Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites
Uma Púpila Rica Ato 3º
— Espaçosa [sic] sala interior: porta ao fundo, pela qual se apercebe mal outra sala onde se ouve música e se dança: ao lado direito, porta abrindo para um gabinete: portas laterais, brilhantismo de luz: sinais de festim.
Peregrino
Também te aborreceu o jogo de prendas?
Carlos
Se Júlia é intolerável!... Há meia hora que sem piedade me martiriza! Não pude mais sofrê-la!
Peregr.
Júlia é apenas uma menina leviana que brinca: hoje há aqui alguém que muito mais nos incomoda: eu sou franco; é o filho do barão... e Teófilo...
Carlos
Que queres dizer?
Peregr.
Veio, entrou-nos em casa com aparência de pretendente de Júlia, e evidentemente é de Corina que ele se ocupa... e ela o atende... e parece encantada...
Carlos
Seu proveito... talvez não me tenha sido agradável essa observação que também já fiz... talvez mesmo tenha isso concorrido para impacientar-me; porque eu amo Corina, ouviste?... mas se ela ama Teófilo... que seja feliz.
Peregr.
Eis aí: eu não amo Corina, e todavia não sou tão tolerante. Teófilo me aflige muito.
Carlos
Mas... se dizes que não amas...
Pereg.
Não é dizer que eu não queira casar com ela: o seu dote arranjaria muito a minha vida; confesso.
Carlos
Peregrino!
Pereg.
Não ralhes como ralhaste no caso do negócio de escravos: cada qual tem seus princípios. Eu quero Corina para esposa, mesmo sem amor e até muito contra sua vontade: apontar-me-ão nas ruas com reprovação... dirão que sacrifiquei o coração ao ouro; mas sendo rico, serei poderoso, e a sociedade virá em breve lisonjear-me respeitosa.
Carlos
Essa teoria é infame!
Pereg.
Dá-lhe o nome que quiseres: faço-te justiça: tu, meu poeta, não quererias ser esposo não sendo amado; hesitarás, mesmo na hipótese de merecer amor, ante a suspeita de vil interesseiro, que em todo o caso despertarias no ânimo dos maliciosos.
Carlos
E levantaria ufano esta cabeça de homem honesto...
Pereg.
Cabeça de poeta... pois bem, cada qual com os seus princípios... e daí quem sabe, se não és ainda mais ladino do que eu?... Desejo, aconselho-te que o sejas: se Corina não for minha esposa, estimarei que seja tua.
Carlos
Não quero que me imagines com os teus sentimentos: vai comprar e vender homens...
Peregr.
Olha... acabou o jogo de prendas... estão tomando sorvetes... vamos arrefecer o sangue... (vai-se. Carlos passeia agitado)
Teod.
Por que fugiste da sala? Não devias dar importância aos gracejos de tua irmã.
Carlos
Minha mãe, cumpre-me preveni-la de que vou sufocar o amor que sentia ou sinto por Corina.
Teod.
Temos ciúmes? Não sejas criança.
Carlos
Juro-lhe que só desposarei Corina, se partir dela manifesta e publicamente a proposição mais livre e positiva.
Teod.
Mas isso é contra todas as regras, seria até indecoroso.
Carlos
Ou eu farei a proposição franca e altamente com a condição de passar todo o seu dote para algum estabelecimento de caridade. (em fogo mal contido)
Teod.
Estás delirando... agora não podemos conversar. Vai distrair-te e sossega. (vai-se Carlos)
Estef.
Roubei por momentos Corina a seus admiradores.
Teod.
Fazes-me ter ciúmes desta menina que parece amar-te mais do que a mim: não me roube de todo o seu coração.(vai- se)
Estef.
Vê como é hipócrita?... Toma-se, [sic] acautele-se dela! Não atraiçoe o segredo que lhe confiei... diga pelo contrário, queixando-se de mim, que empenhei-me em induzi-la a desposar Carlos... mas, eu lho peço, ouça ao menos por breves momentos a meu sobrinho... prometa-me uma contradança para Fortunato.
Corina
Mas eu já prometi a outro a seguinte... e além disso...
Estef.
Fortunato a ama... livra-la-á do inferno em que vive... creia que a senhora está exposta aos maiores perigos, e meu sobrinho que é o mais nobre cavalheiro, que a adora, e que daria a vida pelo seu amor...
Corina
Olhe, quanta gente chega.
Teóf.
(com a boneca nos braços) A minha linda afilhadinha não pode dormir com semelhante ruído! Acabou de despertar chorando assustada... onde melhor lhe poremos o berço? (embala a boneca) Tempo perdido! Nos meus braços não dorme: (a Corina) minha senhora, por quem é, acalente esta menina.
Corina
Compete esse dever à madrinha.
Teóf. A madrinha está carregando o berço... e que pesa!... Estef. Que feliz [sic] boneca! (Corina recebe-a e acalenta-a)
Júlia
(com o berço nos braços) Qual! Uma pobre enjeitadinha, que não tem pai nem mãe!
Simão
Enjeitada! Pronto a declarar-me pai da menina. (riso)
Teóf.
Ah; senhor! Acaba de matar-nos a esperança de achar mãe para a criança!... (risadas)
Simão
(a Pereira7) Eu não sei porque esta gente ri assim!...
Teóf.
E a menina dormiu ao doce calor dos seus braços: (a Corina)
V. Exª. há de por compaixão e caridade apresentá-la à pia... mas onde depositaremos o berço?...
Firmino
Neste gabinete (abre a porta onde entram Júlia e Corina)
Teóf.
Minhas senhoras, deixemos a menina dormindo. (segue-as)
Tomás
(a Firmino) Que enchente de puerilidades; na comédia do mundo somente o dinheiro é coisa séria: e o senhor não quer crer!...
Simão
(a Pereira) Ainda não pude manifestar-me: não sei, como hei de conseguir que a moça olhe para mim...
Pereira
(a Simão) Convide-a para dançar. (Júlia e Corina voltam)
Teóf.
(a Simão) V. Exª. terá a bondade de ser o padre que batize a criança... acho-o com jeito... com a aparência de cônego...
Simão
Aceito in limine: (a Pereira10) É um modo de me manifestar...
Teod.
Oh, nunca me trataste assim Firmino!
Firmino
E tu?... E tu?... Nossa casa era um paraíso... mudaste de caráter por amor de teu filho...., a tentação da riqueza...
Teod.
Sim... é isso... a fome de dinheiro.
Estef.
Que dois pombinhos! Festejam-se mais ternos do que moças que (começa a rir)
9 Erro do manuscrito. Trata-se da cena 5. 10 Erro do manuscrito. Trata-se da cena 5. 11 Erro do manuscrito. Trata-se da cena 5
Teod.
Oh, que torpe sede de ouro!...
Firmino
Confessa: é por causa do teu Carlos que me vejo exposto ao mais triste desengano... Teófilo me roubará Corina!...
Júlia
Minha afilhada dorme: vamos dançar?...
Teod.
É o senhor com o seu Peregrino: para que se casou comigo, se só vive pelo filho da sua defunta?
Firmino
Faço-lhe igual pergunta: tem a bondade de me responder!... creio, porém, que ali vai um teu rival. (vai-se)
Simão
(tomando o braço de Pereira12) Aquele padrinho me parece muito estúpido! (Pereira sorri — vão- se)
Firmino
Eis aí em que está dando o batizado da boneca!... Não me sujeitarei mais aos caprichos de Júlia.
13 Erro do manuscrito. Trata-se da cena 6
Teodora
Júlia está bem castigada: sua esperança vai morrendo... já morreu talvez... Teófilo voltou-se para Corina.
Firmino
Uma indignidade e um perigo a mais!
Júlia
Minha afilhada dorme: vamos dançar?...
Teóf.
Decreto de rainha: (a Corina) é a nossa contradança... (baixo) por procuração... (oferecendo-lhe a mão)
Corina
Com o maior prazer. (toma-lhe a mão vão sair todos)
Fortunato
(a Estef. dando-lhe o braço) Que devo esperar?...
Estef.
(a Fortunato) Por ora nada; mas desesperar nunca. (Vão-se)
Carlos
(a Per.) A idolatria do ouro é esquálida, lá se rendem ternuras, dançando!
Teod.
Este nosso amor já é hábito, não merece elogio.
Firmino
É a felicidade pelo egoísmo... só cuidamos de nós. Eu tenho, porém, meus momentos de abnegação: aí lhe deixo a
sua amiga. (vai-se)
Estef.
Tenho perdido toda a minha eloqüência esta noite: Corina não quer ouvir falar de Carlos: é preciso ser severa e um pouco clara e inclemente com ela: fecha a porta de tua casa ao filho do barão...
Teod.
É a primeira vez que eles se encontram. Julgávamos Teófilo apaixonado de Júlia...
Estef.
Vou ver como Teófilo e Corina se namoram. Estão tocando a indecência...
Teod.
Estefânia, que dizes?...
Estef.
Eu falo-te assim só por amor de Carlos... tolerar as loucuras desta noite é, sem dúvida, sacrifício obrigado ao decoro,
e ao dever; mas desde amanhã ou só prepotente, austera, terrível, ou despede-te de Corina...
Teod.
Eu não devia ter saído da sala... vamos.
Estef.
Vamos... (indo) é porém tarde... a contradança acabou.
Teod.
Não importa. (vão-se; tem acabado a música)
Pereg.
Que tem?... que quer?...
Simão
Aquele padrinho que dança com ela quem é?...
Pereg.
É filho de um barão.
Simão
Assim não me diz nada, barão? Tenho uma dúzia de barões embrulhados na minha burra.
Pereg.
Chama-se Teófilo e é filho do barão do Lago Azul.
Simão
Do barão do Lago Azul!... Estou perdido. Vale muito mais do que eu... podia ser marquês ou duque... já não tenho ânimo de manifestar-me
Peregr.
Espere sempre... eu sirvo para alguma coisa
Simão
Qual! Se eu fosse mulher casava-me logo com o filho do barão do Lago Azul... vou-me embora...
Pereg.
Não... não... dance primeiro com a bela Corina, e ainda que ela se mostre indiferente e fria, tenha esperança... eu sustentarei a sua causa...
Simão
Não posso mais apresentar-me candidato... aquela firma é melhor que a minha...
Peregr.
Que homem desanimado!... Demore-se e mostre-se amável: olhe... isto é segredo de família... Teófilo tem outras intenções... creio que minha irmã...
Simão
Hein?... Que está dizendo?... Eu, porém, o vejo muito mais ocupado a conversar com a outra...
Disfarce de namorada...
Peregr.
Simão
O senhor dá-me alma nova... então tratarei de manifestar-me... mas não me engane...
Pereg.
Voltemos à sala... estão servindo o chá. (vão-se)
Corina
Não tens razão... acredita-me
Júlia
Se tenho! É casquinha como os outros.
Corina
É prata de lei.
Júlia
Por isso estás perdida por ele.
Corina
Teófilo adora-te...
Júlia
Sim; já mo repetiu dez vezes e continua a dizê-lo; mas sem nunca te haver conhecido teve que dizer-te tanta coisa em voz baixa... ocupa-se tanto de ti...
Corina
É verdade...
Júlia
E tu pareces tão contente, tão feliz...
Corina
É verdade...
Júlia
Ah! confessas?... E então?...
Corina
Confesso o que acabas de dizer; juro, porém, que é a ti que ele ama.
Júlia
E tu?...
Corina
Confia em mim.
Júlia
Desta vez ficou-me um espinho no coração... Corina! Sabias que eu amava Teófilo...
Corina
E bendigo do teu amor... oh! Júlia tu nem pensas como eu amo o teu amor.
Júlia
Que fogo!... Mas ou eu não te posso entender ou tu és a sonsa mais refinada...
Corina
Aceito o dilema.
Júlia
Então... há um jogo...
Corina
Convenho.
Júlia
E esse jogo... esse jogo... Corina, tu contas ganhar?...
Corina
Se tu ganhares...
Júlia
Tu esperavas Teófilo?...
Corina
Esperava-o
Júlia
Corina!...
Corina
Não pude ver-te sofrer e julgar mal de mim... Deixei transpirar já metade do meu segredo: basta...
Júlia
Ah, sonsa!... tu amas... tu amas... ele o sabe?...
Corina
Atraiçoa-me agora, se quiseres...
Júlia
O que eu quero é entrar no jogo... já devias ter falado... como é a história toda?
Corina
Agora... aqui é impossível... depois eu te direi tudo.
Júlia
Mas se eu quero entrar no jogo!... Hei de perguntar a Teófilo... (sinal de contradança)
Corina
Júlia!
Júlia
Não dizes que é a mim que ele ama?
Corina
Pergunta-lho: o teu amor é a minha fiança.
Teóf.
Por ordem da música e da ambição de glória perturbo a conferência angélica. (a Júlia) Vim lembrar a V. Exª. a minha contradança... (oferecendo-lhe a mão)
Júlia
Posso perguntar, Corina?...
Corina
Podes.
Teóf.
Oh! E eu serei tão feliz que possa responder?...
Corina
Pode.
Júlia
Ainda bem! Vou entrar no jogo. (os três vão sair)
Simão
V. Exª. não pretende, creio eu, dançar com duas senhoras...
Teóf.
Pretendo, sim senhor...
Simão
Esta é nova! E como?
Teóf.
Dançando agora com uma e logo com a outra.
Simão
Ah! isso é claro... mas eu estava meio só...
Corina
O senhor me havia pedido esta contradança... com todo o prazer... (toma o braço a Simão)
Teóf.
De vis-à-vis14 conosco... sim?...
Simão
Não faço questão de vis-à-vis... (de mau modo)
Teóf.
Admirável! De vis-à-vis toda a noite! (vão-se)
Peregrino
(moitando) Vê, meu pai?...
Firmino
Agora ao menos é Júlia o seu par!...
Peregr.
Corina não podia sê-lo sempre.
Firmino
Mas Júlia estava contrariada e agora vai radiante.
Peregr.
Também desconfio de Júlia.
Firmino
Ela ama Teófilo, não é admissível que conspire contra o seu amor.
Pereg.
Mas os dois namorados acharam meio de iludi-la, e de abusar da sua credulidade.
Firmino
Nesse caso deves lamentar tua irmã, e não desconfiar dela...
Pereg.
É que Júlia deixa-se enganar com simplicidade pueril!... Meu pai me desculpe... é natural que eu esteja desensofrido...
Firmino
Tens razão: tudo nos contraria: até havia de acontecer que teu padrinho adoecesse hoje, para que a filha não pudesse vir!...
Peregr.
Mas que lembrança infeliz a de Júlia com a sua maldita boneca!...
Firmino
Pensas que não me tenho arrependido desta malfadada reunião?...Mmas que hei de fazer agora?.. É indispensável mostrar o rosto alegre...
Peregr.
Sem dúvida: hoje é sofrer com paciência; mas desde amanhã, meu pai...
Firmino
O que?
Peregr.
Sempre sou transparente aos olhos de meu pai: Corina é o meu brilhante futuro pela sua riqueza; mais do que isso, é
a regeneração da fortuna paterna pela dedicação e pela diligência do filho enriquecido.
Firmino
Sei tudo isso, mas só me lembro de ti.
Peregr.
Tão importante fim deve ser atingido por todos os meios e sem hesitação nem demora.
Firmino
Portanto... (soa sempre a música)
Peregrino
Meu pai, Corina é simplesmente uma boneca rica.
E assim...
Firmino
Peregrino
Uma boneca não tem vontade, nem ação própria.
Firmino
Compreendo; tenho, porém, fora de casa, o juiz dos órfãos a quem aliás é fácil enganar, e enfim confundir impunemente com um casamento consumado, e dentro de casa, o que é pior, minha mulher contra nós, minha mulher que me transtorna todos os esforços e todos os planos.
Peregr.
Por isso mesmo... exatamente por isso mesmo.
Firmino
Explica-te... fala claro...
Peregrino
O que me parece: que meu pai deve ajudar-me a fazer para que a boneca rica me pertença a despeito do juiz dos órfãos e de minha madrasta!...
Firmino
Sim... sim...
Pereg.
Como me é preciso proceder para possuir a boneca rica?...
Firmino
Estás hoje insuportável! Dize de uma vez.
Peregr.
Meu pai há de vê-lo hoje mesmo e dentro em poucos minutos em um apólogo vivo.
Firmino
Mas que é?... (cessa a música)
Peregr.
A noite é de contrariedade e de paciência forçada; espere. Meu pai me perdoe; eu lhe peço o favor de ir observar se
os seus convidados já se preparam e se o ordenam para a cena burlesca do batizado da boneca de Júlia; creio que é a hora aprazada...
Firmino
Sim... é meia-noite... o tal batismo tem de preceder à ceia.
Peregr.
Meu pai, por quem é... vá ver...
Firmino
Que aborrecíveis mistérios!... (vai-se)
Peregr.
(olha em torno... e apressado entra no gabinete)
Firmino
(voltando) Já vem todos... Peregrino! Peregrino! (Sai Pereg. do gabinete) Que fazias aí?
Peregr.
Preparava o apólogo... o apólogo que é lição.
Firmino
Ei-los que chegam...
Teófilo
Eu entrego a pia ao sacristão...
Estef.
Quem é o sacristão?
Teóf.
O mais moço e o mais bonito do sexo masculino: (à Simão) não se adiante que não é o senhor... (à Carlos) É o senhor Carlos.
Simão
(a Pereg) Que homem impertinente! eu não me adiantei... ele é que parece querer divertir-se comigo!
Carlos
(recebendo a salva) Obedeço: fico sendo sacristão de bonecas.
Teóf.
Agora o padre à frente: senhor Simão, tenha a bondade de chegar-se...
Simão
(a Pereira16) Isto cheira-me a zombaria... que diz?...
Pereira17
(à Simão) Carlos prestou-se logo... não se faça rogado...
Simão
(a Perª18) Com efeito... em todo caso a preferência me distingue... e eu me manifesto. (chega a frente)
Teóf.
Eu o paramento... permita. (toma de Júlia o manto e o põe nos ombros de Simão) Agora o barrete
de cônego: (põe-lhe na cabeça o chapéu roxo de Estef.) Perfeitamente!... A madrinha a meu lado:
estamos prontos. (a Cor.) Tenha V. Exª. a bondade de ir buscar e de apresentar a menina, como
se chama ela?...
Corina
A madrinha é que o sabe.(entra no gabinete)
Júlia
Esperança...
Teóf.
O cônego tem de fazer um discurso, e o sacristão de improvisar um soneto...
Carlos
Improvisarei um soneto...
Erro do manuscrito. Na cena 5 do Ato 1 esse mesmo personagem é denominado Tomás.
Simão
Discurso eu não faço... protesto...
Corina
(da porta do gabinete) A boneca não está no berço!...
Júlia
A minha boneca!... (corre para o gabinete)
Teodora
Como é isto?... Desapareceu a boneca?...
Carlos
O caso seria romanesco!
Júlia
(saindo aflita) Furtaram a minha boneca!
Corina
(saindo) Sem dúvida que a furtaram... não está lá!...
Vozes
Oh! Oh!... (movimento)
Teodora
É incrível!...
Teóf.
Quem ousou roubar a Esperança? Em nome da beleza e da aflição da madrinha, restituam a menina!...
Estef.
Ficamos então sem o batizado?...
Júlia
A minha boneca!... Que mau brinquedo!...
Teóf.
(tomando a salva de Carlos) Em falta da menina receba a madrinha o batismo de flores. (senta as flores sobre Júlia)
Júlia
A minha boneca!... (recebendo a chuva de flores)
Teóf.
Vamos procurá-la por toda parte: eu piano! A madrinha cantará... a menina roubada há de por força acudir nos milagres da harmonia e da voz mais terna!...
Júlia
Não poderei cantar!...
Teóf.
Nesse caso faremos corpo de delito e iniciaremos um processo criminal... demito de cônego ao
sr. Simão e o nomeio delegado de polícia... vamos fazer vingar o império da lei...., vamos... d. Júlia por amor da Esperança... vamos!... (vão-se todos, menos Firmino e Peregrino)
Firmino
(ao fundo depois de todos se retirarem) Peregrino, como foi isto?...
Peregrino
(tirando a boneca do bolso e mostrando-a) É o apólogo, meu pai; por meio de um rapto apoderei- me da boneca rica... (com intenção) que ficou no meu bolso.
Firmino
Oh!... O rapto!!!
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Carlos Cunha Arte & Produção Visual
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