Parara de mencionar as condições na parte do pasto em que tinha cavalgado, o que o fazia suspeitar de que tinha o pensamento noutra coisa, enquanto estava lá.

As perguntas sem resposta, as suspeitas semiformadas estavam na sua cabeça, martelando-o, até que de dois pensamentos seus, um era sobre ela. Ele lhe dissera desde o começo que era livre, que podia ir e vir como lhe desse na telha. O casamento era uma mera formalidade para assegurar sua posse do Ty, portanto ele não tinha base para exigir uma prestação de contas das atividades dela, quando estava longe dele. A possibilidade de que se estivesse encontrando com outro homem que não o irmão despertava-lhe sentimentos semelhantes ao ciúme.

Tendo alguns telefonemas a dar, entrou no escritório, mas se dirigiu para o bar, ao invés da escrivaninha, e se serviu de uma dose de uísque puro. Engoliu metade de uma vez, dando início a um fogo de encontro que ele esperava que apagasse as brasas ardentes do seu ciúme. Esparramou-se numa poltrona de couro, recostando a cabeça para fitar a lareira de pedra. Acendeu uma cigarrilha comprida e manteve-a entre os lábios. Será que algum dos seus ancestrais suportara casamentos com quartos separados? Se um homem não conseguia conservar a mulher em casa, não era grande coisa como homem. Contudo, ele dera a sua permissão.

Tanta energia tensa jazia dentro dele, sem o alívio, toda a frustração do desejo sem o direito de possuir, porque abrira mão dele. Engoliu o resto da bebida e se pôs de pé com uma tensão animal. Depois de dar um passo na direção do bar, Chase parou. Embebedar-se não era a resposta. Jogou o copo sobre uma mesa e deu meia-volta. Trabalhar. Encher a cabeça com outros pensamentos. Deixar o corpo tão exausto que só tomasse consciência da necessidade física do sono.

Caminhou até a escrivaninha para dar os tais telefonemas e parou de chofre com as mãos nas costas da cadeira giratória. Toda a cor lhe fugira do rosto. Bem no meio do tampo da escrivaninha havia um laço de forca feito de barbante branco. Era uma réplica exata, descendo aos mínimos detalhes das nove voltas que formavam o nó do carrasco. Como chegara ali? Quem o pusera ali? Quem conheceria o significado? Apenas um punhado, e a maioria deles Chase podia deixar de lado. Isso deixava apenas três: Maggie, Culley e Tucker. Maggie era sua mulher, mas não podia ser eliminada da lista. Uma raiva fria tomou conta dele. No passado acreditara que ela era inocente do roubo do gado, mas ela sabia de tudo... até tomara parte numa das incursões.

A porta da frente se fechou, e ele virou a cabeça na direção do som. Ouviu os passos... leves, espaçados. Era Maggie. Escutara o caminhar dela vezes sem conta durante as noites em que ficava trabalhando no escritório. Caminhou até as portas duplas, para abri-las.

Maggie? Seu tom de voz peremptório deteve-a a meio caminho da sala de visitas, balançando o Stetson na mão. Parecia cansada e ruborizada pelo passeio. Quando se virou, ele notou o modo como os seios altos empinavam a frente da blusa de algodão. Quer entrar aqui um minuto? Quero falar com você.

Ela concordou naquela maneira quieta e concisa que o provocava com sua indiferença.

Claro. Dirigiu-se para ele, passando os dedos pela cabeleira que se encrespava quase até os ombros.

Ele esperou até que ela chegasse à porta antes de virar-se para acompanhá-la até a escrivaninha. Com o canto dos olhos viu o primeiro tremor do choque, e virou-se para observar a reação dela. A moça tinha parado, os olhos arregalados fixos na forca em miniatura, enquanto seu rosto ficava mortalmente pálido. Aquela era uma reação que nenhuma atriz poderia fingir. Ela não tinha ideia de que aquilo estava ali, deu-se conta ele, ou estaria melhor preparada. A raiva que restava dentro dele foi dirigida a si mesmo por ter feito isso com ela.

Maggie falou bruscamente, para quebrar o encanto mórbido do laço de forca.

O olhar dela desviou-se para ele, as lágrimas subindo-lhe aos olhos.

Essa é a sua ideia de uma brincadeira cruel? perguntou ela engasgando-se nas palavras amargas.

Precisava saber se você sabia respondeu, dirigindo-se ao bar para servir-lhe um drinque. Ela o seguiu parte do caminho.

Se eu sabia? Apertava os dedos contra o peito, enfatizando as palavras enquanto exigia uma explicação.

É. Aquilo foi deixado sobre a mesa para que eu o encontrasse... não você.

Estendeu para ela o copo com uma dose de uísque. Ela o afastou para o lado com um gesto impaciente.

Não quero. Quer dizer que alguém... Franziu o cenho e não completou a frase.

Sim.

Mas quem poderia... Interrompeu-se de novo.

A lista de possibilidades é muito curta. Chase ficou olhando para o copo ainda na sua mão, depois ergueu os olhos para encontrar os dela. Tem visto seu irmão ultimamente?

Ela se dirigiu para uma janela, ficou olhando para fora e crispando as mãos diante de si.

Tenho, sim.

Lembra-se de alguma coisa que ele tenha dito?

Disse um monte de coisas alucinadas, mas sempre falou em se vingar. Mesmo nas suas cartas, estava sempre falando nisso. Mas nunca fez nada... durante todo esse tempo.

O laço do carrasco é mais do que simples conversa fiada.

Eu sei. Baixou os olhos para as mãos. Ele é meu irmão, Chase. Estou preocupada com ele.

As suas táticas de fazer medo... ou seja lá que nome dê a elas... não vão funcionar. Pode dizer-lhe isso por mim falou, sombriamente.

Ela virou a cabeça para olhar para ele, um certo desespero na sua expressão aparentemente calma.

Não quero que nada aconteça a ele.

As narinas dele se dilataram de raiva contida.

Não liga porra nenhuma para o que me aconteça!

Claro que ligo! As chamas ardentes nos seus olhos o queimaram. Por um minuto, Chase pensou que tinha tocado a antiga Maggie. Porém elas logo foram contidas com um frio controle.

Ligo para qualquer ser humano.

É mesmo? zombou ele, enquanto ela olhava de novo pela janela. Às vezes eu duvido. Percebeu os movimentos das suas mãos e baixou os olhos para vê-la girando a aliança para lá e para cá no dedo. A aliança está frouxa demais? O seu pensamento simbólico era fazê-la mais justa e cortar toda a circulação.

Não. Ela olhou para baixo, como se não tivesse percebido anteriormente o que estava fazendo. Só que estou acostumada com a aliança do meu marido.

Eu sou o seu marido. A boca do homem era uma linha branca e estreita.

Ela ficou imóvel.

É. Era uma afirmação serena. Logo a seguir ergueu a cabeça, tão tranquila e controlada que ele teve vontade de sacudi-la.

Com licença. Preciso tomar banho e trocar de roupa antes de preparar o seu jantar. Afastou-se sem olhar para ele e deixou a sala.

Chase escutou os passos que a levavam para longe dele. Enquanto Maggie subia as escadas, ele engoliu a dose de uísque que tinha servido para ela e agarrou com força o copo vazio. Num assomo de raiva, arremessou-o contra a lareira, onde o objeto se espatifou e caiu no chão enegrecido.

Na manhã seguinte, Maggie estava tirando o pó dos móveis da sala enquanto Ruth passav