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OS TRÊS MOSQUETEIROS Vol. I / Alexandre Dumas
OS TRÊS MOSQUETEIROS Vol. I / Alexandre Dumas

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS TRÊS MOSQUETEIROS

Volume I

 

EM QUE SE ESTABELECE QUE, APESAR DOS SEUS NOMES EM OS E EM IS, OS HERÓIS DA HISTÓRIA QUE VAMOS TER A HONRA DE CONTAR AOS NOSSOS LEITORES NÃO TÊM NADA DE MITOLÓGICO.

Há pouco mais ou menos um ano, procedendo a investigações na Biblioteca Real para a minha história de Luís XIV, encontrei por acaso as Memórias do Sr. d'Artagnan, impressas ‑ como a maior parte das obras da época, em que os autores pretendiam dizer a verdade sem irem dar uma volta mais ou menos longa pela Bastilha ‑ em Amesterdão, na tipografia de Pierre Rouge. O título seduziu‑me, e levei‑as para casa, com licença do Sr. Conservador, evidentemente, e devorei‑as.

Não é minha intenção analisar aqui essa obra curiosa, pelo que me limito a remeter para ela aqueles dos meus leitores que apreciem os quadros de época. Encontrarão aí retratos a lápis feitos por mão de mestre; e embora esses esboços tenham sido, na maior parte dos casos, traçados em portas de caserna e paredes de botequim, nem por isso reconhecerão menos neles, tão parecidas como na história do Sr. Anquetil, as imagens de Luís XIII, de Ana de Áustria, de Richelieu, de Mazarino e da maioria dos cortesãos da época.

Mas, como se sabe, o que impressiona o espírito caprichoso do poeta nem sempre é o que impressiona a massa dos leitores. Ora, embora admirando, como os outros admirarão sem dúvida, os pormenores que assinalámos, o que mais nos preocupou foi uma coisa a que com certeza ninguém antes de nós prestara a mais pequena atenção.

D'Artagnan conta que na sua primeira visita ao Sr. de Tréville, o capitão dos mosqueteiros do rei, encontrou na antecâmara três jovens que serviam no ilustre corpo em que ele solicitava a honra de ser recebido, chamados Athos, Porthos e Aramis.

Confessamos que estes três nomes estranhos nos impressionaram e que nos acudiu imediatamente à ideia que não passavam de pseudónimos com que d'Artagnan ocultara nomes talvez ilustres, se é que os portadores desses nomes de empréstimo os não tinham escolhido pessoalmente no dia em que, por capricho, desgosto ou carência de fortuna, tinham envergado o modesto uniforme de mosqueteiro.

Desde então resolvemos não descansar enquanto não encontrássemos nas obras contemporâneas qualquer vestígio desses nomes extraordinários que tão fortemente tinham despertado a nossa curiosidade.

O único catálogo de livros que lemos para chegar a tal fim encheria por completo um folhetim, o que talvez fosse muito instrutivo, mas era de certeza pouco divertido para os nossos leitores. Limitamo‑nos portanto a dizer‑lhes que no momento em que, desanimados com tantas investigações infrutíferas, Íamos desistir da nossa busca encontrámos finalmente, guiados pelos conselhos do nosso ilustre e sábio amigo Pau‑lin Paris um manuscrito in‑fólio cotado sob o número 4772 ou 4773, já não nos lembramos bem, tendo por título:

«Memórias do Sr. Conde de La Fere respeitantes a alguns dos acontecimentos que se passaram em França cerca do fim do reinado de Luís XIII e princípios do reinado de Luís XIV.»

Calcule‑se como foi grande a nossa alegria quando, ao folhearmos o manuscrito, nossa derradeira esperança, encontrámos na vigésima página o nome de Athos, na vigésima sétima o nome de Porthos e na trigésima primeira o nome de Aramis.

A descoberta de um manuscrito completamente desconhecido numa época em que a ciência histórica atingiu tão alto grau de desenvolvimento pareceu‑nos quase milagrosa. Apressámo‑nos por isso a solicitar autorização para o mandar imprimir, a fim de nos apresentarmos um dia com a bagagem de outrem na Academia de Inscrições e Belas‑Artes, se não chegássemos, coisa muito provável, a entrar na Academia Francesa com a nossa própria bagagem. Tal autorização, devemos dizê‑lo, foi‑nos graciosamente concedida; o que consignamos aqui para dar desmentido público aos mal‑intencionados que pretendem que vivemos sob um governo assaz mediocremente disposto a respeito dos escritores.

Ora, è a primeira parte desse precioso manuscrito que oferecemos hoje aos nossos leitores, depois de lhe restituirmos o título que lhe pertence, com o compromisso de se, como não duvidamos, esta primeira parte obtiver o êxito que merece, publicarmos imediatamente a segunda.

Entretanto, como o padrinho é um segundo pai, convidamos o leitor a responsabilizar‑nos, e não ao conde de La Fere, pelo seu prazer ou pelo seu aborrecimento.

Posto isto, passemos à nossa história.

 

         OS TRÊS PRESENTES DO SR. D'ARTAGNAN PAI

Na primeira segunda‑feira do mês de Abril de 1625 o burgo de Meung, onde nasceu o autor do Romance da Rosa, parecia encontrar‑se em estado de revolução tão completa como se os huguenotes nela tivessem vindo fazer uma segunda Rochelle. Vários burgueses, ao verem correr as mulheres para os lados da rua principal e ouvirem as crianças gritar no limiar das portas, tinham‑se apressado a vestir a couraça e, apoiando a sua coragem um pouco duvidosa num mosquete ou numa partazana, dirigiram‑se para a estalagem do Franc Meunier, diante da qual se comprimia, engrossando de minuto a minuto, um grupo compacto, ruidoso e cheio de curiosidade.

Naqueles tempos os pânicos eram frequentes e passavam‑se poucos dias sem que uma ou outra cidade registasse nos seus arquivos algum acontecimento do género. Havia os fidalgos que guerreavam uns com os outros; havia o rei que fazia guerra ao cardeal, e havia o Espanhol que fazia guerra ao rei. Depois, além dessas guerras surdas ou públicas, secretas ou patentes, havia ainda os ladrões, os mendigos, os huguenotes, os lobos e os lacaios, que faziam guerra a toda a gente. Os burgueses armavam‑se sempre contra os ladrões, contra os lobos e contra os lacaios, muitas vezes contra os fidalgos e os huguenotes e algumas vezes contra o rei, mas nunca contra o cardeal e o Espanhol. Resultou portanto desse hábito adquirido que na supracitada primeira segunda‑feira do mês de Abril de 1625 os burgueses, ouvindo barulho e não vendo nem o pendão amarelo e vermelho, nem a libré do duque de Richelieu, se precipitaram para as bandas da estalagem do Franc Meunier.

Chegados lá, todos puderam ver e identificar a causa daquele rumor.

Um jovem... ‑ tracemos o seu retrato numa penada: imaginai D. Quixote aos dezoito anos, D. Quixote sem corselete, sem cota de malha e sem escarcelas, D. Quixote de gibão de lã cuja cor azul se transformara num tom indefinível de borra de vinho e azul‑celeste. Rosto comprido e moreno; maçãs‑do‑rosto salientes, sinal de astúcia; músculos maxilares enormemente desenvolvidos, indício infalível pelo qual se reconhece o Gascão, mesmo sem boina, e o nosso jovem trazia uma boina ornada com uma espécie de pluma; olhos francos e inteligentes; nariz adunco, mas finamente desenhado: demasiado alto para um adolescente, demasiado pequeno para um homem feito, e que um olhar pouco experiente tomaria por um filho de rendeiro em viagem, sem a sua longa espada que, pendente do boldrié de cabedal, batia nas barrigas das pernas do seu proprietário quando ele estava a pé e no pêlo eriçado da sua montada quando estava a cavalo.

Porque o nosso jovem tinha uma montada, e essa montada era até tão notável que dava nas vistas: era um garrano do Béarn, de doze ou catorze anos, de pelagem amarela, sem crinas na cauda, mas não sem gavarros nas pernas, e que, embora caminhasse com a cabeça mais baixa do que os joelhos, e que tornava inútil a aplicação da gamarra, percorria mesmo assim as suas oito léguas por dia. Infelizmente, as qualidades do cavalo estavam tão bem escondidas debaixo da sua pelagem estranha e do seu aspecto incongruente, que numa época em que toda a gente entendia de cavalos o aparecimento do sobredito garrano em Meung, onde entrara havia pouco mais ou menos um quarto de hora pela Porta de Beaugency, produziu uma sensação cujo descrédito se reflectiu no seu cavaleiro.

E essa sensação fora tanto mais penosa ao jovem d'Artagnan (assim se chamava o D. Quixote dessoutro Rossinante) quanto é certo ter consciência do aspecto ridículo que lhe dava, por melhor cavaleiro que fosse, semelhante montada; por isso suspirara profundamente ao aceitar a dádiva que lhe fizera o Sr. d'Artagnan pai. Não ignorava que semelhante animal valia pelo menos vinte libras, e também era verdade que as palavras com que o presente fora acompanhado não tinham preço.

‑ Meu filho ‑ dissera o fidalgo gascão no puro dialecto do Béarn de que Henrique IV nunca conseguira libertar‑se ‑, meu filho, este cavalo nasceu na casa do vosso pai há cerca de treze anos e nela tem permanecido desde então, o que vos deve levar a amá‑lo. Nunca o vendais; deixai‑o morrer tranquila e respeitavelmente de velhice e se entrardes em campanha com ele tratai‑o como trataríeis um velho servidor. Na corte ‑ continuou o Sr. d'Artagnan pai ‑, se tiverdes a honra de lá entrar, honra a que, de resto, a vossa velha nobreza vos dá direito, sustentai dignamente o vosso nome de gentil‑homem, que foi usado nobremente pelos vossos antepassados durante mais de quinhentos anos. Por vós e pelos vossos (pelos vossos entendo os vossos pais e os vossos amigos) nunca tolereis nada a não ser do Sr. Cardeal e do rei. É pela sua coragem, ouvi bem, apenas pela sua coragem, que um gentil‑homem abre actualmente caminho na vida. Todo aquele que trema um segundo deixa talvez fugir a oportunidade que precisamente durante esse segundo a sorte lhe oferecia. Sois jovem e deveis ser bravo por dois motivos: o primeiro porque sois gascão e o segundo porque sois meu filho. Não receeis lutar e procurai as aventuras. Ensinei‑vos a manejar a espada, tendes jarretes de ferro e punhos de aço; batei‑vos por tudo e por nada; batei‑vos, tanto mais que os duelos estão proibidos e por consequência há duas vezes mais coragem em vos baterdes.

Só tenho para vos dar, meu filho, quinze escudos, o meu cavalo e os conselhos que acabais de ouvir. A vossa mãe juntar‑lhes‑á a receita de certo bálsamo que obteve de uma cigana e que possui uma virtude miraculosa para curar qualquer ferimento que não atinja o coração. Tirai proveito de tudo e vivei feliz e durante muito tempo. Só tenho uma palavra a acrescentar, e é um exemplo que vos ofereço, não o meu, porque o não tenho, nunca frequentei a corte e só participei nas guerras de religião como voluntário; refiro‑me ao Sr. de Tréville, que foi meu vizinho noutros tempos e que teve a honra de brincar em criança com o nosso rei Luís XIII, que Deus guarde! Às vezes, as suas brincadeiras degeneravam em batalha, e nessas batalhas o rei nem sempre era o mais forte. Os golpes que nelas recebeu deram‑lhe muita estima e amizade pelo Sr. de Tréville. Mais tarde, o Sr. de Tréville bateu‑se com outros na sua primeira viagem a Paris, cinco vezes; depois da morte do defunto rei até à maioridade do novo, sem contar as guerras e os cercos, sete vezes; e desde essa maioridade até hoje, talvez cem vezes! Por isso, apesar dos edictos, das ordenanças e das prisões, ei‑lo capitão dos mosqueteiros, isto é, chefe de uma legião de Césares que o rei tem em alta conta e que o Sr. Cardeal teme, ele que não teme muitas coisas, como todos sabemos. Além disso, o Sr. de Tréville ganha dez mil escudos por ano; é portanto um grandíssimo senhor. E começou como vós. Ide visitá‑lo com esta carta, tomai‑o como modelo e procedei como ele.

Depois disto, o Sr. d'Artagnan pai cingiu ao filho a sua própria espada, beijou‑o ternamente em ambas as faces e deu‑lhe a sua bênção.

Quando saiu do quarto paterno, o jovem encontrou a mãe, que o esperava com a famosa receita de que os conselhos que acabamos de referir deviam impor uso bastante frequente. As despedidas foram deste lado mais longas e mais ternas do que haviam sido do outro, não porque o Sr. d'Artagnan não amasse o filho, que era a sua única progenitura, mas sim porque o Sr. d'Artagnan era um homem e consideraria indigno de um homem ceder à emoção, ao passo que a Sr.a d'Artagnan era mulher e além disso mãe. Chorou portanto abundantemente e, digamo‑lo em louvor do Sr. d'Artagnan filho, apesar dos esforços que este fez para se manter firme como competia a um futuro mosqueteiro, a natureza levou a melhor e ele verteu muitas lágrimas, de que com grande custo conseguiu ocultar metade.

O jovem pôs‑se a caminho no mesmo dia, munido dos três presentes paternos e que se compunham, como dissemos, de quinze escudos, do cavalo e da carta para o Sr. de Tréville; como é fácil de calcular, os conselhos tinham sido dados à margem dos presentes.

Com semelhante vade‑mécum, d'Artagnan ficou, tanto moral como fisicamente, uma cópia exacta do herói de Cervantes, com o qual tão felizmente o comparámos quando os nossos deveres de historiador nos colocaram na necessidade de traçar o seu retrato. D. Quixote tomava os moinhos de vento por gigantes e os carneiros por exércitos, d'Artagnan tomou cada sorriso por um insulto e cada olhar por uma provocação. Daí resultou que teve sempre o punho fechado de Tarbes até Meung, e que em média levou a mão à espada dez vezes por dia; todavia, nem punho desceu contra nenhum queixo, nem a espada saiu da bainha. ! só não impediu que a vista do malfadado garrano amarelo provocasse alguns sorrisos no rosto dos transeuntes; mas como por cima do garrano soava uma espada de tamanho respeitável e por cima dessa espada brilhava um olhar mais feroz do que orgulhoso, os transeuntes reprimiam a sua hilaridade, ou se a hilaridade levava a melhor à prudência, procuravam ao menos rir só de um lado, como as máscaras antigas! D'Artagnan manteve‑se por tanto majestoso e intacto na sua susceptibilidade até à malfadada cidade de Meung.

Mas ai, quando desceu do cavalo à porta do Franc Meunier sem que ninguém, estalajadeiro, criado ou moço de estrebaria, viesse segurar‑lhe no estribo, d'Artagnan notou a uma janela entreaberta do rés‑do‑chão um gentil‑homem elegante e de ar distinto, apesar de ligeiramente carrancudo, que conversava com duas pessoas que pareciam escutá‑lo com deferência. D'Artagnan julgou muito naturalmente, conforme era seu hábito, ser o tema da conversa e escutou. Desta vez, d'Artagnan só se enganou metade: não era dele que se falava, mas sim do seu cavalo, O gentil‑homem parecia enumerar aos seus ouvintes todas as qualidades do animal, e como, tal como já disse, os ouvintes pareciam ter grande deferência pelo narrador, desatavam a rir a todo o momento. Ora, como um meio sorriso bastava para despertar a irascibilidade do jovem, adivinha‑se que efeito lhe produziu tão ruidosa hilaridade.

No entanto, d'Artagnan quis primeiro ver bem a fisionomia do impertinente que troçava dele. Cravou pois o olhar orgulhoso no desconhecido e verificou tratar‑se de um homem de quarenta a quarenta e cinco anos, de olhos negros e penetrantes, tez pálida, nariz fortemente acentuado e bigode negro e perfeitamente aparado; envergava gibão e calções cor de violeta com agulhetas da mesma cor, sem nenhum ornamento além dos golpes habituais por onde se via a camisa. Tanto os calções como o gibão, apesar de novos, pareciam amarrotados, como roupas de viagem durante muito tempo fechadas numa mala. D'Artagnan deu‑se conta de tudo isto com a rapidez do observador mais minucioso, e sem dúvida por um sentimento instintivo lhe dizer que o desconhecido teria grande influência na sua vida futura.

Ora, no momento em que d'Artagnan fixava o olhar no gentil‑homem do gibão cor de violeta o mesmo gentil‑homem fazia acerca do garrano bearnês uma das suas mais sábias e profundas demonstrações; os seus dois ouvintes desataram a rir e ele próprio deixou visivelmente contra o seu hábito errar, se assim se pode dizer, um pálido sorriso nos lábios. Desta vez já não havia dúvida: d'Artagnan era realmente insultado. Assim, cheio de tal convicção, enterrou a boina na cabeça até aos olhos e, procurando imitar alguns dos gestos de corte que vira na Gasconha entre fidalgos em viagem, adiantou uma das mãos na guarda da espada e apoiou a outra na anca. Infelizmente, à medida que avançava a cólera cegava‑o cada vez mais e em lugar do discurso digno e altivo que preparara para formular o desafio só encontrou na ponta da língua uma expressão ofensiva que acompanhou com um gesto furioso.

‑ Eh, cavalheiro! ‑ gritou. ‑ Cavalheiro que vos escondeis atrás dessa janela! Sim, vós... Dizei‑me de que vos rides e riremos juntos.

O gentil‑homem afastou lentamente os olhos da montada do cavaleiro, como se precisasse de certo tempo para compreender que era a si que se dirigiam tão estranhas palavras; depois, quando não pôde conservar mais nenhuma dúvida, franziu ligeiramente o sobrolho e após uma pausa bastante longa responde a d'Artagnan com um acento de ironia e insolência impossível de descrever:

‑ Não falo convosco, senhor.

‑ Mas falo eu convosco! ‑ gritou o jovem, exasperado com aquele misto de insolência e boas maneiras, de civilidade e desdém.

O desconhecido olhou‑o ainda um instante com o seu ténue sorriso e, retirando‑se da janela, saiu lentamente da estalagem para vir plantar‑se, a dois passos de d'Artagnan, diante do cavalo. A sua atitude tranquila e a sua fisionomia escarninha tinham redobrado a hilaridade das pessoas com quem conversava e que tinham ficado à janela.

Ao vê‑lo chegar, d'Artagnan tirou a espada um pé fora da bainha.

‑ Este cavalo é decididamente, ou antes foi na sua juventude um botão‑de‑ouro ‑ prosseguiu o desconhecido continuando as investigações começadas e dirigindo‑se aos seus ouvintes da janela, sem parecer notar de modo algum a exasperação de d'Artagnan, que no entanto se erguia entre ele e os outros. ‑ É de uma cor muito conhecida em botânica, mas até agora rarissima em cavalos.

‑ Ri‑se do cavalo quem não ousaria rir‑se do dono! ‑ exclamou o émulo de Tréville, furioso.

‑ Não rio muitas vezes, senhor ‑ redarguiu o desconhecido ‑, como vós próprio podeis ver pela minha cara; no entanto, pretendo conservar o privilégio de rir quando me agradar...

‑ E eu não quero que se riam quando me desagradar! ‑ gritou d'Artagnan.

‑ Deveras, senhor? ‑ continuou o desconhecido, mais calmo do que nunca. ‑ Bom, é perfeitamente justo.

E dando meia volta preparou‑se para entrar na estalagem pela porta principal, debaixo da qual à sua chegada d'Artagnan notara um cavalo selado.

Mas d'Artagnan não era de índole a deixar assim um homem que tivera a insolência de zombar de si. Desembainhou completamente a espada e foi atrás dele gritando:

‑ Virai‑vos, virai‑vos, Sr. Brincalhão, que não quero ferir‑vos pelas

costas!

‑ Ferir‑me, a mim?... ‑ disse o outro, girando nos calcanhares e fitando o jovem com tanto espanto como desprezo. ‑ Então, então, meu caro, estais louco!

Depois, a meia voz e como se falasse consigo mesmo: ‑ É pena... Que achado para Sua Majestade, que procura bravos por todos os lados para os seus mosqueteiros!

Ainda mal acabara de proferir estas palavras quando d'Artagnan lhe vibrou tão furiosa estocada que se não tivesse dado rapidamente um salto para trás é provável que gracejasse pela última vez. O desconhecido convenceu‑se então de que a coisa ia além da brincadeira, desembainhou a espada, cumprimentou o seu adversário e pôs‑se gravemente em guarda, mas no mesmo instante os seus dois ouvintes, acompanhados do estalajadeiro, caíram sobre d'Artagnan e desancaram‑no com paus, pás e tenazes. Isto constituiu uma diversão tão rápida e completa ao ataque que o adversário de d'Artagnan, enquanto este se virava para enfrentar aquela saraivada de pancadas, reembainhava com a mesma precisão e, de actor que acabara por não ser, se transformava em espectador do combate, papel de que se desempenhou com a sua impassibilidade habitual, embora resmungando:

‑ Malditos Gascões! Montai‑o no seu cavalo cor de laranja e que desapareça!

‑ Mas não antes de te matar, cobarde! ‑ gritava d'Artagnan, defendendo‑se o melhor que podia e sem recuar um passo dos seus três inimigos, que continuavam a desancá‑lo.

‑ Mais uma fanfarronada ‑ murmurou o gentil‑homem. ‑ Palavra de honra, estes Gascões são incorrigíveis! Continuai portanto a dança, já que ele assim quer absolutamente. Quando estiver farto que diga «basta!»

Mas o desconhecido ainda não sabia com que espécie de casmurro estava metido; d'Artagnan não era homem para alguma vez pedir mercê. O combate continuou pois durante mais alguns segundos. Por fim, d'Artagnan, exausto, deixou cair a espada, que uma paulada quebrou em duas. Outra paulada na testa derrubou‑o quase ao mesmo tempo, a sangrar e quase sem sentidos.

Neste momento acorreu gente de todos os lados ao local da cena. O estalajadeiro, com receio do escândalo, transportou com a ajuda dos criados o ferido para a cozinha, onde lhe prestaram alguns cuidados.

Quanto ao gentil‑homem, reocupara o seu lugar à janela e olhava com certa impaciência toda aquela gente, que parecia com a sua presença causar‑lhe viva contrariedade.

‑ Então, como está esse louco furioso? ‑ perguntou virando‑se ao ouvir abrir‑se a porta, dirigindo‑se ao estalajadeiro que vinha informar‑se da sua saúde.

‑ Vossa Excelência está são e salvo? ‑ perguntou o estalajadeiro.

‑ Estou, perfeitamente são e salvo, meu caro estalajadeiro, e sou eu quem vos pergunta que aconteceu ao nosso jovem.

‑ Está melhor ‑ respondeu o estalajadeiro. ‑ Perdeu por completo os sentidos.

‑ Deveras? ‑ disse o gentil‑homem.

- Mas antes de perder os sentidos reuniu todas as suas forças para vos chamar e desafiar.

‑ Mas é o Diabo em pessoa, esse rapazola! ‑ exclamou o desconhecido.

‑ Oh, não, Excelência, não é o Diabo! ‑ redarguiu o estalajadeiro com uma careta de desprezo. ‑ Durante o seu desmaio revistámo‑lo e só trazia na trouxa uma camisa e na bolsa doze escudos, o que não o impediu de dizer ao perder os sentidos que se semelhante coisa tivesse acontecido em Paris vos arrependeríeis imediatamente, ao passo que aqui só vos arrependereis mais tarde.

‑ Nesse caso, é algum príncipe de sangue disfarçado ‑ observou friamente o desconhecido.

‑ Digo‑vos isto, meu fidalgo, para que vos acauteleis ‑ acrescentou o estalajadeiro.

‑ E não citou ninguém na sua cólera?

‑ Efectivamente, batia na algibeira e dizia: «Veremos o que o Sr. de Tréville pensará deste insulto feito ao seu protegido.»

‑ O Sr. de Trévile? ‑ repetiu o desconhecido, mais atento. ‑ Batia na algibeira e pronunciava o nome do Sr. de Tréville?... Vejamos, meu caro estalajadeiro, enquanto o vosso jovem estava desmaiado não deixastes, estou certo, de revistar também essa algibeira. Que encontrastes?

‑ Uma carta dirigida ao Sr. de Tréville, capitão dos mosqueteiros. ‑Sim?...

‑ É como tenho a honra de vos dizer, Excelência.

O estalajadeiro, que não era dotado de grande perspicácia, não notou a expressão que as suas palavras tinham dado à fisionomia do desconhecido. Este deixou o rebordo da janela em que até ali apoiara o cotovelo e franziu o sobrolho como um homem inquieto.

‑ Diabo! ‑ murmurou entre dentes. ‑ Ter‑me‑á Tréville mandado o gascão? É tão novo! Mas uma estocada é uma estocada, seja qual for a idade daquele que a dê, e desconfia‑se menos de um garoto do que de qualquer outro. Às vezes basta um pequeno obstáculo para contrariar um grande desígnio.

E o desconhecido ficou pensativo durante alguns minutos.

‑ Vejamos, estalajadeiro, não sois capaz de me desembaraçar desse exaltado? Em consciência não o posso matar, e no entanto ‑ acrescentou com expressão friamente ameaçadora ‑, e no entanto incomoda‑me. Onde está ele?

‑ No quarto da minha mulher, onde o tratam, no primeiro andar.

‑ Os seus andrajos e a sua trouxa estão com ele? Não despiu o gibão?

‑ Pelo contrário, tudo isso está cá em baixo, na cozinha. Mas se esse jovem louco vos incomoda...

‑ Sem dúvida. E causa na vossa estalagem um escândalo que as pessoas honestas não suportariam. Subi aos vossos aposentos, tiraM minha conta e avisai o meu lacaio.

‑ O quê, já nos deixais, senhor?!

‑ Bem o sabíeis, pois ordenei‑vos que mandásseis selar o meu cavalo. Não me obedeceram?

‑ Claro que sim, e como Vossa Excelência pode ver o seu cavalo está debaixo da porta principal todo aparelhado para partir.

‑ Muito bem. Fazei então o que vos disse.

«Olá, terá medo do rapazinho?...», disse o estalajadeiro para consigo.

Mas um olhar imperioso do desconhecido interrompeu‑lhe o pensamento. Cumprimentou humildemente e saiu.

«Não convém que Milady seja vista por este patusco, e ela não deve tardar aí; até já está atrasada. Decididamente, é melhor montar a cavalo e ir ao seu encontro... Se ao menos pudesse saber o que diz a carta endereçada a Tréville!», pensou o forasteiro.

E sempre resmungando dirigiu‑se para a cozinha.

Entretanto o estalajadeiro, que não duvidava ser a presença do jovem a causa da precipitada saída do desconhecido da estalagem, subiu ao quarto da mulher e encontrara d'Artagnan já refeito do seu desmaio. Então, fazendo‑lhe compreender que a Polícia poderia prendê‑lo por se ter metido com um grande senhor ‑ porque, na opinião do estalajadeiro, o desconhecido só podia ser um grande senhor ‑, ordenou‑lhe, apesar da sua fraqueza, que se levantasse e continuasse o seu caminho! Meio atordoado, sem gibão, e com a cabeça toda ligada, d'Artagnan levantou‑se e, ajudado pelo estalajadeiro, começou a descer. Mas ao chegar à cozinha a primeira coisa que viu foi o seu provocador, que conversava tranquilamente junto ao estribo de um pesado coche atrelado a dois enormes cavalos normandos.

A sua interlocutora, cuja cabeça aparecia enquadrada pela portinhola, era uma mulher de vinte a vinte e dois anos. Já dissemos com que rapidez d'Artagnan examinava totalmente uma fisionomia; viu portanto ao primeiro relance de olhos que a mulher era jovem e bela. Ora tal beleza impressionou‑o tanto mais quanto é certo ser completamente desconhecida nas regiões meridionais em que d'Artagnan vivera até ali. Tratava‑se de uma mulher branca e loura, de comprido cabelo encaracolado caído sobre os ombros, grandes olhos azuis, lânguidos, lábios rosados e mãos de alabastro. Conversava muito vivamente com o desconhecido.

‑ Assim, Sua Excelência ordena‑me... ‑ dizia a dama.

‑ Que regresseis imediatamente a Inglaterra e que o previnais directamente se o duque sair de Londres.

‑ E quanto às minhas outras instruções? ‑ perguntou a bela viajante.

‑ Estão encerradas nesta caixa que só abrireis do outro lado da Mancha.

‑ Muito bem. E vós, que fazeis?

‑ Eu regresso a Paris.

‑ Sem castigardes esse insolente rapazinho? ‑ perguntou a dama. O desconhecido ia responder; mas no momento em que abria a boca,

d'Artagnan, que tudo ouvira, correu para a porta.

‑ Este insolente rapazinho é que castiga os outros e espero que desta vez aquele que deve castigar não lhe fuja como da primeira! ‑ gritou.

‑ Não lhe fuja?... ‑ repetiu o desconhecido franzindo o sobrolho.

‑ Não, presumo que diante de uma mulher não ousareis fugir.

‑ Lembrai‑vos ‑ gritou Milady vendo o gentil‑homem levar a mão à espada ‑, lembrai‑vos de que o mais pequeno atraso pode deitar tudo a perder!

‑ Tendes razão ‑ reconheceu o gentil‑homem. ‑ Segui portanto a vossa viagem que eu seguirei a minha.

E saudando a dama com uma inclinação de cabeça saltou para o cavalo, enquanto o cocheiro do coche fustigava vigorosamente a sua parelha. Os dois interlocutores partiram a galope e afastaram‑se cada um por seu lado da rua.

‑ Eh, a vossa conta! ‑ berrou o estalajadeiro, cuja deferência para com o cliente se transformava em profundo desprezo ao vê‑lo afastar‑se sem pagar o que devia.

‑ Paga, velhaco! ‑ gritou o viajante, sempre galopando, ao seu lacaio, o qual lançou aos pés do estalajadeiro duas ou três moedas de prata e desatou a galopar atrás do amo.

‑ Ah, cobarde! Ah, miserável! Ah, falso gentil‑homem! ‑ gritou d'Artagnan, correndo por sua vez atrás do lacaio.

Mas o ferido estava ainda demasiado fraco para poder suportar semelhante esforço. Mal deu dez passos, os ouvidos zumbiram‑lhe, a vista faltou‑lhe, uma nuvem de sangue passou‑lhe pelos olhos e ele caiu no meio da rua, ainda a gritar:

‑ Cobarde! Cobarde! Cobarde!

‑ É de facto muito cobarde ‑ murmurou o estalajadeiro aproximando‑se de d'Artagnan e procurando com tal lisonja reconciliar‑se com o pobre rapaz, como o herói da fábula com o seu caracol da noite.

‑ Sim, muito cobarde ‑ murmurou d'Artagnan. ‑ Mas ela é muito bonita!

‑ Ela, quem? ‑ perguntou o estalajadeiro.

‑ Milady ‑ balbuciou d'Artagnan. E desmaiou segunda vez.

‑ Paciência ‑ disse o estalajadeiro ‑, perdi dois hóspedes, mas resta‑me este, que estou certo de conservar pelo menos uns dias. E sempre ganharei onze escudos.

Como sabemos, onze escudos eram exactamente a importância que restava na bolsa de d'Artagnan.

O estalajadeiro contara com onze dias de doença a um escudo por dia, mas não contara com o seu hóspede.

No dia seguinte, às 5 horas da manhã, d'Artagnan levantou‑se, desceu pessoalmente à cozinha, pediu além doutros ingredientes cuja lista não chegou até nós, vinho, azeite, alecrim e, com a receita da mãe na mão, compôs um bálsamo com que untou os seus numerosos ferimentos, substituiu ele próprio as suas compressas e recusou os socorros de qualquer médico. Graças sem dúvida à eficácia do bálsamo da cigana, e talvez também à ausência de qualquer médico, d'Artagnan encontrou‑se livre de perigo nessa mesma noite e quase curado no dia seguinte.

Mas na altura de pagar o alecrim, o azeite e o vinho, sua única despesa pessoal, visto ter mantido uma dieta absoluta, ao passo que pelo contrário o cavalo amarelo, pelo menos no dizer do estalajadeiro, comera três vezes mais do que seria razoável supor‑se pelo seu tamanho, d'Artagnan encontrou na algibeira apenas a sua bolsinha de veludo puído e os onze escudos que ela continha. Quanto à carta dirigida ao Sr. de Tréville, desaparecera.

O jovem começou por procurar a carta com grande paciência, virando e revirando vinte vezes as algibeiras, revistando e tornando a revistar o saco, abrindo e fechando a bolsa; mas quando se convenceu de que a carta desaparecera mesmo, teve terceiro acesso de raiva que quase lhe ocasionou novo consumo de vinho e azeite aromatizados. Porque, ao ver aquela jovem má cabeça encolerizar‑se e ameaçar partir tudo no estabelecimento se a sua carta não aparecesse, o estalajadeiro pegara num chuço, a mulher num cabo de vassoura e os criados nos mesmos paus que tinham servido na antevéspera.

‑ A minha carta de recomendação! ‑ gritava d'Artagnan. ‑ A minha carta de recomendação, com mil demónios, ou espeto‑os a todos como se fossem pardais!

Infelizmente, uma circunstância opunha‑se a que o jovem cumprisse a sua ameaça: é que, como dissemos, a sua espada fora, na primeira luta, quebrada em dois bocados, o que ele esquecera por completo. E daí resultou que quando d'Artagnan a quis efectivamente desembainhar se encontrou pura e simplesmente armado com um pedaço de espada de cerca de oito ou dez polegadas, que o estalajadeiro lhe metera cuidadosamente na bainha. Quanto ao resto da lâmina, o cozinheiro surripiara‑o habilmente para fazer dele uma lardeadeira.

Semelhante decepção não teria no entanto detido provavelmente o nosso fogoso jovem se o estalajadeiro não tivesse reflectido que a reclamação que lhe dirigia o seu hóspede era perfeitamente justa.

‑ De facto, onde está a carta? ‑ disse, baixando o chuço.

‑ Sim, onde está a carta? ‑ gritou d'Artagnan. ‑ Antes de mais nada, previno‑vos de que a carta se destina ao Sr. de Tréville, e tem de aparecer; porque se não aparecer ele saberá mandá‑la procurar!

Esta ameaça acabou de intimidar o estalajadeiro. Depois do rei e do Sr. Cardeal, o Sr. de Tréville era o homem cujo nome talvez fosse mais vezes repetido pelos militares e até pelos burgueses. Havia também o padre Joseph, é verdade; mas o seu nome era sempre pronunciado baixinho, tal era o terror que inspirava a eminência parda, como chamavam ao familiar do cardeal.

Por isso, atirando o chuço para longe e ordenando à mulher que fizesse o mesmo ao cabo de vassoura e aos criados que procedessem de igual modo com os paus, foi o primeiro a dar o exemplo pondo‑se a procurar pessoalmente a carta perdida.

‑ A carta continha alguma coisa valiosa? ‑ perguntou o estalajadeiro ao cabo de um instante de investigações inúteis.

‑ É claro que continha! ‑ gritou o gascão, que contava com a carta para abrir caminho na corte. ‑ Continha a minha fortuna.

‑ Em títulos do Tesouro? ‑ perguntou o estalajadeiro, inquieto.

‑ Em títulos sobre a tesouraria particular de Sua Majestade ‑ respondeu d'Artagnan, o qual, contando entrar ao serviço do rei graças àquela recomendação, julgava poder dar sem mentir esta resposta um tanto arriscada.

‑ Demónio! ‑ exclamou o estalajadeiro, completamente desesperado.

‑ Mas isso não interessa ‑ continuou d'Artagnan, com o descaramento nacional. ‑ Isto não interessa, porque o dinheiro não é nada; essa carta é que era tudo. Preferiria ficar sem mil pistolas a perdê‑la.

Não se arriscaria mais se dissesse vinte mil, mas certo pudor juvenil conteve‑o.

Um raio de luz feriu de súbito o espírito do estalajadeiro, que se amaldiçoava por não encontrar nada.

‑ A carta não foi perdida! ‑ exclamou.

‑ Como?... ‑ saltou d'Artagnan.

‑ Não, foi‑vos roubada.

‑ Roubada! E por quem?

‑ Pelo fidalgo de ontem. Desceu à cozinha, onde estava o vosso gibão, e ficou lá sozinho. Apostava que foi ele quem a roubou.

‑ Achais que sim? ‑ respondeu d'Artagnan, pouco convencido, pois conhecia melhor do que ninguém a importância absolutamente pessoal da carta e não via nela nada que pudesse tentar a cupidez.

De facto, nenhum dos criados, nenhum dos viajantes presentes ganharia nada em possuir aquele papel.

‑ Dizeis então que desconfiais desse impertinente gentil‑homem... ‑ prosseguiu d'Artagnan.

‑ Digo‑vos que tenho a certeza de que foi ele ‑ respondeu o estalajadeiro. ‑ Quando lhe anunciei que Vossa Senhoria era protegido do Sr. de Tréville e que até tínheis uma carta para esse ilustre fidalgo, pareceu muito inquieto, perguntou‑me onde estava essa carta e desceu imediatamente à cozinha, onde sabia estar o vosso gibão.

‑ Então é ele o ladrão ‑ concluiu d'Artagnan. ‑ Queixar‑me‑ei ao Sr. de Tréville e o Sr. de Tréville queixar‑se‑á ao rei.

Depois, tirou majestosamente dois escudos da algibeira, deu‑os ao estalajadeiro, que o acompanhou de chapéu na mão até à porta, e voltou a montar o cavalo amarelo que o conduziu sem outro acidente à Porta Santo António, em Paris, onde o seu proprietário o vendeu por três escudos, o que foi muito bem pago, atendendo a que d'Artagnan lhe pregara uma grande estafa durante a última etapa. Por isso o alquilador a quem d'Artagnan o cedeu mediante as sobreditas nove libras não ocultou ao jovem que só lhe dava aquela soma exorbitante por ele devido à originalidade da sua cor.

D'Artagnan entrou portanto em Paris a pé, com a sua pequena trouxa debaixo do braço, e caminhou até encontrar para alugar um quarto de acordo com a exiguidade dos seus recursos. Esse quarto foi uma espécie de mansarda na Rua dos Fossoyeurs, perto do Luxemburgo.

Logo que pagou ao porteiro, d'Artagnan tomou posse do seu alojamento e passou o resto do dia a coser no gibão e nos calções passamanarias que a mãe tirara de um gibão quase novo do Sr. d'Artagnan pai e lhe dera às escondidas. Depois foi ao Cais da Ferraille mandar pôr uma lâmina na espada, e em seguida ao Louvre informar‑se junto do primeiro mosqueteiro que encontrou donde ficava o palácio do Sr. de Tréville, o qual morava na Rua Vieux‑Colombier, ou seja, precisamente nas imediações do quarto alugado por d'Artagnan, circunstância que lhe pareceu de bom augúrio para o êxito da sua viagem.

Seguidamente, satisfeito com a forma como se comportara em Meung, sem remorsos no passado, confiante no presente e cheio de esperança no futuro, deitou‑se e adormeceu de consciência tranquila.

O sono, ainda provinciano, durou até às 9 horas da manhã, hora a que se levantou para se dirigir ao palácio do famoso Sr. de Tréville, a terceira personagem do reino na opinião paterna.

 

         A ANTECÂMARA DO SR. DE TRÉVILLE

O Sr. de Troisvilles, como se chamava ainda a sua família na Gasconha, ou Sr. de Tréville, como acabara por se chamar a si mesmo em Paris, tinha realmente começado como d'Artagnan, isto é, sem um soldo na algibeira, mas com esse capital de audácia, de engenho e de inteligência que permite que o mais pobre fidalgote gascão receba muitas vezes mais em esperanças da herança paterna do que o mais rico gentil‑homem perigordino ou berrichão recebe na realidade. A sua bravura insolente e a sua sorte ainda mais insolente numa época em que os lances choviam como granizo, tinham‑no alçado ao cimo dessa escada difícil que se chama o favor da corte e cujos degraus escalara quatro a quatro.

Era amigo do rei, o qual honrava muito, como todos sabem, a memória de seu pai Henrique IV. O pai do Sr. de Tréville servira‑o tão fielmente nas guerras contra a Liga que à falta de metal sonante ‑ coisa que toda a vida faltou ao bearnês, o qual pagou constantemente as suas dívidas com a única coisa que nunca necessitou de pedir emprestada, ou seja, com espírito ‑, que à falta de metal sonante, dizíamos, o autorizara, depois da rendição de Paris, a tomar como armas um leão de ouro segurando na boca esta divisa: Fidelis et fortis. Era muito como honra, mas pouco adiantava ao bem‑estar. Por isso, quando o ilustre companheiro do grande Henrique morreu deixou como única herança ao senhor seu filho a sua espada e a sua divisa. Graças a esta dupla doação e ao nome sem mácula que a acompanhava o Sr. de Tréville foi admitido na casa do jovem príncipe, onde serviu tão bem com a espada e foi tão fiel à sua divisa que Luís XIII, uma das boas lâminas do reino, costumava dizer que se tivesse um amigo que se batesse o aconselharia a tomar como segundo primeiro ele e depois Tréville, e até talvez este antes dele.

Por isso, Luís XIII dedicava sincera afeição a Tréville, embora afeição real seja afeição egoísta, é certo, mas nem por tal motivo menos afeição. É que naqueles tempos calamitosos não faltava quem procurasse rodear‑se de homens da têmpera de Tréville. Muitos poderiam tomar por divisa o epíteto de forte, que constituía a segunda parte do seu exergo, mas poucos gentis‑homens poderiam reclamar o epíteto de fiel, que constituía a primeira. Tréville era um destes últimos, uma dessas raras pessoas dotadas de inteligência obediente como a do cão, de coragem cega, de golpe de vista rápido e de mão pronta, a quem os olhos tinham sido dados apenas para ver se o rei estava descontente com alguém e a mão para castigar esse alguém, fosse um Besme, um Maure‑vers, um Poltrot de Méré, um Vitry. Enfim, a Tréville só faltara até ali a oportunidade; mas espreitava‑a e prometia a si mesmo agarrá‑la bem pelos cabelos se alguma vez passasse ao alcance da sua mão. Por isso, Luís XIII fez de Tréville o capitão dos seus mosqueteiros, os quais eram para Luís XIII, pela sua dedicação ou antes pelo seu fanatismo, o que eram para Henrique III os seus ordinários e a guarda escocesa para Luís XI.

Pela sua parte, e a tal respeito, o cardeal não estava menos bem servido do que o rei. Quando vira o formidável escol de que Luís XIII se rodeava, esse segundo, ou antes esse primeiro rei de França também quisera ter a sua guarda. Teve portanto os seus mosqueteiros, tal como Luís XIII tinha os seus, e viam‑se essas duas potências rivais seleccionar para o seu serviço, em todas as províncias de França e até em todos os Estados estrangeiros, os homens célebres pelas grandes estocadas. Por isso, Richelieu e Luís XIII discutiam muitas vezes, enquanto à noite jogavam a sua partida de xadrez, acerca do mérito dos seus servidores. Ambos gabavam o porte e a coragem dos seus, e embora se pronunciassem em voz alta contra os duelos e as rixas incitavam‑nos em voz baixa a baterem‑se e experimentavam autêntico desgosto ou alegria imoderada com a derrota ou a vitória dos seus. Assim, pelo menos, o dizem as Memórias de um homem que esteve nalgumas dessas derrotas e em muitas dessas vitórias.

Tréville descobrira o ponto fraco do seu senhor e era a essa sagacidade que devia o longo e constante favor de um rei que não deixou fama de ter sido muito fiel aos amigos. Fazia desfilar os seus mosqueteiros diante do cardeal Armand Duplessis, com um ar velhaco que eriçava de cólera o bigode grisalho de Sua Eminência. Tréville entendia admiravelmente bem a guerra da época, em que, quando se não vivia à custa do inimigo, se vivia à custa dos compatriotas. Os seus soldados formavam uma legião de diabos a quatro, indisciplinada para qualquer outro menos para ele.

Desleixados, bêbedos e barulhentos, os mosqueteiros do rei, ou antes do Sr. de Tréville, frequentavam os botequins, os passeios e os divertimentos públicos, gritando a plenos pulmões e retorcendo os bigodes, fazendo tinir as espadas e deleitando‑se a provocar os guardas do Sr. Cardeal quando os encontravam. Depois, desembainhavam as espadas em plena rua, sempre gracejando; às vezes morriam, mas nesse caso tinham a certeza de ser chorados e vingados; quase sempre matavam, e quando isso acontecia também estavam certos de não apodrecer na prisão, pois lá estava o Sr. de Tréville para os reclamar. Por isso, o Sr. de Tréville era louvado em todos os tons, cantado em todas as gamas por aqueles homens que o adoravam e que, apesar de capazes de tudo, tremiam diante dele como escolares diante do professor, lhe obedeciam à mais pequena palavra e estavam prontos a deixar‑se matar para se reabilitarem da mais pequena censura.

O Sr. de Tréville utilizara tão poderosa alavanca primeiro em proveito do rei e dos seus amigos e depois em seu próprio proveito e dos seus amigos. Mesmo assim, em nenhuma das Memórias desse tempo, que deixou tantas Memórias, se vê que o digno gentil‑homem tenha sido acusado, mesmo pelos seus inimigos ‑ e tinha‑os tanto entre os escritores como os nobres ‑, em parte alguma se vê, dizíamos, que o digno gentil‑homem tenha sido acusado de tirar proveito dos préstimos dos seus comandados. Apesar de dotado de raro pendor para a intriga, o que o colocava em pé de igualdade com os mais fortes intriguistas, conservara‑se um homem honesto. Mais ainda, a despeito das grandes estocadas que derrancam e dos exercícios penosos que fatigam, tornara‑se um dos mais galantes frequentadores de vielas, um dos mais finos peralvilhos e um dos mais alambicados declamadores de Febo da sua época. Falava‑se das aventuras galantes de Tréville como se falara vinte anos antes das de Bassompierre, e já não era pouco.

O capitão dos mosqueteiros era pois admirado, temido e amado, o que constitui o apogeu das aventuras humanas.

Luís XIV absorveu todos os pequenos astros da sua corte na sua vasta irradiação; mas seu pai, sol pluribus impar, deixou o seu esplendor pessoal a cada um dos seus cortesãos. Além do levantar do rei e do cardeal, havia então em Paris mais de duzentos pequenos levantares um pouco pretensiosos. Entre esses duzentos pequenos levantares o de Tréville era um dos mais concorridos.

O pátio do seu palácio, situado na Rua de Vieux‑Colombier, parecia um acampamento a partir das 6 horas da manhã no Verão e das 8 horas no Inverno. Cinquenta a sessenta mosqueteiros, que pareciam revezar‑se para apresentarem um número sempre impressionante, andavam constantemente de um lado para o outro, armados como se fossem para a guerra e prontos para tudo. Ao longo de uma das suas grandes escadarias, que ocupava um espaço em que a nossa civilização ergueria um edifício completo, subiam e desciam os solicitantes de Paris candidatos a qualquer mercê, os fidalgos da província ansiosos por se alistarem e os lacaios agaloados de todas as cores que vinham trazer ao Sr. de Tréville os recados dos amos. Na antecâmara, sentados em grandes bancos circulares, descansavam os eleitos, isto é, os que eram convocados. Ouvia‑se ali, de manhã à noite, um zumbido de vozes, enquanto o Sr. de Tréville, no gabinete contíguo à antecâmara, recebia os visitantes, ouvia queixas, dava ordens, e como o rei à varanda do Louvre bastava‑lhe chegar‑se à janela para passar em revista homens e armas.

No dia em que d'Artagnan se apresentou a assembleia era imponente, sobretudo para um provinciano acabado de chegar da sua província. É certo que esse provinciano era gascão e que sobretudo naquela época os compatriotas de d'Artagnan tinham fama de não se intimidarem facilmente. Com efeito, logo que se transpunha a porta maciça, cravejada de grandes pregos de cabeça quadrangular, caía‑se no meio de uma turba de militares que se cruzavam no pátio, se interpelavam, discutiam e gracejavam uns com os outros. Para se conseguir abrir caminho por entre todas aquelas vagas turbilhonantes era necessário ser‑se oficial, grande senhor ou mulher bonita.

Foi pois no meio de tal barafunda que o nosso jovem avançou com o coração palpitante, segurando o comprido espadalhão ao longo das pernas magras e com uma das mãos na aba do chapéu, como meio sorriso do provinciano embaraçado que quer fazer boa figura. Ultrapassara um grupo e respirava mais livremente; mas adivinhou que se viravam para o observar e pela primeira vez na vida d'Artagnan, que até àquele dia tivera menos má opinião a seu respeito, se achou ridículo.

Chegado à escadaria foi pior ainda: havia nos primeiros degraus quatro mosqueteiros que se divertiam com o seguinte exercício, enquanto dez ou doze dos seus camaradas esperavam no patamar que chegasse a sua vez de participarem na paródia: um deles, colocado no degrau superior, de espada nua na mão, impedia, ou pelo menos esforçava‑se por impedir, os outros três de subir. Esses três esgrimiam contra ele com as suas espadas muito ágeis. De início, d'Artagnan tomou as armas por floretes de esgrima e julgou‑as de ponta em forma de botão; mas não tardou a verificar por certos arranhões que todas as armas estavam, pelo contrário, bem afiadas e aguçadas e que a cada arranhão não só os espectadores, mas também os actores, riam como loucos.

O que ocupava o degrau naquele momento mantinha maravilhosamente os seus adversários em respeito. Rodeava‑os um círculo de curiosos. A condição estabelecida era a cada toque o tocado deixar a partida e perder a sua vez na audiência em proveito do tocador. Em cinco minutos foram aflorados três, um no pulso, outro no queixo e outro numa orelha, pelo defensor do degrau, sem ele próprio ser atingido, resultado que lhe valeu, de acordo com o estabelecido, avançar três lugares.

Não tanto pela sua dificuldade como pela sua espectacularidade, este passatempo surpreendeu o nosso jovem viajante; vira na sua província, numa terra onde no entanto se esquentavam tão rapidamente as cabeças, um pouco mais de preliminares nos duelos, e a fanfarronada dos quatro espadachins pareceu‑lhe mais forte do que todas as que tinham chegado ao seu conhecimento até ali, mesmo na Gasconha. Julgou‑se transportado ao famoso país dos gigantes aonde Gulliver foi mais tarde e teve tanto medo; e no entanto ainda não vira tudo: faltavam o patamar e a antecâmara.

No patamar não se lutava, contavam‑se histórias de mulheres, e na antecâmara histórias da corte. No patamar, d'Artagnan corou; na antecâmara tremeu. A sua imaginação viva e vagabunda, que na Gasconha o tornava temido das jovens criadas de quarto e até por vezes das suas jovens amas, nunca sonhara, mesmo nos momentos de delírio, com metade daquelas maravilhas amorosas, nem com um quarto daquelas façanhas galantes, realçadas com os nomes mais conhecidos e os pormenores menos velados. Mas se o seu amor aos bons costumes ficou ofendido no patamar, o seu respeito pelo cardeal ficou escandalizado na antecâmara. Aí, com grande espanto seu, d'Artagnan ouviu criticar alto e bom som a política que fazia tremer a Europa e a vida privada do cardeal, o que valera a tantos altos e poderosos senhores serem castigados por terem tentado aprofundá‑la: o grande homem, reverenciado pelo Sr. d'Artagnan pai, servia de escárnio aos mosqueteiros do Sr. de Tréville, que ridicularizavam as suas pernas tortas e o seu dorso curvado; alguns cantavam loas acerca da Sr.a d'Aiguillon, sua amante, e da Sr.a de Cambalet, sua sobrinha, enquanto outros liam partes contra os pajens e os guardas do cardeal‑duque, tudo coisas que pareciam a d'Artagnan monstruosas impossibilidades.

Contudo, quando o nome do rei era citado de súbito, de imprevisto, no meio de todos aqueles dichotes cardinalescos, uma espécie de mordaça vedava por momentos todas aquelas bocas trocistas; olhavam com hesitação em torno de si e pareciam temer a indiscrição da parede do gabinete do Sr. de Tréville.

Mas em breve uma alusão reconduzia a conversa para Sua Eminência, e então os ditos aumentavam e fazia‑se luz sobre algumas das suas acções.

«Esta gente ainda acaba por ser toda metida na Bastilha e enforcada», pensou d'Artagnan com terror, «e eu sem dúvida alguma com eles, pois desde o momento em que os escutei serei considerado seu cúmplice. Que diria o senhor meu pai, que tanto me recomendou que respeitasse o cardeal, se me soubesse na companhia de semelhantes pagãos?»

Por isso, como calculareis sem que necessite de o dizer, d'Artagnan não ousava tomar parte na conversação; limitava‑se a olhar de olhos bem abertos, a escutar com todos os ouvidos e a apurar avidamente os seus cinco sentidos para não perder nada, e mal‑grado a sua confiança nas recomendações paternas sentia‑se levado pelos seus gostos e arrastado pelos seus instintos a louvar, mais do que a censurar, as coisas inauditas que se passavam ali.

No entanto, como era absolutamente estranho à multidão de cortesãos do Sr. de Tréville e o viam pela primeira vez ali, vieram perguntar‑lhe o que desejava. Perante tal pergunta, d'Artagnan apresentou‑se muito humildemente, salientou o seu título de compatriota e pediu ao criado de quarto que lhe viera fazer a pergunta que solicitasse por ele ao Sr. de Tréville um momento de audiência, pedido que o criado prometeu em tom protector transmitir oportunamente.

Um pouco refeito da sua surpresa inicial, d'Artagnan teve portanto vagar para estudar os trajos e as fisionomias.

No centro do grupo mais animado encontrava‑se um mosqueteiro corpolento, de ar altivo e com um trajo extravagante qe lhe atraía as atenções gerais. Não trazia naquele momento a sobreveste do uniforme, que aliás não era absolutamente obrigatória naquela época de menos liberdade, mas de maior independência, e sim um gibão azul‑celeste, embora um pouco desbotado e coçado, e sobre o gibão um boldrié magnífico, bordado a ouro e que reluzia como as escamas de que a água se cobre sob sol intenso. Uma comprida capa de veludo carmesim caía‑lhe com graça dos ombros, descobrindo pela frente apenas o esplêndido boldrié, do qual pendia uma espada gigantesca.

O mosqueteiro acabava de sair de guarda naquele instante, queixava‑se de estar constipado e tossia de vez em quando com afectação. Por isso pusera a capa, conforme dizia à sua volta, e enquanto falava do alto da sua empáfia, torcendo desdenhosamente o bigode, os presentes admiravam com entusiasmo o boldrié bordado e d'Artagnan mais do que qualquer outro.

‑ Que quereis ‑ dizia o mosqueteiro ‑, é moda... É uma loucura, bem sei, mas é moda. Aliás, nalguma coisa temos de empregar o dinheiro da legítima.

‑ Então, Porthos, não queiras convencer‑nos que deves esse boldrié à generosidade paterna! ‑ gritou um dos assistentes.

‑ Inclino‑me mais para que te tenha sido dado pela dama velada com quem te encontrei no outro domingo para os lados da Porta Saint‑Honoré.

‑ Não, pela minha honra e fé de gentil‑homem, juro que fui eu mesmo que o comprei com o meu próprio dinheiro ‑ respondeu aquele que acabavam de designar pelo nome de Porthos.

‑ Sim, como eu comprei esta bolsa nova com o que a minha amante metera na velha ‑ disse outro mosqueteiro.

‑ É verdade ‑ insistiu Porthos ‑, e a prova é que dei por ele doze pistolas.

A admiração redobrou, embora a dúvida continuasse a existir.

‑ Não foi Aramis? ‑ perguntou Porthos, virando‑se para outro mosqueteiro.

Esse outro mosqueteiro formava perfeito contraste com aquele que o interrogava e que acabara de o designar pelo nome de Aramis: era um rapaz de vinte e dois a vinte e três anos apenas, de rosto ingénuo e afectado, olhos negros e meigos e faces rosadas e aveludadas como um pêssego no Outono. O bigode, fino, desenhava‑lhe sobre o lábio superior uma linha recta perfeita; as mãos pareciam ter medo de se baixar, não fossem as veias intumescer, e de vez em quando beliscava a ponta das orelhas para as manter de uma cor de carne delicada e transparente. Habitualmente falava pouco e devagar, cumprimentava muito e ria sem ruído, mostrando os dentes, que tinha bonitos e com os quais, tal como com o resto da sua pessoa, parecia ter o maior cuidado. Respondeu com um sinal de cabeça afirmativo à interpelação do amigo.

Esta afirmação pareceu dissipar todas as dúvidas a respeito do boldrié; continuaram a admirá‑lo, mas ninguém falou mais dele; e por uma dessas reviravoltas rápidas do pensamento a conversa mudou de súbito para outro assunto.

‑ Que pensais do que conta o escudeiro de Chalais? ‑ perguntou outro mosqueteiro sem interpelar directamente ninguém, mas dirigindo‑se pelo contrário a toda a gente.

‑ E que conta ele? ‑ perguntou Porthos em tom presunçoso.

‑ Conta que encontrou Rochefort, o alma danada do cardeal, em

Bruxelas, disfarçado de capuchinho; graças ao disfarce, o maldito Rochefort enganou o Sr. de Laigues como um tolo que é.

‑ Como um verdadeiro tolo ‑ sublinhou Porthos. ‑ Mas isso é verdade?

‑ Soube‑o por Aramis ‑ respondeu o mosqueteiro.

‑ Deveras?

‑ Sabes muito bem que é verdade ‑ interveio Aramis. ‑ Contei‑to ontem. Mas não falemos mais disso.

‑ Não falemos mais disso! Essa é a tua opinião ‑ redarguiu Porthos. ‑ Não falemos mais disso!... Irra, como concluis depressa! Como, o cardeal manda espiar um gentil‑homem, roubar a sua correspondência por um traidor, um bandido, um facínora; consegue com o auxílio desse espião e graças a essa correspondência cortar o pescoço a Chalais, sob o estúpido pretexto de que quis assassinar o rei e casar Monsieur com a rainha; ninguém sabia nada a respeito de tal enigma, tu só no‑lo disseste ontem, com grande satisfação de todos, e quando estamos ainda de boca aberta com a notícia vens dizer‑nos hoje: «Não falemos mais disso!»

‑ Pois então falemos, já que assim o queres ‑ redarguiu Aramis com paciência.

‑ Se eu fosse o escudeiro do pobre Chalais, esse Rochefort passaria um mau bocado comigo! ‑ gritou Porthos.

‑ E tu passarias um triste quarto de hora com o duque vermelho ‑ volveu‑lhe Aramis.

‑ Ah, o duque vermelho! Bravo, bravo, o duque vermelho! ‑ respondeu Porthos, batendo as mãos e aprovando com a cabeça. ‑ O duque vermelho, está bem achado! Espalharei a alcunha, meu caro, podes estar descansado. Tem espírito, este Aramis! Que pena não teres podido seguir a tua vocação, meu caro! Darias um padre delicioso!

‑ Oh, não passa de um adiamento momentâneo! ‑ replicou Aramis. ‑ Sê‑lo‑ei um dia. Bem sabes, Porthos, que continuo a estudar Teologia para isso.

‑ Será como ele diz ‑ confirmou Porthos. ‑ Será como ele diz, mais cedo ou mais tarde.

‑ Mais cedo ‑ corrigiu Aramis.

‑ Só espera uma coisa para se decidir imediatamente a vestir a sotaina, que está pendurada debaixo do uniforme ‑ observou um mosqueteiro.

‑ E que coisa é essa? ‑ perguntou outro.

‑ Só espera que a rainha dê um herdeiro à coroa de França.

‑ Não brinquemos com essas coisas, meus senhores ‑ interveio Porthos. ‑ Graças a Deus, a rainha ainda está em idade de o dar.

‑ Diz‑se que o Sr. de Buckingham está em França ‑ adiantou Aramis com um riso velhaco que dava à frase, tão simples na aparência, um significado sofrivelmente escandaloso.

‑ Aramis, meu amigo, desta vez não tens razão ‑ interrompeu‑o Porthos ‑, e a tua mania de seres espirituoso leva‑te sempre para lá dos limites. Se o Sr. de Tréville te ouvisse dava‑te uma descasca por falares assim.

‑ Queres ensinar‑me como me devo comportar, Porthos? ‑ perguntou Aramis, em cujo olhar meigo passou como que um relâmpago.

‑ Meu caro, sê mosqueteiro ou padre. Sê um ou outro, mas não um e outro ‑ insistiu Porthos. ‑ Athos ainda há dias te disse que gostas de comer a dois carrilhos. Ah, mas não nos zanguemos, peço‑te! Seria inútil e bem sabes o que se combinou entre ti, Athos e mim. Visitas a Sr.a d'Aiguillon e fazes‑lhe a corte; vais a casa da Sr.a de Bois‑Tracy, a prima da Sr.a de Chevreuse, e passas por estar muito adiantado nas boas graças da dama. Oh, meu Deus, não reveles a tua sorte, ninguém te pede que contes o teu segredo, toda a gente conhece a tua discrição! Mas já que possuis essa virtude, que diabo, utiliza‑a a respeito de Sua Majestade. Ocupe‑se quem quiser e como quiser do rei e do cardeal; mas a rainha é sagrada, e se se falar dela que seja bem.

‑ Porthos. és pretensioso como Narciso, previno‑te ‑ replicou Aramis. ‑ Sabes que detesto a moral, excepto quando pregada por Athos. Quanto a ti, meu caro, tens um boldrié demasiado magnífico para seres forte a tal respeito. Serei padre, se me convier; entretanto, sou mosqueteiro, e nesta qualidade digo o que me apetece, e neste momento apetece‑me dizer‑te que me enfadas!

‑ Aramis! ‑ Porthos!

‑ Então, meus senhores, meus senhores! ‑ gritaram à volta deles.

‑ O Sr. de Tréville espera o Sr. d'Artagnan ‑ interrompeu o lacaio, abrindo a porta do gabinete.

Perante este anúncio, durante o qual a porta permanecia aberta, todos se calaram, e no meio do silêncio geral o jovem gascão atravessou a antecâmara em parte do seu comprimento e entrou no gabinete do capitão dos mosqueteiros, congratulando‑se de todo o coração por escapar tão a propósito ao fim daquela extravagante discussão.

 

         A AUDIÊNCIA

O Sr. de Tréville estava naquele momento de muito mau humor. Apesar disso, cumprimentou delicadamente o jovem, que se inclinou , até ao chão, e sorriu ao receber a sua saudação numa pronúncia bearnesa que lhe recordou ao mesmo tempo a sua juventude e o seu país, dupla recordação que faz sorrir o homem em qualquer idade. Mas aproximando‑se quase imediatamente da antecâmara e fazendo a d'Artagnan um sinal com a mão, como que a pedir‑lhe licença para acabar com os outros antes de começar com ele, chamou três vezes, engrossando a voz a cada vez, de forma que percorreu todos os tons intercalares entre o acento imperioso e o acento irritado:

‑ Athos! Porthos! Aramis!

Os dois mosqueteiros com os quais já travámos conhecimento e que tinham os dois últimos destes três nomes deixaram imediatamente os grupos de que faziam parte e dirigiram‑se para o gabinete, cuja porta se voltou a fechar atrás deles assim que transpuseram o limiar. O seu porte, embora não fosse o de quem está absolutamente tranquilo, excitou no entanto pela sua naturalidade, ao mesmo tempo cheia de dignidade e de submissão, a admiração de d'Artagnan, que via naqueles homens semideuses e no seu chefe um Júpiter olímpico armado de todos os seus raios.

Quando os dois mosqueteiros entraram; quando a porta se fechou atrás deles; quando o murmúrio de colmeia da antecâmara, à qual o chamamento que acabava de ser feito dera sem dúvida novo alimento, recomeçou; quando por fim o Sr. de Tréville passeou três ou quatro vezes, silencioso e de sobrolho franzido, a todo o comprimento do seu gabinete, passando todas as vezes diante do Porthos e Aramis, hirtos e mudos como numa parada, e parou de súbito diante deles, nem um nem outro imaginava o que os esperava quando lhes perguntou depois de os medir dos pés à cabeça com um olhar irritado:

‑ Sabeis o que me disse o rei ainda ontem à noite? ‑ gritou. ‑ Sabeis, senhores?

‑ Não ‑ responderam após um instante de silêncio os dois mosqueteiros. ‑ Não, senhor, ignoramo‑lo.

‑ Mas espero que nos concedais a honra de no‑lo dizer ‑ acrescentou Aramis, no seu tom mais delicado e com a mais graciosa reverência.

‑ Disse‑me que de futuro recrutaria os seus mosqueteiros entre os guardas do Sr. Cardeal!

‑ Entre os guardas do Sr. Cardeal?... E porquê? ‑ perguntou vivamente Porthos.

‑ Porque bem via que a sua água‑pé necessitava de ser espevitada com uma mistura de bom vinho.

Os dois mosqueteiros coraram até à raiz dos cabelos. D'Artagnan não sabia onde estava e desejaria encontrar‑se a cem pés de profundidade.

‑ Sim, sim ‑ continuou o Sr. de Tréville, animando‑se. ‑ Sim, e Sua Majestade tinha razão, porque, pela minha honra, é verdade que os mosqueteiros fazem triste figura na corte. O Sr. Cardeal contava ontem no jogo com o rei, com um ar compungido que muito me desagradou, que anteontem os malditos mosqueteiros, esses diabos a quatro, e carregou nestas palavras com uma ironia que ainda me desagradou mais, esses gabarolas, acrescentou olhando‑me com os seus olhos de gato‑tigre, se tinham atardado na Rua Féron, num botequim, e que uma ronda dos seus guardas (julguei que se me ia rir na cara) se vira obrigada a prender os perturbadores. Com mil demónios, deveis saber qualquer coisa a tal respeito! Prender mosqueteiros! Éreis vós, não vos desculpeis, reconheceram‑vos, e o cardeal citou‑vos. Mas a culpa é minha, sim, a culpa é minha, pois sou eu que escolho os meus homens. Vejamos, vós, Aramis, por que diabo me pedistes a sobreveste quando ficaríeis tão bem dentro da sotaina? E vós, Porthos, para que quereis um boldrié de ouro? Para pendurar uma espada de palha? E Athos! Não vejo Athos. Onde está ele?

‑ Senhor ‑ respondeu tristemente Aramis ‑, está doente, muito doente.

‑ Doente, muito doente, dizeis vós? E com que doença?

‑ Receia‑se que sejam bexigas, senhor ‑ respondeu Porthos, para meter a sua colherada na conversa ‑, o que seria aborrecido, pois com toda a certeza lhe deixaria marcas na cara.

‑ Bexigas! Era só o que me faltava ouvir, Porthos!... Doente com bexigas na sua idade?... Não! Mas ferido, sem dúvida, talvez morto... Ah, se eu soubesse!... Diabos me levem, Srs. Mosqueteiros, não compreendo que se frequentem assim lugares de má fama, que se armem zaragatas na rua e que se maneje a espada nas encruzilhadas. Enfim, não quero que os homens sejam o escárnio dos guardas do Sr. Cardeal, que são pessoas de bem, sossegadas, sagazes, que nunca se colocam em situação de ser presos e que além disso não se deixariam prender... tenho a certeza! Prefeririam morrer ali mesmo a dar um passo atrás... Porem‑se ao fresco, safarem‑se, fugirem, é bom para os mosqueteiros do rei!

Porthos e Aramis fremiam de raiva. De boa vontade estrangulariam o Sr. de Tréville se no fundo de tudo aquilo não sentissem que era o grande amor que lhes tinha que o levava a falar assim. Batiam no tapete com o pé, mordiam os lábios até sangrarem e apertavam com toda a força a guarda da espada. Lá fora ouvira‑se chamar, como dissemos, por Athos, Porthos e Aramis, e adivinhara‑se pelo tom da voz do Sr. de Tréville que este estava completamente fora de si. Dez cabeças curiosas estavam encostadas à parede e empalideciam de furor porque os seus ouvidos colados à porta não perdiam uma sílaba do que se dizia, enquanto as suas bocas repetiam, à medida que eram proferidas, as palavras insultuosas do capitão, que atingiam toda a gente que se encontrava na antecâmara. Num instante, da porta do gabinete à porta da rua, todo o palácio ficou em ebulição.

‑ Ah, os mosqueteiros do rei deixam‑se prender pelos guardas do Sr. Cardeal! ‑ continuava o Sr. de Tréville, intimamente tão furioso como os seus soldados, mas brandindo as suas palavras e cravando‑as uma a uma por assim dizer como outros tantos golpes de estilete no peito dos seus ouvintes. ‑ Ah, seis guardas de Sua Eminência prendem seis mosqueteiros de Sua Majestade! Com a breca, tomei o meu partido! Vou imediatamente ao Louvre, apresento a minha demissão de capitão dos mosqueteiros do rei e peço uma tenência nas guardas do cardeal, e se ma recusarem, irra!, vou para padre!

Quando soaram estas palavras o murmúrio do exterior transformou‑se em explosão. Por toda a parte só se ouviam pragas e blasfémias. Os irra!, os com a breca!, os diabos me levem!, cruzavam‑se no ar. D'Ar‑tagnan procurava um canto onde se esconder e sentia uma vontade incontível de se meter debaixo da secretária.

‑ Bom, meu capitão ‑ disse Porthos fora de si ‑, a verdade é que éramos seis contra seis, mas fomos apanhados à traição e antes de termos tempo de desembainhar as espadas dois de nós foram mortos e Athos, ferido gravemente, não estava em muito melhores condições.

Conheceis Athos... Pois, capitão, tentou levantar‑se duas vezes e outras tantas voltou a cair. Contudo, não nos rendemos, não! Levaram‑nos à força. Mas no caminho fugimos. Quanto a Athos, julgaram‑no morto e deixaram‑no muito tranquilo no campo de batalha, pensando que não valia a pena levá‑lo. Foi assim que as coisas se passaram. Que diabo, capitão, não se podem ganhar todas as batalhas! O grande Pompeu perdeu a de FarsáUa, e o rei Francisco I, que segundo tenho ouvido dizer valia bem qualquer outro, também perdeu a de Pavia.

‑ E tenho a honra de vos afirmar que matei um com a sua própria espada, porque a minha se partiu à primeira parada... ‑ disse Aramis. ‑ Matei ou apunhalei, senhor, como vos agradar.

‑ Não sabia isso ‑ declarou o Sr. de Tréville em tom um pouco mais ameno. ‑ O Sr. Cardeal exagerou, pelo que vejo.

‑ Mas por favor, senhor ‑ continuou Aramis, que vendo o seu capitão acalmar ousava arriscar um pedido ‑, por favor, senhor, não digais que Athos foi ferido. Ficaria desesperado se isso chegasse aos ouvidos do rei, e como o ferimento é dos mais graves, atendendo a que depois de atravessar o ombro a espada penetrou no peito, e é de temer...

Ao mesmo tempo, o reposteiro ergueu‑se e uma cabeça nobre e bela, mas horrivelmente pálida, apareceu debaixo da franja.

‑ Athos! ‑ gritaram os dois mosqueteiros.

‑ Athos! ‑ repetiu o próprio Sr. de Tréville.

‑ Perguntastes por mim, senhor ‑ disse Athos ao Sr. de Tréville, em voz fraca mas perfeitamente calma ‑, perguntastes por mim, segundo me disseram os nossos camaradas, e apresso‑me a pôr‑me às vossas ordens. Aqui estou, senhor. Que me quereis?

E ditas estas palavras o mosqueteiro, impecavelmente fardado como de costume, entrou com passo firme no gabinete do Sr. de Tréville, que profundamente comovido com semelhante prova de coragem se precipitou para ele.

‑ Estava a dizer a estes senhores ‑ acrescentou ‑ que proíbo os meus mosqueteiros de exporem a vida sem necessidade, porque os valentes são muito preciosos para o rei, e o rei sabe que os seus mosqueteiros são os homens mais valentes do mundo. A vossa mão, Athos.

E sem esperar que o recém‑chegado correspondesse a esta prova de afeição o Sr. de Tréville pegou‑lhe na mão direita e apertou‑lha com toda a força, sem notar que Athos, apesar do domínio que tinha sobre si mesmo, deixava escapar um gemido de dor e empalidecia ainda mais, o que se julgaria impossível.

A porta ficara entreaberta desde a chegada de Athos, de modo que, apesar do segredo guardado, o ferimento já era conhecido de todos e causara sensação. Um murmúrio de satisfação acolheu as últimas palavras do capitão e duas ou três cabeças, levadas pelo entusiasmo, apareceram na abertura do reposteiro. O Sr. de Tréville ia sem dúvida reprimir com palavras vivas semelhante infracção às leis da etiqueta quando sentiu de súbito a mão de Athos crispar‑se na sua e, olhando para ele, adivinhou que ia desmaiar. De facto, Athos reunira todas as suas forças para lutar contra a dor, mas vencido finalmente por ela caiu no parque como morto.

‑ Um cirurgião! ‑ gritou o Sr. de Tréville. ‑ O meu, o do rei, o melhor! Um cirurgião! Ou, com a breca, o meu bravo Athos vai morrer!

Aos gritos do Sr. de Tréville toda a gente se precipitou no seu gabinete, sem que ele pensasse em fechar a porta a ninguém, e todos se comprimiram à volta do ferido. Mas toda essa solicitude teria sido inútil se o médico pedido não se encontrasse no próprio palácio. Assim, logo que chegou furou através da multidão e aproximou‑se de Athos, que continuava sem sentidos, e como todo aquele barulho e toda aquela agitação o incomodavam sobremaneira exigiu antes de mais nada, como a coisa mais urgente, que o mosqueteiro fosse levado para um quarto próximo. O Sr. de Tréville abriu imediatamente uma porta e indicou o caminho a Porthos e Aramis, que transportaram o seu camarada nos braços. Atrás deles seguia o cirurgião, e atrás do cirurgião a porta fechou‑se.

Então o gabinete do Sr. de Tréville, esse local habitualmente tão respeitado, transformou‑se por momentos em sucursal da antecâmara. Todos discursavam, peroravam, falavam alto, praguejavam, blasfemavam, davam o cardeal e os seus guardas a todos os diabos.

Pouco depois, Porthos e Aramis regressaram; o cirurgião e o Sr. de Tréville eram os únicos que tinham ficado junto do ferido.

Por fim, o Sr. de Tréville também regressou. O ferido recuperara os sentidos; o cirurgião declarava que o estado do mosqueteiro não tinha nada que pudesse preocupar os seus amigos e que a sua fraqueza se devia pura e simplesmente à perda de sangue.

Depois o Sr. de Tréville fez um sinal com a mão e todos se retiraram, excepto d'Artagnan, que se não esquecera que tinha audiência e que, com a sua tenacidade de gascão, permanecera no mesmo sítio.

Quando toda a gente saiu e a porta se fechou o Sr. de Tréville virou‑se e encontrou‑se sozinho com o jovem. O que acabara de acontecer fizera‑lhe perder um pouco o fio às ideias. Perguntou o que queria o obstinado solicitante. D'Artagnan apresentou‑se e o Sr. de Tréville, acudindo‑lhe de súbito à memória todas as suas recordações do presente e do passado, depressa se encontrou ao corrente da situação.

‑ Perdão ‑ disse sorrindo ‑, perdão, meu caro compatriota, mas tinha‑me esquecido completamente de vós. Que quereis, um capitão não é mais do que um pai de família carregado de maior responsabilidade do que um pai de família vulgar. Os soldados são crianças grandes; mas como tenho de velar para que as ordens do rei, e sobretudo as do Sr. Cardeal, sejam cumpridas...

D'Artagnan não pôde dissimular um sorriso.

Perante esse sorriso o Sr. de Tréville julgou não estar na presença de um estúpido, mudou de conversa e foi direito ao assunto:

‑ Sou muito amigo do senhor vosso pai ‑ disse. ‑ Que posso fazer pelo filho? Despachai‑vos que o meu tempo não me pertence.

‑ Senhor ‑ disse d'Artagnan ‑, ao deixar Tarbes e vir aqui tencionava pedir‑vos, como prova dessa amizade de que não haveis perdido a memória, uma farda de mosqueteiro; mas depois de tudo o que vi nas últimas duas horas compreendo que semelhante mercê seria enorme e receio não a merecer.

‑ Trata‑se efectivamente de uma mercê, meu rapaz ‑ respondeu o Sr. de Tréville ‑, mas que não pode estar tão acima de vós como credes ou pareceis crer. No entanto, uma decisão de Sua Majestade previu esse caso e anuncio‑vos com pesar que ninguém é recebido como mosqueteiro antes de passar previamente pela prova de algumas campanhas, de certas acções brilhantes ou de dois anos de serviço em qualquer outro regimento menos favorecido do que o nosso.

D'Artagnan inclinou‑se sem responder. Sentia‑se ainda mais ansioso por envergar o uniforme de mosqueteiro desde que era tão difícil obtê‑lo.

‑ Mas ‑ continuou Tréville, cravando no seu compatriota um olhar tão penetrante que dir‑se‑ia querer ler‑lhe até ao fundo do coração ‑, mas, atendendo ao vosso pai, meu antigo companheiro, como já vos disse, quero fazer qualquer coisa por vós, meu rapaz. No Béarn os filhos mais novos não são habitualmente ricos, e duvido que as coisas tenham mudado muito desde a minha partida da província. Não deveis portanto ter para viver mais do que o dinheiro que trouxestes convosco.

D'Artagnan endireitou‑se com um ar orgulhoso que queria dizer que não pedia esmola a ninguém.

‑ Pronto, rapaz, pronto! ‑ continuou Tréville. ‑ Conheço bem esses ares... Cheguei a Paris com quatro escudos na algibeira e bater‑me‑ia com quem quer que me dissesse que me não encontrava em condições de comprar o Louvre.

D'Artagnan empertigou‑se ainda mais; graças à venda do cavalo, começava a sua carreira com mais quatro escudos do que o Sr. de Tréville começara a dele.

‑ Deveis portanto, dizia eu, necessitar de conservar o que tendes, por maior que seja essa quantia; mas também deveis necessitar de vos aperfeiçoar nos exercícios que convêm a um gentil‑homem. Escreverei hoje uma carta ao director da Academia Real, que a partir de amanhã vos receberá sem qualquer retribuição. Não escuseis este pequeno obséquio. Os nossos gentis‑homens, os melhor nascidos e os mais ricos, solicitam‑no às vezes e não o conseguem obter... Aprendereis o manejo do cavalo, a esgrima e a dança; travareis lá bons conhecimentos e de vez em quando vireis visitar‑me para me dizerdes como estais e se posso fazer alguma coisa por vós.

Por muito que lhe fossem ainda alheias as maneiras da corte, d'Ar tagnan não deixou de notar a frieza com que era recebido.

‑ Infelizmente, senhor ‑ disse ‑, só agora vejo quanta falta me faz hoje a carta de recomendação que meu pai me deu para vós.

‑ Com efeito ‑ respondeu o Sr. de Tréville ‑, admira‑me que tenhais empreendido tão longa viagem sem esse viático obrigatório, único recurso de que nós, bearneses, podemos deitar mão.

‑ Tinha‑o, senhor, e graças a Deus em boa forma, mas roubaram‑mo perfidamente! ‑ exclamou d'Artagnan.

E contou toda a cena de Meung, sem deixar de descrever o gentil‑homem desconhecido nos seus mais pequenos pormenores, tudo com um calor e uma sinceridade que encantaram o Sr. de Tréville.

‑ É estranho... ‑ disse este último, pensativo. ‑ Tínheis portanto falado de mim em voz alta?

‑ Sim, senhor, não há dúvida que cometi essa imprudência. Mas que quereis, um nome como o vosso devia servir‑me de escudo na viagem; desculpai se me coloquei demasiadas vezes a coberto dele...

A lisonja estava muito em moda então e o Sr. de Tréville gostava tanto de incenso como um rei ou um cardeal. Não pôde portanto impedir‑se de sorrir com visível satisfação, mas o sorriso depressa se apagou e ele próprio voltou à aventura de Meung.

‑ Dizei‑me, esse gentil‑homem não tinha uma leve cicatriz na têmpora? ‑ perguntou.

‑ Tinha, assim como se tivesse sido feita por uma bala de raspão.

‑ Não era um homem de boa presença? ‑Era.

‑ Alto? ‑Sim.

‑ Branco de pele e de cabelo escuro?

‑ Sim, sim, exactamente. Como é possível, senhor, que conheçais esse homem? Ah, se o volto a encontrar, e hei‑de encontrá‑lo, juro‑vos que nem que seja no Inferno...

‑ Esperava uma mulher? ‑ continuou Tréville.

‑ E partiu depois de conversar um instante com ela.

‑ Não sabeis qual foi o tema da conversa?

‑ Ele entregou‑lhe uma caixa, disse‑lhe que essa caixa continha as suas instruções e recomendou‑lhe que só a abrisse em Londres.

‑ Essa mulher era inglesa?

‑ Ele tratava‑a por Milady.

‑ É ele! ‑ murmurou Tréville. ‑ É ele! E eu que o julgava ainda em Bruxelas!

‑ Senhor, se sabeis quem é esse homem!... ‑ exclamou d'Artagnan. ‑ Indicai‑me quem é e onde está, e desobrigar‑vos‑ei de tudo, mesmo da vossa promessa de me fazerdes entrar para os mosqueteiros; porque mais do que qualquer outra coisa quero vingar‑me!

‑ Guardai‑vos bem disso, rapaz! ‑ atalhou Tréville. ‑ Pelo contrário, se o virdes aproximar‑se por um lado da rua passai para o outro!

Não esbarreis com semelhante rochedo: quebrar‑vos‑ia como se fôsseis de vidro.

‑ Isso não impede que se alguma vez o encontrar!... ‑ redarguiu d'Artagnan.

‑ Entretanto, não o procureis, é o conselho que vos dou ‑ insistiu o Sr. de Tréville.

De súbito, Tréville deteve‑se, assaltado por uma desconfiança súbita. Aquele grande ódio que manifestava tão desassombradamente o jovem viajante pelo homem que ‑ coisa muito pouco verosímil ‑ lhe roubara a carta do pai, esse ódio não esconderia alguma perfídia? Aquele rapaz não seria enviado por Sua Eminência? Não viria armar‑lhe uma cilada? Aquele pretenso d'Artagnan não seria um emissário do cardeal que procurasse introduzir‑se em sua casa, para, uma vez colocado junto dele, surpreender a sua confiança e perdê‑lo mais tarde, como já acontecera milhares de vezes? Olhou d'Artagnan ainda mais fixamente desta segunda vez do que da primeira e ficou mediocremente tranquilizado com o aspecto daquela fisionomia cintilante de espírito astucioso e de humildade afectada.

«Tenho a certeza de que é gascão», pensou, «mas tanto pode sê‑lo para o cardeal como para mim. Experimentemo‑lo...»

‑ Meu amigo ‑ disse lentamente ‑, desejo, tendo em conta serdes filho do meu velho amigo, pois considero verdadeira a história dessa carta perdida, desejo, repito, para vos compensar da frieza que de início notastes no meu acolhimento, revelar‑vos os segredos da nossa política. O rei e o cardeal são os melhores amigos; os seus aparentes desaguisados destinam‑se apenas a enganar os tolos. Não quero que um compatriota, um belo cavaleiro, um bravo rapaz, nascido para triunfar, caia nesse logro e se deixe ir no bote como um lorpa, a exemplo de tantos outros que têm caído nessa esparrela. Tende sempre presente que sou dedicado a esses dois amos todo‑poderosos e que nunca os meus actos terão outro objectivo que não seja o serviço do rei e do Sr. Cardeal, um dos mais ilustres génios que a França produziu. Agora, rapaz, tomai a vossa decisão, e se tendes, seja por motivos de família, seja por motivos de amizade, seja até por instinto, alguma dessas inimizades contra o cardeal que vemos surgirem entre os gentis‑homens, despedi‑vos de mim e separemo‑nos. Ajudar‑vos‑ei em todas as circunstâncias, mas sem vos ligar à minha pessoa. De qualquer modo, espero que a minha franqueza vos faça meu amigo, pois sois até agora o único jovem a quem falei como acabo de vos falar.

Entretanto, Tréville dizia para consigo:

«Se o cardeal me mandou esta jovem raposa, decerto não se esqueceu ‑ pois sabe até que ponto o detesto ‑ de dizer ao seu espião que a melhor maneira de me fazer a corte era dizer‑me o pior possível dele; por isso, apesar dos meus protestos, o astuto compadre vai‑me responder certamente que abomina Sua Eminência.»

Aconteceu precisamente o contrário do que Tréville esperava; d'Artagnan respondeu com a maior simplicidade:

‑ Senhor, chego a Paris com intenções muito semelhantes. Meu pai recomendou‑me que não sofresse nada a não ser do rei, do Sr. Cardeal e de vós, que considera as três primeiras personalidades de França.

D'Artagnan juntava o Sr. de Tréville aos outros dois, como se verifica, mas pensava que essa junção não teria qualquer inconveniente.

‑ Tenho a maior veneração pelo Sr. Cardeal ‑ continuou ‑ e o mais profundo respeito pelos seus actos. Tanto melhor para mim, senhor, se me falais, como dizeis, com franqueza; porque então dar‑me‑eis a honra de considerar tal semelhança agradável; mas se tivésseis tido alguma desconfiança (aliás muito natural), creio que me perderia dizendo a verdade. Tanto pior, se assim acontecesse. No entanto, espero que apesar de tudo não deixeis de me estimar, visto ser o que mais desejo no mundo.

O Sr. de Tréville ficou surpreendidíssimo. Tanta perspicácia, tanta franqueza enfim, causa‑lhe admiração, mas não afastava inteiramente as suas dúvidas: quanto mais o jovem se revelava superior aos outros jovens, tanto mais temia enganar‑se. Contudo, apertou a mão a d'Artagnan e disse‑lhe:

‑ Sois um rapaz honesto, mas neste momento só posso fazer o que vos ofereci há pouco. O meu palácio estar‑vos‑á sempre aberto. Mais tarde, quando puderdes procurar‑me a qualquer hora e por consequência aproveitar todas as oportunidades, obtereis provavelmente o que desejardes obter.

‑ Quereis dizer, senhor, que esperais que me torne digno disso ‑ redarguiu d'Artagnan. ‑ Pois bem, ficai descansado que não esperareis muito tempo ‑ acrescentou com a familiaridade do gascão.

E cumprimentou para se retirar, como se de futuro o resto fosse consigo.

‑ Esperai ‑ atalhou o Sr. de Tréville, detendo‑o. ‑ Prometi‑vos uma carta para o director da Academia. Sois demasiado orgulhoso para a aceitar, meu jovem gentil‑homem?

‑ Não, senhor ‑ respondeu d'Artagnan. ‑ E garanto‑vos que com essa não acontecerá o mesmo que aconteceu com a outra. Guardá‑la‑ei tão bem que chegará, juro‑vo‑lo, ao seu destino, e ai daquele que tentasse roubar‑ma!

O Sr. de Tréville sorriu da fanfarronice e, deixando o seu jovem compatriota no vão da janela, onde se encontravam e tinham conversado, foi sentar‑se a uma mesa e começou a escrever a carta de recomendação prometida. Entretanto, d'Artagnan, que não tinha nada melhor que fazer, pôs‑se a tamborilar uma marcha nas vidraças, olhando os mosqueteiros, que se retiravam um após outro, e seguindo‑os com a vista até desaparecerem à esquina da rua.

Depois de escrever a carta, o Sr. de Tréville lacrou‑a, levantou‑se e aproximou‑se do jovem para lha dar; mas no preciso momento em que d'Artagnan estendia a mão para a receber, o Sr. de Tréville ficou muito surpreendido ao ver o seu protegido sobressaltar‑se, corar de cólera e correr para fora do gabinete gritando:

‑ Ah, maldito, desta vez não me escaparás!

‑ Quem? ‑ perguntou o Sr. de Tréville.

‑ O meu ladrão! ‑ respondeu d'Artagnan. ‑ Ah, traidor! E desapareceu.

‑ Diabo de louco! ‑ murmurou o Sr. de Tréville. ‑ A não ser ‑ acrescentou ‑ que seja uma maneira hábil de se esgueirar ao ver que falhou o golpe...

 

          O OMBRO DE ATHOS, O BOLDRIÉ DE PORTHOS E O LENÇO DE ARAMIS

D'Artagnan, furioso, atravessara a antecâmara em três saltos e corria para a escada, cujos degraus contava descer quatro a quatro, quando, impelido pela corrida, foi chocar de cabeça baixa com um mosqueteiro que saía do gabinete do Sr. de Tréville por uma porta de serviço, mosqueteiro a quem fez soltar um grito, ou antes um berro, ao bater‑lhe com a testa no ombro.

‑ Desculpai‑me ‑ disse d'Artagnan, tentando retomar a corrida ‑, desculpai‑me que estou com pressa.

Mal descera, porém, o primeiro degrau quando um punho de ferro o agarrou pelo cinto e o deteve.

‑ Estais com pressa! ‑ gritou o mosqueteiro, pálido como uma mortalha. ‑ E sob esse pretexto dais‑me um encontrão e dizeis: «Desculpai‑me», e julgais que isso basta? De modo nenhum, meu rapaz. Imaginais, só porque ouvistes o Sr. de Tréville falar‑nos um pouco bruscamente hoje, que qualquer nos pode tratar como ele nos fala? Desenganai‑vos, camarada, não sois o Sr. de Tréville.

‑ Palavra ‑ replicou d'Artagnan, que conheceu Athos, o qual, depois do penso feito pelo médico, voltava para sua casa ‑, palavra que não fiz de propósito e pedi desculpa. Parece‑me portanto que basta. Repito‑vos, porém, e desta vez talvez já seja demasiado, palavra de honra, que estou com pressa, com muita pressa. Largai‑me pois, suplico‑vos, e deixai‑me ir aonde tenho de ir.

‑ Senhor ‑ disse Athos, largando‑o ‑, não sois delicado. Vê‑se bem que vindes de longe.

D'Artagnan descera já três ou quatro degraus, mas a observação de Athos deteve‑o bruscamente.

‑ Com a breca, senhor, por muito de longe que venha não sereis vós que me dareis uma lição de belas maneiras, previno‑vos! ‑ redarguiu.

‑ Talvez ‑ contrapôs Athos.

‑ Ah, se não estivesse com pressa!... ‑ gritou d'Artagnan. ‑ Se não corresse atrás de alguém...

‑ Senhor homem apressado, encontrar‑me‑eis sem correr, ouvistes?

‑ E onde, por favor?

‑ Perto dos Carmelitas Descalços.

‑ A que horas?

‑ Por volta do meio‑dia.

‑ Por volta do meio‑dia lá estarei.

‑ Procurai não me fazerdes esperar, porque, desde já vos previno, ao meio‑dia e um quarto serei eu que correrei atrás de vós e vos cortarei as orelhas na corrida.

‑ Estarei lá ao meio‑dia menos dez minutos! ‑ gritou d'Artagnan. E desatou a correr como se o levasse o Diabo, esperando encontrar

ainda o seu desconhecido, que no seu passo tranquilo não devia ir longe.

Mas à porta da rua, Porthos conversava com um soldado da guarda. Entre os dois interlocutores havia à justa o espaço de um homem. D'Artagnan julgou que esse espaço lhe bastaria e correu para passar como uma flecha entre os dois. Mas d'Artagnan não contara com o vento. Quando ia a passar, o vento enfunou a comprida capa de Porthos e d'Artagnan foi esbarrar direitinho com a capa. Porthos tinha sem dúvida razões para não largar aquela parte essencial do seu trajo, pois em vez de deixar o pano adejar, puxou‑o para si, de modo que d'Artagnan enrolou‑se no veludo devido a um movimento de rotação provocado pela resistência do obstinado Porthos.

Ao ouvir praguejar o mosqueteiro, d'Artagnan quis sair debaixo da capa, que o cegava, e procurou abrir caminho através das pregas. Receava sobretudo estragar a magnificência do boldrié que já conhecemos; mas ao abrir timidamente os olhos encontrou‑se com o nariz colado entre os ombros de Porthos, isto é, precisamente em cima do boldrié.

Infelizmente, como a maior parte das coisas deste mundo que não passam de aparência, o boldrié era de ouro pela frente e de simples pele de búfalo por detrás. Porthos, como bom presunçoso que era, não podendo ter um boldrié todo de ouro, tinha ao menos um com metade; daí a necessidade da constipação e a urgência da capa.

‑ Irra! ‑ gritou Porthos, fazendo todos os esforços para se desembaraçar de d'Artagnan, que se lhe agitava nas costas. ‑ Perdestes o juízo para vos lançardes assim sobre as pessoas?

‑ Desculpai‑me ‑ pediu d'Artagnan, reaparecendo debaixo do ombro do gigante ‑, mas estou com muita pressa, corro atrás de alguém e...

‑ Acaso vos esqueceis dos olhos quando correis? ‑ perguntou Porthos.

‑ Não ‑ respondeu d'Artagnan, irritado ‑, não, e graças aos meus olhos vejo até o que não vêem os outros.

Tivesse ou não tivesse compreendido, o caso é que Porthos se deixou arrebatar pela cólera.

‑ Senhor ‑ disse ‑, previno‑vos de que ainda vos fareis esfolar se desafiais assim os mosqueteiros.

‑ Esfolar, senhor? ‑ redarguiu d'Artagnan. ‑ A palavra é dura.

‑ É a que convém a um homem habituado a olhar de frente os seus inimigos.

‑ Oh, claro, sei perfeitamente que não virais as costas aos vossos!... E o jovem, encantado com a sua saída, afastou‑se rindo a bandeiras

despregadas.

Porthos espumou de raiva e esboçou o gesto de se precipitar, sobre d'Artagnan.

‑ Mais tarde, mais tarde ‑ gritou‑lhe este ‑, quando não tiverdes a vossa capa!

‑ À uma hora, atrás do Luxemburgo.

‑ Muito bem, à uma hora ‑ respondeu d'Artagnan antes de dobrar a esquina.

Mas nem na rua que acabava de percorrer, nem naquela que abarcava agora com a vista descobriu ninguém. Por mais devagar que tivesse caminhado o desconhecido, distanciara‑se; ou talvez tivesse entrado nalguma casa. D'Artagnan perguntou por ele a todas as pessoas que encontrou, desceu até à barca e voltou a subir pela Rua de Seine e da Croix‑Rouge, mas nada, absolutamente nada. No entanto, a corrida foi‑lhe proveitosa, pois à medida que o suor lhe inundava a testa o coração arrefecia‑lhe.

Pôs‑se então a reflectir sobre os acontecimentos que acabavam de se verificar; eram numerosos e nefastos: ainda não passava das 11 horas e já a manhã lhe trouxera o desagrado do Sr. de Tréville, que não podia deixar de encontrar um pouco incorrecta a forma como d'Artagnan o deixara.

Além disso, arranjara dois bons duelos com dois homens capazes de matar cada um três d'Artagnans, com dois mosqueteiros enfim, isto é, com dois desses seres que estimava tanto que os colocava, no seu pensamento e no seu coração, acima de todos os outros homens.

A conjectura era triste. Certo de ser morto por Athos, compreende‑se que o jovem não se preocupasse muito com Porthos. No entanto, como a esperança é a última coisa que se extingue no coração do homem, chegou à conclusão de que poderia escapar, com ferimentos terríveis evidentemente, dos dois duelos e, para o caso de sobreviver, dirigiu a si próprio, com vista ao futuro, as seguintes reprimendas:

«Sempre saí um bom desmiolado e um grande alarve! Aquele bravo e infeliz Athos estava ferido precisamente no ombro contra o qual fui chocar de cabeça, como um carneiro. A única coisa que me espanta é que não me tenha matado logo. Tinha esse direito, pois a dor que lhe causei deve ter sido atroz. Quanto a Porthos... oh, quanto a Porthos a coisa é mais divertida!»

E mal‑grado seu o jovem desatou a rir, embora observando se aquele riso isolado e sem motivo aos olhos dos que o viam rir, não iria ofender algum transeunte.

«Quanto a Porthos a coisa é mais divertida; mas nem por isso sou menos um miserável estouvado. Lanço‑me assim sobre as pessoas sem dizer água vai! Não está certo... E ainda por cima meto o nariz debaixo da capa para ver o que lá não está!

Ter‑me‑ia perdoado, decerto; ter‑me‑ia perdoado se lhe não fosse falar do maldito boldrié por meias palavras... Sim, e muito bem escolhidas! Ah, maldito gascão, quem te pusesse a fritar numa frigideira cada vez que armas em espirituoso! D'Ar‑tagnan, meu amigo», continuou, dirigindo‑se a si mesmo com toda a amenidade que julgava dever‑se, «se escapares desta, o que não é provável, de futuro terás de ser de uma delicadeza perfeita. De futuro, é preciso que te admirem, que te citem como modelo. Ser amável e cortês não é ser cobarde. Põe os olhos em Aramis: Aramis é a brandura, a graça em pessoa. Contudo, nunca ninguém se lembrou de dizer que Aramis era um cobarde. Não, evidentemente, e de futuro quero tomá‑lo por modelo. Olha, aí está ele!»

Enquanto caminhava e monologava, d'Artagnan chegara a poucos passos do Palácio de Aiguillon, diante do qual vira Aramis a conversar alegremente com três gentis‑homens das guardas reais. Pelo seu lado, Aramis também viu d'Artagnan; mas como não esquecera que fora diante do jovem que o Sr. de Tréville se excedera tanto naquela manhã, e uma testemunha das censuras que os mosqueteiros tinham recebido não lhe era de modo algum agradável, fingiu não o ver. D'Artagnan é que pelo contrário, todo entregue aos seus planos de conciliação e cortesia, se aproximou dos quatro jovens, a quem fez um grande cumprimento acompanhado do mais gracioso sorriso. Aramis inclinou levemente a cabeça, mas não sorriu. De resto, todos quatro interromperam imediatamente a conversa.

D'Artagnan não era tão tolo que não notasse que estava a mais; mas ainda se não encontrava suficientemente familiarizado com as maneiras da alta sociedade para sair galantemente de uma situação falsa como é, em geral, a de um homem que se junta a pessoas que mal conhece e se intromete numa conversa que não lhe diz respeito. Procurava portanto maneira de bater em retirada o menos canhestramente possível quando notou que Aramis deixara cair o lenço e, inadvertidamente sem dúvida, lhe pusera o pé em cima. Pareceu‑lhe chegado o momento de reparar a sua inconveniência: baixou‑se e, com o ar mais gracioso que conseguiu arranjar, tirou o lenço debaixo do pé do mosqueteiro, apesar dos esforços que este fez para o reter, e disse‑lhe entregando‑lho:

‑ Creio, senhor, que não gostaríeis de perder este lenço.

O lenço era, com efeito, ricamente bordado e tinha uma coroa e armas numa das pontas. Aramis corou muito e mais arrancou do que pegou no lenço das mãos do gascão.

‑ Ah, ah!... ‑ exclamou um dos guardas. ‑ Ainda serás capaz de dizer, discreto Aramis, que estás zangado com a Sr.a de Bois‑Tracy, quando essa graciosa dama tem a amabilidade de te emprestar os seus lenços?

Aramis lançou a d'Artagnan um desses olhares que fazem compreender a um homem que acaba de arranjar um inimigo mortal; depois, retomando o seu ar melífluo:

‑ Enganais‑vos, senhores, este lenço não é meu e não sei por que motivo este senhor teve a extravagância de mo entregar em vez de a um de vós, e a prova do que digo é que está aqui o meu, na minha algibeira.

Ditas estas palavras, tirou o seu próprio lenço, lenço muito elegante também, e de fina cambraia de linho, embora a cambraia fosse cara naquela época, mas lenço sem bordados, sem armas e adornado com uma única inicial, a do seu proprietário.

Desta vez, d'Artagnan ficou mudo e quedo; reconhecera a sua falta. Mas os amigos de Aramis é que não se deixaram convencer com as suas negativas e um deles dirigiu‑se ao jovem mosqueteiro com afectada seriedade e disse‑lhe:

‑ Se fosse como pretendes, seria obrigado, meu caro Aramis, a pedir‑to; porque, como sabes, Bois‑Tracy é um dos meus amigos íntimos e não quero que façam troféu dos pertences de sua mulher.

‑ Pedes isso mal ‑ respondeu Aramis. ‑ Embora reconhecendo a justeza da tua reclamação quanto ao fundo, recusaria por causa da forma.

‑ A verdade ‑ arriscou timidamente d'Artagnan ‑ é que não vi sair o lenço da algibeira do Sr. Aramis. Tinha apenas o pé em cima, mais nada, e pensei que, visto ter o pé em cima dele, o lenço era seu.

‑ Mas enganou‑se, meu caro senhor ‑ redarguiu friamente Aramis, pouco sensível à reparação.

Depois, virando‑se para o guarda que se declarara amigo de Bois‑Tracy, continuou:

‑ Aliás, reflecti, meu caro íntimo de Bois‑Tracy, que sou seu amigo não menos dedicado do que tu próprio; de modo que, bem vistas as coisas, o lenço tanto pode ter caído da tua algibeira como da minha.

‑ Não, pela minha honra! ‑ gritou o guarda de Sua Majestade.

‑ Juras pela tua honra e eu pela minha palavra, o que significa, evidentemente, que um de nós dois falta à verdade. Olha, façamos melhor, Montaran, fiquemos cada um com metade.

‑ Do lenço? ‑Sim.

‑ Perfeitamente! ‑ exclamaram os outros dois guardas. ‑ O julgamento do rei Salomão. Decididamente, Aramis, és um homem cheio de sabedoria.

Os jovens desataram a rir e, como se calcula, o caso não teve outras consequências. Pouco depois a conversa terminou e os três guardas e o mosqueteiro, depois de apertarem cordialmente as mãos, separaram‑se, os guardas para um lado e Aramis para outro.

«Chegou o momento de fazer as pazes com aquele galante homem», disse para consigo d'Artagnan, que se mantivera um pouco afastado durante toda a última parte da conversa.

E, pondo em prática a sua resolução, aproximou‑se de Aramis, que se afastava sem lhe prestar atenção.

‑ Senhor ‑ disse‑lhe ‑, espero que me desculpeis.

‑ Ah, senhor ‑ interrompeu‑o Aramis ‑, permiti‑me que vos observe que não agistes de modo algum neste caso como um homem galante deveria agir!

‑ Que dizeis, senhor? ‑ exclamou d'Artagnan. ‑ Supondes...

‑ Suponho, senhor, que não sois tolo, e que sabeis perfeitamente, apesar de recém‑chegado da Gasconha, que não se põem os pés sem motivo em cima dos lenços de algibeira. Que diabo, Paris não é calcetado de cambraia!

‑ Senhor, fazeis mal em procurar humilhar‑me ‑ disse d'Artagnan, em quem o natural assomadiço começava a falar mais alto do que as resoluções pacíficas. ‑ Sou da Gasconha, é verdade, e uma vez que o sabeis não necessito de vos dizer que os Gascões são pouco pacientes; de modo que quando se desculpam uma vez, mesmo de uma tolice, estão convencidos de que já fizeram mais de metade do que deviam fazer.

‑ Senhor, o que vos digo ‑ respondeu Aramis ‑ não é de maneira nenhuma para questionar convosco. Valha‑me Deus, não sou um espadachim, e sendo mosqueteiro apenas provisoriamente só me bato quando a tal sou obrigado, e sempre com grande repugnância; mas desta vez o caso é grave, pois comprometestes uma dama.

‑ Comprometemos, deveis dizer! ‑ gritou d'Artagnan.

‑ Por que tivestes a infeliz ideia de me dar o lenço?

‑ Por que tivestes vós a de o deixar cair?

‑ Já disse e repito, senhor, que o lenço não caiu da minha algibeira.

‑ Nesse caso, mentistes duas vezes, senhor, porque eu vi‑o cair da vossa algibeira!

‑ Ah, quereis levar as coisas para esse lado, Sr. Gascão?... Pois eu vos ensinarei a viver!

‑ E eu mando‑vos dizer missa, Sr. Abade! Desembainhai, por favor, e imediatamente.

‑ Não, por favor, meu bom amigo; não aqui, pelo menos. Não vedes que estamos defronte do Palácio de Aiguillon, que se encontra cheio de criaturas do cardeal? Quem me diz que não foi Sua Eminência quem vos encarregou de lhe fornecer a minha cabeça? Ora, prezo ridiculamente a minha cabeça, atendendo a que me parece ficar bastante bem em cima dos meus ombros. Quero portanto matar‑vos, estai tranquilo, mas matar‑vos suavemente, num sítio fechado e protegido, onde não possais gabar‑vos da vossa morte a ninguém.

‑ De acordo. Mas não vos fieis nisso e levai o vosso lenço, quer vos pertença, quer não; talvez tenhais oportunidade de vos servir dele.

‑ O senhor é gascão? ‑ perguntou Aramis.

‑ Sou. O senhor não estará a adiar o encontro por prudência?

‑ A prudência, senhor, é virtude deveras inútil aos mosqueteiros, bem sei, mas indispensável aos membros da Igreja, e como sou mosqueteiro apenas provisoriamente, procuro manter‑me prudente. Às duas horas terei a honra de vos esperar no palácio do Sr. de Tréville. Lá vos indicarei os bons sítios.

Os dois jovens saudaram‑se e depois Aramis afastou‑se pela rua que levava ao Luxemburgo, enquanto d'Artagnan, vendo que a hora ia adiantada, tomava o caminho dos Carmelitas Descalços dizendo para consigo: «Decididamente, não posso voltar atrás; mas ao menos, se for morto, serei morto por um mosqueteiro.»

 

         OS MOSQUETEIROS DO REI E OS GUARDAS DO SR. CARDEAL

D'Artagnan não conhecia ninguém em Paris. Foi portanto ao encontro com Athos sem levar testemunhas, resolvido a contentar‑se com as que o seu adversário tivesse escolhido. Aliás, era sua intenção formal apresentar ao bravo mosqueteiro todas as desculpas convenientes, mas sem fraqueza, pois temia que resultasse do duelo o que sempre resulta de aborrecido num caso do género, quando um homem jovem e vigoroso se bate com um adversário ferido e enfraquecido: vencido, duplica o triunfo do seu antagonista; vencedor, é acusado de deslealdade e de audácia fácil.

Aliás, ou expusemos mal o carácter do nosso amigo de aventuras ou o nosso leitor já notou que d'Artagnan não era de modo algum um homem vulgar. Por isso, embora repetindo para consigo que a sua morte era inevitável, não se resignava a morrer serenamente, como outro menos corajoso e moderado do que ele faria no seu lugar. Reflectiu nos diferentes caracteres daqueles com quem se ia bater e começou a ver mais claro na sua situação. Esperava, graças às desculpas leais que lhe reservava, fazer um amigo de Athos, cujo ar de grande senhor e expressão austera muito lhe agradavam. Deleitava‑o meter medo a Porthos com a aventura do boldrié, que podia, se não fosse imediatamente morto, contar a toda a gente, e se soubesse tirar habilmente partido da história cobriria Porthos de ridículo; finalmente, quanto ao melífluo Aramis, não lhe metia muito medo, e supondo que chegasse até ele encarregar‑se‑ia de o despachar realmente, ou pelo menos de o ferir na cara, como César recomendara que se fizesse aos soldados de Pompeu, de modo a ficar para sempre arruinada a beleza de que tanto se orgulhava.

Depois, d'Artagnan possuía esse fundo inabalável de resolução que tinham depositado no seu coração os conselhos do pai, conselhos cuja substância era: «Não tolerar nada a ninguém, excepto ao rei, ao cardeal e ao Sr. de Tréville.» Voou portanto, mais do que caminhou para o Convento dos Carmelitas Descalçados, ou antes Descalços, como se dizia na época, espécie de edifício sem janelas, rodeado de prados áridos, sucursal do Pré‑aux‑Clercs, e que servia habitualmente para os recontros das pessoas que não podiam perder tempo.

Quando d'Artagnan chegou à vista do pequeno campo baldio que se estendia ao pé do mosteiro, Athos esperava‑o havia apenas cinco minutos e estava a dar meio‑dia. Era portanto pontual como a samaritana e o mais rigoroso casuísta acerca de duelos nada teria a dizer.

Athos, que continuava a sofrer cruelmente do seu ferimento, embora tivesse sido pensado de novo pelo cirurgião do Sr. de Tréville, estava sentado num marco e esperava o seu adversário com a atitude calma e o ar digno que nunca o abandonavam. Ao ver d'Artagnan, levantou‑se e deu delicadamente alguns passos ao seu encontro. Este, pelo seu lado, aproximou‑se do adversário de chapéu na mão e com a pluma a arrastar pelo chão.

‑ Senhor ‑ disse Athos ‑, mandei avisar dois amigos para me servirem de testemunhas, mas esses dois amigos ainda não chegaram. Admira‑me que tardem; não é seu hábito.

‑ Eu não tenho testemunhas, senhor ‑ respondeu d'Artagnan ‑, porque só ontem cheguei a Paris e não conheço ainda ninguém, excepto o Sr. de Tréville, a quem fui recomendado por meu pai, que tem a honra de ser um dos seus amigos.

Athos reflectiu um instante.

‑ Só conheceis o Sr. de Tréville? ‑ perguntou.

‑ Só, senhor; só o conheço a ele.

‑ Nesse caso... ‑ continuou Athos, falando metade para si e metade para d'Artagnan ‑, nesse caso... se vos mato terei o ar de um fanfarrão!

‑ Nem por isso, senhor ‑ respondeu d'Artagnan com uma saudação a que não faltava dignidade. ‑ Nem por isso, uma vez que me dais a honra de desembainhar a espada contra mim com um ferimento que vos deve incomodar muito.

‑ Muito mesmo, dou‑vos a minha palavra de honra; e vós fizestes‑me um mal do diabo, devo dizer‑vos. Mas servir‑me‑ei da mão esquerda, como é meu hábito em tais circunstâncias. E não julgueis que vos faço um favor, pois esgrimo perfeitamente com ambas as mãos. Haverá até desvantagem para vós: um canhoto é muito incómodo para as pessoas que não estão preparadas. Lamento não vos ter informado mais cedo a tal respeito.

‑ Sois realmente, senhor ‑ disse d'Artagnan, inclinando‑se de novo ‑, de uma cortesia pela qual vos não posso estar mais reconhecido.

‑ Confundis‑me ‑ respondeu Athos, com o seu ar de gentil‑homem. ‑ Falemos portanto doutra coisa, peço‑vos, a menos que isso vos seja desagradável. Ah, como me magoastes! Tenho o ombro em brasa.

‑ Se me permitisses... ‑ começou d'Artagnan timidamente.

‑ O quê, senhor?

‑ Tenho um bálsamo miraculoso para os ferimentos, um bálsamo que me deu minha mãe e que já experimentei em mim mesmo.

‑ E então?

‑ E então estou certo de que em menos de três dias o bálsamo vos curaria, e passados três dias, quando estivésseis curado... Bom, senhor, seria sempre uma grande honra para mim defrontar‑vos.

D'Artagnan disse estas palavras com uma simplicidade que honrava a sua cortesia, sem causar nenhuma beliscadura à sua coragem.

‑ Por Deus, senhor ‑ disse Athos ‑, aí está uma proposta que me agrada, não porque a aceite, mas porque cheira à légua a gentil‑homem. Era assim que falavam e procediam os bravos do tempo de Carlos Magno, cujo exemplo todo o cavaleiro deve procurar seguir. Infelizmente, não estamos no tempo do grande imperador. Estamos no tempo do Sr. Cardeal, e daqui a três dias saber‑se‑ia que nos devemos bater, por mais bem guardado que estivesse o segredo, e impediriam o nosso combate. Mas, com a breca, quando chegarão esses vadios?! ‑ exclamou, referindo‑se às suas testemunhas.

‑ Se tendes pressa, senhor ‑ disse d'Artagnan a Athos com a mesma simplicidade com que um instante antes lhe propusera adiarem o duelo por três dias ‑, se tendes pressa e quereis despachar‑me imediatamente, não hesiteis, peço‑vos.

‑ Aí está mais uma palavra que me agrada ‑ declarou Athos, fazendo um gracioso sinal de cabeça a d'Artagnan. ‑ Não é de um homem sem miolos, mas é com certeza de um homem de coração. Senhor, aprecio os homens da vossa têmpera e estou certo de que se não nos matarmos um ao outro terei mais tarde verdadeiro prazer em conversar convosco. Esperemos esses cavalheiros, peço‑vos; tenho muito tempo e será mais correcto. Oh, aí vem um, creio!

Com efeito, o gigantesco Porthos começava a aparecer na extremidade da Rua de Vaugirard.

‑ O quê, a vossa primeira testemunha é o Sr. Porthos?! ‑ exclamou d'Artagnan.

‑ Pois é. E isso contraria‑vos?

‑ Não, de modo nenhum.

‑ E aí vem a segunda.

D'Artagnan virou‑se para o lado indicado por Athos e reconheceu Aramis.

‑ O quê, a vossa segunda testemunha é o Sr. Aramis?! ‑ exclamou em tom ainda mais estupefacto do que da primeira vez.

‑ Sem dúvida. Não sabeis que nunca nos vêem um sem os outros, e que nos chamam, entre os mosqueteiros e os guardas, na corte e na cidade, Athos, Porthos e Aramis ou os três inseparáveis? Mas como viestes de Dax ou de Pau...

‑ De Tarbes ‑ corrigiu d'Artagnan.

‑ ...é‑vos permitido ignorar este pormenor ‑ concluiu Athos.

‑ Palavra que os nomes vos foram bem dados, senhores ‑ declarou d'Artagnan ‑, e a minha aventura, se der alguma coisa que falar, provará pelo menos que a vossa união se não baseia de modo algum nos contrastes.

Entretanto, Porthos aproximara‑se e saudara Athos com a mão; depois, virando‑se para d'Artagnan, ficara como que atónito.

Digamos de passagem que mudara de boldrié e tirara a capa.

‑ Olá! Então que é isto?

‑ É com este senhor que me bato ‑ respondeu Athos, indicando d'Artagnan com a mão e cumprimentando‑o com o mesmo gesto.

‑ Também é com ele que me bato ‑ declarou Porthos.

‑ Mas só daqui a uma hora ‑ observou d'Artagnan.

‑ E eu também, é com este senhor que me bato ‑ disse Aramis, chegando por seu turno ao campo.

‑ Mas só daqui a duas horas ‑ esclareceu d'Artagnan, com a mesma calma.

‑ Mas por que te bates tu, Athos? ‑ perguntou Aramis.

‑ Palavra que não sei muito bem; ele magoou‑me no ombro... E tu, Porthos?

‑ Bom... bato‑me porque me bato ‑ respondeu Porthos, corando. Athos, que não perdia nada, viu passar um sorriso malicioso pelos

lábios do gascão.

‑ Tivemos uma discussão sobre indumentária ‑ disse o jovem.

‑ E tu, Aramis? ‑ perguntou Athos.

‑ Bato‑me por causa da teologia ‑ respondeu Aramis, fazendo sinal a d'Artagnan rogando‑lhe que mantivesse secreta a causa do seu duelo.

Athos viu passar segundo sorriso pelos lábios de d'Artagnan.

‑ Deveras? ‑ insistiu Athos.

‑ Sim, um ponto acerca de Santo Agostinho sobre o qual não estamos de acordo ‑ acrescentou o gascão.

‑ Decididamente, é um homem inteligente ‑ murmurou Athos.

‑ E agora que estais reunidos, senhores ‑ disse d'Artagnan ‑, permiti‑me que vos apresente as minhas desculpas.

À palavra desculpas, passou uma nuvem pela fronte de Athos, um sorriso altivo deslizou pelos lábios de Porthos e um sinal significativo foi a resposta de Aramis.

‑ Não me compreendestes, senhores ‑ prosseguiu d'Artagnan, levantando a cabeça, na qual brincava naquele momento um raio de sol que lhe dourava as linhas finas e ousadas. ‑ Peço‑vos desculpa no caso de não poder pagar a minha dívida a todos os três, porque o Sr. Athos tem o direito de ser o primeiro a matar‑me, o que tira muito do seu valor ao vosso crédito, Sr. Porthos, e torna o vosso quase nulo, Sr. Aramis. E agora, senhores, repito‑vos, desculpai‑me, mas apenas disto, e em guarda!

Após estas palavras, com o gesto mais cavalheiresco que se possa imaginar, d'Artagnan desembainhou a espada.

O sangue subira‑lhe à cabeça e naquele momento desembainharia a espada contra todos os mosqueteiros do reino com a mesma facilidade com que acabava de a desembainhar contra Athos, Porthos e Aramis.

Era meio‑dia e um quarto. O Sol estava no zénite e o local escolhido para teatro do duelo encontrava‑se exposto a todo o seu ardor.

‑ Está muito calor ‑ disse Athos, desembainhando por sua vez a espada ‑ e não posso despir o gibão, pois ainda há pouco senti a minha ferida sangrar e recearia incomodar este senhor mostrando‑lhe sangue que ele próprio me não tirou.

‑ Tendes razão, senhor ‑ disse d'Artagnan ‑, e tirado por outro ou por mim garanto‑vos que verei sempre com muito pesar o sangue de tão bravo gentil‑homem. Bater‑me‑ei portanto de gibão, como vós.

‑ Então, então ‑ interveio Porthos ‑, basta de cumprimentos e lembrai‑vos de que esperamos a nossa vez.

‑ Falai só por vós, Porthos, quando tiverdes de dizer semelhantes incongruências ‑ interrompeu‑o Aramis. ‑ Quanto a mim, acho as coisas que estes senhores dizem um ao outro muito bem ditas e absolutamente dignas de dois gentis‑homens.

‑ Quando quiserdes, senhor ‑ disse Athos, pondo‑se em guarda.

‑ Esperava as vossas ordens ‑ respondeu d'Artagnan, cruzando o ferro.

Mas as duas durindanas mal tinham acabado de ressoar ao tocarem‑se quando um grupo de guardas de Sua Eminência, comandados pelo Sr. de Jussac, apareceu à esquina do convento.

‑ Os guardas do cardeal! ‑ gritaram ao mesmo tempo Porthos e Aramis. ‑ Espadas na bainha, senhores! Espadas na bainha!

Mas era demasiado tarde. Os dois combatentes tinham sido vistos numa posição que não permitia duvidar das suas intenções.

‑ Olá! ‑ gritou Jussac, avançando para eles e fazendo sinal aos seus homens para o imitarem. ‑ Olá, mosqueteiros! Com que então a baterem‑se aqui?... E os edictos, para que servem?

‑ Sois muito generosos, Srs. Guardas ‑ disse Athos cheio de rancor, pois Jussac fora um dos agressores da antevéspera. ‑ Se vos víssemos bater‑vos, garanto‑vos que por nada deste mundo vos interromperíamos. Deixai‑nos portanto continuar e tereis prazer sem nenhum esforço...

‑ Senhores ‑ redarguiu Jussac ‑, é com grande pesar que vos declaro que a coisa é impossível. O nosso dever acima de tudo. Embainhai, pois, por favor, e acompanhai‑nos.

‑ Senhor ‑ respondeu Aramis, parodiando Jussac ‑, seria com grande prazer que obedeceríamos ao vosso gracioso convite, se isso dependesse de nós; mas infelizmente a coisa é impossível: o Sr. de Tréville proibiu‑no‑lo. Segui portanto o vosso caminho, que é o melhor que tendes a fazer.

Esta chacota exasperou Jussac.

‑ Obrigar‑vos‑emos a acompanhar‑nos se nos desobedecerdes ‑ replicou.

‑ Eles são cinco ‑ disse Athos a meia voz ‑, e nós somos apenas três; seremos mais uma vez batidos e teremos de morrer aqui, pois desde já declaro que não voltarei a aparecer vencido diante do capitão.

Então, Porthos e Aramis aproximaram‑se imediatamente uns dos outros, enquanto Jussac alinhava os seus soldados.

Esse instante bastou a d'Artagnan para tomar partido: estava ali um desses acontecimentos que decidem a vida de um homem, havia ali uma escolha a fazer entre o rei e o cardeal; uma vez feita essa escolha, era preciso defendê‑la. Lutar, isto é, desobedecer à lei, ou seja, arriscar a cabeça, quer dizer, arranjar de um momento para o outro, como inimigo, um ministro mais poderoso do que o próprio rei.

Foi isto que entreviu o jovem e, digamo‑lo em seu louvor, não hesitou um segundo. Virando‑se para Athos e para os seus amigos disse:

‑ Senhores, acrescentarei, se mo permitis, alguma coisa às vossas palavras. Dissestes que éreis apenas três, mas a mim parece‑me que somos quatro.

‑ Mas vós não sois dos nossos ‑ redarguiu Porthos.

‑ É verdade ‑ respondeu d'Artagnan ‑, não tenho o uniforme, mas tenho a alma. O meu coração é mosqueteiro, bem o sinto, senhor, e isso empolga‑me.

‑ Afastai‑vos, rapaz! ‑ gritou Jussac, que sem dúvida, pelos seus gestos e pela sua expressão, adivinhara as intenções de d'Artagnan. ‑Podeis retirar‑vos que nós consentimos. Salvai a pele. Vá, depressa.

D'Artagnan nem sequer se mexeu.

‑ Decididamente, sois um excelente rapaz ‑ disse Athos, apertando a mão ao jovem.

‑ Vamos, vamos, decidi‑vos! ‑ insistiu Jussac.

‑ Então, façamos qualquer coisa ‑ disseram Porthos e Aramis.

‑ O cavalheiro está cheio de generosidade ‑ troçou Athos.

Mas todos os três pensavam na juventude de d'Artagnan e temiam a sua inexperiência.

‑ Somos apenas três, um dos quais ferido, mais uma criança ‑ tornou Athos ‑, mas nem por isso se deixará de dizer que éramos quatro homens.

‑ Pois sim, mas recuar... ‑ observou Porthos.

‑ É difícil ‑ admitiu Athos. D'Artagnan compreendeu a sua irresolução.

‑ Senhores, experimentai‑me ‑ disse ‑ e juro‑vos por minha honra que não sairei daqui se formos vencidos.

‑ Como te chamas, meu bravo? ‑ perguntou Athos.

‑ D'Artagnan, senhor.

‑ Pois bem, Athos, Porthos, Aramis e d'Artagnan, em frente! ‑gritou Athos.

‑ Então, senhores, decidi‑vos ou não? ‑ gritou pela terceira vez Jussac.

‑ Está decidido, senhores ‑ respondeu Athos.

‑ E que partido tomais? ‑ perguntou Jussac.

‑ Vamos ter a honra de vos atacar ‑ respondeu Aramis, segurando no chapéu com uma das mãos e desembainhando a espada com a outra.

‑ Ah, resistis?! ‑ gritou Jussac.

‑ Com a breca, e isso admira‑vos?

E os nove combatentes precipitaram‑se uns contra os outros com uma fúria que não excluía certo método.

Athos encarregou‑se de um tal Cahusac, favorito do cardeal; Porthos de Biscarat, e Aramis viu‑se diante de dois adversários.

Quanto a d'Artagnan, encontrou‑se a terçar armas com o próprio Jussac.

O coração do jovem gascão pulsava como se lhe quisesse saltar do peito, não de medo, graças a Deus, de que não tinham nem sombra, mas sim de emulação. Batia‑se como um tigre enfurecido, girando dez vezes à volta do adversário e mudando vinte vezes de guarda e de terreno. Jussac era, como se dizia então, uma boa lâmina e praticara muito; no entanto, via‑se em palpos de aranha para se defender de um adversário que, ágil e saltitante, se desviava constantemente das regras estabelecidas, atacando por todos os lados ao mesmo tempo, mas sempre comportando‑se como um homem que tem o maior respeito pela sua epiderme.

Finalmente tal luta acabou por fazer perder a paciência a Jussac. Furioso por ser mantido em xeque por aquele que considerara uma criança, enervou‑se e começou a cometer erros. D'Artagnan, que à falta de prática possuía profunda teoria, redobrou de agilidade. Ansioso por terminar, Jussac quis vibrar um golpe terrível no adversário e carregou a fundo; mas este parou de prima e, enquanto Jussac se endireitava, deslizou como uma serpente por debaixo do seu ferro e atravessou‑lhe o corpo com a espada. Jussac tombou como uma massa.

D'Artagnan deitou então uma olhadela inquieta e rápida ao campo de batalha.

Aramis já matara um dos seus adversários; mas o outro perseguia‑o vivamente. Contudo, Aramis estava em boa situação e ainda se podia defender.

Biscarat e Porthos acabavam de dar uma estocada simultânea: Porthos recebera uma espadeirada num braço e Biscarat numa coxa. Mas como nem uma nem outra das feridas era grave, ainda esgrimiam com mais encarniçamento.

Athos, ferido de novo por Cahusac, empalidecia a olhos vistos, mas não arredava pé. Apenas mudara a espada de mão e agora batia‑se com a esquerda.

Segundo as leis do duelo da época, d'Artagnan podia acudir a qualquer; mas enquanto procurava com a vista qual dos seus companheiros necessitava do seu auxílio, surpreendeu um olhar de Athos. Esse olhar era de uma eloquência sublime: Athos mais depressa se deixaria matar do que pediria socorro; mas, sem ele querer, esse olhar também podia solicitar ajuda. D'Artagnan adivinhou‑o, deu um salto terrível e caiu sobre o flanco de Cahusac gritando:

‑ A mim, Sr. Guarda, ou mato‑vos!

Cahusac virou‑se; era tempo. Athos, a quem só sustinha a sua extrema coragem, caiu sobre um joelho.

‑ Por Deus ‑ gritou a d'Artagnan ‑, não o mateis, rapaz, suplico‑vos! Tenho umas velhas contas a ajustar com ele, quando estiver curado e de boa saúde. Desarmai‑o apenas, prendei‑lhe a espada. Isso... Bem, muito bem!

Esta exclamação era arrancada a Athos pela espada de Cahusac, que saltava a vinte passos dele. D'Artagnan e Cahusac correram ambos, um para a apanhar, o outro para se apoderar dela; mas d'Artagnan, mais lesto, chegou primeiro e pôs‑lhe o pé em cima.

Cahusac correu para o guarda que Aramis matara, tirou‑lhe a espada e quis ir ao encontro de d'Artagnan; mas encontrou no caminho Athos, que durante a pausa de um instante que lhe proporcionara d'Artagnan recuperara fôlego e que, com receio de que d'Artagnan lhe matasse o inimigo, queria recomeçar o combate.

D'Artagnan compreendeu que seria ofender Athos não o deixar acabar. Com efeito, poucos segundos depois Cahusac caiu com a garganta atravessada pela espada.

Ao mesmo tempo, Aramis apoiava a espada no peito do seu adversário derrubado e obrigava‑o a pedir mercê.

Restavam Porthos e Biscarat. Porthos entregava‑se a mil e uma fanfarronices, perguntando a Biscarat que horas seriam e dando‑lhe os parabéns pela companhia que o irmão acabava de obter no Regimento da Navarra; mas, por mais que gracejasse, não ganhava nada. Biscarat era um desses homens de ferro que só desistem mortos.

Contudo, era preciso acabar. A ronda podia aparecer e prender todos os combatentes, feridos ou não, realistas ou cardinalistas. Athos, Aramis e d'Artagnan rodearam Biscarat e intimaram‑no a render‑se. Apesar de estar só contra todos e de uma estocada lhe ter atravessado a coxa, Biscarat teimava em prosseguir; mas Jussac, que se erguera num cotovelo, gritou‑lhe que se rendesse. Biscarat era um gascão como d'Artagnan; fez orelhas moucas e limitou‑se a rir, e entre duas paradas encontrou tempo para desenhar com a ponta da espada um espaço no chão.

‑ Aqui ‑ disse parodiando um versículo da Bíblia ‑, aqui morrerá Biscarat, o único dos que estão com ele.

‑ Mas eles são quatro contra ti; acaba com isso, ordeno‑te.

‑ Ah, se tu o ordenas é outra coisa! ‑ redarguiu Biscarat. ‑ Como és meu cabo, devo obedecer.

E dando um salto para trás quebrou a espada no joelho, para não a entregar, atirou os bocados por cima do muro do convento e cruzou os braços assobiando uma cantiga cardinalista.

A bravura é sempre respeitada, mesmo num inimigo. Os mosqueteiros saudaram Biscarat com as espadas e embainharam‑nas. D'Artagnan fez o mesmo e depois, ajudado por Biscarat, o único que restava de pé, transportou para o pórtico do convento Jussac, Cahusac e o adversário de Aramis que só estava ferido. O quarto, como dissemos, estava morto. Depois tocaram a sineta e, levando quatro das cinco espadas dos adversários, dirigiram‑se ébrios de alegria para o palácio do Sr. de Tréville.

Viram‑nos passar de braço dado, ocupando toda a largura da rua e levando consigo todos os mosqueteiros que encontravam, de modo que no fim encabeçavam uma marcha triunfal. O coração de d'Artagnan pulava de entusiasmo. O jovem caminhava entre Athos e Porthos, que enlaçava carinhosamente.

‑ Se ainda não sou mosqueteiro ‑ disse aos seus novos amigos ao transpor a porta do palácio do Sr. de Tréville ‑, ao menos já fui recebido como aprendiz, não é verdade?

 

         SUA MAJESTADE O REI LUÍS XIII

O caso deu muito que falar. O Sr. de Tréville ralhou muito e em alta grita com os mosqueteiros e felicitou‑os em voz baixa; mas como não havia tempo a perder para prevenir o rei, o Sr. de Tréville apressou‑se a ir ao Louvre. Mas já era tarde; o rei estava fechado com o cardeal e disseram ao Sr. de Tréville que trabalhava e não podia receber naquele momento. À noite, o Sr. de Tréville compareceu no jogo do rei. O rei ganhava, e como Sua Majestade era muito avaro estava de excelente humor; por isso, assim que o rei viu Tréville de longe, chamou‑o:

‑ Vinde para aqui, Sr. Capitão; vinde que vos quero ralhar. Sabeis que Sua Eminência se me veio queixar dos vossos mosqueteiros, e com tal emoção que esta noite Sua Eminência está doente? Sim, senhor, são endiabrados, gente digna da forca, os vossos mosqueteiros!

‑ Não, Sire ‑ respondeu Tréville, que viu num relance de olhos como a coisa ia acabar. ‑ Não, muito pelo contrário, são boas criaturas, mansos como cordeiros e que só desejam uma coisa, garanto‑vos: que a sua espada só saia da bainha em serviço de Vossa Majestade. Mas, que quereis, os guardas do Sr. Cardeal estão constantemente a desafiá‑los e, por honra da própria corporação, os pobres rapazes são obrigados a defender‑se.

‑ Escutai o Sr. de Tréville, escutai‑o! ‑ atalhou o rei. ‑ Dir‑se‑ia que fala de uma comunidade religiosa! Na verdade, meu caro capitão, sinto vontade de vos tirar a vossa patente e de a dar a Mlle. de Chemerault, a quem prometi uma abadia. Mas não penseis que vos acreditarei assim sob palavra. Chamam‑me Luís, o Justo, Sr. de Tréville, e daqui a pouco, daqui a pouco veremos.

‑ É por confiar nessa justiça, Sire, que esperarei paciente e tranquilamente a decisão de Vossa Majestade.

‑ Esperai, senhor, esperai ‑ disse o rei ‑, que não vos farei esperar muito.

Com efeito, a sorte desandava, e como o rei começava a perder o que ganhara não lhe desagradava arranjar um pretexto para fazer ‑ que nos perdoem esta expressão de jogador, cuja origem confessamos ignorar ‑ para «fazer Carlos Magno(1)». O rei levantou‑se pois passado um instante e meteu na algibeira o dinheiro que tinha diante de si e cuja maior parte provinha dos seus ganhos.

‑ Las Vieuville ‑ disse ‑, tomai o meu lugar que preciso de falar com o Sr. de Tréville , acerca de um assunto importante. Ah, tinha oitenta luíses diante de mim! Entrai com a mesma importância para que aqueles que perderam não tenham de se queixar. A justiça acima de tudo.

 

*1. «Fazer Carlos Magno»: isto é, retirar‑se bruscamente do jogo depois de ganhar e sem conceder a desforra. (N. do T.)

 

Depois, virando‑se para o Sr. de Tréville e caminhando com ele para o vão de uma janela, continuou:

‑ Dizeis então, senhor, que foram os guardas de Sua Eminência que se meteram com os vossos mosqueteiros?

‑ Sim, Sire, como sempre.

‑ E como foi que isso aconteceu? Porque, como sabeis, meu caro capitão, um juiz tem de ouvir as duas partes.

‑ Meu Deus, da forma mais simples e natural! Três dos meus melhores soldados, que Vossa Majestade conhece de nome e de que por mais de uma vez apreciou a dedicação, e que tomam, posso afirmá‑lo ao rei, o seu serviço muito a peito; três dos meus melhores soldados, dizia, os Srs. Athos, Porthos e Aramis, tinham combinado um treino amigável com um jovem gascão que lhes recomendara nesta mesma manhã. O treino era para se realizar em Saint‑Germain, segundo creio, e tinham combinado encontrar‑se nos Carmelitas Descalços quando apareceram o Sr. de Jussac e os Srs. Cahusac, Biscarat e mais dois guardas, que não andavam decerto por ali em tão numerosa companhia sem má intenção contra os edictos...

‑ Oh, oh! ‑ exclamou o rei. ‑ Com isso fazeis‑me pensar que, sem dúvida, iam eles próprios para se bater.

‑ Não os acuso, Sire, mas deixo a Vossa Majestade apreciar que poderiam ir fazer cinco homens armados a um lugar tão deserto como são os arredores do convento dos Carmelitas.

‑ Sim, tendes razão, Tréville; tendes razão.

‑ Então, quando viram os meus mosqueteiros mudaram de ideia e esqueceram o seu rancor particular pelo rancor da corporação; porque Vossa Majestade não ignora que os mosqueteiros, que são do rei e apenas do rei, são os inimigos naturais dos guardas, que estão ao serviço do Sr. Cardeal.

‑ Pois sim, Tréville, pois sim ‑ disse o rei melancolicamente ‑mas é muito triste, podeis crer, ver assim dois partidos em França, duas cabeças na realeza. Mas tudo isso acabará, Tréville, tudo isso acabará. Dizeis portanto que os guardas se meteram com os mosqueteiros?

‑ Digo que é provável que as coisas se tenham passado assim, mal não juro, Sire. Sabeis como a verdade é difícil de descobrir, a menos que se seja dotado desse instinto admirável que levou a cognominar Luís XIII de o Justo...

‑ Tendes razão, Tréville. Mas os vossos mosqueteiros não estavam sós; havia com eles um garoto.

‑ Pois havia, Sire, e um homem ferido, de modo que três mosqueteiros do rei, um dos quais ferido, e um garoto, não só enfrentaram cinco dos mais terríveis guardas do Sr. Cardeal, como ainda derrubaram quatro.

‑ Mas isso foi uma vitória! ‑ exclamou o rei todo radiante. ‑ Uma vitória completa!

‑ É verdade, Sire; tão completa como a do Ponte de Cê.

‑ Quatro homens, um dos quais ferido, e um garoto, dizeis?

‑ Um jovem ainda, mas que se comportou tão dignamente na ocasião que tomo a liberdade de o recomendar a Vossa Majestade.

‑ Como se chama?

‑ D'Artagnan, Sire. É filho de um dos meus mais velhos amigos; o filho de um homem que andou com o vosso pai, de gloriosa memória, na guerra de guerrilha.

‑ E dizeis que se portou bem, esse jovem? Contai‑me, Tréville; bem sabeis que aprecio os relatos de guerra e de combate.

E o rei Luís XIII cofiou orgulhosamente o bigode e pôs a mão na anca.

‑ Sire ‑ prosseguiu Tréville ‑, como já vos disse, o Sr. d'Artagnan é quase uma criança, e como não tem a honra de ser mosqueteiro estava vestido de burguês. Os guardas do Sr. Cardeal, reconhecendo a sua grande juventude e além disso que era estranho à corporação, convidaram‑no a retirar‑se antes de atacarem.

‑ Então, bem vedes, Tréville ‑ interrompeu‑o o rei ‑, que foram eles que atacaram.

‑ É verdade, Sire: assim já não há dúvida. Intimaram‑no pois a retirar‑se, mas ele respondeu que era mosqueteiro de alma e coração e dedicado a Sua Majestade, e que portanto ficaria com os Srs. Mosqueteiros.

‑ Bravo rapaz! ‑ murmurou o rei.

‑ E de facto ficou com eles; e Vossa Majestade tem ali um firme campeão, pois foi ele que deu a Jussac a terrível estocada que tanto irritou o Sr. Cardeal.

‑ Foi ele que feriu Jussac?! ‑ exclamou o rei. ‑ Ele, uma criança?... É impossível, Tréville.

‑ É como tenho a honra de dizer a Vossa Majestade.

‑ Jussac, uma das primeiras lâminas do reino!

‑ Pois encontrou o seu mestre, Sire.

‑ Quero ver esse rapaz, Tréville, quero vê‑lo, e se pudermos fazer alguma coisa por ele, fá‑la‑emos.

‑ Quando se dignará Vossa Majestade recebê‑lo?

‑ Amanhã ao meio‑dia, Tréville.

‑ Traga‑o sozinho?

‑ Não, trazei todos os quatro. Quero agradecer‑lhes ao mesmo tempo; os homens dedicados são raros, Tréville, e devemos recompensar a dedicação.

‑ Ao meio‑dia, Sire, estaremos no Louvre.

‑ Ah, pela escada pequena, Tréville, pela escada pequena! É inútil que o cardeal saiba...

‑ Pois sim, Sire.

‑ Compreendeis, Tréville, um edicto é sempre um edicto. No fim de contas os duelos são proibidos.

‑ Mas este recontro, Sire, sai inteiramente das condições habituais de um duelo. Foi uma rixa, e a prova é que eram cinco guardas do cardeal contra os meus três mosqueteiros e o Sr. d'Artagnan.

‑ É certo ‑ admitiu o rei. ‑ Mas não importa, Tréville, vinde à mesma pela escada pequena.

Tréville sorriu. Mas como era já muito para ele ter obtido daquela criança que se revoltasse contra o seu mestre, saudou respeitosamente o rei e com sua licença despediu‑se.

Os três mosqueteiros foram prevenidos na mesma noite da honra que lhes tinha sido concedida. Como conheciam havia muito tempo o rei, não ficaram muito excitados; mas d'Artagnan, com a sua imaginação gascã, viu nisso a sua fortuna futura e passou a noite entregue a sonhos dourados. Por isso, logo às oito horas da manhã estava em casa de Athos.

D'Artagnan encontrou o mosqueteiro completamente vestido e pronto para sair. Como a recepção do rei era só ao meio‑dia, combinara com Porthos e Aramis irem jogar uma partida de péla numa casa de jogo situada nas imediações das cavalariças do Luxemburgo. Athos convidou d'Artagnan a acompanhá‑los e este, apesar da sua ignorância do jogo, que nunca jogara, aceitou, visto não saber em que empregar o tempo desde as nove horas da manhã, que ainda eram, até ao meio‑dia.

Os dois mosqueteiros já tinham chegado e treinavam‑se um com o outro. Athos, que era fortíssimo em todos os exercícios corporais, passou com d'Artagnan para o lado oposto e desafiou‑os. Mas ao primeiro movimento que fez, embora jogasse com a mão esquerda, compreendeu que o seu ferimento era ainda demasiado recente para lhe permitir semelhante exercício. D'Artagnan ficou portanto sozinho, e como declarasse ser demasiado inexperiente para jogar uma partida em regra, continuaram apenas a trocar bolas sem contar os pontos. Mas uma das bolas, lançada pelo punho hercúleo de Porthos, passou tão perto da cara de d'Artagnan que este pensou que, se em vez de lhe passar ao lado a bola lhe tivesse acertado, a sua audiência estaria provavelmente perdida, atendendo a que lhe seria de todo impossível apresentar‑se perante o rei. Ora, como dessa audiência, na sua imaginação gascã, dependia todo o seu futuro, saudou delicadamente Porthos e Aramis e declarou que só voltaria a jogar quando estivesse em condições de os enfrentar e foi sentar‑se junto da corda, na galeria.

Infelizmente para d'Artagnan entre os espectadores encontrava‑se um guarda de Sua Eminência, o qual, ainda muito excitado com a derrota dos camaradas, ocorrida apenas na véspera, jurara a si mesmo aproveitar a primeira oportunidade para se vingar. Julgou pois que essa oportunidade chegara e dirigiu‑se nestes termos ao seu vizinho:

‑ Não me admira que o rapaz tenha medo de uma bola; é sem dúvida aprendiz de mosqueteiro.

D'Artagnan virou‑se como se lhe tivesse mordido uma serpente e olhou fixamente para o guarda que acabara de proferir palavras tão insolentes.

‑ Por Deus ‑ prosseguiu o outro, cofiando insolentemente o bigode ‑, podeis olhar‑me à vontade, meu pequeno, que o que disse está dito!

‑ E como o que dissestes foi suficientemente claro para que as vossas palavras necessitem de explicação ‑ respondeu d'Artagnan em voz baixa ‑, peço‑vos que me acompanheis.

‑ Quando? ‑ perguntou o guarda no mesmo ar zombeteiro.

‑ Imediatamente, por favor.

‑ Sabeis quem sou, decerto?

‑ Ignoro‑o completamente e é coisa que não me preocupa muito.

‑ Pois fazeis mal, porque se soubésseis o meu nome talvez tivésseis menos pressa.

‑ Como vos chamais?

‑ Bernajoux, para vos servir.

‑ Pois bem, Sr. Bernajoux ‑ disse tranquilamente d'Artagnan ‑, vou esperar‑vos à porta.

‑ Ide, senhor, que eu acompanho‑vos.

‑ Não vos apresseis demasiado, senhor, para que se não veja que saímos juntos; decerto compreendeis que, para o que vamos fazer, demasiada gente incomodar‑nos‑ia.

‑ Muito bem ‑ respondeu o guarda, admirado por o seu nome não ter produzido qualquer efeito no jovem.

De facto, o nome de Bernajoux era conhecido de toda a gente, talvez com a única excepção de d'Artagnan, pois era daqueles que figuravam com mais frequência nas rixas diárias que todos os edictos do rei e do cardeal não conseguiam reprimir.

Porthos e Aramis estavam tão ocupados com a sua partida, e Athos olhava‑os com tanta atenção, que nem sequer deram pela saída do jovem companheiro, o qual, tal como dissera ao guarda de Sua Eminência, parou à porta. Um instante depois, o outro desceu por seu turno. Como d'Artagnan não tinha tempo a perder, visto a audiência do rei estar marcada para o meio‑dia, olhou à sua volta e vendo que a rua estava deserta disse ao seu adversário:

‑ Palavra que tendes sorte, apesar de vos chamardes Bernajoux, em vos irdes bater apenas com um aprendiz de mosqueteiro; mas podeis estar descansado que lutarei o melhor que puder. Em guarda!

‑ Mas ‑ redarguiu aquele que d'Artagnan provocava nestes termos ‑ parece‑me que o local é bastante mal escolhido e que estaríamos melhor atrás da Abadia de Saint‑Germain ou no Pré‑aux‑Clercs.

‑ O que dizeis é muito sensato ‑ respondeu d'Artagnan. ‑ Infelizmente, disponho de pouco tempo, pois tenho um encontro ao meio‑dia em ponto. Em guarda, portanto, senhor, em guarda!

Bernajoux não era homem a quem fosse preciso dirigir duas vezes semelhante intimação. No mesmo instante a espada brilhou‑lhe na mão e ele carregou a fundo sobre o adversário que, graças à grande juventude deste, esperava intimidar.

Mas d'Artagnan fizera na véspera a sua aprendizagem e, ainda orgulhoso da sua vitória e deslumbrado com o seu futuro valimento, estava resolvido a não ceder um passo. Por isso, os dois ferros encontraram‑se empenhados na luta até à guarda, e como d'Artagnan sustentasse firme a sua posição foi o seu adversário que deu um passo atrás. Mas d'Artagnan aproveitou o momento em que, nesse movimento, o ferro de Bernajoux se desviou da linha, soltou‑se, carregou e tocou o adversário no ombro. D'Artagnan deu por sua vez imediatamente um passo atrás e levantou a espada; mas Bernajoux gritou‑lhe que não era nada e, carregando cegamente sobre ele, foi ele próprio cravar‑se na espada do adversário. Todavia, como não caía nem se declarava vencido, mas apenas se dirigia para os lados do palácio do Sr. de La Trémouille, ao serviço do qual tinha um parente, d'Artagnan, ignorando a gravidade da última ferida que o seu adversário recebera, atacava‑o vivamente, e sem dúvida acabaria com ele com terceira estocada se o barulho que vinha da rua não chegasse ao jogo da péla e dois amigos do guarda, que o tinham ouvido trocar algumas palavras com d'Artagnan e visto sair depois dessas palavras, não se precipitassem de espada em punho para fora da casa de jogo e caíssem sobre o vencedor. Mas imediatamente Athos, Porthos e Aramis apareceram por sua vez, e no momento em que os dois guardas atacavam o seu jovem camarada obrigaram‑nos a virar‑se. Nesse momento, Bernajoux caiu; e como os guardas eram apenas dois contra quatro, desataram a gritar: «A nós, do palácio de La Trémouille!» Perante estes gritos, tudo o que estava no palácio saiu e atirou‑se aos quatro companheiros, que da sua parte se puseram a gritar: «A nós, mosqueteiros!»

Este grito era habitualmente ouvido; porque toda a gente sabia que os mosqueteiros eram inimigos de Sua Eminência e os estimava pelo ódio que votavam ao cardeal. Por isso os guardas das outras companhias, exceptuando as pertencentes ao duque Vermelho, como lhe chamava Aramis, tomavam em geral partido nesta espécie de rixas pelos mosqueteiros do rei. De três guardas da companhia do Sr. dos Essarts que passavam dois correram portanto em socorro dos quatro companheiros, enquanto o outro corria ao palácio do Sr. de Tréville gritando: «A nós, mosqueteiros, a nós!» Como de costume, o palácio do Sr. de Tréville estava cheio de soldados dessa arma, que acorreram em auxílio dos seus camaradas. A confusão generalizou‑se, mas a força estava do lado dos mosqueteiros. Os guardas do cardeal e os homens do Sr. de La Trémouille retiraram‑se para o palácio, cujas portas fecharam mesmo a tempo de impedir que os seus inimigos entrassem juntamente com eles. Quanto ao ferido, fora sem demora transportado e, como dissemos, em muito mau estado.

A agitação estava no auge entre os mosqueteiros e os seus aliados e já se deliberava se, para castigar a insolência dos criados do Sr. de La Trémouille ao atacarem os mosqueteiros do rei, não seria melhor deitar fogo ao palácio. A proposta fora feita e acolhida com entusiasmo, quando felizmente deram onze horas. D'Artagnan e os companheiros lembraram‑se da sua audiência e como lamentariam que se praticasse tão bela façanha sem eles conseguiram acalmar os ânimos. Limitaram‑se portanto a atirar algumas pedras às portas, mas estas resistiram. Então, desistiram; aliás, aqueles que deviam assumir o papel de chefes da empresa tinham havia pouco deixado o grupo e dirigiam‑se para o palácio do Sr. de Tréville, que os esperava, já ao corrente da batalha.

‑ Depressa, ao Louvre! ‑ disse ele. ‑ Ao Louvre sem perda de um instante, e procuremos ver o rei antes de ser prevenido pelo cardeal. Contar‑lhe‑emos a coisa como uma continuação do caso de ontem e ambos passarão juntos.

Acompanhado dos quatro jovens, o Sr. de Tréville dirigiu‑se portanto para o Louvre; mas com grande espanto do capitão de mosqueteiros anunciaram‑lhe que o rei fora caçar veados para a floresta de Saint‑Germain. O Sr. de Tréville fez com que lhe repetissem duas vezes a notícia e de ambas as vezes os seus companheiros viram o rosto nublar‑se‑lhe.

‑ Sua Majestade já ontem projectava ir a essa caçada? ‑ perguntou.

‑ Não, Excelência ‑ respondeu o criado de quarto. ‑ Foi o monteiro‑mor que lhe veio anunciar esta manhã que tinham isolado esta noite um veado em sua intenção. Primeiro respondeu que não ia, mas depois não pôde resistir ao prazer que lhe prometia a caçada e depois do jantar partiu.

‑ O rei viu o cardeal? ‑ perguntou o Sr. de Tréville.

‑ Muito provavelmente ‑ respondeu o criado de quarto ‑, pois vi esta manhã os cavalos atrelados ao coche de Sua Eminência, perguntei aonde ia e responderam‑me: «A Saint‑Germain».

‑ Estamos elucidados ‑ disse o Sr. de Tréville. ‑ Meus senhores, falarei com o rei esta noite; mas quanto a vós, não vos aconselho a arriscar‑vos por aí.

O aviso era muito razoável e sobretudo vinha de um homem que conhecia muito bem o rei, e por isso os quatro rapazes não tentaram sequer discordar. O Sr. de Tréville convidou‑os portanto a irem para suas casas e esperarem as suas notícias.

Ao entrar no seu palácio o Sr. de Tréville pensou que precisava de ganhar tempo e para isso devia ser o primeiro a queixar‑se. Assim, mandou um dos seus criados ao palácio do Sr. de La Trémouille com uma carta em que lhe solicitava que pusesse na rua o guarda do Sr. Cardeal e repreendesse os seus criados pela audácia que tinham tido em fazer uma surtida contra os mosqueteiros. Mas o Sr. de La Trémouille, já prevenido pelo seu escudeiro, de quem, como sabemos, Bernajoux era parente, respondeu‑lhe que não era nem ao Sr. de Tréville nem aos seus mosqueteiros que cabia o direito de se queixarem, mas muito pelo contrário a ele, a quem os mosqueteiros tinham atacado a criadagem e haviam querido deitar fogo ao palácio. Ora, como o debate entre os dois fidalgos poderia eternizar‑se, visto naturalmente cada um se obstinar na sua opinião, o Sr. de Tréville recorreu a um expediente destinado a acabar com tudo: foi procurar pessoalmente o Sr. de La Trémouille.

Dirigiu‑se portanto para o seu palácio e fez‑se anunciar.

Os dois fidalgos cumprimentaram‑se cortesmente, pois se não havia amizade entre eles, havia pelo menos estima. Ambos eram pessoas de coração e de honra; e como o Sr. de La Trémouille, por ser protestante e ver raramente o rei não era de nenhum partido, não usava em geral nas suas relações sociais de nenhuma prevenção.

Desta vez, porém, o seu acolhimento, apesar de cortês, foi mais frio do que de costume.

‑ Senhor ‑ disse o Sr. de Tréville ‑, julgamos ter motivos de queixa um do outro e por isso vim pessoalmente para esclarecermos juntos o caso.

‑ Com muito gosto ‑ respondeu o Sr. de La Trémouille. ‑ Mas previno‑vos de que estou bem informado e de que toda a culpa é dos vossos mosqueteiros.

‑ Sois um homem demasiado justo e razoável, senhor ‑ disse o Sr. de Tréville ‑, para não aceitardes a proposta que vou fazer.

‑ Dizei, senhor; escuto‑vos.

‑ Como se encontra o Sr. Bernajoux, o parente do vosso escudeiro?

‑ Mas, senhor, muito mal. Além da estocada que recebeu no braço, e que não é muito perigosa, ainda recebeu outra que lhe atravessou o pulmão, de modo que o médico poucas esperanças lhe dá.

‑ Mas o ferido conservou os sentidos?

‑ Perfeitamente. ‑Fala?

‑ Com dificuldade, mas fala.

‑ Nesse caso, senhor, vamos ter com ele e supliquemos‑lhe em nome de Deus, diante do qual talvez vá ser chamado, que diga a verdade. Tomo‑o por juiz na sua própria causa, senhor, e acreditarei naquilo que ele disser.

O Sr. de Trémouille reflectiu um instante e depois, como lhe era difícil fazer uma proposta mais razoável, aceitou.

Desceram ambos ao quarto onde estava o ferido. Este, ao ver entrar os dois nobres senhores que vinham visitá‑lo, tentou erguer‑se na cama, mas estava demasiado fraco e, esgotado pelo esforço que fez, caiu quase sem sentidos.

O Sr. de La Trémouille aproximou‑se da cama e fê‑lo respirar sais que o restituiram à vida. Então o Sr. de Tréville, não querendo que o pudessem acusar de ter influenciado o doente, convidou o Sr. de La Trémouille a interrogá‑lo ele próprio.

O que o Sr. de Tréville previra aconteceu. Colocado entre a vida e a morte como estava Bernajoux, nem sequer lhe passou pela cabeça calar um instante a verdade, e contou aos dois fidalgos as coisas exactamente como se tinham passado.

Era tudo o que queria o Sr. de Tréville. Desejou a Bernajoux rápida convalescença, despediu‑se do Sr. de La Trémouille, regressou ao seu palácio e mandou prevenir imediatamente os quatro amigos de que os esperava para jantar.

O Sr. de Tréville recebia pessoas de alta categoria, todas anticardi‑nalistas. Compreende‑se portanto que a conversa girasse durante todo o jantar à roda dos dois desaires que acabavam de experimentar os guardas de Sua Eminência. Ora, como d'Artagnan fora o herói das duas jornadas, foi sobre ele que caíram todas as felicitações, que Athos, Porthos e Aramis lhe cederam não só como bons camaradas, mas também como homens que já tinham tido bastantes vezes o seu momento de glória para não lhe deixarem o dele.

Por volta das seis horas o Sr. de Tréville anunciou que tinha de ir ao Louvre; mas como a hora da audiência concedida por Sua Majestade passara, em vez de exigir a entrada pela escada pequena instalou‑se com os quatro jovens na antecâmara. O rei ainda não regressara da caça. Os jovens esperavam havia apenas meia hora, misturados com a multidão de cortesãos, quando todas as portas se abriram e anunciaram Sua Majestade.

Perante tal anúncio, d'Artagnan sentiu‑se estremecer até à medula dos ossos. O instante que se ia seguir devia, segundo todas as probabilidades, decidir do resto da sua vida. Por isso os seus olhos fixaram‑se com angústia na porta por onde devia entrar o rei.

Luis XIII apareceu, à frente; estava em traje de caça, ainda coberto de pó, de grandes botas e chicote na mão. No primeiro relance de olhos d'Artagnan descobriu que a tempestade bramia no espírito do rei.

Semelhante disposição, por mais visível que fosse em Sua Majestade, não impediu os cortesãos de se alinharem à sua passagem. Nas antecâmaras reais é preferível ser visto com um olhar irritado do que não ser visto de todo. Os três mosqueteiros não hesitaram pois em dar um passo em frente, enquanto d'Artagnan, pelo contrário, permanecia escondido atrás deles. Mas embora o rei conhecesse pessoalmente Athos, Porthos, e Aramis, passou por eles sem os olhar, sem lhes falar e como se nunca os tivesse visto. Quanto ao Sr. de Tréville, quando os olhos do rei se detiveram um instante nele sustentou esse olhar com tanta firmeza que foi o rei quem desviou a vista; em seguida, resmungando, Sua Majestade entrou nos seus aposentos.

‑ Os negócios vão mal ‑ disse Athos, sorrindo ‑ e ainda não será desta vez que nos farão cavaleiros da ordem.

‑ Esperai aqui dez minutos ‑ recomendou‑lhes o Sr. de Tréville ‑ e se ao fim de dez minutos não me virdes sair, regressai ao meu palácio, pois será inútil esperardes mais tempo.

Os quatro jovens esperaram dez minutos, um quarto de hora, vinte minutos; e vendo que o Sr. de Tréville não reaparecia, saíram muito inquietos com o que estaria a acontecer.

O Sr. de Tréville entrara ousadamente no gabinete do rei e encontrara Sua Majestade de péssimo humor, sentado num cadeirão e a bater nas botas com o cabo do chicote, o que não o impedira de lhe pedir com a maior fleuma notícias da sua saúde.

‑ Más, senhor, más ‑ respondeu o rei. ‑ Aborreço‑me.

Era com efeito a pior doença de Luis XIII, que muitas vezes pegava num cortesão, levava‑o para uma janela e dizia‑lhe: «Senhor, aborreçamo‑nos juntos.»

‑ Como, Vossa Majestade aborrece‑se?! ‑ exclamou o Sr. de Tréville. ‑ Mas não teve hoje o prazer da caça?

‑ Belo prazer, senhor! Pela minha salvação, tudo degenera e já não sei se é a caça que perdeu o cheiro ou os cães que perderam o faro. Lançámos um veado de dez galhos, perseguimo‑lo durante seis horas e quando estava prestes a cair, quando Saint‑Simon levava já a trompa à boca para tocar o halai, zás!, toda a matilha muda de direcção e atira‑se a um veado novo. Vereis que acabarei por ser obrigado a renunciar à caça de montaria como já renunciei à caça ao voo. Ah, sou um rei muito infeliz, Sr. de Tréville! Só tinha um gerifalto e esse morreu anteontem,

‑ Com efeito, Sire, compreendo o vosso desespero, pois a infelicidade é grande; mas ainda vos resta, parece‑me, bom número de falcões, de gaviões e de esmerilhões.

‑ E nem um homem para os ensinar; os falcoeiros vão desaparecendo e só eu conheço a arte da montaria. Depois de mim tudo acabará e caçar‑se‑á com armadilhas de várias espécies. Se ainda tivesse tempo de formar discípulos!... Mas não, aí está o Sr. Cardeal que não me dá um instante de repouso, que me fala da Espanha, que me fala da Áustria, que me fala da Inglaterra! Ah, a propósito do Sr. Cardeal, Sr. de Tréville, estou descontente convosco!

O Sr. de Tréville esperava que o rei abordasse assim o assunto. Conhecia‑o de longa data e compreendera que todos os seus queixumes não passavam de um prefácio, de uma espécie de excitação para se encorajar a si mesmo, e que era ali que queria chegar finalmente.

‑ E em que tive a infelicidade de desagradar a Vossa Majestade? ‑ perguntou o Sr. de Tréville, fingindo o mais profundo espanto.

‑ É assim que vos desempenhais do vosso cargo, senhor? ‑ continuou o rei sem responder directamente à pergunta do Sr. de Tréville. ‑ Foi para isso que vos nomeei capitão dos meus mosqueteiros, para que eles assassinem um homem, ponham todo um bairro em alvoroço e queiram incendiar Paris sem dizerdes nada? Mas se calhar ‑ continuou o rei ‑ decerto precipito‑me a acusar‑vos, sem dúvida os perturbadores estão na prisão e vindes anunciar‑me que foi feita justiça...

‑ Sire ‑ respondeu tranquilamente o Sr. de Tréville ‑, venho, ao contrário, pedir‑vo‑la.

‑ E contra quem? ‑ insurgiu‑se o rei.

‑ Contra os caluniadores ‑ respondeu o Sr. de Tréville.

‑ Essa agora é nova! ‑ redarguiu o rei. ‑ Não me venhais dizer que os vossos três malditos mosqueteiros, Athos, Porthos e Aramis, e o vosso cadete do Béarn, se não atiraram como loucos ao pobre Bernajoux e não o maltrataram de tal forma que é provável que esteja a dar a alma ao Criador neste momento! Não me digas depois que não cercaram o palácio do duque de La Trémouille e o não quiseram incendiar! O que talvez não tivesse sido uma grande desgraça em tempo de guerra, visto ser um ninho de huguenotes, mas em tempo de paz é um desagradável exemplo. Dizei, ides negar tudo isto?

‑ E quem vos fez esse belo relato, Sire? ‑ perguntou tranquilamente o Sr. de Tréville.

‑ Quem me fez este belo relato, senhor? E quem queríeis que fosse a não ser aquele que vela enquanto durmo, que trabalha enquanto me divirto, que dirige tudo dentro e fora do reino, tanto em França como na Europa?

‑ Vossa Majestade quer falar de Deus, sem dúvida ‑ observou o Sr. de Tréville ‑, pois não conheço ninguém mais poderoso do que Vossa Majestade a não ser Deus.

‑ Não, senhor; refiro‑me ao sustentáculo do Estado, ao meu único servidor, ao meu único amigo, ao Sr. Cardeal.

‑ Sua Eminência não é Sua Santidade, Sire.

‑ Que quereis dizer com isso, senhor?

‑ Que só o papa é infalível e que essa infalibilidade não se estende aos cardeais.

‑ Quereis dizer que me engana, quereis dizer que me atraiçoa. Acusai‑o então. Vamos, dizei, confessai francamente que o acusais.

‑ Não, Sire; mas digo que se engana a si mesmo; digo que foi mal informado; digo que teve pressa de acusar os mosqueteiros de Vossa Majestade, para com os quais é injusto, e que não foi beber as suas informações em boas fontes.

‑ A acusação vem do Sr. de La Trémouille, do próprio duque. Que respondeis a isto?

‑ Poderia responder, Sire, que se trata de pessoa demasiado interessada na questão para ser uma testemunha imparcial; mas longe disso, Sire, conheço o duque como um leal gentil‑homem e confiarei nele, mas com uma condição, Sire.

‑ Qual?

‑ Que Vossa Majestade o mande chamar e o interrogue pessoalmente, em particular, sem testemunhas, e que Vossa Majestade me voltará a receber assim que despedir o duque.

‑ Seja! ‑ concordou o rei. ‑ E acreditareis no que disser o Sr. de La Trémouille?

‑ Acreditarei, Sire.

‑ Aceitareis a sua sentença?

‑ Sem dúvida.

‑ E submeter‑vos‑eis às reparações que exigir?

‑ Absolutamente.

‑ La Chesnaye! ‑ chamou o rei. ‑ La Chesnaye!

O criado de quarto de confiança de Luís XIII, que se encontrava sempre à porta, entrou.

‑ La Chesnaye ‑ disse o rei ‑, que vão imediatamente buscar‑me o Sr. de La Trémouille; quero falar‑lhe esta noite.

‑ Vossa Majestade dá‑me a sua palavra de que não verá ninguém entre o Sr. de La Trémouille e eu?

‑ Ninguém, palavra de gentil‑homem.

‑ Nesse caso, até amanhã, Sire.

‑ Até amanhã, senhor.

‑ A que horas deseja Vossa Majestade receber‑me?

‑ À hora que quiserdes.

‑ Mas se vier demasiado cedo receio acordar Vossa Majestade...

‑ Acordar‑me? Mas eu durmo? Já não durmo, senhor; sonho apenas algumas vezes. Vinde pois tão cedo quanto queirais, às sete horas. Mas acautelai‑vos se os vossos mosqueteiros forem culpados!

‑ Se os meus mosqueteiros forem culpados, Sire, serão postos nas mãos de Vossa Majestade, que disporá deles conforme entender. Vossa Majestade ordena mais alguma coisa? Dizei, estou pronto a obedecer‑vos.

‑ Não, senhor, não, e não foi sem razão que me cognominaram Luís, o Justo. Até amanhã, senhor, até amanhã.

‑ Deus guarde até lá Vossa Majestade!

Se o rei pouco dormiu, o Sr. de Tréville ainda dormiu pior. Mandara avisar naquela mesma noite os seus três mosqueteiros e o seu companheiro para estarem no palácio às seis e meia da manhã. Levou‑os consigo sem nada lhes garantir, sem nada lhes prometer, e não lhes ocultou que o valimento deles e mesmo o seu dependiam de um lance de dados.

Chegados ao fundo da escada pequena mandou‑os esperar. Se o rei continuasse irritado contra eles, retirar‑se‑iam sem ser vistos; se o rei consentisse em os receber, mandá‑los‑ia chamar.

Quando chegou à antecâmara particular do rei o Sr. de Tréville encontrou La Chesnaye que lhe disse que não tinham encontrado o duque de La Trémouille na véspera à noite no seu palácio, que regressara demasiado tarde para se apresentar no Louvre, que acabava de chegar e estava naquele momento com o rei.

Esta circunstância agradou muito ao Sr. de Tréville, pois assim podia estar certo de que nenhuma sugestão estranha se insinuaria entre o depoimento do Sr. de La Trémouille e ele.

Com efeito, passados apenas dez minutos a porta do gabinete abriu‑se e o Sr. de Tréville viu sair o duque de La Trémouille, que se aproximou dele e lhe disse:

‑ Sr. de Tréville, Sua Majestade mandou‑me chamar para saber como se tinham passado as coisas ontem de manhã no meu palácio. Contei‑lhe a verdade, isto é, que a culpa fora dos meus criados e que estava pronto a apresentar‑vos as minhas desculpas. E já que vos encontro, dignai‑vos recebê‑las e considerar‑me sempre um dos vossos amigos.

‑ Sr. Duque ‑ respondeu o Sr. de Tréville ‑, tinha tanta confiança na vossa lealdade que não quis junto de Sua Majestade outro defensor além de vós. Vejo que não me enganei e congratulo‑me por ainda haver em França um homem de quem se possa dizer o que disse de vós, sem nos enganarmos.

‑ Pronto, pronto! ‑ interveio o rei, que escutara todos estes cumprimentos entre as duas portas. ‑ Dizei‑lhe apenas, Tréville, uma vez que pretende ser um dos vossos amigos, que eu também gostaria de ser dos seus, mas que ele me despreza; que há quase três anos o não via e que só o vejo quando o mando chamar. Dizei‑lhe tudo isto da minha parte, pois estas são das coisas que um rei não pode dizer pessoalmente.

‑ Obrigado, Sire, obrigado ‑ respondeu o duque. ‑ Mas que Vossa Majestade acredite que não são aqueles, e não digo isto pelo Sr. de Tréville, que não são aqueles que vê a toda a hora do dia que lhe são mais dedicados.

‑ Ah, ouvistes o que disse! Tanto melhor, duque, tanto melhor ‑ disse o rei, avançando até fora da porta. ‑ Então, Tréville, onde estão os vossos mosqueteiros? Disse‑vos anteontem que mos trouxesses, porque não o fizestes?

‑ Estão lá em baixo, Sire, e com vossa licença La Chesnaye irá dizer‑lhes que subam.

‑ Sim, sim, que venham imediatamente; estão a ser oito horas e às nove espero uma visita. Ide, Sr. Duque, e voltai, sobretudo. Entrai, Tréville.

O duque cumprimentou e saiu. No momento em que abria a porta, os três mosqueteiros e d'Artagnan, acompanhados por La Chesnaye, apareciam ao cimo da escada.

‑ Vinde, meus bravos ‑ disse o rei ‑, vinde; tenho de vos ralhar. Os mosqueteiros aproximaram‑se e inclinaram‑se; d'Artagnan ia atrás.

‑ Como diabo ‑ continuou o rei ‑ conseguistes os quatro pôr fora de combate em dois dias sete guardas de Sua Eminência? É demasiado, senhores, é demasiado... Por esse andar, Sua Eminência será obrigado a renovar a sua companhia no espaço de três semanas e eu terei de mandar aplicar os edictos com todo o rigor. Um por acaso, vá lá; mas sete em dois dias, repito, é de mais, é muito.

‑ Por isso, Sire, aqui estão todos contritos e arrependidos a apresentar‑vos as suas desculpas.

‑ Todos contritos e arrependidos! Hum... ‑ resmungou o rei ‑ não me fio nas suas caras hipócritas; há sobretudo lá atrás uma cara de gascão. Aproximai‑vos, senhor.

D'Artagnan, ao ver que o rei o chamava, aproximou‑se com o seu ar mais desesperado.

‑ Não me dissestes que era um jovem? É uma criança, Sr. de Tréville, uma verdadeira criança! E foi ele que deu aquela valente estocada a Jussac?

‑ E aquelas duas a Bernajoux.

‑ Deveras?

‑ Sem contar ‑ interveio Athos ‑ que se me não tivesse tirado das mãos de Biscarat eu não teria com certeza a honra de fazer neste momento a minha humilissima reverência a Vossa Majestade.

‑ Mas então este bearnês é um autêntico mafarrico, com mil demónios, como diria o rei meu pai, Sr. de Tréville. Nessa profissão devem furar muitos gibões e partir muitas espadas. Ora os Gascões continuam a ser pobres, não é verdade?

‑ Sire, devo dizer que ainda se não encontraram minas de ouro nas suas montanhas, embora o Senhor lhes deva bem esse milagre em recompensa da forma como sustentaram as pretensões do rei vosso pai.

‑ O que quer dizer que foram os Gascões que me fizeram rei a mim mesmo, não é verdade, Tréville, uma vez que sou filho do meu pai... Bom, não digo que não! La Chesnaye, ide ver se procurando em todas as minhas algibeiras encontrais quarenta pistolas; e se as encontrardes, trazei‑mas. E agora vejamos, meu rapaz, com a mão na consciência, como se passaram as coisas.

D'Artagnan contou a aventura da véspera em todos os seus pormenores: como, não podendo dormir devido à alegria que experimentava por ir ver Sua Majestade, chegara a casa dos amigos três horas antes da marcada para a audiência; como tinham ido juntos à casa de jogo e como, por ter deixado transparecer o receio de receber uma bolada na cara, fora ridicularizado por Bernajoux, o qual quase pagara a zombaria com a vida, e o Sr. de La Trémouille, que nada tivera a ver com o caso, com a perda do seu palácio.

‑ Exacto ‑ murmurou o rei. ‑ Foi assim que o duque me contou as coisas. Pobre cardeal! Sete homens em dois dias e dos seus mais favoritos... Mas agora basta, senhores, ouvistes? Basta! Tirastes a vossa desforra da Rua Férou, e mais ainda; deveis estar satisfeitos.

‑ Se Vossa Majestade está, nós também estamos ‑ disse Tréville.

‑ Estou, sim ‑ declarou o rei, pegando num punhado de ouro da mão de La Chesnaye e metendo‑o na de d'Artagnan. ‑ Aqui tendes uma prova da minha satisfação.

Naquela época as ideias de orgulho em uso nos nossos dias ainda não estavam na moda. Um gentil‑homem recebia de mão para mão dinheiro do rei sem se sentir de modo algum humilhado. D'Artagnan meteu portanto as quarenta pistolas na algibeira sem fazer qualquer cerimónia, antes pelo contrário agradecendo profundamente a Sua Majestade.

‑ Bom ‑ disse o rei, olhando o relógio de sala ‑, bom, e agora que já são oito e meia retirai‑vos; porque, como vos disse, espero alguém às nove horas. Obrigado pela vossa dedicação, senhores. Posso contar com ela, não é verdade?

‑ Oh, Sire! ‑ exclamaram em uníssono os quatro companheiros. ‑ Far‑nos‑íamos esquartejar por Vossa Majestade!

‑ Pois sim, pois sim, mas ficai inteiros: é melhor e ser‑me‑eis mais úteis. Tréville ‑ acrescentou o rei a meia voz enquanto os outros se retiravam ‑, como não tendes vaga nos mosqueteiros e aliás para entrar nessa corporação decidimos que era necessário fazer um noviciado, colocai esse rapaz na companhia dos guardas do Sr. dos Essarts, vosso cunhado. Meu Deus, Tréville, como me vou divertir com a cara que vai fazer o cardeal! Ficará furioso, mas quero lá saber; estou no meu direito.

E o rei saudou com a mão Tréville, que saiu e se foi juntar aos seus mosqueteiros, que encontrou dividindo com d'Artagnan as quarenta pistolas.

E o cardeal, como dissera Sua Majestade, ficou efectivamente furioso, tão furioso que durante oito dias não compareceu ao jogo do rei, o que não impediu este de lhe mostrar a mais risonha cara do mundo todas as vezes que o encontrou, e de lhe perguntar com a sua voz mais afável:

‑ Então, Sr. Cardeal, como vão o pobre Bernajoux e o pobre Jussac?

 

         COMO VIVIAM OS MOSQUETEIROS

Quando, fora do Louvre, d'Artagnan consultou os amigos acerca da forma como devia empregar a sua parte das quarenta pistolas, Athos aconselhou‑o a encomendar uma boa refeição na Pomme de Pin, Porthos a tomar um lacaio e Aramis a arranjar uma amante conveniente.

A refeição comeu‑se no mesmo dia e o lacaio serviu‑os à mesa. A refeição fora encomendada por Athos e o lacaio arranjado por Porthos. Era um picardo que o glorioso mosqueteiro contratara naquele mesmo dia e para aquela ocasião na Ponte da Tournelle, enquanto se pavoneava e cuspia para a água.

Porthos afirmara que semelhante ocupação era a prova de uma organização reflexiva e contemplativa, e trouxera‑o sem outra recomendação. A excepcional aparência do gentil‑homem para o serviço do qual se julgou contratado seduziu Planchet ‑ era este o nome de picardo ‑, que teve uma pequena decepção quando viu que o lugar já estava ocupado por um colega chamado Mousqueton e Porthos lhe declarou que o serviço da sua casa, apesar de grande, não comportava dois criados e que portanto o ia fazer entrar ao serviço de d'Artagnan. Todavia, quando assistiu ao jantar dado pelo amo e viu este tirar para pagar um punhado de ouro da algibeira, julgou estar feita a sua fortuna e agradeceu ao Céu ter caído nas mãos de semelhante Crésus. Perseverou nesta opinião até depois do festim, com os restos do qual se compensou de longas abstinências, mas quando à noite fez a cama do amo, as quimeras de Planchet desvaneceram‑se. A cama era a única coisa que havia no apartamento, que se compunha de uma antecâmara e de um quarto de dormir. Planchet dormiu na antecâmara, num cobertor tirado da cama de d'Artagnan e de que este se privou depois.

Pela sua parte, Athos tinha um criado que instruíra no seu serviço de forma muito especial e se chamava Grimaud. Era muito calado, este digno cavalheiro. Referimo‑nos a Athos, evidentemente. Havia cinco ou seis anos que vivia na mais profunda intimidade com os seus camaradas Porthos e Aramis, os quais se recordavam de o ter visto sorrir muitas vezes, mas nunca de o ouvir rir. As suas palavras eram breves e expressivas, diziam sempre o que queriam dizer e mais nada: nada de enfeites, nada de floreados, nada de arabescos. A sua conversação era um facto sem nenhum episódio.

Embora Athos tivesse apenas trinta anos e fosse perfeitíssimo de corpo e de espírito, ninguém lhe conhecia amante. Nunca falava de mulheres. Mas não impedia que se falasse diante dele, embora fosse fácil de ver que tal género de conversa, em que só participava com palavras amargas e alusões misantrópicas, lhe era absolutamente desagradável. A sua reserva, a sua agressividade e o seu mutismo tornavam‑no quase um velho. Tinha portanto, para não ver os seus hábitos alterados, acostumado Grimaud a obedecer‑lhe a um simples gesto ou a um simples movimento de lábios. Só lhe falava em circunstâncias supremas.

Às vezes Grimaud, que tinha medo do amo como do fogo, embora lhe fosse muito dedicado e tivesse uma grande veneração pela sua inteligência, julgava ter compreendido perfeitamente o que ele desejava e corria a cumprir a ordem recebida, mas fazia precisamente o contrário. Então, Athos encolhia os ombros e sem se encolerizar desancava Grimaud. Nesses dias falava um pouco.

Porthos, como já tivemos ensejo de ver, tinha um temperamento completamente oposto ao de Athos: não só falava muito, como ainda falava alto. Pouco lhe importava aliás, é necessário prestar‑lhe essa justiça, que o escutassem ou não; falava pelo prazer de falar e pelo prazer de se ouvir; falava de tudo excepto de ciências, justificando desse modo o ódio inveterado que desde a infância dedicava, dizia, aos sábios. Tinha maneiras menos distintas do que Athos, e a noção da sua inferioridade a tal respeito tornara‑o, no princípio das suas relações, muitas vezes injusto para com aquele gentil‑homem, que então se esforçara por exceder com os seus esplêndidos trajes. Mas, com a sua simples sobreveste de mosqueteiro e apenas pela forma como lançava a cabeça para trás e avançava o pé, Athos ocupava imediatamente o lugar que lhe era devido e relegava o faustoso Porthos para segundo plano. Porthos consolava‑se disso enchendo a antecâmara do Sr. de Tréville e as casas de guarda do Louvre com a descrição das suas aventuras galantes, de que Athos nunca falava, e de momento, depois de passar da nobreza de toga à nobreza de espada, da mulher ou filha de magistrado à baronesa, Porthos já se não contentava com menos do que com uma princesa estrangeira que estava apaixonadíssima por ele.

Um velho provérbio diz: «Tal amo, tal criado.» Passemos portanto do criado de Athos ao criado de Porthos, de Grimaud a Mousqueton.

Mousqueton era um normando a quem o amo trocara o nome pacífico de Boniface pelo infinitamente mais sonoro e belicoso de Mousqueton. Entrara ao serviço de Porthos com a condição de lhe ser dado apenas vestuário e alojamento. Além disso, só queria duas horas por dia para as dedicar a uma indústria que devia bastar para prover às suas outras necessidades. Porthos aceitara o negócio, que lhe calhava às mil maravilhas. Mandava fazer a Mousqueton gibões das suas roupas velhas e das suas capas de reserva, e graças a um alfaiate muito habilidoso que lhe punha os fatos velhos como novos, virando‑os, e cuja mulher se suspeitava pretender que Porthos descesse dos seus hábitos aristocráticos, Mousqueton fazia atrás do amo muito boa figura.

Quanto a Aramis, de quem cremos ter revelado suficientemente o carácter ‑ carácter que, de resto, como o dos seus camaradas, poderemos seguir no seu desenvolvimento ‑, o seu lacaio chamava‑se Bazin. Graças à esperança que o seu amo acalentava de tomar um dia ordens, andava sempre vestido de preto, como deve andar o servidor de um homem da Igreja. Era um berrichão de trinta e cinco a quarenta anos, afável, pacato, anafado, que ocupava a ler obras piedosas os tempos livres que lhe deixava o amor e era capaz de fazer menos mal um jantar para dois, de poucos pratos, mas excelente. Fora isso, era cego, surdo e mudo e de uma fidelidade a toda a prova.

Agora que já conhecemos, pelo menos superficialmente, os amos e os criados, passemos às casas ocupadas por cada um deles.

Athos morava na Rua Férou, a dois passos do Luxemburgo; o seu apartamento compunha‑se de dois quartos pequenos muito decentemente mobilados, numa casa cuja locatária, ainda jovem e na realidade também ainda bonita, lhe fazia em vão olhos ternos. Alguns vestígios de um grande esplendor passado brilhavam aqui e ali nas paredes do modesto alojamento: por exemplo, uma espada ricamente marchetada, que pelo aspecto devia remontar à época de Francisco I, e de que só o punho, incrustado de pedras preciosas, devia valer duzentas pistolas; no entanto, nem mesmo nos seus momentos de maior carência, Athos nunca consentira em empenhá‑la ou vendê‑la. Essa espada fora durante muito tempo a ambição de Porthos, o qual teria dado dez anos da sua vida para a possuir.

Um dia em que tinha encontro com uma duquesa, tentara mesmo que Athos lha emprestasse. Sem dizer nada, Athos despejara as algibeiras, reunira todas as suas jóias ‑ bolsas, agulhetas e correntes de ouro ‑ e oferecera tudo a Porthos. Quanto à espada, dissera, estava chumbada à parede e só de lá saíria quando o dono mudasse de casa. Além da espada, havia ainda um retrato representando um fidalgo do tempo de Henrique III, vestido com a maior elegância e com a Ordem do Espírito Santo. O retratado tinha com Athos certas semelhanças de feições, certas parecenças de família, que indicavam que esse grande senhor, cavaleiro das ordens reais, era seu antepassado. Finalmente, um cofre de magnífica ourivesaria, com as mesmas armas da espada e do retrato, ocupava o centro da chaminé, onde destoava horrivelmente do resto da decoração. Athos trazia a chave do cofre sempre consigo. Mas um dia abrira‑o diante de Porthos e este verificara que o cofre só continha cartas e papéis: cartas de amor e documentos de família, sem dúvida.

Porthos residia num apartamento muito amplo e de sumptuosissima aparência, na Rua do Vieux‑Colombier. Sempre que passava com algum amigo diante das suas janelas, a uma das quais Mousqueton se mantinha constantemente em libré de gala, Porthos erguia a cabeça e a mão e dizia: «A minha casa!» Mas nunca o lá encontravam, nunca convidava ninguém a subir e ninguém podia fazer ideia de que tão sumptuosa aparência encerrasse riquezas autênticas.

Quanto a Aramis, morava numa casinha constituída por antecâmara, sala de jantar e quarto de dormir, quarto que, situado como o resto do apartamento no rés‑do‑chão, dava para um jardinzinho fresco, verde, umbroso e impenetrável aos olhos da vizinhança.

Quanto a d'Artagnan, sabemos como estava alojado e já travámos conhecimento com o seu criado, mestre Planchet.

D'Artagnan, que era por natureza muito curioso, como são, de resto, as pessoas que possuem o espírito da intriga, fez todos os esforços para saber quem eram ao certo Athos, Porthos e Aramis; porque sob estes nomes de guerra cada jovem escondia o seu nome de gentil‑homem, sobretudo Athos, que cheirava a grande senhor à légua. Dirigiu‑se portanto a Porthos para obter informações acerca de Athos e Aramis, e a Aramis para conhecer Porthos.

Infelizmente, o próprio Porthos só sabia da vida do seu silencioso camarada o que transpirara. Dizia‑se que passara por grandes infortúnios amorosos e que uma horrível traição envenenara para sempre a vida do galante homem. Que traição fora essa? Ninguém sabia.

Quanto a Porthos, exceptuando o seu verdadeiro nome, que só o Sr. de Tréville conhecia, assim como o dos seus dois camaradas, a sua vida era fácil de devassar. Vaidoso e indiscreto, via‑se através dele como através de um cristal. A única coisa capaz de desorientar o investigador seria acreditar em todo o bem que ele dizia de si.

Quanto a Aramis, embora tivesse o ar de não ter nenhum segredo, era um rapaz repleto de mistérios que mal respondia às perguntas que lhe faziam sobre os outros e eludia as que lhe faziam sobre si mesmo. Um dia, d'Artagnan, depois de o interrogar demoradamente a respeito de Porthos e de tomar conhecimento do boato que corria acerca do êxito do mosqueteiro com uma princesa, quis saber também qualquer coisa a respeito das aventuras amorosas do seu interlocutor.

‑ E vós, meu caro camarada, vós que falais de baronesas, de condessas e de princesas dos outros?

‑ Perdão ‑ interrompeu‑o Aramis ‑, falei porque o próprio Porthos fala delas, porque propalou todas essas aventuras diante de mim. Mas podeis crer, meu caro Sr. d'Artagnan, que se as tivesse sabido doutra fonte ou ele mas tivesse confidenciado, não teria confessor mais discreto do que eu.

‑ Não duvido ‑ admitiu d'Artagnan. ‑ Mas enfim, parece‑me que vós mesmo tendes bastante familiaridade com os brasões, como o prova certo lenço bordado a que devo a honra de vos conhecer.

Desta vez, Aramis não se zangou, mas tomou o seu ar mais modesto e respondeu afectuosamente:

‑ Meu caro, não esqueçais que quero pertencer à Igreja e que fujo de todas as relações mundanas. O lenço que vistes, não me fora confiado, mas sim esquecido em minha casa por um dos meus amigos. Guardei‑o para não os comprometer, a ele e à dama que ele ama. Quanto a mim, não tenho nem quero ter amante; nisso sigo o exemplo judicioso de Athos, que também a não tem.

‑ Mas, que diabo, vós não sois padre, sois mosqueteiro!

‑ Mosqueteiro provisoriamente, meu caro, como diz o cardeal; mosqueteiro contra vontade, mas homem da Igreja pelo coração, podeis crer. Athos e Porthos meteram‑me nisto para me distraírem: tive, na altura de ser ordenado, uma pequena dificuldade com... Mas isto não vos interessa e estou a tomar‑vos um tempo precioso.

‑ De modo nenhum, interessa‑me muito! ‑ exclamou d'Artagnan. ‑ E de momento não tenho nada que fazer.

‑ Pois sim, mas eu tenho o meu breviário para ler ‑ respondeu Aramis ‑ e depois preciso de compor uns versos que me pediu a Sr.a de Aiguillon. Em seguida tenho de passar pela Rua de Saint‑Honoré, a fim de comprar carmim para a Sr.a de Chevreuse. Como vedes, meu caro amigo, se vós não tendes pressa eu estou cheio dela.

E Aramis estendeu afectuosamente a mão ao seu camarada e despediu‑se dele.

D'Artagnan não conseguiu, por mais que se esforçasse, saber mais nada a respeito dos seus três novos amigos. Tomou portanto o partido de crer no presente tudo o que se dizia do seu passado e de esperar revelações mais seguras e completas no futuro. Entretanto, considerou Athos um Aquiles, Portos um Ájax e Aramis um José.

No mais a vida dos quatro rapazes era divertida: Athos jogava e perdia sempre. No entanto, nunca pedia um soldo emprestado aos amigos, embora a sua bolsa estivesse constantemente às ordens deles, e quando jogava sob palavra e perdia obrigava sempre o credor a levantar‑se às seis da manhã para lhe pagar a dívida da véspera.

Porthos tinha impulsos. Nesses dias, se ganhava, mostrava‑se insolente e esplêndido; se perdia, desaparecia por completo durante dias, depois dos quais reaparecia macilento e triste, mas com dinheiro nos bolsos.

Quanto a Aramis, nunca jogava. Era sem dúvida o pior mosqueteiro e o mais maçador conviva que se podia imaginar. Tinha sempre necessidade de trabalhar. Às vezes, no meio de um jantar, quando todos, levados pelo vinho e no calor da conversa, julgavam que ainda tinham de ficar à mesa duas ou três horas, Aramis consultava o relógio, levantava‑se com um sorriso gracioso e despedia‑se para ir, dizia, consultar um casuísta com o qual marcara encontro. Outras vezes, regressava a casa para escrever uma tese e rogava aos amigos que não o interrompessem.

Entretanto, Athos sorria com o agradável sorriso melancólico que tão bem ficava à sua nobre figura, e Porthos bebia jurando que Aramis nunca passaria de um pároco de aldeia.

Planchet, o criado de d'Artagnan, suportou nobremente a sua sorte. Recebia trinta soldos por dia e durante um mês regressava a casa alegre como um pardal e afável para com o amo. Mas quando o vento da adversidade começou a soprar sobre o lar da Rua dos Fossoyeurs, isto é, quando as quarenta pistolas do rei Luís XIII foram comidas ou pouco mais, desatou numas lamúrias que Athos achou nauseabundas, Porthos indecentes e Aramis ridículas.

Athos aconselhou portanto d'Artagnan a despedir o patusco, Porthos foi de parecer que se lhe deviam dar primeiro umas bastonadas e Aramis declarou que um amo só devia dar ouvidos aos cumprimentos que lhe dirigissem.

‑ Isso é muito fácil de dizer ‑ redarguiu d'Artagnan. ‑ A vós, Athos, que viveis mudo com Grimaud, que o proibis de falar, e que portanto nunca trocais más palavras com ele; a vós, Porthos, que tendes um nível de vida magnífico e sois um deus para o vosso criado Mousqueton; a vós, finalmente, Aramis, que sempre absorvido nos vossos estudos teológicos inspirais profundo respeito ao vosso criado Bazin, homem afável e religioso; mas eu que sou um zé‑ninguém sem recursos, eu que não sou mosqueteiro nem sequer guarda, que posso fazer para inspirar afeição, terror ou respeito a Planchet?

‑ O caso é grave ‑ responderam os três amigos. ‑ É um assunto doméstico; e tanto os criados como as mulheres devem ser postos imediatamente no pé em que se deseja que fiquem. Reflecti, pois.

D'Artagnan reflectiu e resolveu, para começar, dar uma sova a Planchet, o que foi feito com a consciência que d'Artagnan punha em todas as coisas; em seguida, depois de o ter sovado bem, proibiu‑o de deixar o seu serviço sem sua permissão.

‑ Porque ‑ acrescentou ‑ o futuro pertence‑me; espero inevitavelmente tempos melhores. A tua fortuna estará portanto garantida se ficares comigo, e eu sou demasiado bom amo para te deixar perderes a tua fortuna concedendo‑te a demissão que me pedes.

Esta maneira de agir inspirou muito respeito aos mosqueteiros pela política de d'Artagnan. Planchet ficou igualmente admiradíssimo e nunca mais falou em se ir embora.

A vida dos quatro rapazes tornara‑se comum; d'Artagnan, que não tinha nenhum hábito, pois chegara da província e caíra no meio de um mundo inteiramente novo para si, adquiriu sem demora os hábitos dos amigos.

Levantavam‑se por volta das oito horas no Inverno e por volta das seis no Verão e iam saber o santo‑e‑senha e como corriam as coisas ao palácio do Sr. de Tréville. Embora não fosse mosqueteiro, d'Artagnan fazia o serviço com uma pontualidade impressionante: estava sempre de guarda, pois fazia sempre companhia àquele dos seus três amigos que tivesse sido escalado para isso. Conheciam‑no no aquartelamento dos mosqueteiros e todos o consideravam um bom camarada; o Sr. de Tréville, que o apreciara à primeira vista de olhos e lhe dedicava sincera afeição, não se cansava de o recomendar ao rei.

Pela sua parte, os três mosqueteiros gostavam muito do seu jovem camarada. A amizade que unia os quatro homens e a necessidade de se verem três ou quatro vezes por dia, fosse para duelo, fosse para negócios, fosse por prazer, levava‑os a correrem constantemente uns atrás dos outros como sombras; e encontrava‑se sempre os inseparáveis procurando‑se do Luxemburgo à Praça de Saint‑Sulpice, ou da Rua do Vieux‑Colombier ao Luxemburgo.

Entretanto, as promessas do Sr. de Tréville seguiam o seu caminho.

Um belo dia, o rei ordenou ao Sr. Cavaleiro dos Essarts que alistasse d'Artagnan como cadete na sua companhia de guardas. D'Artagnan envergou suspirando o uniforme, que daria dez anos da sua existência para trocar pela sobreveste de mosqueteiro. Mas o Sr. de Tréville prometeu essa mercê depois de um noviciado de dois anos ‑ noviciado que de resto poderia ser abreviado se surgisse a oportunidade de d'Artagnan prestar qualquer serviço ao rei ou praticar alguma acção brilhante. D'Artagnan retirou‑se com esta promessa e no dia seguinte começou o seu serviço.

Foi então a vez de Athos, Porthos e Aramis montarem guarda com d'Artagnan quando ele estava de serviço. A companhia do Sr. Cavaleiro dos Essarts adquiriu assim quatro homens em vez de um no dia em que alistou d'Artagnan.

 

         UMA INTRIGA DE CORTE

Entretanto, as quarenta pistolas do rei Luís XIII, como todas as coisas deste mundo, depois de terem um princípio tinham tido um fim, e a partir desse fim os nossos quatro companheiros caíram na penúria. Primeiro, Athos sustentara durante algum tempo a associação do seu próprio bolso. Sucedera‑lhe Porthos, que, graças a um dos seus desaparecimentos aos quais estavam habituados, conseguira durante cerca de mais quinze dias satisfazer as necessidades de todos; por fim chegara a vez de Aramis, que se desobrigara dela de boa vontade e conseguira, dizia, vendendo os seus livros de teologia, arranjar algumas pistolas.

Como de costume, recorreram então ao Sr. de Tréville, que fez alguns adiantamentos sobre o soldo; mas esses adiantamentos não podiam levar muito longe três mosqueteiros que tinham já muitas contas atrasadas e um guarda que ainda as não tinha.

Enfim, quando viram que o dinheiro ia faltar por completo, reuniram num derradeiro esforço oito ou dez pistolas que Porthos jogou. Infelizmente, estava em maré de azar e perdeu tudo e mais vinte e cinco pistolas sob palavra.

Então a penúria transformou‑se em miséria. Viram‑nos famintos, seguidos dos criados, correr os cais e as casas de guarda e arrebanhar junto dos amigos de fora todos os jantares que lhe puderam apanhar; porque, na opinião de Aramis, devia‑se na prosperidade distribuir refeições a torto e a direito para apanhar algumas na desgraça.

Athos foi convidado quatro vezes e de todas as vezes levou consigo os seus amigos e os respectivos criados, Porthos teve seis convites, dos quais fez igualmente beneficiar os seus camaradas, e Aramis teve oito. Como já tivemos ensejo de verificar, tratava‑se de um homem que fazia pouco barulho e muito trabalho.

Quanto a d'Artagnan, que ainda não conhecia ninguém na capital, só arranjou um pequeno‑almoço de chocolate em casa de um padre da sua região e um jantar em casa de um porta‑estandarte dos guardas. Mesmo assim, levou o seu exército a casa do padre, a quem devoraram as provisões de dois meses, e a casa do porta‑estandarte, que fez maravilhas; mas, como dizia Planchet, não se come apenas uma vez, mesmo quando se come muito.

D'Artagnan sentiu‑se portanto muito humilhado por não ter conseguido mais do que refeição e meia, pois o pequeno‑almoço em casa do padre só podia ser considerado meia refeição, para oferecer aos companheiros em troca dos festins que tinham arranjado Athos, Porthos e Aramis. Julgava‑se a viver à custa dos amigos, esquecendo na sua boa fé tão juvenil que os alimentara durante um mês, e o seu espírito preocupado pôs‑se a trabalhar activamente. Considerou que aquela aliança de quatro homens novos, valentes, empreendedores e activos devia ter uma finalidade diferente dos passeios exibicionistas, das lições de esgrima e das chalaças mais ou menos espirituosas.

Com efeito, quatro homens como eles, quatro homens dedicados uns aos outros desde a bolsa até à vida, quatro homens que se ajudavam sempre, que nunca recuavam, que executavam isoladamente ou em conjunto as resoluções tomadas em comum; quatro braços que ameaçavam os quatro pontos cardeais ou se viravam para um único ponto, tinham por força, quer subterraneamente, quer à luz do dia, quer através da mina, quer através da trincheira, quer pela astúcia, quer pela força, de abrir caminho na direcção do fim que pretendiam alcançar, por melhor defendido ou por mais afastado que estivesse. A única coisa que surpreendia d'Artagnan era que os companheiros não tivessem pensado nisso.

Mas pensava ele, e até muito a sério, dando tratos ao miolo para encontrar uma direcção àquela força única, quatro vezes multiplicada, com a qual não duvidava que, como com a alavanca que procurava Arquimedes, conseguiriam levantar o mundo; e estava nisso quando bateram devagarinho à porta. D'Artagnan acordou Planchet e ordenou‑lhe que fosse abrir.

Por esta frase «d'Artagnan acordou Planchet» não imagine o leitor que era de noite ou que o dia ainda não nascera. Não! Acabavam de dar quatro horas da tarde. Duas horas antes, Planchet viera pedir almoço ao amo, o qual lhe respondera como provérbio: «Quem dorme almoça.» E Planchet almoçava dormindo.

Entrou um homem de ar bastante simples e aspecto de burguês.

Para lhe servir de sobremesa, Planchet não se importaria de ouvir a conversa; mas o burguês declarou a d'Artagnan que o que tinha para lhe dizer era tão importante e confidencial que desejava ficar a sós com ele.

D'Artagnan mandou Planchet embora e convidou o visitante a sentar‑se.

Houve um momento de silêncio durante o qual os dois homens se observaram como que para estabelecerem um conhecimento prévio; depois disso, d'Artagnan inclinou‑se em sinal de que escutava.

‑ Ouvi falar do Sr. d'Artagnan como de um jovem muito valente ‑ disse o burguês ‑, e essa reputação de que goza com justiça decidiu‑me a confiar‑lhe um segredo.

‑ Falai, senhor, falai ‑ animou‑o d'Artagnan, que instintivamente farejara algo vantajoso.

O burguês fez nova pausa e continuou:

‑ A minha mulher é roupeira da rainha, senhor, e não lhe falta sensatez nem beleza. Casei com ela está a fazer três anos, apesar de só ter um pequeno dote. porque o Sr. de La Porte, o porta‑manta da rainha, é seu padrinho e protege‑a...

‑ E depois, senhor? ‑ perguntou d'Artagnan.

‑ Depois... ‑ repetiu o burguês ‑ depois... senhor, a minha mulher foi raptada ontem de manhã quando saía do trabalho.

‑ E quem a raptou?

‑ Não tenho a certeza, senhor, mas desconfio de alguém...

‑ E quem é a pessoa de quem desconfiais?

‑ Um homem que a perseguia havia muito tempo.

‑ Diabo!

‑ Mas permiti‑me que vos diga, senhor ‑ continuou o burguês ‑, que estou convencido de que há menos amor do que política em tudo isto.

‑ Menos amor do que política... ‑ repetiu d'Artagnan, com ar muito pensativo. ‑ De que suspeitais?

‑ Não sei se deverei dizer‑vos de que suspeito...

‑ Senhor, observo‑vos que não vos pedi absolutamente nada. Vós é que me procurastes. Fostes vós que me dissestes que tínheis um segredo para me confiar. Fazei portanto como vos aprouver, pois ainda estais a tempo de vos retirar.

‑ Não, senhor, não. Pareceis‑me um jovem honesto e confiarei em vós. Creio, como dizia, que não foi por causa dos seus amores que a minha mulher foi presa, mas sim por causa dos de uma dama maior do que ela.

‑ Ah, ah! Terá sido por causa dos amores da Sr.a de Bois‑Tracy? - perguntou d'Artagnan, que quis dar‑se ares, na presença do seu burguês, de estar ao corrente do que se passava na corte.

‑ Mais alto, senhor, mais alto.

‑ Da Sr.a de Aiguillon?

‑ Ainda mais alto.

‑ Da Sr.a de Chevreuse?

‑ Mais alto, muito mais alto!

‑ Da... ‑ d'Artagnan deteve‑se.

‑ Sim, senhor ‑ respondeu tão baixo que mal se ouviu o assustado burguês.

‑ E com quem?

‑ Com quem havia de ser senão com o duque de...

‑ O duque de...

‑ Sim, senhor! ‑ respondeu o burguês, dando à voz uma intonação ainda mais abafada.

‑ Mas como sabeis tudo isso?

‑ Ora, como sei!...

‑ Sim, como sabeis? Nada de meias confidências ou.., Creio que compreendeis.

‑ Sei‑o pela minha mulher, senhor, pela minha própria mulher.

‑ Que o sabe por quem?

‑ Pelo Sr. de La Porte. Não vos disse já que ela era afilhada do Sr. de La Porte, o homem de confiança da rainha? Pois bem, o Sr. de La Porte colocou‑a junto de Sua Majestade para que a nossa pobre rainha tivesse ao menos alguém em quem confiar, abandonada como está pelo rei, espiada como é pelo cardeal, atraiçoada como é por todos.

‑ Começo a perceber ‑ declarou d'Artagnan.

‑ Ora a minha mulher veio há quatro dias, senhor; uma das suas condições era vir ver‑me duas vezes por semana; porque, como tive a honra de vos dizer, a minha mulher ama‑me muito. Portanto, a minha mulher veio e confidenciou‑me que a rainha estava cheia de medo...

‑ Deveras?

‑ Deveras. Ao que parece, o Sr. Cardeal persegue‑a e importuna‑a mais do que nunca. Não lhe perdoa a história da sarabanda. Conheceis a história da sarabanda?

‑ Se conheço! ‑ respondeu d'Artagnan, que não sabia absolutamente nada a tal respeito, mas queria ter o ar de estar ao corrente.

‑ De modo que, agora, já se não trata de ódio, trata‑se de vingança. ‑Sim?...

‑ E a rainha crê...

‑ Que crê a rainha?

‑ Crê que escreveram ao Sr. Duque de Buckingham em seu nome.

‑ Em nome da rainha?

‑ Sim, para o obrigar a vir a Paris, e uma vez em Paris atraírem‑no a qualquer cilada.

‑ Diabo! Mas a vossa mulher, meu caro senhor, em que é metida e achada em tudo isso?

‑ Conhecem a sua dedicação à rainha e querem ou afastá‑la da ama ou intimidá‑la para saberem os segredos de Sua Majestade ou seduzi‑la para se servirem dela como espia.

‑ É provável ‑ concordou d'Artagnan. ‑ Mas conheceis o homem que a raptou?

‑ Já vos disse que julgava conhecê‑lo.

‑ Como se chama?

‑ Não sei; sei apenas que é criatura do cardeal, a sua alma danada.

‑ Mas alguma vez o vistes?

‑ Vi. A minha mulher mostrou‑mo um dia.

‑ Tem alguma particularidade por onde se possa reconhecê‑lo?

‑ Oh, evidentemente! É um fidalgo bem parecido, de cabelo preto, moreno, dentes brancos, olhar penetrante e uma cicatriz na têmpora.

‑ Uma cicatriz na têmpora! ‑ exclamou d'Artagnan. ‑ E além disso dentes brancos, olhar penetrante, moreno, cabelo preto e bem parecido... é o meu homem de Meung!

‑ É o vosso homem, dizeis?

‑ Sim, sim; mas isso não vem para o caso. Não, engano‑me, isso simplifica tudo, pelo contrário: se o vosso homem é o meu, matarei dois coelhos de uma cajadada. Mas onde se pode encontrar esse homem?

‑ Não sei.

‑ Não tendes nenhuma informação acerca da sua morada?

‑ Nenhuma. Um dia, quando acompanhava a minha mulher ao Louvre, ele saía na altura em que ela ia a entrar e ela indicou‑mo.

‑ Diabo, diabo!... ‑ murmurou d'Artagnan. ‑ Tudo isso é muito vago. Por quem soubestes do rapto da vossa mulher?

‑ Pelo Sr. de La Porte.

‑ Deu‑vos algum pormenor?

‑ Não tinha nenhum.

‑ E não soubestes nada por outro lado?

‑ De facto, recebi...

‑ O quê?

‑ Mas não sei se não cometerei uma grande imprudência...

‑ Lá voltais à mesma! Em todo o caso, sempre vos digo que desta vez é um pouco tarde para recuar.

‑ Por isso não recuo, com mil demónios! ‑ exclamou o burguês, praguejando para mostrar que estava decidido. ‑ Aliás, palavra de Bonacieux.

‑ Chamais‑vos Bonacieux? ‑ interrompeu‑o d'Artagnan.

‑ Sim, é o meu nome.

‑ Dizíeis portanto: «Palavra de Bonacieux!» Desculpai ter‑vos interrompido, mas pareceu‑me que esse nome me não era desconhecido.

‑ É possível, senhor. Sou o vosso senhorio.

‑ Ah, sim?! ‑ exclamou d'Artagnan, soerguendo‑se para o cumprimentar. ‑ Sois então o meu senhorio?...

‑ Pois sou, senhor, pois sou. E como desde que há três meses sois meu inquilino, e distraído sem dúvida pelas vossas grandes ocupações, vos esquecestes de me pagar a renda; e como, insisto, não vos incomodei um só instante por isso, pensei que teríeis em conta a minha delicadeza...

‑ Ora essa, meu caro Sr. Bonacieux! ‑ redarguiu d'Artagnan. ‑ Crede que vos estou reconhecidíssimo por semelhante procedimento e que, como já vos disse, se puder ser‑vos útil nalguma coisa...

‑ Acredito, senhor, acredito, e como ia a dizer, palavra de Bonacieux, tenho confiança em vós.

‑ Acabai então o que tínheis começado a dizer‑me.

O burguês tirou um papel da algibeira e estendeu‑o a d'Artagnan.

‑ Uma carta! ‑ exclamou o jovem.

‑ Que recebi esta manhã.

D'Artagnan abriu‑a e como o dia começava a escurecer aproximou‑se da janela. O burguês seguiu‑o.

«Não procureis a vossa mulher», leu d'Artagnan. «Ser‑vos‑á restituída quando já não precisarmos dela. Se fizerdes só que seja uma diligência para a encontrar, estareis perdido.»

‑ Aqui está uma coisa positiva ‑ comentou d'Artagnan. ‑ Mas, no fim de contas, não passa de uma ameaça.

‑ Sim, mas de uma ameaça que me assusta! Eu, senhor, não sou homem de espada e tenho medo da Bastilha.

‑ Hum!... ‑ resmungou d'Artagnan. ‑ Também não gosto mais da Bastilha do que vós. Se se tratasse apenas de umas estocadas, ainda vá...

‑ Mas eu tinha contado convosco neste aperto, senhor! ‑Sim?

‑ Vendo‑vos constantemente rodeado de mosqueteiros com um ar tão soberbo, e reconhecendo que esses mosqueteiros eram os do Sr. de Tréville e por consequência inimigos do cardeal, pensei que vós e os vossos amigos, fazendo justiça à nossa pobre rainha, ficaríeis encantados por pregar uma partida a Sua Eminência.

‑ Sem dúvida.

‑ E também pensei que devendo‑me três meses de renda, de que nunca vos falei...

‑ Claro, claro! Já me apresentastes essa razão, que me parece excelente.

‑ Além disso, se me derdes a honra de continuar a ser meu inquilino, prometo nunca mais falar nos alugueres futuros...

‑ Óptimo!

‑ E acrescento, acaso seja necessário, que tenciono oferecer‑vos umas cinquenta pistolas se, contra todas as probabilidades, necessitardes de dinheiro neste momento.

‑ Maravilhoso! Sois portanto rico, meu caro Sr. Bonacieux?

‑ Vivo com desafogo, é o termo; amealhei qualquer coisa como dois ou três mil escudos de rendimento no comércio de retrosaria, e sobretudo colocando alguns fundos na última viagem do célebre navegador Jean Mocquet. De modo que, como compreendeis, senhor... Ah! Mas... ‑ gritou o burguês.

‑ Que foi? ‑ perguntou d'Artagnan.

‑ Que vedes ali?

‑ Onde?

‑ Na rua, diante das vossas janelas, no vão daquela porta: um homem envolto numa capa.

‑ É ele! ‑ gritaram ao mesmo tempo d'Artagnan e o burguês, ao reconhecerem o seu homem.

‑ Ah, desta vez ‑ gritou d'Artagnan saltando para a espada ‑, desta vez não me escapará!

E desembainhando a espada precipitou‑se para fora do apartamento.

Encontrou na escada Athos e Porthos que o vinham visitar. Afastaram‑se e d'Artagnan passou entre eles como uma seta.

‑ Que é isso, aonde vais a correr assim? ‑ gritaram‑lhe ao mesmo tempo os dois mosqueteiros.

‑ O homem de Meung! ‑ respondeu d'Artagnan, e desapareceu. D'Artagnan contara mais de uma vez aos amigos a sua aventura

com o desconhecido, assim como a aparição da bela viajante, a quem o homem parecera confiar uma missiva importante.

Na opinião de Athos, d'Artagnan perdera a sua carta na zaragata. Segundo ele, um gentil‑homem ‑ e pela descrição que d'Artagnan fizera do desconhecido só podia ser um gentil‑homem ‑, um gentil‑homem seria incapaz da baixeza de roubar uma carta.

Porthos, por seu turno, vira apenas em tudo aquilo um encontro amoroso marcado por uma dama a um cavalheiro ou por um cavalheiro a uma dama, que fora perturbado pela presença de d'Artagnan e do seu cavalo amarelo.

Aramis declarara que, dada a natureza misteriosa dessas coisas, era preferível não as aprofundar.

Compreenderam portanto, pelas poucas palavras proferidas por d'Artagnan, do que se tratava, e como pensaram que depois de apanhar o seu homem ou de o perder de vista d'Artagnan acabaria por regressar a casa, continuaram o seu caminho.

Quando entraram no quarto de d'Artagnan o quarto estava vazio: o senhorio, temendo as consequências do recontro que sem dúvida se verificaria entre o jovem e o desconhecido, julgara, de acordo com a exposição que ele próprio fizera do seu carácter, ser mais prudente pôr‑se ao fresco.

 

         D'ARTAGNAN SALIENTA‑SE

Como Athos e Porthos tinham previsto, d'Artagnan regressou passada meia hora. Ainda desta vez perdera o seu homem de vista, o qual desaparecera como que por encanto. D'Artagnan correra, de espada em punho, todas as ruas vizinhas, mas não encontrara ninguém parecido com quem procurava, e por fim chegara à conclusão que talvez devesse ter começado por bater à porta a que o desconhecido estava encostado; mas em vão fizera ressoar dez ou doze vezes seguidas a aldrabada: ninguém respondera e os vizinhos que, atraídos pelo barulho, tinham acorrido à soleira das suas portas ou deitado o nariz fora das suas janelas garantiram‑lhe que aquela casa, que de resto tinha todas as janelas fechadas, estava completamente desabitada havia seis meses.

Enquanto d'Artagnan corria as ruas e batia às portas, Aramis viera juntar‑se aos seus dois camaradas, de modo que quando regressou a casa d'Artagnan encontrou a reunião completa.

‑ Então? ‑ perguntaram em uníssono os três mosqueteiros ao verem entrar d'Artagnan com o suor a escorrer‑lhe da testa e o rosto desfigurado pela cólera.      

‑ Então ‑ respondeu atirando a espada para cima da cama ‑, o homem deve ser o Diabo personificado; desapareceu como um fantasma, como uma sombra, como um espectro.

‑ Acreditais em aparições? ‑ perguntou Athos e Porthos.

‑ Só acredito no que vejo, e como nunca vi nenhuma aparição não acredito nelas.

‑ A Bíblia impõe‑nos o dever de acreditarmos: o fantasma de Samuel apareceu a Saul; trata‑se de um artigo de fé que me desagradaria ver pôr em dúvida, Porthos.

‑ Seja como for, homem ou diabo, corpo ou sombra, ilusão ou realidade, esse homem nasceu para minha danação, pois a sua fuga faz‑nos perder um negócio soberbo, meus senhores, um negócio em que havia cem pistolas e talvez mais a ganhar.

‑ Como assim?! ‑ exclamaram ao mesmo tempo Porthos e Aramis. Quanto a Athos, fiel ao seu sistema de mutismo, limitou‑se a interrogar d'Artagnan com a vista.

‑ Planchet ‑ disse d'Artagnan ao criado, que metia naquele momento a cabeça pela porta entreaberta para procurar surpreender alguns pedaços da conversa ‑, desci a casa do meu senhorio, Sr. Bonacieux, e dizei‑lhe que nos mande meia dúzia de garrafas de vinho de Beaugency. É o que prefiro.

‑ Olá! ‑ exclamou Porthos. ‑ Quererá isso dizer que tendes crédito aberto junto do vosso senhorio?...

‑ Pois tenho ‑ respondeu d'Artagnan. ‑ Tenho a partir de hoje e podeis estar tranquilos que se o seu vinho não prestar o mandaremos arranjar outro.

‑ Convém usar mas não abusar ‑ sentenciou Aramis.

‑ Sempre disse que d'Artagnan era a grande cabeça de nós quatro ‑ observou Athos, que depois de emitir esta opinião, à qual d'Artagnan respondeu com uma saudação, voltou a cair imediatamente no seu silêncio habitual.

‑ Mas enfim, vejamos, que se passa? ‑ perguntou Porthos.

‑ Sim ‑ secundou‑o Aramis ‑, dizei‑nos, caro amigo, a menos que a honra de alguma dama possa ser afectada pela confidência, pois nesse caso faríeis melhor calar‑vos.

‑ Estais tranquilos ‑ respondeu d'Artagnan ‑, ninguém verá a sua honra ferida pelo que tenho para vos dizer.

E então contou, palavra por palavra, aos amigos o que acabara de se passar entre ele e o seu senhorio e como o homem que raptara a mulher do digno proprietário era o mesmo com quem tinha contas a ajustar desde a estalagem do Franc Meunier.

‑ O negócio não é mau ‑ disse Athos, depois de provar o vinho como conhecedor e de indicar com um sinal de cabeça que o achava bom. ‑ De facto, poderemos apanhar a esse bom homem cinquenta a sessenta pistolas. Só resta saber se valerá a pena arriscar quatro cabeças por cinquenta a sessenta pistolas.

‑ Não vos esqueçais ‑ gritou d'Artagnan ‑ de que há uma mulher metida no caso! Uma mulher raptada, uma mulher que sem dúvida ameaçam, que talvez torturem, e tudo isso por ser fiel à sua ama!

‑ Cautela, d'Artagnan, cautela... ‑ recomendou‑lhe Aramis. ‑ Na minha opinião, preocupai‑vos de mais com a sorte da Sr.a Bonacieux. A mulher foi criada para nos perder e é dela que nos vêm todos os males.

Ao ouvir esta sentença, Athos franziu o sobrolho e mordeu os lábios.

‑ Não é a Sr.a Bonacieux que me preocupa ‑ defendeu‑se d'Artagnan ‑, mas sim a rainha, que o rei abandona, que o cardeal persegue e que vê cair, uma após outra, as cabeças de todos os seus amigos.

‑ Por que gosta ela do que nós mais detestamos no mundo, os Espanhóis e os Ingleses?

‑ A Espanha é a sua pátria ‑ respondeu d'Artagnan ‑, e é naturalíssimo que goste dos Espanhóis, que são filhos da mesma terra que ela. Quanto à segunda censura que lhe fazeis, ouvi dizer que gostava não dos Ingleses, mas sim de um inglês.

‑ E dou‑vos a minha palavra de que esse inglês é bem digno de ser amado, é mister confessá‑lo ‑ declarou Athos. ‑ Nunca vi maior distinção do que a sua.

‑ Sem contar que se veste como ninguém ‑ acrescentou Porthos. ‑ Estava no Louvre no dia em que distribuiu as suas pérolas e, por Deus, apanhei duas que vendi bem vendidas por dez pistolas cada uma. E tu, Aramis, conhece‑lo?

‑ Tão bem como vós, meus senhores, pois fui um dos que o detiveram no jardim de Amiens, onde me introduzira o Sr. de Putange, o escudeiro da rainha. Estava no seminário nessa época e a aventura pareceu‑me cruel para o rei.

‑ O que não me impediria ‑ declarou d'Artagnan ‑, se soubesse onde está o duque de Buckingham, de lhe pegar na mão e conduzi‑lo junto da rainha, quanto mais não fosse só para enraivecer o cardeal! Porque o nosso verdadeiro, o nosso único, o nosso eterno inimigo, meus senhores, é o cardeal, e se conseguíssemos descobrir maneira de lhe pregar uma partida bastante cruel confesso que arriscaria na empresa, de boa vontade, a cabeça.

‑ E o retroseiro disse‑vos, d'Artagnan, que a rainha pensava que tinham mandado vir Buckingham com um falso aviso? ‑ perguntou Athos.

‑ Ela receia que sim.

‑ Esperai ‑ pediu Aramis.

‑ O quê? ‑ perguntou Porthos.

‑ Ides muito depressa; procuro recordar‑me das circunstâncias.

‑ E agora estou convencido ‑ prosseguiu d'Artagnan ‑ de que o rapto dessa criada da rainha está relacionado com os acontecimentos de que falamos, e talvez com a presença do Sr. de Buckingham em Paris.

‑ O gascão está cheio de ideias ‑ comentou Porthos com admiração.

‑ Gosto muito de o ouvir falar ‑ declarou Athos. ‑ A sua linguagem diverte‑me.

‑ Meus senhores ‑ insistiu Aramis ‑, escutai isto.

‑ Estamos a escutar ‑ responderam os três amigos.

‑ Ontem, encontrava‑me em casa de um sábio doutor em Teologia que às vezes consulto por causa dos meus estudos...

Athos sorriu.

‑ Ele mora num bairro deserto ‑ continuou Aramis. ‑ Os seus gostos e a sua profissão exigem‑no. Ora, no momento em que saía de sua casa...

Aqui, Aramis deteve‑se.

‑ Então? ‑ impacientaram‑se os seus ouvintes. ‑ No momento em que saíeis de sua casa...

Aramis pareceu fazer um esforço sobre si mesmo, como um homem que em plena corrente de mentira se visse detido por algum obstáculo imprevisto; mas os olhos dos seus três companheiros estavam cravados nele e os seus ouvidos esperavam atentos e era impossível recuar.

‑ O doutor tem uma sobrinha ‑ continuou Aramis.

‑ Ah, tem uma sobrinha!... ‑ exclamou Porthos.

‑ Senhora muito respeitável ‑ acrescentou Aramis. Os três amigos desataram a rir.

‑ Ah, se rides ou se duvidais, não sabereis nada! ‑ redarguiu Aramis.

‑ Somos crentes como maometanos e mudos como túmulos ‑ adiantou Athos.

‑ Nesse caso, continuo ‑ acedeu Aramis. ‑ A sobrinha vai de vez em quando visitar o tio; ora ela encontrava‑se lá em casa ao mesmo tempo que eu, por acaso, e tive de me oferecer para a acompanhar à sua carruagem.

‑ Ah, ela tem carruagem, a sobrinha do doutor? ‑ interrompeu Porthos, que tinha o defeito de uma grande incontinência de linguagem. ‑ Que rico conhecimento, meu amigo!

‑ Porthos ‑ replicou Aramis ‑, já por mais de uma vez vos observei que éreis muito indiscreto e que isso vos prejudicava junto das mulheres.

‑ Então, meus senhores, meus senhores! ‑ exclamou d'Artagnan, que entrevia o fundo da aventura. ‑ O caso é sério; procuremos portanto não gracejar, se possível. Continuai, Aramis, continuai.

‑ De súbito, um homem alto, moreno, de maneira de gentil‑homem... olhai, do género do vosso, d'Artagnan.

‑ Talvez o mesmo ‑ sugeriu este.

‑ É possível ‑ admitiu Aramis. ‑ ...Aproximou‑se de mim, acompanhado de cinco ou seis homens que o seguiam dez passos atrás e disse, no tom mais delicado que se possa imaginar: «Sr. Duque, e vós, senhora», continuou dirigindo‑se à dama que seguia pelo meu braço...

‑ À sobrinha do doutor?

‑ Silêncio, Porthos! ‑ interveio Athos. ‑ Sois insuportável.

‑ «Dignai‑vos subir para essa carruagem, sem tentardes a mais pequena resistência e sem fazerdes o mais pequeno barulho.»

‑ Tomou‑vos por Buckingham! ‑ exclamou d'Artagnan.

‑ Creio que sim ‑ respondeu Aramis.

‑ E a dama? ‑ perguntou Porthos.

‑ Tomou‑a pela rainha! ‑ exclamou d'Artagnan.

‑ Justamente ‑ respondeu Aramis.

‑ Este gascão é o Diabo! ‑ exclamou Athos. ‑ Nada lhe escapa.

‑ A verdade é que Aramis é da estatura e tem qualquer coisa do aspecto do belo duque ‑ disse Porthos. ‑ Mas mesmo assim parece‑me que o uniforme de mosqueteiro...

‑ Eu tinha uma capa enorme ‑ disse Aramis.

‑ Em Julho? ‑ estranhou Porthos. ‑ O doutor receia que sejas reconhecido?

‑ Compreendo agora que o espião se tenha deixado enganar pelo aspecto ‑ disse Athos. ‑ Mas o rosto...

‑ Eu tinha um grande chapéu ‑ esclareceu Aramis.

‑ Meu Deus, tantas precauções para estudar Teologia! ‑ exclamou Porthos.

‑ Então, meus senhores, então ‑ interveio d'Artagnan. ‑ Não percamos o nosso tempo com brincadeiras. Espalhemo‑nos e procuremos a mulher do retroseiro, que é a chave da intriga.

‑ Uma mulher de condição inferior! Parece‑vos, d'Artagnan? ‑ perguntou Porthos, estendendo os lábios com desdém.

‑ É afilhada de La Porte, o criado de confiança da rainha. Não vo‑lo disse já, senhores? Aliás, talvez tenha sido por cálculo que Sua Majestade procurou desta vez apoios tão baixos. As cabeças altas vêem‑se de longe e o cardeal tem boa vista.

‑ Bem, fixai primeiro o preço com o retroseiro, e bom preço ‑ sugeriu Porthos.

‑ É inútil ‑ respondeu d'Artagnan ‑, pois creio que se ele não nos pagar seremos suficientemente pagos por outro lado.

Neste momento ouviu‑se na escada o barulho de passos precipitados, a porta abriu‑se com estrépito e o pobre retroseiro lançou‑se no quarto onde estava reunido o conselho.

‑ Ah, meus senhores, salvai‑me por amor de Deus, salvai‑me! ‑ gritou. ‑ Vêm aí quatro homens para me prender. Salvai‑me, salvai‑me!

Porthos e Aramis levantaram‑se.

‑ Um momento! ‑ gritou d'Artagnan, fazendo‑lhes sinal para embainharem as espadas já meio desembainhadas. ‑ Um momento! O que é preciso aqui não é coragem, é prudência.

‑ Mas não vamos deixar... ‑ começou Porthos.

‑ Deixai agir d'Artagnan ‑ interveio Athos ‑, que é, repito, a grande cabeça de todos nós. Pelo que me diz respeito, declaro que lhe obedecerei. Fazei o que quiserdes, d'Artagnan.

Neste momento os quatro guardas apareceram à porta da antecâmara e ao verem quatro mosqueteiros de pé e de espada ao lado hesitaram em ir mais longe.

‑ Entrai, meus senhores, entrai! ‑ convidou‑os d'Artagnan. ‑ Estais em minha casa e somos todos fiéis servidores do rei e do Sr. Cardeal.

‑ Nesse caso, senhores, não vos oporeis a que cumpramos as ordens que recebemos? ‑ perguntou o que parecia o chefe do grupo.

‑ Pelo contrário, senhores, e até vos ajudaremos se for preciso.

‑ Que diz ele? ‑ murmurou Porthos.

‑ Que és um néscio ‑ respondeu Athos. ‑ Silêncio.

‑ Mas tínheis‑me prometido... ‑ disse baixinho o pobre retroseiro.

‑ Só vos podemos salvar se permanecermos livres ‑ respondeu rapidamente e também baixinho d'Artagnan. ‑ E se tentarmos defender‑vos prender‑nos‑ão juntamente convosco.

‑ Mas parece‑me...

‑ Entrai, senhores, entrai ‑ disse d'Artagnan em voz alta. ‑ Não tenho nenhum motivo para defender este senhor. Vi‑o hoje pela primeira vez e ainda por cima numa péssima ocasião, como ele próprio vos dirá, para me vir exigir o pagamento da renda. Não é verdade, Sr. Bonacieux? Respondei!

‑ É a pura verdade ‑ reconheceu o retroseiro ‑, mas, senhor, não vos disse...

‑ Silêncio a meu respeito, silêncio a respeito dos meus amigos, silêncio a respeito da rainha, sobretudo, ou perdereis toda a gente sem vos salvardes! Ide, ide, senhores, levai este homem.

E d'Artagnan empurrou o retroseiro, completamente aturdido, para as mãos dos guardas, dizendo‑lhe:

‑ Sois um velhaco, meu caro; virdes pedir‑me dinheiro a mim, um mosqueteiro! Para a prisão, senhores! Repito, levai‑o para a prisão e mantei‑o fechado à chave o mais tempo possível, a ver se entretanto arranjo o dinheiro para lhe pagar.

Os esbirros desfizeram‑se em agradecimentos e levaram o preso. Quando desciam, d'Artagnan bateu no ombro do chefe:

‑ E se bebêssemos eu à vossa saúde e vós à minha? ‑ sugeriu, e encheu dois copos de vinho de Beaugency, que devia à liberalidade do Sr. Bonacieux.

‑ É uma honra para mim ‑ respondeu o chefe dos esbirros ‑ e aceito com reconhecimento.

‑ Portanto, à vossa, senhor... Como vos chamais?

‑ Boisrenard.

‑ Sr. Boisrenard!

‑ À vossa, meu gentil‑homem. E já agora como vos chamais, por favor?

‑ D'Artagnan.

‑ À vossa, Sr. d'Artagnan.

‑ E acima de todas ‑ gritou d'Artagnan como que arrebatado pelo seu entusiasmo ‑ à saúde do rei e do cardeal!

O chefe dos esbirros talvez duvidasse da sinceridade de d'Artagnan se o vinho fosse mau; mas o vinho era bom e isso convenceu‑o.

‑ Mas que diabo de vilania cometestes? ‑ perguntou Porthos quando o aguazil‑chefe se juntou aos seus homens e os quatro amigos ficaram sós. ‑ Irra, quatro mosqueteiros deixarem prender no meio deles um desgraçado que pedia socorro! Um gentil‑homem brindar com um beleguim!

‑ Porthos ‑ disse Aramis ‑, Athos já te preveniu que eras um néscio e eu sou da sua opinião. D'Artagnan, és um grande homem, e quando estiveres no lugar do Sr. de Tréville pedir‑te‑ei protecção para me darem uma abadia.

‑ Agora é que não percebo nada ‑ observou Porthos. ‑ Aprovais o que d'Artagnan acaba de fazer?

‑ Meu Deus, sem dúvida nenhuma! ‑ respondeu Athos. ‑ E não só aprovo o que acaba de fazer como ainda o felicito.

‑ E agora, meus senhores ‑ disse d'Artagnan, sem se dar ao incómodo de explicar o seu comportamento a Porthos ‑, todos por um e um por todos, é a nossa divisa, não é verdade?

‑ Mas... ‑ começou Porthos.

‑ Estende a mão e jura! ‑ gritaram ao mesmo tempo Athos e Aramis.

Vencido pelo exemplo, mas resmungando entre dentes, Porthos estendeu a mão e os quatro amigos repetiram em uníssono a fórmula ditada por d'Artagnan: «Todos por um e um por todos.»

‑ E agora, retire‑se cada um para sua casa ‑ disse d'Artagnan, como se nunca tivesse feito outra coisa toda a vida senão comandar. ‑ Mas cuidado, porque a partir deste momento estamos em guerra com o cardeal.

 

         UMA RATOEIRA DO SÉCULO XVII

A invenção da ratoeira não data dos nossos dias; desde que as sociedades se formaram e inventaram um polícia de qualquer espécie, essa polícia inventou por seu turno a ratoeira.

Como os nossos leitores talvez não estejam ainda familiarizados com o vocabulário da Rua de Jerusalém, e como desde que escrevemos ‑ já lá vão cerca de quinze anos ‑ é a primeira vez que empregamos esta palavra neste sentido, expliquemos‑lhes o que é uma ratoeira.

Quando numa casa, qualquer que ela seja, se prende um indivíduo suspeito de um crime de qualquer natureza, conserva‑se a prisão secreta; colocam‑se quatro ou cinco homens emboscados na primeira divisão, abre‑se a porta a toda a gente que bata, fecha‑se atrás de quem entrar e prendem‑se essas pessoas; deste modo, ao cabo de dois ou três dias apanham‑se quase todos os frequentadores da casa.

É a isto que se chama uma ratoeira.

Armou‑se portanto uma ratoeira em casa de mestre Bonacieux e quem lá apareceu foi preso e interrogado pelos homens do Sr. Cardeal. Escusado será dizer que como uma passagem particular conduzia ao primeiro andar, onde morava d'Artagnan, aqueles que o procuravam estavam isentos de qualquer devassa.

Aliás, os três mosqueteiros eram os únicos que o visitavam. Tinham‑se posto em campo, cada um por seu lado, mas não tinham encontrado nada, nada tinham descoberto. Athos fora até ao extremo de interrogar o Sr. de Tréville, coisa que, dado o mutismo habitual do digno mosqueteiro, surpreendera muito o seu capitão. Mas o Sr. de Tréville não sabia nada, excepto que da última vez que vira o cardeal, o rei e a rainha, o cardeal tinha um ar muito preocupado, o rei estava inquieto e os olhos vermelhos da rainha indicavam que ela não dormira ou chorara. Mas esta última circunstância pouco o impressionara, pois desde o seu casamento a rainha dormia pouco e chorava muito.

O Sr. de Tréville recomendou em todo o caso a Athos o serviço do rei e sobretudo da rainha, e pediu‑lhe que fizesse a mesma recomendação aos seus camaradas.

Quanto a d'Artagnan, não saía de casa. Convertera o quarto em observatório. Das janelas via chegar aqueles que depois eram presos; em seguida, como tirara alguns ladrilhos do pavimento, furara o forro e conseguira assim que apenas um tecto simples o separasse do quarto de baixo, onde procediam aos interrogatórios, ouvia tudo o que se passava entre os inquiridores e os acusados.

Os interrogatórios, precedidos de uma revista minuciosa da pessoa detida, eram quase sempre assim concebidos:

‑ A Sr.a Bonacieux entregou‑vos alguma coisa para o marido ou para qualquer outra pessoa?

‑ O Sr. Bonacieux entregou‑vos alguma coisa para a mulher ou para qualquer outra pessoa?

‑ Um e outro fizeram‑vos qualquer confidência de viva voz?

«Se soubessem alguma coisa, não interrogavam assim», disse para consigo d'Artagnan. «Mas que será que procuram saber agora? Se o duque de Buckingham se encontra em Paris e se teve ou terá algum encontro com a rainha?»

D'Artagnan fixou‑se nesta ideia, que depois de tudo o que ouvira não era improvável.

Entretanto, a ratoeira funcionava permanentemente e a vigilância de d'Artagnan também.

No dia seguinte ao da prisão do pobre Bonacieux, à noite, quando Athos acabava de deixar d'Artagnan para ir ao palácio do Sr. de Tréville, acabavam de dar nove horas e Planchet, que ainda não fizera a cama, começava a sua tarefa, bateram à porta da rua; a porta abriu‑se e fechou‑se imediatamente: acabava de cair alguém na ratoeira.

D'Artagnan correu para o sítio desladrilhado, deitou‑se de bruços e escutou.

Não tardou a ouvir gritos e depois gemidos que procuravam abafar. De interrogatório, nada.

«Diabo», disse d'Artagnan para consigo, « parece‑me que é uma mulher; revistam‑na, resiste... violentam‑na... os miseráveis!»

E d'Artagnan, apesar da sua prudência, continha‑se a custo para não interferir na cena que se passava debaixo de si.

‑ Mas repito‑vos que sou a dona da casa, meus senhores; repito‑vos que sou a Sr.a Bonacieux; repito‑vos que estou ao serviço da rainha! ‑ gritava a pobre mulher.

‑ A Sr.a Bonacieux! ‑ murmurou d'Artagnan. ‑ Terei tanta sorte que descobri o que toda a gente procura?

‑ Era precisamente vós quem esperávamos ‑ insistiram os interrogadores.

A voz tornou‑se cada vez mais abafada; um movimento tumultuoso fez vibrar os madeiramentos. A vítima resistia tanto quanto uma mulher pode resistir a quatro homens.

‑ Perdão, senhores, per... ‑ murmurou a voz, que depois só conseguiu emitir sons inarticulados.

‑ Amordaçam‑na, vão‑na levar! ‑ exclamou d'Artagnan, levantando‑se como que impelido por uma mola. ‑ A minha espada? Bom, tenho‑a ao lado. Planchet!

‑ Senhor?

‑ Corre a buscar Athos, Porthos e Aramis. Um dos três estará com certeza em casa, talvez todos os três tenham já recolhido. Que peguem nas armas e venham, que corram. Ah, agora me lembro: Athos está com o Sr. de Tréville!

‑ Mas aonde ides, senhor, aonde ides?

‑ Desço pela janela a fim de chegar mais cedo. Coloca os ladrilhos no seu lugar, varre o chão, sai pela porta e corre aonde te disse.

‑ Oh, senhor, senhor, ides matar‑vos! ‑ gritou Planchet.

‑ Cala‑te, imbecil ‑ redarguiu d'Artagnan.

E agarrando‑se com as mãos ao rebordo da janela, deixou‑se cair do primeiro andar, que felizmente não era alto, sem fazer um arranhão. Depois foi imediatamente bater à porta, murmurando:

‑ Vou deixar‑me cair na ratoeira e ai dos gatos que se atirarem a semelhante rato!...

Assim que a aldraba ressoou pela mão do jovem, o tumulto cessou, aproximaram‑se passos, a porta abriu‑se e d'Artagnan, de espada desembainhada, lançou‑se no apartamento de mestre Bonacieux, cuja porta, sem dúvida accionada por uma mola, se fechou por si mesma atrás dele.

Então aqueles que ainda se encontravam na malfadada casa de Bonacieux e os vizinhos mais próximos ouviram grandes gritos, correrias, tinido de espadas e ruído prolongado de móveis. Pouco depois, aqueles que surpreendidos pelo barulho tinham vindo às janelas para averiguarem a sua causa, viram a porta tornar a abrir‑se e quatro homens vestidos de preto, não saírem, mas sim levantarem voo como corvos espavoridos, deixando no chão e nas esquinas das mesas penas da asas, isto é, farrapos dos seus fatos e restos das suas capas.

D'Artagnan saíra vencedor sem muita dificuldade, deve‑se dizer, pois só um aguazil estava armado e esse mesmo apenas se defendeu por honra da firma. É certo que os outros três tinham tentado agredir o jovem com as cadeiras, os bancos e as louças; mas dois ou três arranhões feitos pelo espadalhão do gascão tinham bastado para os assustar. Dez minutos chegaram para a sua derrota e d'Artagnan ficara senhor do campo de batalha.

Os vizinhos, que tinham aberto as janelas com o sangue‑frio característico dos habitantes de Paris naqueles tempos de motins e rixas permanentes, fecharam‑nas assim que viram fugir os quatro homens de preto: o seu instinto dizia‑lhes que de momento tudo terminara.

Aliás, era tarde, e então como hoje as pessoas deitavam‑se cedo no Bairro do Luxemburgo.

D'Artagnan ficou sozinho com a Sr.a Bonacieux e virou‑se para ela: a pobre mulher estava caída num cadeirão e meio desmaiada. D'Artagnan examinou‑a numa rápida vista de olhos.

Era uma encantadora mulher de vinte e cinco ou vinte e seis anos, morena, de olhos azuis, nariz levemente arrebitado, dentes admiráveis e tez marmoreada de cor‑de‑rosa e opala. Terminavam aí, porém, os sinais que podiam levar a confundi‑la com uma grande dama. As mãos eram brancas, mas sem delicadeza; os pés não revelavam a mulher de raça. Felizmente, d'Artagnan não se preocupava ainda com tais pormenores.

Enquanto d'Artagnan examinava a Sr.a Bonacieux, e se lhe detinha nos pés, como dissemos, viu no chão um fino lenço de cambraia, que apanhou como de costume e num canto do qual reconheceu o mesmo monograma que vira no lenço que quase o levara a cortar a garganta a Aramis... ou vice‑versa.

Desde então, d'Artagnan desconfiava dos lenços brasonados; meteu portanto, sem dizer nada, o que apanhara na algibeira da Sr.a Bonacieux.

Nesse momento, a Sr.a Bonacieux recuperou os sentidos. Abriu os olhos, olhou com terror à sua volta, viu que a casa estava vazia e se encontrava sozinha com o seu libertador. Estendeu‑lhe imediatamente as mãos, sorrindo. A Sr.a Bonacieux possuía o mais encantador sorriso do mundo.

‑ Ah, senhor, salvastes‑me! Permiti‑me que vos agradeça.

‑ Minha senhora, limitei‑me a fazer o que qualquer gentil‑homem faria no meu lugar ‑ respondeu d'Artagnan. ‑ Não me deveis portanto nenhum agradecimento.

‑ Isso é que devo, senhor, isso é que devo! E espero provar‑vos que não fostes útil a uma ingrata. Mas que me queriam aqueles homens, que primeiro tomei por ladrões, e por que motivo o Sr. Bonacieux não está em casa?

‑ Minha senhora, aqueles homens eram muito mais perigosos do que ladrões, pois eram agentes do Sr. Cardeal, e quanto ao vosso marido, o Sr. Bonacieux, não está em casa porque ontem vieram buscá‑lo para o levarem para a Bastilha.

‑ Meu marido na Bastilha! ‑ exclamou a Sr.a Bonacieux. ‑ Oh, meu Deus, que fez ele? Pobre homem, ele é a inocência personificada!

E qualquer coisa como um sorriso surgiu no rosto ainda assustado da jovem mulher.

‑ Que fez ele, senhora? Creio que o seu único crime é ter ao mesmo tempo a felicidade e a infelicidade de ser vosso marido.

‑ Mas, senhor, sabeis então que...

‑ Sei que fostes raptada, senhora.

‑ E por quem, sabeis? Oh, se o sabeis, dizei‑mo!

‑ Por um homem de quarenta a quarenta e cinco anos, de cabelo preto, moreno e com uma cicatriz na têmpora esquerda.

‑ É isso, é isso! Mas o seu nome?

‑ O seu nome? É o que ignoro.

‑ E o meu marido sabia que eu fora raptada?

‑ Foi prevenido por uma carta que lhe escreveu o próprio raptor.

‑ E desconfiou por que me raptaram? ‑ perguntou a Sr.a Bonacieux, embaraçada.

‑ Creio que atribuiu o rapto a motivo político.

‑ Ao princípio duvidei que fosse esse o motivo, mas agora penso como ele. Portanto o querido Sr. Bonacieux não desconfiou um só instante...?

‑ Ah, longe disso, minha senhora! Estava até muito orgulhoso da vossa sensatez e sobretudo do vosso amor.

Segundo sorriso quase imperceptível aflorou aos lábios rosados da bela mulher.

‑ Mas como fugistes? ‑ perguntou d'Artagnan.

‑ Aproveitei um momento em que me deixaram sozinha e como sabia desde manhã a que atribuir o meu rapto, desci pela janela com o auxílio dos meus lençóis. Depois, como julgava que o meu marido estivesse em casa, corri para cá.

‑ Para vos colocardes sob a sua protecção?

‑ Oh, não, pobre homem! Sabia perfeitamente que era incapaz de me defender; mas como podia servir‑nos para outra coisa, queria preveni‑lo.

‑ De quê?

‑ Oh, esse segredo não me pertence; não posso portanto revelar‑vo‑lo!

‑ Aliás ‑ começou d'Artagnan, mas interrompeu‑se para dizer: ‑ Perdão, minha senhora, se pelo facto de ser guarda vos aconselho prudência. Mas, como ia a dizer, creio que não estamos aqui em lugar conveniente para fazer confidências. Os homens que pus em fuga vão regressar com reforços, e se nos encontram estamos perdidos. É certo que mandei avisar três dos meus amigos, mas quem sabe se foram encontrados em casa!

‑ Sim, sim, tendes razão ‑ concordou a Sr.a Bonacieux, assustada.

‑ Fujamos, salvemo‑nos!

Após estas palavras, deu o braço a d'Artagnan e puxou‑o vivamente.

‑ Mas fugir para onde? Salvarmo‑nos como? ‑ redarguiu d'Artagnan.

‑ Primeiro afastemo‑nos desta casa e depois veremos.

E os dois jovens, sem se darem ao trabalho de fechar a porta, desceram rapidamente a Rua dos Fossoyeurs, meteram pela Rua dos Fosses‑Monsieur‑le‑Prince e só pararam na Praça de Saint‑Sulpice.

‑ E agora que vamos fazer? Aonde quereis que vos leve? ‑ perguntou d'Artagnan.

‑ Confesso que não sei que vos responda ‑ disse a Sr.a Bonacieux.

‑ A minha intenção era mandar prevenir o Sr. de La Porte pelo meu marido, para que o Sr. de La Porte nos dissesse precisamente o que se passara no Louvre há três dias e se não havia perigo para mim em apresentar‑me lá.

‑ Mas eu posso ir prevenir o Sr. de La Porte ‑ declarou d'Artagnan.

‑ Sem dúvida; há apenas um óbice: no Louvre conhecem o Sr. Bonacieux e deixá‑lo‑iam entrar, ao passo que a vós não vos conhecem e fechar‑vos‑ão a porta na cara.

‑ Bom, mas com certeza tendes em qualquer entrada do Louvre um porteiro que vos seja dedicado e que graças a um santo‑e‑senha...

A Sr.a Bonacieux olhou fixamente o rapaz.

‑ E se vos desse esse santo‑e‑senha esquecê‑lo‑íeis assim que vos tivésseis servido dele?

‑ Palavra de honra, à fé de gentil‑homem! ‑ respondeu d'Artagnan com um acento de sinceridade de que não havia que duvidar.

‑ Acredito em vós; pareceis‑me bom rapaz e talvez a vossa fortuna coroe vossa dedicação.

‑ Farei sem promessas e conscientemente tudo o que puder para servir o rei e ser agradável à rainha ‑ disse d'Artagnan. ‑ Disponde portanto de mim como de um amigo.

‑ Mas onde me esconderei entretanto?

‑ Não tendes ninguém a casa de quem o Sr. de La Porte possa ir‑vos buscar?

‑ Não, e não quero confiar em ninguém.

‑ Esperai ‑ disse d'Artagnan. ‑ Estamos à porta de Athos. Sim, é isso...

‑ Quem é Athos?

‑ Um dos meus amigos.

‑ Mas se está em casa e me vê?

‑ Não está e ficarei com a chave depois de vos fazer entrar no seu apartamento.

‑ E se volta?

‑ Não voltará. Aliás, dir‑lhe‑ia que arranjara uma mulher e que essa mulher estava em sua casa.

‑ Mas isso comprometer‑me‑ia muito, bem sabeis!

‑ E depois? Ninguém vos conhece! De resto, estamos numa situação em que temos de passar por cima de algumas conveniências!

‑ Vamos lá então a casa do vosso amigo. Onde é que ele mora?

‑ Na Rua Férou, a dois passos daqui.

‑ Vamos.

E ambos se puseram de novo a caminho. Como previra d'Artagnan, Athos não estava em casa. Pediu a chave, que costumavam dar‑lhe como a um amigo da casa, subiu a escada e introduziu a Sr.a Bonacieux no apartamentozinho que já descrevemos.

‑ Estais em vossa casa ‑ disse ele. ‑ Fechai a porta por dentro e não abrais a ninguém, a não ser que ouçais três pancadas, assim... ‑ e bateu três vezes: duas pancadas seguidas e bastante fortes e uma mais afastada e fraca.

‑ Está bem ‑ respondeu a Sr.a Bonacieux. ‑ Agora é a minha vez de vos dar as minhas instruções.

‑ Às ordens.

‑ Apresentai‑vos na entrada do Louvre do lado da Rua da Échelle e perguntai pelo Germain.

‑ Muito bem. E depois?

‑ Ele perguntar‑vos‑á o que quereis e responder‑lhe‑eis com estas duas palavras: «Tours e Bruxelas.» Pôr‑se‑á imediatamente às vossas ordens.

‑ E que lhe ordenarei?

‑ Que vá chamar o Sr. de La Porte, o criado grave da rainha.

‑ E quando o Sr. de La Porte chegar?

‑ Mandar‑mo‑eis.

‑ Está bem, mas onde e como vos tornarei a ver?

‑ Tendes muita vontade de me tornar a ver?...

‑ Certamente.

‑ Nesse caso, deixai isso comigo e ficai tranquilo.

‑ Confio na vossa palavra.

‑ Podeis confiar.

D'Artagnan cumprimentou a Sr.a Bonacieux, envolveu‑a no olhar mais apaixonado que lhe foi possível concentrar na sua encantadora pessoa e, enquanto descia a escada, ouviu a porta fechar‑se atrás de si, com duas voltas de chave. Pouco depois estava no Louvre.

Quando chegava à entrada da Échelle davam dez horas. Todos os acontecimentos que acabamos de narrar se tinham verificado em cerca de meia hora. Correu tudo como previra a Sr.a Bonacieux. Ao ouvir o santo‑e‑senha convencionado, Germain inclinou‑se; dez minutos mais tarde, La Porte estava no cubículo do porteiro. D'Artagnan pô‑lo ao corrente do que se passava e disse‑lhe onde estava a Sr.a Bonacieux. La Porte assegurou‑se por duas vezes da exactidão da morada e saiu a correr. Mas mal deu dez passos voltou para trás.

‑ Um conselho ‑ disse a d'Artagnan. ‑Qual?

‑ Podeis ser inquietado pelo que acaba de se passar.

‑ Parece‑vos?

‑ Tendes algum amigo cujo relógio se atrase?

‑ Que quereis dizer?

‑ Ide visitá‑lo para que possa testemunhar que estáveis em sua casa às nove e meia. Em justiça isso chama‑se um álibi.

D'Artagnan achou o conselho prudente. Estugou o passo e entrou no palácio do Sr. de Tréville; mas em vez de se dirigir para o salão, como toda a gente, pediu para entrar no seu gabinete. Como d'Artagnan era um dos frequentadores habituais do palácio, ninguém pôs qualquer obstáculo ao seu pedido; o criado limitou‑se a ir prevenir o Sr. de Tréville de que o seu jovem compatriota tinha algo importante a dizer‑lhe e solicitava uma audiência particular. Cinco minutos depois o Sr. de Tréville perguntava a d'Artagnan em que lhe podia ser útil e o que significava a sua visita a hora tão adiantada.

‑ Perdão, senhor ‑ disse d'Artagnan, que aproveitara o momento em que ficara sozinho para atrasar o relógio três quartos de hora ‑, pensei que como eram apenas nove horas e vinte e cinco minutos ainda não fosse tarde para vos procurar.

‑ Nove horas e vinte e cinco minutos! ‑ exclamou o Sr. de Tréville, olhando o relógio de sala. ‑ Mas é impossível!

‑ Como vedes, o relógio não engana, senhor ‑ observou d'Artagnan.

‑ Tendes razão ‑ admitiu o Sr. de Tréville. ‑ Juraria que era mais tarde... Mas vejamos, que me quereis?

Então, d'Artagnan contou ao Sr. de Tréville uma longa história a respeito da rainha. Expôs‑lhe os temores que concebera acerca de Sua Majestade e contou‑lhe o que ouvira dizer dos projectos do cardeal relativamente a Buckingham, e tudo isto com uma calma e um à‑vontade que iludiu tanto mais facilmente o Sr. de Tréville quanto é certo que ele próprio, como já dissemos, notara algo estranho entre o cardeal, o rei e a rainha.

Quando deram dez horas, d'Artagnan deixou o Sr. de Tréville, que lhe agradeceu as suas informações, lhe recomendou que tivesse sempre a peito o serviço do rei e da rainha e voltou para o salão. Mas ao fundo da escada d'Artagnan lembrou‑se de que se esquecera da bengala. Por isso, voltou a subir precipitadamente, entrou no gabinete, com uma volta de dedo recolocou o relógio na hora exacta para que no dia seguinte se não descobrisse que fora atrasado, e certo de que dali em diante teria uma testemunha para provar o seu álibi, desceu a escada e não tardou a encontrar‑se na rua.

 

         A INTRIGA PROGRIDE

Feita a sua visita ao Sr. de Tréville, d'Artagnan tomou, muito pensativo, o caminho mais longo para regressar a casa.

Em que pensava d'Artagnan que o afastava assim da sua rota e o levava a olhar as estrelas do céu, ora suspirando, ora sorrindo?

Pensava na Sr.a Bonacieux. Para um aprendiz de mosqueteiro, a jovem mulher era quase uma idealidade amorosa. Bonita, misteriosa, iniciada em quase todos os segredos do coração, que emprestavam tanta encantadora gravidade às suas feições graciosas, dava ideia de não ser insensível aos galanteios, o que constituía uma atracção irresistível para os apaixonados inexperientes. Além disso, d'Artagnan arrancara‑a das mãos daqueles demónios que queriam revistá‑la e maltratá‑la, e esse importante serviço estabelecera entre ambos um desses sentimentos de reconhecimento que adquirem muito facilmente carácter mais terno. D'Artagnan via‑se já ‑ de tal forma os sonhos andam depressa nas asas da imaginação ‑ abordado por um mensageiro da jovem, que lhe entregava um bilhete a marcar um encontro, um fio de ouro ou um diamante. Já dissemos que os jovens cavalheiros recebiam sem vergonha dinheiro do seu rei; acrescentemos que naqueles tempos de moral fácil não tinham mais vergonha em o receber das suas amantes e que estas lhe deixavam quase sempre preciosas e duradouras recordações, como se precisassem de conquistar a fragilidade dos sentimentos do amado com a solidez das suas dádivas.

Progredia‑se na vida por intermédio das mulheres, sem corar. As que eram apenas belas, davam a sua beleza, e daí provém sem dúvida o provérbio de que a mais bela mulher do mundo só pode dar o que tem. As que eram ricas davam além disso parte do seu dinheiro, e podería‑mos citar numerosos heróis daquela época galante que não teriam ganhado nem as suas esporas, primeiro, nem as suas batalhas, depois, sem a bolsa mais ou menos fornecida que a amante lhe prendia ao arção da sela.

D'Artagnan não possuia nada; a timidez do provinciano, verniz superficial, flor efémera, penugem de pêssego, evaporara‑se levada pelo vento dos conselhos pouco ortodoxos que os três mosqueteiros davam ao amigo. De acordo com o estranho costume do tempo, d'Artagnan via‑se em Paris como se estivesse em campanha, e nada mais, nada menos do que na Flandres: os Espanhóis num lado, a mulher noutro. Por todos os lados inimigos a combater, contribuições a cobrar.

Mas, digamo‑lo, de momento, d'Artagnan era dominado por um sentimento mais nobre e desinteressado. O retroseiro dissera‑lhe que era rico; o jovem adivinhara sem dificuldade que com um néscio como o Sr. Bonacieux quem devia ter a chave da burra era a mulher. Mas isso não influíra em nada no sentimento produzido pela vista da Sr.a Bonacieux, e o interesse permanecera quase estranho ao começo de amor que se lhe seguira. Dizemos «quase» porque a ideia de que uma jovem mulher, ela, graciosa, cheia de espírito, e ao mesmo tempo rica em nada diminui esse começo de amor, e muito pelo contrário corrobora‑o.

A riqueza é acompanhada de numerosas preocupações e caprichos aristocráticos inerentes à beleza. Umas meias finas e brancas, um vestido de seda, um lenço de pescoço de renda, uns bonitos sapatos nos pés, uma fita engraçada na cabeça, não tornam bonita uma mulher feia, mas tornam bela uma mulher bonita, sem contar com as mãos, que levam a palma a tudo isso; as mãos, sobretudo nas mulheres, necessitam de permanecer ociosas para se conservarem belas.

Depois d'Artagnan, como o leitor sabe, a quem não ocultámos o estado da sua fortuna, d'Artagnan não era um milionário; esperava vir a sê‑lo um dia, mas o tempo que fixara a si mesmo para essa feliz mudança era bastante longo. Entretanto, que desespero ver uma mulher que se ama desejar esses mil nadas com que as mulheres constróem a sua felicidade e não lhe poder dar esses mil nadas! Ao menos, quando a mulher é rica e o amante o não é, o que ele lhe não pode oferecer oferece‑o ela a si mesma; e embora seja geralmente com o dinheiro do marido que obtém esse prazer, é raro que seja ele a receber o reconhecimento.

Depois d'Artagnan, disposto a ser o amante mais terno, era entretanto um amigo dedicadíssimo. No meio dos seus projectos amorosos acerca da mulher do retroseiro, não esquecia os seus planos. A bonita Sr.a Bonacieux era mulher para passear na planície de Saint‑Denis ou na feira de Saint‑Germain em companhia de Athos, Porthos e Aramis, aos quais d'Artagnan teria orgulho em mostrar semelhante conquista. Depois, quando se nada muito tempo, vem a fome; havia algum tempo que d'Artagnan notara isso... Fariam desses jantarinhos encantadores onde se toca de um lado a mão de um amigo e do outro o pé de uma amante. Enfim, nos momentos prementes, nas situações extremas, d'Artagnan seria o salvador dos amigos.

E o Sr. Bonacieux, que d'Artagnan entregara nas mãos dos esbirros, renegando em voz alta o pobre homem depois de lhe prometer em voz baixa salvá‑lo? Devemos confessar aos nossos leitores que d'Artagnan não pensava nele de modo algum, ou, se pensava, era para dizer a si mesmo que estava muito bem onde estava, fosse onde fosse. O amor é a mais egoísta de todas as paixões.

No entanto, tranquilizem‑se os nossos leitores: se d'Artagnan esquece o seu senhorio, ou finge esquecê‑lo, a pretexto de não saber para onde o levaram, nós não o esquecemos e sabemos onde está. Mas de momento façamos como o gascão apaixonado.

Quanto ao digno retroseiro, ocupar‑nos‑emos dele mais tarde.

Enquanto pensava nos seus futuros amores, enquanto falava à noite, enquanto sorria às estrelas, d'Artagnan subia a Rua do Cherche‑Midi ou Chasse‑Midi, como se chamava então. Como se encontrava no bairro de Aramis, lembrou‑se de fazer uma visita ao amigo para lhe dar algumas explicações acerca do motivo que o levara a mandar Planchet convidá‑lo a dirigir‑se imediatamente à ratoeira. Ora, se Aramis estivesse em casa quando Planchet o procurara, correra sem dúvida à Rua dos Fossoyeurs, onde não encontrara ninguém excepto, talvez, os seus dois outros companheiros, sem que nem uns nem outros soubessem o que tudo aquilo queria dizer. Tal incómodo merecia portanto uma explicação, como dizia em voz alta d'Artagnan.

Depois, baixinho, pensava que era para si uma oportunidade de falar da bonita Sr.a Bonacieux, da qual o seu espírito, senão o seu coração, estava já repleto. Não é de esperar discrição acerca de um primeiro amor. Um primeiro amor é acompanhado de tão grande alegria que é necessário deixar transbordar essa alegria, que de contrário nos asfixiaria. Depois das dez horas, Paris era sombrio e começava a ficar deserto. Davam onze horas em todos os relógios do Arrabalde de Saint‑Germain e estava um tempo agradável. D'Artagnan seguia por uma ruela situada no ponto onde passa hoje a Rua de Assas, respirando as emanações perfumadas que o vento trazia da Rua de Vaugirard e enviavam os jardins refrescados pelo orvalho e pela brisa da noite. Ao longe ecoavam, abafados por bons guarda‑ventos, os cantos dos bebedores nalguns botequins perdidos na planície. Chegado ao fim da ruela, d'Artagnan virou à esquerda. O prédio onde morava Aramis ficava situado entre a Rua Cassette e a Rua Servandoni.

D'Artagnan acabava de ultrapassar a Rua Cassette e reconhecia já a porta do prédio do amigo, escondida por um maciço de sicômoros e clematites que formavam uma vasta arcada por cima dela, quando distinguiu qualquer coisa como uma sombra que saía da Rua Servandoni. Essa qualquer coisa estava envolta numa capa e d'Artagnan julgou ao princípio tratar‑se de um homem; mas pela baixa estatura, pela incerteza da atitude e pela hesitação do passo não tardou a reconhecer uma mulher. Além disso, a mulher, como se não estivesse bem certa da casa que procurava, levantava os olhos para se certificar, parava, voltava para trás e regressava novamente. D'Artagnan estava intrigado.

«Vou oferecer‑lhe os meus serviços!», pensou. «Pelo aspecto, vê‑se que é nova; talvez bonita. Oh, sim! Mas uma mulher que anda na rua a estas horas só sai para ir encontrar‑se com o amante. Ná, perturbar‑lhe o encontro seria má porta para entrar em relações!...»

Entretanto, a jovem continuava a avançar, contando as casas e as janelas. Aliás, isso não era coisa demorada nem difícil. Só havia três palácios naquela parte da rua e duas janelas com vista para essa mesma rua: uma era de um pavilhão paralelo ao que ocupava Aramis e a outra a do próprio Aramis.

«Com a breca», pensou d'Artagnan, a quem a sobrinha do teólogo acudia ao espírito, «com a breca, teria piada se esta pomba retardatária procurasse a casa do nosso amigo! Pela minha salvação se não parece mesmo isso... Ah, meu caro Aramis, desta vez tenho de tirar isto a limpo!»

E d'Artagnan, encolhendo‑se o mais possível, escondeu‑se no canto mais escuro da rua, junto de um banco de pedra situado ao fundo de um nicho.

A jovem continuou a avançar, pois além da ligeireza do seu andar, que a atraiçoara, acabava de deixar escapar uma tossezinha que denunciava uma voz das mais frescas. D'Artagnan pensou que aquela tosse era um sinal.

Entretanto, fosse porque tivessem respondido à tosse com outro sinal equivalente que tivesse posto termo às irresoluções da nocturna indagadora, fosse porque sem auxílio estranho tivesse reconhecido que chegara ao seu destino, aproximou‑se resolutamente da persiana de Aramis e bateu com três intervalos iguais, com o dedo recurvado.

‑ Não há dúvida que procurava Aramis ‑ murmurou d'Artagnan. ‑ Ah, senhor hipócrita, apanhei‑vos às voltas com a teologia!...

Mal as três pancadas soaram abriu‑se a janela interior e surgiu uma luz através da persiana.

‑ Ah, ah!... ‑ exclamou o escutador, não às portas, mas sim às janelas. ‑ Ah, ah, a visita era esperada! Agora a persiana vai‑se abrir e a dama entrará por escalamento. Muito bem!

Mas com grande espanto de d'Artagnan a persiana permaneceu fechada. Além disso, a luz que brilhara um instante desapareceu e tudo mergulhou nas trevas.

D'Artagnan pensou que aquilo não podia ficar assim e continuou a olhar de olhos bem abertos e a escutar de ouvidos bem atentos.

Tinha razão: passados alguns segundos soaram lá dentro duas pancadas secas.

A jovem da rua respondeu com uma única pancada e a persiana entreabriu‑se.

Imagine‑se com que avidez olhava e escutava d'Artagnan!

Infelizmente, a luz fora levada para outra divisão. Mas os olhos do jovem estavam habituados à noite. Aliás, os olhos dos gascões possuem, ao que se afirma, a propriedade de verem de noite, como os dos gatos.

D'Artagnan viu portanto que a jovem tirava da algibeira um objecto branco, que desdobrou vivamente e tomou a forma de um lenço. Uma vez o objecto desdobrado, ela chamou a atenção do seu interlocutor para um canto.

Isso recordou a d'Artagnan o lenço que encontrara aos pés da Sr.a Bonacieux, o qual lhe recordara o que encontrara aos pés de Aramis. .

Que diabo significaria aquele lenço?

Colocado onde estava, d'Artagnan não podia ver a cara de Aramis ‑ dizemos de Aramis porque o jovem não tinha nenhuma dúvida de ser o amigo quem dialogava do interior com a dama do exterior ‑, mas a curiosidade levou a melhor à prudência e, aproveitando a preocupação em que a vista do lenço parecia mergulhar as duas personagens que pusemos em cena, d'Artagnan saiu do seu esconderijo e, rápido como um relâmpago, mas abafando o ruído dos seus passos, foi‑se colar a uma esquina da parede donde o seu olhar podia mergulhar perfeitamente no interior do apartamento de Aramis.

Chegado aí, d'Artagnan quase soltou um grito de surpresa: não era Aramis quem conversava com a visitante nocturna, era uma mulher. Pelo menos, d'Artagnan via‑a o suficiente para reconhecer a forma do seu vestuário, mas não o bastante para lhe distinguir as feições.

No mesmo instante, a mulher do apartamento tirou segundo lenço da algibeira e trocou‑o por aquele que acabavam de lhe mostrar. Depois, as duas mulheres trocaram algumas palavras. Por fim, a persiana fechou‑se; a mulher que se encontrava da parte de fora da janela virou‑se e passou a quatro passos de d'Artagnan, baixando o capuz da capa. Mas a precaução fora tomada demasiado tarde: d'Artagnan já reconhecera a Sr.a Bonacieux.

A Sr.a Bonacieux! A suspeita de ser ela já lhe atravessara o espírito, quando a jovem tirara o lenço da algibeira. Mas como era possível que a Sr.a Bonacieux, que o mandara buscar o Sr. de La Porte para a acompanhar ao Louvre, corresse as ruas de Paris sozinha às onze e meia da noite, com risco de ser raptada segunda vez?

Só por um assunto muito importante. E qual o assunto mais importante para uma mulher de vinte e cinco anos? O amor.

Mas era por sua conta ou por conta doutra pessoa que se expunha a semelhantes perigos? Eis o que perguntava a si mesmo o jovem, a quem o demónio do ciúme mordia o coração, nem mais nem menos do que morderia a um amante autêntico.

Tinha de resto uma maneira muito simples de descobrir aonde ia a Sr.a Bonacieux: segui‑la. E essa maneira era tão simples que d'Artagnan a utilizou tão natural como instintivamente.

Mas ao ver o jovem destacar‑se da parede como uma estátua do seu nicho e ao ouvir‑lhe os passos soarem atrás de si, a Sr.a Bonacieux soltou um gritinho e fugiu.

D'Artagnan correu atrás dela. Não era nada difícil para ele apanhar uma mulher a quem a capa estorvava. Apanhou‑a portanto percorrido um terço da rua por onde ela metera. A pobrezinha estava exausta, não de fadiga, mas sim de terror, e quando d'Artagnan lhe pousou a mão no ombro ela caiu sobre um joelho e gritou com voz estrangulada:

‑ Matai‑me, se quiserdes, mas não sabereis nada!

D'Artagnan levantou‑a, passando‑lhe o braço à volta da cintura; mas como sentisse pelo peso da jovem que esta estava prestes a perder os sentidos, apressou‑se a tranquilizá‑la com protestos de dedicação. Mas tais protestos não valiam nada para a Sr.a Bonacieux, pois semelhantes protestos podiam ocultar as piores intenções do mundo; a voz, porém, era tudo.

A jovem julgou reconhecer o som daquela voz; abriu os olhos, deitou uma olhadela ao homem que lhe metera tanto medo e reconhecendo d'Artagnan, soltou um grito de alegria.

‑ Oh, sois vós, sois vós! Obrigada, meu Deus!

‑ Sim, sou eu ‑ respondeu d'Artagnan ‑, eu a quem Deus enviou para velar por vós.

‑ Era com essa intenção que me seguíeis? ‑ perguntou com um sorriso cheio de garridice a jovem, cujo temperamento um pouco trocista vinha ao de cima, e em quem todo o medo desaparecera desde o momento em que reconhecera um amigo naquele que tomara por inimigo.

‑ Não ‑ respondeu d'Artagnan. ‑ Não, confesso. Foi o acaso que me trouxe ao vosso caminho; vi uma mulher bater à janela de um dos meus amigos...

‑ De um dos vossos amigos? ‑ interrompeu‑o a Sr.a Bonacieux.

‑ Sem dúvida; Aramis é um dos meus melhores amigos.

‑ Aramis! Que quereis dizer?

‑ Então, não me digais que não conheceis Aramis...

‑ É a primeira vez que ouço pronunciar esse nome.

‑ É também a primeira vez que vindes a esta casa?

‑ Sem dúvida.

‑ E ignoráveis que era habitada por um homem?

‑ Ignorava.

‑ Por um mosqueteiro?

‑ Claro.

‑ Não foi portanto a ele que viestes procurar?

‑ De modo nenhum. Aliás, como bem vistes, a pessoa com quem falei era uma mulher.

‑ É verdade; mas essa mulher é uma amiga de Aramis.

‑ Não sei nada a tal respeito.

‑ Uma vez que mora com ele.

‑ Não tenho nada com isso.

‑ Mas quem é ela?

‑ Oh, esse é o meu segredo!

‑ Querida Sr.a Bonacieux, sois encantadora; mas ao mesmo tempo sois a mulher mais misteriosa...

‑ E isso prejudica‑me?

‑ Não; pelo contrário, torna‑vos adorável.

‑ Então, dai‑me o braço.

‑ Com muito prazer. E agora?

‑ E agora acompanhai‑me.

‑ Aonde?

‑ Aonde vou.

‑ Mas aonde ides?

‑ Vê‑lo‑eis, pois deixar‑me‑eis à porta.

‑ Deverei esperar‑vos?

‑ Seria útil.

‑ Regressareis portanto sozinha?

‑ Talvez sim e talvez não...

‑ Mas a pessoa que vos acompanhará depois será homem ou mulher?

‑ Por ora não sei.

‑ Sabê‑lo‑ei eu!

‑ Como?

‑ Esperar‑vos‑ei para vos ver sair.

‑ Nesse caso, adeus!

‑ Que dizeis?

‑ Que não preciso de vós.

‑ Mas pedistes‑me...

‑ Pedi a ajuda de um gentil‑homem e não a vigilância de um espião.

‑ A palavra é um pouco dura!

‑ Como se chamam aqueles que seguem as pessoas sem elas quererem?

‑ Indiscretos.

‑ A palavra é demasiado suave.

‑ Pronto, senhora, já vejo que se tem de fazer tudo o que quereis.

‑ Por que vos privastes do mérito de o fazer imediatamente?

‑ Não dais a ninguém o direito de se arrepender?

‑ E vós arrependeis‑vos realmente?

‑ Nem eu próprio já sei. Mas o que sei é que vos prometo fazer tudo o que desejardes, se me deixardes acompanhar‑vos aonde ides.

‑ E deixar‑me‑eis depois?

‑ Sim.

‑ Sem me espiardes à saída?

‑ Sim.

‑ Palavra de honra?

‑ Palavra de gentil‑homem!

‑ Dai‑me o braço e vamos então.

D'Artagnan ofereceu o braço à Sr.a Bonacieux, que lho tomou, meio risonha, meio trémula, e ambos chegaram ao cimo da Rua de La Harpe. Uma vez aí, a jovem pareceu hesitar, como já lhe acontecera na Rua de Vaugirard. No entanto, por certos indícios, pareceu reconhecer uma porta, da qual se aproximou.

‑ E agora, senhor, é aqui que venho. Mil vezes obrigada pela vossa honrosa companhia, que me preservou de todos os perigos a que sozinha me teria exposto. Mas chegou o momento de cumprirdes a vossa palavra: cheguei ao meu destino.

‑ E não tereis nada a recear na volta?

‑ Só teria de recear os ladrões.

‑ E isso não é nada?

‑ Que poderiam roubar‑me? Não trago um ceitil comigo.

‑ Esqueceis esse belo lenço bordado, brasonado. ‑Qual?

‑ O que encontrei a vossos pés e meti na vossa algibeira.

‑ Calai‑vos, calai‑vos, desgraçado! ‑ exclamou a jovem. ‑ Quereis perder‑me?

‑ Bem vedes que ainda existe perigo para vós, visto uma só palavra vos fazer tremer e confessardes que se alguém ouvisse essa palavra estaríeis perdida. Vamos, senhora, vamos! ‑ exclamou d'Artagnan, pegando‑lhe na mão e envolvendo‑a num olhar ardente. ‑ Sede mais generosa e confiai em mim. Não vedes nos meus olhos que só há dedicação e simpatia por vós no meu coração?

‑ Pois vejo ‑ respondeu a Sr.a Bonacieux. ‑ Por isso, pedi‑me que vos revele os meus segredos e revelar‑vo‑los‑ei; mas os dos outros, é diferente.

‑ Nesse caso, descobri‑los‑ei ‑ respondeu d'Artagnan. ‑ Uma vez que esses segredos podem influenciar a vossa vida, tenho de os conhecer.

‑ Guardai‑vos bem disso! ‑ exclamou a jovem, com uma seriedade que fez estremecer d'Artagnan mal‑grado seu. ‑ Oh, não interfirais em nada do que me diz respeito nem procureis ajudar‑me no que faço, peço‑vos em nome do interesse que vos inspiro, em nome do serviço que me prestastes e que não esquecerei enquanto viver! Acreditai no que vos digo. Não percais mais tempo comigo, fazei de conta que já não existo para vós, procedei como se nunca me tivésseis visto.

‑ Aramis deve fazer o mesmo que eu, senhora? ‑ perguntou d'Artagnan, fremente.

‑ Já pronunciastes esse nome duas ou três vezes, senhor, e outras tantas vos disse que o não conhecia.

‑ Não conheceis o homem à janela do qual batestes? Então, senhora, não me julgueis assim tão crédulo!

‑ Confessai que é para me fazerdes falar que inventais essa história e criais essa personagem.

‑ Não invento nada, senhora, não crio nada; digo a pura verdade.

‑ E afirmais que um dos vossos amigos mora naquela casa?

‑ Afirmo! Digo‑o e repito‑o pela terceira vez: aquela casa é onde mora o meu amigo e esse amigo é Aramis.

‑ Tudo isso se esclarecerá mais tarde ‑ murmurou a jovem. ‑ Agora, senhor, calai‑vos.

‑ Se pudésseis ver o meu coração todo a descoberto ‑ disse d'Artagnan ‑ leríeis nele tanta curiosidade que teríeis piedade de mim, e tanto amor que satisfaríeis imediatamente a minha curiosidade. Não temos nada a temer daqueles que nos amam.

‑ Falais demasiado depressa de amor, senhor! ‑ redarguiu a jovem, abanando a cabeça.

‑ Porque o amor se apoderou de mim depressa e pela primeira vez, e ainda não tenho vinte anos.

A jovem olhou‑o de soslaio.

‑ Escutai, começo a compreender ‑ disse d'Artagnan. ‑ Há três meses quase tive um duelo com Aramis por causa de um lenço idêntico a esse que mostrastes à mulher que estava em casa dele; por um lenço marcado da mesma maneira, tenho a certeza.

‑ Senhor, juro‑vos que já começo a estar cansada com tanta pergunta.

‑ Mas já que sois tão prudente, senhora, pensai nisto: se fôsseis presa com esse lenço e esse lenço fosse apanhado, não ficaríeis comprometida?

‑ Porquê, não são as minhas iniciais: C. B., Constance Bonacieux?

‑ Ou Camille de Bois‑Tracy...

‑ Silêncio, senhor; mais uma vez silêncio! Ah, já que os riscos que eu própria corro não vos detêm, pensai nos que podeis correr!

‑Eu?

‑ Sim, vós. Há perigo de prisão e perigo de morte em me conhecer.

‑ Então já vos não deixo.

‑ Senhor ‑ disse a jovem, com ar suplicante e juntando as mãos ‑, senhor, em nome do Céu, em nome da honra de um militar, em nome da cortesia de um gentil‑homem, retirai‑vos. Olhai, está a dar meia‑noite; é a hora a que me esperam.

‑ Senhora ‑ disse o jovem, inclinando‑se ‑, não sei recusar nada a quem mo pede assim. Faça‑se a vossa vontade: retiro‑me.

‑ E não me seguireis nem espiareis?

‑ Vou imediatamente para casa.

‑ Ah, bem sabia que éreis um rapaz decente! ‑ exclamou a Sr.a Bonacieux, estendendo‑lhe uma das mãos e pousando a outra na aldraba de uma portinha quase invisível na parede.

D'Artagnan pegou na mão que ela lhe estendia e beijou‑a ardentemente.

‑ Preferia nunca vos ter visto! ‑ exclamou d'Artagnan, com essa brutalidade ingénua que as mulheres quase sempre apreciam mais do que as denguisses da polidez, pois revela o fundo do pensamento e prova que o sentimento se sobrepõe à razão.

‑ Bom ‑ redarguiu a Sr.a Bonacieux, em voz quase acariciadora e apertando a mão de d'Artagnan, que não largara a dela ‑, bom, não direi tanto como vós: o que hoje está perdido não está perdido para sempre. Quem sabe se, quando um dia estiver desobrigada, não satisfarei a vossa curiosidade?

‑ E fazeis a mesma promessa em relação ao meu amor? ‑ perguntou d'Artagnan, no cúmulo da alegria.

‑ Oh, por esse lado não me quero comprometer; dependerá dos sentimentos que souberdes inspirar‑me!

‑ Portanto hoje, senhora...

‑ Hoje, senhor, apenas vos estou reconhecida.

‑ Sois deveras encantadora ‑ disse d'Artagnan com tristeza ‑, mas abusais do meu amor.

‑ Não, utilizo a vossa generosidade, apenas. Mas acreditai que com certas pessoas tudo se recupera.

‑ Oh, tornais‑me o mais feliz dos homens! Não esqueçais esta noite, não esqueçais essa promessa.

‑ Ficai tranquilo, oportunamente lembrar‑me‑ei de tudo. E agora ide, ide, por amor de Deus! Esperavam à meia‑noite em ponto e já estou atrasada.

‑ Cinco minutos.

‑ Pois sim, mas em certas circunstâncias cinco minutos são cinco séculos.

‑ Quando se ama.

‑ E quem vos diz que me não vou encontrar com um apaixonado?

‑ É um homem que vos espera? ‑ gritou d'Artagnan. ‑ Um homem!

‑ Pronto, lá vai a discussão recomeçar... ‑ observou a Sr.a Bonacieux com um meio sorriso não isento de certos laivos de impaciência.

‑ Não, não, vou‑me embora, retiro‑me. Creio em vós, quero ter todo o mérito da minha dedicação, mesmo que a minha dedicação seja uma estupidez. Adeus, senhora, adeus!

E como se só a custo fosse capaz de largar a mão que segurava nas suas, afastou‑se a correr, enquanto a Sr.a Bonacieux batia, como na persiana, três pancadas lentas e regulares. Chegado à esquina da rua, o jovem virou‑se; a porta abrira‑se e fechara‑se, a bonita retroseira desaparecera.

D'Artagnan continuou o seu caminho. Dera a sua palavra de que não espiaria a Sr.a Bonacieux e ainda que a sua vida dependesse do lugar aonde ela ia ou da pessoa que a devia acompanhar, d'Artagnan regressaria a casa, pois dissera que regressaria. Cinco minutos depois estava na Rua dos Fossoyeurs.

‑ Pobre Athos ‑ ia dizendo ‑, não perceberá nada disto. Adormeceu à minha espera ou voltou para casa, e ao entrar ficou a saber que esteve lá uma mulher. Uma mulher em casa de Athos! No fim de contas ‑ continuou d'Artagnan ‑, também havia uma em casa de Aramis. Tudo isto é muito estranho e estou cheio de curiosidade por saber como acabará.

‑ Mal, senhor, mal ‑ respondeu uma voz que o jovem reconheceu ser a de Planchet; porque enquanto ia monologando em voz alta, como as pessoas muito preocupadas, entrara no corredor ao fundo do qual ficava a escada que levava ao seu quarto.

‑ Como, mal? Que queres dizer, imbecil? Que aconteceu? ‑ perguntou d'Artagnan.

‑ Toda a espécie de infelicidades.

‑ Quais?

‑ Primeiro, o Sr. Athos foi preso.

‑ Preso! Athos foi preso? Porquê?

‑ Encontraram‑no em vossa casa e tomaram‑no por vós.

‑ E por quem foi preso?

‑ Pela guarda que foram buscar os homens de preto que pusestes em fuga.

‑ Por que não se identificou? Por que não disse que era estranho ao caso?

‑ Porque não quis, senhor. Pelo contrário, aproximou‑se de mim e disse‑me: «O teu amo é que precisa da sua liberdade neste momento e não eu, pois ele sabe tudo e eu não sei nada. Julgá‑lo‑ão preso e isso dar‑lhe‑á tempo.

Daqui a três dias direi quem sou e terão de pôr‑me em liberdade.»

‑ Bravo, Athos! Nobre coração ‑ murmurou d'Artagnan. ‑ Reconheço‑o bem nisso! E que fizeram os esbirros?

‑ Quatro levaram‑no não sei para onde, para a Bastilha ou para o For‑l'Évéque; dois ficaram com os homens de preto, que revistaram tudo e se apoderaram de todos os papéis. Finalmente os dois últimos montaram guarda à porta durante a diligência; depois, quando tudo acabou, foram‑se embora deixando a casa vazia e as portas escancaradas.

‑ E Porthos e Aramis?

‑ Não os encontrei e portanto não vieram.

‑ Mas podem vir de um momento para o outro. Não lhe deixaste recado de que os esperava?

‑ Deixei, senhor.

‑ Bom, não saias daqui; se eles vierem, conta‑lhes o que me aconteceu e diz‑lhes que me esperem no botequim da Pomme de Pin. Aqui seria perigoso, pois a casa pode estar vigiada. Vou num instante ao palácio do Sr. de Tréville contar‑lhe tudo isto e depois irei ter com eles.

‑ Pois sim, senhor ‑ respondeu Planchet.

‑ Mas tu ficarás e não terás medo! ‑ gritou d'Artagnan, voltando atrás para recomendar coragem ao criado.

‑ Ide sossegado, senhor ‑ respondeu Planchet. ‑ Ainda me não conheceis; sou corajoso quando me meto nas coisas, o caso é meter‑me nelas... E sou picardo.

‑ Então, está combinado, mais depressa te deixarás matar do que abandonarás o teu posto ‑ disse d'Artagnan.

‑ Sim, senhor. Não há nada que não faça para vos provar que vos sou dedicado.

«Bom», disse para consigo d'Artagnan, «parece que o método que empreguei com o rapaz é decididamente bom. Voltarei a usá‑lo se for necessário.»

E a toda a velocidade das suas pernas, já um pouco cansadas das correrias do dia, d'Artagnan dirigiu‑se para a Rua do Colombier.

O Sr. de Tréville não estava no palácio; a sua companhia estava de guarda ao Louvre e ele estava no Louvre com a sua companhia.

Era necessário chegar até ao Sr. de Tréville; era importante preveni‑lo do que se passava. D'Artagnan resolveu tentar entrar no Louvre. A sua farda de guarda da companhia do Sr. dos Essarts deveria servir‑lhe de passaporte.

Desceu pois a Rua dos Petits‑Augustins e subiu o cais para tomar a Ponte Nova. Por instantes pensara em atravessar de barca, mas ao chegar à beira‑d'água metera maquinalmente a mão na algibeira e verificara que não tinha com que pagar ao barqueiro.

Por altura da Rua Guénégaud, viu desembocar da Rua Dauphine um grupo constituído por duas pessoas cujo aspecto lhe chamou a atenção.

As duas pessoas que constituíam o grupo eram: uma, um homem; a outra, uma mulher.

A mulher tinha a figura da Sr.a Bonacieux e o homem parecia‑se extraordinariamente com Aramis.

Além disso, a mulher tinha a capa preta que d'Artagnan ainda via desenhar‑se na persiana da Rua de Vaugirard e na porta da Rua de La Harpe.

Por outro lado, o homem envergava o uniforme dos mosqueteiros.

A mulher tinha o capuz descido e o homem cobria a cara com o lenço; em ambos a dupla precaução indicava que lhes interessava não serem reconhecidos.

Meteram pela ponte: era o caminho de d'Artagnan, pois d'Artagnan dirigia‑se para o Louvre; d'Artagnan seguiu‑os.

Ainda não dera vinte passos quando d'Artagnan se convenceu de que a mulher era a Sr.a Bonacieux e o homem Aramis.

Sentiu imediatamente todas as desconfianças resultantes do ciúme que lhe agitava o coração.

Fora duplamente traído, pelo amigo e por aquela que amava já como uma amante. A Sr.a Bonacieux jurara‑lhe por todos os seus santinhos que não conhecia Aramis e um quarto de hora depois de lhe fazer esse juramento encontrava‑a pelo braço de Aramis.

D'Artagnan não reflectiu sequer que conhecia a bonita retroseira havia apenas três horas, que ela não lhe devia nada a não ser um pouco de reconhecimento por a ter livrado das mãos dos homens de preto que a queriam violentar e que não lhe prometera nada. Mesmo assim, considerou‑se um amante ultrajado, traído, escarnecido; o sangue e a cólera subiram‑lhe ao rosto e resolveu pôr tudo em pratos limpos.

A mulher e o homem tinham notado que eram seguidos e haviam estugado o passo. D'Artagnan correu, ultrapassou‑os e depois voltou para trás, ao seu encontro, no momento em que se encontravam diante da Samaritana, iluminada por um candeeiro que projectava a sua luz sobre toda aquela parte da ponte.

D'Artagnan parou diante deles e eles pararam diante dele.

‑ Que quereis, senhor? ‑ perguntou o mosqueteiro, recuando um passo, e com uma pronúncia estrangeira que provava a d'Artagnan que se enganara numa parte das suas conjecturas.

‑ Não é Aramis! ‑ exclamou.

‑ Não, senhor, não sou Aramis, e pela vossa exclamação vejo que me tomastes por outro e perdoo‑vos.

‑ Perdoais‑me! ‑ gritou d'Artagnan.

‑ Perdoo ‑ respondeu o desconhecido. ‑ Deixai‑me pois passar, visto nada terdes a ver comigo.

‑ Tendes razão, senhor ‑ redarguiu d'Artagnan. ‑ Não é convosco que tenho a ver, é com a senhora.

‑ Com a senhora? ‑ Não a conheceis ‑ observou o estrangeiro.

‑ Enganai‑vos, senhor, conheço‑a.

‑ Oh! ‑ exclamou a Sr.a Bonacieux em tom de censura.

‑ Oh, senhor, tinha a vossa palavra de militar e de gentil‑homem; esperava poder contar com elas!

‑ E eu, senhora ‑ disse d'Artagnan, embaraçado ‑, tínheis‑me prometido...

‑ Tomai o meu braço, senhora ‑ disse o estrangeiro ‑, e continuemos o nosso caminho.

Entretanto, d'Artagnan, aturdido, aterrado, aniquilado por tudo o que lhe acontecia, permanecia de pé e de braços cruzados diante do mosqueteiro e da Sr.a Bonacieux.

O mosqueteiro deu dois passos em frente e afastou d'Artagnan com a mão.

D'Artagnan deu um salto à retaguarda e puxou da espada.

Ao mesmo tempo e com a rapidez do relâmpago o desconhecido desembainhou a sua.

‑ Em nome do Céu, milorde! ‑ gritou a Sr.a Bonacieux, lançando‑se entre os combatentes e segurando as espadas com as mãos.

‑ Milorde! ‑ exclamou d'Artagnan, iluminado por uma ideia súbita. ‑ Milorde!... Perdão, senhor, mas se soubesse que éreis...

‑ Milorde duque de Buckingham ‑ disse a Sr.a Bonacieux a meia voz. ‑ E agora podeis perder‑nos a todos.

‑ Milorde, senhora, perdão, cem vezes perdão; mas eu amava‑a, milorde, e tinha ciúmes. Sabeis o que é amar, milorde. Perdoai‑me e dizei‑me como me posso fazer matar por Vossa Graça.

‑ Sois um excelente rapaz ‑ disse Buckingham, estendendo a d'Artagnan uma mão que este apertou respeitosamente. ‑ Ofereceis‑me os vossos serviços e eu aceito‑os; segui‑nos a vinte passos até ao Louvre; e se alguém nos espiar, matai‑o!

D'Artagnan meteu a espada nua debaixo do braço, deixou que a Sr. a Bonacieux e o duque se afastassem vinte passos e seguiu‑os, pronto a executar à letra as instruções do nobre e elegante ministro de Carlos I.

Mas felizmente o jovem não teve nenhuma oportunidade de dar ao duque a prova de dedicação que pretendia, e a mulher e o belo mosqueteiro entraram no Louvre pela porta da Échelle sem terem sido incomodados.

Quanto a d'Artagnan, dirigiu‑se imediatamente para o botequim da Pomme de Pin, onde encontrou Porthos e Aramis, que o esperavam.

Mas sem lhes dar qualquer explicação acerca do incómodo que lhes causara, disse‑lhes que concluíra sozinho o caso para o qual julgara necessitar do seu auxílio.

E agora, levados pela nossa narrativa, deixemos os nossos três amigos voltarem para suas casas e sigamos no labirinto do Louvre o duque de Buckingham e a sua guia.

 

         GEORGES VILLIERS, DUQUE DE BUCKINGHAM

A Sr.a Bonacieux e o duque entraram no Louvre sem dificuldade. A Sr.a Bonacieux era conhecida por estar ao serviço da rainha; o duque envergava o uniforme dos mosqueteiros do Sr. de Tréville, que, como dissemos, estava de guarda naquela noite. Aliás, Germain era dedicado à rainha, e se acontecesse alguma coisa a Sr.a Bonacieux seria acusada de ter introduzido o amante no Louvre e mais nada. A jovem tomaria sobre si o crime: a sua reputação estaria perdida, é certo, mas que valor tinha na sociedade a reputação de uma modesta retroseira?

Uma vez dentro do pátio, o duque e a jovem seguiram junto à parede durante cerca de vinte e cinco passos. Percorrido esse espaço, a Sr.a Bonacieux empurrou uma portinha de serviço, aberta de dia, mas habitualmente fechada de noite. A porta cedeu; ambos entraram e se encontraram na obscuridade, mas a Sr.a Bonacieux conhecia todos os cantos e recantos daquela parte do Louvre, destinada às pessoas do serviço real. A jovem fechou a porta atrás de si, pegou na mão do duque, deu alguns passos tacteando, agarrou um corrimão, tocou com um pé num degrau e começou a subir uma escada. O duque contou dois andares. Então a Sr.a Bonacieux virou à direita, seguiu por um comprido corredor, desceu um andar, deu mais alguns passos, meteu uma chave numa fechadura, abriu uma porta e empurrou o duque para uma sala iluminada apenas por uma lamparina, dizendo:

‑ Ficai aqui, milorde‑duque, e esperai.

Depois saiu pela mesma porta, que fechou à chave, de forma que o duque se encontrou literalmente prisioneiro.

No entanto, por mais isolado que se encontrasse, devemos dizer que o duque de Buckingham não experimentou um instante sequer de temor; um dos aspectos característicos do seu temperamento era a procura da aventura e do amor romanesco. Bravo, ousado, empreendedor, não era a primeira vez que arriscava a vida em semelhantes tentativas. Soubera que a pretensa mensagem de Ana de Áustria que o trouxera a Paris era uma cilada, e em vez de voltar para Inglaterra tinha abusado da posição que conquistara, declarado à rainha que não partiria sem a ver. A rainha recusara terminantemente primeiro, mas depois receara que o duque, exasperado, cometesse alguma loucura. Já estava decidida a recebê‑lo e a suplicar‑lhe que partisse imediatamente quando, na própria noite dessa decisão, a Sr.a Bonacieux, que estava encarregada de ir buscar o duque e conduzi‑lo ao Louvre, fora raptada. Durante dois dias ignorou‑se por completo o que lhe acontecera e tudo ficou em suspenso. Mas uma vez livre, uma vez posta em comunicação com La Porte, as coisas tinham retomado o seu curso e a jovem acabava de cumprir a perigosa empresa que, sem a sua prisão, teria executado três dias mais cedo.

Uma vez só, Buckingham aproximou‑se de um espelho. Aquela farda de mosqueteiro ficava‑lhe maravilhosamente.

Aos trinta e cinco anos, que contava então, passava com justiça por ser o mais belo gentil‑homem e o mais elegante cavaleiro de França e de Inglaterra.

Favorito de dois reis, milionário, todo‑poderoso num reino que perturbava consoante a sua fantasia e acalmava conforme o seu capricho, Georges Villiers, duque de Buckingham, dedicara‑se a levar uma dessas existências fabulosas que permanecem no curso dos séculos como um assombro para a posteridade.

Por isso, seguro de si mesmo, convicto do seu poder, certo de que as leis que regiam os outros homens o não podiam atingir, ia direito ao fim que se fixara, ainda que esse fim fosse tão elevado e deslumbrante que para outro seria loucura imaginá‑lo sequer. Fora assim que conseguira aproximar‑se várias vezes da bela e orgulhosa Ana de Áustria e levá‑la a amá‑lo, à força de a deslumbrar.

Georges Villiers colocou‑se portanto diante de um espelho, como dissemos, restituiu à sua bela cabeleira loura as ondas que o peso do chapéu lhe fizera perder, cofiou o bigode e, com o coração a transbordar de alegria, feliz e orgulhoso por estar perto o momento que tão longamente desejara, sorriu a si mesmo de orgulho e esperança.

Neste momento uma porta oculta na parede abriu‑se e apareceu uma mulher. Buckingham viu‑a surgir no espelho e soltou um grito: era a rainha!

Ana de Áustria contava então vinte e seis ou vinte e sete anos, isto é, encontrava‑se em todo o esplendor da sua beleza.

A sua maneira de andar era a de uma rainha ou de uma deusa; os seus olhos, que emitiam reflexos de esmeralda, eram perfeitamente belos e ao mesmo tempo cheios de doçura e majestade.

Tinha a boca pequena e vermelha, e embora o seu lábio inferior, como o dos príncipes da Casa de Áustria, se salientasse ligeiramente do outro, o seu sorriso era tão gracioso quando descontraído como desdenhoso quando queria demonstrar desprezo.

A sua pele era citada pela sua suavidade e pelo seu aveludado, as mãos e os braços eram de uma beleza espantosa, e todos os poetas da época os cantavam como incomparáveis.

Finalmente o cabelo, que de louro que fora na sua juventude se tornara castanho, e que usava frisado e com muito pó, emoldorava‑lhe admiravelmente o rosto, no qual o censor mais rígido desejaria ver apenas um pouco menos de carmim e o estatuário mais exigente um pouco mais de delicadeza no nariz.

Buckingham ficou um instante deslumbrado; nunca Ana de Áustria lhe aparecera tão bela no meio dos bailes, das festas, dos torneios, como lhe aparecia naquele momento, envergando um simples vestido de cetim branco e acompanhada de Dona Estefânia, a única das suas criadas espanholas que não fora expulsa pelo ciúme do rei e pelas perseguições de Richelieu.

Ana de Áustria deu dois passos em frente; Buckingham precipitou‑se de joelhos e antes que a rainha tivesse tempo de lho impedir beijou‑lhe a fímbria do vestido.

‑ Duque, já sabeis que não fui eu que vos mandei escrever.

‑ Claro, claro, senhora! Claro, Majestade! ‑ exclamou o duque. ‑ Sei que tenho sido um louco, um insensato, em crer que a neve se animaria, que o mármore aqueceria; mas que quereis, quando se ama acredita‑se facilmente no amor; de resto, não perdi tudo nesta viagem, uma vez que vos vejo.

‑ Sim ‑ respondeu Ana ‑, mas sabeis porquê e como vos vejo, milorde. Vejo‑vos por compaixão para convosco; vejo‑vos porque, insensível a todos os meus sofrimentos, vos obstinastes em permanecer numa cidade onde, ficando, correis perigo de morte e pondes em perigo a minha honra; vejo‑vos para vos dizer que tudo nos separa, as profundezas do mar, a inimizade dos reinos, a santidade dos juramentos. É sacrilégio lutar contra tantas coisas, milorde. Vejo‑vos finalmente para vos dizer que não nos devemos ver mais.

‑ Falai, senhora; falai, rainha ‑ pediu Buckingham. ‑ A doçura da vossa voz abafa a dureza das vossas palavras. Falais de sacrilégio! Mas o sacrilégio está na separação de corações que Deus formou um para o outro.

‑ Milorde, esqueçais que nunca vos disse que vos amava! ‑ protestou a rainha.

‑ Mas também nunca me dissestes que me não amáveis; e realmente, dizer‑me semelhantes palavras seria da parte de Vossa Majestade uma enorme ingratidão. Porque, dizei‑me, onde encontraríeis um amor igual ao meu, um amor que nem o tempo, nem a ausência, nem o desespero, conseguem extinguir; um amor que se contenta com uma fita extraviada, um olhar perdido, uma palavra escapada? Há três anos, senhora, que vos vi pela primeira vez, e há três anos que vos amo assim. Quereis que vos diga como estáveis vestida da primeira vez que vos vi? Quereis que descreva cada um dos adornos da vossa indumentária? Ainda vos vejo... Estáveis sentada em almofadas, à moda de Espanha; tínheis um vestido de cetim verde, com bordados de ouro e prata; mangas pendentes e apanhadas nos vossos belos braços, nesses braços admiráveis, com grandes diamantes; tínheis uma gargantilha fechada e uma touquinha na cabeça, da cor do vestido, encimada por uma pena de garça‑real. Oh, esperai, fecho os olhos e vejo‑vos tal como estáveis então! Abro‑os e vejo‑vos tal como sois agora, isto é, cem vezes ainda mais bela!

‑ Que loucura! ‑ murmurou Ana de Áustria, que não tinha coragem de se zangar com o duque por ter conservado tão bem o seu retrato no coração. ‑ Que loucura alimentar uma paixão inútil com semelhantes recordações!

‑ E com que quereis que viva? Só tenho recordações... São a minha felicidade, o meu tesouro, a minha esperança. Cada vez que vos vejo é mais um diamante que guardo no escrínio do meu coração. Este é o quarto que deixais cair e que apanho; porque em três anos, senhora, só vos vi quatro vezes: a primeira de que acabo de vos falar, a segunda em casa da Sr.a de Chevreuse, a terceira nos jardins de Amiens.

‑ Duque, não faleis dessa noite ‑ pediu a rainha, corando.

‑ Oh, pelo contrário, falemos dela, senhora, falemos! Foi a noite mais feliz e radiosa da minha vida. Lembrai‑vos da bonita noite que estava? Como o ar estava suave e perfumado, como o céu estava azul e todo cravejado de estrelas! Dessa vez, senhora, pude estar um instante sozinho convosco; dessa vez estáveis pronta a dizer‑me tudo, a contar‑me o isolamento da vossa vida, os desgostos do vosso coração. Estáveis apoiada no meu braço... neste. Sentia, inclinando a cabeça para o vosso lado, os vossos belos cabelos aforarem‑me o rosto, e todas as vezes que o afloravam estremecia da cabeça aos pés. Oh, rainha, rainha! Não sabeis tudo o que existe de felicidades do Céu, de alegrias do Paraíso, encerradas num momento assim. Daria os meus bens, a minha fortuna, a minha glória, tudo o que me resta de vida, por um instante assim, por uma noite idêntica! Porque naquela noite, senhora, naquela noite, amáveis‑me, juro‑vo‑lo.

‑ Milorde, é possível, sim, que a influência do lugar, que o encanto dessa bonita noite, que a fascinação do vosso olhar, que as mil circunstâncias, enfim, que se conjugam às vezes para perder uma mulher se tenham congregado à minha volta nessa noite fatal; mas como vistes, milorde, a rainha veio em socorro da mulher que fraquejava: à primeira palavra que ousastes dizer, à primeira audácia a que tive de responder, chamei‑a.

‑ Sim, sim, isso é verdade, e outro amor que não fosse o meu sucumbiria a essa prova; mas o meu amor saiu dela mais ardente e eterno. Julgastes fugir‑me regressando a Paris, julgastes que não ousaria deixar o tesouro pelo qual o meu amo e senhor me encarregara de velar. Que me importam a mim todos os tesouros do mundo e todos os reis da Terra! Oito dias depois estava de regresso, senhora. Dessa vez não tivestes nada para me dizer: arrisquei o meu valimento, a minha vida, para vos ver um segundo, nem sequer vos toquei na mão, e perdoastes‑me ao ver‑me tão submisso e arrependido.

‑ Pois sim, mas a calúnia apoderou‑se de todas essas loucuras, para as quais em nada contribuí como bem sabeis, milorde. O rei, espicaçado pelo Sr. Cardeal, fez um barulho terrível: a Sr.a de Vernet foi expulsa, Putange exilado, a Sr.a de Chevreuse caiu em desgraça, e quando quisestes voltar como embaixador em França o próprio rei, lembrai‑vos, milord, o próprio rei se opôs.

‑ Sim, e a França vai pagar com uma guerra a recusa do seu rei. Se não posso tornar a ver‑vos, senhora, pois bem: quero que todos os dias ouçais falar de mim. Que fim pensáveis que tiveram a expedição à Ré e a que julgais dever‑se a liga com os protestantes de La Rochelle que projecto? Ao prazer de vos ver. Não espero penetrar à mão armada até Paris, bem o sei; mas esta guerra poderá conduzir a uma paz, essa paz necessitará de um negociador e esse negociador serei eu.

Ninguém ousará voltar a recusar‑me então, e virei a Paris, ver‑vos‑ei e serei feliz um instante. Milhares de homens, é certo, pagarão com a vida a minha felicidade; mas que me importará isso, desde que vos torne a ver! Tudo isto talvez seja louco, talvez seja insensato; mas dizei‑me, que mulher tem um homem mais apaixonado? Que rainha tem servidor mais ardente?

‑ Milorde, milorde invocais em vossa defesa coisas que ainda vos acusam; milorde, todas essas provas de amor que me quereis dar são quase crimes.

‑ Porque me não amais, senhora. Se me amásseis, veríeis tudo doutra maneira; se me amásseis... Oh, se me amásseis seria demasiada felicidade para mim e enlouqueceria! A Sr.a de Chevreuse, de quem faláveis há pouco, a Sr.a de Chevreuse foi menos cruel do que vós: Holland amou‑a e ela correspondeu ao seu amor.

‑ A Sr.a de Chevreuse não era rainha ‑ murmurou Ana de Áustria, vencida, mal‑grado seu, pela expressão de um amor tão profundo.

‑ Amar‑me‑íeis portanto se o não fôsseis, senhora? Dizei, amar‑me‑Íeis? Posso pois crer que é apenas a dignidade da vossa posição que vos torna cruel para mim? Posso pois crer que se fôsseis a Sr.a de Chevreuse o pobre Buckingham poderia ter esperança? Obrigado por essas doces palavras, ó minha bela rainha, cem vezes obrigado!

‑ Mas, milorde, percebestes mal, interpretastes mal; não quis dizer...

‑ Silêncio! Silêncio! ‑ exclamou o duque. ‑ Se sou feliz por via de um erro não tenhais a crueldade de mo roubar. Vós própria o dissestes, atraíram‑me a uma cilada onde talvez deixe a vida, porque, é estranho, mas há algum tempo tenho o pressentimento de que vou morrer.

E o duque sorriu, com um sorriso triste e encantador ao mesmo tempo.

‑ Oh, meu Deus! ‑ exclamou Ana de Áustria com um acento de terror que provava que um interesse maior do que queria confessar a ligava ao duque.

‑ Não vos digo isto para vos assustar, senhora, não; é até ridículo que vo‑lo diga, e acreditai que nada me preocupam semelhantes sonhos. Mas as palavras que acabais de dizer, essa esperança que quase me destes, tudo pagaria, até a minha vida.

‑ Também eu, duque, tenho pressentimentos, também sonho ‑ declarou Ana de Áustria. ‑ E sonhei que vos via caído, a sangrar de um ferimento.

‑ Do lado esquerdo, não é verdade, com uma faca? ‑ interrompeu‑a Buckingham.

‑ Sim, é isso. Milorde, é isso: do lado esquerdo com uma faca. Quem poderia dizer‑vos que tive este sonho? Só o confiei a Deus, nas minhas orações.

‑ Não quero saber mais nada: amais‑me, senhora, não há dúvida.

‑ Amo‑vos, eu?

‑ Sim, vós. Mandar‑vos‑ia Deus os mesmos sonhos que a mim se me não amásseis? Teríamos os mesmos pressentimentos se as nossas duas existências não estivessem ligadas pelo coração? Amais‑me, ó rainha! Chorar‑me‑eis?

‑ Oh, meu Deus, meu Deus! ‑ exclamou Ana de Áustria. ‑ Isto é mais do que posso suportar. Duque, em nome do Céu, parti, retirai‑vos; não sei se vos amo ou se não vos amo; mas o que sei é que não serei perjura. Tende pois piedade de mim e ide‑vos embora. Oh, se fôsseis ferido em França, se morrêsseis em França, se pudesse supor que o vosso amor por mim fora a causa da vossa morte, nunca me conformaria, enlouqueceria! Parti, pois, parti, suplico‑vos.

‑ Como sois bela assim! Como vos amo! ‑ exclamou Buckingham.

‑ Parti, parti, suplico‑vos, e voltai mais tarde! Voltai como embaixador, voltai como ministro, voltai rodeado de guardas que vos defendam, de servidores que velem por vós, e então não recearei mais pelos vossos dias e terei prazer em tornar a ver‑vos.

‑ É verdade o que dizeis?

‑ É...

‑ Então, dai‑me um penhor da vossa indulgência, um objecto que vos pertença e que me recorde que não sonhei; qualquer coisa que tenhais usado e que eu possa usar por minha vez, um anel, um colar, um cordão.

‑ E partiríeis, partiríeis se vos desse o que me pedis? ‑Sim.

‑ Imediatamente?

‑ Imediatamente.

‑ Deixareis a França e regressareis a Inglaterra?

‑ Sim, juro‑vo‑lo!

‑ Esperai então, esperai.

E Ana de Áustria reentrou nos seus aposentos e saiu quase imediatamente trazendo na mão um cofrezinho de pau‑rosa com o seu monograma, todo incrustado de ouro.

‑ Tomai, milorde‑duque, tomai, guardai isto como recordação minha.

Buckingham pegou no cofre e caiu segunda vez de joelhos.

‑ Prometestes‑me partir ‑ disse a rainha.

‑ E mantenho a minha palavra. A vossa mão, a vossa mão, senhora, e parto.

Ana de Áustria estendeu‑lhe a mão, fechou os olhos e apoiou‑se com a outra em Estefânia, pois sentia que as forças lhe iam faltar.

Buckingham colou com paixão os lábios àquela bela mão e depois disse, levantando‑se:

‑ Dentro de seis meses, se não estiver morto, voltarei a ver‑vos, senhora, nem que tenha de revolver o mundo para isso.

E fiel à promessa que fizeram correu para fora da sala. No corredor encontrou a Sr.a Bonacieux, que o esperava, e que com as mesmas precauções e a mesma felicidade o fez sair do Louvre.

 

         O SR. BONACIEUX

Havia no meio disto, como oportunamente se viu, uma personagem com a qual, apesar da sua precária situação, ninguém pareceu preocupar‑se senão muito superficialmente; essa personagem era o Sr. Bonacieux, respeitável mártir das intrigas políticas e amorosas que se entrelaçavam tão bem umas nas outras naquela época simultaneamente tão cavalheiresca e tão galante.

Felizmente ‑ quer o leitor se lembre, quer se não lembre ‑, felizmente prometemos não o perder de vista.

Os polícias que o tinham prendido conduziram‑no direito à Bastilha, onde o fizeram passar todo trémulo diante de um pelotão de soldados que carregavam os mosquetes.

Daí, introduzido numa galeria semi‑subterrânea, foi alvo por parte dos que o tinham trazido das mais grosseiras injúrias e do mais feroz tratamento. Os esbirros, viam que não estavam a tratar com um gentil‑homem e procediam para com ele como se fosse um autêntico labrego.

Ao cabo de meia hora, pouco mais ou menos, um escrivão veio pôr fim às suas torturas, mas não suas inquietações, ordenando que conduzissem o Sr. Bonacieux à câmara dos interrogatórios. Habitualmente interrogavam os prisioneiros em sua casa, mas com o Sr. Bonacieux não tinham estado com tantas considerações.

Dois guardas apoderaram‑se do retroseiro, fizeram‑no atravessar um pátio e entrar num corredor onde havia três sentinelas, abriram uma porta e empurraram‑no para uma salita baixa onde todo o mobiliário era constituído apenas por uma mesa, uma cadeira e... um comissário. O comissário estava sentado na cadeira e ocupado a escrever em cima da mesa.

Os dois guardas conduziram o prisioneiro diante da mesa e a um sinal do comissário afastaram‑se para fora do alcance da voz.

O comissário, que até ali estivera de cabeça baixa sobre os seus papéis, levantou‑a para ver quem tinha na sua frente.

O comissário era um homem de cara rebarbativa, nariz adunco, maçãs‑do‑rosto pálidas e salientes, olhos pequenos mas esquadrinhadores e vivos e fisionomia meio de fuinha, meio de raposa. A cabeça, suportada por um pescoço comprido e móvel, saía‑lhe da larga toga preta balouçando‑se num movimento mais ou menos idêntico ao da tartaruga quando deita a cabeça fora da carapaça.

Começou por perguntar ao Sr. Bonacieux nome, idade, estado e domicílio.

O acusado respondeu que se chamava Jacque‑Michel Bonacieux, que tinha cinquenta e um anos de idade, era retroseiro reformado e residia na Rua dos Fossoyeurs, número onze.

Então, em vez de continuar o interrogatório, o comissário fez‑lhe um grande discurso sobre o perigo que corria um burguês obscuro em meter‑se em coisas públicas.

A este exórdio juntou uma exposição do poder e dos actos do Sr. Cardeal, esse ministro incomparável, esse émulo dos ministros passados, esse exemplo dos ministros futuros: actos e poder que ninguém contrariava impunemente.

Depois desta segunda parte do seu discurso, fixou o olhar de gavião no pobre Bonacieux e convidou‑o a reflectir na gravidade da sua situação.

As reflexões do retroseiro estavam todas feitas: dava ao Diabo o momento em que o Sr. de La Porte tivera a ideia de o casar com a afilhada e sobretudo o momento em que a afilhada fora aceite como roupeira da rainha.

O fundo do carácter de mestre Bonacieux era constituído por um profundo egoísmo de mistura com uma avareza sórdida, tudo temperado por uma cobardia extrema. O amor que lhe inspirara a jovem esposa era um sentimento muito secundário que não podia competir com os sentimentos primitivos que acabamos de enumerar.

Bonacieux reflectiu, com efeito, mas sobre o que acabavam de lhe dizer.

‑ Mas, Sr. Comissário ‑ disse timidamente ‑, acreditai que conheço e aprecio mais que ninguém o mérito da incomparável Eminência pela qual temos a honra de ser governados.

‑ Deveras? ‑ perguntou o comissário em ar de dúvida. ‑ Se fosse realmente assim, como se compreenderia que estivésseis na Bastilha?

‑ Como cá estou, ou antes por que cá estou ‑ respondeu o Sr. Bonacieux ‑, é‑me absolutamente impossível dizer‑vos, pois eu próprio o ignoro; mas sem dúvida nenhuma não é por ter ofendido, pelo menos conscientemente, o Sr. Cardeal.

‑ No entanto, deveis ter cometido um crime, pois estais aqui acusado de alta traição.

‑ De alta traição?! ‑ gritou Bonacieux, espantado. ‑ De alta traição?! E como quereis que um pobre retroseiro que detesta os huguenotes e abomina os Espanhóis seja acusado de alta traição? Reflecti, senhor; isso é materialmente impossível.

‑ Sr. Bonacieux ‑ disse o comissário, olhando o acusado como se os seus olhinhos possuíssem a faculdade de ler até ao fundo dos corações ‑, Sr. Bonacieux, não tendes uma mulher?

‑ Tenho, senhor ‑ respondeu o retroseiro, todo trémulo, adivinhando que era por ali que o caso se ia complicar. ‑ Isto é, tinha.

‑ Como, tínheis?! Que fizestes dela se já a não tendes?

‑ Raptaram‑na, senhor.

‑ Raptaram‑na? ‑ repetiu o comissário. ‑ Ah!...

Bonacieux sentiu que com este «ah!...» o assunto se complicava cada vez mais.

‑ Raptaram‑vo‑la! ‑ tornou o comissário. ‑ E sabeis que homem cometeu esse rapto?

‑ Julgo conhecê‑lo.

‑ Quem é?

‑ Notai que não afirmo nada, Sr. Comissário, que desconfio apenas...

‑ De quem desconfiais? Vamos, respondei francamente.

O Sr. Bonacieux estava na maior perplexidade: deveria negar tudo ou dizer tudo? Se negasse tudo, poderiam crer que tinha muito que confessar; se dissesse tudo, daria prova de boa vontade. Resolveu portanto dizer tudo.

‑ Desconfio de um homem alto, moreno, de rosto altivo, com todo o ar de um grande senhor; seguiu‑nos várias vezes, parece‑me, quando esperava a minha mulher diante da porta do Louvre para a levar para casa.

O comissário pareceu experimentar certa inquietação.

‑ E o seu nome? ‑ perguntou.

‑ Quanto ao seu nome, não sei nada, mas se alguma vez o encontrar reconhecê‑lo‑ei imediatamente, garanto‑vos, ainda que seja no meio de mil pessoas.

A fronte do comissário ensombrou‑se.

‑ Reconhecê‑lo‑íeis entre mil, dizeis?

‑ Isto é ‑ respondeu Bonacieux ao ver que enveredara por mau caminho ‑, isto é...

‑ Respondestes que o reconheceríeis ‑ sublinhou o comissário. ‑ Está bem, basta por hoje. Antes de irmos mais longe, alguém tem de ser prevenido de que conheceis o raptor da vossa mulher.

‑ Mas se não vos disse que o conhecia! ‑ gritou Bonacieux, desesperado. ‑ Pelo contrário, disse‑vos...

‑ Levai o prisioneiro ‑ ordenou o comissário aos dois guardas.

‑ E para onde deve ser conduzido? ‑ perguntou o escrivão.

‑ Para um calabouço. ‑ Qual?

‑ Meu Deus, para o primeiro que esteja livre, contanto que feche bem ‑ respondeu o comissário com uma indiferença que encheu de horror o pobre Bonacieux.

«Meu Deus, meu Deus, a desgraça desabou sobre a minha cabeça! A minha mulher cometeu algum crime horrível, julgam‑me seu cúmplice e castigar‑me‑ão com ela. Decerto falou e confessou que me dissera tudo... Uma mulher é tão fraca! Um calabouço, o primeiro que esteja livre. É isso: uma noite passa depressa, e amanhã... para a roda, para a forca! Oh, meu Deus, tende piedade de mim!»

Alheios às lamentações de mestre Bonacieux, a quem de resto já deviam estar habituados, os dois guardas agarraram o prisioneiro pelos braços e levaram‑no, enquanto o comissário escrevia à pressa uma carta que o seu escrivão esperava.

Bonacieux não pregou olho, não porque o seu calabouço fosse de todo desagradável, mas sim porque as suas preocupações eram demasiado grandes. Ficou toda a noite sentado num banco, estremecendo ao menor ruído; e quando os primeiros raios de luz lhe entraram na cela, a aurora pareceu‑lhe ter adquirido tons fúnebres.

De súbito, ouviu correr os ferrolhos e teve um sobressalto terrível. Julgava que o vinham buscar para o conduzir ao cadafalso. Por isso, quando viu pura e simplesmente aparecer, em vez do carrasco que esperava, o comissário e o escrivão da véspera, esteve quase a saltar‑lhes ao pescoço.

‑ O vosso caso complicou‑se muito desde ontem à noite, meu pobre homem ‑ disse‑lhe o comissário ‑, e aconselho‑vos a dizer toda a verdade, pois só o vosso arrependimento pode conjurar a cólera do cardeal.

‑ Mas estou pronto a dizer tudo! ‑ gritou Bonacieux. ‑ Ao menos tudo o que saiba. Perguntai, suplico‑vos.

‑ Primeiro, onde está a vossa mulher?

‑ Como vos disse, raptaram‑na.

‑ Pois sim, mas ontem, às cinco horas da tarde, graças a vós, fugiu.

‑ A minha mulher fugiu?! ‑ gritou Bonacieux. ‑ Oh, a desgraçada! Senhor, se ela fugiu não foi por minha culpa, juro‑vos.

‑ Que fostes então fazer a casa do Sr. d'Artagnan, vosso vizinho, com o qual tivestes uma longa conferência?...

‑ Ah, sim, Sr. Comissário, é verdade, e confesso que fiz mal! Fui de facto a casa do Sr. d'Artagnan.

‑ Qual foi o fim dessa visita?

‑ Pedir‑lhe que me ajudasse a encontrar a minha mulher. Julgava ter o direito de a reclamar; mas enganava‑me, ao que parece, e peço‑vos perdão.

‑ E que respondeu o Sr. d'Artagnan?

‑ O Sr. d'Artagnan prometeu‑me a sua ajuda, mas não tardei a perceber que me atraiçoava.

‑ Estais a enganar a justiça! O Sr. d'Artagnan fez um pacto convosco e em virtude desse pacto pôs em fuga os homens da Polícia que tinham prendido a vossa mulher e subtraiu‑a a todas as buscas.

‑ O Sr. d'Artagnan raptou a minha mulher? Essa agora!... Mas por que me dizeis isso?

‑ Felizmente, o Sr. d'Artagnan está nas nossas mãos e ides ser acareado com ele.

‑ Palavra de honra que não desejo outra coisa! ‑ exclamou Bonacieux. ‑ Sempre é uma cara conhecida...

‑ Mandai entrar o Sr. d'Artagnan ‑ ordenou o comissário aos dois guardas.

Os guardas mandaram entrar Athos.

‑ Sr. d'Artagnan ‑ disse o comissário, dirigindo‑se a Athos ‑, declarai o que se passou entre vós e este senhor.

‑ Mas este não é o Sr. d'Artagnan! ‑ gritou Bonacieux.

‑ Como, não é o Sr. d'Artagnan?! ‑ exclamou por seu turno o comissário.

‑ De modo nenhum ‑ respondeu Bonacieux.

‑ Então como é que se chama este senhor? ‑ perguntou o comissário.

‑ Não vo‑lo posso dizer, porque não o conheço.

‑ Não o conheceis?... ‑ Não.

‑ Nunca o vistes?

‑ Vi‑o, mas não sei como se chama.

‑ O vosso nome? ‑ perguntou o comissário.

‑ Athos ‑ respondeu o mosqueteiro.

‑ Mas isso não é nome de homem, é nome de montanha! ‑ gritou o pobre inquiridor, que começava a perder a cabeça.

‑ É o meu nome ‑ respondeu tranquilamente Athos.

‑ Mas dissestes‑me que vos chamáveis d'Artagnan. ‑ Eu?

‑ Sim, vós.

‑ Bom, perguntaram‑me: «Sois o Sr. d'Artagnan?» E eu respondi: «Tendes a certeza?» Os meus guardas redarguiram‑me que tinham e eu não os quis contrariar. Aliás, podia estar enganado.

‑ Insultais a majestade da justiça, senhor!

‑ De modo nenhum ‑ respondeu tranquilamente Athos.

‑ Sois o Sr. d'Artagnan.

‑ Como vedes, sois vós que o continuais a dizer.

‑ Mas ‑ interveio o Sr. Bonacieux ‑ se vos digo, Sr. Comissário, que não há a mais pequena dúvida! O Sr. d'Artagnan é meu inquilino, e portanto, embora não me pague as rendas, e precisamente por causa disso, devo conhecê‑lo. O Sr. d'Artagnan é um jovem de dezanove ou vinte anos apenas e este senhor tem pelo menos trinta. O Sr. d'Artagnan está nos guardas do Sr. dos Essarts e este senhor está na companhia dos mosqueteiros do Sr. de Tréville. Vede o uniforme, Sr. Comissário, vede o uniforme.

‑ É verdade ‑ murmurou o comissário. ‑ Por Deus, é verdade!

Neste momento a porta abriu‑se vivamente e um mensageiro introduzido por um dos carcereiros da Bastilha entregou uma carta ao comissário.

‑ Oh, a desgraçada! ‑ gritou o comissário.

‑ Como? Que dizeis? De quem falais? Espero que não seja da minha mulher!

‑ Pelo contrário, é dela. O vosso caso está cada vez pior...

‑ Homessa! ‑ gritou o retroseiro, exasperado. ‑ Fazei‑me o favor de me dizer, senhor, como é que o meu caso pode piorar por via do que faz a minha mulher enquanto estou preso!

‑ Porque o que ela faz é executar um plano estabelecido entre vós, um plano infernal!

‑ Juro‑vos, Sr. Comissário, que lavrais no mais profundo erro, que não sei absolutamente nada do que devia fazer a minha mulher, que sou inteiramente estranho ao que ela tem feito e que, se cometeu tolices, a renego, a desminto, a amaldiçoo.

‑ Bom ‑ disse Athos ao comissário ‑, se não necessitais mais de mim aqui mandai‑me para qualquer parte, pois o vosso Sr. Bonacieux é muito aborrecido.

‑ Reconduzi os prisioneiros às suas celas ‑ ordenou o comissário, designando com o mesmo gesto Athos e Bonacieux ‑ e que sejam guardados mais rigorosamente do que nunca.

‑ No entanto ‑ interveio Athos com a sua calma habitual ‑, se é com o Sr. d'Artagnan que precisais de vos entender, não vejo muito bem em que o possa substituir.

‑ Fazei o que vos disse! ‑ gritou o comissário. ‑ E o segredo mais absoluto, ouvistes?

Athos seguiu os seus guardas encolhendo os ombros e o Sr. Bonacieux soltando lamentos capazes de cortar o coração de um tigre.

Fecharam o retroseiro na mesma cela onde passara a noite e aí o deixaram todo o dia. E durante todo o dia Bonacieux chorou como um autêntico retroseiro, visto não ser de modo nenhum homem de espada, como ele próprio já nos disse.

À noite, por volta das nove horas, no momento em que se ia decidir a meter‑se na cama, ouviu passos no seu corredor. Os passos aproximaram‑se da sua cela, a porta abriu‑se e apareceram guardas.

‑ Acompanhai‑nos ‑ ordenou‑lhe um graduado que vinha atrás dos guardas.

‑ Acompanhar‑vos? ‑ protestou Bonacieux. ‑ Acompanhar‑vos a esta hora? E para onde, meu Deus?

‑ Para onde temos ordem de vos conduzir.

‑ Mas isso não é resposta.

‑ É a única que vos podemos dar.

‑ Ah, meu Deus, meu Deus ‑ murmurou o pobre retroseiro ‑, desta vez estou perdido!

E seguiu maquinalmente e sem resistência os guardas que o tinham vindo buscar.

Seguiu pelo mesmo corredor que já percorrera, atravessou um primeiro pátio e depois segundo corpo de edifícios; por fim, encontrou à porta do pátio de entrada uma carruagem rodeada por quatro guardas a cavalo. Mandaram‑no entrar para a carruagem, o graduado sentou‑se a seu lado, fechou a portinhola à chave e ambos se encontraram numa prisão rolante.

A carruagem pôs‑se em movimento, lenta como uma carreta funerária. Através da porta gradeada, o prisioneiro via os prédios e o pavimento empedrado, mas mais nada. No entanto, como verdadeiro parisiense que era, Bonacieux identificava cada rua pelos marcos, pelas tabuletas e pelos candeeiros. Ao chegarem a Saint‑Paul, onde executavam os condenados da Bastilha, quase desmaiou e benzeu‑se duas vezes. Julgara que a carruagem pararia ali, mas não parou.

Mais adiante, novo e enorme terror se apoderou dele, quando seguiram ao longo do Cemitério de Saint‑Jean, onde sepultavam os criminosos de Estado. Apenas uma coisa o tranquilizou um pouco: antes de os sepultarem cortavam‑lhes geralmente a cabeça, e ele ainda tinha a cabeça em cima dos ombros.

Mas quando viu que a carruagem tomava o caminho da Greve e distinguiu os telhados em bico da Câmara Municipal, e viu a carruagem meter por debaixo da arcada, julgou que tudo terminara para si, quis‑se confessar ao graduado e perante a sua recusa soltou gritos tão lamentosos que o graduado lhe disse que, se continuasse a berrar assim o amordaçava.

Esta ameaça tranquilizou um pouco Bonacieux: se o fossem executar na Greve, não valeria a pena amordaçá‑lo, visto estarem praticamente no local da execução. Com efeito, a carruagem atravessou a praça fatal sem se deter. Agora, a única coisa a temer era a Croix‑du‑Trahoir: a carruagem tomou justamente esse caminho.

Desta vez, não havia dúvida; era na Croix‑du‑Trahoir que executavam os criminosos subalternos. Bonacieux persuadira‑se de que era digno de Saint‑Paul ou da Praça de Greve; afinal, era na Croix‑du‑Trahoir que iam acabar a sua viagem e o seu destino! Ainda não podia ver a malfadada cruz, mas sentia‑a de certo modo vir ao seu encontro. Quando se encontrou apenas a uma vintena de passos, ouviu um rumor e a carruagem parou. Era mais do que podia suportar o pobre Bonacieux, já esmagado pelas sucessivas emoções por que passara; soltou um gemido fraco, que se poderia tomar pelo derradeiro suspiro de um moribundo, e desmaiou.

 

         O HOMEM DE MEUNG

Havia ali um ajuntamento produzido não pela espera de um homem destinado a ser enforcado, mas sim pela contemplação de um já enforcado.

A carruagem parou um instante, depois retomou o seu andamento, atravessou a multidão, continuou o seu caminho, meteu pela Rua de Saint‑Honoré, virou para a Rua dos Bons‑Enfants e parou diante de uma porta baixa.

A porta abriu‑se e dois guardas receberam nos braços Bonacieux amparado pelo graduado. Empurraram‑no para um passadiço, fizeram‑no subir uma escada e depositaram‑no numa antecâmara.

Todos estes movimentos foram executados maquinalmente por ele.

Caminhara como se caminha em sonhos; entrevira os objectos através de um nevoeiro; os seus ouvidos tinham distinguido sons sem os compreender; poderiam tê‑lo executado naquele momento que não esboçaria um gesto de defesa nem soltaria um grito a implorar piedade.

Ficou assim no banco, encostado à parede e com os braços pendentes, no mesmo sítio onde os guardas o tinham depositado.

No entanto, como ao olhar à sua volta não visse nenhum objecto ameaçador, como nada indicasse que corria um perigo real, como o banco estivesse convenientemente estofado, como a parede estivesse forrada de belo couro de Córdova e como grandes cortinados de damasco vermelho adejasem diante da janela, seguros por cordões dourados, compreendeu pouco a pouco que o seu terror era exagerado e começou a mexer a cabeça da direita para a esquerda e de baixo para cima.

Com este movimento, a que ninguém se opôs, ganhou um pouco de coragem e arriscou‑se a estender uma perna e depois a outra; por fim, apoiando‑se nas mãos, levantou‑se do banco e encontrou‑se em pé.

Neste momento, um oficial de aspecto agradável abriu um reposteiro, continuou a trocar ainda algumas palavras com uma pessoa que se encontrava na divisão vizinha e por fim virou‑se para o prisioneiro e perguntou‑lhe:

‑ Sois vós que vos chamais Bonacieux?

‑ Sou, sim, Sr. Oficial ‑ balbuciou o retroseiro, mais morto do que vivo. ‑ Para vos servir...

‑ Entrai ‑ disse o oficial.

E desviou‑se para que o retroseiro pudesse passar. Este obedeceu sem protestar e entrou na sala onde parecia ser esperado.

Era um grande gabinete com as paredes guarnecidas de armas ofensivas e defensivas, fechado e estofado, e no qual havia já lume, embora se estivesse apenas em fins de Setembro. Uma mesa quadrada, coberta de livros e papéis, sobre os quais estava desenrolado um mapa enorme da cidade de La Rochelle, ocupava o meio do aposento.

De pé diante da chaminé encontrava‑se um homem de estatura mediana, de rosto altivo e orgulhoso, olhos penetrantes, testa larga e corpo magro, que parecia ainda mais esguio devido à pêra e ao bigode que usava. Embora aquele homem contasse apenas trinta e seis ou trinta e sete anos, já tinha o cabelo, o bigode e a pêra grisalhos. Aquele homem, apesar de não usar espada, tinha todo o aspecto de um homem de guerra, e as suas botas de pele de búfalo, ainda levemente cobertas de poeira, indicavam que montara a cavalo durante o dia.

Aquele homem era Armand‑Jean Duplessis, cardeal de Richelieu. não como no‑lo representam, alquebrado como um velho, sofrendo como um mártir, curvado, a voz apagada, enterrado numa grande poltrona como numa tumba antecipada, vivendo apenas graças à força do seu génio e já só sustentando a luta com a Europa através da eterna aplicação do seu pensamento; mas tal como era realmente naquela época, isto é, hábil e galante cavaleiro, já fraco de corpo, mas sustentado pela energia moral que o tornou um dos homens mais extraordinários que jamais existiram. Naquele momento, depois de ter mantido o duque de Nevers no seu ducado de Mântua e de tomar Nimes, Castres e Uzès, preparava‑se para expulsar os Ingleses da ilha de Ré e cercar La Rochelle.

À primeira vista nada denotava portanto o cardeal e era impossível àqueles que o não conheciam adivinhar diante de quem se encontravam.

O pobre retroseiro permaneceu de pé à porta, enquanto os olhos da personagem que acabamos de descrever se fixavam nele e pareciam querer penetrar até ao fundo do seu passado.

‑ É este o tal Bonacieux? ‑ perguntou após um momento de silêncio.

‑ É, sim, monsenhor ‑ respondeu o oficial.

‑ Está bem, dai‑me aqueles papéis e deixai‑nos.

O oficial pegou da mesa os papéis designados, entregou‑os a quem os pedira, inclinou‑se até ao chão e saiu.

Bonacieux reconheceu naqueles papéis os seus interrogatórios na Bastilha. De vez em quando o homem da chaminé levantava os olhos dos depoimentos e cravava‑os como dois punhais até ao fundo do coração do pobre retroseiro.

Ao cabo de dez minutos de leitura e dez segundos de exame, o cardeal estava elucidado.

‑ Aquela cabeça nunca conspirou ‑ murmurou. ‑ Mas não importa, vejamos sempre.

‑ Sois acusado de alta traição ‑ disse lentamente o cardeal.

‑ Foi o que já me disseram, monsenhor ‑ disse Bonacieux, dando ao inquiridor o título que ouvira dar‑lhe o oficial. ‑ Mas juro‑vos que estou inocente.

O cardeal reprimiu um sorriso.

‑ Conspirastes com a vossa mulher, com a Sr.a de Chevreuse e com milorde o duque de Buckingham.

‑ De facto, monsenhor, ouvi pronunciar todos esses nomes ‑ respondeu o retroseiro.

‑ E em que ocasião?

‑ Ela dizia que o cardeal de Richelieu atraíra o duque de Buckingham a Paris para o perder e perder a rainha com ele.

‑ Ela dizia isso? ‑ gritou o cardeal, com violência.

‑ Dizia, sim, monsenhor. Mas eu disse‑lhe que fazia mal em estar com semelhantes conversas, pois Sua Eminência era incapaz...

‑ Calai‑vos, sois um imbecil ‑ interrompeu‑o o cardeal.

‑ Foi exactamente o que a minha mulher me respondeu, monsenhor.

‑ Sabeis quem raptou a vossa mulher?

‑ Não, monsenhor.

‑ Mas tendes desconfianças?

‑ Pois tenho, monsenhor; mas essas desconfianças pareceram contrariar o Sr. Comissário e já as não tenho.

‑ Sabíeis que a vossa mulher fugiu?

‑ Não, monsenhor. Soube‑o desde que estou preso e sempre por intermédio do Sr. Comissário, um homem muito amável!

O cardeal reprimiu segundo sorriso.

‑ Ignorais então o que foi feito da vossa mulher desde a sua fuga?

‑ Completamente, monsenhor. Mas deve ter regressado ao Louvre.

‑ À uma hora da madrugada ainda lá não tinha regressado.

‑ Oh, meu Deus! Nesse caso, que lhe terá acontecido?

‑ Sabê‑lo‑emos, estai tranquilo. Não se esconde nada ao cardeal; o cardeal sabe tudo.

‑ Sendo assim, monsenhor, parece‑vos que o cardeal consentirá em dizer‑me que foi feito da minha mulher?

‑ Talvez. Mas primeiro é preciso que digais tudo o que sabeis a respeito das relações da vossa mulher com a Sr.a de Chevreuse.

‑ Mas, monsenhor, não sei nada, nunca a vi.

‑ Quando íeis buscar a vossa mulher ao Louvre ela ia directamente

para vossa casa?

‑ Quase nunca: tinha negócios com comerciantes de panos e eu

levava‑a lá.

‑ E quantos eram esses comerciantes de panos?

‑ Dois, monsenhor.

‑ Onde moravam?

‑ Um, na Rua de Vaugirard; o outro, na Rua de La Harpe.

‑ Entráveis em casa deles com ela?

‑ Nunca, monsenhor; esperava‑a à porta.

‑ E que pretexto vos dava ela para entrar assim sozinha?

‑ Nenhum; dizia‑me para esperar e eu esperava.

‑ Sois um marido complacente, meu caro Sr. Bonacieux! ‑ disse o cardeal.

‑ «Trata‑me por seu caro senhor!», disse para consigo mesmo o retroseiro. «O caso parece bem encaminhado!»

‑ Reconheceríeis essas portas?

‑ Reconheceria, sim.

‑ Sabeis os números?

‑ Sei.

‑ Quais são?

‑ Na Rua de Vaugirard o número 25; na Rua de la Harpe o número 75.

‑ Está bem ‑ disse o cardeal.

Depois destas palavras pegou numa campainha de prata e tocou; o oficial voltou a entrar.

‑ Ide buscar‑me Rochefort ‑ disse a meia voz. ‑ Que venha imediatamente se já regressou.

‑ O conde está cá ‑ informou o oficial ‑ e pede instantemente para falar a Vossa Eminência!

‑ A Vossa Eminência... ‑ murmurou Bonacieux, que sabia ser esse o título que davam habitualmente ao Sr. Cardeal. ‑ A Vossa Eminência!

‑ Que venha então, que venha! ‑ ordenou vivamente Richelieu.

O oficial correu para fora do gabinete, com a rapidez usada habitualmente por todos os servidores do cardeal no cumprimento das suas ordens.

‑ A Vossa Eminência! ‑ murmurava Bonacieux, rolando os olhos

apavorado.

Ainda não tinham passado cinco segundos desde que o oficial saira quando a porta se abriu e entrou nova personagem.

‑ É ele! ‑ exclamou Bonacieux.

‑ Ele, quem? ‑ perguntou o cardeal.

‑ O que raptou a minha mulher.

O cardeal tocou segunda vez. O oficial reapareceu.

‑ Entregai este homem aos seus guardas e que espere que o volte a chamar à minha presença.

‑ Não, monsenhor, não! Isso não! ‑ gritou Bonacieux. ‑ Não é ele, enganei‑me, é outro que não se parece nada com ele! Este senhor é um homem honesto.

‑ Levai esse imbecil! ‑ ordenou o cardeal.

O oficial agarrou Bonacieux por baixo do braço e reconduziu‑o à antecâmara, onde os guardas o esperavam.

A nova personagem que acabava de entrar seguiu com a vista, impacientemente, Bonacieux, até este sair, e logo que a porta se fechou atrás dele disse, aproximando‑se vivamente do cardeal:

‑ Encontraram‑se.

‑ Quem? ‑ perguntou Sua Eminência.

‑ Ela e ele.

‑ A rainha e o duque? ‑ perguntou Richelieu. ‑Sim.

‑ Onde?

‑ No Louvre.

‑ Tendes a certeza?

‑ Absoluta.

‑ Quem vo‑lo disse?

‑ A Sr.a de Lannoy, que é dedicadíssima a Vossa Eminência, como sabeis.

‑ Por que não disse isso mais cedo?

‑ Quer por acaso, quer por desconfiança, a rainha mandou a Sr.a de Fargis dormir no seu quarto e reteve‑a todo o dia.

‑ Está bem, fomos batidos. Procuremos tirar a nossa vingança.

‑ Ajudar‑vos‑ei com toda a minha alma, monsenhor, estai tranquilo.

‑ Como foi que isso aconteceu?

‑ À meia‑noite e meia hora a rainha estava com as suas damas...

‑ Onde?

‑ No quarto de dormir...

‑ Bem.

‑ Quando vieram entregar‑lhe um lenço da parte da roupeira...

‑ E depois?

‑ A rainha manifestou imediatamente grande emoção e, apesar do carmim que lhe cobria a cara, empalideceu.

‑ Depois, depois!

‑ Entretanto, levantou‑se e disse com voz alterada: «Minhas senhoras, esperai‑me dez minutos; volto já.» E abriu a porta da alcova e saiu.

‑ Porque não foi a Sr.a de Lannoy prevenir‑vos imediatamente?

‑ Ainda não havia a certeza de nada; além disso, a rainha dissera: «Minhas senhoras, esperai‑me», e ela não ousava desobedecer à rainha.

‑ E quanto tempo esteve a rainha fora do quarto?

‑ Três quartos de hora.

‑ Nenhuma das suas damas a acompanhava?

‑ Apenas Dona Estefânia.

‑ E depois regressou?

‑ Regressou, mas para ir buscar um cofrezinho de pau‑rosa com o seu monograma, e saiu imediatamente.

‑ E quando voltou, mais tarde, trazia consigo o cofre? ‑Não.

‑ A Sr.a de Lannoy sabia o que havia no cofre?

‑ Sabia: as agulhetas de diamantes que Sua Majestade deu à rainha.

‑ E regressou sem o cofre?

‑ Regressou.

‑ A opinião da Sr.a de Lannoy é que ela as entregou então a Buckingham?

‑ Tem a certeza disso.

‑ Como assim?

‑ Durante o dia, a Sr.a de Lannoy, na sua qualidade de açafata da rainha, procurou o cofre, pareceu inquieta por não o encontrar e acabou por perguntar por ele à rainha.

‑ E a rainha?

‑ A rainha corou muito e respondeu que partira na véspera uma das agulhetas e a mandara consertar ao seu joalheiro.

‑ É preciso passar por lá e verificar se isso é verdade ou não.

‑ Já passei.

‑ Bom, e o joalheiro?

‑ O joalheiro não ouviu falar de nada.

‑ Óptimo, óptimo! Nem tudo está perdido, Rochefort, e talvez... talvez tudo esteja agora melhor!

‑ A verdade é que não duvido que o génio de Vossa Eminência...

‑ Repare as tolices do meu agente, não é?

‑ Era exactamente o que ia dizer, se Vossa Eminência me tivesse deixado acabar a frase.

‑ E agora, sabeis onde se escondem a duquesa de Chevreuse e o duque de Buckingham?

‑ Não, monsenhor, os meus homens não conseguiram dizer‑me nada de positivo a tal respeito.

‑ Sei‑o eu.

‑ Vós, monsenhor?

‑ Sim. Ou pelo menos julgo saber. Devem estar escondidos um na Rua de Vaugirard, número 25, e o outro na Rua de La Harpe, número 75.

‑ Vossa Eminência quer que os mande prender?

‑ Talvez seja demasiado tarde, já devem ter partido.

‑ Não importa, podemos verificar.

‑ Levai dez homens das minhas guardas e revistai as duas casas.

‑ Imediatamente, monsenhor.

E Rochefort correu para fora do gabinete.

O cardeal ficou só, reflectiu um instante e tocou pela terceira vez.

Reapareceu o mesmo oficial.

‑ Mandai entrar o prisioneiro ‑ ordenou‑lhe o cardeal.

Mestre Bonacieux foi introduzido de novo e a um sinal do cardeal o oficial retirou‑se.

‑ Enganastes‑me ‑ disse severamente o cardeal.

‑ Eu?! ‑ exclamou Bonacieux. ‑ Eu, enganar Vossa Eminência?!

‑ A vossa mulher, quando ia à Rua de Vaugirard e à Rua de La Harpe, não ia a casa de mercadores de panos.

‑ Então aonde ia, Santo Deus?

‑ ia a casa da duquesa de Chevreuse e a casa do duque de Buckingham.

‑ É verdade ‑ declarou Bonacieux, depois de apelar para todas as suas recordações. ‑ Sim, é isso, Vossa Eminência tem razão. Disse várias vezes à minha mulher que era estranho negociantes de panos morarem em casas daquelas, em casas sem tabuleta, e de todas as vezes a minha mulher desatou a rir. Ah, monsenhor ‑ continuou Bonacieux, lançando‑se aos pés de Sua Eminência ‑, ah, sois bem o cardeal, o grande cardeal, o homem de génio que toda a gente admira!

Por muito medíocre que fosse o triunfo obtido sobre um indivíduo tão vulgar como Bonacieux, o cardeal nem por isso o saboreou menos durante um instante; depois, quase imediatamente, como se um novo pensamento lhe acudisse ao espírito, um sorriso franziu‑lhe os lábios. Estendendo a mão ao retroseiro, disse‑lhe:

‑ Levantai‑vos, meu amigo: sois um homem honrado.

‑ O cardeal tocou‑me na mão! Toquei na mão do grande homem! ‑ exclamou Bonacieux. ‑ O grande homem chamou‑me seu amigo!

‑ Sim, meu amigo, sim! ‑ repetiu o cardeal no tom paternal que sabia empregar às vezes, mas que só enganava quem o não conhecia. ‑ E como suspeitaram injustamente de vós, tendes direito a uma indemnização. Tomai, aceitai esta bolsa de cem pistolas e perdoai‑me.

‑ Perdoar‑vos, monsenhor? ‑ repetiu Bonacieux, hesitante em pegar na bolsa, com receio, sem dúvida, de que a pretensa dádiva não passasse de uma brincadeira de mau gosto. ‑ Mas tendes todo o direito de me mandar prender, de me mandar torturar, de me mandar enforcar! Sois o senhor e não teria nada que me queixar. Perdoar‑vos, monsenhor! Vamos, não penseis nisso!

‑ Vejo que sois generoso, meu caro Sr. Bonacieux, e agradeço‑vos. Aceitais por tanto esta e ides‑vos embora sem ser muito aborrecido?

‑ Vou‑me embora encantado, monsenhor.

‑ Adeus, então, ou antes até à vista, pois espero que nos voltemos a encontrar.

‑ Quando monsenhor quiser estarei às ordens de Vossa Eminência.

‑ Não faltarão ocasiões, podeis estar tranquilo, pois encontrei um encanto extremo na vossa conversação.

‑ Oh, monsenhor!

‑ Até à vista, Sr. Bonacieux, até à vista.

E o cardeal fez‑lhe um sinal com a mão, ao qual Bonacieux correspondeu inclinando‑se até ao chão; depois saiu às arrecuas e quando chegou à antecâmara o cardeal ouviu‑o, no seu entusiasmo, gritar a plenos pulmões: «Viva monsenhor! Viva Sua Eminência! Viva o grande cardeal!» O cardeal ouviu sorrindo esta brilhante manifestação dos sentimentos entusiastas de mestre Bonacieux; depois, quando os gritos de Bonacieux foram abafados pela distância, murmurou:

‑ Aqui está um homem que de futuro será capaz de morrer por mim.

E o cardeal pôs‑se a examinar com a maior atenção o mapa de la Rochelle que, como dissemos, estava estendido em cima da sua secretária, e traçou com um lápis a linha onde devia passar o famoso dique que dezoito anos mais tarde fecharia o porto da cidade sitiada.

Quando estava mais profundamente absorto nas suas meditações estratégicas, a porta abriu‑se e entrou Rochefort.

‑ Então? ‑ perguntou vivamente o cardeal, levantando‑se com uma rapidez que provava o grau de importância que atribuía à comissão de que encarregara o conde.

‑ Então ‑ respondeu este ‑, uma mulher de vinte e seis a vinte e oito anos e um homem de trinta e cinco a quarenta residiram efectivamente, um quatro dias e o outro cinco, nas casas indicadas por Vossa Eminência; mas a mulher partiu esta noite e o homem esta manhã.

‑ Eram eles! ‑ gritou o cardeal, que olhava para o relógio. ‑ E agora é demasiado tarde para correr atrás deles: a duquesa está em Tours e o duque em Bolonha. É em Londres que é preciso procurá‑los.

‑ Quais são as ordens de Vossa Eminência?

‑ Nem uma palavra do que se passou; que a rainha permaneça em perfeita segurança; que ignore que sabemos o seu segredo; que julgue que andamos à procura de uma conspiração qualquer. Mandai‑me o chanceler Séguier.

‑ E quanto àquele homem, que decidiu Vossa Eminência?

‑ Qual homem? ‑ perguntou o cardeal.

‑ O tal Bonacieux.

‑ Aproveitá‑lo o melhor possível. Fiz dele espião da mulher.

O conde de Rochefort inclinou‑se como um homem que reconhece a grande superioridade do mestre e retirou‑se.

Quando ficou só, o cardeal voltou a sentar‑se, escreveu uma carta que lacrou com o seu sinete particular e depois tocou. O oficial entrou pela quarta vez.

‑ Mandai‑me chamar Vitray e dizei‑lhe que se prepare para uma viagem.

Pouco depois o homem que convocara estava de pé diante dele, de botas e esporas.

‑ Vitray ‑ disse‑lhe o cardeal ‑, ides partir a toda a pressa para Londres. Não vos detereis um instante no caminho. Entregai esta carta a Milady. Aqui tendes um vale de duzentas pistolas; procurai o meu tesoureiro e levantai o dinheiro. Recebereis outro tanto se estiverdes aqui, de regresso, dentro de seis dias e vos tiverdes desempenhado cabalmente da minha comissão.

Sem responder uma só palavra, o mensageiro inclinou‑se, pegou na carta e no vale de duzentas pistolas e saiu.

Eis o que continha a carta:

 

         Milady:

Ide ao primeiro baile a que assista o duque de Buckingham. Ele terá no gibão doze agulhetas de diamantes. Aproximai‑vos e cortai‑lhes duas.

Assim que as agulhetas estiverem em vosso poder, preveni-me.

 

         GENTE DE TOGA E GENTE DE ESPADA

No dia seguinte àquele em que estes acontecimentos se verificaram, como Athos não tivesse reaparecido, o Sr. de Tréville fora avisado por d'Artagnan e por Porthos do seu desaparecimento.

Quanto a Aramis, pedira uma dispensa de cinco dias e encontrava‑se em Ruão, dizia‑se, por assuntos de família.

O Sr. de Tréville era o pai dos seus soldados. O mais insignificante e desconhecido deles, desde que usasse o uniforme da companhia, podia estar tão certo da sua ajuda e do seu apoio como da ajuda e do apoio de um próprio irmão.

Dirigiu‑se portanto imediatamente ao tenente do crime, mandaram chamar o oficial que comandava o posto da Croix‑Rouge e pelas informações subsequentes souberam que Athos estava momentaneamente detido no For‑l'Évêque.

Athos passara por todas as provações que vimos Bonacieux sofrer.

Assistimos à cena da acareação entre os dois cativos. Athos, que nada dissera até ali com receio de que d'Artagnan, também inquieto, não tivesse disposto do tempo de que precisava, Athos declarou a partir daquele momento que se chamava Athos e não d'Artagnan.

Acrescentou que não conhecia nem o senhor nem a Sr.a Bonacieux e que nunca falara nem com uma nem com outro; que fora por volta das dez horas da noite visitar o Sr. d'Artagnan, seu amigo, mas que até àquela hora estivera no palácio do Sr. de Tréville, onde jantara. Vinte testemunhas, acrescentou, podiam atestar o facto, e mencionou diversos gentis‑homens distintos, entre outros o Sr. Duque de La Trémouille.

O segundo comissário ficou tão aturdido como o primeiro com a declaração simples e firme do mosqueteiro, do qual bem desejaria tirar a desforra que a gente de toga tanto gosta de obter da gente de espada; mas o nome do Sr. de Tréville, bem como o do Sr. Duque de La Trémouille mereciam reflexão.

Athos foi também enviado ao cardeal, mas infelizmente o cardeal estava no Louvre com o rei.

Foi precisamente nesse momento que o Sr. de Tréville, depois de falar com o tenente do crime e com o governador do For‑l'Évêque, mas sem ter encontrado Athos, chegou aos aposentos de Sua Majestade.

Como capitão dos mosqueteiros o Sr. de Tréville tinha acesso ao rei em qualquer momento.

Sabemos quais eram as prevenções do rei contra a rainha, prevenções habilmente alimentadas pelo cardeal que, no tocante a intrigas, desconfiava infinitamente mais das mulheres do que dos homens. Uma das grandes causas dessa prevenção era sobretudo a amizade de Ana de Áustria pela Sr.a de Chevreuse. Estas duas mulheres preocupavam‑no mais do que as guerras com a Espanha, as questiúnculas com a Inglaterra e as dificuldades financeiras. A seus olhos e segundo a sua convicção a Sr.a de Chevreuse servia a rainha não só nas suas intrigas políticas, mas também, o que o atormentava ainda mais, nas suas intrigas amorosas.

Logo às primeiras palavras que dissera o Sr. Cardeal ‑ que a Sr.a de Chevreuse, exilada em Tours e que julgavam naquela cidade, viera a Paris e durante os cinco dias que permanecera na capital despistara a Polícia ‑ o rei entrara numa cólera furiosa. Caprichoso e infiel, o rei queria ser cognominado Luís, o Justo, e Luís, o Casto. A posteridade compreenderia dificilmente semelhante carácter, que a História só explica através de factos e nunca de raciocínios.

Mas quando o cardeal acrescentou que não só a Sr.a de Chevreuse viera a Paris, como ainda a rainha reatara com o seu auxílio uma das suas correspondências misteriosas a que na época se chamava cabala; quando afirmou que ele, cardeal, ia desenredar os fios mais ocultos dessa intriga e, precisamente no momento de apanhar os criminosos com a boca na botija, em flagrante delito, munido de todas as provas, o emissário da rainha junto da exilada, um mosqueteiro, ousara interromper violentamente o curso da justiça caindo, de espada em punho, sobre respeitáveis agentes da lei encarregados de examinar com imparcialidade todo o caso para o apresentar ao rei ‑ Luís XIII não se conteve mais e deu um passo para os aposentos da rainha, com a pálida e muda indignação que, quando explodia, levava o príncipe até à mais fria crueldade.

E contudo, naquilo que dissera, o cardeal ainda se não referira ao duque de Buckingham.

Foi então que o Sr. de Tréville entrou, frio, polido, e impecavelmente vestido.

Avisado do que acabava de se passar pela presença do cardeal e pela alteração da cara do rei, o Sr. de Tréville sentiu‑se forte como Sansão diante dos Filisteus.

Luís XIII punha já a mão na maçaneta da porta; ouvindo o ruído que fez o Sr. de Tréville ao entrar, virou‑se.

‑ Chegais em boa altura, senhor ‑ disse o rei que, quando as suas paixões subiam a certo ponto, não sabia dissimular. ‑ Contaram‑me belas coisas a respeito dos vossos mosqueteiros.

‑ E eu ‑ redarguiu friamente o Sr. de Tréville ‑ tenho belas coisas a contar a Vossa Majestade acerca dos seus magistrados.

‑ Que dizeis? ‑ volveu‑lhe o rei, com altivez.

‑ Tenho a honra de informar Vossa Majestade ‑ continuou o Sr. de Tréville no mesmo tom ‑ que um grupo de procuradores, comissários e agentes da Polícia, pessoas muito respeitáveis, mas igualmente muito obstinadas, ao que parece, contra o uniforme, se permitiram prender numa casa, de conduzir em plena rua e de lançar no For‑l'Évêque, tudo isto mediante uma ordem que se recusaram a apresentar‑me, um dos meus mosqueteiros, ou antes dos vossos, Sire, de um comportamento irrepreensível, de uma reputação quase ilustre, e que Vossa Majestade conhece favoravelmente, o Sr. Athos.

‑ Athos? ‑ disse o rei, maquinalmente. ‑ Sim, de facto, conheço esse nome.

‑ Procurai recordá‑lo, Majestade ‑ insistiu o Sr. de Tréville. ‑ O Sr. Athos é aquele mosqueteiro que no desagradável duelo que sabeis teve a infelicidade de ferir gravemente o Sr. de Cahusac. A propósito, monsenhor ‑ continuou Tréville dirigindo‑se ao cardeal ‑, o Sr. de Cahusac está completamente restabelecido, não está?

‑ Está, obrigado! ‑ respondeu o cardeal, contraindo os lábios de cólera.

‑ O Sr. Athos fora visitar um dos seus amigos, então ausente ‑ continuou o Sr. de Tréville ‑, um jovem bearnês cadete dos guardas de Sua Majestade, companhia dos Essarts; mas mal acabara de se instalar em casa do amigo e de pegar num livro para ler enquanto o esperava, um enxame de beleguins e de soldados cercou a casa, arrombou várias portas...

O cardeal fez ao rei um sinal que significava: «Trata‑se do caso de que vos falei.»

‑ Sabemos tudo isso ‑ replicou o rei ‑, porque tudo isso foi feito em nosso serviço.

‑ Nesse caso ‑ disse Tréville ‑, foi também em serviço de Vossa Majestade que prenderam um dos meus mosqueteiros inocente, que o colocaram entre dois guardas como um malfeitor e que passearam no meio de uma populaça insolente esse homem garboso, que verteu dez vezes o seu sangue ao serviço de Vossa Majestade e está pronto a vertê‑lo de novo.

‑ Ora! ‑ exclamou o rei, abalado. ‑ As coisas passaram‑se assim?

‑ O Sr. de Tréville não diz ‑ interveio o cardeal com a maior fleuma ‑ que esse mosqueteiro inocente, que esse homem garboso, correra à espadeirada, uma hora antes, quatro comissários instrutores delegados por mim para instruírem um processo da mais alta importância.

‑ Desafio Vossa Eminência a provar o que diz! ‑ exclamou o Sr. de Tréville com a sua franqueza muito gascã e a sua rudeza muito militar. ‑ Uma hora antes, o Sr. Athos, que, para elucidação de Vossa Majestade, é um homem da mais alta qualidade, dava‑me a honra, depois de jantar comigo, de conversar no salão do meu palácio com o Sr. Duque de La Trémouille e com o Sr. Conde de Chalus, que lá se encontravam.

O rei olhou o cardeal.

‑ Levantou‑se um auto ‑ disse o cardeal, respondendo em voz alta à interrogação muda de Sua Majestade ‑ e as pessoas maltratadas elaboraram este que tenho a honra de apresentar a Vossa Majestade.

‑ Um auto de gente de toga vale mais do que a palavra de honra de gente de espada? ‑ perguntou orgulhosamente Tréville.

‑ Então, então, Tréville, calai‑vos ‑ disse o rei.

‑ Se Sua Eminência tem alguma suspeita contra um dos meus mosqueteiros ‑ redarguiu Tréville ‑, a justiça do Sr. Cardeal é suficientemente conhecida para que eu próprio peça um inquérito.

‑ Na casa onde a devassa foi feita ‑ continuou o cardeal, impassível ‑, mora, segundo creio, um bearnês amigo do mosqueteiro.

‑ Vossa Eminência refere‑se ao Sr. d'Artagnan?

‑ Refiro‑me a um jovem que protegeis, Sr. de Tréville.

‑ Exacto, Eminência, é isso mesmo.

‑ Não suspeitais que esse rapaz possa ter dado maus conselhos...

‑ Ao Sr. Athos, um homem com o dobro da sua idade? ‑ interrompeu‑o o Sr. de Tréville. ‑ Não, monsenhor. Aliás, o Sr. d'Artagnan passou a noite comigo.

‑ Sim?... ‑ disse o cardeal. ‑ Pelos vistos, toda a gente passou a noite convosco...

‑ Vossa Eminência duvida da minha palavra? ‑ perguntou Tréville, rubro de cólera.

‑ Não, não. Deus me defenda! ‑ respondeu o cardeal. ‑ Mas apenas uma pergunta: a que horas esteve ele convosco?

‑ Oh, quanto a isso posso responder conscientemente a Vossa Eminência! De facto, quando entrou reparei que eram nove e meia no relógio do meu gabinete, embora julgasse ser mais tarde.

‑ E a que horas saiu do vosso palácio?

‑ Às dez e meia: uma hora depois do acontecimento.

‑ Mas enfim ‑ respondeu o cardeal, que não duvidava um instante da lealdade de Tréville e que sentia a vitória fugir‑lhe ‑, mas enfim, Athos foi encontrado na casa da Rua dos Fossoyeurs...

‑ É proibido a um amigo visitar um amigo? A um mosqueteiro da minha companhia confraternizar com um guarda da companhia do Sr. dos Essarts?

‑ É, quando a casa em que confraterniza com esse amigo é suspeita?

‑ De facto, essa casa é suspeita, Tréville ‑ confirmou o rei. ‑ Talvez o não soubésseis?

‑ Efectivamente, Sire, ignorava‑o. Em todo o caso, pode ser suspeita em geral, mas nego que o seja na parte habitada pelo Sr. d'Artagnan; pois posso afirmar‑vos, Sire, que a julgar pelas suas palavras não existe servidor mais dedicado de Vossa Majestade, nem admirador mais profundo do Sr. Cardeal.

‑ Não foi esse d'Artagnan que feriu um dia Jussac no malfadado recontro que se deu perto do convento dos Carmelitas Descalços? ‑ perguntou o rei, olhando para o cardeal, que corou de despeito.

‑ E no dia seguinte Bernajoux. ‑ Sim, Sire, foi ele; Vossa Majestade tem boa memória.

‑ Então, que resolvemos? ‑ perguntou o rei.

‑ O caso diz mais respeito a Vossa Majestade do que a mim ‑ respondeu o cardeal. ‑ Eu afirmaria a culpabilidade.

‑ E eu nego‑a ‑ disse Tréville. ‑ Mas Sua Majestade tem juízes e os seus juízes decidirão.

‑ É verdade ‑ concordou o rei ‑, levemos a causa perante os juizes: o seu ofício é julgar e eles julgarão.

‑ Mas não deixa de ser muito triste ‑ acrescentou Tréville ‑ que nos tempos infelizes em que nos encontramos a vida mais pura, a virtude mais incontestável, não isentem um homem da infâmia e da perseguição. Por isso o Exército ficará pouco satisfeito, posso garanti‑lo, por estar exposto a tratamentos rigorosos a propósito de casos de polícia.

A tirada era imprudente; mas o Sr. de Tréville lançara‑a com conhecimento de causa. Queria uma explosão, porque numa explosão a mina faz fogo e o fogo ilumina.

‑ Casos de polícia! ‑ gritou o rei, sublinhando as palavras do Sr. de Tréville. ‑ Casos de polícia! E que sabeis disso, senhor? Ocupai‑vos dos vossos mosqueteiros e não me façais perder a paciência. Quem vos ouvisse diria que se por desgraça se prende um mosqueteiro a França fica em perigo. Tanto barulho por causa de um mosqueteiro! Mandarei prender dez, com mil demónios! Até cem; toda a companhia! E não admito comentários.

‑ A partir do momento em que são suspeitos a Vossa Majestade ‑ disse Tréville ‑ os mosqueteiros são culpados; por isso me vedes, Sire, pronto a entregar‑vos a minha espada. Porque, depois de acusar os meus soldados, o Sr. Cardeal, não tenho qualquer dúvida a tal respeito, acabará por me acusar a mim mesmo; portanto, mais vale que me constitua prisioneiro com o Sr. Athos, que já está preso, e com o Sr. d'Artagnan, que decerto vão prender.

‑ Gascão casmurro, quereis acabar com isso? ‑ pediu o rei.

‑ Sire ‑ respondeu Tréville sem baixar a voz ‑, ordenai que me restituam o meu mosqueteiro ou que seja julgado.

‑ Será julgado ‑ interveio o cardeal.

‑ Tanto melhor; porque nesse caso pedirei a Sua Majestade permissão para o defender em juízo.

O rei receou uma explosão.

‑ Se Sua Eminência não tivesse pessoalmente motivos... O cardeal viu aproximar‑se o rei e foi ao seu encontro.

‑ Perdão ‑ disse ‑, mas uma vez que Vossa Majestade vê em mim um juiz predisposto, retiro‑me.

‑ Vejamos ‑ disse o rei ‑, jurais‑me por meu pai que o Sr. Athos estava convosco quando se deram os acontecimentos e não tomou parte neles?

‑ Pelo vosso glorioso pai e por vós próprio, que sois o que mais amo e venero no mundo, juro‑o!

‑ Reflecti, Sire ‑ interveio o cardeal. ‑ Se soltamos assim o prisioneiro não poderemos descobrir a verdade.

‑ O Sr. Athos estará sempre disponível para responder quando aprouver aos magistrados interrogá‑lo ‑ declarou o Sr. de Tréville. ‑ Não desertará, Sr. Cardeal; estai tranquilo, eu responderei por ele.

‑ Claro que não desertará ‑ disse o rei. ‑ Estará sempre disponível, como diz o Sr. de Tréville. Aliás ‑ acrescentou, baixando a voz e olhando com ar suplicante Sua Eminência ‑, confiar nele é um acto político.

O conceito de política de Luís XIII fez sorrir Richelieu.

‑ Ordenai, Sire ‑ disse ‑, tendes direito de graça.

‑ O direito de graça só se aplica aos culpados ‑ interveio Tréville, que queria ter a última palavra ‑ e o meu mosqueteiro está inocente. Não é portanto um acto de graça que ides fazer, Sire, é um acto de justiça.

‑ Ele está no For-l'Évêque? ‑ perguntou o rei.

‑ Está, sim, Sire; e no segredo, num calabouço, como o último dos criminosos.

‑ Diabo, diabo! ‑ murmurou o rei. ‑ Que é preciso fazer?

‑ Assinar o mandado de soltura e pronto ‑ respondeu o cardeal. ‑ Creio, como Vossa Majestade, que a garantia do Sr. de Tréville é mais do que suficiente.

Tréville inclinou‑se respeitosamente, com uma alegria em que se misturava algum receio; teria preferido uma resistência pertinaz do cardeal àquela súbita facilidade.

O rei assinou o mandado de soltura e Tréville apoderou‑se imediatamente dele.

No momento em que ia a sair o cardeal dirigiu‑lhe um sorriso amistoso e disse ao rei:

‑ Reina boa harmonia entre os chefes e os soldados nos vossos mosqueteiros, Sire; aí está uma coisa muito proveitosa para o serviço e honrosa para todos.

«Não tardará a pregar‑me qualquer partida», pensou Tréville. «Nunca se tem a última palavra com semelhante homem. Mas apressemo‑nos, porque o rei pode mudar de opinião de um momento para o outro. E no fim de contas é mais difícil voltar a meter na Bastilha ou no For‑l'Évêque um homem que de lá tenha saído do que conservar um prisioneiro de que se não tenha aberto mão.»

O Sr. de Tréville entrou triunfalmente no For‑l'Évêque e libertou o mosqueteiro, que não perdera a sua calma indiferença. Mas da primeira vez que viu d'Artagnan disse‑lhe:

‑ Escapastes à justa; está paga a vossa estocada a Jussac. Falta ainda a de Bernajoux, mas essa fica para depois.

De resto, o Sr. de Tréville tinha razão em desconfiar do cardeal e pensar que nem tudo estava acabado, pois mal o capitão dos mosqueteiro fechou a porta atrás de si Sua Eminência disse ao rei:

‑ Agora que estamos sós, vamos conversar seriamente, se apraz a Vossa Majestade. Sire, o Sr. de Buckingham esteve em Paris durante cinco dias e só partiu esta manhã.

 

         ONDE O SR. CHANCELER SÉGUIER PROCUROU MAIS UMA VEZ O SINO PARA O TOCAR, COMO FAZIANOUTRO TEMPO

É impossível fazer ideia da impressão que estas poucas palavras produziram em Luís XIII. Corou e empalideceu sucessivamente; e o cardeal verificou imediatamente que acabava de conquistar de um só golpe todo o terreno que perdera.

‑ O Sr. de Buckingham em Paris! ‑ gritou. ‑ E que veio cá fazer?

‑ Sem dúvida conspirar com os nossos inimigos, os huguenotes e os Espanhóis.

‑ Não, por Deus, não! Conspirar contra a minha honra com a Sr.a de Chevreuse, a Sr.a de Longueville e os Condes!

‑ Oh, Sire, que ideia! A rainha é demasiado sensata e sobretudo ama muito Vossa Majestade.

‑ A mulher é fraca, Sr. Cardeal ‑ redarguiu o rei. ‑ E quanto a amar‑me muito, tenho a minha opinião formada acerca desse amor.

‑ Mesmo assim sustento que o duque de Buckingham veio a Paris por um projecto exclusivamente político ‑ insistiu o cardeal.

‑ E eu estou certo de que veio por outra coisa, Sr. Cardeal. Mas se a rainha é culpada, ela que trema!

‑ De facto ‑ disse o cardeal ‑, por muito que me repugne deter o espírito em semelhante traição, Vossa Majestade deu‑me que pensar: a Sr.a de Lannoy que, de acordo com as ordens de Vossa Majestade, interroguei várias vezes, disse‑me esta manhã que a noite passada Sua Majestade esteve levantada até muito tarde, que esta manhã chorou muito e passou várias horas a escrever.

‑ É isso: a ele, sem dúvida! ‑ exclamou o rei. ‑ Cardeal, preciso dos papéis da rainha.

‑ Mas como obtê‑los, Sire? Parece‑me que nem eu nem Vossa Majestade podemos encarregar‑nos de semelhante missão.

‑ Como procederam com a marechala de Ancre? ‑ gritou o rei no mais alto grau da cólera. ‑ Revistaram‑lhe os armários e até a revistaram a ela mesma.

‑ A marechala de Ancre era apenas a marechala de Ancre, uma aventureira florentina, Sire, e mais nada; ao passo que a augusta esposa de Vossa Majestade é Ana de Áustria, rainha de França, isto é, uma das maiores princesas do mundo.

‑ Só por isso é mais culpada, Sr. Cardeal! Quanto mais esquece a alta posição que ocupa, mais baixo desce. De resto, há muito tempo que estou decidido a acabar com todas essas intrigazinhas de política e amor. Tem também junto dela um tal La Porte...

‑ Que julgo ser a trave mestra de tudo, confesso ‑ acrescentou o cardeal.

‑ Pensais portanto, como eu, que ela me engana? ‑ perguntou o rei.

‑ Creio, e repito‑o a Vossa Majestade, que a rainha conspira contra o poder do seu rei, mas não disse nada contra a sua honra.

‑ Pois eu digo‑vos contra ambos; digo‑vos que a rainha não me ama; digo‑vos que ama outro; digo‑vos que ama esse infame duque de Buckingham! Por que não o mandastes prender enquanto esteve em Paris?

‑ Prender o duque? Prender o primeiro‑ministro do rei Carlos I? Pensais isso, Sire? Que escândalo! E se então as suspeitas de Vossa Majestade (do que continuo a duvidar) tivessem alguma consistência, que escândalo terrível! Que escândalo desesperante!

‑ Mas uma vez que se arriscava como um vagabundo e um ladrão, precisava...

O próprio Luís XIII se deteve, horrorizado com o que ia dizer, enquanto Richelieu, esticando o pescoço, esperava inutilmente a palavra que ficara nos lábios do rei.

‑ Precisava?...

‑ Nada ‑ disse o rei ‑, nada. Mas durante todo o tempo que esteve em Paris não o perdestes de vista?

‑ Não, Sire.

‑ Onde morava?

‑ Na Rua de La Harpe, número 75.

‑ Onde fica isso?

‑ Para os lados do Luxemburgo.

‑ E tendes a certeza de que a rainha e ele não se viram?

‑ Considero a rainha muito respeitadora dos seus deveres, Sire.

‑ Mas têm‑se correspondido, foi a ele que a rainha esteve a escrever tanto tempo! Sr. Duque, quero essas cartas!

‑ Mas, Sire...

‑ Sr. Duque, quero‑as custe o que custar.

‑ Devo no entanto observar a Vossa Majestade...

‑ Também me atraiçoarias, Sr. Cardeal, para vos opordes sempre assim à minha vontade? Também estais mancomunado com o Espanhol e com o Inglês, com a Sr.a de Chevreuse e com a rainha?

‑ Sire, julgava‑me ao abrigo de semelhante suspeita ‑ respondeu o cardeal, suspirando.

‑ Sr. Cardeal, ouvistes o que disse: quero essas cartas.

‑ Só deve haver um meio... ‑ Qual?

‑ Encarregar dessa missão o Sr. Chanceler Séguier. O caso cabe completamente nos deveres do seu cargo.

‑ Mandem‑no chamar imediatamente!

‑ Deve estar em minha casa, Sire; tinha‑lhe mandado pedir que passasse por lá e quando vim para o Louvre deixei ordem, caso ele aparecesse, para o mandarem esperar.

‑ Que o vão buscar imediatamente!

‑ As ordens de Vossa Majestade serão cumpridas; mas...

‑ Mas o quê?

‑ Mas a rainha talvez se recuse a obedecer.

‑ Às minhas ordens?

‑ Sim, se ignorar que as ordens vêm do rei.

‑ Pois para que não tenha dúvidas eu próprio a prevenirei.

‑ Vossa Majestade não esquecerá que tenho feito tudo o que tenho podido para evitar um rompimento.

‑ Sim, duque, sei que sois muito indulgente com a rainha, demasiado indulgente talvez; e desde já vos previno que teremos de falar a esse respeito mais tarde.

‑ Quando aprouver a Vossa Majestade; mas sentir‑me‑ei sempre feliz e orgulhoso, Sire, por me sacrificar à boa harmonia que desejo ver reinar entre vós e a rainha de França.

‑ Pois sim, cardeal, pois sim; mas entretanto mandai buscar o Sr. Chanceler. Eu vou falar com a rainha.

E Luís XIII abriu a porta de comunicação e meteu pelo corredor que levava aos seus aposentos e aos de Ana de Áustria.

A rainha estava no meio das suas damas, Sr.as de Guitaut, de Sablé, de Montbazan e de Guéménée. A um canto encontrava‑se a camareira espanhola Dona Estefânia, que a acompanhara de Madrid. A Sr.a de Guéménée lia e toda a gente escutava com atenção a leitora, excepto a rainha, que pelo contrário provocara a leitura a fim de poder, fingindo escutar, seguir o fio dos seus próprios pensamentos.

Tais pensamentos, por mais dourados que fossem por um derradeiro reflexo de amor, nem por isso eram menos tristes. Ana de Áustria, privada da confiança do marido, perseguida pelo ódio do cardeal, que não lhe perdoava ter repelido um sentimento mais doce, tendo diante dos olhos o exemplo da rainha‑mãe, a quem esse ódio atormentara toda a vida ‑ embora Maria de Médicis, a dar crédito às memórias do tempo, tivesse começado por conceder ao cardeal o sentimento que Ana de Áustria acabara sempre por lhe recusar ‑, Ana de Áustria vira cair à sua volta os servidores mais dedicados, os seus mais íntimos confidentes e os seus mais queridos favoritos. Como esses infelizes dotados de um dom funesto, trazia a desgraça a tudo em que tocava e a sua amizade era um indício fatal que atraía a perseguição. A Sr.a de Chevreuse e a Sr.a de Vernel estavam exiladas e La Porte não ocultava à sua ama e senhora que esperava ser preso de um momento para o outro.

Foi quando estava mergulhada na mais profunda sombra destas reflexões que a porta se abriu e o rei entrou.

A leitora calou‑se imediatamente, todas as damas se levantaram e fez‑se profundo silêncio.

Quanto ao rei, não demonstrou qualquer delicadeza; apenas disse, com a voz alterada, parando diante da rainha:

‑ Senhora, ides receber a visita do Sr. Chanceler, que vos comunicará certas diligências de que o encarreguei.

A pobre rainha, a quem ameaçavam constantemente de divórcio, de exílio e até de julgamento, empalideceu debaixo do carmim e não conseguiu impedir‑se de perguntar:

‑ Mas porquê essa visita, Sire? Que me dirá o Sr. Chanceler que Vossa Majestade me não possa dizer pessoalmente?

O rei deu meia volta sem responder e quase no mesmo instante o capitão dos guardas, Sr. de Guitaut, anunciou a visita do Sr. Chanceler.

Quando o chanceler apareceu, o rei já saira por outra porta.

O chanceler entrou meio sorridente, meio ruborizado. Como provavelmente o tornaremos a encontrar no decurso desta história, não há inconveniente em os leitores travarem desde já conhecimento com ele.

O chanceler era um homem curioso. Foi Des Roches le Masle, cónego de Notre‑Dame e que fora outrora criado de quarto do cardeal, quem o propôs a Sua Eminência como um homem dedicadíssimo. O cardeal acreditou no cónego e não se arrependeu.

Contavam‑se a seu respeito certas histórias e entre elas esta:

Depois de uma juventude tempestuosa, retirara‑se para um convento a fim de espiar, pelo menos durante algum tempo, as loucuras da adolescência.

Mas quando entrara no santo lugar o pobre penitente não conseguira fechar a porta tão depressa que as paixões de que fugia não entrassem com ele. Constantemente obsidiado por isso, confiou a sua desgraça ao superior, o qual, querendo tanto quanto estava na sua mão, protegê‑lo, lhe recomendou que, para conjurar o Demónio tentador, recorresse à corda do sino e o tocasse com toda a força. Ao ouvirem o toque denunciador, os frades saberiam que a tentação assediava um irmão e toda a comunidade se entregaria à oração.

O conselho pareceu bom ao futuro chanceler. De facto, conjurou o espírito maligno a poder de orações dos frades; mas como o Diabo não se deixa desapossar facilmente de uma praça onde meteu guarnição, à medida que redobravam os exorcismos ele redobrava as tentações, de forma que o sino tocava dia e noite com toda a força, anunciando o extremo desejo de mortificação que experimentava o penitente.

Os frades não tinham um instante de repouso. De dia, só faziam subir e descer as escadas que levavam à capela; de noite, além das completas e das matinas, ainda eram obrigados a saltar vinte vezes da cama e prosternarem‑se no lajedo das celas.

Ignora‑se se foi o Diabo que desistiu ou os frades que se cansaram; mas passados três meses o penitente reapareceu na sociedade com a reputação do mais terrível possesso que jamais existira.

Quando saiu do convento entrou para a magistratura, tornou‑se juiz‑presidente do Supremo Tribunal de Justiça no lugar do tio, abraçou o partido do cardeal, o que só provou a sua sagacidade, tornou‑se chanceler, serviu Sua Eminência com zelo no seu ódio contra a rainha‑mãe e na sua vingança contra Ana de Áustria, estimulou os juízes no caso de Chalais, encorajou as experiências do Sr. de Laffemas, couteiro‑mor de França, e por fim, investido de toda a confiança do cardeal ‑ confiança que tão bem conquistara ‑, recebeu a singular comissão para cumprimento da qual se apresentava à rainha.

A rainha estava ainda de pé quando ele entrou, mas mal o viu voltou a sentar‑se no seu cadeirão e fez sinal às suas damas para reocuparem as suas almofadas e os seus bancos; e num tom de suprema altivez perguntou:

‑ Que desejais, senhor, com que fim vos apresentais aqui?

‑ Venho proceder em nome do rei, senhora, e salvo todo o respeito que tenho a honra de dever a Vossa Majestade, a uma busca rigorosa nos vossos papéis.

‑ Que dizeis, senhor? Uma busca nos meus papéis... nos meus... Mas isso é uma coisa indigna!

‑ Dignai‑vos perdoar‑me, senhora, mas nesta circunstância não passo do instrumento de que o rei se serve. Sua Majestade não acaba de sair daqui e não vos convidou pessoalmente a aceitardes esta visita?

‑ Passai a busca, senhor; ao que parece, sou uma criminosa. Estefânia, dai‑lhe as chaves das minhas mesas e das minhas secretárias.

O chanceler revistou pró‑forma todos os móveis, mas bem sabia que não era num móvel que a rainha fechara a carta importante que escrevera naquele dia.

Depois de o chanceler abrir e fechar vinte vezes as gavetas das secretárias, teve, apesar das hesitações que experimentava, teve, repito, de proceder à última parte da busca, isto é, de revistar a própria rainha. O chanceler dirigiu‑se portanto para Ana de Áustria e disse‑lhe, num tom muito perplexo e com ar deveras embaraçado:

‑ E agora ‑ resta‑me fazer a busca principal...

‑ Qual? ‑ perguntou a rainha, que não compreendia, ou antes, não queria compreender.

‑ Sua Majestade tem a certeza de que escrevestes hoje uma carta e sabe que essa carta ainda não foi remetida ao seu destinatário. Como não se encontra nem nas vossas mesas nem nas vossas secretárias, é evidente que está noutro lado.

‑ Ousaríeis pôr a mão na vossa rainha? ‑ perguntou Ana de Áustria, empertigando‑se e cravando no chanceler uns olhos cuja expressão se tornara quase ameaçadora.

‑ Sou um fiel súbdito do rei, senhora, e faço tudo o que Sua Majestade me ordena.

‑ Tendes razão ‑ disse Ana de Áustria ‑, os espiões do Sr. Cardeal serviram‑no bem. De facto escrevi hoje uma carta e essa carta ainda não partiu. Está aqui.

E a rainha levou a bela mão ao corpete.

‑ Então, dai‑ma, senhora ‑ pediu o chanceler.

‑ Só a darei ao rei, senhor ‑ respondeu Ana.

‑ Se o rei quisesse que a carta lhe fosse entregue, senhora, ele próprio a teria pedido. Mas, repito‑vos, foi a mim que encarregou de vo‑la reclamar, e se a não entregardes...

‑ Que acontecerá?

‑ Bom, serei ainda eu que terei de vo‑la tirar.

‑ Como, que quereis dizer?

‑ Que as minhas ordens vão longe senhora, e que estou autorizado a procurar o documento suspeito na própria pessoa de Vossa Majestade.

‑ Que horror! ‑ gritou a rainha.

‑ Dignai‑vos, pois, senhora, agir mais sensatamente.

‑ Esse comportamento é de uma violência infame; não o sabeis, senhor?

‑ O rei ordena, senhora; perdoai‑me.

‑ Não suportarei essa afronta! Não, não, antes morrer! ‑ gritou a rainha, na qual se revoltava o sangue imperioso da espanhola e da austríaca.

O chanceler fez uma profunda reverência e depois, com a intenção bem patente de não recuar um passo no cumprimento da comissão de que fora encarregado, e tal como faria um ajudante de carrasco na câmara de tortura, aproximou‑se de Ana de Áustria, dos olhos da qual brotaram imediatamente lágrimas de raiva.

A rainha era, como já dissemos, de uma grande beleza.

A comissão podia portanto ser considerada delicada e com ela o rei acabava, à força de ter ciúmes de Buckingham, por não ter ciúmes de ninguém.

Naquele momento, o chanceler Séguier procurou sem dúvida com os olhos a corda do famoso sino; mas não a encontrando, decidiu‑se e estendeu a mão para o sítio onde a rainha confessara que se encontrava o papel.

Ana de Áustria deu um passo atrás, tão pálida que dir‑se‑ia ir morrer; e apoiando‑se com a mão esquerda, para não cair, a uma mesa que se encontrava atrás dela, tirou com a direita um papel do peito e estendeu‑o ao chanceler.

‑ Tomai, senhor, aqui tendes a carta! ‑ gritou a rainha em voz entrecortada e fremente. ‑ Tomai‑a e livrai‑me da vossa odiosa presença.

O chanceler, que pela sua parte tremia de comoção fácil de conceber, pegou na carta, inclinou‑se até ao chão e retirou‑se.

Mal a porta se fechou atrás dele, a rainha caiu meio desmaiada nos braços das suas damas.

O chanceler foi levar a carta ao rei sem ler uma só palavra. O rei pegou‑lhe com mão trémula, procurou o endereço, que faltava, empalideceu muito, abriu‑a lentamente e depois, vendo pelas primeiras palavras que era dirigida ao rei de Espanha, leu‑a rapidamente.

Tratava‑se de um completo plano de ataque contra o cardeal. A rainha convidava o irmão e o imperador da Áustria a fingirem, desgostosos como estavam com a política de Richelieu, cuja eterna preocupação era o rebaixamento da Casa de Áustria, declarar guerra à França e a imporem como condição da paz a demissão do cardeal; mas de amor não havia uma só palavra em toda a carta.

O rei, muito bem disposto, perguntou se o cardeal ainda estava no Louvre. Responderam‑lhe que Sua Eminência esperava no gabinete de trabalho as ordens de Sua Majestade.

O rei foi imediatamente ter com ele.

‑ Vede, duque ‑ disse‑lhe. ‑ Tínheis razão e eu é que estava errado; toda a intriga é política e não há nenhuma palavra de amor nesta carta. Em troca, fala‑se muito de vós.

O cardeal pegou na carta e leu‑a com a maior atenção; e quando chegou ao fim leu‑a segunda vez.

‑ Aqui tem Vossa Majestade até onde vão os meus inimigos: ameaçam‑vos com duas guerras se me não demitirdes. No vosso lugar, na verdade, Sire. cederia a tão poderosas instâncias, e pela minha parte seria com verdadeiro prazer que me retiraria dos negócios de Estado.

‑ Que dizeis, duque?

‑ Digo, Sire que perco a saúde nestas lutas excessivas e nestes trabalhos eternos. Digo que muito provavelmente não poderei suportar as fadigas do cerco de La Rochelle e que é preferível que nomeeis para isso ou o Sr. de Condé, ou o Sr. de Bassompierre, ou enfim qualquer homem valente que esteja em condições de dirigir a guerra, e não eu que sou homem de Igreja e que me desvio constantemente da minha vocação para me dedicar a coisas para que não tenho nenhuma aptidão. Sereis mais feliz no interior, Sire, e não duvido que sejais maior no estrangeiro.

‑ Sr. Duque ‑ respondeu o rei ‑, compreendo, estai tranquilo; todos os que são mencionados nesta carta serão punidos como merecem, incluindo a própria rainha.

‑ Que dizeis, Sire? Deus me defenda de, por minha causa, a rainha experimentar a menor contrariedade! Sempre me tem considerado seu inimigo, Sire, embora Vossa Majestade possa atestar que sempre tomei calorosamente o seu partido, até contra vós. Oh, se atraiçoasse Vossa Majestade na sua honra, seria outra coisa, e eu seria o primeiro a dizer: «Nada de compaixão, Sire, nada de compaixão para com a culpada!» Felizmente não é esse o caso, como Vossa Majestade acaba de ter mais uma prova.

‑ É verdade, Sr. Cardeal ‑ admitiu o rei ‑, e tínheis razão, como sempre; mas nem por isso a rainha merece menos toda a minha cólera.

‑ Fostes vós, Sire, que incorrestes na sua; e realmente compreenderia que estivesse muitíssimo ofendida com Vossa Majestade. Vossa Majestade tratou‑a com uma severidade!...

‑ Será assim que tratarei sempre os meus inimigos e os vossos, duque, por mais alto que estejam colocados e seja qual for o perigo que corra procedendo severamente para com eles.

‑ A rainha é minha inimiga, mas não é vossa, Sire; pelo contrário, é esposa dedicada, submissa e irrepreensível. Deixai‑me portanto, Sire, interceder por ela junto de Vossa Majestade.

‑ Então que se humilhe e seja a primeira a aproximar‑se de mim!

‑ Pelo contrário, Sire, dai o exemplo; fostes o primeiro a proceder mal, pois fostes vós que suspeitastes da rainha.

‑ Eu dar o primeiro passo? Nunca! ‑ exclamou o rei.

‑ Sire, suplico‑vos.

‑ De resto, como seria o primeiro?

‑ Fazendo uma coisa que sabeis ser‑lhe agradável.

‑ Qual?

‑ Dai um baile; sabeis como a rainha gosta da dança, garanto‑vos que o seu rancor não resistirá a semelhante atenção.

‑ Sr. Cardeal, sabeis que não aprecio todos os prazeres mundanos.

‑ Só por isso a rainha vos ficará mais reconhecida, pois sabe como antipatizais com esse prazer. Aliás, será uma oportunidade para usar aquelas belas agulhetas de diamantes que lhe destes outro dia, pelo seu aniversário, e que ainda não teve tempo de mostrar.

‑ Veremos, Sr. Cardeal, veremos ‑ respondeu o rei, que na sua satisfação de encontrar a rainha culpada de um crime com que pouco se preocupava e inocente numa falta que muito temia, estava pronto a reconciliar‑se com ela. ‑ Veremos, mas palavra de honra que sois demasiado indulgente.

‑ Sire ‑ redarguiu o cardeal ‑, deixai a severidade aos ministros. A indulgência é virtude real; usai‑a e vereis que vos sentireis melhor.

Depois disto, ao ouvir o relógio dar onze horas, o cardeal inclinou‑se profundamente, pediu licença ao rei para se retirar e suplicou‑lhe que se reconciliasse com a rainha.

Ana de Áustria, que depois da apreensão da carta esperava alguma censura, ficou admiradíssima ao ver no dia seguinte o rei fazer junto dela tentativas de aproximação. A sua primeira reacção foi de repulsa; o seu orgulho de mulher e a sua dignidade de rainha tinham sido ambas tão cruelmente ofendidas que não podia esquecer sem mais nem menos o sucedido. Mas convencida pelo conselho das suas damas, pareceu finalmente começar a esquecer. O rei aproveitou esse primeiro momento de aproximação para lhe dizer imediatamente que contava dar uma festa.

Era coisa tão rara uma festa para a pobre Ana de Áustria que esta, ao ouvir tal coisa, teve a reacção prevista pelo cardeal e os últimos vestígios de ressentimento desapareceram, senão do seu coração, pelo menos do seu rosto. Perguntou em que dia se realizaria a festa, mas o rei respondeu‑lhe que tinha de se entender com o cardeal a esse respeito.

Com efeito, todos os dias o rei perguntava ao cardeal em que data se realizaria a festa e todos os dias o cardeal, sob qualquer pretexto, adiava a marcação.

Passaram‑se assim dez dias.

No oitavo dia depois da cena que contámos, o cardeal recebeu uma carta com o carimbo de Londres, que continha apenas estas poucas linhas:

 

Tenho‑as, mas não posso sair de Londres por falta de dinheiro. Mandai‑me quinhentas pistolas e quatro ou cinco dias depois de as receber estarei em Paris.

 

No mesmo dia em que o cardeal recebeu esta carta, o rei fez‑lhe a pergunta habitual.

Richelieu contou pelos dedos e disse para consigo, baixinho:

‑ Ela chegará, segundo diz, quatro ou cinco dias depois de receber o dinheiro; são precisos quatro ou cinco dias para o dinheiro ir e outros quatro ou cinco dias para ela voltar, ou seja dez dias. Agora levemos em conta ventos contrários, contratempos, fraquezas de mulher... e aumentemos o prazo para doze dias.

‑ Então, Sr. Duque, já acabastes os cálculos? ‑ perguntou o rei.

‑ Já, Sire. Estamos hoje a 20 de Setembro; os almotacés da cidade dão uma festa em 3 de Outubro. Vem mesmo a calhar, pois assim não tereis o ar de vos aproximardes da rainha.

Depois o cardeal acrescentou:

‑ A propósito, Sire, não vos esqueçais de dizer a Sua Majestade, na véspera da festa, que desejais ver como lhe ficam as agulhetas de diamantes.

 

         O CASAL BONACIEUX

Era a segunda vez que o cardeal falava das agulhetas de diamantes ao rei. Luís XIII ficou portanto impressionado com a insistência e pensou que semelhante recomendação ocultava um mistério.

Mais de uma vez o rei fora humilhado pelo cardeal, cuja polícia, sem ter atingido ainda a perfeição da polícia moderna, era excelente, a ponto de Richelieu saber melhor do que o próprio rei o que se passava na sua intimidade. Esperou portanto, numa conversa com Ana de Áustria, fazer alguma luz a respeito de tal recomendação e voltar em seguida junto de Sua Eminência com qualquer segredo que o cardeal soubesse ou não soubesse, mas que, tanto num caso como noutro, o salientaria extraordinariamente aos olhos do seu ministro.

Foi pois procurar a rainha e, conforme o seu hábito, abordou‑a com novas ameaças contra aqueles que a rodeavam. Ana de Áustria baixou a cabeça, deixou passar a torrente sem responder e esperou que o rei acabasse por se deter. Mas não era isso que pretendia Luis XIII; Luís XIII pretendia uma discussão da qual brotasse qualquer luz, convencido como estava de que o cardeal tinha algum pensamento reservado e lhe destinava uma surpresa terrível, como aquelas em que Sua Eminência era perito. Alcançou tal fim com a persistência das suas acusações.

‑ Então, Sire ‑ atalhou Ana de Áustria, farta daqueles vagos ataques ‑, por que me não dizeis tudo o que tendes no coração? Que fiz eu? Vejamos, que crime cometi? É impossível que Vossa Majestade faça todo esse barulho por causa de uma carta escrita ao meu irmão.

O rei, atacado por seu turno de forma tão directa, não soube que responder; pensou no entanto que chegara o momento de fazer a recomendação que só deveria fazer na véspera da festa.

‑ Senhora ‑ respondeu com majestade ‑, haverá brevemente baile na Câmara Municipal; espero que para honrardes os nossos respeitáveis almotacés apareçais em traje de cerimónia e sobretudo adornada com as agulhetas de diamantes que vos dei no vosso aniversário. É esta a minha resposta.

A resposta era terrível. Ana de Áustria julgou que Luis XIII sabia tudo e que o cardeal obtivera dele aquela longa dissimulação de sete ou oito dias, que de resto estava de acordo com o seu carácter. Tornou‑se excessivamente pálida, apoiou numa consola a mão de admirável beleza e que então parecia de cera, e, fitando o rei com olhos apavorados, não proferiu uma só sílaba.

‑ Ouvistes, senhora? ‑ insistiu o rei, que desfrutava aquele embaraço em toda a sua extensão, mas sem lhe adivinhar a causa. ‑ Ouvistes?

‑ Sim, Sire, ouvi ‑ balbuciou a rainha.

‑ Ireis ao baile? ‑ Irei.

‑ Com as agulhetas?

‑ Sim.

A palidez da rainha aumentou ainda mais, se possível; o rei deu por isso e regozijou‑se com a fria crueldade que era um dos maus vezos do seu carácter.

‑ Então, está combinado; era tudo o que vos queria dizer.

‑ Mas em que dia é o baile? ‑ perguntou Ana de Áustria.

Luís XIII sentiu instintivamente que não devia responder a tal pergunta, que a rainha formulara em voz quase inaudível.

‑ Muito brevemente, senhora; mas não me recordo exactamente do dia, tenho de o perguntar ao cardeal.

‑ Foi portanto o cardeal quem vos anunciou essa festa? ‑ perguntou a rainha.

‑ Pois foi, senhora ‑ respondeu o rei, atónito. ‑ Por que perguntais?

‑ E foi ele quem vos disse que me convidásseis a aparecer com as agulhetas?

‑ Quer dizer, senhora...

‑ Foi ele, Sire, foi ele!

‑ Bom, que importa que fosse ele ou eu? Há algum crime no convite?

‑ Não, Sire.

‑ Então, ireis?

‑ Sim, Sire.

‑ Muito bem ‑ disse o rei, retirando‑se. ‑ Muito bem, conto convosco.

A rainha fez uma reverência, menos por etiqueta do que por os joelhos se lhe dobrarem debaixo dela. O rei saiu encantado.

‑ Estou perdida ‑ murmurou a rainha. ‑ Perdida porque o cardeal sabe tudo e foi ele que impeliu o rei, que ainda não sabe nada, mas que em breve saberá tudo. Estou perdida! Meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Ajoelhou‑se numa almofada e orou, com a cabeça escondida nos braços palpitantes.

Efectivamente, a situação era terrível. Buckingham regressara a Londres, a Sr.a de Chevreuse estava em Tours. Mais vigiada do que nunca, a rainha sentia surdamente que uma das suas damas a traía, sem saber dizer qual. La Porte não podia sair do Louvre. Não tinha uma alma no mundo em quem confiar.

Por isso, perante a desgraça que a ameaçava e o abandono em que se via, rompeu em soluços.

‑ Não posso ser útil em nada a Vossa Majestade? ‑ perguntou de súbito uma voz cheia de doçura e compaixão.

A rainha virou‑se vivamente, porque a expressão daquela voz não enganava: era uma amiga que falava assim.

Com efeito, a uma das portas que davam para os aposentos da rainha encontrava‑se a bonita Sr.a Bonacieux. Ocupada a arrumar os vestidos e a roupa num gabinete quando o rei entrara, não pudera sair e ouvira tudo.

A rainha soltou um grito penetrante ao ver‑se surpreendida, pois na sua perturbação não reconheceu de início a jovem que lhe arranjara La Porte.

‑ Oh, não temais nada, senhora! ‑ exclamou a jovem, juntando as mãos e chorando ela própria por via das angústias da rainha. ‑ Sou dedicada a Vossa Majestade de corpo e alma e por mais longe que esteja de vós, por mais inferior que seja a minha posição, creio que encontrei meio de tirar Vossa Majestade de apuros.

‑ Vós? Oh, Céus, vós?! ‑ exclamou a rainha. ‑ Mas vejamos, olhai‑me de frente. Todos me atraiçoam, poderei confiar em vós?

‑ Oh, senhora! ‑ protestou a jovem, caindo de joelhos. ‑ Juro‑vos pela minha alma que estou pronta a morrer por Vossa Majestade!

Este grito saíra‑lhe do mais fundo do coração, e como o primeiro não enganava ninguém.

‑ Sim ‑ continuou a Sr.a Bonacieux ‑, sim, à traidores aqui; mas pelo santo nome da Virgem juro‑vos que ninguém é mais dedicado do que eu a Vossa Majestade. As agulhetas que o rei exige deste‑as ao duque de Buckingham, não é verdade? Essas agulhetas estavam fechadas numa caixinha de pau‑rosa que ele levava debaixo do braço? Engano‑me? É ou não é assim?

‑ Oh, meu Deus, meu Deus! ‑ murmurou a rainha, que batia os dentes de terror.

‑ Pois bem, temos de recuperar essas agulhetas ‑ acrescentou a Sr.a Bonacieux.

‑ Temos, sem dúvida ‑ admitiu a rainha. ‑ Mas como? Como consegui‑lo?

‑ É preciso enviar alguém ao duque.

‑ Mas quem?... Quem?... Em quem me fiar?

‑ Tende confiança em mim, senhora. Concedei‑me essa honra, minha rainha, e eu encontrarei o mensageiro!

‑ Mas é preciso escrever!

‑ Claro, é indispensável. Duas palavras do punho de Vossa Majestade e o vosso sinete particular.

‑ Mas essas duas palavras serão a minha condenação, é o divórcio, o exílio!

‑ Seria, se caíssem em mãos infames! Mas eu comprometo‑me a que essas duas palavras cheguem ao seu destino.

‑ Oh, meu Deus! Terei então de entregar a minha vida, a minha honra, a minha reputação, nas vossas mãos?

‑ Tendes, senhora, é preciso, mas eu resolverei tudo.

‑ Como? Dizei‑me ao menos como?

‑ O meu marido foi posto em liberdade há dois ou três dias; ainda não tive tempo de o ver. É um homem bom e honesto, que não tem ódio nem amor a ninguém. Fará o que eu quiser: partirá a uma ordem minha, sem saber o que leva, e entregará a carta de Vossa Majestade, sem mesmo saber que é de Vossa Majestade, na morada que indicardes.

A rainha pegou nas mãos da jovem num impulso apaixonado, olhou‑a como se quisesse ler‑lhe no fundo do coração e só vendo sinceridade naqueles belos olhos, beijou‑a ternamente.

‑ Faz isso e salvar‑me‑ás a vida, salvar‑me‑ás a honra!

‑ Oh, não exagereis o serviço que tenho a honra de vos prestar; não tenho nada a salvar a Vossa Majestade, que é apenas vítima de pérfidas conspirações.

‑ É verdade, é verdade, minha filha; tens razão.

‑ Dai‑me então a carta, senhora; o tempo urge.

A rainha correu para uma mesinha em cima da qual se encontravam tinta, papel e penas. Escreveu duas linhas, lacrou a carta com o seu sinete e entregou‑a à Sr.a Bonacieux.

‑ E agora não nos esqueçamos de uma coisa indispensável.

‑ Qual?

‑ O dinheiro.

A Sr.a Bonacieux corou.

‑ Sim, é verdade, e confesso a Vossa Majestade que o meu marido...

‑ O teu marido não o tem, é o que queres dizer.

‑ Na realidade, tem, mas é muito avarento; é o seu defeito. No entanto, Vossa Majestade não se preocupe; arranjaremos maneira...

‑ O caso é que também o não tenho ‑ confessou a rainha, e quem leu as Memórias da Sr.a de Motteville não estranhará esta resposta. ‑ Mas espera.

Ana de Áustria correu para o seu guarda‑jóias.

‑ Toma, aqui tens um anel de grande valor, ao que dizem. Deu‑mo o meu irmão, o rei de Espanha, pertence‑me e posso dispor dele. Leva este anel, transforma‑o em dinheiro e o teu marido que parta.

‑ Dentro de uma hora sereis obedecida.

‑ Repara no endereço ‑ acrescentou a rainha, falando tão baixo que mal se podia ouvir o que dizia. ‑ «A Milorde o Duque de Buckingham, em Londres.»

‑ A carta ser‑lhe‑á entregue pessoalmente.

‑ Generosa criança! ‑ exclamou Ana de Áustria.

A Sr.a Bonacieux beijou as mãos da rainha, escondeu a carta no corpete e desapareceu com a ligeireza de um passarinho.

Dez minutos depois estava em casa. Como dissera à rainha, não tornara a ver o marido desde que fora posto em liberdade; ignorava portanto a mudança que se operara nele a respeito do cardeal, mudança devida à lisonja e ao dinheiro de Sua Eminência e corroborada depois por duas ou três visitas do conde de Rochefort, que se tornara o melhor amigo de Bonacieux, a quem convencera sem muita dificuldade que nenhum sentimento culposo o levara a raptar‑lhe a mulher, pois se tratara apenas de uma precaução política.

Encontrou o Sr. Bonacieux sozinho. O pobre homem punha com grande custo ordem na casa, cujos móveis encontrara mais ou menos partidos e os armários quase vazios, dado a justiça não pertencer ao número das três coisas que, no dizer do rei Salomão, não deixam sinais da sua passagem. Quanto à criada, fugira aquando da prisão do amo. O terror apoderara‑se da pobre rapariga de tal maneira que a levara a ir a pé de Paris à Borgonha, sua terra natal.

O digno retroseiro apressara‑se, logo que regressara a casa, a avisar a mulher do feliz acontecimento, e a mulher respondera‑lhe felicitando‑o e dizendo‑lhe que o primeiro momento que pudesse roubar aos seus deveres seria inteiramente dedicado a visitá‑lo.

Esse primeiro momento fizera‑se esperar cinco dias, o que, em qualquer outra circunstância, teria parecido bastante longo a mestre Bonacieux; mas ele tinha, na visita que fizera ao cardeal e nas visitas que lhe fazia Rochefort, amplo assunto para reflexão, e como se sabe nada faz passar o tempo como reflectir.

Tanto mais que as reflexões de Bonacieux eram todas cor‑de‑rosa.

Rochefort chamava‑lhe seu amigo, seu caro Bonacieux, e não se cansava de lhe dizer que o cardeal o tinha na mais alta estima. O retroseiro via‑se já no caminho das honras e da fortuna.

Pelo seu lado, a Sr.a Bonacieux reflectira, mas, convém dizê‑lo, em coisas muito diferentes da ambição. Mal‑grado seu, os seus pensamentos tinham tido como móbil constante aquele rapaz tão valente e que parecia tão apaixonado. Casada aos dezoito anos, a Sr. a Bonacieux vivera sempre no meio dos amigos do marido, pouco susceptíveis de inspirar qualquer sentimento a uma jovem cujo coração era mais elevado do que a sua posição social. A Sr.a Bonacieux permanecera insensível às seduções vulgares; mas, sobretudo naquela época, o título de gentil‑homem exercia grande influência sobre a burguesia, e d'Artagnan era gentil‑homem; além disso, usava o uniforme das guardas, o qual, depois do uniforme dos mosqueteiros, era o mais apreciado pelas damas. Depois, repetimos, era jovem, belo e aventureiro; falava de amor como um homem que ama e tem sede de ser amado; nada mais era preciso para dar volta à cabeça de uma mulher de vinte e três anos, e a Sr.a Bonacieux estava precisamente nesse venturoso período da vida.

Marido e mulher, embora se não vissem havia mais de oito dias e durante essa semana se tivessem dado com eles graves acontecimentos, encontraram‑se com certa preocupação. Contudo, o Sr. Bonacieux manifestou uma alegria sincera e avançou para a mulher de braços abertos.

A Sr.a Bonacieux ofereceu‑lhe a testa.

‑ Conversemos um pouco ‑ disse ela.

‑ Como? ‑ surpreendeu‑se Bonacieux.

‑ Tenho uma coisa da mais alta importância para vos dizer.

‑ E eu também tenho algumas perguntas bastante sérias para vos fazer. Explicai‑me resumidamente o vosso rapto, peço‑vos.

‑ Por ora não se trata disso ‑ redarguiu a Sr.a Bonacieux.

‑ De que se trata então? Do meu cativeiro?

‑ Soube da vossa prisão no próprio dia, mas como não éreis culpado de nenhum crime, nem cúmplice de nenhuma intriga, como não sabíeis nada, enfim, que vos pudesse comprometer, nem vós nem ninguém, não liguei ao acontecimento mais importância do que merecia.

‑ Falais disso com uma descontracção, senhora! ‑ exclamou Bonacieux, melindrado com o pouco interesse que lhe testemunhava a mulher. ‑ Sabeis que estive enterrado um dia e uma noite numa cela da Bastilha?

‑ Um dia e uma noite depressa passam; deixemos portanto o vosso cativeiro e tratemos do assunto que me traz cá.

‑ Como? Que quereis dizer com isso do assunto que vos traz cá? Não viestes para tornar a ver um marido de que estivestes separada oito dias? ‑ perguntou o retroseiro, ofendidíssimo.

‑ Primeiro isso e depois outra coisa. ‑ Falai!

‑ Trata‑se de uma coisa do mais alto interesse e da qual talvez dependa a nossa futura fortuna.

‑ A nossa fortuna mudou muito de aspecto desde que vos vi, Sr.a Bonacieux, e não me admiraria nada que daqui a alguns meses causasse inveja a muita gente.

‑ Sim, sobretudo se quiserdes seguir as instruções que vos vou dar.

‑ A mim?

‑ Sim, a vós. Há uma boa e santa acção a praticar, senhor, e muito dinheiro a ganhar ao mesmo tempo.

A Sr.a Bonacieux sabia que falando de dinheiro ao marido lhe tocava na corda sensível.

Mas um homem, mesmo um retroseiro, depois de falar dez minutos com o cardeal de Richelieu já não é o mesmo homem.

‑ Muito dinheiro a ganhar! ‑ repetiu Bonacieux, esticando os lábios.

‑ Sim, muito.

‑ Quanto, mais ou menos?

‑ Talvez mil pistolas.

‑ O que me quereis pedir é portanto muito grave?

‑ É.

‑ Que é preciso fazer?

‑ Partireis imediatamente, depois de vos entregar uma carta de que não vos separareis sob nenhum pretexto e que entregareis em mão própria.

‑ E para onde partirei?

‑ Para Londres.

‑ Eu, para Londres?! Vamos, estais a brincar, não tenho nada que fazer em Londres.

‑ Mas outros necessitam que lá vades.

‑ E quem são esses outros? Previno‑vos de que não faço mais nada às cegas e de que quero saber não só ao que me exponho, mas também por quem me exponho.

‑ Uma pessoa ilustre vos envia e uma pessoa ilustre vos espera: a recompensa excederá a vossa expectativa, é tudo o que vos posso prometer.

‑ Mais intrigas, sempre intrigas! Obrigado, agora já não caio assim na esparrela, pois o Sr. Cardeal esclareceu‑me a tal respeito.

‑ O cardeal! ‑ exclamou a Sr.a Bonacieux. ‑ Vistes o cardeal?

‑ Mandou‑me chamar ‑ respondeu orgulhosamente o retroseiro.

‑ E acedestes ao seu convite? Sempre sois muito imprudente!

‑ Devo dizer que não podia escolher ir ou não ir, pois estava entre dois guardas. Devo também dizer que, como não conhecia então Sua Eminência, se me tivesse podido escusar da visita teria ficado muito encantado.

‑ Maltratou‑vos? Ameaçou‑vos?

‑ Estendeu‑me a mão e chamou‑me seu amigo. Seu amigo! Ouvistes, senhora? Sou amigo do grande cardeal!

‑ Do grande cardeal?...

‑ Contestar‑lhe‑eis porventura este título, senhora?

‑ Não lhe contesto nada, mas digo‑vos que a protecção de um ministro é efémera e que só um louco se agarra a um ministro; há poderes acima do seu que não assentam no capricho de um homem ou no resultado de um acontecimento. É a esses poderes que nos devemos ligar.

‑ Lamento, senhora, mas não conheço outro poder além do do homem que tenho a honra de servir.

‑ Servis o cardeal?

‑ Sirvo, senhora, e como seu servidor não permitirei que vos entregueis a conspirações contra a segurança do Estado e que sirvais as intrigas de uma mulher que não é francesa e tem o coração espanhol. Felizmente, o grande cardeal está aí e o seu olhar vigilante penetra até ao fundo dos corações.

Bonacieux repetia palavra por palavra uma frase que ouvira ao conde de Rochefort; mas a pobre mulher, que contara com o marido e que, nessa esperança, respondera por ele perante a rainha, não tremia menos do que ela pelo perigo em que estivera quase a cair e pela impotência em que se encontrava. No entanto, conhecendo a fraqueza e sobretudo a cupidez do marido, não desesperava de o conduzir aos seus fins.

‑ Com que então sois cardinalista, senhor? E servis o partido daqueles que maltratam a vossa mulher e insultam a vossa rainha!

‑ Os interesses particulares não são nada perante os interesses de todos. Sou por aqueles que salvam o Estado ‑ redarguiu, com ênfase, Bonacieux.

Era outra frase do conde de Rochefort, que fixara e que aproveitava a oportunidade para empregar.

‑ E sabeis que Estado é esse de que falais? ‑ perguntou a Sr.a Bonacieux, encolhendo os ombros. ‑ Contentai‑vos com ser um burguês sem qualquer finura e virai‑vos para o lado que vos oferece mais vantagens.

‑ Ora. ora! ‑ exclamou Bonacieux, batendo numa bolsa que parecia bem recheada e que emitiu um som argentino. ‑ Que dizeis a isto, senhora pregadora?

‑ Donde veio esse dinheiro?

‑ Não adivinhais?

‑ Do cardeal?

‑ Dele e do meu amigo o conde de Rochefort.

‑ O conde de Rochefort! Mas foi ele que me raptou!

‑ É possível, senhora.

‑ E recebeis dinheiro desse homem?

‑ Não dissestes que o rapto fora político?

‑ Disse, mas o rapto tinha por fim levar‑me a trair a minha ama, arrancar‑me por meio de torturas confissões susceptíveis de comprometer a honra e talvez a vida da minha augusta ama.

‑ Senhora ‑ redarguiu Bonacieux ‑, a vossa augusta ama é uma pérfida espanhola e o que o cardeal faz é bem feito.

‑ Senhor, sabia‑vos cobarde, avarento e imbecil, mas não vos sabia infame!

‑ Senhora ‑ respondeu Bonacieux, que nunca vira a mulher encolerizada e recuava diante da fúria conjugal ‑, senhora, que dizeis?

‑ Digo que sois um miserável! ‑ continuou a Sr.a Bonacieux, ao ver que recuperava alguma influência sobre o marido. ‑ Com que então agora fazeis política... e política cardinalista, ainda por cima! Com que então vendeis corpo e alma ao Demónio...

‑ Ao Demónio, não; ao cardeal.

‑ É a mesma coisa! ‑ gritou a jovem. ‑ Quem diz Richelieu, diz Satanás!

‑ Calai‑vos, senhora, calai‑vos que vos podem ouvir!

‑ Tendes razão e ficaria envergonhada com a vossa cobardia.

‑ Mas que exigis de mim, afinal de contas?

‑ Já vo‑lo disse: que partais imediatamente e vos desempenheis lealmente da comissão de que me digno encarregar‑vos. Com esta condição, esquecerei tudo, perdoarei e... há mais ‑ acrescentou, estendendo‑lhe a mão ‑, restituo‑vos a minha amizade.

Bonacieux era poltrão e avaro, mas amava a mulher; enterneceu‑se. Um homem de cinquenta anos não conserva por muito tempo rancor a uma mulher de vinte e três. A Sr.a Bonacieux viu‑o hesitar.

‑ Então, estais decidido?

‑ Mas, minha querida amiga, reflecti um pouco no que exigis de mim. Londres fica longe de Paris, muito longe, e a comissão de que me encarregais talvez tenha os seus perigos.

‑ Que importa, se os evitais!

‑ Olhai, Sr.a Bonacieux ‑ disse o retroseiro ‑, olhai, decididamente recuso. As intrigas metem‑me medo. Já vi a Bastilha... Brrrr! É medonha, a Bastilha! Só de a recordar me arrepio todo. Ameaçaram‑me com a tortura. Sabeis o que é a tortura? Metem‑nos cunhas de madeira nas pernas até os ossos estalarem! Não, decididamente, não vou. Com a breca, por que não ides vós própria? Porque, na verdade, creio que me enganei a vosso respeito até agora: creio que sois um homem, e dos mais ousados!

‑ E vós sois uma mulher, uma miserável mulher estúpida e embrutecida. Tendes medo! Pois bem, se não partis imediatamente, mando‑vos prender por ordem da rainha e meter nessa Bastilha que tanto temeis.

Bonacieux caiu numa reflexão profunda; pesou maduramente as duas cóleras no cérebro, a do cardeal e a da rainha, e a do cardeal levou enorme vantagem.

‑ Mandai‑me prender da parte da rainha e eu apelarei para Sua Eminência.

Desta feita a Sr.a Bonacieux viu que fora demasiado longe e assustou‑se por ter avançado tanto. Contemplou um instante, com terror, aquela figura estúpida, de uma teimosia obstinada, como a dos tolos medrosos.

‑ Pois bem, seja! ‑ acabou por dizer. ‑ Talvez, no fim de contas, tenhais razão: um homem entende mais de política do que uma mulher, sobretudo vós, Sr. Bonacieux, que conversastes com o cardeal. E no entanto é muito duro ‑ acrescentou ‑ que o meu marido, um homem com cuja afeição julgava poder contar, me trate tão desagradavelmente e não satisfaça o meu capricho.

‑ É que os vossos caprichos podem levar demasiado longe e desconfio deles ‑ redarguiu Bonacieux, triunfante.

‑ Pronto, desisto! ‑ exclamou a jovem, suspirando. ‑ Não se fala mais disso.

‑ Se ao menos me dissésseis o que iria fazer a Londres ‑ insinuou Bonacieux, que se recordava um pouco tarde que Rochefort lhe recomendara que tentasse surpreender os segredos da mulher.

‑ É inútil que o saibais ‑ respondeu a jovem, a quem uma desconfiança instintiva levava agora a recuar. ‑ Tratava‑se de uma dessas bagatelas que às vezes as mulheres desejam, de uma compra com a qual havia muito a ganhar.

Mas quanto mais a jovem se defendia, tanto mais, pelo contrário, Bonacieux pensava que o segredo que recusava confiar‑lhe era importante. Resolveu portanto correr naquele mesmo instante a casa do conde de Rochefort e dizer‑lhe que a rainha procurava um mensageiro para ir a Londres.

‑ Perdoai‑me deixar‑vos, minha querida Sr.a Bonacieux ‑ disse ‑, mas como não sabia que me viríeis visitar marquei encontro com um dos meus amigos; voltarei imediatamente e se quiserdes esperar‑me apenas meio minuto logo que falar com o meu amigo virei buscar‑vos e como começa a fazer‑se tarde acompanhar‑vos‑ei ao Louvre.

‑ Obrigada, senhor ‑ respondeu a Sr.a Bonacieux. ‑ Não sois suficientemente valente para me serdes de alguma utilidade e por isso regressarei muito bem ao Louvre sozinha.

‑ Como vos aprouver, Sr.a Bonacieux ‑ redarguiu o ex‑retroseiro. ‑ Voltareis em breve?

‑ Sem dúvida. Espero que na próxima semana o meu serviço me deixe algum tempo livre, que aproveitarei para vir cuidar das nossas coisas, que devem estar um pouco precisadas.

‑ É certo. Esperar‑vos‑ei. Não me quereis mal?

‑ Eu? Por nada deste mundo.

‑ Até breve, então?

‑ Até breve.

Bonacieux beijou a mão da mulher e saiu rapidamente.

‑ Pronto ‑ disse a Sr.a Bonacieux depois de o marido fechar a porta da rua e ficar só ‑, não me faltava mais nada que este imbecil ser cardinalista! E eu que disse à rainha, eu que prometi à minha pobre ama... Ah, meu Deus, meu Deus, vai‑me tomar por algum desses miseráveis que fervilham no palácio e que colocam junto dela para a espiar! Ah, Sr. Bonacieux, nunca vos amei muito, mas agora é bem pior: odeio‑vos! E palavra de honra que me pagareis!

No momento em que proferia estas palavras uma pancada no tecto fê‑la levantar a cabeça, e uma voz que chegou até si através do sobrado gritou‑lhe:

‑ Querida Sr.a Bonacieux, abri‑me a portinha do passadiço que vou descer para ir ter convosco!

 

         O AMANTE E O MARIDO

‑ Ah, senhora ‑ disse d'Artagnan entrando pela porta que a jovem lhe abria ‑, permiti‑me que vos diga que tendes um triste marido!

‑ Ouvistes a nossa conversa? ‑ perguntou vivamente a Sr.a Bonacieux, fitando d'Artagnan com inquietação.

‑ De fio a pavio.

‑ Mas como, meu Deus?

‑ Por um processo meu conhecido e pelo qual ouvi também a conversa mais animada que tivestes com os esbirros do cardeal.

‑ E que compreendestes do que dissemos?

‑ Mil coisas: primeiro, que o vosso marido é um ingénuo e um estúpido, felizmente... Depois, que estáveis embaraçada, o que muito me agradou, por me dar oportunidade de me pôr às vossas ordens, e Deus bem sabe que estou pronto a deitar‑me ao fogo por vós. Finalmente que faça por ela uma viagem a Londres. Como possuo pelo menos duas das três qualidades precisas, aqui estou.

A Sr.a Bonacieux não respondeu, mas o coração palpitou‑lhe de alegria e uma secreta esperança brilhou‑lhe nos olhos.

‑ E que garantia me dareis se consentir em confiar‑vos a missão? ‑ perguntou ela.

‑ O meu amor por vós. Vamos, dizei, ordenai. Que é preciso fazer?

‑ Meu Deus, meu Deus! ‑ murmurou a jovem. ‑ Deverei confiar‑vos semelhante segredo, senhor? Sois quase uma criança!

‑ Pelos vistos, quereis alguém que responda por mim?

‑ Confesso que isso me tranquilizaria muito.

‑ Conheceis Athos? ‑Não.

‑ Porthos? ‑Não.

‑ Aramis?

‑ Não. Quem são esses cavalheiros?

‑ Mosqueteiros do rei. Conheceis o Sr. de Tréville, o seu capitão?

‑ Oh, esse conheço! Não pessoalmente, mas sim por o ter ouvido mais de uma vez falar à rainha como um valente e leal gentil‑homem.

‑ Não recearíeis que ele vos atraiçoasse pelo cardeal, pois não?

‑ Oh, não certamente!

‑ Então revelai‑lhe o vosso segredo e perguntai‑lhe se por mais importante, precioso e terrível que seja, mo podeis confiar.

‑ Mas o segredo não me pertence e não posso revelá‑lo assim.

‑ íeis confiá‑lo ao Sr. Bonacieux ‑ observou d'Artagnan, despeitado.

‑ Como se confia uma carta à cavidade de uma árvore, à asa de um pombo ou à coleira de um cão.

‑ E no entanto bem vedes que vos amo.

‑ Vós o dizeis...

‑ Sou um homem galante!

‑ Acredito.

‑ Sou valente!

‑ Oh, disso não tenho a certeza!

‑ Nesse caso, ponde‑me à prova.

A Sr.a Bonacieux fitou o jovem, retida por uma derradeira hesitação. Mas havia tal ardor nos seus olhos, tal persuasão na sua voz, que se sentiu tentada a confiar nele. De resto, encontrava‑se numa dessas circunstâncias em que é mister arriscar tudo por tudo. A rainha tanto se poderia perder por excessiva cautela como por excessiva confiança. Depois, confessemo‑lo, o sentimento involuntário que experimentava pelo jovem protector decidiu‑a a falar.

‑ Escutai: rendo‑me aos vossos protestos e cedo às vossas garantias. Mas juro‑vos perante Deus que nos ouve que se me atraiçoardes e os meus inimigos me perdoarem, matar‑me‑ei e acusar‑vos‑ei da minha morte.

‑ E eu juro‑vos perante Deus, senhora ‑ disse d'Artagnan ‑, que se for apanhado no cumprimento das vossas ordens morrerei antes de fazer ou dizer o que quer que seja que comprometa alguém.

Então a jovem confiou‑lhe o terrível segredo de que o acaso já lhe revelara uma parte diante da Samaritana. Foi a sua mútua declaração de amor.

D'Artagnan estava radiante de alegria e orgulho. O segredo que possuía, a mulher que amava, a confiança e o amor, tornavam‑no um gigante.

‑ Parto ‑ disse ele. ‑ Parto imediatamente.

‑ Como, partis?! ‑ exclamou a Sr.a Bonacieux. ‑ E o vosso regimento, e o vosso capitão?

‑ Pela minha alma que me havíeis feito esquecer tudo isso, querida Constance! Sim, tendes razão, preciso de uma dispensa.

‑ Mais um obstáculo ‑ murmurou a Sr.a Bonacieux, contrariada.

‑ Oh, esse!... ‑ exclamou d'Artagnan após um momento de reflexão. ‑ Esse ultrapassá‑lo‑ei, estai tranquila.

‑ Como?

‑ Procurarei esta mesma noite o Sr. de Tréville e rogar‑lhe‑ei que peça por mim esse favor ao cunhado, o Sr. dos Essarts.

‑ Agora outra coisa.

‑ O quê? ‑ perguntou d'Artagnan, vendo que a Sr.a Bonacieux hesitava em continuar.

‑ Talvez não tenhais dinheiro...

‑ Talvez, é pouco ‑ respondeu d'Artagnan, sorrindo.

‑ Então ‑ prosseguiu a Sr.a Bonacieux, abrindo um armário e tirando a bolsa que meia hora antes o marido acariciava tão amorosamente ‑, tomais esta bolsa.

‑ A bolsa do cardeal! ‑ exclamou, desatando a rir, d'Artagnan, que, como sabemos, graças aos ladrilhos tirados do chão, não perdera uma sílaba da conversa do retroseiro com a mulher.

‑ Sim, a bolsa do cardeal ‑ confirmou a Sr.a Bonacieux. ‑ Como vedes, tem um aspecto bastante respeitável...

‑ Por Deus, será uma coisa duplamente divertida: salvar a rainha com o dinheiro de Sua Eminência!

‑ Sois um rapaz amável e encantador ‑ observou a Sr.a Bonacieux. ‑ Podeis crer que Sua Majestade não será ingrata.

‑ Oh, já estou grandemente recompensado! ‑ exclamou d'Artagnan. ‑ Amo‑vos e permitis que vo‑lo diga; é já mais felicidade do que ousava esperar.

‑ Silêncio! ‑ disse a Sr.a Bonacieux, estremecendo.

‑ Porquê?

‑ Ouço falar na rua.

‑ Esta voz...

‑ É do meu marido. Sim, reconheço‑a! D'Artagnan correu para a porta e fechou‑a.

‑ Não entrará antes de eu sair, e depois de eu sair abrir‑lha‑eis.

‑ Mas eu também já cá não devia estar. E o desaparecimento do dinheiro, como justificá‑lo se cá estiver?

‑ Tendes razão, é preciso sairmos.

‑ Sairmos como? Ele ver‑nos‑á se sairmos.

‑ Nesse caso, temos de subir para minha casa.

‑ Dizeis‑me isso num tom que me mete medo! ‑ exclamou a Sr.a Bonacieux.

A jovem pronunciou estas palavras com as lágrimas nos olhos. D'Artagnan viu essas lágrimas e perturbado, comovido, lançou‑se‑lhe aos pés.

‑ Em minha casa estareis tão em segurança como num templo, dou‑vos a minha palavra de gentil‑homem.

‑ Então vamos. Confio em vós, meu amigo.

D'Artagnan abriu com precaução o ferrolho, e ambos, ligeiros como sombras, esgueiraram‑se pela porta interior para o passadiço, subiram sem ruído a escada e entraram no quarto de d'Artagnan.

Uma vez ali, para maior segurança, o jovem barricou a porta. Aproximaram‑se da janela e por uma fenda da persiana viram o Sr. Bonacieux a conversar com um homem de capa.

Ao ver o homem de capa, d'Artagnan saltou, desembainhou parcialmente a espada e correu para a porta.

Era o homem de Meung.

‑ Que ides fazer? ‑ gritou a Sr.a Bonacieux. ‑ Perdeis‑nos!

‑ Mas jurei matar aquele homem! ‑ protestou d'Artagnan.

‑ A vossa vida está comprometida, neste momento, e não vos pertence. Em nome da rainha proíbo‑vos de correrdes qualquer perigo estranho à viagem.

‑ E em vosso nome não ordenais nada?

‑ Em meu nome ‑ disse a Sr.a Bonacieux com viva emoção ‑, em meu nome suplico‑vos. Mas escutemos, pois parece que falam de mim.

D'Artagnan aproximou‑se da janela e apurou o ouvido. O Sr. Bonacieux abrira a porta e ao ver a casa vazia dirigira‑se ao homem da capa, que por instantes deixara sozinho.

‑ Foi‑se embora, deve ter regressado ao Louvre ‑ disse.

‑ Tendes a certeza de que não desconfiou das intenções com que saístes?

‑ Não desconfiou de nada ‑ respondeu Bonacieux, com suficiência. ‑ É uma mulher demasiado superficial.

‑ O cadete das guardas está em casa?

‑ Não creio. Como vedes, tem as persianas fechadas e não se vê brilhar nenhuma luz através das fendas.

‑ Em todo o caso, convinha verificar.

‑ Como?

‑ Indo bater‑lhe à porta.

‑ Perguntarei ao criado. ‑Ide.

Bonacieux entrou em sua casa, passou pela mesma porta por onde tinham acabado de sair os dois fugitivos, subiu ao patamar de d'Artagnan e bateu.

Ninguém respondeu. Porthos, para fazer maior figura, pedira Planchet emprestado naquela noite. Quanto a d'Artagnan, por nada deste mundo daria sinal de existência.

No momento em que o dedo de Bonacieux bateu na porta, os dois jovens sentiram o coração saltar‑lhes no peito.

‑ Não está ninguém em casa ‑ disse Bonacieux.

‑ Não tem importância; entremos na vossa casa, pois sempre estaremos mais seguros que no limiar da porta.

‑ Meu Deus ‑ murmurou a Sr.a Bonacieux ‑, não vamos poder ouvir mais nada!

‑ Pelo contrário, ouviremos melhor ‑ redarguiu d'Artagnan. D'Artagnan retirou os três ou quatro ladrilhos que transformavam

o seu quarto noutro ouvido de Dionísio, estendeu um tapete no chão, ajoelhou‑se e fez sinal à Sr.a Bonacieux para se inclinar, como ele fazia, para a abertura.

‑ Tendes a certeza de que não está cá ninguém? ‑ insistiu o desconhecido.

‑ Absoluta ‑ respondeu Bonacieux.

‑ E pensais que a vossa mulher...

‑ Voltou para o Louvre.

‑ Sem falar a ninguém a não ser a vós?

‑ Com certeza.

‑ É um pormenor importante, compreendeis?

‑ Quereis dizer que a notícia que vos levei tem valor?...

‑ Um valor enorme, meu caro Bonacieux, não vo‑lo oculto.

‑ Então o cardeal está contente comigo?

‑ Sem dúvida nenhuma.

‑ O grande cardeal!

‑ Tendes a certeza de que durante a sua conversa convosco a vossa mulher não pronunciou nomes?

‑ Creio que não.

‑ Não mencionou nem a Sr.a de Chevreuse, nem o Sr. de Buckingham, nem a Sr.a de Vernet?

‑ Não, só me disse que queria mandar‑me a Londres para servir os interesses de uma pessoa ilustre.

‑ Traidor! ‑ murmurou a Sr.a Bonacieux.

‑ Silêncio! ‑ pediu d'Artagnan, pegando‑lhe numa das mãos, que ela lhe abandonou sem pensar.

‑ Não importa ‑ continuou o homem da capa. ‑ Fostes um néscio por não terdes fingido aceitar a comissão; teríeis agora a carta, o Estado que ameaçam estava salvo e vós...

‑ E eu?

‑ Ora, vós... o cardeal dar‑vos‑ia cartas de nobreza!

‑ Foi ele que vo‑lo disse?

‑ Foi. Sei que queria fazer‑vos essa surpresa.

‑ Estai tranquilo ‑ redarguiu Bonacieux. ‑ A minha mulher adora‑me e ainda estamos a tempo.

‑ Grande parvo! ‑ murmurou a Sr.a Bonacieux.

‑ Silêncio! ‑ insistiu d'Artagnan, apertando‑lhe a mão com mais força.

‑ Como é que ainda estamos a tempo? ‑ perguntou o homem da capa.

‑ Vou ao Louvre, mando chamar a Sr.a Bonacieux, digo‑lhe que reflecti, obtenho a carta e corro para casa do cardeal.

‑ Ide depressa; em breve virei saber o resultado da vossa diligência.

O desconhecido sorriu.

‑ O infame! ‑ disse a Sr.a Bonacieux, dirigindo mais este epíteto ao marido.

‑ Silêncio! ‑ repetiu d'Artagnan, apertando‑lhe a mão ainda com mais força.

Um berro terrível interrompeu então as reflexões de d'Artagnan e da Sr.a Bonacieux. Era o marido desta, que dera pelo desaparecimento da bolsa e gritava que o tinham roubado.

‑ Oh, meu Deus, vai pôr todo o bairro em polvorosa! ‑ gemeu a Sr.a Bonacieux.

Bonacieux gritou durante muito tempo; mas como tais gritos, atendendo à sua frequência, não atraíam ninguém à Rua dos Fossoyeurs, e além disso a casa do retroseiro tinha tido há tempo bastante má fama, vendo que ninguém aparecia o nosso homem continuou a gritar, mas agora a sua voz afastava‑se na direcção da Rua dos Bas.

‑ E agora que se foi embora é a vossa vez de irdes ‑ disse a Sr.a Bonacieux. ‑ Coragem, mas sobretudo prudência, lembrai‑vos de que vos deveis já à rainha.

‑ A ela e a vós! ‑ exclamou d'Artagnan. ‑ Ficai tranquila, bela Constance: voltarei digno do seu reconhecimento; mas voltarei também digno do vosso amor?

A jovem respondeu apenas por intermédio do vivo rubor que lhe cobriu as faces. Pouco depois, d'Artagnan saiu, também envolto numa grande capa que levantava cavalheirescamente a bainha de uma longa espada.

A Sr.a Bonacieux seguiu‑o com a vista, com esse longo olhar de amor com que a mulher acompanha o homem que sente amar; mas quando ele desapareceu à esquina da rua, caiu de joelhos, juntou as mãos e suplicou:

‑ Meu Deus, protegei a rainha e protegei‑me!

 

                                                                                Alexandre Dumas

 

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