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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


FILHO DO FOGO Vol.I / Isabela & Eduardo Mastral
FILHO DO FOGO Vol.I / Isabela & Eduardo Mastral

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

FILHO DO FOGO

Volume I

 

                   Semente do Mal

A moça de vestido azul caminhava segurando a pesada maleta contendo os cosméticos que vinha vendendo há pouco mais de dois meses. Era a solução, sem dúvida, depois daquela terrível ordem de despejo. Ela era jovem, bonita e a aparência bem cuidada tinha ajudado a conseguir aquele trabalho.

Raramente ela perdia o bom humor. Apesar da pouca idade, sabia que a vida nem sempre é fácil. Estava acostumada.

Só que o marido fizera com ela algo realmente inominável! Ele a enganara. A fizera acreditar que tinha muito dinheiro, passou-se por um homem dono de muitas terras. Na verdade aquele sítio tinha sido alugado pela Empresa aonde seu sogro trabalhava. Para um churrasco dos funcionários.

Mas ela acreditara que ele era o grande “senhor feudal”. Afinal, foi isso o que lhe disseram.

— Até onde seus olhos enxergam...é tudo meu! - Exclamara com orgulho o futuro marido.

Como ela tinha sido ingênua! O namoro e noivado não durou mais do que três meses. Pediu demissão e se casou.

Mas a grande “surpresa” ficou reservada para depois da lua-de-mel. Nem emprego ele tinha! E agora não havia nenhuma saída. Eles se viraram como podiam. Foi uma sucessão de desconfortos que duraram sete meses. E então veio a ação de despejo após vários aluguéis não quitados.

Ela voltou para a casa dos pais. O marido teve que fazer o mesmo. Ficaram separados vários meses. Mas a situação não vinha boa, realmente não vinha. Ela tinha se casado apressadamente para poder ficar livre do pai. Agora estava lá novamente....e sem um emprego decente!

A única alternativa que apareceu foi vender aqueles cosméticos de porta em porta pelo bairro. Não dava muito. Mas era o suficiente para poder manter a cabeça erguida diante do austero pai.

Naquela tarde ela vinha caminhando devagar, pensando nas recentes agruras que teimavam em avolumar-se quando o carro grande e bonito encostou poucos metros à frente. O vidro automático desceu e um homem sorriu enquanto olhava para a maleta.

— Isso deve estar meio pesado prá você, não?

Ela devolveu o sorriso apesar da frustração que carregava na alma.

— Mas eu agüento bem!

— Quer uma carona até em casa? Você deve estar indo para casa, suponho.

Ela olhou para o rosto dele. Era simpático, sorridente. Ora, grande coisa! E aceitou.

Depois disso, volta e meia ele a encontrava pela rua. Oferecia carona, às vezes um café. Era engraçado como aquele interessante jovem sabia ser tudo o que o marido não era. Já fazia seis meses que ela estava em casa dos pais e nada dele conseguir outro emprego.

Mas aquele homem era diferente, sempre dizia as palavras certas, sempre escutava, sempre compreendia. Era charmoso e sensível. E parecia estar muito bem de vida. Muito bem mesmo, a julgar pelos ternos de corte impecável, o carro cheio de estilo e a conversa polida e culta.

E quando ele a levava para tomar café era sempre muito delicado, muito educado. E muito sedutor. Parecia adivinhar o que ela desejava. Toda mulher sonha. Como seria bom se talvez ela pudesse esquecer aquele malfadado casamento e...

Um dia ele a convidou para conhecer aonde morava. Ela não tinha nada a perder com aquilo. Foi. Mas a experiência não foi boa. Nem chegaram realmente à casa dele. Ela estava curiosa para saber como era um desse lugares aonde ao casais vão apenas para...estarem juntos! Aceitou a proposta. Entrou.

Mas ele se transformou tanto! De repente, durante o ato já não parecia a mesma pessoa. Seu rosto estava esquisito, diferente, como que transfigurado. E ele pronunciava algumas palavras estranhas. Será que estava falando com ela em outra língua?! Não a forçou a nada, mas foi algo bastante violento. No coração dela ficou a certeza. Não o queria ver mais.

Só que aquele homem também nunca mais a procurou. Do mesmo jeito estranho que surgira, assim foi o seu sumiço.

Depois que passou um pouco a culpa, confessou à mãe o ocorrido. Ela o havia visto algumas vezes e ambas tomaram a decisão que pareceu mais acertada. Confessar ao padre e rezar uma novena. Depois disso a moça suspirou de alívio e considerou-se perdoada.

Mas não pudera contar com o imprevisto. Em poucas semanas descobriu a gravidez.

 

Logo depois do ocorrido a sorte parece que voltou a acenar para ela. O marido conseguiu emprego e ela mais do que depressa voltou a viver com ele. Mesmo assim, quando a criança “prematura” nasceu ele não estava totalmente convencido de que o garoto era de fato seu filho.

A moça não pode sair logo do Hospital porque o bebê ficou alguns dias em observação após um parto difícil com sofrimento fetal.

Estava preocupada com o bem estar da criança. Mas então aquela mulher entrou no seu quarto. Vinha vestida de avental branco e apresentou-se como voluntária na Capelania Católica da Maternidade.

— Não se preocupe com o seu filho. Ele vai estar muito bem! — Disse a Capelã procurando consolá-la. — Vamos rezar pelo seu menino? A senhora tem que consagrá-lo para um Santo e pedir diretamente a ele.

Não sou devota de nenhum!

— Que coisa, mas isso pode ser remediado. É muito importante consagrar as crianças assim que elas nascem. E os Santos que aparecem na Bíblia são mais poderosos do que aqueles que não aparecem.

A Capelã tomou uma Bíblia e abriu em determinado lugar. Esticou a página apontando com o dedo para um nome.

Leviathan. — Vamos consagrar o seu filho para São Leviathan? E aí ele vai ficar ótimo, você vai ver.

E assim fizeram.

Ela acabou guardando na cabeça aquele nome. Nunca nem desconfiou que “São Leviathan” não era e nem nunca tinha sido Santo. E menos ainda poderia supor que todo o romance com aquele estranho tinha sido premeditado.

 

Ninguém acreditava que eu “daria em alguma coisa”.    

Recentemente vinham-me ameaçando com o internato. A idéia não era nada agradável. Aquela frase “dar em nada” me revoltava. Mas se viver e não chegar a coisa alguma era bem pouco interessante, por outro lado isso significava também fugir do sistema opressor imposto pela Sociedade. Significava liberdade. E eu preferia esta segunda opção.

Naquela época eu era pouco mais do que um garoto embora já me julgasse homem feito. Em pouco mais de seis meses completaria 18 anos. Era bastante tempo de vida.

A noite eu estudava, estava ocupado cursando o técnico em Administração de Empresas. De manhã eu completava o quarto ano de Química Industrial, até interessante em termos de conhecimento mas inócuo a nível profissional. Pelo menos para mim.

Afastei o cabelo da testa, olhando para o relógio de pulso. Era hora de sair do serviço. Desci pelas escadas, sem paciência de esperar pelo elevador, e dei de cara com o ar abafado da Avenida Paulista. Sentia o corpo cansado e a tensão acumulada me pesava um pouco. Decidi que precisava apenas de um pouco de paz e sossego!

Eu era o mais velho de três irmãos e considerado o “filho rebelde” por toda a família. Analisando hoje com calma, reconheço quanta dor de cabeça causei a meus pais com minha índole audaciosa, curiosa, inquieta e agressiva. O simples mencionar do meu nome já cheirava a confusão.

Meu maior problema, digamos, era o tal do “limite”. Por que tudo tinha que ser tão cheio de regras??! A Sociedade, a escola, a família! De uma forma ou de outra, eu queria enfrentá-las e quebrá-las. Não suportava nada imposto. Eu deveria criar meus próprios limites.

Atravessei a rua sentindo no rosto o vento morno e pensando aonde ir. O tão almejado período de refrigério era sinônimo de isolamento. Eu adorava andar em bando com meus amigos. A liberdade era total! Ninguém me dominava, ninguém me dizia o que fazer e o que não fazer. As regras eram o que menos importavam. Mas...... às vezes precisava estar só.

Nestas ocasiões eu ia a algum parque público “ver o verde” ou, mais comumente, às bibliotecas que adorava freqüentar. Esta outra faceta da minha personalidade era quase um paradoxo quando comparada à primeira. No entanto estes momentos passados comigo mesmo sempre proporcionavam-me a restauração do equilíbrio perdido.

Eu era ávido por conhecimento desde criança e quase tudo me interessava . Rebuscar nas grandes estantes da biblioteca do “Centro Cultural São Paulo” era um lazer no qual muitas vezes eu me perdia, esquecido do tempo, passando horas e horas a pesquisar sobre os mais diversos assuntos. Astronomia, Filosofia, Esportes, um pouco de Física e Química, muita História.

E naquela tarde decidi realmente ir ao Centro Cultural espairecer a cabeça.

O dia estava pesado, fumacento e havia muito barulho de trânsito. Mas não era isso que me incomodava. Fui devagar, olhando as coisas e as lojas, sem pressa. Comprei uma coca-cola para acompanhar o saquinho de amendoim japonês.

Entrei na Biblioteca sentindo aquela sensação gostosa que sempre me invadia quando podia escapulir para lá. Estava tão tranqüila! Podia ver apenas uma ou outra pessoa de longe, perdida no vasto salão. Gostei daquilo.

Fui primeiro ao setor de braille para ver se descobria algum cego. Adorava conversar com eles! Tão cheios de uma visão do mundo muito mais perceptiva, sensível e inteligente do que muitos “seres enxergantes” que eu conhecia. Eu ficava fascinado com muitos deles. Gostavam de conversar. E não me enxergar ajudava. Acho que somava uma certa carenciazinha da minha parte com a própria solidão deles. E assim batíamos muitos papos amigáveis.

Naquele dia eu queria encontrar um cego para debater a questão: como eles criariam um filho, caso os tivessem? Talvez fosse apenas uma busca minha, uma solução para meus próprios conflitos familiares. Não que eu desse muita bola para o que meus pais diziam, mas ser sempre a “ovelha negra” às vezes me entristecia um pouco. Eu não tinha má índole, apenas energia demais para gastar e muita imaginação.

A sessão de braile estava às moscas.

Na falta do meu cego tratei de ir separando alguns livros de esportes que vinha lendo, pois eu estava estudando sobre a maratona e o “Teste de Cooper”. Afundei-me nos livros em uma mesa de estudos e logo perdi noção do tempo, completamente absorvido na leitura.

O ambiente respirava calma, placidez e ali a temperatura estava agradável. Eu escutava de longe os roncos vindos da Avenida Vergueiro. Réstias de sol iluminavam o chão e as mesas, entrando pelas janelas aqui e ali. Eu me considerava em paz. E estava sozinho.

 

Quando me dei conta, de repente ele estava ali ao meu lado.

Acho que eu tinha estado muito entretido pois não o vi entrar e não o vi sentar-se. Senti a presença de alguém ao meu lado mas custei a desviar a atenção dos livros.

Encafifado, finalmente estiquei os olhos sorrateiramente de esguelha mas sem virar a cabeça. Reparei que ele lia uma enciclopédia, a mesma com a qual eu estivera entretido não fazia muito tempo.

Achei tudo aquilo muito chato. Fingi ler mas pensava lá comigo, já irritado: “Com tanto lugar nesta biblioteca vazia e este sujeito vem sentar na única cadeira ao meu lado!!!”. Fechei o livro e tratei de levantar-me ostensivamente.

Então ele falou comigo, sem erguer o rosto:

— Não vá embora, Eduardo. Eu preciso falar com você. —Aquele “preciso” soou estranhamente enfático. Não parecia um pedido. — Eu não sou o que você está pensando.

Chamou-me pelo nome! Um tanto intrigado, perguntei com certa brusquidão:

— Você me conhece?!

Ele ergueu o rosto e me olhou diretamente pela primeira vez. — Eu vim por causa disso. — Apontou o livro. — Eu conheço isso aí. Li há pouco tempo . Ele procurou ser afável, esboçando um leve sorriso, ainda que mantivesse o mesmo tom firme que me intrigava. — Sente aí para conversarmos. — Convidou ele. Ainda assim não me convenceu. Não era preciso muito tempo para perceber   que se tratava de uma pessoa de alto poder aquisitivo e fino trato. E bem mais velho do que eu. Ainda por cima tinha a enciclopédia bem aberta exatamente naquele artigo. — Eu nem te conheço. Ele interrompeu:

— O meu nome é Marlon. Recentemente você tem escrito cartas e se correspondido com S.Francisco, na Califórnia. — Era uma afirmação. - Por causa disso é que eu vim.

Engoli em seco, engasgado com a colocação. Deveria haver algum engano. Procurei simplesmente me ater à lógica mas as idéias se misturavam vindo em borbotões à minha mente... Como aquilo teria acontecido? Será que eu tinha feito alguma besteira!? E como ele sabia das cartas?!! Será que ele também havia escrito? O que ele queria de mim, afinal?

Marlon estendeu-me a mão com gentileza e sobriedade. Eu retribui o gesto sem pensar com a cabeça ainda fervilhando, os olhos correndo pelo salão. Repassei num ápice de segundo:

“Isso aqui deve ser alguma cilada...deixa ver...será que alguém descobriu que fui eu que depredei e pichei a escola? Ou então...o Márcio dedurou que era eu quem estava passando droga no Colégio Jardim Suíço! Ele foi guindado pelo camburão e pode ter aberto o bico!”. Apalpei de leve os bolsos e respirei aliviado: “Estou sem drogas comigo, que sorte!!!” Apesar do rumo dos meus pensamentos, aproximei-me dele e arrisquei. Era melhor deixar a lógica de lado. Se realmente aquele sujeito estava ali por causa das cartas......

Meu tom foi de espanto:

— Pôxa, mas...você veio de lá?!! — Foi a primeira coisa que me ocorreu para dizer.

Marlon não fez de conta que não entendeu.

— Não. Sou daqui mesmo. — Respondeu ele com calma. E olhando diretamente para mim: — Você sabe aonde está pisando, garoto?

Nós sabíamos bem do que falávamos. E aquilo mexeu com meu ego. “Quem ele pensa que é?! Eu sei muito bem onde estou pisando”

E alto:

— É claro que sei. — Revidei com desdém e olhar irônico.

Marlon deu um leve sorriso, como que já esperando aquela reação. Ele parecia me conhecer e aquilo me deixava bastante incomodado. E curioso. Mesmo assim ainda mantinha a guarda alta. “Será que andaram me espionando?...”

Mas ele parecia descontraído. Não fez qualquer pergunta a meu respeito. Bem acomodado na cadeira, voltou-se para o livro e simplesmente comentou sobre o artigo.

— Esta não é a única Base. Existe outra em outro ponto do mundo. Serão muitas mais tarde. Além das Bases, há centenas de grupos fechados em quase todos os países, inclusive aqui no Brasil. — Ele falava de forma corriqueira, natural, alternando o olhar entre o livro e o meu rosto cada vez mais espantado.

Achei estranho a informação vir tão fácil. Realmente há cerca de mais ou menos oito ou nove meses eu me correspondia com S. Francisco. Foram muitas idas e vindas mas, estranhamente, há três meses eu não recebia nenhuma resposta. Pelo menos até o presente momento.

— Por que você está me falando tudo isso? — Meu tom foi mais brando desta vez, mas eu ainda não estava totalmente à vontade.

— Ué?! - Marlon passou a mão pela barba bem feita. — Faz quase um ano que você escreve perguntando as mesmas coisas e demonstrando interesse em adquirir este tipo de conhecimento. Faz um ano que você recebe as mesmas respostas e responde as mesmas perguntas. É engraçado, não? Quando acontece...você duvida?!

Difícil acreditar. Involuntariamente meu corpo se inclinou para mais perto dele e eu apertei os olhos para fixá-lo melhor. Era absolutamente inacreditável!

— Mas, então...você é um......? — Não cheguei a completar a frase.

Marlon girava lentamente o anel que tinha no anular esquerdo. Mantinha o ar sóbrio mas parecia levemente divertido com minha reação:

— Isso é só uma questão de nomenclatura, Eduardo!

Decididamente ele dissera a coisa certa. Eu me acomodei de vez, disposto a ouvir. Nem sabia o que perguntar primeiro.

— Mas como você sabia que eu...era eu?

— Você mandou foto, não foi? Eu tinha seu endereço e todos os seus dados. Não foi difícil encontrá-lo!

— Mas eu não estou em casa agora!

— É através do endereço que normalmente as pessoas se encontram, mas este não é o único caminho. Com o tempo você também aprenderá isso.

Eu olhava para ele sem dizer palavra. O que será que ele queria sugerir? Como ele podia saber que eu estaria ali àquela hora?

Poupei-me de perguntar. Eu tinha lá comigo a intuição de que as respostas viriam mesmo sem que as perguntas fossem feitas. Acomodei o cotovelo sobre a mochila jogada em cima da mesa e meus olhos não se desviaram mais do rosto dele.

Simpático, Marlon sorria sempre. Teria talvez uns 40 ou 42 anos, tez pálida e traços que lembravam uma descendência sírio-libanesa. Usava um blazer de corte fino e elegante, preto, com camisa esporte clara. O anel era claramente de ouro, bem como a grossa corrente ao pescoço e os pequenos broches esquisitos na lapela. Reparei no tremendo rolex!

Depois daquele encontro sui generis começamos a enveredar para assuntos mais interessantes.

 

Somos fruto do passado. Nossa história de vida e as experiências da infância são responsáveis por muitas das decisões que tomamos no futuro. Eu não poderia falar de mim mesmo sem começar do começo. Afinal, tudo tem um começo.

 

Eu estava com seis ou sete anos. Era um tempo bom.

Após minha família ter passado por vários percalços financeiros, meu pai finalmente estabilizou-se bem. Nessa época éramos apenas eu e meu irmão Roberto. O caçula, Otávio, não era ainda nascido. Nós morávamos na região de Interlagos, próximo à represa de Guarapiranga, numa casa que para mim sempre terá aquele “sabor de infância”: gostosa, com jardim, quintal e muito o que explorar ao redor.

Havia o que se poderia chamar de fartura em nosso lar. Eu tinha um quarto só para mim e também minha própria televisão. Os armários da cozinha estavam sempre abarrotados de coisas boas. Nós também éramos sócios de um clube da época e eu iniciei minha alfabetização em escola particular.

Desde que me conheço por gente, sempre gostei de “estudos”. Tudo começou com as aranhas: eu as capturava e guardava em potes de vidro cobertos com redinhas, para respirarem bem. Dava-lhes alimento, às vezes até gafanhotos. Eu gostava de estudar o seu comportamento. Elas me fascinavam tanto! Cheguei a ter uma dúzia.

Minha mãe permitia que eu as guardasse dentro do quarto desde que cuidasse para que não escapulissem pela casa. E vivia lidando com elas, aprendendo pela observação.

Havia dias em que eu promovia guerras de aranhas.

A Manfreda era grande e imbatível, ninguém era páreo para ela. Ela ficou comigo muito tempo.

Eu gostava também de formigas. Costumava pegar uma boa quantidade de formigueiros com uma pá de lixo e os colocava também em recipientes de vidro. Aos poucos as formigas tornavam a cavar seus túneis e reorganizavam o formigueiro. Observá-las era outro dos meus passatempos prediletos. Até no meio da noite, se acordasse, refletia lá comigo mesmo: “Será que as formigas estão dormindo?”. E devagar saía da cama, acendia minha lanterninha para espiar o formigueiro. E não é que sempre tinha algumas formigas acordadas?! Aqueles bichinhos nunca paravam.

Meus “estudos”, naturalmente, eram particulares. Eu me entretinha muito bem sozinho mas havia também tempo de sobra para brincar com a molecada da rua.

Certa vez meu pai levou a mim e ao Roberto num parque de diversões perto de casa. Recordo-me do fato como se fosse hoje, o Roberto quis conhecer   o trem-fantasma e meu pai concordou:

— Mas é tudo brincadeira, heim? Não precisa ter medo! —

Avisou ele.

Eu nada disse mas não estava lá muito convencido. Quando criança eu tinha medo do escuro. Não sabia por quê. Mas como eu era o mais velho — quase quatro anos além do meu irmão — tinha obrigação de “ser macho”.

Não dei um pio mas fui de olhos fechados todo o percurso, só escutava a choradeira e os berros do Roberto misturados às risadas do meu pai. Não vi nada, nada! Só queria que tudo acabasse.

— Que bobeira, Beto! É tudo de mentirinha. Eu não tive medo. — Fiz questão de deixar tudo bem claro tão logo saímos do trem-fantasma.

— Tinha uns bichos lá. — Falava ele, fungando. — Eu não gostei nem um pouco!

De repente fiquei curioso. Pensei comigo: “O que será que tem lá dentro, afinal?...”

— Pai! Vamos de novo? Eu queria ver de novo! — Pedi.

— Não, não, não! Meu dinheiro não é capim. Nós acabamos de sair de lá, vamos comprar um picolé.

Insisti um pouco mais, só que não adiantou nada. E fiquei sem ver o trem-fantasma!

Atribuo meu medo de escuro aos fatos ocorridos em casa de minha avó. Nós sempre íamos visitá-la mas meu avô detestava a bagunça que nós, crianças, fazíamos. Lembro-me bem daquele seu gesto já tão característico: nem bem assomávamos à porta e ele já se benzia, como que para proteger-se. Mas acho que nós é que precisávamos de “proteção” pois ele vivia a nos assustar. Nos enchia de medo falando de fantasmas; cobria a cabeça com lençóis e, segurando um toco de vela acesa na boca, com as luzes apagadas inventava histórias de gente que pegava crianças.

Subir para os quartos era proibido. Já bastava a bagunça e correria no andar de baixo. Mas havia algo que, para nós, no nosso mundinho de criança, tinha uma atração incrível. Era a lulú. No quarto dos meus avós, dentro do armário embutido, ela estava soberanamente entronizada numa prateleira alta: a cabeça de isopor com a peruca preta de minha avó.

Meu avô vivia nos assustando com a lulú e dizia que ela viria nos pegar no escuro se subíssemos lá em cima. E nós achávamos que aquela cabeça com peruca e tudo podia sair voando, e atacar.

Uma noite meu avô distraiu-se na cozinha e eu subi escondido até o andar de cima, esgueirando-me de gatinhas pela escada. A grande aventura dava um friozinho na boca do estômago, um misto de medo e uma indescritível sensação de aventura.

Todos estavam lá embaixo e atravessei o corredor, colocando a cabeça na porta do quarto. A janela, de meia folha, deixava entrever o ambiente coberto pela penumbra. Atravessei decidido até o armário. Havia uma pequena luz vermelha dentro dele e eu a acendi bruscamente. Lá estava a lulú, lá em cima, meio fora de alcance. Estava tão feia! Fiquei olhando bem para a cara dela bastante tempo, analisando os detalhes. E quase sem perceber comecei a raciocinar comigo mesmo:

— Isso é só isopor...não faz mal para ninguém...! Como é que eu pude ter medo de isopor???

Decidindo-me, peguei a vassoura que estava à um canto e joguei a lulú no chão. A peruca voou longe. Eu a tomei nas mãos revirando-a de todos os lados. A sensação do cabelo roçando a pele era tão esquisita!

Fiquei revoltado. Tanto tempo com medo daquilo. Que medo bobo! Não era justo. Num ímpeto comecei a socar a cara de isopor com força, e aquilo foi gostoso!

— Roberto! Roberto! Venha aqui! — Estava totalmente esquecido de que eu nem deveria estar lá em cima.

Eu queria que meu irmão visse aquilo pois ele também não deveria mais ter medo da lulú. Roberto chegou e eu estava feroz:

— Olha aqui! Olha só o fantasma! — Gritei injuriado. — Venha socar a cara dela!

Ficamos os dois amassando a cara da lulú até que nossas mãos começaram a machucar. Achei a solução:

— Beto, vai lá embaixo e traz uma faca. De ponta!

Eu havia perdido o medo. Destruímos a lulú por completo.

Tanto a cabeça de isopor, que ficou toda esfaqueada, como a pobre peruca que terminou em pedaços pelo chão.

Juntamos os restos mortais num pequeno montinho que foi enfiado de volta no armário sorrateiramente. Ninguém percebeu nada e a bronca sobrou para minha mãe, dias depois. Meu avô estava histérico:

É o que eu digo sempre!!! — Berrava ele. — Estes demônios! Filhos de satanás! Olha só o que eles fizeram com a peruca de sua mãe!

Esta parte da história deixou de ter importância para mim. A minha descoberta é que tinha valor e, de fato, estes episódios acabaram sendo uma espécie de marco na minha vida: o trem-fantasma e o confronto com a “monstruosa” lulú.

Não sei como explicar mas eu não tinha mais medo de tudo aquilo. Escuro, monstros, fantasias assombradas. No caso do trem-fantasma usei uma lógica inconsciente: tudo estava bem e não havia motivo para medo se após o passeio nós simplesmente íamos tomar picolé. E a lulú...eu mesmo descobrira a verdade sobre ela.

E na minha cabeça, mesmo tão infantil, inconscientemente introjetei aquela idéia...de que se o desconhecido se torna conhecido e palpável, o medo desvanece.

Havia algo dentro de mim, eu ainda não o sabia. Mas era uma força poderosa que durante toda minha vida iria impulsionar-me rumo ao desconhecido.

 

Chegou a época das férias. Os dias tornaram-se melhores ainda para os pequenos.

Subia em árvores, roubava frutas, eu e os outros moleques da rua inventávamos novidades todos os dias.

Naquelas férias eu destruí as rodas do meu primeiro kart. Eu não conseguia ficar quieto. Era um kart de pedal e eu levava encarapitados comigo tantos amigos quantos pudesse. O objetivo era vir rodando à toda e brecar de repente para dar derrapadas malucas. As rodas eram de borracha maciça e gastaram tanto por causa das derrapagens no cimento que ficaram quadradas.

Com as ruas e as crianças da vizinhança ao meu dispor deixei de lado as aranhas e formigas. Eu já as estudara bastante. Mas quando não estava com a turminha sentia falta de algo e precisava de coisas que dissessem respeito só a mim. Acabei por encontrar meu novo passatempo nas horas que passava acordado noite adentro.

Até aquela fase da minha vida eu não estava acostumado a deitar tarde. Isso começou naquelas férias e eu acabei me apaixonando pelos filmes noturnos da televisão. Mas não qualquer tipo de filme! Descobri que toda sexta feira, lá pelas onze da noite, exibiam filmes de terror. Eu nunca vira nada parecido antes e aquilo como que me enfeitiçava.

O primeiro filme a que assisti foi de vampiro. Para ser mais correto, de Drácula, e era uma comédia. Aquilo deu início a uma verdadeira febre. Na minha curiosidade com o personagem assisti a todos os filmes possíveis e imagináveis de Dráculas e vampiros.

Meu interesse não tinha fim. Os hábitos daqueles estranhos seres não me saíam da cabeça. Fui à biblioteca da escola procurar livros que me contassem mais a respeito. Nada encontrei além de histórias infantis e enciclopédias para estudantes. A moça da biblioteca disse que havia outros lugares onde eu poderia encontrar livros e, pela primeira vez, pedi a meu pai que me levasse a uma biblioteca pública. Ali encontrei o que queria e li sobre todas as lendas e as prováveis histórias do incrível personagem.

Parece estranho, mas eu “torcia” para o Drácula nos filmes. Como odiava os grandes matadores de vampiros! Em alguns filmes ele ganhava. No final, no meio de uma névoa de vapor, a risada sarcástica. E ficava implícito que ele não estava vencido! Eu ia dormir regozijado, raciocinando comigo: “Pôxa, é a natureza dele, o jeito dele. Não dá para ser mudado. Ele se alimenta de sangue, precisa disso para sobreviver.”

E me virava para a parede, pensativo. “Coitado! ...”

Passei a desenhar freneticamente histórias em quadrinhos. Meu personagem principal: um vampirinho. Só que nas minhas histórias o “mal” sempre ganhava. Porque não era um “mal” real, eu entendia o vampiro simplesmente como um ser de natureza peculiar. Da mesma forma, o leão não é “mau” porque mata para comer.

Acho que meus pais nunca entenderam porque eu não desenhava casinhas, lago de patos, e montanhas ao fundo. Nem famílias com cachorrinhos. Era só o vampirinho de sempre, e um castelo mal assombrado, e um cemitério, coisas assim.

Quando esgotei o assunto sobre vampiros a nova saga foi descobrir tudo sobre o lobisomem, que passou a ser o novo herói do meu pequeno mundo e também virou personagem de história em quadrinhos.

Eu simplesmente gostava daquilo. Parece que aquela fascinação me acompanhou desde criança. Mais tarde meu interesse neste sentido tomaria outros rumos.

 

Eu olhava fixamente para Marlon. Todo o resto da biblioteca parecia não existir.

— Sua ficha foi analisada e chegamos à conclusão de que você tem muito potencial a ser explorado. Cremos que é chegada a hora de todas estas coisas finalmente aflorarem. Será bom você ser apresentado.

— Apresentado?...

— Se você realmente estiver disposto, é claro. Na verdade a escolha é totalmente sua. Nós estamos apenas lhe dando a oportunidade de fazer isto.

Eu não sabia direito como responder. Que o meu prazer seria imenso...indescritível, maravilhoso! Tentei organizar os pensamentos mas ele continuou antes que eu respondesse:

— Não sei ao certo quanto você sabe sobre tudo isso, a Sociedade e suas bases. Em duas palavras, destina-se a estudar o Oculto. De início eu o convido para assistir algumas aulas com outras pessoas. — Ele usava um tom amistoso mas ligeiramente impositivo.

Não fazia parte da minha natureza aceitar este tipo de coisa. Mas eu queria descobrir o que havia por trás daquele estranho homem. Marlon emanava uma aura densa de mistério, eu quase podia senti-la. Ele havia me desarmado logo de cara ao dizer que viera especialmente por minha causa. Eu nunca escutava isso de ninguém, ainda mais vindo de alguém como ele, obviamente tão culto e poderoso. Além do mais...ele estava falando daquele artigo da enciclopédia.

Minha expressão revelava qual seria a minha resposta. Meu olhar cruzou com o dele profundamente, significativamente. E Marlon simplesmente começou a falar.

— O Oculto nada mais é do que aquilo que ainda não conhecemos. Aquilo que não foi revelado; está como que envolto em névoa, ou atrás de cortinas. Quando você dissipa a névoa ou rasga a cortina...o Oculto deixa de ser Oculto.

Assenti com a cabeça.

— Vou te dar um exemplo rudimentar. Imagine um índio que não conhece talheres de mesa. Se estes lhe forem apresentados por trás de um véu, com pouca iluminação, certamente ele não fará a menor idéia do que se trata. As sombras longas e estranhas vistas por transparência no véu talvez o assustem. Ele terá medo e irá embora. E contará o que quiser aos demais. Mas um outro índio, mais esperto que o primeiro, olha atrás do véu e vê simples talheres de prata. Descobre que as formas assustadoras que se mostravam antes eram apenas projeções, não traduziam a realidade. Agora ele não tem mais medo, toca os objetos e os guarda com cuidado. O Oculto foi revelado a este segundo índio mas - note o detalhe - ainda em parte porque ele não sabe manipular os talheres. Consegue compreender o que eu quero dizer? Não seria difícil tais objetos tornarem-se elementos de adoração ou culto. Isso acontece porque ele teve acesso a apenas parte da verdade.

— Tem razão.

— Toda Verdade tem várias facetas. Para o primeiro índio havia horríveis espíritos por trás do véu; para o segundo, lindos objetos usados pelos deuses. Compreenda um princípio básico: se eu conheço apenas uma faceta de uma determinada Verdade e você outra, não posso dizer que eu estou certo e você errado, e vice- versa. Este é um lado da questão. A pior coisa é “conhecer em parte”. Mas é ainda pior quando fazemos dessa “parte” a expressão do “Todo”. O verdadeiro conhecimento só vem quando levamos em consideração todos os ângulos da questão. Compreende? Tanto do ponto de vista horizontal como vertical...

Interrompi, perguntando:

— Horizontal e vertical?

— Sim, quando falo em ponto de vista terreno, humano, finito, estou me referindo ao plano horizontal. Quando eu falo, ao contrário, plano vertical, quero dizer que isto tangencia o espiritual e o infinito. Entende? Quero dizer que o plano vertical envolve outras dimensões, dimensões não físicas. Somente conhecendo a Verdade sob todos os ângulos podemos nos gabar de conhecê-la completamente. Não basta olhar apenas para um lado. O grande equívoco da Humanidade, muitas vezes, é fazer da “parte” um “Todo” — como eu já salientei - e, de posse disto, arvorarem-se como donos da verdade em tantos e tantos aspectos. No nosso exemplo nem o primeiro nem o segundo índio estavam corretos, ainda que o segundo tivesse tido maior revelação. Mas imagine-se agora diante dos grandes mistérios do Universo..! A confusão fica bem pior porque, como você sabe...”Existem mais mistérios entre Céu e Terra do que sonha a nossa vã filosofia”!

Eu apenas escutava absorvendo cada palavra. Ele continuou falando de uma maneira que começou a me fascinar, introduzindo-me num raciocínio lógico e intelectual.

— Apenas o conhecimento completo leva as coisas a fazerem sentido. Quer ver um exemplo? Antes, na Antigüidade, o homem tinha medo do fogo. E por quê? Se tentavam tocá-lo, queimavam-se. O processo físico da combustão era um enigma completo e por isso o fogo era tido como letal. Mas hoje é diferente. O conhecimento nos fez ver que o fogo não é assim tão temível e agora podemos usá-lo em proveito próprio. O conhecimento trás o domínio e o controle. Quando se domina a força - no caso, o fogo — ela deixa de ser letal e passa a ser benéfica. Olhando por este prisma é muito fácil compreender que o temor do desconhecido é sem sentido, concorda? Uma tocha pode queimar alguém se você investir contra ela; no entanto a mesma tocha pode servir para iluminar o seu caminho, ou aquecê-lo. Assim é que uma força não é boa ou má em essência, depende do uso que é feito dela. Você compreende que isso que eu estou dizendo não está ligado ao conceito de Bem e de Mal em nenhum aspecto? Eu tinha que concordar. — Mas quer usada para o bem ou para o mal, o importante é que você tem o domínio da força, tem o controle sobre ela. Tanto pode queimar alguém...como pode aquecer-se.

Quanto mais ele falava mais quieto eu ficava, pensando em tudo aquilo.

— O que é o Bem e o Mal, então? — Marlon fez uma pequena pausa, olhando para mim.

Eu não arrisquei resposta.

— Imagine uma noite escura, de tempestade violenta, com raios caindo em todos os cantos e uma ventania lúgubre. — Começou Marlon calmamente. — Imaginou? Pois bem, pense também em um belo dia de sol, com brisa fresca e amena, passarinhos cantando e borboletas voando. Poético, não?

Teria percebido um tom levemente irônico na voz dele?

— Você poderia dizer que a tempestade é ruim e o dia de sol é bom? — Novamente uma leve pausa, como que incentivando-me a pensar. — Será que uma árvore na floresta diria isso? Que a chuva é ruim e o sol é bom? Penso eu que ela, na sua sabedoria, afirmaria ser necessário tanto um quanto outro. A árvore faz parte da natureza, do Todo; e estando inserida no contexto das forças naturais, não as teme. Simplesmente sabe que são necessárias. Quer ver outro exemplo? Uma lâmpada! Que ilumina, que nos faz ver as coisas como elas são de fato. A luz produzida pela lâmpada é resultado de duas forças, de um pólo positivo e outro negativo - daí temos a luz. Sem os dois pólos, sem os prótons e os elétrons, jamais haveria a lâmpada! Quando estamos integrados à natureza, fazendo parte deste Todo e compreendendo as forças pelas quais o Universo é regido começamos a compreender que esta dualidade permeia tudo o que existe. Sol e Chuva, Calor e Frio, Dia e Noite, Vida e Morte...é o princípio milenar de sabedoria expresso no TAO, no Yin-Yang. Você sabe! Quanto mais compreendemos que o Universo caminha e se alterna dentro de um ciclo e que isto é a pura expressão da Perfeição, mais claro fica que, em realidade, o Bem e o Mal não existem como Absolutos. Eles são produtos da nossa imaginação, da nossa criatividade, são apenas referenciais, conceitos criados pelo ser humano a nível de definição. Nunca Verdades Absolutas!

Marlon simplesmente olhava para mim:

— O Bem e o Mal são complementares, e não opostos. O termo “oposto” é ruim. “Opositor” já decodifica subliminarmente uma idéia de maldade e isto está muito mais ligado ao nosso instinto do que à realidade. Eu nem gosto deste termo “Bem” e “Mal”, melhor seria usar qualquer outro termo mais neutro porque são apenas coisas diferentes em essência. Não estão ligadas a sentimento de bondade e maldade. Isso é fruto da mente humana que, em sua pequenez, não compreende plenamente a verdade acerca das leis que regem nosso Universo. O nosso Sol, por exemplo: é graças ao calor dele que existe a vida nesta Terra da forma como a conhecemos. Mas imagine o planeta Mercúrio, tão próximo do Sol que sua temperatura média é tão absurdamente alta que impossibilitou a vida. Quer dizer então que o Sol só é “bom” aqui no nosso planeta ? Em Mercúrio deveríamos dizer: “Oh, que Sol mau, torrou o planetinha!”

Tive que dar risada:

— De fato!

— Que pensamento mais primitivo! O Sol não é bom nem mau! Em qualquer canto do Universo ele é simplesmente uma estrela. É preciso abandonar esses conceitos tão errôneos para poder progredir.

“Que inteligência...”, pensava comigo mesmo, “Quanta cultura!”. Cada vez eu simpatizava mais com ele.

— Em nossos grupos de estudo a ênfase é justamente essa, conhecer o desconhecido como um todo. Isso abrange conhecer não só as forças do Universo mas também aquelas ocultas dentro de nós mesmos. O ser humano tem muitas potencialidades que precisam ser exploradas. Imagine, por exemplo, que você possui uma antena...ou melhor, você é uma antena. Quando bem posicionada a antena capta ondas de rádio que são decodificadas em sons e imagens que trazem, em última análise, informação e conhecimento. As “captações” que você poderá fazer a nível individual são mais ou menos do mesmo tipo. Através de uma viagem introspectiva e pessoal, você tomará conhecimento de que existe no seu interior uma série de potenciais que você sequer suspeitava que existisse. Que sequer foram explorados. E que precisam vir para fora. Um Mestre indiano caminha sobre brasas e não se queima. Mas por quê? O que o tecido dos pés dele tem de diferente do seu? Nada, realmente! E pele, ossos e músculos como qualquer pé. Só que ele potencializou uma capacidade nata que já existia, que todos possuem em maior ou menor grau. O conhecimento de si mesmo o levou a desenvolver capacidades consideradas “sobrenaturais”.

— Pôxa...tudo isso que você esta falando é tão legal! De verdade, sabe? Realmente eu gostaria de aprender muito mais. — E arrisquei timidamente um elogio: — Parece que você está muito além da maioria, nunca vi alguém que tivesse esta visão, é como a águia que voa alto e vê mais longe... — Eu não sabia bem o que dizer.

— O conhecimento faz com que você tenha visão. Visão além do alcance! Você vai aprender muito nas aulas.

— Você também faz parte do grupo? Estuda lá?

— Sou, digamos assim, um dos Professores. — Ele não falou mais nada sobre o grupo provavelmente para produzir em mim uma sensação de expectativa. — E sabe qual é a melhor parte do conhecimento?

— ?

— Visualize um átomo com seus elétrons girando nos seus orbitais, em volta do núcleo. Um único átomo tem muito pouca expressão. Mas milhares de átomos unidos têm força. Milhares de átomos saem do plano virtual, inexpressivo, e invadem o plano físico. Constroem algo. Não é fantástico?

— Isso é um convite ao conhecimento? — Perguntei com ar levemente risonho.

Ele respondeu com o mesmo ar risonho.

— O conhecimento está ao alcance de quem o procura.

Aquela era a palavra certa. Eu estava empolgado com tudo e minha sede de conhecimento pedia mais e mais. Que oportunidade única!

— E o que mais vocês fazem lá? É só isso?

Nessa altura, a tarde já quase findava. Como quem não dá muita atenção à pergunta ele convidou, amistoso:

— Vamos tomar um café?

— Vamos nessa! - Respondi de bom grado. — Tá pagando?

— Você é meu convidado.

Como sempre eu estava duro. Não que aquilo fosse novidade, afinal eu estava acostumado às pequenas agruras, vez por outra. Como descer pela porta de trás do ônibus.

Deixamos a mesa, caminhando lado a lado. Na lanchonete do Centro Cultural o ambiente era agradável e havia várias pessoas por lá. Eu já desistira de velho de ir ao colégio. Sentei numa mesinha.

— Você quer mais alguma coisa além do café? — Perguntou ele. Pergunta errada. Reconheço que eu era muito sem cerimônia. Estiquei o pescoço na direção do balcão:

— Humm! ... Aquela torta ali será de quê? Marlon olhou.

— De palmito.

— Ué, como é que você sabe que é de palmito? — É de palmito, sim. Você quer?

— Manda duas aí.

Sem se incomodar, ele comprou o que eu pedira. Trouxe dois cafés e três pedaços de torta para me acompanhar na escolha. Eu contemplei a xicarazinha de café quente e cremoso que ele colocou à minha frente. Talvez esta fosse a minha parte do teste. Queria ver a reação dele. Era engraçado...eu não estava acostumado àquelas atenções e por isso eu o admirava cada vez mais. — Esta torta está boa mas meio salgada, né? — Você quer um refrigerante?

— Uma coca. — Realmente eu não tinha lá muitas cerimônias. E Marlon levanto, e trouxe duas cocas. — Vou te acompanhar. Aos poucos, fomos retomando a conversa.

 

Não sei porque todos os meus personagens tinham aquele fundinho meio macabro. Depois que esgotei todas as literaturas a respeito de vampiro, lobisomem, múmia e caveira acabei me cansando.

Como é duro ser criança e depender de adulto prá tudo!

Tenho sempre que esperar alguém que me leve na biblioteca!

De sorte que deixei de lado tudo aquilo por motivo de for a maior, apesar da fixação que tinha com eles.

Mas depois de meus dez ou onze anos eu já podia andar sozinho de ônibus e descobri bibliotecas novas que eu podia freqüentar. Fui devorando tudo quanto encontrava. Muitas vezes eu até cabulava aulas da escola a fugia para os meus livros. A Biblioteca era muito mais divertida e eu podia xeretar em tudo.

De repente descobri coisas novas e magníficas.

Descobri que gostava muito de ler sobre bruxas, feiticeiros, Magia. Acabei inevitavelmente caindo também na História da Igreja e da Inquisição. E embora eu não compreendesse exatamente do que se tratava, eu continuava lendo e lendo. Apesar de perguntar em casa sobre o que significava aquilo tudo ninguém parecia saber, ou querer, me explicar. Na minha cabeça ficou apenas o óbvio: que na época da Inquisição eles torturavam e queimavam bruxas na fogueira. O que mais me surpreendia era que bastava o testemunho de uma criança para condenar alguém ao fogo. A confissão “do crime” faria com que a morte, pelo menos, fosse rápida. Caso contrário...

Impressionei-me demais com aquelas histórias. Mesmo depois que saía da Biblioteca minha mente continuava presa àquilo. O próprio Torricelli foi queimado! Ele, que deixou um legado à Humanidade com suas descobertas. O pobre homem fazia experiências com um grande manômetro de mercúrio e estudava reações da pressão atmosférica. Havia uma bonequinha conectada ao sistema e conforme registravam-se variações de pressão, a tal bonequinha também subia ou descia. Isto até ao ponto dela chegar a ultrapassar a altura do telhado, podendo ser vista da rua. Quando isso acontecia, logo depois chovia sempre, (obviamente).

“Ora”, pensaram todos, “Logo depois que aquela boneca aparece, chove! Ele está fazendo chover, isso é bruxaria!!!”

Galileu Galilei quase teve o mesmo destino por causa das suas ousadas afirmações sobre a Terra e Sistema Solar naquela época de ignorância.

A Terra não era o centro do Universo? E... redonda??!

Galileu negou seus estudos em praça pública. Deus meu, Deus meu! Quantas barbaridades não foram feitas em Seu Nome? A conclusão óbvia para um garoto muito pouco informado a respeito de doutrinas religiosas foi aquela mesma: sem que ninguém houvesse falado sobre isto até então comecei a deduzir que a Igreja não passava de um órgão meramente político. Uma maneira de governar a Sociedade, de mantê-la na ignorância e sob o domínio daqueles que se diziam imbuídos do poder de Deus.

Quanta sujeira!

Paralelamente lendo sobre a história da bruxaria percebi -e os próprios livros atentavam para o fato - que a maioria das chamadas “feiticeiras” não o eram na realidade. Tudo era extremamente recheado de misticismo, a maioria dos fatos eram simples lendas de gente que não podia ainda compreender certos fenômenos. Ou que não tinha mais o que fazer! Sem dúvida, era muito mais fácil colocar tudo dentro do mesmo saco e rotular: “Bruxaria”. Aí era só enredar as pessoas com um monte de bobagens, queimar um bode expiatório na fogueira, purificar a alma e ficar com a consciência tranqüila.

Eu pensava e repensava naquilo. Mais tarde iria estudar no colégio que Karl Marx pensava do mesmo jeito: “A religião é o ópio do povo”.

Eu havia estudado também sobre os métodos de tortura usados na Inquisição: eram aqueles realmente os bons desígnios de Deus? (Onde é mesmo que Deus se encaixava naquilo tudo?).

Ao esgotar o que encontrei sobre Inquisição, Igreja Católica, bruxas e torturas desviei-me para o lado da Magia propriamente dita. Ou, pelo menos, o que consideravam como Magia. Mas era tudo meio louco, não parecia ter lógica alguma. Foi um pulo pular aquilo e passar direto para o Ocultismo. Li muito. Aquilo de fato me fascinou.

Estudando sobre Ocultismo uma tarde eu descobri algo sobre bruxos de verdade. Aquilo sim, era quente! Não se tratavam mais de meras histórias carregadas de fantasias e tolas superstições. Não, não... aquelas eram histórias reais de bruxos reais! Li tudo o que pude sobre todos eles, Abra Merlin, A. Crowley, Fausto e outros. Quando o assunto se esgotou, ( não havia muita coisa), continuei tentando achar mais coisas tão interessantes quanto. Neca!

E eu não tinha dinheiro para comprar livros em livrarias.

Tive que me contentar com assuntos menos chamativos e fui ver o que descobria sobre paranormalidade. Uma das coisas que me chamaram a atenção foi o que descobri sobre “Poltergeist”. Em suma, aquele termo queria dizer “espírito brincalhão” e, ao que parece, era atraído pela presença de uma criança ou adolescente em uma casa. Algumas versões diziam que poderia ser a própria criança desencarnada. Como eu acreditava nestas coisas foi um prato cheio na época.

— UAU! - Eu vibrava. — Queria um destes em casa! Seria o máximo! — Me dediquei com esforço dobrado aos estudos na tentativa de descobrir como atrair um deles para casa. Todos os dias saía feliz e exultante da biblioteca, sem me intimidar, satisfeito com a perspectiva de ter um amigo só meu. Eu queria tanto...! Tentei bastante, é verdade, mas acabou não dando certo. Os livros ensinavam até como expulsar um Poltergeist, mas nada diziam sobre o que fazer para atraí-lo.

Nesta época eu estava quase às portas do meu primeiro emprego, mas enquanto isso não acontecia o tempo que me sobrava era muito bem empregado para satisfazer todas as minhas curiosidades. Acabei realmente enveredando para o lado do Espiritismo. Havia muito mais material à disposição do que sobre Ocultismo e também a possibilidade de visitar algum lugar onde pudesse vivenciar a coisa na prática.

Nesta altura eu já tinha lá meus 12 ou 13 anos e meus pais não mais exerciam sobre mim todo o domínio que gostariam. E eu perambulava aonde me desse na telha. Descobri um Centro de Macumba nas imediações do colégio e resolvi xeretar por lá. Na sexta-feira, dia da reunião, aboletei-me num dos bancos para assistir à sessão.

Os espíritos “desciam” e encarnavam nas pessoas, que mudavam as vozes, a expressão do rosto e a atitude do corpo.

Mas... não sei. Sinceramente falando... aquilo parecia tão tolo! Não pensava que o contato com os espíritos pudesse ser tão medíocre, tão “fraquinho” assim. No meu entender, quase nada se aproveitava daquilo. Tão distante daquelas histórias dos verdadeiros feiticeiros, carregados de poder e sabedoria. Eu sentia que estava cada vez retrocedendo mais. Mas não queria! Queria ir na direção oposta, na direção...do Oculto!

Lá no Centro a impressão que eu tinha era que os tais dos espíritos estavam sempre tirando um barato com a nossa cara! Tinha o “Marinheiro”, o “Zé Pilintra”, e daí prá frente. Alguns às vezes já se intitulavam “demoninhos” mesmo. Sei lá se eu engolia aquela história! E a fumaceira dos cachimbos que eles fumavam, então! Atacava minha rinite.

Ainda assim eu insisti e freqüentei as reuniões durante dois meses, na esperança de que o negócio melhorasse e eu pudesse sair mais edificado. Certa noite, chamou-me a atenção uma garota até que bastante jovem que parecia ter recebido um espírito. Levantei-me e fui para perto dela, sentando-me ao seu lado.

Como é o seu nome? - Indaguei. — Pretinha. — Pretinha?! Mas você é branca! — Eu só queria ver qual seria a resposta dela.

Ela mantinha o rosto abaixado e sussurrou:

— Não...! Este aqui é só o corpo dela. Eu estou usando o corpo dela, entendeu?

— Entendi. Mas quem é você?

— Ah, eu sou um espírito desencarnado.

— É? E você é bom ou ruim?

— Eu sou um bom espírito!

— Que bom. E como foi que você morreu?

— Morri atropelada.

— E que idade você tinha?

— Eu tinha cinco anos.

Ao escutar aquilo não pude deixar de vibrar. Ela era um Poltergeist!

— Você não quer me acompanhar esta noite? – Indaguei prontamente.

Ela virou a cabeça de lado e explicou:

— Eu não posso...! Só dá para ficar aqui até a meia-noite. Se eu não voltar, depois não posso descer de novo.

— Quer dizer, então, que você só fica até meia-noite!?

— É. Depois disso descem outros espíritos mais fortes do que nós.

— Então você não pode me acompanhar?

Em resposta ela sacou duas conchinhas do bolso, cuspiu dentro e selou a ambas com cera de vela vermelha. Olhei atentamente. Aonde ia dar aquilo? Ela colocou o estranho objeto dentro de um invólucro vermelho e estendeu-o a mim, balançando-se:

—Guarde este patuá. Enquanto você o tiver eu sempre estarei com você.

— Mas você não disse que à meia-noite tem que voltar?

— Se eu não puder estar, mando outro espírito para você. É só você me chamar! — Ela aproximou o rosto bem perto do meu e, enquanto expelia uma baforada comprida de cachimbo, sussurrou: — Quando eu estiver perto você vai sentir este cheiro.

Ela sorria de leve e eu procurei enxergá-la bem nos olhos.

— E o que é que você quer em troca?— Eu já estava bem ciente de que nada é de graça neste mundo (e talvez até fora dele!).

— Bom... — Fez a Pretinha. — De vez em quando você põe uma garrafa de pinga prá mim embaixo de uma árvore. Também serve matar uma galinha e oferecer na encruzilhada, tá bom?

Pensei intimamente: “'Galinha, nem pensar.. .mas pinga até vá lá!”

Naquela noite eu saí da sessão empolgado ainda que questionasse um pouco:

— E espírito lá bebe pinga...? E ainda mais espírito de criança! Cada bobagem!!

Mas quem sabe eu estaria realmente acompanhado? Será que o Poltergeist estava mesmo comigo?! Seria tremendo! Minha cabeça já rodopiava pensando em mil e umas...mil e umas!!!

Não agüentei esperar. Catei o patuá dentro do bolso:

— Pretinha! Pretinha?! — Chamei com os olhos bem abertos e o nariz empinado, farejando um eventual cheiro de cachimbo. — Pretinha, você está aí?

Para meu desapontamento e surpresa, nada aconteceu. Chamei mais algumas vezes e nada!

— Eu sabia... — Desabafei, chutando uma lata. — Bela roubada! Isso não serve para nada!

Depois de alguns dias e várias tentativas frustradas, joguei fora a droga do patuá e acabei cansando de ir ao Centro. Sempre a mesma coisa! Mas se minha curiosidade havia de amainar um pouco depois da decepção... que nada! Ela permanecia insistentemente acesa como fogueira que não se apaga, sempre crepitando, pedindo mais lenha, mais lenha, mais lenha. E eu tratava de obedecer.

Estudei tudo que encontrei sobre pequenos rituais de invocação de espíritos e casas mal-assombradas. Na Escócia - acreditem ou não! - as casas consideradas assombradas eram mais caras do que as demais. Era um sinal de “ibope” ter o seu fantasma particular. E eu queria porque queria ter o meu!

Separei os rituais de invocação de espíritos que me pareceram mais fidedignos. A maioria parecia um monte de bobeiras. Outros, não havia como arrumar todo o material. Mas o que dava para fazer, fui fazendo. Teve uma certa vez que até copiei do livro as palavras para dizer durante a sessão. O autor garantia que estavam escritas conforme se pronunciavam. Parecia um encantamento de verdade e eu resolvi experimentar. Só que nunca dava nada certo! E nem sinal dos espíritos.

Algumas vezes havia necessidade de mais alguém. Eu tinha uma amiga quase tão aficionada quanto eu nesse assuntos. E juntos nós fazíamos a “caça aos fantasmas”, com toda seriedade. As únicas coisas que vez por outra funcionavam era a “Brincadeira do Copo”, popular entre as crianças, e a Tábua Ouija.

Mas tudo parecia... tão pouco! Tão pouco consistente! Não era possível, deveria haver algo mais.

E eu ia carregando comigo aquela frustração meio inconsciente, aquele desejo, aquela necessidade de conhecer... o que estava além do meu alcance!

Onde encontrar o que eu estava buscando???

 

Eu observava Marlon e minha cabeça ainda dava voltas. Não cessava de me questionar enquanto bebia a coca e comia a torta de palmito.

Aquele homem mais velho do que eu — bem mais velho! -bem vestido, de boa aparência, transpirando riqueza, poder, inteligência... por que tanta atenção comigo? Ainda meio desconfiado, questionava:

“Será que este cara... não é homem?! Será que tem algum outro interesse por trás disso?”

Apesar da desconfiança... — afinal aquilo fugia totalmente à normalidade — por um outro lado ele sabia das cartas!! E parecia conhecer-me profundamente. Mas a dualidade continuava. Que fazia aquele homem à minha frente gastando o seu tempo aparentemente tão precioso?

Nós falávamos de amenidades enquanto comíamos. E as recordações chegavam em “flashes” que duravam frações de segundo.....

A última carta que viera de S. Francisco trouxera consigo um questionário para ser respondido e enviado de volta. Aquilo estava fazendo pouco mais de três meses. A ficha que eu enviara era riquíssima em detalhes. Detalhes sobre tudo. Um perfil completo da minha personalidade e vida. O que eu pensava, como pensava, minha visão a respeito de diversos assuntos, sensações, sentimentos. E ia por aí afora. Perguntavam tudo à respeito de minha família, desde quantos nós éramos até que religiões eram praticadas, ou não; queriam saber sobre meus hábitos pessoais em todos os sentidos, até sobre minha maneira de me vestir, se eu preferia roupas claras ou escuras, número de sapato e calça, peso, altura. E fotografia!

Várias coisas que Marlon estava abordando haviam sido comentadas na ficha. Por exemplo, como eu entendia conceitos de Bem e de Mal; como encarava a figura de Deus e como via a sua paternidade; o que a figura do diabo representava para mim. Também havia questionamentos sobre se eu já tinha tido experiências tais como sentir-me observado por alguém ou como se houvesse uma presença à minha volta; se alguma vez vira ou sonhara com alguma Entidade espiritual; se eu já tinha ouvido falar ou entrado em contato com uma série de Organizações que vieram explicitadas em uma lista; se eu sabia algo sobre alguns nomes da história, dentre eles Abra Merlin e Crowley (como se eu não soubesse!).

Havia também uma sessão onde eu deveria analisar e dar minha opinião sobre diversos   pequenos   textos. Um deles em especial veio-me à mente naquele momento porque de certa forma Marlon abordou o mesmo tópico: a questão das forças ditas complementares. O texto dizia que a Igreja tinha se utilizado das Cruzadas e da Inquisição para aproximar o homem de Deus. O fim era este, a aproximação de Deus, mas o meio utilizado era um meio de sangue, de dor, de tortura, de violência. E aí a pergunta, meio capciosa, se “os fins justificam sempre os meios”. Depois acrescentavam novos dados para que eu discorresse a respeito: Deus é chamado também o Senhor dos Exércitos; em outras palavras, o Senhor da Guerra. Eu acreditava que os atos cometidos nas Cruzadas estavam em conformidade com o perfil de Deus? Em contrapartida, Deus também é Deus de Amor. Como eu encarava esta dualidade?

Lembro-me bem da minha resposta porque ela traduzia pensamentos muito íntimos meus, muito pessoais. Coisas que eu não comentava com ninguém porque não havia com quem comentar. Respondi que eu não achava que Deus fosse bom ou ruim, as oscilações fazem parte e são complementares. Existem momentos em que, para disciplinar um filho faz-se necessário elevar a voz, bater, exigir. Em outros é necessário o abraço e o carinho. Isto tudo não descaracteriza a paternidade, simplesmente faz parte do processo.

Eu não compreendia nesta época que a natureza de Deus não se assemelha em nada à natureza humana. E por isso fiquei muito contente quando Marlon disse a mesma coisa em outras palavras. Gostei do conceito apresentado a respeito de Verdades relativas e absolutas. Traduzia o que eu próprio acreditava no meu íntimo embora nunca tivesse me preocupado em expressá-los de forma tão coerente.

Outra questão a que dei muita ênfase foi quando me perguntaram se eu tinha atração especial pelo Oculto e nisso eu gastei muito tempo. Pois não parecia haver palavras suficientes para expressar o quanto essa sede era intrínseca dentro de mim!

Uma das minhas maiores buscas era justamente essa apesar de eu não saber definir exatamente o quê era o Oculto. Mas eu tinha que saber, tinha que haver algo mais!!! E engraçado como Marlon principiou seu discurso justamente definindo conceitos neste sentido! E pude perceber que a necessidade de conhecer o que eu não conhecia espelhava sede de conhecimento, e com isso eu vibrei. Era o que eu mais queria, conhecimento! Queria encontrar o que estava perdido, o que estava por trás do véu. O que ainda não existia aos olhos da consciência. Mas que estava lá!

Por isso Marlon me fascinava tanto com a sua conversa e eu não conseguia sequer pensar em ir embora. Como ele mesmo já dissera o conhecimento trás revelação, e a revelação trás libertação. Libertação do medo, da ignorância, da servidão aos dogmas e crendices. Como a história dos dois índios! E eu...ah! Como eu ansiava por aquela libertação.

Bebi o último gole de refrigerante. Com amabilidade Marlon arrancou-me de meus pensamentos:

— Você não vai ao colégio hoje?

— Não, hoje não! Vamos conversar mais. Achei interessante. Nunca tive a oportunidade de falar com ninguém a respeito desses assuntos!

— Você tem muita inteligência mas acho que foi pouco estimulado a pensar. Você tem buscado muita coisa por si mesmo e quando a gente busca sozinho são muitas as limitações. Existem certas coisas que, por mais autodidata que você possa ser, é necessário alguém para ensiná-lo.

— Com certeza, isso é verdade!

Ele deu-me um sorriso e recostou-se melhor, também disposto a dar seqüência na conversa. E continuou com um lance certeiríssimo:

— Quer dizer, então, que você é um admirador de Crowley?!

Aquela era demais. Ergui bruscamente as sobrancelhas.

— Ué?! — Olhei bem para Marlon. — Você viu a minha ficha. — Afirmei.

— É, eu dei uma olhadinha nela.

— Pô, mas eu mandei ela para os E.U.A, cara!

Ele deu de ombros :

— E daí? A Organização é a mesma.

— Como assim, Organização? - Eu não tinha uma idéia clara ainda. Estes dados não me haviam sido passados em momento algum.

— Eu já te disse. É uma Organização que se destina ao estudo do Oculto. A lançar luz sobre o que está encoberto.

— Mas é só isso mesmo? - Eu voltei na pergunta, interrompendo-o, enfático.

— Bem, existe um período em que você aprende. E depois você executa! Se não for para executar aquilo que se aprende, para quê aprender, então? Infelizmente é isso o que acontece nas escolas, você deve saber melhor do que eu. Garanto que você aprende um monte de bobeiras que nunca vai usar na vida! Adorei ouvir aquilo: — Mas nem!!

— Uma boa parte desta bagagem é pura cultura inútil. E eu sei que você anseia pela verdadeira sabedoria. — Marlon falava categoricamente. — Interessa aprender aquilo que tem algum significado. De tolices o mundo já está cheio.

Eu concordei, revirando a bolinha de guardanapo de papel amassado nas mãos, sem dizer palavra.

— Aliás, Eduardo, você tem algumas características muito peculiares. A data do seu nascimento, o horário, o local, tudo isso forma uma equação singular! Numerologicamente falando. Fazendo uma analogia corriqueira, por exemplo, com astrologia: a astrologia lida com probabilidades, certo? Como estatística. Da mesma forma você: os números da equação que envolve a sua pessoa demonstram que você tem uma predisposição nata, peculiar. Está compreendendo? A função numerológica que envolve o seu nascimento, a sua vida e a sua existência aponta para o fato de que provavelmente você tomaria o caminho que está tomando hoje. Essa predisposição — e entenda bem, não é predestinação — cresceu muito rápido dentro de você. Parece que as circunstâncias que o envolveram desde muito cedo potencializaram a predisposição. Você tem muito vigor, muita energia, e isso precisa ser canalizado para um fim realmente produtivo. Os números apontam para você como alguém especial, diferente, único. — Ele fez uma pausa e bebeu o fundinho da coca. — E é por tudo isso que você foi escolhido. Foi aceito. E participará a princípio do grupo que eu te disse, que estuda o Oculto. — Marlon abriu um sorriso mais amplo, simpático. - Considere-se um privilegiado!

Eu pensei um pouco e acabei questionando alto.

— Tudo bem, estudar o Oculto. Mas de quê me adianta isso? O que eu vou fazer com isso? — Eu queria espremê-lo ao máximo antes de concordar com ele.

— Ora... — Para ele parecia muito óbvio. — Este conhecimento vai gerar Poder. E Poder, em última análise, é o que o ser humano mais almeja. Porque o Poder está associado intimamente à conquista da Liberdade. A própria palavra “Poder” já diz isso, quer dizer “você pode... ou não pode” isto e aquilo. Quem não pode, não tem poder e nem controle da sua própria vida. O que eu quero que você compreenda, e que fique bem claro, é esta tríade progressiva: Conhecimento, que gera Poder, que resulta em Liberdade! O Poder fará com que você seja capaz de decidir a sua estrada, você poderá influenciar as circunstâncias à sua volta, poderá... enfim, você poderá escrever a sua própria história! Sem depender do aval de quem quer que seja.

Aquilo tudo entrava fundo dentro da minha alma. Cada palavra me cortava por dentro, me tocava, me fazia pensar e repensar. Ele expressava em palavras os anseios mais profundos do meu ser. Aquilo que eu procurara tanto tempo, sem encontrar!

— Chega de andar à deriva, Eduardo, como um barco sem piloto. Está na hora de você assumir o controle de sua vida, não é mais tempo de ficar sentado vendo a história passar. Deve fazer parte dela! Você tem um chamado e há um propósito a ser cumprido. Você é uma peça desta história.

Decididamente Marlon gostava de exemplos. E eles vinham sempre em boa hora:

— Fazer essa História acontecer é como construir uma grande Muralha. Aliás, você sabia que a Muralha da China é o único monumento que pode ser visto do Espaço? É grande... extensa... poderosa! Quantos tijolos não foram necessários para construí-la? Hoje estou te dando a oportunidade de vir a fazer parte de uma outra Muralha. E para esta Muralha nem todos os tijolos são chamados! Os escolhidos para participar dessa construção... ah, estes são especiais! Este tipo de união gera Força! A união pela união, sem um propósito comum, nada gera. Nem todo aglomerado de tijolos é efetivamente uma muralha, eles podem simplesmente estar amontoados e aquele montão não servir para nada. Mas a união de muitos tijolos com um propósito específico gera a tremenda Muralha! Gera a forma desejada. Isto é magnífico! Esta forma pode mudar a História, a concepção das pessoas, o destino da Humanidade.

Ficamos ambos calados algum tempo. Finalmente, assenti levemente com a cabeça:

— E este é o meu chamado? Fazer parte da Muralha?

— Ou ficar à deriva, jogado num monte de tijolos, sem saber o por quê da sua existência, sem fazer diferença alguma, contemplando a Vida, contemplando o Universo... contemplando apenas!

— Mas nunca ninguém disse que eu sou especial. Muito pelo contrário eu sou a ovelha negra, o que não vai dar em nada... — Eu não sabia como expressar melhor. — Sou o mal!

— Bom, isso eu também já te disse. O que é o Mal? O Mal não existe, você não é mau, nem bom. Você é simplesmente você. Bom e Mau são puros conceitos a nível de referencial. — Ele me encarou com um olhar sério acompanhado de um sorriso zombeteiro. — Você não é mau, Eduardo. Eu olho para você e não vejo este seu cabelo comprido... nem esta sua pulseira cheia de pontas... nem esta sua camisa rasgada... e nem estes seus broches esquisitos!

Comecei a dar risada de verdade:

— Não vê mas está falando, né?!

— Mas acontece que eu estou vendo além de tudo isso! Estou vendo a sua mente, o seu coração e a sua essência. E é isso que faz a diferença. Lembra do ditado popular que diz para não avaliar o livro pela capa nem o perfume pelo frasco, que o que vale é o conteúdo? Pois é... quando fazemos isso, quando olhamos o rótulo, tiramos daí uma idéia “a princípio”. E às vezes este preconceito, este conceito pré-estabelecido das coisas faz com que não tenhamos o privilégio de conhecer aquilo melhor. Né?

— Está certo, Marlon. — Chamei-o assim pela primeira vez. Ele havia praticamente derrubado as barreiras.

— Você já viu um diamante bruto? — Continuou ele.

— Não, nunca vi.

— Quem diria, não? Um diamante bruto é uma pedra horrível. Você acha na rua e dá um bico nele, pensando “isso aqui não vale nada!”. Mas se der o polimento, passar pelas máquinas, lapidá-lo... aquela pedra feia torna-se em algo de valor inestimável! É bonita, é agradável. Mas precisou do polimento.

“Será que ele está querendo dizer que eu devia cortar o cabelo?”, pensei comigo. E perguntei:

— Este polimento do qual você fala é externo?

— Eu estou usando uma metáfora, quero simplesmente dizer que precisa de polimento para haver brilho. Isto não necessariamente quer dizer vestir-se bem ou cortar o cabelo. Você já deve ter ouvido isto, que “Jade sem polimento não brilha”. Esta você conhece, não?

— Ah, conheço! É um provérbio chinês! — A cultura chinesa fazia parte do meu cotidiano e, pelo visto, ele também estava a par disso!!

— Então...você precisa de polimento! Um polimento na alma. Porque o corpo em si não tem brilho. Você já reparou numa pessoa triste, como os olhos dela são opacos? Mas os olhos de uma pessoa alegre brilham! E o que faz o olho brilhar ou não brilhar? E a luz que vem de dentro, que vem da alma. É esta essência que faz a diferença. Uma pessoa feia, não agradável aos olhos... mas alegre, expansiva, comunicativa, tem toda uma Magia especial, não é? Ao passo que outra, a mais bela de todas, linda, espetacular, mas agourenta e depressiva... quem suporta? Tanto uma como outra contagiam o ambiente à sua volta. Não depende do “invólucro”, mas do “conteúdo”. - Fez uma pausa. - E eu olho para você e vejo jade... vejo diamante! O seu estereótipo é meramente uma maneira de rebelar-se contra o sistema.

Daquela história de rebelde eu gostei e até aprumei-me na cadeira. Era a pura verdade.

— Através da sua forma de se apresentar, em outras palavras você está querendo dizer: “Olha, eu sou contra tudo isso. Eu não aceito! Sou contra, quero ser eu mesmo. Quero ser diferente”. Não é assim? Sei que você quer algo mais. Não quer terninho, gravata, ficar sentado atrás de uma mesa de escritório e dizer “Amém, amém” para a Sociedade.

— Uau!!! Tremendo! — Explodi em entusiasmo. — Agora eu concordo que você acertou mesmo! Nunca ninguém foi capaz de entender isso, a lógica mais simples de todas! Nem em casa!

— É, isso é outra concepção que a gente tem, né? Pai, Mãe, laço de sangue. Isso não liga nada, não une ninguém! Não foi mesmo Jesus que disse para a sua mãe “Que tenho eu contigo... mulher?”. Com essa frase Ele deixou bem claro que este vínculo não existe. Embora haja lá o mandamento, parece que está escrito algo como “Honrar Pai e Mãe”... não é? Jesus, aparentemente tão sábio, tomou uma atitude meio... estranha!

— É. — Eu nada sabia sobre aquilo por isso concordei. — Este vínculo familiar é questionável. Muitas vezes alguém que te adota tem muito mais valor e afinidade com você do que aquele que te gera fisicamente. - Ele tocou em meu ombro e eu me esquivei de leve apesar de toda a simpatia que já nutria por Marlon. — Eu não te conheço direito ainda, mas já tenho um profundo amor por você!

Estranhamente... estranhamente aquilo não soou demagógico, mas tremendamente sincero! E o seu semblante, o seu olhar, a sua postura, tudo colaborava para que ele parecesse ainda mais transparente. Não sei porque, acreditei nele. Era verdade o que me falava, eu sentia, por mais inusitada que pudesse ser a situação.

— Este amor vem de uma Força que você ainda não conhece, ainda não enxerga, ainda não divisa. Mas que está à sua volta o tempo todo! — Mudou o tom de voz, brincando de novo comigo mas mantendo a seriedade da conversa. - E você que veio prá cá tentando achar um cego, heim?!!

— Peraí!... Como assim?!! - Ele ainda me pegava de surpresa com os seus tiros tão em cima. Será que ele lia meus pensamentos? Marlon apenas continuou:

— Mas foi você quem acabou abrindo os olhos. Todo aquele que não conhece o Oculto está cego para ele, e você compreendeu isso hoje. Você queria olhar o mundo através dos olhos de um cego para descobrir uma maneira diferente de enxergar as coisas, não é? Mas não havia percebido que você também está sem visão. Fiz que sim, mudo.

— Hoje você está sem visão... embora deseje muito ver! Estou dando a oportunidade que você precisa para poder olhar com seus próprios olhos, de enxergar, de ver a luz! — Por fim a pergunta que eu já aguardava. — Você está disposto?

— Eu escrevi para isso mesmo. — Foi minha resposta sem pestanejar.

— Ótimo. Tem certeza de que é isto mesmo que você quer? — Tenho. Eu apenas fazia uma outra idéia de tudo. Quando li o artigo pensei que fosse algo ruim apesar de me despertar prá caramba a curiosidade. Mas, de fato, da forma como você colocou vejo agora que eu estava enganado. E quero conhecer melhor tudo isso! O temor vinha justamente como fruto daquilo que você mesmo já explicou... do desconhecimento! Taí! Eu quero experimentar. Ser, como você diz, lapidado, não é? As pessoas têm medo porque não conhecem, é como entrar numa sala escura. A gente entra com medo mas quando acende a luz: “Uff! Não havia porque ter medo, são só objetos!”.

— Você compreendeu bem. A oportunidade é justamente esta: apertar o interruptor e acender a luz da sala. — Ele sorria abertamente. - Convido-o a entrar na sala...a fazer parte de Muralha. E para isto, começamos com o Grupo de Estudos.

Eu estava contente. Havia sido selecionado. Alguém estava me dando crédito. E não era qualquer alguém. Marlon, como representante do Grupo, boa pinta, bem arrumado, culto, inteligente, riquíssimo... era um senhor cartão de visita!

Ele ergueu-se e eu fiz o mesmo.

— OK! Vamos então combinar assim: tem uma igreja católica próxima à sua casa, ali na avenida, certo? Na próxima terça-feira eu vou passar por lá, te pego mais ou menos umas nove, nove e meia da noite. Tudo bem? E a gente vai para a reunião.

— Ah hã. Tá bom. Obrigado, eu vou estar lá!

— Eu preciso ir andando agora. Tenho outras coisas para fazer e acho que você também. Medita a respeito, pensa no que a gente conversou. E me aguarda lá na terça. — Aproximou-se de mim e puxou-me para junto dele abraçando-me forte e calorosamente. Que coisa esquisita...!

— Só tenha certeza de uma coisa... — Concluiu ele. — O lugar aonde você está entrando é um caminho sem volta.

— Eu sei disso. Foi dito na carta. E por quê, hein?

— Porque estamos investindo em você. É como entrar numa Empresa, ser treinado, fazer cursos, etc. A Empresa investe e não tem interesse de te perder depois. Porque você tem valor. E olhe, você encontrou aquilo que sempre esteve procurando. Encontrou a sua verdadeira família! Você vai gostar do pessoal!

Definitivamente tudo aquilo inspirou-me confiança. Reconheço que após as horas passadas com ele eu não estava mais com o pé atrás em relação a nada. Ou melhor... quase nada! Eu tinha que fazer a minha última pergunta:

— Escuta, não me leva a mal, não! Mas... você tem família?...

— Tenho.

— Ah, tá! As sim... bom, você veio me procurar e tudo... por causa desses motivos que você falou, não é?

— Eu não sou “veado”. — Respondeu Marlon sem maiores preâmbulos. — Pode ficar despreocupado! Meu interesse é pela essência e não pelo corpo.

— Ah! Tá bom, então!! — Eu estava aliviado e suspirei mais leve.

— Fica tranqüilo. — Marlon riu descontraído e abraçou-me novamente do mesmo jeito, carregado de calor humano e força. E ainda apertou-me a mão. - Fica firme e te cuida! Tchau, e até terça!

Eu o observei ir-se embora. Fiquei meio letárgico por um tempo e deixei-me cair de volta à cadeira. Levei ali um bom tempo ainda, pensando... depois desci para outro setor do Centro Cultural, um local onde eu podia escutar música.

— Pô.....será que isto está acontecendo mesmo?

Ao som de “Hard Rock” eu continuei divagando a respeito.

— Será que eu vou com ele??? — Ao som tonitruante de “Hell's Bells” eu nem via o que se passava à minha volta. — Bom, eu não tenho mesmo nada a perder. Eu irei. Caramba.....alguém deu atenção prá mim!

 

Sem dúvida seria mais rápido se eu contasse logo o que aconteceu a partir daquela terça-feira que mudaria o rumo da minha vida. Mas eu não poderia deixar de lado o aspecto mais importante e que talvez tenha sido o que mais me impulsionou naquela direção. Algo que teve mais importância do que a própria sede pelo desconhecido.

Minha busca por uma família, a necessidade de aceitação, o preenchimento daquele vazio indescritível que eu tinha na alma. Isso não começou do nada. Teve as suas raízes.

E elas estão localizadas naquele período que começou de pois que deixamos a casa da minha infância, a casa em Interlagos.

 

Meu pai foi fiador de um “amigo” que lhe deu o maior bote. Não o pagou e de quebra, sumiu.

Sem ter como saldar as dívidas em poucos meses nossa casa em Interlagos foi penhorada. Tivemos que desocupá-la. Até aquele momento minha mãe nada sabia do problema. Foi um choque horrível, um Deus nos acuda! Meus pais brigaram muito e toda aquela harmonia que “parecia” existir foi desfeita. Minha mãe quebrou todos os pratos e a louça da casa. Mas de nada adiantou.

Lembro-me muito pouco da mudança pois ela foi feita enquanto nós, as crianças, ficávamos em casa de minha avó. Eu tinha onze anos, o Roberto, sete e o Otávio era praticamente um bebê, com três anos.

Com certeza era problema para valer!

Mudamo-nos para longe, lá para os lados da Lapa. Nossa nova casa era um apartamento mas apesar de tudo era até espaçoso. Meu pai iria comprá-lo através de financiamento.

Entrei correndo para conhecer tudo depressa:

— Pôxa, ainda tem um quarto só para mim! Adorei! — Minha privacidade e sossego continuariam mantidas.

Não posso falar nada sobre minha mãe, mas quanto a mim, me pareceu ótimo. Ficava no primeiro andar e a minha janela, na lateral direita do prédio, dava para uma ruela estreitinha que terminava numa vila de casas lá atrás.

A rua da frente era sem saída e quase defronte ao prédio o espaço era ótimo para brincar. Havia ali sempre um bando de moleques da própria região. Depois de observar um pouco saí para travar relações. Alguns eram da minha idade, outros mais velhos.

Eles estavam sempre jogando bola. Sentei na ponta da calçada e, como não soubesse o que fazer, fiquei vendo. Ninguém ligou para mim :

— Ô, guri, vê se te liga e fica um pouco mais para dentro da calçada. — Disse um deles para mim. — Vai acabar levando bolada!

Eu obedeci silenciosamente. O jogo acabou e ninguém me chamou para brincar. Voltei frustrado e triste para casa. Não havia outra alternativa senão divertir-me sozinho assistindo desenhos na TV, escrevendo minhas histórias em quadrinho e voltando à saga das aranhas e formigas. Todos os meus amigos haviam ficado em Interlagos ou na escola que eu havia acabado de abandonar.

Já sabia que podia desistir do futebol de rua. Mas depois que a decepção amainou não me incomodei muito. Ainda mais porque naquele tempo eu adorava fazer pipas. Passava toda a tarde entretido e caprichando ao máximo. Um dia saí feliz da vida ostentando uma bela pipa em formato de arraia, multicolorida, grandona e com uma longa cauda como de cometa. Lindíssima!!!

Os meninos estavam lá. Me acendeu uma chamazinha de esperança, talvez a hora fosse boa para tentar novamente travar relações amigáveis. Mas mudei a estratégia. Eu queria fazer um “ciuminho”, chamar a atenção deles.

— Depois... — Pensei. — Se ninguém ligar, pelo menos eu estou com a minha pipa e fico brincando no outro canto da rua. Mas quem sabe alguém puxa papo comigo?

Saí com a pipa embaixo do braço olhando de esguelha como quem não quer nada. O bandinho gritava, correndo atrás da bola.

— Vai, meu! Passa a bola!

— Manda leve, manda leve!

Ninguém nem me olhou. Que coisa! Um pouco depois disso foi dado um “tempo” e todos sentaram na calçada, suando. Era minha deixa. Saí correndo para dar linha na pipa e passei bem pelo meio do campo deles.

Desta vez percebi muito bem que eles me olharam com olhos um pouco compridos. Cochicharam entre eles. Todo exultante eu dava mais e mais linha aproveitando o vento. Que auge!

De repente, vi pelo rabo-do-olho que um deles aproximava-se de mim . Empinei o rosto e fiz cara de quem está fazendo a coisa mais importante e difícil do mundo.

— Ô, meu! Legal esta pipa aí, heim, cara?! — Disse-me o garoto.

— Pois é! Passei a tarde toda para fazer! — Eu alternava a vista entre a pipa e o rosto dele. — Legal, né?

Ele olhava para o alto protegendo os olhos com a mão: — Voa bem. Maior barato!

Naturalmente eu gostei da aproximação e não queria desperdiçar a oportunidade. Ofereci gentilmente: — Quer empinar um pouco?

— Opa! Manda aí! — Sem esperar maiores convites ele tomou a linha das minhas mãos. — Beleza!!

Foi dando mais linha, alguns leves puxões, e foi-se afastando pela rua em direção ao grupo. Até aí, tudo bem. Afinal ele tinha mesmo que aproveitar o vento. Mas para minha surpresa o garoto começou a recolher a pipa enquanto olhava para mim com expressão zombeteira. O resto do bandinho começou a erguer-se e todos tinham o mesmo arzinho caçoísta no semblante.

Fiquei olhando sem entender bem. Mas algo me dizia que talvez fosse hora de voltar para o apartamento.

— Ei! Você não vai devolver a minha pipa?! — Gritei. O moleque já segurava minha linda pipa nas mãos. Caiu na risada e o resto do bando com ele:

— Laranja!! Agora ela é nossa! E você pode ir já para casa. — É isso aí, vê se te manca!

— É proibido empinar pipa aqui!

— Mas eu não sabia... - Ainda tentei argumentar. — Pois agora já sabe! Hi, Hi, Hi!!!

Virei as costas e saí dali. Agora, além de muito frustrado eu estava também com raiva. Depois disso quantas pipas eu fazia tantas eles me roubavam. Percebi que eu era a nova brincadeira do pedaço. Bom... talvez esta fosse a maneira de eu me relacionar com eles. Mas já nem caprichava nas pipas. Fazia tudo mal feito porque elas tinham mesmo vida muito curta.

O bando da rua me tomou para Judas. A solução que encontrei foi brincar na vila atrás do prédio. Ali eu estaria seguro. Os garotos da rua que se danassem!

Então peguei minha bicicleta e esgueirei-me pela ruazinha lateral, procurando passar despercebido. Lá atrás, diante das casa da vila, havia um espaço super legal, tão bom quanto o da rua. Todo contente achei que tinha achado o meu espaço. Saí pedalando com um sorriso de orelha a orelha.

— EI!!! - Três garotos que eu não conhecia gritaram atrás de mim. — Ei, guri, chega mais!

Eles se aproximaram assim que parei. Seriam estes os meus novos amigos? Dei um sorriso de leve.

— Oi.

— Oi, nada, moleque! — Falou o de camiseta vermelha. — Da onde é que você é?

Não gostei muito do tom dele mas respondi, desconfiado:

— Eu moro ali no prédio.

O de boné riu dando-me leve pancada no braço. Olhou para o prédio logo adiante.

— Chiiii, o moleque é novo no pedaço, Zeca!!

— Mudei há pouco tempo. — Respondi ao Zeca.

O terceiro garoto não falava nada, só brincava com o estilingue nas mãos olhando-me com desdém.

— Pois é! — Retomou o Zeca. — Acho que você tá mesmo por fora, moleque! Desta vez vai passar em branco, mas é o seguinte: aqui é lugar da Turma da Vila, sacou, bocólão? - Ele aproximou o rosto do meu em atitude intimidadora. — Ninguém da rua entra aqui, senão é porrada na certa! Deu prá entender ou eu preciso repetir?

Mundo cão!... Pelo visto eu estava chegando tarde em todos os lugares, já estava tudo ocupado e não parecia haver espaço para mim. Os outros dois também me encaravam firme.

— Deu prá entender, sim! - Eu encarava de volta. - Mas acontece que é chato ficar lá na rua e eu pensei...

— Azar seu se o povo de lá também não te quer. É bom você ficar sabendo que a Turma da Vila não se bica com o povo da Rua. Você mora no prédio, não é? Pois então! Você é da rua e ponto final. Vê se não torra o nosso saco e vai já caindo fora daqui!

— Sei, mas onde é que eu vou andar de bicicleta se a rua é deles e a vila é de vocês?

O do estilingue falou pela primeira vez, segurando minha camiseta pelo colarinho: acho que a boa vontade deles comigo tinha acabado.

— Olha aqui, guri, a paciência já esgotou! O problema é seu, te vira e não apareça mais por aqui! Você mora lá na rua! Vai se entender por lá! Agora! — Deu-me um peteleco na ponta da orelha e eu sabia que aquilo era somente um “amigável” aviso.

— Vai carregando o teu bagulho embora senão vai sobrar, heim? Ninguém precisa de almofadinha filhinho-de-papai por aqui! — Retomou o Zeca.

— Tchauzinho, seu laranja!

Eu havia sido escorraçado. Sem dó. Voltei pedalando pela ruazinha, injuriado. Passei por baixo da minha própria janela. E tão entretido estava em meus próprios pensamentos que me esqueci da molecada da rua...

— Olha lá, pessoal!!! — Eles quase foram a delírio. — Olha só a bicicleta do bacana!

Eles já vinham todos correndo para mim. Caí na realidade de repente.

— Olá, pessoal.

— Olá! Vamos dividir a magrela um pouco? Deixa a gente dar uma voltinha?

— Depois eu!

— E eu!!

— Você nada, eu falei primeiro!

Pelo visto eu era o único que tinha uma bicicleta no pedaço. E não havia o que fazer. Agora eles já haviam visto! Que coisa. Depois daquele episódio eu não podia sair com a bike porque, sempre que o fazia, todos a usavam menos eu!

Aos poucos fui me cansando. Estava cheio de tanto abuso! Agora nem pipa e nem bike, aquilo já estava mesmo sem graça.

Um dia eu estava ali catando aranhas num terreno baldio e o grupinho jogava bola em meio a urros, como sempre. Acabei me entretendo e esqueci deles. Quando passei de volta eles já não estavam mais lá, haviam debandado rua abaixo para o passatempo de final de tarde: jogar cascas de laranja, ovos e restos de comida na turma que passava pendurada nos trens e que ia para casa. Naquele trecho a linha de trem passava bem pertinho e era um alvoroço para a molecada. Eu só ficava olhando, com semblante meio entristecido. Vinha me sentindo muito só desde que havíamos nos mudado para o apartamento.

Eles voltaram aos pulos, rindo e falando alto, comentando quem acertou o quê. Hoje em dia há um muro alto separando a rua dos trilhos mas, na época, nada havia que os impedisse.

Deram comigo ali parado. Eu conhecia a todos de vista e a alguns de nome.

— Pô, bacana! Você tá incomodando. Faz um favor, vai prá casa, vai!

— Mas eu não estou a fim de ir para casa agora. — Normalmente eu costumava retrucar um pouco.

— É, mas acontece que a partir de agora você fica proibido de sair de casa a não ser que pague o pedágio.

— Que pedágio?!

— É a nova onda que inventamos prá carinhas assim bacanas como você! — Ele chegou mais perto de mim, com as mãos à cintura. — Ô, meu, tem queijo lá na sua casa?

— Tem, sim. Por quê?

— Então sobe lá e trás queijo prá gente.

— Daí posso ficar na rua!?

— Pode!!! — Responderam em coro.

E a “nova onda” pegou. Volta e meia eu tinha que pagar um pedágio para alguém para poder ficar na rua. Era tudo tão diferente de Interlagos!... Lá não havia meninos como estes, folgados, encrenqueiros, que se uniam em bandos e dominavam o pedaço, judiavam dos demais.

Naquela época eu era inocente. Tinha sido muito protegido até então e com 11 anos, o que eu conhecia do mundo, afinal? Sempre em escola particular, amiguinhos da minha idade e de boas famílias, clube, roupas novas...

Falar em roupa......

— Pôxa, você é um tonto mesmo, heim? Você não usa calças jeans, não, ô, bacana?

— Quá, quá, quá!! Olha só a roupa do moleque! De fato, eu nunca usara um jeans. Minha mãe nos vestia com roupas bem “fora de moda” para aquele bairro. (Pensando bem, acho que ela nos vestia bem fora de moda para qualquer lugar da cidade). Eram calças tipo sarja, com pregas, camisas esportivas, sapatos do “Dic”. Não dava mesmo para enganar. Tudo me denunciava, meu jeito de falar, minhas expressões, meu modo de agir, meus brinquedos... e minha roupa! Em meu novo bairro eu não passava de um filhinho de papai mesmo, um otário! E essa, agora, que fazer?!! Tudo que eu tinha aprendido como certo agora eu via que estava errado pelo ponto de vista dos meus novos vizinhos.

Pensei que as coisas se acalmariam quando as aulas reiniciassem. Chegou fevereiro e também o primeiro dia de aula. Meus pais haviam esclarecido que eu iniciaria a quinta série em escola pública, mas que tudo seria muito bom para mim.

Minha mãe levou-me ao meu primeiro dia na “Escola Experimental”. Era uma escola muito grande para os meus padrões, eu nunca vira nada assim. Praticamente tudo era diferente do que eu conhecia. Em primeiro lugar, o colégio parecia não conseguir comportar todos aqueles alunos, os corredores estavam super cheios, havia correria e gritaria por todos os lados. E muito pouca gente com pulso firme para “por ordem no galinheiro”. Depois, os alunos eram esquisitos, vestiam-se esquisito, andavam esquisito e falavam muita gíria. Apenas o ginásio funcionava de manhã, portanto a grande maioria dos alunos era mais velha do que eu.

Recebi e dei algumas ombradas no meio do empurra-empurra até conseguir finalmente descobrir que eu pertencia à quinta “C”. Achei a tal sala e sentei-me lá no fundo, à espera de que algo acontecesse, que alguém entrasse e desse alguma orientação de qualquer tipo. Havia já alguns alunos por lá. Eu não sabia ainda mas a quinta “C” era a única classe aonde meus pais conseguiram matricular-me. Em breve eu viria a descobrir o por quê deste “privilégio”. As turmas “A” e “B”, mais seletas, não dispunham de vagas. A “C” era a turma mais marginalizada e o lugar dos repetentes.

Um cara sentado sobre a mesa do Professor, sem qualquer motivo aparente, começou ostensivamente a encarar-me. Senti-me mal e subitamente comecei a achar que talvez aquela não fosse a minha classe:

— Ah, eu acho que a quinta “C” não deve ser aqui, não! - E tratei de ir recolhendo as minhas coisas. — Vou procurar de novo, não estou muito à vontade nesta sala...

Saí mas tive que voltar. A sala era realmente aquela, para meu desgosto. Havia mais gente agora e quando entrei todos voltaram os olhos na minha direção. Pelo visto eu era o único novato. Mas não sei por que aquela cara de poucos amigos, especialmente dos mais velhos. Tinha verdadeiros marmanjos na classe, com 16 ou 17 anos, e espelhando em cada gesto e cada palavra toda a revolta contida na alma.

Logo entrou o Professor, um sujeito meio gordo de bigodinho bem aparado e óculos de aro azul. Parecia irritado e caminhou com passos rápidos até a mesa, onde literalmente atirou as coisas. Virou-se para nós com ar autoritário e mau humorado ao mesmo tempo:

— Aviso desde já que hoje estou de péssimo humor! — Vociferou à guisa de bom dia. — E sabem por quê? Porque infelizmente vou ser obrigado a aturar esta turma o ano inteiro!!! Estendeu o dedo ameaçadoramente enquanto dava voltas pela frente da sala. - Mas não pensem que serei o único prejudicado! Vocês também terão que me aturar! — Ele falava com raiva na voz e acabou até cuspindo longe alguns perdigotos.

A maioria olhava para ele com ar irônico, provocador, relaxado; os mais rebeldes, espalhados nas cadeiras com as pernas abertas e os cotovelos fincados nas mesas, mascavam chicletes ostensivamente.

— Vocês jogam pesado e se julgam muito espertinhos! Eu sei bem com quem estou lidando e não pensem que os agitadores da turba passam despercebidos aos nossos olhos. Vocês pensam que podem fazer o que quiserem. Mas vou deixar claro o seguinte: falam o que quiserem na aula de outro Professor, porque eu também sei jogar pesado. Aliás, para quem já levou bomba tantas vezes... uma a mais, uma a menos não faz diferença nenhuma!

O aluno que estivera a me encarar estava sentado a poucos metros de mim e riscava as costas da cadeira da frente com a ponta do canivete. Outro, ao meu lado, com uma barba rala, puxava e repuxava para fora da boca o chiclete, fazendo um barulho desagradável. Podia-se ouvir buchichos aqui e ali, entremeados com risadinhas abafadas. Ninguém estava nem aí!

— Vocês estão bem avisados. É bom tomarem cuidado comigo. — Aquilo tinha o tom da ameaça. — Não sou flor-de-cheiro!!

Era até difícil de acreditar. Aquela era realmente minha nova escola... meus novos colegas... e que Professor! Que bronca!!!

Ele voltou as costas para a turma e principiou colocar na lousa os títulos de algumas literaturas. Acho que a aula ia começar e então eu arrumei minha carteira como de costume: O estojo do lado esquerdo, o caderno ao centro, a borrachinha no canto superior direito e as canetas enfileiradinhas à direita, preta, azul e vermelha.

Percebi que os alunos ao meu lado começaram a encarar muito, trocando cotoveladas, piscadelas, apontando na minha direção com o queixo. Risadotas. Mas eu procurei não dar muita bola e copiar o que estava sendo colocado na lousa.

De repente o garoto ao meu lado passou a mão na minha borracha. Olhei e achei que ele só queria usar um pouco. Fiquei na minha.

Quando a aula terminou, como ele não a tivesse ainda devolvido, virei-me para cobrar: — E a minha borracha?

Ele inclinou-se para mim rindo entre dentes e encarando-me: — Quer dizer que a belezinha quer a borrachinha de volta? Não respondi mas fiquei encarando tão firme quanto me foi possível. Logo juntou gente em volta para assistir à cena do “novato”. Mas eu estava calmo. Que gente mais folgada!

—Quer dizer que você não vai devolver a minha borracha? — Vem pegar! - Respondeu com a cara já meio fechada o tal garoto. — Você não quer de volta? Então vem pegar, pivete! — E jogou a minha borracha dentro da cueca!! — Vem pegar!

— Essa não! — Respondi instantaneamente. — Eu não quero mais isso aí!

— Vem pegar, pivete!! — Ele rebolava debochado à minha frente.

A maioria ria, aderindo ao jogo:

— Pega aí, vai!

— Você não quer mais a borracha?

— Não quero mais. - Tornei a dizer.

O garoto parou de rebolar e assumiu um ar sério:

— Tudo bem, vai! Hoje eu vou dar uma de bonzinho com o coitado que está começando hoje!

Tirou a borracha de dentro da calça e a colocou propositalmente bem ajeitada na minha carteira, no mesmo lugarzinho.

— Eu não quero mais essa borracha. Tá contaminada!

Aquele que me encarara logo cedo aproximou-se mais. O nome dele, como eu viria a saber, era Paulo:

— E tem mais, viu, sua bostinha? — Ele me olhava com desprezo no semblante. — Aqui a gente só usa uma caneta !Você não precisa desta aqui! — Pegou a caneta preta e “Pec!”, partiu-a. — E nem desta outra! — “Pec!”. Partiu também a vermelha e quase encostou o nariz no meu, inclinando o corpo para ficar bem à minha frente. — Entendeu, bostinha?!

Quanta coisa dá para acontecer em 5 minutos!

Finalmente o Professor entrou na sala e eles me deixaram antes que eu pudesse responder qualquer coisa. Estava chocado. Não havia outra palavra para descrever meu estado.

Durante as aulas que se seguiram eu trocava olhares com eles, o Paulo e o Barão (o que me roubara a borracha), mas também com mais uma meia dúzia que insistia em me encarar torto. Eu sentia, no íntimo, que havia um preço a pagar. Um preço para ocupar aquela carteira. Eu ia ter que pagar.

Chegou por fim a hora do Recreio. Mas lá não era “Recreio”, era “Intervalo”. E não caísse na bobeira de usar o primeiro termo! Aliviado, eu rebusquei na mala em busca do lanche: sanduíche e suco de fruta.

— OPA! — Era o mesmo da borracha, o Barão.

“Mais essa!”, pensei erguendo os olhos para ele.

— Pô, cara! Que coisa! — Como os demais, Barão falava gingado, malandro, usava muito as mãos e o corpo a cada frase. Nunca tinha ouvido um palavreado tão... tão...

— Aeh, me descola aí um picho! — Gritou para mim.

Molecada mais chata! Quase que senti saudades da turma da rua! Os outros sujeitos ao lado do Barão falavam ao mesmo tempo:

— Olha só que otário! O cara traz lanche de casa!

Barão retomou, impositivo:

— Me vê um picho aí!

— Picho? — Balbuciei. — Que picho?

— Laranjão!!! Picho, bufufa, prata, carvão, grana! Não sabe de nada, né?! — Fez com mau modo um terceiro que tinha o nome de Juca. — Ele quer dinheiro, burraldo! Essa é a única linguagem que você entende?

Dei de ombros.

— É, mas dinheiro eu não tenho. Só trouxe o meu lanche!

Barão se aprumou, fazendo pose para os demais:

— Tudo bem, como eu já disse, hoje estou bonzinho porque é o primeiro dia do pirralho. Serve o rango, já que está sem picho mesmo. Manda ver!

Para indignação minha, eles comeram o meu lanche e tomaram o meu suco como lobos. E sequer me deixaram um pedaço. Lembrei-me do Paulo riscando a cadeira com o canivete. E tive que engolir também a história do lanche. Eram maiores e estavam em bando. Como ir contra aquela turma?

Logo após o intervalo era aula de educação artística. Deram-nos argila para modelar. Eu não achei lá muita graça no passatempo bobo. Imagine só os marmanjos!

A Professora saiu um pouco e a classe ficou sozinha. Sentado ao meu lado na mesma mesinha, um cara de blusão jeans desfiado nas mangas deu-me um cutucão:

— Aeh, guri. Que que tu pensa que é isso aqui? - Perguntou ele naquele sotaque tão característico.

Ele olhava sua obra recém acabada com ar de orgulho e voltou-se para mim com a boca meio torta:

— E aí?

Eu olhei e não respondi de pronto, analisando se aquilo seria realmente... aquilo!

— Heim?!! — Ele me encarava.

— Bom...eu acho que você esculpiu algo assim como um... algo parecido com... um pepino! - Eu não ousava arriscar nenhum outro palpite.

Ele inclinou-se na minha direção:

— Pô, meu! Isso aqui é uma rola!

— Rola, é?

— É, seu trouxa, e sabe para quê serve isto? — Passou o braço em volta do meu ombro e disse baixo algo que não convém publicar.

Me pegou tão de surpresa que fiquei mudo. Achei que eu não tinha entendido muito bem. Fiquei olhando de olhos muito abertos para ele.

— Quer ver como é?

Eu continuava sem fala até que alguém gritou de outra mesa:

— O, Tucano, enfia esse negócio aí no Fred!

Sem hesitar o Tucano esqueceu de mim e pegou a argila esculpida. O Fred estava de costas, debruçado ao lado de um grupo de meninas, do outro lado da sala. E sem a menor cerimônia Tucano amassou a tal da rola no traseiro dele.

O Fred nem quis saber quem foi. Virou para trás que nem um boi bravo e enfiou a mão na lata do Tucano que, sinceramente, acho que não esperava o revide tão em cima! Engalfinhados, os dois rolaram pelo chão; cadeiras caíam e a turma já formava um cerco em volta, com gritos de disputa por um ou por outro. Pelo visto aquilo era o supra-sumo do divertimento.

Confesso: eu estava trêmulo e nem conseguia sair do lugar. Meio atrás dos demais pude vislumbrar a cara do Tucano que já brotava sangue. Nunca havia visto uma briga ao vivo!!! Meus joelhos tremiam e apoiei sem querer a mão sobre minha própria argila, destruindo minha escultura. Tudo bem, eu não sabia mesmo o que estava modelando.

Para terminar aquela gloriosa manhã e a estréia na nova escola meu avental ainda foi batizado com várias solas de sapato. Meus colegas decididamente tinham ido com a minha cara!

— Meu Deus do Céu...! Não gostei muito dessa escola...

Daí para frente eu tive que me adaptar. Canetas... levava só uma. E nada de arrumar a carteira! Os lanches... não tinha jeito: quantos eu levasse, quantos me roubavam. Aliás eles roubavam tudo o que interessasse a eles. Aprendi que dinheiro eu só podia levar dentro da meia.

— Êh, pivete, me vê aí uns mangos para a cantina! — O Juca me abordou no pátio. Mascava goma e sua cara não era das melhores. Na cabeça o mesmo gorrinho de sempre.

— Eu não tenho dinheiro.

— Larga mão! Manda aí a grana!

— Já te disse que não tenho!

— Pois eu vou te dar uma geral! E se eu encontrar te encho de porrada além de ficar com o picho!

Fiquei quieto enquanto ele me revistava. Foi fácil achar o lanche, ele me deu um “cróc” na cabeça e tomou meu sanduíche. Era sempre assim. Na verdade eu não tinha nenhum amigo. Nem na rua, nem na vila e muito menos na quinta “C”!

Um dia um guri me abordou. Era mais ou menos da minha altura e usava bermudas compridas sob o avental. Todo folgado ele atravancou bem na minha frente de pernas afastadas e braços cruzados. Que pinta! Encarou-me com o queixo empinado e ar de quem se acha o máximo. Eu não costumava dar muita bola para olhares e fui passando reto.

— Você aí!! — Ele nem mudou de pose.

— Que que é?! — Perguntei já na defensiva.

— Você sabe o que é o F.B.I.?

— F.B.I.? Não sei, não. Olha...

— Eu faço parte do F.B.I.

— Ah, é? Legal.

— F.B.I. quer dizer “Federação dos Baixinhos Invocados”!

É, de fato ele era meio mignon mesmo. E sem o menor aviso o tal do garoto encheu a mão no meu ouvido que eu até senti zunir por dentro. Não deu tempo nem de pensar! Eu estava fulo de raiva! Estava farto! Mas quem iria me defender??? Comentar com meus pais acho que não ia adiantar muito.

No dia seguinte não é que o tal do F.B.I. me aparece de novo pela frente?! Vinha acompanhado de um outro. Eu olhei feio para eles mas abriram um sorriso amigável. Pena que eu confiasse tanto na inexistente boa índole do ser humano!

— Oi! Eu queria te apresentar o meu amigo, o Dalton.

Olhei para o Dalton que parecia inofensivo:

— Eu também sou do F.B.I. Você já sabe o que que é?

— Sei, sim, sei muito bem! — Eu ainda estava desconfiado. “ZUM”! Reconheço que fui muito tolo deixando-os chegarem tão perto. O tapa no outro ouvido doeu mais do que o anterior. E o ego doía mais do que tudo!.... Saíram correndo, rindo-se a mais não poder.

Naquele mesmo dia a Professora de ciências nos ajuntou em grupos e distribuiu uma lista de material para cada equipe. Deveríamos trazer o necessário para a experiência da semana que vem. A mim coube arrumar uma vela.

Reconheço que metodicidade era o meu forte. De uma forma até exagerada! Em casa fiz de tudo para enfiar a vela branca e comprida demais dentro do estojo de lápis. Virei, revirei, apertei, estiquei o estojo... e nada! Droga de vela.

Ao invés de simplesmente jogar a vela dentro da mala eu acabei por descobrir a brilhante solução! Cortar um toquinho da porção superior, mais ou menos dois centímetros. Era o que eu pensava ser mais do que suficiente para a experiência. E coube direitinho no estojo!

Na aula de laboratório, cada grupo em sua mesa, expusemos o material enquanto a Professora fazia o possível para tornar tudo aquilo muito interessante. Montamos os conjuntos e o pessoal reparou na minha vela:

— Pôxa, cara, que muquiranice, hein, meu?! - Reclamou o Barão, que infelizmente estava no meu grupo.

— Olha só o tamanho da vela do idiota! - O Paulo não estava achando graça nenhuma.

— Que vela pequena, hein? Combina com a sua?!

— Quá, quá, quá!!! Velinha!

Só que o Paulo me apertou:

— Pois tem uma coisa, seu otário. — E o tom da voz dele me fez engolir em seco.

Continuei olhando firme. Pelo menos eu procurava sempre manter a postura de quem não se deixa intimidar.

— Se esta porcaria não durar até o fim da experiência você está ferrado, moleque! Juro que desta vez não vou alisar e na saída você leva um pau!!

— É isso aí!

Eu olhei de relance para a vela, já acesa.

Mas...oh, azar! Algumas meninas certinhas resolveram interessar-se demais pela combustão de oxigênio e a Professora foi falando, falando...

— Acho melhor apagar um pouco. — Resmunguei em tom baixo.

— Não!!! — Foi a resposta unânime. — A de todo mundo está acesa.

Comecei a suar frio. Eles me encaravam, deliciados com aquele clima de terror. A torcida se dividia: “Será que apaga? Será que não?”. E as ameaças vinham aos borbotões, sussurradas, com olhares maldosos que faziam questão de deleitar-se no meu rosto preocupado.

— É, seu babaca! Você vai ver o que vai sobrar de você!! Só mingau.

E a voz da Professora que não parava nunca:

— Vocês verão que a chama perpetuar-se-á enquanto houver oxigênio na câmara.

Ôxa!... O pavio da vela quase tocava o pratinho num pequeno lago de espermacete e, de repente... Pufff!... apagou! Fechei os olhos por alguns segundos antes de encarar o pessoal. Nossas cabeças quase que formavam um cerco ao redor da mesa, tal o interesse em acompanhar bem de perto o trágico destino da vela. Fulminaram-me:

— Taí!!! Tão metido a playboy e apronta uma dessas prá cima da gente! A única tarefa dele era trazer a vela e nem isso ele fez direito!

— Pois é, esse bunda mole nunca mais vai fazer trabalho com a gente! — Eles eram todos amigos e eu era o único tolo que vinha de fora.

Senti-me pior do que um rato!

Mas eu estava de olho no Paulo, calado até então. Ele não ia deixar barato e chegou tão perto que o cabelo comprido dele até roçou no meu.

Fiquei assustado. O Paulo tinha fama de mau, era bem mais velho, com aquele ar meio de marginal. Eu não queria encrenca com ele.

— Você vai ver, seu pivete. Acabo com a sua raça na saída!

Não adiantava eu querer me explicar diante deles por isso fiquei quieto. Eu queria que todos fossem para o Inferno!

A Professora acudiu em tempo quando percebeu o tumulto em nossa mesa. Diante dela eu tentei me justificar, envergonhado e assustado ao mesmo tempo.

— Achei que ia dar......

— Não tem problema, outro grupo empresta um pedaço para vocês! Eu mesma trouxe material a mais. — Sorriu. — Sempre acontecem algumas eventualidades!

E ela foi pessoalmente cuidar de arranjar outra vela. Quase suspirei audivelmente de tanto alívio. Mas, pôxa!... por que me distraí tanto??? Só senti o metal roçar de leve na pele do meu rosto, e o barulhinho, “TIC”...num movimento rápido o Paulo cortou todo o meu cabelo, todo o pedaço acima do ouvido até a frente!!! Meu cabelo era um pouco comprido e o chumaço caiu sobre a mesa à minha frente.

Virei-me rápido, a mão tocando a cabeça onde antes estava o cabelo. Sem pensar, quase gritei:

— Pôxa, o que que você pensa que é?!!...

Não tive tempo de acrescentar mais nem uma palavra. O Paulo me segurou forte pelo antebraço, apertando a ponta da tesoura no meu pescoço. Fiquei imóvel. Ele me espetou de leve e resmungou entre dentes:

— Cala a tua boca. Nem se atreva a dar na vista aqui dentro. Não queira adiantar a tua hora, senão eu te furo aqui mesmo. É na saída que eu vou te arrebentar!

Senti medo, ódio, revolta. Ninguém tomava o meu partido! Todos se limitavam a assistir o que acontecia. Eu não sabia brigar, não sabia me defender daquele tipo de agressão. Não tinha a menor idéia do que fazer... meu ódio crescia dia a dia e eu vivia pensando no momento em que me fosse permitido me vingar!

Naquele dia escapei da escola nem sei como. Eles estavam distraídos e para mim aquela era a deixa. Cabulei a última aula e saí na surdina, me mandei. Não podia atinar com o motivo pelo qual eles me odiavam tanto. Será que era simplesmente porque eu era diferente da maioria deles, porque era ingênuo e tolo, porque era ainda uma criança, porque era branco...? Poderia haver uma infinidade de motivos mas eu não achava que nenhum deles fosse tão substancial assim.

Corri, corri, suando, com o coração batendo na garganta. Em casa menti a respeito do cabelo, disse que havia sido só um acidente. Eu mesmo tentara cortá-lo e acabara estragando tudo. Minha mãe acreditou na desculpa e tratei de acertar o corte com quem sabia fazer. Uma orelha de fora e a outra coberta estava realmente uma coisa!

Numa segunda vez fizeram um pouco pior: grudaram um monte de chiclete bem no alto da cabeça. Era impossível pensar em tirar. Dessa vez fui escondido ao barbeiro e só voltei para casa com o cabelo já bem aparado. Seria difícil explicar aquele novo acidente.

Nos dias que se seguiram eu era a chacota! Todos sabiam o que acontecera no meu cabelo. Aquilo estava começando a me marcar.

“Eles não me bateram ainda mas estou vendo a hora em que isso vai acontecer.” — Pensava comigo mesmo, apreensivo. —”Mas talvez seja até melhor, uma cara roxa não vai passar tão desapercebida como tudo o mais que eles estão fazendo. Ninguém vai poder alegar que não está vendo!”

O clima era tenso para mim desde o primeiro minuto em que eu punha os pés dentro da escola até o último. Eram ameaças morais, psicológicas e físicas, um tipo de massacre silencioso. Eu tinha sempre que estar fugindo de alguém!

Ir ao banheiro do colégio também era motivo para muito susto. Eu já ouvira contar coisas horríveis! Pancadaria, assaltos, violências sexuais até!! Eu não sabia direito o que era uma violência dessas mas também não queria saber. Só entrava no banheiro se tivesse a total certeza de que não havia ninguém lá dentro. Trancava-me na cabina e ficava empoleirado sobre a tampa do vaso para que meus pés não fossem vistos. E antes de sair sempre olhava por baixo da porta!

Suportei sozinho e de bico calado. Mas meu coração estava cada vez mais cheio de uma tremenda revolta.

Até dos estudos acabei me desinteressando, perdi todo o gosto que tinha em aprender. Eu havia pensado que seria como na escola de Interlagos, que aprenderia coisas novas e interessantes, teria amigos e poderia também brincar bastante. Mas tudo revelou-se uma tremenda decepção!

Além dos problemas com os colegas eu também tinha chegado um pouco mais adiantado na matéria do que os demais. Todas as perguntas feitas em aula eu respondia antes dos outros. Caminho errado. Aquilo valeu-me o apelido “Sabidinho”. De início realmente não me incomodava mas à medida que os meses foram passando até aquilo tornou-se insultante!

Então larguei mão de participar muito das aulas. Não abria mais a boca e, numa vã tentativa de ser aceito, dei um basta em tudo que se referisse à escola. Passei a me comportar como os demais, tentei usar jeans, abdiquei do estojo de lápis. Um caderno velho e cheio de orelhas acompanhado de uma caneta levada no bolso de trás da calça era o suficiente. Mas já era muito tarde para me enturmar. O meu rótulo estava mais do que consolidado. Mas aí comecei a ir muito mal em inglês, matéria até então desconhecida para mim. Não havia quem me ajudasse. Decidi que detestava inglês! E o apelido “Sabidinho” virou “Saburrinho”. Eu estava cheio!!!

A gota d'água foi quando de fato encostaram a mão em mim com maldade. Foi por causa do lanche. Não adiantava esconder nada, até uma bala que eu tivesse no bolso, eles me revistavam e ficavam com ela.

Então uma vez eu resolvi levar dois lanches. No intervalo eu desembrulhei o primeiro sanduíche e só fiquei esperando. Era questão de segundos, ia aparecer alguém e ficar com ele. Aí talvez eu tivesse a chance de comer o segundo sem que percebessem. Dito e feito, não demorou muito. O problema foi que nem bem o primeiro virou as costas com meu lanche e apareceu o Barão. — Passa aí o rango.

— Não dá, acabaram de levar.

— Como, “levaram”? O lanche era meu, como é que você dá prá outro cara?!!!

— Não posso fazer nada, já te disse que levaram! Mesmo assim ele fez questão de me revistar. DROGA! DROGA! DROGA! O Barão deu com o outro sanduíche enfiado no bolso do casaco, por dentro do avental. — Ah!

Ele arrancou com força o saquinho e, aí... deu-me brutalmente uma bofetada no rosto! E virou as costas sem dizer mais palavra e se foi, desembrulhando o que era meu.

Difícil dizer o que senti. Eu só fiquei olhando para ele. Vi-o afastar-se com o cabelo comprido caindo pelas costas. Não chorei. Nunca chorei. O máximo que eu podia fazer era encará-los sem abaixar o olhar, sem dar um pio, sem dizer palavra alguma. Acho que isso os irritava mais ainda e talvez estivessem exagerando só para ver até onde eu agüentaria. Mas eu não lhes daria este gosto: nem um pio, nem uma lágrima, nem uma implorada diante deles, nada! Este era o meu trunfo.

Mas, trunfo ou não resolvi dar uma comentada de leve com os meus pais. E em casa abordei o assunto sem entrar muito em detalhes:

— Sabe, mãe, é que o pessoal não vai muito com a minha cara...!

— Imagina, menino, de onde é que você tirou isso? — É verdade, mãe, sabe...? Eles...bom, eles não gostam muuuito de mim, não!

— Agora pode até ser, mas com o tempo eles vão gostar de você, sim, Eduardo! — Não vão, não, mãe! Eu sei!

Minha mãe deu um basta na louça da cozinha voltando-se para mim um tanto espantada com a minha insistência:

— O que é que está acontecendo, afinal?

Tive que desembuchar, em partes atenuadas.

— ..... e depois eu também estou começando a ir mal, detesto estudar lá! - Concluí. - Será que não daria para mudar de escola?!?

Minha mãe olhou bem para mim. Acho que ela não entendeu muito bem a situação.

— Mas, meu filho, daqui a pouco o ano já está acabando! Como que você quer mudar de escola agora? — Voltou-se para a louça. — Agüenta só mais um pouco, no ano que vem a gente vê o que dá para fazer e você muda de escola!

Fiquei quieto. Mas acho que mais tarde ela deve ter dito alguma coisa a meu pai e ambos decidiram ir até o colégio após terem-se informado melhor comigo do que vinha ocorrendo.

A diretora era uma mulher baixinha e gorda que eu vira poucas vezes desde que entrara naquela escola. Chamava-se Dona Ondina.

— Em que eu posso ajudá-los? — Manifestou-se ela diante de meus pais. — Problemas com o garoto?

Meus pais passaram a expor a série de pequenos atos de violência cometidos contra mim. Para espanto deles ela não pareceu surpresa. Apenas franzia de leve a testa enquanto ouvia e seus olhos ficaram um pouco mais apertados. Puxou um suspiro de dentro e então falou:

— Sim... infelizmente esta escola está bem aquém do que eu gostaria, mas esta é a realidade que vivemos hoje. As escolas públicas deixaram de ser Instituições de Ensino e acabaram tornando-se lugares aonde a violência e a marginalidade correm soltas e acabam, ao invés de coibidas, mais estimuladas ainda. É uma triste realidade, mas não há o que fazer com esse garotos... sem um policiamento real. E note que eu estou falando de policiamento mesmo, e não de simples bedéis de classes. Isto podia funcionar no seu tempo e no meu mas não funciona nas nossas escolas de hoje em dia.

— O Eduardo é pouco mais do que uma criança, não estava preparado para isto. E nós sequer sabíamos o que ocorria porque ele não nos contou até que a situação se tornasse realmente insustentável !

  1. Ondina olhou minha ficha.

— Estava tendo ótimas notas no início mas é evidente que o seu rendimento caiu muito. É uma fase crítica. O conceito de “Coletivo ganha muito significado. Realmente esta é uma fase difícil e decisiva no que diz respeito ao futuro da sua personalidade. O Eduardo é um aluno diferenciado na quinta “C”, mas a turma é tremendamente problemática, tem antecedentes de longa data.

Meu pai já estava cansado de tanto palavreado e nenhuma sugestão sobre o que seria feito para melhorar a situação.

— Bem...e como ficamos?

Dona Ondina apoiou as mãos firmemente sobre a mesa e falou categoricamente:

— Minha opinião é definitiva: Seria melhor que os Srs. realmente pudessem tirar o garoto da escola.

— Isso não é possível agora, estamos passando por sérios problemas financeiros! — Interrompeu minha mãe.

— Infelizmente a escola não pode tomar nenhuma medida mais séria. Como eu já disse, isto requer um carro de polícia na frente do colégio e policiais que pudessem estar direto aqui dentro para manter aquilo que entendemos como “um mínimo de ordem”. Na verdade, seria até melhor alguns leões-de-chácara! — Ela procurava descontrair o ambiente. — Mas os Srs. sabem tão bem quanto eu que a prefeitura não pode arcar com este ônus. Estamos de mãos atadas.

Não havia nada a ser feito. No fundo eu já sabia disso desde o início. Meus pais orientaram-me a ficar longe dos meninos e, no ano que vem, eu iria para outra escola. Como se fosse possível ficar longe deles!...

 

Às vezes, nos finais de semana meu pai ia ao estádio de futebol ver o jogo ao vivo. Naquele domingo, embora não fosse lá muito amante de futebol, eu fui junto e vestido à caráter na camisa do São Paulo.

Na volta, já na rua de casa reparei numa Kombi branca que nos ultrapassou e encostou logo adiante para despejar um garoto das redondezas que também voltava do jogo. A Kombi estava cheia de moleques que faziam uma algazarra mais ou menos! O garoto que desceu morava na minha rua mas eu o conhecia muito de longe, só de vista mesmo porque ele nunca estava por ali.

Eu ia passando ao lado do meu pai quando o tal menino olhou para mim. E não sei se por pura obra do acaso ou porque o São Paulo havia ganho o jogo e isso deixava a todos muito felizes, inacreditavelmente ele puxou papo comigo.

— Êh, meu! Você também é são-paulino, é? — Gritou ele de longe para mim.

Fiquei surpreso e satisfeito com a pergunta:

— Sou, sim! Você também viu o jogo? — Gritei de volta.

— Vi, estou voltando de lá agora!

Meu pai resmungou em tom que só eu ouvisse e me chamou logo:

— Venha cá, Eduardo, não vai se meter com essa ralé.

Eu fiz que não ouvi.

— Legal! - Diminuí um pouco o passo. — Eu também fui ao estádio, super jóia, né? Que jogo!

— Pô, cara, maneiro, altos lances! Só deu fina neste jogaço!

A medida que eu retardava o passo meu pai aumentava o dele e volta e meia olhava para trás, me chamava.

— Eduardo, vamos!

— Peraí, pai, já vou.

— Como é o nome do seu pai? — Perguntou o menino.

— Otávio.

Ele bradou com as mãos em concha:

— Seu Otávio, deixa ele ficar aqui conversando um pouco com a gente!

E não é que a conversa engrenou? Não sei o que deu no moleque, mas eu não conversava assim amistosamente com ninguém fazia muito tempo. A turma da Kombi também ficou por ali um bom tempo, conversavam entre eles porque eram mais velhos. Volta e meia um deles brincava com meu colega, numa boa. E ninguém se implicou comigo. Na verdade, nem sabiam quem eu era e isso ajudou muito. A maioria deles morava ali mesmo no pedaço, mas eu não conhecia ninguém.

— E como é o teu nome? — Perguntou por fim o menino.

— Eduardo.

— Essa não! Não diga! Caramba, o meu também! É isso aí, cara, nós somos “brother” mesmo, tu é gente fina! E são-paulino ainda!

— Engraçado, eu nunca vejo você na rua!

— É que nem dá tempo, cara! Eu estou direto com o povo da “29”! — Apontou para o restante da rapaziada. — Quase todo mundo aí é de lá.

— “29”?! Que que é isso?

— Pô, meu, nunca ouviu comentar? Turma da mais entrosada, maneira mesmo, maior barato! Se tu quiser te apresento, cara. Quer ir lá hoje?

— Iiih, mancada! Hoje não vai dar, meu pai vai pegar no meu pé. Mas eu quero conhecer a turma, sim!

— Não tem galho, vamos durante a semana que teu velho nem vai se tocar, ocupado no serviço. Teu velho trabalha, né?

— Trabalha! — Dei risada com a pergunta.

— É, pois é, nem todo mundo trabalha!! De repente... vai saber.

E o papo rolou longe, conversamos muito tempo ali na calçada. O pessoal da Kombi foi dispersando mas eu e Eduardo continuamos engrenados tagarelando sobre tudo que é assunto. Ele era engraçado e extrovertido e eu, quando deixado à vontade, sabia me relacionar perfeitamente bem com quem quer que fosse. Parece que finalmente encontrava alguém com quem pudesse ter afinidade. Estava satisfeito! Arre que custou!...

Eduardo tinha quase a mesma altura que eu mas devia ser um pouquinho mais velho, beirando os seus 12 ou 13 anos. A conversa terminou com o acerto do horário para ir conhecer a tão falada “29”. Ficou marcado para o dia seguinte, segunda-feira, no final da tarde.

Saí da escola no dia seguinte com uma sensação gostosa de expectativa misturada com curiosidade, alegria e uma certa insegurança. Esta última resquício daqueles malfadados meses de tanta rejeição. No entanto se todos fossem como Eduardo eu tinha certeza de que tudo iria bem!

Foi a primeira vez que me afastei sozinho da rua de casa e da vila. Sentia-me um tanto estranho longe do nosso apartamento, da rua sem saída com linha de trem no fundo, do bandinho que corria atrás da bola e de tudo que eu conhecia. Ao dobrar a esquina o mundo se descortinou de uma forma diferente diante de mim. Não era mais simplesmente como ir à escola, agora era um compromisso particular e isso era muito importante!

Eduardo marcara encontro comigo na esquina e quando cheguei ele já me aguardava. Fomos caminhando lado a lado na avenida barulhenta e larga. Avistava-se logo adiante o shopping, a churrascaria e dois postos de gasolina frente à frente. No caminho Edú foi me contando sobre a turma.

A sede da “29”era uma casa abandonada na esquina de uma travessa da avenida. Hoje mora gente lá, o jardim foi arrumado e a fachada está pintada. Decerto seus moradores não têm nem idéia do passado daquele lugar. Mas naquela época a turma mais bacana que já havia conhecido reunia-se ali. Na casa de número 29, totalmente abandonada, coberta de mato na frente e sem portão separando-a da rua. Olhei bem quando Edú apontou de longe:

— É ali!

A frente da casa era de um tom amarelo-claro e estava descascada pelo efeito do tempo e da falta de manutenção. Havia um corredor ao lado, provavelmente uma passagem de carro, toda de cimento bruto. A porta de entrada ficava meio escondida lá no fundo, em cima de um pequeno terraço, e o mato que cobria todo o jardim escondia parte da escada que levava à entrada.

Fiquei fascinado. Aquilo tinha um cheiro de aventura! Que bom que Eduardo ia me apresentar. Era muito ruim estar sempre só.

Fomos entrando pelo corredor lateral. Ninguém usava a porta da frente. A tarde estava calorenta e Edú disse que eles deveriam estar para fora ainda. De repente, sem muito aviso, dois garotos saíram correndo de lá do fundo do quintal, dobraram o corredor e quase nos atropelaram. Um deles pulou com brutalidade nas costas do que vinha na frente, enforcando-o pelo pescoço. O de baixo instintivamente se inclinou e virou o outro de ponta-cabeça, que acabou indo para o chão. Eles gritavam, fazendo uma balbúrdia com aquela brincadeira.

— Êh, caras, peraí!! — Exclamou Eduardo. — Vem cá que tem visita!

Acho que eles nem escutaram e voltaram correndo pelo mesmo caminho.

Eu e Edú fomos entrando. Quando dobramos o corredor em direção ao quintal uma cena incomum descortinou-se diante de meus olhos. Havia ali um grupo de mais ou menos uns quinze rapazinhos, a maioria girando em torno de seus 13 a 15 anos, alguns um pouco mais velho, talvez 16 ou 17. Mais novos, como eu, eram minoria. Eles falavam alto e conversavam enquanto Edú muito à vontade foi cumprimentando o pessoal:

— E aí, meu irmão?! Tudo em cima? — Ele saudava os amigos com um tapa de mão espalmada, mão com mão.

— Chega mais, irmãozinho!

— Este aqui é o meu xará, gente fina prá dedéu! — Edú me apresentava aos companheiros como se nos conhecêssemos há tempo.

— Toca aqui! — Era a resposta. — Amigo do Eduzinho é nosso amigo também!

— Seja bem vindo, cara, a casa é sua. Querendo cerveja ali atrás tem! É só pegar!

Apertavam minha mão e Eduardo rodava comigo pelo meio deles. Todos procuraram me deixar à vontade, cada um do seu jeito. Alguns eram efusivos e sorridentes; outros, de pouco papo mas não menos simpáticos, limitavam-se à um aceno acompanhado de um “Valeu” ou um “Tá em casa”.

Eduardo foi pegar uma cerveja para si e me estendeu outra. Comecei a reparar melhor no ambiente. O crepúsculo estava caindo e a iluminação era feita à base de diversas lanternas e velas, porque a “29” não tinha o privilégio de ter energia elétrica ligada. Ali no quintal, ao ar livre, estavam espalhadas algumas cadeiras de praia e uma de balanço meio capenga, mas a maioria deles se acomodava no chão mesmo, encostados nas paredes ou formando círculos. O chão estava muito limpo e havia um par de vassouras encostadas à um canto. Um rádio tocava música.

Reparei que três rapazes sentados no chão dividiam um único cigarro. Pensei lá no meu íntimo:

— Por que será? Vai ver eles são muito pobres!

O cigarro deles tinha um cheiro forte e diferente daqueles que meu pai fumava.

Eu e Edú nos acomodamos para engrenar no papo, afinal aquele era o motivo de estarmos ali. Eu estava impressionado como todos respeitavam-se mutuamente e, mais do que isso, respeitavam Edu e os menores. Tremendo!

Eu viria em breve a saber que a maior parte deles não tinha uma vida muito fácil. Garotos vindo de lares destruídos, da pobreza muitas vezes, com pais e irmãos envolvidos com a polícia outras tantas, muita história de alcoolismo e drogas dentro do seio familiar e mesmo no meio deles.

Mas gostei deles!

Do jeito de se tratarem, como se todos fizessem parte de uma grande e única família, chamando-se mutuamente de “Mano”, “Brother”, “Chegado”, “Companheiro”.

Eu creio que inconscientemente eu buscava uma família. Faltava aquele aconchego dentro de casa, aquela aceitação. Eu não sabia exatamente o quê me faltava, só sei que eu precisava demais.

Quando chegamos perto do grupo que fumava o cigarrinho dividido eles simplesmente disseram, à guisa de cumprimento:

— Vai aí?

Eu não entendi.

— Vai aí?? — Olhei para Eduardo.

— Eles tão te oferecendo o cigarro.

— Ah, obrigado, mas eu não fumo!

Um dos caras da roda ofereceu de novo:

— Que é isso, dá só uma tragadinha! Não quer mesmo uma provada?

Eduardo se intrometeu:

— Pega leve, ô, maninho, que ele ainda é cabaço! — E para mim. — É que este é um cigarro espeeerto! — E riu abertamente diante do meu ar de interrogação. — Olha só aqui!

Eduardo tomou nas mãos o “cigarro esperto” e o colocou debaixo do meu nariz.

— Sente !

Tinha um cheiro esquisito. Eu peguei e já ia colocando na boca, não ia mais recusar um convite tão insistente.

— Não, não! Assim não! — Edú impediu que eu fizesse errado. — Você não encosta na boca, só traga de longe, assim, puxa bem e enche o pulmão!

Ele próprio deu uma longa tragada. Voltou-se para os demais:

— Da boa essa, hein? — E estendeu novamente para mim.

Eu procurei imitá-lo mas não acertei bem. Eduardo devolveu o cigarro ao grupo, que continuou entretido.

— Esquenta não! Você aprende, meu irmão! Ainda tá cabaço mas você aprende. Depois hoje é melhor não ficar balão porque aí você não aproveita! O bagulho é caro e hoje não tem muito.

Metade do que eles diziam eu não entendia. Mas deixei passar e nada perguntei.

Acabamos nos entretendo numa roda, conversando e rindo animadamente. O pessoal era super animado e eu estava bem à vontade. Como toda Gangue que se preze, eles tinham muito o que contar sobre as brigas do final de semana e outros assuntos de interesse comum. Se bem que estes últimos fossem mais ou menos uns cinco por cento da conversa. O que tocava fundo o coração de todos eram os “Paus”... isto é, as brigas!

No meio de uma torrente de gíria pesada, vários palavrões e muita gargalhada, latinhas de cerveja rodando junto com pacotes de bolacha, eu fui descobrindo mais a respeito deles. E a conversa era tanta que, se deixasse, varava a madrugada!

Conheci vários garotos legais com quem pude conversar melhor depois que Eduardo ficou meio alegre de tanta cerveja e esqueceu de bancar o anfitrião. Mas eu já estava enturmado.

Conheci garotos que num futuro muito próximo seriam grandes amigos.

Havia o Tistu, aquele que estava lutando com um outro logo que entramos na casa. Ele era moreno claro, o cabelo roçava na altura dos ombros, sotaque carregado de malandro, uns 16 anos mas gente boa prá valer.

Tinha também o Júlio, de 15 anos, com o cabelo parafinado muito liso e comprido. Só que tinha a pele clara. Vim a saber que ele morava com a mãe mas já não tinha pai.

O Bolinha era baixinho e troncudo, um moreno claro que devia ter muitos problemas em casa porque se recusava a falar na família. Aliás ele sequer ia para casa, era muito raro. Normalmente ele morava ali mesmo na “29”. O nome dele de verdade era Helton mas o apelido vinha do fato de que ele usava muita “bolinha”. Eu ainda não sabia bem o que era bolinha, mas depois descobri que era droga. Com 14 anos ele já era quase dependente. Com o tempo realmente viria a ser.

O Éder era só um pouco mais velho do que eu, tinha uns 13 para 14 anos e me pareceu muito legal. Ele morava com a família, mas era uma coisa meio virtual porque o pai dele era caminhoneiro e vivia com o pé na estrada. Ele tinha também dois irmãos mais velhos que quase nunca estavam em casa. Por isso a liberdade dele era total.

O Márcio era um dos mais velhos do grupo, tinha 18 anos e me tratou muito bem apesar da diferença de idade. Era mulato, com cabelo comprido e cheio de tranças rastafari. Ele também ia muito pouco para casa, preferia morar ali mesmo na “29”.

A maioria deles era de mulatos ou morenos claros. Havia poucos brancos, eu, Edú, Júlio e mais um ou dois apenas.

Enquanto Eduardo ria à valer com outros dois, aproveitando o efeito da bebida, Tistu e Júlio aproximaram-se de mim querendo saber tudo, se eu tinha irmãos, onde morava, o que fazia. Fui falando e perguntando também sobre eles e sobre a turma. Descobri que a Gangue era muito maior, mas a maioria não estava presente no momento.

Acabei ficando por lá até umas onze horas da noite, totalmente esquecido do horário.

Quando cheguei em casa o tempo estava quente por causa da minha ausência. Minha mãe estava toda desesperada em casa e meu pai já havia rodado várias vezes a rua, a vila e as imediações perguntando aos vizinhos do meu paradeiro. Normalmente eu ficava sempre por ali mesmo depois da escola e meu pai costumava assobiar da janela do apartamento tão logo caía a noite. E eu sabia que era hora de entrar. Imagino que naquele dia meu pai deva ter ficado até sem boca de tanto assobiar... e nada de mim!!!

Levei altos pitos assim que entrei com a cara mais lavada do mundo. Passava das onze! Em quase 12 anos de vida eu nunca aprontara uma dessas. Mas sempre acaba tendo uma primeira vez.

— Eu esqueci da hora, pai! — Fui explicando rápido antes que me sobrassem alguns cascudos.

— E posso saber aonde é que o senhor esteve até agora?!!

— Fui com Eduardo conhecer um pessoal super-bacana logo aqui pertinho...

— Eu já te disse que este tal Eduardo e toda aquela gente da Kombi não presta!!! São um bando de maloqueiros, não precisa de bola de cristal para adivinhar isso, vai ver tem até marginal no meio! Você é um garoto de família e eu não quero que você me comece a andar com este tipo de gente! Você está me entendendo??! Eu não criei filho para isso! E agora vá já dormir que amanhã tem aula. Imagine só, ficou até estas horas com esse bando de desocupados!

Eu obedeci e fui para o quarto porque era a única coisa a fazer no momento.

— Eu não acho que eles não prestam. — Raciocinei. — Me trataram tão bem... são super-legais!

Com este pensamento não esquentei a cuca com o que meu pai dissera, e adormeci. Tinha adorado a Gangue! E realmente as advertências entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Todas as tardes depois da aula eu fugia para a “29”. Só que procurava chegar cedo em casa para não despertar suspeitas de ninguém. Mas como aquilo me desagradava! Sempre no melhor da conversa eu tinha que sair. Além disso não era todo mundo que podia estar lá logo no início da tarde. Que droga!

O pessoal, já acostumado com a minha presença, insistia para que eu ficasse mais tempo mas eu sabia que não dava. E ia para casa no maior tédio, a contragosto. Ia ficar em casa mas...e daí? Meu coração já estava longe. Em pouco tempo eu me sentia mais em casa na Gangue do que em meu próprio lar.

Alguns poucos dias depois arrumei mais confusão com minha família por causa da turma. Eu havia ficado matutando sobre o que fazer para não ter que depender do horário imposto pelos meus pais. Só havia uma solução,

— Mãe, tô muito cansado hoje. Vou deitar mais cedo, tá?

Meio entretida com a novela, só veio um boa-noite de resposta sem maiores comentários.

Fui para o quarto e tranquei a porta por dentro sem fazer barulho. Ninguém pôs tento em nada do que eu estava fazendo. Meu pai comia na cozinha escutando jogo pelo radinho e eu escutava os berros de Otavinho no quarto ao lado com Roberto.

Apaguei a luz e olhei pela janela até a rua. Estudei bem a possibilidade e resolvi sair mesmo. Não seria difícil escapulir, ficar na “29” sem compromisso de horário e depois subir de volta para o quarto.

Não deu outra. Em poucos minutos eu estava alegremente à caminho. Até aí tudo bem. Mas na volta o problema mostrou-se bem maior do que eu tinha previsto. Na pressa de sair, quem disse que eu me lembrei que não haveria como subir da rua até o quarto??? Não tinha onde segurar direito e nem onde apoiar o pé. Na minha aflição nem pensei em voltar até a Gangue e pedir ajuda ao pessoal. A alternativa era tocar a campainha...

Meus pais já estavam preparados para dormir, afinal já era quase meia noite. Quando meu pai abriu a porta vi seu rosto mudar rapidamente de espantado para indignado.

— Você??!! — Ele parecia não acreditar no que via.

Minha mãe apareceu por trás do ombro do meu pai:

— O que foi, Otávio?

— É o seu filho, dona Odete! — Ele me puxou para dentro bruscamente, agarrando-me pelo ombro.

— Mas você não disse que estava indo dormir, Eduardo?! —Reclamou minha mãe.

— Eu... disse?... Acho que não, você entendeu mal, mãe!

— Sua mãe entendeu muito bem! — Gritou meu pai puxando-me pela orelha. — Pelo visto você fugiu para se encontrar com aquela gentinha e agora vem com mentiras em casa! Até quando isso vai continuar?! — Ele deu-me um pescoção. — Eu vou repetir pela última vez: você não se encontra mais com esse tal Eduardo e essa maloqueirada toda, ouviu??! Está proibido disso, ou vai ver com quantos paus se faz uma canoa!

— Calma, Otávio!

Meu pai estava nervoso de verdade. Pegou-me pelo braço arrastando-me até meu quarto.

— E vai já deitar!!! — Pegou violentamente na maçaneta e a girou com força: CLAC!

Meu pai continuou girando a maçaneta outras vezes, empurrando a porta com o corpo: CLAC, CLAC, CLAC, CLAC, CLAC! Porcaria. Agora eu estava gelado. Deixara a porta trancada por dentro.

— Você trancou a porta, Eduardo?

Assenti com a cabeça.

— Então dê logo a maldita chave, o que é que você está esperando?

— Calma, Otávio!

— A chave não está aqui... — Eu respondi meio em pânico.

— Como não está?!! — Ele já estava aos urros. — Você perdeu a chave??? — Ele me sacudia pelo braço.

— Não, está aí mesmo, do outro lado da fechadura, eu tranquei a porta por dentro antes de descer pela janela!

Meu pai deixou de ter paciência e acabou me dando uns tapas bem merecidos. Deu a maior trabalheira aquela porta, não houve como empurrar a chave e meu pai teve que desmontar a fechadura.

Que mancada!

Mas com tudo aquilo eu fui ficando mais esperto e era cada vez mais difícil meus pais suspeitarem que eu estava na Gangue. Eu simplesmente dizia que estava na escola fazendo trabalho em grupo... ou na biblioteca... ou na casa de alguém. E continuei na minha, sem dó!

Logo na primeira semana de “29” eu pude ir aos poucos conhecendo o restante da turma e também o interior da casa que eu não chegara a ver no primeiro dia.

Na cozinha, local de acesso ao resto da casa, havia apenas a pia e um lampião roubado, uma espiriteira e um recipiente de vidro cheio de água que o pessoal trazia para beber. Tinha também a caixa de isopor para o gelo e as cervejas. O lampião iluminava bem. Mas no resto da casa a luz vinha de muitas lanternas e velas. A sala tinha só algumas almofadas espalhadas mas o pessoal nunca ficava muito por ali.

No andar de cima havia o banheiro com meio espelho quebrado e objetos de uso pessoal. E os quartos: um quartel-general repleto de colchões dos garotos que moravam lá. Espalhados pelo chão, percebi que não somente o Bolinha e o Márcio estavam naquela condição. Havia muitos outros que compartilhavam aquela casa como uma grande família: o Nenê, o Carlinhos, o Marcos, o Águia, o Fiúza, dentre outros.

Mas tudo era limpo, nada cheirava mal, não havia desordem. Até o banheiro era razoável.

Geralmente o pessoal andava com roupas “da hora”, bem transadas. Volta e meia vinham contando a última:

— Pois é, o cara maior trouxa, deu sopa e enquanto o Bolinha perguntava as horas eu “fiz a função”, “güentei” a carteira do goiabão na boa! Passamos na Ocean Pacific. Olha só que calça e que colete! — O Márcio sorria com os dentes muito brancos sobressaindo na pele morena, os cachinhos do cabelo pulando de lá para cá enquanto mostrava as novas peças do vestuário.

— Pô, coisa fina, agora você tem que dar um rolê por aí prá mostra prás “minas”.

Roupa era importante. “Minas” também. Só que havia um outro detalhe entre essas duas coisas importantes... o banho! Era claro que não havia água na casa. A turma já havia tentado encher a caixa d'água baldeando tudo em latas e baldes, mas dava trabalho demais. O banho de quem morava na “29” não era lá essa coisas. Mas no fim de semana, quando saíamos para dar uma banda, ir a festas, shows, ver e paquerar as “minas”, o banho tinha que ser mais caprichado.

Então, no terminal de ônibus, dava para comprar um banho: custava pouco e eles davam a toalha, o sabonete e um saquinho de xampu. Outra solução era tomar o tal do banho melhor na casa de alguém que tivesse uma “casa completa”. Na ausência da família, é claro.

Descobri que a maioria dos membros da “29” que morava com a família tinha enfrentado mais ou menos os mesmos tipos de problemas que eu enfrentava com meus pais. A família não queria saber de envolvimentos com “aquela gente”.

— Eles se acostumam com o tempo! — Haviam-me dito.

Eu não entendia porque tanta implicância. Eles haviam me tratado muito melhor do que os supostos garotos de família da rua, da vila e da escola. Eu não iria desprezar assim aquela amizade!

Mais ou menos uma semana depois do problema com a chave do quarto o Márcio, o Tistu, o Júlio, o Bolinha e mais alguns me chamaram com uma cara diferente:

— Catatau! Vem cá!

Esse ficou sendo meu apelido na Gangue porque (como o Catatau do Zé Colméia) eu era o menor da turma e estava sempre fazendo perguntas.

— Catatau, hoje é o dia do seu batismo! — Exclamou o Márcio.

— Batismo? E essa agora, cara? Que que é isso?! — Eu já estava meio rindo.

— Não, Catatau! — Fez o Júlio. — É sério. É importante ver como você se sai nisso!

Eles não estavam brincando e assumi uma postura mais sóbria.

— Nisso o quê?

— Bom, — Falou o Tistu. — estamos a fim de comer qualquer coisa. Vai lá no supermercado e güenta qualquer coisa.

— Güentar o quê? Pôxa, eu não sei fazer isso, meu!

— Mas tem que começar a aprender, Catatau! Manda bala, você é capaz!

O Eduardo, que escutava o papo, se intrometeu:

— Vamos lá, Catatau, eu te acompanho e te dou os toques.

Saímos e eu não falei nada na rua. Sabia que aquilo era uma espécie de teste. Um batismo realmente. Eu não ia decepcioná-los.

O shopping avultou-se à nossa frente. Ele havia sido recentemente inaugurado e estava lindo, impetuoso no cruzamento das duas avenidas. Lá dentro tinha supermercado. De repente, senti uma vontade muito grande de fazer aquilo. Eu os admirava e talvez fosse legal ser como eles. Tomamos a escada rolante para o primeiro andar.

No supermercado havia muita amostra grátis de comida. Aproveitamos sem dó e sem nenhuma cerimônia. Mas logo o peso da responsabilidade e da missão que me trouxera ali fez com que esquecêssemos da comida e quiséssemos resolver logo a parada.

Eduardo deu-me a deixa:

— Vai, Catatau, que eu te dou um pano!

Fiquei esperando pelo pano, provavelmente para embrulhar o que eu roubasse. Edú olhava para mim sem entender.

— Vai, Catatau!

— Caramba, mas você disse que ia me dar um pano!

Edú caiu na risada:

— Não, laranjinha! - Brincou ele. — “Dar um pano” significa ficar de butuca, entendeu? Dar cobertura. Agora vai, güenta aí, mas faz com naturalidade, não fica olhando para os lados!

O supermercado estava cheio e nunca dava para ficarmos sozinhos. Como eu era tolo naquelas alturas. Queria e não queria roubar. Eduardo mostrou como se fazia:

— Olha, Catatau, faz a função na boa, não tem erro, sacou? Pega naturalmente, faz tudo parecer natural. — Com calma ele pegou um chocolate da prateleira e jogou por dentro da gola da camisa.

Dei risada. E vesti a jaqueta que eu trazia amarrada à cintura. Assim disfarçado passei a jogar por dentro da camisa tudo o que eu achasse útil. O que ficava na barriga eu ia empurrando com naturalidade para as costas, encobertas pela jaqueta. E foi chocolate, pacotes de bolacha, de balas, salgadinhos e até lata de refrigerante. Eu e ele fazíamos a rapa, rindo a mais não poder.

Mas naquela tarde, por causa da euforia da novidade, acho que acabei dando muita bandeira. Na hora de sair Edú foi por um lado e eu ia indo pelo outro quando um segurança me abordou com a cara fechada. Pôs a mão sobre o meu ombro meio pesada.

Ergui os olhos assustado. De onde ele saíra??

— Calma aí, garoto. Você pretende levar tudo isso aí sem pagar?!

— Tudo isso o quê? — Indaguei.

Com um puxão rápido ele ergueu minha camisa. Todo o material güentado espalhou pelo chão e senti os olhares convergindo para mim. Vi Eduardo de relance, já do lado de fora. Ele fazia sinal para eu dar no pé.

— Pois você fica aqui comigo, moleque, enquanto chamo a FEBEM!

Não esperei mais nada, azulei! Eu nunca havia corrido tanto, saímos empurrando todo mundo nas escadas rolantes e escapulimos pelo estacionamento. Então, caímos na risada! E mais ainda quando exibi o único produto que eu havia conseguido güentar, um pacote de amendoim que escondi na meia.

Na “29” o pessoal gostou da história. O amendoim era apenas o símbolo de algo maior. Eu havia provado que queria aprender a ser como eles! Passara no teste. O amendoim foi dividido entre todos apesar da comida que Edú trouxera. Era uma homenagem à mim, uma participação na minha vitória!

Tão logo fui batizado tive uma nova surpresa e plena convicção de que eu era o mais novo membro da “29”. Um dia eu estava por lá bagunçando o coreto com o pessoal, construindo uns carrinhos de rolimã “animais”! Eram imensos, com 6 ou 7 lugares, com uma espécie de breque para cada passageiro. A sensação era descer à toda uma das ruas mais íngremes do bairro!

— Gente, preciso falar com vocês! — O Márcio chegou e foi logo entrando na “29” sem esperar muita resposta. Fomos todos atrás dele.

— Maninhos, é o seguinte, temos uma parada aí para resolver! O César mandou avisar: amanhã, dez para a uma, na frente do colégio Conceição, em ponto! O Pau é para valer, todo mundo está convocado!

Enquanto todos cercavam o Márcio procurando saber detalhes sobre o motivo da briga eu apenas observei o tumulto injurioso que crescia e os semblantes que se transformavam. A paz ia sendo substituída por um sentimento tão belicoso que fiquei meio chocado. Eu ainda não conhecia esse lado deles, apenas tinha ouvido falar. Nem escutei o que o Márcio disse. Só acordei quando ele próprio voltou-se para mim.

— Catatau, isso serve para você também, cara! Não falte!

Eu tentei argumentar numa boa:

— Nunca briguei na vida. Acho que é capaz de eu me estrepar lá no meio!

Ele pôs a mão no meu ombro com brandura e firmeza ao mesmo tempo:

— Só tem um jeito de aprender a brigar, Catatau. E você precisa aprender. Mas não se preocupe, confie em nós! — Ele sorriu amistosamente. — Não vamos deixar acontecer nada com o “Mascote” da “29”!

Tive que sorrir também. Ele continuou:

— Mesmo porque... nem sempre você vai ter mesmo que sair no braço! — A expressão do rosto dele mudou um pouco. — Abre a mão e fecha os olhos!

Fiquei um pouco cabreiro mas confiei nele e obedeci. Todos os outros estavam ao nosso redor prestando atenção na conversa sem interromper. Logo senti em minha mão algo pesado e frio. Abri os olhos rapidamente. Para meu espanto ele colocara ali uma arma pequena, acinzentada. Um revólver calibre 32!!!

Fiquei sem fala.

— Caramba... — Murmurei alternando a vista entre o presente e o rosto do Márcio.

Ele ergueu o mão fechada na altura dos meus olhos e eu instintivamente abri a minha à espera do que viria. Márcio deixou cair um punhado de balas, sem dizer mais palavras.

 

Aquele foi o maior presente e voto de confiança que eu poderia esperar dos meus amigos. Agora eu fazia parte da Gangue de verdade... meu nome já não era mais Eduardo! Naquela época eu não poderia ainda prever mas aquele meu “outro nome”, Catatau, seria muito temido no bairro!

Mas a minha primeira briga de verdade não foi ainda daquela vez. Já nem me lembro qual foi o imprevisto, não foi desculpa fajuta, mas não pude comparecer. Ficou para uma outra ocasião!

E naquele dia saí da “29” sentindo-me literalmente outra pessoa com a arma guardada na cintura debaixo da camiseta. A sensação do metal encostado ali era estranha. Estranha e agradável. Disseram que me ensinariam a atirar. Eles costumavam treinar em terrenos descampados, atirando em latas de cerveja.

Tudo aquilo dava uma indescritível sensação de poder que eu nunca tinha experimentado antes!

 

Apesar do meu ingresso na Gangue ir à escola continuava sendo a mesma porcaria de sempre. Certa vez um de meus piores inimigos resolveu dar uma de bonzinho. Foi logo depois que eu ganhei o cano (o revólver).

Barão anunciou para todo mundo ouvir:

— Pois é, pessoal, vocês judiaram muito deste pirralho aí! Agora já chega. Eu vou adotá-lo, vou ser seu pai e ele vai ser o meu filho. Quem mexer com ele de agora em diante vai se haver comigo.

Olhei para ele, analisando-o. O resto do pessoal que me oprimia não deu risada. Será que era verdade ou mais uma peça qualquer? Barão viu que eu estava ressabiado. Sorriu amistosamente. Ele sabia ser convincente e simpático quando convinha.

— Pode vir aqui, Eduardo, é sério! Não precisa ter medo.

Aproximei-me devagar.

— Senta aqui no meu colo, garoto. Não tenha medo, agora eu sou realmente seu pai e você é meu filho. Não precisa mais se preocupar com nada, você está salvo do meu lado! — Sorriu mais abertamente e bateu com as mãos sobre o colo, convidando-me.

Ninguém mais falava nada. Ainda um pouco desconfiado arrisquei sentar-me no colo do Barão...

— Isso! - Ele se remexeu, acomodando-me melhor. — Muito bem, no colinho do papai!!!

Percebi que logo o pessoal começou a cutucar-se e as risadas invadiram o ar.

— E não é que ele senta mesmo? Quá, quá, quá! — O Tucano e o Juca já estavam perdendo os bons modos.

O tumulto foi aumentando mas como o Barão não havia dito nada para que eu me levantasse, fiquei ali, perguntando-me o que seria tão engraçado. Que se poderia esperar de alguém que até tão pouco tempo ainda acreditava em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e cegonha ?!

De repente a expressão do Barão mudou e ele me deu um leve tapinha nas costas, com certa compaixão demonstrada nos olhos:

— Levanta daí, vai, Eduardo. Liga não, mas é sacanagem...

Fiquei sem entender. Só compreendi o significado da “brincadeira” bem depois.

Certa tarde, quase sem querer — ou melhor, sem muita intenção — acabei comentando de leve com minha turma da “29”. Nós estávamos reunidos no quintal, conversando, e para variar eles falavam sobre os Paus, sobre o que haviam aprontado com este ou aquele que tinha “folgado” com não sei quem da turma. Eu só escutava mas de repente o Águia virou para mim, na calma:

— E aí? Nunca ninguém mexeu com você, não?

Era a deixa. Comecei a contar, timidamente a princípio, falando só com ele. Eu não tinha percebido até então que a minha raiva era tão grande. Comecei a perder o controle do tom de voz, falando cada vez mais alto. As conversas paralelas foram silenciando e todos passaram a me escutar. Não se ouvia um pio além da minha voz, podia-se ouvir um alfinete cair no chão.

À medida que eu me queixava notei que o semblante e o olhar de todos tornava-se cada vez mais carregado. Até o ar ficou mais pesado, dava para sentir a vibração do ódio. Quando me calei, silêncio total. Finalmente, o Márcio falou. Sua voz soou diferente do que eu conhecia, mais pausada, mais firme. Seus olhos eram graves e ele encarou-me com seriedade:

— A que horas você sai, Catatau?

— Meio dia e meia, por quê?

— Porque nós vamos acabar com a raça desse bando de (...) — Falou alguns palavrões, indignadíssimo. — Esses caras merecem uma lição, um Pau bem dado! Eles vão ver que mexeram com a pessoa errada, nunca mais ninguém vai te tratar assim!!! — E falou a frase que eu não esqueceria mais: — Aprenda isso, a vingança é um prato que se come frio.

Eu fiquei olhando para ele. Ninguém havia dado jeito em nada, nem meus pais, nem a diretora... será???...

O restante da turma concordou imediatamente.

— Eles vão se arrepender do dia em que nasceram!

O Márcio me deu as instruções :

— Você faz assim, Catatau, provoca bastante os caras, marca um Pau na saída. A gente vai estar lá!

Eu sabia que cumpririam o prometido. Confiava neles totalmente.

Mais tarde, em casa, eu não conseguia pensar em outra coisa antevendo a felicidade que me aguardava. Era impossível me concentrar no que quer que fosse. Já deitado, rolava de um lado para o outro, insone, com a cabeça a milhão. Mas eu tinha que dormir!

Como tivesse comigo uma garrafa de vinho que trouxera da própria “29”, resolvi beber um gole para estimular o sono. Mas que sono, que nada! Minha ansiedade era tremenda. Então resolvi beber tudo. Deitado na cama, “mamei” a garrafa. E capotei.

 

Na manhã seguinte saí como de costume com minha mãe para ir à escola. Nesta época nós ainda tínhamos carro e eu ia com ela todos os dias. Estava uma manhã fria, meio encoberta e minha mãe teve um pouco de dificuldade em fazer o carro pegar. Saímos devagar com o motor pipocando ruidosamente. Andamos poucos metros e escutamos alguém gritando a plenos pulmões:

— Catatau! Catatau!

Ele vinha correndo pela rua lá embaixo.

— Mãe, espera aí um pouco! Deixa eu ver o que ele quer!

Ela parou o carro e Eduardo logo me alcançou. Ele vinha rodando uma corrente na mão e, ao chegar perto do carro, debruçou na janela.

— E aí, hein, Catatau?! É hoje! É hoje!

— É! É! Tá marcado! — E só para ele ouvir. — Ô, meu, baixa a bola aí, cara! Olha a minha mãe. Se liga!

— Tá certo, cara! Tá tudo em cima. Vai lá e provoca os caras, hein?

— Falou! — Apertamos a mão. — Espero vocês lá.

Minha mãe não percebeu nada, pelo menos não fez perguntas. O único comentário dela, ao arrancar com o carro, foi:

— Que que este moleque já está fazendo na rua a esta hora da manhã?

Muito simplesmente eu retruquei:

— Ele não está “fazendo na rua”. Ele está chegando agora. Entendeu? Ele não saiu de casa... ele está indo para casa !

Minha mãe ficou em silêncio e deixou passar sem comentários.

Na escola eu não fiz nada na primeira aula. Até aquela hora ninguém tinha ainda mexido comigo (acho que era a letargia da manhã fria).

Fiquei pensando quem iria provocar. Passou a segunda aula, e nada. Veio o intervalo.

— Bom... — Raciocinei. — Tenho que começar. Tenho que mexer com alguém.

Resolvi folgar com os moleques do F.B.I. que estavam sentados muito na deles lá atrás. Cheguei perto e cutuquei:

— Sabe de uma coisa? Acho que descobri um nominho melhor para a Federação de vocês.

— Eh, que que você tá falando aí? — Replicou o Dalton já ameaçando levantar. Eles eram invocados mesmo.

Continuei:

— Que vocês acham de “ Federação dos Bostinhas Invocados “?

— Cala essa boca que você vai é levar um Pau, ô , seu (...)! Que é que você está pensando, hein?!! Tá querendo apanhar??

Eu levantei as mãos em atitude apaziguadora :

— Calma aí! Vocês querem Pau, tudo bem! Na saída eu pego um por um, falou, bostinhas baixinhas?

Eles já queriam me bater ali mesmo na classe, tal a como a causada pela minha atitude tão inesperada. Mas eu, estrategicamente e sem esperar resposta, fui para perto do inspetor do corredor assim que eles levantaram. Fiquei ali puxando um assunto qualquer com ele.

Volta e meia eu olhava para os garotos do F.B.I e fiz sinal de “na saída, na saída!”. Eles responderam com um gesto feio e caras injuriadas.

Logo depois fui provocar o Paulo. Eu me lembrava muito bem do cabelo que ele tinha cortado. E da ponta de tesoura que ele espetou no meu pescoço. O apelido dele era Paulo Cabecinha, porque a cabeça dele era muito pequena. Gritei de longe, para todo mundo ouvir:

— Aêh ! O, Paulo Cabecinha! Sabia que a cabeça do meu (...) é maior do que a sua cabeça???!!

Ele não acreditou! Quando a ficha caiu, me fuzilou com os olhos de assassino:

— Eu vou te encher de porrada! — Olhou ao redor, sabia que não podia fazer nada ainda. Mas me ameaçou feio: — Vou te enfiar a faca!!! — E daí para baixo. — Na saída você tá morto!

Uns e outros riam de mim, apontando e cochichando, comentando que eu deveria ter endoidecido. Mas incrivelmente eu não tinha medo! Parece que tinha me subido um espírito de valentia até então desconhecido. E eu continuei provocando todo mundo.

Durante o intervalo eu sabia que não ia demorar para alguém comer o meu lanche. Fiquei com o sanduíche bem exposto, mordendo bem devagarzinho, só esperando. Não demorou muito e apareceu um cara de outra turma que vivia ficando com a minha comida no mínimo três vezes por semana.

— E aí, cara? - Ele tinha um sotaque meio porto-riquenho. — Lanche de quê hoje, hein? - Ele veio gingando e esticando o pescoço como se pudesse farejar. Mais que depressa eu respondi:

— Ah, não! Hoje este lanche não é para você, não!

— Qualé, meu? Tá me estranhando, é?! — Respondeu ele com a fala carregada de gíria. — Você vai rodar na minha mão se não me der isso aí agora, moleque! — Avançou para mim já querendo arrancar-me o sanduíche das mãos.

Com agilidade me desvencilhei e, sem dó, atolei o pão num enorme formigueiro que crescia na grama.

— Taí!!! Hoje o lanche é para as formigas! — E acintosamente: — Elas merecem mais do que você !

Ele ficou furioso. Não quis conversa e já fechou o punho, querendo me agarrar pela camisa. Eu voei para a secretaria com ele no meu encalço. Se não tivesse sido mais ligeiro teria apanhado ali mesmo e era capaz de terminar com a cara enfiada também no formigueiro. Mais uma vez fui ameaçado sem piedade. Naturalmente, a hora da vingança... era a hora da saída !

— Você vai ter que sair, seu (...)! E aí você vai ver!

Novamente na classe, a próxima vítima foi o Tucano que vivia pegando a minha borracha. Era um inferno, não havia borracha que durasse mais que dois dias na minha mão. E quando eu ia atrás ele jogava a borracha dentro da cueca. Eu estava cheio! Minha mãe havia comprado para mim uma borracha de Itú, daquelas gigantes, e então eu a cortei em pedacinhos e cada dia levava um. Assim eles podiam me roubar à vontade que o prejuízo era menor.

O Tucano chegou logo após o intervalo:

— Pô, Sabidinho, cadê a sua borracha que eu não estou achando? - Fez ele com a maior naturalidade do mundo.

Respondi alto e bom som :

— Ué? Não sei, você não enfiou ela na calça da última vez?

— Você é louco, é, meu? — Fez eleja irado, a cara afogueando.

— Eu não! Louco é você, que enfia borracha no rabo. Isso sim é loucura. — Respondi sem me intimidar.

Tucano parecia a ponto de subir pelas paredes. Só conseguia repetir a mesma coisa:

— Você tá morto! Você tá morto... eu vou te matar! Vou te matar de tanta porrada! Você... tá morto!!!

Eu nem liguei. Estava com tanta raiva e tão cheio de todos eles que já nem pensava mais nas conseqüências. Puxei o toco de borracha do bolso, mostrei bem para ele e, mirando com pontaria, mandei-a com tudo na cabeça do Juca. Eu não queria esquecer ninguém! A borracha até ricocheteou. TUM!

— Vai pegar! - Retruquei para o Tucano.

Por sua vez o Juca já virou para trás, passando a mão na cabeça.

— Quem foi que jogou esta coisa em mim?

Tudo era um desacato. Por menor que parecesse a ofensa o peso do que eu estava fazendo era muito grande. Eu estava ofendendo e desafiando! — o senhorio deles. Em cada gesto e cada intenção eu estava como que dizendo: “Vocês mandam mesmo por aqui ou não?”

Tucano me apontou:

— Foi ele ali, Juca! Foi ele ali!

O Juca só me olhou feio. Eu conhecia aquele olhar. Dis

pensava palavras.

— Foi aquele (...) ali! Eu vou matar ele na saída! — Continuava o Tucano que nem um papagaio de tão bravo.

— Pois agora são dois! — Retrucou o Juca. E para mim: -Você tem o quê na cabeça?! Deixa estar, (...)!

O pessoal do F.B.I. também se remexia incômodo nas cadeiras, resmungando coisas semelhantes. Eu sustentava os olhares e a situação. Eles iam era ter uma bela de uma surpresa! Na última aula o clima estava mais quente do que nunca. Ninguém prestava atenção a nada, só tinham olhos para mim. Enviavam gestos feios e palavras ameaçadoras que antecipavam a tão esperada hora da saída.

Alguns minutos antes do sinal de saída resolvi sair. A classe toda já sabia o que estava acontecendo e os rostos desviaram-se na minha direção tão logo me ergui do meu lugar. Senti o olhar inquisidor dos meus adversários me seguindo. Na certa pensavam que eu ia arregar, por isso, antes de fechar a porta da sala eu me virei:

— Não se preocupem, não. Tô lá esperando!

Corri para baixo e me preparei para pular o muro da escola porque o portão ainda não estava aberto. Mas não foi preciso. O porteiro já vinha com a chave e em seguida o sinal já entrou a berrar.

Rapidamente os alunos começaram a aparecer, alunos de todos os lados. Eu saí para a calçada procurando achar a minha turma o quanto antes porque a vantagem era de poucos segundos. Eles estavam do outro lado da rua, aglomerados perto de carros estacionados. Apenas Edú me aguardava ali perto do portão.

— E aí, Catatau? Cadê os caras?!

— Tão vindo aí! — Gritei. — E estão babando!!!

— Valeu! — Ele deu palmadas no meu ombro aprovando meu bom desempenho.

Não houve mais tempo de nada. A turma que vinha para me pegar saiu correndo como um bando de cachorros à procura da presa, olhando para todos os lados.

— Olha ele ali!!!

Avançaram sem piedade e eu voei para o outro lado da rua. Eles eram muitos mas a minha turma era maior! Do outro lado da rua havia pelo menos uns vinte moleques da “29”, alguns até bem maiores do que nós. Fiquei lisonjeado pela presença de todos, e tão pontualmente.

— PEGA ELE!!!! — Gritavam os meus adversários.

O negócio foi rapidíssimo! Quase não houve como entender o que aconteceu. E, em suma, foi um verdadeiro linchamento!

O pessoal da “29” os atacou como feras enraivecidas. Espancaram sem dó e sem culpa, correntadas para todos os lados, onde pegasse, pegou. Rasgaram com estilete, e eu via o sangue escorrendo dos meus colegas! Ninguém escapou.

O Paulo Cabecinha quase conseguiu, mas ficou só no “quase”. Ele tentou fugir, completamente espavorido com aquela emboscada de surpresa, mas o próprio Edú correu no seu encalço. O Júlio, que dava cobertura para o Edú, correu atrás. E eu, que não sabia o que fazer, corri atrás dos dois.

Tão logo o Paulo estava bem seguro Eduardo falou com uma calma impressionante para uma situação como aquela:

— Bate você também, Catatau!

Eu tinha medo de bater. Meu corpo todo tremia por dentro com o que eu estava assistindo ao vivo e à cores. Dei um soco no braço do Paulo.

— Nãããão, Catatau! Assim, não!

Eduardo e Júlio bateram um pouco nele que, aos berros, implorava para mim:

— Eu sou seu amigo! Eu sou seu amigo!

Mas na minha cabeça eu só conseguia lembrar de tudo o que eles tinham me feito passar durante um ano. Um ano! Lembrei do Paulo cortando o meu cabelo, e rindo e rindo. Senti um ódio cego.

— Você é meu amigo coisa nenhuma!

— Bate nele, Catatau! - Incentivou novamente o Edú. — Agora é a sua vez. Dá na cara dele!

Sentia minhas pernas balançarem, mas de repente não pensei mais e enfiei a mão no rosto do Paulo. E não parei mais, completamente tomado por aquela raiva, sentia na boca o sabor da vingança. Escutava os urros de incentivo dos meus amigos mas já não precisava disso. Vi o sangue espirrando do nariz dele e gostei daquilo. Continuei batendo, me entreguei àquilo.

A sorte do Paulo era que eu não sabia realmente bater. Só parei porque minha mão começou a doer. O Júlio e o Eduardo jogaram ele no chão. Com dificuldade e o avental branco todo ensangüentado ele se levanto e apoiando-se na parede, tratou de sair dali.

Tudo não chegou a durar mais do que um minuto. O massacre foi rápido e preciso. Antes de debandarmos eu ainda consegui ver o estado dos meus colegas, que estavam ainda ali na calçada e na rua, numa clareira, porque os outros alunos não estavam a fim de participar. Estavam lavados de sangue. Era deplorável!

Quando alguém da escola resolveu aparecer para “apartar a briga”, nem existia mais briga e nós já estávamos longe. Eu sequer pensei se aquilo tinha sido “covardia” ou não. Eles também não tinham pensado se era covardia o que eles tinham feito comigo, todos eles contra mim! A justiça, boa ou má, estava feita. E pelas nossas próprias mãos. O que a Gangue fizera por mim era algo que nunca tinha recebido de ninguém. Não havia o que questionar. Aquilo era o que eles tinham de melhor! E quem dá o melhor não deve ser condenado.

Nem fui para casa naquele dia, e nem dei satisfação. Aquele era o primeiro de uma seqüência de dias que se seguiriam a partir de então. Era só o começo! Fomos direto para a “29” e depois que o meu susto passou, pude comemorar com eles mais aquele Pau. Aquela palavra começava a fazer sentido...

Passamos a tarde toda comentando da briga, comendo, conversando, brincando e bebendo. Eu nunca havia realmente bebido, a não ser na noite anterior, mas tinha sido sozinho e para conciliar o sono, não tinha graça. Aquela foi a primeira vez que aceitei realmente beber de verdade. Mas não quis fumar. Nem cigarro normal, nem cigarro esperto.

Agradeci muito o que tinham feito e comecei a perceber que aquele negócio de honra e compromisso um com o outro era sério de verdade! Aquilo me aproximou deles muito mais do que eu pude perceber na época. A partir daquele momento, em pouco tempo minha família seria a Gangue.

 

No dia seguinte, na escola, o pessoal estava todo estourado, roxo, com olhos e bocas inchadas. Ninguém arriscou falar nada! Ou melhor, quase nada: falaram “Bom dia” com toda educação do mundo, não pude acreditar!!!! E ficaram quietinhos, na deles.

A história da briga tinha tido uma repercussão impressionante. Ainda que eu próprio não o soubesse a maioria já tinha ouvido contar sobre a “29”, que era conhecida e temida no bairro. Todos sabiam que era barra pesada.

A partir daí minha fama cresceu vertiginosamente, primeiro na classe e depois na escola inteira. Até meu apelido de Gangue ficou conhecido. Eu já não era o trouxa, o idiota, o “Sabidinho”, o bode expiatório de todos. Agora todos sabiam que eu era o “Catatau da 29”!

Depois disso todos resolveram que queriam ser meus amigos. Tentavam aproximação, inclusive os premiados com a vingança. Estes, principalmente, tão logo a dor dos machucados amainou passaram sutilmente a vir atrás de mim. Mas eu não tive pena nem clemência, não consenti naquela amizade interesseira. Os papéis começaram, então, a inverter-se. A eminente fama e a certeza de saber-me protegido pelos meus amigos fez com que eu passasse a provocá-los. Lembro-me que os mais perseguidos eram os daquela turma idiota do F.B.I.! Volta e meia minha turma aparecia na escola e alguém acabava apanhando. Eles tinham que andar muito na linha agora.

Mas a melhor parte foi a do lanche! Quem ficava com os lanches agora era eu. Já nem levava mais de casa. Houve até aqueles que, em desespero de causa para associarem-se comigo, me compravam sanduíches e refrigerantes na cantina!

Também deixaram a melhor carteira da classe para mim. As carteiras da escola eram todas depredadas, mas logo depois da surra eu separei a melhor. E todo mundo concordou. Batiam palminhas em minhas costas:

— Essa é do Catatau!

Com todo o capricho escrevi um “CATATAU” bem grande nas costas da cadeira e na carteira que havia escolhido, tomando posse devidamente. E ninguém mais ousou sentar ali. “Se alguém sentasse na carteira do Catatau, tinha Pau!”.

O orgulho me subiu rapidamente à cabeça e acabei aproveitando um pouco a situação, confesso. Mas eu estava achando aquilo tudo a maior delícia!

Não muito tempo depois do “Dia da Vingança” tinha uma turminha do F.B.I. sentada numa esfiharia do outro lado da rua, quase em frente à escola. Era comum a molecada reunir-se ali após as aulas. Na mesinha diante deles, um prato cheio de esfihas!

Eu saí da escola e alguns amigos da Gangue me esperavam ali porque íamos direto para outro lugar naquela tarde. Estavam o Edú, o Tistu, o Márcio, o Bolinha, o Júlio, o Éder.

— E aí?! — Cumprimentamo-nos mutuamente com nosso típico aperto de mão.

Foi quando vimos os garotos do F.B.I. de longe, prontos para devorarem as esfihas. Ninguém nem precisou falar nada, bastou um olhar significativo que percorreu o grupo e nós atravessamos a rua na direção deles. Eu entrei primeiro enquanto o resto da turma ficava na calçada, bem na porta da Esfiharia. Fui seco na direção deles.

— E aí, F.B.I., tudo em cima? — Estiquei o nariz. — Bom esse treco, hein? — Sem a menor cerimônia passei a mão em uma esfiha e enfiei na boca. — Huumm, tá bom mesmo... deixa eu ver se esta outra aqui tá com o mesmo gosto! — E peguei outra.

Eles ficaram me olhando mas o Dalton tentou esboçar uma reação:

— Pôxa! Vai lá e compra prá você, cara!

Falei com ar de quem não entendeu bem:

— Comprar???!

E gritei para a turma com ar folgadíssimo:

— Chega mais, pessoal! — Eles foram entrando com estardalhaço. — Olha só, imagine que eles querem que a gente compre esfiha!

Minha turma toda fez um “AH!” caçoísta, em coro, comprido.

— Mas que coisa... — Provocou o Júlio. E o Éder completou:

— Comprar? A gente?! Você delirou, é, seu (...)? Tá pensando o quê?!!

O Éder era muito doido, eu já sabia daquela sua índole agressiva. E ele não estava muito bem aquele dia, estava meio drogado, eu já conhecia bem o jeitão da coisa. Sem o menor aviso ele pegou a garrafa de coca-cola que estava em cima da mesa e deu com ela na cara do Dalton, com força. O susto foi tão grande que ele foi parar no chão, caiu com cadeira e tudo, o sangue já escorrendo do nariz.

Eu fiquei horrorizado!...Era uma violência desproporcional, não precisava daquilo. O pessoal do F.B.I. emudeceu e o Dalton levanto e saiu de cena de fininho. Avançamos nas esfihas que estavam na mesa como se o F.B.I. não existisse. Eles nem tentaram levantar, com medo que o Éder perdesse a paciência com mais alguém!

O Márcio já estava sentado na mesa ao lado do desenxabido F.B.I.. As esfihas acabaram em segundos e ele se levanto, foi até o balcão. Apoiou os cotovelos sobre a fórmica e assobiou agudo, erguendo o dedo:

— Ei! Vê mais esfiha aí prá gente! — Gritou ao senhor de avental côr-de-vinho que servia a comida.

Devia ser o próprio dono, ele não tinha ar de funcionário contratado e estava sozinho. Mas já havia percebido o que estava acontecendo e perguntou, meio áspero:

— É? E quem vai pagar por mais estas?? O Márcio virou a cabeça na nossa direção e apontou os garotos do F.B.I. com o queixo, falando com calma: — Aqueles carinhas ali. Mais que depressa um deles falou alto: — Mas não dá mais para pagar! O nosso dinheiro já acabou! — Tentou explicar.

Só que aí foi a vez do dono da esfiharia encrespar. Estava í mais do que na cara que ia sair confusão.

— Como, “acabou o dinheiro”?!! Vocês pensam que vão sair sem pagar?? — Gritou o homem voltando-se de novo na direção do Márcio. Ergueu o tom de voz e ameaçou, todo irado. — Pois eu vou chamar a polícia, seus bandidos, seus marginais! O que é que vocês estão pensando?!

Coitado. Achou que aquele destampatório poria um fim em tudo. Foi o erro dele. Se tivesse ficado de boca fechada o prejuízo teria sido menor. Sinceramente eu já não estava a fim de comer esfiha nenhuma.

Vi que o Éder ficou branco. Drogado como estava ele levanto decidido e agarrou o homem pelo colarinho, por cima do balcão, e o sacudiu com violência. Falou pausado, entre dentes, com ódio, quase encostando o próprio rosto no rosto já lívido do outro:

— Você vai o quê? Vai o quê?? Chamar a polícia? — De repente deu um urro de gelar até cadáver: — Defunto não chama policia!! Quando a polícia chegar você vai é estar morto, seu (...)!!!

Com um empurrão o Éder largou o colarinho do homem e começou a arremessar longe tudo o que estava à sua frente, com gritos de fúria, o corpo se agitando de raiva.

Em frações de segundo o estabelecimento virou uma balbúrdia da grossa. Um começa e todos vão atrás. Foi que nem jogar inseticida num formigueiro!

Como sempre foi tudo muito rápido, um abrir e fechar de olhos. Fiquei meio perdido enquanto meus companheiros jogavam as cadeiras sobre os vidros das janelas e das vitrines de alimentos, reviravam as mesas com estrondo e tudo o que havia ao alcance era pisoteado e espatifado aos berros. O dono nada pôde fazer além de encurralar-se encolhido atrás do balcão e assistir a tudo mudo de terror.

Eu fiquei assustado, novamente senti as pernas meio adormecidas, aquela estranha violência era algo que eu só conhecia da televisão. Mas eu não podia ficar parado, tinha que fazer alguma coisa, não podia dar prá trás na frente deles. Eu me obrigava a “ser mau”. Na Gangue todos eram maus. Se eu quisesse realmente fazer parte deles eu teria que ser como eles. Tinha que ser mau!

Acabei ficando penalizado por causa do pobre homem diante do exagero da turma. Até dos garotos do F.B.I., pegos tão de surpresa, também acabei ficando com pena. Estavam apavorados, encolhidos contra a parede, tentando proteger-se.

Mas eu não queria quebrar nada apesar de saber que deve­ria fazê-lo. Então atirei uma cadeira sobre uma mesa, gritando, assim que percebi o Júlio olhando para mim. Só fez barulho, amas­sou um pouco e foi só o que eu consegui fazer. Já era hora de debandar! Eu nem vi mais ninguém, o negócio era pernas prá que te quero!

Demos o fora mais depressa ainda que o F.B.I., cada um numa direção. Essa era a lei, fugir o mais depressa possível e se encontrar depois na “29” antes que pintasse polícia. Corri como doido.

Quando cheguei eles já estavam lá. Eu ainda não estava acostumado com a frieza deles. Sem qualquer peso na consciên­cia eles comentavam uns com os outros como se não tivesse acon­tecido nada de mais. Minha necessidade de mostrar que eu era como eles era tão grande que meu comportamento soou até estereo­tipado:

— É isso aí, aquele cara merecia isso mesmo! Alguém devia era ter dado uma porrada na cara dele! — Eu repetia frase após frase que nem um grilo falante. Eu tinha que provar minha malda­de. Só não sei se o pessoal acreditava muito, naquelas alturas. Mas deixavam passar, o que importava era a minha intenção.

Sentado de costas para a parede o Márcio fumava sem pressa e reclamou de leve:

— Pôxa, bem que alguém podia ter se ligado e trazido o resto das esfihas prá gente, né?

— Não dava, cara! Sério! — Explicou o Tistu.

— Pois é, estava tudo cheio de caco de vidro! — Confirmou, com irreverência, o Bolinha.

 

Voltei para casa pensativo e tarde naquela noite. Eu estava cada vez mais impressionado com o que vinha vivenciando desde que entrara para a “29”.

Eles nunca pensavam em conseqüências. Percebi que quan­do não se tem nada a perder o mundo vira uma festa. Não é preciso pensar em nada, se preocupar com nada, medir conseqüências de nada. É só fazer, e pronto! O que quiser. Pode-se ir contra todas as leis, viver um verdadeiro anti-sistema.

Aquela não era a minha índole mas era preciso confessar minha admiração por eles. A valentia, o companheirismo, a força furiosa que só os que andam em bando podem ter...!

O fato de pertencer à Gangue me dava uma incrível sensa­ção de segurança, algo que eu nunca tinha experimentado. Eu tinha que ser como eles, eu queria, era um dever e eu iria me esforçar.

É difícil descrever em palavras. Era estranho e fascinante ao mesmo tempo, como ter encontrado uma família perdida, um lar. Agora eu tinha certeza de que não estava mais sozinho e que éramos todos por todos. O pertencer à Gangue nos tornava ir­mãos e aquele compromisso era mais sagrado do que qualquer coisa. Transformava tudo! O número 29 era o nosso selo! O que fazia toda a diferença, o que realmente importava.

Naquela noite adormeci pensando na “29”. Peguei no sono com a imagem deles vivida diante dos meus olhos... bebendo... fumando... se drogando.

 

A partir daí meu dia-a-dia tornou-se uma tremenda suces­são de brigas. Eu estava metido em confusões com a Gangue pra­ticamente todos os dias porque nenhum de nós deixava passar a menor ofensa. Parece que nós atraíamos este tipo de coisa...

Tudo bem que às vezes a gente provocava, como no caso do F.B.I. Mas eles tinham antecedentes. Dificilmente procuráva­mos rolo do nada.

Não havia como não participar daquilo. Armávamo-nos com nossas armas costumeiras: corrente com cadeado na ponta, estiletes, facas, soco-inglês, essas coisas “corriqueiras”. O soco-inglês era caseiro, feito com um pedaço de cabo de vassoura e perfurado com pregos. Os revólveres iam sempre junto para o caso do tempo fechar mesmo. A maioria levava consigo pelo menos duas ou três armas.

Tive que aprender na marra. De início eu procurei não me preocupar, estava com meu 32 e uma corrente que o Edú me emprestara. Ia estrategicamente postado perto de meus amigos mais chegados, o próprio Edú, o Tistu, o Júlio, o Éder, o Márcio. Antes de sair, o ritual costumeiro deles, do qual eu não participava: uma puxada de erva, o preparo emocional “pré-guerra”.

Eu não puxava erva nenhuma. Era apenas um aprendiz.

Eles não se incomodavam com a minha presença tão perto nas brigas. Muito pelo contrário, faziam questão. Como o meu próprio apelido dizia, “Catatau” é Mascote e eles tinham todo um cuidado especial para comigo. Todo mundo sabia que eu não era capaz de me defender sozinho ainda. Não era motivo de vergonha. Mas se alguém me ferisse, era como ferir a Gangue inteira.

No meio da confusão, da gritaria e da correria eu procurava usar a corrente naqueles que sobravam prá mim, ou seja, quase ninguém. Meus amigos me cercavam, com um olho na briga e o outro em mim. E eu não acertava lá muito bem.

Quando era só um acerto de contas tudo tinha que acontecer em mais ou menos sessenta segundos, como na porta do meu colégio. Passar disso era pedir que a polícia acabasse pegando a gente. O resultado daquele um minuto de guerra era deplorável. Aquela estranha reação apareceu nas primeiras vezes, sentia todo o meu corpo tremer, as pernas balançarem. Mas me controlava.

E uma vez terminada minha contagem mental de 1 até 60, fugia sozinho para a “29”, como combinado.

— E como sempre, não deu em nada! — Comentou o Tistu certa feita.

Como eu viria a perceber, esse era um fato. Nunca desceu viatura ali na nossa casa, e a vizinhança bem que sabia o que rolava por lá. Mas até os vizinhos tinham medo e nem se intrometiam.

Nosso jeito de vestir, de falar, de agir, nossa presença já denunciava aquele cheiro de “marginalidade”. Éramos discriminados, é verdade, muitas vezes ostensivamente. Mas nada ficava sem troco!

E aos poucos fui deixando de ter medo.

 

Eu estava realmente enturmado na Gangue. Fui aprendendo com meus novos amigos tudo o que fosse necessário.

Assaltar foi o próximo passo. Depois do meu “batismo” no supermercado eu tinha me tornado especialista em pequenos furtos, mas nunca tinha roubado de verdade. Como a Gangue sobrevivia de pequenos assaltos, naturalmente que eu precisava aprender a fazer a mesma coisa. Foi o próprio Márcio que deu uma de Professor.

Uma tarde eu estava na “29” junto com o Edú e o Júlio, deixando o tempo passar. O Márcio e o Tistu me abordaram tão logo chegaram na sede.

— Catatau, vamos lá comigo! — O Márcio já foi logo me puxando pela manga e exclamou, num jeito muito próprio, com as mãos à cintura. — Tá a fim de aprender coisa nova?

— Nem...

— Legal! Vamos ver como é que se descola um picho! Arriba, maninho!

O Edú e o Júlio foram junto. Saímos os cinco para a calçada, lado a lado. Observei o jeito espevitado do Márcio. Ele era mau, muito mau! Já tinha ouvido contar que quando ele perdia a paciência era sanguinário. Mas eu o admirava bastante e ficava satisfeito cada vez que ele queria me ensinar alguma coisa. Sinal que ele me achava “promissor”!

Em poucas palavras, explicou:

— Hoje você só olha, Catatau. Para ver como é que faz, falou? Depois a gente descabaça você!

Descabaçar queria dizer “fazer a primeira vez”. Isso significava que na próxima oportunidade eu faria sozinho, mas ainda com a supervisão deles. E mais tarde o esperado era que eu soubesse me virar por mim mesmo, sem a ajuda de ninguém. A maioria deles era capaz disso.

E assim foi. Ele fez a função em diversos pontos comerciais pequenos naquele dia. Papelaria, vendinha, uma casa de artigos orientais. Eu tinha que começar com o mais fácil.

As pessoas nem esboçavam reação. Era muito fácil. Ponto de ônibus também era quente, nunca ninguém reagia. Também... reagir como? Nós chegávamos em grupo, com a agressividade à flor da pele, já na base do empurrão, encostando arma, chutando, o que fosse necessário. Aquilo intimidava. E eu tinha certeza: se alguém revidasse, eles atiravam.

Eu ficava morrendo de pena daquela gente, mas o que podia fazer???

A abordagem tinha que ser como uma explosão, especialmente a nossa - os menores de idade. Praticamente ninguém tinha maioridade ainda. E eu, em especial, era realmente um “Catatau”. Por isso, mais do que os outros eu aprendi que se quisesse ser bem sucedido tinha que dar uma de louco, ameaçar de verdade, nada de meia-boca. E que esquecesse aquela história de ter dó! Era preciso destilar ódio em cada palavra, cada gesto, sem medo... senão o feitiço podia virar contra o feiticeiro!

E aprendi. Meu primeiro assalto foi o de uma mulher que saía do banco com grana gorda. Umas garotas “simpatizantes” da “29” auxiliaram um pouco. Nós não podíamos entrar no banco sem despertar suspeitas, então essa foi a parte delas. Assim que recebi o sinal e vi quem era a pessoa, fui atrás decidido, a adrenalina circulando nas veias.

Não tinha mais medo. Estava com o revólver na cintura e em poucos minutos meu pessoal viria atrás de mim. Não tinha o que dar errado.

Ela parou perto do carro que deixara estacionado, sossegada, ajeitando o cabelo. Havia dois homens parados a alguns passos, perto de um ponto de ônibus. Não podia perder mais um minuto. Cheguei bem perto dela, quase encostando no seu corpo e mostrei a arma coberta pela jaqueta. Pelo canto do olho vi que logo atrás de mim estavam o Tistu e o Éder.

Destilei ódio em cada palavra de ameaça, muito rapidamente. E ela simplesmente abriu a bolsa e me deu todo o dinheiro, muda e lívida. Um maço enrolado com elástico.

Os homens que estavam no ponto e que conversavam entre si sequer notaram o ocorrido. Eu saí nas nuvens. Tinha sido fácil demais. Na esquina, só observando, o Tistu e o Éder continuavam de olho em mim. O resto da turma, mais distante, disfarçava olhando vitrines.

Só nos juntamos novamente a duas ou três quadras dali.

Exibi o macinho de dinheiro. Ganhei todo o mérito. Entramos no ônibus e fomos para o fliperama. A grana foi dividida e passamos a tarde toda jogando. Compramos uma quantidade absurda de fichas e muita cerveja.

E assim eu ia descabaçando aos poucos. O roubo tinha o seu “lado bom”. Nós nos divertimos prá valer com o dinheiro arrecadado!

— Aêh, galera!! — Gritou o Bolinha. — Quem quer umas pizzas?!

Na Gangue, o que era de um era de todos, era sempre assim. E dinheiro nunca faltava porque todo mundo roubava. Nada era mais divertido do que gastar dinheiro em bando!

Às vezes o dinheiro também podia ser simplesmente dividido e cada um usava o seu conforme conviesse melhor. Havia quem gostasse de gastar com mulheres. Outros compravam roupas e objetos de uso pessoal. Tinha quem destinasse tudo para as drogas. Eu, particularmente, gastava em muito chocolate e amendoim japonês. E armas, minha nova febre!

Comprei uma corrente grossa para usar com um cadeado na ponta, amarrada à cintura, como todos tinham; comprei também mais de um canivete automático. Depois disso não saía sem a corrente e sem o canivete. E sem o 32.

 

Depois eu me vinguei dos meus vizinhos. Era um sábado.

Sentados na calçada em roda, com o sol batendo nas costas, eu, Edú e Júlio comíamos um pacote de bolachas sem pressa. Foi o Júlio quem comentou:

— Gozado, aquela turma de marmanjos que jogava bola aqui sumiu, heim?

— Olipinho começou a trabalhar, foi isso. Era ele quem sempre organizava os jogos. Por isso que miou tudo, o cara sumiu mesmo! — Disse Edú.

Meu semblante carregou um pouco.

— Pois é, é pena. Eles me torraram de verdade logo que cheguei aqui e acabaram escapando sem troco. — Lembrei-me do quanto me haviam feito de gato-e-sapato.

— Mas agora a rua está livre, o que para nós é melhor. Mas eu continuei resmungando.

— É... só que de quebra também ficou melhor para o pessoal da vila. Agora eles não têm mais rivais!

Ficamos os três calados, mas parece que todo mundo pensava a mesma coisa. A princípio eu não estava a fim de armar confusão na porta de casa. Mas deixar passar também não era mais o meu forte. “Vingança se come fria...”

— Pois eu acho que esses caras da vila merecem a lição deles! — Exclamei de repente.

Comentei por cima o que já tinha passado. Eduardo e Júlio ouviram com interesse e concordaram de pronto que tinha sido mesmo um tremendo desaforo.

— Arruma a treta que te damos cobertura! — Falou Edú. Beleza! E fiquei esperando a deixa. Eu sabia quando eles jogavam bola, sempre a “vila de baixo” x “vila de cima”. Cheguei um pouco antes para dar uma olhada. Foi facílimo arrumar confusão. E mais fácil ainda foi minha turma espancar todos eles sem dó. Meu pessoal escutou o tumulto que eu tinha causado e já estava de prontidão assim que virei a esquina, correndo que nem corisco. E novamente, a vingança! Alguns poucos conseguiram voltar e escapulir para dentro de suas casas mas a grande maioria foi espancada.

O espírito da Gangue já me dominava. Foi a primeira vez que bati realmente sem clemência e sem medo. Só parei quando vi meu oponente todo arrebentado. Já não era eu mesmo. A transformação tinha começado.

— Futebol aqui acabou! — Decretamos. E eles tiveram que obedecer. Já nem era preciso o pessoal da “29” estar lá para me dar costas quentes. Descobri que eu mesmo podia resolver a parada.

Um outro dia a turminha estava ali se preparando para jogar, contra a nossa ordem. E eu apareci. Tinha só o Júlio e o Éder comigo, pouca gente se inventássemos de sair na mão por qualquer motivo. Eles ficaram à distância, sentados na calçada, só observando.

— Vamos acabar com esse jogo ou vamos ter confusão de novo? — Fui dizendo em tom firme.

— Pôxa, Catatau, vocês ficam mandando na gente... deixa a gente jogar, pôxa! — Pediam humildemente alguns do grupo.

O Wagninho era o mais inconformado. E, pelo visto, não tinha ainda entendido muito bem o recado. Quis dar uma peitada e já veio com grosseria. Devia estar com coceira na mão de tanta vontade de me pegar! Grandão como era abaixar a crista para mim, menor do que ele, era muita afronta.

— Mas quem é que você pensa que é, heim, seu moleque ??!!! O que é que você pensa que virou agora??!!! Nem meu pai decide quando eu jogo ou não jogo bola!! — E já veio querendo partir para a ignorância.

Mais que depressa eu saquei a corrente da cintura e comecei a girá-la bem próximo ao rosto dele, demonstrando que tinha intenção de acertar se ele desse mais um passo. A cada avanço meu com a corrente ele ia para trás, até que se viu encurralado no canto da parede. E percebi pelo seu olhar que ficou amedrontado.

— Pára aí! Pára aí! — Ele gritava, já mais manso. — Pára aí, cara!...

O resto da turma da vila nem ousava se meter. Meus amigos continuavam sentados no chão, observando de longe.

— Será que uma correntada dói mesmo?... — E fiz que ia dar um soco embaixo com a outra mão. Ele desguarneceu a face ao abaixar os braços para se proteger. E então eu enfiei o cadeado com força no seu rosto.

Ninguém acreditou no que viu. Nem eu.

Só vimos o corpo dele desmoronando e tombando no chão com um baque, o sangue escorrendo profusamente da lateral do rosto e da sobrancelha. Wagninho não se mexeu mais. Eu não imaginava que ele fosse cair, achava que nocaute daquele jeito era coisa de filme!

— Nossa... corrente é um negócio poderoso... — Refleti numa fração de segundos entre o golpe e o tumulto do pessoal da vila, que ficou assustado de verdade.

— Gente, ele está mesmo machucado!!!

— Chama o pai dele, depressa!

Foram aglomerando ao redor do Wagninho, que parecia completamente de porre.

O Júlio e o Éder estavam do meu lado antes que eu tivesse me dado conta. Eu também estava meio atordoado.

— Vamos, Catatau, vamos sair daqui. Não é bom esperar para ver no que vai dar isso aí.

Saímos andando, como quem não tinha nada que ver com a história. Eu fui o caminho todo só olhando para a corrente e o cadeado: “Devia ter descoberto isso antes”.

A partir daí usei muito a corrente. Vi que ela podia definir a briga em um só golpe, se fosse bem dado.

 

Naquele mesmo sábado saí de casa de novo no final da tarde. Despistei o Roberto que teimava em ficar no meu calcanhar. Ele já estava maiorzinho agora, com uns 8 para 9 anos, e cansado de ficar sempre em casa jogado para as traças. Mas era impraticável levá-lo comigo aonde quer que fosse.

— Eu vou junto! — Gritou ele para mim tão logo viu que eu me aprontava para sair.

Tentei convencê-lo por bem:

— Vai começar aquele programa de televisão que você gosta.

— Na casa da vó tem bolo e a mãe está indo prá lá!

— Te empresto a minha bicicleta e te dou dinheiro para comprar sorvete.

Nada adiantava. Ele estava cada vez mais irredutível. Por fim, ameacei:

— Acontece que você não vai comigo! Deu prá entender? -E já fui dando a volta na chave para sair.

Birrento, ele gritou para minha mãe que estava lá nos fundos:

— Mãe! Estou saindo com o Eduardo!

Senti a raiva me subindo à cabeça. Mas que droga de garoto!

Ele já saía para o corredor comigo e tive que apelar. Nem bem ele se virou para trancar a porta do apartamento e eu “Zupt!”, voei que nem um corisco escada abaixo. Ganhei a rua antes dele e, coitado, Roberto teve que voltar chorando para casa.

Fui para a “29” pensando na vida e nos problemas que teimavam em avolumar-se dentro de casa. Cheguei já de cabeça meio quente. Um pouco antes de sair eu havia discutido novamente com meu pai. Qualquer coisa era motivo para que ele pegasse no meu pé. Nós vivíamos em pé de guerra.

Aliás, desde tenra idade eu costumava ouvi-lo berrar para minha mãe, no meio das discussões:

— Esse moleque não é meu filho!

De fato meu pai me rejeitou muito. Eu não sabia por que. Até mais de dez anos de idade ele não parecia me tratar como filho. Eu sentia toda a diferença que ele fazia entre mim e Roberto.

Quando era bem pequenino uma vez fui remexer nas coisas de minha mãe. Eu sabia aonde ela guardava as certidões de nascimento e quis me certificar de uma vez por todas, saber quem era o meu pai. A resposta só poderia estar ali naqueles papéis! Minha mãe me surpreendeu com a mão na massa e me consolou um pouco:

— É claro que ele é seu pai, Eduardo. Que bobagem! Olha o nome dele escrito aqui.

— Mas ele não me trata igual ao Roberto.

Ela me convenceu o melhor possível. E foi ficando por isso mesmo. Cresci e me acostumei. E acho que meu pai também. Fosse ou não filho dele o que estava feito, estava feito. Mas que vivíamos em pé de guerra, ah, isso vivíamos!

O melhor tempo era o que eu passava fora de casa! As brigas eram muito constantes mas, no momento, o “grande problema” era que eu continuava andando com a turma da Gangue. Quer eles aprovassem, quer não.

De semblante meio amarrado entrei na sala onde estava acomodada a turma. Estava meio friozinho mas ali eu me sentia em casa.

— Chega mais, meu irmão!

Fui me jogando no chão sem onda, apoiando as costas contra a parede, ao lado do Tistu e do Júlio. Foi o Éder quem notou.

— Tua cara não tá das melhores, Catatau! Junta aí na roda e puxa uma viajada que isso passa.

Os outros concordaram, olhando para mim. Era muito difícil alguém me pegar chateado. Eles rodavam o costumeiro cigarro de maconha e já haviam oferecido muitas vezes. Eu dava uma bicada de leve mas nunca queria provar de verdade. O pessoal respeitava minha decisão, sabiam que não precisava insistir. Era só questão de tempo.

E o tempo chegou. Eu só queria afogar aquele sentimento ruim que crescia por dentro. Eu era a ovelha-negra... estava destruindo a família... não me importava com ninguém...e também ninguém se importava comigo!

Resolvi aceitar. Fiz porque quis.

O Éder começou a preparar um cachimbão só meu. Sabiam que era a primeira vez e capricharam, era noite de novidades para mim. Ele estendeu o cigarro com o olhar meio enviesado e sorriu:

— Manda ver!

Eles continuaram entretidos na roda e me deixaram sossegado. Acomodado no canto da parede, com os cotovelos sobre os joelhos e o cigarro seguro entre os dedos, nem liguei mais e comecei a fumar de verdade!

 

De repente tudo estava muito engraçado e eu já não achava a vida tão injusta. Dava risada de tudo, da cara do Bolinha, do tênis branco do Edú, do cabelo do Márcio e até da porta, da janela, e de tudo o que me falavam. E ria, ria, sem parar. Percebi que estava balão de verdade.

Depois aquela sensação que se repetiria muitas vezes... aquela coisa irreal, aquela leveza... o chão afundando como nuvem... as cores carregadas... o mundo rodando... a parede estava ondulada e parecia que se inclinava na horizontal até o chão.......era gostoso!

— Esse negócio é muito louco... — Me ergui, pulei, apalpei as coisas. — Pôôôô.....!

Peguei o hábito mesmo. Eu queria experimentar todas as sensações. A maioria do pessoal ficava parado, sentado, só viajando, mas eu queria mais. Então fumava e depois saía com a bicicleta. Era uma coisa alucinante! Eu via tudo diferente, um mundo diferente. Era o que eu queria. Um mundo diferente!

 

A droga vinha de um traficante local, o Torba, um sujeitinho fuinha cujo nome verdadeiro ninguém conhecia. E ele aceitava tudo em troca do bagulho: toca-fitas, relógio, jaqueta... era fácil roubar alguma coisa e comprar a muamba com ela. Nem era preciso ter o trabalho de vender.

Aos poucos descobri que a droga era uma dualidade.

Por um lado aliviava a tensão. Mas por outro, aquela “mexida” na cabeça também me fazia muito mais violento. Cada vez menos eu me importava com o que pudesse acontecer nas brigas. Isso era bom porque parecia que o motivo de estarmos vivos era esse: Pau, Pau, Pau!

Impúnhamos ao mundo, através da violência, aquela realidade: nós existíamos! Existíamos, sim, e isso ia ser enfiado goela abaixo de quem quisesse meter-se conosco. E aquilo me envolveu. Pelo menos na Gangue eu tinha diálogo, coisa que em casa era inexistente.

Tomei muito cuidado para não viciar, apesar de saber que a maconha era a mais inofensiva das drogas. Procurei manter uma freqüência de apenas umas três vezes por semana.

Eu estava definitivamente adaptado ao grupo. Já tinha sido descabaçado em praticamente tudo e nada mais era novidade. Isto é, quase nada...bebia, fumava, roubava... mas não estava nem aí para a mulherada! Pelo menos, não da mesma forma que a maioria deles. A turma bem que tentou me arrastar para os prostíbulos vez por outra, mas com relação a isso eu era terminantemente contra. Ia totalmente contra os meus princípios.

Uma ou outra vez eu até acompanhei a turma na noitada, mas não quis saber de nada.

Eles respeitavam, ainda que rissem, debochando com certo carinho.

— Deixa estar, esse “catatauzinho” ainda cresce! E aí você vai deixar de ser “donzelo”!

Eu dava risada junto e me defendia:

— Vê lá, já cresceu, já! Mas não achei ele no lixo, né? Prefiro continuar “donzelo”!

 

Pouco tempo depois eu comecei a praticar Arte Marcial, Kung Fu para ser mais exato. Estava com 12 anos e os treinos eram os momentos mais cruciais para mim. Era a melhor forma de extravasar, extravasar, extravasar. Como eu precisava extravasar!!!

Meu pai tinha comentado, tempos atrás, que talvez a melhor coisa para mim fosse fazer algum tipo de esporte. Quem sabe aquilo ajudava a gastar toda aquela energia que eu tinha de uma forma mais proveitosa?

Resolvi acatar a sugestão e disse que queria aprender Arte Marcial. Ninguém sabia a diferença entre elas, nem eu, e então minha mãe matriculou-me numa Academia de judô. Eu suportei aquilo uma semana e desisti. Era muito chato, todo mundo se agarrando e caindo no chão. Aquilo não dava para mim!

A história do Kung Fu começou meio que por acaso. Certo sábado pela manhã eu estava em casa de minha avó e havia saído para dar uma banda com o Rodolfo, um amigo de infância, por ali mesmo. A faixa chamou a nossa atenção: “Hoje! Venha assistir apresentação de Wing Chun Kung Fu”.

Eu e Rodolfo fomos xeretar. A coincidência foi tanta que faltava apenas uns quarenta minutos para começar a tal coisa. Eu já era aficionado com lutas fazia tempo. De repente... aquele cartaz à minha frente!

A apresentação foi muito simples, sem exageros, mas a técnica apresentada me fez lembrar imediatamente do filme “Shaolin contra os Doze Homens de Aço”. E eu percebi que a Arte Marcial que eu admirava tanto era o Kung Fu! A plasticidade dos movimentos e a beleza dos chutes me fascinaram. Mas quando o Professor mostrou um pouquinho de nunchaku...com aquilo eu realmente me encantei.

No final da apresentação eu corri a falar com ele:

— Pôxa, Professor, como você mexe bem este “chaku”!

— Não é “chaku”, é nunchaku. E você também pode fazer isso, é só prática!

Quando voltei para casa fui logo avisando:

— Quero fazer Wing Chun!!!

E fui. Meu desenvolvimento começou a se dar muito rápido. De início eu tinha aulas durante 3 horas apenas aos sábados. A filosofia daquele meu primeiro Professor, o Ageu, era a seguinte:

— Durante a semana devemos nos preparar para o Kung Fu! Por isso a importância do condicionamento físico. O seu corpo precisa ser preparado diariamente para que você tenha condições de realizar a técnica!

Dessa forma ele nos passava um programa gradativo de exercícios para serem feitos individualmente durante toda a semana. E aos sábados nos dedicávamos somente ao Kung Fu e como tudo o que me entusiasmava, eu passei a respirar aquilo.

Corria, fazia exercícios musculares religiosamente montanhas de abdominais, flexões de braço, alongamento. O alongamento em especial meus pais definitivamente não entendiam. Eu amarrava minhas pernas estendidas ao máximo nos pés do sofá e lá ficava, diante da TV. Meu pai chegava do serviço e não acreditava naquele “massacre”. Comentava com minha mãe:

— Será que esta coisa está fazendo bem para ele?

A noite, antes de deitar, eu relembrava as seqüências técnicas aprendidas. À medida que meu corpo ia respondendo eu pegava mais pesado ainda nos exercícios. Comprei caneleiras e corria com elas. Aumentava a distância e a velocidade tanto quanto me fosse possível para melhorar minha capacidade aeróbica Com as caneleiras eu trabalhava melhor também a parte muscular. Quando as retirava, parecia que minha perna voava.

Desenhei na parede do quintal de casa o contorno de um homem, com todos os pontos vulneráveis que aprendi. Treinava ali, incansavelmente, os meus chutes.

Todo o dinheiro que eu tinha passei a investir no Kung Fu. Comprei vários kimonos. E armas, armas, armas. Tinha muitos modelos de nunchaku, de shurikiens e também espadas.

Naturalmente que progredi a olhos vistos. Logo o Ageu passou a me elogiar diante dos demais. Primeiro comentou o efeito dos exercícios sobre o corpo e a musculatura. Depois, à medida que o tempo passava, começou também a elogiar a destreza da técnica.

Eu era mesmo muito esforçado. Incapaz de voltar no sábado seguinte sem ter treinado exaustivamente tudo quanto fôra dado no anterior. Da mesma forma eu não saía da aula sem todas as dúvidas resolvidas. Mestre Ageu costumava nos exortar:

— Você pode levar 10 minutos para adquirir um vício e um ano para tirar!

Logo deixei a turma para trás. Ele foi muito jóia comigo porque me adiantava em técnica individualmente, na medida do meu ritmo. Certa ocasião, durante o treino, Ageu bateu no meu ombro com um gesto amigável:

— Admito que em matéria de nunchaku você está ficando melhor do que eu!

De fato eu tinha uma fixação toda especial com aquela arma. Não saía mais de casa sem ele e com o tempo eu iria me tornar um exímio manejador. Ao lado da faca e do revólver, o nunchaku agora fazia parte do meu arsenal diário de armas. Ainda usava a corrente também, se se fizesse necessário.

Naquela época entrou uma nova modalidade de Kung Fu na Academia, o Union First, com outro Professor, um sujeito super-jóia chamado Péricles. E eu passei a treinar também com ele durante a semana. O Union First era um estilo completamente diferente daquilo que eu estava acostumado a praticar no Wing Chun. Era peculiar: uma mescla de 9 estilos de animais, dragão, macaco, urso, cavalo, águia, tigre, garça, serpente e grou.

Quem trouxe o estilo ao Brasil foi um Mestre chinês de nome Machon Yung, um sujeito muito considerado pela comunidade chinesa. Ficamos sabendo que o próprio Péricles era discípulo do Mestre Yung e treinava no Centro Social Chinês, lá na Liberdade.

A prática do Union First me abriu os horizontes tremendamente. Melhorou minha criatividade e a visão das potencialidades do Kung Fu; ganhei em agilidade, destreza e flexibilidade. Comecei a me envolver com um Kung Fu bem mais acrobático. O Wing Chun tinha sido criado por Nig Mui, uma monja do lendário Templo Shaolin. Era seco e direto, muito agressivo, mas sem tanta beleza. Já os estilos de animais, característica clássica do Kung Fu, eram belíssimos.

Comecei a descobrir não só a potência dos chutes altos e dos chutes de giro (coisas que no Wing Chun eram absolutamente impensáveis), mas também diferenças tremendas em relação aos dedos e ao que eu podia fazer com as mãos. No Wing Chun o ataque limita-se aos golpes de mão fechada e à palmada. Mas comecei a ver que havia muito mais que isso, aprendi que os movimentos em garra, por exemplo, eram muito eficazes.

As torções do Union First também tinham seu brilho para mim, eram divididas em 7 módulos de 7 torções e sua principal característica era a capacidade de causar fraturas múltiplas.

O Péricles também dava uma ênfase muito especial ao combate. Mas não era uma pancadaria pura e simples, ele procurava sempre manter ao máximo a postura e a técnica corretas.

Um dia, num descuido, levei um chute na cara que me abriu o supercílio. Em casa tive que ouvir um monte de minha mãe:

— Quer dizer que eu gasto dinheiro com Academia prá acabarem com você??? E quem paga o médico depois?!!! — E blá, blá, blá.

Eu a deixei falando na cozinha e fui para a sala colocar um bife gelado no hematoma. Tinham-me dito que era bom. Afinal, uns machucados fazem parte!

— Não vou mais pagar Academia coisa nenhuma! Você está é ficando pior do que antes...! — Foi a conclusão categórica de minha mãe.

Meus pais foram irremovíveis em sua causa. Para eles aquela “pancadaria” não ia me levar a nada. No entanto, como ótimo aluno que eu era, não foi difícil fazer um acordo na Academia. Mestre Ageu até se ofereceu para falar pessoalmente com minha mãe, explicar porque eu tinha me machucado.

— Pôxa, ela está equivocada. Você está indo tão bem! Vamos marcar para conversar.

Minha mãe nem deu atenção e não foi conversar com ele. Eu estava super frustrado e comentei meu pesar com ele e com o Péricles.

A solução acabou sendo encontrada: eu passei a ser responsável por diversos pequenos serviços dentro da Academia: varria o chão, atendia telefone, punha e tirava tatames, punha e tirava o saco de pancada, trabalhava na secretaria, fazia matrículas, era um pau para toda obra. E não pagava mais para treinar!

Eu não ia largar mão do Kung Fu! Todos os outros alunos que haviam começado na mesma época que eu foram aos poucos desistindo, por falta de disciplina e empenho. A arte por si só exercia uma seleção natural sobre o grupo. Muitos começam mas poucos terminam. E eu ia terminar!

 

Mais ou menos um ano e meio depois que comecei a treinar acabei tendo uma oportunidade de ouro. Inexplicavelmente o Ageu teve que desligar-se da Academia. Apesar da falta que ele fazia, a dona, um pouco perdida com a situação nova, em poucos dias me chamou e propôs:

— Vejo que você se esforça e sabe bastante. Tem responsabilidade nos serviços que presta à Academia. Olha, façamos o seguinte. Até eu conseguir outro Professor de Wing Chun você assume a turma e vai ensinando até onde você sabe. Pode ser?

— Beleza!!!

Mas como eu não tinha credencial para dar aulas sozinho ficou acertado que Mestre Péricles daria toda a supervisão e o apoio necessários. Como discípulo do Union First e sob a supervisão direta dele a coisa dava para ser levada por algum tempo.

Passei a me dedicar com esforço dobrado às minhas novas incumbências. Pela manhã ia à escola, e depois direto para a Academia. Agora eu passava a tarde toda lá. Treinava Wing Chun sozinho para não esquecer nada do que aprendera, dava aulas, e treinava Union First com o Péricles. Os encontros com a “29” se davam diariamente no final da tarde ou à noite.

Depois disso progredi mais rápido ainda. Eu sempre chegava antes na Academia e saía mais tarde para poder dar seqüência ao meu próprio programa de treino.

O Péricles, às vezes, implicava comigo numa boa. Quando eu chegava normalmente ele estava sentado no chão em posição de lótus, sozinho, meditando, ou ocupado com algum livro. Eu ia direto para o saco de pancada ou para uma espécie de “tijolo de borracha” destinado ao mesmo fim. Ele ficava preso à parede e chamava-se socadeira. Eu adorava a socadeira! Ia embora que nem um robô: Plá! Plá! Plá! Plá! Plá! Plá!

— Pôxa vida, lá vem você com essa barulheira! Cheguei mais cedo para ver se conseguia ler um pouco e você que não sossega, heim? Vai colocar os tatames!

Eu colocava sem resmungar. Terminada a tarefa, passava outra vez diante dele, em direção à socadeira, sem dar-lhe um pingo de atenção. Só sentia o seu olhar meio injuriado me seguindo. E eu voltava para continuar fazendo a mesma coisa: Plá! Plá! Plá! Plá!

— Eduardo, dá uma varrida nesses tatames, estão muito empoeirados. — Ele também não desistia.

Como eu era bolsista não havia o que questionar. Varria. Mas voltava: Plá!Plá!Plá!Plá!Plá!Plá!Plá!Plá!Plá!Plá!Plá!!! — Não tem jeito mesmo, né?!!!

— Mas eu estou a fim de treinar, caramba! — Dificilmente eu me dava por achado.

— Quer dizer que você quer treinar, então? Pois está muito bem. Aquece a perna.

Ele lutava comigo e me dava altas porradas. (Numa boa!). O Péricles tinha sido campeão paulista, campeão brasileiro e eu o admirava tremendamente por causa disso. Uma vez vi as fotos dos Campeonatos que ele levou na Academia. Que coisa tremenda!

Acabei me acostumando a lutar com ele quase sempre. Mas a maior parte das vezes era na base do “corretivo”. Eu nunca parava quieto. Era naturalmente inventador de moda, por isso o Péricles estava sempre de olho em mim.

Mas, justiça seja feita, ele me via com bons olhos em se tratando do esporte. Mais tarde convidou-me a ajudá-lo um pouco nas suas aulas como uma espécie de instrutor. Só que antes ele precisou me “enquadrar” um pouco, domar a minha rebeldia e fazer-se respeitado por mim em qualquer circunstância. Obviamente foi um processo. Eu não me deixava domar.

Começou com os “Paus” que ele me dava às vezes. Volta e meia ele mostrava quem era o dono do pedaço.

Depois foi por causa dos palavrões. Eu tinha a boca naturalmente muito suja por causa da Gangue, fazia parte do meu linguajar. Eu não precisava me esforçar para falar daquele jeito, saía naturalmente. Uma vez o Péricles me chamou num canto (ele não me chamava a atenção na frente dos outros alunos porque, à rigor, eu era o mais adiantado e também instrutor de Wing Chun):

— Olha, Eduardo, você está falando coisas muito pesadas em aula. Eu sei que não é de propósito mas você precisa se policiar!

Não que eu usasse aqueles termos de maravilhoso calão para xingar alguém, apenas se estivesse nervoso. Era o feijão com arroz mesmo! Eu bem que me esforcei. Mas mesmo assim saía.

— Porra, cara, esse golpe é mesmo do (...), porque (....)! (.......)!!!! Se eu pego um (...) com essa (...)!

Até que Mestre Péricles foi mais impositivo:

— Se você continuar assim vou ser obrigado a expulsar você da Academia. — E justificava sua atitude me falando muito da filosofia do Kung Fu. - Isso não é maneira de se expressar, Eduardo!! O verdadeiro Mestre Kung Fu é alguém totalmente diferente, alguém cheio de sabedoria, cheio de valores internos. O polimento começa por dentro, sabia?! Se você não consegue nem mesmo controlar o seu modo de falar como pensa em dominar o seu próprio corpo e, mais ainda, a sua mente? Nem todo lutador é um Mestre! Você tem potencial. E poderá vir a ser um ótimo lutador, mas de que valerá isso? Um lutador só serve para bater... você não vai ter mais nada a oferecer! Nunca será um Mestre sem disciplina e sem controle de si mesmo!

Aquilo mexeu um pouco comigo. Percebi que ele reparava em mim, se importava com algo mais do que a simples disciplina dentro da sala de aula. Queria me ver crescer.

Eu realmente tentei me policiar porque no íntimo queria muito a aprovação dele. Mas como era difícil!

E depois eu era muito folgado. Reconheço que eu transpirava folgai Em aula havia alguns exercícios que eu não gostava muito de praticar, algumas técnicas que não achava lá muito proveitosas. Então dava um jeito de treinar outra coisa, ou fazer de conta que já tinha treinado.

— Você já acabou, Eduardo? — O Péricles passava perto de mim, dando uma olhada em outra coisa como quem não quer nada.

— Já. Já fiz tudo.

— Eu não vi. Faz de novo.

— Pôxa, eu já fiz.

Mas ele estava mesmo sempre de olho:

— Não fez. Pode fazer agora.

— Ah, mas essa técnica não serve para nada, negócio mais fora de bitola esses golpes. — Eu terminava desembuchando. — Eu não vou treinar isso aí, não!! Não funciona, não serve para nada!

Eu não fazia o menor segredo da minha opinião, falava na frente dos outros sem o menor pudor.

Péricles espelhava sempre aquela calma tão “oriental”, aquele jeito plácido e firme de ser, às vezes até meio seco, meio sem muitas palavras.

— Quer dizer que isso não serve para nada?

Dificilmente eu me dava por achado:

— É isso aí!

— Aquece a perna. — Falava ele. Escutei aquela frase dezenas de vezes.

E ele me encheu a lata usando a tal técnica uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes seguidas na frente de todos.

Ele gostava de mim. Uma resposta dessas podia me custar um desligamento imediato por indisciplina. Mas ele preferia me disciplinar de outro jeito. Confesso que “água mole em pedra dura...”! E eu tinha a índole bem durinha mesmo.

— E agora trata de treinar.

Ele não fazia para me humilhar, eu sabia disso. Parece que ele aprendeu que para lidar comigo e conseguir algum resultado tinha que ser mais ou menos daquele jeito. Volta e meia eu estava aprontando.

Uma ocasião eu dava uns chutes alucinados nos tatames da Academia, na maior bandalheira, já estava voando palha de dentro dos tatames. Mas parece que eu perdia a noção nessas horas, tudo o que eu queria era continuar batendo. Ele aparecia, olhava, nunca vinha gritando ou dando bronca convencional:

— Pelo visto você quer bater um pouco, não é? — E lá vinha: — Aquece a perna.

E lutava comigo. Batia pesado, sem luvas de pelica. Uma vez, apesar dos protetores, vacilei e ele me acertou um chute na cara. Não senti dor propriamente dita mas um negócio quente escorrendo pelo rosto. Era sangue. Mesmo assim ele me fez continuar. Mais tarde explicou:

— Se fosse uma luta real você não ia poder parar porque levou um golpe. Por isso não interrompi de pronto. Vai agora colocar um gelo nisso aí.

 

O SESC era um lugar agradável, um dos trunfos recém inaugurados do bairro. Eu adorava ir para lá tanto sozinho como com o pessoal da “29”.

Fazia mais ou menos dois anos que eu pertencia à Gangue. Não tinha mais compaixão de ninguém. Bater se tornara um hábito, eu perdera completamente o medo e o bom senso. E no meu caso a Arte Marcial ajudava a despertar ainda mais a violência.

Eu estava ficando ágil, forte, cada vez mais confiante em mim mesmo. Gostava de medir forças... e brigas para isso não faltavam. Começava a colher os primeiros frutos reais do treinamento.

Infelizmente aquela história de domínio próprio, controle e “ser um Mestre” não estavam fazendo muito a minha cabeça! Não que eu não quisesse... mas era praticamente impossível! A “29” tinha inimigos em todos os lugares.

E nós estávamos crescendo. O grupo já não era tão “inocente”. Aquela constante sensação de poder ia tomando conta de nós. Pensávamos que nada seria impossível e que o mundo estaria sempre ao nosso dispor.

Brevemente veríamos que não era bem assim. A maioria optaria por um caminho sem volta.

Naquela tarde, no SESC, eu estava com mais quatro amigos da Gangue. Sempre pintava um pessoal meio esquisito por lá. Estávamos no pavilhão principal onde também funcionava a biblioteca com suas mesas de estudo, o cinema e a exposição semanal de arte.

Era bacana ficar por lá. Aconchegante! O lugar era amplo, alto, objetos esquisitos de arte e quadros estranhos estavam expostos em quase metade do pavilhão. O chão e as paredes eram de pedra, dava um ar todo diferente, e havia gente espalhada pelas mesas e sofás. Todo mundo ficava bem na sua, ninguém dava bola para ninguém e convivíamos em relativa paz.

Mas o melhor era a lareira que havia no centro!

Eu e a turma sentamos ali perto tocando violão e bebendo vinho: era o célebre “vv” ou seja, “ violão e vinho”. Cantávamos alto, sentados no chão, um showzinho particular. Lembro-me com saudades daqueles tempos de “vv”. Era divertido, liberava a tensão acumulada, dava para fugir um pouco. Às vezes queimávamos uma erva antes de sair e tudo parecia muito legal, uma eterna festa enquanto estávamos sob o efeito da droga.

E foi neste dia que eu a vi pela primeira vez.

Ela chegou junto com um cara que conhecíamos de vista e com quem já havíamos trocado uma ou outra idéia, um surfistinha loiro parafinado e super esquisito (até mesmo para nossos excêntricos padrões). Cabelão comprido, um monte de tatuagens, pulseiras e colares de conchinhas, jeitão molenga de falar do tipo “Tô nem aí”. Uma figura!

Nós todos reparamos nela, uma gatinha loira de cabelo bem comprido que caía nas costas, não mais do que 12 ou 13 anos, pequenina, com um lindo sorriso, uma roupinha da hora. O surfista fez um gesto de cumprimento quando passou por nós. Respondemos sem olhar para ele. Nossa admiração era toda para a novata. Depois que passaram todos nós viramos a cabeça para olhar melhor.

— UAU, vocês viram só que guria? — Falou o Bolinha.

— Não dá para entender como é que um tipo desses descolou essa daí!

Eles começaram a rir e falar bobagens. Eu não disse nada. Olhei bem e só vi que eles foram sentar num sofá lá no fundo. Ela não olhou mais para nós.

— E aí, Catatau? — O Júlio me dava uma cotovelada. - Você não gostou, não? Não fala nada!

— Gostei, pô, se gostei! - Mas fiquei só nisso.

Logo depois eles saíram e não os vi mais. E o “vv” voltou ao normal até de noite.

A segunda vez que eu vi a tal garota foi na rua mesmo, ela vinha subindo abraçada com o surfista.

— Não boto fé! — Pensei comigo. — Não é que essa guria tá mesmo andando com aquele cara?!

Fiquei encarando, pensando no que eu poderia fazer para chamar a atenção dela. Pensando bem, era mesmo uma gata deslumbrante. Queria que ela me desse atenção! Mas o surfista só me cumprimentou e eles continuaram em frente.

Eu tinha tido uma namoradinha com quem “acabara” há pouco. Tinha sido mais por pressão do que qualquer outra coisa.

De um lado a turma, com aquela história de “donzelo” prá cima e prá baixo. Do outro lado a menina, que correu tanto atrás de mim na escola que acabei dando uma chance à coitada. Mas era muito boba! Estava sempre chorando por minha causa porque eu preferia mais estar com a turma do que com ela.

Como toda namorada que se preze ela me queria por perto o tempo todo. Eu sumia sem dar satisfação! Influência do Águia, que às vezes cruzava com a namorada dele no meio da rua e nem se dava ao trabalho de cumprimentá-la.

Mas enfim... eu estava livre outra vez! E a turma já querendo me arrumar outra menina, sempre me pegando no pé por causa desta história de namoradas. Principalmente os mais velhos. E me arrumavam cada uma que só cabia mesmo na cabeça deles. Afinal eles não pensavam em outra coisa!

Havia uma mocinha, (uma vadia!), que ia às vezes na “29” alegrar a vida da rapaziada. Numa boa e de graça.

Uma vez calhei de vê-la. O Éder veio correndo me chamar para ver algo “muito engraçado” lá na sala. Eu fui, mas não achei um pingo de graça. Definitivamente. Ela estava meio despida e o pessoal, encostado nas paredes, observava. Ficava rebolando ao sabor da música mas aquilo me enojou.

— E então? Vai aí?! — O Éder fazia que sim com a cabeça. Tive que rir.

— Vai aí?! Tá brincando, cara? Não rola mesmo, já disse que não achei ele no lixo!

Ele fez uma careta gozada, me deu um empurrãozinho. — Aeh, Catatau, quando é que você vai deixar dessa onda, meu irmão???

— Quando der na telha! Fazer o quê com essa fubanga aí? Sem o menor sentimento! Não dá, a mina tem que fazer a minha cabeça, cara! Sabe como é que é, mexer por dentro... — Eu não sabia como expressar melhor e nem acho que o Éder estivesse preocupado em ouvir aquilo.

— Que papo mais cabeça, Catatau.

— Sai fora com essa mina aí! Mas valeu a intenção, cara, valeu!

Ele parece que se esforçou para entender:

— Bom... vê se acha logo a que vai fazer a tua cabeça! “Vocês” estão é perdendo com essa história de querer continuar “donzelo”!

Eu e ele acabamos dando risada. E quando vi que o negócio ia pegar tratei de ir me mandando. Cochichei para o Márcio e o Júlio, que estavam ao meu lado, em tom super-caçoísta:

— Se eu fosse vocês usava duas ou três borrachas ao mesmo tempo... sabe? Uma por cima da outra!

Eles não estavam nem aí!

Não que eu me incomodasse de ainda ser “donzelo”. Mas é que ainda não tinha pintado clima. Eu não conseguia me livrar delas, das meninas. Estavam em toda parte e vinham atrás de mim na rua, na escola, nas festas, viviam batendo na porta de casa, o telefone não parava. Eu fora condescendente com a minha primeira namorada mas não seria mais. Aquelas meninas eram todas muito chatas! E embora eu não confessasse à turma, achava que o tal do amor deveria ser algo mais.

E fiquei pensando na garota loira que não desgrudava do surfistinha.

 

No sábado seguinte estava um clima tenso em casa. Para variar meus pais estavam desgostosos comigo. Minha mudança havia sido tão impressionante que eles já achavam que eu tinha mesmo virado um marginal.

Minha roupa mais usada: jeans e camisetas rasgadas, jaquetas descoradas com água sanitária e cheias de broches artesanais feitos com durepox, braceletes de pontas, botinas imundas. Meus cabelos eram outro desastre. Compridos e em desalinho, não sabiam o que era xampu. Ia na base do sabão de coco mesmo.

Mas tinham desistido de tentar me afastar da Gangue. Eu andava mesmo com eles, podiam esquecer! Às vezes o tempo ficava quente para o meu lado por causa disso. Não adiantavam proibições, castigos e muito menos ameaças.

Eu já estava saturado daquela conversa de ser a ovelha-negra, o indesejado, o mau elemento. Por outro lado já não havia como voltar a ser aquele guri tolo e indefeso. Aprendi na Gangue que quem não almoça é jantado. E como aquilo era realidade!!! Pois muito bem, eu não ia ser jantado, falassem o que quisessem!

De cabeça quente eu larguei meus pais reclamando com as paredes. Bati a porta com força, peguei a bicicleta e saí sem rumo a princípio. Nem na Gangue apareci. Às vezes eu continuava precisando disso, do meu antigo isolamento. Precisava estar sozinho, espairecer um pouco as idéias. De quando em quando fazia falta. Quando ficar em casa parecia quase insuportável.

Logo começou a chover e eu estacionei embaixo de uma árvore muito amiga. Volta e meia eu ficava ali, idiotamente conversando com ela sobre os meus problemas em casa, perguntando para o vazio o que deveria fazer, falando aquilo que mais ninguém estava autorizado a escutar.

E lá estava eu debaixo da árvore, sentado na bicicleta e falando sozinho quando bati os olhos na figurinha que vinha subindo a rua. E não é que era a menina do SESC?! Ela vinha caminhando sem pressa, totalmente na dela, tomando chuva de braços abertos e com o rosto voltado para cima. Sozinha.

Não deu outra. Esqueci imediatamente do que estava confidenciando à árvore e saí pedalando na direção dela. Eu estava todo molhado, meu cabelo caía despenteado pelos ombros mas e daí? Ela também estava toda molhada!

— Dez essa mina! Pelo visto não tem frescura, tá é adorando a chuva! — Pensei comigo.

Pedalei rua abaixo de olhos grudados nela, que ainda não tinha me visto. Fiz a volta e parei perto, continuei pedalando no ritmo dos seus passos:

— Vai uma carona aí? — Perguntei amavelmente e com um sorriso.

Ela voltou o rosto para mim. Eu sabia que ela sabia quem eu era, pelo menos de vista. De perto era ainda mais linda, tinha olhos azuis e pele branquinha. Ela não pareceu surpresa com o meu oferecimento mas deu de ombros, sacudindo a mão:

— Não, não! Isto aqui tá ótimo, não estou com pressa nenhuma. Vou a pé mesmo!

“Tudo bem, vamos a pé então”, eu pensei. Ia engrenar no papo quando ouvi uma voz estridente que gritou o meu nome: — Eduardo, Eduardo! Oi!! Espera aí! Olhei para trás. Que droga! Era a Lisete, irmã de um colega da Gangue e que me conhecera numa festinha do Bairro. Ela vinha correndo pela rua transversal com uma pasta vermelha sobre a cabeça. Estava totalmente apaixonada por mim... e não largava mão!

Tive que esperar. Observei com pesar a outra continuar seu caminho sem sequer se despedir. Quase fuzilei a Lisete com os olhos:

— Oi. — Respondi em tom seco. Ela nem se tocou do meu mau humor. — Puxa, que bom que te achei! Me dá carona até em casa? Era difícil recusar sem ser grosseiro. Não fosse irmã de amigo!!!

— Sobe aí!

Dei meia volta na magrela e tomei o rumo de casa para levar a Lisete. Que cena patética! Encarapitada de pé na garupa da bicicleta e com as mãos nos meus ombros, ainda assim ela procurava manter aquela pasta idiota em cima da cabeça. Por que simplesmente não tomava chuva como a outra? Eu não olhei para trás, mas acho que a loira deve ter visto. Queria mais era que a Lisete se esborrachasse no chão!!!!

Quando a deixei no portão nem desci da bicicleta, louco para dar no pirandelo. Mas ela insistiu para que eu esperasse. Entrou em casa e voltou com uma aliança de lata que me impingiu como prova de seu amor. Reparei, boquiaberto, que havia uma semelhante no dedo dela! Ela ia começar o discurso, meio sem jeito, mas eu ainda pensava na menina do SESC. Irmã de amigo ou não aquilo também já era extrapolar. A única maneira de encurtar o papo era aceitar logo a aliança.

— Obrigado. — Respondi sem ênfase. — Mas agora você me dá licença que eu estou com muita pressa!

Dei no pé sem esperar resposta. Lisete ficou lá na chuva e fui pedalando com resmungos. Uma oportunidade tão boa jogada fora assim!...

Mas eu já tinha comigo que eu ia conhecer aquela garota. Cedo ou tarde haveria nova deixa.

E de fato não demorou muito, minhas previsões estavam certas. Poucos dias depois eu estava sozinho no SESC fuçando, para variar, na biblioteca. Isso eu tinha realmente que fazer só. Ninguém da Gangue tinha paciência com os livros. Eu estava sentado num sofá e entretidíssimo com a leitura. Nem sabia o que se passava ao meu redor. De repente, sem mais nem menos, uma pancadinha no ombro vinda de alguém por trás de mim. Era ela! Passou por mim e cumprimentou:

— E aí, carinha? — Andou mais alguns metros, deu uma reboladinha linda e de propósito, uma olhada por cima do ombro. Um sorrisinho maroto e infantil estampou-se no seu rosto. Difícil dizer se era só brincadeira ou se ela queria mesmo puxar papo.

Eu sorri de volta, segui-a com os olhos mas não falei nada. Naquele dia ela usava uma calça de brim vermelha que achei bonita.

— Bom...— O livro jazia esquecido no meu colo ainda que eu fingisse ter retomado a leitura. — Ela deu bola...— Meu sorriso alargou-se. — Bom sinal, bom sinal! — E retomei a leitura.

Eu não seria tão tolo de procurá-la imediatamente. Era dar corda demais. Mas depois de um tempo fui estrategicamente colocar-me em uma poltrona bem ao lado da entrada do pavilhão. Ela teria que sair por ali em algum momento e eu poderia vê-la.

Continuei a leitura. Volta e meia perscrutava o ambiente com os olhos. Lá pelas tantas, entra gente e sai gente, eu já estava cheio de tanto vai-e-vem. Enfim apareceu a menina da calça vermelha. Vinha novamente sozinha e passou apressada sem olhar na minha direção. Era hora de agir. Eu já retribuíra à altura a falta de interesse dela no dia da chuva. Por sorte estava sem mochila.

Saí trotando, em passo de quem vai iniciar o cooper. Avistei-a descendo rumo à avenida lá embaixo e fui atrás. Passei por ela e imitei o gesto: dei a mesma pancadinha no seu ombro.

— E aí, garotinha? — O “garotinha” foi de propósito, afinal ela me havia chamado “carinha”.

Continuei no mesmo ritmo e, poucos passos adiante, tomei a mesma atitude significativa: olhei por cima do ombro e enviei-lhe um sorriso. Sem rebolar, é claro! A reação foi instantânea, ela devolveu o sorriso e rapidamente pôs-se a correr ao meu lado.

— Você pensa que pode me acompanhar na corrida, é? — Indaguei sem parar.

— Penso, não! É claro que eu posso.

— É uma aposta?

— Está apostado! — Ela prendeu o cabelo com um elástico que tirou do bolso, sem parar de correr.

Atravessamos a avenida. Eu comecei a rumar em direção ao parque, vários quarteirões adiante. Era claro que ela não iria tão longe! Eu tinha bom condicionamento físico e sabia que era uma distância mais ou menos. Volta e meia eu me voltava para perguntar:

— E aí? Tá cansada? Quer parar?!

Ela mal respondia, poupando o fôlego, ofegante mas indo adiante com vontade. O que ela queria me provar?

— Quando você parar... eu também paro!

Fiquei admirado. Eu dava valor a quem gostava de atividade física. Não é que ela tinha fôlego mesmo? Entrei no parque pelo portão principal e fui parando aos poucos.

Entreolhamo-nos, limpando o suor do rosto, entre risos:

— Legal, você conseguiu, heim? — Falei para ela com bom humor.

— É que eu estou acostumada a fazer um pouco de ginástica!

— Bacana, Garotinha, não tinha botado essa fé em você quando a gente começou.

— Eu sei disso, Carinha. Agora você já viu que perdeu a aposta! — Ela deu um empurrão no meu ombro. — Vamos andar por aí! — Nem era um convite. Ela me tratava como seja fôssemos velhos conhecidos.

Saímos caminhando pelo parque, calmo naquela tarde de meio de semana. O papo rolou naturalmente. Conversamos sobre tudo, a escola, a família, os amigos, nós mesmos. Era difícil conseguir ter uma conversa tão descontraída assim com alguma menina. Elas sempre me cansavam antes mesmo de começar. Eu não conseguia me entreter com elas por muito tempo, mesmo com as consideradas “legais”.

Com a Garotinha foi diferente, ela era extrovertida, engraçada, espontânea, alegre, inteligente nas respostas. E meio doidinha! Esse traço de caráter em especial me fascinou! Ela não estava simplesmente fazendo onda para me agradar porque a bem da verdade nada sabia a meu respeito. E eu era um doidinho também! (Bom...talvez um eufemismo, mas deixemos para lá!...).

Eu mais escutei do que falei. Garotinha gostava de falar! Ela era filha do prefeito de uma cidade litorânea e, por conta disso, ele quase nunca estava em casa. Nem a mãe, que era Professora de artes e meio perdida na vida. Ela passava a maior parte do tempo sozinha com uma irmã bem mais velha. Haviam se muda- í do há pouco para o bairro, moravam mesmo ali perto do SESC, > em um apartamento. Ela gostava de animais, esportes, dança, tocava o piano.

Eu falei sobre meus interesses particulares e meus amigos. Também um pouco sobre o Kung Fu. Mas pouco, só quando ela perguntava. Por mais interessante que fosse a Garotinha eu não tinha intenção de me expor logo de cara.

Ela parecia muito diferente de mim à primeira vista. Mas tanto eu quanto ela terminamos aquele primeiro encontro achando, lá no fundo, que não ia ficar só no primeiro. Despedimo-nos bem mais tarde, sem troca de telefones. Aquele foi outro ponto para ela. Eu detestava as garotas que não paravam de ligar em casa!

Só mais tarde percebi que nem nossos nomes haviam sido ditos. Mas não me preocupei. A gente ia se cruzando sem muito compromisso.

 

E foi o que aconteceu. Minha amizade com a Garotinha acabou se solidificando naturalmente, sem forçar a barra, o que foi bem melhor!

Depois do passeio no parque eu não a vi durante uns 15 dias, ocupado que estava com muita coisa. Não deu tempo nem de por o nariz no SESC. Acabei por encontrá-la novamente por acaso.

Um final de tarde, noutro sábado, eu caminhava por uma das travessas próximas do SESC depois do meu treino. Ia até em casa comer alguma coisa porque estava sem grana para um rango na rua. O tempo estava meio fechado, com garoa e vento frio mas eu vinha andando com calma.

Quando passei defronte a um prédio minha atenção de súbito desviou-se para uma estranha cena. No alto das escadas que levavam ao saguão eu vi uma menina com a cara cheia de uma meleca branca, papel laminado enrolado na cabeça e um coelhinho cinzento no colo!

Meio de relance bati os olhos e nem a reconheci; mas observando melhor vi uma fileira de dentes que apareceram no meio de toda aquela gororoba. Aproximei-me do portão e perguntei, contendo o riso:

— É você??!

— Oi! Quanto tempo, heim? O que é que você esteve fazendo? — Por aí. Agora estou voltando do treino. Esse coelho é seu? — É, é meu! É o Herbert! — Ela tinha várias verdurinhas ao lado que ia dando ao bichinho. — Entra aí. Quer dar comida prá ele também?

Eu gostava de animais. O porteiro abriu a tranca, sentei-me ao lado dela e já fui pegando o Herbert no colo.

— Ele é bonito, né? — Comentou ela.

— É bonito. Escuta, não me leva a mal, mas você não esqueceu de nada, não? Que que é esse negócio na sua cara? — Comecei a rir. — Será que você não esqueceu de lavar o rosto?!! Ela também riu.

— Ah, eu não estava a fim de ficar lá em cima e por isso desci um pouco. Isto aqui é máscara de beleza!

Não dava prá acreditar que ela tinha saído daquele jeito! — E você pretende ficar mais bonita passando isso aí? — Eu também não perdia a chance de brincar um pouco. Como eu viria a perceber, a Garotinha tinha sempre um ótimo senso de humor. — Ô, se fica! E o cabelo também! Daqui a pouco eu vou tirar! — Exclamou ela olhando para o relógio. —Você não quer subir um pouco? Leva o Herbert prá mim! — Vamos nessa! No elevador, perguntei:

— Acho que você esqueceu de me dizer o seu nome no outro dia, Garotinha.

— Thalya, muito prazer! E o seu?

— Eduardo. Mas me chame de Catatau!

— Catatau? Taí!! Gostei!

O apartamento era grande, espaçoso. Não tinha mais ninguém em casa. Na falta dos seres humanos fui apresentado ao papagaio e fiquei por ali enquanto Thalya tirava o creme do rosto. O cabelo ficou como estava, embrulhado no papel alumínio.

Mas ela foi para a cozinha e trouxe uns salgadinhos com coca-cola que vieram mesmo em ótima hora. E ofereceu, no meio de uma torrente de comentários dos mais diversos:

— Tenho aí um documentário sobre a Marilyn Monroe! Vamos assistir?

“Chi!...”, pensei comigo, “Isso deve ser a maior chatice!”. Mas concordei, suportando por um tempo. Só que era exigir demais.

— Tá louco, Thalya, isso aí é meio devagar! Acho que não vou conseguir encarar essa!

— Tudo bem, Edú! Eu aluguei um outro filme mais legal, “O brinquedo assassino”! Desse você vai gostar, precisa ver a expressão da cara do brinquedo. É super bem feito!

Thalya também adorava filmes de terror. Mais um ponto em comum. E assistimos “O brinquedo assassino”.

Depois que acabou, convidei:

— Vamos lá para o SESC? A galera está reunida!

— Falou! Deixa então eu tomar banho e me aprontar.

Thalya era extrovertida, sabia manter um papo interessante. Ria e falava o tempo todo, emendando um assunto no outro. Foi para o banheiro e nem fechou a porta, continuou conversando comigo através da névoa que saía de dentro do chuveiro.

Eu permaneci onde estava, volta e meia dava umas pescoçadas mas nada vi.

— Garota “prá-frentex” essa. Maneiro!

Escutei o barulho da água fechando e em minutos ela passava na minha frente, em direção ao quarto, com a maior naturalidade do mundo... e sem roupa nenhuma! Fiquei olhando meio estarrecido e reparei na tatuagem:

— Legal essa tatuagem aí, heim? Deixa eu ver?! — Fui me erguendo e me aproximando.

Era uma rosinha bem na nádega. Havia também uma serpente no ombro e um cavalo-marinho na canela. Naturalmente reparei melhor na rosinha. Toquei de leve para “sentir a textura”. Que textura!

— Essa aqui eu fiz há pouco tempo — Apontou a serpente. —Ainda está meio dolorida!

Não me espantei muito com aquela atitude. Thalya era o tipo de garota liberal meio maluquinha que faria realmente aquilo. Estranhamente ela não me pareceu vulgar como a mulherada da Gangue. Era um negócio meio “naturalista”, como ela mesma explicou, me olhando melhor:

— Espero que você não esteja estranhando muito, se você for cabeça-vazia nem vai querer me olhar depois disso. Por isso já deixo claro logo de cara! Não acho que o estado de nudez seja algo errado, pecaminoso. É como com os índios, não é? O homem e a mulher nascem nus, mas a Sociedade criou a roupa e a Igreja colocou os pudores. Mas realmente não vejo desta forma. Espero que você também não! Sou assim mesmo e acabou.

Dei de ombros, na minha.

— Prá mim tá branco. Se você acha isso não vou ser eu que vou colocar preconceito. Eu também vivo como quero e não gosto de ninguém impondo pontos de vista prá cima de mim!

— Beleza! Sabia que você era um cara mente aberta! Agüenta aí que eu já estou quase pronta.

E vestiu-se ali mesmo, com a porta do quarto aberta, na maior calma do mundo. Conversando, me pediu opinião sobre a roupa. Eu dei.

Antes de sairmos ela ainda me mostrou algo que sabia tocar no piano.

Depois desse episódio, Thalya e eu estávamos realmente apresentados e ambos nos consideramos mutuamente compatíveis.

A caminho do SESC fiquei só pensando que aquela loira era mesmo um “negócio à parte”. Mas eu também era muito sincero e imaginei se ela fazia aquilo com qualquer um. Lembrei do surfistinha parafinado e perguntei mesmo.

— E se fosse outro cara, você ia fazer a mesma coisa?

— Não é assim também, né, Edú?! Você me inspira confiança e eu fui com a sua cara! Te conheço há tão pouco tempo masparece que a gente é irmão! Eu gosto muito de você, você é um cara super-legal!

— E se fosse o carinha do SESC? - Insisti.

— Aquele babaquinha?!! Nem morta, aquele cara é um chato!

 

Nós passamos a andar juntos e apreciávamos a companhia um do outro. Thalya era uma boa amiga e eu também era um bom amigo. E ficamos nessa de amizade prá cá e prá lá, por um tempo.

Aos poucos fui aprendendo um pouco dos seus gostos “estranhos”. Ela gostava de música clássica, pintava telas, essas coisas tolas que para mim eram inconcebíveis. Acabei conhecendo a mãe, que era Professora de pintura e artesanato, e a irmã. Mas essa era uma doida que mais sumia do que aparecia em casa.

Thalya também gostava de comprar discos em sebos porque às vezes achava “raridades”, segundo ela. Então passava em minha casa e convidava:

— E aí, Edú? Vamos comigo num sebo?

Às vezes eu ia, ajudava a escolher os discos embora não entendesse nada daquele babado. Nunca tinha ouvido falar em Bach, por exemplo, mas ela garantia que era muito legal! Só de olhar a capa dos discos eu me poupei de escutar. Ficava com os meus rocks mesmo.

A gente também ia muito à bibliotecas juntos, finalmente eu encontrara alguém com quem podia compartilhar esse gosto. Eu estava naquela fase de estudar Ocultismo e Thalya, embora também fosse toda vidrada nesse assunto, volta e meia ia atrás de material da insubstituível Marilyn. Que fixação!

Nessas ocasiões eu também aproveitava para estudar outros assuntos. Pesquisava sobre a vida de Bruce Lee, pegava jornais da época para saber o que tinha sido dito quando ele morreu. E Thalya pegava jornais para saber o que disseram quando a Marilyn morreu. Depois, cansada, ela me ouvia falar tudo sobre o Bruce Lee e a Arte Marcial. Ela gostava bastante, tinha interesse em aprender.

Nos finais de semana eu costumava treinar Kung Fu no parque e às vezes eu fazia uma tremenda concessão, e ela ia também. Comprou um nunchaku e comecei a ensiná-la. Admirei-me ao ver que ela aprendeu a manejar até que bem os movimentos básicos. Até então eu não tinha cruzado com nenhuma mulher capaz de interessar-se por aquilo.

E Thalya também gostava de correr, fazíamos ginástica juntos uma vez por semana e depois, para relaxar, deitados na grama um fazia massagem no outro.

Depois alugávamos filmes de terror para ver à noite. Ela também era fixada nesse gênero, quanto mais sangrento, melhor! Enfim... em questão de poucas semanas já éramos meio que unha e carne.

Depois eu e ela reviramos São Paulo à cata de tudo quanto era seita que pudéssemos conhecer. Fomos a Centros espíritas, terreiros de Macumba, Templos Hare Krishna, Igreja dos mórmons, Mesquitas muçulmanas, Ordem Rosa Cruz... tudo o que desse na telha! Fizemos curso de parapsicologia com o padre Quevedo, estudamos no Planetário e, como não podia deixar de ser, tudo o que pudesse ser colocado em prática (espiritualmente falando) nós o fazíamos.

Às vezes era necessário um pouco de privacidade para fazermos os nossos rituaizinhos de invocação de espíritos: o do “copo”, a tábua ouija, essas coisas. Privacidade para isso era difícil de encontrar. A solução foi partir para o único lugar aonde não seríamos interrompidos: a Academia! Eu tinha a chave e podia entrar quando quisesse.

Combinamos o encontro. Mas um pouco antes, naquele mesmo dia, ela tinha começado com uma história de que havia sonhado comigo. O sonho se resumia em que estávamos perdidos numa ilha deserta e que eu havia providenciado tudo o que era necessário, e feito fogo, e cuidado dela, essas coisas estúpidas que mulher tem mania de pensar. Sei lá se era mesmo verdade, mas o fato é que realmente ela estava atiradinha, e falou sem maiores rodeios:

— E a gente passou a noite toda no amor! — Ah, é? Legal esse seu sonho, heim? — Respondi com olhar meio significativo.

Era óbvio que não ia demorar muito mais para rolar alguma coisa entre a gente. Mas não imaginei que seria tão logo! Achei que era troça, já estava acostumado com aquele jeito dela. Por isso, quando entramos na Academia deserta sinceramente eu estava pensando apenas no ritual espírita.

Acendi as luzes, mostrei tudo à ela, ligamos o som e, por fim, comecei a preparar o ambiente e o material para dar seqüência ao ritual. Apaguei de novo quase todas as luzes e comecei a acender as velas. Thalya ainda comentou que aquele fogo a fazia lembrar-se do seu sonho.

Antes que tudo estivesse pronto ela resolveu que ia tomar banho, experimentar a ducha e, para variar, voltou mais “naturalista” do que nunca. Confesso que me pegou meio de surpresa e não deu mais para resistir. Não fizemos nenhum ritual espírita. E com pouco mais de treze anos deixei de ser “donzelo”.

Mas era algo meio estranho o nosso relacionamento. Ainda que estivéssemos juntos com muita freqüência e o pessoal da “29” tivesse achado a minha namorada gatíssima, Thalya não era de fato minha namorada. Não gastamos tempo conversando a respeito, ficou simplesmente implícito que tanto eu quanto ela não queríamos assumir nenhum compromisso sério.

Que pensassem o que quisessem, nós nos considerávamos simplesmente amigos. Tudo bem que era uma amizade meio “coloridinha” mesmo, mas estava muito bom assim. Qualquer outra solução era capaz de estragar tudo!

Eu não confiava nela. Se assumisse compromisso e a pegasse com outro cara era capaz de matá-la. Junto com o cara! Por isso, a gente simplesmente “ficava”. E “ficar”... era só ficar! Não queria dizer nada.

Não comprometia ninguém.

 

Neste ínterim minha família veio a sofrer novo impacto da vida. O apartamento em que morávamos e que meu pai vinha pagando pelo financiamento de súbito teve as regras contratuais modificadas. As prestações tornaram-se escorchantes mas ao consultar-se o advogado foi descoberta uma cláusula pouco importante a princípio — mas que dava ao proprietário o direito de agir como agia. E fomos obrigados a desocupar o apartamento, perdendo todo o dinheiro já investido ali.

Mais crise, mais sofrimento, mais uma mudança brusca e forçada de moradia. E mais brigas, mais confusão, mais desentendimentos em família. E mais necessidade de encontrarem-se os bodes expiatórios! Naturalmente que eu era um deles. Meu convívio familiar chegou às raias do insuportável!

Apesar de tudo nós não saímos do bairro, apenas fomos para uma rua não muito distante do local primitivo. E morávamos de aluguel. Ficou um pouco longe da “29” mas aquilo não era problema para mim.

Na minha nova vizinhança repetiu-se a mesma história de sempre. Parecia que para me enturmar antes tinha que haver confusão, meu espaço só era conquistado na base da violência. Se afrouxasse, passavam por cima de mim. Então, antes que acontecesse... eu passava por cima dos outros.

A turma era folgada e eu mais ainda. Não esperei ter segunda vez. Na primeira tentativa — tentativa apenas! — daquele novo pessoal encrencar comigo, mostrei logo com quem estavam se metendo. Não precisou muita intimidação porque eles compreenderam logo que era melhor não colocarem as “manguinhas de fora”. Só a minha aparência já assustava!... A de meus amigos da “29” também.

E eles, o que eram? Somente “garotos de família”.

Com o passar do tempo, extrovertido como eu era e assediado por causa daquela história de “29”, acabei fazendo uma amizade legal com eles. Muitos dos meus amigos de hoje são lembranças desta época.

 

Fiz 15 anos. Em se tratando do Kung Fu meu respeito e amizade com o Péricles cresceram muito depois de um episódio que aconteceu em aula. Um dia ele pediu minhas luvas de bater para emprestar a um aluno. Como estavam em falta na Academia eu tinha comprado um par só para mim.

Concordei, mas esqueci dentro delas diversos pacotinhos de cocaína. Fazia algum tempo que eu tinha aderido àquela nova moda. Era uma verdadeira bomba de potência, a sensação que eu tinha era que poderia passar dias e dias subindo pelas paredes. Dava um vigor tremendo, inexplicável! Eu não tinha sono, nem canseira, nem fome, nada. Descobri que me capacitavam a fazer uns treinos impressionantes e me acostumei a inalar um pouquinho antes de entrar na Academia.

Mas quando o tal aluno foi colocar as luvas os pacotinhos caíram no chão.

— Ué? Que negócio é esse?! — Perguntou ele bobamente.

Eu tratei de recolher logo, sem dar bandeira.

— É meu isso aí. — Catei a droga do chão mas percebi que o Péricles havia reparado. Aquele cara não deixava escapar uma!

Ele não falou nada. O treino seguiu normalmente. Bem mais tarde, já não havia mais ninguém na Academia, eu saí do banho e passei pela porta da secretaria. Dei um aceno de mão ao Péricles:

— Até amanhã, chefe!

— Espera aí. — Ele se aproximou de mim, veio falando por metáforas do que eu já sabia. — Olha, Eduardo, você vive admirando essa história dos Campeonatos mas... prá vencer Campeonato você precisa viver até lá, não é?

Me fiz de desentendido.

— Mas eu sou novo ainda. Claro que eu vou estar vivo!

— Não se faça de tolo. Usando essas coisas que você usa é mais provável estar morto do que vivo. Está na hora de você largar disso!

Fiquei meio quieto.

— Tá bom. Eu vou tentar ir diminuindo. — E fui saindo.

— Você não vai jogar fora isso aí? — Ele ainda insistiu, amigável, sem tom de exigência ou reprimenda.

Me virei novamente, encarei-o sem dizer palavra por um tempo. Então balancei a cabeça negativamente. Respondi sem rodeios:

— Não. Não vou jogar, não. — Mesmo que não fosse realmente consumir a droga ela me renderia algum dinheiro se passada para frente.

Saí mas no caminho fui pensando lá comigo:

— Caramba... ele se importou comigo.

Isso era algo que quase nunca acontecia. Num impulso meio bobo dei meia volta. Ele ainda estava lá, cuidando de alguns papéis. Entrei na sala e atirei sobre a mesa os pacotinhos:

— Taí. Você pode jogar fora prá mim, se quiser.

Ele olhou primeiro para a mesa, depois ergueu os olhos na minha direção. Não falou nada de mais, mas para mim aquilo teve um peso indescritível:

— Você está começando a se comportar como um Mestre.

Não fui capaz de responder nada. Senti um aperto na garganta e com muito custo retive as lágrimas. Nem eu entendi minha reação. Acho que ele notou, mas eu não dei tempo para mais nada. Balancei a cabeça em assentimento e virei as costas, fui embora de novo. A partir daquele dia nasceu uma amizade diferente entre nós.

Eu realmente fui aos poucos deixando de lado a cocaína, pelo menos antes dos treinos. Ele me convenceu de que a longo prazo aquilo não me traria benefício algum, pelo contrário. Me esforcei por seguir o seu conselho e deixei a cocaína apenas para ocasiões mais especiais.

Eu continuava chegando mais cedo para treinar, mas agora ele era meu companheiro.

— Professor! Aquece a perna! — Era o meu convite.

Passamos a nos aquecer juntos, lutávamos, ele me dava dicas e me ajudava a aprimorar cada vez mais a técnica. E nunca me dava mole. Éramos amigos agora mas — engraçado! — o vínculo aluno-Professor estava mais mantido do que nunca. Ele tinha me domado. Pelo menos em parte. E eu escutava o que ele me dizia com toda a atenção.

Quando chegava a hora da aula propriamente dita eu já estava moído de tanto me esfalfar com o Péricles. Mas não era desculpa para não treinar. Depois começava outra aula. Se eu tinha tempo acabava ficando para mais uma hora e meia. Como já tinha feito a parte física na primeira aula achava que ia me livrar dela na segunda. Mas que nada!

— Não, senhor! Quem quer ser bom tem que treinar prá valer. Trata de fazer a aula completa. — Falava o Péricles.

Ele exigia cada vez mais de mim. Eu encarava. Não raro eu treinava quatro, cinco horas diárias de segunda a segunda.

Eu e o Péricles acabamos formando uma dupla que entusiasmou a Academia. Abriram novos horários de treinos. Por ocasião da abertura destes horários o Péricles fez uma apresentação que me deixou babando! Aquilo fez com que eu me dispusesse a aprender mais ainda tudo o que fosse possível.

A Academia lotou e foi preciso mais horários ainda. Houve nova apresentação e dessa eu também tomei parte, auxiliando o Péricles em coisas mais simples, mostrando o manejo do nunchaku e palestrando um pouco sobre a parte teórica dos estilos. Aprendi muito!

 

Havia outras vantagens em ter carta branca dentro da Academia. Eu tinha a chave e com o contínuo crescimento de alunos eu acabei por abrir alguns horários clandestinos. Marcava períodos de treinos para alunos que pagavam diretamente para mim. E eu embolsava a grana. Era o espírito da Gangue, não tinha jeito. Eu não via muito mal naquilo, afinal quem estava trabalhando era eu. O fato de usar o espaço da Academia era mero detalhe!

Além de treinar muito era possível fazer tudo o que normalmente não se faria. Mesmo assim os alunos me respeitavam bastante como Professor. Todos me achavam super-responsável apesar da minha liberalidade antes e depois dos treinos. ( somente antes e depois, porque os treinos eram sagrados!).

E eu me gabava de saber enganar muito bem. Se fosse possível surrupiar dinheiro eu também não pensava duas vezes. Que maldade! Mas que vínculo eu tinha com a dona da Academia? Nenhum, é verdade. Eu jamais roubaria do Péricles, por exemplo.

E como a prejudicada era ela, também fiz cópias da chave para os meus manos mais chegados da Gangue. Expliquei muito bem quando o campo estaria limpo. E eles viviam por lá com as namoradas. Eu os havia inclusive chamado para os treinos clandestinos, onde seriam ensinados em primeira mão, mas ninguém deu bola. Eles preferiam as lutas convencionais e as armas que já utilizavam.

Aquela idéia do meu pai, que a prática esportiva me faria mais calmo, acabou mesmo dando em nada. Era para ter sido tão benéfico, talvez a solução de muitos problemas mas, pelo contrário: o Kung Fu me trouxe muito mais energia e também o desejo de utilizar na prática o que aprendia. Vi que se me dedicasse seriamente teria a faca e o queijo na mão. Minha mãe observava de cabelos em pé os exercícios que eu às vezes fazia dentro de casa, e as armas que acumulava. Para ela eu estava meio louco!

O tiro saiu mesmo pela culatra!...

 

Mudei novamente de colégio. Comecei a fazer o curso técnico em Química Industrial incentivado pelo meu tio, que era químico e estava bem de vida. Naturalmente que nem bem coloquei os pés na nova escola e tive que conquistar meu espaço da mesma forma de sempre: pela força.

Não foi necessário brigar feio com ninguém, nem precisei da “29”. Só umas prensas foram suficientes. Como o colégio era particular e os alunos de boas famílias foi fácil me impor sem violência. Ninguém estava acostumado com aquele submundo em que eu vivia, e me deixaram logo em paz. Me respeitaram e eu também respeitei a todos.

Apesar disso nada mudou em minha vida no que dizia respeito à Gangue e aos meus hábitos previamente adquiridos.

Depois que comecei o curso, conheci uma moça que me chamou a atenção de uma forma diferente. Ela estudava comigo e o interesse começou sem que eu percebesse.

Reparei em Camila porque seu comportamento diferenciado destoava dos demais. Ela era discreta no vestir-se, sempre com blusinhas decentes, saias de comprimento adequado, sem aquele linguajar todo peculiar à que eu estava acostumado. Parecia uma moça séria, direita, confiável. Uma moça de família. Sinceramente, era um tipo com o qual eu não estava acostumado a conviver!

Era até bonita. Não como Thalya, é verdade, que na exuberância dos seus quase 15 anos chamava a atenção aonde quer que estivesse. Mas Camila tinha o cabelo castanho na altura dos ombros e um riso simpático. Era um pouco mais velha do que eu, devia ter uns 17 anos.

Reparei e só, mais nada. Eu era muito extrovertido e de fácil relacionamento, conhecia todo mundo na escola. Foi fácil entrosar-me razoavelmente com ela, só questão de não assustá-la logo de cara. Mas eu tinha senso crítico. Sabia que era o maior bandido. Eu não era para ela e nem ela para mim. E sinceramente não perdi meu tempo, apenas empurrei para o fundo aquela admiraçãozinha que curtia por ela.

Mesmo porque, volta e meia escutava de orelhada uns cochichos aqui e ali sobre os “caras mais velhos” que faziam Faculdade. A Faculdade funcionava ali do lado mesmo, e os tais “gatos” parece que eram sempre motivo de muito assunto. Eu não entendia aquela bobagem toda, aquela vida de olhares e amores platônicos com a tal turma da Faculdade.

Naturalmente que eu me manquei. Passou o primeiro ano, veio o segundo.

Com a convivência diária eu e Camila aos poucos tornamo-nos bons amigos. Na classe. Eu lhe dava sincera atenção, conversava, procurava ser respeitoso no falar. Mas não que eu tivesse por Camila algum sentimento muito mais forte, algo capaz de me fazer tomar uma atitude.

Tinha muita mulher sobrando, não era preciso esforço nenhum, não faltava. Elas estavam em todos os cantos, correndo atrás da gente. Até Thalya, que a princípio tinha parecido uma conquista tão improvável... que dizer então das outras? Na maioria das vezes era a velha e conhecida história, elas estavam a fim de tirar uma lasquinha. Eu tirava também, se desse vontade.

Camila que continuasse vivendo fantasias de cinema junto com sua amiga inseparável, uma menina maldosamente apelidada de “A Estranha”. Eu vivia a vida real, do lado de cá da tela!

E íamos convivendo, apenas. Nossos mundos eram muito diferentes.

Havia muitos trabalhos em grupo no laboratório, e eu e Camila sempre caíamos juntos por causa das iniciais próximas de nossos nomes. Ela teve tempo de sobra para acostumar-se comigo e com meu jeito de ser. E logo percebeu que apesar de minha aparência deplorável eu conseguia ir bem melhor do que ela nas matérias.

Camila não queria correr nenhum risco de ficar sem o diploma. Então, durante as experiências sempre se aboletava perto de mim. Como ela era atrapalhadinha! Sempre acabava quebrando alguma coisa. Se voasse longe um beker ou uma pipeta a chance de ter sido ela era bem grande.

As suas experiências às vezes não davam certo. Camila acabava vindo xeretar nas minhas para poder escrever os trabalhos. E não ficava só nisso. Sempre me pedia ajuda para resolver os exercícios, me trazia as suas dúvidas dos deveres de casa.

Por causa das suas deficiências acabamos nos acostumando a estudar juntos para as provas. Eu não me importava em ajudá-la, as matérias sempre me pareciam fáceis. Às vezes estudávamos só nós, (junto com a “Estranha”), outras vezes com mais colegas.

Certa ocasião descobri umas coisas sobre a Camila que não consegui digerir muito bem. Eu estava morrendo de rir, quase caindo da cadeira com os comentários de um Professor de física que nós tínhamos, e que era ateu.

— ...e essa história da Igreja impor “Adão e Eva” é o maior absurdo que eu já ouvi! Como que em quase pleno século XXI somos obrigados a engolir esta balela? É um atentado à inteligência humana e à ciência!!! — Ele continuou fazendo algumas comparações pejorativas mas que não deixavam de ser engraçadas. Ele tinha mesmo o dom de fazer todo mundo cair na gargalhada!

— É isso aí, bela história da Carochinha! — Exclamei.

— Não, não! — Retrucou para mim a Camila — Essa história realmente aconteceu!

— Aconteceu, é? Sei, sei. E quem foi que disse?!

— Lógico que aconteceu, a Bíblia diz isso.

— Essa não...!!! — Eu não tinha palavras diante daquele comentário esdrúxulo. — A Bíblia?! Mas que idéia mais absurda, Camila! A Bíblia não diz que o homem foi para a Lua e nem por isso ele deixou de ir! Olha, você não pode acreditar desse jeito nessas coisas, menina. Eu até acho que deve ter alguma coisa boa na Bíblia mas, pelo amor de Deus, é uma historinha prá boi dormir, heim?!!

Ela ficou meio irritada com o comentário, e se defendeu:

— Senhor Eduardo, não fala uma coisa dessas! É claro que aconteceu como a Bíblia diz!

Eu nem quis insistir.

— Tá bom! Tudo bem, então. A Bíblia é o máximo!... Mas vamos assistir a aula.

— Até parece que você faz tanta questão assim de assistir aula! — Ainda revidou ela, mas numa boa.

Outra feita estávamos no papo perto da cantina do colégio durante o intervalo. E não sei mais nem por que, mas Camila comentou que tinha um irmão que era Pastor. Eu já tinha algumas opiniões bem formadas a respeito daquilo. Não consegui disfarçar:

— Pastor?! Meu Deus do Céu! — E intimamente eu pensava: “Mas que coisa de louco!... Essa gente deve ser completamente doida!”. E continuei: — Seu irmão deve ser milionário, então, heim?! Ele mora numa mansão?

— Milionário? Por que milionário?! Que idéia mais distorcida! Os Pastores não são assim coisa nenhuma, você que está exagerando!

E novamente se defendeu, ficou meio emburradinha. Eu achava até graça na reação. Depois disso às vezes provocava um pouco de propósito, só para ver o que Camila ia dizer. Parece que ela acreditava mesmo naquela coisa toda!....

Um dia fomos fazer trabalho em grupo e ficou acertado que a reunião seria na casa dela. Fiquei curioso para ver o tal do Pastor. Mas ficou só na vontade, não houve jeito, quase nem vi ninguém da família porque estudamos no porão. Além do mais ele não parecia estar em casa naquele horário. Voltei lá algumas poucas vezes para os intermináveis trabalhos mas nunca cruzei com ele.

 

Mais ou menos nessa época, na segunda metade do segundo ano, Thalya viajou para os EUA. Ela estava adiantada, fazendo já o terceiro colegial, e resolveu que antes de concluir o curso deveria aprimorar o inglês, além de passear um pouco. Nem sei se ela trancou a matricula ou como fez, mas acabou ganhando a viagem do pai, e se mandou.

Thalya acabou ficando fora um bom tempo, cerca de seis meses. Me escreveu de lá, mandou cartões. Mas o tempo e a distância fizeram com que perdêssemos quase todo o contato. Quando Thalya voltou, eu estava de férias, às portas de iniciar o terceiro ano de Química.

Logo ela veio me procurar, trouxe presentes, mas tanto eu quanto ela estávamos atarefados com nosso dia-a-dia cada vez mais atribulado. Ela também retomou os estudos, começou novamente o terceiro colegial em outra escola. Trabalhou um pouco como modelo, foi até capa de algumas revistas da época.

Mas acabamos mesmo nos distanciando; foi puramente circunstancial. Thalya mudou de apartamento e como eu nem sabia em que escola ela estudava, perdemos o contato. Eu estava ocupado demais para procurá-la, e ela também.

Nós ainda não sabíamos que em breve nossos caminhos se cruzariam de novo, cerca de um ano mais tarde. Mas para tomar um rumo cujas conseqüências nem em sonho nós poderíamos prever. Thalya e eu ainda íamos conviver muito. Viveríamos uma história totalmente fora dos padrões.

 

Durante aquele período em que Thalya esteve fora, no fim do segundo ano, o inevitável... a certa altura tive que admitir para mim mesmo que Camila de fato era interessante. E comecei mesmo a gostar dela.

Este era um sentimento novo para mim até então, algo que não tinha experimentado por ninguém. Apesar daquela história de Bíblia, apesar dos caras da Faculdade... ninguém é mesmo perfeito. Depois, quanto à Bíblia, ela não parecia daquelas fanáticas doidas; era mais uma tradição familiar do que um ideal próprio. Enquanto aos “gatos” mais velhos... ela não tinha mesmo arrumado nenhum.

E eu queria uma moça direita! Decidi que estava cheio do assédio das vadias, das moças que só pensavam em uma coisa. Elas não faziam mesmo a minha cabeça, já estava meio saturado. Aquele negócio de “ficar” não dava barato nenhum, era um tédio, na verdade!

Na Gangue nós costumávamos apostar “quem conseguia conquistar quem”. Era só brincadeira e era divertido! Se fosse feita a coisa certa as meninas caíam que nem peixes na nossa rede. Era muito fácil! Passar um mel, elogiar, dizer as coisas certas, fazer elas rirem ( quando elas riem é sinal que as barreiras foram derrubadas, a partir daí está quase no ponto).

Depois que elas ficavam interessadas e vinham atrás, era só dar a patada. Bem dada. A brincadeira consistia no conquistar, apenas.

Os mais safados (a maioria) bem que aproveitavam um pouco antes de descartar. Mas eu tinha dó, geralmente nem encostava nelas. Ficava só na conversa.

Mas com Camila não era questão de aposta e fui cauteloso. No meu entender era a única moça que valia a pena. Fui discreto nas minhas atitudes, procurava agradá-la sem exagerar. Mas acabei dando bandeira meio sem querer.

Camila era o tipo de garota que não tinha muito dinheiro e, como eu roubava, esse não era o meu problema. Conversando, uma vez ela comentou comigo que estava querendo uma fita de vídeo do John Travolta, alguma coisa no “Tempo da Brilhantina”. Dias depois eu estava no shopping e lembrei. Resolvi comprar a fita e dei a ela de presente.

Uma outra vez ela queria um Snoopy de pelúcia e eu acabei comprando também o tal boneco. Depois foi um perfume de almíscar. Mas aí achei que já tinha dado presentes demais e aquilo poderia me trair. Então às vezes eu a convidava apenas para comer lanche no MacDonald's depois da aula. Ela estava sempre com fome e, para variar, o problema de sempre: nada de dinheiro!

Uma vez fomos ao cinema, eu, ela e a “Estranha”. Camila aceitou meu convite mas insistiu em que levássemos a “Estranha”, e eu tive que agüentar a vela, não teve outro jeito.

Eu escolhi o filme e fomos ver “Pink Floyd The Wall”. Eu pensei que ia ser o máximo mas no fim o filme revelou-se um abacaxi do início ao fim. Quando saímos, só fiquei esperando a reação das duas:

— E aí? O que que vocês acharam do filme? — Perguntei.

— É... profundo, né?

— Aquela parte dos martelos marchando, então, foi demais!!

— É, mas quando os meninos estavam caindo no moedor de carne foi melhor ainda!

— A explosão do muro teve um super-significado...

Acabamos dando risada e inventamos coisa melhor para fazer.

Só que aquela paparicação toda, assim, do nada, não fazia o meu estilo. Fiquei a fim de tentar algo. Platonismo não era comigo!

Um dia resolvi dar a cartada. O melhor caminho era apelar sutilmente para a “Estranha”. Não tinha nada a perder e se não desse em coisa nenhuma também não era o fim do mundo!

— Se eu falar para a melhor amiga dela que eu “estou a fim”, e pedir para ela não contar nada...é exatamente isso que ela vai fazer! - Raciocinei.

Aí fiz toda a cena. Fui para o colégio cabisbaixo, tristonho, justamente para chamar a atenção. Eu nunca estava cabisbaixo, muito pelo contrário, era sempre dos mais afoguetados. Mas demorou um pouco até eu conseguir o que queria.

— Pôxa, ninguém nota!... Mais cabisbaixo ainda, vai lá, Eduardo! Força! — E até dava risada por dentro.

Finalmente começou a surtir efeito. Todo mundo percebeu que eu estava quieto demais:

— Que que aconteceu? — Começaram a perguntar.

— Nada. — E continuava na mesma deprê. — Nada!

Então a “Estranha” resolveu se aproximar:

— Pôxa, você não está bem mesmo, heim? Que que houve, não quer mesmo dizer nada??

— Tudo bem, vai... vou contar prá você, mas só prá você, tá? Eu estou mesmo com um problema. Como você é uma pessoa madura, tem muita experiência e inspira confiança... — Enchi um pouco o ego dela e deixei na expectativa — ...depois da aula eu te falo, OK?

Ela ficou esperando, séria e lisonjeada por causa da minha escolha. E depois da aula saímos os dois para sentar no pátio perto da biblioteca. Era gozado para quem olhava, eu não tinha nada a ver com a “Estranha”. Ela toda arrumadinha, com a blusa para dentro da calça e sapatinhos pretos, e eu particularmente desleixado naquele dia. Meu cabelo escuro estava rebelde, desalinhado, mas era assim mesmo que eu gostava. Uma lufada de vento me despenteou mais ainda e tive que prendê-lo com elástico. Comecei a falar:

— Sabe o que que é? Eu estou gostando de uma pessoa mas acho que ela não gosta de mim... até com razão, eu sei que não a mereço, mas o coração é uma coisa incontrolável e eu... — Fui por aí afora, dando corda.

— Mas quem é, Edú, quem é?? — Ela estava muito curiosa.

— Não posso falar.

Fiz o drama completo, a ladainha como manda o figurino. Esperei a “Estranha” insistir um pouco mais e por fim contei:

— É a Camila.

— Pôxa! — Fez a “Estranha”. — Mas você está enganado, Eduardo... ela gosta de você, sim!

— Gosta nada! Gosta só como amigo. E sabe do que mais? Estou assim meio triste porque cheguei à conclusão que a melhor coisa é tomar uma atitude drástica!

— Que atitude? — Ela parecia um tanto ansiosa.

— A única saída para mim é acabar de vez com essa amizade, senão vou ficar sofrendo à toa! A melhor coisa é a distância. — Fui até teatral. — É terrível a Camila estar tão perto de mim mas tão fora do meu alcance!

O rosto da “Estranha” parecia preocupado. Afinal, éramos todos amigos, ela queria poder ajudar. E não deu outra, tudo aconteceu conforme eu previra. Ela foi direto contar à amiga.

 

No dia seguinte logo cedo Camila já estava diferente. Eu via no olhar dela, no sorriso. Fiquei só esperando, na minha, olhava de vez em quando mas não liguei muito para ela no período da manhã. Foi ela quem veio, toda sorridente, os olhos mais marotinhos:

— Vamos, não quer dar uma volta, Edú?

— Uma volta?

Pedido meio esquisito. Era o horário do intervalo. — É! — Continuou ela. — Vamos dar uma volta no quarteirão! — Tá bom. Vamos aí.

Saímos da escola, fomos caminhando devagar lado a lado. De certa forma eu me divertia um pouco e esperei para ver o que ela diria. Na verdade eu já sabia, mas queria ver como Camila ia lidar com aquela situação. Me fiz de morto e deixei-a falar primeiro. Ela foi pegando no meu braço, depois na minha mão, até que começou a andar de mãos dadas comigo.. Eu a encarava de cima e ela fez a pergunta:

— Você está gostando de alguém?... — Por que a pergunta? Ela sacudiu minha mão:

— Não, senhor, responde! Eu fiz a pergunta! Está ou não está? —Eu tô.

— Bom... eu também! — Ah, é? Puxa... e quem é ele?

Camila não sabia bem como responder e me diverti mais ainda observando o seu rosto ligeiramente rosado.

— Ele está bem mais próximo do que você imagina. Não pude conter um sorriso diante da declaração dela. Olhei bem e fui sincero:

— Não acho que eu te mereça.

Ela ergueu o rosto prontamente, sua mão apertava a minha de leve:

— Mas eu gosto de você do jeito que você é! Assim, desse jeito mesmo. Sempre gostei de você!

Fui obrigado a dizer o mesmo. Era verdade, fazer o quê?

Sinceramente não achei que Camila viesse a gostar de mim. Eu sentia, sim, que ela me respeitava e ate admirava, mas só.

Achava que parte da atenção que ela me dedicava era mais uma questão de “débito” para comigo do que outro motivo qualquer. Afinal, eu a ajudava muito na escola: fazia os trabalhos, ela nem precisava fazer se não quisesse. Tirava as dúvidas. Guardava uma carteira para ela. Pagava lanche. Passava cola nas provas.

Uma ocasião eu fiz uma cola em código bem em cima da lousa, para a classe toda. Era uma prova de física e coloquei todas as fórmulas bem nas barbas do Professor, e ele nem se deu conta. Lembro que Camila me achou um gênio por causa daquilo.

E de vez em quando até a protegia de pessoas inconvenientes, não deixava ninguém falar palavrão demais perto dela:

— Ô, meu, se liga aí! Vê se cala essa boca suja, vocês estão perto de uma mulher!

E como ninguém me enfrentava... era mais ou menos a história do herói e da mocinha. Ainda que eu fosse o “herói bandido”, estava valendo.

Terminamos a nossa volta no quarteirão e chegamos de novo na escola. Não entramos de mãos dadas, mas ela convidou-me para ir à sua casa naquele mesmo dia. Só que antes disso demos uma passadinha no SESC, ficamos por lá um pouco, conversamos, nos acertamos. E aquele nosso romancezinho começou assim. Dei-lhe uns beijinhos amistosos, com todo o respeito do mundo. Afinal ela não sabia coisa alguma.

E depois de bem acertados, Camila ligou para casa dizendo que ia levar um “amigo” para almoçar. Era legal — e diferente -ter uma moça que não tivesse passado pela mão de mais ninguém.

— Vamos, Edú? Senão fica muito tarde.

— Vamos.

— Você não quer passar primeiro na sua casa e trocar de roupa?

— Não, não quero, não! Vou assim mesmo.

— Bom......não sei, né?

— Você acha que seus pais vão falar alguma coisa?

Camila parecia ponderar a situação:

— Não é isso. É que você está com essa camisa regata... depois tem também minha avó, sabe como é que é!

Na época não era lá a coisa mais comum do mundo, era uma moda meio “avant garde”, coisas que só o pessoal da “29” e afins usava. Bom... eu usava. E não estava nem aí.

— Ah, mas tudo bem, vá! — Falei. — É só hoje. Depois, eu sou só seu amigo!

Ela concordou. E fomos.

Volta e meia Camila ainda me media um pouco de alto a baixo, punha a mão na testa, antevendo a reação da família. Ela estava acostumada comigo, mas eles muito provavelmente me achariam um ser completamente fora de bitola.

Minha calça jeans estava toda rabiscada com desenhos que eu mesmo fazia. (Era mesmo uma calça da hora!). A camisa tinha tido as mangas arrancadas e estava cheia de cortes feitos com estilete, tanto na parte da frente como na de trás. Nos braços eu andava com umas cordinhas cheias de conchinhas e o inseparável bracelete de “heavy metal” ia do punho até quase o cotovelo. No pescoço levava sempre umas quatro ou cinco medalhinhas penduradas, como aquelas de exército.

De quebra, naquele dia eu vestia uma jaqueta de motoqueiro de couro legítimo que tinha roubado não fazia muito tempo. Ela era um pouco maior do que deveria, mas eu a adorava de qualquer jeito, ainda mais toda cravejada dos meus broches caseiros. Ficava grandona. Era o máximo em termos de vestuário.

Minhas mãos também não eram nada apresentáveis porque eu vinha treinando demais no saco de pancada. Isto fizera com que eu criasse enormes e horríveis calos pretos em todos os nós dos meus dedos.

Fui com a cabeça para fora da janela do ônibus para ver se o vento forte deixava meu cabelo um pouco mais assentado. Camila dava risada mas eu via que estava um pouquinho tensa.

E lá fui eu conhecer a família de crentes!!! Em casa de Camila só estavam a mãe e a avó naquele horário.

— Mãe, este é o Edú! — Apresentou-me Camila. Dona Carmem ficou visivelmente chocada com o “amigo” da filha, mas tentava a todo custo dar um ar descontraído ao rosto. — Boa tarde, muito prazer. Vamos entrando! Ah, ah, ah, que bom que você veio... — Ela tentou ser simpática, reconheço.

A avó já não sabia disfarçar. Nem bem deu de cara comigo e imediatamente comecei a escutar uns cochichos pouco audíveis. A boca dela se mexia rapidamente e tudo que consegui compreender daquilo, por alto, foi uns “Jesus” prá cá e prá lá. Mas Camila logo me arrastou e só fiquei pensando no que a velha estaria fazendo. Será que se benzendo por causa da minha presença, como fazia o meu avô?

Logo depois apareceu o pai dela. Seu Augusto foi de poucas palavras comigo mas procurou ser afável. Camila e eu ficamos por ali até que a mesa estivesse posta, mas ela não parecia muito à vontade. Eu, para dizer a verdade, não estava muito preocupado com o que iam pensar. Já sabia de cor e salteado tudo o que as pessoas costumavam pensar a meu respeito, essa era decididamente uma página virada em minha vida.

Ninguém sabia muito bem o que conversar comigo e então eu procurei conversar com a velha que cismava em não querer tirar os olhos de mim. Me encarava sem nenhuma discrição. Achei graça.

— E aí? Tudo em cima com a senhora? — Perguntei com um sorriso.

— O quê??! - Respondeu a avó.

— Não, Edú! Ela não entende gíria. Você tem que usar uma linguagem mais normal, e também falar mais alto! — Explicou Camila.

Bati um papo-cabeça com ela até que o macarrão foi para a mesa. Todos à postos, achei aquilo legal. Era difícil recordar qual a última vez em que a minha família tinha se reunido ao redor da mesa para uma refeição em conjunto. Isso nunca acontecia!

Todos servidos eu já fui bebendo um gole de refrigerante que a Camila colocou no meu copo mas, para meu espanto, percebi que ninguém tocava na comida. Ela fez um gesto de “espera um pouco” meio discreto.

— Que coisa... quanto tempo será que eles vão ficar olhando para a comida??? - Pensei comigo.

Então, a resposta:

— Vamos orar. — Fez Seu Augusto.

Foi esquisito na hora mas depois, pensando melhor, achei um gesto até bonito. Eu nunca tinha visto ninguém fazer isso, agradecer pela comida. O almoço foi agradável e eu comi sem a menor cerimônia. Repeti várias vezes. Depois o pai dela foi para a cozinha e ele mesmo fez um cafezinho e serviu.

Depois do almoço Camila me levou ao quintal para conhecer os cachorros. Eram três dobermanns. Eu quis fazer amizade com eles, dei ração, conversei, e por fim fui aceito. Aí fiquei o maior tempo brincando, jogando longe varetinhas para eles pegarem. A Camila tagarelou o tempo todo ao meu lado e foi muito bom. Uma coisa familiar. Gostei daquilo. Parecia legal estar em casa.

À tarde deram bastante liberdade para que eu e ela pudéssemos conversar. Sentamos na sala e não foi aquela coisa chata de todo mundo ficar observando por trás das portas. Fiquei até espantado. Também ninguém ficou fazendo muitas perguntas e interrogatórios a meu respeito. Depois de passado o primeiro impacto foram solícitos, amáveis e eu me senti bem tratado.

No final da tarde foi servido um lanche e eu comi com eles de novo. Tornei a me espantar. A mesa estava bem posta e eles tomavam chá na xícara. Em minha casa a gente tomava até vinho em copo de requeijão, imagine perder tempo de colocar xícaras na mesa! E tinha presunto, queijo, geléia, eu não sabia o que comer primeiro. Enchi o “pandú” que nem um desesperado.

Mas procurei conversar bastante, elogiar, essas coisas que todos os pais gostam.

O único problema foi que o pai dela costumava comprar apenas um pãozinho para cada um. Eu não sabia e fui comendo. Então puseram mais umas outras coisas, umas bolachas e torradas. Depois que saímos da mesa Camila explicou que o pai comprava a quantia certinha.

— Ninguém tem o costume de comer mais de um pãozinho! Mas quando você vier em casa a gente vai começar a comprar uns quatro a mais!

Fazer o quê???

Pouco antes de ir embora a avó dela deu-me uma Bíblia de presente. “Tirou da cartola”, pensei comigo. Mas logo eu viria a perceber que na casa de Camila havia muitas e muitas Bíblias. Eu agradeci, folheei um pouco e a deixei guardada em casa. Depois disso cada parente dela que me conhecia acabava dando outra.

Ganhei várias.

Quanto ao Pastor... logo tive oportunidade de conhecê-lo. Não era lá muito jovem, talvez mais de 30 anos. Mas assim que bati o olho nele, não fui com a cara. Difícil dizer exatamente o quê me desagradava, mas ele tinha um “ar folgado”. De Pastor folgado.

Logo nas primeiras vezes em que estive na casa de Camila ele começou a comentar comigo a respeito das suas viagens. Ele viajava muito. Quase todo final de semana. Mas o que me chamou a atenção foi a contundente falta de comentários acerca das pessoas e das Igrejas que visitava. Nunca falava nem de Deus. Os comentários eram sempre de outro teor:

— Puxa vida, olha, nesta cidade tem um restaurante que é uma coisa fantástica! A vista é outro negócio. E tinha também um bondinho de onde se podia ver a cidade inteira! Ou então:

— A praia estava o máximo! E voltava moreno. Com um monte de fotografias. Prá mim aquilo tinha cheiro de turismo e mais nada. Nunca falava do tal “trabalho missionário”, dos “cursos” ou das “palestras” que, teoricamente, eram o principal motivo da viagem. Comecei a cutucar:

— Caramba!... Você não ia lá prá fazer um trabalho? — Ah, é! E fui! Fui pregar numa Igreja. - Mas logo já desviava o assunto e instintivamente voltava a falar daquilo que obviamente dava maior deleite à sua alma.

Isso porque ele era o segundo na hierarquia da Igreja, logo abaixo do Pastor titular. Algo como um “Vice-Presidente”. Que coisa!

 

No dia seguinte, na escola, Camila comentou discretamente comigo:

— Olha, Edú, numa próxima ocasião, quando você for em casa, não usa aquele bracelete, não! As pessoas ficam meio chocadas, sabe?... Eles ainda não te conhecem, depois você sabe como é essa história de rótulo, né? Minha família vai acabar fazendo um julgamento baseado na sua aparência. — Ela procurava escolher bem as palavras. — Deixa eles te conhecerem melhor, verem como você é uma pessoa legal, decente...! Além do que fui eu que te escolhi! E se eles confiam na educação que me deram, vão saber que eu escolhi a pessoa certa. — Pegou a minha mão. — Porque eu vi em você uma pessoa sensível, diferente... fiel! Eu sei que você é a pessoa certa!

Fiquei quieto. Percebi naquele instante como ela tinha dado valor a certas nuances de nossa amizade. Ela continuou:

— Você sempre procurou me ajudar de verdade em tudo, nunca buscou o seu próprio interesse. Eu sabia que você me considerava muito como amiga. E nunca pisou na bola, sempre foi fiel à nossa amizade. Acho que vai ser muito mais agora, como namorado, né? Eu sei que quando faz alguma coisa por alguém, faz mesmo, não mede esforços.

Era verdade. Ainda que eu continuasse de boca fechada, tive que dar ponto para ela. Camila havia reparado naquilo: eu considerava demais os meus amigos, não media esforços por causa deles.

Ela me deu um beijo e um leve empurrão no ombro: — E você é muito inteligente! Sabe... não sei como é que você consegue guardar tanta coisa na cabeça!

Nos trabalhos escolares ela já costumava grudar em mim. Mas depois de iniciado o namoro, Camila parecia uma criança fazendo perguntas a respeito de tudo à nossa volta. Eu gostava de ler, é fato, ao passo que ela nunca pegava num livro para nada.

Algumas perguntas tinham fundamento, era legal explicar. Outras... um desastre total!

— Estrela tem mesmo cinco pontas? Eu tinha que rir:

— Nãããão, Camila! Não tem cinco pontas! E a levava à biblioteca, pegava a enciclopédia, mostrava figuras, explicava o que era uma estrela. - Até o sol é uma estrela!

— Imagine, Edú! O sol é sol, não é estrela. Estrela aparece de noite.

—Não, Camila...

E lá ia eu explicando sobre tudo. Ela ficava fascinada comigo, e eu estava longe de ser o Einstein. Bem longe! Mesmo assim...

— Como é que você consegue saber tudo?!

Óbvio que eu não sabia tudo! Apenas tinha uma boa noção de conhecimentos gerais por causa do meu saudável “vício” de bibliotecas. Aprendi muita coisa que não se ensina na escola ou, se é ensinado, é de maneira sem graça e tediosa na maior parte das vezes. Confesso que raramente tive bons Professores. Com certeza, Camila também não!

— Por que existem as cores, Edú?

— Pôxa, é a decomposição da luz em comprimentos de onda diferentes. - E vá explicar isso para ela! - A cor também não é absoluta. Entende? O azul só é assim porque os seus olhos captam e transmitem ao seu cérebro assim, e ele decodifica a informação de uma forma que chamamos de “azul”. Mas se você fosse um cachorro... ou uma mosca... — Eu ria. — O azul não seria azul!

Ela entendia mais ou menos. E continuava:

— Mas e o arco-íris?

Ao meu modo eu procurava explicar. O que não sabia, não inventava. Pesquisava. Era gostoso vir com a resposta.

— E por que a maré sobe e desce?

Era uma infinidade de “por quês”. De repente ela parecia ter encontrado alguém que tinha as respostas. Pelo visto a família dela não tinha. Nunca teve.

Concordei com a história do bracelete. Eu não ia mesmo à casa dela todos os dias, era mais aos finais de semana. Dava prá suportar. E eu até que comecei a aprender coisas boas também. Como usar xampu e condicionador, por exemplo. Nem sabia que aquilo existia. O cabelo ficava bem melhor.

Agora... se a questão fosse cortar o cabelo... podiam desistir!

 

Aos poucos eu até me acostumei com aquela história de orar para tudo. Na hora das refeições não avançava mais na comida, esperava pacientemente, chegava até a curvar a cabeça. E dizia “Amém”.

Naquele primeiro mês de namoro ninguém fez mais nada além de me dar as Bíblias, mas logo depois começaram a me convidar para ir conhecer a Igreja. Finalmente resolvi aceitar. E num belo domingo pela manhã lá fui eu para o Culto! Imagine....

Meus pais me levaram até a Igreja de carro. Eles nem acreditavam que eu estava namorando uma moça crente! E estava indo à Igreja! Seria a salvação da pátria???

Minha mãe não estava botando muita fé:

— Pelo visto é só mais uma, né, Eduardo? Mas essa aí deve ser boazinha. Vê se não vai acabar com o coração da menina logo de cara!

E meu pai tentou me explicar como era o Culto. Numa tentativa de talvez diminuir um pouco o impacto:

— Não é que nem missa. Eles têm um Pastor, e ele vai ficar lá na frente falando e falando. E depois você levanta e vai embora. É assim que é!

— Sério?! Então não tem hóstia, comunhão, essas coisas?

— Não, não! Eles não fazem nada disso.

— Prá mim... — Pensei comigo. — Tanto faz! Mas vamos ver como é essa história aí.

Cheguei um pouco antes do horário e fiquei esperando. Quando Camila apareceu com a família meus pais já tinham ido embora e acabaram não a conhecendo naquele dia. Camila ainda perguntou: — E os seus pais? Eles não vinham trazer você? — Vieram mas já foram. Fica prá próxima, xuxú! — Mas que bom que você veio! — Camila parecia bem contente. — Eu estava pensando se na última hora você não ia desistir! — Combinado não é caro.

Sei lá o que passava na cabeça dela, talvez pensasse que eu fosse me converter, virar crente também. Vai saber!

Eu não tinha a menor idéia de como me vestir para ir à Igreja. Pelo visto era o acontecimento da semana e eu procurei acertar na escolha. Mas todas as minhas roupas tinham o mesmo estilo, isto é, o estilo “à la '29' “. Vesti o que considerava minha roupa de gala: a melhor calça jeans ( a menos detonada ), tênis e a jaqueta com os broches. Lembrei do aviso de Camila e poupei-me do bracelete. Procurei também pentear o cabelo.

Mas naturalmente que percebi a reação das pessoas. Nada mais, nada menos do que a mesma de sempre! Não é porque ali era uma Igreja que as pessoas de repente iam deixar de ser preconceituosas.

Camila ia me apresentando à medida que cumprimentava os fiéis.

— Oi, tudo bem? Este aqui é o Eduardo, meu namorado!

— Namorado, é? Puxa... — As pessoas procuravam sorrir mas a expressão “shocked” era evidente.

Alguns se pouparam de me estender a mão. Outros já fizeram absoluta questão de orar por mim.

— Que Jesus te liberte! — Escutei de dois ou três.

Eu não entendia nada. “Que Jesus me liberte???”. Era tudo muito diferente.

A comunidade não era grande mas me senti observado o tempo todo. Dentro do Templo, apesar das boas-vindas iniciais, notei uma clareira formando-se ao meu redor. Ninguém fez questão de sentar muito perto.

O Culto... bem... foi uma coisa!!!

Começou com o “Prelúdio”. Os Pastores entraram todos juntinhos, de terninho, gravata, sentaram ao mesmo tempo. Daí começou o que eles chamavam de Louvor, mas que também era chato. Cantavam hinos de um tal “Cantor Cristão” com muitas rimas: “amor, fervor, ardor, temor...”. E todo mundo com aquela cara de pastel!

Foi difícil conter o riso em alguns momentos. Dois ou três insistiam em me empurrar o “Cantor Cristão” para que eu pudesse acompanhar a música. Tive que aceitar. Eles tentavam ser simpáticos.

Mas que coisa chata, meu Deus do Céu!”. Procurei me esforçar, só que estava além das minhas forças. Não tinha nada a ver com tudo o que eu conhecia e gostava.

Depois do Louvor, a pregação. Fiquei na expectativa observando o Pastor que ia pregar.

“Bom... vamos ver que espécie de filosofia eles têm!”

Mas a pregação também foi chata. Não sei se eu estava de má vontade ou se tudo era chato mesmo!...

Foi uma sucessão de altos e baixos. Ora o Pastor falava manso e pausado, ora literalmente berrava com o dedo em riste, a gravata pulando. Eu não conseguia acreditar. Para mim ele estava simplesmente se debatendo lá em cima, tentando provar alguma coisa na base do muito escândalo. Não me parecia uma atitude normal. Ele batia no púlpito — “bam-bam-bam” —, e suava em bicas. Mas nada de tirar o paletó!

Sem querer acabei me concentrando mais no jeito dele do que propriamente no sermão. Não consegui prestar atenção em nada e nem sabia o que pensar. In-su-por-tá-vel!!!

Foi um alívio quando o Pastor fechou a Bíblia.

— ...e é isso que eu tinha para compartilhar com os irmãos hoje. — Concluiu ele, antes de se sentar.

Minha vontade de ir embora era tanta que levantei como se fosse de mola.

— Ôxa! Acabou!... — Falei meio que sem querer.

Mas só eu estava em pé. Todos continuavam sentados e olharam para mim. Camila puxou-me pela manga:

— Não levanta ainda, que coisa! Não acabou!

Sentei de novo:

— Não acabou?? Caramba, o que mais está faltando?

— Ainda tem o “Poslúdio” e a benção Pastoral. Que falta de paciência, Edú.

— Caramba!... — Era a única coisa que eu conseguia dizer!

E veio de novo a musiquinha, “Tú-rú-rú...”

Depois da Benção, o Pastor ainda falou lá do púlpito:

— Vire para o seu irmão e dê um abraço nele!

Recebi uns tapinhas no ombro, à distância.

— A Paz de Cristo.

Paz de Cristo! Eu já não queria saber de mais nada. Respondi com um aceno curto de cabeça.

Mas acabou! Não sei dizer porque estava tão agoniado, mas realmente não gostei muito da Igreja. Aprendi que ela era de uma linha “Tradicional”, diferente das consideradas “Avivadas” ou “Pentecostais”.

Eu não tinha intenção de voltar tão cedo. Não sei como foi que me convenceram.

— Você precisa ir à Escola Dominical — Dissera-me a mãe dela. — Só aí você vai começar a entender o Evangelho direitinho!

Pensando bem, eu devia estar mesmo muito apaixonado pela Camila para consentir naquilo. E não é que fui mesmo conhecer a tal da Escola Dominical????

Logo no primeiro dia a Professora da “Mocidade” veio com uma história de Moisés, que ele tinha voltado do Monte com o rosto iluminado.

— Peraí! — Não pude me conter. — Você quer dizer “iluminado” no sentido assim... de alguém cheio de carisma, de sabedoria.... não é? Como Buda! “Buda” quer dizer “O Iluminado”, porque ele falava palavras de paz e de luz. Quer dizer que com Moisés aconteceu a mesma coisa?

— Não! — Respondeu ela. — De forma alguma! O texto é literal.

Eu me revirei na cadeira.

— Ah, tá! Gostei dessa. Quer dizer então que ele virou uma lâmpada?!? A cabeça dele brilhou tanto que foi preciso colocar um pano na cara, prá não ofuscar os outros? — Não me contive mais. — Putz grilo, como é que vocês acreditam nisso?!!

Para variar, todos olhavam para mim. Camila não sabia onde se enfiar. Comecei a rir diante da expressão dos olhinhos de todos.

— Essa não! O cara vai para o Monte e volta uma lâmpada! Pô, corta essa! — E ria. — Saía mesmo luz da cara dele?

— Saía, é lógico! Era a Glória de Deus, mocinho!

Comecei a rir mais ainda, compulsivamente.

— Ah, ah, ah! Ele virou um farol ambulante!! Não dá prá imaginar uma coisa dessa, agora imagina só o cara no deserto com uma manta em cima da cabeça, suando que nem um porco! Ah, ah, ah!

Camila me dava cotoveladas, chutava minha canela, fazia todos os sinais possíveis para que eu me calasse. Mas não teve jeito! E a Professora, apesar de meio injuriada com a minha reação, procurou manter a compostura e falar com voz branda:

— Mas aconteceu. Aconteceu conforme eu estou te dizendo!

Para mim aquilo era uma coisa de louco, inconcebível. Como que alguém em sã consciência podia acreditar naquilo?!

— Dizer que ele tinha um sorriso iluminado, um semblante iluminado, no sentido figurado, eu até concordo. Mas nunca literal! — Ainda retruquei. E comigo mesmo: “Que ostra!... Que doida!”

Mas de repente vi que ninguém estava rindo.

— Bom... acho que não teve a mínima graça. — E tratei de fechar a matraca.

Fiquei só escutando, mas ainda teve uma outra coisa qualquer que ela falou e que achei um verdadeiro absurdo. Tive que fazer um esforço sobre-humano para me conter. Camila só olhava para mim e fazia cada cara feia...!

Me poupei de dar outra mancada.

 

Mulher tem umas manias que mais cedo ou mais tarde acabam aparecendo, não tem jeito! Logo Camila começou a fazer umas caras meio tortas quando eu avisava que ia estar com meus amigos da “29”. Ainda que ela não falasse nada e me deixasse fazer como eu queria, ficava implícito o seu desagrado.

Eu tinha procurado jogar limpo mas diante daquele mau humor, simplesmente deixei de falar a verdade. E quando estava a fim de ter sossego e sair com a turma inventava uma desculpa qualquer.

— Hoje tenho que ir mais cedo, vou passar na casa da minha avó.

Ou então:

— Preciso arrumar minhas coisas, está tudo uma bagunça!

A princípio, Camila acreditava. E eu virava a noite com a turma.

Numa destas ocasiões, num sábado, depois que saí da casa dela, eu queria mais era relaxar com o meu pessoal. Namorar era muito bom. Mas em doses maciças, como às vezes acontecia... era preciso descontar depois o tempo perdido!

Acabei ficando na esquina de casa com os amigos que já fazia tempo que não conseguia encontrar. O Éder, o Bolinha, o Tistu, o Júlio e mais alguns que faziam parte da turma há menos tempo, o Cebola, o Risada, e mais uns três ou quatro ali do pedaço mesmo. Da “Rifânia”, uma Gangue vizinha simpatizante da “29”, estavam o Piga, o Miçuka e mais um ou dois. Em suma, quase quinze caras!

O ponto em que costumávamos ficar era bem estratégico porque daquela esquina nós podíamos ter visão perfeita de mais quatro. Se pintasse rolo dava para escapar em tempo. E era ali que a gente relaxava. Com garrafas de vinho, cerveja, um bom baseado e muito papo. Às vezes nós pegávamos guardanapos de papel do bar em frente para enrolar o cigarro e era super comum ficarmos por ali até altas horas. A dona do bar nem se incomodava, até dava os guardanapos de graça.

Eu não usava mais muita cocaína, era de fato muito esporádico, mas uma maconhinha não dava nem para ser considerada “droga” de verdade!

Naquela noite acho que estávamos inspirados demais. Talvez porque não nos encontrávamos naquele clima de descontração há tempos. Fumamos tanto e a bagunça foi tão grande que esquecemos de vigiar as esquinas. Vai ver algum vizinho que estava cheio com a barulheira chamou “ajuda”.

Na maior alegria da paróquia o Renê tocava violão, todo mundo cantava e ria numa gritaria mais ou menos, as garrafas já estavam quase vazias. Nós nem vimos nada, só escutamos o berro:

— MÃO NA CABEÇA!!!

E acenderam os faróis altos na nossa cara. O susto foi tão grande que quase engolimos a maconha. A “Barca” (viatura) tinha chegado apagada e na surdina. Nós estávamos muito chapados, foi difícil até saber o que estava acontecendo.

— De cara na parede! Abre essas pernas! — Os policiais desceram e foram nos encurralando em tom ameaçador.

— Pô... sujou!... — Comentamos de leve um com o outro.

Eles deram uma geral e apreenderam a droga. E lá fomos nós para a sétima DP! Aliás, a sétima DP era muito conhecida, volta e meia nós estávamos lá. Ou era por causa de briga, ou era por causa de droga. E eu que só queria um pouco de paz e sossego!

— Entra aí, moleque! — Levei um chute na bunda.

Os outros levaram uns cascudos e ficamos todos de bico. Já sabíamos que quem falasse apanhava mais ainda. Mas não deixava de ser engraçado. Toda vez que chegávamos na sétima DP parecia que tinham despejado ali um microônibus, de tanta gente! Tudo ainda era festa naquela época apesar dos percalços que a maioria já vinha enfrentando com aquela marginalidade.

Para variar era aquele delegado outra vez. Calhava de nós sempre cairmos no plantão dele. Vai ver era o dia, ou o horário. Normalmente ele tinha paciência com a gente. Falava firme mas parecia ter bom coração, dava conselhos:

— Olha, rapaziada, vocês são muito jovens ainda. Este caminho não dá em nada, vocês vão acabar presos ou com uma bala na cabeça. Procurem tomar juízo!

Ficávamos detidos algumas horas e depois nos liberavam. Mas nós já estávamos passando dos limites. Naquele dia o delegado tentou dar uma de mau:

— Caramba, vocês de novo??! O que foi dessa vez? Não aprendem mesmo, heim?... Já falei que essa vida é curta! — E esbravejando, após saber dos nossos delitos. — Todo mundo prá cela agora! JÁ!!

— Aeh, seu (...)! Bichoso!!! — Gritamos para os policiais que nos levaram “presos”.

Eles nos ignoraram totalmente. — Alguém aí conta uma história! — Gritou o Júlio. Passamos a noite assim, contando histórias e jogando palitinhos. Quando amanhecesse seríamos liberados. Mas daquela vez houve um porém:

— Não, não, não! — Dissera o nosso “amigo” delegado, irritadiço, na porta da cela. — Desta vez eu não libero ninguém sem o pai vir aqui! Já está virando muita palhaçada esse negócio de toda hora vir dormir na cadeia. Desta vez o pai de vocês vai levar bronca também! Estamos passando dos limites!

A maioria de nós era menor de idade. O máximo que podia acontecer era alguém ir parar na FEBEM. Mas era muito fácil fugir de lá, o Bolinha mesmo já tinha fugido várias vezes! Como os policiais não podiam estar armados era quase impossível impedir os levantes dos internos. Eu não me importava de ir parar na FEBEM, se fosse o caso. O problema era que eles cortavam o cabelo careca, e isso era um pavor! Eu não queria saber de ninguém cortando o meu cabelo!!!

Naquele dia os maiores de dezoito anos foram saindo por falta de flagrante (a droga sempre estava com os menores). E a pivetada foi sendo liberada à medida que os pais chegavam.

Eu fui ficando, fui ficando, fui ficando e, por fim só fiquei eu e o Cebola. Era de manhã e estava difícil de achar os meus pais. E o Cebola não tinha pai, a mãe trabalhava fora, ninguém conseguiu localizar ninguém. E nada de irem nos buscar.

— Pô. — Eu e ele nos encarávamos meio sem graça — Só sobrou a gente...

Passou a hora do almoço e neca! Eu estava fulo com aquela situação!

— Que droga!!! “Inho”, “inho”, “inho”! O delegado é veadinho! - Comecei a cantar de pura raiva. O Cebola acompanhou.

— “Inho”, “Inho”, “Inho”, delegado é veadinho!!! — Gritávamos cada vez mais alto. Todo mundo estava escutando, inclusive o delegado.

Mudei a cantilena, a plenos pulmões: — “ADO”, “ADO”, “ADO”, DELEGADO É UM VEADO! Não foi possível continuar muito tempo: — Vamos calar essa boca aí?!! — Berrou da porta do corredor o policial, com maus bofes.

O Cebola não queria arrumar mais confusão, mas eu estava cheio. Nem dei bola e continuei na mesma gritaria até que dois policiais entraram na nossa cela e nos deram um corretivo. Apanhamos um pouco, mas sem exagero.

— E fecha a matraca! — Vociferou para mim o policial, todo irritado. Eles sabiam muito bem quem era o articulador do “levante”.

Minha vontade era continuar berrando mais ainda. Só que aí era capaz de apanhar de verdade e fui obrigado a me conter. E eram quase duas da tarde! Quase doze horas de cela! Continuei

baixinho:

— “Inho”, “inho”, “inho”, delegado é veadinho! “Inho”, “inho”, “inho”, delegado é veadinho!! “Inho”, “inho”, “inho”...

Quando cansei, me dei conta que estava morrendo de vontade de ir ao banheiro. O Cebola também queria. Começamos a gritar através da grade mas a resposta foi a esperada:

— Pode fazer aí mesmo!

Impossível. Encostar em alguma coisa ali e a gente podia acabar com tétano. Por fim, depois de muita procura, nossos amigos encontraram o meu pai no bar perto de casa. E avisaram que “eu estava na cadeia, mas não tinha sido nada”.

Ele vinha bebendo cada vez mais. Não necessariamente por minha causa porque ele sempre bebeu, desde que eu era pequeno. Era um conjunto de coisas, desde os constantes desentendimentos com minha mãe até os danos financeiros causados pela perda das casas. Ele foi piorando progressivamente, não dava mais para negar o alcoolismo franco.

Minha mãe não se conformava com aquele vício que piorava a olhos vistos. Ela também não perdoava a história da perda do nosso patrimônio e estava sempre a acusá-lo.

As brigas eram cada vez piores, cheguei a ver meu pai ameaçar minha mãe com cadeiradas e ela revidar com faca, coisas desse nível! Havia manhãs em que eu saía de casa e dava com meu pai dormindo na soleira da porta. Isso acontecia todas as vezes em que ele ficava até de madrugada no bar. Quando chegava, minha mãe não abria a porta. E ele, embriagado, dormia ali mesmo.

Mas naquele dia meus amigos o acharam sóbrio. Ainda. E ele foi me buscar.

Fui chamado da cela e saí. O Cebola ficou para trás. Diante do Delegado meu pai levou uma esfrega:

— O senhor é que é o pai deste rapaz? O senhor não pretende dar educação para o seu filho, não? Por acaso quer vê-lo com um tiro na cabeça?! O senhor sabia que ele é freqüentador deste estabelecimento já faz tempo? — O Delegado estava feroz naquele dia.

Meu pai tentou argumentar:

— Não adianta falar, ele não escuta ninguém!

— O senhor tem que ter pulso firme com ele!!! Pulso firme, sabe o que é isso? Eu também tenho filho adolescente e o pai tem que segurar esses endiabrados nessa fase! - Ele apontava para mim, injuriado. - Olha só para a cara do seu filho!

Eu estava com o ombro apoiado na parede, só escutando.

- Olha a cara dele, é um marginal mesmo, não tem o que esconder! Mas se acontecer algo pior com ele o senhor também vai ser responsável por isso. Não adianta nada largar tudo ao deus-dará! - E falou, falou, falou um monte.

Meu pai, quieto, não teve o que responder. Por fim fui dispensado, e levamos também o Cebola. Meu velho foi generoso, responsabilizando-se por ele e dizendo que conhecia a família, que a mãe realmente não estava em casa, que era boa gente e etc. .. e etc. ..!

O Cebola morava algumas casas depois da minha e, antes, era até bonzinho. Mas depois que começou a andar muito comigo e com a “29” degringolou de vez. Até plantação de maconha ele tinha no quintal!

Da delegacia até em casa eu e ele tomamos o maior sermão.

— Esta é uma vida bandida, marginal! — Repetia meu pai à toda hora. - Vocês têm que parar com essa história de roubo, de bagunça, de sujeira! O caminho disso é a morte! E esta coisa de droga?!!!

— É! — Retruquei, por fim. — Mas você também bebe. Droga por droga, o álcool também é droga!

O Cebola assentia com a cabeça. Meu pai deu um berro quase fuzilando-me:

— Mas a minha droga pode!!!!!— E continuou esbravejando: — No dia em que legalizarem a maconha, a cocaína e o raio que o parta você usa quanto quiser! Pára de querer se justificar!!!

Não adiantava discutir. Era um troço complicado tudo aquilo. De quê refrescava um sermão daqueles??? Nenhum de nós tinha como voltar atrás agora. Só conhecíamos aquela vida. Certo ou errado, era o que era; ninguém muda do dia para a noite, pelo menos não sem um bom motivo! Às vezes eu tinha aquela sensação estranha, como se realmente não fosse durar muito, como se a minha vida estivesse por um fio!....

O melhor era não ligar! Escutei até em casa, sem responder. Subi, tomei um bom banho e só avisei:

— Vou encontrar a turma! — E me mandei para a rua de novo. Já tinha mesmo perdido a escola e o treino. Perdido por um, perdido por mil. Ia terminar de aproveitar.

 

Eu estava no final dos meus 16 anos e um fato era inegável: eu e a turma da Gangue estávamos cada vez mais em ponto de bala. Nós tínhamos que descarregar o que ia por dentro de qualquer jeito. Era uma necessidade evidente. Estávamos cada vez piores!

Uma outra ocasião fomos à casa do Éder escutar um disco de funk, um negócio da hora. Foi uma zona total! Bebemos fumamos, nos drogamos e por fim saímos de lá doidões, enlouquecidos.

— Vamos bater na turma da rua Maipim? — Propôs o Bolinha pingando colírio nos olhos e passando o frasquinho adiante (o colírio tirava a vermelhidão deles).

Todo mundo topou. Aquela turma vivia jogando bola ali na rua. Não sei bem quem começou com aquela história, mas volta e meia nós aparecíamos por lá, espancávamos todo mundo e não tinha mais jogo. Os caras ficaram tão calejados que bastava um de nós aparecer e eles já fugiam espavoridos.

Depois da visita à Maipim, que não foi lá essas coisas a noite vinha caindo mas nós estávamos ainda excessivamente acesos, precisando explodir. Por para fora tudo o que estava dentro da alma e que nós nem nos dávamos conta.

Andando em bando e procurando o que fazer, ainda passando de mão em mão a garrafa de vinho, falando alto, jogando longe latões de lixo, de repente demos de cara com a escola “O Reino Infantil”, não muito distante de onde estivéramos. Alguém sugeriu:

— Vamos entrar lá?

Pulamos os muros, só para “ver como era”. Arrombamos uma porta lateral e entramos nas salas de aula. O Éder teve a idéia, catando uma cadeira:

— Vamos ver quem arremessa mais longe?!

Foi como sugerir que os ratos se servissem de queijo! Passamos a arremessar longe as cadeiras imitando os atletas que praticam arremesso de peso, com aquele giro do corpo que faz com que se tenha maior impulsão ainda.

Não nos demos por satisfeitos até que uma das cadeiras finalmente acertou a vidraça. Foi um barulho ensurdecedor mas ninguém estava nem aí. Ao invés de nos assustarmos achamos “dez” e começamos a quebrar tudo quanto era vidro na cadeirada!

Depois, só as vidraças pareceu muito pouco. Já estava tudo quebrado mas parecia pouco. Eu e Tistu começamos então a quebrar todo o resto, lousas, carteiras, objetos de todos os tipos no meio de uma arruaça infernal.

Tinha uma mangueira por ali, no corredor ao lado, e nós ensopamos tudo, molhamos tudo o que havia pela frente. Largamos a mangueira ligada, demos banho um no outro. O resto da galera entrou na bagunça. Enquanto não depredamos tudo o que vimos pela frente não nos demos por achados.

À certa altura vimos a luz de uma lanterna iluminando pelo lado de fora. Só então nos lembramos de que já estávamos ali há muito tempo. Em poucos segundos a polícia chegou e nós tivemos que fugir que nem ratos. Alguns vizinhos acabaram vendo alguns de nós, apesar de termos sumido tão rápido como o vento.

— Sabemos quem foi! — Disse a mãe do Netinho.

Ficamos sabendo quem ela acusou porque as intimações foram chegando, inclusive em minha casa. Aliás, elas chegavam mesmo. Mas normalmente eu passava a mão antes que meus pais tomassem ciência. Rasgava e ficava tudo por isso mesmo. Nunca vinha segunda via!

Só que nessa ocasião eles viram antes de mim. Dei uma enrolada nos meus pais, disse que havia sido um engano e nem dei bola para a intimação. Continuei na minha vida de marginalidade.

O nosso sonho era crescer como uma Máfia! Conhecíamos os bandidos de verdade do bairro, gente realmente procurada pela polícia. Às vezes saía alguma história deles no jornal e nós ficávamos muito lisonjeados com aquilo. Tinha um cara que eu vivia escutando falar sobre ele, o Rumba, um bandido completamente tresloucado.

Um dia tive o privilégio de conhecê-lo. Ele andava armado até os dentes, naquele dia estava com duas pistolas e vinha pedalando uma bicicleta. Mas era tão magricelo que eu pensei comigo: “Este é o temido?!”. E eu tentava associar as histórias ouvidas à figura que tinha diante de mim. Eu sabia que eram verdadeiras!

Conversamos um pouco, ele prometeu roubar-me uma bicicleta de presente. Encontrei-o algumas vezes depois disso, ele sempre me cumprimentava, lembrava de mim. Ficamos até meio “colegas”. Mais tarde ele viria a morrer num tiroteio com a polícia. Levou mais de vinte tiros. Saiu até no programo do “Gil Gomes”.

Infelizmente eu estaria envolvido nessa história...

 

Se a Gangue era um motivo claro de atrito com Camila, o Kung Fu logo demonstrou ser mais um possível motivo. Novamente não era nada muito declarado da parte dela, mas como eu estava cada vez mais ocupado com treinos e aulas, ficou muito óbvio que, definitivamente, Camila não apreciava nada daquilo.

Mas aí já era demais!

Gostando ou não, ela ia ter que aprender que eu não era um boneco que ela montava e desmontava conforme lhe conviesse melhor, por puro capricho. A melhor coisa da vida é fazer aquilo que se gosta! E eu amava o Kung Fu!

Se eu procurava dar tudo o que agradava a ela, passeios, presentes, ela não poderia fazer o mesmo?!... O quê mais ela queria??? Como era difícil entender a mulherada!!!

E dito e feito, o Kung Fu tornou-se um Capítulo à parte. As boas oportunidades para mim começaram a aparecer naturalmente. Camila não tinha o direito de se intrometer nas minhas conquistas.

Começou com a saída do Péricles, infelizmente. Ele teve que se ausentar da Academia por causa de um problema de família, e foi de viagem para outro estado. Ia ficar fora uns cinco ou seis meses. Nessa altura eu estava no terceiro estágio do Union First (o estilo completo tinha 5 estágios), e o próprio Mestre Yung me abordou. Sim, ele mesmo, o que trouxera o estilo ao Brasil e que dava aulas na Liberdade.

De vez em quando ele aparecia por lá, assistia os treinos, supervisionava o andamento dos alunos e do próprio Péricles, seu discípulo. Naturalmente que ele via minha dedicação e aproveitamento. Eu era o braço direito da Academia.

— Você tem condições de assumir as aulas até que o Péricles volte?

UAU!!!

Eu tinha mesmo muita facilidade para dar aulas. Era algo nato. Havia vezes em que eu dava quase todo o treino sozinho e o Péricles só vinha no final, adiantava a técnica, corrigia. O Mestre Yung sabia disso, e não reprovava. Mas queria ouvir da minha boca que eu estava disposto a encarar o rojão de assumir a turma. Não vacilei.

— Assumo. É claro que assumo. — Aquela era uma confiança tremenda!

— Só tem um porém. - Ressaltou ele. — Eu não admito que você ensine qualquer outro estilo dentro dessa aula. Union First é Union First. Wing Chun é Wing Chun.

— Entendi.

Ficou combinado assim. Tive que fazer malabarismos nessa época para dar conta do recado. À tarde eu já trabalhava meio período e o serviço “atrapalhava”. Eu era um dos vendedores daquela antiga rede de lojas, a Sears.

Então ia cedo para o colégio, depois voava para o serviço à tarde. Depois era só aula, aula, aula, aula na Academia. Union First para o curso de Union First, Wing Chun para o curso de Wing Chun. Procurei concentrar todas as aulas nos mesmos dias para poder ter uma ou outra noite livre. Afinal, precisava ter tempo para os amigos. E um pouco para Camila! Às vezes até cabulava o colégio de manhã para treinar mais. Sábado de manhã eu também tinha que treinar.

Enfim, consegui dar as aulas de Kung Fu durante alguns meses. Mantive o compromisso com o curso de Union First e Wing Chun até onde realmente me foi possível. No entanto chegou o tempo em que eu já não tinha mais o que ensinar caso não me dedicasse ao meu próprio aprendizado. O Péricles e o Ageu definitivamente não retornaram mais. Então tive que me afastar daquela Academia, já não havia muito mais para mim ali. Foi mais do que compreensível o meu desligamento.

Pouco antes disso achei um espacinho do dia para começar a prática de um novo estilo, o Ton Long, numa conceituada Academia. Realmente era impossível conciliar tudo. E eu queria ter tempo para me dedicar integralmente.

A essência da minha vida era o Kung Fu, de forma que eu treinava inclusive durante o serviço na Sears. O lugar do estoque de mercadorias era ideal! E tinha lá meus amigos espalha-brasa que estavam sempre aprontando também. Um dia eu estava com eles treinando chutes em pacotes imensos de fraldas, elas voavam e espalhavam para todos os lados. O treino acabou mas continuamos destruindo as fraldas e correndo um atrás do outro como doidos, com uns revólveres de flechinhas, atirando sem parar.

Alguém acabou caindo em cima de uma das estantes imensas. Elas eram enfileiradinhas que nem dominó, caiu uma e ela foi derrubando todas as outras. Parecia que tinha caído uma bomba dentro do estoque. Levaram semanas para por em ordem. Nossa sorte foi que não fomos descobertos.

De vez em quando eu dava uns “chutes” no trabalho e fugia para a nova Academia. Mas tinha que fazer a coisa bem feita porque não era interessante ficar sem o emprego. Eu ganhava muita grana! Não porque o salário de vendedor fosse grande coisa, mas por causa dos altos rolos que aprontava por lá. O dinheiro que eu roubava mensalmente era três vezes o meu salário.

Passava adiante montes de brinquedos para meus amigos da “29”, principalmente na época do Natal e Fim de Ano quando o movimento era muito grande, difícil de controlar as vendas. Eu embrulhava autoramas, jogos caríssimos da moda, vídeo games e eles simplesmente iam pegar. No meio do tumulto saíam carregados de tudo quanto era coisa. Revender dava grana.

E quanto aos fregueses, se consentissem em comprar sem nota fiscal eu fazia a mercadoria pela metade do preço, às vezes até por um terço do preço. E embolsava a grana. Também dava para desviar dinheiro do caixa. Era muito fácil, o sistema era falho. Só iam perceber muito depois, na contabilidade, mas aí., já era!

 

O Ton Long — ou estilo do Gafanhoto — era leve, suave, e exigia muita flexibilidade e agilidade. As posturas eram muito baixas. Mas a beleza dos “Shiatzes” (seqüências de movimentos) me encantava. Cresci muito rápido por causa da ótima base que eu já tinha.

O Ton Long tem oito estágios. Minha bagagem prévia me fez caminhar muito mais depressa do que os outros, a maioria iniciantes no Kung Fu. Eu treinava como um alucinado. Havia “Shiatzes” que os alunos levavam um mês para aprender. Mas eu, com facilidade em assimilar os movimentos, às vezes gastava um ou dois dias para aprender a mesma coisa.

E em mais ou menos um ano eu cheguei ao quarto estágio. Até aí tinha sido mais fácil. Depois complicou, e passei a levar praticamente o mesmo tempo que os demais. Pois quem chegava neste ponto estava mesmo a fim de treinar, tinha jeito para o esporte, e já estava familiarizado com o estilo.

Foi no Ton Long que comecei a aprender o manejo de muitas armas. Nos oito estágios do estilo aprende-se um básico de 107 armas. Depois é possível especializar-se naquilo em que se tem maior destreza. No meu caso, o forte sempre foi o nunchaku. Aprimorei-me muito. Também era bom no bastão longo, na lana, nos sabres e jogava shurikien com facilidade.

Nessa época fui incentivado pelos meus Professores a terminar o Wing Chun. Faltava apenas o último dos três estágios para que eu me formasse. Resolvi então matricular-me na “Associação de Divulgação Nacional de Kung Fu” para dar continuidade ao estilo, paralelamente ao Ton Long. O que eu ganhava dava para pagar a mensalidade.

A “ADINK” era a mais conceituada Associação de Kung Fu da época. Os alunos da ADINK eram sempre os melhores, os que se destacavam em Torneios, Apresentações e Campeonatos. Fiz a ficha, mencionei os meus Mestres e o estágio no qual me encontrava. Fui submetido a um teste prático e pude continuar quase que exatamente do ponto aonde tinha parado. Minha única deficiência era o Mudjong.

O Mudjong é um espécie de boneco de madeira usado para treinamento de golpes a curta distância e eu deveria ter aprendido 30 movimentos até o final do segundo estágio. Mas na outra Academia não tinha Mudjong. Diante do bom andamento em tudo o mais aquilo não foi problema. Ficou acertado que aquela deficiência seria suprida e eu aprenderia no último estágio todos os 108 movimentos.

Bom, estar na ADINK era o máximo!!! Todo mundo era bom, os alunos todos, e mais ainda os Professores. A maioria deles estava cheia de títulos e conquistas. Logo fiz amizade com todo mundo. Vivia atrás dos Mestres porque   estava sempre fuçando em tudo que pudesse aprender.

Agora imagine se eu podia por tudo isso a perder só porque Camila não gostava de Arte Marcial e nem se interessava por coisa alguma!!!

 

E foi assim.

Hoje percebo que, no início, boa parte de minha expectativa em relação ao namoro foi fruto de minha própria fantasia. Apesar de ser ainda um adolescente eu tinha lá comigo o protótipo da mulher ideal. E assim, inconscientemente, transferi para ela uma série de expectativas, a realidade mesclada com os meus desejos.

Só que o dia-a-dia se encarrega naturalmente de “moldar” estas imagens pré-concebidas. Leva um tempinho, mas acontece! E se começa a ver que nem tudo são flores.

Ficou claro que Camila não topava a “29” e que achava a Arte Marcial uma total perda de tempo. Aquilo foi um pouco de água na minha cabeça, mas nem por isso deixei de considerá-la, e muito. Ela tinha qualidades essenciais e que eu não queria desperdiçar. Era uma moça que não se encontra em cada esquina. Isso me fez investir no relacionamento e procurar contornar as diferenças. Era inegável que eu estava envolvido por ela.

O que mais me atraía era o seu jeito discreto de ser. Camila me respeitava. Era algo natural, que não precisava de imposição ou indiretas, fazia parte do seu caráter. Vagamente ela tinha comentado comigo sobre seu desejo de ser “mulher de um homem só”. Aquela história deu uma mexida com a minha cabeça. Isso era tão inédito!

Quando íamos ao cinema, mesmo nas poucas vezes em que isso aconteceu ainda antes do namoro, se havia alguma cena... um pouco mais picante...ela desviava o olhar, abaixava o rosto. Aquela decididamente não era uma conduta normal!

— Pôxa — Eu ficava pensando. — Isso é diferente!

Eu me sentia respeitado por causa de atitudes assim. Camila me passava uma sensação de fidelidade absoluta. E aquilo me atraía.

Quanto à ela.....difícil dizer!

No começo senti que não era correspondido na mesma intensidade. Para Camila o nosso relacionamento era apenas um “namorico”. Ela mesma veio a me dizer isto mais tarde, que tinha iniciado o relacionamento só para ver “no que ia dar”. Mas depois dos primeiros meses, apesar das desigualdades, começamos enfim a nos adaptar e os sentimentos dela também mudaram. Camila começou de fato a gostar de mim, tornou-se mais amiga, mais carinhosa. E começou a fazer questão real da minha companhia.

Mas reconheço que eu não era nenhuma pérola. Estava muito, muito longe de ser alguém fácil de lidar! Meus defeitos com certeza eram piores do que os dela.

Se havia alguma discussão eu emburrava e ia embora, largava-a na mão, era “tchau” mesmo. Sumia. Ela que vinha atrás depois, me abraçava, procurava consertar os desentendimentos.

Outro aspecto era aquele meu temperamento agressivo. Ela viveu comigo muitos momentos de sufoco, pois sua presença não era suficiente para moderar minhas atitudes explosivas. O número de vezes em que saímos para passear e conseguimos estar de volta sem que eu tivesse armado alguma confusão podia ser contado nos dedos! Coitada!...

Como nenhum de nós tinha carro eu e Camila sempre andávamos de ônibus. Ônibus, (e cinema), era só questão de esperar. Não dava outra: confusão, confusão e mais confusão!

Certa ocasião Camila e eu íamos não sei onde, o ônibus estava cheio quando entramos e ela sentou-se no único banco vazio. Ao lado de um sujeito. Eu fiquei de pé ali mesmo. De repente o dito cujo resolve virar para trás e, para poder olhar bem (o quê, eu não sei), apoiou a mão no banco. Dentro de ônibus todas as mãos ficam muito “bobas” e nessa de se apoiar ele encostou na nádega dela. Como se precisasse de apoio para olhar prá trás!

Durante alguns segundos eu só o encarei. Ele percebeu e perdeu o rebolado. Sem jeito, abaixou a bola e olhou para a janela.

Educadamente eu pedi:

— Camila, levanta daí um pouco, tá?

Ela me olhou meio amedrontada ao erguer-se do banco:

— Você não vai fazer nada, né?

— Imagine... — Respondi, com um meneio de cabeça.

Sem mais palavras tomei apoio nos suportes de ferro dos bancos e, num impulso, dei um coice com os dois pés na cabeça do sujeito. Foi tão violento que ela partiu o vidro da janela. A cara dele foi parar fora do ônibus, pendurada na janela.

Empurrei a Camila para frente:

— Vamos descer no próximo ponto.

Todos dentro do ônibus permaneceram mudos, ninguém deu um pio. Camila me lançava olhares cheios de medo, quase sem compreender. Eu nem me virei para trás a fim de ver o que tinha acontecido. Em segundos o motorista parou e nós descemos. Tomei uma rua paralela e me enfiei de novo com ela no primeiro ônibus que passou, para ganhar distância.

Camila estava perplexa. Observava-me de soslaio e, vendo meu semblante pouco convidativo, não fez qualquer pergunta. Só no final do dia arriscou:

— Mas o quê que aconteceu, Eduardo??! Por que você fez aquilo com o cara?!! Vai ver você matou ele e ...

— Não! — Respondi categoricamente e ainda de mau humor. — Ele não morreu, não! Essa gente tem a cabeça dura. E ele veio e raspou a mão na sua bunda, você ficou quieta!

— Pôxa, Eduardo, acho que foi sem querer!

— Sem querer coisa nenhuma, você é que é muito inocente! Foi de propósito. E pelo sim, pelo não, tomou!

Uma outra vez nós descemos no ponto perto da casa dela, Camila na frente e eu atrás. Assim que ela passou um homem que estava ali parado esticou o pescoço para dar uma cheirada nela. Eu vi muito bem, foi ostensivo. Eu desci e dei-lhe uma ombrada generosa acompanhada de um monte de palavrões:

— Porque você não vai cheirar (...)!???

Camila apressou o passo assim que viu que eu estava armando rolo. O cara estava com um cano de escapamento na mão e partiu prá ignorância, tão furioso ficou. Veio prá cima de mim. Eu já esperava de mão na arma. Tirei o revólver e dei dois tiros para o alto. Ele ficou branco de tanto susto, saiu espavorido. Uns três ou quatro que estavam no ponto também, fugiram completamente em pânico. E eu sumi o mais depressa que pude, aproveitando que Camila já estava longe.

Em cinema era outro problema. Parecia sina, mas perto de nós sempre tinha aquele tipo de gente que não pretende calar a boca. Eu tentava me controlar ao máximo, mas de repente acabava estourando de uma vez. Um dia catei um rapazola pelo cabelo e encostei o canivete aberto na garganta dele.

— Cala essa boca senão você volta furado para casa! — E dei-lhe um safanão tão grande que ele voou de cara no banco da frente e ficou mudo. O resto do bandinho irrequieto que estava com ele também. Depois de alguns minutos sorrateiramente foram sentar-se lá na frente.

Restaurante às vezes também era um problema. Uma vez fui com Camila jantar num lugar bastante agradável, bem freqüentado, familiar. Mas o garçom não nos deu a atenção que merecíamos para um lugar como aquele. Reparou que eu era um garoto cabeludo e mal vestido, e normalmente as pessoas julgam pela aparência.

Eu não queria encrencar, de verdade! Deixei passar o pouco caso do garçom porque estava de muito bom humor. Aquela grana tinha vindo muito fácil. Eu, o Éder e o Márcio assaltamos um “veadinho” que mexeu com a gente no ponto de ônibus. Ele vinha num tremendo cairão e vimos na hora que o cara tinha dinheiro à rodo. Eu e meus amigos trocamos uns olhares rápidos e entramos no carro dele, aparentemente dispostos a tomar o chopinho que nos foi oferecido. Foi questão de minutos e o Éder encostou o cano na cabeça dele. Realmente ele tinha grana. Deu uma boa quantia para cada um.

Eu e Camila comemos muito bem e gastamos uma nota no jantar.

Quando veio a conta observei que haviam sido cobrados dois “couverts”. Só que na mesa ao lado um senhor sozinho recebera a mesmíssima quantidade de “couvert”. Logo não havíamos consumido dois, mas um apenas. Apesar da cara de ovo do garçom que nos atendera, paguei sem questionar os muito pouco merecidos dez por cento. Mas só um “couvert”.

Levantamos e fomos saindo quando o garçom veio todo apressado atrás de nós.

— Você esqueceu de pagar um “couvert”! — Veio dizendo sem maiores preâmbulos.

— Não esqueci, não. — Respondi. — A quantidade servida foi idêntica à da mesa ao lado, que só tinha uma pessoa. Portanto, pago pelo que comi. Vocês só serviram um, pago só um!

O gerente já veio se aproximando e questionando no mesmo tom estúpido. Então me enfezei. Arranquei a pastinha aonde estava o meu dinheiro da mão do garçom:

— Pois agora não só não pago o “couvert”, como também não pago dez por cento. Isso não é maneira de tratar um freguês, eu já fui mal atendido que chegue neste lugar! — Retruquei já elevando o tom de voz e retirando a quantia correspondente aos dez por cento.

Camila caminhou apressada na frente, prevendo a confusão.

— Nós vamos chamar é a polícia!!!

O gerente ficou furioso e o garçom ameaçou de me bater. Nem bem ele deu um passo e saquei a arma da cintura, de maneira que só eles a vissem e não todo o restante do restaurante que já desviava o olhar na nossa direção. Diante da arma o garçom deu meia volta e o gerente se enfiou que nem um rato atrás do balcão.

— E querem saber do que mais?! — Urrei para que ouvissem bem. — Podem chamar a polícia com razão agora, porque não vou pagar é coisa nenhuma!!!

Peguei todo o dinheiro de volta, joguei longe a pastinha e saí louco da vida. Na raiva virei de ponta cabeça uma mesa com pratos, copos, talheres e tudo o mais, no maior estrondo. Perto da porta tinha um belíssimo aquário, enorme. Pensei em atirar nele para causar mais estrago, mas fiquei com dó dos peixes.

Nem bem me vi na rua tratei de sumir rapidinho. Eu sabia que Camila já devia estar à caminho de casa porque era esse o combinado: se pintasse confusão ela deveria me deixar e voltar sozinha para casa. Eu a encontraria lá assim que pudesse. Ela já estava se acostumando com a coisa!

Camila também vivia se assustando com os meus amigos da “29”. Ela conhecia um ou outro de vista, mas o grupo era grande demais. Um dia eu estava distraído olhando uma loja de videogames quando ela me puxou assustada, segurava o meu braço, cochichando:

— Edú, aqueles caras vão assaltar a gente, eu tenho certeza! !! Estão olhando muito para cá.

Mas não era assalto, não! De repente, ao me virar o Éder e o Júlio me pularam nas costas, gritando:

— Aeh, Catatau! Continua andando assim distraído que você já era, meu irmão! E se a gente fosse inimigo?!!

Normalmente eu estava super-atento mas a turma tinha esta mania boba de um querer pegar o outro “pelas costas”. Só para poder contar depois:

— É...hoje o Catatau estaria morto...

Camila só olhava. Ainda assim nosso relacionamento podia ser considerado legal. Com um pouco de boa vontade mútua acho que dava para chegar a algo... de valor! Sei que ela se esforçou. E pode até parecer que não, mas eu também.

 

Eu havia de ter melhorado namorando com Camila. Pelo menos, teoricamente falando. Afinal eu estava convivendo com uma família de cristãos e até “freqüentava” a Igreja, ainda que o Culto não fosse a melhor coisa do mundo.

Mas havia algumas coisas legais na convivência com eles. Parecia que eram mesmo diferentes. Tocavam discos de Louvor em casa (não do “Cantor Cristão”, eram grupos de música Evangélica mais aceitáveis aos meus ouvidos). Também oravam para comer, procuravam me tratar bem.

Eu havia ganho as Bíblias e até comecei a dar uma lidinha, uma folheada aqui e ali. Afinal eu gostava de ler. E juntou com a minha curiosidade em ir atrás de tudo quanto era seita, e denominação, e religião. Talvez valesse a pena dar uma xeretada na Bíblia que falavam tanto, faziam tanta questão.

Mas, aos poucos... comecei a ver melhor os “bastidores” da família. Difícil dizer o que começou a pegar primeiro. Foi uma sucessão de pequenos fatos.

O pai dela era um homem que, via-se, tinha muitos problemas. Apresentava sempre um olhar distante, falava pouco e era extremamente abrutalhado. Difícil acreditar que um homem como aquele pudesse conseguir alguma coisa da vida. Mas apesar disso a casa onde moravam era grande e boa, os móveis estavam novos e tinham excelente qualidade. Pensei comigo mesmo:

— Pôxa...Deus abençoa mesmo!

Soube que seu Augusto tinha trabalhado numa Empresa mas como ele não queria ser subalterno de ninguém, saíra para abrir seu próprio negócio. Tinha agora uma firma e, pelo que Camila me havia contado, fazia serviços de despachante.

Seu Augusto tinha pensado que ganharia muito dinheiro com aquilo mas comecei a perceber que não era bem o que acontecia. Às vezes estava tudo bem, às vezes faltava até para a comida. E isso já vinha de longa data. Lembrei-me das ocasiões em que Camila não tinha um centavo, e de como era freqüente ela estar com fome na escola.

Comecei a me questionar como eles faziam para pagar o aluguel e as contas. Tudo bem que caía maná lá na Bíblia, mas este é o mundo real!

Logo descobri que o maná caía mesmo, mas não era do céu. Camila me contou: a casa fora cedida por uma prima rica, na condição de que eles cuidassem da avó. Os móveis elegantes também vinham da mesma parenta, que os trocava todos os anos. Até a TV, o som, a geladeira, os eletrodomésticos, as camas, tudo era oferta desta tal prima. Ela era casada com um físico nuclear bem sucedido, e diretora de um abastado Colégio Cristão. Por causa disto seu Augusto estava há quase vinte anos sem pagar aluguel. Nem impostos.

A princípio nada de mais, afinal se os cristãos não se ajudarem entre si, que será?

Mas comecei a achar tudo muito estranho. A única obrigação de seu Augusto era pagar as contas e dar um mínimo de condições à família. Mas ao longo dos meses fui vendo cada uma.....! Quase tudo o desabonou demais como cristão. Tinha um caráter que deixava muito a desejar.

Como dinheiro era sempre o problema, Seu Augusto chegou a falsificar cheques da irmã mais velha de Camila, a Kelly, e sujou o nome dela na praça. Comprou um presente de casamento para o Pastor Sérgio com um cheque do próprio filho dizendo que iria cobri-lo, tão logo recebesse. Mas vi com meus próprios olhos o nome do Pastor indo a protesto também. Até eu, mais tarde, viria a experimentar golpes monetários dele. Era quase um estelionatário!

A mãe de Camila, Dona Carmem, era boa. Procurava esforçar-se ao máximo para contornar os períodos de vacas magras. Tinha uma incrível criatividade na cozinha.

Uma vez só havia ovos e eu a vi fazer um omelete todo diferente, com queijo, que parecia uma pizza. Mas tinha dias em que eu chegava e realmente não havia nada para comer. Nada mesmo. Nem ovo. Os cachorros emagreciam a olhos vistos, viravam pele e osso. Muitas vezes eu próprio comprei ração. Ficava com dó de vê-los tão mal, eles não tinham culpa!

Fui conhecendo aos poucos a família toda de Camila, e nessa cruzei com as duas irmãs de Dona Carminha, Tia Malva e Tia Rita. As três não se davam de jeito nenhum, literalmente se odiavam. Eu achava difícil conciliar aquela atitude extrema com o que me ensinavam acerca da Bíblia e de Jesus.

Dona Carminha falava muito da Bíblia, literalmente enganchava um assunto no outro. Às vezes eu tinha até medo de fazer qualquer pergunta que pudesse estimular o assunto!

Mas pior do que tudo era o Pastor. Ele sempre me pareceu um falso desde o início. Quando percebi que nem ele e nem ninguém mais orava antes das refeições, vi confirmar-se diante dos meus olhos o que já sentia no íntimo: agora eu era da casa e portanto estavam dispensadas as “formalidades”. Mas como ele hospedava muita gente notei que, quando havia alguém “de fora”, voltavam a orar até para tomar uma xícara de café!

“Que belo jogo para a assistência!!!”, refleti.

Outra coisa que me chamou a atenção negativamente foi assistir ao “namoro e noivado” do Pastor. Eu ficava constrangido perto deles, tão grande era o “amasso”! Na frente da família, da mãe, das irmãs e de quem quisesse ter saco de ficar por perto. Eu, que não era Pastor e não tinha nenhum nome a zelar, não fazia diante dos outros o que ele fazia com aquela namorada. Para mim era nojento. Tem coisas que só ficam bem entre quatro paredes!

Mas sinceramente o conceito foi a zero um dia em que ele teve a brilhante idéia de comentar, no meio do almoço, acerca da sua última “proeza”. Tinha visto um filhote de gato dormindo no jardim e soltara os dobermanns em cima do pobre animalzinho, para “ver o que acontecia”. Naturalmente que o gatinho foi estraçalhado e aquilo para ele era muito engraçado, a julgar pelas risadas e o ar de satisfação. E ele dava aulas para crianças na Escola Dominical!

Não me contive:

— O que será que os seus alunos de Bíblia vão achar deste seu ato tão cheio de amor e carinho?!

Já a Kelly me irritava profundamente. Assim como todos deixaram de fingir e logo começaram a mostrar “a outra face”, ela também não foi exceção. Tinha inveja clara de Camila e de mim. Aonde nós estivéssemos e ela achava um jeito de vir incomodar. E era incomodar mesmo, ela queria ser chata!

Se estávamos conversando no quarto ela aparecia com a intenção de arrumar as roupas, afinal o quarto era dela também! E tirava tudo do guarda-roupa para começar a colocar de novo. Se a gente saía e ia para a sala, ela inventava que a arrumação ficava para depois e vinha ver TV. Íamos para a cozinha, e Kelly atrás, visivelmente disposta a encher o saco:

— Vou fazer um bolo!

Se a escolha fosse o jardim não dava outra, logo ela estava por lá também. Era muito irritante! Parecia louca.

Aparentemente o único propósito da sua existência era ajuntar dinheiro para viajar e gastar tudo!

Naquela época ela já era bem uns dez anos mais velha do que Camila e namorava um cara que nem bem olhei e vi que era um tremendo cafajeste. (Diga-se de passagem que eu sabia reconhecer um). Nem bem chegava na casa dela e já se espalhava no sofá todo folgado, com a camisa aberta, fumando.

— Nossa... esse cara é um pilantra!

E era. Ele teve a manha de marcar o noivado e não aparecer! Isso eu assisti com meus próprios olhos. A família toda se preparou para o grande dia, fizeram docinhos, salgadinhos, a mãe dela comprou flores para oferecer à mãe dele... e neca! O sujeito não deu as caras, largou todo mundo a ver navios, nem deu satisfação. Isso aconteceu três vezes e nem assim ela largava mão do tal Bóris! Na última vez ele até chegou a ir. Sentou, comeu. E por fim perguntaram:

— Bom, cadê a aliança?

— Opa!.... Esqueci! — Respondeu com a maior cara lavada. —Vou buscar e já venho.

Saiu e não voltou mais! E ainda largou a mãe dele lá. A coitada não sabia aonde enfiar a cara.

Eu não conhecia realmente os princípios da Bíblia, mas instintivamente ficava difícil acreditar que o Deus a quem cultuavam pudesse estar aprovando uma união como aquela. Enfim... não era da minha conta, a vida era dela. Mas se fosse só isso...

— Eu vou me casar com ele sem noivar mesmo! — Decidiu por fim a Kelly.

Ficou então acertado que eles iam casar e morar num quartinho na casa da mãe dele. A própria Kelly comprou todos os móveis de quarto com o dinheiro dela. Quando o Bóris viu que o negócio era prá valer, deu o ultimato.

— Eu não vou casar, não! — E veio a confissão que para mim era óbvia desde o início. — É que eu tenho outra.

Todo mundo ficou sabendo que ele tinha outra, inclusive os pais dela, mas Kelly topava ser a amante. Era o que ela tinha sido desde o início mesmo, e ia continuar sendo.

E o irmão mais velho, o Sálvio, que era casado, vivia apertadíssimo com problemas freqüentes de dinheiro.

Diante de tudo o que eu estava vendo comecei a achar que Deus não abençoava tanto assim. A desestrutura familiar era completa. Minha família era até que boazinha quando comparada à de Camila. Mas nas datas especiais, eles mantinham as aparências e tentavam fazer a política da boa vizinhança. Tudo acabava girando em torno da avó e o objetivo era evitar que ela se decepcionasse. Mas só. Não era porque realmente eles achassem que fosse melhor conviver bem, do que mal.

Fiquei um pouco decepcionado no começo. Era tudo fachada, uma falsidade só. Mas depois não liguei mais.

 

Quando comecei o quarto ano de Química resolvi matricular-me também no curso técnico de Administração de Empresas, à noite. Fiquei sabendo que poderia eliminar várias matérias básicas que já tinha feito, e condensar o curso de tal maneira que o concluísse em dois anos ou um pouco mais. Era vantagem. Se pegasse bem firme no começo tudo daria certo porque o quarto ano da Química era bem tranqüilo, com menos carga horária justamente para incentivar os estágios.

E eu decididamente estava cheio do curso de Química, bem certo de que não queria nada com aquilo. Tratei realmente de ir atrás de outra coisa.

Naquela noite, no dia da matrícula, eu estava preenchendo a minha ficha debruçado sobre o balcão quando senti alguém me beijar na nuca, por trás. Voltei-me. Era Thalya!

Ela se pendurou no meu pescoço, pulou em cima de mim, me abraçou com força.

— Oi, Edúúúú!!!

Feliz reencontro. Descobrimos que estávamos agora na mesma escola, e até fazendo algumas matérias em comum. Formada no colegial convencional Thalya matriculou-se no primeiro ano do curso de Publicidade. E teria diversas matérias junto com a minha turma!

Saímos dali e fomos direto para uma pastelaria ali pertinho. Conversamos até cansar, preenchendo aquela lacuna de mais de um ano e retomando a amizade exatamente no ponto em que parou, como se nunca houvéssemos nos afastado. E tudo realmente acabou voltando ao que era. Ou quase.

Eu expliquei que estava namorando há cerca de um ano e pouquinho, e para bom entendedor meia palavra basta. Pelo menos deveria bastar.

— Nem bem virei as costas e você arrumou outra, heim? —Thalya dava risadinhas maldosas.

— Você sabe que nunca fomos namorados!

Mas naquela noite mesmo, mais tarde, Thalya deu uma de “desentendida”. Não fizemos nada tão terrível assim, mas eu não pretendia repetir a dose se tinha intenção de continuar com Camila. E eu tinha intenção de continuar, sim, porque minha opinião com relação à Thalya não tinha mudado. Eu jamais poderia confiar nela.

E não seria justo com Camila!

Mas como era difícil resistir àquela loira! Thalya era provocante demais e estava mais linda do que nunca. Só que eu ainda estava a fim da minha namorada. Deixei claro, nas entrelinhas, que o deslize não ia se repetir.

 

Era uma sexta-feira à noite. Tirei o protetor do rosto primeiro. O suor escorria em bicas. Olhando de relance para o espelho reparei que meu rosto estava mais vermelho que de costume e meu cabelo, preso num rabo-de-cavalo, estava grudado e ensopado. Voltei-me para o Paulo, um negrão taludo que também jogava longe o capacete e o protetor de boca, não em melhor estado do que eu. Visivelmente cansado passou a retirar os protetores peitorais. Eu fiz o mesmo. Encaramo-nos mutuamente:

— Bom... — Fizemos os dois ao mesmo tempo.

Aquilo quebrou o clima ligeiramente tenso. Sorri abertamente para ele e estendi a mão.

— Toca aí, cara! Valeu!

Ele apertou com força minha mão puxando-me perto para dar uns tapas amigáveis nas costas.

— Não vai acostumando, não! Mas vamos decretar empate desta vez, OK? — Falou ele estendendo o dedo próximo ao meu rosto.

— Qualé que é, meu irmão? Você tem que comer muito feijão prá me vencer, cara! — Retruquei eu, já fazendo a reverência e saindo do tatame.

— Você é que tem que comer feijão!

Continuamos conversando a caminho do vestiário. A ADINK já estava praticamente vazia. Somente o rapaz da secretaria parecia ainda atrapalhado com algumas pastas, mas também preparava-se para dar o dia por encerrado.

— Tchau, tchau! — As duas mocinhas da recepção acenaram para nós, já de mochilas às costas.

Respondi com um abano da mão esquerda, nem respondi. Estava cansado demais. Fazia já um tempo que eu e o Paulo estávamos combinando um combate “até a morte”. Ou seja, até alguém pedir arrego! Resolvemos por em pratos limpos a “rixazinha” amistosa e acabamos encarando aquela logo depois do treino da noite.

Lutamos ferozmente durante mais de quarenta minutos. E como nenhum de nós desistisse, optamos pelo empate quando a exaustão começou a ser demais. O clima de competição por vezes era salutar e estimulante. Eu costumava dizer aos meus alunos:

— Minha vida é o Kung Fu. Vou lutar até o último dia da minha vida. Melhor seria se eu pudesse morrer lutando. Sem dúvida, taí uma grande honra.

E eu acreditava no que dizia.

Não passou muito mais tempo e logo minha dedicação e empenho foram coroados com mais uma conquista. Numa certa altura um Professor de fora da ADINK veio dar um curso de nunchaku. O nunchaku não era uma das armas clássicas do Wing Chun e por isso a maioria não tinha bom domínio dela, principalmente quem se dedicava somente àquele estilo.

Mas eu tinha. Tinha um domínio tremendo! Não só por causa dos outros estilos que praticava mas também porque muita coisa eu aprendia sozinho. Assistia aos filmes de Arte Marcial reproduzindo vezes sem conta os movimentos, quadro-a-quadro, até aprender os mais diversos truques diretamente com Bruce Lee e Jackie Chan. Depois acabei comprando também um livro de nunchaku. E treinava diuturnamente.

Mesmo assim fui fazer o curso na intenção de me aprimorar ainda mais. O Professor era bom mas, ironicamente, não tanto quanto eu. Ele foi sincero em observar:

— Não sei o que você está fazendo aqui! Você é que devia estar dando o curso! — Brincava ele.

Eu apreciava aquele desprendimento. Às vezes, durante as seqüências livres, ele reparava em algum movimento que eu fazia e ele não conhecia.

— EI! Espera aí! Como é que você faz isso?!

Eu mostrava. Trocamos muita figurinha durante aquele período. E os outros alunos repararam. Quando o tal curso acabou, após um mês, a história já tinha repercutido e apareceu mais gente interessada em aprender nunchaku. Os próprios alunos foram à secretaria da ADINK pedir autorização para que eu mesmo pudesse dar um novo curso.

O Professor responsável pelo primeiro curso tinha me dado nota máxima no diploma e me elogiado bastante perante os meu Mestres. Considerou-me perfeitamente habilitado para ensinar nunchaku embora não fosse ainda Professor. A ADINK era absolutamente rigorosa nestes aspectos burocráticos e hierárquicos, mas diante daquilo o Mestre responsável aprovou o curso.

Eu me dava muito bem com todos. Apenas um achou de implicar comigo, um Professor de nome Ricardo. Ele não gostava de mim, e era recíproco.

— Essa história de você dar aula não está certo. Você não é Professor!

— Se você puder manejar nunchaku melhor do que eu o lugar é seu. — Retruquei sem papas na língua. — Vá reclamar com quem aprovou o meu currículo!

E isso ele não podia fazer, de sorte que acabei ficando com um horário fixo todos os sábados pela manhã. Três horas de treino. Na verdade o curso não era só de nunchaku. Passei a dar “Armas”, e o tempo preestabelecido foi de três meses. Ensinava nunchaku, bastão longo e bastão curto.

Os alunos da primeira turma adoraram. Diante do bom resultado o curso acabou tornando-se vitalício. Havia filas de espera, pois só matriculavam-se trinta de cada vez. Logicamente o lucro para a ADINK era tremendo porque os alunos pagavam à parte; e volta e meia a Academia subia ainda mais o preço. Quanto a mim, me rendia uma grana extra muito boa.

Mais tarde, conforme me destacava nas aulas, às vezes era escalado para substituir algum Professor. Geralmente nos sábados à tarde. Não era sacrifício nenhum, pelo contrário. Eu sempre treinava como se fosse a última coisa que eu pudesse fazer na vida. Não raro vinha lá com meu programa todo escritinho meticulosamente em um papel. E enquanto eu não acabasse não saía da Academia. Não cumprir o treino era um desastre inominável!!! Por exemplo, às vezes eu tinha que treinar perna: 300 chutes semicirculares com cada perna no saco de pancada, com caneleiras de 2 quilos em cada uma. E fazia. Quando tirava as caneleiras não podia nem andar. Sempre fui meio exagerado!...

Camila começou a gostar menos ainda daquela “moda”. Não aceitava que eu gastasse todo o meu sábado com aquilo e só pudesse estar com ela à noite. Mas para obter algum resultado era preciso muita disciplina. E isso de fato nunca me faltou, pelo menos em se tratando do Kung Fu.

 

Uma vez por semana eram convidados preletores para dar palestras teóricas aos alunos e numa destas ocasiões quem estava lá para falar? Nada mais, nada menos do que meu primeiro Mestre de Wing Chun, o Ageu!

Foi um feliz reencontro, nos abraçamos e fomos tomar um refrigerante na lanchonete da Academia depois da Palestra.

— Você cresceu, heim, Eduardo? Está muito bem! Com uma forma física muito boa. Estou muito satisfeito em ver o progresso do meu antigo aluno. Quando vai fazer o exame na Federação?

— Logo, logo! Não vejo a hora. O exame da ADINK já está marcado. — Antes de ser selecionado para fazer o exame de faixa preta na Federação era preciso ser aprovado pela própria ADINK. Não podia me inscrever ao meu bel-prazer, apenas meu Professor poderia fazê-lo.

— Desde o início eu vi que você ia longe. Que bom que você não desistiu! E a velha Academia?

— Ah, passou, né? Não estava mais dando tempo. Agora estou aqui e na W.Wei, treinando Ton Long!

— E uma Academia quase tão conceituada como a ADINK.

— Você sabe que eu passava sempre em frente à ela? Estava sempre cheio de gente. Um dia resolvi entrar para dar uma espiada no treino deles. Acredita que foi justo num dia em que os caras estavam fazendo um “treino fechado”, e eu não pude entrar?! Fiquei fissurado prá ver. Voltei, conversei com o Mestre e resolvi começar. Precisa diversificar, né, Ageu? Senão a gente se limita muito numa coisa só. Eu ia estagnar, ia deixar de progredir. Logo, logo vou fazer teste me candidatando para ser instrutor de Ton Long!

— Estou voltando à ativa aqui em São Paulo. Vou dar aulas aqui! Venha ser meu aluno de novo até você se formar. Vai ser uma honra!

E fui mesmo. Tinha muita consideração por tudo o que o Ageu já tinha feito por mim.

Logo chegou o exame para ver se poderia candidatar-me ao Teste na Federação. Fui bem, a maioria considerou-me apto. O único voto contra foi o do Professor Ricardo, que continuava não indo com a minha cara por causa do curso de armas. Mas o voto dele não valeu de nada.

Até lhe disse isso, mais tarde, esquecido propositalmente dos meus bons ensejos de ser um “Mestre”:

— Como você pode ver, a sua palavra e cocô de vaca é a mesma coisa!

Ele me odiava! Mas teve que calar a boca.

 

No dia do exame eu estava bem preparado e confiante. Começaram com o teste teórico, que achei fácil.

Depois veio o teste físico, no qual também não houve dificuldades, apesar de muito intenso. O teste técnico foi o mais difícil. Lutei muito. Mesmo com os protetores podia-se sentir o impacto forte dos golpes. O Wing Chun por si só já era um estilo violento. Levei e bati muito. Foi uma pancadaria só.

Cheguei em casa moído, mas feliz. O resultado seria mandado direto para a ADINK e eu acreditava ter me saído bem. No dia seguinte os hematomas começaram a aparecer por todo o corpo, não havia como escondê-los. Eu mesmo preparava um ungüento à base de ervas que tinha aprendido com os meus Mestres. Podia parecer força de sugestão mas aliviava bastante a dor.

Meu pai era o mais revoltado com o meu estado: — Você está parecendo um dálmata! — Reclamou, observando-me colocar ungüento nos hematomas piores e enfaixá-los.

— Estou acostumado. — Respondi. — Não tem nada de mais! Faz parte.

E quando chegou o resultado fiquei muito satisfeito! Minhas notas foram boas e haveria uma pequena cerimônia na Federação para a entrega das faixas.

O exame tinha sido fechado, mas a cerimônia não. Mesmo assim ninguém de minha família foi. Camila também não se deu ao trabalho. Eu não receberia aplausos deles por aquela conquista. Não tinha o menor valor.

Recebi a faixa preta e a graduação de “Professor em Wing Chun”. Além do registro na Federação, a cada um de nós foi dado também um pingente com um nome chinês inscrito nele. Agora nós entrávamos para a genealogia daquele estilo, fazíamos parte da família que dera origem ao Wing Chun. Nosso novo nome era o que estava no pingente.

O próximo passo seria tornar-me Professor efetivo da ADINK. Aquilo seria muito bom para mim. De fato foi o que aconteceu, rapidamente. O fato de ter o registro e o título não queria dizer que automaticamente eu já era Professor da Academia. Foi preciso submeter-me à uma nova prova física e técnica específica para os candidatos a Professor.

Um dos dias mais alegres de minha vida até então foi quando recebi a aprovação. Agora eu poderia ensinar Wing Chun de verdade! E como eu já era conhecido e respeitado por causa do curso de armas, meu horário lotou. Comecei a ganhar um dinheiro melhor ainda nesta época.

 

Pouco tempo depois da minha Formatura no Wing Chun, meu namoro com Camila começou a tomar outro rumo. Ela não se conformava mais em aceitar certas coisas, começou literalmente a querer controlar a minha vida. O Kung Fu e as brigas nas quais me envolvia eram o pior problema. Até acho compreensível, mas Camila fazia da maneira errada, começou a querer impor a sua vontade e achou de insistir em extremos que começaram a me incomodar.

Chegava ao cúmulo de marcar hora para eu entrar e sair de sua casa no final de semana. E se eu atrasasse: ficava de bico! Eu já estava começando a perder a paciência com aquela prepotência!

Mesmo assim eu ainda procurava agradá-la sempre, da melhor maneira. Aos poucos fui assumindo Camila em todos os sentidos, inclusive financeiramente. Eu arcava com todas as suas despesas porque seu Augusto decididamente não cumpria o papel de pai.

Eu gostava de vê-la contente, sempre que podia dava-lhe tudo o que quisesse, de bom grado. Camila aprendeu que nesse aspecto, pelo menos, ela sempre seria a “princesa”. Nem se importava em saber de onde vinha a grana. Contanto que não faltasse.

E como normalmente não faltava, ela tinha todos os seus desejos atendidos. Era shopping, táxi, roupas, sapatinhos, tênis, passeios e restaurantes caros. Mas às vezes, a fatalidade... nem sempre eu havia ganho o suficiente. Ou roubado o suficiente. E aí começaram os problemas.

Aos poucos comecei a ver que o meu “tudo” nunca seria bom o bastante. Se por acaso estivesse sem dinheiro Camila nunca era compreensiva, nunca achava que poderíamos fazer um programa mais simples e que iria ser bom do mesmo jeito.

Decididamente ela tinha vocação para marajá! E nada de aceitar programas mais simples, como a maioria dos mortais faz quando a grana está curta. Ficava emburrada e reclamando que queria sair, que o final de semana ia ser uma droga e que ela nunca fazia nada de bom! E como era duro “ser pobre”!

 

Depois começaram a acontecer algumas coisas que decididamente foram me deixando cabreiro.

Minha primeira decepção de verdade com Camila, creio eu, foi por causa da bota.

Ela tinha cismado com uma bota que vimos um dia no Shopping Eldorado. Camila olhou, babou, comentou, namorou a bota com olhos vidrados. Naquele dia eu não tinha como, mas assim que descolei uma grana extra voltei ao Shopping para comprar a tal bota. Ia fazer uma surpresa!

A moça que atendia na loja ficou até muito assustada quando entrei, até deu uns passos para trás. Acho que pensou que era algum assalto. Eu podia ver o medo nos olhos dela. Mas não roubei a bota, paguei com dinheiro vivo. Me custou os olhos da cara.

Levei a bota e umas flores para Camila, no sábado, em sua casa. Ela adorou a bota. (Mas reclamou das flores, já nem me lembro por que). Ela estava entusiasmada:

— Puxa, Edú, que bom! Vamos sair, então? Tô louca para estrear a bota!

— Olha, Camila, eu estou sem dinheiro para tudo isso. A bota custou meio caro, acho que você se lembra do preço, né? Só se for um MacDonald's!

Resposta errada!.................

— E eu lá posso ir no MacDonald's com essa bota??! Então, pelo menos vamos ao “Galleto's”.

— Não tem jeito, eu não tenho grana. Só se você pagar com um cheque seu.

Camila tinha começado a fazer um estágio remunerado, (parcamente remunerado), e tinha um dinheirinho dela.

— Mas não tem fundo o meu cheque. Está a zero!

— Tudo bem. Eu cubro a sua conta segunda-feira. — Até lá eu teria tempo de levantar facilmente a grana.

Assim combinado, ela me obrigou a me arrumar melhor. Impingiu-me uma camisa do Pastor Sérgio que ficou agarrada porque eu era mais encorpado do que ele.

— Está menos pior do que a outra, toda rasgada! — Sobreveio Camila olhando para mim.

Ela mesma ainda molhou meu cabelo e o amarrou. Finalmente deu-se por satisfeita e foi ela mesma se vestir e se emperiquitar. Mas eu já estava saturado. Por que tinha que ficar sufocado dentro daquela camisa ridícula???! Mas concordei.

Um pouco antes de sairmos o tempo começou a fechar. Mesmo assim tomamos o primeiro ônibus e descemos a algumas quadras de distância da minha própria casa. De lá pegaríamos o segundo ônibus, que nos deixaria no “Galleto's”.

— Você trouxe o guarda-chuva, né, Edú? — Perguntou Camila. — Não, esqueci. Você me fez experimentar tanta roupa! — Essa não! Se essa bota molhar eu nem sei o que eu faço!!! — Respondeu Camila já com maus bofes.

Dito e feito. Justo naquele momento começaram uns pingões de chuva grossa.

— Ai, meu Deus! — Ela gritou com o rosto transtornado. — Calma! Estamos a duas quadras da minha casa.

Mas de repente... uma enxurrada!

Fomos correndo como lebres só que não deu para evitar o pior com a bota, que era de couro branco, com uma espécie de pelica fina.

Camila entrou em minha casa completamente   histérica. Bateu a porta da rua com fúria e subiu calcando os pés estrondosamente na escada, aos berros, chorando e gritando. — Ai, meu Deus do Céu!!!!!

Toda a minha família assistiu a cena. Foram pegos tão de surpresa que ninguém entendia nada. Só ouviram a porta do banheiro martelar um “BUM!” caprichado lá em cima.

—Mas o que que aconteceu?! — Acudiu minha mãe às pressas. — Ela molhou a bota. — Respondi em tom seco, subindo atrás de Camila.

Entrei no banheiro, tentei acalmá-la. Camila atirou a bota em cima de mim.

— Olha só!!! Carambaaaa!!!!

Perdi a paciência de vez. Empurrei-a e tranquei a porta do banheiro por fora.

— Pois então fica aí dentro do banheiro com bota e tudo!!!

Camila continuava gritando e chorando, batendo com os pés na porta do banheiro, num descontrole total!

— MINHA BOTAAA!!! — E “BAM!”, “BAM!”, “BAM!”

Minha mãe subiu correndo atrás de nós.

— Eduardo, tenha calma! Mas o que que é isso?!

— A culpa é dessa louca!

Naquele dia demorou para ela se acalmar. E o clima foi de velório o resto do final de semana.

Que Inferno. Que Inferno!

 

Aí veio a história por causa da briga no parque. Essa foi meio inusitada, e eu não tive culpa.

Comecei a participar de torneios pela ADINK. Numa dessas ocasiões estive no interior e acabei machucando um rapaz com quem lutei. Não foi de propósito mas meu golpe pegou de mau jeito no joelho dele, acho que deslocou a patela. E ele não pôde mais lutar.

Eu perdi apenas em pontuação mas o rapaz acabou sendo desclassificado por falta de condições físicas. Acabei voltando com o primeiro lugar na minha categoria.

Foi uma farra mais ou menos na volta, lembro-me bem. Pena que, na empolgação da conquista, girei demais a medalha para fora da janela do ônibus e ela acabou voando longe. Voltei com o primeiro lugar, mas sem medalha e super-emburrado com a “fatalidade”!

Passado algum tempo, um dia eu estava dando aula quando entrou um sujeito na sala que ficou ostensivamente a me encarar. Não dei bola mas no final da aula ele me abordou:

— Você que é o Eduardo?

— Sou eu.

— Por acaso você se lembra de um torneio “assim e assim”, que aconteceu há seis meses, lá em... — E desfiou o rosário.

— Me lembro muito bem. Só não estou lembrado de você. — Respondi em tom tão seco quanto o dele.

— Pois é. Eu não estava lá. Mas meu irmão estava! Ele era irmão do tal rapaz desclassificado, aquele que eu tinha machucado o joelho.

— O meu irmão era um bom atleta mas está em tratamento até hoje por sua causa. Você usou de um artifício sujo para ganhar o Campeonato!

Eu respondi numa boa a princípio.

— Pôxa, mas essas coisas acontecem, cara! Seu irmão deve saber que não foi de propósito. Todos nós assinamos um pequeno contrato antes dos torneios assumindo toda a responsabilidade sobre nós mesmos! Cada um é responsável por si. O seguro cobre danos graves, e creio que não é o caso.

— Eu estou aqui para cobrar uma outra coisa. Aproveitar uma oportunidade que meu irmão nunca teve. — E empinou o nariz numa atitude que não gostei.

“Que metido!”, pensei.

Mas aí veio a inusitada proposta:

— Eu e você. — Continuou ele em tom ameaçador, para variar com o nariz quase encostado no meu. — Só nós dois. Sem regras e sem juiz. Até o fim.

Quase dei risada na cara dele. O sujeito não devia estar batendo muito bem da bola! Dei uma caçoadinha:

— Aí!! Acho que você anda vendo muito filme de luta, heim?!

Ele não se deu por achado. Continuou no mesmo tom:

— Você tem uma semana de prazo para me dar a resposta.

— Te dou a resposta já: esquece. Não vou lutar com você!

— Você mora na rua Caiapó, número 234, não é? Seu pai costuma sair pela manhã e deixa sua mãe em casa... junto com dois irmãos menores...! E você estuda naquele colégio técnico assim e assim, e namora com uma mocinha... como é mesmo o nome dela? Camila, não é?...E ela mora perto de um parque, está trabalhando...

Deu todos os detalhes da minha vida. E concluiu:

— Isso é prá você saber que eu vou atrás de você. Não adianta querer se esquivar. E você vai ficar inválido, sabia? Vou te deixar numa cadeira de roda! Mais uma coisinha...não adianta ir atrás de polícia. Se você fizer isso, sua família que se cuide. Eu estou só te ameaçando... isso não faz de mim um criminoso. Não é?

Deu meia volta e falou, por cima do ombro:

— Eu volto em uma semana!

Que sujeito mais doido! Aquilo não tinha cabimento. Só me faltava essa, vingança de irmão! Saí da Academia e fui direto para o colégio. Agora eu tinha aulas à noite de Administração de Empresas. Encontrei com a Thalya e acabei comentando com ela em primeira mão:

— Dá prá acreditar? E agora? Ele sabe tudo sobre mim e quer lutar de qualquer jeito. Não tenho outra alternativa. Em último caso, vou armado e passo fogo nele.

— Talvez não seja preciso. Você pode derrotá-lo. — Respondeu Thalya com ar meio preocupado.

— Qualé, mulher! Isso não é filme, não. O sujeito quer me aleijar. Só que antes ele do que eu!

Ela não se convenceu muito mas eu já estava decidido. Se fosse o caso matava aquele cara e acabou!

No prazo combinado ele voltou a me procurar.

— Você escolhe o lugar e a hora. — Disse-me tão logo ouviu minha resposta afirmativa.

Falei friamente:

— Sete horas da manhã no Parque. Perto dos estábulos. Domingo.

Duas coisas... — Reiterou ele. — Se você não estiver lá, não vou te procurar mais. Só que alguma coisa vai acontecer com você ou com a sua família. E se você levar mais alguém junto, eu não vou lutar. Só que aí a primeira ameaça continua valendo. Deu prá entender? Isso é entre mim e você! Vê se consegue ser homem uma vez só e não vai se esconder atrás de ninguém.

Fiquei pensando comigo mesmo. Não podia levar ninguém. Minha família estava em jogo, Camila também. Eu nem me atreveria a comentar o fato com ela. Foi Thalya quem sugeriu:

— Esse cara é louco mesmo! Você não vai fazer o jogo dele, não, Eduardo. Tem que ter um trunfo na mão! Eu já sei, vamos fazer o seguinte: eu vou com você! Ele não vai desconfiar de uma mulher, eu posso muito bem estar fazendo um cooper no Parque! Fico com o seu revólver, vocês lutam, mas se a coisa apertar eu atiro nele!

— Até parece. Não é porque o cara é louco que você vai dar uma de louca e meia, Thalya.

— Louca e meia nada. Loucura é fazer o jogo dele! Eu não sou dondoca, você sabe! Tô aí pro que der e vier, Edú!

Ela me convenceu de que isso era o melhor e ficou combinado assim. Dei-lhe algumas noções de tiro, ensinei-a, treinamos um pouco. Mas queria crer que não ia ser necessário chegar naquele ponto, pelo menos eu assim o esperava.

Um dia antes, no sábado à noite, eu comentei com Camila sutilmente:

— Olha, pode ser que amanhã eu me atrase um pouco prá chegar. Tenho que resolver uma ponta com um cara! — Não sei o que me deu, mas expliquei em poucas palavras do que se tratava. — Pede aí para o teu Deus que o pior possa ser evitado.

Sinceramente não sei porque fiz a besteira. Ela nem deu bola. Limito-se a comentar:

— Você que não me apareça aleijado aqui, que eu não vou mais te querer! Está ouvindo bem? Era só o que me faltava!

Olhei para ela sentindo morrer dentro de mim algo que não renasceria de novo. Aquela resposta me decepcionou profundamente. Me limitei a responder:

— Não se preocupe, Camila. Eu não vou voltar aleijado. Levantei imediatamente, fui em direção à porta. — Aonde você vai? — Embora. Tchau. — Pois vá! Eu não quero nem saber. Saí e fui atrás de Thalya, que estava em casa. Saímos, fomos ao cinema, procurei relaxar a cabeça. E na manhã seguinte, bem cedinho, ela passou com o carro em casa e fomos para o Parque. Eram seis e meia da manhã. Passamos em frente à entrada. Ainda nem estava aberta. Então demos a volta e estacionamos bem longe.

Voltamos à pé e pulamos o muro sem muita dificuldade. Estava uma manhã nevoenta, caía uma garoa fina e insistente que logo nos deixou bem molhados.

Nem bem adentramos o Parque e nos separamos. Ficou combinado que Thalya não iria se expor à toa, fazendo cooper, mas ficaria escondida dentro de uma baia de cavalo. Eu estava apreensivo, confesso. Era uma situação diferente.

Quando cheguei ao local combinado ele já estava lá, todo molhado também. Eu nem sabia em que baia Thalya tinha se enfiado. Ela mesma ia escolher o melhor lugar depois que observasse nossa posição na hora. Nem bem cheguei, ele apenas olhou para mim e começou a se aquecer. Lembrei-me do filme “O Vôo do Dragão”, com o Chuck Norris e o Bruce Lee, quando eles lutam no Coliseu.

Mas a presente situação era bem diferente de um filme. Afinal, meu revólver estava com Thalya. Certamente que eu confiava no meu Kung Fu, mas se algo desse errado minha vida estava nas mãos dela.

“Ora, quanta besteira!”, pensei num relance. E me lembrei do meu refrão, “lutar até a morte”. Mas bem que a morte podia ficar para depois.

Não trocamos palavra alguma, eu e ele. Bem aquecidos, nós nos encaramos olho no olho e eu me coloquei em guarda bem fechada. Sabia que qualquer descuido poderia me custar caro. “Sem regras” — eu me lembrava bem. Campeonato tem regras, Academia também. Com a Gangue o poder vinha do bando. E quando eu me exaltava sozinho a ira era tão grande que eu não media mais conseqüências. Mas ali a sensação era atípica.

Ele avançou contra mim com o ímpeto de quem aguardou muito por aquele momento e o chute foi direto para a região genital. Me defendi com uma afastada rápida do corpo. Não sei que espécie de destino ou força guiava minha vida nesta ocasião, ou se foi mero acaso. Mas tudo se resolveu de modo inesperado.

Ele era grande e forte, maior do que eu, no entanto o chão molhado fez com que ele escorregasse ao vir com tanta “sede” já no primeiro golpe. A perna dele deslizou para a frente e, naquela escorregada, ele abriu os braços instintivamente durante uma fração de segundos. Minha visão deu de súbito com a região das costelas desguarnecida. Foi num piscar de olhos, quase tão rápido quanto o meu pensamento:

— É agora!

Entrei violentamente com um chute bem ali, do lado esquerdo, com toda a força que eu tinha. Senti a perna entrando fundo, um som horrível e muito audível se fez escutar: “CLOSH!”. Ele caiu e não levanto. Eu ia bater mais, no rosto dele, mas algo me fez esperar. Eu não estava possesso de raiva. Olhei melhor: ele todo era uma expressão aguda de dor.

Thalya apareceu correndo, nervosa:

— Eu atiro?! Atiro?!!

Nem respondi, mas cutuquei-o:

— Chega de fingir, vamos levantar!

Mas ele não conseguia pronunciar uma palavra, quanto mais se levantar. Só se contorcia no chão, o rosto cheio de agonia. E logo parecia não conseguir respirar direito. Vi que era sério e me abaixei:

— Pô. Fica calmo! — Procurei levantar-lhe a camisa. Ao fazê-lo dei de cara com a base do tórax literalmente afundada, tinha ficado uma reentrância bem visível aonde as costelas foram esmagadas.

— Meu Deus...e agora?! — Perguntou Thalya.

— Vamos levá-lo para o hospital! — Respondi. E para ele: —Você consegue andar?

Ele não conseguia mesmo falar nada, só gemia baixinho, a dificuldade respiratória visivelmente piorando. Eu o ergui como deu, ajudei-o a se apoiar em mim, Thalya também fez o que pode. Logo na saída do Parque um policial nos viu e ajudou. Enfiamos o rapaz no carro e voamos para o Hospital das Clínicas, o mais próximo. Lá nós o colocamos numa maca e demos entrada no Pronto-Socorro.

Só depois disso é que fomos embora. Aí foi só motivo de comemoração. Esqueci completamente de Camila, só dei as caras lá pelas duas da tarde. Thalya ainda tinha pedido:

— Pôxa, fica aqui, está tão legal! O que você vai cheirar lá? E se você estivesse mesmo aleijado? Ela nem ia querer olhar para a tua cara!

Mas fui. Estavam todos me esperando para almoçar.

E Camila estava emburrada por causa do atraso. Mas eu já estava deixando de ligar muito para o que Camila pensasse ou deixasse de pensar.

 

Entrei de manhã cedinho na sala de aula. Eu havia cabulado aulas demais na última semana, e apesar de Camila ter assinado a presença no meu lugar era preciso dar as caras pelo menos nas aulas práticas.

Aprender a matéria não era o problema, bastava uma boa lida com atenção no material e fixava tudo. Minhas notas estavam razoáveis a julgar pelo número de vezes em que aparecia na escola.

Cheguei cedo, antes da Camila, e fiquei batendo papo com a turma. Até que entrou o César, um tipo folgado que havia sido transferido de outra escola há alguns meses e que vinha abusando. Mexia com todo mundo! Vivia exibindo a altura e os músculos, todo metido a halterofilista. Pelo visto estava acostumado a deitar e rolar em cima dos outros. E sempre ficava tudo por isso mesmo, o tamanho dele impunha lá o seu respeito: era bastante forte, encorpado, beirando seus 1,90 m de altura.

Comigo também ele abusava um pouco, vez por outra vinha com pequenas provocações. Deixei passar. Não valia a pena sujar a mão com aquele trouxa.

— E aí, tudo em cima? — Fez ele dando tapas nas nossas costas. — E aí? — Ele aproveitou para me dar uma palmada pesada no cangote e acrescentar, meio debochado: — Sabe de uma coisa? Eu acho que você devia cortar esse seu cabelo!

Ele ia me encostando a mão de novo mas me esquivei sem dar resposta. Eu nem sequer lhe dirigia a palavra. Mas já estava começando a me dar nos nervos. Ele vinha cada vez mais confiante para o meu lado e começou a passar dos limites do aceitável. Na cabeça dele acho que rolava a história de sempre, isto é, que talvez eu o temesse fisicamente.

E o César parece que decidiu que ia mesmo me tirar do sério!

Colocava os pés na minha carteira e sujava minha roupa de propósito, jogava a fumaça do cigarro na minha cara, me provocava verbalmente, bobeiras assim. Ah, minha índole não combinava com esse tipo de coisa!... Mas era a primeira vez que eu estudava em colégio particular desde a minha infância. E, prá dizer a verdade, estava gostando do curso de Administração. E tinha intenção de receber meu diploma de Química.

Não queria arrumar confusão e acabar sendo expulso. Sempre fui “oito ou oitenta”, meio termo para mim não existia, não havia ponderação. Eu sabia que se perdesse a cabeça a coisa ia ficar feia de verdade. Por conta disso fui deixando, fui deixando, fui deixando.

A Camila incentivava :

— Larga mão, ele é um bobão !

Comentei com o pessoal da ADINK, casualmente, uma noite:

— Tem um (...) no meu colégio que não dá trégua!!! Acho que eu vou ter que arrebentar com ele.

— Olha, toma cuidado, cara! Pode dar confusão, você sabe, heim? — Falaram meus companheiros.

De fato eu sabia. Se usasse a Arte para agredir alguém e a história chegasse aos ouvidos dos Mestres da Academia aquilo poderia resultar em expulsão por ato indisciplinar. Além da perda do meu recém-conquistado Registro na Federação. Estava encurralado: ser expulso da ADINK.. ou ser expulso do colégio???

— Vou tentar... — Respondi bufando. — Tentar exercer os princípios da Arte Marcial, vencer a mim mesmo, dominar as emoções...

Eu ainda não estava convencido, mas recitei: — “Forte é o Homem que vence sem lutar, mesmo que possua o poder de vencer lutando”.

Como eu gostaria de poder acreditar naquilo! Era poesia demais. Procurei me controlar, mas minha paciência estava por um fio.

Até que um dia o César realmente passou dos limites. Eu estava de costas conversando quando ele me pegou pelos fundos da calça e me ergueu do chão mais ou menos um meio metro, como se eu fosse um bonequinho que ele usasse para fazer musculação! Aquilo foi muito engraçado para os outros mas eu fiquei furioso. O sangue me subiu à cabeça imediatamente.

— Bom... — Meu rosto afogueado estava para poucos amigos. — Não tem jeito mesmo, né, seu palhaço? Você quer brigar comigo a todo custo!!! Então vamos acabar logo com esta lenga, vai! Vamos para o estacionamento já. Ali ninguém vai separar a gente. — E ameacei entre dentes, um pouco mais alto: — Vou te quebrar inteiro!!!

— Corta essa, baixinho! Você acha que pode comigo? Não se enxerga, não? — Respondeu o César com ar caçoísta.

— Vamos lá já! Você não é homem?! Vamos lá agora, seu (...), que eu vou acabar com a tua raça.

O pessoal que estava na classe só ficou olhando. No íntimo todos tinham raiva dele. Ninguém tentou impedir. Não sabiam nada sobre a minha vida pessoal, e muito menos sobre o Kung Fu.

— Então vamos, baixinho, vamos resolver essa parada! — O César foi saindo da classe com ar cínico, achando tudo ridículo.

Perto dele acho que eu era mesmo baixinho. Como se isso fosse problema!!! Bruce Lee também era baixinho! E eu era muito mais alto do que o Bruce Lee.

Tudo à minha volta deixou de fazer sentido. Eu não queria mais saber de coisa alguma a não ser brigar. Tinha atingido o ponto sem retorno. Já não enxergava ninguém, não via mais nada, só deixava aflorar em borbotões aquele sentimento que eu já conhecia: ódio! Um único pensamento dominava a minha mente. Acabar com ele. Nada mais poderia me demover.

Bem que a Camila tentou:

— Eduardo, não vai! Prá quê isso? Você vai se machucar!

Não a deixei continuar:

— Não se mete que vai sobrar para você também! — Respondi segurando-a com firmeza pelo braço, falando com ira, soltando faíscas pelos olhos. — Eu não te impeço de ser mulher, não venha me impedir de ser homem.

Camila emudeceu na mesma hora. Assustada, só veio atrás de nós junto com o restante das pessoas que estavam na classe. Durante o breve caminho até o estacionamento eu grudei no César e “abri o dicionário”: xinguei, provoquei, “elogiei” a mãe dele. Diante da afronta vi que ele começava a se irar, contava os segundos para por as mãos em mim.

Nem bem chegamos no estacionamento, eu sabia que tinha que definir logo o impasse. Não queria perder um segundo, temendo que alguém surgisse e acabasse com a confusão antes de eu acabar com ele. As pessoas formaram uma rodinha. Eu só estava com o Nunchaku. Evitava vir armado (com o revólver) no colégio por puro receio de perder a cabeça e acabar fazendo uma loucura.

Saquei o Nunchaku e o manejei violentamente próximo da cara do César. A arma produzia um zunido constante ao cortar o ar à minha volta e a precisão dos golpes era impressionante. Apesar de irritado ele perdeu um pouco da rompança diante da minha atitude tão confiante. Mas tentou manter a linha:

— Você é que é covarde, vem com esse troço para cima de mim !

Joguei o Nunchaku no chão com fúria.

— Você se engana. Não preciso disso para brigar com você! — Olhei fundo nos olhos dele, muito próximo. Parecia que podia sentir o gosto de veneno na boca.

— Três segundos. — Afirmei. — Três segundos e você está no chão.

O silêncio era total. Esperei que ele atacasse primeiro. Foi a única chance que lhe dei de me acertar.

Não muito decidido, César avançou e me deu um empurrão.

Molenga! Foi a conta. Entrei com tudo na base das costelas. Eu adorava acertar aquele ponto! Senti a mão afundando e escutei o som seco já conhecido, um “Crock!”. Mas parece que minha mão entrou bem além do que esperava. Uma vez dado o primeiro golpe eu já não podia mais parar. Perdia o controle. Virava uma máquina de bater.

E a ferocidade tomou conta de mim novamente. Quando ele se inclinou, gritando de dor, foi uma sucessão instintiva de golpes. Continuei socando, chutando, o sangue voava espirrando da boca dele, do nariz, das sobrancelhas. Até eu estava sujo, com as mãos e as roupas respingadas. Foi questão de segundos. Rápido demais até para mim. Tão rápido que nem deu para afogar aquela ira toda.

De repente um dos rapazes da turma saiu do estado letárgico e me puxou para trás com força :

— Pára, pára, pára! — Berrava ele. — Você matou o cara, Eduardo!!!

Olhei para o César ali caído e tive a impressão de que realmente ele não estava respirando. Nem se mexia. Nessa hora veio o desespero, não porque ele estivesse morto mas porque os outros tinham visto!

“Matei o cara, e ainda na frente de todo mundo. Que show, meu Deus do céu!”

Alguém falou:

— Foge, Edú, acho que você matou ele!

Estavam todos mudos e atônitos, ninguém sabia o que fazer para socorrer o César. Se é que ainda dava para fazer alguma coisa. Eu não quis saber. Correndo feito louco saí da escola e entrei no primeiro ônibus que passou. Em casa fiz uma mochila em um minuto e sumi. Não podia ficar na minha casa, tinha que fugir do flagrante.

Acabei indo para a casa do Éder.

— Éder! — Eu ainda estava um pouco nervoso. — Acho que eu matei um cara na escola, preciso ficar aqui uns dias, brother!

Ele me apoiou sem problemas. Estava mesmo sempre sozinho em casa. O ambiente estava até aconchegante: ele estava escutando um disco da hora bem alto, viajando num baseado maneiro, e com um copo de “San Raphael” ao lado.

— Bom... — Começou ele. — Ficar nervoso agora não vai ressuscitar o cara, é ou não é ? Então,” relax”...! Bebe aí...fuma...viaja no som...

De fato, era a única coisa a fazer. Então... aceitei! Bebi, fumei e viajei no som...

 

Mais tarde liguei para Camila para ver se ela sabia de alguma coisa. Sem posição concreta, o único dado era que ele tinha sido levado às pressas para o hospital. Se estava morto ou não, era uma incógnita.

— Vou ficar sumido uns dias, deixar o negócio esfriar. Anota aí meu telefone. Só você que sabe, heim?! Dedou prá alguém, se queimou! Se a Polícia baixar aqui você vai se arrepender do dia em que nasceu.

Pelo telefone ela tentou me acalmar:

— Tudo bem! Fica frio! Eu não vou falar nada disso. Te cuida que eu passo notícia.

No dia seguinte à noite ela conseguiu se comunicar comigo:

— Olha, ele está internado mas não morreu, graças a Deus! Acho que é melhor você aparecer logo no colégio para ver no que vai dar. Aqui só se fala nisso! Você vai ter que vir mesmo, cedo ou tarde, estão é melhor não deixar passar mais tempo.

— OK!

Voltei primeiro para casa.

— E aí, mãe? Tudo bem?...

— Tudo bem. Aonde é que o senhor andou?

— Ah, por aí, estava na casa de um amigo meu e esqueci de avisar. Desculpa, heim?!

— Vê se não esquece mais. Todo mundo fica preocupado sem saber se você morreu ou se está vivo.

— Alguém me procurou? — Procurei fazer da pergunta a coisa mais corriqueira do mundo. Mas, na verdade, queria saber: “O camburão passou por aí?”.

— Não, ninguém procurou. — Respondeu ela.

— Alguma carta? — Continuei, no mesmo tom, abrindo a geladeira. E para mim mesmo: “Alguma intimação, quem sabe?”.

— Não, não veio carta prá você!

Fiquei feliz, pensando:

— Bom... beleza, então! Acho que não foi nada grave afinal de contas. Foi só um susto mesmo!

E no dia seguinte apareci na escola.

Cheguei meio atrasado, abri a porta da classe e senti todo mundo olhando para mim em meio a um súbito burburinho:

— Você não pode entrar agora. — Disse-me secamente o Professor.

Achei que era só a questão do atraso.

— Tudo bem, na próxima aula pode? — Era uma dobradinha com o mesmo Professor.

— Qual é o seu nome?

— Eduardo.

Ele olhou a lista de chamada e seu semblante mudou consideravelmente.

— Estamos com um problema... me parece que você não pode mais freqüentar as aulas nesta escola. Há uma ordem aqui, que você fosse encaminhado à diretoria tão logo retornasse.

Eu fui. A diretora tinha o péssimo hábito de falar “mole”. Mas nesse dia ela estava falando bem rápido e isso significava que estava brava de verdade! Nem bem entrei, ela encarou-me friamente e perguntou: — Escute, menino, você tem consciência do que você fez?

— Mas o que que eu fiz?

— O quê o senhor fez??? Você quase matou o seu colega de classe!!!! Esse tipo de comportamento nós não vamos admitir! Esta é uma escola idônea! Nós zelamos pelos nossos alunos e não vamos permitir marginais, vândalos aqui dentro. E fique sabendo de uma coisa: o senhor está expulso! EXPULSO!!! Pode pedir para os seus pais virem aqui aceitar o seu mês porque você não é mais aluno desta escola. E pode retirar-se já da minha sala!

— Mas, peraí! — Reclamei, já irritado. Minha vontade era bater nela também. — Mas o que aconteceu com ele?

— O senhor quer saber o que aconteceu? Pois mande os seus pais virem conversar comigo.

Tentei insistir mas ela não quis saber. Que vontade de afundar a cara dela!!!

E em casa... como explicar o ocorrido? Fui para a cozinha onde minha mãe coava café.

— Mãe. — Comecei. — Tenho uma coisa para te contar.

Sempre que eu começava naquele tom minha mãe já me olhava com ar atarantado. Em segundos ela pensou em tudo, a julgar pela expressão do seu rosto encarando o meu.

— O que foi agora, Eduardo?!!

— Bom., sabe a escola?

— Sei, sei! O que foi?

— É que eles não querem mais que eu estude lá!

Ela ficou de cabelo em pé.

— Mas por quê? Por que isso? Que discriminação é esta? —Ela já pensou que era por causa da minha aparência. — A mensalidade está paga, não está? Tudo certo! Por que estão fazendo isso com você???!!

— É! — Resolvi contar logo tudo ao meu modo. — É que um cara me provocou... e então eu bati nele, sabe? Agora não querem mais que eu estude lá! Mas, pôxa, foi legítima defesa, eu só me defendi!

Ela ficou me olhando.

— Mas que coisa!

Coitada, ela acreditava na lorota que fosse. Eu podia dizer que tinha sido seqüestrado por um OVNI e passado uma semana em outro planeta, e tudo bem.

— Pois então! — Me empolguei porque ela não estava contra mim. — O cara é o maior bandido, o maior marginal, e veio folgar comigo. E, olha! Eu não quis brigar, eu não queria, verdade! Mas ele veio prá cima e eu tive que me defender. Mas não bati muito...e agora todo esse rebú! — Quando vi já tinha mentido. Fazer o quê?

E lá foram meus pais para o colégio. E ficaram sabendo da história “à lá diretora”.

Eu fui junto mas não me deixaram entrar para ouvir a conversa. Quando meus pais voltaram eles estavam... bem, vamos poupar adjetivos! Estavam um pouquinho “bravos”.

— Vamos logo para casal — Vociferou o meu pai.

No caminho achei melhor ficar quieto até que alguém se manifestasse. A cara deles estava indescritível. Só bufavam o caminho inteiro, às vezes olhavam para mim pelo espelhinho retrovisor. Finalmente meu pai acabou dando o relatório.

O César ainda estava internado. Ele acabou ficando mais de uma semana no hospital. Tinha sido operado. Teve as duas últimas costelas direitas fraturadas e isso causou um problema sério, um hemotórax (derrame de sangue na membrana que recobre o pulmão). Fraturou também o braço, o nariz, os dentes da frente. Precisou levar muitos pontos, inclusive na parte interna da boca.

Fora o trivial: muitos cortes, escoriações, hematomas no rosto e na cabeça. Esteticamente falando, o rosto foi o pior!

— Você quase matou o rapaz, me disseram que encheu o pulmão dele de sangue. Eu não sei para que precisava tudo isso! —Falou o meu pai. E o sermão, para variar, foi por aí afora.

Por fim, ele disse que havia feito um acordo para que eu não fosse expulso. Nós pagaríamos todas as despesas hospitalares, os remédios e o tratamento do César. E eu seria apenas suspenso por uma semana. Isso evitaria que eu perdesse o curso.

Como os pais dele concordaram, o negócio foi abafado. Ninguém deu queixa e eu escapei do pior. Mas a minha sorte maior foi o episódio não ter chegado aos ouvidos dos meus Mestres de Kung Fu. Ficou mais do que evidente para todos que eu me utilizara de alguma Arte Marcial. Aquilo foi questionado, mas usei de evasivas e nem sequer toquei no nome “Kung Fu”. Deixaram quieto. Fazia parte do acordo.

Quando voltei da suspensão o César ainda não estava em condições de vir à escola. Ele só deu as caras quase um mês depois da briga.

Certa manhã, quando cheguei, ele estava lá. Mas tão cabisbaixo, tão quietinho, parecia um cachorrinho depois da surra. Tinha perdido completamente a pose. Sentado sozinho, engessado, o rosto ainda meio inchado, ele não falava com ninguém. Fiquei com dó. Eu já estava meio arrependido do que tinha feito.

“Pôxa... coitado! Olha só o estado dele. Tá tão murcho... nem mexeu com ninguém!”

Resolvi tentar uma aproximação. Nem me preocupei muito com o que o pessoal ia pensar. Durante o decorrer da manhã acabei indo sentar perto dele. E desembuchei:

— Olhe, cara, não leva a mal. Eu não queria fazer isso tudo com você. Mas você me provocou e eu perdi a cabeça. Me desculpa aí, heim? Eu sei que desculpa agora não resolve, mas...

Ele nem me olhava. Mudei de assunto:

— Bom, como você não pode escrever, deixa que eu te arrumo a matéria, falou?

E realmente eu me esmerei, tirei xérox dos melhores cadernos, arrumei tudo o que era preciso. Mas nada dele abrir a boca para falar comigo. Insisti durante alguns dias, puxei conversa perguntando como ele estava indo de saúde, ofereci meu lanche. E nada! O César continuava mudo.

Passaram as provas finais do meio do ano, vieram os exames de recuperação. Eu havia perdido algumas provas por causa da suspensão e tinha exames para fazer. O César também tinha se prejudicado muito e ia ter que fazer quase todos os exames.

Durante esse período eu continuei a cumprimentá-lo e procurava ser afável, embora nunca recebesse resposta. Até que um dia ele finalmente saiu do ostracismo e fez a pergunta:

— Escuta... — Ele parecia estranhamente intrigado. Queria e não queria falar — Mas o quê é que você faz?

— Mas faço o quê?! — Não entendi. A pergunta só tinha lógica para ele.

Ele foi muito sincero.

— A sensação que tenho... — César procurava as melhores palavras. — A sensação é que eu fui atropelado. Não me parece uma coisa normal... o que é que você fez?!...

— Ah... — Fiquei até meio constrangido. — É que eu pratico Kung Fu.

E comecei a falar um pouco da Arte Marcial, das aulas, da filosofia.

— Eu dei um péssimo exemplo para você. Fiz tudo o que não devia ter feito, a doutrina do Kung Fu não é essa! Não devo usar o que sei para agredir assim... o Kung Fu tem por base a disciplina, o domínio próprio, a honra, a paz. Olha, não leva a mal, eu fui mesmo um péssimo exemplo!

Depois disso, devagarzinho o gelo foi quebrando. Passamos a conversar um pouquinho aqui, um pouquinho ali.

E ele parou de mexer com os alunos, aprendeu pelo pior caminho que era melhor ficar na dele. Mas volta e meia me enchia de perguntas sobre o Kung Fu.

Um dia acabei por convidá-lo para assistir uma de minhas aulas. Nessa altura ele já sabia que eu era Professor. Para encerrar: acabou por tornar-se meu aluno. Concedi-lhe bolsa integral no curso, ele não precisou pagar um tostão. Pena que não tivesse mesmo o menor jeito para a coisa. Era muito grandalhão e desajeitado. Só servia mesmo para desfilar do alto da sua altura e exibir a musculatura perfeita. Briga que era bom... nem pensar! Ficou alguns meses e acabou desistindo.

E o trágico episódio da escola acabou caindo praticamente no esquecimento. Ficamos até que meio amigos. E ainda que César não demonstrasse claramente passou a ter uma admiração meio dissimulada por mim.

 

Eu já não agüentava guardar aquilo só para mim. Resolvi contar para Thalya, afinal, quem mais???

— Escuta... — Comecei. — Tenho um negócio tremendo para te contar!

— O quê, Edú?

Tirei da mochila um monte de envelopes iguais, cartas que eu vinha recebendo havia alguns meses. Estendi uma delas com orgulho:

— Olha só para isso aqui, tá vendo o carimbo?

— São Francisco? Califórnia?! Pôxa, quem você conhece que mora lá, heim?

— Por enquanto ainda não conheço ninguém... — Abri um dos envelopes cor de creme. Tirei de dentro o conteúdo e questionei:

Você já viu este logotipo em algum lugar?

Thalya tomou nas mãos a folha de papel amarela, grossa, que mais parecia uma espécie de “papiro”.

— Que bonitas estas letras! Parece uma escrita gótica, né?

— Mas e o logotipo, você conhece?

— Caramba! Isso aí representa um bode, eu vi em algum lugar... não é um símbolo de Magia Negra?

O Pentagrama estava bem desenhado no alto da página, em vermelho vivo, grande.

— É, é isso aí mesmo! Reparou bem no destinatário das cartas?!

— São todas para você, já vi. O que que é isso, Edú? Puxa, são mesmo bonitas estas letras! — Ela começou a ler o texto.

Esperei que terminasse.

— E então, o que você acha?

— Gostaria de saber aonde é que você arranjou isso!

— É uma história meio comprida, não contei para ninguém.

Thalya limitava-se a me olhar, esperando pelo que viria.

— Bom... durante as últimas férias, um pouco antes da gente se reencontrar na escola, eu tive muito tempo para estar na Biblioteca. Fazia tempo que não dava um role por lá, estava com um monte de coisas acumuladas que queria ler. Um dia, lá no Centro Cultural, descobri uma coleção de enciclopédias, umas doze...e comecei a dar uma olhada em vários assuntos que me interessavam. Foi aí que eu descobri um artigo da hora. Olha, eu nem sabia que esse negócio existia!

Ela só escutava.

— Era um artigo que falava de uma tal de “Church Satan”, uma espécie de igreja que cultua o diabo, ou coisa que o valha. O artigo não explicava muito, era vago, mas apresentava o atual líder mundial da associação e contava um pouco sobre as origens dela. Ah, tinha também uma lista com os nove princípios dessa tal de “Church”. Me chamaram muito a atenção... dá prá imaginar que possa haver algo como isso?!! Só que terminava por aí, não tinha mais nada para ler, nada que me acrescentasse outras informações. A não ser a localização da igreja.

— São Francisco, Califórnia!

— É. Mas não tinha o endereço mesmo. Fiquei curioso e louco para descobrir no que pensa essa gente. Afinal, nós já vimos de tudo um pouco por aí, né? Não ia fazer mal conhecer um pouco mais. Então lembrei que talvez fosse possível descobrir alguma coisa no Consulado dos Estados Unidos. E foi o que eu fiz, no dia seguinte mesmo. Bem cedinho, pintei por lá.

Lembrei-me com um sorriso do rosto e da reação das moças na recepção. Fui obrigado a deixar quase tudo o que eu trouxera com o segurança porque minha mochila estava cheia de coisas impróprias para o lugar: nunchaku, faca, canivete, corrente, estilingue. Só pude entrar com o caderno e os livros que trazia. Mas fui bem tratado e atendido na minha solicitação. Apesar de acharem o meu pedido muito estranho.”Igreja satânica, é?...”, me perguntou a mulher. E fez uma cara! Foi até engraçado!

— Mas acabei conseguindo o endereço através dos microfilmes das listas telefônicas. Levou alguns dias, eles até já estavam se acostumando comigo. Mas achei! De repente dei de cara com o logotipo e copiei o endereço. Daí foi só escrever perguntando mais sobre o assunto.

Thalya estava espantada:

— E eles te responderam! Que barato!!! — Tornou a pegar o papel. — Isso aqui são os tais dos nove princípios que você falou, pelo que parece, não?

— São, sim! Vieram na primeira carta. Olha aqui!

— Mas está em inglês!

— Para você pode não ser problema, mas eu tive dificuldade em traduzir sozinho. Quando chegou a primeira fiquei tão fora de mim, tão eufórico que esqueci completamente do último ensaio geral para uma apresentação importantíssima! Quase fui comido vivo pelo meu Mestre e expulso do Academia! — Recordei. — Ele quase que só faltou me bater de verdade.

Thalya dava risada.

— Caramba, prá você esquecer do Kung Fu sinal que o negócio mexeu mesmo com a tua cabeça!

— E não é prá mexer?!! Mas o mais incrível é que eu pedi que me escrevessem em português e eles escreveram! Logo na segunda carta já veio direitinho!!!

Thalya começou a xeretar em tudo enquanto eu explicava em poucas palavras o conteúdo das diversas cartas.

— Pelo que me pareceu, não são propriamente uma “igreja” mas uma Sociedade que, como eles mesmos dizem, estuda o Oculto. É fascinante, faz a gente pensar. Por exemplo, religião quer dizer “re-ligar”, certo? O objetivo das religiões é religar o homem com Deus, mas se é preciso religar é porque houve o afastamento. Eles sempre fazem muitas perguntas. Depois que falaram de diversas religiões me perguntaram se eu achava que o mundo podia existir sem a religião.

— E o que você respondeu?

— Bom, eu disse que não. Que o ser humano tem essa necessidade. De ter algo em que crer. A resposta deles foi diferente: “Quem foi que disse que o homem tem que ter religião?”. Todas as religiões tentam alcançar Deus por meio de muitos rituais, sacrifícios, penitências... será que não haveria um deus que sempre esteve conosco, que nunca nos abandonou... e portanto não há necessidade de “religar”? Simplesmente pelo fato de que não houve afastamento?

Thalya ficou pensando:

— Mas será que existe esse deus?

— É! — Eu estava empolgado. — Alguém que esteve e está perto, sempre esteve, alguém para quem não seja necessário oferecer jejuns, nem seguir o caminho das torturas ou das penitências. Nem passar horas, dias inteiros em meditações intermináveis ou fazendo “boas obras”; ou peregrinações à Meca. Compreende?!

Ela fazia que sim com a cabeça, escutando.

— Isso é diferente de tudo o que eu já ouvi. Para se aproximar de Deus tem sempre que fazer alguma coisa, eu acho...

— Eles fizeram uma analogia muito interessante na última carta. Disseram que a nossa sombra está sempre conosco, em to

dos os lugares, mesmo que a gente nem se dê conta dela. Só que ela é escura por natureza. Mas, mesmo assim, sempre está perto, nunca sai de perto.

— A não ser no escuro! No escuro não tem sombra.

— Não é bem assim, você sabe que o escuro não é um escuro absoluto, existe a luz infravermelha que nós não enxergamos mas que está lá, no escuro. Portanto a nossa sombra também está presente no escuro.

— Hummm...acho que entendo o que eles querem dizer.

— Em suma, existe um outro deus, um deus “oculto”, pouco conhecido na sua essência. Que nunca deixou de estar do nosso lado e, portanto, não existe necessidade da chamada “religião” para chegarmos até ele. Chegamos a ele de alguma outra maneira...

Parei para pensar um pouco. — Que maneira será essa? Você já ouviu falar em contato espiritual sem entrar com religião no meio?! É estranho e diferente, né?

— Concordo...

— Só que tem uma coisinha, que foi deixado bem claro logo na primeira carta: Satanismo não é para todos. É apenas para os escolhidos, para os que vão saber receber, compreender e dar valor.

— E você foi escolhido?

— Sei lá! Por enquanto eles têm me mandado as cartas, feito montes de perguntas que gasto muito tempo pensando nas respostas. Eles apresentam alguns pontos de vista diferentes, coisas que a gente não escuta por aí todo dia mas que, no fundo, acho que eu entendo.

Mas como assim?

— Ah... difícil explicar. Acho que tenho que te apresentar para o meu vampirinho!

— Que vampirinho?!!

— Um personagem de história em quadrinhos que criei há muito tempo. — Parei um pouco, com a mão no queixo. — Você já parou para pensar... que pode ser que o Mal não seja tão mal assim... e o Bem, não tão bom assim? É por aí, sabe? Como o meu vampirinho. É uma questão de essência, de natureza. Acho que é mais ou menos isso o que eles querem me dizer. Talvez seja só uma questão de referencial!

 

O “Mingau” foi rolando.

O “Mingau” era a domingueira do clube Palmares, uma espécie de baile aonde tudo podia acontecer. Eu costumava ir às vezes com a turma, mas raro foi o “Mingau” que terminou sem Pau. E naquele dia não ia terminar mesmo! Eu estava ali com cinqüenta caras da “29” e da “Rifânia” prá um acerto de contas muito sério. O rolo tinha sido armado por minha causa, mas a turma adversária tinha folgado primeiro e com muita covardia.

Ficamos sabendo que eles costumavam estar no “Mingau” e marcamos a desforra surpresa para aquele domingo. Enquanto não acertasse as contas era capaz de nem dormir!

Eu perambulava por ali, no salão de dança enorme, bebendo moderadamente com meus amigos. Todos tínhamos que estar sóbrios! Rodamos um pouco e não encontramos ninguém. Mas eles iam aparecer! Fomos aproveitando e só aguardando. Estava lotado!

À certa altura saí do salão e dei de cara com o bando todo! Eles estavam logo ali, perto da lanchonete, sentados em duas mesas juntas, bebendo. Fui que nem bala na direção deles, já sentindo o gosto do ódio na boca. Parei ao lado da mesa, apoiando as mãos sobre ela:

— Oi.

— Ah! — Fez um deles. — É você, seu palhaço?! Você escapou aquele dia mas hoje vai morrer!

— É? Tá bom! Vocês, pelo visto, vão ficar aqui mais um pouco, né?

Voltei para o salão. Era muito fácil arrebanhar o pessoal. Bastava um toque no ombro do primeiro acompanhado de um “tá na hora”. Quem recebia o aviso passava adiante e em poucos minutos o comando se espalhava. Todo mundo largava imediatamente o que estivesse fazendo.

Fomos chegando, cercando, e quando eles acordaram já era tarde! Armamos uma roda em volta deles. Estavam encurralados no meio que nem ratos. Eu me adiantei e dei o comando:

— São estes os caras.

O Éder ainda vociferou:

— Vocês são covardes demais!

— Vocês estão é falando muito... — Cuspiu o Márcio. —

A gente não veio aqui prá conversar.

E POFT! Enfiou o primeiro soco na cara de um deles. Foi a conta e o negócio ferveu! Um confronto de pelo menos setenta rapazes lutando pela honra não é bonito de se ver. Sobrou facada, garrafada, cadeirada. Uma delas quase me pegou em cheio na cabeça, foi por pouco! Até tiro alguém disparou. Em segundos tudo estava destruído, as mesas e as cadeiras pelo chão, uma sujeira enorme de comida, garrafas quebradas e sangue. A maioria fugiu completamente espavorida. Os que não puderam andar ficaram ali mesmo, jogados no chão. Nós dispersamos rapidamente para o salão.

Mas pintou sujeira logo. A mulher da lanchonete, que assistira à tudo de camarote, veio acompanhada dos seguranças e com o dedo em riste:

— Eu vi quem foi! — Berrava, histérica, trêmula. — Foi este, e este, e este, e aquele, aquele , aquele! — Ia apontando em meio às lágrimas.

Alguns realmente ela pegou. E para os seguranças era o que importava. Dentre eles eu mesmo, junto com o Éder, o Tistu, o Cebola, e mais alguns da “Rifânia”, o Miçuka, o Gerson e o Pantera. Era o que eles queriam, alguns bodes expiatórios.

Fomos pegos pelo cangote com maus modos. Decididamente eles sabiam como apertar um pescoço, ao menor movimento a dor era aguda. Levaram-nos que nem galinha para fora do salão!

Fomos para uma salinha bem afastada do barulhão do baile. Eles deram uma boa intimidada na gente, uns tapas, uns pontapés, uns palavrões e muitas ameaças.

— Vocês são todos marginais! Daqui vão é para o Juizado de Menores!

Mas acho que só eu ainda era menor.

— Os outros vão é prá jaula mesmo!

Acho que essa foi a minha sorte. Fui o primeiro a ser liberado. Mas o resto dos meus amigos apanhou bastante. Eles não batiam para deixar marca só que levou um bom pedaço até eles conseguirem sair de lá. Foi o divertimento da noite dos tais seguranças porque, afinal, eles nem chamaram a polícia. Ficou só na ameaça.

E era sempre assim, por isso o “Mingau” era um baile tão perigoso. Por mais que se aprontasse ali nunca acontecia nada. Nós causamos um estrago muito grande naquela noite, tanto para o patrimônio do clube como para os rapazes agredidos. Só que ficou por isso mesmo.

Com a turma rival estávamos vingados. Mas a tal da mulher dedo-duro da lanchonete... ela ficou engastalhada na goela de todo mundo. Não fosse por causa da linguaruda, ninguém teria sido pego. De sorte que a rixa agora era com ela.

Nós já não conhecíamos limite ou bom senso. Deixamos passar duas semanas para o negócio esfriar e depois fizemos uma campana durante alguns dias. Nós a seguimos e descobrimos aonde morava, observamos um pouco o movimento da casa, quantas pessoas moravam com ela, essas coisas. Depois, pela lista de endereços, levantamos o número do telefone e o distribuímos dentro da “29” e da “Rifânia”! O número dela foi parar na mão de muita gente! Aí começamos a apavorá-la dia e noite pelo telefone!

E então, começou a depredação da casa.

Na primeira vez passamos de madrugada, de carro. Viemos na maciota, com os faróis apagados, em silêncio. A um sinal fuzilamos a casa e o carro dela, descarregamos as armas arrebentando com portas, janelas, vidros, tudo. Em segundos. Se tivesse alguém na sala teria morrido.

Os telefonemas continuaram por mais alguns dias ininterruptamente. Xingamos e continuamos ameaçando: “Você vai morrer!”.

Então deixamos passar um mês em silêncio. Quando deviam estar pensando que o negócio tinha acabado, aprontamos de novo. Passamos por lá jogando bombas caseiras na casa e no jardim, diversas vezes. Outra ocasião trancamos a família dentro de casa, soldando o cadeado com durepox.

E o telefone continuava a tocar, mantendo a guerra psicológica. A “brincadeira” durou quase um ano! Toda a despesa que ela teve com os danos na casa e no carro foram considerados suficientes. Isso é o que se chama “comer a vingança fria”.

Esta história de depredação de casas era antiga, um tipo de desforra muito usado pela turma da Gangue. Se soubéssemos aonde moravam nossos inimigos o ataque vinha tão certo como a noite após o dia. Claro que o tamanho e o tipo de vingança dependia também do tamanho da afronta.

Podiam simplesmente ser as duas senhoras que moravam sozinhas e que se implicavam com o nosso barulho na rua; podia ser o homem mal educado que odiava nos ver fumando maconha na esquina da sua casa; podia ser a família de algum rival da Gangue; ou podia ser aquela mulher imbecil que ousara nos acusar. A depredação podia vir na forma de bombas de cocô, chuva de ovos, tiros no carro ou na casa.

E não havia para quem se queixar. Alguns, é verdade, a polícia pegava de vez em quando. Levavam uns cacetes e podiam até puxar uma cana por um tempo. Mas o resto da Gangue continuava solta e os companheiros traídos eram vingados. Isso queria dizer que a situação passava de mal a pior para quem dedurasse. O que fazer???... As cadeias já estavam abarrotadas de coisas bem mais graves! E o pessoal logo estava na rua de novo. Era uma batalha perdida!

Por causa disso nossa marginalidade não conhecia limites, pelo contrário. A constante impunidade nos incentivava ainda mais. Já não roubávamos mais amendoins, quitandas ou pessoas de bem no ponto de ônibus. Passamos a roubar de tudo, cada vez mais. Agora a nova onda eram os carros. Alguns de nós tinham mesmo a manha, abriam qualquer porta, ligavam o motor rapidinho. Às vezes roubávamos o carro só para passear uma noite, e depois o largávamos. Outras vezes ia para o desmanche. Os postos de gasolina também rendiam muita grana, se desse sorte. Toca-fitas de carros vinham que nem água, um atrás do outro. Era muito fácil.

Às vezes eu assaltava sozinho mesmo. Uma vez peguei uma grana gorda de um sujeito com pinta de estrangeiro, uma grana gorda mesmo!

As drogas começaram a pesar bem mais neste contexto todo. Lógico que a velha erva era sempre bem vinda, mas só para relaxar. A mais usada agora era, sem dúvida, a cocaína. Depois que perdi o contato com o Péricles foi um passo para que eu me “corrompesse” de novo. Mas como tinha pavor de agulhas por conta disso me controlei um pouco. Quando alguns passaram a injetar fiquei só na droga aspirada mesmo.

Nós conseguíamos cocaína purinha, direto do “Cabeça” da região! Dava inclusive para revender. Aprendemos o macete de misturar a droga boa com outras substâncias para passar adiante. Quanto mais distante da origem, mais impura. Comecei a revender um pouco. Para carinhas playboys metidos a malandros. Os coitados se achavam muito espertos, comprando droga com o dinheiro-do-papai na porta dos seus colégios de rico, ou na faculdade! Mal sabiam que estavam cheirando talco e farinha!

Apesar disso eu procurava me cuidar. De heroína não gostei. O efeito era muito louco, dava alucinação demais e demorava para passar.

Amigos meus vieram a viciar-se prá valer e aquilo era deprimente... às vezes eu os via em plena crise de abstinência, tremendo, doidos varridos. O Márcio e o Bolinha eram os que mais precisavam. Nesse ponto faziam o que quer que fosse para conseguir drogas. Havia outros na mesma situação e alguns já tinham até matado. Embora eu tivesse um ódio cego circulando nas veias eu não queria chegar naquele estágio. Era sem retorno. Ter que matar por causa de droga... isso não!

Conscientemente, nunca matei. Mas nas nossas pancadarias cada vez piores confesso que me deixei levar pelo espírito de violência. Descarreguei a arma muitas vezes, mas não mirava ninguém em especial. Atirava na direção deles com fúria, exatamente como os outros, mas não tinha realmente intenção de acertar.

Apenas uma vez perdi o controle de tal forma que encostei o 38 na cabeça de um sujeito e disparei! (Nessa altura eu já tinha um 38). Disparei duas vezes e a arma não funcionou! Mais tarde acabei atribuindo esse fato a Deus embora eu nada soubesse sobre estas coisas. Talvez minha vida tivesse seguido outro curso se tivesse realmente matado alguém daquela maneira.

O que não impediu que eu mesmo levasse um tiro, certa ocasião. Foi no meio de uma confusão monstruosa que aconteceu num clube de bilhar: alguém encostou sem querer o taco na traseira de alguém. As bolas começaram a voar e o quebra-quebra foi atrás.

A sensação que tive foi a de ter levado uma pedrada. Mas quando fui olhar melhor o braço depois, vi que não parava de sangrar e parecia haver alguma coisa lá dentro. Era uma bala! Tive muita sorte. Primeiro porque pegou no braço, depois porque era uma bobeirinha calibre 22.

Ainda que procurasse me conter em relação à arma de fogo, as demais eu usava mesmo! Faca, estilete, nunchaku, corrente, soco-inglês.....houve vezes em que enfiei o soco-inglês até mesmo no rosto dos meus adversários. Sentia aquilo entrando praticamente no osso, tinha que fazer força para puxá-lo de volta.

Até chave de fenda virou arma; se fosse bem afiada na ponta era a melhor coisa se o objetivo fosse só “riscar” alguém. A corrente com cadeado também nunca dispensava. Podia decidir uma luta sem matar o adversário. E no meu caso o nunchaku revelou-se outro elemento muito eficaz. Independente de haver ou não briga, eu sempre o tinha comigo.

E a faca, velha companheira, aprendi a usar sem dó desde muito cedo. De preferência na lateral do pescoço ou no abdome, girando-a antes de retirá-la do corpo, porque assim o estrago era maior. E esfaqueava mesmo. Sem alma. Sem culpa.

É estranho...

Relembrando hoje fica difícil dizer porque eu tinha tanta raiva! Eu tinha raiva de tudo e todos. Um olhar era o suficiente, uma palavra torta, um gesto. Às vezes nem era intencional mas desencadeava em mim uma reação totalmente fora de proporções...! Me envolvi em situações terríveis, de uma violência quase louca.

E aquela sensação de “nada a perder”, que me acompanhava sempre. Viver... morrer... era quase o mesmo! Por isso não me intimidava. Era uma sensação ímpar aquela coisa de “não ter nada a perder”.....! Lembro-me que entrava em ignição uma “coisa” dentro de mim, uma fúria tão cega que eu batia, batia, batia, não parava de bater até ver meu oponente estendido no chão.

Eu não era simplesmente um “sujeito esquentado”, ou, na pior das hipóteses, um “cara agressivo”. Era mais do que isso. Era até insano. Eu me tornei violento... violento de verdade! Com 17 anos as pessoas conheciam meu nome no bairro. Mas eu estava tão distante do significado daquele apelido “Catatau”!

 

E foi alguém assim, exatamente assim... que foi abordado por Marlon no Centro Cultural. Era até difícil de acreditar. Por que cargas d'água um homem como ele deixaria de lado os afazeres para vir atrás... justamente de mim???!!!

A causa deveria ser muito grande. Ou então, ele era mais louco do que eu.

Fato é que aquele encontro transformaria minha vida para sempre. Por mais que eu soubesse que era um caminho sem volta... não imaginava realmente que espécie de caminho era aquele.

 

Na terça-feira eu estava num misto de curiosidade e anseio em relação à reunião. Aquilo tudo era tão novo e tão empolgante que passei os dias pensando e repensando a respeito.

Nada comentei com Thalya. Nem em casa. E muito menos com Camila. Eu não sabia bem o que iria encontrar mas, por enquanto, aquilo era só meu. Saí a pé um pouco antes das nove horas da noite, andando devagar. Vestia minhas roupas de sempre, jeans e camiseta, nada de especial.

Mas eu me sentia especial... e aquela era uma sensação totalmente nova para mim! Eu era importante, Marlon me havia feito experimentar isso. Não duvidava de que ele viria mesmo me buscar.

Fazia calor e havia lua no céu. O trânsito da avenida era o mesmo de sempre mas eu nem conseguia reparar naquilo. Os carros e os coletivos passavam diante de mim, na barulheira costumeira, mas minha mente apenas fazia força para adivinhar o que viria. O desconhecido que eu buscara durante tanto tempo? Como seria o tal grupo, afinal de contas?! E que segredos me seriam desvendados?!!!

Não senti o tempo passar. Mas o diplomata de vidros escuros que subia a avenida chamou minha atenção.

Sabia que era ele. O carro encostou no pátio da igreja e vi que Marlon não estava sozinho: havia mais dois homens com ele, um dirigia e o outro ocupava o assento dianteiro. Marlon estava atrás e abriu a porta para que eu entrasse, com o sorriso estampado no rosto.

— Olá, olá! Ainda bem que você é tão pontual quanto eu. Eu também sorri em resposta, acomodando-me ao lado dele: — Detesto me atrasar seja lá para o que for!

— Esta é uma bela qualidade muito pouco cultivada... aliás, já quase esquecida!

Lentamente o enorme veículo pôs-se em movimento. No íntimo eu me sentia como alguém que estava prestes a começar uma aventura.

0 vidro estava aberto do lado de Marlon, o vento entrava ainda ligeiramente morno. Ele passou a mão pelos cabelos num gesto casual, enquanto me apresentava aos demais.

— Este é o meu amigo Eduardo. — Disse Marlon.

Os dois homens foram solícitos, mas de poucas palavras. Não me recordo de seus nomes. Eram bem pouco comuns. Eles nada disseram durante todo o trajeto de forma que me esqueci deles completamente. Chamou-me a atenção que ninguém me olhou feio ou pareceu demonstrar qualquer desagrado por causa da minha indumentária.

Minha atenção estava toda voltada para Marlon. Acomodei-me melhor enquanto eu e ele trocávamos algumas amenidades, coisas do protocolo da boa conduta. O tempo, o trânsito, a semana. Mas o carro era confortável, com bancos de couro, super silencioso e eu logo estava à vontade. Tão à vontade que não hesitei em perguntar:

— O que é isso aí no seu colo? — Eu olhava para o que me pareceram ser algumas gravuras.

Ele abriu a pasta, sem incomodar-se com meus olhos compridos. Nossa recente amizade já parecia permitir aquilo. — São símbolos. — Respondeu Marlon. — Símbolos?! — Me estiquei para ver melhor. Seus olhos pareciam sorrir mas eram também profundos ao perguntar:

— Quer vê-los?

As gravuras eram grandes e coloridas. Alguns eu conhecia, outros nunca tinha visto. Havia de tudo um pouco: Signos do Zodíaco, a Cruz de Nero, o emblema do Nazismo, um Pentagrama, dentre muitos outros.

Naturalmente ele começou a falar:

— Os símbolos são uma coisa interessante, não sei se você já parou para pensar. Carregam tanta informação por trás deles, não? — Ele parecia estar escolhendo um bom exemplo. E perguntou de cara: — De onde “nascem” os símbolos e por que eles existem?

— Bom... eu poderia dizer... que um símbolo é uma “expressão resumida” de alguma coisa maior?

— Mais ou menos. Por exemplo, vamos falar do que conhecemos bem. Você é homem, eu também. Todo homem cria na sua imaginação a imagem da mulher perfeita. Não é assim? — Só!

— E como seria ela? — Ele novamente sorriu, antes de continuar. — Que tal uma mulher bela, elegante, fina, bem vestida...? Com um misto de qualidades agradáveis: amiga, carinhosa, meiga... mas também ousada, sensual, atrevida. Com aquele sorriso de menina mas um toque de mulher, cheia de mistério. Discreta em público... e muito indiscreta a sós. Cheia de força, de talentos natos, surpreendente!

— Boa essa mulher aí. É o que todo mundo quer! Mas é óbvio que não existe, né, cara? Ninguém é tão perfeita assim!

— Concordo com você. Do lado feminino acontece a mesma coisa: lá vem a história do príncipe encantado! Que chega, muda a vida dela, acolhe, dá segurança; é o pai, o amigo e o amante ao mesmo tempo. Mas você mesmo já disse. Não existe a “ Miss Mulher-Perfeita” e nem o “Sr. Homem-Perfeito”. O que descrevi aqui — E com o que todo mundo sonha — é apenas... um símbolo!

— Bom, e daí?

— Você disse bem quando conceituou o símbolo como o “resumo de algo maior”. É verdade, de certa forma. Mas, em última análise, os símbolos são representações idealizadas da vontade humana, são expressões palpáveis do desejo mais profundo do ser humano. Não gostamos de nada muito “etéreo”, precisamos de coisas mais substanciais para representar o que queremos. Isso são os símbolos. Ainda que não sejam reais naquilo que representam, é uma tradução de como gostaríamos que fosse!

— Mas... — Refleti um pouco. — Nesse caso do parceiro ideal você tem razão, eu concordo que é estereotipado e irreal. Mas eu acho que não dá para generalizar e dizer que todo símbolo é falso na sua essência, que é apenas expressão idealizada de algo. Há símbolos que representam exatamente a realidade.

— Ah! E você poderia me dar um exemplo?

— Um exemplo....?

Da janela ao meu lado passávamos justamente diante de uma igreja grande, católica, cheia de vitrais. Marlon aproveitou o ensejo da pergunta e apontou com o queixo:

— Olha lá, uma Igreja! — Ele pareceu usar o exemplo casualmente. — A cruz é um símbolo também, não é?

Voltei os olhos de relance para as escadarias da Igreja que logo ficou para trás.

— É. É um símbolo do Cristianismo.

— Correto, mas não somente isso. O que a cruz representa, de fato? Dizer “um símbolo do Cristianismo” é muito vago. Até aí, há outros. — Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras. Eu só escutava. — Voltemos um pouco na história. Na época dos Césares Romanos a cruz era um instrumento de tortura, a pena capital máxima para crimes dos mais terríveis, geralmente crimes políticos. Particularmente na época de Tibério ela foi muito destinada a todo aquele que ousasse opor-se ao governo de Roma. A morte na cruz era lenta e dolorosa. O objetivo não era somente matar, mas torturar. Assim, na sua origem, creio poder dizer que a cruz era um símbolo do poder Romano; um símbolo de poder, dor e disciplina. Um símbolo de morte.

Marlon desviou os olhos para a janela novamente e concluiu:

Em contrapartida, como você mesmo já lembrou: para o cristão a cruz tem outro significado. Já não representa morte, mas vida, não é assim? Representa a vida conquistada por Cristo através da sua morte. A partir deste evento o símbolo da morte transforma-se em símbolo da Vida. Mas...adiantemos-nos mais alguns séculos na história. Aonde chegamos? Você deve saber tão bem quanto eu o que aconteceu na época das Cruzadas e da Inquisição. Os cristãos, em nome da vida, levaram milhares à morte. E a cruz, que para eles era símbolo de vida foi virada de ponta cabeça. Assim invertida, a cruz é símbolo da espada. E a espada, por sua vez, novamente é sinônimo de força, poder... e morte. Veja que paradigma!

— Hum. Não havia pensado dessa maneira. Mas faz sentido.

— Houve uma inversão de valores no Cristianismo que levou também a uma inversão simbólica da cruz. E novamente temos aí os conceitos de vida e de morte fundindo-se, mesclando-se.

Fiquei quieto, pensativo. Mas Marlon não dispensou a pergunta:

E então? Que diria você? A cruz simboliza Vida ou Morte?

— Bom... — Respondi devagar, pesando as palavras. — Diante do que você colocou, só dá prá dizer que...”depende”!

Ele riu mostrando uma fileira de dentes bem alinhados.

— É uma boa resposta! Bem em cima do muro e, portanto, politicamente correta. Mas esqueça o meio-termo. Responda com sinceridade!

— Não estou em cima do muro. Você há de convir comigo que “depende” mesmo!

Era o que ele parecia querer ouvir.

— Você compreendeu bem. O símbolo não é realidade em si mesmo, e por si mesmo. Não é absoluto. Depende do ponto de vista, do referencial, do tempo, da história. Como no caso da cruz. Os símbolos só são realidade dentro da imaginação humana e o mesmo símbolo pode ter diferentes significados e, em casos extremos, até mesmo significados opostos!

Era divertido filosofar com aquele homem tão inteligente. A resposta e a argumentação me pareceram convincentes de forma que balancei a cabeça em assentimento. Mesmo assim ainda questionei:

— Mas será possível, Marlon? Não haverá nem um símbolo que signifique exatamente aquilo que representa?

— Pense por você mesmo, Eduardo! Há uma infinidade deles para serem escolhidos e analisados. Quer ver um bem palpável? A nossa própria Bandeira do Brasil! Verde: plenitude, abundância, e vida; amarelo: ouro, riqueza, prosperidade; azul: paz; uma faixa branca: limpeza e pureza! E os dizeres “Ordem e Progresso! Isso é realidade? E a expressão do nosso país? Não é, mas representa aquilo que gostaríamos que fosse. Reflete o desejo mais profundo daqueles que criaram o símbolo. Mas é idealizado.

Fulguras, ó Brasil, florão da América”!

— Tem razão...

— Ainda há pouco nós falamos em homens e mulheres perfeitos. Daí é um pulo para falarmos do Matrimônio. Quer ver mais um exemplo? Qual é o símbolo do casamento? — Marlon tocou de leve em seu próprio anular, piscando o olho para mim a título de incentivo.

— A aliança. — Respondi.

— Certo. A aliança de ouro, pura, preciosa, um aro sem começo ou fim. Que simboliza algo eterno. Como o casamento e o amor “deveriam” ser! E já que falamos em ouro... sabia que o ouro puro não pode ser moldado? Para ser forjada, a aliança precisa —digamos assim — de “impurezas”. Precisa de outras substâncias que, associadas à pureza do ouro, tornam a aliança perfeita. Mas se o Puro precisa do Impuro para se tornar um... se para ser perfeita a “pureza” precisa do que chamamos de “impureza”... será que podemos entender como absolutos estes conceitos??? — Ele me olhava com seriedade. — Mas por outro lado o “Impuro” também é relativo. Seria uma espécie de “mal necessário”, dá prá entender? Sem o qual o “Puro” não poderia subsistir.

— Compreendo. Você me convenceu, mas aonde quer chegar com a sua argumentação?!

— Novamente você tem aí um símbolo que depende do referencial. Não é uma verdade em si mesmo! — Ele retomou com um tom mais informal. — Sabia que a diferença entre o ouro e o chumbo é de apenas um próton na sua estrutura molecular? Você deve saber, como estudante de química. Veja só que interessante...o chumbo, pesado, denso, opaco... e o ouro... puro, brilhante, precioso, agradável à vista. Essa diferença tão pouco expressiva, tão sutil, tão ínfima como um próton fez toda a diferençai Assim é com os homens também. Há pessoas pesadas e densas como o chumbo, mas quando se lhes acrescenta o átomo do conhecimento podem tornar-se puras e preciosas como o ouro. Antigamente os alquimistas fizeram de tudo para tentar produzir ouro a partir de outras substâncias. Eles não conseguiram. Mas nós... nós descobrimos... a diferença capaz de causar toda a transformação! Eu praticamente deglutia as palavras de Marlon, incapaz de discordar. A diferença... o Oculto... seria isto?! Subitamente ele retomou o assunto da aliança, mas como se apenas divagasse a respeito:

— Quanto ao símbolo do aro de ouro: o círculo é eterno, perpétuo. Você consegue compreender a Eternidade, Eduardo? —Ele não esperou resposta. — Como defini-la, entendê-la? Nós, seres finitos?! A aliança representa o Amor Eterno. Mas será que o amor é mesmo eterno? E já que estamos falando de símbolos e caímos nessa coisa de amor... Deus é o Símbolo do Amor. Não é? — Acho que sim. — Respondi. — Pelo menos é como aprendemos.

Sim, é o que vocês aprendem. Mas lembre-se do que eu disse a respeito do próton do Conhecimento. Nunca se esqueça disso. Do convite ao Conhecimento. Quer analisar mais um “Símbolo”?

Assenti em resposta com a cabeça.

— Vamos pegar um exemplo de amor um pouquinho mais palpável à princípio. Me responda: seu pai ama você?

A pergunta me surpreendeu um pouco. Havia tanto o que pensar acerca do meu pai e de mim mesmo. Dei levemente de ombros:

— Bom... ama. Acho que ama. Todo pai deve amar o filho, não??!!

— Mas como seu pai é um ser finito, temporal, o amor dele por você dura enquanto ele durar, não é? Ou enquanto você durar. O amor dele por você está ligado ao “tempo de existência”, seu e dele.

Marlon prosseguiu por ver que eu concordava com a colocação.

— Deus também se intitula “Pai”. Mas ao contrário do seu pai carnal, que não durará para sempre, Deus é Eterno. Eu pergunto: será que o Amor Dele por você também é infinito?

— Como assim? Não compreendi bem.

— Quero dizer que se Deus é Infinito — ou Eterno — Ele o amará eternamente... ou somente enquanto você durar?

Demorei um pouco a responder.

— Não sei. Acho que ele me amará sempre... enquanto eu viver! Pelo menos teoricamente falando. Afinal, este é o papel Dele, penso eu, pois faz parte da própria definição de Deus. “Deus é Amor”...

— E você pode garantir que a vida termina com a morte? Você simplesmente deixa de existir quando morre?

Ele não me deu tempo de responder e lançou outra pergunta:

— Será que o Amor de Deus atua após a morte? 7

Marlon novamente fez uma pausa, coçando de leve a ponta do queixo. Ele não respondeu a pergunta, apenas continuou:

— E há que se considerar um elemento a mais nessa história de Amor de Deus. Ele dá muito valor para algo que definiu como pecado. Deus mesmo diz que o pecado separa de Si o homem. — O semblante dele assumiu um arzinho ligeiramente caçoísta. — Em outras palavras... o pecado anula o Amor? Quero dizer, a própria Bíblia afirma que “o salário do pecado é a morte”. Afinal, pergunto eu: que Amor é este? É incondicional realmente, ou condicional? Me parece que o Amor de Deus não está ligado ao tempo de existência da sua vida, nem da Dele, mas às atitudes dos homens! Apenas aquele que “perseverar até o fim será salvo”. Deus simboliza Amor... Paternidade. Mas isso é real ?! Será que é isso mesmo, ou, talvez, estes símbolos tenham sido criados pelos homens, na sua ânsia de alcançarem Deus? Você aprendeu algo a respeito dos símbolos e saberá chegar à conclusões lógicas por você mesmo.

Marlon continuou :

— Além do que, olhemos para as bases do Cristianismo moderno. Temos duas linhas aí, Luterana e Calvinista. A primeira afirma que a Salvação se perde. A segunda diz que Salvação é eterna. Você há de convir que nem eles entram em acordo. Que pensar disso tudo? Se a própria religião se divide, como pode ser forte??

Acho que a expressão do meu rosto revelava que eu estava um pouco confuso. Ele encerrou o assunto sem esperar respostas, parecendo preferir que eu digerisse um pouco aquela conversa. Eram idéias novas para mim, coisas em que eu não tinha ainda pensado. Pelo menos, não daquela forma. Simplesmente finalizou com um comentário sucinto.

— Pense a respeito... nem sempre os símbolos são o que parecem ser. São realidade apenas na imaginação daqueles que crêem neles. Não podem ser encarados como absolutos. — O tom de sua voz mudou, tornando-se um pouco mais altiva. — Mas o grupo e as pessoas que você vai conhecer, nessa sua viagem rumo ao Oculto, são diferentes. Nós não acreditamos que você precisa estar em condições especiais para ter o seu valor. O externo não tem maior importância do que a essência. Imagine só se você estivesse perdido numa ilha à procura de alimento e, de repente, encontrasse um coco. Só que você nunca viu um na vida! Você pega, sente, cheira; é um negócio duro e áspero, com fiapos marrons grosseiros. Não tem cheiro nem textura bons ao paladar. Só que dentro dele existe aquela água boa e a polpa comestível. No entanto, diante da aparência do coco... você o jogaria fora e continuaria a busca.

Acabei rindo diante do exemplo, compreendendo o que ele queria dizer. Marlon complementou::

— Você não teria dado valor ao que encontrou porque não estava nas condições em que você esperava! — Ele olhou para mim e falou em tom levemente brincalhão. — Você é um coco, Eduardo!

Foi a única vez que os dois passageiros da frente se manifestaram dando risadas com a comparação. O ambiente tornou-se mais descontraído e Marlon concluiu:

— Você é especial. Nós não estamos interessados na casca, mas no que você tem dentro. Você é como uma pequena semente que pode tornar-se uma grande árvore. Só precisa ser regado da maneira certa, no tempo certo. E com a água certa!

Era tudo tão novo que não parecia realidade. Teria eu realmente o valor que estavam me atribuindo? Era estranho... pela primeira vez eu não estava sendo questionado, julgado ou tratado com preconceito por causa do meu cabelo, roupas ou jeito de falar! Eles pareciam me aceitar integralmente. Pareciam realmente “poder ver além da casca”.

— Você não conhece ainda o seu potencial, Eduardo. — Ele até parecia ter lido meus pensamentos.

Não houve tempo de dizer palavra.

— Ah! — Marlon apontou com a mão. — Chegamos!

E eu que sequer sabia onde estava! Tão absorto estivera na conversa que não reparei no caminho.

Olhei para os muros altíssimos, de pedras grandes, acinzentado. Havia um portão pesado, de ferro preto, ladeado por duas estátuas. Dois leões sentados. Na frente estavam inscritas duas iniciais. E uma câmera filmava todos os que se aproximavam.

 

O portão abriu e o carro percorreu a alameda. Apesar da pouca luz pude vislumbrar os jardins ao redor, cheios de árvores, quase um bosque! Descemos todos juntos diante do que eu poderia chamar de palacete. A casa era absolutamente imensa! Fachada ampla em estilo clássico, colunas laterais, janelões, pelo menos uns três andares.

Eu não sabia o quê dizer diante daquilo. Uma escadaria de mármore nos levou à porta da frente. Reparei nela, de madeira escura disposta em tábuas verticais. Mas a maçaneta, ou o que eu poderia chamar de maçaneta, eram duas enormes estruturas de bronze em formato de olho de gato.

Marlon foi abrindo a porta sem maiores preâmbulos e entramos numa espécie de hall ao mesmo tempo em que um homem bem vestido aparecia para nos receber amistosamente.

Parecia pouca coisa mais jovem do que meu amigo se bem que as têmporas já fossem um pouco grisalhas. O cabelo era bem curto e o cavanhaque muito bem aparado. Era magro, de estatura mediana. Veio sorrindo, muito cortês e amável. Abraçou o Marlon rapidamente mas com força, e logo se dirigiu a mim. .

Eu continuava com a infalível mochila às costas e quando ele me abraçou também acho que todos ouviram o tilintar das bolas de gude:

— Que bom que você veio! Estávamos esperando por você! — Disse ele.

Marlon fez as apresentações convencionais e recebi as boas vindas:

— O meu nome é Zórdico. — Continuou o homem à minha frente. — Logo mais teremos oportunidade de nos conhecermos melhor!

Marlon tocou em meu ombro com carinho e me chamou pela primeira vez num termo que seria freqüente a partir de então:

— Filho...você pode nos aguardar aqui um pouco?

Apenas fiz que sim com a cabeça. Eles saíram e me deixaram só. Meus olhos rodavam à volta sem parar.

O hall comunicava-se com um recinto amplo, bonito e muito elegante, uma espécie de sala ou, mais provavelmente, numa mansão como aquela, não mais do que uma “ante-sala”. Duas escadas largas, uma do lado direito e outra do lado esquerdo acabavam juntando-se lá em cima numa espécie de mezanino. Nas paredes dois quadros enormes: eram pinturas de duas crianças chorando, um menino e uma menina, um de frente para o outro em paredes opostas.

Mas o que realmente me encantou foi o chão, coberto por um tapete branco tão felpudo que meus pés quase deixavam pegadas nele. Caminhei sobre ele até uma cristaleira de madeira escura, encostada à uma das paredes. Era linda, de vidros tão limpos que pareciam de cristal. Deviam ser mesmo! Dentro havia muitos objetos estranhos. E bonitos. Provavelmente de ouro e prata, a julgar pelo brilho. Encostei de leve no vidro e, para minha surpresa, estava aberto! Mas não ousei tocar em nada, respeitosamente. Fiquei ali um tempo, observando-os.

Depois acabei por sentar-me no felpudo tapete para esperar por Marlon e os outros. Distraído, minha mão escorregava por entre os pelos do tapete e meus olhos percorriam novamente o recinto. Estava tudo tão silencioso...

Do tapete minha mão subiu à cabeça e me pus a desembaraçar os cabelos, num gesto casual. Sem querer mergulhei de novo numa viagem introspectiva, relembrando o recente encontro com Marlon e tudo o que ele me dissera. Mas não houve tempo: fui puxado à realidade outra vez, atraído pelo ruído dos passos e das vozes. Eram Marlon e Zórdico.

— Vamos descer? — Convidou Marlon. — Está na hora!

Levantei-me de pronto com uma expressão que escapou na hora:

— Vamos nessa, cara! — Caí em mim. — Pôxa, desculpe aí a gíria! É o costume.

Nem Marlon nem Zórdico pareceram se importar. Saímos por uma porta lateral e adentramos outro recinto. Neste, atrás de uma porta estreita, vislumbrei uma escadaria acarpetada de vermelho. Marlon explicou:

— As reuniões são feitas no porão.

O carpete abafava o ruído dos nossos passos. A escada era ladeada por um corrimão de madeira grossa e escura, e a iluminação vinha de pequenas lamparinas dispostas em fileiras nas paredes. Meus olhos observavam tudo com assombro, sem perder nenhum detalhe.

“Onde já se viu um porão assim luxuoso? Comparado com o lá de casa...”

De repente a escadaria terminou numa curva para a direita. O corrimão tinha neste ponto a imagem esculpida de um deus inca ou asteca. Fiz questão de deslizar minha mão sobre ela ao mesmo tempo em que estiquei o pescoço. Havia ali um Portal tremendamente amplo, com um arco gótico que se elevava acima de nossas cabeças, e que dava acesso a um belo aposento. Tudo era muito luxuoso.

“Que coisa impressionante!”. Eu estava boquiaberto.

Ali seria uma espécie de Biblioteca, ou algo que o valha, com estantes repletas de livros. O salão era grande, muito bem iluminado e decorado. Na parede da frente havia um espelho enorme que logo me chamou a atenção, bonito, com moldura trabalhada. Os sofás estavam arrumados confortavelmente nos cantos, repletos de almofadas felpudas e coloridas.

Apesar do calor da noite o ambiente era fresco, agradável, e um leve perfume adocicado permeava o ar.

Havia mais gente no salão. Estavam todos conversando e fui sendo apresentado por Marlon. Ele também ia sendo saudado pelos presentes.

O ambiente me pareceu aconchegante. Fui muito bem recebido com sorrisos, abraços, apertos de mão e algo que eu poderia classificar de “calor humano”. O número de homens era maior do que o de mulheres e todos pareciam mais velhos do que eu, beirando a faixa média de 25 a 28 anos, talvez.

As pessoas estavam bem vestidas e pareciam cultas, inteligentes. E eram mesmo! Vim a descobrir que o tal grupo era extremamente seleto; havia quem fosse médico, ou engenheiro, ou advogado, ou empresário...

Mas era contagiante a simpatia e a descontração de todos. Desde o início senti-me muito à vontade. O único “marginal” era eu. Tinha um outro rapaz mais ou menos no mesmo estilo, desleixado, cabeludo, mas tanto ele quanto eu fomos tratados muito bem. Tão diferente do que eu estava acostumado!

Ao todo éramos em vinte e uma pessoas.

Fomos nos acomodando na enorme mesa de centro à medida que as apresentações iam findando. Acomodei-me ao lado de Marlon. E Zórdico tomou lugar à cabeceira. Em breve viria a saber que a maioria das palestras eram dadas por ele. Percebi que algumas pessoas já estavam familiarizadas com o local e as reuniões mas, a maioria, como eu, estava acabando de chegar.

O burburinho foi cessando quando Zórdico deu a entender que iria iniciar a reunião. Todos se calaram e nossos olhos fixaram-se nele. E ele, por sua vez, sorriu abertamente apresentando-se como Professor.

— Estejam à vontade. — Incentivou ele. — E sejam bem vindos à “Escola”!

Com os braços comodamente apoiados sobre a mesa passou a falar calmamente enquanto seus olhos corriam de rosto em rosto.

— Vocês são um grupo de pessoas muito privilegiadas: este lugar não é para qualquer um. Ao longo dos estudos que vamos começar a desenvolver hoje cada um aprenderá a contemplar a realidade com novos olhos. Tudo será visto através de um novo prisma... à medida que o Oculto começar a ser desvendado a vocês. E não somente o mundo que nos cerca será novo, mas cada um virá a descobrir o Oculto dentro de si mesmo. E virão à tona novos potenciais. Naturalmente que isso acontecerá com cada um a seu tempo e à sua maneira, porque a revelação também depende de esforços e interesse individuais!

Ele limpou a garganta e passou a explicar em detalhes o que era definido como “o Oculto”. Era o que Marlon já me havia dito no Centro Cultural:

— A título de definição: “Oculto” é tudo o que ainda não foi revelado. Com certeza o estudo do Oculto e as fantásticas descobertas que virão através disto serão um desafio à inteligência de vocês. Mais uma vez, é óbvio o motivo pelo qual a maioria das pessoas permanece a vida toda alheia a tal conhecimento. Ele não é para todos. Não podemos alcançá-lo pura e simplesmente pelo nosso próprio esforço. Faz-se necessário que ele seja revelado a nós. Mas o principal, e é o que vamos fazer aqui, uma vez que fomos escolhidos para ter acesso à revelação, é não aceitar fatos apenas por aceitar. Aceitar o que não se entende — ou não se explica — é pura ignorância! Aceitar apenas porque nos disseram que “é assim” não é suficiente.

Zórdico olhou com firmeza para nós enquanto acomodava-se melhor na cadeira de espaldar alto. Cruzou as mãos à frente e continuou:

— Acredita-se, por exemplo, que o Homem foi feito do pó da terra. Que o mundo foi criado em sete dias. Acredita-se que choveu tanto que houve uma inundação a ponto de destruir completamente a civilização da época. Em contrapartida, outros crêem no evolucionismo das espécies e na Teoria Darwinista. Apesar de que a macro-evolução ainda não teve a sua confirmação. Tanto os primeiros como os segundos crêem... a despeito de confirmações plenamente palpáveis. Eu pergunto a vocês: que dizer acerca da vida em outros planetas, ou da vida após a morte? Que pensar sobre Universos paralelos? Sobre os grandes mistérios do nosso mundo? Há muita coisa sem explicação. Isto, pelo menos, é um fato! — Fez ele com um meneio de cabeça e um sorriso leve à guisa de descontração. — Como já disseram por aí, “Há mais entre céu e terra...”. Vocês conhecem o resto.

Ele calou-se por um pouco.

— Vã filosofia... — Repetiu lentamente. — De fato. De fato algumas teorias são vãs. E correta e louvável a busca pelo conhecimento, mas acontece que criamos teorias na tentativa de explicar as nossas dúvidas. Às vezes, estas teorias não passam de pura tolice. Vãs, é o que são! O problema não é a busca das respostas. Mas o fato de criarmos uma resposta que, embora nos satisfaça, infelizmente nem sempre é a tradução da realidade.

Nós escutávamos. Ele repetiu a pergunta inicial:

— Torno a indagar: devemos aceitar fatos não explicáveis, incompreensíveis, sem pensar??. Ou ainda... já que pensamos e buscamos... devemos aceitar as ficções criadas e, na ânsia de conhecermos a Verdade, introjetarmos isto dentro de nós, o falso pelo verdadeiro? Por pura necessidade de amenizar a angústia da procura de respostas? Vejam bem, não estou dizendo que este é um processo consciente! Na maior parte das vezes talvez seja inconsciente mesmo. Mas a questão que eu coloco hoje é a seguinte: o que é ficção e o que é realidade?! Será que muito do que aceitamos hoje como sendo Verdade... não é mera ficção?

Zórdico inspirou fundo:

— Vou lhes dar um exemplo que torne a coisa mais palpável, algo simples e concreto. Antigamente o Homem observou que o sol nascia de um lado e se punha do outro. Pois bem... de veria haver uma explicação para aquilo! Lógico! A Terra era o centro do Universo e o sol girava ao redor dela. Pronto! Tudo se encaixa, e aí está o cerne da Teoria Geocêntrica. Sabemos, no entanto, que não levou muito tempo para que Galileu Galilei provasse o contrário, a Verdade. Se isso não acontecesse até hoje a Teoria Geocêntrica seria aceita! Muitas coisas hoje em dia seguem o mesmo curso: ficção encarada como verdade. Fiquem sabendo de uma coisa: muito do que vocês acreditam hoje não é tão verdade quanto parece.

Um clima estranho pairava no ar. Talvez Zórdico tivesse razão! Alguém esboçou um questionamento:

— Mas nem tudo é passível de ser explicado. A Humanidade formula hipóteses para tentar encontrar a Verdade. Algumas coisas já foram descobertas, outras estão a caminho. O erro faz parte deste processo.

— Você está certo. Em parte! — Zórdico virou o corpo na direção dele. — O que está em jogo é outra coisa. Claro que o erro faz parte, e há muitas coisas que o homem não pode ainda explicar. Só que o ponto aonde quero chegar é o seguinte: “Inventar” é diferente de “Descobrir”. Concorda? Quando “inventamos”, criamos a ficção. Quando “descobrimos”, encontramos a Verdade. Há quem goste da invenção. Muitas vezes ela é mais cômoda. Mas há quem goste da Verdade. E eu creio que vocês estão aqui porque têm interesse na segunda opção. Temos somente um probleminha a ser resolvido. Um problema que apenas os que querem saber a verdade encontram: nem sempre temos consciência de quando estamos frente à ficção... e quando estamos frente à realidade.

Ele ergueu-se do seu lugar e apanhou uma espécie de bandeja na prateleira ao lado. Sobre a bandeja havia um objeto esguio e alto, coberto por um pano de tecido escuro. Zórdico colocou a bandeja sobre a mesa e tocou o braço da moça à sua esquerda:

— O que tem aqui? — Perguntou.

Ela olhou e respondeu:

— Bom, não sei, parece algo como uma jarra ou um copo bem alto, talvez.

— Por quê?

— Pela forma. Parece algo assim. Mesmo porque está sobre uma bandeja. Poderia também ser uma garrafa. É... parece mais uma garrafa!

Zórdico repetiu a pergunta para mais um ou dois, que deram sugestões, concordando ou não com a moça. Eu observava com olhos grandes. Zórdico tirou o pano sem mais perguntas. Sob ele havia um objeto parecido com um pequenino edifício, uma espécie de castelinho de brinquedo. Nada a ver com o que havíamos pensado.

— O exemplo é rudimentar mas creio que podemos passar adiante. — Limitou-se a comentar. — Vamos falar um pouco do nosso objeto real de estudos, o Oculto. Quero que todos consigam perceber a diferença. — Tornou a cobrir o castelinho com o pano. — Temos aqui uma dúvida, uma incógnita, algo que nos estimula a formular hipóteses. “O que haverá debaixo do pano?” Uma garrafa, uma jarra, um copo? Estas são as nossas teorias. Mas, deixando-as de lado, vamos ver a Verdade, vamos descobrir!

Retirou novamente o pano, olhando para nós. — Percebem? Este objeto estava oculto e foi revelado. Parecia uma garrafa... era até uma hipótese plausível. Mas agora conhecemos a Verdade, ao descobrirmos o Oculto. É fácil perceber a diferença. O Oculto não é fantasia, algo criado pela imaginação humana. É a revelação de algo que existe verdadeiramente. O Oculto só está oculto enquanto ainda não o descobrimos, mas é reflexo da Verdade. Como alguns de vocês já devem ter escutado, ao conhecer o Oculto vocês conhecerão a Verdade. E a Verdade irá libertá-los do cativeiro da ignorância.

Alguém tomou a perguntar. Todos desviamos os olhos para ele:

— Mas quem garante que de fato encontraremos a Verdade?

Zórdico foi curto na resposta:

— É cedo para responder à sua pergunta. Adianto apenas que tudo o que você aprender aqui será provado racionalmente por “A + B”. No entanto, se você parar para pensar, porque a teoria de Galileu de repente deixou de ser tão questionada? Simplesmente porque era a Verdade. E ponto final. Não havia mais o que discutir uma vez que se percebeu esse fato. Contra fatos... não há argumentos!

Voltou-se novamente ao grupo e deu seqüência.

— Apenas a título de complementação analisemos ainda um outro exemplo. O da “Garrafa” é simples, usei só para que visualizassem o mecanismo básico do erro. Vamos falar de algo bem mais conhecido. Tomemos por base a Bíblia. Eu poderia usar outro Livro como exemplo, mas eu creio que a Bíblia é mais familiar a todos. É um dos Livros mais lidos em todo o mundo, sabiam disso? Um verdadeiro best-seller. — Ele parou para perguntar. — Concordam?

Como a resposta fosse afirmativa, Zórdico continuou:

— Entende-se que a Bíblia foi inspirada por Deus e reflete a Verdade de Deus. Portanto, é perfeita. O assunto central deste Livro tão lido é justamente este: revelar ao homem a Verdade e a vontade de Deus. Cremos nisso, não? No entanto já desde as bases do Cristianismo percebemos duas linhas que caminham lado a lado, a Luterana e a Calvinista.

Agucei ainda mais os ouvidos pois Marlon conversara comigo sobre aquilo há pouco.

— Cada ramificação que surgiu depois dogmatizou um pouco a Verdade, de forma que nos defrontamos com dezenas de interpretações paralelas. Ou melhor: com base no mesmo Livro, a Bíblia, chegamos a diversas verdades paralelas. De forma que fica praticamente evidente que ela não é um absoluto, pois não há concordância universal. Tudo depende do referencial, da ramificação, da linha adotada. Mas vamos tentar descartar a Religião em si. Vamos partir do pressuposto de que os homens deturparam a mensagem básica da Bíblia ao criar a Religião. Esqueçamos as seitas e voltemos à premissa inicial: a Bíblia foi realmente inspirada por Deus e reflete a Verdade de Deus. Passemos a analisar algumas das Verdades Bíblicas tendo em mãos apenas o nosso próprio entendimento, dissociado da chamada Religião.

Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa, inclinando o corpo para frente. Inspirou fundo antes de recomeçar o discurso. Meus olhos estavam grudados nele, bem como os dos demais. Esqueci-me até da presença de Marlon.

— “Toda árvore dá o seu fruto a seu tempo”. Esta é uma Verdade Bíblica. Vamos analisá-la à luz da própria Bíblia uma vez que ela mesma se explica. Há um outro trecho aonde o relato diz que Jesus teve fome e procurou figos em uma figueira. Diz a Palavra que “Ele nada achou, porque não era tempo de figos”. Que ocorre então? Jesus amaldiçoa a figueira e ela morre. Ora... vamos e venhamos. Que tipo de Amor é este, condicionado ao fruto? Se a árvore tivesse figos não haveria palavra de maldição e morte, mas de benção. Será que este Amor pode ser classificado como condicional ou incondicional?! Por que antecipar o fruto? “Não era tempo de figos”, diz a Bíblia, mas ainda assim a figueira foi amaldiçoada!

Zórdico tamborilou de leve os dedos sobre a mesa e continuou sem esperar reação do grupo:

— Diz a Bíblia também que o Amor “é paciente, tudo espera, tudo suporta não busca os próprios interesses”, e etc.e tal. Está lá, escrito em I Coríntios. Mas houve paciência neste ato??? Será que seu pai carnal agiria assim com você? Digamos que você está ainda cursando a faculdade, estudando, e seu pai te avisa que você deve começar a ajudar financeiramente em casa. Só que você não tem emprego, nem salário. E estudante. Não é ainda época de dar este tipo de fruto. Que diria seu pai? “Ah! Pois é assim? Então suma daqui! Morra!”. Duvido que qualquer pai em sã consciência fizesse isto. Mas parece que o Pai das luzes tem seu Amor ligado ao ser algo, ou fazer algo. Se você está de acordo, é abençoado. Se não...! Deus somente o abençoa quando você faz o que ele quer!

— Bom... — Interrompeu a mesma pessoa da última vez. —Mas a figueira é só uma árvore. Não é um bom exemplo. Talvez não houvesse a sentença de morte se Jesus estivesse lidando com um ser humano. Deve haver alguma explicação lógica para o fato.

— Você quer uma explicação lógica? Quer, talvez, mais um exemplo? Veja em Deuteronômio 28. Deus diz que se o seu povo for obediente e seguir os mandamentos e os decretos e os ensinamentos será “bendito ao entrar e ao sair”. Mas, se não for feito como Ele quer, nenhuma menção de amor ou misericórdia.

Antes, a sentença: “Serás maldito ao entrar e ao sair”, dentre outras promessas bondosas e agradáveis. Em outra palavras... morra! Eu poderia continuar com os exemplos mas eu quero que vocês cheguem às suas conclusões por vocês mesmos. Deus se intitula “Amor”, mas Ele mesmo age contrariamente à sua definição de Amor. Não disse há pouco que o Amor “é paciente, benigno, tudo espera, tudo sofre, tudo suporta, jamais acaba”? Como pode ser a Palavra de Deus tão contraditória num aspecto tão fundamental como este? Que dizer de outros aspectos menos fundamentais?

Zórdico recostou-se novamente na cadeira fazendo uma pausa mais longa. Ninguém abriu a boca.

— A religião é dividida... a Palavra aparentemente é contraditória. Foi o próprio Cristo que disse que “Um reino dividido não prospera”. É difícil compreender a Sabedoria deste Deus. E, no entanto... a Humanidade crê! Será que estamos crendo na Verdade? Ou será que o homem finito, ao tentar compreender a Eternidade de Deus, acabou criando explicações que atenuassem a angústia por respostas?

Creio que já estávamos confusos o suficiente. O que é realidade verdadeiramente e o que é realidade fictícia, pura fantasia?!...

— Pensem a respeito. Ao longo destes estudos vocês conhecerão uma outra fonte de amor. Pode até ir de encontro àquilo em que vocês sempre acreditaram, que foi ensinado como sendo “o certo”. Mas virá o tempo em que todos serão capazes de entender. Sei que por hora ainda é um pouco cedo! — Zórdico sorriu jovialmente. — Mas vocês, que foram selecionados, têm um grande mérito por si só: são inteligentes. Por isso estão aqui. Saibam de uma coisa com certeza, saiam daqui hoje com esta convicção. O conhecimento trará poder a vocês! A inteligência, a essência, a fora vocês já têm. Vamos simplesmente acrescentar poder à esta força através do conhecimento e da revelação da Verdade. Homens e mulheres que passam por esse aprendizado tornam-se poderosos. Em retirando-se o véu da enganação, da ignorância, da hipocrisia... vocês serão capazes de movimentar a natureza e desencadear os poderes do Universo.

Alguns olhares passaram de curiosos a levemente incrédulos. Observei olhadelas discretas lançadas uns aos outros diante da afirmação feita por Zórdico.

E ele, incrivelmente, pareceu ler os pensamentos do grupo. Acrescentou, em tom casual mas enfático ao mesmo tempo:

— O tempo e os estudos vão mostrar a vocês. — Ergueu o braço num gesto esquisito e um pouco brusco.

Imediatamente, acaso ou não, todos nós ouvimos um som leve, um “puff” atrás de nós. Procurando de onde viera o ruído vimos o fogo da lareira aceso. Estranho.... eu não havia reparado naquele fogo antes......?!

Ninguém fez pergunta alguma, comentário algum. Voltamos a cabeça na direção de Zórdico, que continuou no mesmo tom e na mesma cadência como se nada houvesse ocorrido. Parecia ter provado algo diante de nós que dispensava palavras.

Teria mesmo ocorrido?

 

Eu trocava algumas palavras amistosas com Marlon e um outro rapaz, tamborilando alegremente com os dedos sobre a mesa. Era muito fácil o entrosamento apesar do pouco tempo de que dispúnhamos antes das palestras. A introdução do curso havia me deixado com água na boca e pensando bastante a respeito. Eu me sentia como que sentado num restaurante onde os pratos vão sendo servidos muito lentamente e em pouca quantidade quando comparados à sua fome.

Mas isso faz com que se coma devagar e a “digestão” ocorra satisfatoriamente. Caso contrário, se eu pudesse me servir à vontade muito provavelmente acabaria tendo uma indigestão de conhecimentos mal digeridos. E que me fariam mais mal do que bem.

Eu podia dizer que a minha fome estava mais estimulada do que nunca. E como parece que os melhores pratos ficam sempre para o fim... nada mais me restava senão contentar-me com as reuniões às terças e quintas. Que gostinho de pouco!!! Aquela hora e meia que passávamos ali me punha o resto da semana meditando. E aguardando na maior expectativa o próximo encontro.

Olhei em derredor. A maioria já estava sentada à volta da mesa, conversando e rindo em pares ou trios, aproveitando para conhecerem-se mutuamente. Quando Zórdico apareceu, calmo mas altivo, sorrindo um sorriso difícil de descrever, todos os olhares convergiram na sua direção como se algo magnético se desprendesse dele. Vestia calça de linho clara, de corte elegante, uma camisa tipo social-esporte muito bonita, de riscas azuis.

— Boa noite para todos! — Saudou-nos ele na forma jovial de sempre ao ocupar o seu lugar. — É bom tê-los conosco mais um vez! Espero que tenham tido tempo de refletir acerca do que comentamos na palestra passada.

Naturalmente houve gestos e olhares afirmativos. Alguém tentou gracejar:

— A feijoada foi meio pesada mas parece que agora está tudo em ordem.

Zórdico limitou-se a cruzar calmamente as mãos sob o queixo, naquele gesto já conhecido que preparava o grupo para o início da aula.

— Bem... não vou retomar a fundo o que eu já disse e que, espero, tenha sido bem compreendido. Não temos a pretensão de levá-los ao conhecimento completo de tudo o que existe. Seria tolice acreditar que isto seja possível neste momento. No entanto continuo enfatizando que é necessário conhecer a verdadeira verdade para que haja crescimento efetivo. Esta é a proposta... a princípio! — Parou de falar e olhou o grupo com firmeza.

Iniciou um novo assunto após poucos segundos, em outro tom, com voz pausada e grave.

— Sabemos que o Homem tem muitas crenças. As crenças dependem da localização no globo, do tempo na História, da cultura e de uma série de fatores que variam de região para região. O que se crê hoje aqui no Brasil é diferente do que se cria há dois séculos atrás. E é diferente do que se crê na África ou no Japão, em qualquer tempo! O ser humano precisa de crenças. E o que vem a ser isso? Tudo o que não podemos explicar com a razão vamos chamar genericamente de “Crença”. Seria uma espécie de doutrina paralela à razão, algo em que se acredita mas que não necessariamente é reflexo da realidade. Existe uma infinidade de tipos de crenças. A Religião, por exemplo, é uma.

Zórdico descruzou os braços, gesticulando para explicar melhor.

— A religião é uma crença porque não a podemos explicar pela lógica. Depende de fé. Deus seria uma espécie de sinônimo de tudo o que o homem não consegue explicar. Mas, é engraçado o comportamento humano em se tratando dessa história de fé! Acredita-se em algo que nunca se viu, não se conhece bem, não se sente por aí em toda esquina... mas é preciso crer! Pois não se consegue olhar para a estrada da vida e contemplar ao final dela a morte, pura e simples. A questão da morte é um tema dos mais discutidos em todas as Religiões do mundo. O homem sonha com a Imortalidade. Com a Eternidade. Durante toda a história da Humanidade, e em todas as Religiões, busca-se uma resposta para este tremendo impasse: afinal... e a morte?!

Ouvíamos todos com muita atenção procurando não perder nenhum detalhe, intimamente raciocinando a todo vapor para ver se de fato concordávamos com o que ele dizia ou não.

— A morte também está toda envolvida em simbolismos dentro das doutrinas católicas e cristãs em geral. Diz-se que só se verá o Céu após a morte. Só se verá o Criador face a face após a morte. Um santo também nunca é canonizado em vida, ele só ganha valor depois de morto! Procura-se retardar a morte ao máximo. Quando isso não é mais possível só resta a possibilidade de negá-la, atribuindo-lhe um novo fim. Ou seja, quer indo para o Céu... quer reencarnando, como apregoam os espíritas... basicamente toda Religião diz que a salvação, a purificação, o conhecimento, o aprimoramento...vem pela morte! Esse é um tema comum a todas elas, quer seja exposto de uma forma ou de outra. Em suma, a morte não é um fim em si mesma, mas um novo começo. Conseguem compreender o que digo? Estão comigo?

A falta de manifestação por parte do grupo queria dizer aquiescência. E Zórdico recostou-se confortável, sorrindo ao continuar.

— Já que estamos de acordo, chegamos a um ponto-chave na nossa aula. Quero dizer que de fato a morte é necessária e, diante disso, convido-os... a morrer! — Ele parou, enquanto absorvia os olhares inquiridores do grupo. — Morrer! É o que digo. —Repetiu com seriedade. — Sim, mas não fisicamente. Não agora, pelo menos. Mas convido-os a morrer para nossas idéias prévias, nossos pensamentos, nossas doutrinas, nossa razão. Vamos enterrar tudo. Matem sua educação... sua vontade... suas idéias...seus conhecimentos! — Fez novamente uma pausa longa, como que aguardando que mentalmente nos dispuséssemos àquilo. — E, agora, proponho-lhes algo novo. Um novo nascimento. Um nascimento para um novo contexto, uma nova realidade. Como já dizia o antigo provérbio chinês...”Se você quer beber do meu chá, antes tem que esvaziar a sua xícara”. Eu não estou questionando se as crenças antigas são verdadeiras ou falsas. Apenas proponho que, durante um tempo, vocês abram espaço para as novas. Em pouco tempo poderão julgar por si mesmos se vale a pena ficar com as novas... ou retomar as velhas!

Zórdico aguçava a nossa curiosidade, a minha pelo menos, mas o grupo parecia pouco confortável nas cadeiras diante da proposta. Cada um esperava que o outro abrisse a boca primeiro. Olhei com o rabo-do-olho para Marlon, que parecia muito sereno e observava com o queixo apoiado no punho, mantendo um ar neutro e bastante sério. Fiquei na minha. Ou seja, quieto.

— Estão prontos para o novo nascimento? — Indagou Zórdico.

— Você poderia falar um pouco mais a respeito desta morte? Ser mais específico...? — Perguntou uma mulher de blusa vermelha.

— Não. — Respondeu Zórdico com moderação, mas firmeza. — Trata-se aqui apenas de uma introdução, nada mais. Uma preliminar. É necessário receber o alimento fragmentado. Não há como colocar uma refeição completa diante deste grupo, vocês não têm qualquer base ainda. Não estão aptos para digerir nada mais profundo. É o mesmo que tentar explicar para um pré-escolar uma equação de segundo grau. Contentem-se por hora com a proposta inicial, isto é: o convite ao conhecimento. Quando você recebe um convite à uma festa não pode saber de antemão se será boa ou não; pode supor, claro, dependendo de quem o convida. Mas é você quem escolhe ir à festa divertir-se, ou ficar em casa. Compreendem? Estamos começando o processo de enterrar velhas idéias e renascer para as novas. Ora, aquele que acaba de nascer é criança e como tal deve ser alimentado.

A mulher de blusa vermelha pareceu compreender e ficou calada.

— Antes de entrar em grandes teorias é preciso lançar um alicerce firme, estabelecer as bases desta nova linguagem. Vocês têm que ser alfabetizados novamente, como crianças recém nascidas! A linguagem sempre é o espelho de uma cultura, de uma forma de pensar, não é assim? Esta linguagem que vocês vão aprender vai expressar a nova cultura da qual vocês farão parte. A linguagem é diferente simplesmente porque espelha uma realidade diferente. Estão animados? — Zórdico olhava para nós. — Vocês são como recipientes vazios prontos para serem cheios! Basta saber que, para conhecer a nova linguagem, a nova cultura, a nova ciência, existe um único pré-requisito além de todos aqueles que vocês já têm: há que se matar e enterrar as velhas idéias. — E novamente ele sorriu, descontraindo um pouco o grupo. — Não se assustem, e tenham paciência! O conhecimento virá aos poucos.

O sorriso e as palavras de incentivo realmente nos fizeram acomodar melhor ao redor da mesa. Os sentimentos se dividiam. Alguns estavam levemente receosos; outros, como eu, muito curiosos.

— Como se começa uma longa caminhada?! — Ele mesmo respondeu, de forma simples. — Dando os primeiros passos. Se ficarmos demasiado ansiosos nos perguntando o que virá pela frente deixamos de aproveitar o passeio. O conhecimento é como esta caminhada. Vamos viajar... observando cada detalhe do caminho... cada rio, cada montanha, cada flor. Sem pressa de chegar ao fim! Se perdermos os detalhes a viagem não será tão proveitosa, haverá pouco o que recordar. Certamente vamos nos deparar com muitas oportunidades se prestarmos atenção. Não viajaremos só de dia, mas também à noite. Poderemos entrar nas cavernas, explorar o desconhecido mergulhado dentro delas. Sim...talvez haja ali mundos não revelados. Talvez descubramos seres diferentes dos que conhecemos. Vidas diferentes... porque existe vida na noite! Uma vida que não é nem inferior e nem superior à dos habitantes do dia, que não pode ser desprezada! Talvez trilhemos caminhos que não foram ainda pisados pela maioria.

Zórdico de súbito cortou a divagação a respeito da viagem quando creio que a maioria jazia já embevecida e deleitada nas promessas. O magnetismo dele era ainda mais forte. Eu tinha decorado cada traço do seu rosto, da sua boca, do seu jeito de se expressar. Era difícil desviar a atenção para qualquer outra coisa. Zórdico sabia nos manter completamente entretidos. A viagem ficou no esquecimento e ele retomou a linha de raciocínio que vinha desenvolvendo antes:

— Por que o padre badala o sino na hora da consagração da hóstia, o espírita acende o seu incenso, o indiano canta mantras, os indígenas se pintam, cantam e dançam, os africanos tocam seus atabaques? Dentro de cada crença ou Religião, existem ritos específicos. Os ritos traduzem uma linguagem simbólica específica que é fruto daquela cultura e espelha a realidade daquele povo. Aquilo em que se crê. Da mesma forma vocês: se vão aprender uma nova crença é claro que esta também é respaldada por rituais. Ritos! Meu coração deu um pulo. E eu que pensava que ia ficar só na teoria muito tempo! Lembrei-me da infinidade de ritos que tentei praticar e que não deram certo. Zórdico não perdia o fio da meada:

— Os ritos iniciais são como que pequenas equações dentro deste novo Universo e talvez, a princípio, não venham a fazer muito sentido. Mas mais tarde a maioria de vocês estará apta a compreender os mecanismos que regem todas as coisas e a absorver a doutrina como um todo. Então alguns serão escolhidos para desenvolver os grandes Ritos. Tornaram a perguntar:

— Mas, então... esta nova crença seria uma nova “Religião”? — Quando você arruma uma mesa no domingo à hora do almoço, para receber convidados, você põe a melhor toalha, bons pratos, dispõe os talheres de maneira convencional e elegante. Serve uma boa comida e o melhor vinho. Pergunto eu: será que na Ilha de Bali esta mesa seria posta da mesma forma? Os alimentos seriam os mesmos?! Nisso você não está celebrando nenhuma “Religião”. É apenas o ritual do almoço domingueiro. No início eu disse que existem muitos tipos de crenças e que uma delas é a Religião. Mas nunca disse que toda crença é uma Religião. No caso do almoço, acreditamos que o melhor é fazer da maneira como descrevi, e ponto. É apenas algo que você faz ritualisticamente, semana após semana.

De certa forma eu concordei com a colocação feita, mas não ficou claro se a tal “nova Verdade” era mesmo uma nova Religião ou mera filosofia de vida. Acho que todos ficaram com a mesma interrogação porque, a bem da verdade, Zórdico não respondeu à pergunta. Mas esperamos. A resposta viria a seu tempo.

 

À medida que passavam as semanas fui me entretendo mais e mais com as reuniões. Nunca saía de lá sem ter várias coisas para pensar. Sempre ficava martelando na minha cabeça algum conceito, alguma colocação, algum vislumbre novo das coisas. Um dia Zórdico começou a falar sobre certas práticas que me eram familiares:

— Vamos mudar um pouquinho a linha de raciocínio agora. — Retomou ele. — Por exemplo, acho que todos já ouviram falar em acupuntura, não? As suas origens são longínquas, vieram caminhando paralelas à prática da Medicina Tradicional Chinesa e as mais antigas informações a respeito encontram-se no livro Hwang Ti Nei Jing. Mas até hoje desconhece-se como foi realmente criada. Vamos lá, em que se baseia a teoria acupunturista, alguém sabe?

— Acredita-se que o corpo tem uma “energia” que circula por todo o organismo através de umas vias específicas — os Meridianos! — Respondeu um homem.

— Isso. Existem dois tipos de energia circulando: o que eles classificaram como energia Yin, ou negativa, e energia Yang, ou positiva. A “saúde” é o resultado do equilíbrio entre estes dois tipos de energia. Por outro lado, o desequilíbrio gera a doença. Quando ocorre este desbalanço, um agulhamento de pontos específicos dos Meridianos pode reverter o processo. Acredita-se que a estimulação através das agulhas restaura o fluxo da energia. E a pessoa melhora dos sintomas!

Ele pigarreou rapidamente e continuou:

— No entanto, a raiz da acupuntura é Indiana, não sei se vocês sabiam disso! Os indianos não falam em Meridianos, mas em chakras. Assim como os chineses acreditam que a energia circula pelos Meridianos, os indianos falam em “Centrais de Concentração de Energia”. Isto são os chakras, pontos de muito acúmulo energético. Segundo a teoria indiana são sete os principais, e deles ramifica-se uma série de outros pontos. Os indianos acreditam que os sete principais chakras abrigam uma “serpente adormecida”, a Kundalini. A serpente é um símbolo de uma energia poderosa que pode ser liberada em determinadas circunstâncias. É uma serpente de fogo que dá força, poder e vitalidade. Da mesma forma os chineses liberam essa energia — o “chi” — através da técnica de “Chikow” com a mesma intenção: gerar poder! Interessante estes conceitos, não acham?

Remexi-me na cadeira. Aonde ele queria chegar??? Zórdico alçou um pouco o tom de voz inclinou-se sobre a mesa, aproximando-se de nós.

— Muito bem... a energia de fato existe. Mas é também um pouco mais do que isso. Kundalini, “chi”, o nome pouco importa. Tanto chineses quanto indianos desenvolveram técnicas para a manipulação e liberação dessa energia. Mas... será que é só isso? Vamos tirar um pouco mais o véu, vamos entrar “na caverna”. Vamos olhar este fenômeno mais de perto! Eles detêm apenas parte de Verdade. Nós somos privilegiados porque vamos olhar além deste véu. Eu vou acrescentar um dado a mais para vocês: os chakras, na verdade, são uma espécie de chave... para abrir Portais. São passagens para dimensões paralelas! — Inspirou fundo lentamente.

E nós nem respirávamos diante da afirmação. Quem estaria louco? Eles... ou nós???

— Vocês entendem que todas as dimensões estão aqui? Faamos um paralelo com o mundo material. Observem: todos nós somos seres tridimensionais, ou seja, temos altura, largura e comprimento. Certo? Mas a nossa sombra, que é a projeção dos nossos corpos tridimensionais, tem apenas duas dimensões: largura e comprimento, mas sem altura. Que tal dizer que a sombra é como que o “reflexo” de uma dimensão superior? Estão comigo? A sombra é projeção do corpo, projeção de uma dimensão superior. Se porventura existissem seres vivos na sombra, nessa vida bidimensional, eles nunca olhariam para cima porque o “para cima” não existe. A visão deles é eternamente horizontal, jamais vertical, mas nós que estamos na terceira dimensão, podemos contemplá-los. E eles nunca nos verão. Podemos tocar a nossa sombra ainda que ela não possa nos tocar. Isso quer dizer que é possível até mesmo interferir na vida deles. Fazer coisas que eles não saibam explicar, coisas que para nós são perfeitamente óbvias e normais. Por estar numa dimensão acima você tem mais poder do que eles. E eles dirão, à guisa de explicações: “Bom... Deus fez aquilo”. Ou então eles criam uma outra coisa qualquer, uma crença! Mas não foi Deus nem outra coisa qualquer, foi apenas um Ser que está numa dimensão superior àquela. Concordam?

Não havia muito o que concordar ou discordar, apenas ouvir para ver a que conclusão chegaríamos.

— Se os serezinhos da sombra falassem eles poderiam pedir coisas para mim e eu poderia realizá-las. Pois tenho mais poder sobre a vida deles do que eles próprios. Pode ser que alguma coisa aconteça e um dia eles queiram olhar para cima. Talvez alguém mais iluminado, ou mais inteligente, incentive: “Olhem, olhem para cima. Há um ser de três dimensões lá.” Só que, mesmo assim, a grande parte nunca conseguirá entender realmente o que é “olhar para cima”. Porque isso não faz parte da sua cultura! A maioria não compreenderá, certamente, mas talvez um ou outro perceba — e receba — o conhecimento. Zórdico sorriu:

— Para simplificar: adianto que existem doze dimensões espirituais. Sete dessas dimensões são alcançadas através dos sete Portais que mencionei anteriormente. As outras duas através de mais dois Portais que não vou mencionar agora. Isso é o que podemos acessar enquanto ainda estamos nessa vida. A décima - segunda dimensão só se acessa após a morte física. Mas, uma vez aberto o Portal, temos acesso aos seres que habitam ali. Porque é natural que existam seres nas dimensões superiores! Vocês vão aprender a abrir cada um dos Portais que possibilitam a sua interação com tais seres. Vamos ter experiências inter-pessoais com eles. Uma vez aberto o Portal a comunicação é mútua. Tanto nós passamos para lá como eles para cá.

Meus olhos soltavam faíscas na direção de Zórdico. Que coisa fascinante! Se realmente ele provasse tudo que esta dizendo... seria possível tal coisa?

— Para finalizar... pensem no seguinte: o que é a matéria? Em última análise somos formados por átomos. Todo o Universo o é. Mas será que você é diferente de um tijolo apenas porque os seus átomos estão agrupados de um jeito e os do tijolo de outro jeito?! O que faz com que você seja um ser pensante e o tijolo não? Talvez não seja realmente a sua composição física que o torne tão diferente do tijolo, mas o fato de que você tem uma energia vital que o tijolo não possui. Chame-a do que quiser: aura, corpo etéreo, fluido, serpente, “chi”... o nome não importa! Mas diferentes culturas têm se deparado com um poder latente contido no ser humano e que pode ser liberado. E eu estou dizendo como pode ser plenamente liberado: através da abertura dos Portais e do contato com estes seres que habitam as dimensões superiores.

Zórdico olhou para nós pela primeira vez naquela noite com olhar paternal.

— Sei que isso parece uma realidade estranha e até mesmo um pouco confusa. Mas aos poucos vocês irão absorvendo isto. Hoje ficamos apenas com esta introdução. Veremos tudo com mais detalhes em aulas posteriores, portanto contentem-se com isso!

O mesmo rapaz de antes inclinou-se novamente na direção de Zórdico:

— Só um pequeno questionamento. Sei que tudo é introduo, mas como posso saber que realmente essa é a verdade? Os chineses dizem algo, os indianos complementam a idéia, e nós, por nossa vez, vamos um pouco mais além. Mas... veja bem... cada um pode dizer o que quiser, não é assim?...

— Calma. — Interrompeu Zórdico. — Não se adiante, não se precipite no seu julgamento. Nós concordamos em morrer para nossas idéias prévias. Você não poderá absorver uma nova realidade sem abdicar da primeira. Escute primeiro. Deixe para tomar conclusões quando tiver o esboço teórico completo. E depois, como eu já salientei... tudo será provado. Quando começarmos os módulos práticos não haverá mais o que questionar. O mundo acredita em milagres: que uma perna mais curta que a outra cresce por meio de oração, por exemplo, sem que haja explicação para isso. E acreditam por quê? Porque viram a perna crescer, ou porque ouviram dizer, ou porque é mais fácil assim. Então por que você não pode esperar um pouco para ver se o que eu digo tem procedência ou não?! Se eu digo que existe um Ser numa outra dimensão, e que se você souber o que fazer é possível uma interação desse Ser com você...e puder provar o que estou dizendo... será isso o suficiente para vocês? Ou vamos continuar ignorando o olhar para cima?!! Apenas porque não compreendemos o que vemos? É mais fácil dizer “Isso não existe” só porque eu não posso explicar? Sem dúvida. Mas esta parte deixamos para os ignorantes. Podemos continuar com as crenças, com as verdades parciais, incompletas, distorcidas. Não trás tanta angústia, é muito mais cômodo. Nós fazemos tudo se encaixar e dormimos como anjinhos. Mas podemos também dar ouvidos a quem diz poder revelar além do véu... desvendar o Oculto... descobrir a Verdade.....! É uma questão de escolha. Mas vocês sentirão o que digo, verão, experimentarão isso. E passarão a acreditar. Cada passo... cada verdade... cada afirmação será provada. Na prática.

***

As vezes confesso que eu me questionava um pouco Mas pouco, porque logo as dúvidas me abandonavam. Eram pessoas tão cultas, tão inteligentes, um grupo tão seleto. Aquela casa enorme e toda a segurança no falar de Zórdico. Estariam tão enganados assim?!

Parecia tão improvável que eles gastassem seu tempo com algo irreal ou sem sentido... se estavam lá deveria valer muito a pena!! Caso contrário, pessoas como Zórdico não gastariam duas noites por semana com os estudos, às vezes três; nem Marlon deixaria seus negócios e viria buscar-me religiosamente. Deveria haver algo muito importante por trás do que eles diziam. E eu queria descobrir!

 

Continuei freqüentando as aulas ao longo de várias semanas.

Minha amizade com Marlon naturalmente se intensificou. Ele era bem humorado e simpático, otimista, estava sempre rindo, por vezes era até engraçado apesar de tanta diferença de idade entre nós. Eu o considerava uma pessoa muito especial e em quem passei aos poucos a confiar plenamente. Marlon fazia o papel de amigo e de pai ao mesmo tempo. Com ele definitivamente eu podia conversar sobre tudo. Não apenas sobre o que estávamos estudando nas aulas, mas sobre tudo mesmo. Ele me orientava em minhas dúvidas, me aconselhava, escutava com paciência e interesse sobre o colégio, meus amigos, Camila... tudo! Até com questões de matérias do colégio me ajudava às vezes!

Nos pontos polêmicos da minha vida, mesmo que discordasse de mim, eventualmente, não me recriminava. Procurava aconselhar mas sempre deixava a decisão a meu encargo.

Aquilo me surpreendia tremendamente. Parecia que ele de fato se interessava por mim, pelas minhas coisas. Me dava atenção. Me escutava. Não havia bocejos ou má vontade. Parece que Marlon também passou a me ver como um amigo a quem se apegava com carinho, respeito e interesse.

Eu realmente gostava dele. Cada vez mais. Sentia-me compreendido e importante. Nunca tinha experimentado esse tipo de coisa em nenhum outro lugar!

E Marlon era inteligente! Tinha uma capacidade toda especial para estimular o meu raciocínio. Eram conversas que me faziam pensar e pensar. Não era difícil estarmos falando sobre coisas corriqueiras, como preferir pão integral a pão comum quando, de repente, Marlon se calava ou perdia os olhos no vazio, mudava completamente o rumo da conversa:

— Você acredita no Infinito? — Indagou-me ele certa vez.

De início aquelas súbitas mudanças no tom e no teor da conversa me desnorteavam um pouco. Mas logo me acostumei. E caía de cabeça nas suas estimulações mentais e filosóficas! Marlon tornou-se aos poucos uma espécie de mentor particular.

— Não é questão de acreditar ou não! Afinal, o Universo é infinito!

— E você já esteve lá para comprovar isso?

— Não, Marlon, mas e daí? Está provado matematicamente que é assim.

— Tá, mas como podemos ter certeza? Dá prá imaginar algo sem fim?

— Imaginar não dá, mas....

— Será que não dizemos que o Universo é sem fim porque justamente ainda não fomos capazes de compreendê-lo?...E nem às dimensões paralelas que o compõem?

Antes que eu pudesse responder, às vezes ele desviava o assunto com um comentário novamente corriqueiro, do tipo:

— Legal essa sua jaqueta!

Ou então:

— É tão duro ficar preso no trânsito, não?

Eu respondia ao comentário e muitas vezes o assunto abordado morria ali mesmo. Só que quase sempre a “setinha” lançada por ele perdurava por dias. Eu pensava, pensava, repensava... até que às vezes Marlon dava continuidade ao mesmo assunto em outra ocasião. E me deixava filosofando com meus botões por mais alguns dias. Outras vezes eu mesmo o questionava a respeito de minhas dúvidas. E aquilo virou rotina.

Conversávamos muito antes das reuniões. Depois passamos a sair juntos esporadicamente, para tomar um café ou um refrigerante. Nossas conversas sempre terminavam com um elogio da parte dele:

— Sabemos quando a madeira é boa, forte, e vai dar um fogo bom. Você é essa madeira. Por isso tem tido toda a assistência de que precisa. Você precisa aprender logo porque o tempo é curto!

Parecia haver um senso de “urgência” em relação a mim, ele dava a entender isso às vezes, mas eu não compreendia. Fiquei encafifado. Será que ele se preocupava em consolidar alguns conceitos e me acompanhar mais de perto porque eu não estava absorvendo os conhecimentos da forma esperada? Sorrateiramente perguntei:

— Você acha que eu não estou indo muito bem nas aulas, Marlon?...

— Por que a pergunta?

— Bom... você gasta tempo em me ensinar por fora, em me adiantar os conceitos, em estimular o meu raciocínio. Isso é uma espécie de “recuperação”?

— Não seja bobo! Pelo contrário, Eduardo, você está indo muito bem! É inteligente e interessado, tem a cabeça aberta, quer aprender de fato. Como sempre digo, mesmo apagada sabemos quando a madeira é de qualidade, capaz de gerar muito fogo! Por isso você tem tido privilégios. Nosso contato próximo está longe de ser uma “recuperação”. A sua auto-estima pouco elevada é que faz você acreditar numa coisa dessas.

— Mas se estou indo bem, por que você me explica em particular, e me ensina? — Insisti. — E por que você diz que o tempo é curto? Curto por quê? Não estou aprendendo no tempo que era esperado?!

Novamente a mesma resposta:

— Você compreenderá mais tarde.

Caramba! E encerrava por aí. Marlon comentava do tempo chuvoso ou do dia de sol e mudava o rumo da conversa. Aprendi também a respeitar esse limites. Era a velha história da “comida de bebê” e da “feijoada”!

Eu não me dava conta, mas as sementes iam ficando. Aos poucos fui realmente mudando minha maneira de pensar e de enxergar o mundo, realmente eu estava trocando valores antigos por novos. Seria isso o novo nascimento?!...

O contato direto e freqüente com Marlon era importante, as suas conversas informais consolidavam nuances das mais diversas. Mas sem dúvida que as aulas ajudavam muito. A argumentação era farta e inteligente, Zórdico avançava lentamente mas com muita segurança. Nem me passou pela cabeça na época que talvez eu fosse o único do grupo com aquele acompanhamento diferenciado. Se soubesse certamente teria ficado a me questionar por quê ainda mais.

 

Em dado momento “esquecemos” por um pouco dos conceitos iniciais, deixando que eles fizessem a sua parte no nosso inconsciente e passamos a discutir um série de outros assuntos. Estes, a princípio, pareciam desconectados. Mas garantiram-nos que no final viriam a fazer sentido como um todo. Era como dissecar um cadáver: em partes e aos poucos!

Então, numa aula Zórdico passou a discorrer um pouco a respeito do que ele nomeou de “Artes Mágicas”. Relembro com muita clareza de detalhes a voz grave e pausada quando ele comeou. Repassei mentalmente muitas vezes aquela introdução. A partir daquele momento um mundo realmente novo começou a descortinar-se perante os meus olhos.

— A Ciência humana é a primeira a afirmar que usamos apenas uma pequena parte de nosso cérebro. Isso quer dizer que todo ser humano usa apenas uma ínfima parte de sua potencialidade. Temos um enorme potencial intrínseco, inerente ao nosso ser, mas que está dormente. Eu pergunto: e se pudéssemos aprender a desenvolver este potencial ao máximo?

A pergunta ficou ressoando no ar.

— E se... — Continuou Zórdico. — ...ao invés de nos sujeitarmos a utilizar tão somente dez por cento do potencial que temos, fôssemos capazes de usar cem por cento?! Mais ainda, e se houvesse a possibilidade de não apenas entrarmos em contato com os seres das outras dimensões, mas também fazer com que através da simbiose com estas outras formas de energia, potencializássemos a um nível “supra-máximo” a nossa própria energia?

Eu quase o interrompia com a gritante pergunta: “Como? Como? Como?!!!”

— Vamos fazer isto. Potencializar a nossa limitada capacidade! Eu lhes garanto ser isso plenamente possível. Vamos começar dentro de nós mesmos, vamos descobrir o oculto dentro de cada um. Aquilo que até a ciência sabe que existe mas que não conseguiu ainda acessar. Abramos, portanto, as portas do entendimento e descubramos o que somos ou não capazes de fazer. Daremos vazão à força que está dormente em cada um.

Minha mente estremecia, clamava por dentro: “Vai falar ou não vai?”

Finalmente Zórdico começou a dizer “como”:

— Existem formas de descobrir e potencializar as capacidades que estão ocultas dentro de nós. Temos algumas ferramentas para tal. As Artes Mágicas! Nas próximas semanas vamos começar a estudá-las ainda a nível teórico para que possamos nos aprofundar em cada uma a fim de que, quando chegar o momento de praticar, cada um possa colher grandes benefícios.

As semanas seguintes correram rápidas. E foram deliciosas para mim!

Eu aguardava ansiosamente os dias das aulas. Praticamente minha vida se dividia agora entre o Kung Fu e o Grupo, meus dois focos de maior interesse. Não havia muito mais tempo para nada. O resto — casa, família, escola, Camila — era o resto. Até mesmo a “29” foi ficando para trás.

 

O episódio que fez com que eu me afastasse definitivamente da Gangue aconteceu “por acaso”. Mas naquela altura da minha vida era difícil dizer que as coisas eram simples coincidências... parecia já não haver coincidências! Eu não sabia, nem me passava pela cabeça, mas era como se houvesse uma série de forças até então incompreensíveis agindo sobre mim.

Um dia eu estava com o pessoal na esquina costumeira, tomando vinho, tocando violão, fumando maconha. A bagunça de sempre. Eu estava no meio da turma que beirava bem uns vinte caras ali naquela noite. Até que chegaram duas pessoas bastante conhecidas: o Rumba e o Miçuka. O Rumba, bandido de verdade, velho e admirado conhecido de alguns mais barra pesada da “29”, chegou com a cara meio alegre. E o Miçuka, companheiro de brigas, já veio logo perguntando:

— Cadê o mano Catatau? A gente tá a fim de trocar uma idéia com ele!

Eu vim para perto deles com um sorriso de orelha a orelha, bem característico de quem já está com a cabeça cheia de vinho e de droga.

— Aeh, qualé que é, pessoal?! Querem umazinha aí? Foi o próprio Rumba quem explicou, sem rodeios: — Estamos com uma fita prá fazer. Tá a fim de entrar na onda?

— Fita? — Compreendi logo. — Eu?

— E, você! Cadê o Eder?

O Éder não estava.

— E o Cebolinha? — Perguntou o Miçuka.

Nada do Cebola também.

— Tudo bem, chega aí, chega aí. É você mesmo que a gente quer!

Me puxaram meio de canto. O Rumba continuou:

— Pois é, estamos com uma goma prá fazer e precisamos de um cara esperto prá ajudar a gente!

“Goma”, “Fita” era tudo a mesma coisa. Queria dizer assalto.

— E nós pensamos e...bom, tamos convidando você!

— Mas goma de quê?

— Vamos dar uma guindada num Banco, já tá tudo esquematizado. Já vimos como é que fica a coisa, só tem dois seguranças. As minas também já arrancaram a verdade deles na moral, ninguém quer morrer por causa de bandido, não! Eles disseram que o Banco tem seguro, o seguro que arque. Já morreu um amigo deles lá! Ou seja, tá mole, mole! Já sabemos que dia e que hora tem mais dinheiro nos caixas. A gente enquadra eles rapidinho. Só precisamos de alguém prá dar cobertura. Vai ser logo de manhã! E a gente foge no “batmóvel”, o opala preto do Babú!

O Babú era um cara gordo e muito doido, o maior encrenqueiro. Fazia musculação no Clube Palmares e quando cansava arremessava longe os pesos. Eu já tinha tido contato com a peça.

— Só que depois da primeira fuga, a gente troca de carro. —Continuou o Miçuka, animado. — O Rumba aqui vai estar esperando a gente em outro ponto. Trocamos de carro e de jaqueta. Normalmente o pessoal do Banco guarda essa história de roupa. Às vezes não lembram bem da cara da gente, mas lembram que o “sujeito estava com uma jaqueta preta”, coisa e tal.

— Por sinal isso aí faz parte, mano. Todo mundo de jaqueta preta no dia. Mas aí trocamos elas depois, já vão ficar dentro do segundo carro. E então? Dá prá contar contigo, brother? A tua função é dar um pano. — Falou o Rumba muito calmamente. — O Babú fica no carro, perto do Banco. O Miçuka, o Jamanta, e o Bolinha entram prá fazer a goma: o Miçuka e o Jamanta enquadram os guardas. O Bolinha faz a rapa nos caixas. Você fica fora, na porta do banco, nas imediações, e dá o alarme se pintar qualquer sujeira. Só que é o seguinte... se alguém da rua perceber que é assalto e tentar ligar de orelhão, tu apaga quem quer que seja. Tamos aí, é prá se queimar mesmo. Nós queremos um cara que não tem nada a perder, um cara meio doido, e sabemos que tu é assim mesmo. Nessa vida é ganhar ou perder. A gente tá jogando tudo, e jogando prá ganhar. E aí? Pegar ou largar! Só tá faltando mais um cara!

— O Bolinha já tá nessa também?

— Falamos com o cara ontem e ele topou.

Eu concordei sem hesitar. Nada de novo.

— Falou, meu irmão. Tá branco! Podem contar comigo.

Eles se alegraram.

— Vamos deixar uma PT na tua mão. Já estamos com ela! Qualquer coisa você mete bronca.

A PT era uma pistola automática. Estava aceitado! Éramos seis ao todo. Quando eles foram embora e eu voltei para o meio da turma da “29” foi debaixo da maior “moral”! Afinal, os caras tinham vindo falar comigo, tinham vindo “procurar o Catatau”! Era uma honra no reino da bandidagem...

A armação era para o dia seguinte mesmo. Nos reunimos mais cedo, às nove horas da manhã, antes do Banco abrir. Tomamos um café preto juntos, com pão e manteiga, na padaria. O Rumba ainda comentou:

— Esse é o nosso último café como pobres!

Depois entramos no carro do Babú e cheiramos uma “carreirinha” de coca prá aumentar a coragem.

O Miçuka me estendeu a PT prometida, carregada até a boca. Cabia dezesseis tiros. Dei uma olhada nela, mexi um pouco. Ele me mostrou como é que travava e destravava. E me deu a arma na mão.

— Já tá destravada, pronta prá mosca. Cuidado que o gatilho dela é sensível!

O Babú encostou o carro num posição estratégica. E deixou o motor ligado.

— É isso aí, galera. Vamos arrepiar!

Batemos na mão espalmada um do outro. Era hora!

O Miçuka, o Jamanta e o Bolinha entraram no Banco, um de cada vez. E eu fiquei fora, calmo, num jardinzinho que tinha em frente. Sentei na mureta que separava o jardim da calçada, abri o jornal, fiquei quieto. A manhã estava gostosa e os centros comerciais na avenida estavam abertos, o povo circulava em todas as direções.

Eu nunca vou saber explicar o que aconteceu...

De repente me veio uma sensação... uma sensação muito clara, tão clara quanto aquela luz do sol que eu estava vendo

“Não vai dar certo.”

Não sabia porquê. Estava tudo em ordem, tranqüilo, nem sinal de nada, de polícia... mas aquilo começou a martelar insistentemente dentro da minha cabeça. Não tinha lógica. Não era fruto do medo também, porque eu não estava com medo. Só aquela sensação estranha, forte. Cada vez mais forte. Foi questão de poucos segundos.

“Vai pintar sujeira hoje. Hoje não é o dia certo prá fazer isso!”

Levantei como se fosse de mola e entrei no Banco, que já estava cheio. Meus amigos estavam posicionados. O Miçuka fingia estar no telefone público (tinha um orelhão lá dentro), o Jamanta estava preenchendo uns papéis como se fosse fazer um depósito. E o Bolinha já estava na fila do caixa. Fiz discretamente sinal para o Miçuka primeiro. Ele entendeu muito bem o que eu queria dizer.

“Sujou! Corta! Cancelai Vamos embora!”.

Ele me olhou ligeiramente espantado, respondeu ao gesto dizendo para eu sair dali. E virou as costas prá mim, continuou fingindo que estava conversando com alguém. Não me dei por achado. Cheguei perto do Jamanta. Tinha mais gente por ali, de modo que passei a mão num dos papéis de depósito e escrevi: “Vamos desistir. Pintou sujeira.”

Ele apenas olhou e foi categórico:

— Tarde demais.

Ainda rodei rapidinho e fui até a fila, perto do Bolinha. Mas a reação dele foi a mesma. Ninguém quis desistir. Ainda daria tempo se eles tivessem me ouvido. Daria tempo de sair dali, fugir.

Corri até o carro, entrei meio estressado.

— Babú! Me ajuda a convencer os caras. Vai dar sujeira. Desiste. Vamos desistir, cara, sério!

— Pô, que é isso, Catatau?! Vai amarelar agora?

— É sério, não me pergunta porquê. Alguma coisa me diz prá não ficar aqui agora, eu sei, olha... não vai dar certo Entra lá comigo e me ajuda a abortar o plano hoje. Vamos desistir!

— Não delira, cara! Que besteira é essa?! Não tem nada de errado. A gente tá aqui prá tudo, até prá morrer!

Não adiantava.

— Bom... eu não quero morrer agora. — Respondi.

Desci do carro, mas mesmo assim fiquei por perto, não que

ria sair dali sem saber se eles iam conseguir. Mas aquela premente sensação continuava, me perturbava.

“Caramba... se eu ficar aqui eu vou me ferrar!”

Não deu mais do que cinco minuto e comecei a escutar as sirenes. Mais tarde fiquei sabendo o que deu errado. Parece que um dos caixas percebeu e apertou um botão de alarme e, por incrível que pareça, nesse dia a polícia conseguiu ser eficaz. Ainda mais que meus amigos demoraram muito prá sair de lá de dentro!

Não havia mais o que fazer ali. Eu estava de costas para o Banco, fingindo olhar algo no correio. Mais que depressa mandei a PT para dentro do bueiro: fingi que fui amarrar o sapato e joguei ela fora, dentro do saquinho de pão. Andei rápido um ou dois quarteirões prá não dar na vista, e depois saí em corrida desabalada para longe dali!

Cheguei em casa tremendo de verdade, nunca tinha sentido aquilo. Era estranho, estranho... como eu tinha escapado daquela??? E o que ia acontecer com eles?! Por que não me ouviram enquanto dava tempo, por quê??!!

“Droga... será que eles escaparam?! O que será que tá acontecendo?”. Eu não conseguia me concentrar em mais nada.

Fiquei entocado em casa o dia todo e a noite toda. Confesso que fiquei assustado de verdade. Não tanto pela polícia, mas por causa do que tinha acontecido. Aquela sensação. Que coisa mais estranha.

“E os caras?”

A notícia saiu até no jornal depois. Eles conseguiram fugir do Banco, mas houve perseguição. Parece até que trocaram de carro também. Mas a polícia acabou por pegá-los. Eles reagiram. Teve troca de tiros. E nessa todos eles morreram...! Todos menos o Miçuka, que foi em cana.

Mas no dia seguinte eu ainda não estava sabendo de nada. O Éder e o Júlio vieram falar comigo.

— Pô, brother, deu zica lá naquela treta! Apagaram os caras! Morreram, tomaram tiro.

Eu fiquei muito chateado. Muito chateado mesmo. Quase inconformado! Mas o pessoal da “29” ainda me deu razão.

— Caramba, eu tentei avisar eles! Eles não me ouviram!

— Foi melhor você ter ficado esperto. Se viu que a coisa não ia dar certo tinha mais é que abortar mesmo. Se eles tivessem te ouvido!

Alguns dias depois correram uns boatos de que o Miçuka tinha passado o meu nome. Apertaram-no na cadeia e ele teve que dizer que tinha mais uma pessoa envolvida. Meus amigos mais chegados se incumbiram de passar a informação prá Gangue inteira:

— Se aparecer alguém aí procurando o Catatau, ninguém sabe de nada, ninguém conhece, ninguém nunca ouviu falar dele, heim?!

Como eles tinham me dado razão fiquei um pouco mais confortável, mesmo assim levou tempo para passar aquela sensação de estranheza. Eu devia ter morrido também. Não tinha lógica nenhuma. Mas alguma coisa me avisou que não ia dar certo! E a polícia acabou não me procurando. Acho que nem deu tempo de pegar muita informação. O Miçuka se meteu em confusão na cadeia muito rápido, e mataram ele pouco depois.

Quanto ao enterro dos nossos amigos... infelizmente não ousamos aparecer. Certamente ia ter polícia na tocaia. Os familiares também não iam querer saber de dar de cara conosco. Tivemos que nos poupar.

Senti demais pelo Bolinha, um mano de tanto tempo. Foi um momento de muito pesar e tristeza na “29”. Arrumamos um jeito de dar adeus ao nosso modo. E enterramos os pertences dele, simbolicamente, em meio ao silêncio e respeito. Foi um momento de dor, sem dúvida. O enterro foi simbólico também em relação aos outros.

Naquele dia compreendi melhor, pela primeira vez, o que o delegado da sétima DP tanto falava. Que aquela vida não ia nos levar a lugar nenhum...

De fato. Era triste. Muitos dos meus antigos amigos aos poucos iam deixando de existir: eram mortes em confrontos com a polícia... mortes na cadeia... mortes violentas no meio das brigas... mortes por overdose de drogas... e, depois, mortes por AIDS.

Fiquei pensando. O episódio me abalou muito.

Mais tarde comentei com Marlon sobre o incidente.

— Você não acredita do que eu escapei, meu irmão!...

Marlon dificilmente me dizia o que fazer. Mas isso não o impediu de externar sua opinião.

— Não é o teu tempo ainda. Você tem muito o que fazer aqui. Não aconteceria agora, entende o que digo? Você foi real

mente preservado. Mas olhe... essa vida não vai te levar a nada, viu? Ficar se metendo com essas besteiras! Isso é coisa de ralé! Coisa de marginal, que não tem o que fazer.

Não tive o que responder.

— O que eles trouxeram de bom prá você? O que você aprendeu andando com essa gente?

— Eles são meus amigos.

— Mas é uma amizade que pode te levar à morte. — Ele deu de ombros. — Você merece coisa melhor do que isso!

E, bem ou mal, eu prezava muito o que Marlon me dizia. Talvez ele tivesse razão.

 

Uma tarde saí com Marlon antes da aula no Grupo. Ele tinha um tempo livre um pouco mais dilatado e eu aproveitei a chance para ajeitar também o meu horário de forma que pudesse estar com ele mais cedo.

Fomos ao Shopping e nos sentamos confortavelmente di

ante do café para bater papo. Já fazia um tempo que não fazíamos isso. Começamos mesmo só batendo papo mas daquela vez Marlon entrou de sola:

— Estamos quase encerrando o módulo teórico!

Parei o copo de coca-cola com gelo e limão à meio caminho da boca:

— Módulo teórico? — Eu ainda estava com a conversa anterior na cabeça.

— Sim. Nas aulas. — Esclareceu ele, sorrindo amistosamente. — Logo vamos começar a praticar um pouco de Magia, ao invés de apenas falar dela!

— Ah! Pôxa, Marlon, você consegue mesmo mudar de assunto, heim?!

Enquanto mergulhava a colher no café, recolhendo o chantilly que escorria derretido pelas bordas da xícara, Marlon continuou:

— Como você diria que está indo o seu aprendizado? Quer recapitular mais ou menos o que foi visto até aqui? A partir de hoje as aulas vão mudar um pouco.

— Chamadinha oral agora, é? — Retruquei com tom meio de troça.

— Você sabe que não precisa disso, Eduardo. De qualquer forma minha intenção de encontrá-lo mais cedo hoje foi com esse propósito.

Fiquei sério.

— OK. OK. Então, eu vou te dar aula, cara! Desta vez você é o aluno e eu o professor!

Ele cruzou as pernas e fez um gesto com as mãos, calmamente, como quem diz: “Prossiga. Sou todo ouvidos.”

Bebi o resto da coca-cola animado. Ajeitei-me melhor e bati com os dedos na mesa, sem perder meu senso de humor:

— Muito bem, aluno. Vamos à aula! Silêncio! — Limpei a garganta e procurei as melhores palavras. — Bom, Marlon, Vou tentar resumir ao máximo porque você mesmo sabe que aprendemos coisa prá caramba neste tempo todo! Quer dizer, eu aprendi, né? Você já sabia!

Marlon assentiu sem dizer palavra. Seus olhos apenas observavam-me profundamente.

— Temos “algo” adormecido dentro de nós... uma capacidade, uma força nata, um potencial. Em primeira instância, o objetivo é despertar isso! Despertar esse “oculto” dentro de nós. E aprender a usar esta força em toda a sua plenitude.

— Por quê?

— Ora... se só usamos uma pequena parte do nosso cérebro, da nossa energia, acabamos por viver uma vida medíocre e limitada. E prá quê isto? O despertar dessas forças dormentes e ocultas fará com que venhamos a descobrir também novos horizontes. E passemos a viver em maior plenitude. O caminho para atingir este objetivo vem através do que chamamos de Magia.

As palavras fluíam com rapidez sem que eu tivesse que parar para pensar muito. Aqueles conceitos estavam agora muito claros para mim, embora nada tivesse sido ainda vivenciado na prática.

— Magia não é “mágica”, como muitos incautos pensam. Magia é a arte de “canalizar forças”, tudo bem? Primeiramente a nossa própria força. Nossa energia dormente. Mais à frente, a Magia também possibilita o entrar em simbiose com outras forças, externas, com o mesmo objetivo.

— Que objetivo mesmo?

— Eu já te disse: é sempre o de potencializar capacidades dormentes. Seja desenvolvendo ao máximo a nossa força, seja permitindo um sincronismo dela com as forças do Universo, e mais tarde, com seres de outras dimensões! Enfim, prá resumir: em outras palavras, a Magia nos capacita a desenvolver poderes sobrenaturais.

— E como é que você explica isto?

— O “sobrenatural” só é sobrenatural porque o homem natural não entende e não explica. Mas nada mais é do que a liberação das capacidades dormentes que eu já comentei. — Olhei para Marlon e perguntei, zombeteiro. — Entendeu?

Ele continuou me olhando. Eu continuei:

— Veja só: toda criança recém-nascida sabe nadar, não é? Ela já nasce nadando, se deixarmos. Aliás, todo ser vivo nada, é um instinto natural. Só que a Sociedade bloqueia isso. Aprendemos a ver a água como sinal de perigo e passamos a ter uma espécie de comportamento... hum... comportamento condicionado! Assim, toda criança vai para a escola de natação para reaprender a nadar. Esta barreiras que são impostas, explícita ou implicitamente, limitam a nossa atuação. Mas são barreiras virtuais, e não reais. Digamos que a capacidade de nadar adormeceu, mas está lá! Esse, no entanto, é um exemplo limitado. Todo mundo sabe que o ser humano pode nadar, de um jeito ou de outro. O que quero dizer é que existem capacidades ocultas; isto é... nós nem suspeitamos que estão lá!

— Você poderia ser mais explícito? Me convença! Fale de pessoas, ou fatos, ou situações que provem que o homem pode realmente exercer poderes considerados “sobrenaturais”!

— Claro! Ora, isso foi tão exaustivamente enfatizado! Que tal as práticas tão divulgadas na Índia, os faquires que deitam sobre pregos ou andam sobre brasas e não se machucam? Você sabe que não é difícil a gente se cortar até com uma folha de papel, mas há quem possa mastigar vidro e não se cortar. A arte da levitação dos Monges Tibetanos é outro exemplo! Também os lhamas: eles são capazes de diminuir a tal ponto o seu metabolismo que podem entrar em estado cataléptico e até ser enterrados vivos. Os poderes de cura de certos pajés africanos são impressionantes. Pôxa, tanta coisa! Que mais? A maioria dos fenômenos considerados paranormais! Até no Kung Fu a gente vê isso, nas técnicas avançadas conhecidas como “Chikow”! Eu já vi algumas coisas que me deixam babando, Mestres que desenvolvem uma força tremenda para quebrar tábuas, tijolos e até pedras. Sem se machucar! Há uma infinidade de exemplos do que podemos chamar de “sobrenatural” espalhado em quase todas as culturas do globo. Isto quer dizer que tais coisas acontecem mesmo, são possíveis! Uns descobriram mais, outros menos, mas o fato é que estas capacitações especiais podem ser desenvolvidas. E nós vamos desenvolvê-las da melhor forma, através da Magia. Usando as técnicas certas atingiremos um desenvolvimento pleno e não somente parcial!

Marlon ainda insistiu um pouco:

— E a Ciência? Explica alguns desses fatos?

— Bem, a Ciência é uma “ciência limitada” e muitas vezes falha. Mas há algumas práticas que têm certo embasamento científico. Nada disso que eu citei até agora, mas por exemplo... a hipnose é uma prática que tem uma base neuro-fisiológica comprovada até certo ponto. É inclusive utilizada a nível médico e odontológico e pode, de certa forma, assemelhar-se um pouco ao que acontece em algumas das chamadas “práticas sobrenaturais”.

Ajeitei o cabelo que teimava em cair sobre os olhos. Continuei empolgado em “dar aula” para Marlon.

— Através da indução hipnótica condicionamos uma pessoa para que não sinta dor, por exemplo. E ela não sente! Há extrações dentárias e até cirurgias que são feitas só com a prática da hipnose. Não é sobrenatural no sentido literal da palavra. Tem base científica. A indução hipnótica causa alterações a nível cerebral, há modificação de neurotransmissores e a estimulação ou inibição de centros específicos do Córtex produz o efeito esperado. De certa forma as diversas Artes Mágicas que nos foram apresentadas fazem a mesma coisa: elas nos capacitam a ver além da visão, a ouvir o inaudível, realizar o impossível. Há uma espécie de “desbloqueio mental”, que acaba possibilitando o antinatural.

— Como você definiria as Artes Mágicas? Você acabou de dizer que Magia é Magia, e “mágica” é “mágica”!

— Mas eu não estou falando de mágica, Marlon, de “truques” para diversão!

— Seja claro, então!

Pensei um pouco.

— As Artes Mágicas são o instrumento da Magia. São reais. Não são truques! Elas aumentam a nossa sensibilidade; potencializam ao máximo as capacidades naturais do nosso ser.

Já que temos uma força natural que é nossa... usemos então!!

— E até onde vai esta capacidade humana? Qual o limite dela?

Dei risada:

— Aeh, Marlon! Até parece que eu tenho que explicar tudo para você, cara!!!

— Não deixa de ser um treinamento para você. Você falará sobre isso com muitas pessoas, em breve.

Parei de rir e respondi à pergunta:

— A capacidade individual difere de indivíduo para indivíduo, é óbvio! Não somos clones uns dos outros. Naturalmente há pessoas com maior capacidade de desenvolver “dons sobrenaturais” do que outras. — E antes que ele perguntasse, acrescentei. —Quando chegamos ao limite, isto é, à potência máxima...quando finalmente nos vemos aptos a usar toda a força oculta em nós, isso ainda não é o fim do Poder. Eu diria que é somente o começo...

Meus olhos deixaram de contemplar à volta e minha voz soou mais grave. Aquele ponto era uma espécie de “Shangrilá” para mim: um lugar ainda tremendamente inacessível mas desesperadamente desejado.

— Não é o fim... — Repeti, devagar. — Existe a possibilidade de interagirmos, eu e a energia que há no Universo, nesta e em outras dimensões. — Fiquei quieto.

Marlon respeitou meu momento introspectivo e colocou um pouco mais de água com gás em seu próprio copo e no meu. Bebi água e retomei, mais divagando comigo do que explicando seja lá o que fosse para ele.

Eu repetia o que tinha ouvido. Mas no íntimo do meu ser eu desejava ansiosamente poder comprovar aquelas teorias numa vivência prática e individual. Queria experimentar...

— Podemos atuar juntos com outras fontes de energia, em sincronia, visando um fim comum. Um fim proveitoso a ambos! Isso quer dizer acrescentar ainda mais poder à minha força!

— “Poder à Força... morte aos fracos.” — Complementou Marlon.

Inclinei lentamente a cabeça em direção a ele, olhei estranhamente em seus olhos. Ele completou o meu pensamento, mas que forma estranha de completar... queria perguntar o significado daquela frase, mas subitamente perguntar não parecia fazer sentido. E me calei. Esperei. A seu tempo...

De repente nossos olhos deixaram de encarar estranhamente um ao outro e parecemos voltar à realidade do Shopping. Marlon sorriu novamente:

— Enfim... que pode você me dizer, então, sobre as Artes Mágicas, afinal?!

— São várias, como você sabe. E têm diferentes graus de complexidade à medida que vamos nos aprofundando nelas. Mas tudo foi visto em tantos detalhes... como posso resumi-las em poucas palavras?...

— Seja simples. Não precisa entrar nos detalhes. Guarde-os para você. Os detalhes são nossos, não interessam a mais ninguém. Basta saber que funcionam!

Pensei um pouco novamente e recomecei: — As Artes Mágicas são instrumentos para que possamos abrir o nosso entendimento.

Comecei a discorrer sucintamente acerca delas: a quiromancia, a cartomancia, a radiestesia, a astrologia, a transferência bioplasmática ou vodú, a cromoterapia, a manipulação de ervas, o desdobramento, e a mais importante de todas: a numerologia. Nove ao todo.

— A numerologia é muito complexa. Ainda tenho algumas dúvidas que não tive tempo de tirar. Mas, enfim, há dois tipos: a esotérica e a cabalística.A esotérica é difundida no meio do público em geral e não tem interesse maior para nós. Ficamos com os conceitos da cabalística. Compreender a influência dela dentro do âmbito humano é uma tarefa delicada e complexa! Zórdico não entrou nos detalhes da origem da teoria mas é bastante antiga. Por hora vamos aprender superficialmente somente o conceito por trás dos números. Em outras palavras, sem nos preocuparmos como chegaram às conclusões, aceitamos simplesmente que os números dizem “tal e tal”. Conhecendo a interpretação deles temos grande chance de acertar, prever, enxergar, orientar. Ela pode dar dados referentes ao corpo, à alma e ao espírito. É a única Arte capaz de dar dados fidedignos do futuro distante. Tanto para nós, como para outros.

— Deus também tem os Seus números, sabe? O três, o sete, o dez, o doze, o quarenta, o cinqüenta, dentre outros... todos eles têm os seus significados! Da mesma forma a Magia também tem a sua forma numerológica de interpretar o mundo físico e o mundo não-físico. — Marlon assentia com a cabeça, aparentemente satisfeito com o meu desempenho. — E o que você diria da prática das Artes Mágicas, em termos gerais?

— Pois é... vamos lá! Sinceramente falando... algumas coisas são meio difíceis de engolir ainda. É muita teoria e não vimos realmente nada de prático. Estou aguardando que aconteça como Zórdico disse desde o início, que “tudo será provado”! Mas ainda não está acontecendo isso. Temos que aceitar que “são porque são”. Pelo visto não é o momento de adentrar a origem de muita coisa. Há que se conformar com os resultados.

— Mais do que puramente aceitar, você verá em breve que tudo que está aprendendo “é porque é”. Como dirigir um carro, sabe? Ao pisarmos no acelerador sabemos que a velocidade aumenta, mas não sabemos como se dá toda a Engenharia por trás disso. — Tranqüilizou-me Marlon. — Mas, mais tarde, você conhecerá os bastidores. A “origem” de tudo, como você diz! Eu lhe garanto isso. Não estamos trilhando um caminho de loucos. Apenas tenha paciência.

— Fico um pouco incomodado, é difícil esperar. Olhe, até pesquisei um pouco estas tais Artes Mágicas, por fora. Algumas coisas têm uma comprovação mais científica, sabia?...

— Oh, sim? — Ele sorria, um sorriso paternal e carinhoso. — E o que você pesquisou?

— Por exemplo, a astrologia. Parece vago dizer que é a “influência dos astros sobre os seres humanos. Parecia vago! Você sabe que não sou de aceitar qualquer balela, por mais que respeite o Grupo e tudo o que tenho aprendido. Mas fui atrás, lembrei-me de algo que tinha lido sobre o “Efeito de Maré”! — Dei uma risadinha. — Você sabe o que é “Efeito de Maré”?

Marlon sorriu de novo, aguardando.

— Te explico já! Aprendi com aquele livro “O Colapso do Universo”... viu, Marlon? Fui checar, viu?! — Fora ele quem me recomendara o livro. — Então, segundo a informação desse livro o tal “Efeito de Maré” é definido como a ação da Gravidade sobre diferentes pontos de um corpo qualquer. Parece muita física, né? Mas é legal! Sem enrolação agora: o Efeito de Maré comprova-se em corpos muito grandes. Por exemplo, a Lua sofre influência da força gravitacional da Terra. Mas a face lunar que está voltada para o nosso planeta está sob uma ação mais intensa do que a outra, pois está mais perto de nós. Por isso a face terrestre da Lua é abaulada, mais ou menos como se a Lua estivesse com caxumba! A Terra “puxa” esta face com muito mais intensidade! E não é só a Terra que exerce ação sobre a Lua, a Lua também faz o mesmo com a Terra...! A questão é: será que a Lua não agiria sobre quem está sobre a Terra? Nós, os seres humanos? Pois aí é que está! Se a Lua exerce efeito nas marés oceânicas não exerceria igualmente influência sobre o homem, cujos corpos contêm 65% de água?! Ninguém comprovou que o “Efeito de Maré” possa ocorrer a nível “micro”, em corpos pequenos como o nosso. Mas alguns dados são interessantes de serem analisados. Teoricamente a planta dos seus pés sofreria menor influência da fora de atração da Lua do que a sua cabeça, porque estão mais afastados dela. Haveria maior força atuando em cima do que em baixo. A questão é a seguinte: será que este efeito, por menor que possa parecer, não seria capaz de afetar a micro circulação cerebral e, consequentemente, os transportes ativos e passivos do organismo, o metabolismo, e até mesmo os transmissores químicos?! Existem coletâneas de evidências neste sentido. Por exemplo, ocorre maior número de assassinatos hediondos em noites de Lua cheia. Percebe aonde quero chegar? Daí vêm os termos “lunático”, ou “estar no mundo da Lua”, sabia?! Quem sabe não seria o

Efeito de Maré” da Lua em relação ao corpo humano? Que levaria a uma alteração cerebral qualquer que potencializasse as tendências psicopatas? Ou seja, a Lua, quando assume aquela posição que chamamos de “cheia”, teria uma maior tendência de influenciar indivíduos predispostos?...

Parei para tomar fôlego. Tinha até esquecido da água. Bebi de uma vez, explicando-me:

— Também parece que ocorrem maior número de acidentes em noite de Lua cheia. Até Lobisomem gosta de Lua cheia! — Gracejei. — Bom... tudo isso só para dizer que a astrologia talvez tenha lá o seu quinhão de verdade. Os astros poderiam de fato influenciar um indivíduo....! A estatística parece apontar para essa possível influência. As forças emanadas do Universo, assim como a gravitacional, não são vistas. Mas sentidas! E sofremos influência delas. Pode-se não perceber, e mesmo assim estar sob influência dos astros, de campos energéticos e de ondas eletromagnéticas. E isso levaria a potencializações ou diminuições de capacidades humanas. Mas, claro, a astrologia não é uma ciência exata. Na verdade não se pode nem chamá-la de “Ciência”. A leitura astral indica tendências. Como a hora do almoço: meio-dia é hora de almoço e há muita chance, alta probabilidade estatística de você almoçar... mas isso não quer dizer que realmente venha a fazê-lo!

— Gosto de ver como você tem aprendido rápido, filho. Isso é bom... muito bom! — Deu-me uma pancadinha no ombro. — Mas não gaste todo o seu tempo procurando explicações para o que tem escutado no Grupo dentro da ciência humana. Você já aprendeu o quanto ela é falha; certamente as respostas certas não virão por esse caminho. É louvável o seu interesse, por isso mesmo eu recomendei o livro. Mas não espere encontrar as respostas neles. Não se esqueça de que estamos estudando “o Oculto”. Se ele já estivesse nas prateleiras das Bibliotecas não seria Oculto. Concorda? Quanto às Artes Mágicas que você tem aprendido, mesmo estas que são tão amplamente divulgadas como a própria astrologia... esqueça a interpretação corriqueira que se encontram em todos os círculos. No Grupo você está tendo acesso, digamos assim, ao “cerne” da questão. Mais ou menos como a história da acupuntura, que usamos como exemplo logo no começo. Mesmo porque o material do qual estão sendo tiradas todas as informações que você está recebendo é de uso exclusivo nosso. Não pense que vai encontrar por aí qualquer coisa semelhante. Porque é fruto de revelação! Aguarde e verá!

Marlon fez um sinal ao garçom e pediu outro café antes de continuar. Eu esperava pelo que viria. A conversa não parecia encerrada. Falei ainda um pouco sobre cada uma das outras Artes Mágicas.

— Creio que você aprendeu a parte teórica além do esperado, quase que podemos discutir de igual para igual o que foi ensinado!

Elogiou ele sinceramente.

Embora eu achasse que ele estava exagerando um pouco, observei-o sem dizer nada. Marlon me despertava profunda admiração, tinha um tremendo carisma. Eu queria aprender o máximo que pudesse com ele!

Meu amigo só voltou a falar após ter sua nova xícara de café diante de si.

— Sabe, Eduardo, eu te elogio com sinceridade porque você aprendeu a teoria da coisa. Mas nem todo aquele que conhece a teoria pode realizar a prática. — Sorveu com calma o café, o olhar um pouco à distância.

Esperei quieto, sem perguntar. Já o conhecia o suficiente.

— Nosso corpo, essa carne que conhecemos e podemos pegar, só vive porque há algo além dela que lhe confere a vida. Chame do que quiser. A maioria gosta do termo “espírito”.

Até aí, tudo bem. Mas o que isso tinha mesmo a ver com o que estávamos falando?...

— A vida do corpo, da carcaça, está no espírito. Sem ele não haveria vida. É este “algo além” da matéria que faz com que vivamos! Pois bem... até agora você aprendeu Magia do ponto de vista horizontal apenas, puramente teórico. Qualquer um pode fazer isso. Basta um pouco de inteligência. Todos podem aprender o racional, o conteúdo, a teoria, o básico, a matéria. Se o objetivo fosse só este não haveria porque você vir às aulas. — Marlon abriu bem os olhos para mim. — Entende isso, meu filho?

Assenti, ainda sem questionar.

— Pergunto eu: temos estudado a “carcaça”, o envoltório, a superficialidade. Assim como o corpo não é nada sem a sua energia vital, sem o seu espírito... a Magia também não é nada apenas a nível teórico.

Senti novamente aquela já conhecida sensação de magnetismo, quando meu interesse era excessivamente despertado, quando parecia haver a iminência de algo no ar. Meus olhos não se desviaram mais do rosto dele. Marlon sem dúvida era muito inteligente nas suas colocações. Ele apontou para a xícara de café preto que acabara de pedir. Tirou do bolso uma moeda e a jogou dentro do líquido quente.

Então voltou-se para mim e perguntou:

— Como você faria para pegar a moeda?

Estiquei a mão rapidamente para caçar a moeda com a colher ou o garfo. Marlon interceptou-me:

— Não, Eduardo! Você só vai cutucar porque viu que eu joguei a moeda! Mas, e se você não tivesse visto o que era? Se simplesmente soubesse que existe algo precioso lá dentro?! Algo de valor?

— Bom... — Respondi. — Então eu seria obrigado a beber o café!

— De fato. Seria a melhor maneira de descobrir o que está no fundo. Em outras palavras: você teria que absorver o negro, absorver o Oculto, apropriar-se dele... para perceber — e receber! — o brilho da moeda, a luz da sabedoria que estava inacessível.

Marlon afastou a xícara para a outra extremidade da mesa e continuou:

— Da mesma forma com a Magia. O que existe além da numerologia, da cartomancia, da astrologia?! É simplista dizer que a alma da astrologia está somente no Efeito de Maré! O que existe além do conceituai? Onde está a “Força Vital” da Magia, aquilo que faz com que ela...”viva”? Por exemplo, os egípcios construíram as Pirâmides, não é? Hoje em dia podemos construir também, qualquer engenheiro pode fazer uma Pirâmide igual à de Queóps. Basta seguir a teoria. Mas sabemos que a Pirâmide, quando construída dentro de determinados padrões e medidas canaliza energias que vão além do nosso entendimento. Transcendem o conhecimento da Engenharia. E mesmo que pudéssemos entender, pura e simplesmente, que estas forças existem, ainda assim não é tudo. Usá-las em benefício próprio é muito diferente. E essa é a proposta da Magia! Canalizar forças em benefício próprio. A partir de agora você vai começar a desenvolver o que chamamos de Terceira Visão. Visão além do alcance. O “espírito” da coisa!

— Você poderia exemplificar melhor, Marlon?

— Olhe ali. — Marlon apontou pela janela ao nosso lado, de onde podíamos ver a rua lá fora, e os carros aglomerados na calada. — Observe o homem de camisa azul. Está vendo?

— Aquele que está abrindo a porta do carro, segurando uma pasta? Estou.

— Você é capaz de dizer o que ele fará nos próximos segundos, não é?

— Vai abrir o carro, por as coisas dentro, dar a partida, sair pela rua. É óbvio.

— É fácil, sim. É a interpretação lógica. Como também é fácil e óbvio dizer que uma determinada seqüência de cartas diz isso ou aquilo, ou que determinada conformação astral “A” ou “B” pode propiciar isto ou aquilo. Basta estudar um pouco. Mas quando eu falo em Terceira Visão estou querendo dizer que, de repente, você poderia olhar para o tal homem, que realmente está indo embora com o seu carro, e dizer, quem sabe, o que ele vai fazer em seguida, ou qual é o seu nome, se é ou não casado. Esta é uma sensibilidade além dos fatos, além da lógica.

Fiquei pensativo.

— Pôxa... — Perguntei finalmente. Eu estava sempre me perguntando sobre os “por quês”. — Como será que isso acontece, Marlon?

— Eduardo, não haveria como explicar “como acontece”. No momento basta você saber que “acontece”. Vamos a isso!

Ainda assim não me dei por achado. Mas assenti. Comecei a cutucar a xícara de café com a ponta da faca. Após algumas tentativas, a moeda veio para fora e rolou sujando a toalha. Peguei-a na mão, distraído.

— Sabe, cara, amanhã tenho prova no colégio e não estudei nada. — Afirmei, em tom meio que de reclamação. — Acho até que nem deveria ir à aula no Grupo hoje à noite. Acabei zoneando muito durante o curso e não estou sabendo direito oxi-redução e cálculo estequiométrico.

Marlon não pareceu dar bola para a minha queixa. Ao contrário, continuou falando:

— Você sabe que a nossa mente é muito poderosa e ela é capaz de gravar todos os fatos sem perder nenhum.

Não respondi e deixei-o ir adiante.

— Imagine só uma passarela de mais ou menos cinqüenta centímetros de largura. Se você tivesse que cruzar um ribeirinho sobre ela, a um ou dois metros de altura, seria fácil, não é?

— Acho que sim! — Respondi, com um muchocho Ele nem me respondera sobre a prova!

— Agora imagine que você fosse andar sobre a Muralha da China, e esta fosse da mesma largura: cinqüenta centímetros Que aconteceria? Você olharia para baixo e embora sua mente afirmasse que aquele espaço é mais do que suficiente para você passear, sem cair, o medo seria tão grande que bloquearia tudo A razão, o senso de equilíbrio, tudo. Provavelmente você cairia ou não seria capaz de dar mais do que meia dúzia de passos

Olhei para ele interrogativamente sem saber aonde íamos chegar. Compreendendo o rumo dos meus pensamentos, Marlon sorriu:

— Sua prova é mais ou menos como este exemplo.

— Ah! É?...

— Sua mente grava tudo, mesmo que você não se dê conta disso. Algumas vezes você não consegue é acessar a mensagem gravada, mas está lá! O medo de ir mal na prova faz com que você bloqueie o acesso à informação que foi guardada na mente É o famoso “branco”! Comum em Vestibular, né? Eu já prestei e sei. Até quem estudou muito durante o ano... às vezes o stress se torna tão tamanho que a pessoa simplesmente “esquece” as fórmulas os conceitos, a matéria. Quando começa a se acalmar, a informação acaba voltando, não é assim?

Ele então me orientou calmamente:

— Você não precisa deixar de ir ao Grupo por causa da prova. Antes de dormir leia toda a matéria em voz alta, uma vez só. E pronto! Vá dormir sem receio, garanto que sua mente arquivou o necessário. Não tenha medo. Só não se esqueça... após ler, fale as seguintes palavras... — E Marlon recitou em voz clara uma frase esquisita, numa espécie de linguagem que eu não conhecia.

Achei muito interessante aquela história toda e a convicção dele ao me falar à respeito. Decidi que iria tentar.

— Como é mesmo isso aí que você disse?! — E decorei as palavras conforme ele me ensinou.

— Estas palavras vão funcionar mais ou menos como um reflexo condicionado para a sua mente. Vão ajudá-lo a acessar as informações que você arquivou.

E sem mais essa nem aquela Marlon fez sinal ao garçom para fechar a conta.

Fomos para o Grupo mas eu permaneci calado a maior parte do tempo, pensativo. Até que seria uma boa se aquilo funcionasse mesmo!

 

Na época eu não poderia realmente compreender como aconteceu. Fato é que funcionou!!!

À noite, após chegar em casa, separei o material, as apostilas e os exercícios que cairiam na prova do dia seguinte. Já era tarde mas li com cuidado e em voz alta, exatamente como Marlon me havia orientado. Pronunciei por fim as tais palavras e fui dormir com a sensação de que não absorvera praticamente nada daquilo. Mas valia a pena tirar a limpo, mesmo que me custasse nota baixa. Pelo menos eu provava para mim mesmo que aquela teoria toda não dava tão certo assim!

No dia seguinte eu estava ansioso para receber as questões. Sinceramente eu não me lembrava de muita coisa, mas também nem procurei lembrar. Em breve eu ia ver se minha mente tinha ou não tinha captado as informações conforme Marlon dissera.

Não dei bola para os colegas mais criteriosos que insistiam em decorar furiosamente os últimos pontos. Furtivamente alguns outros davam as últimas checadinhas em suas “colas” feitas debaixo da carteira, na manga da camisa, na calculadora, na borracha...

E eu nem aí, fiquei na minha e não me preocupei. Fiz questão de não decorar coisa alguma. Queria só ver!

Observei Camila que comparava exercícios feitos às pressas com a “Estranha”.

Quando o professor distribuiu as avaliações eu aguardava com ansiedade incontida, tamborilando sobre a carteira. Havia testes e questões escritas.

Como de costume dei uma rápida vista d'olhos em todas as questões. Não senti nenhum “efeito paranormal”, para surpresa minha. Esperei um pouco e como nada acontecesse, comecei a resolver os exercícios. Achei a prova muito fácil, respondi rapidamente sem grandes dificuldades, a matéria fluía com facilidade. Saí logo, mas também um pouco frustrado:

— Caramba! — Pensei comigo mesmo. — Agora é que não vou conseguir chegar a conclusão nenhuma. A prova foi muito bico! Qualquer um fazia, mesmo sem ter lido a matéria!

Mas não foi o que a turma comentou. Ninguém achou a prova tão fácil assim e minha nota foi uma das melhores. Coincidência ou não, o fato é que não me convenceu muito. Seria uma gota de Magia... ou somente o acaso?!! Repeti o mesmo ritual de estudos nas provas seguintes, afinal o ano estava encerrando e havia uma avaliação atrás da outra. E eu acabei me saindo sempre muito bem. A matéria toda me chegava à mente com tremenda clareza e muita fluência.

Acaso??? Ora!!

Ainda que eu não pudesse realmente explicar “porque” acontecia... era como me dissera Marlon... realmente acontecia!!! E eu achei o máximo!

 

Eu estava sentado na carteira do fundo, meu lugar habitual. Faltava ainda uma meia hora para o início das aulas da noite e a sala estava vazia. Meu olhar vagueava alternando entre o quadro-negro, as janelas de vidros opacos e as luminárias de gás néon.

Finalmente voltei a examinar os papéis que tinha à minha frente, sobre a carteira. Apoiei o queixo sobre o punho e baixei a cabeça, pensando e repensando. Depois simplesmente deixei-me ficar rabiscando o tampo da carteira. Todos os dias eu adiantava a minha “obra de arte”; aperfeiçoava os traços, coloria, sombreava...a cara alegre de um ser vampiresco, reminiscências da minha infância. Com o meu eterno toque de bom humor ele não parecia muito sinistro, pelo contrário, era até muito simpático, com um arzinho infantil e inocente!

Eu riscava e rabiscava mas minha mente estava longe dali. Nem prestava a costumeira atenção ao desenho.

Mas acabei por voltar a remexer nos papéis. Era até desanimador! Diante de mim eu tinha alguns mapas numerológicos, feitos através de numerologia cabalística. Eu tinha por aquela arte um fascínio especial; talvez porque fosse a que se considerava mais fidedigna. Eu treinava mapeando pessoas conhecidas. Fiz o meu, claro, em aula, e depois passei a treinar sozinho usando minha família, Camila... mas os resultados eram tão medíocres!

Os números têm a capacidade de dar tanto um perfil da personalidade externa quanto interna, podem caracterizar uma pessoa de forma bastante peculiar, com grande minúcia de detalhes. Pode revelar aspectos ocultos como a personalidade de alguém, seu inconsciente até, seu caráter imutável.

Mas os meus mapas não descobriram ninguém que pudesse chamar a atenção, pelo menos com base nos números. Eles revelavam pessoas de índole fraca, por vezes quase que desequilibradas, pouco convicta dos seus valores, desestabilizadas muitas vezes. Pessoas à deriva no mundo, que não saberiam ouvir a voz do seu “eu interior”.

Os dados também não indicavam qualquer predisposição especial em nenhum sentido; nada de dons especiais e nem tendência a desenvolver grandes capacidades. Não revelavam poder, ou ousadia, ou sabedoria, ou espírito de aventura... nada! Era desolador! Pessoas comuns demais...

O pessoal começou a entrar na sala e meu devaneio foi interrompido. O ambiente lentamente foi-se tornando mais ruidoso e eu acabei guardando meus “resultados de pesquisa” dentro do caderno. Ninguém deveria nem ver aquilo. Aliás, até o presente momento mais ninguém sabia de nada. Ou melhor... quase ninguém. Thalya começou a questionar um pouco quando reparou em minha ausência às aulas duas vezes por semana.

Ainda que as reuniões começassem mais tarde e eu pudesse assistir às duas primeiras aulas, normalmente não era o que acontecia, eu usava aquele tempo para treinar mais Kung Fu, por exemplo, e acabava mesmo faltando todas as terças e quintas Mas diante do questionamento fui seco e objetivo, nem com ela me abri. Disse somente que estava freqüentando um Grupo que estudava alguns assuntos de meu interesse. E só. Nem pronunciei a palavra “Oculto”. Apesar de Thalya ter tomado ciência das cartas de São Francisco inconscientemente eu sabia que não poderia dizer nada mais. Pelo menos... por enquanto!

Mas Thalya não conseguia nem disfarçar de tanta curiosidade à respeito, principalmente porque eu era muito curto nas respostas. Volta e meia lá vinha ela:

— Mas você não vai mesmo me contar, Edú?!

A insistência era porque eu e ela estávamos acostumados a não ter segredos um com o outro. Thalya de fato vinha estranhando minha atitude. O que poderia ser maior do que a nossa amizade?

Mas eu não cedi, e nem fiz clima de mistério. Era sério demais para brincar. Então eu apenas me abstinha de falar à respeito. As indagações acabavam sempre partindo dela.

Sorri meio que sem querer lembrando daquilo. Às vezes não queria dar o braço a torcer e fazia de conta que não estava mesmo ligando. Mas eu sabia que ela estava de anteninha em pé; qualquer brecha já era motivo para especulações!

E falando em Thalya... lá vinha ela entrando com a bolsa a tiracolo e uma saia de estilo indiano que eu achava muito bonita. O cabelo solto esvoaçava, todo cacheado. Estava linda como sempre. Thalya era muito popular na turma. E cobiçada. Eu me orgulhava de ser o único cara da escola com quem ela andava. Isto é, com quem ela tinha uma amizade “especial”. Ela tinha outros amigos, é claro, mas o nosso envolvimento fazia com que ela não dispensasse tempo demais com qualquer outro. Fora do colégio... eram outros quinhentos! Ela que andasse com quem quisesse. Mesmo porque, eu tinha Camila. Camila é que era a namorada... Thalya era somente “amiga”!

Ela veio direto para o meu lado. Cumprimentou-me com um beijo “de selinho”, comum entre nós dois. — Oi! Tudo joinha?! — Tudo em cima. E você?

— Legal. Vi meu pai estes dias, coisa tão rara!

— Ah, é? E já viajou de novo?

— Pois é! — Thalya deu de ombros.

Ela logo se esqueceu do pai e passou a falar do Herbert, entre risos e com bom humor.

— Você não imagina o que aquele coelho aprontou!

Era muito difícil vê-la cabisbaixa ou irritadiça. Conversamos com animação até a entrada do professor.

Foi lá pelo meio da aula que me veio a idéia, meio que do nada:

— Vou fazer o mapa da Thalya!

Olhei para ela que, meio perdida no meio do cabelo, distraída desenhava na margem do caderno.

 

Dediquei parte do final de semana à confecção do mapa de Thalya. Estava empolgado e curioso. Não sei por que não tinha me lembrado antes!

“Eu gostaria de saber mais sobre ela.”, refleti.

Aquele algo mais que ela dificilmente demonstraria, que ficaria escondido até mesmo diante daqueles que a conhecem mui

to bem. Queria ter uma idéia do que estava no âmago, no íntimo do seu ser. Mesmo que eu não me sentisse de fato romanticamente atraído por ela era divertida aquela pequena “invasão de privacidade.

Thalya era carismática, alegre, simpática, extrovertida, muito inteligente...isso eu já sabia. Mas o quê mais?!?

Eu queria abrir aquela porta dentro dela, espiar um pouco; queria olhar além dos muros, além dos jardins externos da sua personalidade. Adentrar a casa da sua vida, conhecer a sua verdadeira natureza, chegar até o seu quarto, ver como as coisas estavam dispostas... lá dentro! Saber se o que eu enxergava por fora era verdade mesmo ou não. Queria conhecê-la melhor!

Os números me permitiriam isto, poderiam me dar uma dica, um vislumbre. Eu não estava mais a fim de viver uma mentira idealizada. De repente a feitura do mapa me pareceu uma abertura rumo à verdade sobre minha amiga.

E fiz, fiz o mapa com esmero. Quando terminei o trabalho, no entanto, deparei-me com algo que definitivamente não esperava. Olhei o resultado, tentei encontrar uma explicação lógica e acabei indo pelo caminho mais fácil:

— Claro!! Devo ter errado os cálculos em algum ponto! Refiz tudo.

E obtive os mesmos resultados. Caramba.......!

Agora eu não entendia mais nada. Será que era possível acontecer algo assim? A probabilidade era, penso eu, meio remota. Decidi que o melhor a fazer era conversar com Marlon a respeito.

Aquilo era muito estranho...

 

Contatei meu amigo assim que possível.

— Marlon, olha, acho que eu errei alguma coisa aqui. — Fui começando e estendendo a ele os papéis.

Ele parecia já saber do que se tratava. Nem pegou os números.

Essa moça, essa sua amiga... não foi por acaso que você se interessou pela numerologia dela.

Desprezei o fato dele acertar na mosca, aparentemente sem dados para tal. Volta e meia Marlon acertava em cheio as coisas que me diziam respeito, ultrapassava a lei da probabilidade. Mas eu já estava de certa forma acostumado. E como ele já parecia inteirado do assunto, simplesmente prossegui, sem perder muito tempo com explicações.

— Pois é, você sabe, sei lá como é que você sabe, mas... fiquei surpreso! Acho que essa é a palavra. Qual a possibilidade disto acontecer?!

— Praticamente nenhuma. — Ele foi categórico. — Você sabe disso.

— Os cálculos estão certos, então!

— Estão. Você sabia que estavam.

Inspirei fundo e me calei por um pouco.

— Essa moça é sua alma gêmea. Juntos, vocês dois vão se tornar muito fortes.

Como assim, alma gêmea?! — Eu não estava compreendendo bem. Aquilo parecia uma coisa meio fora de propósito.

— Algo mais ou menos como as duas metades de uma laranja! Que se complementam! Ao lado dela você será capaz de realizar coisas que não poderia se estivesse sozinho. Você e ela... juntos... representarão muita força no futuro.

Eu não sabia o que dizer. Fiquei olhando para Marlon com cara de espanto, procurando as palavras certas mas não as encontrei. Ele respeitou meu silêncio e perplexidade. Por fim, encostou a mão de leve sobre o meu ombro no gesto paternal de sempre e falou com voz branda:

— Você não acha que já está na hora dela fazer parte do Grupo?

— Bom... mas... por quê? — Eu realmente não sabia o que dizer. — Estava previsto que ela faria parte?

— Não exatamente. — Respondeu Marlon um tanto ou quanto enigmaticamente. — Nós estávamos esperando que partisse de você, que você desse o primeiro passo e descobrisse por si mesmo. Como eu já disse: sua descoberta não foi por acaso! Você pode não perceber, Eduardo, mas a sua força interior está se desenvolvendo mesmo antes que comecemos a realizar qualquer coisa de cunho mais prático, no rigor da palavra. Esta força interior capacitou-o a descobrir sua alma gêmea sem que nós tivéssemos que apontá-la. É como a agulha de uma bússola, que encontra o caminho certo sem que ninguém o indique.

Ele continuava me olhando, e eu o olhava de volta sem desviar minha atenção. Marlon pigarreou e concluiu:

— Existe um campo energético entre vocês. Sua energia interior simplesmente captou-o, e acionou a bússola para que você fosse em direção a ela.

Mais uma vez eu estava meio pasmo. Não fui capaz de esboçar reação. Coisas da Magia...?

Mas fiquei pensando a respeito. Era verdade que nós nos dávamos bem, bem até demais se fosse levar em consideração a minha índole. Eu a compreendia e era compreendido. Havia cumplicidade entre nós, essa era a verdade, um elo forte desde o início. Mas daí a ver Thalya como uma espécie de “cara-metade” já era um outro passo! Eu teria que pensar a respeito, me acostumar com a idéia. Aonde tudo isto nos levaria?

Marlon interrompeu o curso dos meus pensamentos com outro sorriso e uma palavra de incentivo:

— Que bom que você a encontrou! Que você soube seguir a direção certa! Que bom que você está aprendendo a escutar e seguir a sua voz interior. Eu sei que você não compreende bem o que eu estou te dizendo agora, talvez pensando que tenha sido tudo mera coincidência. Mas em breve você verá que não é assim. A sua voz interior falará cada vez mais alto em sua mente. E chegará o dia em que você poderá finalmente ouvi-la. Ouvi-la mesmo, audivelmente, palpavelmente.

Tornei a arregalar os olhos, só que dessa vez era de surpresa: — Sério?!!...

Marlon assentiu com a cabeça:

— Você verá. — E mudando de assunto, orientou-me. — Bem, Eduardo, Convide-a para nossa próxima reunião! — Pôxa, convidar já?! Não sei nem se ela vai aceitar assim!

Marlon novamente afirmou com muita convicção, sem hesitar:

Ela vai aceitar, sim. Apenas convide-a.

Concordei baixando novamente a vista para os cálculos numerológicos que estavam ali. Meus olhos percorreram devagar cada número. Analisei-os. Decorei-os.

Cada um deles, do primeiro ao último... eram exatamente iguais aos meus!

 

No dia seguinte convidei Thalya. Como Marlon havia dito, ela aceitou de muito bom grado, sem perguntas ou questionamentos a respeito.

— Legal! Que bom que você enfim resolveu me chamar!

— Meu amigo passa sempre no mesmo lugar e virá buscar a nós dois. — Contei sobre Marlon e nossa recente amizade com orgulho. — Vou cabular aula como de costume. Você se encontra comigo em casa ou na frente da Igreja. Mas sabe, acho que você vai gostar do Grupo, é uma coisa bem diferente mesmo. Estuda o Oculto de forma séria. Ainda bem que você vai chegar antes de começarmos a prática. É o que sempre estivemos buscando, você e eu. Vai ver só!

Os olhos dela brilhavam ao escutar minhas palavras.

— Não dá prá acreditar que aquelas cartas iam dar nisso! Puxa, se for mesmo assim como você está dizendo...parece que vale a pena, né?

— Vale. Pode crer! O pessoal é super-culto, inteligente, de ótimo nível social. Realmente não é como vimos por aí. O besteirol de sempre!

— Pô....

Dei a ela uma pequena introdução de como funcionavam as aulas e o que eu estivera aprendendo naquelas semanas. Esmiucei os conceitos o melhor possível para que ela pudesse acompanhar sem se sentir muito perdida. Ficou combinado que nos encontraríamos em frente à Igreja.

Na noite seguinte ela estava mais animada do que eu. Quando o carro de Marlon apontou eu avisei:

— É ele!

— Uau... — Thalya não conseguiu conter o murmúrio de admiração. — É nesse cairão que