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O SÓCIO DO MERCADOR / Michael Jecks
O SÓCIO DO MERCADOR / Michael Jecks

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O SÓCIO DO MERCADOR

 

       Foi apenas muito mais tarde, quando as garras do Inverno perderam um pouco da sua força e a Primavera tocou a terra com os frescos tons verdes-amarelados da renovação, que os sentimentos de horror e de repulsa começaram a vir de cima.

       O cavaleiro sabia muito bem que os mesmos não haviam desaparecido inteiramente, mas que se tinham esbatido durante algum tempo por causa das outras preocupações, mais pragmáticas, dos aldeões. O começo de um novo ano expulsara os assassínios para longe das mentes das pessoas. Toda a gente andava demasiado atarefada a preparar os campos e a aproveitar o aumento das horas do dia, para se disporem a perder tempo em meditações. Todavia, os crimes haviam sido cometidos quase no fim do inverno e as longas e frias noites tinham dado tempo aos contadores de histórias para refletirem no assunto e para embelezarem as suas narrativas, e fora com as faces fluminadas pelos irados clarões vermelhos das lareiras que as famílias as tinham escutado, encantadas, uma e outra vez.

       Não podia censurar as pessoas pelo seu fascínio pelos crimes, uma vez que se tratava de algo muito natural num condado tão rural e pacífico. Devon não era como muitas outras partes do reino, onde as pessoas viviam numa contínua ansiedade. Nas terras pantanosas do norte os homens receavam as ameaças de mais ataques por parte de bandos de escoceses, enquanto na costa viviam aterrorizadas com as incursões dos piratas franceses. Em Devon, a única preocupação dizia respeito à possibilidade de uma terceira colheita falhada.

       Não, não era de surpreender que as pessoas se virassem para uma história como a da bruxa assassinada para darem um pouco de vida às suas noites, bem como, não era de surpreender que todos os homens tivessem a sua própria opinião a respeito da verdade por trás das mortes; ou que alguns vivessem no medo de ver aparecer o seu fantasma no caso de a mulher procurar vingança na aldeia em que havia sido morta.

       Agora que pensava no assunto, não estava certo sobre quando fora que aquilo começara. De certeza que não fora quando Tanner o chamara na manhã de quarta-feira, e vira o corpo pela primeira vez na companhia do seu amigo almoxarife. Fora antes, talvez no sábado, quando saíra para a caça e vira a mulher. Fora na manhã em que andara à caça com o falcão, na companhia do prior de Crediton.

       - O frio é cortante, não é? - disse Peter Clifford pela segunda vez. Baldwin sorriu sem sequer olhar para ele. Tinha toda a sua atenção concentrada na figura elegante que se mantinha agarrada ao seu punho enluvado, e admirava-lhe tanto o dorso cor de ardósia como o peito riscado de branco e de negro. Ostentava a pose de uma mulher de alta nascimento, pensou. Confiante e elegante, não atarracada e pesada como uma camponesa, mas sim delgada e rápida. Enquanto a fitava, a cabeça oculta por baixo do capuz virou-se para o enfrentar - como se tivesse escutado os seus pensamentos-, com o bico amarelo maldoso e encurvado perfeitamente imóvel e controlado. Não era ameaçadora mas afirmava a sua independência, sabendo que poderia recuperar a liberdade quando o desejasse. Não era nenhum cão, não era nenhum servo dedicado, e o cavaleiro, tal como todos os falcoeiros, sabia-o muito bem.

       As palavras do sacerdote interromperam-lhe os pensamentos e Baldwin esboçou um sorriso malandro que fez com que os cantos da boca se lhe erguessem ligeiramente por baixo do bigode negro e pesado. A seguir virou-se para o prior da igreja de Crediton.

       - Desculpa, Peter. Estás com frio? - perguntou com suavidade.

       - Frio? - O rosto de Peter Clifford parecia quase azul sob o frio do princípio da manhã enquanto espreitava o amigo com os olhos semicerrados. - Como queres que sinta frio com um tempo tão glorioso como este? Posso não ser um cavaleiro, posso estar habituado, nesta época do ano, a ficar sentado num salão bem quente onde o fogo arda numa lareira, posso estar com uma grande vontade de beber uma cerveja quente e adoçada... mas isso não significa que sinta a mordedura deste vento que penetra na minha túnica como uma acha de guerra a cortar manteiga...

       Baldwin riu-se e olhou em volta para a terra que os rodeava. Tinham deixado as florestas para trás e estavam agora na vastidão aberta e árida das charnecas. O fraco sol do Inverno ainda não limpara as neblinas úmidas que pairavam junto ao solo e os cascos dos cavalos quase pareciam patinhar numa espessa camada de orvalho. A colina estava coberta por urzes e folhas que tremeluziam na paisagem acinzentada.

       Tinham partido cedo, quase ao romper da madrugada, para poderem chegar até ali. Baldwin capturara o falcão-peregrino no ano anterior, quando a ave era ainda jovem e feroz. Peter ainda não a vira a caçar pelo que o cavaleiro concordara entusiasticamente em a levar para uma demonstração das suas habilidades. Para ele, era uma pura delícia ver a criatura a subir, para logo em seguida ficar a planar lá no alto, silenciosa, quase tão leve como as cinzas de uma fogueira.

       A charneca ali em cima, longe da floresta, era a terra ideal para os peregrinos. Os falcões de asas mais curtas eram melhores a perseguir as presas e costumavam ser utilizados para a caça por entre árvores e noutras áreas apertadas, mas o falcoeiro utilizava as aves de asas mais longas como os peregrinos, para a caça em campo aberto, onde podiam elevar-se mais rapidamente para permanecerem nas alturas a descreverem voltas por cima das presas até descerem como setas que só muito raramente falhavam o alvo.

       Peter Clifford encolheu-se ainda mais para o interior da sua capa e fez uma careta para si mesmo enquanto continuava a cavalgar. Depois da refeição da noite anterior, quando tivera a barriga cheia do bom vinho de Bordéus de Sir Baldwin e sentira o calor da grande lareira enquanto conversavam sobre os últimos ataques dos Escoceses no norte do país, pensara que talvez fosse agradável participar numa caçada. Imaginara um dia quente, com um céu de um azul-perfeito e o falcão a lançar-se sobre as presas... e ficara entusiasmado. Contudo, agora sentia-se gelado. Gelado, úmido e muito infeliz. Tinha a capa e a túnica cobertas por uma fina película de umidade prateada, o vento cortava-o até aos ossos e sentia o rosto como se estivesse a usar uma máscara de gelo. As coisas não eram bem como as imaginara...

       As sensações de desconforto gelado eram ainda mais ampliadas pela calma relativa do homem que se encontrava a seu lado. Baldwin permanecia na sela tão direito e alerta como o pássaro empoleirado no seu punho, oscilando e balouçando ao ritmo dos passos lentos do cavalo. O prior pensou que aquele cavaleiro, contido, educado e tranqüilo, era um homem estranho, muito diferente dos guerreiros vulgares que Peter Clifford conhecia quando passavam por Crediton. O aspecto era semelhante, é claro. Sir Baldwin, alto e forte, com o peito largo e os ombros de um lutador, era a perfeita imagem de um cavaleiro normando, até ao pormenor da cicatriz da lâmina que o retalhara desde as têmporas ao queixo; cicatriz que exibia agora um vivo tom vermelho sob o efeito do frio. Além disso, comportava-se com a altivez apropriada à sua posição. Só a barba negra, bem aparada e que lhe cobria a linha do queixo, tinha algo de incongruente numa época em que os homens costumavam andar barbeados.

       Conservava o capuz do manto caído para as costas enquanto os olhos escuros percorriam constantemente a paisagem, e Peter conseguia imaginá-lo a estudar um campo de batalha, a procurar os melhores locais para uma emboscada, a estudar o solo para uma carga de cavalaria e a procurar sítios para instalar os arqueiros. A sua expressão era curiosamente intensa, tal como era costume, como se o cavaleiro já tivesse visto e feito tantas coisas que o seu espírito nunca conseguisse sentir-se completamente à vontade.

       Fosse como fosse, o prior sabia que se tratava de um amigo leal e também, mais importante do que tudo, que era um honesto representante da lei. Por vezes parecia que tinha dificuldades para controlar o seu temperamento quando lidava com os habitantes da zona, mas acabava por o conseguir, ao contrário de outros que o sacerdote já conhecera. Até o antecessor do cavaleiro, Sir Reynald Furnshill, chegara ocasionalmente a bater nos seus homens embora fosse considerado como um homem justo. Em comparação, Baldwin parecia quase imune à ira.

       No entanto, havia nele uma espécie de impaciência. Estava lá, nos olhos e na ocasional língua afiada, como se de quando em vez as lentas deliberações dos aldeões se tornassem intoleravelmente frustrantes. Não era como o Simon Puttock, pensou Peter. Simon nunca permitia que a sua impaciência se tornasse visível. Todavia, Simon fora para Lydford para ocupar o cargo de almoxarife do castelo. Houve uma vaga memória que se agitou na sua mente e surgiram-lhe rugas na testa.

       - Baldwin... Na noite passada... disseste que o Simon irá aqui estar em breve?

       A pergunta levou o cavaleiro a virar-se e levantar uma sobrancelha num gesto interrogativo.

       - Sim, dentro de um par de dias... ou talvez três. Deve chegar na segunda-feira ou terça-feira. Esteve no Exeter de visita ao xerife e ao bispo.

       - Ótimo! Ficaria grato se me avisasses quando ele chegar. Há muito que não o vejo.

       A sobrancelha levantou-se um pouco mais, num divertimento sardônico antes de Baldwin soltar uma curta gargalhada.

       - Peter, já me pediste isso na noite passada... e disse-te que te enviaria um mensageiro logo que o Simon aparecer. Achas que me esquecia assim tão depressa?

       O cavaleiro sorriu e estudou o terreno à sua frente, em busca de uma presa. Na noite anterior não percebera que Peter pudesse estar tão bêbado. Pelo seu lado, raramente consumia muito álcool. Era uma faceta já demasiado entranhada na sua natureza, embora tivesse virado as costas à vida religiosa de um monge. Lançou uma olhadela para trás das costas e verificou que continuava a ser seguido de perto por Edgar, o tranqüilo e atento servo. O cavaleiro recordou que, uma vez, Peter dissera que o servo parecia estar tão ligado a Baldwin que nem uma sombra se conseguiria intrometer entre eles, e o seu sorriso alargou-se ainda mais. Não era assim que as coisas deveriam ser entre um cavaleiro e o seu homem de armas?

       - Acho que este sítio serve. Costuma haver aves por aqui e não precisamos ir mais longe.

       A colina erguia-se um pouco acima das árvores, pelo que podiam ver a floresta e as ocasionais colunas de fumo das habitações. No frio ar da manhã, aquelas colunas de fumo pareciam farrapos de nevoeiro que tentava subir para o céu. Foi uma visão que levou Peter a sentir-se extremamente calmo. Era mais um prova da necessidade que todos os elementos sentiam de se esforçarem por se aproximar de Deus. A idéia ajudou-o a suportar a dor de cabeça e os ácidos que borbulhavam no seu estômago.

       Suspirou, observou o pequeno bando de pombos que levantou das árvores à sua esquerda e se elevou no meio da neblina. O Sol já ia bastante alto e o sacerdote olhou-o com preocupação. Parecia aquoso no céu pálido, como se o calor com que outrora ardera nunca mais regressasse, pelo que murmurou uma rápida oração por melhores colheitas para aquele ano. Tinham-lhe dito que, para Norte e para Leste, as pessoas se viam obrigadas a recorrer a toda a espécie de comportamentos extremos para conseguirem sobreviver. Em certas partes do reino já tinham desaparecido todos os cães e gatos, já ouvira falar em pessoas que comiam ratos. Na verdade, até havia boatos a respeito de canibalismo nas terras do Leste.

       - Por favor, meu Deus! - murmurou, repentinamente invadido por uma sensação de quase pânico - deixa-nos ter boas colheitas este ano!

       - Sim... - ouviu Baldwin a murmurar numa concordância calma. - Esperemos que este ano seja melhor. - Porém, o seu ar pensativo foi interrompido quando ainda estava a falar. Por trás das árvores, onde havia um lago, houve um súbito clarão de penas quando uma garça levantou vôo. Baldwin tirou o capuz ao peregrino, soltou-o rapidamente, esporeou o cavalo e gritou, “Oo-ce! Oo-eel" para lançar a ave sobre a presa enquanto Peter estremecia e se deixava ficar sentado a observar.

       O meio da manhã já tinha chegado quando decidiram regressar à Furnshill para o almoço. Todavia, naquela altura já Peter tinha a certeza de ser demasiado tarde: nunca mais conseguiria voltar a sentir-se quente. O frio atravessara a pesada capa, as duas túnicas e a camisa, e passara a residir permanenternente sob a sua pele. Embora tivesse sido um prazer ver o falcão-peregrino lançar-se para o alto para depois mergulhar como um serrote de ferro sobre as suas infelizes presas, a sua maravilhosa habilidade fora estragada pela umidade gelada.

       Para o sacerdote, fora um alívio quando o cavaleiro se manifestara satisfeito com as capturas e sugerira que voltassem para trás. Concordara com grande entusiasmo, mas este fora de curta vida porque pouco depois já se deixara arrastar pela sua infelicidade abjecta e gelada.

       Baldwin tornara-se pensativo. Depois de tantos anos a vaguear pelo mundo, sempre em condições muito duras, já quase não sentia o frio mas tinha consciência de se habituar a uma vida fácil. Os músculos dos ombros ainda testemunhavam os tempos do reinado de espadachim, os braços continuavam a ser grossos e duros; o pescoço mantinha-se encordoado por baixo da pele rija como couro... mas a definição da barriga já era menos clara e perguntava a si mesmo se estaria a perder a têmpera, tal como uma lâmina que tivesse passado demasiado tempo sem ser afiada e cuidada.

       A sua preocupação quanto à pança crescente não se devia a um falso orgulho. Em Furnshill e de acordo com a sua posição de cavaleiro, tinha de estar sempre pronto para partir a fim de servir os Courtenay durante 40 dias por ano... e era sempre possível que o chamassem para ajudar os seus senhores nos pântanos de Gales... ou até em França, nas terras que o monarca aí possuía.

       Baldwin começou a descer a vertente e entregou o falcão a Edgar antes de entrarem no meio das árvores. Ali, os grandes carvalhos, olmeiros e freixos pairavam por cima deles, com os ramos a forçarem-os de vez em quando, a baixarem-se nas selas, pelo menos até ao momento em que chegaram à zona aberta correspondente às terras comunitárias, que os levaria a Wefford. Aí chegados viraram à direita na direção da estrada principal que conduzia à aldeia propriamente dita.

       Wefford era um cacho de casas e quintas dos servos da gleba que se ocupavam das terras a sul de Furnshill, e que se mantinham apertadas umas contra as outras como aldeões desconfiados a observarem um estranho. Baldwin sabia que se tratava de uma comunidade florescente que dava uma boa contribuição às suas propriedades, fornecendo não apenas dinheiro como também homens para trabalharem as terras. Tal como todos os outros proprietários, os seus maiores problemas surgiam nas áreas onde as pessoas eram insuficientes para ajudarem nas propriedades da mansão. O dinheiro recebido pelo tesoureiro era bem-vindo, mas se não existisse gente para tratar dos campos então a sua principal fonte de rendimentos, a terra, ficava arruinada.

       Contudo, ali em Wefford, nunca tivera quaisquer problemas. Os aldeões pareciam satisfeitos e prosseguiam placidamente com as suas vidas. No ano anterior, não obstante a confusão das colheitas desastrosas, os habitantes do povoado tinham conseguido produzir alimentos bastante suficientes não só para eles próprios como também para outras aldeias das propriedades dos Furnshill, pelo que Baldwin sentiu uma pequena onda de orgulho quando entrou no pequeno povoado.

       Fora construída dos dois lados da estrada que seguia de norte para sul, entre Exeter e Tiverton, e era formada por um amontoado de habitações e construções anexas que serviam as cicatrizes paralelas dos campos de cultivo que haviam sido roubados à floresta. As construções estavam todas caiadas e eram estruturas sólidas com os telhados de colmo cobertos por espessas camadas de musgos. Para o norte jazia o vau que dera o nome ao lugar, e em meio a povoação, em frente ao edifício que funcionava orgulhosamente como estalagem para os locais, abria-se a estrada para oeste, que seguia para Sandford e Crediton. Baldwin lançou-lhe uma olhadela de passagem. Seguia por entre a floresta, no meio dos troncos escuros e agourentos das antigas árvores, serpenteando à medida que subia e descia por cima das elevações da terra suavemente ondulada, numa tentativa para encontrar o caminho mais fácil para os viajantes.

       Todavia, via que o piso não se encontrava bem conservado e a sua testa franziu-se numa breve carranca. Quando aceitara a posição de Guardião da Paz do Rei fora obrigado a assumir muitas novas responsabihdades, tal como constava nos Estatutos de Winchester. Estes tinham reorganizado as instituições relacionadas com a lei e a ordem, e emitido novas regulamentações, que incluíam o modo como as freguesias, as rondas e os grupos de perseguição deviam trabalhar em conjunto. Além disso, impunham às diversas regiões a obrigação de treinarem as pessoas para a sua própria defesa e organizarem-se para se protegerem contra os bandos de fora-da-lei. Baldwin tinha não apenas de se certificar que todos os homens da sua área se encontravam armados e eram treinados no uso dessas armas, como também devia garantir que as bermas das estradas públicas eram mantidas livres de mato até uma distância de 60 metros de cada lado, já se tinham passado três semanas desde que dissera à Tanner, o regedor, que aquela estrada precisava ser limpa. O homem concordara e garantira que ia tratar do assunto. No entanto, parecia que nada tinha sido feito.

       Suspirou e virou-se novamente para a estrada à sua frente. Sabia que a culpa não era do Tanner. Muito provavelmente, o regedor tentara implementar a ordem... mas como persuadir as pessoas a fazê-lo em pleno Inverno, numa altura em que o desinteresse devia ser total. No fim de contas, era provável que os aldeões pensassem: para quê incomodarmo-nos com todo um trabalho que se destina apenas à proteção dos homens do Rei - que já levam uma vida regalada-, e dos mercadores, que nos vendem os produtos por preços muito acima do seu valor e merecem ser roubados? -Não era para defesa dos locais que as estradas tinham de ser limpas, porque esses mesmos estatutos determinavam que todos os homens deviam ser treinados nas artes da guerra e estar armados para poderem proteger a si mesmos. Não, aquela regra destinava-se exclusivamente a proteção dos ricos e assim sendo, eles que as limpassem! Os aldeões de Wefford já tinham trabalho mais do que suficiente apenas para conseguirem se alimentar.

       Foi enquanto tomava um apontamento mental para voltar a falar com Tanner sobre aquele assunto que o cavaleiro viu alguém aparecer na estrada, de um trilho para a direita da mesma, e ficou a olhar, surpreendido.

       Embora já tivesse cavalgado muitas vezes através daquele povoado quando ia a caminho de Exeter ou de Crediton, nunca se detivera e não conhecia nenhuma das pessoas que ali vivia. Nas suas terras existiam demasiadas famílias para que pudesse conhecer toda a gente, mas estava certo de que tinha a obrigação de reconhecer aquela figura se já a tivesse visto anteriormente. Era alta, estava inteiramente coberta por um pesado manto cinzento com um rebordo de pele; manto que descia até ao chão e estava preso por um brilhante alfinete metálico. A figura ficara parada, com o rosto coberto pelo capuz, observando o pequeno grupo que se aproximava. Embora tivesse o corpo tapado pelo manto, Baldwin teve a certeza de que a figura era de uma mulher e o pouco que lhe era dado ver levou-o a concluir que ainda por cima, se tratava de uma dama rica e elegante. Olhou rapidamente para o companheiro e verificou que o prior estava a dormitar, com a cabeça a oscilar suavemente ao ritmo dos movimentos do cavalo. Virou-se novamente para a estrada... e constatou que a dama havia desaparecido.

       Franziu a testa e espreitou com cuidado para o local onde a avistara, mas não havia sinais dela. Era claro que queria manter-se longe das vistas, mas Baldwin teve a certeza, quando se aproximou, de que era capaz de sentir os olhos da mulher postos nele. Era uma sensação inquietante, como se tivesse passado a ser a presa de um caçador invisível. Foi isso o que o fez virar-se para olhar para trás.

       Ali, não muito longe do sítio onde vira a figura envolta num manto, encontrava-se uma camponesa baixa e com uma expressão desconfiada, que o espreitou por trás de uma árvore antes de voltar a esconder-se rapidamente como que para evitar ser vista.

       Baldwin virou-se para a frente com um pequeno sorriso a brincar-lhe nos cantos da boca. Tratava-se apenas de uma pobre mulher, empregada de um hospedeiro rico, não fosse só para lhe servir comida ou bebida pensou. No entanto, sentiu um estremecimento gelado a percorrer-lhe a espinha. Onde se teria metido a ouvir?

       Agatha Kyteler observou o grupo afastar-se com uma expressão tão intensa que era quase feroz. Esperou até que os homens passassem para lá da vau e desaparecessem das vistas na curva do outro lado. Deixou escapar a respiração num suspiro lento e murmurou qualquer coisa, censurando-se a si mesma por ter permitido que as suas desconfianças a atrasassem. Ainda tinha muito para fazer.

       Deteve-se, inclinou a cabeça para trás, esticou os braços por cima da cabeça e bocejou antes de massagear lentamente a curva das costas com os punhos. Estava exausta depois de ter passado toda uma tarde a recolher ervas e raízes e tinha as costas doridas por se ter dobrado tantas vezes. Descontraiu-se, abaixou-se para apanhar o cesto e afagou a cabeça peluda e eriçada do cão rafeiro castanho e preto sentado a seu lado. Como de costume o cão reagiu ansiosamente e pulou exuberantemente antes de se afastar, talvez atrás do cheiro de uma lebre.

       O cesto era velho com os vimes partidos e gastos. A mulher fez uma careta quando o levantou. O cesto era como ela, velho, estragado e cansado, demasiado antigo para durar muito mais tempo.

       Sabia que os aldeões locais, durante a maior parte do tempo, estavam insatisfeitos por a terem ali porque não havia aldeia que não se sentisse grata pela ajuda que uma parteira experimentada lhes podia proporcionar, mais ainda a olhavam de esguelha. Os motivos eram óbvios. Consideravam-na demasiado esperta e ela sabia que era esse o maior risco, não era uma local, não fora criada da mesma maneira nem treinada de acordo com as mesmas regras. Embora apreciassem os resultados das suas capacidades, as pessoas que viviam na área em volta tinham alguns receios a respeito do modo como as adquirira. Além disso, continuava a ter um sotaque muito pronunciado, o que a distinguia dos outros, que a evitavam. Era diferente deles. Claro que o fato de viver um pouco afastada da aldeia e por sua própria conta também não ajudava. Sorriu repentinamente: era quase como se isso a fizesse ainda mais estranha e assustadora, e como se fosse uma confirmação dos seus poderes ocultos... pelo menos aos olhos dos vizinhos.

       Compreendia muito bem aquelas razões. As pessoas tinham um medo genuíno dela que, no entanto, não constituía nenhuma ameaça para ninguém. Corriam boatos a seu respeito postos a circular pela velha megera Grisel Oakway, mas que não justificavam o fato de as pessoas ficarem aterrorizadas por sua causa.

       De qualquer modo, gostava da solidão. Tivera um passado suficientemente cheio, pelo que um pouco de paz no crepúsculo da vida era agradável e sentia-se satisfeita por poder ficar a sós com os seus pensamentos, em especial agora que se encontrava numa nova terra. Todavia, não conseguia conter o aborrecimento quando as pessoas a evitavam. Sabiam que precisavam dela e estavam sempre ansiosas pelos seus conselhos ou mezinhas, como a cataplasma para o braço de Samuel Cottey, ou a mistura para a vaca do Walter La Forte, ou a poção que diminuíra as dores de costas da Jennie Miller.

       - Olá! Agatha.

       A voz, baixa e firme, suave mas confiante, surgiu da sua esquerda, um ponto entre ela e a estrada. O som fê-la ficar rígida, com os olhos a saltitarem de tronco para tronco, tentando descobrir quem fora que falara.

       Surgiu uma figura delgada e hesitante do tronco de um grande castanheiro e Agatha viu uma mulher, alta e elegante, com o rosto tapado por um capuz com um rebordo de pele.

       - Agatha, preciso da tua ajuda - murmurou a mulher num tom muito baixo.

 

       Ao fim da tarde de sábado, sob um céu cor de chumbo onde as gaivotas rodopiavam, o vento começou a soprar do mar cinzento numa série de rajadas que perturbaram os ramos das árvores na costa e que penetraram, como setas de gelo, através das roupas do homem que se encontrava na coberta da proa. Tinha de ficar ali até que o velho navio se encontrasse em segurança, mas o frio de meados do Inverno levava-o a desejar entregar a tarefa a outro e descer para a cabina por baixo do convés para poder beber uma caneca de vinho quente.

       Era raro estar a navegar tão cedo no princípio do ano. Como mestre do Thomas tentava manter o velho casco fora do mar durante os frios gelados do inverno para que fosse reparado e calafetado, mas os últimos anos haviam sido tão difíceis que qualquer carga de alimentos podia dar lucros elevados. Por isso, embora o navio necessitasse de manutenção, ainda se encontrava em condições de fazer mais algumas viagens a França e aos portos ingleses da Gasconha.

       O mestre, do ponto onde se encontrava, já podia ver a maior parte da velha cidade. Os lábios encurvaram-se-lhe num sorriso de desdém que lhe contraiu a cara balofa numa carranca de ódio por baixo dos cabelos castanhos já a tornarem-se grisalhos, enquanto os olhos cor de avelã percorriam o porto com uma expressão que era quase de nojo. Não era àquilo que ele e o Thomas se tinham habituado ao longo dos anos.

       Em geral tentava dirigir-se para os ricos Cinco Portos, ou para Londres, onde as pessoas tinham dinheiro e estavam habituadas a receber os marinheiros, mas naquela viagem não o fizera. Os Cinco Portos estavam a ficar assoreados, o que fazia com que as manobras de um navio com as dimensões do Thomas se tornassem difíceis e perigosas, e Londres estava demasiado movimentada naquela época do ano. O mestre suspirou para si mesmo. Aquele era um lugar tão miserável!

       Em Londres havia uma alegre agitação, com mercadores, marinheiros e o pessoal do cais a gritarem e a praguejarem uns com os outros, bem como, lutas ocasionais quando uma praga mais violenta levava ao desembainhar de uma espada ou adaga. Ali, as coisas eram muito diferentes. Avistava quatro aldeolas dispersas a sul da entrada do porto e conseguia avistar a abadia beneditina que era a proprietária da maior parte da área. Além disso, todo o resto parecia morto. No cais via-se um par de homens a emendar pesados rolos de cabo e o mestre da embarcação até era capaz de imaginar que aquele era o primeiro navio que entrava ali havia meses... ou anos. Era como se o lugar tivesse ficado deserto depois de anos de desolação.

       De qualquer modo, concluiu, não seria de surpreender que os habitantes o tivessem abandonado há muito. Em certa altura, os piratas franceses que haviam assolado os Cinco Portos, durante tanto tempo também tinham espalhado a carnificina para outros portos mais a Sul. Agora, até lugares pequenos como aquele, Plymouth, eram assaltados e incendiados com mais freqüência e os assassinos levavam a cabo os seus ataques com uma impunidade relativa, tal como acontecia com muitas outras pequenas cidades e aldeias ao longo da costa. Afinal de contas não existia uma marinha organizada e o país não podia ser defendido em tantos lugares ao mesmo tempo. A única resposta possível estava em que cada homem se protegesse a si mesmo, o que em geral também significava ajudar a proteger a sua aldeia ou cidade.

       Voltou a suspirar e verificou os cabos na proa do navio. Ficou satisfeito e vagueou ao longo da embarcação para inspecionar as outras amarras, verificando se estavam todas bem esticadas e seguras. Foi quando estava quase a chegar ao castelo da popa que deparou com o passageiro.

       Sobressaltou-se, parou e praguejou por entre os dentes. Fora sempre assim de cada vez que vira aquele homem. Aparecia quando e onde queria, mas tão silenciosamente nas suas botas de cabedal macio que era como se não necessitasse caminhar e se limitasse pura e simplesmente a derivar para um qualquer ponto do navio, tão silenciosamente como uma bóia a flutuar nas águas. Aparecia de repente e a surpresa fazia com que toda a gente desse um salto. Encontrava-se junto à amurada e olhava para as aldeias com um ligeiro sorriso no rosto. O mestre estudou-o, perguntando a si mesmo quem seria aquele homem taciturno e o que estaria ali a fazer. Sentia-se satisfeito com o fato de ver-se livre dele muito em breve. O homem ia desembarcar e tinha a esperança de nunca mais voltar a vê-lo.

       Não que o passageiro tivesse ameaçado de algum modo o mestre ou a tripulação, mas havia uma aura de perigo à sua volta. Embora se mostrasse suficientemente alegre, havia algo nele, qualquer coisa inquietante, que indicava as cautelas.

       Vestia-se bem, com um manto azul, bordado, colocado por cima ele uns calções cinzentos. A capa era pesada, de lá quente e espessa, e usava leves luvas de couro. Havia uma certa dureza no seu rosto quadrado, bem como, um ar de indiferença na posição da queixada que parecia de granito, como se não se ralasse minimamente com as pessoas que o rodeavam. As sobrancelhas finas e encurvadas exsudavam uma arrogância altiva, como um escudeiro recentemente nomeado, ou como se tivesse sido armado cavaleiro há muito pouco tempo. Era como se conhecesse bem o seu valor e o dos outros. Era claro que considerava os marinheiros como sendo necessários, mas pouco importantes quando comparados com ele. Tratara o mestre com cortesia, mas também com um certo desprezo subjacente. Estava tudo ali, nos olhos cinzentos-claros que olhavam através das pessoas como lâminas a perfurarem papel, ou como se conseguissem ver os pensamentos mais secretos.

       Se fosse mais velho, a sua indiferença para com os outros indicaria que se tratava de um homem rico. Porém, numa pessoa tão jovem - porque devia ter pouco mais do que 26 ou 27 anos, servia apenas como aviso. Era um homem que devia ser evitado.

       Fora obviamente endurecido pelas batalhas. O que era bem visível na largura dos ombros, nos braços fortes e musculosos. Com aquela idade já era suficientemente idoso para ter morrido num campo de batalha ou para estar como um lorde rico. Havia muitos como ele que tinham feito as suas fortunas no princípio da casa dos 20; grandes por virtude da sua lealdade, ou proezas, ou morrendo na tentativa. Era um homem que estava constantemente alerta, constantemente pronto a puxar pela espada, e que não seria emboscado com facilidade num momento de distração.

       No entanto, também havia algo de estranhamente nobre à sua volta, admitiu o mestre com relutância. Era algo que se via na sua postura, que não era desajeitada como a dos idiotas com músculos a mais, que oscilava suavemente com os balanços do navio e o fazia muito parecido a um novo rei a vigiar, com orgulho a sua herança... ou as suas conquistas.

       Para desconforto do mestre, o homem virou-se e pousou nele os olhos claros.

       - Quando posso descer a terra? - perguntou baixinho.

       O mestre encolheu os ombros e examinou os últimos cabos.

       - A amarração terminou e estamos em segurança. Pode desembarcar quando quiser. Porquê esta assim com tanta pressa? - Pouco sabia daquele estranho mesmo depois de uma viagem tão longa.

       - Sim - declarou o homem encarando-o. - Estou com pressa. - Havia na sua voz uma ansiedade suprimida, um tom ligeiramente mais agudo que sugeria uma certa excitação oculta logo por baixo do exterior aparentemente calmo, como um cão lebréu que tivesse acabado de avistar a presa. Ao observá-lo, o mestre viu o que lhe pareceu ser a emoção perfeitamente controlada de um homem de armas a espera de ordens para participar numa batalha.

       - Vai para longe? - perguntou-lhe.

       - Não, não vou para longe. Vou para norte daqui, para uma pequena mansão. - Os seus olhos viraram-se para o estudo introspectivo da paisagem. - É um local a Norte e a Leste das charnecas, chamado Furnshill.

       O mestre deixou-o. Homens como aqueles eram perturbadores e freqüentemente perigosos. Ser responsável por um navio naqueles tempos difíceis já era suficientemente perigoso e não precisava de riscos adicionais. Avançou e começou a berrar instruções para a descarregar o navio.

       O mestre afastou-se e - John Bourc de Beaumonte voltou a prestar atenção à vista que tinha na sua frente. Tinha outros pensamentos a absorvê-lo. As recordações não eram muitas, por se referirem a um passado demasiado longínquo. Partira há muito anos e vivera uma vida muito cheia, sempre sujeita a treinos contínuos ao serviço do conde, o Capitão de Beaumonte. Passara toda a vida servindo ao lorde... e pai. Não o lamentava, fora uma boa educação para um homem que se tornaria um soldado e que precisara gastar muito do seu tempo a treinar-se com as armas para poder proteger o amo.

       Nessa altura nem sequer se detivera por instantes para lamentar a perda. Na verdade, até tinha dificuldades para a encarar nesses termos. Tudo o que agora possuía eram vagas recordações de imagens vistas como que através de uma neblina leitosa, onde os rostos e os pormenores eram indistintos.

       Teria sido um erro ir ali para a ver? Interrogou-se. O Capitão de Beaumonte pensara que sim - e dissera-o - não com ira mas com uma ligeira tristeza quando tentara explicar-lhe que não seria bom e que não lhe iria aliviar os seus últimos anos. Todavia, o Bourc tinha a certeza de que não faria mal vê-la, nem que fosse por uma única vez, para verificar qual era o seu aspecto. Não ia puni-la pelo que ela fizera porque na verdade procedera o melhor que lhe fora possível, sem pensar nela ou na sua própria segurança. Ficara-lhe grato pelas oportunidades que a mulher lhe dera e tentara aproveitar-se das mesmas.

       Claro que ao princípio fora fácil. Quando era ainda um jovem tudo lhe saíra muito naturalmente, como se na verdade tivesse sido dado à luz pela esposa do Capitão de Beaumonte e não pela sua mãe, e como se ele não fosse o Bourc, o bastardo. Na verdade, não soubera fazer melhor do que isso. Depois, um dia, quando era ainda um escudeiro a treinar-se para cavaleiro, tinham começado os comentários. Não haviam sido maliciosos, mas apenas cruéis, pouco mais do que má língua de jovens para com um dos seus pares que era diferente. Para eles, pouco significado havia no fato de ser realmente filho do Capitão. Não tinha mãe e isso bastava-lhes. Fora marcado com a pior cicatriz que era possível imaginar para uma criança a de não ser igual aos outros.

       Porém, John Bourc de Beaumonte, tinha um sangue orgulhoso a correr-lhe nas veias - tanto do Capitão como de Anne - e que aguentara todos os comentários e só ocasionalmente defendera a sua virtude e honra. À medida que se tornara num homem alto, delgado e em forma, a necessidade de proteger o nome fora-se reduzindo na proporção da sua corpulência e do treino de combate, até ter ganho as esporas e passar a ser um cavaleiro.

       Sempre soubera que um dia teria de partir para a procurar. No fim, acabara por permanecer muito mais tempo do que planejara. Para um homem como ele, treinado para a guerra e que se deliciava nas batalhas, poucos lugares eram melhores do que os pântanos entre as terras francesas e inglesas. Havia aí muitas oportunidades para um serviço honroso, para demonstrar ser um homem de valor e para ganhar dinheiro com resgates e proteção. Porém, depois de muitos anos de luta, desejava um pouco de paz por alguns meses e uma oportunidade para descobrir a verdade enquanto o podia fazer.

       Bateu com a mão aberta no corrimão da amurada, num gesto de decisão, e dirigiu-se para os fardos que jaziam no convés junto ao mastro principal. Porém, surgiu-lhe um pensamento súbito que o fez deter-se, já deveria ser velha, de acordo com o Capitão de Beaumonte a mulher devia ter cerca de 50 anos, ou talvez um pouco mais, o que constituía uma idade muito avançada. Na verdade, até já podia ter morrido. Lançou uma nova olhadela rápida para os lados da costa e a idéia deixou-o perturbado.

       Acalmou-se com algum esforço e prosseguiu para os seus sacos. Se morrera fora por vontade de Deus e nada podia fazer a esse respeito. Por outro lado, houvera alguma culpa da sua parte por ter adiado a viagem durante tanto tempo. Avançou para a prancha que o depositaria mais uma vez na terra firme, segura e seca; e sentiu um pequeno sorriso de alívio a contorcer-lhe os lábios. Seria bom poder mover-se sem os balanços constantes do navio de quilha redonda que o deixara continuamente à beira dos vômitos.

       Uma vez na costa, agarrou nos sacos e olhou à sua volta. Avistou uma estalagem e avançou na sua direção. Uma bebida e alguma comida ajudariam a passar o tempo até que lhe desembarcassem os cavalos.

       Na segunda-feira, em Wefford, quando o estalajadeiro da Signo da Lua entrou no seu salão, os sentimentos de orgulho foram rapidamente abafados pelo fedor que lhe atacou os sentidos. O fedor nada tinha a ver com a cerveja derramada no chão, porque esse era um aroma ácido que constituía, por si só, uma promessa de bom negócio. O que lhe assaltara as narinas fora o odor áspero e amargo proveniente do local onde o jovem Stephen de La Forte vomitara... outra vez.

       A visão do seu salão fazia-o passar por um sentimento de orgulho, mesmo àquela hora e sob a luz do princípio da manhã. Continha uma promessa de conforto e prazer, com as mesas e os bancos dispostos ao longo das duas paredes laterais e também em cada um dos extremos, com a maciça lareira no centro, sobre uma cama de giz e terra. Naquele momento não havia chamas, pelo que começou por se dedicar a essa tarefa, atiçando o fogo lentamente com gravetos, debruçando-se e soprando suavemente, mas com persistência, até que as chamas pequenas e amarelas começaram a subir entusiasticamente e lhe foi possível colocar alguns troncos pequenos por cima delas.

       Ficou sentado sobre os calcanhares e olhou para as chamas com atenção até se certificar que o lume já não se apagaria. Lá no alto, por cima dele, podia ver o fumo subir pesadamente por entre as vigas enegrecidas. Sabia que seria preciso esperar algum tempo para aquecer a sala e que o fumo desapareceria quando isso acontecesse. Estava na hora do trabalho a sério.

       Começou pelos cantos junto aos biombos. Tratou de empurrar os bancos e as cadeiras para um lado para poder varrer por baixo, mas acabou por se cansar. Compreendeu que já gastara muito tempo, pelo que deixou que a mobília ficasse onde estava e passou a varrer apenas à sua volta. Estava ansioso por terminar antes que aparecessem os primeiros clientes. Atingiu a zona manchada e não conseguiu evitar uma careta de nojo ante o odor.

       Foi buscar a pá que usava nos estábulos e transportou as palhas velhas para o monte de estrume. Por sorte, não ficava muito longe porque soprava uma brisa fria vinda do sul. Sentiu um súbito estremecimento e terminou o trabalho a pressa.

       Depois do chão limpo - ou tão limpo quanto possível - concluiu que havia apenas um vago cheiro de vomitado a pairar no ar. O fumo da lareira encontrava-se suspenso em volta da sala como o nevoeiro por cima das charnecas num dia sem vento. Ia-se desfazendo gradualmente na atmosfera e substituía o mau cheiro com sua própria amargura saudável. O estalajadeiro ficou satisfeito, acenou para si mesmo, saiu para o palheiro exterior voltou pouco depois com uma nova carga de palha que espalhou liberalmente por todo o chão. Para alguns, a colocação de palha nova era uma tarefa irregular que só era levada a cabo uma vez por ano, mas no caso de uma estalagem era a única maneira de impedir que os maus cheiros se tornassem dominantes.

       Completara a sua tarefa e estava de pé, com as mãos nas ancas, quando viu os cavalos. Sorriu e concluiu que as palhas novas atraíam os clientes tal como as natas atraíam os gatos. Era certo e sabido: mal acabava de espalhar as palhas pelo chão e logo os clientes começavam a aparecer. Observou a sala pela última vez, confirmou que tudo parecia em condições e avançou para a cortina que ocultava o estreito corredor. Percorreu-o a todo o comprimento, abriu a porta da rua e espreitou para o exterior. Na sua frente encontrava-se um homem alto e imponente na sua capa com capuz, com um arco às costas e uma espada nos flancos. Montava um cavalo e guiava outro pelas rédeas.

       O Bourc saltou para o chão com leveza. Fora forçado a parar durante a noite numa pequena estalagem a beira da estrada, a alguns quilômetros de Oakhampton, e partira novamente na manhã seguinte, o mais cedo possível. Agora estava gelado até aos ossos ou, pelo menos, era assim que se sentia. Encheu as bochechas de ar, deixou que o ar escapasse por entre os lábios comprimidos e sacudiu-se como um cão acabado de sair da água.

       - Creio que preciso de uma boa caneca de cerveja quente... declarou, com suavidade.

       O estalajadeiro acenou e sorriu antes de se virar para ir buscar a cerveja e para a aquecer, enquanto o Bourc rodeava a estalagem e conduzia os cavalos para os estábulos, onde começou por os esfregar, para depois lhes dar água e feno e regressar ao interior da estalagem. Sorriu perante o cheiro à palha fresca, suave com o perfume do feno numa tarde de verão e perante a promessa de calor que provinha da lenha que ardia na lareira. O pote de cerveja que se encontrava sobre as chamas já libertava um aroma muito agradável. Suspirou de prazer e aguardou em silêncio enquanto o estalajadeiro se atarefava a despejar o líqüido quente e condimentado numa caneca, que o Bourc aceitou com um suspiro de pura delícia. Tudo aquilo era quase dolorosamente agradável depois do frio desconforto da cavalgada até ali. Olhou para as profundezas do líqüido antes de o bebericar com um lento sorriso a espalhar-se-lhe pelo rosto.

       - Estou no bom caminho para a mansão de Furnshill?

       - Sim, senhor. Fica apenas a alguns quilômetros a norte daqui.

       - Ótimo, ótimo - murmurou, bebericando novo gole de cerveja. A seguir perguntou: - Diga-me, conhece bem as pessoas da região? - O estalajadeiro acenou. Claro que conhecia... e a sua expressão intrigada deixou implícita uma pergunta: quem mais podia conhecer tão bem a comunidade local como ele? - Sabe onde posso encontrar uma mulher; uma mulher idosa chamada Agatha Kyteler?

       O Bourc teve a sensação de que o homem suspendia a respiração repentinamente enquanto a sua expressão se tornava desconfiada.

       - Por que quer saber onde a encontrar?

       Ouviu-se um berro no exterior antes do Bourc poder responder e os olhos dos dois homens desviaram-se para a porta. O estalajadeiro suspirou, levantou-se, e deixou o Bourc sozinho a bebericar a cerveia e a interrogar-se ante aquela estranha reação? Por qualquer razão o homem ficara desconfiado ao ouvir mencionar o nome da mulher? O que o levou a murmurar uma oração rápida, rogando que o seu temor quanto a possibilidade de ter chegado demasiado tarde não se concretizasse e que a velha não tivesse morrido.

       Virara-se para as chamas enquanto meditava e ao princípio nem sequer reparou que já não se encontrava sozinho na sala. Foi o perfume de flores que o levou a olhar para cima e a ficar com a boca aberta de espanto.

       A mulher que se encontrava ali perto a descalçar as luvas, era muito bela. Era apenas um pouco mais baixa do que ele e tinha mais ou menos a mesma idade. Possuía um corpo delgado envolto numa túnica verde-clara por baixo de uma capa de montar cinzenta, e quando o olhou de relance viu-lhe uns olhos com uma cor quase a condizer com a do vestido. Além disso, tinha as macãs-do-rosto muito altas e um rosto pálido. À primeira vista parecia uma mulher frágil, mas quando o Bourc murmurou um pedido de desculpas e se levantou verificou que se tratava apenas de uma ilusão. A figura da jovem era forte e flexível como um chicote.

       - Minha senhora. Sente-se, por favor - pediu, e a mulher virou-se para ele com um olhar desconcertante na sua intensidade. Olhava-o como se estivesse a concentrar nele todo o seu ser e fitava de frente com uma estranha imobilidade. Acabou por sorrir depois do que lhe pareceram ter sido vários minutos e inclinou a cabeça num gesto de assentimento. Sentou-se no banco que o cavaleiro arrastara para ela, soltou a capa cinzenta em volta do pescoço, cricolheu os ombros e deixou-a cair. O Bourc acabara de se sentar no mesmo banco quando entrou outro homem na sala da estalagem.

       Olhou em volta e viu um homem com um peito que parecia um barril, talvez no final dos 40 ou princípio dos 50. O cavaleiro não precisou de nenhum clarão de intuição para perceber, graças à sua corpulência e aos movimentos ligeiramente oscilantes, devia ter sido um marinheiro. A vida no mar ficara profundamente gravada nele. Embora o rosto não fosse malformado, a massa de rugas e de cicatrizes tornava-o feio. Era um rosto onde não havia alegria, prazer ou satisfação, mas, apenas uma brutalidade fria. Os olhos do homem, tão pequenos como os de um javali selvagem, saltaram do Bourc para a jovem. Deu um passo em frente e o fogo pareceu lançar faíscas naqueles mesmos olhos, que refletiram as chamas.

       - Angelina! Chega-te para lá!

       O cavaleiro ficou com a sensação de que a jovem tinha relutância em mexer-se. Aguardou um momento como se se rebelasse contra a ordem enquanto o recém-chegado resmungava antes de se sentar no banco. No entanto, a jovem afastou-se mais do que o necessário, deixando um espaço vazio entre ela e o homem; e o Bourc ficou satisfeito ao ver-lhe uma careta de nojo a contorcer-lhe o rosto quando o olhou.

       - Estalajadeiro! - berrou o homem. - Vinho! Quero vinho! Só então se virou para espreitar o balcão - Quem é você?

       O cavaleiro manteve a sua ira bem controlada perante aquela rudeza e sorriu. No entanto, os seus olhos ganharam uma expressão fria.

       - Meu amigo, sou um viajante que vai fazer uma visita ao senhor da mansão de Furnshill, em nome do meu amo. Chamam-me Bourc de Beaumonte. E o senhor, como se chama?

       - Sou Allan Trevellyn... mercador. Quem é esse tal senhor de Furnshill?

       O Bourc sobressaltou-se ao ouvir o nome do homem e olhou para a jovem. Esta pressentiu claramente que aquele olhar era uma reação a rudeza do companheiro e suavizou a grosseria da pergunta com a sua voz delicada. Pousou os olhos no Bourc e disse:

       - Creio que já ouvimos falar nele. Allan. Chama-se Sir Baldwin.

       O estalajadeiro, chegou com um tabuleiro com o vinho e entregou as canecas à mulher e ao homem. Naquele momento havia mais gente entrando na estalagem e muito em breve andaria atarefado a saltitar de um grupo para outro.

       - Sir Baldwin, não é? - resmungou Trevellyn. - Sim. creio que me lembro dele. Está cá há pouco tempo... O irmão morreu, ou qualquer coisa desse gênero...

       - Ouvi dizer... - comentou a mulher - que Sir Baldwin chegou aqui pouco antes de assassinarem o abade, no ano passado...

       - Ah! Mas tenho a certeza de que também não vive aqui há muito, minha senhora...?- perguntou o Bourc inclinando-se para a frente e espreitando a jovem.

       - Vive cá há tempo mais do que suficiente! - o mercador intrometeu-se entre eles e fitou o Bourc com uns olhos muito abertos e furiosos, como se o desafiasse a continuar a falar.

       O cavaleiro devolveu-lhe o olhar, permitiu-se um pequeno sorriso e ergueu as sobrancelhas.

       - Tem objeções quanto a eu falar com a senhora? - perguntou num tom muito suave.

       - Claro que tenho! - explodiu o mercador com o rosto repentinamente contorcido de fúria. - É minha mulher! Deixe-a em paz ou terá de se haver comigo. Compreende?

       O Bourc não conseguiu impedir-se de olhar de relance para a mulher com um espanto óbvio. Parecia-lhe impossível que uma mulher tão frágil e bela pudesse estar ligada a um bruto daqueles... mas ao fitar-lhe os olhos reparou nos sinais de umidade indicadores de que estava prestes a chorar e desviou rapidamente a cara.

       - As minhas desculpas senhor, não tinha percebido...- respondeu, com uma formalidade rígida. O diabo tentou-o a afirmar que, tendo em conta a sua grosseria, presumira que se tratava de um servo da jovem, mas conteve-se. Acabara de chegar ali e não tinha qualquer desejo de se envolver em lutas. - De qualquer modo, venho visitar Sir Baldwin em nome do meu senhor e a seguir também tenho um assunto pessoal a tratar. Preciso ver uma senhora. Conhecem a Agatha Kyteler?

       Não foi imaginação sua ouvir o nome, a cabeça da senhora Trevellyn rodou de repente para o olhar e o mercador ficou com a caneca de vinho parada em pleno ar, a caminho da boca. Pousou-a e olhou para o cavaleiro com uma deliberação lenta.

       - Agatha Kyteler? - disse, para logo em seguida cuspir para o fogo. - Que quer você dessa velha bruxa?

       Sentiu-se ferver ante o modo desrespeitoso como o mercador se referira à mulher, mas controlou-se. Endireitou-se um pouco, pousou a mão no punho da espada e declarou:

       - Se tem algo a dizer a seu respeito, partilhe-a comigo. Sei que se trata de uma mulher honrada.

       - Honrada? - Não passa de um bruxa que lança maldições às pessoas! Pergunte a quem quiser! - retorquiu Trevellyn com desprezo.

       O Bourc pôs-se de pé, pálido de fúria e com um rosto tenso.

       - Repita isso! Repita isso... e defenda-se! Sei que se trata de uma mulher honrada... Está a acusar-me de mentir?

       Fez-se silêncio por um instante, como se todos os homens que se encontravam no salão estivessern a conter a respiração.

       - Senhores, por favor! - pediu o estalajadeiro ansioso, mas ignoraram-no. O homem permanecia imóvel e alerta, mas tinha a raiva a borbulhar por baixo da sua calma aparente. De súbito, Trevellyn compreendeu até que ponto suas palavras tinham afetado o estranho... O medo pô-lo de boca aberta enquanto a mulher parecia excitada, mas se mantinha em silêncio.

       Por fim, o mercador encolheu-se como um cão chicoteado. Lançou uma olhadela sombria ao Bourc e encolheu os ombros.

       - Não disse nada que os outros não lhe viessem a dizer; mas... peço perdão se o ofendi. Se a quer ver pergunte ao estalajadeiro onde ela vive. Ele sabe.

       Aparentemente, o homem não estava preparado para dizer mais nada.

       Trevellyn quase não se moveu enquanto o Bourc esvaziava a caneca. Continuou sentado, a olhar em frente, ignorando o cascão com todo o cuidado. O cavaleiro fitou-o com desprezo e sorriu para a jovem. A tristeza que lhe via nos olhos magoava-o. Era como se a infelicidade da sua vida com aquele homem a desesperasse e voltou a perguntar a si mesmo como fora que uma mulher tão encantadora se deixara prender a um bruto daqueles. Todavia, não valia a pena perder tempo com tais pensamentos, pelo que se virou abruptamente e foi à procura dos cavalos.

 

       - Pelo amor de Deus, para baixo! Acaba com isso! Não!

       O grito de raiva desesperada ressoou com clareza no interior da casa e até ao fundo do vale enquanto o servo entregava as rédeas ao cavalariço sorridente e ouvia o som de patas a escorregarem no solo e de louco a partir-se. Suspirou e abanou a cabeça vexado. Quando regressara, Sir Baldwin decidira ficar com a grande matilha de cães de caça que havia pertencido ao irmão e mantinha os animais isolados num canil. Contudo, havia uma cadela que se recusava a largá-lo.

       Entrou e voltou a suspirar quando viu a sala. O grande candelabro de ferro tombara, havia um banco virado e o chão encontrava-se coberto de pratos e canecas. O cavaleiro estava de pé no meio da sala, com as mãos nas ancas e um rosto vermelho de fúria, enquanto o animal jazia na sua frente deitado de costas, com a barriga e as patas a agitarem-se de submissão e mantinha as queixadas negras e maciças, ridiculamente abertas para mostrar os dentes. Virou um dos assustados olhos castanhos para Edgar quando este entrou.

       - Estava outra vez à procura de comida? - perguntou.

       - Não, maldita seja! - Baldwin deu um leve pontapé na cadela sem magoar, e avançou para uma cadeira. Sentou-se e olhou com amargura para o animal. - Ficou demasiado satisfeita por me ver!

       O cavaleiro sabia que era sempre a mesma coisa. Quando saía e deixava a cadela para trás, quer estivesse fora por uma hora ou por um dia, o resultado era o mesmo; voltava para casa e a cadela procurava dar-lhe um presente. Ao princípio, quando chegara a Furnshill achara que se tratava de uma característica encantadora, um sinal da devoção do mastim. Contudo, isso fora havia quase um ano... depois da destruição de dois pares de botas, um tapete e uma capa muito dispendiosa.

       - Estava a tentar entregar-me um presente...

       Edgar acenou e abaixou-se para apanhar os fragmentos de barro.

       - O que foi desta vez? - O cavaleiro abanou a cabeça e fez um gesto para o chão junto da mesa. Edgar lançou uma olhadela naquela direção e viu a curta lança de caça, muito mordida no meio do punho. - Andava com aquilo na boca? - perguntou genuinamente surpreendido.

       Tinham-se passado apenas alguns instantes quando ouviram o som de um cavaleiro que se aproximava. Lionon foi a primeira a dar por isso e a sua cabeça deu uma volta e olhou para a porta. Edgar limpou as mãos na fralda da camisa e saiu. Para surpresa de Baldwin voltou minutos depois com o rosto iluminado por um grande sorriso.

       - Uma visita, Sir Baldwin! John Bourc de Beaumonte, filho do Capitão de Beuamonte.

       - Claro, conheci bem o teu pai! Encontramo-nos pela primeira vez em Acre; já lá vão uns bons 26 anos!

       Baldwin ficara surpreendido com o comportamento do seu visitante. Recordava-se do Capitão como sendo um homem alegre e entusiástico, mas o filho mostrava-se recolhido, quase deprimido.

       O Bourc entregara-lhe mensagens do pai e alguns pequenos presentes, e encontravam-se sentados em frente do fogo, que fora avivado, rugia com vigor e iluminava a sala com um tremeluzente clarão alaranjado.

       - O meu pai raramente fala desses tempos, senhor.

       - Não me surpreende, foram muito infelizes. Foi o fim do Ultramar e do reino de Jerusalém. Também foram o fim de muitos homens bons e corajosos. Felizmente, não foi o que aconteceu ao teu pai.

       - Falou-me um pouco no assunto, mas não no que realmente se passou. Seria capaz de o fazer?

       Baldwin bebericou o vinho enquanto fitava as chamas com os olhos a brilhar. A seguir semicerrou-os, porque as recordações eram dolorosas.

       - Encontrei o teu pai no princípio do verão, ainda antes de conhecer o Edgar. O inimigo conseguira cercar-nos por terra - embora ainda fôssemos reabastecidos pelo mar - e bombardeava a cidade com catapultas. Conheci o teu pai logo no início do cerco. Éramos tão poucos em particular ao serviço do monarca inglês, que nos conhecíamos a todos. Na altura já ele era um homem poderoso ou, pelo menos, é assim que o recordo. Como é óbvio, eu ainda era um jovem. Combatemos lado a lado por várias vezes e estava junto dele quando as torres da cidade foram minadas e começaram a abater. Recuamos juntos através da cidade quando o inimigo penetrou nas muralhas, numa tentativa para conseguirmos escapar. Foi terrível...

       - Disse-me que as coisas foram assustadoras naquelas estreitas ruas...

       - Sim, porque estavam todas ligadas umas às outras e porque lutávamos contra tantos inimigos que, quando os conseguíamos aguentar durante algum tempo, os outros davam a volta e atacavam-nos por trás. -Não nos largaram durante o caminho até o porto. Foi uma confusão e um combate corpo-a-corpo ao longo de todo o percurso. O porto ficava a sul e encaminhamo-nos para lá quando constatamos que a batalha estava perdida. Foi nessa altura que encontrei o Edgar. Estava ferido e ajudei-o a escapar conosco. Porém, quando nos aproximamos o suficiente para podermos ver o mar, encontramos o caminho bloqueado. Tinhamos o inimigo na nossa frente a impedir-nos a passagem. Não havia por onde escolher: o norte, o sul e o leste já eram territórios proibidos. Seguimos para oeste, para o templo.

       - Estiveram ambos lá durante o cerco aos Cavaleiros do Templo?

       - Oh, sim! - Baldwin soltou uma gargalhada. - De qualquer modo, não lhes pudemos dar uma grande ajuda. O Edgar estava demasiado doente. -No segundo dia, tropecei num monte de pedras e parti o tornozelo. Foi nessa altura que o teu pai me salvou. - Olhou para o jovem cavaleiro a seu lado. - Encontrávamo-nos na porta principal do Templo quando fomos atacados repentinamente por uma grande força. Tinham um ariete e a tranca que segurava a porta cedeu e partiu-se ao meio. Metade dela saltou para junto de mim e foi isso o que me fez cair. Houve uma pedra que rolou debaixo do meu pé quando me desviei e parti a articulação. O teu pai ficou junto de mim e aguentou o inimigo até me arrastarem dali e as portas voltarem a ser fechadas. Na verdade, foi ele quem conseguiu manter os homens unidos.

       "No fim, o teu pai foi atingido por uma seta e a ferida infeccionou rapidamente por causa do calor. Tivemos sorte. Os Templários permitiram-nos que partíssemos num dos seus navios. Levaram-nos para Chipre, onde nos trataram dos ferimentos e nos devolveram a saúde. - Levaram-nos para Chipre, pensou. Eram palavras que não conseguiam transmitir o pânico da fuga para os navios e as sensações de alívio e de excitação por se verem longe dos perigos imediatos da cidade arruinada.

       -Já estive em situações semelhantes - declarou o Bourc, meditativo. Puxou pela adaga e enfiou-a no fogo. A seguir serviu-se de nova caneca de vinho e aqueceu-a com a lâmina da arma. - As coisas são difíceis quando estamos cercados e sabemos que não poderemos escapar...

       - Sim... mas são ainda piores quando o inimigo jurou destruir-nos a todos, sem deixar um único sobrevivente - confirmou Baldwin num tom seco. Levantou a cabeça e sorriu. - De qualquer modo, se é que serve para alguma coisa, foi isso o que se passou. - Lançou uma olhada astuta ao seu visitante. - Então fizeste toda esta viagem para ouvir esta história? Os recados e os presentes não justificavam o envio de um cavaleiro como mensageiro!

       - Não - retorquiu o Bourc. - Não, não vim só por causa disso. Também queria uma cama para a noite, para voltar a partir amanhã de manhã. Vim por causa de outro assunto, uma dívida dos tempos desse mesmo cerco...

       - Então como? Nessa altura ainda eras uma criança...

       - Pois era. Tinha menos de um ano. A minha mãe. Anne de Tyre, teve-me junto do meu pai, mas não conseguiu escapar da cidade quando esta foi tomada. Entregou-me à minha ama, que me tirou de lá.

       - Sim, tirou-me de Acre e levou-me para casa. Está vendo este anel? - O jovem cavaleiro levantou a mão esquerda e Baldwin viu um anel de ouro com uma grande pedra vermelha. O Bourc ficou a olhá-la por instantes, para logo baixar o braço e fitar as chamas. - O meu pai ofereceu-o à minha mãe, que o entregou a ama, que por sua vez o entregou à minha gente como símbolo para provar que eu era na verdade filho do meu pai. Essa mulher salvou-me a vida e certificou-se que me encontrava em segurança. Agora, vive perto daqui. Foi por isso que vim, para a ver e para lhe agradecer a minha vida. Vi-a brevemente, de passagem, quando vinha para aqui, mas vou lá voltar amanhã e a seguir encetarei o caminho de regresso à casa.

       - Quem era? Talvez eu a conheça.

       - A uma vulgar ama? Talvez... Chama-se Agatha Kyteler.

       Baldwin abanou a cabeça.

       - Não, não a conheço. Nunca tinha ouvido esse nome.

       Simon Puttock e a esposa chegaram ao fim da tarde do dia seguinte, terça-feira. Por essa altura Baldwin encontrava-se sentado no seu salão. John Bourc de Beaumonte partira por volta do meio-dia e o cavaleiro começava a perguntar a si mesmo se o almoxarife e Margaret teriam sido obrigados a mudar de planos. Contudo, ouviu o som dos cavalos, caminhou até à porta, avistou os amigos e chamou os servos.

       Embora estivesse a escurecer, o fraco sol daquele dia não conseguira limpar todos os vestígios de geada ainda espalhados pelo solo e Baldwin verificava que já havia um fino nevoeiro cinzento a cobrir o vale por trás dos seus amigos. Num dia claro a sua casa abarcava uma vista de muitos quilômetros, mas naquele momento só conseguia distinguir as charnecas que jaziam por baixo do tapete de neve branca e pura que brilhava à distância, parecendo um pouco menos ameaçadoras do que no verão, época em que tinham um aspecto mais escuro e ameaçador.

       A mansão de Baldwin não era uma propriedade moderna e acastelada. Fora construída em tempos mais fáceis, possuía um telhado de colmo como as habitações das quintas e as únicas concessões à segurança eram as janelas estreitas e a posição em que havia sido erguida. Estava virada para o sul e encontrava-se numa clareira, a uma boa distância das velhas florestas mais próximas, no topo da vertente de uma colina. Na sua frente havia uma vala por onde as águas se escoavam com facilidade e era por aí que a estrada passava, trepando suavemente até à zona plana em frente da casa.

       O cavaleiro observou a aproximação do pequeno grupo. Na frente vinha a figura alta e delgada do seu amigo Simon Puttock, um homem de cara avermelhada e cabelos castanhos, nos seus 30 anos. Logo atrás vinha a esposa, Margaret, magra e elegante na capa cinzenta forrada a pele. Tinha o capuz em baixo e mostrava as feições pálidas a brilharem por causa do frio e do exercício; por baixo de espessas tranças loiras presas por uma rede. A fechar o grupo vinha Hugh, o servo, com o seu habitual rosto sombrio e avanço lento, que lhe provocou um sorriso.

       O cavaleiro abriu os braços e avançou ao encontro do grupo.

       - Simon. Margaret, sejam bem-vindos!- gritou com o sorriso a espalhar-se-lhe pelo rosto.

       A cavalgada desde Exeter deixara Margaret gelada e com a sensação de que os dedos eram pendentes de gelo no interior das luvas, mas sentiu um sorriso a repuxar-lhe o canto dos lábios ao ver o prazer com que o cavaleiro os recebia. Baldwin já estava a seu lado antes de Simon poder saltar para o chão para a ajudar. Fez-lhe uma vênia, ofereceu-lhe a mão com um sorriso, com os dentes a brilharem num estranho contraste com o bigode negro. Margaret fez-lhe um aceno de gratidão, aceitou a mão, deslizou para o chão e ficou a olhar para a paisagem enquanto esperava pelos outros.

       Sempre gostara muito daquela área, com as suas árvores e as minúsculas povoações. As colinas ondulavam suavemente para cima e para baixo numa paisagem marcada pelas faixas avermelhadas onde a terra rica, servia através do tapete de verdura, e com o fumo a erguer-se nos locais onde os aldeões possuíam as suas habitações. Era uma paisagem muito diferente das áridas e cinzentas charnecas de que Simon tinha agora de se ocupar em Lydford. Ali ainda se encontravam comunidades felizes, ao contrário do que se passava nas charnecas.

       Nestas últimas, o clima era tão frio e inclemente que nada conseguia sobreviver para além das urzes e de alguns tipos de folhas. Até as próprias árvores que lá vira, e que conhecera tão bem nos arredores de Crediton, se mostravam contorcidas e definhadas.

       Nada que se parecesse com aquela vista luxuriante e Margaret pressentia que aquela terra era precisamente tal como Deus a desejara. O Paraíso devia ter sido assim, verde e saudável mesmo em pleno Inverno e parecia-lhe impossível que as charnecas se encontrassem apenas à distância de uma mera jornada de meio dia.

       - Entrem, os dois, para fugirem do frio! Tenho comida pronta e esta é uma boa semana para vos receber!

       Baldwin seguiu à frente, conversando sobre a visita que Peter Clifford lhe fizera na noite da sexta-feira, e sobre a chegada do Bourc no dia anterior, embora a maior parte do que lhes disse tivesse entrado por uma orelha e saído pela outra porque naquele momento só estavam interessados num pouco de calor, o que os fez precipitarem-se para a lareira.

       O salão era tal e qual como Margaret recordava, comprido e largo, com uma lareira e uma chaminé na parede norte e bancos em volta das mesas. Havia pão e carnes frias em travessas dispostas na mesa, bem como um pote pendurado de uma corrente sobre as chamas, que soltava um agradável sabor à caça. Quando se aproximou, descalçou as luvas e estendeu as mãos para o calor. Margaret verificou que havia uma espessa sopa a borbulhar no seu interior e sentiu a água a crescer-lhe na boca perante o aroma que se erguia do pote para encher lentamente todo o salão.

       A seguir virou-se para aquecer as costas quando as mãos recuperaram algum calor e começaram a ganhar uma nova e dolorosa vida. Lançou uma olhadela ao salão e deixou que a conversa de Simon e Baldwin flutuasse até ela sem lhe prestar grande atenção. Falavam sobre um amigo do cavaleiro, o Bourc de Beaumonte, e sobre a sua jornada para encontrar a sua antiga ama. Não estava interessada em histórias sobre velhas batalhas e as narrativas a respeito do reino de Jerusalém entristeciam-na porque era deprimente saber que os lugares sagrados estavam a ser violados por heréticos. Margaret aproveitou para abrir a sua capa e para a despir.

       Baldwin encontrava-se junto à mesa e observava a comida, que fora disposta em travessas como que de propósito para ser inspecionada. O cavaleiro olhou para baixo e viu a sua cadela.

       Pegou na faca, cortou um pouco de presunto e atirou-lhe antes de se virar e de sorrir para os convidados.

       Margaret tinha a sensação de que o cavaleiro se modificara muito sob certos aspectos... e nada sob outros. As linhas no rosto, as cicatrizes e as marcas de sofrimento quase tinham desaparecido e haviam sido substituídas por uma calma aceitação da vida. Era como se uma peça de linho amarrotada e enrugada tivesse sido passada a ferro e estivesse novamente lisa, onde houvera dor havia agora tranqüilidade. No entanto, ainda possuía as maneiras rápidas e confiantes de que se recordava do ano anterior, quando o conhecera pela primeira vez.

       Simon também notara os sinais de conforto e de paz e ficou satisfeito por saber que o cavaleiro continuava em liberdade graças à sua própria intervenção. No ano anterior, pouco depois de se terem conhecido.

       Baldwin admitira ter sido membro dos Cavaleiros Templários e Simon tinha a certeza de que a sua decisão de guardar o segredo do homem fora a mais correta.

       Não fora fácil, em especial depois do assassínio do Abade de Buckland. Fora um ano terrível. Andara por ali um bando de fora-da-lei, que assassinara e queimara desde Oakhampton até Crediton, e o abade fora raptado e morto. Para um almoxarife recentemente nomeado, aquela série de mortes constituíra um problema de vastas proporções, mas conseguira resolvê-las. Ouvira a história do cavaleiro e vira-se forçado a sondar a sua própria alma, mas no fim concluíra que a prisão de Baldwin não traria qualquer vantagem para ninguém e não revelara o seu segredo. Agora estava satisfeito por ver que o cavaleiro justificara plenamente essa decisão.

       - Baldwin, já percebeste até que ponto estás bem visto em Exeter? - perguntou-lhe, quando se sentaram.

       O cavaleiro levantou uma sobrancelha e lançou-lhe um olhar interrogativo, como se estivesse à espera de um qualquer tipo de armadilha.

       - Ah! Sim. - inquiriu desconfiado.

       - Sim, e até o próprio Walter de La Forte recebeu bons relatórios a teu respeito.

       - Nesse caso, espero que o bom bispo guarde esses relatórios para si mesmo, meu amigo! Não tenho qualquer desejo de ser chamado para longe daqui, para trabalhar para o monarca ou para o meu Lorde de Courtenay. Edgar! -Chamou num berro.- Onde está o vinho?

       O servo apareceu rapidamente, carregando um jarro e canecas para a bebida quente e adoçada que serviu a todos. A seguir colocou o jarro junto do fogo para o manter quente enquanto se sentava junto deles, lançou um breve sorriso para Margaret e Hugh, mas não para Simon, fato de que este percebeu. Sim, pensou resignado. Ainda no ano passado o tive atraído com o inimigo e lhe chamei de mentiroso...

       - Então, como é Lydford. Simon?

       - Lydford é fria, Baldwin.

       - Fria?

       - É gelada! - interveio Margaret. - Fica num dos lados de uma ravina... e o vento uiva pelo vale como os cães do diabo a perseguirem uma alma perdida!

       - Descrito dessa maneira... parece ser um lugar encantador. - comentou Baldwin muito sério. - Estou ansioso por vos ir fazer uma visita.

       - Serás sempre bem-vindo. mas o frio não é tudo... - declarou Simon com uma espécie de sorriso de desespero - Já tive visitas de toda a gente desde que lá cheguei. Os proprietários das terras queixam-se a respeito dos mineiros do estanho... e os mineiros do estanho queixam-se dos proprietários. Meu Deus! O nosso Rei permite que os mineiros tomem todas as terras que quiserem, o que não me admira, porque valem uma fortuna em impostos bons para pagar o seu guarda-roupa, pelo que está toda a gente revoltada com eles... e depois esperam que seja eu a resolver o assunto, mas que querem que faça? Até agora, a única coisa que consegui foi mantê-los separados... mas os golpes já começaram a surgir...

       - Tenho a certeza de que irás resolver essa questão. No fim de contas, as coisas nunca são fáceis. No ano passado também tiveste aqui grandes problemas, não é verdade? Margaret, come um pouco de esquilo... ou de coelho. São frescos e jovens...

       - Hum... não, obrigada – retorquiu, fazendo uma careta e pegando numa perna de galinha. O cavaleiro lançou-lhe uma olhadela de surpresa e Simon prosseguiu:

       - Refereste aos fora-da-lei? Ora, preferia ter de os enfrentar! É mais fácil lidar com eles do que com os homens livres e os proprietários, uma vez que só é preciso apanhá-los e enforcá-los. Com o pessoal de Lydford nem sequer posso fazer isso...

       - De qualquer modo... - disse Margaret, a segurar na perna de galinha e a examiná-la como se procurasse o pouco de carne mais suculento - tudo isso deve ser muito aborrecido para ti, Baldwin. Tem acontecido alguma coisa interessante por aqui?

       O cavaleiro riu-se, encolheu os ombros com alguma vergonha e exibiu uma careta de quase embaraço. Inclinou a cabeça para um lado e afirmou:

       - Nada de especial na verdade. O Tanner ainda não limpou algumas das estradas e o meu cavalo de guerra ficou coxo há algumas semanas. Tirando isso...

       - Parece que não queres dizer-nos o que se passa...- comentou Simon com um desgosto fingido.

       Baldwin riu-se e os seus olhos estreitaram-se um pouco.

       - Que querias que te contasse. Simon ? Tu é que deves ter ouvido muitas novidades em Exeter...

       Simon arrotou de leve e esvaziou a caneca antes dele se levantar para voltar a enchê-la. Quando falou o humor desaparecera e fora substituído por uma reflexão sóbria.

       - Novidades, Baldwin e não são boas. O que há de muitas novas vou dizer e não deve sair daqui, é claro... mas até o Walter já perdeu a paciência. Afirma que o Rei Eduardo já anteriormente era um irresponsável e que, agora que o seu favorito, Piers Gaveston, foi morto se tornou ainda pior.

       - Em que aspecto? - perguntou Baldwin, franzindo a testa.

       - Está a atirar os lordes uns contra os outros, ignora as ordenanças, deixa passar os insultos sem qualquer punição... Aparentemente só quer que o deixem em paz para se divertir com os barcos e com outras frivolidades. Passa o tempo a navegar... e a divertir-se com os seus amigos plebeus! Até correm boatos de que não é filho do pai... - acrescentou Simon baixinho.

       Baldwin acenou lentamente e refletiu nas histórias que tinha ouvido contar a respeito daquele segundo Eduardo ser um falso filho, um substituto inserido na casa real como um cuco num ninho alheio. Quando os problemas surgiram, pensou Baldwin, as pessoas tinham oportunidade de imaginar o pior.

       - Não acredito numa coisa dessas - afirmou Baldwin - mas é verdade que o estado está a ficar agitado. Ouvi dizer que houve fazendeiros que se revoltaram contra os seus senhores, e até que alguns cavaleiros estão novamente a recorrer ao banditismo. Além disso, há mais fora-da-lei e grupos de homens livres que descem do Norte, pessoas deslocadas que perderam as suas casas e aldeias para os escoceses e que tentam encontrar um novo lar.

       - Foi o que disse o Walter, que está muito preocupado. Afirma que tem de existir um compromisso entre o monarca e os seus barões porque, caso contrário, iremos ter uma guerra... Nem o próprio Deus sabe qual será o resultado!

       - Pois não... e Deus não vai querer uma guerra num país cristão...

       - Claro que não! Foi por isso que o Walter se aliou com o Aymer de Valence, o conde de Pembroke para tentar conseguir apoio para as ordenanças.

       - Ah! - Baldwin ficou pensativo por instantes. - Sim, faz sentido. Se a finalidade for essa o conde pode contar com o apoio de muitos barões. O que foram as ordenanças... se não controles para garantir uma boa governação?

       - Exato. O Walter pensa que se for possível persuadir o monarca a concordar, então evitaremos que os problernas se agravem... e talvez consigamos afastar a perspectiva de uma guerra...

       - E tu, o que pensas disso?

       Simon levantou a cabeça e fitou os olhos negros e intensos do amigo, que tinha o rosto franzido de concentração.

       -Creio que teremos sorte se conseguirmos impedir uma guerra nalguns locais...-declarou com simplicidade. - O conde de Pembroke está de um lado... e o conde de Lancaster está no outro- mas, são ricos e poderosos. Se lutarem, - e acabarão por fazer - vão morrer muitos homens.

       - Sim, e também muitas mulheres. Nas guerras, são sempre os servos da gleba e as pessoas vulgares quem morre mais depressa.

       Simon acenou uma confirmação e encolheu os ombros.

       - A guerra é assim...- O Rei Eduardo ficará entre Pembroke e Lancaster.

       - Há alguém que se preocupe com ele? Ou vai estar com um ou com outro... a sua própria força sem eles.

       - Não! De qualquer modo, esse alinhamento fará alguma diferença? Quem irá confiar na sua liderança depois da derrota que sofreu contra os escoceses em Bannockburn!

       Baldwin voltou a acenar, como se confirmasse os seus próprios pensamentos e não estivesse escutando as palavras do almoxarife. Depois, de repente, virou-se para Margaret como se tivesse acabado de dar pela sua presença

       - Desculpa, esta conversa deve ser muito aborrecida para ti.

       Margaret devolveu-lhe o olhar com o rosto subitamente contraída.

       -Aborrecida? Como pode ser aborrecida se estão falando do futuro da nossa terra? Do nosso futuro? -

       Os olhos do cavaleiro fixaram os delas por instantes, mas depois desceram-lhe para a barriga. Margaret não conseguiu evitar um sorriso quando o cavaleiro voltou a fitá-la com uma interrogação nas profundidades escuras dos seus olhos.

       -As minhas desculpas, Margaret. Não pretendia insultar-te... - murmurou. - Tenho tendência para pensar que os problemas relacionados com os cavaleiros e com as guerras só interessam aos homens. Esqueço-me que também afetam as mulheres. - Ficou imóvel por momentos e pareceu estar a olhar para a distância, como Donors a seu lado. A enorme cadela fitou-o e pousou a cabeça no colo do cavaleiro, sobressaltando-o e trazendo-o de volta à realidade com um choque. - Malvada cadela! - murmurou, mas com afeto. Pegou nalguns bocados de carne e atirou-os para longe da mesa. A cadela afastou-se em silêncio, à procura da comida, e Baldwin levantou-se. - Venham, vamos sentar-nos junto do fogo.

       O cavaleiro instalou-se na sua cadeira enquanto os servos deslocavam os bancos, pelo que em breve estavam todos sentados a olhar para as chamas, com o mastim a dormir, todo esticado em frente da lareira. Edgar saiu para ir buscar mais vinho enquanto os amigos conversavam entre si, com Hugh sentado e a cabecear sob a influência do calor e do álcool.

       - Tens mais alguma novidade, Simon? - perguntou novamente o cavaleiro. Como o almoxarife encolheu os ombros. Baldwin virou-se para Margaret com uma sobrancelha levantada.

       A jovem riu-se e abanou a cabeça. Por vezes parecia-lhe impossível ocultar fosse o que fosse ao cavaleiro, que reparava até nos mínimos pormenores. No entanto, não percebia como ele adivinhara porque ela própria só começara a desconfiar na semana anterior. Agora já tinha a certeza, mesmo que Simon ainda não acreditasse. O período estava atrasado.

       - Sim, creio que estou outra vez grávida... mas como foi que... ?

       - Foi fácil, Margaret. Tens um aspecto florescente e pareces não gostar de alimentos que anteriormente adoravas... os coelhos foram preparados especialmente para ti...

       - Bom, por enquanto são apenas esperanças - disse Simon, que se inclinou para a frente e olhou fixamente para o cavaleiro. - Então e tu andavas em busca de uma esposa... mas esta casa não revela quaisquer sinais de mãos femininas. Como decorre a tua busca?

       Para grande satisfação do almoxarife, Baldwin reagiu com um encolher de ombros petulante, como uma criança a fingir desinteresse.

       - Bom, eu... sabem... Ora, que diabo!...

 

       Quase dez quilômetros para sul, o Bourc espreitava através das árvores enquanto cavalgava e se encolhia no interior da capa para se proteger do frio cortante. As árvores erguiam-se do dois lados da estrada, impermeáveis ao tempo, mas lá no alto captava ocasionais relances de estrelas que brilhavam como pequenos pontos de luz para logo depois desaparecerem como as fagulhas de uma fogueira. Cintilavam brevemente antes de serem apagadas pelas fantasmagóricas nuvens que corriam pelo céu, nuvens que o levavam a franzir o rosto de ansiedade. Fugiam a toda a velocidade como se receassem o mau tempo que as perseguia de perto.

       O cavaleiro ouviu o som de cascos, parou e ficou a olhar em frente com toda a cautela. Era tarde para andar alguém na estrada a viajar. Não precisou esperar muito tempo para ver um homem a cavalgar na sua direção. O Bourc mostrou os dentes num breve sorriso e acenou. O outro homem, vestido com as roupas quentes e escuras de um caçador, devolveu-lhe o aceno e continuou o seu caminho à pressa. O jovem cavaleiro sorriu alegremente para si mesmo. Estava todo enlameado por causa dos salpicos provocados pelos charcos e sabia que o seu aspecto não deveria ser de molde a inspirar confiança num estranho. Teve uma idéia súbita, virou-se na sela e verificou que o outro também olhava para trás com um interesse declarado. O Bourc voltou a sorrir quando esporeou o cavalo e prosseguiu o seu caminho para Wefford.

       Naquela noite já viajara o suficiente. O cavaleiro avistou uma clareira que lhe pareceu apropriada e abandonou a estrada. Deteve-se e avistou uma cabana por entre as árvores, uma construção muito simples feita com troncos mal aparados. Parte do telhado já desaparecera e o resto estava em muito mau estado, mas de qualquer modo não deixava de ser um refúgio contra as piores rajadas de vento. Conduziu os cavalos para o interior e cuidou deles antes de acender uma fogueira.

       Mastigou um pouco de carne seca e analisou as opções. O assunto que o levara ali estava arrumado, pelo que já não havia nada que o detivesse. Quanto mais cedo chegasse a casa, melhor seria. Se continuasse por aquele caminho, para leste, e refizesse o percurso que tomara desde a costa, chegaria ao seu destino dentro de um par de dias, o que seria muito mais do que o necessário. A viagem para oeste e depois para sul, para Oakhampton, ficava muito fora do seu caminho e iria obrigá-lo a rodear o perímetro das charnecas. Seria muito mais direto e rápido se cortasse a direita para sul, através das charnecas, até chegar ao mar.

       Na manhã do dia seguinte, quarta-feira. Samuel Cottey um agricultor que vivia a sul de Furnshill, atrelou a velha mula à carroça e preparou-se para a jornada, a praguejar na densa escuridão de antes da madrugada quando os dedos já enregelados e entorpecidos se debateram contra os ásperos arreios de couro e latão que tinha de esticar e de ajustar.

       - Desculpa, meu amor... - murmurou quando entalou um pouco de pele do animal numa fivela, fazendo com que a mula resfolegasse e batesse com os cascos. -Já falta pouco. Estas quase pronta.

       Quando terminou, Samuel recuou um pouco e observou o seu trabalho enquanto esfregava a ligadura que lhe cobria um comprido corte num braço. Fora havia uma semana que um ramo caíra da árvore que estava a abater e lhe cortara a carne do braço como se fosse uma espada, mas, graças a Deus, o cataplasma da velha parecia estar a dar resultado e o ferimento começara a sarar. Suspirou, espreguiçou-se e caminhou de volta à casa, batendo com os pés no chão para recuperar a sensibilidade nos dedos. Penetrou no interior enfumaçado, aqueceu-se no fogo que ardia na lareira no meio da sala e sorriu-se de esguelha apenas com um dos lados da boca de lábios pálidos e finos, inserida num rosto quadrado e avermelhado sobrepujado por uma mancha de cabelos grisalhos. Sarah, a filha, devolveu-lhe o sorriso, fitou os olhos castanhos-claros do pai e entregou-lhe a caneca cheia de cerveja quente.

       Ficou a observá-lo enquanto a despejava, dando estalos com os lábios e limpando a boca com a mão, para acabar por soltar um arroto de apreciação. Agradeceu-lhe com um sorriso rápido e devolveu-lhe a caneca.

       - É bom... - disse, beijando-a de leve na face. - Voltarei logo que puder... De qualquer modo, vou tentar chegar a casa antes de escurecer.

       A jovem acenou e o homem saiu. Marchou rapidamente para a carroça e trepou para bordo, assobiando ao cão. Despediu-se da filha com um aceno rápido, fez estalar as rédeas e iniciou a sua viagem de Wefford à Crediton, com o cão atrás dele, a ladrar de excitação.

       Abandonou a área iluminada pela porta aberta que deixara para trás de si e a sua mente virou-se imediatamente para os problemas que enfrentavam. O ano anterior fora o mais difícil de que se recordava, em particular depois do irmão ter sido morto pelos fora-da-lei lá longe para o sul, no meio das charnecas. Agora, a família confiava apenas nele para manter as duas quintas em funcionamento. A cunhada tivera razão quando afirmara que não conseguiriam viver de uma única quinta, por serem ambas demasiado pequenas para os sustentar a todos e também porque nenhuma delas podia ser ampliada sem muito trabalho a abater as árvores que as rodeavam. Não, a única solução era continuar com as duas quintas.

       Porém, como fazê-lo? Agora só, ali estava ele, a filha Sarah e Paul, o filho do irmão... e o trabalho de manter as duas quintas a produzir era demasiado para eles. Talvez devessem fazer o que a Sarah sugerira. Ou seja, comprar mais porcos. Pelo menos, eram animais que conseguiam alimentar-se sozinhos e não precisavam de cereais, tal como as vacas.

       O sol acendia o céu oriental enquanto a carroça chocalhava e linchava na estrada para a cidade e o homem seguia de cabeça caída, com o queixo apoiado no peito e os ombros encolhidos num esforço para afastar o frio do seu pescoço vulnerável. Samuel era agricultor havia muito anos, pelo que estava habituado à crueldade dos ventos e as neves geladas que assolavam a terra todos os Invernos, mas o tempo ia tornando-se cada vez pior com a passagem dos anos. Olhou para cima, viu o céu iluminado por um vívido e irado clarão vermelho e suspirou. A frescura do ar, as nuvens de neblina que lhe saíam ela boca cor vermelha só podiam significar uma coisa: a neve estava a chegar, finalmente.

       Passou pela estalagem à sua esquerda, e olhou-a com ansiedade, desejando poder parar para se aquecer na grande lareira do salão, mas continuou em frente a tiritar, esfregando o braço de vez em quando. A curva de que necessitava estava um pouco mais a frente e virou para a direita, para Crediton, pois era aí que se encontrava a quinta do irmão, entre a própria cidade e Sandford. Precisava buscar as galinhas para as levar para o mercado. O Paul era ainda demasiado jovem para lhe permitirem ir ao mercado sozinho.

       As coisas estavam difíceis, pensou, com um novo suspiro. Ah! se a pobre Judith tivesse vivido mais algum tempo... Contudo, a esposa sucumbira a pestilência que aparecera depois das chuvas que haviam destruído as colheitas dois anos antes.

       De súbito, as árvores pareceram amontoar-se à sua volta, com os espessos troncos a erguerem-se ameaçadoramente do fino nevoeiro que ainda cobria o solo, como se pudessem mover-se e caminhar, se assim o desejassem. Foi essa sensação que o fez estremecer novamente e o levou a espreitar para os ramos por cima da sua cabeça. De algures na profundeza das árvores chegou-lhe o guincho de uma ave, e a seguir ouviu gralhas a chamarem por cima dele com um som que lhe pareceu estranho e pouco natural.

       Tudo o que conseguia ouvir era o matraquear e o guinchar da carroça, bem como uma ocasional pancada seca quando as rodas cintadas a ferro embatiam em pedras ou caíam em buracos, pelo que lhe parecia impossível poder escutar qualquer outra coisa por cima dos barulhos que ele próprio provocava, mas mesmo assim captava os sons da floresta que despertava e os seus olhos saltitavam para aqui e para ali, nervosos, como que receosos do que pudessem ver.

       Depois, de repente, viu-se fora da floresta. O trilho ali a subir e trepava um pequeno cerco onde a floresta fora desbastada. Soltou um profundo suspiro de alívio que lhe saiu da boca sob a forma de uma pena de ar enevoado. Os sentimentos de receio abandonaram-no e contorceu-se na tábua que lhe servia de assento, dizendo a si mesmo que era um parvo por ter medo dos ruídos próprios da floresta.

       O caminho pouco mais era do que trilho enlameado, como muros de pedra e sebes dos dois lados. Ficavam abaixo do seu nível de visão, o que lhe permitia ver os animais que se encontravam nos currais e para lá deles. A seguir verificou que a estrada se abria na sua frente ao passar pela quinta Greendiff, uma velha quinta que se encontrava ali há muitos anos, aumentando gradualmente de dimensões à medida que a família ia abatendo árvores para dar lugar às ovelhas.

       Foi um pouco antes da quinta que teve uma idéia súbita e se virou ligeiramente, numa tentativa para olhar para trás enquanto mantinha o corpo contraído como um nó de calor no meio do frio avassalador. O cão desaparecera.

       Chamou-o, fez uma careta, puxou as rédeas para deter a mula e virou-se com uma praga. O que menos desejava era que o cão se lembrasse de atacar uma das ovelhas dos Greendiff. Não havia sinal dele na estrada, pelo que Samuel saltou da carroça e voltou para trás com o rosto fechado e a soprar nas mãos geladas.

       Encontrava-se quase ao nível da linha das árvores quando ouviu uma espécie de fungadela e um latido vindos da barreira encimada por uma sebe que ficava à sua direita. Avistou uma estreita passagem, abanou a cabeça de impaciência, trepou a barreira e atravessou a sebe, prendendo a velha túnica acastanhada num espinho, o que o fez soltar uma praga. Do outro lado da sebe havia um campo cheio de ovelhas. Por baixo dele via-se uma cerca de varas entrançadas para impedir que os cordeiros se chegassem à sebe, mas tinha uma secção um pouco caída. O cão devia ter entrado por ali.

       Equilibrou-se precariamente no alto da barreira e olhou em volta. O rebanho parecia tranqüilo. Gritou, ouviu um movimento súbito quando o cão se assustou e regressou em busca do amo, todo encolhido como se esperasse levar um pontapé.

       - Era o que merecias... - resmungou Samuel, fazendo uma carranca para o animal. - Que andavas tu a farejar?

       Havia uma saliência. Uma forma encolhida por baixo da sebe que separava a propriedade da floresta a uns 30 metros de distância. A semi-escuridão não lhe permitia ver o que era, pelo que avançou com cuidado, de cara franzida. Dera apenas meia dúzia de passos quando respirou o ar com força e soltou um gemido. Era um corpo. Precipitou-se para a frente, tocou-lhe de leve numa das mãos e soube que não havia nada a fazer. O corpo estava frio como o granito. Ficou parado por momentos, a olhar para baixo e a abanar a cabeça. Sem dúvida que se tratava de alguém que não respeitara a terra e os seus perigos, que confiara demais nas suas próprias forças e descobrira que a natureza, na sua crueldade, conseguia destruir até os mais fortes. Abaixou-se um pouco com suavidade num ombro do corpo com o braço bom e puxou-o tentando ver se reconhecia o cadáver, mas este estava tão frio que ficara congelado naquela posição e precisou de todas as suas forças. Deu-lhe um puxão e o corpo deslocou-se. Foi então, quando reconheceu a morta, com os olhos que nada viam a fitarem-no no rosto petrificado por cima dos lábios azulados do corte, que gemeu de terror. Voltou a deixá-la cair sobre a face e tropeçou para trás até cair. A seguir levantou-se à pressa, lançou-lhe uma última olhadela e correu diretamente para a carroça.

       O almoxarife estava montado no seu cavalo e trotava velozmente. Percorria um estreito túnel entre as árvores com as folhas iluminadas por um brilhante clarão alaranjado e seguia na direção da luz que via ao fundo, com os ramos a prenderem-lhe a capa e pequenos raminhos a arranharem-lhe rosto, raminhos que teve de afastar com a mão até entrar na clareira. Foi aí que descobriu uma enorme fogueira a arder e no seu centro, na zona mais quente, havia uma figura encolhida que se virou lentamente e o enfrentou. Era o abade que morrera no ano anterior, a fitá-lo com olhos de cinzas negras, mas com rebordos avermelhados como canhões. O abade abriu a boca, uma entrada para o vazio, e perguntou numa voz profunda e carregada de desprezo:

       - Então, pensaste que eu não era importante? Pensaste que a minha morte não fazia grande diferença? Decidiste deixar o meu assassino em liberdade? Porquê? Porquê, Simon?    -      - Simon?

       - Simon! Deus do céu, vê se acordas! Simon!

       O almoxarife endireitou-se de repente, com os olhos escancarados pelo choque, e sentou-se no banco até sentir que o seu coração acalmava depois de todo aquele pânico. Soprou o ar das bochechas, passou uma das mãos pelos cabelos e colocou as duas à cara, sacudindo o medo em que o pesadelo o mergulhara. Ainda se encontrava em Furnshill.

       - Desculpa ter de te acordar deste modo, Simon, mas... Sentes-te bem?

       A preocupação na voz de Baldwin fez com que Simon esboçasse um sorriso lívido.

       - Sim, sim, estava a ter um sonho... O que é?

       Margaret não se encontrava ali, ela devia ter saído. Acordava sempre muito cedo quando estava grávida. Naquele momento, só conseguia ver Baldwin, aos pés do banco que lhe servira de cama rudimentar durante a noite, e havia uma expressão de ansiedade cautelosa no rosto do cavaleiro.

       Simon não sofria muitas vezes daquele pesadelo, tivera de o suportar ocasionalmente ao longo dos últimos meses. Suspirou e esfregou os olhos, tentando libertar-se do sentimento de tristeza enquanto afastava o sono.

       - Que se passa?

       - Houve um assassínio, almoxarife.

       Simon ouviu a nova voz, virou-se de repente e avistou Tanner, o regedor, de pé por trás dele.

       - O quê? Quem?

       O regedor avançou para o lado de Simon e olhou para Baldwin antes de começar, como se procurasse a autorização do Guardião da Paz do Rei.

       - Bom, almoxarife, parece tratar-se de uma mulher idosa que vivia em Wefford, a sul daqui. O Samuel Cottey - lembras-te dele? - ia a caminho de Sandford hoje de manhã. Encontrou o corpo e enviou-me um recado. Diz que foi assassinada e que não pode ter sido um acidente. Pensei em vir aqui em primeiro lugar para ver se Sir Baldwin queria ir lá comigo...

       - Claro que quero!- exclamou o cavaleiro com convicção. - E tu também vais, não é verdade, Simon?

       O almoxarife ficou surpreendido com a seriedade com que o cavaleiro parecia encarar o assunto. No que dizia respeito a Simon com certeza que aquilo não passava de um incidente local. Provavelmente nem sequer fora um assassínio, mas uma velhota qualquer que morrera por acidente. Contentou-se a afivelar a comprida adaga na cintura mas captou um relance do rosto rigído de Baldwin e viu-o pegar na espada, a extraía-la um pouco da bainha e a examiná-la antes de voltar a guardá-la para a pendurar a cintura.

       Até parece que foi ele quem teve o pesadelo, pensou Simon, mas na altura ia se encontravam no exterior, dirigindo-se para os cavalos. Despediu-se rapidamente de Margaret, beijou-a e saltou para a sela, sorrindo para ela antes de virar a montada juntamente com os outros e partir para a povoação.

       Pairavam uns leves prenúncios de neve, prelúdio da tempestade que já se sentia no ar, e as nuvens mostravam-se cinzentas e pesadas. O almoxarife ganhou consciência das miradas ocasionais, rápidas e avaliadoras, que o cavaleiro lançava para o alto, estudando o céu. Acabou por também olhar para cima e a sua expressão tornou-se pensativa.

       Era claro, graças a multidão amontoada em frente da porta da estalagem, que o desafortunado Cottey devia se encontrar no interior. Não podia haver outra explicação para tanta gente ali de pé, à espera, com a esperança de captarem um relance da causa para tanta excitação ou, o que na opinião deles seria ainda melhor, de um corpo. As pessoas tomaram consciência da aproximação dos cavaleiros e afastaram-se rapidamente para deixarem os três homens chegar até à porta, mas a sua excitação aumentou e fez crescer a balbúrdia das vozes.

       Simon verificou que havia um homem a entrada da estalagem, baixo mas corpulento, largo, forte e com uma grande barriga, que espreitava por baixo de uma mata de cabelos cor de palha e agitava um forte bordão numa tentativa para manter as pessoas à distância.

       - Graças a Deus, já chegaram! Esta escumalha não tem mais nada para fazer para além de bisbilhotar a infelicidade dos outros! Tanner, vê se te livras deles, esta bem?

       O regedor desceu o enorme corpanzil de cima do velho cavalo com todo o vagar, olhando em volta para as pessoas que o rodeavam. Tanner tinha o tipo de físico que inspirava respeito e a sua pose era sempre algo ameaçadora mesmo quando não tinha uma arma na mão, tudo por causa do corpo sólido e compacto que se movia lentamente como que para evitar que dois dos seus grandes músculos colidissem um com o outro por baixo da pele. Os seus olhos, inseridos num rosto quadrado, costumavam exibir um brilho bondoso, mas não naquele momento. Simon já anteriormente lhe vira aquela expressão, no dia em que tinham apanhado o bando de fora-da-lei. Contraía os lábios, olhava para os rostos com desprezo e a sua mirada provocava um súbito arrastar de pés e algumas tosses nervosas. Alguns dos presentes viraram-se e foram-se embora. Outros aguardaram um pouco mais, como se não estivessem preocupados, mas acabaram por também o fazer.

       A estalagem tinha uma pequena área protegida por biombos, uma espécie de corredor de madeira destinado a afastar as correntes de ar. Havia uma cortina à direita e para lá dela descobriram uma grande sala quadrada, bloqueada na outra extremidade por uma nova divisória de madeira e por uma tapeçaria suspensa. Os pesados troncos estalavam e cuspiam alegremente na lareira no centro da casa, que se encontrava rodeada por três grandes bancos onde os clientes gelados se podiam aquecer. A sala estava quente, não obstante o telhado ser muito alto, e a atmosfera era pesada por causa dos odores a cerveja e a vinho.

       Simon e Baldwin entraram juntos, satisfeitos por poderem regressar ao calor depois da jornada, e dirigiram-se diretamente para a lareira. Estenderam as mãos para as chamas e seguiram o dedo do estalajadeiro que apontava uma figura silenciosa, sentada de costas para a parede, à esquerda deles. Tinha o rosto no escuro, mas Simon conseguiu ver dois olhos muito abertos que os fitavam. As chamas aumentaram subitamente no meio dos estalos da lenha e o almoxarife sobressaltou-se. O agricultor tinha os olhos esbugalhados de terror. Havia um cão pastor preto e branco sentado entre as suas pernas, com a cabeça pousada no colo do dono como se o quisesse reconfortar.

       - És o Cottey? - perguntou Baldwin com delicadeza. O agricultor, com o rosto da cor das cinzas, acenou uma confirmação. Era um homem pequenino, com um aspecto velho, cansado e abatido.

       Tanner afastou-se, mantendo-se nas sombras para não os distrair, e arrastou o estalajadeiro com ele. Inicialmente, o regedor ficou com a sensação de que o cavaleiro e o almoxarife estavam inseguros sobre se deveriam ou não interrogar Cottey, uma vez que este parecia demasiado perturbado. Como que para lhe afastar os receios, Baldwin sentou-se lentamente e o almoxarife imitou-o.

       - Precisamos te fazer algumas perguntas, Cottey. Estas bem? - perguntou Baldwin, mantendo um tom baixo e suave. - Encontraste um corpo?

       O velho fez um aceno com a cabeça e fitou-os, mas abaixou imediatamente os olhos para o cão a seus pés com um espanto receoso.

       - Sabes quem era?

       - Sim. - A resposta foi quase um suspiro.

       - Quem ?

       - Agatha Kyteler.

       Simon viu o amigo sobressaltar-se ao ouvir aquele nome e perguntou a si mesmo por que o teria feito, enquanto Baldwin prosseguia:

       - Conhecia-a?

       -Sim.

       - Conhecia-a bem?

       O agricultor lançou-lhe um olhar curioso, como se desconfiasse das razões para a pergunta, mas respondeu com um aceno seco.

       - Onde está o corpo? Trouxeste-o contigo?

       - Não - disse Cottey abanando a cabeça. - Deixei-a lá... Pensei que não seria capaz de a carregar e pedi ao jovem Greendiff para a vigiar. Era o que vivia mais perto...

       - Disseram-nos que pensas que foi um assassínio? - interveio Simon depois de um suspiro. - Porquê? O que te fez pensar desse modo?

       O agricultor levantou novamente os olhos e inclinou-se para a frente. O rosto abatido penetrou na zona de luz, pelo que os seus olhos brilharam e o rosto oval cunhou os tons avermelhados e amarelados da ira.

       - O pescoço... - murmurou. - Ninguém consegue cortar a sua própria garganta daquele modo.

       O Bourc estremeceu, levantou-se e pensou que o mau jeito no pescoço nunca mais iria desaparecer. O fogo encontrava-se quase extinto e precisou de algum tempo para lhe devolver a vida. As chamas reapareceram, agachou-se e ficou a olhar para elas durante algum tempo.

       Saiu da cabana, parou no exterior por instantes e olhou para o céu enquanto cheirava o ar como um marinheiro. Era claro que o tempo frio chegara para ficar durante algum tempo. No entanto, embora as nuvens fossem espessas e pesadas, pressentiu que ainda aguentariam mais um ou dois dias. Havia uma leve poeira de neve a cobrir o solo mas tinha a certeza de que naquele dia não nevaria mais.

       Olhou para sul e verificou que as charnecas cinzentas-azuladas quase não haviam sido tocadas pelo branco, exceto nalgumas covas mais fundas. Enquanto franzia a testa pensando houve um dedo de luz que atingiu suavemente a colina diretamente na sua frente, como que a apontar-lhe o caminho.

       Acenou num gesto de decisão e regressou ao interior da cabana. Para começar, apanharia alguma lenha para poder acender uma fogueira no caso de surgir o mau tempo que, de momento, era apenas uma ameaça em suspenso. A seguir, prosseguiria a sua jornada através das charnecas.

 

       Baldwin e Simon recusaram as canecas de cerveja e regressaram aos cavalos. O velho agricultor concordara em levá-los ao local onde encontrara o corpo da mulher. Depois, haviam descoberto que Cottey possuía uma carroça e tinham decidido utilizá-la para transportar o cadáver. O estalajadeiro certificara-se de que a mula fora abastecida com água e comida e o animal mostrou-se com muito mais vida quando o conduziram para a frente da estalagem.

       A atmosfera úmida e fria do exterior era tão intensa e cortante que Simon teve de fazer um esforço físico para abandonar o calor da estalagem. Ao sair verificou que a neve começaria a cair e que havia flocos leves e insubstanciais a descerem de um céu de chumbo, que faziam com que o fogo na lareira lhe parecesse ainda mais atraente. As pessoas que haviam estado na frente da estalagem deviam ter pensado o mesmo porque tinham desaparecido quase todas.

       Simon calçou as luvas e verificou que já só ali estavam alguns adolescentes que pareciam com pouca vontade de irem embora enquanto houvesse uma hipótese de verem qualquer coisa interessante. Sorriu para si, bem-disposto, enquanto avançava para o cavalo e montava. Esperou pelos outros e de súbito teve consciência da presença de uma rapagariga. Um pouco afastada dos restantes, que o fitava com uns olhos castanhos muito grandes e sérios. Não podia ter mais do que 10 ou 11 anos e Simon lançou-lhe um sorriso. A rapariga também sorriu rapidamente mas baixou os olhos como que em contemplação antes de começar a fazer beicinho e virar-se.

       Simon pensou, se bem que mesmo ali muitas daquelas crianças tinham visto alguns dos seus parentes morrerem diante da grande fome. De qualquer modo, que podia ele fazer a esse respeito? Viu que os outros estavam prontos e trotou atrás deles quando viraram para a direita, olhando de vez em quando para o céu com uma careta enquanto perguntava a si mesmo até que ponto o tempo iria ser mau.

       Cavalgou em silêncio enquanto observava o agricultor. Fora a sua impaciência que fizera com que o velho se fechasse. Depois de lhe ter feito a pergunta, depois de Cottey lhes ter falado na garganta cortada, o velho recolhera-se para dentro de si mesmo com os olhos a encherem-se de lágrimas como se tivesse medo de qualquer coisa. Mas... de quê? Simon tinha a certeza de que havia qualquer coisa que o homem não lhes dissera e pretendia descobrir o que era mas, para sua surpresa, o agricultor parecia não estar de modo nenhum preocupado com os três homens e quase nem os olhava. A sua concentração estava inteiramente posta nas árvores que os rodeavam e tinha os olhos a saltitarem de nervosismo de um lado para o outro, e depois para cima, como se receasse uma emboscada.

       Simon olhou para o amigo e viu que este também estava mergulhado em pensamentos. O nome da velha mulher surpreendera-o, Simon sabia-o e interrogou-se brevemente sobre se deveria interromper a disposição refletiva do cavaleiro, mas decidiu não o fazer. De certeza que Baldwin lhe explicaria as suas preocupações quando se sentisse pronto.

       O almoxarife tinha razão. O fato de ter ouvido o nome da mulher pouco depois de o ter escutado da boca do filho do seu amigo deixava Baldwin preocupado. Eram demasiadas coincidências. Se pudesse acreditar no que o Bourc lhe dissera, a principal razão para a vida do jovem cavaleiro fora precisamente aquela mulher. Queria vê-la, para lhe agradecer por o ter salvo. Contudo, de certeza que não havia razões para supor que estivera envolvido na sua morte.

       Percorreram apenas pouco mais de um quilômetro até à franja das árvores da floresta quando o agricultor deteve a mula e apontou para uma abertura numa sebe. O cavaleiro e o almoxarife não precisaram de muito tempo para treparem a barreira de terra e passar para o outro lado.

       Tanner ficou surpreendido ao verificar que o velho não fazia qualquer esforço para acompanhar os outros. Olhava em frente com uma expressão vazia, colado ao assento de madeira, e mantinha as rédeas na mão como se os desafiassem a pedirem-lhe que os acompanhasse. Nem sequer pareceu dar pelo cão quando este saltou para a carroça e pousou as patas a seu lado para espreitar em volta. Quando os outros já não os podiam ouvir, o regedor parou o cavalo ao lado do velho agricultor e perguntou :

       - Que se passa, Samuel?

       O homem virou-se para ele e Tanner viu-lhe o terror no rosto.

       - É ela, Stephen! Ela! Por que tinha de ser eu a encontrá-la?

       Tanner fitou o homem e ia perguntar-lhe o que queria dizer com aquilo quando Simon espreitou do outro lado da sebe e o chamou. Acenou para o almoxarife e disse:

       - Espera aqui. Samuel. Terás de nos explicar isso mais tarde. - O regedor saltou do cavalo, avançou até à sebe, passou para o outro lado e seguiu o amigo para o campo.

       A neve caía agora com mais intensidade, em flocos espessos que pousavam no solo com suavidade e faziam com que toda a área parecesse calma e pacífica. Todavia, o regedor não se deixava enganar por que sabia demasiado bem até que ponto os flocos brancos aparente podiam ser perigosos para os desprevenidos. No entanto, não foi isso o que lhe provocou uma careta. Conhecia a família Cottey havia muitos anos - incluindo Samuel, o irmão e os filhos - e sabia que eram gente sólida e de confiança. Nunca vira nenhum deles exibir um tal medo, nem sequer no passado quando eram mais jovens e tanto o Samuel como ele haviam combatido juntos como homens de armas. Porque estaria ele tão perturbado com a morte de uma velhota?

       Simon e Baldwin encontravam-se a alguns metros de distância e caminhavam para um jovem alto, vestido com uma túnica marrom e uns calções de lã, que pusera um espesso cobertor vermelho sobre os ombros e o prendera como se fosse uma capa curta. Usava uma pesada faca de cabo de madeira enfiada na cintura. Tanner reconheceu-o imediatamente, era Harold Greendiff.

       O cavaleiro ainda não o conhecia. Greendiff era um jovem alto no princípio da casa dos 20. Tinha cabelos louros e bom aspecto, era largo de ombros e possuía um rosto franco e amigável, curtido pelos ventos. Os seus olhos bem afastados brilhavam de saúde de cada lado de um nariz comprido e direto. Contudo, naquele dia mostrava-se nervoso e quase agitado, e não enfrentava os olhos do cavaleiro. As roupas que usavam indicavam que não era pobre, mas também não se tratava de uma pessoa rica. Tinha olhos cintilantes e parecia inteligente, mas o cavaleiro preferiu não o julgar apenas por isso. Conhecera muitos tolos que pareciam inteligentes e não o eram, e já não confiava nas primeiras impressões.

       As mãos do rapaz seguravam num caiado de pastor e os dedos moveram-se-lhe ao longo da vara enquanto observava a aproximação dos três homens com uma perturbação que Baldwin não conseguia entender. Parecia-lhe estranho que um cadáver pudesse provocar tantos medos, primeiro ao velho Samuel Cottey e depois àquele rapaz. Acabou por encolher os ombros. Devia haver uma razão e estava certo de que a iria conhecer muito em breve.

       - És o Greendiff? - perguntou o cavaleiro.

       - Sim - respondeu o jovem, espreitando para o regedor e para o almoxarife por cima do ombro de Baldwin.

       - Vê se acordas, rapaz! - exclamou o cavaleiro, irritado. - Estás aqui para tomar conta do corpo da velha, tal como o Cottey te pediu, não é verdade? Então, onde é que ele está?

       Greendiff virou-se em silêncio e apontou para a sebe que fazia um ângulo reto com a estrada e impedia as suas ovelhas de passarem para a floresta. Ali, na escuridão por baixo da folhagem, distinguia-se um pequeno volume. Para Simon, parecia um monte de farrapos sujos a jazerem numa abertura feita por uma raposa ou por um texugo no espaço entre dois caules da própria sebe, meio debaixo das plantas, meio no campo. Ele e o cavaleiro avançaram, deixando o jovem Greendiff parado, a remexer nervosamente no cajado, ao lado de um Tanner impertubável. Aproximaram-se do corpo e detiveram-se a dois ou três metros de distância.

       - Tocaste-lhe? - gritou Simon para o rapaz, com o rosto contraído pela concentração.

       - Não senhor, não lhe toquei. O Samuel disse-me onde a tinha encontrado, vim para aqui e fiquei onde me viram. Não queria vê-la e nem sequer me aproximei.

       Baldwin olhou para trás e acenou. Podia ver que os passos do jovem tinham machucado uma pequena área de ervas e não se aproximavam do corpo, o que significa que o rapaz se encontrava ali desde que começara a nevar e não saíra do mesmo sítio.

       - Ouviste alguém esta manhã? Viste alguém?

       - Não, senhor.

       - E na noite passada? Viste ou ouviste algo de estranho?

       - Não, senhor. Nada!

       Tinha o rosto ansioso, como se estivesse desesperado por os convencer. Baldwin voltou a acenar depois de o fitar nos olhos durante algum tempo. A seguir ergueu uma sobrancelha na direção do almoxarife e apontou com o queixo.

       - Não há rastos, Simon. Nunca conseguiremos ver se esteve aqui alguém na noite passada. De qualquer modo sabemos que não esteve aqui ninguém desde que começou a nevar.

       O cavaleiro tinha razão. Não havia qualquer marca a perturbar a neve assentada no chão numa camada que já devia ter cerca de centímetro e meio, e as pontas das ervas cortadas muito curtas pelas ovelhas. Limitavam-se a espreitar acima da superfície. Baldwin encolheu os ombros e percorreu os últimos metros até junto do corpo.

       Jazia parcialmente oculto por baixo da sebe, com o rosto para baixo. A parte inferior projetava-se para o campo enquanto a cabeça e o torso se encontravam sob a proteção das plantas e limpos de neve, pelo que podiam ver o tom negro das roupas da mulher.

       - Esperem um pouco...- pediu Baldwin, que se agachou com os olhos escuros a percorrerem o solo ao longo dos dois lados do corpo até voltarem ao ponto inicial. A seguir investigaram a sebe e pousaram-se novamente sobre a forma inerte. Quando falou, a sua voz era um murmúrio.

       - O tempo tem estado tão frio que não há marcas no chão, por estar demasiado duro. Mesmo que existissem, a neve já as teria coberto. Nem sequer um caçador conseguiria um rasto por baixo disto...

       Simon confirmou com um aceno, pousou um joelho no chão e olhou para trás, para lá de Tanner e Greendiff, para o caminho que tinha percorrido desde a sebe que bordejava a estrada. As suas próprias pegadas estavam perfeitamente impressas na neve, mas esta só começara a cair quando se encontravam na estalagem. Já nem sequer se conseguiam ver os rastos de Cottey de quando este encontrara o corpo. Olhou para o cavaleiro e perguntou:

       - Poderá ter vindo da floresta, através da sebe?

       - Não me parece. - foi a resposta pensativa logo que o cavaleiro levantou a cabeça. - Repara que não há ramos partidos. Dá a idéia de que caiu deste lado. Talvez tivesse morrido aqui mesmo. - Mordeu um lábio e prosseguiu: - Vamos ver-lhe o rosto, Simon. Ajuda-me a deslocá-la.

       O almoxarife fez uma careta mesmo contra a sua vontade. Aquela era a parte que mais detestava, o primeiro choque de ver o cadáver e o ferimento que provocara a morte. Suspirou, segurou no corpo pelas ancas com alguma hesitação enquanto Baldwin se endireitava devagar, agarrando os ombros da mulher e rodando-a. De súbito, recuou e exclamou:

       - Meu Deus!

       - O que é? - perguntou Simon, atirando-lhe uma olhadela nervosa.

       Baldwin devolveu-lhe o olhar com o choque a dar lugar a um interesse crescente.

       - Não me admira que o homem tivesse ficado tão chocado. Tinha razão quando disse que lhe cortaram a garganta. Na verdade, quase lhe separaram a cabeça dos ombros!

       Transportaram o corpo com cuidado para alguns metros de distância da sebe e pousaram-no nas ervas cobertas de neve. Simon abanou lentamente a cabeça e endireitou-se com as mãos nas ancas enquanto Baldwin se ajoelhava e estudava o corpo com atenção. O almoxarife olhou para baixo, para o triste amontoado de trapos e carne... e pensou que aquilo que fora uma pessoa tinha agora um aspecto patético embora se tratasse apenas de uma aldeã. Ainda estava a olhar para baixo quando Baldwin se levantou.

       - Quem quer que tenha feito isto quis ter a certeza... Tal como o Cottey disse, a mulher não o pode ter feito a si mesma.

       Simon espreitou o corpo e viu o que o amigo queria dizer. Os ossos ainda estavam ligados mas a carne fora cortada tão profundamente que a cartilagem amarelada da traquéia se encontrava à vista como um tubo perfeito. Simon estremeceu, ofegou e virou-se, engolindo rapidamente. Fechou os olhos, respirou fundo várias vezes e conseguiu libertar-se gradualmente da sensação oleosa de enjôo no estômago. Ouviu uma gargalhadinha baixa do cavaleiro e passos a esmagarem a neve, mas manteve os olhos fechados durante mais um pouco.

       - Simon, anda ver isto!

       O almoxarife abriu os olhos de repente, virou-se e afastou-se do corpo na direção da sebe onde o cavaleiro se encontrava agachado.

       Baldwin levantou-se quando ele se aproximou e Simon ficou surpreendido ao ver-lhe uma expressão intrigada.

       - O que é?

       - Vês alguma coisa estranha?

       O almoxarife engoliu em seco. O estômago continuava turbulento depois do choque e não estava com disposição para jogos. Abriu a boca para uma réplica seca mas viu a concentração pensativa nos olhos do cavaleiro. As palavras ficaram-lhe na garganta e sentiu os olhos a descerem para o local onde tinham encontrado o corpo.

       A impressão da mulher ficara marcada na erva e na terra no sítio onde ela jazera. A neve demarcava os contornos das pernas. Não caíra um único floco por baixo do corpo e não se formara geada. Para além de alguns raminhos e folhas machucadas, não havia mais nada. Encolheu os ombros e olhou para o cavaleiro com uma expressão interrogativa.

       - É óbvio que estava deitada aqui quando começou a nevar... comentou inseguro.

       - Talvez eu... - Baldwin calou-se e caminhou novamente para junto do corpo. O almoxarife seguiu-o relutante.

       Embora tentasse desviar os olhos, Simon descobriu que os mesmos estavam sempre a regressar àquele ferimento hediondo. Começou a sentir a barriga como se fosse um caldeirão de guisado em cima do lume, a borbulhar e a espessar-se, obrigando-o a arrotar. A bílis subiu, queimou-lhe a garganta e Simon estremeceu ante o sabor ácido e desagradável. O corpo parecia não provocar qualquer medo ao cavaleiro, que lhe pegou na cabeça com as duas mãos e a virou para um lado e para o outro, espreitando para o interior do ferimento e para as cartilagens cortadas. A seguir olhou para as feições azuladas e contraídas, para os olhos enevoados que nada viam e levantou-se. Franziu a testa, rodeou o corpo lentamente e contemplou-o com a cabeça inclinada para um lado.

       - Vi esta mulher no sábado... - declarou baixinho. - Nessa altura ainda não sabia como se chamava e era apenas uma velhota na estrada. Nem sequer falei com ela... e agora tenho de descobrir quem a assassinou... - Calou-se e levantou os olhos para Simon. - É triste, não é?

       - Oh, sim...

       O cavaleiro, esboçou um pequeno sorriso.

       - Todavia, isso não é tudo, Simon. Pode ser uma tristeza, mas há aqui algo muito errado.      - Não estás a ver? Cortaram-lhe a garganta... e deve ter sangrado como um porco. Onde está o sangue? Então?

       Apesar de todo o nervosismo de Greendiff, Tanner ficou satisfeito ao verificar que o rapaz se mostrava disposto a ajudar a transportar o corpo para a carroça enquanto Simon e Baldwin sujeitavam a sebe a um escrutínio cuidadoso. O jovem até tirou o cobertor dos ombros e ajudou o regedor a colocá-lo em volta da figura magra e frágil, pousando-o ao lado dela e fazendo-a rolar o corpo. Todavia, quando o regedor lhe pegou nos ombros, não conseguiu deixar de reparar no modo como os olhos de Greendiff se desviavam constantemente para o buraco na sebe onde o corpo de Agatha Kyteler jazera.

       O velho regedor vira muitos cadáveres ao longo da vida, figuras brutalmente feridas depois de uma batalha, homens que haviam sangrado até à morte depois dos membros lhes terem sido decepados, ou que haviam sofrido fins lentos e dolorosos por causa de punhaladas nos estômagos, bem como os corpos tristes e torturados dos que haviam tentado atravessar as charnecas com mau tempo. Para ele estes últimos eram os piores, com as mãos contorcidas como garras numa tentativa para se arrastarem mais alguns metros, para a segurança, com os rostos torcidos e olhares de angústia, mesmo na morte. Compreendia as pessoas que ficavam chocadas com tais visões, embora ele próprio as encarasse com equanimidade, e estava ligeiramente surpreendido com o fato de Greendiff poder estar agora tão calmo depois do seu anterior medo aparente.

       Foi quando chegaram à sebe que dava para a estrada que compreendeu que se tinha enganado. Greendiff foi o primeiro a subir a pequena vertente, andando de costas, a cambalear. Chegado ao cimo, junto à sebe, Greendiff parou e Tanner teve um relance do seu rosto. O rapaz não estava apenas nervoso... mas sim aterrorizado! O regedor preparou-se para o incitar, impaciente, dizendo-lhe “já está morta, rapaz, e nem sequer se importa se a deixares caída", mas viu os olhos do jovem desviarem-se para Baldwin e Simon e a compreensão atingiu-o como um raio caído do céu: Greendiff estava com medo do cavaleiro e não do cadáver.

       A partir desse momento, Tanner passou a vigiar o rapaz com olhos desconfiados. Por fim, conseguiram arrastar o corpo para a estrada e a partir daí não precisaram de muito tempo para o atirarem, sem grandes cerimônias, para o interior da carroça. O regedor verificou, mais uma vez, que o velho agricultor não se movia. Também ele parecia petrificado. Quando o corpo da velha caiu na carroça e a fez oscilar. Cottey continuou a olhar resolutamente em frente, com os ombros encolhidos e os cotovelos apoiados nos joelhos como se quisesse proteger-se contra o frio.

       - Vamos, Samuel! - gritou-lhe Tanner. - Levemo-la de volta para Wefford. - Cottey assobiou e deu estalos com a boca para a mula, mas não falou nem se virou, o que levou o regedor a abanar a cabeça num súbito impulso de desprezo.

       Baldwin e Simon regressaram pouco depois. O cavaleiro montou e ficou a ver Simon a fazer o mesmo, mas a seguir olhou para o jovem Greendiff.

       - Podemos querer falar contigo mais tarde... quando tivermos oportunidade para descobrirmos mais qualquer coisa. Vives ali? - Apontou com o queixo para a casa no alto de uma pequena elevação. Greendiff respondeu com um aceno, o cavaleiro fez rodar o cavalo, verificou se os outros estavam prontos e iniciou o caminho de volta à Wefford. Voltaram a entrar no meio das árvores e Baldwin descobriu que Simon o alcançara e cavalgava a seu lado. O cavaleiro sorriu-se para o amigo.

       - Sentes-te melhor?

       - Não, na verdade... - calou-se por um instante e a seguir acrescentou, pensativo: - É sempre mais difícil antes de os vermos, não é? O que torna tudo mais revoltante é o fato de não sabermos o que iremos encontrar. Contudo, as coisas já não são tão más depois de vermos os ferimentos...

       - Sim, suponho que tens razão - admitiu Baldwin com o sorriso a apagar-se-lhe do rosto.

       - Tens certeza a respeito do sangue?

       O humor de Baldwin desapareceu de repente, como neve caída sobre uma armadura.

       - Sim. Não pode ter morrido ali. Perdeu uma enorme quantidade de sangue. Pensa nisto: quando cortas a garganta a um porco ou a um borrego, o sangue espirra, não é verdade?

       - Bom, sim...

       - Acontece o mesmo com os humanos. Se ela tivesse morrido ali... então estaria tudo cheio de sangue, não morreu naquele campo.

       - Então,.. onde foi que morreu?

       - Onde? - A voz do cavaleiro tornou-se mais baixa e profunda. - Isso é o que vamos ter de descobrir. - Sim, pensou Simon. E também por que razão a deixaram ali, às folhas ao chão?      

       Chegaram a Wefford um pouco antes do almoço ignoraram os protestos do proprietário e levaram a figura envolta no cobertor para o interior da estalagem antes de pedirem vinho adoçado.

       Simon atravessou o interior escuro, encaminhou-se para o banco sentou-se com as mãos estendidas para as chamas como se estivesse a cumprir um ritual pagão. Sentiu o entorpecimento provocado pelo frio a desaparecer, para ser substituído por guinadas de dor e por um formigueiro a medida que a sensibilidade lhe regressava aos dedos. Gemeu, esticou as pernas para o fogo, mexeu os dedos dos pés e fez uma careta ao sentir as dores.

       Passados instantes ouviu a cortina a ser corrida para o lado e as passadas familiares do amigo.

       - Que bom! Demos graças a Deus por estas pequenas dádivas! - exclamou o cavaleiro com o sorriso a pôr-lhe os dentes à mostra enquanto se mantinha perto das chamas e soltava um suspiro. - Estalajadeiro, onde está o meu vinho?

       Simon lançou-lhe uma mirada de esguelha.

       - Pensei que acreditavas na moderação no que se refere ao vinho...

       - Com este frio? Moderação sim... mas não recuso os pequenos confortos - respondeu para logo voltar a berrar: - Estalajadeiro!

       O homem apareceu com uma carranca de amarga irritação estampada no rosto, avançou para o outro extremo do salão e desapareceu por trás da cortina. Regressou momentos depois com um tabuleiro com um par de jarros de vinho e canecas, que pousou no meio dos dois. Virou-se e preparava-se para se afastar quando Simon o chamou.

       - Aquela mulher, Agatha Kyteler... - disse-lhe o almoxarife, meditativo- tinha um nome que não parece ser destas partes...

       - Não, senhor. Era nova por aqui, apareceu há cerca de dez meses.

       - Há pouco, quando interrogávamos o Cottey, pareceste surpreendido quando soubeste quem tinha morrido...

       - E fiquei. Tinha ouvido o nome dela há muito pouco tempo... - O homem falou-lhes na visita do Bourc e em como este lhe fizera perguntas sobre a velha mulher.

       Baldwin franziu a testa enquanto o escutava, mas não fez comentários e ignorou o olhar de Simon.

       - Que sabes tu a respeito dela? - inquiriu Simon com os olhos postos no amigo. Sentia-se nervoso. Era claro que o cavaleiro estava preocupado e entendia os motivos por causa do que Baldwin lhe dissera a respeito da visita do Bourc quando da chegada dos Puttocks a sua casa.

       - O que sei a respeito dela? Não...

       - Foi assassinada, sabes? - interveio Baldwin com secura, evitando os olhos do homem enquanto brincava com o punho da espada de uma maneira algo ameaçadora. - Queremos descobrir quem o fez.

       - Sim, senhor!

       - Então,.. responde!

       O estalajadeiro suspirou, serviu-lhes mais vinho, sentou-se e ficou a olhá-los enquanto absorviam o líqüido quente e temperado com especiarias.

       - Veio de muito longe. Há quem diga que veio da Terra Nova, mas não sei se é verdade. Ocupou uma terra por trás dos Oakway, a cerca de dois quilômetros daqui, para leste.

       - E... -

       Baldwin semicerrou os olhos e Simon ficou com a impressão de que o amigo tinha a certeza do homem estar a esconder qualquer coisa.

       - Ora, vamos lá, homem! És o estalajadeiro! Conheces toda a gente e ouves todos os boatos. Que diziam a respeito dela? Quem a conhecia bem? Quem gostava dela e quem a odiava? Que sabes a seu respeito?

       Os olhos do homem saltavam nervosamente do cavaleiro para o almoxarife. Contudo, a seguir olhou para as chamas como se tivesse receio do que pudesse ver nos seus rostos, e falou com uma voz baixa, não receosa mas lenta e deliberada.

       - Não era rica mas tinha sempre o suficiente para sobreviver. Era inteligente... e isso incomodava muita gente. Fazia com que as pessoas se sentissem estúpidas. Além disso, também era arrogante e não suportava os tolos com facilidade. Acabava sempre por lhes dizer o que pensava deles.

       - E amigos?

       - Perguntem as mulheres das redondezas. Todas elas a conheciam.

       - Porquê?

       Levantou a cara de repente, com um pequeno sorriso a brincar-lhe nos cantos da boca.

       - Ajudava-as com os bebês. Quando havia um qualquer problema com os nascimentos - fosse ele qual fosse - ela ajudava-as. Era uma boa parteira. - O homem ficou pensativo.

       - Então vão sentir a falta dela?

       - Sim... - respondeu, depois de pensar um pouco. - Há por aí pessoas que vão sentir a sua falta.

       - Havia quem a odiasse? Será possível que alguém daqui a quisesse ver morta?

       O estalajadeiro encolheu os ombros para mostrar a sua indiferença, mas a intensidade do olhar de Baldwin obrigou-o a falar com um ar defensivo.

       - Alguns talvez o desejassem... mas não se pode acreditar no que as pessoas dizem. "Odeio-o'" "Vou matá-lo!" "Merece a morte”!... são coisas que ouvimos todos os dias. Quando os homem se metem nos copos... as suas bocas começam a deixar sair coisas... É natural, mas não podemos acreditar. É o vinho a falar.

       - Quem foi que disse coisas dessas a respeito da Kyteler?

       - Oh, não sei! Muita gente... Tinham medo da mulher. Como já disse, parecia-lhes demasiado inteligente. As pessoas ficam preocupadas quando encontram mulheres demasiado espertas...

       - Então,.. quem disse esse tipo de coisas acerca da Agatha? - insistiu Baldwin.

       - Como já expliquei, isso não significa nada... Houve uns quantos que falaram demais... O jovem Greendiff... um velho chamado Oakway ...

       - E disseram porquê? Explicaram por que a odiavam? - perguntou Simon, que se inclinou para a frente e pousou os braços nos joelhos.

       - Porquê? Ah! - Soltou uma risada baixa e profunda. - O Oakway tem uma casa junto à dela...e cria galinhas. Há cerca de um mês viu que lhe tinha desaparecido uma galinha e encontrou uma fileira de penas que ia dar à casa da Kyteler. Pensou que tinha sido o cão da mulher, mas ela jurou que não.

       - Se o rasto de penas seguia para aquele lado, até podia ter sido uma raposa ou qualquer outra coisa a afastar-se das casas e a regressar a floresta - comentou Simon.

       - Foi exatamente o que a Agatha disse, mas o velho Oakway, não acreditou. Insistiu que tinha sido o cão. De qualquer modo, foi ter com a mulher, disse que queria a galinha substituída por outra mas ela recusou. Depois disso o velho perdeu mais duas galinhas e ficou a odiá-la.

       - Não me parece causa suficiente para um assassínio-murmurou Baldwin tranqüilamente.

       Simon olhou-o e comentou:

       - Uma galinha tem carne para uma semana. Ou até mais, para duas pessoas. Depois da fome dos últimos dois anos, acho que podia ser um bom motivo para matar...

       - Bem...- o estalajadeiro agitou-se no banco - não digo que não fosse, mas não acredito que o velho John Oakway a matasse. De maneira nenhuma.

       - Não? E então o Harold Greendiff?

       - O Harold? Não creio. É um bom rapaz. Não, não seria capaz de matar ninguém.

       - Por que razão odiava a Kyteler?

       - Na verdade, não sei... mas deve ter acontecido qualquer coisa...- Entrou aqui...

       - Quando ... ?

       - Ontem, penso que ao fim da tarde... Sim, já tinha escurecido, pelo que deviam ser cerca de cinco horas. De qualquer modo, apareceu aqui, pediu uma caneca de cerveja e sentou-se além... - Apontou para o canto mais distante, perto da cortina que dava para as divisões interiores. - Um pouco depois apareceu um dos seu amigos, o Stephen de La Forte, e começaram a conversar. Ouvi o Harold dizer “que a mulher era uma cadela e que, senão tivesse cuidado, ainda havia alguém que dava cabo dela"...

       - E depois?

       - Ora, foram-se embora! Contudo, o rapaz não me pareceu muito zangado. Era como se estivesse triste, mas não zangado, pelo que não me parece que tenha saído daqui para a matar. De qualquer modo, voltaram algumas horas mais tarde, antes das oito.

       - Quem? O Greendiff e o Forte?

       - Sim. Voltaram a aparecer e instalaram-se para a noite com alguns dos seus amigos.

       - Onde tinham estado?

       - Como querem que saiba? - retorquiu o homem encolhendo os ombros. - Foram buscar comida, ou qualquer coisa. Não sei.

       - Como lhe pareceram quando voltaram?

       - Oh! Stephen estava mais barulhento do que o costume, mas talvez tivessem bebido quando andaram lá fora. Algumas pessoas reagem assim. O Harold esteve muito calado. Acontece-lhe freqüentemente depois de beber demasiado. É um rapaz simpático e tranqüilo...

       - Estou a ver... - disse Baldwin. Ia abrir a boca para dizer mais qualquer coisa mas Tanner e Cottey entraram naquele momento depois de terem tratado do corpo. Aproximaram-se dos homens reunidos em volta do fogo, sentaram-se e olharam com ansiedade para as canecas de vinho até Baldwin fazer um gesto e o estalajadeiro se levantar, de má vontade, para ir buscar mais. Daquela vez não se esqueceu de se abastecer a ele próprio.

       - Deixamo-la no anexo. Pode lá ficar a espera, até à chegada do sacerdote... - afirmou Tanner, vendo o vinho a ser servido enquanto estendia as mãos para as chamas. Suspirou e prosseguiu: - A pobre mulher vai ficar bem. Metemo-la num caixão e os ratos deverão deixa-la em paz por um ou dois dias.

       Simon acenou e lançou uma olhadela para o estalajadeiro que voltara e estava novamente a olhar para as chamas.

       - A mulher tinha família?

       - Onde, aqui? - Levantou os olhos e pareceu desinteressado agora que esgotara as suas informações e preferia mudar de assunto - pelo menos que eu saiba. Samuel? Viste-a com algum familiar?

       O velho agricultor bebeu um longo trago de vinho e fez uma pausa antes de responder. Inclinou a cabeça para um lado, pensativo.

       - Não. Não me parece, vão ter de perguntar ao Oakway. Toda a gente que lá ia... - Hesitou por um instante. - Bom, tinham de passar pela casa do Oakway...

       - Acho que temos de ir falar com ele... - comentou Baldwin, de cenho carregado.

 

       O Bourc assobiava enquanto cavalgava tranqüilamente, mantendo as charnecas na sua frente. Tinham um aspecto maravilhoso, escuras e macias com uma vaga sugestão de tons púrpura e azuis, salpicadas de branco nas áreas mais sombrias, que o sol não conseguia atingir. Ali, já quase nos arredores de Crediton, as charnecas ocupavam quase toda a paisagem e estendiam-se de leste para oeste como que para lhe mostrar que aquele era o caminho que deveria seguir.

       Pouco depois viu-se a sair do meio das árvores e a seguir o caminho serpenteante que conduzia a própria povoação. Aí chegando, dirigiu-se ao mercado e comprou pão e um pouco de carne antes de continuar o seu caminho. Para sua surpresa, ouviu que o chamavam pelo nome e viu o mercador, Trevellyn, à porta de uma estalagem.

       - Já se vai embora?

       - Sim. Fiz o que tinha de fazer e vou voltar para a costa.

       - Compreendo. Segue por Oakhampton e depois para o sul?

       - Não - retorquiu o Bourc com secura. Explicou o percurso que pretendia tomar e concluiu: - Deve ser mais rápido.

       - Sim - confirmou o mercador, que tinha uma estranha expressão nos olhos enquanto espreitava o Bourc de uma maneira especulativa. - Há um caminho mais fácil para quem quer ir pelas charnecas. - Acompanhou o Bourc durante uma curta distância, apontou o local onde a estrada começava e certificou-se que o gascão compreendia o caminho antes de regressar à estalagem.

       O Bourc saltou para o cavalo e ficou a olhar para o homem por instantes, pensativo. A ajuda que o mercador lhe prestara soava-lhe a falso. Fora estranhamente fora de caráter depois do que se passara quando se tinham encontrado em Wefford. Contudo, o conselho parecia bom.

       A estrada passava por entre algumas casas, descia uma pequena colina e desembocava numa planície. O jovem cavaleiro atravessou um rio, descobriu que o caminho se encontrava bem assinalado e era fácil seguir, pelo que muito em breve já assobiava alegremente.

       A paisagem começou a modificar-se depois de algumas horas de cavalgada. As colinas cobertas por densas florestas que rodeavam Wefford e Furnshill foram substituídas por árvores mais dispersas, e por serras mais íngremes e difíceis. A estrada arrastava-se perigosamente por entre as elevações como se subi-las exigisse demasiado esforço e o cavaleiro descobriu-se a acelerar o passo da montada. Como soldado, não gostava de espaços demasiado fechados. Queria chegar às charnecas e aos seus campos abertos.

       Quando já se encontrava perto das charnecas descobriu que a estrada passava por um bosque, que parecia funcionar como uma espécie de fronteira e ficava longe da casa mais próxima. Não encontrara outros viajantes durante a última hora, o que só servia para aumentar a sua sensação de solidão.

       Entrou para as sombras das árvores e reparou que o ar parecia abafado. Havia ali um silêncio, como se até as criaturas selvagens estivessem a suster as respirações na expectativa. O silêncio era intimidante. Quando um melro saltou de um ramo e piou ao longo dos arbustos na sua frente, o cavaleiro deteve o cavalo e franziu a testa.

       O melro fugira... mas encontrara-se demasiado longe para se ter assustado com a sua presença. Fugira de qualquer outra coisa. Esporeou o cavalo, fê-lo avançar a um passo lento e espreitou em volta como um míope meio distraído. Uma paragem demasiado prolongada teria parecido suspeita e não desejava evitar quem quer que pudesse encontrar-se mais à frente. Porém, quando o cavalo avançou, o cavaleiro mantinha-se tão atento como de costume.

       Já alguns homens lhe tinham dito que experimentavam um medo extremo e uma estranha lassitude quando sabiam que estavam a cavalgar para uma batalha. Nunca lhe acontecera. Para ele, a guerra era como a própria vida, uma vez que toda a sua existência revoluteava em torno dos combates nos pântanos e porque, sem batalhas, a sua vida não teria significado. No entanto, nenhum homem emboscado perceberia isso se estivesse a vê-lo naquele momento.

       Deixava que a cabeça lhe oscilasse de um lado para o outro como se estivesse a dormitar, e mantinha o corpo todo descaído enquanto a montada prosseguia em frente lentamente. No entanto, não deixava de investigar cada arbusto e cada tronco de árvore com todo o cuidado.

       Tinham penetrado cerca de 20 metros no interior das árvores quando viu o primeiro homem e soube que ia ser atacado.

       O primeiro relance limitou-se a revelar-lhe uma mancha castanha-amarelada. Podia não ter dado por ela se não estivesse à espera de ver alguém, mas aquela fugidia mancha de cor foi o suficiente. Considerou os locais em que colocaria homens seus para uma emboscada e descobriu imediatamente quatro outros locais onde os atacantes poderiam estar escondidos. Eram demasiados... e seria facilmente dominado se fosse atacado ali. Foi com essa idéia em mente que deu uma palmada no pescoço do cavalo. A seguir, com uma oração rápida, cravou as esporas nos flancos do animal e fê-lo galopar a toda a velocidade por entre as árvores, com os cascos a matraquear.

       De súbito, o bosque ficou cheio de gritos irados. Ouviu o zumbido baixo de uma seta que lhe passou por cima da cabeça, uma praga gritada, gritos e maldições quando os homens compreenderam que a sua armadilha falhara... e de repente já se encontrava para lá das árvores, em campo aberto. A charneca!

       Arriscou uma olhadela para trás das costas e viu três homens a precipitarem-se para os cavalos. Um deles montou rapidamente, mas os outros foram um pouco mais lentos. Uma nova olhadela... e o Bourc viu que o primeiro a montar se mantinha à frente dos outros.

       A sua frente não existia qualquer espécie de abrigo, pelo que uma emboscada rápida estava fora de questão. Não tinha nenhuma oportunidade para parar e montar uma emboscada até se distanciar dos seus perseguidores. Por outro lado, precisaria de muito tempo para recuperar o arco ou a lança que transportava no cavalo de carga. Contraiu os lábios e analisou a situação enquanto voltava a esporear a montada. Depois, quando olhou novamente para trás, concluiu que a sorte estava do seu lado. O homem da frente aumentara a distância que o separava dos outros, que ficavam cada vez mais para trás.

       Sempre dobrado sobre a cabeça do cavalo, pegou nas rédeas com a mão esquerda e experimentou a espada, para verificar se a podia desembainhar com facilidade. A seguir, começou a calcular qual o melhor momento para se virar...

       Não precisou esperar muito. O homem que o perseguia encontrava-se a uns escassos 20 metros quando o Bourc avistou um riacho à sua frente. Sentiu o cavalo a abrandar e a preparar-se para o salto... e só teve tempo para largar a rédea do cavalo de carga antes do salto.

       Com os músculos contraídos como molas poderosas, a montada atirou-se para o alto e para o outro lado do pequeno riacho, logo seguido pelo animal de carga. Foi nesse instante que soube que tinha ali uma oportunidade. Puxou as rédeas para trás com toda a força logo que o cavalo tocou com os cascos no chão e obrigou-o a virar-se para enfrentar o homem que estava precisamente a saltar sobre o riacho.

       O Bourc esporeou imediatamente o seu corcel. O perseguidor e o seu cavalo ainda se encontravam no ar e já o gascão se precipitava para eles a toda a velocidade. Tocaram no solo a curta distância do cavaleiro... e o perseguidor não conseguiu evitar o embate do punho envolto na pesada malha de ferro. O golpe atingiu o homem no queixo, propulsionado pela energia dos dois cavalos e do cavaleiro.

       Os outros dois homens viram o companheiro cair e abrandaram, a perseguição. Em seguida verificaram que o Bourc desembainhava a espada e pareceram perder o entusiasmo pela batalha.

       - Vão! Vão-se embora e deixem-me em paz... Ou aceitem à vingança da espada de um cavaleiro! - gritou-lhes.

       Os dois homens hesitaram. Eram ambos trigueiros e com feições magras, e até podiam ser irmãos. Embora um deles vestisse de castanho e o outro envergasse uma suja túnica azul, possuíam as mesmas peles pálidas e sobrancelhas espessas. Montavam em cavalos baratos, que no entanto, não eram animais de trabalho, em seu aspecto, embora não fosse o dos ricos, também não indicava pobreza. O cavaleiro pressentiu que havia ali algo de errado. Não se tratava de ladrões comuns... Por outro lado se o fossem, então os ladrões em Inglaterra eram mais ricos do que os da Gasconha.

       - Vão! - voltou a berrar, e os dois homens trocaram um olhar. Um deles virou a montada e voltou para trás, para a linha das árvores. Como o companheiro não se mexeu, parou para olhar por cima do ombro. Porém, o amigo também resolveu desistir antes do outro ter tempo para o chamar, mas não sem lançar um último olhar de malevolência para os lados do Bourc. Pouco depois já ambos se afastavam a um trote ritmado pelo caminho por onde tinham vindo.

       O cavaleiro só embainhou a espada e saltou do cavalo quando os viu desaparecer por entre as árvores. Amarrou rapidamente as mãos e os pés do prisioneiro antes de o examinar com atenção. Acabou por encolher os ombros, sentou-se, acendeu uma fogueira e ficou à espera que o homem acordasse.

       Simon e Baldwin comeram o almoço na estalagem e a seguir, seguindo as instruções que Cottey lhes deu, foram a procura do caminho de terra batida que conduzia à propriedade dos Oakway. Cavalgaram juntos, com Tanner a fechar a retaguarda, e com as feições a revelarem uma disposição contemplativa.

       A neve deixara de cair mas já era suficientemente espessa para cobrir a maior parte da estrada e só as ervas mais compridas a conseguiam perfurar. Mais perto dos troncos, os arbustos e a terra não tinham sido tocados pelo tapete branco por se encontrarem protegidos pelos grandes ramos que se estendiam por cima deles. Para Baldwin, aquilo parecia-lhe estranho. Era como se tivessem deixado o Inverno para trás das costas, na povoação, e tivessem penetrado numa área mais quente onde só a estrada propriamente dita estava suficientemente fria para suportar aquela brancura virgem.

       Ainda se encontravam a alguma distância da quinta quando Simon começou a ouvir um ruído regular por cima do ritmo firme dos cascos dos cavalos. Tap. tap. tap... Seguia-se uma pausa e mais duas pancadas. Os sons detinham-se, mas momentos depois recomeçavam, o que levou o almoxarife a inclinar a cabeça e a olhar para Baldwin, que captou o seu relance e encolheu os ombros.

       As pancadas tornaram-se mais fortes e chegaram a uma bifurcação da estrada. Escolheram o trilho do lado esquerdo e o som passou a ouvir-se melhor. Descreveram a última curva, a floresta ficou para trás deles e avistaram uma grande clareira. No meio encontrava-se uma casa com um aspecto fatigado, coberta por um telhado de colmo manchado e muito antigo, que permitia a fuga de farrapos de fumo por cima de umas paredes que precisavam ser caiadas. Na frente via-se uma vaca a mastigar palha, que observou a aproximação dos homens com um desinteresse aborrecido, enquanto as galinhas debicavam na terra como loucas no meio das suas patas. A esquerda via-se um forte cercado com cabras, e a direita existia o que parecia ser uma arca plantada com espessos caules a crescerem em amontoados.

       Avançaram devagar e entraram no pátio. Parecia vazio mas, enquanto olhavam em volta, Simon voltou a ouvir as tais pancadas. Tocou com as esporas no cavalo e seguiu para as traseiras de casa onde encontrou uma área de pastagem recentemente lavrada. O solo irregular ainda se encontrava coberto de torrões e a neve não conseguia esconder nem as cicatrizes vermelhas nem o fato das ervas terem crescido pouco.

       Na outra extremidade havia um homem alto, inclinado para a frente, vestido de azul e com as costas viradas para os visitantes, que trabalhava numa série de postes cravados verticalmente na terra. Havia arbustos entre cada um daqueles postes.

       Empunhava um pesada lâmina encurvada, uma ferramenta de aço, curta e sólida, com um punho de madeira, com que aparava os ramos dos arbustos em torno dos postes para construir um entrançado de ramos que mais tarde se iria transformar numa sebe viva, suficientemente espessa e forte para manter os animais domésticos no interior e para impedir a entrada dos animais da floresta. De súbito, o homem rodopiou com a ferramenta erguida na mão e enfrentou-os, imóvel. Os visitantes detiveram-se e olharam-no de alto a baixo.

       O homem era muito alto, teria pelo menos mais 12 centímetros do que Tanner, e uma corpulência semelhante a de Simon. Embora parecesse aparentemente saudável para a idade, que deveria ser de cerca de 45 anos, mantinha-se muito dobrado e havia uma coloração pouco natural nas faces, como se se encontrasse à beira de uma febre. Os olhos brilhavam-lhe com um tom escuro por baixo de sobrancelhas espessas, a cor desbotara até um tom cinzento-claro, tal como os cabelos despenteados. O que chamou mais a atenção de Simon foram os olhos. Havia neles uma expressão estranha, que não era de medo mas algo semelhante a desconfiança.

       - Não precisa ter medo - disse-lhe Baldwin .

       - Quem são vocês e o que querem de mim?

       - Este é o Guardião da Paz do Rei... e este é o regedor, ou o Almoxarife de Lydford - respondeu Simon tranqüilamente. - És o Oakway?

       A lâmina desceu um pouco mas os olhos do homem continuaram a saltitar por eles ainda com algumas dúvidas.

       - E se for?

       - Precisamos te fazer algumas perguntas. Sabes que houve um assassínio?

       - Não! - retorquiu o homem, com uma surpresa óbvia. Deixou cair o braço e a lâmina ficou pendente ao lado do corpo, completamente esquecida. - Quem?

       - Agatha Kyteler.

       - Ela! - exclamou Oakway, cuspindo para o lado como se o nome o ofendesse. - Ótimo!

       - Viste-a ontern? - perguntou Simon.

       - Ontem... ? - o homem ficou a pensar. - Não. Não me parece...

       - Vives sozinho?

       - Não, a minha mulher também esta aqui. - A seguir acrescentou, num tom mais suave e com laivos de tristeza: - Não temos filhos.

       - Sabes se a tua mulher a terá visto ontem? - insistiu Simon.

       Oakway olhou para baixo, para a ferramenta que tinha na mão, soltou um suspiro profundo e cravou-a com força num tronco. A lâmina ficou presa pelo seu próprio gume cortante.

       - É melhor virem comigo para lhe perguntarem.

       Começou a andar e os três homens desmontaram dos cavalos e seguiram-no até à frente da casa, onde prenderam as montadas na vedação ao lado da reserva de lenha.

       O interior era sujo, com uma atmosfera rancosa que cheirava a fezes de animais. O fumo erguia-se da grande lareira no centro da casa e pairava por entre os barrotes do telhado à espera de poder escapulir-se por entre o colmo. Tal como em muitas das propriedades mais antigas, o chão da casa era inclinado para um lado para poupar os valiosos excrementos dos animais. À medida que o Inverno ia avançando, o nível do pavimento na zona mais baixa ia subindo. Quando a Primavera chegava, o estrume era recolhido, espalhado nos campos e o nível do solo voltava a descer.

       Agora, depois de vários meses de mau tempo, a sala fedia e Simon verificava que as fezes se encontravam quase ao nível da porta. Tentou fechar as narinas ao fedor mas descobriu que não era fácil. Para sua satisfação, reparou que Baldwin parecia sofrer o cheiro com muito mais intensidade do que ele, embora Tanner se mantivesse impassível.

       A senhora Oakway era uma mulher ampla e com um aspecto forte, mais ou menos da idade do marido. Ficou a olha-los com uma careta de desconfiança quando os viu entrar na sua casa, com a mão ainda a empunhar, como se fosse uma arma, a grande colher de pau com que remexera o conteúdo do pote de ferro que se encontrava ao lume. Não obstante os cabelos ainda possuírem a cor original, sem os grisalhos do marido, as feições mostravam-se enrugadas pela idade e pelas preocupações. Tinha uma expressão tão vivaz e atenta como uma ave de rapina, para além de astuta e tortuosa. Muito provavelmente, a julgar pelos lábios finos e pálidos, também deveria ser algo malevolente.

       Baldwin, depois de uma rápida apresentação, sugeriu que fossem conversar para o exterior mas a mulher recusou.

       - Tenho de preparar a comida. Podemos conversar aqui.

       Simon sorriu perante o óbvio desconforto e disse:

       - Estamos a tentar descobrir alguém que tenha visto a Agatha Kyteler ao longo do dia de ontem. Viu-a?

       - A ela? - A mulher encurtou os lábios de desdém. - Nem sequer olho para essa mulher! Por que haveria de ligar a essa velha... falam dela por causa da questão das galinhas, não é?

       - Não gosta não é verdade? - perguntou Simon com secura, sentindo que se tratava de palavras supérfluas mas desejoso de impedir um fluxo de invectivas. Deu resultado. A mulher calou-se e olhou-o.

       - E então? E se não gostar dela?

       - Mataram-na... e estamos a tentar descobrir os motivos. Por que a odiava tanto?

       O choque foi perfeitamente visível na cara da mulher, que começou a abrir e a fechar a boca para depois de virar para o marido e ficar a olhá-lo.

       - É verdade? - perguntou.

       O homem encolheu os ombros enquanto Simon insistia:

       - Responde à pergunta, mulher. Por que a odiavas?

       A mulher soltou alguns suspiros e resmungos, mas acabou por lhes contar as suas suspeitas em relação ao cão de Agatha Kyteler.

       - Viram o cão a fazê-lo? - perguntou Baldwin, estremecendo e tossindo.

       - Se vimos? Não, mas foi o cão, com toda a certeza. Fomos atrás das penas, não fomos? - Virou-se para o marido em busca de confirmação e o homem acenou de uma maneira vaga.

       Simon ficou a pensar por instantes e perguntou:

       - Viste-a ontem?

       - Eu... - A mulher calou-se e a sua carranca aprofundou-se. - Fui a casa dela...

       - Bom. Quando?

       - A meio da tarde...

       - Porquê? - suspirou Simon, que fitou a mulher.

       - Foi outra vez aquele cão... - acabou a senhora Oakway por dizer, com relutância.

       - O cão? Que foi que ele fez?

       - Voltou a atacar as nossas galinhas e levou outra. Que queriam que fizesse? Que esperasse até que as matasse a todas? Fui dizer-lhe para manter o cão amarrado... e que o mataríamos se o voltássemos a ver nas nossas terras.

       - E que disse ela?

       - Ora! - A mulher voltou a contorcer os lábios de desprezo. Nada, é claro! Disse que não tinha sido o cão. Afirmou que o tivera em casa durante todo o dia. Era mentira, é claro!

       - Nesse caso, viram o cão?

       - Não, mas as penas iam novamente para os lados da casa dela. Teve de ser o cão.

       Simon encolheu os ombros e fitou Baldwin, que tossiu.

       - Muito bem... - prosseguiu o almoxarife. - Viste mais alguém quando lá foste?

       O rosto enrugou-se-lhe com o esforço para se recordar.

       - Sim. Sim, quando lá fui vi a Sarah Cottey e a Jennie Miller a conversarem perto da casa. Além disso, havia uma mulher entre as árvores, creio que alta e jovem. Usava uma comprida capa com pele no capuz.

       - Uma capa cinzenta? - interveio Baldwin de repente. Simon olhou-o e viu-o com uma expressão estranha.

       - Sim, penso que era cinzenta.

       - E viste algum homem?

       - Não.

       Perguntaram onde vivia a Jennie Miller e foi com alívio que saíram para o ar livre. Até o frio extremo da escuridão que se aproximava era preferível ao mau cheiro do interior. O marido seguiu-os e ficou à porta a aspirar o ar profundamente enquanto os observava a treparem para as montadas. Baldwin virou o cavalo preparava-se para partir quando pareceu ser atingido por uma súbita idéia.

       - Oakway... Por que razão é que a tua mulher estava tão certa de que era o cão da Kyteler que vos matava as galinhas?

       O homem olhou para o cavaleiro, que exibia um ar muito sério, e a seguir lançou uma olhadela para a porta aberta. Afastou-se um pouco da mesma, aproximando-se de Baldwin, e respondeu:

       - Porque pensa que a velha mandou o cão aqui.

       - Quê? Que queres dizer?

       - A Kyteler nunca gostou da minha mulher.. que está convencida que foi ela quem mandou o cão matar as nossas galinhas uma a uma...

       Simon começou a sentir os cabelos a porem-se em pé na nuca enquanto o velho agricultor todo dobrado olhava para o cavaleiro, com a voz a baixar cada vez mais como se tivesse medo de ser ouvido, não pela mulher mas por outra pessoa qualquer.

       - A Kyteler sabia lidar com os animais... e ajudava os que estavam magoados. Também sabia fazer poções para as pessoas. Remédios e coisas do gênero. Só há uma explicação para as saber fazer... - Sustentou o olhar de Baldwin com uma convicção firme mas receosa. - Era uma bruxa!

       O Bourc não precisou de muito tempo para acender a sua pequena fogueira com a lenha de um dos fardos transportado pelo cavalo de carga, e pouco depois já estava sentado, a aquecer-se. Mastigou um pouco de pão e observou o homem até ver um dedo a mexer-se e uma sobrancelha a estremecer. Levantou-se e contemplou a figura inerte por momentos, até se aproximar para lhe dar um pontapé.

       - Acorda! Tens perguntas para responder!

       O homem era corpulento e trigueiro como um marinheiro. Ouviu a voz do Bourc, olhou em volta desorientado, com os olhos desfocados, e começou a pestanejar lentamente por cima do queixo esfolado e ensanguentado até avistar o seu captor e despertar completamente.

       - Do que me reconheces - comentou o gascão com afabilidade, agachando-se perto dele. Puxou pela comprida adaga, brincou com o punho da mesma por um instante e estudou o prisioneiro com um sorriso. A seguir falou com uma voz baixa e controlada. - Por que estavam a tentar emboscar-me?

       Os olhos castanhos do outro cerraram-se e percorreram a paisagem.

       - Se fosse a ti, não me preocupava com eles. Foram-se embora. Se tentassem voltar, já os teria visto. Deixaram-te aqui...- explicou o Bourc.

       - Não me abandonariam... - murmurou o homem, mas os seus olhos não se mostravam muito convencidos enquanto percorriam os campos que os rodeavam. O cavaleiro permitiu-lhe que procurasse os amigos durante todo um minuto, sem o interromper. Não precisava dar ênfase ao fato. De onde se encontravam, a charneca descia para o ribeiro onde apanhara o homem, e a seguir voltava a subir até as árvores, a cerca de dois quilômetros de distância. O Bourc viu o assaltante virar-se para espreitar para o cimo da colina e sorriu sem qualquer espécie de humor. Naquela direção, as charnecas também estavam tão vazias como na direção oposta. Segurou delicadamente na adaga entre o indicador e o polegar, com a ponta pendente, e voltou a observar o homem.

       - Por que me montaram uma emboscada? Por que foi que os teus amigos não dispararam para matar? Vi que tinham arcos.

       Os olhos do outro enfrentaram e o cavaleiro ficou surpreendido ao verificar que não revelavam qualquer tipo de medo. O rosto escuro olhava para ele com o que parecia ser um vago desdém.

       - Por que pensa que o fizemos?

       Não houve resposta.

       - Não     tenho idéia. Por que não me dizes?

       O homem respirou e cuspiu com suspiro. O Bourc suspirou e voltou a tentar.

       - Meu amigo, não sei. Não me pareces em grandes dificuldades. Não tens ar de quem passa fome nem um aspecto de pobre. Usas uma túnica de boa qualidade que nem sequer está gasta.

       - Não somos mendigos. - A expressão de desprezo do atacante tornou-se mais visível.

       - Mas, então por que atacaram alguém que nem sequer conheciam? Parece, marinheiro. Mas eu não conheço nenhum...

       Fez uma pausa ao ver a rápida reação do outro.

       - Então, se é um marinheiro. Não compreendo por que motivo tentaram roubar-me...- Talvez odiemos os gascões. - Disse num tom suave.

       Bourc fez um rodopio advertiu o cavaleiro e atirou a adaga para o alto. A lâmina deu uma volta no ar e voltou a agarra-la pelo cabo. Inclinou-se para a frente e tocou com a ponta da arma no externo do homem, viu que os olhos do seu atacante se escancaravam, sorriu e puxou a lâmina para baixo, tão levemente que não deixou qualquer marca na pele do prisioneiro. No entanto, este contorceu-se à medida que a arma lhe deixava uma marca de terror no peito. Quando tocou na túnica, o cavaleiro inclinou-a para que cortasse o tecido. Continuou a falar num tom de conversa e disse:

       - Não pareces preocupado com a possibilidade de morreres às minhas mãos. Suponho que não tens medo de uma morte rápida. Isso é ótimo... mas o dia está a escurecer e vamos ter uma noite muito fria. Estou a pensar em deixar-te aqui depois de te cortar a túnica. Afinal de contas, creio que não gosto de marinheiros...

       - Não podes fazer isso! Sou teu prisioneiro e tens de...

       - Tenho de... ?

       - Não tenho de fazer nada. Atacaste-me. Posso fazer contigo o que me apetecer. Sou um cavaleiro e não tenho tempo para te levar para qualquer lado porque o meu senhor esta à minha espera em Bordéus. Não, acho que o melhor é deixar-te aqui para ires gelando lentamente.

       No rosto do homem, o medo já se debatia contra a descrença.

       - Não podes! E se alguém me encontra aqui e...

       - Encontrarem-te? Num sítio destes? - O Bourc voltou a sorrir-se para ele com a lâmina imóvel, enquanto olhava à sua volta de uma maneira muito óbvia. Voltou a pousar os olhos no prisioneiro e a mover a lâmina. - É muito improvável, não achas? Nem sequer estamos perto de uma estrada e duvido que apareça alguém antes da manhã. Claro que temos de contar com os lobos...

       - Pára! - Era um grito de pânico. - Eu digo-te por que te atacamos! Pára, por favor!

       A mão do Bourc imobilizou-se e a adaga ficou parada sobre o coração do homem.

       - Sim?

       - Fomos pagos para te atacar. Não para te matar, mas para te magoar um pouco...

       - Quem vos pagou e porquê? - Ficou a olhar. Tinha muito poucos conhecimentos naquela área. Quem teria pedido para o emboscarem?

       - O Trevellyn... Allan Trevellyn. Vive a norte de Crediton e trabalhamos para ele. Pagou-nos para te seguirmos depois de te ter apontado na estalagem. Queria que te déssemos uma sova... É tudo o que sei.

       O cavaleiro aguentou o olhar do outro durante um minuto enquanto pensava no assunto. Era bem possível que o mercador tivesse pago a homens para o atacarem. Certificara-se a respeito do caminho que o gascão seguiria ao indicar-lhe o melhor percurso. Acenou para si mesmo e deslocou a adaga mais para baixo, num gesto que cortou a túnica até à bainha. A seguir cortou as cordas que prendiam os tornozelos do homem.

       - Muito bem, podes ir.

       - Mas...

       - Mas... o quê? - O Bourc subiu para o cavalo e olhou para baixo. - Algo? - perguntou.

       - As minhas mãos. E onde esta o meu cavalo? Disse o homem debatendo-se para se pôr de pé enquanto olhava, desanimado para o peito nu.

       - Dá graças por ainda teres mãos. Quanto ao cavalo... perdeste-o. Suponho que sabes o caminho para casa... e é melhor começares a andar.

       Ainda ouvia os gritos ásperos do homem quando já o deixara muito para trás, mas já deixara de pensar no ataque. Agora, a sua única preocupação era sobre como castigar o mercador. Nada mais lhe interessava.

 

       O velho Oakway ficou parado a olhar para o almoxarife e o cavaleiro que abandonavam a sua propriedade, observando-os com cuidado como se duvidasse de que iam realmente embora. Uma vez fora da sua vista e da casa. Baldwin fez uma careta e olhou para o céu.

       - Esta noite vai ser gelada... - murmurou.

       Simon acenou sombrio e o cavaleiro sorriu.

       O almoxarife não estava satisfeito. Embora se considerasse educado e soubesse que os boatos influenciavam facilmente e sem qualquer motivo os habitantes de aldeias como a de Wefford, sentia-se nervoso por ter ouvido dizer que a velha mulher era considerada uma bruxa. Tinha de se libertar daquilo. Muito provavelmente, tratava-se apenas de uma velha mal-humorada e nada mais. Levantou os olhos e viu que as nuvens tinham um tom de chumbo, pesadas e iradas.

       - Então, Simon? Devemos interrogar essa tal Jennie Miller? Ou vamos dar uma vista de olhos à casa da Kyteler?

       - Tanner? Qual é a tua opinião?

       Tanner, que mantinha o cavalo a passo, olhou ao longo do trilho na direção da casa de Agatha Kyteler.

       - Temos de ver a casa. Ainda não sabemos onde a mataram e podemos vir a descobrir qualquer coisa...

       Era preciso percorrer uns bons 300 metros para chegarem ao local onde a velha vivera, a diferença entre a sua habitação, nas profundezas da floresta, e a dos Oakway muito mais perto da estrada, era surpreendente. Ali, o telhado de colmo era recente e não devia ter suportado mais do que um verão e a cal que cobria as paredes era branca e brilhante. Até a resenha de lenha parecia ter sido mantida com todos os cuidados, com os troncos amontoados com todo o cuidado à esquerda da casa, por baixo de uma extensão da cobertura de colmo.

       Em frente existiam dois cercados onde se viam cabras e galinhas, e o som da chegada dos cavaleiros deu origem a latidos e ganidos. Simon e Baldwin permaneceram sentados nos cavalos enquanto Tanner desmontava e caminhava até à porta, a que bateu com força, com o punho. Como não houve resposta, levou a mão ao trinco de madeira, olhou para Baldwin, que reagiu com um curto aceno, puxou o trinco para cima e abriu a porta.

       O cão, um rafeiro magro, castanho e preto, precipitou-se imediatamente para o exterior, latindo de excitação e dando saltos em volta dos cavalos, esforçando-se de vez em quando para chegar a um dos cavaleiros. Baldwin riu-se e olhou para Simon.

       - O desgraçado do bicho está tão satisfeito por ver estranhos que deve ter estado ali fechado desde ontem...

       - Sim... - disse o almoxarife, que se esforçava por controlar a montada. O cão enervava a égua, que procurava não o perder de vista e se agitava para um lado e para o outro enquanto o rafeiro saltitava por baixo dela. - Está quieta, maldita!

       Estava tão concentrado nos seus esforços que não viu o regedor aparecer à porta e fazer-lhes sinal. Baldwin sorriu ao ver o desconforto do amigo e saltou para o chão. Amarrou as rédeas a uma árvore jovem, agachou-se a afagou o cão, sempre a sorrir, antes de entrar na casa. Contudo, perdeu imediatamente o sorriso ao perceber a expressão do regedor.

       - Foi aqui que ela morreu - declarou Tanner com secura, desviando-se para deixar passar o cavaleiro.

       Era um fato evidente logo que o olhos de Baldwin se habituaram à escuridão no interior da pequena habitação. Não era tão bem construída como as outras casas da aldeia. Em vez dos sólidos barrotes de madeira com os intervalos cheios de taipa para formarem um abrigo à prova de água, aquela casa era uma simples cabana de madeira, com um pequeno sótão a que se chegava por intermédio de uma escada com sete degraus. Baldwin conseguiu ver os tapetes e peles que formavam a cama. Por baixo, a casa estava atulhada. No centro havia uma lareira, rodeada por dois pequenos bancos. Para a direita ficava uma mesa, coberta por recipientes de barro e por uma grande variedade de raminhos, folhas e raízes. Perto da lareira via-se um par de pedras de granito achatadas, que deviam ter servido para moer, em substituição do almofariz e do pilão.

       O pavimento, por todo o lado, estava quase inteiramente coberto por vasos e potes contendo sementes e folhas, algumas frescas, outras secas, que davam a sala um odor suave e bolorento. Das paredes e das vigas do telhado pendiam molhos de outros ramos e de flores a secar, mas foi para a esquerda que os seus olhos foram atraídos. Houvera ali uma outra mesa, uma coisa simples construída com tábuas mal aparadas, apoiadas num par de cavaletes, mas a mesa caíra, como se tivesse sido puxada ou arrastada pela sala, para longe da parede. A coleção de ervas e outras plantas estava espalhada pelo chão, e havia jarros de barro partidos por baixo das tábuas.

       - Espera aqui! - ordenou Baldwin, enquanto os seus olhos semicerrados percorriam o chão em volta da mesa. Passou para lá do regedor e avançou lentamente, a olhar para os destroços enquanto se interrogava se teria havido ali uma luta.

       Virou-se e olhou para o outro lado da sala. Mas, a mesa estava perfeitamente apoiada contra a parede. Os recipientes à sua volta mantinham-se cuidadosamente dispostos dos dois lados, como que numa formatura militar. Aproximou-se com cuidado e pegou num par de recipientes. Um continha o que pareciam ser vários raminhos de feixo, e o outro guardava folhas e caules de zimbro, voltou a colocá-los nos seus lugares e regressou para junto da mesa caída.

       Ali, ao que parecia, os recipientes também haviam estado dos dois lados da mesa, para além de alguns outros sobre o tampo. Havia muitos mais esmagados no solo, com as folhas e as raízes espalhadas por todo o lado. Baldwin agachou-se e apanhou algumas, que na sua maioria pareciam ser de ervas diferentes. Cheirou-lhe a tomilho, a manjericão e a salva... para além de outra coisa qualquer. Havia uma espécie de doçura em decomposição por cima dos pesados odores a pinheiro e a bafio. Quando Simon entrou, obscurecendo a sala ao bloquear a luz que entrava pela porta com o corpo, os dedos do cavaleiro encontraram algo ligeiramente pegajoso, espesso e frio, que cobria o solo diretamente em frente da mesa.

       - Encontraste alguma coisa? - perguntou o almoxarife, da entrada. Viu o cavaleiro virar-se com um rosto triste e pensativo.

       - Sim. Foi aqui que ela morreu. Há sangue espalhado pelo chão.

       O cavaleiro suspirou e traçou lentamente os contornos do sangue coagulado de uma ponta à outra. Tanto quanto pudesse ver naquela semi-escuridão, parecia ter formado grandes poças. Na sua maior parte secara completamente, mas aqui e ali, onde os coágulos eram mais espessos, estes ainda mantinham a prova viscosa da sua proveniência. Tanner agachou-se junto à lareira. Não havia qualquer hipótese de ressuscitar as chamas do dia anterior, pelo que se resignou a acender uma nova fogueira para que pudessem ter um pouco mais de luz.

       Muito em breve já as chamas se erguiam languidamente de uma pequena massa de chamico e o regedor encontrou uma pequena e malcheirosa vela de sebo que entregou a Baldwin, agachado junto da mesa, à espera.

       O cavaleiro pegou na vela e espreitou em volta, grunhindo ocasionalmente para si mesmo. Para Simon, que permanecia junto a porta, o cavaleiro parecia um porco a catar bolotas. Ao ouvir o seu nome num tom abafado, o regedor aproximou-se de Baldwin e levantou o tampo da mesa. A vela foi passada por cima e pelos lados do mesmo, pelo fundo, para acabar por iluminar os cavaletes. O cavaleiro acenou e permitiu que Tanner voltasse a pousar a mesa antes de prosseguir com o seu exame. Parou de repente, ficou a olhar fixamente, para logo abaixar e apanhar qualquer coisa, mas Simon não conseguiu ver o que fora. Por fim, Baldwin levantou-se, ergueu a vela bem alto e olhou intensamente para a parede por trás da mesa. Apagou a vela e saiu da casa, passando por Simon sem proferir uma palavra.

       Uma vez no exterior, o cão viu-os e sentou-se, com a cabeça inclinada para um lado como se estivesse a escutar a conversa. Tanner permaneceu em silêncio por trás deles.

       - Então, que aconteceu? - perguntou Simon. - Por que haveria alguém de a matar? Não pode ter sido um acidente.

       - Não, não foi um acidente - Baldwin abaixou-se e estalou os dedos para o cão até o animal se pôr de pé e se aproximar, com a cabeça baixa e a cauda a badalar. O cavaleiro afagou o pêlo da cabeça do cão e prosseguiu, num tom lento e deliberado.

       - Creio que esteve aqui alguém para falar com ela. Estava junto à mesa quando a mataram. Creio que a assassinaram ali, quando se encontrava de costas para o assassino...

       O almoxarife franziu a testa, tentando compreender.

       - Estava de pé junto à mesa quando o assassino lhe cortou a garganta?

       - Muito provavelmente. O sangue esguichou contra a parede por trás da mesa, pelo que é provável que estivesse virada para esse lado quando foi golpeada. Havia sangue por cima do tampo da mesa, e não por baixo, o que quer dizer que a mesa ainda se encontrava de pé quando a mataram. Caiu para trás depois de ter a garganta cortada e penso que arrastou a mesa consigo. Não havia sangue nas pernas dos cavaletes e por isso julgo que o tampo os protegeu quando ela caiu para trás. Se tivesse caído por causa do golpe e tentasse levantar-se a seguir, apoiando-se na mesa, teria deixado manchas de sangue e na parte dos cavaletes virada para a sala. Assim... creio que a feriram e que se agarrou a mesa, para depois cair de costas e arrastar a mesa com ela.

       Ficaram ambos calados por momentos. Foi Tanner quem quebrou o silêncio.

       - Por que iria alguém fazer uma coisa daquelas a uma velha como ela? Não devia ter nada para roubar. Para quê matá-la?

       O cavaleiro virou-se para ele com um sorriso frio em que se notava uma ira amarga.

       - É isso o que teremos de descobrir.

       O regedor foi buscar os cavalos e Simon observou o amigo.

       - Baldwin, passa-se qualquer coisa. O que é?

       O cavaleiro fitou-o por instantes. A seguir estendeu a mão e mostrou o que encontrara no chão. Era um anel de ouro com uma grande pedra vermelha na sua face plana.

       - Não me parece que uma pobre mulher de idade pudesse ter um anel desses... - murmurou Simon, mas foi nesse momento que reparou na expressão do cavaleiro. - Baldwin. o que foi? Sabes de quem é esse anel?

       - Sim - respondeu o amigo, num tom mortiço. - Sim, sei de quem é.

       O Bourc cavalgava para a floresta à beira da charneca com o rosto franzido enquanto pensava no mercador. Não tinha qualquer desejo de permanecer na Inglaterra mais tempo do que o necessário e podia facilmente esquecer o incidente se considerasse que a tentativa de emboscada fora da responsabilidade de fora-da-lei. Todavia, seria uma posição desonrosa. Como inglês nascido livre e como cavaleiro, tinha a obrigação de se vingar daquele ataque covarde. Ignorá-lo seria deixar que o mercador ficasse a pensar que conseguira assustar o Bourc, e isso era não apenas aviltante como também perigoso. Se as pessoas vulgares pensassem que podiam violar a lei e atacar os seus melhores, então todos os homens bem-nascidos estariam em perigo.

       Quanto mais pensava no assunto mais se convencia de que o seu senhor apoiaria entusiasticamente a punição do culpado, tinha de ir à procura de Trevellyn.

       Regressava ao bosque, seguindo os rastos deixados pelos seus cavalos e pelos dos atacantes, mas abrandou quando se aproximou. Num impulso súbito, desviou a montada para o lado e cavalgou durante algum tempo numa linha paralela à das árvores, com os olhos a percorrem os ramos mais baixos das árvores. Dois dos homens tinham regressado por aquele caminho e ainda podiam ali estar.

       Depois de percorrer algumas centenas de metros penetrou repentinamente no meio das árvores, esmagando os folhas e arbustos do seu perímetro, sempre meio à espera de sentir a picada de uma seta, mas não viu nem ouviu nada que o pudesse preocupar. Fez uma pausa, à escuta por cima do ruído da respiração dos seus dois cavalos... e não havia nada. Prosseguiu o seu caminho, mas manteve os olhos sempre bem abertos.

       - Tanner? Estás bem?

       Simon vira a alta figura do cavaleiro a afastar-se, com a pequena forma do cão a correr atrás do cavalo. Era óbvio que o animal encontrara um novo dono e não estava disposto a perdê-lo. Agora, o almoxarife virara-se, preocupado com o comportamento taciturno do regedor.

       Este mantivera-se dobrado sobre a montada quando tinham passado pela propriedade dos Oakway, com o queixo pousado no peito como se estivesse a dormir, mas mantendo-se rígido e firme sobre a sela. Levantou a cabeça quando ouviu a pergunta de Simon e o almoxarife, com grande aborrecimento seu, viu-se a ser estudado com atenção.

       - Que se passa, Tanner?

       - Não tenho a certeza, almoxarife.

       - Ora, vamos lá, estiveste calado durante toda a tarde!

       Todavia, o regedor não quis dizer mais nada. Tudo o que tinha eram vagas suspeitas: o Greendiff estivera nervoso, mas o rapaz mostrara mais medo do cavaleiro do que do cadáver. Era normal para um servo da gleba e o Greendiff vivia nas terras dos Furnshill. Era natural que tivesse receio do amo, um amo que detinha nas mãos, enluvadas a cota de malha, a sua vida e sustento. Não era razão para denunciar o rapaz.

       Na sua juventude, Tanner fora um soldado do Rei, tal como o velho Samuel Cottey. Tinham sido homens de armas numa das companhias que protegiam as terras alagadiças de Gales e na altura haviam testemunhado todas as crueldades humanas possíveis, ou pelo menos assim o pensara. Assistira ao assassínio de aldeões, à violação de mulheres, a lenta morte pela tortura de homens suspeitos de serem espiões ou de lutarem contra o exército, e tinha sido aí, no meio do fumo e das fúrias das batalhas no País de Gales que tinham decidido deixar a guerra para os outros. Haviam regressado a casa e Tanner seguira a profissão do pai como agricultor até ter sido eleito regedor. Fora uma responsabilidade difícil de recusar mas até ao ano anterior nunca se vira envolvido em nada mais grave do que a habitual rotina de prender os ladrões de bolsas no mercado de Crediton.

       No ano anterior tudo se modificara com a chegada dos fora-da-lei que tinham começado a pilhar o condado, matando e queimando desde Exeter até Oakhampton. Fora nessa altura que redescobrira a alegria de empunhar uma espada. Voltara a recordar a maléfica delícia dos combates, quando estes eram por uma boa causa. Agora, tinha a mesma sensação: havia algo de errado naquela arca. Andava um assassino à solta... e poderia voltar a matar.

       Era difícil de acreditar que o Greendiff pudesse estar envolvido. Conhecia o rapaz, conhecia-o havia mais de dez anos, conhecera o pai... e parecia-lhe impossível que tivesse algo a ver com o assassínio. No entanto, mostrar-se tão nervoso, e o corpo fora encontrado tão perto da sua casa...

       - Creio que vos vou deixar na estalagem - declarou. - Quero ir falar com o Greendiff.

       O Bourc percorrera cerca de cinco quilômetros através da floresta quando atingiu os seus limites e ficou a olhar para a estrada. Não havia ali nada que lhe causasse alarme e preparava-se para esporear o cavalo quando uma súbita cautela o levou a deter-se.

       Na sua frente, a estrada irregular descia a colina a partir da sua esquerda, abrindo caminho por entre as árvores. Via-a descrever uma curva acompanhando a íngreme vertente até descer para o rio, onde um único e maciço bloco de granito servia de ponte. Do outro lado a estrada voltava a subir num ângulo muito inclinado. Mas pouco depois virava para a direita e acompanhava a margem do rio durante todo o caminho até Crediton. Parecia tudo muito calmo e pacífico. Não havia ali motivos óbvios para o seu nervosismo, nenhuma indicação de que andasse alguém por perto... mas, no entanto, continuou parado de rosto franzido.

       Talvez não fosse nada... mas, sentia um formigueiro no escalpe. Sabia que, em parte, o formigueiro se devia à localização perfeita daquela ponte. Se quisesse atacar alguém na estrada, seria aquele o lugar que escolheria. Os flancos íngremes das duas colinas tornavam quase impossível uma fuga rápida, tanto para trás como para a frente. A estrada estreitava na ponte sobre as águas tumultuosas, o que conduziria a vítima para uma área muito pequena onde seria fácil derrubar um homem do seu cavalo ou golpeá-lo.

       Acenou para si mesmo e estudou as árvores que bordejavarn a estrada. Eram muito cerradas, com espessos arbustos em volta dos troncos. Seria muito difícil ver alguém que se escondesse ali. Porém, ainda sentia o formigueiro que o avisava do perigo. Desceu do cavalo, amarrou as rédeas a um ramo e desceu a colina seguindo a linha da estrada mas mantendo-se entre as árvores. Não desviou os olhos desconfiados da estrada, mas não viu nada de alarmante.

       O trânsito de Crediton e Exeter para Moretonharripstead, e para além desta última transformara a estrada num lamaçal onde os profundos sulcos testemunhavam o número de carroças que tinham passado recentemente por ali. As marcas dos cascos de cavalos salpicavam a lama vermelha, deixando-a cheia de crateras e buracos, como um guisado que tivesse ficado demasiado tempo ao lume.

       Continuou a descer a colina. Avançando devagar e com cuidado como se andasse a perseguir um veado, com cada passo cuidadosamente medido para reduzir os ruídos ao mínimo, sempre com a atenção posta na ponte e nas árvores de cada lado. Não havia ali nada que justificasse a excitação que sentia, mas era um ouriço há demasiado tempo para ignorar os seus instintos. Só muito raramente sentira aquela sensação de aviso, mas sempre que acontecera fora por boas razões e o pressentimento de que aquele lugar era perigoso não tinha apenas a ver com a sua localização. Sabia, de algum modo, que havia ali mais alguém.

       Cobrira quase metade da distância, quando ouviu uma fungadela e alguém a pigarrear a alguns metros de distância. Era um homem... escondido para emboscar um viajante.

       Muito lentamente, e com todo o cuidado, o Bourc pousou a mão no punho da espada e avançou, silenciosamente até um espesso ramo de carvalho rodeado por arbustos. Parou, estendeu a mão para se apoiar à arvore e ficou a escuta.

       - Acho que o deixamos escapar. Deve ter seguido por outro caminho...

       Imobilizou-se ao escutar as palavras murmuradas. Estavam mais perto do que julgara.

       - Talvez sim... ou talvez não. Pode estar logo para lá daquela curva a preparar-se para descer...

       - E vamos ficar à espera toda a noite?

       - O Trevellyn quer que lhe demos uma lição, para que não volte a insultar a mulher de um inglês.

       - Não podemos continuar aqui durante a noite. Gelaremos...

       - Temos de tentar apanhá-lo. Queres perder o teu lugar no navio?

       - Ora, não fazia uma grande diferença, pois não? Desde que os piratas começaram a atacar-nos cada vez que saímos do porto que não se ganha dinheiro a bordo dos navios dele...

       - Esperamos até ao crepúsculo. Voltaremos à cidade quando já estiver escuro.

       O Bourc sorriu sem alegria e iniciou a sua difícil e cuidadosa deslocação de volta aos cavalos. Conduziu-os lentamente, fazendo-os subir um parte da colina antes de se dirigir para leste num percurso paralelo ao rio. Os homens encontravam-se demasiado perto da via gorgoleante para poderem ouvir os ruídos dos seus movimentos. Ia deixá-los onde estavam. Ficariam entretidos e não poderiam mandar nenhum recado a Trevellyn, que aparentemente era o proprietário dos navios onde andavam embarcados. Não tinham conseguido dar-lhe uma lição, mas pensavam que o Bourc não parecia ter regressado a Crediton, pelo que Trevellyn ia pensar que se encontrava em segurança.

       Para Simon e Baldwin, a cavalgada de regresso a casa foi tranqüila. Nenhum deles tinha disposição para grandes conversas. O cavaleiro seguia com os olhos fixos na sua frente e Simon tentava desesperadamente manter-se quente, agarrando uma dobra da comprida capa e lançando-a por cima do ombro encolhido enquanto continuava a cavalgar num silêncio infeliz e gelado. Contudo, de cada vez que o fazia, os movimentos lentos da montada voltavam a fazer cair a capa. A viagem pareceu durar o dobro do tempo normal na crescente escuridão, com o vento a arrefecer-lhe o suor das costas e o nevoeiro a espessar-se a sua frente. A seguir, para seu desgosto, começou novamente a nevar.

       - Meu Deus! - murmurou, e viu Baldwin a olhá-lo rapidamente.

       - Estás com frio, meu amigo? - inquiriu, sardônico.

       - Frio? Achas que não está? - respondeu Simon, atirando mais uma vez a ponta da capa para cima do ombro.

       - Não faço idéia. - O cavaleiro olhou para cima. Quando continuou fê-lo num tom bastante mais sério. - Temos de nos apressar antes de ficarmos gelados, Simon. Esta neve não vai parar.

       Chegaram a Furnshill antes das seis da tarde, com ambos muito satisfeitos por poderem ser recebidos pelo clarão alaranjado dos candelabros, velas e chamas que se filtrava pelas fendas das janelas cobertas por tapeçarias. O bafo dos dois homens já congelava no ar gelado e cavalgaram diretamente para o estábulo, com o cavaleiro a berrar pelos servos antes de desmontarem. Os servos tomaram conta dos cavalos mas Baldwin ficou parado a observar as montadas a serem esfregadas e limpas. Virou-se para Simon com um sorriso.

       - Fico sempre a ver. Sei que se trata do hábito típico de limpar, mas os velhos hábitos nunca nos largam. Quem já andou na guerra sabe que é crucial que o cavalo seja bem alimentado e cuidado. Oh, olá! Também queres comida, não é verdade?

       As últimas palavras destinavam-se ao visitante. Viraram-se para se dirigirem à mansão e ao calor do seu salão, e depararam com o cão castanho e preto calmamente sentado à entrada do estábulo, com a cabeça inclinada para um lado como se perguntasse durante quanto mais tempo teria de suportar o frio.

       A cauda do animal começou a oscilar para um lado e para o outro, desenhando um pequeno leque na neve, para logo em seguida se pôr de pé e esperar por eles.

       - Parece que a tua casa ganhou mais um membro, Baldwin. - comentou Simon, com um sorriso. Como resposta, teve apenas um grunhido baixo.

       Tanner olhou para a árvore com uma expressão ácida e contorceu a boca numa careta de ódio quando a pequena avalancha lhe caiu nas costas e a umidade começou a escorrer-lhe para o cinto.

       Fazia um negro de breu e um tremendo frio. A neve caía devagar mas inexoravelmente. O regedor dobrou os ombros e espreitou para a frente com os olhos semicerrados, resmungando de infelicidade.

       Depois da partida do cavaleiro e do almoxarife, Tanner seguira diretamente para a estalagem e bebera um par de canecas de vinho quente e adoçado na companhia do estalajadeiro. Pretendera ver se o homem podia acrescentar mais alguma coisa às suas declarações anteriores e esperara que o Greendiff aparecesse na estalagem, mas a tentativa fora um falhanco. O estalajadeiro ficara feliz por vender o seu vinho mas negara saber algo mais do que já dissera e o regedor, depois de esperar morosamente durante uma ou duas horas, decidira sair para ir ver se encontrava o jovem em casa. Era óbvio que não iria aparecer na estalagem.

       Todavia, o trilho era miserável, a neve caía continuarnente do céu, formava espessos montes e o mundo era composto apenas por neve e frio. As criaturas tinham fugido do frio cortante e as árvores de cada lado eram invisíveis. Naquela escuridão absoluta quase não se via o caminho para além de um par de metros a sua frente, antes que a visão fosse confundida pela brancura da neve. De vez em quando avistava um grande montão de neve que lhe indicava o local onde um arbusto ou um ramo de árvore, se encontravam escondidos. Além disso, não havia mais nada.

       Estremeceu e manteve os músculos contraídos para tentar manter-se quente. Doía-lhe a garganta e sentia a pele desprotegida do pescoço, a do rosto ressequida e tensa, como se se tivesse tornado quebradiça e pudesse estalar quando lhe tocasse.

       O silêncio à sua volta era tal que chegou à casa sem sequer compreender que já saíra dos bosques. Era-lhe impossível distinguir os limites da floresta e nem sequer viu a sebe por onde tinham passado naquela manhã, porque estava tudo oculto. Contudo, ali já perto da casa, teve consciência de que o caminho subia e de súbito avistou uma massa cinzenta à sua esquerda, soltou um suspiro de alívio, pôs o cavalo a trote... e ficou com uma carranca a carregar-lhe a expressão. Não havia o clarão quente de uma lareira acesa, nem o cheiro a fumo de lenha.

       As pequenas janelas eram como retângulos de um negro mais profundo cravado no negrume das paredes. Seria de esperar que se visse um ligeiro clarão de luz por trás das tapeçarias e cortinas... mas não havia nenhum. Sentiu uma vaga de ansiedade ao compreender que a casa se encontrava vazia. O Greendiff não podia estar ali. Para se certificar, desmontou pesadamente do seu velho cavalo e bateu à porta.

       Passados alguns minutos, experimentou o trinco. No interior tudo era silêncio e o fogo na lareira não passava de um fraco reluzir de cinzas avermelhadas. Olhou a sua volta e para trás. O que viu fê-lo decidir-se. Conduziu o cavalo para o interior, retirou-lhe a sela e os arreios, e cuidou do animal antes de acender o fogo.

       Foi no preciso momento em que já conseguira que as chamas regressassem a vida que ouviu a pancada na porta Ficou instantaneamente alerta e agarrou na velha espada, uma arma antiga, com uma lâmina pesada. Empunhou-a, avançou em silêncio para a porta e abriu-a de repente.

       - Graças a Deus, Harold, eu... Quem é você?

       Tanner fitou o visitante com uma expressão sombria. Era um jovem com o tom rosado do medo a colorir-lhe as faces.

       - Sou o regedor. E tu quem és?

 

       Que nome lhe vais dar? - perguntou Simon quando entraram na casa, com o delgado focinho do cão a caminhar na frente deles à vontade como se tivesse nascido em Furnshill.

       Baldwin lançou-lhe uma mirada rápida e retorquiu:

       - Não sei se ficarei com ele. No final das contas...

       - Então, acho melhor que lhe digas! - retorquiu Simon. - Pelo seu aspecto, o bicho já decidiu ficar, independentemente do que possas pensar.

       - O que interessa não é o que eu digo. Estava a pensar na Lionon.

       - Ah, sim, esqueci-me! A tua amiga predileta.

       Baldwin olhou com irritação, mas as suas feições adocaram-se e ganharam uma expressão de autodesaprovação.

       Contudo, aparentemente, Lionon não levantou problemas. Entraram no salão verificaram que Lionon e o seu companheiro já se tinham encontrado e que os dois se farejavam cuidadosamente um ao outro em frente do fogo. Tornou-se claro que a mastim concluiu que o recém-chegado não constituía qualquer tipo ou ameaça, porque se afastou para se deitar em frente das chamas. Momentos depois, o rafeiro castanho e preto foi ter com a cadela e aninhou-se junto ao seu corpanzil como um cachorro. A mastim levantou a cabeça e rosnou duas vezes, mas acabou por a deixar cair novamente e ignorou o estranho.

       - Vou ter de pensar num nome... - concluiu Baldwin, resignado.

       Mais tarde, quando Baldwin entrou no salão, ficou divertido ao ver Simon ainda de pé e na defensiva, a aquecer as costas no fogo com Hugh a seu lado a deitar mais lenha para as chamas. Margaret encontrava-se por perto, com os lábios contraídos e uma expressão de exaspero nas feições tensas. Foi por causa dessa expressão e do aspecto de autojustificação embaraçada que viu estampada nas faces de Simon que o cavaleiro percebeu que o amigo acabara de receber alguns conselhos muito pertinentes a respeito de não ficar demasiado tempo fora de casa no escuro, quando nevava. De qualquer modo, Baldwin ouvira o tom de fúria na voz da mulher - e a deferência na do marido - através das paredes.

       Baldwin viu o gesto da cabeça de Margaret na sua direção, a expressão dorida que Simon lhe lançou e as costas muito retas do servo - que parecia querer dizer que naquele momento preferiria estar em qualquer outro lado que não ali, junto do seu amo - e não conseguiu evitar um grande sorriso.

       - Suponho que devia negar que ouvi a vossa... hum... conversa? - perguntou, olhando de Simon para Margaret e captando um estremecimento fugidio no rosto do almoxarife.

       A mulher levantou uma sobrancelha cínica quando se virou para o enfrentar com as mãos nas ancas.

       - Vais dizer-me que não sabes até que ponto pode ser perigoso viajar a noite? Sabes bem qual é o aspecto das estradas quando neva muito. Estarão ambos loucos?

       - As minhas desculpas, senhora... - respondeu avançando para a sua cadeira em frente do fogo. Antes de se sentar ainda se serviu de uma caneca do vinho do jarro pousado na lareira, após o que se instalou confortavelmente e bebericou um gole, com os olhos postos em Margaret.

       Parecia um bispo, sentado na pequena cadeira como se fosse um trono, pensou esta. Embora não estivesse a trocar, Margaret tinha a certeza de pressentir algum escárnio na atitude de Baldwin e aspirou o ar para o repreender. No entanto, o cavaleiro começou a falar baixinho antes de o conseguir fazer.

       - Margaret, lamento que tenhas ficado preocupada, mas tens de compreender que houve um assassínio. Não podíamos esquecer o assunto e voltar para casa antes do escurecer. Tínhamos de tentar descobrir mais qualquer coisa.

       - Claro que sei disso... - retorquiu Margaret com secura - mas qual seria a vantagem para a investigação se ambos morressem durante a jornada para casa?

       - Nenhuma, é claro, mas...

       - Exatamente! - exclamou a mulher, interrompendo-o. Nenhuma! Este ano já morreram dois mercadores e um monge que vinham de Tavistock... e tudo porque continuaram a viajar depois do anoitecer. Não admito que vocês dois façam o mesmo.

       - Mas, Margaret... - começou Simon, mas a mulher rodopiou e encarou-o com fúria, fazendo-o calar-se.

       - Já chega! Não quero ouvir mais nada!

       Baldwin sorriu e inclinou a cabeça.

       - Muito bem, minha senhora. Para a próxima, certificar-me-ei que chegaremos à horas!

       - Será melhor que o façam! - Margaret avançou para um banco e sentou-se, com os braços cruzados. - Agora, falem-me dessa mulher que morreu...

       O cavaleiro e o almoxarife trocaram um olhar. A seguir, depois de um breve encolher de ombros do amigo, o almoxarife contou-lhe rapidamente o que acontecera durante o dia e o que tinham descoberto a respeito da mulher morta. Sentou-se a seu lado, hesitante, e falou-lhe da descoberta do corpo, das conversas com os Oakway e da visita a habitação vazia. Enquanto falava. Lionon levantou-se e aproximou-se de Baldwin, seguida de perto pela sua sombra castanha e preta.

       - Pobre mulher... - comentou Margaret quando o marido terminou, e Simon confirmou com um aceno. - Esses Oakways pensavam que ela era uma bruxa?

       - Sim - afirmou Baldwin. - Parecem acreditar que conseguia que o cão fizesse tudo o que ela queria... como se um cão precisasse de ordens para fazer asneiras! De qualquer modo... - pegou no cão da Kyteler pela cabeça, segurou-o com as duas mãos e espreitou-lhe os olhos - como puderam pensar que um bicho tão meigo como este pudesse ser mau?

       - No entanto, é isso o que elas fazem! - declarou Hugh. A súbita interrupcão fez com que todos o fitassem. Encolheu-se sob aqueles olhares como se lamentasse ter falado, mas prosseguiu, amuado - É assim mesmo. Agarram em animais e obrigam-nos a fazer o que querem. Além disso, conseguem chamar os animais selvagens se o desejarem.

       - Que parvoíce! - grunhiu Baldwin.

       - É verdade! Além disso, algumas delas também conseguem se transformar em animais. Tem havido bruxas por aqui desde que os primeiros homens cá chegaram - insistiu Hugh, defendendo-se com ardor. - Há bruxas desde que os homens chegaram e lutaram com os gigantes para os expulsar.

       - Não, Hugh, as bruxas não existem - afirmou o cavaleiro. Trata-se apenas de supertições, de medo... e por vezes de inveja. Não há bruxarias...

       - Então, como foi que aquela velha conseguiu que o cão apanhasse e comesse as galinhas? - perguntou o servo, triunfante.

       Baldwin levantou a cabeça, sorriu para ele... mas o seu rosto permaneceu sombrio.

       - O fato de uma velha ter um cão e de os vizinhos pensarem que o cão atacou as galinhas, não comprova que isso tenha realmente acontecido. Creio que o cão merece uma oportunidade para se defender. Do mesmo modo, o fato de alguém pensar que uma mulher é uma bruxa não prova que ela o seja, e a mulher também merece o direito de se defender dessa acusação.

       - Como? A mulher está morta!

       - Pois está... - As palavras saíram-lhe tranqüilamente.

       Margaret agitou-se no banco.

       - Mas, Baldwin... e se ela era uma bruxa?

       - A Kyteler, uma bruxa? Não me parece. - O rosto do cavaleiro era tão suave como a voz quando a olhou.

       - Por que não?

       - Porque não acredito na existência dessa gente. Não posso.

       Simon inclinou-se para a frente e espreitou-o.

       - De certeza que durante as tuas viagens....

       - Não! Nunca encontrei qualquer prova de que uma determinada mulher era uma bruxa. Ouvi muitos exemplos de velhas acusadas de serem diabólicas, de estarem envolvidas com magias... Também vi muitas delas serem mortas. No entanto, havia sempre uma qualquer outra razão para serem acusadas, e não apenas por alguém acreditar realmente que eram culpadas.

       - Outra razão? Que queres dizer com isso?

       - O que quero dizer é isto: sempre que uma mulher foi acusada de ser uma bruxa foi porque o acusador queria o seu dinheiro, o gado, a casa, ou qualquer outra coisa! Havia sempre algo capaz de beneficiar o acusador. Freqüentemente, essas coisas só se descobriam mais tarde, quando a pobre infeliz já morrera nas chamas. Em geral, nem sequer os sacerdotes acreditam que essas mulheres sejam culpadas e é por isso que só raramente enfrentam a Inquisição mesmo depois de já terem sido acusadas. Por regra, são mortas pela multidão... Não, não acredito em bruxas!

       - A velha tinha montes de ervas e de raízes... No entanto, esta... - murmurou Simon, duvidoso.

       O cavaleiro olhou-o.

       - Não me digas que acreditas em bruxas?

       - Bom... - explicou o almoxarife, apologético - não é que acredite, ou que pense que a Kyteler o era, mas há por aí tantas histórias a esse respeito...

       - Esta agora! - O cavaleiro levantou-se de repente, aproximou-se do fogo e deteve-se junto do grande lintel de pedra da chaminé. Quando falou tinha o corpo enquadrado pelas chamas por trás dele e o rosto nas sombras. - O que é uma bruxa?

       Foi Margaret quem respondeu:

       - Alguém que se serve de magia para obter aquilo que quer.

       - E que querem elas?

       - Riqueza. Amor. Poder. Por vezes, querem permanecer jovens. São muitas as coisas que uma bruxa pode desejar.

       - A Kyteler não tinha nenhuma dessas coisas. O que foi que ela conseguiu alcançar?

       - Dizes isso... - comentou Simon, remexendo-se no seu lugar – mas, não é verdade que as bruxas usam a magia para fazer o mal não precisam de quaisquer benefícios, fazem-no para agradar ao Seu amo.

       - O amo? A quem te referes? Ao Diabo?

       Antes de responder, o almoxarife ganhou uma súbita consciência da escuridão e do isolamento da mansão.

       - Sim.

       Baldwin encheu a caneca e regressou lentamente à sua cadeira.

       - É possível. No entanto, ser-me-ia mais fácil acreditar numa bruxa que fosse rica do que noutra que só tentasse agradar ao seu negro amo!

       - Todas aquelas ervas... - começou Simon, hesitante.

       - Simon, por favor! Queres acusar as benzedeiras de serem bruxas? Era provavelmente boa a trabalhar com as ervas e usava as suas habilidades para ajudar os outros. Pode surgir uma altura em que até tu ficarás satisfeito com a ajuda de uma mulher que seja capaz de te livrar das dores de um membro partido... ou das hemorroidas!

       - Bom, afinal, que sabem vocês a respeito da morte dela? - acabou Margaret por perguntar, muito diplomaticamente, alguns momentos depois.

       Baldwin levantou a cabeça para a olhar.

       - Não muito... - admitiu. - Foi vista à tarde pela senhora Oakway, mas a partir desse momento temos poucas informações.

       - Devíamos começar por aí - murmurou Simon. - Precisamos saber o que o Oakway e o Greendiff andaram fazendo naquela tarde. São dois dos que sabemos que a odiavam.

       - Sim... - retorquiu Baldwin, olhando para o fogo. -No entanto, Simon, há mais um suspeito... - Fitou as chamas e explicou-lhe a visita do Bourc à Inglaterra para ver a mulher morta, bem como a história do anel de rubi.

       - Pensas que a pode matar? - perguntou Margaret.

       Baldwin abanou a cabeça.

       - Tudo aqui por gratidão, para lhe agradecer...

       - Se a história que te contou for verdadeira... - comentou Margaret baixinho.

       O cavaleiro não respondeu. Contudo, mais tarde, quando os deixou para ir para o quarto, ainda exibia uma expressão preocupada.

       Por fim, quando Simon deslizou para o sono teve de suportar o seu pesadelo recorrente, mas daquela vez a figura que se encontrava nas chamas não era a do abade. Para seu grande horror, reconheceu o rosto de Agatha Kyteler, que o fitava com olhos tristes e acusadores.

 

       O regedor chegou antes das nove da manhã seguinte com o seu companheiro. Não tinham necessitado de muito tempo para a jornada, embora a neve os tivesse atrasado.

       - Sir Baldwin, pensei que devia ouvir este homem e o que ele nos pode dizer a respeito do Greendiff.

       O cavaleiro olhou para cima com as mandíbulas a moverem-se enquanto mastigava um pouco de pão. O jovem que se encontrava com Tanner estava no princípio da casa dos 20, era alto, pelo menos oito centímetros mais alto do que o regedor, e tinha carnes pálidas e macias. Era para o roliço, não obstante a sua papada exibir peles flácidas e pendentes. A mão que segurava no chapéu era gorducha, os cabelos claros estavam bem cortados e envergava as roupagens de uma pessoa bem instalada na vida, com uma túnica de lã azul e uns calções cinzentos. Usava uma pequena adaga no pesado cinto de couro.

       - Quem és tu?

       Os olhos do jovem enfrentaram os do cavaleiro sem hesitações.

       - Stephen de La Forte.

       Para Simon, o jovem parecia-lhe um homem naturalmente altivo mas que procurava conter-se, embora com dificuldade. Os olhos tinham um surpreendente tom cinzento-claro com reflexos de âmbar, o que os fazia parecer estranhamente translúcidos, e estavam inseridos no rosto redondo onde a definição dos exercícios da juventude já se desvanecia na obesidade arredondada de uma meia-idade prematura. O almoxarife antipatizou com ele instintivamente e pousou os cotovelos na mesa para o estudar melhor.

       - Então, Stephen de La Forte, que nos podes tu dizer?

       O jovem olhou rapidamente para o regedor. Foi um relance fugidio, mas Simon ficou com a sensação de ter visto um brilho de inteligência tortuosa nos seus olhos.

       - Eu... Eu sou amigo do Harold Greendiff... Conheço-o há anos. Na noite passada fui a casa dele e encontrei o regedor.

       - Fui até lá cerca de uma hora depois de vos ter deixado, senhor. - intentou Tanner. - Apareceu quando tinha acabado de me instalar.

       - Compreendo. Muito bem... - continuou dirigindo-se ao jovem - e o que foste lá fazer?

       - Eu... - nova olhadela para Tanner. De repente, mostrava-se nervoso. - Como já disse, é um amigo. Estive com ele na terça-feira, na estalagem e pareceu-me infeliz... ou preocupado... e fui vê-lo para me certificar de que estava bem.

       - Preocupado? Que queres dizer? - inquiriu Simon com a testa franzida. O jovem olhou-o com surpresa e algum desdém, como se tivesse pensado que o almoxarife era um simples servo que não deveria tentar envolver-se nas conversas com seus chefes. - Então?

       - Não sei. Estava preocupado com qualquer coisa. Levei-o para a estalagem e fiz-lhe companhia, mas não me disse nada sobre o que o preocupava.

       Tinha um aspecto inseguro e Simon concluiu que o jovem parecia estar a mentir. Viu os olhos de Stephen fugirem dos dele e anotou o fato para uma posterior discussão do assunto com Baldwin.

       O cavaleiro brincava com uma faca. Espetou-a num pedaço de carne que estudou com cuidado e perguntou:

       - Ficaste tão preocupado na terça-feira que só o foste visitar ontem ao fim da tarde? Por que não o fizeste mais cedo?

       - Ah! Mas eu fui lá mais cedo.

       O rapaz abaixou os olhos.

       - O Harold não estava.

       - Compreendo. Tanner?

       - Sim? - O regedor deu um passo em frente.

       - Presumo que o Greendiff não apareceu?

       - Não, senhor. Ficamos lá toda a noite e não vimos sinais dele.

       - Stephen de La Forte, consegues lembrar-te de alguma razão para que o teu amigo tenha fugido?

       Os olhos que o fitaram tinham uma expressão perturbada e o jovem abanou lentamente a cabeça. Simon percebeu que o jovem chegara a uma conclusão e que já considerava o amigo como sendo culpado.

       - Nesse caso... - disse Baldwin, respirando fundo - acho melhor organizarmos uma busca. Pode nada ter a ver com a morte da Kyteler, mas não há dúvidas de que o fato de ter desaparecido no próprio dia em que o corpo foi encontrado, ainda por cima tão perto da sua casa, levanta muitas suspeitas. Muito bem. - Olhou para Tanner, que reagiu com um aceno. O cavaleiro fez um gesto, o regedor pegou no jovem por um braço e levou-o para o exterior. Foi apenas depois de terem saído e da porta se fechar atrás deles que Baldwin se virou para Simon e soltou um suspiro de alívio.

       - Esperemos que o encontrem, não é? Creio que poderá esclarecer algumas questões a respeito desta morte, em especial agora que resolveu fugir. É suspeito, não achas? É um claro sinal de culpa... graças a Deus! O culpado não foi o filho do cúpido !

       Passaram a manhã a cavalgar a norte da estrada para Bickleigh, com o falcão-peregrino no braço de Baldwin. O cavaleiro tivera a esperança de vir a descobrir uma presa apropriada para uma refeição, mas não viram nada que valesse a pena caçar. Por fim, quando o Sol já subira ao zênite. Baldwin soltou uma fungadela e um longo suspiro.

       - Isto é ridículo. Não sou capaz de me concentrar. Simon, Margaret, importam-se que voltemos para casa?

       Trocaram um olhar e acenaram. Baldwin fez sinal a Edgar, pegou o falcão e virou a montada para casa.

       Subiram e desceram colinas, e todo o condado estava coberto por um gelado tapete branco. Margaret conseguia distinguir a distância, mas apenas ocasionalmente o distante tom um pouco mais acinzentado das charnecas por cima, que de algum modo pareciam diferentes do resto da paisagem mais sombrias e ameaçadoras, orgulhosamente agachadas na berma do horizonte como um grande animal à espera de se lançar sobre a presa.

       Cavalgavam pela estrada que serpenteava pela ravina em frente da mansão, quando Simon apontou para o chão na frente deles, excitado.

       - Olhem para estes rastos! O grupo de busca já deve ter regressado!

       Descreveram a última curva antes de chegarem à reta de 800 metros que apontava, tão direita como uma lança, para a mansão, e viram os cavalos amarrados junto à porta, a afocinharem no chão, ou na neve com os cascos, numa tentativa para chegarem às ervas que se encontravam por baixo.

       - Edgar, trata dos cavalos - ordenou Baldwin ao servo antes de correr para o interior, Simon fez uma curta pausa para ajudar a mulher a desmontar e apressou-se a ir atrás dele.

       Os homens do grupo de busca estava à espera no salão, sentados nas mesas de Baldwin, e tinham posto os servos do cavaleiro a trabalhar na distribuição de pão e vinho. Na frente deles encontrava-se a figura que tinham visto na manhã anterior.

       Simon estudou-a com interesse. Naquela manhã parecera nervoso, para além de receoso do almoxarife e do cavaleiro, mas agora estava abatido. Talvez se devesse à exaustão, mas Simon teve a certeza de ver um brilho de desafio no azul dos olhos do jovem.

       - Tanner? - chamou o cavaleiro, e o regedor apareceu vindo do fundo da mesa.

       - Olá, senhor.

       Baldwin fez um gesto para o agricultor sentado no chão e perto da lareira:

       - Onde foi que o encontraste?

       O regedor lançou uma olhadela de desprezo para o rapaz, como se a sua estupidez tivesse sido previsível, e respondeu:

       - A sul, a caminho de Exeter. Aparenternente, chegou até lá durante a noite. Diz que decidiu ir-se embora para procurar fortuna na Gasconha. - Tanner abanou a cabeça e fitou o rapaz.

       Baldwin acenou.

       - Greendiff? já deves calcular o que isto parece, aos nossos olhos. Não és estúpido. Fala-nos a respeito do dia em que a tal Kyteler morreu. Que estiveste a fazer? Por onde andaste?

       Contudo, o jovem limitou-se a fitá-los com uns olhos que subitamente se encheram de lágrimas e recusou-se a responder.

       Depois do grupo de busca se ter ido embora, com o regedor a praguejar enquanto tentava transformar aquela gente desordenada numa escolta para o prisioneiro. Simon ficou parado durante alguns minutos, olhando-os com uma expressão intrigada. Quando se virou viu que Baldwin se encontrava perto dele, com os olhos postos no chão.

       - Estou surpreendido - declarou o cavaleiro lentamente - Custa-me a acreditar que o Greendiff seja um assassino, mas...

       - Se estiver inocente... então é difícil de entender por que se manteve calado... em particular porque deve saber que é o suspeito mais óbvio. Ainda por cima, o corpo estava perto da sua casa.

       - Pois estava... e isso preocupa-me. Seria de esperar que deixasse o corpo na casa da mulher ou que o largasse em qualquer outro lado, mas nunca ali, junto à sua casa... Foi quase como se quisesse que suspeitassem dele!

       - Que queres dizer?

       - Ora, Simon! Se matasses alguém e quisesses evitar que te descobrissem, de certeza que esconderias o corpo num qualquer lugar mais imaginativo, algures muito longe de ti, num local onde - mesmo que o cadáver fosse descoberto - não o ligassem à tua pessoa, não achas?

       Simon acenou devagar mas com dúvidas.

       - Talvez, Baldwin, talvez... E se tivesse deixado a Kyteler naquele local para a esconder melhor mais tarde? Podia não estar a espera de que alguém a descobrisse. No fim de contas, pode ter pensado que podia ir buscá-la antes que alguém se levantasse, para a esconder no meio da floresta, onde não a pudessem descobrir.

       O cavaleiro coçou a barba, com a boca aberta num sorriso cínico, e acenou.

       - Suponho que sim. No entanto, se o plano foi esse... não deveria ter tratado de o pôr em prática mais cedo, antes do velho Samuel Cottey passar por lá?

       - Não te esqueças que o corpo estava longe da estrada, escondido na sebe. Talvez pensasse que ia acordar antes dos outros. De qualquer modo, por que haveria alguém de colocar o corpo naquele local? Para implicar o Greendiff, é claro.

       - Não estaria demasiado bem escondido para isso? - protestou Simon. - Longe à estrada. por baixo da sebe? Se alguém quisesse ter a certeza de que o Greendiff ficava com as culpas... não deixaria o corpo num sítio onde fosse mais fácil descobri-lo?

       - Estava bastante afastado da estrada... - admitiu Baldwin.

       - Pois... mas o Cottey encontrou-o... Pergunto a mim mesmo como o fez ...

       - O quê?

       - Como foi que encontrou o corpo ali? Não o podia ver da estrada. Acho que devemos ir falar com o velho Samuel para sabermos exatamente como foi que descobriu o corpo.

 

       A casa do velho Cottey era uma coisa desengonçada, construída metade em troncos e metade em taipa. Erguia-se no alto de uma ligeira elevação rodeada por pequenas faixas de pastos e culturas e tinha uma enorme pilha de lenha em frente da porta, junto da qual depararam com uma jovem mulher que distribuía sementes às galinhas que corriam para um lado e para o outro em volta dos seus pés.

       Haviam saído de Furnshill quase logo após terem decidido falar com Cottey, com o rafeiro preto e castanho insistindo em acompanhá-los. A cadela mastim lançara uma olhadela à neve fria e parecera concluir que o fogo no interior prometia mais delícias a uma dama como ela. Agora, o cão de Agatha Kyteler caminhava na esteira dos cavalos, atirando-se de vez em quando para os maciços de arbustos de acordo com os seus caprichos, pelo que quando chegaram à porta da casa já o cão era muito mais branco do que castanho e preto.

       A rapariga interrompeu a tarefa de distribuição das sementes e ficou a vê-los aproximarem-se. Depois, a vista do cão, pousou o cesto das sementes e abaixou-se com os braços abertos. O rafeiro entrou numa convulsão de êxtase com a cauda a abanar loucamente, ofegando de felicidade aparente enquanto dançava lentamente à sua volta e permitia que a jovem o afagasse e lhe desse palmadinhas.

       Baldwin sorriu quando passou a perna por cima do dorso do cavalo para desmontar. A jovem era uma mulher relativamente atraente, acabada de sair da adolescência, com um corpo ágil mas resistente. O cavaleiro não pode impedir-se de reparar que parecia ser bem moldada. Levantou os olhos para ele e Baldwin verificou que possuía uns olhos cinzentos-claros e em forma de amêndoa, por cima de uma boca grande com lábios cheios e um pouco salientes. Baldwin aspirou o ar com força e deixou-o sair num curto suspiro. Era uma jovem muito atraente. “Acalma-te, idiota” pensou para si mesmo. “- Não passas de uma serva estás a ficar desesperado e nada mais!”

       - És a Sarah Cottey? - perguntou. A jovem pôs-se de pé e limpou as mãos à frente da túnica. Aquele gesto inocente repuxou o tecido sobre os seios firmes e Baldwin teve de pigarrear e de desviar os olhos.

       - Sim. - respondeu a mulher com um sorriso, parecendo não ter reparado nos seus olhares e no subseqüente embaraço. Voltou a limpar as mãos como se estivesse a provocá-lo.

       - Hum... O teu pai está em casa?

       A jovem fez um sinal para a estrada por trás dela.

       - Não, está na quinta do meu tio, em Sandford, mas vai voltar em breve. Querem esperar?

       Simon trocou um olhar com Baldwin. Este acenou, desceu do cavalo e a amarrou as rédeas a um poste próximo.

       - Obrigado. Sim, vamos esperar.

       Perguntou-lhes se queriam entrar para se sentarem junto ao fogo, mas Baldwin, para surpresa de Simon, pareceu preferir ficar na rua, ao frio, a conversar junto à porta. O almoxarife não sabia, mas o cavaleiro recordara-se dos odores da casa dos Oakway.

       - Conheces esse cão? Parece ter ficado contente por te ver.

       - Oh! Sim. É o da velha Agatha, não é? Costumava sempre brincar com ele quando o via. Não é uma tristeza o que lhe aconteceu? O meu pobre pai ficou tão perturbado que pensei que nunca mais conseguiria se acalmar.

       - Porquê? Era amigo da mulher? - inquiriu Simon.

       - Amigo? - A jovem olhou-o com uma leve expressão de surpresa, como se aquela fosse uma sugestão que não estivesse à espera de ouvir. - Não, claro que não. Pensa que ela era uma bruxa. Ficou com medo que pudesse voltar, para o perseguir mesmo depois de morta se a tratasse com falta de respeito...

       - Persegui-lo? Por que iria a mulher fazer uma coisa dessas?

       - Bom, sabem como são essas coisas. As pessoas que vivem aqui à volta ficam preocupadas quando alguém é um pouco diferente. Assustam-se com os recém-chegados e a Agatha, era diferente. O meu pai pensa que pode voltar como um fantasma...

       - A velha era diferente? Como?

       - Como? Veio de uma terra distante, do reino de Jerusalém... ou, pelo menos, era o que se dizia. Tinha muitos conhecimentos sobre ervas e raízes. Quando alguém se magoava ia ter com ela para lhe pedir ajuda e por vezes conseguia que as dores desaparecessem, mesmo que fosse por pouco tempo.

       - E também era parteira, não é verdade?

       - Sim... - retorquiu, empertigando-se um pouco, talvez por nervosismo ou timidez, enquanto o rosado natural das suas faces se aprofundava um pouco. - Sim. também era conhecida por isso. Sabia muitas coisas...

       Nesse momento todos ouviram o chiar e o chocalhar de uma carroça, viraram-se e viram o velho agricultor a aproximar-se. O cão saltou do alto da carroça e avançou de um modo lento e rígido para o amigo canino que Baldwin adotara, mas os dois animais conheciam-se e pouco depois já se encontravam envolvidos numa perseguição amigável.

       Samuel Cottey não pareceu surpreendido com a presença dos visitantes e acenou a ambos antes de saltar com ligeireza para o chão e começar a tratar da mula. Sarah desapareceu no interior enquanto Simon e Baldwin esperavam, para reaparecer pouco depois com uma caneca de cerveja para o pai. O agricultor aceitou-a e sorriu para ela com o rosto cavado por rugas familiares, antes de a levar à boca e de beber um grande gole.

       - Bom... o que desejam, senhores? - inquiriu tranqüilamente depois de acabar de beber e de se aproximar dos homens que se encontravam junto da sua porta.

       - Queremos fazer-te algumas perguntas a respeito de como foi que encontraste a mulher morta... - disse Baldwin, à maneira de explicação.

       A filha do velho Cottey apareceu novamente à porta, carregada com duas canecas de cerveja para eles. Simon sorriu de gratidão, estirou a mão e passou uma das canecas a Baldwin, mas a jovem nem sequer deu pela sua gratidão. Olhava para o cavaleiro enquanto este conversava com o pai, e parecia pálida, como se estivesse preocupada com qualquer coisa.

       - Em primeiro lugar - prosseguiu o cavaleiro - podes dizer-nos como foi exatamente que a encontraste? Não podes ter visto o corpo a partir da estrada.

       - Não, não vi - afirmou o agricultor. Mantinha os olhos baixos mas, quando os levantou para o cavaleiro. Baldwin viu-lhes uma expressão de desafio, como se o velho soubesse que não devia recear a morta mas ainda estivesse demasiado receoso para admitir esse medo. Explicou rapidamente como o cão se afastara dele e encontrara o corpo. - O estupor não costuma incomodar as ovelhas... mas acabou por encontrar a velha bruxa...

       - Não era uma bruxa! - As palavras acaloradas tinham saído da boca da jovem e surpreenderam Baldwin.

       - Pois não, não me parece que o fosse... - confirmou o cavaleiro num tom gentil, voltando a virar-se para o agricultor. - E depois?

       - Eu... - os olhos do homem tornaram-se pensativos. - Eu puxei-a um pouco. Estava tão fria que não podia continuar com vida, mas puxei-a para ver quem era. Tive de a puxar por um ombro. Quando vi quem era, o choque foi tão grande que a larguei.

       - Sim. sim. E a seguir? Viste quem era, viste como morrera... e que foi que fizeste?

       - Fugi dali à pressa! Era uma bruxa. - Lançou uma olhadela para a filha. - Toda a gente o sabia. Deixei-a lá ficar e fui à casa do Greendiff.

       - E o rapaz estava em casa?

       - Oh, sim, claro que estava.

       - Que queres dizer com isso?

       - Disse-me que se preparava para sair para ir ver as ovelhas.

       - Quer dizer que se encontrava vestido e pronto para sair? A que horas terá sido isso?

       - A que horas? - O agricultor olhou-o e depois examinou a paisagem por instantes. Acabou por responder com modos lentos e pensativos. - Ainda fazia escuro, mas creio que as primeiras luzes estavam a aparecer... Não sei. Por volta da madrugada, mas um pouco antes e nunca depois...

       - No entanto, o Greendiff estava vestido e pronto para sair? - inquiriu Simon. O agricultor virou-se para ele e espreitou-lhe o rosto.

       - Sim e até já tinha a capa posta, a vermelha. Porquê? Que interesse tem isso?

       - O estalajadeiro contou-nos que o Greendiff fez comentários sobre a mulher no dia em que a mataram, algo a respeito dela ter feito qualquer coisa. Disse que a Kyteler precisava ter cuidado, antes que alguém resolvesse vingar-se... Pensamos que pode ter sido ele quem a matou.

       - Isso é uma loucura!- A súbita interrupção de Sarah fê-los virarem-se, surpreendidos. - O Harold não faria uma coisa dessas! É um bom homem, amável e bondoso. Nunca mataria ninguém daquele modo... e muito menos uma velha!

       - Cala-te, rapariga. - O agricultor falou com uma voz dura e com rosto rígido de ira por ter sido interrompido.

       - Não, espera! - A ordem de Baldwin fê-lo conter-se, como se o rápido ataque de fúria o tivesse deixado exausto. - Agora, Sarah, por que pensas desse modo?

       A jovem olhou brevemente para o pai, fez uma pausa e pareceu decidir já que tinha ido até ali, então também podia continuar.

       - Porque o conheço. Não é cruel e não seria capaz de matar ninguém. - O estalajadeiro pareceu ter certezas...

       - Esta enganado. O Harold nunca mataria uma velha daquele modo, cortando-lhe a garganta. É demasiado sensível...

       Os olhos de Baldwin fitaram os dela por momentos, mas a jovem acabou por os desviar e Simon teve a certeza de ter visto embaraço no modo como Sarah corou de repente.

       - Talvez... - murmurou o cavaleiro, baixinho. - Olhou para o agricultor e perguntou: - Cottey, que me dizes a esse respeito? O Greendiff teria sido capaz de matar uma velha daquele modo?

       - Uma velha... não... - A voz do agricultor ganhou novamente um tom amargo. Mas uma bruxa? Creio que seria capaz de a matar e que ficava muito satisfeito! Podia pensar que estava a prestar um serviço a toda a gente - um ato pio - ao matar a velha bruxa!

       Conduziram os cavalos para longe da casa mas Baldwin parou por instantes e coçou a cabeça com um esgar especulativo.

       - Que pensas disto?

       Simon levou algum tempo para responder.

       - Não sei... - admitiu. - Creio que está tão convicta de que não pode ter sido o Greendiff como o pai está convicto de que se tratava de uma bruxa. Talvez que... - Foi interrompido pelo som de pés que corriam sobre a neve macia.

       - Senhores, senhores! Esperem um momento! - Era novamente Sarah, que se precipitava para eles com as saias seguras nas mãos, dando a Baldwin um relance das suas pernas.

       - Sim? - perguntou o cavaleiro.

       A jovem parou na frente deles com o rosto brilhante do esforço. Ofegava ligeiramente e inclinou-se para os dois homens com alguma falta de fôlego.

       - Não pode ter sido o Harold.

       - Porquê?

       - Porque nunca pensou que a Kyteler fosse uma bruxa. Tinha a certeza de que era inteligente e sabia de plantas, mas não a considerava má ou chegada à feitiçarias. Além disso, é um rapaz bondoso... - A voz falhou-lhe quando viu o cavaleiro a erguer uma sobrancelha. Baldwin sorriu e perguntou:

       - Então, não acreditas que a Kyteler tenha mandado o cão ao galinheiro dos Oakway?

       - Ora, isso! Pôs a idéia de lado com um curto movimento da mão, como que a afastar tal sugestão. - Como podia alguém acreditar numa coisa dessas? Quem apanhou as galinhas foi uma raposa ou uma doninha, e nunca um cão. Se o cão quisesse comer galinhas... então comia as da Agatha e não fazia todo aquele caminho até ao galinheiro dos Oakways.

       - Hum... - Simon viu que os olhos de Baldwin espreitavam por cima do seu ombro. Quando lhe acompanhou o olhar verificou que o cão estava deitado em frente da porta da casa, a olhar para o grupo de humanos com a cabeça entre as patas... e com as galinhas a debicarem o chão à sua volta.

       - Então, por que teria o Greendiff dito aquilo a respeito da mulher? Por que estaria tão aborrecido com ela? - perguntou o cavaleiro instantes depois.

       - Não faço idéia.

       - Ele tinha muitos amigos?

       - Nem por isso, senhor. Apenas alguns dos rapazes da aldeia, mas dava-se bem com o Stephen de La Forte.

       - Compreendo - Baldwin ficou a pensar. - Muito bem, obrigado pela tua ajuda. - Montou no cavalo, olhou na direção do cão e perguntou, com um tom esperançado: - O cão parece sentir-se bem aqui... Achas que... ?

       A jovem sorriu, mas abanou a cabeça.

       - Não, não me parece que o meu pai permita que o cão da velha fique aqui. Ficaria com medo de que ela o estivesse a vigiar, pronta para defender o animal ou para se vingar de quem lhe batesse. Não, é melhor levá-lo consigo.

       - Suponho que tens razão. - Baldwin soltou um suspiro de resignação e assobiou ao cão.

       Regressaram à estrada e Simon fitou-o.

       - Então?

       Baldwin encolheu os ombros.

       - Parece claro que o rapaz estava pronto para sair de casa quando o Cottey lá chegou, mas isso pode querer dizer muitas coisas diferentes! Talvez fosse sair para cuidar das ovelhas, tal como disse, ou fosse deslocar o corpo, para o enterrar ou esconder... Não sei...

       - E se ía mover o corpo? A rapariga parece segura de que não foi ele quem a matou.

       - Sim... e é estranho. Mostrou-se muito defensiva...

       Simon soltou uma curta gargalhada.

       - Aí está uma coisa que não tem nada de estranho! É jovem... e ele também. O rapaz tem bom aspecto... e ela também. Não me parece que precises de ir mais longe em busca de razões.

       - É possível. - Baldwin ficou meditativo. - Vamos procurar esse tal amigo... Como se chamava? Ah! sim, Stephen de La Forte. Vejamos o que terá para nos dizer.

       Aceleraram o passo e cavalgaram até à estalagem para pedirem informações. A casa dos Forte ficava na estrada para Exeter, a uns cinco quilômetros de Wefford, pelo que viraram as montadas para sul e não levaram muito tempo para lá chegar.

       Simon não conseguiu impedir-se de soltar um pequeno assobio de aprovação quando avistou a propriedade.

       - Esta gente parece viver bem... - comentou.

       Baldwin confirmou com um aceno. A casa era grande, comprida e estava rodeada por um certo número de estábulos e de outros edifícios. Era maior do que a sua própria mansão e com um telhado provavelmente mais alto. As paredes encontravam-se caiadas de fresco e limpas, o que fazia com que parecessem erguer-se do chão como se fossem feitas do mesmo material. Por cima, a espessa massa de colmo era visível por causa da chaminé que se erguia para o alto. À sua volta, a neve derretera e pusera à vista o colmo acinzentado que se encontrava por baixo.

       A estrada passava perto da frente da casa, que se erguia numa ligeira inclinação, mas entre o edifício e a estrada corria um riacho que cortava uma linha nítida e precisa através da neve. Seguiram o trilho que dava acesso à casa, abrandaram e atravessaram o ribeiro a passo no local menos profundo, antes de trotarem até a porta.

       A casa tinha duas alas salientes que se projetavam para a frente como os cornos de uma vaca, e a porta ficava no pátio entre essas alas. Havia ali uma espécie de corrimão a que amarraram as montadas antes de Simon bater ruidosamente na porta enquanto Baldwin prendia o cão com um cordel que se encontrava pendurado no corrimão. Não queria que o seu novo cão começasse a lutar com o cão dos Fortes. Não precisaram esperar muito tempo.

       Um servo idoso, um homem magro e alto com uma expressão de ansiedade abriu a porta e espreitou-os. Simon tentou exibir o seu sorriso mais encantador e acenou para o servo.

       - O Stephen de La Forte esta em casa?

       - Eu... - O homem ia começar a falar mas ouviu-se um berro atrás dele e o servo rodopiou, dando uma rápida explicação a quem quer que estivesse no interior. - Não, senhor. Não, não sei quem são. Estão a perguntar pelo senhor Stephen...

       - Sai da minha frente! - gritou a voz. O servo desapareceu e o seu rosto foi substituído pelo de um homem mais velho.

       Simon calculou que se encontrasse na meia-idade, por causa dos cabelos espessos e já grisalhos. Era forte, não gordo mas com um corpo volumoso, um pouco mais baixo do que o almoxarife, mas tinha os ombros muito mais largos. Possuía um peito tão maciço como um barril e braços que teriam ficado bem como troncos de árvores, de grossos que eram.

       O rosto era um labirinto de rugas, com algumas tão profundas que pareciam separar abas de pele rudimentarmente reunidas e cosidas umas às outras, entre as quais Simon distinguia as marcas mais raras, embora espessadas pela idade, de antigos ferimentos provocados por facas ou espadas. No meio de tudo aquilo encontrava-se uma boca, que por si só também era um corte sem cor. Havia um nariz espesso e quebrado entre dois olhos brilhantes e inteligentes, azuis-acinzentados como os do filho, que fitavam o almoxarife sem pestanejarem.

       - Então? Quem são vocês e o que querem do meu filho? - perguntou no tom áspero da desconfiança.

       - O senhor é o pai do Stephen de La Forte ? - perguntou o cavaleiro tranqüilamente, por trás de Simon.

       - Sim. E quem são vocês?

       Baldwin avançou devagar até ficar ao lado do almoxarife e devolveu o olhar do homem. também sem pestanejar.

       - Sou Sir Baldwin, de Furnshill - declarou, anunciando o título com um orgulho-Também sou o Guardião da Paz do Rei e tenho um assunto a tratar com o seu filho e não consigo. Traga-o imediatamente à minha presença!

       Ao princípio Simon teve a certeza de que o Forte iria explodir como uma peça de fogo-de-artifício de uma criança. O rosto encheu-se-lhe com a vermelhidão do sangue até as veias se destacarem nas têmporas e no pescoço, e os olhos pareceram querer saltar-lhe das órbitas, como se tivessem vontade de se atirar ao cavaleiro. Porém, toda aquela raiva desapareceu tão rapidamente como aparecera. O homem pensou por um instante e desviou-se, embora com maus modos, para deixar entrar os visitantes.

       - As minhas desculpas, senhor. Não me tinha percebido de quem eram. Por favor, entrem e sentem-se junto ao fogo enquanto vou buscar o meu filho.

       - Obrigado - retorquiu Baldwin graciosamente quando entrou.

       Aquele não era um lar rudimentar. Os biombos que formavam o corredor de entrada davam para uma grande sala bem arejada, com uma enorme lareira construída numa larga parede. Havia tapeçarias ricamente coloridas suspensas das paredes, separadas por pequenos espaços onde se encontravam os candelabros que aclaravam o interior. Na frente da lareira viam-se dois grandes suportes para velas em ferro forjado, que lançavam lagos de luz à sua volta. No extremo oposto da sala havia uma maciça mesa construída com espessas tábuas de carvalho e um dos seus bancos fora puxado para junto do calor, o que fizera com que os seus pés arrastassem as palhas que cobriam o chão, deixando a vista duas faixas de terra batida. Tinham colocado uma escrivaninha e uma cadeira perto da lareira, junto das quais se viam um homem de pé, vestido como um monge.

       - O meu secretário... - declarou o anfitrião com um gesto de desinteresse enquanto caminhava para uma cadeira, se sentava e gritava ao servo: - Vais buscá-lo!

       - Tem uma casa muito agradável - começou Simon, inseguro, vendo o secretário a arrumar papéis e a sair apressadamente da sala.

       - Sim. Levou muito anos a construir mas agora já está como a queríamos. Só espero... - o rosto tornou-se-lhe amargo - que consiga lucros suficientes para a manter.

       - Para a manter? Porquê? Qual é a dificuldade?

       - Os genoveses! A dificuldade são os genoveses! - declarou, com um trejeito de desprezo a contorcer-lhes o lábios. - Os filhos-da-mãe querem o meu dinheiro!

       O cavaleiro virou-se e permaneceu impassível enquanto o homem continuava.

       - Fui um mercador de sucesso durante vários anos, com o meu sócio, Allan Trevellyn, e agora esses italianos... - a palavra foi quase cuspida - querem que lhes pague os empréstimos que lhes pedi. É um loucura. Sabem que não o posso fazer e só querem a nossa bancarrota, mais nada!

       - Por que haviam de querer uma coisa dessas? - perguntou Simon com toda a calma.

       Os olhos cinzentos fixaram-se nele.

       - Porquê? Ora, para que os deles nos possam roubar o nosso comércio, é claro!

       - O meu amigo tem muito pouca experiência de comércio. Talvez lhe possa explicar - interveio Baldwin com suavidade, o que levou Simon a lançar-lhe um olhar de amargo desagrado. Tanto quanto soubesse, a sua compreensão do comércio era tão boa como a de qualquer outro homem.

       - O Allan Trevellyn e eu alugamos navios e usamo-los para trazermos vinho da Gasconha para aqui. Já o fazemos há anos. Na viagem de ida levamos o que podemos, mas a cargas são principalmente de lá. Quando os navios chegam, vendem as cargas e usam o dinheiro para comprarem o vinho que trazem de volta. Tivemos êxito ao longo dos anos, e muito azar nestes dois últimos anos. Os piratas capturaram os dois últimos navios, o que deu cabo dos lucros dos dez navios anteriores. Os lucros agora são demasiado baixos por causa dos altos custos provocados pelas más colheitas. Por isso, os italianos querem que devolvamos o dinheiro que nos emprestaram há algum tempo, ou seja, querem tudo! Ficaríamos sem as nossas casas... e perdíamos tudo!

       Ficaram sentados em silêncio durante alguns minutos. Simon ia abrir a boca para perguntar quais seriam as conseqüências se se recusasse a pagar mas ouviram o som de pés que se aproximavam. A cortina que dava acesso à sala abriu-se e surgiu o rapaz que já tinham visto anteriormente, acompanhado por uma mulher magra suficientemente parecida com Stephen para poder ser a sua mãe. Parou junto à entrada, lançando pequenas olhadelas aos homens enquanto o filho entrava com confiança, pelo menos na opinião de Simon, embora com um rosto que exibia uma expressão estranha. Era um aborrecimento quase petulante, como se estivesse zangado com o fato do cavaleiro e do almoxarife se terem atrevido a invadir a casa do pai.

       Avançou diretamente para uma cadeira e sentou-se, com as feições pálidas viradas para o cavaleiro.

       - Então, o que desejam? - perguntou, impaciente.

       Baldwin limitou-se a contemplá-lo tranqüilamente. A seguir suspirou e começou:

       - O teu amigo não fala conosco. É quase como se quisesse ser condenado. Contudo, não estou inteiramente convencido de que o tenha feito e quero ter a certeza de que apanhamos o homem certo. Por isso, diz-me, por que razão pensas que o Greendiff fugiu, na noite passada?

       - Na noite passada? Não faço idéia - afirmou Stephen, recostando-se e cruzando as pernas. Parecia ter um muito leve sorriso no rosto, que Baldwin pressentiu que era de troça.

       - Disseste-me que foste lá porque o teu amigo estava perturbado. Estava perturbado como?

       O rapaz levantou as mãos num gesto arrogante, como se sentisse exasperado.

       - Oh, não sei! Perturbado! Deprimido! Parecia pensar que já não havia nada que o mantivesse aqui. Queria partir. Queria ir-se embora e viajar. Disse muitas vezes que gostaria de ir para a Gasconha.

       Baldwin franziu a testa e olhou-o com dúvidas.

       - Então, embora não te tivesse dito quais eram os motivos para se sentir tão infeliz, achaste que se encontrava tão perturbado que tentaste ir visitá-lo duas vezes no mesmo dia?

       - Sim - admitiu Stephen, descruzando as pernas. Há quanto tempo o conheces?

       - Há quanto tempo? Ora, conheço-o desde os tempos de criança!

       - Têm a mesma idade?

       - Sim, ambos temos 20 anos.

       - Suponho que conversavam a respeito de tudo...

       - Sim.

       - Nesse caso, por que estava ele tão perturbado?

       Para Simon, o que viu pareceu-lhe um conjunto de gestos típicos de um ator de teatro. O rapaz virou-se um pouco para o pai, abriu a boca... e voltou a enfrentar o cavaleiro com uma expressão pensativa.

       - É-me difícil falar nisso... Não sei se o devo fazer, porque se tratou de uma confidência e prometi guardar segredo...

       - O que era?

       - Uma mulher.

       Baldwin endireitou-se, com os olhos sempre postos no rapaz, e Simon descobriu-se imediatamente a pensar: Sarah Cottey! Tinha de ser ela!

       - Quem? - perguntou Baldwin num murmúrio.

       - Não posso dizer.

       - Isto é uma estupidez! - exclamou Baldwin, levantando-se abruptamente. - Queres que acredite que o conheces desde criança, que falavam a respeito de tudo, que eram amigos... e que no entanto te ocultou uma coisa tão importante?

       - Não, senhor. Não me compreendeu bem. - A voz agora era baixa, quase triste. - Trata-se de uma mulher bem-nascida e não de uma serva. Além disso, é casada.

       - Ah! - O cavaleiro voltou a virar-se para o jovem.

       - Pois é. Claro que sei quem é, mas jurei manter o nome dela em segredo. Tem de compreender que não posso quebrar esse voto.

       - Sim, claro que não podes - declarou o cavaleiro apressadamente.

       - No entanto, há uma coisa que lhe posso dizer.

       - O que é?

       - O Harold, não pode ter morto a bruxa.

       - Como podes estar tão certo disso?

       - Esteve comigo toda a tarde de segunda-feira, e também à noite.

       - E então? - Ouvi o estalajadeiro dizer que a Kyteler tinha sido vista pelo Oakway ao princípio da tarde, pelo que só pode ter sido morta depois disso, ou à noite. Estive com o Harold durante todo esse tempo. Não pode ter sido ele.

 

       O pai ficou parado à porta e observou os dois homens a dirigirem-se aos cavalos, a soltar o cão e a montarem, para depois se virarem lentamente e seguirem ao longo do trilho que atravessava o rio a fim de regressarem à estrada para Wefford.

       Soprava um vento cortante que parecia lamber a pele de Simon com uma língua de gelo, e nem sequer a capa, a túnica e a camisa, no seu conjunto, lhe davam qualquer espécie de proteção.

       - O tempo parece não querer melhorar, não é? - comentou, após alguns minutos de silêncio.

       - Hum? Ah, não, não melhora! - Baldwin cavalgava a seu lado com a mente completamente absorvida em qualquer outra coisa.

       Simon suspirou e perguntou:

       - Qual foi a parte daquela conversa que achaste mais confusa?

       - Só a parte que interessa. Quem será ela?

       - A amante do Greendiff?

       - Sim. Quem poderá ser?

       - Duvido que venhamos a saber... a não ser que o Greendiff se decida a abrir-se conosco.

       - Pois é... ou a não ser que o Stephen de La Forte possa ser persuadido. Pergunto a mim mesmo...

       - O quê?

       - Achas que o rapaz estava a mentir?

       - Ah!

       O cavaleiro lançou-lhe uma olhadela.

       - Então?

       - Então o quê?

       - Vais dizer-me para não chegar a conclusões precipitadas?

       -Não.

       - Ou que estou a fantasiar?

       - Davas-me ouvidos se o dissesse?

       O cavaleiro depois de pensar por um instante

       - Não! - retorquiu.

       - Ótimo! - exclamou Simon com uma risadinha. Fez um pequeno trejeito e inquiriu: - Que pensas do rapaz do de La Forte?

       - O que penso dele? - Baldwin fitou-o. - Não sei. Não merece confiança. No entanto, penso que disse a verdade a respeito da mulher.

       - Acreditas que o Greendiff tem um caso amoroso?

       - Sim.

       - A minha impressão também foi essa - admitiu Simon, acenando. - Que vamos fazer agora?

       - Suponho que teremos de o libertar. Depois do testemunho do Stephen não há dúvidas de que o rapaz não podia estar perto da mulher quando a mataram.

       - Não... a não ser que o Stephen nos mentisse. Tive esse pressentimento hoje de manhã, e voltei a tê-lo a pouco! Não se tratou apenas de um caso de ocultação de informações. Tive a distinta impressão de que estava a mentir deliberadamente sobre certas coisas.

       - Sim, também tive essa sensação. - Baldwin levantou os olhos para as nuvens. - Temos pelo menos mais uma hora para inciarmos antes de escurecer. Achas que a Margaret se zangaria conosco se tomássemos uma bebida quente no caminho para casa?

       Se não fosse a expressão inocente no seu rosto, Simon pensaria que o cavaleiro não tinha qualquer espécie de segundas intenções. Assim, ficou com a certeza de que Baldwin, tinha uma razão especial para visitar a estalagem e o seu sorriso alargou-se enquanto aceleravam o passo dos cavalos para um trote.

       Quando chegaram, corados pelo súbito aquecimento provocado pela cavalgada, viram o estalajadeiro sentado num cavalete no seu salão, e não se encontrava sozinho.

       Àquela hora da tarde, a estalagem estava cheia de homens que já tinham dado por terminadas as suas tarefas diárias. Os agricultores e trabalhadores locais ou outros despojavam-se nos compridos bancos ou mantinham-se perto do fogo. No entanto, fossem eles gordos e corpulentos, ou delgados e magros, todos se calaram ao verem o cavaleiro e o amigo. O cão preto e castanho seguira-os para o interior mas escapuliu-se furtivamente quando percebeu o impacto que a entrada dos dois homens provocara.

       - Acho que já deram pela nossa presença... - comentou Baldwin tranqüilamente, quase a rir-se.

       Quanto a Simon, não lhe parecia que a situação fosse divertida. Os seus olhos saltitavam sobre os homens que se encontravam no salão, em busca de um rosto amigável... mas não encontrou nenhum.

       - Senhores! Entrem e sentem-se, por favor! - pediu o estalajadeiro, numa óbvia tentativa para que tanto eles como os outros que se encontravam presentes se sentissem mais à vontade. Aproximou-se e conduziu-os rapidamente a uma mesa num canto escuro junto à parede traseira, perto da cortina que dava acesso ao interior e puxou um par de cadeiras.

       - Vinho - disse Baldwin com secura. O estalajadeiro acenou e afastou-se. O cavaleiro descalçou as luvas, começou a olhar em volta da sala... e os olhos com outros desviavam-se sempre que encontravam os dele. Gradualmente, regressaram às suas conversas com o olhar firme do cavaleiro, enquanto o cão se enrolava por baixo da mesa.

       - Cavalheiros, aqui está o vosso vinho, aquecido e com especiarias. - O estalajadeiro pousou o tabuleiro e serviu uma boa dose a cada um deles.

       - Ótimo - disse Baldwin, dando um estalo com os lábios quando colocou a caneca à boca. -Ah! Sim! Muito bom, estalajadeiro. Quer fazer-nos companhia? Toma um gole conosco?

       A expressão de nervosismo apoquentado desapareceu imediatamente.

       - Sim, senhor, gostaria muito. Permitam-me... - Fez um aceno na direção da mulher que se encontrava do outro lado da sala, uma mulher baixa e forte alguns anos mais nova do que o estalajadeiro, que Simon pressupôs ser a esposa dele e que apareceu pouco depois com um segundo jarro de vinho.

       - Parece que tens uma estalagem muito concorrida... - comentou Baldwin apreciador.

       - Sim, senhor... - afirmou o estalajadeiro sorrindo, enquanto olhava à volta para o seu império. - Sim, temos alguns bons clientes.

       - São todos da terra?

       - Sim, todos eles. Nesta época do ano não aparecem muitos viajantes, por causa da neve. O comércio recomeça mais tarde, depois do princípio da Prirmvera.

       - Compreendo.

       Simon inclinou-se para a frente, pousou a caneca e apoiou os cotovelos na mesa, enquanto Baldwin se recostava e olhava para o homem que lhes fazia companhia. O almoxarife fitou a caneca de vinho quente, pensativo, e disse:

       - Acabamos de fazer uma visita à família de La Forte. Sabes alguma coisa a seu respeito?

       O estalajadeiro tomou um grande gole de vinho e olhou de um para o outro.

       - Nem por isso...

       - Nunca ouviste falar nos seus negócios?

       - São mercadores - retorquiu o estalajadeiro encolhendo os ombros. - Importam vinho... Bom...

       - O quê?

       - Oh, ia dizer que costumavam importar vinho... mas creio que sofreram mais prejuízos do que a maioria ao longo dos últimos anos. Costumava comprar-lhes o meu vinho... - Fez um gesto vago com a mão, na direção da outra extremidade da sala, onde guardava os barris. - Depois, quando começaram a perder os navios, tive de ir a outro lado. Agora compro-o em...

       - Nesse caso, conheces o pai do rapaz?

       - O velho Walter? Claro que sim. - Soltou uma risadinha. - Ainda aqui vem de vez em quando, mas com pouca regularidade.

       - Como é ele?

       - Como é ele? Que quer dizer?

       Simon não teve tempo para responder. Baldwin inclinou-se para a frente com um ar de conspirador, fez sinal ao estalajadeiro para se aproximar e espreitou em volta como se quisesse ter a certeza de que ninguém os podia ouvir.

       - Sabes, meu amigo... - começou num tom baixo - o Walter sugeriu, de certo modo, que talvez eu pudesse investir em algumas das suas idéias ...

       - Ah! sim? - Os olhos do estalajadeiro tornaram-se grandes como luas, encantados com aquela confidência.

       - Sim. - Baldwin espreitou por cima do ombro, voltou a fazer-lhe sinal para se aproximar e chegou-se mais para a frente sobre os cotovelos. - No entanto, tens de compreender que esteja um pouco desconfiado, não é? Afinal de contas, mal conheço o homem. Que me podes dizer a seu respeito?

       - Ah, bom... - O estalajadeiro recostou-se, convencido pelo olhar firme do cavaleiro.      Simon, não conseguiu evitar um pequeno sorriso ao reparar nas semelhanças entre o estalajadeiro e uma ave a ajeitar as penas e a peraltar-se. De súbito compreendeu que aquele homem passava toda a sua vida a ter de ouvir os outros e que raramente lhe pediam para expressar as suas próprias opiniões ou sentimentos. Agora, estava a gostar da experiência.

       - Na verdade, creio que é um homem de negócios de confiança. É mercador há muitos anos, conhece os costumes dos mares e também de Bordéus, na Gasconha. Sim, se quer alguém que saiba do negócio... ele é bom. Aprendeu a comerciar quando era ainda um rapaz e andou embaraçado, mas em breve conseguiu o dinheiro suficiente para começar a alugar os seus próprios navios.

       Baldwin franziu a testa e perguntou:

       - Deve ter feito uma fortuna para poder alugar navios... Onde foi que uma pessoa que começou como tripulante foi buscar tanto dinheiro?

       - Bom, senhor, ouvi dizer... - Os olhos do homem saltitaram, nervoso, entre Simon e o cavaleiro, e abaixou ainda mais o tom de voz. - Ouvi dizer que ele esteve em Acre. Creio que ajudou a evacuar pessoas da cidade quando os Sarracenos a ocuparam e que pôde pedir o dinheiro que quis por esse serviço.

       No escuro, Simon não distinguia as expressões do cavaleiro com nitidez, mas ficou com a certeza de ter captado uma sugestão de ira. Recordava-se das histórias do cavaleiro a respeito da queda de Acre e do modo como os marinheiros de todas as nações haviam aparecido como abutres a lançarem-se sobre um cadáver, exigindo ouro e jóias para transportarem as pessoas para a segurança. Famílias que viviam há séculos na Terra Santa haviam ficado arruinadas em poucos dias, enquanto alguns marinheiros haviam ganho fortunas fabulosas em poucas horas.

       - Creio que foi depois disso que conseguiu o dinheiro suficiente para alugar os seus próprios navios e para construir aquela casa. Porém, recentemente parece que sofreu muito às mãos dos piratas franceses. Creio que perdeu vários navios e as respectivas cargas. Talvez seja por isso que quer um novo sócio ...

       - Sim, porque ele já tem negócios com... hum... disse-nos o nome do sócio? Como era que se chamava? - O cavaleiro deu um estalo com os dedos como se estivesse a tentar recordar-se e se sentisse frustrado.

       - O Allan Trevellyn que vive para os lados de Crediton. Sim, ambos sofreram grandes prejuízos por causa desses problemas. Sabem, lá se ouviram por aí boatos a respeito do Trevellyn ser de algum modo responsável por essas falências. Ouvi dizer que devia dinheiro aos franceses e que os informou sobre as datas de partida dos navios para poder pagar as dívidas tanto com a parte da carga pertencente ao sócio como com a sua. - O estalajadeiro recostou-se. Acenava com a cabeça como uma pessoa convicta daquilo que sabe.

       - Onde foi que ouviste uma coisa dessas?

       O estalajadeiro piscou o olho confidencialmente e respondeu:

       - Da boca do filho do Walter de La Forte, senhor, o Stephen.

       - Nesse caso, achas que devemos ter cuidado, não é?

       - Oh! Sim, senhor, muito cuidado. - Desviou os olhos para o punho da espada a cintura do cavaleiro. - Sabe, diz-se por aí que ele foi um grande guerreiro na sua juventude, que esteve em muitas batalhas marítimas e não apenas em Acre, e que foi assim que ganhou todas aquelas cicatrizes. Sim, já ouvi dizer que pode ser muito rnau como inimigo...

       - Obrigado, meu amigo, fico-te muito grato. Deste-me muito em que pensar.

       - Senhor, foi uma honra poder ajudá-lo - respondeu o estalajadeiro, que reconheceu o fato de o estarem a mandar embora e se levantou lentamente para limpar a mesa. Simon virou-se para o cavaleiro quando o homem terminou e os deixou.

       - Se participou em tantas batalhas, então há uma razão de ser para todas aquelas cicatrizes...

       - Sim - murmurou Baldwin pensativo. - No entanto, parece haver muito pouca coisa a ligá-lo à Agatha Kyteler, exceto o fato de ambos terem estado em Acre quando a cidade caiu, mas isso foi há mais de 20 anos.

       - O que, por si só, já é uma grande coincidência.

       - Ora, nesse caso também podias desconfiar de mim, Simon retorquiu o cavaleiro num tom seco. Não, não vejo ligação. Mas... quem terá matado a velha?

       - Não sei. Se o Stephen de La Forte está a dizer a verdade, então o criminoso não foi o Harold Greendiff.

       - Pois não. É o que demonstra seu testemunho, não é verdade?

       Simon confirmou com um aceno.

       - Sim, e vamos ter de o libertar... embora eu gostasse de saber por que tentou fugir.

       - Porém, se se recusa a dizer-nos, não o podemos manter na prisão... - declarou Baldwin.     - Vou tentar falar novamente com ele amanhã. Talvez o convença a explicar-nos por que fugiu.

       Simon levantou os olhos rapidamente ao ouvir o tom de tristeza na voz do amigo e compreendeu qual o significado do mesmo. Baldwin tinha a certeza de que o Greendiff estava inocente e isso deixava-o apenas com um suspeito: o filho do amigo, o Bourc de Beaumonte.

       O dia seguinte nasceu acinzentado e feio, com um céu muito escuro e um vento cortante a soprar continuamente do sul. Simon e Baldwin olharam para o exterior, pela porta, e trocaram um olhar.

       - Precisamos de falar com o Greendiff - recordou o cavaleiro, para logo rebentar em gargalhadas ante a expressão de infelicidade que aquelas palavras haviam provocado no rosto de Simon. - Ora. Vamos lá. Quanto mais depressa despacharmos o assunto melhor será.

       - Simon!

       Viraram-se e viram Margaret à entrada, com um rosto ansioso.

       - Levem o Eduardo ou o Hugh convosco. Podem necessitar de enviar algum recado se o tempo piorar ou se ficarem detidos em qualquer lado durante a noite.

       O almoxarife olhou para o céu e assumiu:

       - Está bem, diz ao Hugh para se preparar.

       Margaret fez mais do que enviar-lhes o servo e lançou-se ao trabalho enquanto os dois homens avançavam casualmente para os estábulos. Quando Hugh apareceu, com a habitual carantonha sombria, vinha a debater-se sob o peso de três fardos cuidadosamente protegidos. Simon pegou num deles e olhou para o servo com uma expressão interrogativa.

       - A senhora disse que podem vir a precisar. Há aí pão e carne, e também odres com vinho.

       Simon atou o saco à sela e murmurou num tom interrogativo:

       - Não terá percebido que queremos estar de volta a casa antes da noite? Que julga que vamos fazer durante o dia? Cavalgar até aos pântanos da Escócia?

       Baldwin sorriu, mas manteve-se em silêncio. Pensava, de si para si, como seria bom ter uma esposa como Margaret. Acabou por soltar um suspiro algo ciumento. Entretanto, Simon olhava para servo com exaspero.

       - Onde está a tua capa e a jaqueta?

       - O quê? Também vou? - O rosto do homem revelou surpresa.

       - Claro! Vamos, terás de ir tal como estás. Não podemos ficar à espera que mudes de roupa!

       - Mas... vou gelar!

       - Não protestes. Ficarás bem se cavalgarmos depressa. Monta! Queremos chegar à cidade o mais cedo possível!

       Baldwin sorriu e viu Simon a levantar as mãos numa exibição de desespero, para logo as deixar cair de frustração. Por fim, quando Hugh ficou pronto, deixaram as cavalariças e os estábulos, e deram a volta até à frente da casa onde Margaret os esperava para os acenos de despedida. O cão castanho e preto também lá estava, pronto para os acompanhar, mas Margaret puxou-o para o interior.

       - Se vocês vão viajar por todo o condado, então acho melhor mantê-lo aqui! - declarou.

       Despediram-se e Baldwin conduziu-os pela estreita alameda que dava acesso à estrada, onde puseram os cavalos a andar num passo rápido.

       Em breve se tornou claro que o servo de Simon não tinha grande desejo de estar com eles. De algum modo, nunca se habituara à idéia de uma criatura tão alta e musculosa como um cavalo estivesse disposta a sujeitar-se à sua vontade, e daí que nunca o tentasse fazer. A conseqüência inevitável do fato de o levarem com ele era serem obrigados a abrandar para um passo mais preguiçoso. Embora Baldwin, de vez em quando, o incitasse a andar mais depressa, em breve acabava por descobrir que tanto ele como o almoxarife se encontravam muito à frente, enquanto Hugh se movia a sua velocidade habitual, um pouco mais rápida do que um caracol... mas não muito mais.

       No fim, precisaram de um pouco mais de duas horas para chegarem a Crediton. O pequeno mercado da cidade estava muito movimentado, com as carroças a arrastarem-se sobre a lama das estradas, os cavaleiros a trotarem alegremente... e os pedestres a gemerem e a protestarem por causa da lama e porcaria que lhes caía em cima à passagem de cada veículo ou animal. Quando se aproximaram da igreja depararam com uma pequena manada de vacas a impedir o trânsito e tiveram de esperar que os enormes animais passassem. Chegaram à igreja e dirigiram-se ao pátio da casa existente por trás dela, onde o sacerdote vivia.

       - Simon, meu velho amigo, é bom ver-te outra vez!

       O homem idoso e magro apertou-lhe a mão com entusiasmo e a seguir recuou para o examinar com um ar crítico.

       - Estás a trabalhar demasiado - acabou por afirmar - e creio que não comes o suficiente. Porém, tirando isso, sinto-me satisfeito por te ver com tão bom aspecto, graças a Deus!

       - Peter, tivemos uma longa jornada até aqui, meu amigo. Tens um pouco de vinho?

       O sacerdote riu-se, conduziu-o para o interior e mandou-os sentarem-se. Hugh, que continuava com uma expressão irritada, foi instalar-se o mais perto possível do fogo da lareira. Quando já todos tinham uma bebida na mão, o sacerdote inclinou-se para a frente e olhou para o cavaleiro com um rosto muito sério.

       - Sir Baldwin, tem qualquer outro suspeito para além desta ser aquela criatura chamada Greendiff?

       - Receio que não, Peter. Por que perguntas?

       Peter recostou-se na cadeira e sorveu o vinho enquanto olhava para lá de Hugh, para as chamas.

       - É difícil... Por vezes, um homem admite um crime brutal no confessionário e o confessor é obrigado a manter o segredo. Outras vezes, acontece que um homem é enviado para o executor quando o seu confessor tem a certeza da sua inocência. - Levantou os olhos para fitar o cavaleiro. - Estou perfeitamente seguro de que este rapaz está inocente do assassínio daquela mulher.

       - Mas, Peter- interveio Simon - isso que significa que negou o crime durante a confissão?

       - Não! Claro que não! - Peter ficou chocado. - Se o tivesse feito nem sequer teria falado no assunto. Ainda nem sequer se confessou.

       - Tens certeza?- perguntou Baldwin, com os olhos a brilharem-lhe enquanto se inclinava para a frente.

       - Sim. Estou certo de que o rapaz está inocente deste crime. Não seria capaz de o cometer.

       - Também pensamos o mesmo... - afirmou Simon.

       - Porquê? Têm outro suspeito? Pensei que tinhas dito...

       - Não, dissemos-te a verdade. Não fazemos idéia sobre quem possa ter sido. E tu, tens alguma idéia?

       - Eu? - A expressão de espanto que se lhe espalhou pelo rosto foi tão cômica que Baldwin e Simon começaram a rir, o que levou o sacerdote a olhá-los com reprovação. - Como querem que saiba? Eu...

       - Desculpa, Peter - disse Simon. Tens razão, não estávamos à espera que tivesses alguma idéia a esse respeito.

       Baldwin pôs-se de pé, bocejou e espreguiçou-se.

       - Como todos concordamos que não foi o Greendiff, então tenho de ir a cadeia! - Suspirou, olhou de relance para o sacerdote e explicou-lhe o testemunho prestado por Stephen de La Forte. - Por isso, como vês - concluiu -Já nos preparávamos para o libertar. Não é justo manter o rapaz aprisionado sem motivo. Não há razões para que continue na cadeia depois do Stephen de La Forte ter dito que esteve com ele toda a tarde e à noite.

       - Não, Simon, fica e espera por mim . Não me demoro.

       - Trá-lo para aqui. -Não o vou deixar partir sem lhe dar de comer... pelo menos com este tempo - pediu Peter.

       A cadeia da cidade ficava à entrada do mercado, ao lado da casa do pedágio, e era uma pequena construção quadrada usada principalmente para os mercadores que roubavam nas imediações do cereal ou do pão, e ocasionalmente para prender os vagabundos encontrados na cidade. O cavaleiro caminhou ao longo da rua tentando evitar a lama, e precisou de apenas alguns minutos para cobrir a curta distância. Chegou a entrada e torceu o nariz perante o cheiro do mercado, que ainda não havia sido limpo e que conseqüentemente se encontrava banhado num fedor de excrementos humanos e animais. Olhou para a arca, estremeceu e bateu com os nós dos dedos na pesada porta.

       Aparentemente, Tanner estivera a dormir porque apareceu com os cabelos todos despenteados e com os olhos avermelhados. Pareceu despertar rapidamente logo que viu o cavaleiro e abriu a porta de par em par.

       - Bom dia, senhor.

       Baldwin penetrou na escuridão da cadeia e fungou com desgosto. Os homens que em geral eram ali mantidos tingiam a própria atmosfera com o cheiro a medo, um odor penetrante e metálico. Os presos sabiam o que lhes iria acontecer depois de serem julgados no tribunal. Os juízes não dispunham de uma grande variedade de sentenças, que eram em geral rapidamente seguidas pela aplicação de uma pena que envolvia quase sempre um encontro com o executor. Havia sempre hons motivos para recear os resultados de um processo legal.

       Baldwin encolheu os ombros. Afinal de contas, a finalidade da justiça era precisamente essa.

       - Então, Tanner, como vai o nosso prisioneiro?

       - O Greendiff, senhor? Parece suficientemente bem, mas preferia que dissesse qualquer coisa...

       - Porquê? Tem-se mantido em silêncio?

       - Sim, senhor, desde o momento em que o trouxemos para aqui.

       - Vamos buscá-lo - pediu Baldwin com um suspiro.

       A cela era uma divisão quadrada e desagradável escavada por baixo do pavimento da sala principal. Para lá chegar, Tanner teve de conduzir o cavaleiro para o outro lado de uma cortina, nos fundos. Ali no chão ele madeira, via-se um alçapão com um trinco simples, travado por uma espessa cavilha de madeira. O cavaleiro levantou a tampa do alçapão e espreitou para o interior úmido e escuro.

       - Greendiff - chamou, duvidoso.

       Houve uma súbita agitação no canto mais distante, que foi seguida por um pequeno chapinhar quando o rapaz pisou uma poça de água antes do seu rosto aparecer repentinamente por baixo do alçapão. Baldwin não conseguiu impedir-se de abanar a cabeça e suspirar. O rapaz que tão recentemente fora um jovem forte, alto e orgulhoso, parecia agora uma pálida sombra de si mesmo. Tinha as feições tensas, a pele amarelada sob a meia-luz, olhos com um brilho muito pouco saudável e faces encovadas. A sua aparência geral era a de um homem à beira da morte, ou de alguém que tivesse caído vítima de uma doença perniciosa.

       - Tanner, tira-o dali.

       O regedor foi buscar uma escada, regressou ao buraco aberto no chão e fê-la descer.

       - Vamos, rapaz, o cavaleiro quer ver-te cá em cima - disse, estendendo a mão para ajudar Greendiff a subir.

       Baldwin regressou à sala da frente, parou com os braços caídos ao longo do corpo e olhou para o rapaz enquanto abanava a cabeça. Greendiff não desviou os olhos. Havia ali medo. O cavaleiro via-o no fundo dos olhos do jovem que, mesmo assim, ainda mantinha uma pose de desafio.

       - Há mais alguma coisa que nos queiras dizer a respeito da morte daquele velha mulher?

       - Está a falar da bruxa?

       O cavaleiro espreitou-o. A voz do jovem parecia oscilar entre várias emoções. Era como se a ira e a impaciência lutassem pelo domínio, mas Baldwin tinha a certeza de que também via desprezo e auto-aversão.

       - Pensas que se tratava de uma bruxa?

       - Eu? - A pergunta pareceu surpreendê-lo.

       - Sim. Que pensavas dela?

       - Não pensava nada dela! Sei o que era. Era maligna e mereceu morrer!

       - Porquê?

       O rapaz aguentou o olhar do cavaleiro com firmeza, endireitou os ombros com resolução e ficou calado. Passados instantes, Baldwin soltou um novo suspiro.

       - Muito bem. Não queres responder e não te posso obrigar. Greendiff olhou para o imperturbável Tanner com o que parecia uma expressão de troça. A seguir virou-se e estava prestes a regressar à cela quando o cavaleiro o deteve.

       - Não. O teu amigo já nos contou a verdade.

       - O quê? - O jovem Greendiff rodopiou e encarou o cavaleiro. Estranhamente, Baldwin pensou que o rapaz tinha ficado muito assustado. - Quem?

       - Sim, já sabemos que estiveste com o Stephen de La Forte durante toda a tarde. Ele contou-nos...

       Posteriormente, o que mais o preocupou foi o fugidio relance de absoluta surpresa quando o jovem perguntara:

       - O Stephen?

 

       Deixaram o jovem na companhia de Peter, a consumir uma grande tigela de guisado de carne. O sacerdote mostrava-se muito satisfeito e fornecia-lhe mais pão e cerveja à medida que o seu convidado ia comendo.

       Simon cavalgou tranqüilamente com o queixo pousado no peito. Os três homens seguiram em silêncio, como se todos eles meditassem a respeito do assassínio. Por fim, o almoxarife declarou:

       - Baldwin, precisamos voltar à Wefford para perguntarmos às pessoas o que viram.

       - Sim, tens razão. Passamos dois dias a pensar que o Greendiff tinha de estar envolvido. Agora, temos de lá voltar para tentarmos descobrir quem foi na verdade o responsável - respondeu Baldwin, com um suspiro de resigmação.

       - Acalma-te, Baldwin...

       O cavaleiro lançou-lhe um olhar intrigado.

       - Hum?

       - O fato de não ter sido o Greendiff não quer dizer que o culpado seja o filho do teu amigo.

       - Não... mas é caso para desconfiar, não é? Esteve aqui e tentou informar-se a respeito da mulher precisamente no dia anterior...

       - Encara as coisas deste modo: ninguém o viu, pois não? Tratemos de saber se lá terá estado outra pessoa qualquer.

       - Pois sim... - retorquiu Baldwin, não muito convencido.

       - Então, por onde começamos?

       O cavaleiro olhou em frente, na direção da povoação, como se a própria paisagem lhe pudesse fornecer uma pista.

       - Suponho que pela Jennie Miller. O Oakway disse que ela esteve lá com a Sarah Cottey. Vamos visitá-la. Pode saber qualquer coisa que nos possa ajudar.

       O moinho era um edifício grande e resistente para leste de Wefford e descobriram o caminho graças ao simples método de cavalgarem através dos bosques até encontrarem o ribeiro, que seguiram para norte. Erguia-se num pequeno vale abrigado e Simon, ao olhá-lo, pensou que parecia uma propriedade segura e confortável, com paredes espessas e com uma agradável pluma de fumo a erguer-se da alta chaminé. Na sua extremidade leste corria o ribeiro onde ia buscar a força, ribeiro que agora se mostrava tranqüilo e preguiçoso mas que podia ser violento e rápido quando a terra se encontrava menos gelada. Tinham de atravessar a calha para chegarem aos edifícios e servirem-se da pequena ponte de madeira ali instalada para ajudar os agricultores a transportarem os seus cereais.

       Baldwin acenou com aprovação ao olhar para o moinho e para o rio. Os moinhos eram zelosamente guardados pelas paróquias que os possuíam e o cavaleiro tinha muito orgulho naquele, embora tivesse estado ali apenas uma vez e por pouco tempo. Fora construído pelo seu irmão apenas cinco anos antes e ficava satisfeito por ver que as paredes estavam bem tratadas e que a pedra calcária brilhava sob a luz.

       Todavia, de súbito ouviram um grito agudo e viraram-se nas selas para localizarem a sua proveniência. Parecera-lhes tratar-se de uma jovem voz feminina, e mais nada, mas a seguir o grito voltou. Ao princípio não pode ouvir-se, esganiçado e urgente. Provinha dos bosques à esquerda dos três homens, do outro lado da água. Baldwin levou imediatamente a mão a espada e desembainhou-a, examinando as árvores enquanto Simon procurava a sua própria arma e esporeava o cavalo. Trocaram um olhar entre eles quando já se preparavam para saltar por cima do ribeiro.

       - Não lhes liguem, fazem sempre muito barulho!

       Baldwin virou-se e viu a mulher gorducha e sorridente, no princípio da casa dos 20, que se encontrava parada junto a porta. O cavaleiro fez um gesto na direção dos gritos, sem compreender.

       - Mas... Quem... ?

       O sorriso da jovem alargou-se. Levou um indicador e um polegar à boca e soltou um penetrante assobio. Os ruídos detiveram-se imediatamente.

Foram substituídos por risadinhas e gargalhadas que se aproximaram rapidamente. Poucos minutos depois surgiram quatro crianças, dois rapazes e duas raparigas, a mais velha das quais teria talvez dez ou onze anos.

       As sobrancelhas do cavaleiro ergueram-se num divertimento sardônico enquanto voltava a embainhar a espada, Simon franziu a testa e observou a mais velha das duas raparigas a caminhar calmamente para a mãe. Era a jovem que vira no exterior da estalagem, a que assistira à chegada do corpo da bruxa quando este fora transportado desde o campo onde havia sido encontrado. O almoxarife levantou os olhos para a mãe no momento em que Baldwin perguntou:

       - És a Jennie Miller?

       A mulher acenou uma confirmação com o sorriso a alargar-se cada vez mais enquanto as crianças se amontoavam à sua volta com os olhos postos nos estranhos.

       - Sim. Os gritos eram das crianças a brincar. Peço desculpa se vos incomodaram...

       Simon pigarreou, olhou para o amigo e guardou a adaga.

       - Não há problema. - Nós... bom, pensamos que havia alguém a ser atacado, mais nada.

       O cavaleiro saltou do cavalo e fitou primeiro Simon e depois Hugh, que continuava sentado na sela com um rosto que parecia trovejar. Virou-se novamente para a mulher, já a rir.

       - Não, não há nenhum problema... para além do susto! - Avançou alguns passos. - Sou Baldwin, de Furnshill. Podemos falar contigo?

       Simon viu-a acenar, desceu da montada, atirou as rédeas a Hugh e disse-lhe para esperar com os cavalos. A jovem conduziu-os para o interior e mandou as crianças embora, para irem brincar.

       A casa estava escassamente mobilada mas era agradável. Tinha uma grande mesa, bancos, cadeiras numa extremidade, enquanto na outra se via uma chaminé com uma lareira repleta de lenha onde o fogo rugia. Jennie Miller fez um gesto para as chamas e disse:

       - O meu marido não está aqui neste momento, foi cortar lenha. Podem esperar junto do fogo se quiserem falar com... - A voz morreu-lhe na garganta com um certo tom interrogativo.

Baldwin sentou-se junto do fogo e sorriu:

       - Não, é contigo que queremos falar.

       - Comigo? - Os olhos da mulher tornaram-se enormes, não de medo mas de divertimento. Aquela não era uma camponesa obtusa, pensou o cavaleiro, mas sim uma mulher de compreensão rápida e inteligente. Além disso, também era óbvio que não tinha medo.

       - Trata-se da morte de Agatha Kyteler - interveio Simon enquanto arrastava uma cadeira para a lareira, após o que se sentou e ficou a contemplá-la. - Conhecia-la?

       - Toda a gente conhecia a Agatha! - retorquiu a mulher, rindo-se e sentando-se. - Estava sempre pronta a dar assistência a todos que precisavam do seu tipo de ajuda.

       - Que espécie de ajuda?

       - Fosse o que fosse... - respondeu, encolhendo os ombros. Um unguento para uma queimadura ou ferimento, uma poção para limpar as tripas, um remédio para fazer passar as dores... Era muito esperta e ajudava quase todos os que precisavam.

       O almoxarife espreitou-a.

       - Sabes o que as pessoas diziam a seu respeito. Que era uma...

       - Uma bruxa? - A jovem soltou uma gargalhada. - Oh. sim, havia quem dissesse isso. Porquê? Acredita nessas coisas?

       Simon ouviu uma leve risadinha a seu lado. Afundou-se na cadeira e deixou que Baldwin continuasse a fazer as perguntas, embora se sentisse levemente ofendido com o divertimento do amigo. Afinal de contas, não era de surpreender que acreditasse em bruxas. Não era crédulo... mas toda agente sabia que o Diabo andava por todo o lado, tentando sobrepor-se às forças do bem para as subverter. Encolheu os ombros e observou a mulher enquanto Baldwin a interrogava.

       - Não estás convencida de que fosse uma bruxa?

       - Não! - retorquiu, com desprezo. - isso era apenas um boato. O velho Grisel queria atirar as culpas da sua má sorte para cima de alguém. A má sorte acontece. Quando perdemos um saco de milho por causa do gorgulho, ninguém diz que nos lançaram uma praga. Acontece. Quando alguma coisa nos rouba as galinhas, não há motivos para assumir que foi por culpa de uma bruxa. Muito provavelmente, foi uma raposa.

       - No entanto, disseste que ela era boa a preparar ervas e remédios. Terá sido por isso que as pessoas pensaram que a culpa não foi da raposa, mas sim dela?

       - Creio que sim. Era muito habilidosa e sabia tudo a respeito das plantas. Contudo, tal não significa que fosse uma bruxa.... e toda a gente ficava feliz por tirar proveito dos seus conhecimentos sempre que precisavam.

       Baldwin acenou pensativo e Simon teve a certeza de que o amigo estava a pensar no Samuel Cottey, o homem que denunciara a velha como sendo uma bruxa, mas que continuava a usar o seu unguento quando o braço lhe doía.

       - Falamos com a Grisel Oakway e ela disse-nos que te viu na casa da Kyteler no dia em que a mataram. Foi na terça-feira. Que foste lá fazer?

       - Na terça-feira? Sim, fui lá. Queria falar com ela por causa das minhas dores. Da última vez que estive grávida ajudou-me a aliviar os enjôos e as cãibras. Queria pedir-lhe mais ervas das que já me tinha dado anteriormente. - Viu o cavaleiro a erguer as sobrancelhas e soltou uma risadinha. - Sim, estou outra vez grávida.

       - Oh... Muito bem... - Simon ficou divertido ao notar que chegara a vez do cavaleiro se sentir embaraçado. - Compreendo. Falaste com ela?

       - Oh, sim! Sim, falei com ela no início da tarde.

       - Sabes a que horas?

       - Não muito bem. Talvez duas horas depois do meio-dia...

       - Como estava ela?

       - Estava bem. Penso que talvez um pouco cansada. Gastava muito do seu tempo a colher as ervas e creio que isso já lhe custava...

       Simon pigarreou para limpar a garganta e inclinou-se para a frente.

       - Pareces ser uma das poucas pessoas que a conheciam, tal como a Sarah Cottey... mas ninguém ficou triste por a terem assassinado...

       - Por que haveria de ficar triste? A pobre mulher nunca tentou fazer amigos por aqui...

       Surgiu-lhe na mente uma imagem da casa da Kyteler pintada de fresco e com um telhado novo.

       - A casa está bem conservada. Com certeza era demasiado velha para andar a pintar e a pôr o colmo... quem foi que o fez por ela?

       Jennie sorriu.

       - Não era estúpida! - retorquiu, com uma voz que deixava implícito que não tinha a mesma certeza a respeito de Simon. – Sempre que alguém lhe ajuda, tinha de lhe pagar. Não estava ansiosa por receber dinheiro, porque não tinha grande necessidade dele. Pedia coisas que lhe fossem úteis. Se alguém precisava de ajuda... então também tinha de a ajudar.

       - Quanto tempo estiveste com ela no dia em que morreu? - perguntou Baldwin.

       - Quanto tempo? Talvez uma hora... ou um pouco mais. Não sei. Talvez a Sarah o possa dizer, esteve lá comigo.

       - Sabes por que razão lá foi?

       - Creio que lhe devem perguntar, não acham?

       Baldwin estudou-a com a testa ligeiramente franzida mas acabou por acenar lentamente.

       - Sim, talvez devêssemos perguntar-lhe - admitiu. - A Grisel Oakway diz que tu e a Sarah ainda lá estavam quando ela chegou.

       - É verdade. Esperei até a Sarah terminar o que tinha a fazer. É uma velha amiga e queria conversar com ela. Começamos a andar no trilho na direção da povoação...

       - Quanto tempo esteve ela com a Agatha? A que horas saíram mais ou menos?

       - Oh... esteve lá talvez meia hora. De qualquer modo, a Grisel pareceu correr e foi direto à casa. Estava como louca. Tinham-lhe levado, mais uma das suas galinhas.

       - Estava como louca? Suficientemente louca para...?

       - Se me vai perguntar se estava suficientemente zangada para matar não lhe digo que sim, nem que não - replicou Jennie Miller com firmeza. - Como quer que saiba? Estava furiosa e quase não conseguia falar sem soltar gafanhotos. Quando chegou a casa ouvimos a sua voz com clareza, berrando para a pobre Agatha enquanto nos afastávamos.

       - Não foram ajudá-la?

       - Ajudar quem? No seu caso, iria tentar separar duas velhas fortes como elas? Nem sequer um cavaleiro teria coragem para o fazer!

       - Pois é... - comentou Baldwin com um súbito sorriso. - És capaz de ter razão.

       - Quando se foram embora, viram mais alguém no caminho para casa?- interveio Simon.

       - Mais alguém? - Fez uma pausa e continuou num tom mais baixo - Pensei que sim... mas a Sarah não viu ninguém ...

       Os dois homens inclinaram-se para a frente, em silêncio, à espera.

       - Era capaz de jurar que, já na estrada, vi uma mulher que se escondeu nas árvores quando nos aproximamos.

       - Quem? - Simon pressentiu que estavam mais perto dos pormenores, mais perto da compreensão do que se passara.

       - Não sei... - respondeu percebendo o seu desespero e olhando-o com um sorriso de compreensão. - Fazia escuro debaixo das árvores. Creio que era um mulher, mas as suas roupas eram escuras, tanto a capa como a túnica.

       - E a Sarah não a viu? - insistiu Simon.

       - Perguntem-lhe...mas não me parece que a tenha visto. Se assim fosse teria dito qualquer coisa. Eu própria não mencionei esse fato por não ter a certeza.

       - Sabes de alguém que a odiasse o suficiente para a querer matar? - perguntou Baldwin.

       A jovem contorceu o rosto num trejeito cínico.

       - Não é coisa de que as pessoas falem na rua, não acham? Não, nunca ouvi ninguém a dizer que a queria matar.

       - Grisel Oakway, por exemplo?

       - Nem sequer a Grisel.

       O cavaleiro suspirou e olhou para as chamas por instantes. A seguir levantou os olhos e descobriu-lhe uma expressão pensativa.

       - Há mais qualquer coisa... - comentou.

       - Não - afirmou a Miller sem deixar de parecer perturbada.

       - Este é um assunto importante, Jennie - persistiu o cavaleiro ao vê-la indecisa. - Quem quer que o fez poderá voltar a matar. É como um lobo enlouquecido. Depois de saborear o sangue de um homem temos de o apanhar porque deixou de ter medo dos seres humanos. Mata uma vez... e fica a saber que, afinal, não é assim tão difícil. Quem quer que fosse que tenha assassinado a Agatha Kyteler pode voltar a fazê-lo porque sabe que o pode fazer.

       Foi então, quando o seu amigo se recostou com a expressão de um pai compreensivo a tentar que a filha lhe obedecesse para o seu próprio bem, que Simon viu a expressão da jovem modificar-se. Olhou para Baldwin com uma curiosa resolução, como se tratasse de uma decisão tão difícil como aceitar um amante. Contudo, já fizera uma escolha e não ia voltar para trás.

       - Muito bem... mas não acredito que fosse ele.

       - Quem?

       - O Harold Greendiff. Vi-o quando chegamos ao limite das árvores, onde o trilho desemboca na estrada.

       - Com o Stephen de La Forte?

       - Não, que eu saiba. Não vi o Stephen, mas apenas o Harold, e pensei que estava sozinho.

       - A fazer o quê?

       - Nada. Estava de pé a segurar um cavalo.

       - O seu próprio cavalo?

       A jovem soltou uma curta gargalhada.

       - O Harold tem um cavalo? Claro que não, é coisa que não lhe faz falta! De qualquer modo, não era o cavalo próprio para um homem. Era uma bonita égua castanha, pequena, com uma marca branca na testa e com uma pinta branca na pata dianteira esquerda. Encontrava-se de pé, a segurá-la ao lado da estrada, quase no interior das árvores. Pareceu que tentava não ser visto...

       - Se era o Greendiff, a Sarah Cottey tê-lo-á visto?

       Sorriu com tristeza e abanou a cabeça.

       - Não, a Sarah teria feito um comentário. Não o deve ter visto.

       - Porquê?

       - A Sarah e o Harold cresceram juntos. Eram tão unidos como irmão e irmã. Creio que está à espera...

       Baldwin incitou-a com gentileza.

       - À espera de quê?

       A jovem suspirou e olhou para as chamas.

       - Que ele a peça em casamento. Sempre o amou... mas o Harold não a ama.

       - Está apaixonado por quem?

       - Não sei... mas encontrem a dona da pequena égua castanha e creio que terão a resposta.

       Uma vez no exterior encontraram Hugh com um ar pesaroso, ainda a segurar os três cavalos pelas rédeas. Preparava-se para fazer um comentário desagradável mas percebeu as expressões dos dois homens e decidiu rapidamente que era melhor ficar calado. A carranca no rosto do amo disse-lhe que não era boa altura para fazer referências ao tempo. Entregou-lhes as rédeas, observou-os com um ar sombrio enquanto montava, trepou para o seu próprio cavalo, a tremeliçar ligeiramente, e trotou atrás deles.

       Não houve conversas durante o caminho. O amo e o cavaleiro cavalgaram mergulhados em profundos pensamentos e Hugh descobriu-se a perguntar a si mesmo o que teria sido dito no interior do moinho. Ambos pareciam morosos e fitavam-se a olhar para o caminho enquanto refaziam o percurso de volta à estrada. Acabou por encolher os ombros e deixou de pensar no assunto. Naquele momento, as suas prioridades eram uma refeição quente e uma bebida... mas principalmente esta última, uma boa caneca de vinho ou de cerveja bem quentes. Fazia muito frio e o vento assobiava e uivava como almas perdidas por entre os ramos das árvores.

       Hugh foi atingido por uma nova rajada de vento cortante que lhe cortou as carnes até ao osso, virou a cabeça para um lado e gemeu de dor.

       - Estás bem, Hugh?

       Levantou os olhos e viu Simon torcido na sela para olhar para trás. Percebeu a expressão interrogativa nos olhos do amo e tentou responder por entre os dentes que chocalhavam uns nos outros mas tudo o que conseguiu foi um esgar, pelo que se sentiu muito aliviado quando Simon declarou:

       - Baldwin, temos de parar para que o Hugh possa se aquecer. Creio que está mais gelado do que a água no açude do moinho.

       - Se achas que sim... - retorquiu Baldwin, com uma careta ácida. - No entanto, como o teu servo não gosta de cavalos e só se sente bem no calor da lareira, não compreendo por que não o mandas embora para te veres livre dele!

       - Ora, não é assim tão mau! - respondeu Simon, a rir-se. Hugh continuou em silêncio, mas com as orelhas bem abertas. - Além disso, ficou na rua durante todo o tempo em que permanecemos junto à lareira do moinho.

       Houve uma pausa de vários minutos, até ao momento em que Hugh ouviu Baldwin a murmurar:

       - Que pensas daquilo, Simon? A respeito do Greendiff? É suspeito, não é? Estava lá depois das duas mulheres se terem ido embora quando a bruxa ainda se encontrava viva...

       - Sim... - resmungou o cavaleiro. - Mas porquê? Que estava lá a fazer? E de quem era o cavalo? Qual o motivo para que o Greendiff quisesse matar a Agatha Kyteler?

       - Vamos prendê-lo outra vez?

       -Não me parece. Primeiro, vamos ver se descobrirmos mais qualquer coisa. Talvez lá estivesse apenas por pura coincidência. Não quero ter de prender o rapaz dia sim, dia não.

       - E quanto ao cavalo e à outra mulher? Talvez ela nos possa ajudar.

       - Talvez... mas quem? Será ela? Como vamos descobrir?

       Entraram em Wefford com os cascos dos cavalos a matraquearem e Hugh já se sentia como se se encontrasse congelado sobre a sela. As mãos pareciam ter ganho vontade própria e recusavam-se a obedecer-lhe quando as tentou abrir para largar as rédeas. Baldwin saltou do cavalo com leveza e ficou parado, impaciente, a olhá-lo com expressão irascível. Contudo, logo depois compreendeu, embora lentamente, que Hugh estava em dificuldades. Avançou e espreitou o servo com preocupação. Viu a expressão de infelicidade no rosto de Hugh, aproximou-se rapidamente, ajudou-o a descer do cavalo e a chegar até a porta da estalagem enquanto Simon entregava as montadas aos cavalariços.

       Entraram no salão e viram o estalajadeiro numa grande agitação, afastando homens da lareira para arranjar espaço para Baldwin e para o servo gelado. Simon verificou que o cavaleiro exibia uma expressão de preocupação perplexa, enquanto Hugh conservava o seu habitual rosto sombrio. Todavia, a dor no rosto do servo foi bem visível quando as chamas o começaram a aquecer e o calor lhe penetrou nas carnes como dardos aguçados de pura agonia. O almoxarife sentou-se perto do servo e observou-o:

       - Como te sentes?

       - Vou sobreviver, já estive pior - grunhiu Hugh.

       O estalajadeiro apareceu com os jarros de vinho aquecido, colocou-os ao lado das chamas para que não arrefecessem e acenou para Hugh e encheu-lhe uma caneca. Para Simon, o homem parecia um curandeiro a experimentar uma nova droga num paciente porque ficou a observar o servo com toda a atenção enquanto o Hugh bebia um gole. Só depois se inclinou para a frente a fim de voltar a encher a caneca, e acabou por se afastar para atender outro cliente.

       Baldwin pegou numa caneca e sentou-se com a cabeça baixa, a olhar para a lareira, bebericando de vez em quando como um mercador a provar um novo fornecimento de vinho. Simon lançou-lhe uma mirada e ficou surpreendido ao vê-lo rígido, a olhar para a disiância.

       - O que é?

       - Estava a pensar... - interrompeu-se quando o estalajadeiro reapareceu e parou junto de Hugh, observando-o com cuidado, como que para ver se o seu remédio dera resultado. - Ah! Estava a pensar em chamar-te! Diz-me, sabes se o Greendiff esteve doente recentemente?

       - O Harold? Não! - Os olhos do homem desviaram-se para Hugh era claro que estava a comparar o amo forte e saudável com o servo aparentemente frágil. - Que eu saiba, tem andado de boa saúde.

       - Oh... E o amigo? O Stephen de La Forte? Teve algum problema de saúde?

       O homem abanou a cabeça com uma expressão confusa.

       - Estás a tentar descobrir se o Greendiff ou o de La Forte podiam ter ido à Kyteler para tentar qualquer coisa? - perguntou Simon

       - Valia a pena tentar. - retorquiu Baldwin, encolhendo os ombros. - No entanto, não serviu de nada. O Greendiff esteve lá no dia em que a Kyteler morreu. Encontrava-se na estrada depois da Oakway ter ido embirrar com a velha. Se calhar, também lá esteve outra mulher depois da Oakway. Aparentemente, o Greendiff ficou muito aborrecido com a Kyteler naquela tarde, pelo que a pode ter visto, embora não saibamos porquê. Talvez tivesse uma oportunidade para falar com ela...

       - Todavia, o de La Forte disse que...

       - Que estiveram juntos toda a tarde? É verdade.

       - É natural que o fizesse, não acham? - inquiriu Hugh carrancudo.

       - Que queres dizer? - perguntou Simon, fitando-o.

       - São amigos, não são? Talvez esse tal de La Forte saiba o que o Greendiff fez e o queira proteger. Por isso, disse que o amigo esteve com ele toda a tarde... quando não esteve.

       Baldwin grunhiu um assentimento.

       - Faz sentido...

       - Olhem que não sei... - afirmou Simon pensativo.

       - As únicas outras pessoas com um motivo para matarem a Kyteler eram os Oakways.-protestou Hugh teimosamente.

       - Mas se a Kyteler ainda estava viva depois da Oakway ter saído de lá... - começou Baldwin, mas Simon interrompeu-o.

       - Estaria...? Não o sabemos. A Grisel Oakway podia matá-la. Não temos certeza de que alguém tenha visto a bruxa viva depois disso. Se viram, então ainda não falamos com essas pessoas...

       - Bruxa! - murmurou o cavaleiro com uma breve exibição de desprezo enquanto bebericava mais um gole do seu vinho. - Muito bem, não temos certeza de que a Oakway não a matara. Por outro lado, também não temos certeza de que o Greendiff não o tenha feito. Além disso, parece ter havido outra pessoa envolvida, a tal mulher com uma capa cinzenta. A Oakway viu-a, tal como a Jennie Miller. No entanto, a Sarah Cottey não a mencionou. Quem poderá ter sido?

       - Não te esqueças que ainda há outra coisa... - Simon engoliu um pouco de vinho, recostou-se e suspirou de contentamento quando o sentiu a deixar um rasto de calor no seu corpo. - Por que a terão transportado deste a casa até ao campo de Greendiff?

       - Talvez a Grisel Oakway tivesse admitido ao marido que matara a vizinha, e ele tenha levado o corpo para ocultar o fato de terem sido eles?

       - Isso é estúpido!- Comentou Hugh, levantando os olhos. Baldwin ficou tão surpreendido com o comentário desdenhoso que não conseguiu responder. Limitou-se a olhar para o servo, que de súbito pareceu perceber o que acabara de dizer. - O que pretendia dizer, senhores, era isto: os Oakways já não são jovens. Se queriam esconder o corpo, por que o levaram para tão longe? Largavam-no num sítio qualquer mais perto, um sítio que conhecessem e onde soubessem que as outras pessoas não iam.

       - Ele tem razão...- afirmou Simon. - Se tivessem sido eles, não a carregavam para tão longe. Se estavam a tentar esconder tudo, também não deixariam todo aquele sangue espalhado pela casa da Kyteler, não é verdade?

       O cavaleiro ficou a pensar no assunto.

       - É uma idéia interessante... e só podemos chegar a uma conclusão: é mais provável que tenha sido o Greendiff. O corpo encontrava-se perto da sua casa. Talvez pretendesse escondê-lo num sítio seu conhecido e o aparecimento do Cottey o tenha impedido? É possível.

       - Sim. O único motivo para pensarmos que estava inocente foi o fato do Stephen de La Forte lhe ter fornecido um álibi. No entanto, agora já sabemos que o álibi é falso por causa do que a Jennie nos disse- concluiu Simon. - O que quer dizer que o Stephen mentiu para proteger o amigo.

 

       Deixaram Wefford a meio da tarde e começaram a dirigir-se de volta a mansão em Furnshill. Viam-se obrigados a fazer a jornada lentamente por causa de Hugh, mas já nem sequer Baldwin protestava com a lentidão do servo uma vez que o sofrimento do homem era visível.

       Estavam de novo em casa por volta das três horas e Simon insistiu com Hugh para que ficasse junto do fogo durante o resto do dia, ordem que pareceu deixar o homem muito satisfeito. Foi o pequeno sorriso de gratidão que revelou ao almoxarife até que ponto o seu servo se sentia mal. Em geral, seria de esperar uma careta e uma queixa, mesmo no caso de uma ordem tão agradável como aquela.

       Simon deixou-o a olhar para as chamas com um cobertor sobre os ombros e levou Margaret para o exterior, onde Baldwin ainda se encontrava, a contemplar a paisagem. O cavaleiro virou-se e apontou a casa com o queixo.

       - Como está ele? - perguntou.

       Margaret encolheu os ombros.

       - Parece estar bem, mas não poderá sair à rua durante algum tempo. Apanhou demasiado frio.

       - A culpa foi minha - afirmou Simon. - Devia ter esperado que se vestisse, mas pensei que estava arranjando desculpas para não ir conosco até Crediton.

       - É fácil esquecer até que ponto o Inverno pode ser frio - admitiu a esposa. No futuro, certifica-te de que leva uma capa e a jaqueta cada vez que sair contigo.

       Simon acenou, com um rosto sombrio, pressentindo que estava a ser repreendido. Sabia muito bem que o Inverno ali, tão perto de Darthmouth, era sempre brutal. Resolveu mudar de assunto e disse:

       - O Hugh explicou-te o que descobrirmos hoje?

       Margaret olhou para o rosto do marido e soube que este se censurava pelos males de Hugh. Tinha razão, pensou. O homem podia ter morrido se não se tivessem percebido rapidamente que se encontrava quase gelado. Não era indestrutível, embora fosse filho de um homem da charneca e tivesse passado uma grande parte da sua juventude sob todo o tipo de climas enquanto cuidava dos rebanhos do pai. O clima ali era tão frio que até conseguia congelar os pensamentos de um homem e só um louco não tomaria as devidas precauções quando o momento chegasse. De qualquer modo, não havia razões para fazer com que o marido ainda se sentisse pior. Fez um breve aceno e escutou Simon a explicar-lhe a conversa com a Jennie Miller enquanto lhe estudava as feições com toda a concentração.

       - Nesse caso, têm três suspeitos... - acabou por comentar.

       - Referes-se à Grisel Oakway, ao Greendiff e à tal mulher? - perguntou Simon.

       - Não. Aparentemente, Oakway tinha apenas ressentimentos contra a velha – respondeu Margaret com o rosto franzido. - Se queria a morte da Kyteler, então acho que era suficientemente astuta para ter convencido os aldeões de que a vizinha era um bruxa e deixaria que fossem eles a ver-se livre dela. A multidão que a linchasse. Não me parece que a Oakway seja uma assassina. - Lançou uma olhadela seca para os lados de Baldwin.

       O cavaleiro suspirou e olhou para as colinas como que em busca de inspiração.

       - Eu sei. Há também o outro suspeito... mas custa-me a acreditar que o filho do meu amigo possa ter estado envolvido. Estava demasiado grato àquela mulher para a matar...

       - Talvez tenhas razão, mas precisas falar com ele.

       - Muito provavelmente já regressou à Gasconha. Ninguém o viu desde terça-feira. Por enquanto, penso que o problema principal é a tal mulher. Como vamos descobrir quem ela é?

       - Ora, não estão a falar a sério? - O tom trocista fez com que os dois homens se virassem. Margaret viu-lhes as expressões intrigadas e explicou-se: - Essa mulher vive em qualquer lado aqui perto. Não podem existir assim tantas...

       - Não fazemos idéia de onde terá vindo, Margaret - disse Baldwin, olhando-a com a testa ligeiramente contraída. - Pode viver a muitos quilômetros daqui!

       Margaret soltou uma pequena gargalhada e abanou a cabeça com um desgosto fingido.

       - Acham que sim? Duvido! Deve viver aqui perto... porque é improvável que o Greendiff se apaixonasse por alguém de muito longe. Se assim fosse, quantas vezes a veria?

       - E então? Quantas mulheres pensas que há...

       - Simon, a questão não é essa! O de La Forte afirmou que era uma mulher bem nascida, não é verdade? Além disso, estava bem-vestida. Quantas mulheres ricas vivem nos arredores?

       Para seu alívio, verificou que os dois homens começavam a compreender. Baldwin ainda parecia ter dúvidas, mas Simon agarrou-a, puxou-a e abraçou-a com força.

       - Casei com uma filósofa - comentou, fitando-a nos olhos com um grande sorriso.

       Baldwin virou-se novamente para a paisagem. Era bom ver os amigos felizes, mas... Sorriu e admitiu os ciúmes.

       Simon viu-o a desviar os olhos e afastou-se da esposa. Sabia até que ponto o amigo desejava uma esposa e um filho e compreendia-o. Para ele, custava-lhe perceber como era que um homem podia viver sozinho. Contudo, não conseguiu impedir-se de dar uma palmadinha na barriga da mulher, com afeto. Tinha a esperança de que a criança fosse saudável e forte, e que o nascimento não fosse difícil. Desejava muito um filho, mas ainda desejava mais que a esposa continuasse bem e em segurança. Teve uma idéia repentina. Aquela mulher do Greendiff teria filhos? A seguir surgiu-lhe uma outra idéia diferente: estaria grávida teria ido ter com a parteira para que lhe desse remédios para um bom nascimento, tal como a Jennie fizera?

       Fez um esgar enquanto olhava para as charnecas, à distância. Quem poderia ser aquela mulher? Teria sido a última pessoa a ver Agatha com vida... se ela própria não tivesse sido a assassina? Quem era a misteriosa paixão de Harold Greendiff? Contudo, a paisagem não lhe deu qualquer inspiração.

       Na manhã seguinte, Jennie estremeceu e apertou o velho xale de lã contra o corpo enquanto a sua pequena carroça chocalhava a caminho de Crediton. Ali, na estrada, no meio das árvores, ainda fazia muito frio embora o sol já tivesse subido. O solo estalava por baixo das rodas cintadas a ferro à medida que o gelo das poças de água e dos arroios se quebrava sob o seu peso.

       Em geral era Thomas, o marido, quem ia até a povoação. Percorria o caminho cantando alegremente para todos os amigos e clientes antes de entregar as sacas ou de procurar os artigos de que necessitava. Porém, aquele Inverno estava a ser duro e tinha de apanhar mais lenha enquanto isso era possível, para o caso da neve se manter durante muito mais tempo.

       Na altura, quando ainda só estavam no moinho há dois ou três anos, a compra da carroça parecera-lhes uma boa idéia. O constante fluxo de cereais provenientes da mansão fora o suficiente para os manter atarefados e fornecera-lhes bons rendimentos, mesmo depois dos impostos pagos. Isso fora nos dias de Sir Reynald de Furnshill, é claro, antes da sua morte e da chegada de Sir Baldwin. O negócio no moinho novo fora tão bom que tinham podido trazer milho de outras partes e tirar bons lucros. Fora por isso que haviam decidido adquirir a carroça, uma vez que esta lhes permitiria comprar milho de quintas muito mais distantes para depois venderem a farinha aos padeiros de Crediton.

       Contudo, agora, depois de dois anos de péssimas colheitas, a carroça não lhes parecia uma idéia tão boa. Mal conseguiam manter e alimentar o velho cavalo e os preços na cidade haviam subido tanto que Jennie sentia que era melhor não se afastarem de Wefford. Aí, pelos menos, sempre podiam conseguir a maior parte das coisas por simples troca de bens.

       Passou pela casa nova, onde vivia a família de La Forte e quase nem sequer olhou para ela. Achava injusto que alguns pudessem comprar tudo o que lhes apetecia quando tantas das suas amigas estavam a passar fome ou a morrer de frio por falta de combustível. A idéia da morte fê-la estremecer e voltou a pensar na pobre Agatha.

       Jennie sabia que, por vezes, a velha era difícil. Mesmo assim havia nela uma faceta de decência que os outros não possuíam. A velha Agatha estava sempre pronta para aparecer e para ajudar quem quer que sofresse, e ficava contente por o poder fazer. Podia não ter sido tão subserviente como alguns desejavam, mas para Jennie, isso não era nenhum problema. Também ela não se mostrava muito humilde, exceto para o sacerdote de Crediton, Peter Clifford. Contudo, esse era um santo homem que merecia todo o respeito.

       A morte de Agatha Kyteler fora uma coisa muito triste, concluiu. Tinham-lhe cortado a garganta a toda a volta. O estalajadeiro cobrara uma taxa às pessoas para a poderem ver e haviam sido muitos os que tinham aproveitado a oportunidade, para depois irem contar os pormenores mais horrendos aos que aguardavam no exterior. O fato deixava-a triste, como se a velha mulher tivesse sido molestada. Jennie não se importava de assistir às execuções sempre que tinha uma oportunidade, mas isso era diferente. Era presenciar a morte de pessoas sem importância. Tratava-se em geral de ocasiões muito excitantes, com um pequeno, mas agitado mercado que fornecia comida e bebida às multidões que aguardavam o primeiro enforcamento, desejosas de ver os criminosos serem alinhados e com as cordas em volta dos pescoços até ao momento em que eram puxados para cima. Ficavam a rodopiar lentamente, a estremecerem e a sacudirem-se na sua luta pela vida enquanto a corda de cânhamo se ia apertando e lhes cortava a respiração nas gargantas.

       Se o criminoso fosse particularmente musculoso e forte - e já vira isso acontecer várias vezes - um dos carrascos tinha de agarrar o corpo oscilante e de o abraçar, servindo-se do seu peso para puxar a vítima com toda a força para baixo a fim de lhe partir o pescoço. Contudo, só o faziam se o fulano ainda estivesse vivo depois de cerca de 15 minutos, e nunca antes. Afinal de contas tinham de se certificar de que a multidão ficava satisfeita com o espetáculo do primeiro enforcamento, mesmo que estivessem muitos mais criminosos à espera da sua vez. Em caso contrário haveria discussões, com acusações de que os carrascos tinham morto intencionalmente as suas vítimas antes de tempo, que tinham sido subornados, e era óbvio que pretendiam evitar todos os problemas que esse tipo de altercações poderiam provocar.

       - Já nos arredores da cidade, Jennie pegou no odre do vinho e tomou um gole do líqüido gelado. Depois, tomada por uma necessidade urgente, parou a carroça e saltou para o chão. Caminhou sobre a pesada camada de neve, fazendo-a estalar, e dirigiu-se para um arbusto à beira de um campo cultivado. Levantou a túnica e a saia, agachou-se e soltou um suspiro de alívio. Os balanços da carroça provocavam sempre aquilo, pensou.

       A seguir, contudo, ouviu uma gargalhada alegre e tilintante, bem como o som regular de cascos de cavalos que se destacava por cima dos ruídos do seu pequeno ribeiro, que morria pouco a pouco e se transformava num simples fio de água. Levantou-se, espiou para a estrada por cima do arbusto e viu duas pessoas a cavalo. Uma delas era um homem de meia-idade, avolumado por uma grande barriga, com um rosto de mastim, todo enrugado e sulcado, com olhos pequenos e cruéis. O outro cavaleiro era uma mulher jovem, alta, delgada e trigueira, com longas tranças caídas sobre os ombros, como as asas dos corvos, a enquadrarem um rosto tão belo como o de uma Madona. Tinha o capuz caído para as costas, mas a franja de pele de coelho brilhava com um tom mais claro contra o tecido cinzento-escuro da capa. Lançou uma olhadela para a mulher do moleiro, como se nem sequer a visse ou como se fosse tão importante como o arbusto em que se ocultara. O homem ignorou-a completamente.

       Jennie endireitou-se, deixou cair a saia, alisou a túnica com as mãos com gestos automáticos, sem nunca tirar os olhos deles.

 

       Simon e Baldwin chegaram a casa dos de La Forte a meio da manhã. Ambos sentiam o frio do dia, como se a infelicidade de Hugh no dia anterior os tivesse recordado que o tempo estava gelado. Não voltara a nevar durante a noite mas as nuvens que pairavam lá em cima, no céu da manhã, eram espessas e fofas como a penugem dos patos e constituíam uma promessa de mais neve.

       Naquele dia iam preparados. Edgar acompanhava-os e cada um deles carregava consigo um saco de provisões e um odre de vinho. O almoxarife sentira as bicadas do ar gelado logo pela manhã, quando tinham saído de casa, olhara para Baldwin e verificara que este também sentia o frio. Tinha o peito rígido, os ombros dobrados e os lábios contraídos, com uma expressão tão resolutamente fechada como uma porta de ferro.

       A brisa que soprava, embora fosse fraca, compensava a sua falta de força penetrando através de todas as proteções e até parecia apontar diretamente aos órgãos mais vitais.

       Ao chegarem à casa Simon pensou que a mesma parecia muito pacífica e tranqüila, com o fumo a erguer-se suavemente a oscilar antes de se dispersar numa espécie de pluma que se estendia languidamente para o norte. Ali, entre Wefford e Crediton, até os ruídos provenientes dos campos de cultura seriam abafados pelas espessas florestas mesmo num claro dia de Verão. Agora, não se ouvia um som, nem sequer o dos mugidos dos bois nos seus estábulos. Os únicos barulhos que escutavam eram os dos cascos dos cavalos a esmagarem a neve e o ocasional tilintar, semelhante a pequenas campainhas a tocarem sob a pálida luz do sol.

       A glória da paisagem, com os cerros que se estendiam até ao horizonte, suavemente arredondados e um pouco esbatidos pelas copas das árvores, e o ar fresco e puro nos seus pulmões, faziam com que Simon se sentisse bem, saudável e forte, alerta e atento. A cavalgada afinara-lhe os sentidos e foi com uma certa excitação que esperou que a porta se abrisse. Queria respostas da parte do jovem Stephen de La Forte.

       O rosto magro e contraído do servo que lhe abriu foi como uma espécie de anticlímax. como se o seu temperamento necessitasse se exprimir imediatamente e qualquer atraso não passasse de uma frustração. A sensação fê-lo ser abrupto com o homem e Simon ficou envergonhado consigo mesmo quando a velha figura bateu em retirada, encolhida. Não tinha necessidade de descarregar a frustração naquele homem.

       Baldwin notou a sua secura e sorriu para si mesmo quando acompanhou o almoxarife para o salão principal, onde foram deixados sozinhos por momentos enquanto o servo desaparecia no interior. O cavaleiro aproximou-se da mesa, puxou um banco e sentou-se, sempre com os olhos postos no amigo.

       O almoxarife caminhava pela sala com um ar casual e com as mãos atrás das costas, numa perfeita imagem de descontração. No entanto, Baldwin percebia a excitação contida no modo como virava a cabeça para a porta ao mais leve som. Era óbvio que se encontrava muito nervoso.

       Já estavam a espera havia vários minutos quando ouviram o som de passadas. Pouco depois, a porta abriu-se e deixou passar Walter de La Forte. Fez uma pausa, olhou de um para o outro com o que parecia ser um escoar de troça e avançou para a mesa de onde Baldwin o observava com toda a tranqüilidade e com um algum desinteresse.

       Para o cavaleiro, era como se o mercador os estivesse a provocar, ou como se sentisse que eram tão insignificantes que não mereciam qualquer respeito, o que o deixou intrigado. Não deixava de ser estranho que um homem de baixo nascimento se sentisse superior a um almoxarife e ao Guardião da Paz do rei.

       Baldwin ficou com a sensação de que Simon também estava tão interessado nas atitudes do homem como ele próprio, mesmo quando começou a interrogá-lo com uma voz suave e quase gentil.

       Libertamos o Harold Greendiff depois do nosso último encontro... - começou.

       O cavaleiro que observava o mercador com toda a atenção, viu-o ficar com súbitas dúvidas. Walter de La Forte olhou na sua direção antes de voltar a encarar o almoxarife.

       - Libertaram-no?

       - Sim. O seu filho deixou bem claro que estiveram juntos durante todo o dia. Pelo que é óbvio que o Harold não pôde estar envolvido no crime, não é verdade?

       - Oh!... Sim, suponho que é verdade...

       - Pois é, mas se o Harold Greendiff não matou a Agatha Kyteler então quem o fez? Como não encontramos ninguém que nos sugerisse um motivo para o crime, lembramo-nos que o mesmo poderá ter sido praticado por alguém relacionado com o passado da mulher. Ouvi dizer que esteve envolvido na fuga de Acre, com o seu sócio...

       - E então? De qualquer modo, quem foi que vos disse isso?

       - Sabia que a Agatha Kyteler também veio de Acre, que trouxe um rapaz com ela e lhe salvou a vida?

       Inicialmente, Walter de La Forte pareceu apenas espantado, mas quando falou já a sua voz era tão vigorosa como anteriormente. Perguntou num tom truculento:

       - E que querem dizer? Que se passa aqui? Estão a acusar-me de qualquer coisa? É isso? Acham que têm o direito de vir a minha casa para me acusarem de assassinar uma velha só porque estivemos no mesmo sítio há muitos anos atrás?

       - Temos o direito de ir a todo o lado e de interrogar toda a gente a respeito deste assunto. Trabalho para a família Courtenay e o meu amigo trabalha para o monarca! Temos o direito de o interrogar.

       Foi como se qualquer coisa estalasse dentro do homem. O mercador começou a levantar-se da cadeira, com os pés a deslizarern para trás como se se preparasse para saltar e atacar Simon... mas Baldwin tossiu e torceu o punho da espada com um desinteresse estudado, fazendo com que a ponta de aço na extremidade da bainha raspasse no solo com um som seco e metálico. Walter de La Forte olhou na sua direção e viu uma leve expressão interrogativa no rosto do cavaleiro, como se este estivesse apenas à espera da reação do homem. No entanto, o mercador verificou que a mão de Baldwin continuava pousada no punho da espada... e o significado era claro.

       Pigarreou e olhou do cavaleiro para o almoxarife com um ligeiro nervosismo. Depois devagar, pareceu aceitar a sua posição e voltou a esticar as pernas com o que Baldwin pensou ser um verdadeiro esforço físico, como se lhe fosse difícil render-se daquele modo. Quando voltou a falar - e embora já tivesse feito um esforço para se recompor Baldwin ainda escutou ouviu a ira no tom de voz do homem.

       - Que querem saber?

       Simon caminhou para uma cadeira junto do fogo, sentou-se e inclinou-se para a frente sobre os cotovelos. Começou por olhar para o chão e disse:

       - É uma coincidência nada mais... mas o senhor, como é um homem importante nesta área, saberá de alguém que tivesse motivos para a matar?

       O mercador encolheu os ombros, abanou a cabeça e cruzou os braços.

       - Não.

       - Nesse caso, saberá de alguém que tivesse ressentimentos especiais contra ela dos tempos de Acre? Ouvi dizer que ganhou muito dinheiro a evacuar pessoas da cidade durante o cerco...

       Os olhos do mercador estreitaram-se repentinamente e ganharam um brilho de astúcia.

       - Se foi isso o que ouviram, garanto-lhes que não é verdade!

       - Ah! sim?- inquiriu Baldwin, duvidoso, e viu os olhos do mercador a virarem-se para ele. - Contudo, deve compreender que tudo o que temos é aquilo que as outras pessoas nos dizem. O que sabemos é o que disseram a seu respeito. Se quer expor a sua versão dos fatos terá de dizer. Caso contrário assumiremos que...

       - Sim. sim. Já deixaram tudo bem claro! - refletiu por instantes mas acabou por encolher os ombros de leve como se troçasse dos seus próprios receios. - Não vejo por que não... Não tenho nada a esconder. - Fez uma pausa e olhou para o fogo como se estivesse a organizar os pensamentos numa história coerente. Quando começou, a voz saiu-lhe lenta e pensativa, quase como se se tivesse esquecido da presença dos dois homens.

       - Allan Trevellyn e eu estivemos em Acre, aquele buraco infernal, durante os últimos dias do cerco. Éramos ambos jovens e em forma, e trabalhávamos como marinheiros a bordo de uma galera francesa. Meu Deus, estávamos no melhor da nossa vida! Naquele tempo,quando se era jovem, um homem tinha de se desvencilhar! Não é como agora... - Contraiu a testa num breve ataque de fúria que desapareceu logo em seguida, e continuou a falar com um tom pensativo com os olhos a saltitarem entre Baldwin e Simon. O almoxarife teve certeza de que havia nele uma grande dose de manha e observou o homem com atenção. Saímos do porto de Acre sem o mestre da embarcação. Desembarcara com alguns dos nossos homens para dar uma ajuda nos combates junto a uma das portas da cidade, e enquanto se encontrava fora apareceu um grupo de cavaleiros ingleses que incluía o Otto de Grandison. Eram tudo o que restava dos soldados ingleses enviados pelo Rei. O Grandison tomou um navio e alguns dos seus homens ocuparam o nosso... e disseram que nos matariam se não concordássemos com a ocupação. Tivemos de nos submeter. O Grandison soltou as amarras quase imediatamente mas os homens no nosso navio insistiram que esperássemos. Enquanto o fizemos, os cavaleiros embarcaram alguns homens com as respectivas esposas e tiraram-lhes todo o dinheiro em troca da possibilidade de fuga. Ficaram-lhes com tudo, ouro, diamantes, jóias e especiarias. Só os que tinham muito dinheiro é que puderam subir para bordo. Os outros, ficaram para trás. Se não tinham nada... não podiam escapar. Era uma escolha fácil.

       Baldwin fez uma careta. Conhecera o Grandison, um suíço alto e orgulhoso. Parecia-lhe estranho que tivesse permitido que os seus homens se aproveitassem do cerco daquele modo. Espreitou o mercador, que lhe devolveu o olhar com uma expressão de esquiva auto justificação.

       - A culpa não foi nossa! - protestou. - Que poderíamos ter feito, mesmo que argumentássemos com eles? Não podíamos lutar contra os cavaleiros, que nos teriam morto a todos. De qualquer modo, o navio ficou cheio, os cavaleiros disseram-nos para soltarmos as amarras e remamos para o mar. Correu tudo bem. Regressamos a Chipre e os cavaleiros pagaram-nos. Ficamos com o navio, porque não precisavam dele para nada, o Allan e eu partilhamos os lucros e foi com eles que pensamos fazer fortuna. Tínhamos um navio, podíamos comerciar e foi isso o que fizemos durante algum tempo ao longo das costas do além-mar e até da França. Ao fim de alguns anos já tínhamos ganho o suficiente para podermos instalar-nos, mas decidimos continuar. Compramos outro navio, um cargueiro e vendemos a galera aos genoveses. O novo navio podia transportar mais carga e negociamos entre a Gasconha e a Inglaterra. Tivemos êxito e foi aí que ganhamos muito dinheiro. Porém, a seguir, as coisas começaram a ir por água abaixo.

       "Começamos a sofrer por causa dos preços - prosseguiu, olhando para baixo, para as botas. - Ao princípio, depois do monarca francês ter ocupado a Aquitânia, fizemos bom dinheiro com o Rei Eduardo ao transportarmos homens e provisões para as suas terras. Acabamos por comprar mais navios. Porém, as coisas pioraram, não conseguíamos ganhar o suficiente e tornou-se óbvio que precisávamos arranjar dinheiro de outra maneira qualquer. Por isso, começamos atacar a navegação francesa no canal. Não correu mal. Mantivemos os olhos abertos para qualquer tipo de lucros e nunca torcemos o nariz fosse ao que fosse. Foi desse modo que o Allan conheceu a mulher, a Angelina. Tomamos uma embarcação que navegava de Sluys para Calais e descobrirmos que tínhamos uma presa melhor do que esperávamos. O proprietário do navio era rico, muito rico. Allan apanhou-o e fê-lo prisioneiro. Ao princípio pensamos que só iríamos lucrar com o dinheiro e a carga, mas o Allan percebeu que o homem era valioso e fez um acordo com ele, ficando-lhe com a filha e metade da carga.”

       Ficou a olhar, sem ver, por cima do ombro de Simon.

       - Todavia, isso foi o auge das nossas carreiras. A partir daí, as coisas correram de mal a pior. Há dois anos passamos um mau pouco numa altura em que nada nos corria bem. Os franceses até nos tomaram um navio e perdemos toda a carga. Foi um grande prejuízo. Depois disso, o nosso navio já foi atacado e danificado por duas vezes... e perdemos nem sei quanto dinheiro. Por isso, como vêem, não foi em Acre que fizemos a nossa fortuna...

       - E como foi que perderam tanto? Apenas por causa da má sorte? - perguntou Baldwin num tom calmo.

       Os olhos do homem brilharam na direção do cavaleiro.

       - Má sorte? Suponho que sim. Tomamos decisões infelizes, ordenando ao mestre do navio que seguisse por esta ou por aquela rota... e depois descobríamos que os piratas franceses estavam à espera dele. Por isso, penso que os nossos problemas se deveram a toda uma série de azares.

       - Quer dizer que não acredita em bruxas?

       - Ora, isso é uma estupidez! - exclamou com desprezo. - Sei que é o que dizem por aí... mas não é verdade!

       - Refere-se ao fato de dizerem que a Agatha Kyteler era uma bruxa? - inquiriu Baldwin.

       - Sim, e ela nada tinha a ver conosco. Foi apenas má sorte...

       - No entanto, houve quem pensasse que estava a ser amaldiçoado pela mulher?

       - Sim, também houve disso.

       - Por que iriam pensar uma coisa dessas? - murmurou Simon. Todavia, captou a súbita expressão carrancuda no rosto do mercador e abriu muito o olhos. - Ela saiu de Acre no vosso navio, não é verdade ?

       - Talvez. Quem o poderá saber? Foi há tantos anos!

       - Foi o seu sócio quem pensou que a velha vos amaldiçoou?

       - Bom, às vezes é um pouco supersticioso...

       Baldwin agitou-se e fez tilintar as esporas.

       - Nunca falou consigo a respeito da fuga de Acre?

       - Isto nada tem a ver com a morte da mulher! -Não respondo a perguntas tolas!

       - Muito bem - retorquiu o cavaleiro - é o Trevellyn, não é? Foi o que nos disse da última vez.

       - Sim, o negócio é dos dois.

       - Não tem outros sócios, mas está em dívida para com os italianos?

       - É verdade. - Esboçou um sorriso triste que foi como um relance dos seus receios pessoais. - Como já vos disse o negócio está a ir ao fundo. Os italianos querem o dinheiro de volta.

       Foi nesse momento que ouviram passos, levantaram os olhos e viram aparecer o filho do mercador. Baldwin ficou surpreendido com a mudança sofrida pelo jovem. Enquanto anteriormente se mostrara relativamente seguro de si mesmo, agora parecia abatido e quase tímido, estava nervoso, pensou Baldwin para si mesmo, parecia tão altivo, ou no final das contas, talvez ansiedade orgânica concluiu, com um pequeno sorriso.

       Contudo, o rapaz aproximou-se, ficou com o rosto iluminado pela luz trêmula das velas e o cavaleiro viu o motivo para aquelas mudanças, um dos lados do rosto do jovem era uma mancha lívida com um rebordo amarelo e azulado que parecia doloroso. Por cima, o olho esquerdo também se encontrava marcado. Baldwin levantou uma sobrancelha, surpreendido, e ficou com a certeza de que aquelas nódoas negras tinham sido infligidas pelo pai. O cavaleiro interrogou-se porque motivo o jovem teria merecido uma tal tarefa?

       Olhou para o pai e descobriu-se a pensar que podia ter sido qualquer coisa. O homem encarava-o sem pudor, provocador e cruel, como se o desafiasse a fazer qualquer comentário sobre o modo como governava os assuntos da sua casa.

       Stephen atravessou a sala na direção de uma cadeira de costas baixas, lançou uma olhadela a Simon mas ignorou o silencioso Edgar. Enquanto anteriormente enfrentara o olhar de Baldwin com altivez, agora mantinha os olhos baixos como uma donzela tímida. Além disso, também parecia não saber o que fazer com as mãos. Começou por as pousar no colo, para depois as passar para os joelhos. Contudo, logo a seguir, mudou-as resolutamente para os braços da cadeira e ficou imóvel.

       Baldwin sorriu de leve.

       - Quando falamos contigo, na quinta-feira, disseste-nos que o Harold Greendiff arranjara uma amante. Também disseste que era uma mulher casada. - O rapaz fez um ligeiro movimento com a cabeça mas, para além disso, não deu sinais de o ter ouvido. -Sei que é difícil para ti... mas é possível que essa mulher saiba qualquer coisa a respeito da morte de Agatha Kyteler. Precisamos saber quem ela é.

       Stephen levantou os olhos lentamente para enfrentar o cavaleiro.

       - Como já disse, é melhor perguntarem ao Harold. Não posso trair a sua confiança. Jurei que...

       - Muito bem. Não te posso forçar. No entanto, há mais uma coisa. - Fez uma pausa com a cabeça inclinada enquanto examinava o rapaz. - Por que mentiste a respeito de teres estado todo o tempo com ele no dia em que a Kyteler morreu?

       - Eu... eu não menti. Como pode sugerir isso?

       - Sabemos que mentiste. Agora, queremos que nos digas a verdade. A que horas o encontraste e o que fizeram juntos?

       O rapaz abriu a boca para falar mas fechou-a imediatamente, como se concluísse que era melhor não continuar a mentir. Desviou os olhos por instantes. Voltou a fitar o cavaleiro e Baldwin viu-lhe um pouco do orgulho anterior que começava a renascer.

       - Estivemos juntos durante quase todo o tempo. Encontrei-o no Signo da Lua à tarde, e depois disso passamos a maior parte do dia juntos. Se quiser verificar, pergunte ao estalajadeiro...

       - Já lhe perguntamos - retorquiu Baldwin num tom vazio. - Disse que te encontraste lá com ele por volta das cinco, ao fim da tarde, e que saíram pouco depois para voltarem a aparecer cerca das oito. É verdade?

       - Suponho que sim. Não sei...

       - Encontramos uma pessoa que viu o Harold na estrada com um cavalo, por volta das quatro horas ou pouco depois. Isso significa que pode ter ido até à casa da Agatha e morto a mulher, para depois ir ter contigo à estalagem.

       - Mas...não é nenhum assassino! - As palavras saíram-lhe fracas, quase hesitantes.       Baldwin ficou com a certeza de que o rapaz pensava intensamente no amigo e que perguntava a si mesmo se poderia ter estado enganado a seu respeito. Era doloroso ter de duvidar de um velho amigo, pensou o cavaleiro.

       - Viste-o desde que foi libertado?

       A pergunta, feita tão de repente, apanhou o jovem de surpresa e a sua cabeça acenou antes que se pudesse conter.

       - Explicou por que motivo decidiu ir-se embora daqui?

       Stephen hesitou. Os seus olhos revelaram um medo súbito, uma expressão perseguida que fez com que Baldwin recordasse que se tratava de um rapaz ainda muito novo. O cavaleiro preparava-se para o incitar com gentileza quando o pai deu um murro enraivecido no banco a seu lado, e berrou:

       - Responde!

       Os olhos do jovem viraram-se para o pai e a boca enquadrou a palavra

       - Sim. - Tão baixa que Baldwin mal a conseguiu ouvir mas que o deixou melhor.

       - Explica-nos porquê, Stephen.

       - Foi por causa da tal mulher. Rejeitou-o... e sentiu que já não havia nada que o prendesse aqui. Por isso, decidiu ir embora. Ia tentar meter-se num navio que o levasse à Normandia ou a Gasconha, mas ainda não se afastara muito quando foi apanhado. É tudo. Jurou-me que nada tinha a ver com a morte da mulher. Não pensam, a sério, que possa ter sido ele, pois não?

       Baldwin olhou-o com simpatia. Agora já tinha muito poucas dúvidas. Se o voltassem a interrogar era provável que conseguissem respostas para o que não descobrissern. Tinha a certeza. Entretanto, aquele amigo que fora tão leal, iria acabar por ser magoado. No mínimo, Greendiff mentira ao seu melhor amigo, que lhe guardara os segredos mesmo quando fora interrogado pela Justiça. Suspirou, levantou-se e fez um sinal a Simon.

       - Vamos procurar o Greendiff - disse.

       Ainda mal tinham atravessado o limiar da porta quando viram chegar o mensageiro, um adolescente corado e a ofegar por causa da entusiástica busca que o levara até Furnshill e o fizer regressar ali.

       - Senhor! Senhor! - Cavalgou direito a eles e quase caiu da sela quando puxou as rédeas com toda a força.

       Não precisou de muito tempo para lhes transmitir o recado de Peter Clifford, não obstante a respiração entrecortada e de os seus olhos saltarem de um lado para o outro entre os dois homens silenciosos que tinha na sua frente. Quando terminou. Simon e Baldwin fitaram-no e olharam um para o outro. Arrancaram as rédeas dos cavalariços, saltaram para as selas, esporearam os cavalos e partiram para Crediton.

 

       Entraram no pátio na frente da casa de Peter Clifford, desmontaram rapidamente e entregaram as rédeas dos animais ao mensageiro, que os conduziu para a área dos estábulos. A porta foi-lhes aberta pelo próprio Peter, que os saudou com um curto aceno e se desviou para os deixar entrar. Tinha o rosto muito sério. Nem sequer sorriu ao ver os seus amigos e conduziu-os silenciosamente até à sala.

       - Já no interior, Simon viu Jennie Miller sentada junto do fogo, como uma rainha no seu trono. A jovem levantou os olhos rapidamente quando os homens entraram, mas manteve-se reservada, não obstante o rosto ter manifestado uma leve indicação de prazer, ou talvez de alívio, logo que os viu. Simon olhou para Peter e ficou com a certeza de que a seriedade do amigo era uma reação as novas que Jennie lhe comunicara.

       - Tiveram uma conversa com a Jennie. - disse o sacerdote. - Sei que já chegaram aqui há cerca de duas horas e... Bom, vou deixar que seja ela a contar-lhes a sua história.

       Caminhou para um assento na sombra dos biombos e sentou-se. Simon lançou uma olhadela rápida à jovem e viu-a a estudar o cavaleiro com uma espécie ele excitação controlada agora que Peter se encontrava fora das vistas. Baldwin sentou-se na frente dela e Jennie inclinou-se para o olhar, como se ela e ele estivessem sozinhos na sala e fossem amigos prestes a dar à língua a respeito de velhos conhecidos.

       - Vi-a! - exclamou a jovem.

       - Viu? Onde? Conta-nos exatamente o que aconteceu.

       - Ia a caminho da cidade mas tive de parar para urinar quando já me encontrava nos arredores. Bom, estava a acabar quando ouvi os cavalos... Eram dois, e era ela quem montava um deles. Usava as mesmas roupas que lhe vi quando saiu de casa da Agatha: uma longa capa cinzenta com pele no rebordo, uma túnica azul e uma saia. O cavalo também era o mesmo, uma égua pequena e muito bonita. Era realmente uma égua muito bonita.

       - Tens certeza? Não podes ter-te enganado? Não seria uma égua parecida com a outra? - interrompeu-a Simon, duvidoso. A jovem lançou-lhe um olhar fulminante.

       - Não são apenas os cavaleiros a conseguir distinguir as diferenças entre uma velha pileca e uma boa égua jovem - protestou, para logo acrescentar com firmeza: - Além disso, os meus olhos são suficientemente bons para distinguir as cores a apenas alguns metros de distância.

       Baldwin tossiu discretamente, para voltar a chamar as atenções para ele.

       - Isso é ótimo. Consegues descrever o homem?

       - Oh, sim! Era forte, mas baixo. Nem sequer chegava à sua altura, senhor. Tinha um rosto muito trigueiro, cheio de cicatrizes e de rugas. A montada era um palafrém, um cavalo cinzento com os flancos mosqueados. Os dois cavalos tinham bons arreios com fivelas de latão.

       - Ótimo! - Baldwin levantou-se. - Não deve ser difícil encontrar um par como esse.

       - Sim, senhor. Se está preocupado com a possibilidade de os perder, então posso levá-lo lá.

       O cavaleiro rodopiou para a encarar.

       - Sabes onde eles estão?

       - Claro que sei! - retorquiu, aparentemente divertida com a sua surpresa. - Conheço toda a gente dos arredores. Sou a mulher do moleiro.

       Simon sorriu perante a expressão confusa de Baldwin e perguntou:

       - Já agora, Jennie, podes fazer o favor de nos dizeres quem são essas pessoas?

       - Oh, desculpem, esqueci-me. São o senhor e a senhora Trevellyn. Vivem a oeste daqui, em South Helions.

       - Trevellyn? - Baldwin olhou para Simon, que encolheu os ombros. - Ora aí está uma coisa interessante.

       - Precisam de mais alguma coisa desta mulher? - Simon pensou que a voz de Peter parecia tensa quando o sacerdote avançou para a luz de um grande candelabro. O almoxarife verificou que o rosto do amigo se encontrava contraído e pálido, e que registrava algum desagrado quando pousou os olhos em Jennie.

       Baldwin abanou a cabeça rapidamente.

       - Não. Obrigado, Jennie. Foste muito útil.

       - Suponho que é melhor comprar as coisas de que precisamos para poder voltar para casa - respondeu a jovem, levantando-se. Alisou a túnica e sorriu-se para o cavaleiro antes de sair da sala com uma expressão de entusiasmo. Aquele era um dia muito importante para ela. Em primeiro lugar havia a excitação que a sua história iria provocar mais tarde nos clientes do Signo da Lua, por ter sido a única pessoa que vira a mulher no meio das árvores e o Greendiff a segurar no cavalo. Isso seria suficiente para pôr algumas cabeças a abanar, concluiu, satisfeita. Depois, ainda havia outra coisa interessante: aparentemente, houvera uma ruptura entre o Greendiff e a Sarah Cottey. Teria sido por causa da senhora Trevellyn? Parou junto à porta, surpresa por dar com aquela possibilidade, enquanto aproveitava para endireitar o xale. Isso é que era uma novidade!

       No interior, Simon e Baldwin já se preparavam para partir quando Peter os agarrou pelos braços.

       - Esperem. Quero trocar umas palavras com vocês...

       Baldwin ficou um pouco surpreso com o tom de urgência na voz do sacerdote.

       - O que é, Peter?

       - Que têm vocês andado a dizer a respeito do Greendiff? Ou da senhora Trevellyn?

       - O quê? - Simon ficou confuso mas passou em revista a seqüência dos acontecimentos que haviam tido lugar durante a busca do assassino da bruxa e que tinham levado à descoberta da identidade da mulher envolvida. - Por que estás tão preocupado? Estamos apenas a tentar descobrir o assassino da Agatha. Qual é o problema?

       - O problema... está no que ela disse. Esta mulher vai certificar-se de que toda a paróquia ouvirá falar nesta história num espaço de horas. E depois, que irá acontecer? Toda a gente irá assumir que a responsável foi a senhora Trevellyn, mesmo que não o tenha sido, tal como todos pensam que a Agatha Kyteler era uma bruxa.

       - Achas que não era?

       - A Agatha? - O sacerdote ficou tão espantado com a idéia que esbugalhou os olhos. - Deus do céu! Por que haveria de pensar uma coisa dessas? Era uma mulher muito agradável, que estava sempre pronta para ajudar os paroquianos que se magoavam ou feriam. Não, tenho certeza de que não era uma bruxa.

       Baldwin sorriu de esguelha para o almoxarife.

       - Sabes, aqui o Simon pensa que a mulher era uma bruxa por causa de todas aquela ervas e raízes.

       - Simon! - protestou o sacerdote.

       - Desculpem e rezo por ela, se isso servir para alguma coisa, mas são tantos a pensar desse modo que eu...

       - A Agatha Kyteler era uma mulher bondosa e simpática! Não dês ouvidos a boatos. Estão a ver como a má-língua se espalha? E se o Allan Trevellyn ouvir falar nisto?

       - Ah! - Baldwin pareceu compreender o que o sacerdote queria dizer, embora Simon tivesse ficado a olhar de um para o outro com um crescente exaspero.

       - Porquê? Quem é esse homem? Por que motivo pode vir a ser um problema?

       - Não conheces o Allan Trevellyn? - perguntou Peter. - Pensei que teriam o cuidado de... Bom, é um homem poderoso, um mercador...

       - Sócio do Walter de La Forte... - murmurou Baldwin baixinho.

       - Exatamente. Trazem vinho da Gasconha. De qualquer modo, também é conhecido por ser conflituoso.

       Baldwin virou-se para Simon.

       - O que o bom sacerdote nos está a tentar dizer é que esse tal Trevellyn é um homern duro, conhecido pela sua crueldade para com os servos e que de vez em quando toma a justiça nas suas próprias mãos. Não pensei nisso quando falamos com o de La Forte, mas agora já me lembro do Trevellyn. Em finais do ano passado espancou um cavalariço quase até à morte. Creio que o Peter está a interrogar-se sobre como reagirá ele se ouvir dizer que a esposa tem um caso amoroso com um agricultor local...

       Peter acenou uma confirmação, desanimado.

       - Ora, só lhe queremos perguntar o que estava ela a fazer perto da casa da Agatha Kiteler... - afirmou Simon, de testa franzida.

       Peter e o cavaleiro trocaram um olhar. A seguir, o sacerdote coçou a cabeça e lançou uma olhadela especulativa para o almoxarife.

       - Não me parece que isso ajude muito. Sabes, nunca tiveram filhos depois de vários anos de casamento. Se começarem a correr boatos a respeito da fidelidade e da honra da esposa do homem, e se perguntares por que motivo foi fazer uma visita a uma parteira... Estou a ver como é que isso irá ajudar... - exclamou Simon.

       - Já se encontravam a cavalgar para Wefford pela estrada de Tiverton, quando Simon lançou um olhar especulativo para a frente e sugeriu que deixassem o interrogatório da mulher para a manhã seguinte.

       - Porquê? - perguntou o cavaleiro, torcendo-se na sela para o espreitar.

       - Para termos mais oportunidades para pensar no que precisamos lhe perguntar. Se as perguntas forem bem formuladas, então talvez não precisemos de lhe perguntar coisas como...

       - Se foi infiel ao marido? É a isso que te referes?

       Baldwin soltou um suspiro.

       - Não sei. Talvez seria melhor, mas... e se quando lá chegarmos Trevellyn tiver ouvido os boatos? Sabes bem que essas coisas se espalham muito depressa...

       - Sim, mas não me parece que amanhã de manhã já tenha ouvido falar no assunto...

       Baldwin mirou-o com uma expressão ácida.

       - Não apostes! - declarou. - Houve uma vez em que sorri para um empregada de estalagem na estrada de Exeter... e na manhã seguinte já toda a gente dizia que me tinha servido dela durante a noite.

       - Foi verdade? - perguntou Simon com um sorriso.

       - Não, não foi!- protestou o cavaleiro com vigor, fitando-o com uma careta, viu o sorriso de cepticismo do almoxarife e encolheu os ombros, envergonhado. A seguir, tornou-se pensativo. - Estás a ver como as coisas são? Não fiz nada, mas isso não impediu que se espalhasse um boato. Além disso, não pude fazer nada para o impedir... e até começaram a calcular a data em que iria nascer o meu filho bastardo! - Deixou-se abater com uma expressão sombria. Contudo, as suas feições iluminaram-se com um pequeno sorriso e virou-se para o amigo com um ar conspiratório. - E sabes o que foi pior? Não fiz nada... mas gostaria de o ter feito!

       Calou-se e encolheu-se mais para o interior da capa, para depois prosseguir num tom mais tranqüilo e pensativo.

       - É por isso que me custa acreditar em boatos a respeito de um caso entre o Greendiff e a senhora Trevellyn. A esposa de um mercador rico e um servo da gleba? É improvável. Os boatos começam com toda a facilidade, mas são mais difíceis de deter do que um cavalo a pleno galope. Temos de esperar que sigam o seu curso...

       Simon olhou para o céu e disse:

       - Está a escurecer. Voltemos para casa, para dormirmos sobre o assunto. Amanhã de manhã poderemos obter as respostas de que precisamos. Se descansarmos, é mais provável que possamos falar com ela com todo o cuidado para lhe evitarmos embaraços.

       - Está bem - admitiu Baldwin - No entanto, vamos passar pela casa para darmos uma vista de olhos ao sítio. Fica no caminho e não é longe.

       Simon não conhecia bem aquela área porque ficava muito para leste da sua antiga casa. Passara sempre mais tempo no oeste ou no norte, que fora a zona em que crescera, e ficou surpreendido ao ver a grande mansão dos Trevellyn, em South Helions.

       A casa de Baldwin em Furnshill podia ser facilmente confundida com uma quinta por causa da simplicidade e do aspecto confortável, enquanto a habitação construída por Walter de La Forte era imponente e revelava a riqueza do seu proprietário. Em comparação a de Trevellyn era um castelo. Erguia-se no meio da sua própria clareira e era um edifício maciço, cinzento e ocre, com paredes de granito encimadas por ameias, exibindo o dinheiro e a influência do seu dono. Havia muitos anos que todos os monarcas tinham tentado reduzir o número de habitações fortificadas para impedirem as guerras cruentas que continuavam a ter lugar entre grandes senhores quando ocorriam questiúnculas. Um homem que conseguira erguer uma casa como aquela era sem dúvida rico e importante, e a construção falava do seu poder.

       As janelas do piso inferior eram pequenas, mas as que se encontravam mais acima haviam sido alargadas para deixarem entrar mais luz do sol, e estavam protegidas com vidrinhos. A porta era pequena e formada por uma resistente placa de madeira escurecida inserida numa secção de parede que se projetava para o exterior, sobrepujada por uma saliência onde Simon sabia que devia existir alçapões que permitiam aos defensores largar pedras e óleo a ferver sobre quaisquer atacantes. No seu conjunto a casa provocava uma sensação de ameaçadora solidez e era como se olhasse com desagrado para os humanos que passavam por ela.

       A terra à volta estava transformada em pastos e havia por ali um certo número de ovelhas a pastar, raspando a neve com os cascos para conseguirem chegar as ervas que se encontravam por baixo. Havia um pequeno riacho que corria da casa até ao caminho de acesso, pelo que o almoxarife presumiu, corretamente, que a mansão dispunha de água própria de uma nascente.

       - Creio que prefiro a tua casa, Baldwin - comentou Simon, meditativo, enquanto prosseguiam o seu caminho.

       - Talvez... - O cavaleiro observava o terreno em volta como se calculasse qual era o melhor local para um ataque. - Porém, se houvesse uma nova guerra entre os barões de Inglaterra e este condado fosse atacado, preferia esta casa à minha!

       A estrada descrevia uma grande curva depois da casa, evitando a elevação em que a haviam erguido, para logo depois começar a longa e constante subida da colina a oeste de Wefford. Precisaram de algum tempo para trepar, com ambos mergulhados nos seus pensamentos e Edgar a segui-los em silêncio, como de costume. Atingiram o cimo e puderam ver a estrada a serpentear por entre as árvores da floresta, num negro esplendor sem folhas contra a neve que caíra por entre os ramos para o solo que se encontrava por baixo.

       Ali, a apenas uns 800 metros de distância, erguia-se uma quinta solitária que Simon olhou com uma careta de inveja. Era um único edifício, com um cedro por perto, que tinha um aspecto muito calmo e tranqüilo. O fumo que se erguia do telhado de colmo prometia uma recepção calorosa.

       Simon percorreu a paisagem com os olhos e verificou que havia um ligeiro nevoeiro a erguer-se nas áreas desflorestadas, fazendo-as parecer cinzentas e algo substanciais, como se estivesse a vê-las através de um vidro enevoado. Entretanto, o sol já se punha lentamente por trás deles.

       Foi nesse momento que compreendeu que a quinta na sua frente devia ser a do Greendiff. Apontou-a e disse:

       - Baldwin, podíamos poupar algum tempo se formos falar com o Greendiff agora, antes de irmos ter com a senhora Trevellyn. Sempre servirá para ouvirmos a sua versão da história.

       - Achas que nos dirá mais do que Jennie nos disse? - Murmurou Baldwin olhando para a casa e parecendo estar a falar consigo mesmo. - Suponho que podemos tentar. Ainda não sabe o que descobrirmos ou que adivinhámos. O problema está em saber se não aprenderemos mais com ela... Devemos esperar até conversarmos com a mulher, antes de voltarmos a interrogá-lo?

       - É provável que tenhas razão - admitiu Simon, voltando olhar para pacífica casa. - Talvez haja uma hipótese que a senhora Trevellyn nos diga qualquer coisa que nos ajude a interrogar o Greendiff. Sim, deixemo-lo em paz, por agora. Iremos ter com ele depois de visitarmos o castelo do Trevellyn.

       Os três homens regressaram à mansão de Baldwin, onde foram recebidos pelo aroma do par de aves que se encontravam a assar junto do fogo, enfiadas em espetos. Hugh encontrava-se sentado por perto e de vez em quando esticava-se para as virar.

       Simon riu ao verificar que o servo parecia ter recuperado completamente. Tinha o aspecto de quem passara todo o dia em frente da lareira. Baldwin interrogou-o com o olhar e Hugh acenou na direção dos biombos, de onde Margaret surgiu pouco depois com dois jarros de vinho que pousou na mesa antes de cumprimentar o marido.

       Simon lançou uma olhadela para Hugh e virou-se para a esposa:

       - O Hugh fez com que andasses a correr de um lado para o outro durante todo o dia? - perguntou, com falsa seriedade.

       Margaret mostrou-se surpreendida.

       -Não querias que tomasse conta dele? Não sejas estúpido! Claro que não! Nenhum de nós trabalhou muito durante todo o dia. Não ia mandá-lo para a rua depois do amo, ontem, quase o ter morto, não achas? De qualquer modo, já está bom.

       - Ótimo! - exclamou Baldwin, sentando-se junto à lareira e descalçando as botas. - Assim é melhor! Então, amanhã já poderá ir conosco!

       O rosto de Hugh tornou-se imediatamente desconfiado.

       - Porquê? Que vamos fazer amanhã?

       Simon sentou-se, agarrou na cintura da mulher e sentou-a no seu colo.

       - Vamos visitar a mulher misteriosa que lá estava quando a Kyteler morreu. A mulher que, de acordo com a má-língua, sente uma atração especial por agricultores jovens e fortes... - respondeu beijando-a.

 

       A escuridão adensava-se na altura em que o Bourc voltou a instalar-se, agachado, a espreitar a casa de Trevellyn. Sorriu para si mesmo quando alguns homens apressados passaram por perto. Nenhum deles o conseguiria ver, escondido como estava por trás de uma espessa mata de folhas e silvas. A poucos metros de distância, dois outros homens conversavam entre si enquanto desbastavam os ramos de uma árvore que tinham abatido. Encontravam-se ali quase desde o momento em que chegara, ao final da manhã, e ainda não tinham consciência da sua presença.

       Depois de cair na emboscada, o Bourc meditara cautelosamente no que iria fazer. Na primeira noite conseguira arranjar um quarto num pequeno lugarejo a sul de Crediton. O fato de se ter mantido no interior da floresta fizera com que a sua jornada demorasse muito mais do que previra, e também ficara surpreendido com a distância que tivera de percorrer para leste até encontrar uma ponte.

       No dia seguinte, quinta-feira, levantara-se cedo e atravessara o ribeiro por uma pequena ponte de madeira construída pelos aldeões. Não se apressara, encaminhara-se de volta a Crediton por trilhos e caminhos tranqüilos, evitando as aldeias e cidades. Precisara cavalgar quase até ao escurecer para chegar à pequena cabana onde já passara uma noite, e ficara satisfeito por poder acender uma pequena fogueira e mergulhar no sono.

       Passara a manhã de sexta-feira a recolher lenha para a fogueira e a planejar sua vingança. Sabia onde o homem vivia, pelo que não deveria ser difícil apanhá-lo de surpresa.

       Todos os homens ricos tinham hábitos previsíveis, tal como o Bourc sabia muito bem. Costumavam levantar-se com o Sol para tomarem um pequeno-almoço ligeiro com os servos antes de lidarem com qualquer assunto que o secretário lhe apresentasse. A seguir talvez infligissem castigos a eventuais prevaricadores. Por essa altura já estaria na hora da refeição principal, após o que saíam com os cães ou falcões para verem se apanhavam uma qualquer peça de caça antes de regressarem a casa com as carcaças.

       Daí que o Bourc devesse tentar apanhá-lo sozinho para poder ter alguma possibilidade de êxito. Não seria provável que conseguisse surpreender o Trevellyn quando este andasse na caça, uma vez que deveria estar na companhia de muitos homens.

       Ao fim da manhã, o Bourc cavalgara até à residência do mercador. Encontrara um ponto elevado que parecia não ser freqüentado e verificara, para sua grande satisfação, que o dono da casa não ia à caça. Vira os homens saírem com os cães e examinara o grupo, mas Trevellyn não os acompanhava. A seguir ouvira gritos e vira um moço-de-estábulo a ser espancado. Os berros de fúria e os lamentos de infelicidade chegaram-lhe aos ouvidos e levaram-no a contrair os maxilares com desgosto. Ao que parecia, o rapaz precisara de demasiado tempo para levar o cavalo ao amo quando este lhe pedira.

       Agora já era sábado e não estava mais perto de descobrir como chegar perto do homem, já por várias vezes pensara que iria ter uma oportunidade, mas acabara sempre por ser impedido por causa da proximidade de outros. Mesmo naquele momento, enquanto permanecia sentado na pequena elevação por trás da casa, de onde, no dia anterior, avistara o Trevellyn a vaguear sem destino durante o princípio da tarde, via toda uma série de trabalhadores que cortavam lenha ou a transportavam para a casa sob os olhos vigilantes do senescal do mercador. O amo também lá estava, mas num local demasiado perto da casa, onde o Bourc não tinha possibilidade de o alcançar.

       Continuava com o sorriso estampado no rosto quando decidiu partir e regressar à cabana para passar a noite antes que acabasse por morrer de frio. Colocou as mãos nas coxas para começar a erguer-se... mas imobilizou-se imediatamente ao ouvir a voz odiada a berrar com os dois homens que se encontravam ali perto.

       - Ainda não terminaram? Despachem-se com essa lenha, seus filhos-da-mãe preguiçosos! Por que tenho de lhes dar de comer se nem sequer são capazes de transportar a lenha de que precisamos para os cozidos?

       Houve mais frases do mesmo gênero mas o Bourc ficou surpreendido ao verificar que os homens não respondiam e redobravam os seus esforços para separarem os ramos do tronco da árvore. Conservavam os rostos fechados e preocupados, mas manobravam os machados envoltos num curioso silêncio que contrastava com a sua atividade frenética. Em geral, os homens respondiam quando o amo lhes gritava. Pelo menos, fora essa a idéia com que o Bourc ficara graças ao que já vira dos hábitos das camadas mais baixas daquele país.

       Todavia, aqueles dois quase não falavam e pareciam aterrorizados com o homem que berrava para eles a alguma distância, um pouco mais abaixo.

       - Não posso continuar, estou demasiado cansado - murmurou um dos homens.

       - Cala-te! Poupa o fôlego. Temos de o fazer ou arranca-nos as peles das costas. Sabes como ele é...

       - Não posso. Tenho de descansar ou morro...

       - Deixa-te de conversas! Continua... - Foi interrompido por um berro de raiva.

       - Que estão vocês a fazer? - O Bourc verificou, com surpresa, que o mercador aparecera subitamente para lá do limite das árvores. Fitava os dois homens com uma expressão furiosa e com as mãos nas ancas. - Então? Por que foi que abrandaram? Talvez isto vos dê um pouco de energia!

       Levantou a mão acima da cabeça e o Bourc viu que o mercador empunhava um chicote, que emitiu um silvo horrível, tão cheio de veneno como uma serpente. A seguir, o lenhador mais novo soltou um grito quando o chicote estalou. A dobra da túnica por cima do cotovelo abriu-se, caiu para o lado... e o sangue começou a manchar o braço do rapaz. O lenhador gemeu, ergueu o machado para continuar a trabalhar... e o chicote voltou a atingi-lo, agora nas costas.

       O lenhador mais velho continuou a cortar os ramos estoicamente, mas também não se encontrava a salvo. Foi apanhado por duas chicotadas, uma em volta da cintura e outra no peito, que o fizeram cambalear e lhe prenderam a respiração na garganta.

       - Peguem nos ramos que já cortaram e levem-nos para a casa!

       - Senhor, a carroça ainda não voltou... - A voz do lenhador mais novo falhou-lhe e o protesto foi o suficiente para uma nova chicotada.

       - Faz o que te mando se não queres voltar a sentir como elas te mordem!

       Do seu ponto de vantagem, o Bourc viu os dois homens recolherem braçadas de ramos e caminharem de volta à casa. Um deles choramingava e o outro mantinha-se silencioso, numa agonia tensa.

       - Despachem-se! Têm de terminar o trabalho antes da noite! - berrou o mercador para as costas dos dois trabalhadores. A seguir virou-se e olhou para a árvore cortada com um esgar trocista. - Estúpidos! - murmurou, com desprezo. Deu um pontapé num ramo, caminhou ao longo do tronco caído na direção das árvores... e o Bourc sorriu para si mesmo.

       Tossiu educadamente quando Trevellyn passou junto dele e ficou satisfeito ao ver o medo súbito no rosto do mercador quando este se virou de repente e deparou com o gascão.

       - Sr. Trevellyn, tenho muito prazer em vê-lo outra vez. Creio que temos uns assuntos a tratar...

       O chicote levantou-se por cima da cabeça do homem e silvou na sua direção.

 

       Naquela noite o estalajadeiro da Signo da Lua andava muito atarefado. Aparentemente, toda a gente da aldeia se dirigira ao seu salão para beber. Pouco mais havia para fazer numa noite tão fria e cheia de neve como aquela. Todavia, apesar de ser uma delícia ter a sala cheia de gente desejosa de beber a sua cerveja, esse fato não impedia que tudo aquilo fosse uma grande confusão e só esperava que a reserva de bebida aguentasse até que a próxima dose ficasse pronta.

       - Sim, sim, vou já... - murmurava o homem sempre que uma nova mão se erguia no ar ou uma nova voz o chamava. Se as coisas continuassem assim até à Primavera era provável que tivesse de arranjar alguém para o ajudar. Naquele momento ele e a sua esposa corriam de um lado para o outro tão desorientados como galinhas decapitadas, precipitavam-se para a dispensa para irem encher os jarros de cerveja ou de vinho, e corriam novamente para o salão onde se esforçavam por encher as canecas e tigelas antes de todas elas ficarem completamente vazias. Era como tentar caiar a muralha de uma cidade, pensou... Quando se chegava ao fim descobria-se que a cal do princípio já estava suja e desbotada e era preciso começar tudo de novo.

       O estalajadeiro observava um grupo com olhos particularmente azedos. Não era grande apreciador da má-língua, muito embora esta fosse moeda corrente ali na Lua. Por outro lado tinha um desagrado especial por boatos maliciosos que pudessem prejudicar ou ofender... e naquele dia era a família do moleiro quem parecia deter o monopólio desse tipo de comentário.

       Viu um homem levantar a caneca num apelo mudo e abriu caminho por entre os grupos de pessoas. Ouviu a conversa dos Millers enquanto o servia.

       - Mas como é que eles sabem que era a senhora Trevellyn quem andava com o jovem Harold? - ouviu um homem perguntar.

       Jennie inclinou-se para a frente, com o rosto muito sério.

       - Quem mais poderia ser? - perguntou. - Foi ela quem se aproximou do Greendiff e o provocou. Mais tarde, foram visitar a Agatha... e sabem o que isso quer dizer. A seguir foram embora depois de a matarem.

       - Estás a querer dizer que foram os dois? Que ambos assassinaram a Agatha?

       O estalajadeiro afastou-se a suspirar. Era mau ouvir conversas daquelas, capazes de arruinar as reputações das pessoas apenas como entretenimento para uma noite aborrecida. No entanto, uma coisa era certa: era uma história que iria meter alguém em grande problemas. Olhou para trás, para o amontoado de gente, com os olhos em busca de canecas vazias, mas estes voltavam a ser atraídos pelo pequeno grupo. Valeria a pena dizer-lhes que se calassem? Não, não lhe prestariam atenção. Punha-os na rua? Continuariam a conversar lá fora e faria menos negócio. O estalajadeiro encolheu os ombros. Eles que continuassem, pensou, e tratou de encher o jarro que tinha na mão.

       Havia ali outro homem nada satisfeito com aquela conversa. Stpehen de La Forte encontrava-se sentado junto dos biombos com as costas para a sala e com o rosto contorcido como se a cerveja afinal fosse vinagre.

       Tinha a caneca vazia. Virou-se para tentar chamar a atenção do estalajadeiro, mas em vez disso viu-se a enfrentar o olhar fixo da filha do moleiro, a mais velha, que o sujeitou a um atento escrutínio antes de puxar pela túnica da mãe.

       Jennie viu o rosto branco da filha a olhar para qualquer lado e calou-se. O grupo seguiu a direção daquele olhar e todos viram Stephen. As conversas calaram-se imediatamente como se a fonte que as alimentava tivesse secado... e de súbito todo o salão ficou em silêncio.

       Stephen descobriu que passara a ser o foco de todas as atenções. Levantou-se e caminhou para a mesa dos Millers, onde a mulher o fitava com uns grandes olhos atrevidos.

       - Deviarn ter vergonha - declarou num tom deliberado. -Estão para aí a dizer que foram eles quando não há nada que o prove... exceto o fato dela... - apontou para Jennie - afirmar que estava na estrada naquele dia. Não há mais nada que prove que tiveram alguma coisa a ver com aquilo. Nada!

       - Ora, vamos lá, Stephen... - disse uma voz - não há mal nenhum em interrogarmo-nos. Era o que estávamos a fazer, a perguntar a nós mesmos quem poderia ter sido...

       Stephen rodopiou para enfrentar quem falara, um homem mais velho com um rosto redondo e papudo, com cabelos grisalhos.

       - Não há mal nenhum? Já todos vocês se convenceram de que eles são culpados, não é verdade? Eh? - Olhou em volta da mesa. fitando-os nos olhos, até encontrar os de Jennie Miller. Foi nesse momento que os seus lábios se encurvaram com desprezo. Abanou a cabeça com desgosto, virou-lhes as costas e foi-se embora, puxando a cortina com tanta força que quase a arrancou dos suportes.

       O vento voltara a ganhar força e chicoteava a neve transformando-a numa espécie de fumo espesso que rodopiava na frente dele, impedindo-lhe a visão e tornando difícil ver o chão por baixo dos cascos dos cavalos. Foi com uma praga de pura fúria que o Bourc saltou da sela. Estremeceu quando os movimentos repuxaram as crostas recentes dos cortes nas costas e passou a conduzir os cavalos à mão, tentando manter a cabeça virada para o sul. Aquilo era pior do que tudo o que jamais experimentara.

       Ali, já tão longe no interior da charneca, tornava-se muito difícil manter um rumo definido. Perdera todo o sentido da direção e era-lhe quase impossível adivinhar para que lado ficava o sul. Todavia, era uma pessoa tenaz e determinada. Nunca antes falhara na descoberta do caminho apropriado, nem sequer quando se vira no alto de montanhas, e estava consciente que acabaria por vencer embora ocasionalmente soltasse uma praga ao lembrar-se das estradas e dos trilhos fáceis mais para norte, que esquecera em favor daquele percurso muito mais difícil.

       Inicialmente conseguira fazer um bom tempo. Reunira mais lenha e armazenara-a em molhos que colocara no dorso do cavalo de carga. O céu mantivera-se limpo para sul, sobre a zona das charnecas. A norte vira algumas nuvens escuras a obscurecer as estrelas. Todavia, essa situação mudara logo que pisara as ondulantes colinas. O vento começara a soprar em rajadas e trouxera consigo um certo sal do mar, mas ao fim da manhã já se mostrara repleto de um frio cortante.

       A neve lançou-se contra ele num turbilhão e o cavaleiro puxou o capuz para a cara. No alto das charnecas o vento podia mudar de direção e rodopiar de um lado para o outro como um lutador bem treinado e habituado a servir-se de uma faca. O caminho era impossível de descobrir.

       Virou-se e olhou para trás, já nem conseguia ver os seus próprios rastos. As pegadas enchiam-se de neve logo que levantava os pés do chão. Soltou nova praga, obrigou o cavalo a virar a cabeça e começou em busca de um qualquer tipo de proteção: um muro, até uma árvore, qualquer coisa que lhe desse algum alívio conta o assalto dos elementos.

       Simon inclinou-se sobre a frente da sela, começou a descer a colina na direção da grande casa quadrada e cinzenta e soltou um suspiro.

       - Não tenho certeza de estar pronto para isto... - admitiu.

       Baldwin soprou o ar das bochechas e espreitou em frente.

       - Também não tenho a certeza... - respondeu.

       Tinham partido um pouco antes do nascer do Sol, mais uma vez na companhia de Edgar. As bolsas dos cavalos estavam cheias, os odres do vinho sacolejavam alegremente para o caso de terem de ficar em qualquer lado e tinham-se visto obrigados a cavalgar através de espessos montes de neve para conseguirem chegar até ali.

       Nalguns pontos, os montes de neve eram tão espessos que haviam sido forçados a abandonar a estrada e a deslocarem-se por entre as árvores, onde o vento não acumulava a neve. Os trilhos de ovelhas e de veados facilitavam o avanço e só ocasionalmente tinham regressado a estrada até se verem obrigados a circunavegar novas acumulações de neve. Quando saíam do meio das árvores verificavam que o fino pó branco se apossara de toda a terra.

       Por fim, tinham sido obrigados a esquecer completamente as estradas. A neve bloqueara completamente o caminho no local onde a estrada se abria por baixo da casa de Greendiff. Desviaram-se para norte, para um trilho que Baldwin recordava vagamente e que os fez subir a vertente de uma colina sob a proteção das árvores, até se encontrarem a quase dois quilômetros do campo onde tinham encontrado o corpo de Agatha Kyteler. Finalmente, quando as árvores ficaram para trás, descobriram-se num cerco liso e arredondado, onde parecia que a neve não se acumulara por ter sido soprada para longe pelos fortes ventos noturnos.

       Agora, no alto da colina com vista para a casa, verificavam que o dono da mesma e a respectiva esposa deveriam encontrar-se no interior porque o fumo se erguia tranqüilamente das chaminés. Havia alguns rastos a saírem da propriedade junto à estrada mas percorriam uma pequena distância, como se alguém tivesse avançado até ao prirneiro monte de neve para logo em seguida voltar para casa.

       Baldwin observou a cena e não distinguiu quaisquer sinais de movimento. Suspirou, viu o bafo a dissipar-se no ar gelado e olhou para Simon.

       - No mínimo, deve haver qualquer coisa quente para bebermos lá em baixo.

       - Sim, graças a Deus! Estou tão gelado que tenho a sensação de que os cabelos se partiriam se lhes tocasse - respondeu o almoxarife por entre os dentes firmemente cerrados para evitar que tiritassem. - Vamos sentar-nos junto de um fogo antes de morrermos.

       No fundo da colina tiveram de se desviar muito para a direita para conseguirem evitar mais um monte de neve espesso e inultrapassável. Rodearam-no e viram-se de novo no meio das árvores, onde a neve era mais fina. Contudo, de onde se encontravam não conseguiam distinguir nenhum caminho na neve do outro lado e pouco depois já Simon ouvia Baldwin a murmurar e Edgar a praguejar.

       Acabou por ser Simon o primeiro a ficar irritado e a perder a paciência. Contraiu os maxilares, abaixou a cabeça, chicoteou o cavalo e abriu o caminho para os outros. A neve chegava à altura do peito do seu pesado cavalo mas o animal era forte e seguiu em frente, relinchando baixinho e dando saltos curtos num esforço para ultrapassar o obstáculo gelado.

       Uma vez do outro lado, Simon cavalgou para a casa com um passo rápido, meio a galope, meio a trote, sem sequer olhar para trás para ver se os outros o seguiam. Na verdade, só teve a certeza de que estavam com ele quando se deteve junto à pequena torre que protegia a porta principal e ouviu a risadinha do amigo. Até Edgar parecia divertido. Contudo, quando o almoxarife o olhou com uma expressão furiosa, o servo pareceu atarefar-se com o saco que levava amarrado à sela. Mesmo assim, Simon teve a certeza de lhe ouvir uma risadinha baixa logo que se separou para a frente.

       Simon martelou na porta, rodou sobre a sela e olhou para a paisagem branca. Para seu desgosto, viu que a neve começara novamente a cair sob a forma de um leve chuveiro de partículas tão secas e finas como cinzas. Era como se chovesse farinha...

       - Será melhor que nos despachemos - disse Baldwin, quando se aproximou, com os olhos postos no céu cor de chumbo. - Se a neve piorar, e tem esse aspecto, poderemos ficar aqui presos durante dias.

       Simon grunhiu mas ouviu o trinco da porta ser aberto. Virou-se e avistou uma jovem serva.

       - Ah, ótimo! Queremos falar com o teu amo. Ele esta ... ? Calou-se de repente quando a jovem se sobressaltou e levou um punho à boca enquanto os fitava com olhos aterrorizados. - Que se passa, rapariga?

       - É o amo, senhor! Desapareceu! Não sabemos onde ele está!

       A jovem conduziu-os para o interior. O corredor com pavimento de pedra que ficava para lá da porta era muito comprido e chegava até ao outro lado do edifício, onde uma nova porta dava acesso à área dos estábulos e das construções anexas. Para a esquerda ficavam três portas e quando Simon as espreitou verificou que a primeira conduzia à dispensa. As outras deveriam ser da cozinha e da lavandaria. Para a direita havia duas outras portas que se abriam para o próprio salão.

       Simon entrou e ficou espantado com a magnificência da sala. Era muito vasta para uma casa de família, quase tão grande como o salão do castelo de Tiverton, com um teto muito alto apoiado em colunas semelhantes às da igreja de Crediton. Havia bancos e mesas alinhados contra as paredes, que deixavam uma passagem central que conduzia a um estrado. Simon não conseguiu impedir-se de estudar as tapeçarias de aspecto rico que se encontravam suspensas nas paredes, bem como a imensa lareira. O fogo rugia em torno de troncos maciços que na sua casa teriam de ser encurtados e partidos. Olhou em volta, viu que havia um corrimão por cima do corredor por onde entrara, e que de um dos lados existia uma escada para os músicos, o que queria dizer que lá no alto deveria existir uma espécie de terraço onde estes se podiam instalar para tocarem enquanto o dono da casa e a esposa se sentavam para as refeições.

       Era óbvio que se tratava de uma casa onde imperavam as velhas tradições. A mesa do proprietário erguia-se na outra extremidade da sala, sobre o estrado, e tinha o tampo coberto de pratos e canecas. A família ainda comia no salão com os servos e os amigos, ao contrário de muitos outros amos e das respectivas esposas, que tomavam as refeições nos aposentos privados, cuja entrada se encontrava para lá do estrado.

       Porém, quando Baldwin e Simon avançaram sobre o pavimento, com Edgar a manter-se muito respeitosamente atrás deles, o que mais lhes chamou a atenção não foi o salão propriamente dito mas sim a figura solitária sentada numa cadeira, à frente do estrado. Era a figura delgada de uma jovem mulher vestida de azul.

       Era a primeira vez que Baldwin via a senhora da casa e começou a examinar com calma e com uma indiferença estudada, reparando no vestuário e no porte. Não podia ter muito mais do que 20 e poucos anos. Os cabelos eram do negro mais profundo, com brilhantes reflexos azulados quando a luz os atingia, e haviam sido penteados em tranças espessas tão espessas como os seus pulsos, que lhe caíam sobre os ombros. A pesada túnica parecia ser de lá, e tinha o peito ornamentado com quatro fivelas douradas. Todavia, o que atraiu os olhos do cavaleiro não foram as roupas mas sim ela. A mulher era quase dolorosamente bela.

       O rosto era um oval perfeito com maçãs altas e elegantes, por cima das quais havia um par de olhos verdes ligeiramente inclinados para o nariz. As sobrancelhas eram dois arcos negros. Tinha um nariz fino e direto, sob cujas narinas delicadas se abria uma boca voluptuosa com lábios salientes e convidativos. Era delgada, elegante e mostrava-se confiante e orgulhosa. Conservava-se sentada com as mãos nos braços da cadeira e parecia sujeitá-los a um atento escrutínio.

       Levantou-se langorosamente quando se aproximaram dela, como se estivesse fatigada pela falta de sono, e virou-se para a serva que lhe explicou, com algumas hesitações, quem eram os visitantes. Baldwin observou-a com cuidado enquanto a serva falava. Porém, para além de um relance rápido dos seus olhos verdes, não lhe notou qualquer reação especial ao tomar conhecimento da chegada do Guardião da Paz do Rei. Seria imaginação sua, ou os olhos da jovem estariam um pouco avermelhados?

       - Cavalheiros, são bem-vindos. Por favor sentem-se junto do fogo e aceitem a nossa hospitalidade. - A voz era suave e baixa, e o movimento delicado da mão que apontou para as chamas foi tão gracioso e natural que o cavaleiro se descobriu a virar-se para a lareira como se tivesse perdido toda a sua força de vontade... e gostou da sensação.

       Avançou lentamente, seguiu Simon para uma tripeça junto da lareira e ficaram ambos de pé à espera que a mulher se juntasse. De mais perto, Baldwin já podia ver que a jovem tinha uma pele macia, tingida por um leve e quente tom trigueiro. A dona da casa sentou-se e o cavaleiro não conseguiu impedir-se de lhe percorrer a figura com os olhos, desde o pescoço delgado ao volume dos seios sob a túnica, e depois daí para baixo, para a finura da cintura e para o arredondado das ancas. Levou os olhos de volta as faces da jovem o mais depressa que foi capaz mas compreendeu, pelo olhar que ela lhe lançou, que percebera da inspeção, aparentemente sem desagrado. A boca contorceu-se-lhe, como se estivesse prestes sorrir para ele. Contudo, logo a seguir, virou o rosto para Simon com uma expressão interrogativa. Este começou, hesitante, com os olhos postos no colo.

       - Minha senhora, peço desculpa por termos aparecido assim, de repente. Deve estar a passar por um momento difícil. A serva disse-nos que o seu marido está desaparecido.

       - Sim - respondeu com um suspiro. - Saiu de casa ontem ao fim da tarde. Hoje de manhã quando acordamos, ainda não tinha aparecido.

       - O cavalo...

       - Está nos estábulos e isso é o mais surpreendente... - A voz apagou-se-lhe enquanto se virava para o fogo com a testa franzida.

       -Já alguma vez tinha desaparecido deste modo? - interveio Baldwin.

       - Não. Nunca nos cinco anos em que estou casada com ele. Nunca o tinha feito.

       - Ter-lhe-á acontecido alguma coisa recentemente que o obrigasse a partir?

       Hesitou um pouco e lançou-lhe uma mirada rápida que o cavaleiro não conseguiu interpretar.

       - Não.

       Simon tossiu e suspirou.

       - Pode ser uma sorte ele não estar aqui neste momento - disse lançando um olhar nervoso para Baldwin como se quisesse confirmar que era aquele o momento correto para abordar o assunto. O cavaleiro reagiu com um ligeiro encolher de ombros de indiferença. - Minha senhora, viemos aqui para falar consigo e não com o seu marido.

       - Comigo? - A surpresa da jovem pareceu genuína. - Por que?

       - Minha senhora... - interrompeu-se novamente, olhando para Baldwin em busca de apoio. - Isto é muito difícil...

       O cavaleiro inclinou-se para a frente e sorriu para a mulher, fitando-a com um olhar intenso.

       - Senhora Trevellyn, lamento ter de lhe pedir, mas estamos a investigar o assassínio de Agatha Kyteler.- Ficou com a certeza de que a vira sobressaltar-se ao escutar o nome. - Precisamos saber o que foi fazer a casa dela no dia em que a mataram.

       - A casa dela? - Parecia estar a refletir sobre se deveria negar que lá estivera. Por isso, para a impedir de mentir. Baldwin interveio rapidamente.

       - Sim, minha senhora. Foi vista no trilho que dava acesso à casa da velha senhora, e foi vista a tentar esconder-se. É uma pessoa demasiado única para se conseguir ocultar os olhos das pessoas da aldeia. - A jovem inclinou a cabeça, como se aceitasse a afirmação como um cumprimento. Baldwin ficou um pouco incomodado, por não ter certeza de que fosse essa a sua intenção. - Também viram o seu cavalo... com o Harold Greendiff.

       - Ah! parecem que já têm certeza de que estive lá.

       - Sim, minha senhora, mas não sabemos porquê... e é isso o que gostaríamos que nos dissesse.

       A mulher susteve o olhar do cavaleiro com uma certa dose de desagrado.

       - Fui lá para comprar uma poção. Sentia-me doente já há alguns dias. Vi-a no sábado para lhe pedir a poção e disse-me que voltasse quando tivesse colhido os elementos necessários para fabricar. Foi na terça-feira.

       - Por que se escondeu? - perguntou Simon de rosto franzido.

       - Escondi-me?

       - Sim. Escondeu-se no meio das árvores quando apareceram outras pessoas. Porquê?

       Era como se a mulher estivesse fascinada por Baldwin. Mantinha os seus magníficos olhos verdes postos nele enquanto falava e respondia as rápidas interrupções de Simon quase sem o olhar, nem sequer de esguelha.

       - Que mais queria que fizesse? A aldeia esta cheia de linguarudos e não tinha interesse em que as pessoas soubessem que ia para lá. Afinal de contas, dizia-se que a mulher era uma bruxa e não queria que me associassem a ela. Era uma pessoa útil mas desejava vê-la em particular, e não com toda a aldeia a espreitar.

       Simon olhou para Baldwin e encolheu os ombros. O cavaleiro sorriu numa aceitação da derrota do almoxarife. Estudou o belo rosto que tinha na frente. Aquela mulher seria capaz de assassínio? Interrogou-se e viu os olhos dela a encherem-se de uma tristeza líqüida que a obrigou a pestanejar para os limpar. Porém, quando falou fê-lo com uma voz forte e firme.

       - Será crime manter essas coisas em privado?

       Baldwin, voltou a encolher os ombros e recostou-se enquanto a jovem prosseguia.

       - Sim, escondi-me, mas só para que os linguarudos da aldeia não me vissem. Dirigi-me a casa depois de as deixar passar. Falei com a velha, recebi a poção e fui-me embora...

       - As minhas desculpas, senhora - interrompeu-a Baldwin - mas esteve a sós com ela durante todo o tempo?

       - Sim.

       - E ninguém a viu entrar na casa?

       - Não - respondeu com a testa franzida pelo esforço para se recordar. - não me parece. No entanto...

       - Sim?

       - Tive a sensação de estar a ser vigiada como se houvesse um homem entre as árvores, mas não vi ninguém.

       - Por favor, continue.

       - Como já disse, aceitei a poção e fui-me embora. Voltei para onde deixara o cavalo e regressei a casa.

       - A que horas chegou a casa?

       - A que horas? - Pareceu surpreendida com a pergunta. - Não sei, já tinha escurecido. Talvez uma hora depois das cinco?

       - E que horas seriam quando esteve com a Agatha Kyteler?

       Fez um trejeito de indiferença.

       - Talvez por volta das quatro, mas não tenho certeza.

       Foi a vez de Simon fazer uma pergunta:

       - Limitou-se a receber a poção? Então, só precisou de alguns minutos...

       - Não - retorquiu com serenidade. - Fiquei durante o tempo suficiente para tomar a mistura. Para a beber, compreendem? Só fui embora depois disso.

       - Estava lá alguém quando saiu? - inquiriu Baldwin.

       - Eu... - A mulher hesitou.

       - Sim?

       - Não vi nada, mas pensei que havia alguém por perto. Foi apenas um pressentimento, sabem? Todavia, lembro-me de ter pensado que estava alguém no meio das árvores. Não sei porquê. Por outro lado, a Agatha parecia estar ansiosa por se ver livre de mim.

       - E foi tudo?

       - Creio que sim.

       - A seguir foi direto ao cavalo?

       - Sim - confirmou a mulher, fitando-o.

       - O Greendiff estava lá?

       - Sim. Tinha-o encontrado mais cedo e perguntei-lhe se se importava de tomar conta da égua enquanto eu visitava a Kyteler.

       Simon interrompeu-a.

       - No entanto, disse-nos que não queria que os aldeões soubessem que tinha lá ido e que foi por isso que se escondeu no meio das árvores durante o caminho. Por que não se importou com a presença do Greendiff?

       A jovem olhou-o e abriu a boca, mas não emitiu um único som durante alguns instantes. As seguir virou-se para Baldwin, como que num apelo silencioso.

       - Conheço o rapaz, que é tão vítima da má-língua como eu. Concordou em tomar conta do cavalo, e é tudo.

       O cavaleiro acenou lentamente. Fazia sentido, concluiu. Para a sua mente, aquilo fazia muito mais sentido do que a hipótese de uma mulher de alto nascimento ter um caso de adultério com um humilde agricultor.

       - E quanto à Grisel Oakway? - perguntou Simon, pressentindo que tinha ali uma vantagem que estava disposto a explorar.

       Dessa vez, a mulher nem sequer o olhou.

       - Não a vi - respondeu, num tom de voz perfeitamente convicto.

       Baldwin voltou a inclinar-se para a frente e preparava-se para falar quando a porta do corredor se abriu para um senhor que corria excitado.

       - Senhora! Senhora! Venha depressa! Por favor, venha depressa!

       Puseram-se todos de pé num salto e olharam para o homem que se deteve de repente, com as botas e a bainha da túnica a pingarem neve.

       - O que foi? - inquiriu a jovem, aparentemente irada com a interrupção.

       - Senhora, é o amo! Está morto!

       Simon ficou a olhar para o homem de boca aberta. Virou-se para Baldwin e verificou que o amigo também ficara chocado. Porém, nessa altura, o almoxarife lançou uma olhadela a viúva e imobilizou-se com o coração apertado por garras de gelo. Não havia qualquer tristeza nos seus olhos. Nas profundezas daqueles lagos cor de esmeralda via-se apenas um brilho cruel e maldoso.

 

       Aquele estranho brilho não se manteve muito tempo e foi rapidamente coberto por uma expressão que não sendo de tristeza, tinha pelo menos um certo grau de desgosto respeitável.

       - Onde? - perguntou com simplicidade e o homem conduziu-os para o exterior com Edgar a fechar a retaguarda, em silêncio.

       Caminharam rapidamente com o servo a manter uma constante torrente de pedidos de desculpa e de perdão, até que a mulher o mandou silenciar com um gesto seco e o homem se calou. O homem conduziu-os para o exterior pela porta do estábulo, atravessaram o pátio coberto de neve já toda pisada e transformada numa pasta acastanhada, e avançaram para um portão gradeado aberto na parede que dava para os pastos, onde se distinguiam perfeitamente as pegadas que seguiam diretamente para a floresta. Era um local onde as árvores pareciam estar a ser desbastadas para limpeza de um novo pasto ou apenas para aumentar as terras à disponibilidade da residência. Junto à linha das árvores encontrava-se um outro servo, que apoiava o peso do corpo ora num pé, ora no outro, visivelmente agitado e a contorcer as mãos. Foi para aí que se dirigiram sem mais uma palavra.

       Ao princípio o terreno descia, o que dava à casa uma espécie de proeminência solitária. No fundo da descida havia um pequeno riacho que se encurvava preguiçosamente em torno da mansão. A neve não conseguira cobrir o ondulante fio de água e amontoara-se dos dois lados do mesmo numa espécie de falésias brancas. Simon pensou que se parecia com uma ravina em miniatura, uma pequena réplica da própria Lydford, onde agora vivia.

       O servo levou-os para uma ponte construída com resistentes tábuas, suficientemente larga para deixar passar uma carroça, e a seguir treparam a vertente em direção à figura que os esperava junto das árvores. Era um homem de meia-idade, com o rosto corado pelo frio, cujas feições sólidas e quadradas revelavam o terror que sentia. Era como se até tivesse medo de falar. Os músculos tremiam-lhe como se sofresse de sezões e tinha a boca a contorcer-se, a testa a enrugar-se e as pestanas a flutuar. Apontou sem proferir uma palavra mas depois recordou-se de quem era e teria caído de joelhos se o cavaleiro não lhe tivesse ordenado, com secura, para o conduzir ao seu amo. O homem lançou um olhar hesitante para a senhora da casa, viu-a acenar, virou-se e começou a cambalear por entre as árvores. Não era longe.

       Havia ali uma pequena clareira semicircular, onde os troncos haviam sido cortados a poucas dezenas de centímetros acima do solo, e Simon compreendeu que se tratava de um viveiro. As árvores velhas estavam a ser cortadas para permitirem o crescimento de árvores novas. Quando as novas plantas crescessem, poderiam ser aproveitadas para serem utilizadas em cercas, como varas ou até para serem queimadas na lareira.

       Na extremidade mais distante, para onde o servo os conduzia, havia um corte aberto na floresta, como uma espécie de dedo invasor a separar as árvores umas das outras. No interior encontrava-se um grande carvalho recentemente abatido, que jazia de lado à espera de ser dividido em tábuas ou lenha. O homem levou-os para lá e ali, ao lado do tronco, jazia uma forma enrolada. Baldwin avançou, levantou uma das mãos para deter os outros e agachou-se junto da figura.

       Simon ouviu-o ofegar repentinamente, virou-se para os outros e pediu:

       - Esperem aqui! - A seguir deu alguns passos e juntou-se ao cavaleiro. - Oh, meu Deus!

       A neve em volta do corpo estava coberta por coágulos de sangue, negros e congelados.

       Ficou imóvel com os olhos postos no chão durante todo um minuto. A seguir, como se tivesse acordado, respirou fundo e deixou o ar sair num longo jato. Começou a respirar lentamente e espreitou em volta daquele pequeno espaço. Baldwin estava a seu lado, com os olhos postos na figura caída. Era do outro lado dela que se encontrava a maior parte da concentração de sangue, como se tivesse saltado para a frente sob grande pressão, com os coágulos mais espessos perto do corpo e os menores um pouco mais longe.

       Estudou-o e concluiu que era como se a torrente de sangue tivesse sido impelida numa única direção. Não se espalhara num círculo. Começara um pouco à esquerda, numa leve mancha, e depois espalhara-se em leque. Olhou para o corpo e verificou que estava virado nessa mesma direção.

       Allan Trevellyn encontrava-se parcialmente coberto de neve. Caíra de joelhos, com o torso e os braços esticados para a frente como se rezasse, e tinha a cabeça apoiada no chão, entre os braços. Só um dos lados do corpo fora limpo da neve e o outro continuava tão branco como o próprio solo. Simon imobilizou-se momentaneamente, mas a seguir abaixou-se, apoiou-se nos joelhos e nas mãos e espreitou o corpo.

       Endireitou-se e apontou para o agitado servo.

       - Tu! Encontraste-o aqui?

       - Sim, senhor. Vinha recolher lenha para o armazém quando tropecei em qualquer coisa. Pensei que fosse um cepo... ou um tronco ... Não fazia idéia de que era o amo... Dei-lhe um pontapé, a neve caiu ... e vi que era... - O homem pareceu ter esgotado todas as suas energias.

       - Limpaste a neve com as mãos?

       - Não, senhor. Dei-lhe um pontapé, ela caiu e eu...

       Simon interrompeu-o com aspereza.

       -Já sabemos isso. Veio aqui mais alguém ver o corpo depois que o descobrires? Houve alguém que tocasse no corpo?

       - Não, senhor. Fiquei aqui, ao pé do amo, até os senhores chegarem. Não me afastei.

       O almoxarife acenou e virou-se para o cavaleiro, que lhe perguntou:

       - O que é, Simon?

       - Olha! - retorquiu, apontando. - Há neve sobre o corpo... mas o sangue está por cima da neve...

       - Não faz grande sentido... - admitiu o Baldwin.

       - Pois não. De certeza que não se enterrava na neve depois de estar morto, não achas? Houve alguém que empilhou a neve em volta do corpo... e ali... - indicou as marcas no topo do monte de neve que cobria os flancos do cadáver - estão as marcas de dedos a prová-lo!

       - Vamos ver o que foi que realmente o matou.

       Simon grunhiu um assentimento e os dois homens começaram cuidadosamente a limpar a neve amontoada em volta do cadáver.

       - Querem que um dos homens vos ajude? - perguntou a senhora Trevellyn.

       Simon levantou a cabeça e olhou para os dois homens antes de voltar a prestar atenção ao cadáver.

       - Não - respondeu. - Acho que o podemos fazer sozinhos. No entanto, pode mandar um deles em busca de uma carroça para transportarmos o morto para casa?

       - Sim, claro. Estarei lá dentro se precisarem de mim. - Estremeceu e apertou os braços contra o corpo. - Faz demasiado frio para mim...

       Simon acenou e viu-a regressar a casa, seguida pelos dois servos, que se arrastavam como dois cães confusos à espera de serem espancados. Virou-se para a frente e reparou em Baldwin. O cavaleiro também a observava.

       Para surpresa de Simon, não precisaram de muito tempo para remover a neve do cadáver de Allan Trevellyn. Pouco depois já lhe tinham libertado as costas e os flancos, pelo que o morto, agora, parecia estar rodeado por um pequeno fosso. A posição em que se encontrava era mais visível, com os braços estendidos como que numa súplica.

       - É provável que tenha caído mesmo assim... - comentou o cavaleiro com secura. exprimindo o seu ponto de vista quando Simon lhe apontou o fato.

       - Bom, vamos virá-lo!

       Agarram ambos num ombro do corpo e puxaram-no com força. Ao princípio foi como se o congelamento o tivesse colado a própria terra. Simon chegou a pensar que era como se o chão soubesse que o homem seria enterrado em breve e não desejasse desistir do que já sabia ser seu. Porém, embora com relutância, o solo desistiu da luta e soltou o corpo repentinamente, pelo que Simon quase caiu quando o corpo de Trevellyn se moveu e ficou deitado de lado.

       O almoxarife fitou os olhos esbugalhados, a língua enegrecida e as manchas negras e vermelhas em torno da boca onde o sangue espirrara, secara, ou congelara por cima do profundo ferimento onde a faca do assassino cortara as cartilagens amareladas da traquéia antes de seccionar as artérias... e descobriu-se a engolir com força para manter à distância o amargo da bílis.

       - É interessante... - murmurou Baldwin, inclinando-se para trás para se sentar sobre os calcanhares depois de ter estudado os ferimentos. - Morreu tal como a Kyteler.

       O almoxarife confirmou com uma voz muito áspera.

       - Sim, fizeram-lhe o mesmo que a bruxa.

       O cavaleiro olhou o rosto do morto de mais perto e Simon distinguiu toda uma série de arranhões de onde o sangue escorrera. O homem parecia ter sido atingido por uma arma pesada de qualquer tipo.

       - Um maça... ou talvez um cacete.... - murmurou o cavaleiro para si mesmo. Além disso, o corpo pouco mais tinha para lhes dizer.

       Não tiveram que esperar muito pela chegada dos homens que iriam transportar o corpo para casa, e Simon entregou-o com todo o prazer. Viu os homens a recolhê-lo, a rolarem-no para um cobertor e a cambalearem para a carroça, mas manteve-se bem afastado, longe da mirada daqueles olhos de peixe morto, que nada viam.

       Nem sequer as mortes do ano anterior haviam sido tão más como aquelas. Na altura pelo menos, tinha ocorrido toda uma série de crimes levados a cabo por bandidos, por fora-da-lei que vagueavam de um lado para o outro sem outros meios de subsistência. Ninguém estava a salvo dos aumentos de preços que tornavam os alimentos cada vez mais caros, o que por sua vez levava os senhores das terras a reconsiderarem o número de dependentes que podiam ter a seu cargo para depois expulsarem os que constituíam um fardo. Não era de surpreender que alguns desses homens recorressem à violência para obterem o que necessitavam, em especial agora que, por lei, todos os homens eram obrigados a possuir armas para sua defesa. Além disso, a Lei também impunha que se treinassem com essas mesmas armas para melhor defesa das comunidades e deles próprios. Não, não era de surpreender que alguns decidissem recorrer à violência quando o mundo lhes recusava uma maneira honesta de ganharem a vida.

       Era uma situação diferente e uma razão quase compreensível para uma vida de banditismo. Porém, aquilo? Duas mortes como aquelas?

De certo modo eram muito mais horríveis graças ao fato de serem únicas. Talvez não fossem tão chocantes se acabassem por aparecer outros corpos. Talvez fosse a sua individualidade, dura e solitária, o que as tornava tão hediondas.

       Simon parou por momentos quando a carroça iniciou o lento regresso à casa, chiando e sacolejando sobre o solo irregular. Tal como a bruxa pensou pela segunda vez. Foi então que sentiu aquele formigueiro na nuca e os cabelos começaram a pôr-se de pé. De súbito, era como se estivesse banhado em suores frios.

       - Que se passa, Simon? - perguntou-lhe o amigo ao vê-lo parado.

       - Estava a pensar. Como foi que encontramos o corpo? Ajoelhado, como se estivesse a rezar... ou talvez de joelhos, a implorar? Teria estado a implorar pela vida?

       Quando regressarem tornou-se óbvio, pelo menos para Angelina Trevellyn, de que estavam ambos imersos em profundos pensamentos. Entraram sem falar, dirigiram-se para um banco e sentaram-se, com o servo de pé por trás deles. Angelina bateu as palmas logo que os viu sentados e ficou satisfeita ao verificar a rapidez com que o servo apareceu para os servir. Entregou-lhes canecas e serviu-lhes o vinho quente e condimentado, para depois deixar o jarro junto ao lume para não arrefecer.

       - Podem dizer-me como foi que morreu? - acabou a mulher por perguntar.

       - Minha senhora, cortaram-lhe... o pescoço. - Baldwin ficou calado e a espreitar para a caneca por instantes, mas acabou por levantar os olhos. - Tem alguma idéia sobre quem poderá ter feito isto?

       Simon levantou a cabeça e teve a certeza de ver uma expressão estranha no rosto da mulher. Medo? Incerteza? No entanto, desapareceu imediatamente e as faces da jovem pareceram ganhar uma nova tranqüilidade enquanto refletia.

       - Não, não me lembro de ninguém capaz de desejar tal coisa. O Allan sempre teve mau feitio... mas era preciso que alguém o odiasse muito para fazer uma coisa daquelas, não acham?

       - Terá discutido com alguém recentemente?

       A mulher olhou-o com uma expressão séria.

       - Senhor, se sabe alguma coisa a respeito do meu marido, também deve saber que foi sempre forte e resoluto. Era corajoso e não temia nenhum homem. Além disso, nunca escondia os seus sentimentos.

       - É verdade que espancou um servo quase até à morte, há pouco tempo?

       - Oh, nada sei a esse respeito. É verdade que batia nos homens se fossem lentos ou estúpidos... mas há tantos assim! Sabe bem como são os servos! São como cães e precisam ser treinados. Tinha de lhes bater para os manter alerta... mas isso não é razão para o matarem.

       - O seu marido conhecia a bruxa? - perguntou Simon de repente. Angelina virou o rosto para ele com um medo súbito.

       - A... a bruxa? - acabou por dizer, numa tentativa para exprimir surpresa. Parecia muito insegura sob o olhar de Simon. Lambeu os lábios num gesto nervoso, esboçou uma encolhidela de ombros e virou-se novamente para Baldwin.

       O cavaleiro comentou:

       - O almoxarife interrogava-se sobre se poderia haver alguma ligação... Sabe, o seu marido morreu de um ferimento semelhante ao da Agatha Kyteler.

       Angelina Trevellyn ficou a olhá-lo e Simon soube, instintivamente, que não se tratava de uma representação. O choque tinha toda a aparência de ser honesto.

       - Semelhante? Que quer dizer? - perguntou, instante depois.

       O cavaleiro encolheu os ombros.

       - Foi exatamente igual. Foi assim que ela morreu, com a garganta cortada por um único golpe.

       - Eu... preciso pensar. Cavalheiros, lamento, mas isto é difícil. Importam-se de me deixarem? Tenho de... Por favor, vão-se embora! - Não havia como recusar aquele último apelo desesperado. Simon e Baldwin pousaram as canecas do vinho, levantaram-se, fizeram vênias e saíram.

       Encontraram os cavalos no pátio e saltaram para as selas, já junto do portão, o cavaleiro virou-se para o almoxarife.

       - Onde pensas que devemos ir agora?

       - Neste momento só há uma coisa que eu gostava de saber, ou seja, por onde terá andado o Greendiff na noite passada – retorquiu Simon num tom seco. Levantou os olhos a pensar que o cavaleiro ainda estava a olhar para ele, mas compreendeu que o amigo espreitava por cima do ombro. Olhou para trás e viu que Angelina se encontrava à entrada, vendo-os a afastarem-se. Virou-se para a frente com um suspiro e reparou no rosto de Baldwin que exibia um pequeno sorriso distante...

 

       A luz enfraqueceu e a terra ficou coberta por um tom acinzentado e uniforme onde não havia distinções entre o céu e a terra. A neve ganhou uma tonalidade sombria que parecia refletida pelo céu. Não havia sombras para o ajudar e o Bourc tropeçava e cambaleava enquanto prosseguia, conduzindo os cavalos pelas rédeas.

       Felizmente, o vento morrera e o solo coberto de neve macia emitia um brilho pálido. Só avistava colinas onduladas à sua volta, salpicadas aqui e acolá, nos pontos mais altos, por saliências rochosas irregulares.

       Não se atrevia a montar para não se arriscar a levar os cavalos para terrenos perigosos. Era melhor conduzi-los à mão, sondando o terreno a cada passo que dava. Todavia, teria de parar muito em breve para procurar um lugar onde pudesse recuperar das canseiras do dia. O cavaleiro deteve-se fatigado, levou a mão à testa e olhou em torno. Os seus olhos saltitaram pelos topos de várias colinas até pousarem numa delas.

       Erguia-se a uns dois quilômetros de distância - ou talvez três -, e tinha o cume coberto por um montão de pedras como se tivesse existido ali uma casa agora em ruínas. Havia uma alta saliência apontada para o céu como que a recordar uma esquina, e a sua volta viam-se o que pareciam ser paredes derrubadas e até uma sugestão de um cercado.

       Suspirou, deixou cair a cabeça por instantes, para logo a seguir puxar as rédeas que segurava na mão. Tinha de lá chegar antes da exaustão acabar por o dominar.

       A neve não se dissipara minimamente. Para Simon, enquanto trotavam na vertente na direção da estrada, tornou-se claro que teriam de avançar com a mesma lentidão a que já haviam sido obrigados anteriormente.

       Inicialmente até lhe parecera que os seus receios não tinham razão de ser. O trilho que serpenteava em volta da casa parecia relativamente limpo e a cavalgada continuava a ser fácil mesmo depois de terem chegado ao alto da colina. Fora depois disso, quando começaram a descê-la, que haviam descoberto que a neve se acumulara. De súbito começaram a ficar enterrados em neve, que por vezes lhes chegava aos pés embora permanecessem montados nos cavalos. Em certo local Edgar mostrou a sua habilidade como cavaleiro, conservando-se na sela quando o animal se empinou enquanto relinchava de medo e desagrado perante a profundidade do pó branco, numa tentativa para evitar as zonas mais fundas. O servo viu-se obrigado a puxar as rédeas com força e a virar a cabeça da montada para a desviar do obstáculo. Edgar parou, afagou o cavalo e olhou para Baldwin.

       - Creio que vamos ter de continuar a pé - disse.

       Saltou da sela e caminhou à frente falando calmamente com o cavalo enquanto o conduzia e exercia uma pressão firme e constante nas rédeas. Houve uma vez em que o animal se deteve e se recusou a continuar em frente enquanto tremelicava como um coelho assustado, mas acabou por aceitar as suaves palavras tranqüilizadoras que Edgar lhe murmurou e prosseguiu.

       Aquela foi a parte pior. A seguir, a terra abriu-se na frente deles e a neve tornou-se menos espessa. Subia apenas alguns centímetros acima dos cascos dos cavalos e todos se sentiram mais confiantes, pelo que continuaram em frente num trote lento e regular.

       A casa em breve se tornou visível. Simon avistou-a sob a forma bem-vinda de uma mancha acizentada que quebrava a brancura que os rodeava, e soltou um suspiro de alívio. Virou-se para Baldwin, preparado para fazer um comentário, quando viu a expressão de perplexidade no rosto do cavaleiro que parecia olhar para o chão junto dos cascos dos cavalos.

       - Baldwin? Que se passa?

       - Olha! - Simon seguiu a direção do dedo que apontava e viu-as. Eram inconfundíveis e a sua mente regressou rapidamente a figura dobrada do mercador morto. O sangue deste espalhara-se por cima da camada de neve, como se tivesse saltado num esguicho, o corpo caíra e alguém lhe empilhara neve por cima, numa improvisada tentativa para o ocultar. Houvera muito pouca neve fresca por cima do corpo ou das manchas de sangue, Trevellyn morrera depois da tempestade de neve.

       Agora tinham na frente deles as marcas, apenas ligeiramente arredondadas e desgastadas pelos fortes ventos mas ainda reconhecíveis, de um par de pés e dos cascos de um cavalo, que se dirigiam na direção que estavam a seguir. Os rastos apontavam diretamente para a casa, os dois bomens trocaram um olhar e prosseguiram a trote.

       Não havia dúvidas, as marcas dirigiam-se claramente para a confusão de lama espezinhada no chão em frente da porta: os rastos de um homem e de um cavalo. Baldwin abanou a cabeça, atirou as rédeas a Edgar e saltou do cavalo. Simon seguiu-o, verificando inconscientemente a adaga que levava à cintura e certificando-se de que a lâmina saía com facilidade se viesse a ser necessária. Baldwin reparou no seu gesto, sorriu repentinamente e Simon verificou que ele estivera a fazer o mesmo com a espada. Deixaram Edgar montado no seu cavalo e aproximaram-se da porta. Baldwin bateu nos madeiros com força, com a mão enluvada.

       - Harold Greendiff! Quero falar contigo! Aparece!

       Não houve resposta. Voltou a bater na porta e a chamar, mas sem resultado. De súbito, Simon sentiu que estava a ser invadido por uma sensação de nervosismo. O que poderiam vir a encontrar no interior provocava-lhe uma grande excitação. Deu um passo para trás, num movimento involuntário.

       - O que foi? - atirou-lhe Baldwin, zangado por ser deixado à espera no exterior. - Meu Deus! - O céu estava novamente a encher-se de minúsculas plumas do branco mais puro, leves faíscas de uma beleza brilhante. Porém, aqueles flocos minúsculos, quase granulados, eram feitos de frio concentrado e podiam matar. Baldwin praguejou e esmurrou a porta pela última vez: - Greencliff

       Continuou a não haver resposta. Olhou para Simon, encolheu os ombros e estendeu a mão para o fecho.

       O interior estava quase tão frio como o exterior. Baldwin ordenou a Edgar que levasse os cavalos para o interior, entrou e dirigiu-se imediatamente para a lareira. Agachou-se, estudou as cinzas por instantes, descalçou uma luva, pôs a mão por cima das cinzas... e voltou a praguejar.

       - Maldição! Vamos ter de a acender de novo!

       Simon atarefou-se a reunir lenha e palhas, e a seguir tratou de reacender a lareira. Soprou de leve mas com firmeza para as faíscas brilhantes, foi adicionando cuidadosamente bocados de palha e raminhos à medida que as chamas começavam a subir, mas teve consciência de que Baldwin se deslocava ruidosamente em volta da sala, espreitando nos cantos escuros e procurando por baixo de cobertores e mesas. Entretanto, Edgar mantinha-se imperturbável a cuidar dos cavalos, retirando-lhes as selas e levando os sacos para junto do fogo. Atirou-os para o chão e lançou um sorriso rápido na direção de Simon antes de voltar para junto dos animais.

       O fogo começou a emitir um pouco de luz, Simon empilhou pequenos bocados de madeira por cima das chamas e equilibrou alguns troncos no alto do monte. Muito em breve já a casa começava a encher com um fumo desagradável, que se agarrava às gargantas e os punha a tossir e a esfregar os olhos para limpar as lágrimas. Porém, logo que as chamas ganharam força, o fumo subiu e acumulou-se em espessas manchas em torno dos barrotes do telhado, e o ar que ficava por baixo tornou-se mais claro.

       - Não há dúvidas de que não está aqui - grunhiu Baldwin, agachando-se perto de Simon.

       - As pegadas parecem mostrar que esteve em casa a noite passada - declarou Simon calmamente enquanto observava as chamas. - Pode ter saído cuidar das ovelhas.

       Baldwin agitou o queixo na direção da lareira.

       - E deixou o fogo apagar-se? Com este tempo? Ora, Simon! Ninguém deixaria que a sua lareira se apagasse nesta época do ano! Podia ser uma sentença de morte.

       - Bom... - Simon acenou lentamente. - Se foi embora... para onde poderá ter ido? Não o podemos seguir agora que a neve voltou a cair. Seria demasiado perigoso.

       - Não, mas posso ir dar uma vista de olhos para ver para que lado se dirigiu - declarou o cavaleiro, levantando-se. Saiu para o exterior e fechou a porta atrás dele.

       Semicerrou os olhos enquanto tentava distinguir quaisquer sinais na neve. Era difícil de ver porque a luz se tornara demasiado difusa por trás das nuvens e o dia também estava a escurecer e a avançar para a noite. A seguir descobriu que se abaixar para tentar distinguir qualquer diferenciação nos contornos das marcas também não servia para nada. Era tudo uniformemente branco e não havia relevos cinzentos ou negros que manchassem a lisura aparentemente perfeita.

Foi apenas quando se levantou e olhou para um pouco mais longe, interrogando-se em que direção teria ido o rapaz, que pensou conseguir distinguir uma depressão na neve, como uma espécie de canal pouco profundo seguindo direto em direção a uma fonte. Conduzia ao trilho no meio das árvores, na direção de Wefford.

       O vento começara a ganhar força e punha os flocos de neve a dançarem loucamente na frente dos seus olhos. Era ímpossível, pensou. No meio daquilo não tinha maneira de descobrir para onde teria ido o rapaz. A neve era demasiado pesada. Refez o caminho para a porta da casa envolto numa mistura de desilusão e de ira por ter sido iludido.

 

       O som iniciou-se como um rumor baixo à direita do Bourc. Talvez até nem tivesse dado por isso, mas os seus ouvidos encontravam-se demasiado bem sintonizados para os sons do perigo mesmo depois do castigo que o vento lhes infligira durante todo o dia. Deteve-se imediatamente e ficou a olhar para trás, para o caminho que o levara ali.

       Sentiu o estremecimento dos cavalos quando o som recomeçou, primeiro muito baixo, para logo se erguer rapidamente e transformar num uivo agudo antes de voltar a descer e soar como um verdadeiro lamento de fome. Lobos!

       Levantou a mão e afagou a montada com gentileza. Ainda não havia sinais deles. Deviam estar a alguma distância. Lançou uma olhadela rápida para a colina à sua frente. O abrigo que a mesma lhe oferecia estaria talvez a uns 800 metros dali. Avaliou o terreno que lhe faltava percorrer, contraiu os maxilares e puxou as rédeas decidido a chegar à colina em cujo topo se encontrava a única cobertura possível naquela terra onde já escurecia.

       Os uivos regressaram mas o seu tom modificara-se. Deviam ter encontrado o seu rasto porque julgou conseguir distinguir uma nota de feroz alegria. Já não era uivos repletos de ansiedade e angústia, mas sim um cântico de exaltação. O desespero fora substituído por uma delícia violenta e cruel, como se as criaturas já estivessem a saborear o sangue quente e espesso que lhe corria nas veias.

       Voltou a espreitar a colina e concluiu que não conseguiria sobreviver se continuasse a pé. Olhou ansiosamente para trás das costas e viu os animais semelhantes a cães que corriam para ele. Cavalgar seria muito perigoso porque só Deus sabia que perigos poderiam estar escondidos logo abaixo da superfície da neve, a espera de poderem partir uma perna a um cavalo, mas prosseguir a pé era um suicídio.

       Subiu para o cavalo e torceu-se, voltando a verificar a distância. Estava a umas centenas de metros de distância e eram sete, que o perseguiam numa corrida firme sem nunca tirarem os olhos dele.

       A visão daquela aproximação implacável fê-lo sentir um arrepio de medo e de expectativa percorrer-lhe a espinha. Sabia o que aconteceria se os lobos o apanhassem. Virou-se para a frente, esporeou o cavalo e lançou-o a galope.

       Os dois animais atiraram-se para a frente enlouquecidos pelo terror. Não tinha necessidade de os incitar porque ambos sabiam o perigo que corriam. Os uivos dos lobos tinham tratado de os informar. Só necessitava se agarrar bem, segurando-se à vida enquanto a montada se precipitava em frente, com as orelhas encostadas ao crânio e a cabeça baixa. O Bourc deixou-a correr à vontade e limitou-se a torcer as rédeas de vez em quando para manter o grande cavalo na direção que, assim esperava, os conduziria à segurança.

       - Graças a Deus!

       A oração de gratidão, vinda do fundo do coração, subiu-lhe aos lábios automaticamente quando atingiram o anel de pedras e o cavaleiro saltou da sela no preciso momento em que os cavalos galoparam para o seu interior.

       Agarrou a rédea do cavalo de carga, puxou-a e conseguiu virá-lo para poder libertar o arco. O Bourc falou baixinho para o animal aterrorizado, tentando acalmá-lo e agarrou as setas que se encontravam por cima da carga. Pousou a ponta do arco no chão e forçou-o a encurvar-se para lhe encaixar a corda. A seguir, já com a seta pronta e colocada no seu lugar, avançou para o perímetro do recinto, o anel de grandes pedras que rodeava o seu pequeno acampamento.

       Os uivos não se tinham calado. O Bourc viu os lobos aproximarem-se, já não com o louco entusiasmo de uma matilha à caça mas com a cautela desconfiada dos cães que tinham empurrado o javali para a sua toca. Agora vigiavam-no atentamente para verem como o poderiam fazer sair dali sem correrem perigo.

       Os dentes do Bourc a brilharem no escuro e o cavaleiro esperou que se aproximassem, com o arco firmemente preso nas mãos já úmidas de antecipação.

 

       De vez em quando, Simon ou Edgar afastavam-se de junto do fogo para irem espreitar o exterior, mas a vista era sempre a mesma: nuvens de pequenos flocos que rodopiavam e saltitavam na brisa, numa ostentação em branco e cinzento. O cavaleiro permanecia sentado a olhar para o fogo com uma expressão pesada.

       Ainda era cedo quando decidiram que deveriam passar a noite na casa de Greendiff. A neve chegara para ficar, cairia durante mais algumas horas e todos reconheciam a necessidade de se manterem quentes. Deram de comer e de beber aos cavalos, abriram os sacos que Margaret os obrigara a levar e bebericaram o frio vinho dos odres, para depois se enrolarem nos cobertores na frente do fogo e conversarem disto e daquilo até que o sono chegasse.

       Simon não teve de esperar muito para se sentir a cabecear. Baixou o tom da voz e as palavras saíram-lhe cada vez mais lentas, até ao momento em que Baldwin e Edgar ganharam consciência de um zumbido rítmico quando o almoxarife começou a ressonar.

       - Um barulho como este até é capaz de acordar os mortos - afirmou Edgar, não sem alguma simpatia.

       Baldwin confirmou com um aceno. Tinham-se passado muitos meses desde a última vez que ele e o servo tinham dormido fora da nova casa. No passado, quando viajavam muito mais, sempre haviam mostrado tendência para evitar outras pessoas na estrada. Havia sempre alguém que ressonava e preferiam dormir em paz e sossego.

       - Felizmente a neve não é muito pesada - comentou - e poderemos partir amanhã de manhã.

       - Sim, e temos de ir à caça do Greendiff.

       O cavaleiro suspirou e esboçou um novo aceno.

       - Não será difícil seguir se a neve continuar a cair assim...

       - Deus nos livre de que a neve piore! Podíamos ficar presos aqui sabe-se lá por quanto tempo. Ninguém sabe onde estamos.

       - Ora, não te preocupes. - Espreitou o corpo do almoxarife e sorriu-se rapidamente para Edgar enquanto erguia uma sobrancelha. - Ele tem muita carne! Sobreviveremos.

       O servo começou por sorrir, recostou-se e passou à gargalhada. Entre todos os homens que Baldwin conhecera, Edgar era o único que conseguia fazer aquilo. Abria a boca e deixava que o ar lhe saísse numa curiosa série de exalações inaudíveis. Baldwin já o vira rir assim antes de batalhas, com os dentes à mostra numa delícia natural e pura, aproveitando para se divertir enquanto podia mesmo que existisse a possibilidade de morrer pouco depois.

       - Quer dizer que o podemos comer se nevar durante muito tempo? - perguntou Edgar passados alguns instantes. -Ah, deve ser bom, tem boas articulações. Contudo, vai ser pesado para arrastar para a fogueira. Como o cozinhamos? No espeto?

       O cavaleiro inclinou-se para trás e espreitou a figura adormecida.

       - Não sei... mas tens razão, precisamos começar por o esventrar e desmembrar. Achas que podemos pendurar o resto lá fora, ao ar livre, para não se estragar?

       - Talvez... mas é capaz de ser demasiado. O melhor será prepará-lo num guisado bem apurado...

       - É possível. Sim... com cenouras... e um grossa fatia de pão fresco...

       O almoxarife soltou um grunhido e a seguir ouviram-lhe a voz. O tom de irritação, embora abafado pelo cobertor, era inconfundível.

       - Quando acabarem de discutir os meus méritos como alimento... então talvez seja melhor irem dormir para estarmos todos frescos pela manhã.

       Baldwin soltou uma gargalhada, enrolou-se no cobertor e muito em breve já respirava de um modo regular e pausado. Porém, agora, era Simon quem não conseguia adormecer. Continuava a ver as duas feridas horrendas, a que matara a Agatha e a que matara o mercador, como se fossem uma espécie de imagens sobrepostas. A seguir viu o rosto de Harold Greendiff junto do de Angelina Trevellyn.

       O primeiro ataque foi fácil de rechaçar. O Bourc manteve-se vigilante enquanto a matilha se dividia, com alguns dos animais a andarem de um lado para o outro no terreno vazio em frente da parede e os outros sentados a espreitá-lo, como soldados num cerco, a verificarem as defesas. Contudo, logo em seguida, o Bourc reparou num lobo em particular e concentrou-se nele.

       Tratava-se de um grande macho, ou pelo menos, era isso o que o seu aspecto indicava, alto, magro e em forma, com uma espessa pelagem cinzenta e olhos que não se desviavam do gascão. Os outros andavam de um lado para o outro mas aquele animal avançava lenta e deliberadamente como um gato, centímetro a centímetro, fitando-o sem pestanejar. A seguir, como que ao seu comando, todos os lobos se lançaram em frente.

       O líder da matilha foi o primeiro a morrer. O Bourc puxou a corda do arco, apontou as cruéis barbelas da ponta da seta para um local entre os olhos do lobo cinzento e deixou-a voar. Pegou imediatamente noutra seta, colocou-a no arco e voltou a retesá-lo... mas não havia necessidade. O lobo morreu instantaneamente. A seta penetrou-lhe profundamente no cérebro. o animal deu um salto, caiu de costas e ficou a estrebuchar. Os outros recuaram imediatamente, batendo em retirada para as sombras, onde não os conseguiria atingir com facilidade. A morte do líder forçou-os a uma pausa, como se tivessem compreendido repentinamente que a presa não se encontrava indefesa. Mantiveram-se ao longe, quase fora das vistas, rodeando silenciosamente o acampamento como uma série de fantasmas cinzentos.

       O Bourc conhecia os lobos e sabia que os poderia manter à distância agora que encontrara uma área defensável. Ficou satisfeito por estar momentaneamente a salvo de outro ataque e investigou o acampamento.

       Agora, finalmente, encontrava-se fora do alcance dos ataques do vento. As altas paredes de pedra forneciam-lhe uma barreira contra o pior do tempo e até o chão por baixo dos pés estava limpo de neve.

       Começou por prender os cavalos e a seguir olhou em volta, para lá da linha de pedras, onde se erguiam alguns arbustos raquíticos e retorcidos que haviam ganho estranhas formas como que por um golpe de magia. Pegou na faca e atirou-se a eles arrancando-lhes ramos e colocando-os numa pilha. Preferia conservar a lenha que levava no cavalo de carga enquanto tivesse outros combustíveis à mão.

Encontrou uma pequena concavidade no chão, perto dos cavalos, e tratou de acender uma fogueira. Só voltou a levantar os olhos depois das chamas começarem a encaracolar para o alto.

       Verificou, à luz das chamas, que se encontrava numa espécie de taça natural no topo de uma colina baixa. O perímetro era protegido por um muro baixo, para sul, mas que ruíra para o lado norte. O que pensara ser um edifício em ruínas era uma saliência rochosa, formada por três ou quatro grandes pedras umas em cima das outras, com uma estreita abertura, semelhante a uma porta, no meio das duas pedras inferiores. Espreitou e viu que se tratava de uma pequena caverna. Era um lugar bom para dormir, a salvo do vento e da neve.

       Foi enquanto espreitava para o interior que se iniciou o segundo ataque. Teve um relance, pelo canto dos olhos, de uma forma a saltar sem ruído para cima da parede de pedra. Ouviu os relinchos de terror dos cavalos no preciso momento em que agarrava no arco e colocava uma seta na corda, retesando-a e disparando. Virou-se e viu o cavalo de carga a empinar-se quando outro lobo se atirou a ele, com as mandíbulas escancaradas, tentando alcançar a garganta do animal.

       O Bourc pôs-se de pé e tentou apontar, mas o lobo encontrava-se demasiado perto dos cavalos e não se arriscou a disparar. Soltou uma praga e correu para a frente a gritar no momento em que os dentes do lobo rasgavam um pouco do pescoço do cavalo. Este relinchou e voltou a empinar-se, mas o cheiro a sangue parecia ter enlouquecido a sua própria montada, fazendo-a perder o medo, viu o lobo a passar na sua frente, ergueu todo o volume do corpo sobre os quartos traseiros e abaixou-se de repente, com as patas rígidas e todo o seu peso nos cascos dianteiros. O lobo soltou um guincho petrificado e foi esmagado contra o chão, com as patas da frente a escavarem o solo e os olhos abertos de agonia. O cavalo tornou a erguer-se uma e outra vez para lançar todo o peso contra o dorso do lobo, e só parou quando os seus lamentos hediondos deixaram de se ouvir.

       O Bourc examinou o acampamento com cuidado, com a seta colocada no arco e todos os sentidos em alerta, e só depois se aproximou. Não se ouvia nada, não havia um único som para o perturbar. Levantou-se devagar e caminhou ao longo da linha de grandes pedras até chegar aos cavalos. Agachou-se, pousou o arco e agarrou na adaga para se certificar de que o lobo estava morto. Não foi necessário porque lhe bastou uma olhadela rápida ao corpo estraçalhado para o confirmar.

       O seu cavalo ainda continuava a tremer, com os olhos a rodopiarem de horror, pelo que o cavaleiro necessitou afagá-lo durante alguns instantes. O cavalo de carga encontrava-se a alguns metros de distância e o Bourc examinou-o, ansioso. Viu o sangue pingar do comprido corte mas soltou um suspiro de alívio quando o fogo estralejou repentinamente e emitiu um clarão. O ferimento não era suficientemente profundo para matar o animal. Avançou para ele, certificou-se de que assim era, afagou o cavalo e falou-lhe com tons baixos e calmos.

       Estava ocupado a tranqüilizar o animal quando ouviu a respiração ofegante. Virou-se devagar, com o coração a bater freneticamente... e viu o focinho aguçado do lobo que se mantinha agachado, com os olhos fitos nele, enquanto se arrastava para a frente. O Bourc lançou uma olhadela para o lado do arco que jazia, inútil, a apenas poucos passos de distância. Estava perto, muito perto... mas mais perto do lobo do que dele. Nunca seria capaz de o alcançar. Mostrou os dentes como se rosnasse - sem saber se de medo ou de raiva - e agarrou na adaga de lâmina comprida.

 

       Simon acordou com uma sensação de leve surpresa e perguntou a si mesmo onde estaria. Felizmente, naquela noite não tivera de sofrer novamente o habitual pesadelo. Era como se este o procurasse apenas quando não tinha nada para fazer, e não naquele momento, quando andava em busca do assassino da bruxa. O pesadelo deixá-lo-ia em paz enquanto essa tarefa o mantivesse ocupado, mas as memórias do mesmo continuariam com ele, como um incentivo para a caçada.

       Precisaram de muito pouco tempo para selar os cavalos, enrolar os cobertores e prepararem-se para partir. Afinal, daquela vez a neve parecia não ter sido muito soprada pelo vento, pelo que jazia numa camada mais ou menos regular e não se amontoara, fato que levou os três homens a sentirem que a jornada até Wefford não iria ser difícil. Da frente da casa podiam olhar para leste, para onde a floresta se iniciava, e viam a abertura correspondente ao trilho no meio das árvores, com as sebes de cada lado a erguerem-se como compridas muralhas.

O modo como a terra se erguia à sua esquerda para formar um pequeno cerco fazia com que o trilho propriamente dito se parecesse com um fosso, ou como uma qualquer espécie de fortificação.

       Montaram e viraram as cabeças dos cavalos para leste, para o Sol que pairava no céu azul e parecia maior e mais vermelho do que de costume, mas tiveram de semicerrar os olhos por causa do sempre doloroso brilho da neve. Baldwin avançou ao lado da leve marca que descobrira na tarde anterior. O rasto ainda se destacava sob a brilhante luz do Sol e obrigou-os a cavalgarem durante algum tempo no meio da floresta, ao lado do trilho. Porém, mais adiante, as marcas haviam sido obliteradas pela queda de neve dos ramos que se encontravam por cima. Continuaram sem pressa e com passadas lentas, entre o trote e o passo, e meteram-se no meio das árvores a procura da continuação dos rastos, mas não a viram.

       - Temos de buscar o Tanner, é claro... - afirmou Baldwin ao fim de alguns minutos.

       Simon olhou-o e suspirou quando se virou para a estrada que se abria na sua frente.

       - Sim... e organizar um grupo de busca para vermos se o conseguimos apanhar rapidamente.

       Vais uma caça ao homem, pensou o cavaleiro com tristeza. Gostava de uma boa perseguição a um animal. Afinal de contas até era correto caçar para conseguir alimento e tratava-se de um desporto natural. Porém, seguir a pista de um homem era diferente e aviltante tanto para o homem como para os seus caçadores.

       A história seria outra - e o cavaleiro sabia-o -, se sentisse que existisse uma razão justificável para os assassínios. Todavia, pelo menos aparentemente. não havia nenhuma. Franziu a testa e mordeu o lábio, aborrecido com um pensamento: se tivesse metido o rapaz na cadeia, ou voltado a metê-lo lá quando ouvira da boca de Stephen de La Forte que o dois não tinham estado juntos durante todo o tempo quando a Agatha Kyteler fora morta, então talvez o Allan Trevellyn ainda estivesse vivo. Tal significava que uma parte da culpa por esse assassínio, na sua opinião, lhe cabia por ter tomado uma decisão errada. Voltou a levantar os olhos para a estrada havia neles uma expressão que era uma jura: havia de apanhar o assassino e de vingar a morte de Trevellyn.

       Simon cavalgava tranqüilamente a seu lado mas não estava tão convencido da culpa de Harold Greendiff. Porquê? Era essa a questão que nunca o largava: Por que? Para quê matar o mercador? Ou a bruxa? O rapaz fizera comentários a respeito dela na estalagem, naquela noite, mas ninguém conseguia explicar por que a odiava. Além disso, parecia também não haver um motivo para que tivesse morto o Trevellyn.

       A seguir os seus olhos ganharam um brilho mais pensativo e encolheu a cabeça entre os ombros. A senhora Trevellyn era muito bela, admitiu. Seria possível que fosse ela a misteriosa amante? O rapaz ter-lhe-ia morto o marido para ficar com ela? Se fora, por que fugira logo a seguir? Não fazia sentido!

 

       A admissão do que ela fizera na casa da bruxa mergulhara Harold Greendiff num pesadelo que parecia não ter fim. Tudo o que jamais pretendera fora viver a vida tal como o pai fizera antes dele, como um agricultor. Só desejara poder ganhar a vida honestamente. Sabia que nunca viria a ser rico, mas isso também não importava porque nenhum dos seus amigos vizinhos o era. Era agradável sonhar com dinheiro e gado, mas sentia que era mais importante estar contente e satisfeito, trabalhar a sério e ganhar um lugar no céu, tal como os sacerdotes prometiam.

       Porém, nunca mais tivera um momento de paz desde a morte de Agatha Kyteler, na terça-feira anterior. Na altura não conseguira fugir para deixar tudo aquilo para trás das costas. A fuga para a Gasconha talvez lhe tivesse permitido esquecer o assunto, mas agora era demasiado tarde.

       Voltara do salão dos Trevellyn e sentara-se com a mente vazia, como se estivesse mergulhado num sonho. Fora-lhe impossível mover-se e deixara-se ficar no banco, estremecendo ocasionalmente sob o frio solitário da sua casa, sentindo-se tão envolto numa tal infelicidade que nem sequer se dera ao trabalho de avivar a pequena fogueira. Porém, o desespero e o desgosto haviam regressado rapidamente, levantara-se e começara a andar de um lado para o outro, a soluçar. A sua vida ficara destruída desde que aquela velha arruinara tudo. A culpa fora dela e merecera o fim que tivera.

       Fora como que num sonho que tomara uma decisão e começara a reunir alguns magros essenciais que enfiara numa velha sacola. Apanhara a lâmina, a longa adaga encurvada de um só gume que ficara caída no chão. Podia vir a necessitar dela e era útil numa luta por causa das duas grandes saliências arredondadas na base do punho que protegiam a mão.

       Como comida escolhera alguns frutos, presunto salgado e defumado que largara dentro do saco, e só depois se lembrara do pão. A sacola ficara cheia. Enfiara uma pesada túnica de lã pela cabeça, colocara o cobertor sobre os ombros, pegara no bordão e saíra. Nunca mais voltaria. A vergonha seria demasiado dolorosa.

       Ao princípio vagueara na escuridão sem nenhum rumo definido em mente, seguindo sem destino para onde os pés o levavam, e descobrira-se a caminhar para sul. De repente descobrira-se no meio das árvores da floresta. Costumava passar por ali e conhecia cada tronco e cada ramo caído tão bem como o mobiliário da sua sala, mas o desespero e frio cortante tinham-no feito andar sem destino.

       Sabia que fora apenas por milagre que conseguira sobreviver e que não sucumbira às temperaturas geladas. Tivera sorte. A floresta parecia prolongar-se para sempre, fazendo-o subir e descer as suaves vertentes dos cercos através de camadas de neve menos espessas, que os ventos não tinham conseguido acumular em montões profundos, numa fuga que o levava para longe da sua casa e da vida passada.

       Cheirou-lhe a fumo e compreendeu que quase chegara a Crediton. Deteve-se de repente. A seguir, quase sem a consciência de ter feito uma escolha, voltara a caminhar no meio das árvores, seguindo a linha da floresta de modo a circundar a cidade sempre sob o abrigo dos espessos ramos. Uma vez para lá da cidade o seu espírito passara por uma estranha sensação de alívio, como se tivesse realmente abandonado a antiga vida. Anteriormente, só muito raramente estivera tão longe de casa.

       Prosseguira durante todo aquele dia, ignorando os chamamentos de outros viajantes e concentrando-se apenas no palmilhar constante dos seus pés, sem se preocupar com a direção em que seguia e sem saber para onde ia, pelo menos até ao momento em que a neve voltara a cair.

       O fato forçara-o acordar da sua caminhada inconsciente e sem destino e parara de repente, para olhar em volta sem fazer a mínima idéia onde se encontrava. Chegara a uma área plana, um espaço aberto franjado por árvores e via agora, quando os primeiros flocos começavam a cair, que parecia não existir habitações por perto.

       Parara num ponto relativamente alto e com uma vista desobstruída. Para a esquerda, por cima das copas, avistava uma colina a alguns quilômetros de distância, encimada por um círculo de árvores semelhante a uma coroa. Na sua frente havia um pequeno rasgão na terra, que aparentemente seguia direto como um trilho e que tinha os lados escondidos por algumas árvores dispersas. Semicerrou os olhos contra a fina névoa da neve, virou o rosto para o vale e seguiu em frente com decisão.

       Não fora uma boa idéia. A neve começara a cair com mais força, o ar tornara-se mais frio e cada nova rajada de vento parecera ser sempre mais forte do que a anterior, fazendo com que os flocos de neve se precipitassem sobre ele como milhões de minúsculas andorinhas brancas.

       Os movimentos perfeitamente ao acaso da toalha branca possuíam um fascínio quase hipnótico e descobriu-se a tropeçar cada vez mais à medida que se deixava arrastar pela magia da brancura que o rodeava por todos os lados e que parecia formar uma barreira impenetrável à sua volta. Era como se a dança dos ciscos de neve que se desenrolava perante os seus olhos fosse um convite para que se sentasse e dormisse. Tinha a sensação de que o acarinhavam e acalmavam, como que a pedir-lhe para descansar. Depois, caíra.

       Possivelmente tratara-se de uma raiz oculta, ou talvez de um ramo caído, mas de súbito descobriu que já não estava a andar. Tropeçara e estava deitado de comprido, com a cabeça a descansar no que lhe pareceu ser uma almofada quente e macia, feita das penas mais fofas. Rolou para um lado e não conseguiu impedir um suspiro de alívio. Espreguiçou-se e gemeu de felicidade. Por fim, podia descontrair-se: já se afastara o suficiente. Agora podia dormir.

       Foi apenas muito mais tarde que se sentiu grato pela interrupção. Ao princípio pareceu-lhe que se tratava de um grunhido, para depois passar a ser um gemido como que de dor, baixo e persistente. Encontrava-se mesmo nos limites da sua audição e penetrara-lhe nos pensamentos e nos sonhos como uma serra a cortar a casca de uma árvore. Murmurara para si mesmo e virara-se para o outro lado, tentando dormir e deixar de ouvir o ruído insistente, mas este prosseguira, a sua mente irritara-se com a interrupção e a irritação levara-o a despertar gradualmente. Fora o suficiente. A neve ganhara força e quando regressou à consciência, embora com relutância, verificou que se encontrava coberto por uma película de pó muito leve. Reconheceu o som enquanto a respiração se lhe prendia na garoanta. Olhou em volta com uma expressão selvagem. Como uma criatura feroz que reconhece os sons de um caçador. A neve envolvera-o num casulo e embalara-o nas suaves garras da morte. Se não tivesse sido aquele ruído, então, com certeza que estaria morto muito em breve, a dormir sob a calmante influência do frio, um verdadeiro assassino.

       Todavia, de onde viera o ruído? Virou-se para aqui e para acolá em busca da fonte e começou a perceber lentamente que se tratava de sons de cabeças de gado e que vinham de muito perto.

       Começou a andar na sua direção logo que reconheceu os sons. Ali, escondido por trás de uma fileira de carvalhos, havia um velho celeiro. As paredes tinham o tom avermelhado da taipa, não haviam sido caiadas, e não teria dado por ele se não tivesse ouvido os animais que se encontravam no interior. Olhara cuidadosamente em volta para ver se havia alguém por perto e entrara. Lá dentro havia uma enxergão de palha, que utilizou para improvisar uma enxerga rudimentar, sentou-se e preparou-se para esperar que a neve deixasse de cair.

       A súbita ausência de movimentos libertara-lhe a mente das algemas do exercício físico e descobrira que os seus pensamentos tinha regressado à ela... à dor que sentia por a deixar para trás. Agora já se recordava que derramara lágrimas por ela na última noite em que permanecera sentado na sua casa, sozinho e miserável. Tinham sido lágrimas quentes, escaldantes, que lhe haviam lavado a alma. Amara-a. Inevitavelmente, a mulher voltara a ocupar-lhe os pensamentos. Saber que nunca mais poderia voltar a vê-la, que nunca mais poderia sentir a maciez do seu corpo, que as suas mãos nunca mais segurariam naquelas tranças negras-azuladas como se fossem cordas de seda, que nunca mais a beijaria, a agarraria ou lhe sentiria o calor dos seios e a doçura plana do ventre era enlouquecedor. Outrora pensara que amava a Sarah, mas aquilo era muito mais, era quase como uma perda religiosa. Sentia-se como se depois do horror do rosto dela no escuro, apenas duas noites antes, uma parte dele tivesse morrido. Quando ela o vira ali e lhe falara com tanto ódio, como uma faísca na sua alma que enfraquecera e acabara por morrer. Aquela terra já nada tinha para lhe oferecer.

       Suspirou perante a recordação. Agora, de manhã, já era capaz de aceitar que nunca mais a veria. Pegou na sacola, atirou-a para as costas, dirigiu-se para a porta e espreitou o exterior com cuidado. Não havia ninguém por perto e saiu. Quebraria o jejum mais tarde. De momento o principal era escapulir-se, era afastar-se o mais possível daquela área. Conseguiria embarcar num navio? Seria possível encontrar um que o levasse?

       Fez uma pausa e pensou no assunto. Sabia que havia um porto em Exeter, mas fora aí que Tanner o encontrara da última vez. Era mais longe mas passar-lhes-ia pela cabeça que tivesse ido para o Sul? Para Darthmouth ou Plymouth? Avaliou o peso da sacola que tinha nas mãos e considerou as duas opções. Se fosse para tão longe iria necessitar de mais comida para o caminho. Era muito mais longe mas, se lá conseguisse chegar não iriam pensar em procurá-lo num tal sítio, pois não?

       Fez uma escolha, endireitou os ombros e virou-se para o Sul. Tinha de ir para a costa e a seguir para a Gasconha e para a liberdade.

 

       A aldeia parecia um animal adormecido, como se toda área tivesse escolhido a hibernação à infelicidade do clima do inverno, e Baldwin olhou à sua volta com uma expressão azeda enquanto cavalgavam ao longo da rua.

       - Meus Deus! Por que é que esta gente não se levantou para ir trabalhar?

       - É muito cedo, Baldwin! Não tenho dúvidas de que alguns já devem estar de pé. Não tardará que comecem a sair para cuidar das ovelhas e do gado - afirmou Simon calmamente - em particular depois do nevão da noite passada.

       Baldwin grunhiu e manteve um silêncio de desaprovação durante o resto do caminho. Não era longe. Pararam no exterior da estalagem e o cavaleiro fez um leve aceno com a cabeça. Edgar desceu do cavalo e avançou calmamente para a porta. Simon, que o observava, viu-o lançar uma olhadela casual para o céu como que a avaliar as horas. O almoxarife acenou para si mesmo. Era muito cedo para acordar o estalajadeiro, mas compreendeu rapidamente o seu erro.

       Depois de olhar para cima para se certificar das horas, o servo sorriu para ele e bateu na porta, provocando uma barulheira chocantemente forte... e recuou imediatamente alguns passos.

       Foi uma precaução sensata, tendo em conta o berro de fúria que se ouviu no interior. Simon escutou passos rápidos, seguido pelo som de tranças a serem arrastadas. A porta abriu-se e deixou ver as feições furiosas e por barbear do estalajadeiro, com a boca aberta para rugir a quem quer que fosse que o tinha acordado. À vista do cavaleiro na companhia do servo e do amigo, a boca fechou-se-lhe como se tivesse molas.

       - Sir Baldwin... - conseguiu dizer, com um trejeito que pareceu ser a sua melhor aproximação a um sorriso. - Em que posso servi-lo?

       O cavaleiro resmungou uma resposta:

       - Podes ir buscar bebidas quentes para três, preparar ovos cozidos e pão para o nosso pequeno-almoço... e começar a organizar um pouco de perseguição. A seguir podes mandar um recado a minha casa dizendo que estamos todos bem, procurar o Tanner e dizer-lhe que venha aqui imediatamente, e prepara provisões para três dias, para três homens.

       - Mas... eu...

       - E podes começar a fazer tudo isso já! Temos de ir à caça de um homem.

 

       O almoxarife ficou com a sensação de que homens da aldeia haviam começado a chegar logo que acabara de se sentar para ver a mulher do estalajadeiro a cozer os ovos na velha panela de ferro pousada em cima das brasas do fogo da noite anterior. Os agricultores e camponeses entravam com modos casuais, como se nada daquilo lhes dissesse respeito, ou cautelosos e hesitantes, deslizando através das cortinas como se receassem vir a ser presos. Edgar disse, a todos eles, que tinham de armar para regressarem ali o mais depressa possível, e que deviam trazer comida para pelo menos três dias.

       Foi quando Tanner acabou por aparecer, coberto de neve quase até aos joelhos e a pingar, que Baldwin levantou a cabeça e começou a mostrar interesse pelo que o rodeava. O velho regedor caminhou diretamente para ele. Sabia que não tinha necessidade de ser subserviente para com aquele cavaleiro. Baldwin olhou para cima quando viu o volumoso regedor aproximar-se, esboçou um sorriso lento e fez um gesto na direção do fogo.

       - Já comeste? Queres ovos?

       Tanner olhou para a sertã com indiferença e abanou a cabeça.

       - Que se passa, senhor? O moço do estalajadeiro disse-me para vir para aqui imediatamente e que tínhamos de perseguir um homem.

       - É verdade. O Greendiff voltou a fugir.

       - O Harold fugiu? Oh, esse burro só faz asneiras! - Abanou a cabeça como se já estivesse farto e acrescentou: - E então? O Harold não estava lá quando a bruxa morreu. Estava com o...

       - As coisas não são assim tão fáceis. Afinal, o rapaz não estava com o de La Forte... - interveio o almoxarife, que explicou a alteração no testemunho de Stephen de La Forte. A seguir falou no assassínio de Trevellyn e a sala mergulhou num súbito silêncio quando todos os homens à sua volta compreenderam por que motivo lhes estavam a pedir para perseguirem o Greendiff. Simon calou-se e foi imediatamente bombardeado por perguntas vindas de todos os lados, pelo que Baldwin acabou por se pôr de pé e levantar uma das mãos a pedir silêncio.

       - Calem-se! - trovejou. O barulho foi diminuindo a pouco e pouco. - Assim é melhor. Escutem, o Harold Greendiff não passou a noite em casa. Como a lareira estava fria é provável que tenha partido na noite anterior. Caso contrário, ainda estaria quente quando lá chegamos. Para onde poderá ter ido?

       A sala ficou em silêncio enquanto os homens pensavam, até que um deles declarou:

       - Pode ter ido outra vez para Exeter, para o porto. Foi para aí que fugiu quando mataram a bruxa.

       Baldwin acenou. Era perfeitamente possível.

       - É possível, mas... não terá ido para qualquer outro lado? Teria família ou amigos com quem pudesse ficar? Conhecia alguém fora desta área que lhe desse abrigo?

       As cabeças à sua volta começaram todas a abanar.

       - Nesse caso, não temos por onde escolher. Vamos ter de o procurar em todas as estradas... - concluiu Baldwin com um suspiro. Aquela conclusão só tinha um resultado: iriam passar longas horas nas selas. E pensar que chegara a sentir alguma simpatia pelo rapaz quando o vira na cadeira! Voltou a sentar-se, desanimado.

       Simon remexeu-se no seu lugar, pensativo.

       - Vimos as pegadas na frente da casa... - murmurou. - Foram deixadas quando entrou ou saiu?

       - Que queres dizer?

       - Pensamos que as pegadas vinham da casa do Trevellyn, mas podemos ter-nos enganado. Pode ter ido a casa do Trevellyn para o matar e ter continuado pela estrada que segue para oeste. Ou então, pode ter cometido o crime para depois voltar para casa e fugir. Não podemos ter certeza...

       - Pois não... - admitiu Baldwin. - Nesse caso, temos de nos concentrar nessas direções. Investigaremos as estradas para lá da casa de Trevellyn e deste lado da povoação.

       - Não pode ter vindo para este lado! - afirmou um homem corpulento que envergava uma jaqueta de couro e peles.

       - Então, por que? - perguntou Simon com a testa franzida.

       - Sou caçador e chamo-me Mark Rush. Vigiei a estrada durante toda a noite passada, entre este ponto e a casa dele. Tem andado por aí um lobo a atacar os redis daquele lado e fiz-lhe uma espera. O Greendiff não passou por mim.

       - Tens certeza? - perguntou Baldwin, duvidoso. O homem moveu aos olhos que o fitaram e eram curiosamente claros e insensíveis.

       - Oh!, sim, tenho certeza! Não houve nada vivo que passasse por mim a noite passada sem que eu desse por isso. O Harold não passou.

       Simon olhou-o, atento, e acabou por acenar

       - Nesse caso, devemos examinar as florestas para norte e sul da estrada, em especial perto da casa dele. - Agradeceu à mulher do estalajadeiro que lhe entregou um prato com dois ovos e um pedaço de pão. - Sugiro que organizemos três grupos: um cavalgará para oeste em busca de vestígios. Outro procurará pistas nas florestas a norte, e o último irá investigar as florestas para sul. Quem quer que descubra alguma coisa deverá voltar aqui e deixar um recado ao estalajadeiro.

       Conversaram durante mais algum tempo sobre os pormenores e acabaram por concordar com aquele plano muito simples. Baldwin e Edgar seguiriam para a estrada de oeste. Simon iria para as florestas a sul e Tanner para os do norte. Baldwin e Simon dividirarn os homens em três grupos de quatro, terminaram rapidamente o pequeno-almoço, dirigiram-se aos cavalos e montaram.

       Simon ficou satisfeito por ter conseguido alistar o caçador de olhos claros no seu grupo. O homem parecia ser uma pessoa capaz e de confiança. Embora fosse tranqüilo e falasse pouco, movia-se à vontade gracioso e sempre alerta que manifestavam a sua habilidade e força. Era mais velho do que Simon, com uma idade que deveria encontrar-se mais perto da de Baldwin. Ou teria 40 e tantos embora fosse difícil de perceber se seria mais velho ou mais novo do que o cavaleiro. O almoxarife não se arriscava a adivinhar.

       Simon estudou-o enquanto cavalgavam na estrada que levava à casa de Greendiff. O homem usava uma espada de aspecto pesado suspensa na cintura. Tinha um arco atravessado nas costas e setas numa aljava pendurada na sela, por cima do cobertor que levava à sua frente, de modo a poder alcançá-las rapidamente. Antes dos três grupos se separarem, Baldwin, Simon e Tanner ainda realizaram uma última conferência para confirmarem o plano. Quem quer que encontrasse o que pudessem ser os rastos de Greendiff deveria enviar imediatamente um mensageiro de volta a Wefford para que pudesse guiar os outros ao local. Se os grupos de Simon e Tanner não descobrissem sinais do jovem, então deveriam continuar e juntar-se a Baldwin porque era desse lado que existiam mais estradas a investigar, pelo que iria ter necessidade de um maior número de homens.

       Depois de combinados os pormenores, os grupos separaram-se e encaminharam-se para as arcas que lhes tinham sido designadas para a busca.

       Baldwin sabia, enquanto punha a montada num galope ligeiro, que aquela caçada muito provavelmente não daria nenhum resultado. Levantou a cabeça examinou a estrada à sua frente. Começava por se dirigir à quinta de Greendiff, subia a colina em direção à casa de Trevellyn e seguia para lá dela até ao cruzamento com a estrada de Tiverton. Para onde continuariam depois disso? Para a própria Crediton? Ou para nordeste da cidade? Ou deveriam prosseguir para oeste? Para onde teria ido o rapaz?

       Simon, que cavalgava no meio das árvores da floresta, tinha a vida mais facilitada. Chamara o caçador para um lado logo no início da linha das árvores e dissera-lhe:

       - Mark Rush, já tinha ouvido falar em ti, apesar de nunca nos termos encontrado.

       Os olhos do homem eram de um cinzento muito pálido, como se a chuva e a neve lhes tivessem desbotado. Estavam inseridos num rosto quadrado e curtido pelo tempo, e era como se aqueles olhos fossem um reflexo de uma alma tão desgastada pela vida ao ar livre que estivesse demasiado fatigada para continuar. Todavia, viraram-se para o almoxarife e este vira-lhe a inteligência brilhar naquele olhar.

       - Sim, almoxarife? - O tom expressava um interesse bem-educado, quase nas fronteiras da indiferença.

       - Não faço a menor idéia sobre para onde poderá ter ido o rapaz, nem como o procurar. Trata tu disso, porque és um caçador. A busca fica a teu cargo. Consegues interpretar rastos e eu não o sei fazer.

       O caçador acenou e olhou para a frente, para os homens que os aguardavam.

       - Nesse caso, senhor, é melhor voltarmos para a estrada.

       - Porquê?

       - O avanço aqui é difícil. Continuaremos pela estrada cerca de mais 800 metros e voltamos a entrar nas árvores. Se ele se meteu na floresta para despistar eventuais perseguidores, então podemos ter de andar às voltas. Por outro lado, se seguirmos um pouco mais pela estrada poderemos verificar se saiu da floresta a sul da povoação ou se nem sequer passou por lá. Se não saiu da floresta, é provável que esteja à espera que Tanner ou o cavaleiro o descubram.

       - Queres dizer que teremos mais hipóteses de o encontrarmos se entrarmos na floresta lá mais para diante...

       O homem acenou. Depois, aparentemente, pareceu encarar o encolher de ombros do almoxarife como uma transferência de autoridade, chamou os outros dois homens e prosseguiu ao longo da estrada, para sul, com Simon logo por trás dele, a ocupar a segunda posição.

       Mark Rush só se deteve muito para lá das últimas casas da povoação Simon sabia que a floresta naquele local era bordejada por um herma coberta de ervas que agora se mantinham escondidas por baixo de uma camada de neve. O caçador observou-a, olhou para trás por instantes, para o caminho que tinham percorrido, pareceu satisfeito e conduziu o cavalo para as árvores.

       Simon seguiu-o e foi novamente surpreendido pelo silêncio súbito, pela tranqüilidade que existia no meio da floresta. Era como se um grupo de estranhos tivesse entrado numa estalagem e houvesse provocado um vazio onde anteriormente houvera agitação. Parecia-lhe que as árvores eram criaturas inteligentes que de súbito tivessem ganho consciência dos invasores e tivessem mergulhado no silêncio da incompreensão. Quase teve vontade de pedir desculpa aos altos troncos que pairavam por cima do grupo e da sua presença ruidosa.

       Desligou-se daquela sensação e prosseguiu por cima das folhas ralas que jaziam por baixo da neve na berma da estrada e no interior da floresta. Ficou vagamente surpreendido ao verificar até que ponto a neve passara a ser mais fina depois de uma tão curta cavalgada. As árvores por cima deles não tinham folhas e conseguia ver o céu por entre os ramos aparentemente sem vida, mas mesmo assim o chão só estava coberto por uma fina camada de neve com apenas alguns centímetros.

       Distinguiam-se perfeitamente os rastos dos animais que tinham passado. Tinham deixado impressões firmes e claras sobre o tapete branco, que incluíam pegadas de aves e de alguns animais que haviam corrido em linha reta, incluindo as marcas de dois veados, com as suas características pegadas em forma de crescentes lunares gêmeos. Simon reparou nos olhares atentos do caçador, que parecia examinar e catalogar todas aquelas marcas na sua mente, e descontraiu-se. Era óbvio que não valia a pena tentar descobrir os rastos antes de Mark Rush. Via-se que o homem era mais do que competente para a tarefa. O almoxarife suspirou e começou a sonhar acordado.

       Que estaria Margaret a fazer? Provavelmente a pedir a Hugh para a ajudar no seu trabalho. Era provável que o servo já tivesse recuperado completamente e Margaret era muito boa para o convencer a trabalhar, persuadindo-o com um tom de voz que incluía as devidas proporções de acidez e de doçura. Sorriu, satisfeito. Margaret sabia muito bem como levar os homens a fazerem o que ela queria.

       Aquele era o tipo de mulher de que Baldwin precisava. Uma mulher que não só conseguisse despertar-lhe os sentidos, como também o mantivesse alerta e sempre interessado. Acima de tudo, uma mulher que fosse inteligente. Simon tinha a certeza de que o cavaleiro precisava de uma mulher com quem pudesse discutir as suas questões e que não fosse apenas um ornamento bonito.

       Foi uma idéia que levou os seus pensamentos para um rumo diferente. E quanto à senhora Trevellyn? Baldwin parecera sentir-se atraído. Os lábios de Simon contorceram-se de bom humor ao recordar-se como o cavaleiro se virara na sela para olhar para a casa quando a tinham deixado no dia anterior. Ah, sim, sem dúvida que ficara interessado!

       Por outro lado, refletiu o almoxarife, não se podia negar a sua beleza. Claro que se sentia mais do que feliz com a esposa, mas negar a beleza de outra mulher seria estúpido e também inútil, pelo menos à luz da sua própria devoção por Margaret. Confirmaria alegremente que era muito mais feliz com a beleza quente e estival da esposa do que se sentiria com a gelada e invernosa atração da morena vinda de França, com os seus grandes olhos verdes, calculistas e tão profundos como o mar. Não havia nada como os alegres e brilhantes olhos azuis da sua esposa. Mesmo assim, não deixara de apreciar a figura delgada e flexível da outra, com as suas pernas compridas e a cintura fina. Ah! E também a barriga lisa, por baixo do rico e maduro esplendor dos seios que prometiam calor e conforto. Sim, havia ali muito que admirar. Todavia, seria suficientemente inteligente para o seu amigo?

       Então, de súbito, o sorriso imobilizou-se-lhe no rosto quando os pensamentos o conduziram à pergunta inevitável: se era suficientemente inteligente, se era uma mulher decidida e se tivesse tomado o Greendiff como amante... então seria possível que o tivesse persuadido a matar o marido por causa dela?

       Simon, que seguia profundamente concentrado nos seus pensamentos, quase chocou com o cavalo do caçador, que se detivera de repente. Levantou os olhos e ficou surpreendido ao verificar que o homem exibia um sorriso divertido. Pensou que a demonstração de humor se devia ao fato de ir distraído e preparava-se para soltar um comentário ríspido quando viu que Mark Rush apontava para o chão.

       - Aqui estão elas!

       Simon olhou para baixo com um espanto total - na verdade, não acreditara que o seu grupo viesse a descobrir fosse o que fosse - e viu as pegadas. Os outros aproximaram-se enquanto ele e Rush saltavam para o chão para se agacharem e examinarem os rastos.

       O caçador estendeu uma das mãos para traçar de leve os contornos da pegada mais próxima, e a seguir Simon viu-lhe os olhos a semicerrarem-se-lhe quando olhou para a direita, na direção de onde o homem devia ter vindo. Pareceu ficar satisfeito, olhou na outra direção e voltou a pousar os olhos na pegada, pensativo.

       - Então? - perguntou Simon.

       Mark Rush fungou com força, pigarreou e cuspiu.

       - Isto é demasiado fácil. -Nem sequer está a tentar esconder-se. O homem contraiu a testa. - Pergunto a mim mesmo porquê...

       Simon encolheu os ombros e fez um gesto de indiferença.

       - Que interessa? Logo o saberemos quando o apanharmos.

       - Sim... - respondeu o caçador, que grunhiu quando se levantou e um dos seus joelhos deu um estalo. - Bom, acho melhor irmos atrás dele. Estas pegadas estão um pouco apagadas. Pelo aspecto, já são de ontem. Está a ver aquilo? - apontou para uma pequena marca redonda ao lado dos rastos. Simon olhou e verificou que a marca se repetia ao longo das pegadas. - É o sinal feito por um bordão. Vê como atinge o solo a par com o pé esquerdo, embora o leve na mão direita? Temos de ter cuidado, porque está armado com um bordão. Não queremos levar uma marretada na cabeça, pois não?

       Voltaram a montar e enviaram um dos homens de volta à estalagem. Simon olhou para o céu antes do homem se afastar.

       - Rush, há quanto tempo pensas que estamos na floresta?

       O caçador também olhou para o céu e meditou por instantes.

       - Talvez duas ou três horas...

       - Também me parece. Eh, tu? - gritou, para o mensageiro que aguardava. - Volta para a estalagem o mais depressa que puderes, mas depois continua e vai ter com Sir Baldwin! Compreendes? Conta-lhe o que descobrirmos e pede-lhe para nos mandar mais um par de homens, não se dê o caso de termos de lutar quando o apanharmos.

       - Não precisa se preocupar com isso, senhor - disse Mark Rush, indicando o arco com um gesto do polegar.

       - Preferia apanhá-lo vivo, Rush. Vamos evitar todas as violências desnecessárias.

       - Está bem, evitarei violências desnecessárias... mas usarei a que for necessária... - retorquiu com um trejeito significativo.

       Os três homens passaram a cavalgar em fila. Nem sequer havia necessidade de um caçador para seguir aquele rasto, que não teria sido mais fácil de detectar mesmo que o homem os tivesse convidado a segui-los. As pegadas prosseguiam em frente, contornando desnecessariamente alguns arbustos e árvores novas. Por vezes parecia que o homem se detivera, com os dois pés juntos, para logo voltar a caminhar. Simon teve a certeza, por uma ou duas vezes, de que o homem cambaleara ou tropeçara. Num certo local viam-se perfeitamente as marcas de uma queda, com o contorno do corpo bem esboçado e as marcas das mãos a deixarem profundas covas na neve. Eram vestígios estranhamente tristes, como se fossem tudo o que restava dele.

       Simon estremeceu. Era curioso, mas sentia uma certa simpatia por aquele homem por qualquer razão que não conseguia entender. Talvez se tratasse apenas de empatia por uma criatura perseguida? Já passara por aquilo anteriormente quando, ainda rapaz, vira um veado encurralado, com as mandíbulas dos cães a morderem-no e os olhos do animal a rolarem de terror por saber que estava prestes a morrer. Depois, quando os caçadores haviam incitado os cães e o veado caíra com as patas a agitarem-se inutilmente sob a massa da matilha. Simon sentira o mesmo tipo de tristeza, que se devia não à caçada propriamente dita mas à inevitabilidade do seu fim. Para Harold Greendiff esse fim seria o estrangulamento lento quando a corda da forca, no patíbulo, o começasse a içar pelo pescoço.

       Encolheu os ombros e voltou a concentrar-se nos rastos, o rapaz tivera alguma compaixão pela bruxa? Ou pelo homem que assassinara? O almoxarife tinha dúvidas.

       Começava a escurecer quando o homem no fim do grupo os chamou numa altura em que Baldwin já perdera a paciência havia muito tempo.

       A cavalgada toda lenta e difícil enquanto investigavam a estrada com cuidado, com Edgar de um lado e o cavaleiro do outro, em busca de rastos que pudessem ter sido deixados pelo agricultor. Todavia, não os descobriram. Baldwin insistira que fossem até ao pasto das ovelhas para verificarem se haveria aí algum rasto que se internasse na floresta, mas as ovelhas tinham espezinhado toda a área e raspado a superfície da neve para chegarem às ervas que se encontravam por baixo, pelo que os dois homens não haviam encontrado nada. Depois disso tinham continuado lentamente pela estrada até à casa de Trevellyn e para lá dela, a que Baldwin se limitara a dar uma olhadela de esguelha. Resistira à tentação de ficar a olhar na esperança de avistar a extraordinária beleza de Angelina Trevellyn. Contudo, não fora apenas a força de vontade que o detivera. Fora também a sobrancelha levantada e o sorriso sardônico no rosto de Edgar quando por acaso olhara para os lados do servo.

       A seguir virara-se novamente para a estrada e ficara com uma expressão de vaga perplexidade. A expressão de Edgar revelara, com mais clareza do que muitas palavras, até que ponto era óbvio, o seu interesse pela mulher. Baldwin, não era nenhum tolo. Se a coisa se tornara tão óbvia para Edgar, então também o seria para os outros que o conheciam.

       O problema estava em que não sabia quais eram os seus sentimentos. Tratar-se-ia apenas de simpatia por uma mulher que enviuvara recentemente? Abateu-se na sela enquanto tentava analisar as emoções. Incluíam uma vaga sensação de luxúria, isso não era o suficiente para explicar o seu desejo de a ver outra vez. Tratava-se de uma sensação pungente como nunca experimentara anteriormente. Seria normal sentir-se assim depois de um encontro tão breve? Com quem poderia falar a esse respeito? Com o Edgar?

       Tinham chegado quase ao fim da estrada e Baldwin debatia consigo mesmo qual a direção que deveriam tomar a seguir quando ouviu o chamamento. Deteve o grupo e esperaram. A figura do mensageiro de Simon surgiu pouco depois.

       Baldwin escutou o recado e olhou para os dois homens do seu grupo.

       -Voltem para trás! Procurem o Tanner e digam-lhe que pode desistir da caçada! A seguir, sigam este homem e juntem-se ao almoxarife e ao caçador.

       Ouviram-se alguns resmungos mas acabaram por concordar. Edgar e o cavaleiro ficaram sentados nas selas e viram os três homens desaparecerem para lá de uma curva da estrada.       Baldwin suspirou, agitou as rédeas e partiu com o cavalo a passo, seguido pelo servo.

       - Então?

       Edgar sorriu-se ante aquela palavra mal humorada e a pergunta implícita.

       - Senhor?

       - Que pensas? - Baldwin detivera o cavalo e olhava para Edgar com a testa franzida de perplexidade.

       - Refiro-me à senhora Trevellyn, é claro.

       - A senhora Trevellyn? É uma senhora muito bonita... e provavelmente é um bom partido, com todo aquele dinheiro... Imagino que o dote deva ser muito bom - respondeu Edgar com uma cara-de-pau e uma expressão vazia.

       - Sim, mas achas que devo...? Bom, é uma mulher a quem acabaram de assassinar o marido... e que ainda mal teve tempo para dar início ao luto... Achas que devo..?

       - Se apanhar o assassino... acho que ficará muito satisfeita... e grata...

       Baldwin virou o cavalo e esporeou-o. O seu rosto exibia novamente uma expressão decidida, embora sem conseguir conter a satisfação. Não lhe ocorrera que a captura do assassino de Allan Trevellyn a alegraria e já a podia informar que tinham descoberto o rasto do homem. O cavaleiro endireitou os ombros. Precisava lhe dar a notícia sem perda de tempo.

       O fato de já não terem de procurar rastos fazia com que o percurso de volta ao longo da estrada fosse muito mais rápido, embora a neve fosse suficientemente espessa para os obrigar a algumas quedas. Não podiam ir tão depressa que se arriscassem a que um cavalo deslizasse em gelo ou tropeçasse nalguma raiz oculta.

       Recuaram ao caminho de acesso à casa, abrandaram e subiram a colina a passo. Era estranho pensou Baldwin. Ali, no exterior, só se notava que não havia tristeza que inevitavelmente se seguia a morte de um amo. O fumo continuava a erguer-se alegremente das chaminés e havia gritos e sons de madeira a ser cortada vindos das traseiras da propriedade. Quem não soubesse da morte seria levado a pensar que nada de especial se passara naquela casa.

       Desmontaram, amarraram os cavalos e Baldwin bateu à porta, que pouco depois foi aberta pela mesma jovem serva que vira no dia anterior. Contudo, o cavaleiro reparou que a jovem parecia ter sofrido uma transformação. Da primeira vez parecera-lhe tímida e receosa mas agora abria-lhes a porta com um aspecto quase alegre. Sorriu-se para eles quando os reconheceu, e o cavaleiro descobriu que também lhe devolvia o sorriso.

       Conduziu-os novamente até ao salão, onde o fogo ardia em entusiásticas boas-vindas. O cavaleiro e o servo ficaram a aquecer-se junto das chamas enquanto a rapariga os deixava para se dirigir aos aposentos privados, por trás do estrado. Voltou passados alguns instantes, fez-lhes sinal de que deviam segui-lo e pouco depois viram-se numa confortável sala familiar onde rugia um segundo fogo. A senhora Trevellyn encontrava-se sentada num banco perto da lareira, a trabalhar tranqüilamente numa tapeçaria. Olhou para cima com uma expressão interrogativa quando os dois homens entraram.

       Baldwin sentiu o sangue começar a ferver-lhe nas veias logo que viu aqueles frios olhos verdes. A mulher tinha um aspecto tão suave e vulnerável, tão quente e indefeso... que teve vontade de a tomar nos braços para a acarinhar. A sensação foi tão forte que parou por instantes e ficou a olhar, absorvendo a sua beleza trigueira, delgada e lânguida. Era-lhe impossível suspeitar que uma mulher como aquela pudesse ter estado envolvida na morte da velha Agatha, e muito menos no assassínio do próprio marido. Quanto a isso, não tinha dúvidas. Contudo, quando os olhos da mulher encontraram os dele, teve a certeza de ver neles um certo clarão de impaciência. Deixou-se cair numa cadeira e fez um aceno a Edgar para que saísse para o salão. A serva acompanhou-o e em breve se viram a sós.

       A mulher pousou o seu trabalho de agulha com um suspiro e sujeitou-o a um estudo pensativo e pormenorizado.

       - Então, Sir Baldwin queria ver-me? - A voz era baixa e calma.

       - Sim... - Agora que estava ali, compreendia que levantar o tema da morte do marido não iria ser fácil. Qualquer referência à morte de Allan Trevellyn deveria recordar-lhe a dor de ver seu corpo contorcido, caído no meio das árvores. Respirou fundo e disse:

       - Senhora Trevellyn, sei que deve ser difícil para si, mas tivemos alguma sorte na busca do assassino do seu marido.

       A mulher levantou uma sobrancelha e Baldwin pensou ver-lhe um pequeno sorriso de cepticismo.

       - Sim? E como foi isso?

       - Quando da morte de Agatha Kyteler descobrirmos algumas provas que indicavam o possível envolvimento de um homem local. Procuramo-lo, e o homem, o Harold Greendiff, tinha desaparecido. Fomos vê-lo ontem... e também não o encontramos. Fugiu! No entanto, encontramos o seu rasto e...

       Os olhos da mulher tinham-se escancarado como se tivesse ficado muito surpreendida, e Baldwin viu-a levar uma das mãos à garganta.

       - O Harold? - murmurou, numa voz trêmula e subitamente fraca.

       - Parece que fugiu logo a seguir a ter morto o seu marido minha senhora. Enviamos um grupo atrás dele e os homens estão a seguir-lhe o rasto na floresta. O meu amigo almoxarife também lá está e deverá trazer o rapaz de volta para ser julgado por assassínio. Minha senhora. Sente-se bem?

       Angelina apoiara o rosto nas mãos, como se fosse chorar. O cavaleiro inclinou-se um pouco para a frente e estendeu um braço, hesitante, ansiando por poder tocar-lhe para a acalmar, mas acabou por desistir. Não se atrevia.

       - Minha senhora. Posso buscar-lhe alguma coisa?

       Olhou-a e ficou chocado com a nova tristeza que lhe viu nos olhos. O coração do cavaleiro acompanhou-a na simpatia que parecia ter pelo jovem agricultor, mesmo que esta fosse deslocada. Porém, nesse momento, Angelina fitou-o. O cavaleiro viu-lhe o medo nas profundezas dos olhos cor de esmeralda... e o gelo de uma repentina desconfiança deixou-o rígido. A reação da mulher não se devera apenas à compaixão feminina por um servo perseguido. Tinha medo. Tinha muito medo de qualquer coisa...

 

       - Maldita neve!

       Tinham conseguido seguir os rastos em torno do perímetro de Crediton, com Mark Rush a permanecer entre as árvores e tropeçando nas folhas e nos arbustos ralos da berma da estrada para poder seguir as pegadas. Entretanto, os outros membros do grupo cavalgavam com satisfação na área de terrenos limpos que rodeavam a cidade enquanto se divertiam com as suas pragas murmuradas. De vez em quando o caçador passava demasiado perto de uma árvore e agitava-lhe os ramos, provocando a queda de mais neve que o atingia e dava origem a mais uma explosão de pragas. Foi depois de terem caminhado em volta da cidade, quando já se encontravam a sul da mesma, que os rastos começaram a desviar. Rush não era tonto e sabia que o homem era um fugitivo e deveria tentar confundir quaisquer perseguidores. Podia voltar para trás quando menos o esperassem, ou descobrir um riacho por onde pudesse viajar sem deixar pistas e onde nenhum cão detectaria um odor, embora naquele momento essa fosse uma possibilidade perigosa e dolorosa agora que as águas se encontravam geladas. Que mais poderia fazer? Deixar um rasto de propósito para lhes montar uma armadilha? Eram estes os pensamentos que continuavam a abrir caminho na sua mente enquanto seguia as pegadas que avançavam lentamente para o sul.

       - Almoxarife!

       Simon ouviu o apelo, entregou o cavalo ao último homem do grupo e entrou nas árvores

       - Sim?

       O caçador apontou para o chão.

       - Está a desviar-se para sul. É tarde. Podemos tentar continuar a segui-lo se quiser, mas acho que seria melhor procurarmos um local onde possamos passar a noite para continuarmos atrás dele logo pela manhã.

       Simon acenou uma confirmação. O céu começara a escurecer e dentro em pouco tornar-se-ia difícil ver as pegadas. Tinham avistado uma quinta não muito longe dali, para leste, num novo terreno roubado à floresta. Encaminharam-se para lá e momentos depois lá se encontravam sentados na frente de uma fogueira, a comerem as rações de carne curada e a beberem vinho. Ao princípio o agricultor mostrara-se preocupado quando vira aparecer três homens bem armados e apalpara nervosamente a adaga. Depois, quando Simon lhe explicou quem eram, o homem concordara rapidamente em admiti-los na sua sala e até dissera que, se havia um assassino à solta, então estaria mais seguro com o grupo em sua casa.

       A casa possuía uma grande sala onde os animais se encontravam separados por uma vedação e ficou com muito espaço livre mesmo depois do regedor surgir com mais dois homens. Enviara os restantes dos homens do seu grupo para informarem a respeito dos rastos terem sido descobertos. Não lhe parecera valer a pena ter tantos homens envolvidos na perseguição de um único fugitivo.

       Tanner chegara cerca de uma hora depois do grupo de Simon ter terminado a refeição. Praguejara amargamente por ter sido obrigado a ter de seguir tanto a pista do fora-da-lei como também a dos homens de Simon até descobrir a quinta, e ele e os seus sentaram-se em frente do fogo até a neve derreter e as roupas começarem a libertar vapor. O agricultor atarefava-se entusiasticamente em volta deles, oferecendo-lhes canecas de cerveja e cidra da sua dispensa, e fornecendo cobertores extras aos que necessitassem. Num dos cantos havia uma mesa com um banco de cada lado e foi aí que o regedor, o caçador e o almoxarife se sentaram.

       Tanner estava pensativo e mastigava um pouco de pão enquanto observava os outros.

       - Então têm a certeza de estarem a seguir os rastos certos?

       Mark Rush e Simon trocaram uma olhadela rápida. A seguir, o caçador acenou.

       - Sim, tenho certeza. Descobrimos os rastos a afastarem-se do trilho de acesso à casa dele, como se estivesse a evitar as estradas. Quando chegou a Crediton, tal como pudeste ver, rodeou a cidade e continuou em frente.

       - No entanto, não faz grande sentido... - murmurou o regedor.

       - Não faz sentido? Porquê? - perguntou Simon.

       - Bom, está a dirigir-se para o sul, como se tivesse pensado muito bem no assunto e decidisse fugir... mas não vi nenhum sinal de uma fogueira. Vocês viram?

       - Não. - admitiu o almoxarife.

       - Nesse caso, deve querer cobrir a maior distância possível antes de descansar, já percorremos pelos menos 20 quilômetros, ou perto disso. Pode ter prosseguido por mais dez ou 12 quilômetros antes de precisar parar.

       - Sim - concordou o caçador. - O Tanner tem razão. O homem pode prosseguir ao seu próprio ritmo. Temos de nos certificar de que não lhe perdemos o rasto... e isso só é possível à luz do Sol.

       Tanner acenou e olhou para o almoxarife.

       - Para onde pensas que se dirige?

       - Não faço idéia. Só posso presumir que está a dirigir-se para a costa, mas corre um grande risco.

       - É verdade. Segue na direção das charnecas. Se continuar assim... vai acabar como alimento para os corvos.

       Mark Rush levantou os olhos da caneca.

       - Não terá de esperar tanto. Se prosseguir daquele modo e não tiver cuidado, ainda acaba por morrer antes de chegar às charnecas.

       - Por que dizes isso?

       - Por causa do modo como anda. Cambaleia e tropeça, como se estivesse bêbado. Vai precisar de muita sorte para chegar às charnecas. Não sei... mas podemos vir encontrar o corpo ao longo do dia de amanhã.

       Greendiff não estava morto, mas encontrava-se gelado até aos ossos. Sentara-se numa depressão no solo, um minúsculo abrigo natural onde acendera uma pequena fogueira que ardia alegremente e lançava leves sombras à sua volta. Todavia, não era o suficiente para o aquecer. Por ali não havia lenha e fora obrigado a recorrer a alguns ramos verdes que arrancara de uma árvore e que libertavam pouco calor. Tremeliçava debaixo do seu cobertor enquanto meditava desanimado, no seu futuro pouco prometedor.

       Na sua mente não existiam dúvidas. Com certeza acabaria por gelar se não conseguisse encontrar um sítio abrigado onde pudesse descansar e comer qualquer coisa quente. Tinha os dentes a chocalhar, numa amarga recordação da provação em que se encontrava. Devia existir por ali algures, um sítio onde pudesse implorar um lugar quente para se sentar... e uma tigela de sopa.

       Encontrava-se junto aos limites da floresta, embora não soubesse muito bem onde. As árvores desfaziam-se na distância de cada lado da sua depressão, enquanto a frente, para sul, a terra se mostrava vazia e estéril: era Darthmouth. Nunca antes se encontrara tão longe, nunca tivera motivo para o fazer - e a visão das colinas ondulantes à sua frente era assustadora. Não possuíam qualquer espécie de definição. Fundiam-se umas nas outras, com a sua série de cumes achatados a formarem o que quase parecia ser uma grande planície. Porém, quando esforçava os olhos conseguia distinguir variações nos tons de cinzento. Havia uma longa faixa de terreno mais escuro a atravessar a paisagem à sua esquerda, direita ao horizonte, e avistava toda uma série de áreas mais claras no topo das colinas iluminadas pela Lua. Depois, no meio dessas duas coisas distinguiam-se vagamente os tons mais escuros que revelavam onde se encontravam os vales.

       Suspirou e esfregou os olhos com dedos que perdiam rapidamente todas as sensações de tato. Estava fatigado, completamente exausto, como se a sua alma tivesse esgotado. Precisara das últimas minúsculas faíscas de coragem para acender a fogueira, isto porque na verdade o que mais desejava era deitar-se e dormir. Seria tão bom poder fechar os olhos e desligar-se de tudo por instantes, deixar que a sonolência o levasse e lhe desse alguma paz, alguma paz verdadeira, aquela paz que nunca mais voltara a conhecer desde que colocara o corpo da bruxa junto à sebe... - Ah, se a tivesse enterrado imediatamente! Por que fora para casa para dormir, e não a ocultara logo?

       Foi nesse momento que reparou numa pequena estrela que, por qualquer razão, lhe atraiu os olhares. Havia ali qualquer coisa errada. Franziu a testa e estremeceu, tentando concentrar-se para perceber o que havia de diferente a respeito daquela estrela. Por cima dela brilhavam várias outras. Pareciam ser todas do mesmo tamanho, pelo que não era a isso que se devia a sua estranheza. O que era? Não tinha dúvidas de que havia ali algo de estranho. Parecia tremeluzir, como se houvesse uma nuvem a passar na sua frente... mas não havia nuvens no céu ou, pelo menos, não as conseguia ver ao luar. Sentiu uma súbita pontada de medo no peito: medo dos espíritos e dos fantasmas da charneca de que tanto ouvira falar. A respiração prendeu-se-lhe na garganta quando pensou nas histórias de almas penadas que tentavam capturar homens para os levar para o inferno. Se Agatha tivera um pacto com o diabo, tal como diziam em Wefford, então talvez fosse capaz de enviar uma dessas almas à sua procura.

       Todavia, o pânico desapareceu rapidamente quando se pôs de pé, de repente. Deixou cair o cobertor dos ombros e ficou com o rosto muito branco na escuridão enquanto olhava. Era uma fogueira.

       Não tinha por onde escolher. Se ficasse ali acabaria por morrer, não obstante a sua pequena fogueira. Isso era óbvio. O frio era demasiado intenso, o abrigo encontrava-se muito exposto e tinha as roupas úmidas do suor e dos ocasionais bocados de neve que tinham caído sobre ele e derretido. Lançou uma última olhadela ansiosa para as fracas chamas que reconhecia não lhe oferecerem segurança nem qualquer possibilidade de sobrevivência. Com certeza aquele fogo se apagaria se adormecesse. Os ramos que conseguira recolher estavam demasiado úmidos para permanecerem acesos e precisavam de atenção constante. Não, não tinha por onde escolher.

       Deixou o fogo morrer, pegou na sacola e no bordão e começou a caminhar para a luz tremeluzente que tinha na sua frente. Não sabia dizer a que distância se encontraria, mas calculava que fossem cerca de dois quilômetros. Parecia-lhe que a fogueira brilhava no alto de uma colina, e fora por isso que a confundira com uma estrela.

       Havia pouco vento, apenas uma ligeira brisa, e no início ainda avançou com facilidade. A neve não era profunda. O solo por baixo era sólido e relativamente plano, com poucas pedras e buracos. Todavia, depois de algumas centenas de metros, as coisas tornaram-se mais difíceis.

       Tudo começou quando tropeçou e caiu para a frente. Ofegou, assustado. Levantou-se com o rosto e a cabeça cobertos pelo pó branco que se agarrava a tudo. Todavia, o pior não era isso. Aparentemente, havia um riacho por baixo da superfície de neve e ficara com as pernas ensopadas em água gelada. Tinha de continuar a andar para se manter quente, para se manter vivo.

       Ganhou uma nova resolução e partiu novamente, já com um passo mais rápido e com a testa contraída pela concentração do esforço e da determinação. Não ia morrer! Não podia morrer!

       O terreno piorava. Era irregular, com blocos de granito dispersos liberalmente por baixo da cobertura branca, cobertura essa que agora se transformava num obstáculo sério que lhe impedia os movimentos e escondia as pedras que se encontravam por baixo. Quase não conseguia fazer mais do que alguns metros antes de tropeçar e estava tão cansado que as quedas eram inevitáveis.

       A certa altura sentiu que nunca conseguiria alcançar a fogueira. Foi depois de outro trambolhão, quando ainda jazia na neve a soluçar de frustração. Levantou a cabeça e descobriu que a vertente que tinha pela frente ocultara a luz da fogueira, como se a sua promessa de calor e descanso lhe fosse roubada à medida que se aproximava.

       Ofegou com o esforço, pôs-se de pé muito devagar e prosseguiu, com a respiração a pulsar-lhe na garganta num grunhido que era um lamento contínuo, e com o rosto virado para a fogueira longínqua. Perdera todas as suas energias. As botas embatiam constantemente nas pedras, tinha os dedos dos pés feridos e emitiam uma dor abafada que até conseguia ultrapassar o entorpecimento dos pés queimados pelo frio. O bordão tornava-se mais pesado a cada passada. A energia gasta para o levantar e para o pousar, esgotava-lhe os últimos recursos. No entanto, mantinha-se agarrado a ele como se fosse uma espécie de talismã que lhe oferecesse um pouco de apoio e de força.

       Atingiu o topo da colina e conseguiu voltar a ver a fogueira, agora mais claramente. Parou por instantes e saboreou a visão enquanto recuperava o fôlego. As chamas ardiam sob uma saliência rochosa, no que aparentava ser a entrada de uma gruta, e acenavam-lhe alegremente, prometendo-lhe paz. A respiração prendeu-se-lhe na garganta e não teve a certeza se deveria rir ou chorar. Soltou o ar num grande suspiro ofegante e retomou a marcha, descendo a ligeira vertente até ao fundo. Do outro lado havia uma nova subida que o levaria à fogueira, à segurança e ao calor.

       Estava prestes a iniciar a subida do outro lado quando ouviu os uivos. Eram as vozes dos lobos a chamarem-se uns aos outros... e compreendeu que a presa era ele.

       - Acho melhor vires para aqui um pouco mais depressa... disse-lhe uma voz contemplativa vinda do alto. - Esses bichos parecem esfomeados!

       O resto do caminho foi uma coisa pouca para o fogo. Largou o bordão, a sacola caiu-lhe do ombro, arrastando o cobertor consigo... e talvez fosse isso o que o salvou.

       Greendiff chegou ao cimo da vertente, escorregou e caiu com a cara para a frente numa, depressão rodada por rochas. Repentinamente, ouviram-se rosnados e grunhidos logo por trás dele. O jovem conseguiu erguer-se, olhou para trás horrorizado... e viu quatro lobos a rasgarem e a despedaçarem a sua sacola, bem como a estraçalharem o cobertor. Os lobos tinham atacado as suas posses em vez de o perseguirem para se lançarem contra ele.

       De súbito sentiu as pernas irem abaixo e caiu de joelhos num terror petrificado ante a idéia de que os animais o poderiam ter atacado... Se o tivessem feito, teria os seus dentes na garganta e o bafo nas narinas enquanto o rasgavam em bocados tal como tinham feito ao saco. Soltou um pequeno grito e ficou levemente surpreendido com o som agudo e infantil que emitiu. A seguir... viu-os voltar.

       - Ah, aí vêm eles! - O Bourc falou com toda a calma. Passara anos a caçar lobos na Gasconha e sabia como se defender. Observava-os com cuidado e estava preparado para os receber. Na sua frente havia um punhado de setas com as pontas enterradas no chão, como se formassem um vedação improvisada. Lançou um rápido olhar avaliador para Greendiff e o agricultor viu-lhe os olhos escuros a brilharem por baixo do chapéu quando a luz das chamas os iluminaram.

       O Bourc fez-lhe um aceno e apontou para o fogo com o queixo.

       - Vem aqui e aquece-te. Não me parece que possas ser uma grande ajuda neste momento. - O cavaleiro virou-se novamente para a cena por baixo dele, agarrou numa das setas espetadas no chão e encaixou-a no arco com as mãos a moverem-se com a confiança de uma longa prática.

       Greendiff sentiu a cabeça mover-se numa aceitação lenta e começou a caminhar, tropeçando de cansaço e de frio. Sentia as pernas como se fossem de chumbo, tinha a cabeça pesada e movia-se como num sonho, com os pés a deslocarem-se automaticamente como pesos metálicos de uma grande máquina. Porém, quando se aproximava do fogo ouviu um rugido, rodopiou e viu um enorme animal a atirar-se para a frente. O arqueiro pareceu ficar imóvel, com o lobo a correr diretamente para ele. De súbito ouviu-se uma vibração e o lobo caiu com uma seta espetada na cabeça.

       Dois outros daqueles animais diabólicos apareceram quando o cavaleiro ainda estava a colocar uma nova seta no arco, que retesou logo em seguida, mas os lobos pareceram indecisos e começaram a deslizar de um lado para o outro à beira do acampamento. Eram como uma força de cavalaria a tentar descobrir as fraquezas numa linha de infantes, enquanto a ponta da seta do Bourc os acompanhava.

       De súbito, os dois animais rosnaram, como que para ganhar coragem, e atiraram-se para a frente. O Bourc hesitou por instantes, como que inseguro sobre qual dos animais deveria atacar. A seguir, contudo, puxou a corda do arco e deixou voar a seta na direção do lobo da frente. No entanto, talvez por causa da pressa ou da escuridão, o míssil falhou o alvo.

       Para grande horror de Greendiff, os lobos lançaram-se ao ataque e um deles atirou-se diretamente ao pescoço do seu salvador. Espantado, o jovem viu o homem recuar com um braço levantado para proteger o pescoço. O lobo apanhou-lhe o braço entre as mandíbula, e a força do salto fez com que o homem caísse para trás. Porém, logo em seguida rebolou para um lado e pôs-se de pé num salto. Os olhos chocados do agricultor desviaram-se para o lobo, que jazia a estrebuchar enquanto morria. Voltou a olhar para o Bourc e viu-lhe a curta espada nas mãos, a brilhar e a pingar gotas vermelhas sob a luz da fogueira.

       O último lobo seguira quase atrás dos calcanhares do primeiro mas detivera-se quando este saltara. Agora hesitava, desconfiado, enquanto descrevia círculos em torno do homem. Os olhos do animal desviaram-se do Bourc para Greendiff, inseguros. O cavaleiro aproveitou essa pausa para largar a espada, apanhar o arco, colocar uma seta na corda e disparar... e fez tudo aquilo com movimentos fluidos e precisos. Daquela vez certificou-se de que acertava no alvo. O lobo caiu como se tivesse sido derrubado por uma lança.

       O Bourc ficou parado durante um ou dois minutos, abaixou lentamente o arco e soltou um suspiro. Voltou a colocar uma nova flecha na corda, aproximou-se lentamente de cada um dos animais caídos, inspecionou-os com cuidado, caminhou para o perímetro do acampamento e espreitou para a escuridão. Pareceu ficar satisfeito com o que viu porque regressou para junto dos corpos a assobiar alegremente. Largou o arco, recuperou a espada, foi avançando de corpo para corpo e cortou as gargantas aos animais.

       Olhou para cima e esboçou um sorriso rápido.

       - Quando lidamos com estes diabos, o melhor é certificarmo-nos de que estão bem mortos! - declarou, satisfeito. A última coisa que Greendiff conseguiu ver enquanto caía lentamente para o lado foi o sorriso do cavaleiro a apagar-se lentamente numa surpresa perplexa. A exaustão do agricultor acabara finalmente por levar a melhor.

       Simon e o grupo já se encontravam a cavalo e prontos logo às primeiras luzes da manhã seguinte. O almoxarife sentia-se rígido e sofria de um mau jeito nas costas por ter dormido em cima de um banco. No entanto, sabia que se encontrava muito melhor do que estaria se tivesse tentado passar a noite ao ar livre.

       Pouco depois já estavam de volta ao rasto e Mark Rush reiniciou o seu atento exame às pegadas. Continuava convencido de que iriam encontrar um corpo e era fácil de ver porquê.

       Os passos do fugitivo eram quase um par de longas linhas com marcas mais profundas onde as botas haviam pousado. Entre essas pegadas viam-se sulcos de arrastamento nos locais onde o homem estivera demasiado cansado para levantar os pés. Simon não tinha dúvidas de que Mark Rush tinha razão. O rapaz não tinha grandes possibilidades de sobreviver.

       Cavalgavam havia cerca de uma hora quando depararam com a zona plana onde o rapaz jazera. Depois disso os seus passos tinham mudado de direção, parecendo cambalear na direção das árvores, onde encontraram o estábulo. Tanner e Mark Rush desceram dos cavalos, desembainharam as espadas e entraram, quase a espera de depararem com o corpo de Greendiff. Simon olhou em volta enquanto os dois homens investigavam o estábulo e soltou um grito:

       - Há mais pegadas!

       Mark Rush apareceu a correr com um rosto inexpressivo e seguiu o dedo com que o almoxarife apontava. Para Simon, foi como se o homem duvidasse do que via. Ficou a olhar para baixo, com a cabeça a abanar de incredulidade, suspirou e regressou para junto dos cavalos a guardar a espada enquanto caminhava.

       - Então, conseguiu viver o suficiente para descansar... Deve ter ido direito às charnecas.

       Naquela manhã o tempo não estava tão frio e surgira alguma umidade. De vez em quando as árvores por cima deles largavam grandes bocados de gelo e de neve, que ocasionalmente atingiam um dos homens. O esforço da cavalgada aquecera-os a todos. Embora avançassem a um trote ligeiro, o exercício provocava neles um certo calor interior, pelo que Simon estava grato pela ligeira brisa.

       Descobriram que os rastos seguiam quase direto e Simon soube que se dirigiam na direção das charnecas. Não deveria faltar muito para saírem da floresta e penetrarem nos terrenos áridos. Era aí, com certeza, que iriam encontrar o rapaz.

       Margaret tivera uma noite desconfortável, acordara tarde e descobrira que Baldwin já saíra de casa. Passara a manhã na ociosidade, interrogando-se sobre o que Simon estaria a fazer e por onde andaria. Não ficara demasiadamente preocupada quando não o vira regressar na primeira noite e tinha a certeza de que o marido, se encontrava a salvo mas, mesmo assim, não deixava de sentir uma ocasional vaga de preocupação.

       Pegou na sua tapeçaria e conseguiu levar a cabo quase meia hora de trabalho antes de a atirar para o lado, impaciente, assustando o cão da velha Agatha Kyteler.

       - Desculpa, a culpa não é tua - disse apologética, estendendo a mão e dando um estalo com os dedos. Todavia, o animal olhou-a acusadoramente, sem pestanejar, antes de se pôr de pé, espreguiçar-se e voltar a deitar-se junto do fogo, mas de costas para ela. Margaret sorriu ante aquela óbvia rejeição, levantou-se e encaminhou-se para à frente da casa.

       Encontrou Edgar a supervisionar os outros servos, que cortavam lenha para as lareiras. O servo levantou os olhos e lançou-lhe um sorriso ele boas-vindas quando Margaret emergiu para a luz do Sol a pestanejar sob a súbita claridade.

       - Bom dia, Edgar - disse, espreitando o horizonte com uma das mãos a proteger os olhos.

       - Bom dia, minha senhora.

       - Sir Baldwin terá ido para muito longe?

       O servo olhou-a de relance e Margaret teve certeza de lhe ver o relance de um sorriso, quando Edgar se virou novamente para os homens que cortavam a lenha.

       - Tenho certeza de que não deverá demorar, minha senhora.

       Aquilo era intrigante. Nunca vira qualquer sinal de humor no servo normalmente taciturno e Margaret, de repente, sentiu uma grande vontade de saber para onde teria ido o cavaleiro.

       - Acompanha-me por um pouco, Edgar. Estou muito aborrecida...

       O homem levantou a cabeça, pensou no assunto e acenou. Deu algumas instruções aos homens e aproximou-se.

       - Onde deseja ir, minha senhora?

       - Oh, só até ao caminho, mais nada.

       Partiram num silêncio de companheirismo. Porém, Margaret olhou-o de soslaio logo que os outros servos já não os podiam ouvir e perguntou:

       - Então, para onde é que ele foi?

       - Oh, penso que foi só até Wefford - respondeu Edgar, com uma cara de pau.

       - Porquê? Além disso, por que estava tão maldisposto a noite passada quando voltaram para casa?

       - Maldisposto, minha senhora? - O servo fitou-a com uma expressão ingênua.

       - Sabes bem que estava! Quase não falou comigo... e ficava embaraçado cada vez que abria a boca. Pensei que tivesse feito alguma asneira...

       Edgar sorriu e Margaret deteve-se subitamente, espantada, quando foi atingida por um relâmpago de inspiração que lhe cortou a respiração O embaraço do cavaleiro, a sua aparente timidez e o divertimento do servo... eram tudo coisas que apontavam para o mesmo lado.

       - Uma mulher! O teu amo encontrou uma mulher!

       - Minha senhora, eu não lhe disse nada disso! - protestou o servo com ansiedade, mas ainda com um sorriso a transformar-lhe as feições.

       - Mas... quem? - Margaret ofegou, deliciada... e um pouco surpreendida.

       - Ah!.. - fez Edgar, virando-se para paisagem com uma ligeira careta. - Dona Trevellyn.

       - Nesse caso, achas que a foi visitar? - perguntou.

       O servo encarou-a com o horror estampado no rosto.

       - Oh, não, minha senhora. O amo não faria uma coisa dessas! Creio que saiu para tentar decidir se deve começar a pensar numa esposa...

       O servo tinha razão, Baldwin cavalgava lentamente, com o falcão pousado no pulso mas com a mente a muitos quilômetros dali.

       - Afinal de contas... - murmurou para si mesmo - há convenções. A pobre mulher acabou de perder o marido e pode não querer pensar noutro homem até o período de luto chegar ao fim...

       Soltou um suspiro. Não era essa a questão e sabia-o. Era tão desejável, em particular agora, que parecia tão vulnerável... A expressão que lhe vira quando lhe falara na caça ao homem dera-lhe vontade de a agarrar para a confortar, de tão assustada que lhe parecera. Era claro que temia pela própria vida enquanto o assassino andasse em liberdade, não fosse dar-se o caso do homem voltar.

       Para ela, o fato de ter ouvido os cruéis boatos a respeito dela e de um agricultor local deveria ter sido profundamente doloroso. Depois, a perda o marido devia ter constituído uma maléfica reviravolta do destino. Porém, mesmo que não fosse, Baldwin, estava certo de que a mulher era inocente de adultério. Uma leviana não teria mostrado uma tão grande emoção. Além disso, daria uma esposa maravilhosa para um cavaleiro... se os boatos maliciosos não fossem verdadeiros.

       O modo como lambia os lábios depois de bebericar um gole de bebida era tão atraente, tão provocador...

       - Isto é ridículo! - murmurou, zangado, olhando com irritação para a ave pousada no seu pulso. - Por que hei de pensar que ela... Nem sequer tenho uma grande riqueza ou títulos...

       Calou-se quando a sua mente trocista, lhe apresentou uma nova imagem da mulher. Viu Angelina sentada à lareira, no calor e conforto dos seus aposentos, com os compridos cabelos pretos a caírem-lhe pelas costas, os olhos verdes tão brilhantes a olharem-no de frente, e com os lábios vermelhos ligeiramente abertos como se estivesse prestes a ofegar... e o cavaleiro voltou a sorrir.

 

       - Então, já estás acordado, não é verdade?

       - Ah!.. - nenhumas palavras conseguiriam transmitir a angústia e dor do grunhido baixo que se soltou dos lábios de Harold Greendiff quando tentou levantar-se. Gemeu baixinho, rolou para um lado e espreitou por entre as fendas dos olhos para o homem que olhava para baixo, para ele, com uma grave preocupação. Abriu a boca, sentiu-a como se tivesse uma semana de saliva encrostada em volta dos lábios e estremeceu quando a pele estalou.

       - Fica quieto, meu amigo. Senta-te. Não podes ir a lado nenhum.

       Greendiff examinou-o quando os seus olhos começaram a focar-se. Estava vestido com espessas roupas de lã que pareciam quentes. Também tinha uma túnica de um tecido pesado e uma capa forrada a pele. Devia ser um homem rico.

       O rosto atraía as atenções. Era trigueiro, com as feições quadradas e sulcadas, marcadas pelo tempo, e parecia tão resistente como as rochas à sua volta. Dois brilhantes olhos pretos fitavam o agricultor com interesse por baixo de uma espessa cabeleira castanha escura. Embora tivesse rugas de riso em volta dos olhos, estes só revelavam preocupação e Greencfff compreendeu que o seu próprio aspecto devia ser o de uma triste figura. Depois, quando as recordações lhe regressaram, sentiu um soluço a sacudir-lhe o corpo num súbito tremor de autopiedade.

       - Acalma-te. Bebe isto...

       O líqüido estava tão quente que quase escaldava, mas pensou que nunca saboreara nada tão maravilhoso. Era vinbo aquecido, mais do que apropriado para o próprio rei, pensou Greendiff. Não deixou de lhe queimar a carne em volta da boca embora o tivesse bebericado com cuidado, deixou-lhe um rasto ardente na garganta e acabou por formar o que lhe pareceu ser um bloco sólido e quente no fundo do estômago. Entretanto, o seu anfitrião permanecia agachado a observá-lo.

       Momentos depois já Greendiff começava a perceber o que o rodeava. Encontrava-se numa qualquer espécie de gruta. No exterior, através da estreita entrada, via uma fogueira cujo calor chegava até ele juntamente com o cheiro a lenha queimada, jazia numa improvisada enxerga de palha com o cobertor sobre o corpo e era óbvio que o novo amigo o deixara dormir na sua própria cama porque um segundo cobertor estendido no chão revelava onde ele dormira.

       - Sentes-te suficientemente bem para comeres? - O agricultor ouviu a pergunta e sentiu o estômago a acordar para uma vida turbulenta como se tivesse permanecido em hibernação até àquele momento. Soltou um grunhido baixo que lhe fez estremecer o corpo enfraquecido. - Ótimo. Terei um pouco de guisado pronto dentro em breve. Também tenho pão, pelo que não precisas te preocupar por teres perdido a tua comida.

       Uma hora depois já se sentia suficientemente bem para se levantar da enxerga e sair para o exterior, onde o homem perrnanecia junto ao fogo, pensativo, a quebrar os raminhos com que alimentava as chamas. Levantou os olhos quando Greendiff apareceu e saiu da gruta todo dobrado para evitar bater com a cabeça na entrada baixa.

       - Como te sentes agora? - perguntou o Bourc.

       Greendiff estremeceu de fadiga e sentou-se numa pedra junto ao fogo.

       - Muito melhor. Estou-lhe muito grato, já estaria morto se não me tivesse ajudado.

       - Um dia posso vir a necessitar de ajuda... e espero vir a ser ajudado tal como te ajudei.

       - Quem é o senhor?

       - Chamo-me, John e sou o Bourc de Beaumonte.

       - Não é daqui? - Era uma pergunta inocente e o agricultor ficou surpreendido pela gargalhada que provocou.

       - Não! Não, vim de longe, da Gasconha. Nunca viveria aqui por vontade própria.

       Greendiff acenou, olhando para as charnecas que os rodeavam.

       Aí está uma coisa que compreendo muito bem! - exclamou . - Então, por que está aqui?

       O Bourc fez uma careta e explicou a sua decisão de atravessar as charnecas.

       - Os lobos perseguiram-me e fui atacado por um deles, só foi há duas noites. Matei-o mas dormi muito pouco, pelo que decidi ficar aqui mais um dia. De qualquer modo, pensei que seria mais fácil defender-se neste sítio. Quando nos apanham numa sela... os lobos perseguem-nos até o cavalo cair de cansaço.

       - Atacaram? Por maldade... ? - perguntou.

       - Mas... por que?

       O agricultor estremecendo ante a memória da mandíbulas a escorrerem saliva e a destruírem as suas posses.

       - Não, nem por isso. É a sua natureza. Viram-me - e a ti - como uma refeição e nada mais. Nesta altura do ano há pouca comida para eles. Pensaram que seríamos fáceis de apanhar.

       Quase estremeceu perante a recordacão. O modo como a fera saltara sobre ele deixara-o aterrorizado. Ainda conseguia ver as queixadas a abrirem-se e cheirar o bafo maligno do animal. Naquele instante tivera a certeza de que iria morrer.

       Na verdade, o medo quase lhe causara a morte. Retardara-lhe as reações e a mesma criatura por pouco não lhe rasgara o pescoço com as maléficas presas encurvadas. Contudo, falhara e cortara-lhe o ombro. A dor despertara-o para o perigo. Virara-se rapidamente e golpeara-o com força uma e outra vez, num louco ataque de pânico.

       A seguir acendera a fogueira e esperara enquanto tratava do ombro, mas os animais tinham preferido não voltar a atacar. No dia seguinte ainda lá continuavam e mantivera-os sob vigilância enquanto permanecia sentado a aquecer-se. Levantou os olhos com um mirada astuta.

       - E tu, que fazes aqui? De quem, ou de que estás a fugir?

       - Eu? -

       O gascão achou que o sobressalto de surpresa do jovem fora cômico.

       - Sim tu! Ninguém que conheça esta zona viria para a charneca coberta de neve a não ser que tivesse um bom motivo para o fazer, muito em particular à noite. É uma boa maneira de ir ao encontro da morte e mais nada. De quem está a fugir?

       - Eu... - O agricultor fez uma pausa. Não tinha razões para duvidar daquele seu salvador de rosto sombrio, mas, a verdade era que não queria admitir a culpa. Abriu a boca para falar, sentiu a respiração a prender-se-lhe novamente na garganta e ficou calado. O soluço estava demasiado próximo, num espasmo involuntário, daqueles que tanto podem ser de infelicidade como de alegria, e cobriu o rosto com as mãos.

       - Vê-se que sofreste um pouco... - comentou o Bourc no tom de quem constata um fato. Bebeu o resto do vinho e manteve os olhos postos no agricultor enquanto revia mentalmente os artigos que encontrara na sacola: um pouco de comida deixada pelos lobos, uma pederneira e uma faca. Uma faca de lâmina comprida, de um só gume, com duas saliências globulares no ponto em que a lâmina se encaixava no punho, guardada numa bainha de couro. Quando a descobrira pensara em voltar a pô-la no seu lugar, mas depois interrogara-se. Se o rapaz fosse um fora-da-lei, se estivesse a fugir à justiça, então seria melhor reter a faca em seu poder por algum tempo. Claro, pensara, que lhe posso devolver se me explicar por que fugiu. Por enquanto, é melhor não o fazer..

       Não se tratara apenas da desconfiança normal de um homem para com um estranho naqueles tempos difíceis. Também fora por causa dos espessos coágulos de sangue seco que vira na lâmina...

 

       - Esperem! - ordenou Mark Rush quando saltou do cavalo. Caminhou lentamente e com cuidado em volta da pequena cova no chão, seguindo a linha das pegadas incertas. - Sim, esteve aqui. Foi até além, tropeçou e caiu. Lá está a marca na neve. Parece que se levantou e acendeu uma fogueira. Um fogueira muito fraca... - ajoelhou-se e farejou os raminhos enegrecidos, pensativo. - Não foi o suficiente para o aquecer durante mais de um minuto. Esteve aqui sentado.

       Levantou-se e continuou a olhar para o chão com as mãos nas ancas. A seguir levantou os olhos para o rosto do almoxarife e encolheu os ombros.

       - Ao que parece não ficou aqui muito tempo. Acendeu a fogueira, sentou-se junto dela por instantes e foi-se embora.

       - Bom, nesse caso vamos atrás dele.

       Tanner avançou alguns passos.

       - Um momento, almoxarife. - Mark? Como é que ele estava quando foi embora desta cova?

       O caçador deixou descair os cantos dos lábios numa cara de pessimismo duvidoso.

       - Eu poria as coisas deste modo: não apostaria nas suas hipóteses. Preferia apostar o meu dinheiro num cavalo sem pernas numa pista de corridas.

       Tanner acenou, olhou para os homens por trás dele e virou-se para o almoxarife.

       - Senhor, acho que podemos mandar os outros para casa. Nós três seremos suficientes para o apanhar mesmo que esteja bem. Tal como as coisas estão, só precisamos de um cavalo para trazermos o corpo conosco.

       Simon confirmou com um aceno e Tanner virou-se para os homens e disse-lhes para voltarem para casa. O almoxarife deu ordens a um deles para que entregasse uma mensagem na estalagem, que deveria ser transmitida à esposa de Simon, informando-a de que estavam bem. Não que isso importasse muito tal como Tanner sabia. Havia poucas esperanças de virem a encontrar o rapaz com vida e em breve regressariam à casa.

       Voltaram a partir, deixaram para trás a linha das árvores e avançaram para a charneca. Tanner descobriu-se a pensar, com tristeza, no último dos Greendiff. Tanner conhecera-o quando o fugitivo era ainda um rapazinho.

       Fora bonito desde os tempos de criança e conseguira sempre pedinchar maçãs às mulheres da aldeia quando era ainda muito jovem. Mantivera o encanto inocente à medida que crescera e começara a aceitar outro tipo de dádivas ou, pelo menos, era o que constava. Supunha-se até que a Sarah Cottey andara com ele recentemente, e fora apenas mais uma de uma longa série. O rapaz tivera a sorte de viver todos aqueles anos sem levar uma surra de um pai ou de um irmão enraivecidos!

       Todavia, o assassínio era algo que nada tinha a ver com os abraços das mulheres, pensou Tanner. O fato de um homem ser popular junto das raparigas locais não o transformava num assassino. No caso dos soldados às coisas eram completamente diferentes, tal como o regedor sabia. Testemunhara demasiadas violações e vira muita gente a quem haviam roubado a vida, lenta ou rapidamente, para saber distinguir as diferenças entre a posse marital ou tomada gentil de uma mulher. Harold sempre se mostrara gentil com as suas mulheres e fora por isso mesmo que nenhuma o denunciara à respectiva família. Ainda gostavam dele, todas elas. Até a Sarah Cottey, que estava embeiçada pelo rapaz.

       Todavia, o amor era possessivo e talvez esse fato o tivesse feito encontrar a coragem para matar. Apunhalara o Trevellyn durante um ataque de ciúmes, para poder ficar com a mulher que desejava. Podia ter sido assim... mas isso não explicava por que motivo matara a bruxa. A razão por trás dessa morte era ainda um mistério. Tanner deixou-se ir atrás dos outros enquanto aquelas idéias lhe passavam pela cabeça, forçando-a a afivelar uma careta sombria e a manter os olhos no chão, sem nada ver.

       Ouviu uma súbita exclamação do caçador, que seguia à frente. Esporeou o cavalo e avançou para onde Simon e Mark se tinham detido e observavam a confusão de rastos que se viam no solo.

       - Parece que caminhou até ali e caiu - disse o caçador. Espreitou ao longo da neve vertente para um pequeno grupo de pedras que pareciam terem-se amontoado umas em cima das outras em busca de calor, no alto da colina. - Andavarn lobos por aqui, mas conseguiu chegar lá acima.

       - Vamos ver se ainda lá está - disse o almoxarife, e o grupo começou a subir a ligeira inclinação.

       Ao princípio Tanner voltou a deixar-se ficar para trás, mas depois encolheu os ombros e empurrou os pensamentos para o fundo da mente. Teriam respostas para todas aquelas perguntas logo que apanhassem o rapaz... se ainda estivesse vivo. Não valia a pena continuar a especular.

       - Bom dia, meus senhores.

       A saudação fê-los parar de repente e a olhar com cuidado para as pedras que se erguiam mais adiante. Simon avançou mais alguns metros, inseguro.

       - És tu, Greendiff?

       - Não! -

       Ouviu-se uma risadinha seca. Houve um movimento lá no alto e o que lhes parecera ser uma rocha destacou-se das outras e saltou com ligeireza para o chão, na frente do grupo.

       Ficaram a contemplá-lo em silêncio por momentos e Simon voltou a avançar mais uns metros. O homem mantinha-se alerta e tinha a pose de um lutador, mas o aspecto não era ameaçador. Estava apenas desconfiado dos três estranhos que lhe haviam aparecido ali, naquelas terras bravias. Simon olhou para o lado e viu que Rush já ali se encontrava.

       - Conheço este homern... - murmurou o caçador. - Vi-o sair de Wefford no dia em que mataram a bruxa.

       Simon acenou e olhou para o gascão.

       - Bom dia, meu amigo. Sou um almoxarife. Perseguimos um fora-da-lei, um homem que quer escapar à justiça. As suas pegadas trouxeram-nos aqui. Viu-o? - perguntou, acrescentando uma breve descrição do fugitivo.

       - Já aqui não está - retorquiu o Bourc.

       - Que quer dizer? Viu-o? - inquiriu Simon, ansioso.

       O Bourc inclinou a cabeça para um lado com uma expressão pensativa enquanto espreitava o almoxarife.

       - Vi-o, mas não me pareceu um fora-da-lei. Dei-lhe um lugar para dormir durante a noite. Ficou comigo mas foi-se embora há algum tempo. Subam ao meu acampamento e poderei mostrar-vos por onde seguiu enquanto se aquecem um pouco junto o fogo - declarou o homem tranqüilamente. Virou-se e conduziu os homens do grupo para o anel de pedras que se erguia no alto da colina.

       Para Simon, o conjunto de pedras pareceu-lhe um cercado. Tinha uma forma vagamente circular, com cerca de 15 metros de largura, e era formado por pedregulhos do granito cinzento local, que aqui e acolá estavam manchados pelos tons alaranjados ou castanhos dos líquenes que espreitavam por baixo da neve. Num dos lados via-se a pilha das posses do gascão, ao lado de dois cavalos, um dos quais era de carga. Para a direita, para lá das chamas de uma fogueira, havia uma abertura baixa no meio das rochas. Perto do fogo viam-se as carcaças de dois lobos, recentemente esfolados, com as carnes limpas e a brilharem com tons prateados nos pontos onde as membranas se agarravam aos músculos. As peles estavam por perto, esticadas em estruturas de madeira. Simon aproximou-se e pontapeou o cadáver de um animal enquanto o estranho caminhava para a fogueira e se agachava na sua frente, a contemplá-la.

       - Então... o rapaz esteve aqui. Para onde foi? - perguntou o almoxarife.

       Olhou para cima e reparou no sorriso do Bourc.

       - Oh! sim, esteve aqui... - Fez um gesto com o queixo, a apontar para o meio das charnecas. - Partiu há cerca de uma hora, logo que vocês apareceram no meio das árvores. Pediu desculpa e pôs-se em fuga. Não pode ter ido longe.

       - Ótimo! - Mark Rush agitou as rédeas do cavalo e levou-o para o outro extremo do recinto, logo seguido por Tanner, enquanto Simon ficava a olhar na direção que John indicara. As pegadas lá estavam, bem nítidas sobre o fundo branco da neve. Agora marchavam com decisão, com cada passo bem definido por uma marca individual, sem as linhas de arrastamento que haviam visto anteriormente quando o rapaz sentira os pés demasiado pesados para os levantar acima da crosta da neve. Simon examinava as pegadas quando teve consciência de que o homem se colocara a seu lado.

       - Por que o perseguem?

       - Por assassínio. Matou duas pessoas.

       - A sério? - A nota de tristeza no tom de voz fez com que Simon se virasse para ele com uma sobrancelha levantada. - Desculpe, almoxarife. É um rapaz muito simpático e o que acabou de me dizer pareceu-me incrível.

       - Aparentemente, matou um homem e uma mulher na semana passada.

       Houve uma breve pausa, que foi interrompida quando o estranho virou os olhos negros para Simon, com a testa franzida.

       - Como foi que os matou?

       - Cortou-lhes as gargantas.

       O Bourc suspirou e a seguir falou-lhe na faca ensanguentada. A seguir calou-se e o almoxarife ficou a olhar para os homens que agora cavalgavam lentamente atrás do fugitivo.

       - É mais uma prova, não acha? - perguntou, meditativo.

       Aquelas eram as passadas de um homem bem repousado. As marcas eram profundas nas biqueiras e leves nos calcanhares. Tanner verificou que o rapaz fugira a correr, soltou um suspiro. Era triste pensar naquele jovem, que acabara de atingir a idade adulta, a fugir em pânico numa tentativa para escapar à morte.

       O resultado só poderia ser esse se fosse considerado culpado dos assassínios, e o rapaz devia sabê-lo. Só havia um castigo para vingar a morte de um homem ou mulher: a forca.

       Ouviu uma pequena exclamação de excitação a seu lado. Tanner levantou a cabeça viu Mark Rush com os olhos postos no horizonte. Acompanhou-lhe o olhar e avistou uma minúscula figura à distância, uma forma delgada que parecia correr através da neve.

       - Vamos! - gritou o caçador e os dois homens chicotearam as montadas.

       Tanner não se desviou das pegadas. Era possível que o rapaz tivesse pensado em levar quaisquer perseguidores para terrenos irregulares ou perigosos a fim de se ver livre deles, e poderiam acabar por ficar presos se se metessem nalguma zona pantanosa. Foi por isso que o regedor manteve os olhos no solo, mas não viu sinais de quaisquer obstáculos. Agora já avistava o fugitivo a alguma distância e parecia dirigir-se para o arvoredo existente no fundo de um vale. Patife, pensou. Temos de o apanhar antes que lá chegue. Se conseguir entrar ali levaremos horas para o encontrar! Todavia, não tinha necessidade de se preocupar.

       Atiraram-se para a frente viram a figura cambalear, tropeçar e cair. Rolou pelo chão e ficou imóvel por instantes, como se tivesse perdido o fôlego. A seguir levantou-se e continuou a correr, mas agora mais lentamente e a coxear. Perdera a velocidade e os dois homens que o perseguiam sentiram-se suficientemente confiantes para abrandarem as montadas para um trote rápido, prosseguindo a caçada com mais cuidado para protegerem os cavalos.

       Continuaram a cavalgar, obrigaram as montadas a descreverem uma curva, detiveram-se na frente do fugitivo e deixaram-se ficar sentados nas selas entre o fugitivo e a proteção das árvores. Tanner observou a figura miserável do homem que cambaleava para eles e sentiu novamente uma vaga de tristeza. O rapaz era um destroço. Tinha os cabelos emaranhados e colados ao crânio por os ter molhado ao cair na neve. A túnica e a jaqueta estavam inteiramente cobertas de branco, dando-lhe o aspecto de um estranho monstro do inverno. Todavia, os olhos estavam repletos de desgosto e Tanner percebia isso mesmo à distância.

       - Perseguimos aquilo? - ouviu o caçador a murmurar espantado, como se também ele estivesse a sentir compaixão por uma vida destruída. O regedor acenou e deixou sair o ar dos pulmões numa longa coluna que se tornou visível no ar gelado.

       Greendiff parou a alguns metros deles e ficou a olhá-los com um rosto contraído que parecia prestes a rebentar em lágrinias. Depois, quando ambos esporearam os cavalos para a frente, o rapaz deu um passo atrás, empurrou a túnica para o lado e empunhou a sua comprida adaga.

       - Deixem-me em paz!

       - Ora, vamos, Harold, não me podes apunhalar! - Tanner percebeu que as suas palavras eram ridículas quando ainda estava a proferi-las.

       - Não posso voltar! Não ouviram, já não há lá nada para mim! Deixem-me ir, por favor... Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. - Deixem-me ir...

       - Sabes bem que não o podemos fazer, Harold. Temos de te levar conosco.

       - Porquê? Sir Baldwin não precisa de mim...

       - Não se trata de Sir Baldwin - declarou Mark Rush ao lado de Tanner. - Não te podemos deixar ir depois de teres assassinado o Allan Trevellyn. Como é que vai ser? Levamos-te vivo ou morto? O caçador puxou o arco por cima da cabeça e verificou a corda enquanto falava.

       - O Allan Trevellyn? - Tanner teve a certeza de ver um horror absoluto nos olhos do rapaz. - Está morto?

       O arco estava pronto. Mark Rush levou o seu tempo a escolher a seta, agarrou numa e colocou-a na corda do arco.

       - Suponho que só pretendias assustá-lo? Foi por isso que lhe cortaste a garganta, como fizeste com a velha bruxa? Não te preocupes! Poderás pedir desculpa aos dois quando chegares ao inferno.

       Tanner viu o rapaz ficar de boca aberta, mas depois, como se tivesse tomado uma resolução súbita, libertou a bainha da adaga, guardou a faca e atirou-a na direção dos dois homens.

       - Podes guardar o teu arco. Rendo-me. Sim, matei os dois. - Pronunciou as palavras com clareza, mas também com o que Tanner pensou ser uma espécie de desafio cansado mas firme. Aguardou pacientemente enquanto o regedor desmontava, avançava para ele e lhe amarrava as mãos com uma tira de couro, para depois recolher a adaga e fazer-lhe sinal para começar a andar.

       - Sai daí, Harold, voltemos para casa.

       Foi com uma sensação de alívio que Simon observou a lenta aproximação dos três homens, dois a cavalo e um a pé, com este último a cambalear ligeiramente. Felizmente, ninguém se magoara. Greendiff não se atrevera a apunhalar nenhum deles quando o tinham capturado.

       Ouviu o estalar da neve quando o Bourc se aproximou a parou a seu lado. Simon escutou um suspiro e virou-se, surpreendido. Parecia-lhe uma coisa pouco apropriada num homem como aquele. Pelo que já vira do estranho, este tinha aspecto de ser um homem forte e autosuficiente, e não do tipo capaz de expressar simpatia por um assassino, ou um fora-da-lei.

       O Bourc captou o olhar do almoxarife e encolheu os ombros, envergonhado.

       - Eu sei. É um assassino... mas não deixa de ser um rapaz agradável. Nunca o veria como uma pessoa capaz de matar. Parecia-me demasiado tranqüilo, e muito mais triste do que cruel.

       - No entanto, disse-me que viu sangue na adaga dele!

       - Pois disse... mas não poderá ter sido em autodefesa?

       Simon calou-se para pensar no assunto.

       - Defesa? Não, não me parece. As duas pessoas foram assassinadas pelas costas e cortaram-lhes as gargantas. Só podem ter sido mortas por alguém que as queria assassinar. Não vejo que as matasse para se defender. Além disso, não precisaria se defender de uma mulher idosa...

       - Uma mulher idosa?

       - Sim, matou uma velha em Wefford.

       Simon tomou consciência de uma súbita tensão quando o homem se inclinou para a frente e perguntou:

       - Como se chamava essa mulher, almoxarife?

       - Como se chamava? - Os três homens estavam quase a chegar, com o caminhante a debater-se com a neve mais profunda da base da colina. Movia-se devagar e agitava muito os braços como que a tentar manter o equilíbrio. Chamava-se Agatha Kyteler.

       O homem aspirou o ar repentinamente. Simon virou-se e viu-lhe os olhos encherem-lhe de horror enquanto fitava o homem que arrastava para eles.

       - A Agatha? Matou a Agatha Kyteler?

       O almoxarife soltou uma exclamação.

       - Ah, claro, você deve ser o Bourc de Beaumonte!

       - Sim, mas como é que...?

       - Sou amigo de Sir Baldwin, que me mencionou a sua visita. Tenho certeza ele que gostaria de voltar a vê-lo. Não quer voltar conosco?

       O Bourc olhou para lá do almoxarife, para o centro das charnecas e sorriu com tristeza quando voltou a fitá-lo.

       - Meu amigo, creio que seria uma boa idéia voltar convosco. Depois, quando voltar para a costa, creio que seguirei pelas estradas tal como toda a gente faz e que evitarei os atalhos! Ah! aqui estão eles!

       Simon virou-se e viu os três homens a entrarem no círculo de pedras.

       Simon pressentiu, agora que o voltava a ver de perto, que o jovem não estava bem. Tinha o tom avermelhado da febre e o rosto aparentemente suado de um convalescente. Seria apenas isso, ou tratar-se-ia de uma manifestação de culpa? Estaria a sofrer de alguma maleita por ter passado as noites ao frio, ou haveria nele alguma doença mais profunda devida ao conhecimento do que fizera e do preço que teria que pagar agora que fora capturado? As mãos do rapaz tinham um tom azul, como se tivessem a circulação cortada, e o almoxarife tomou uma nota mental para que lhe aliviassem um pouco a fita de couro que lhe amarrava os pulsos.

       No entanto, os seus olhos eram brilhantes e firmes, sem vergonhas, nem preocupações. Pareciam quase descontraídos, como se se tivesse posto à prova e descobrisse que era mais forte do que esperara. Tinha um aspecto sujo e mal cuidado, mas, continuava a manter-se direito, um pouco à maneira de Baldwin, pensou Simon. O jovem mostrava-se orgulhoso e arrogante na sua confiança.

       O rapaz olhou-o por instantes e depois espreitou por cima do ombro do almoxarife. Este lançou uma olhadela rápida para trás das costas e verificou que o Bourc estava agachado junto ao fogo, que alimentava com novos ramos. Simon percebeu que Greendiff tremia de frio e conduziu-o para junto da fogueira sem pronunciar uma palavra. O jovem agachou-se, estendeu as mãos atadas para as chamas e soltou um pequeno grunhido de dor. Passado um instante, Simon puxou pela adaga, aproximou-se e cortou a tira de couro. O rapaz lançou-lhe um aceno de gratidão antes de voltar a fixar as chamas.

       Tanner prendeu o cavalo antes de se juntar aos três homens em volta da fogueira. Parou, observou o prisioneiro, retirou a faca de Greendiff da cintura e atirou-a para o chão, para junto dos pés do almoxarife.

       Simon olhou para cima, viu-lhe o ar sério, ou triste, abaixou-se e apanhou-a. Extraiu a lâmina da bainha, viu as manchas e tocou-lhes com a ponta de uma unha. Não podia ter a certeza, mas as manchas eram castanhas-escuras e pareciam de sangue.

       - De quem é este sangue, Harold? - perguntou.

       Os olhos claros viraram-se primeiro para ele e depois para a faca com um desinteresse aparente. Encolheu os ombros e fitou as chamas.

       - Talvez do Trevellyn... - murmurou

       - Já admitiu os assassínios - declarou Tanner, deixando-se cair ao lado do almoxarife.

       - Por que o fizeste, Harold? Por que os mataste? - inquiriu Simon, que fez uma careta ao ouvir o som ofegante emitido pelo Bourc.

       O rapaz nem se deu ao trabalho de se virar para eles.

       - Queria ir-me embora. Precisava de dinheiro e recusaram-se a dar-me.

       - Ora, devias saber que a Agatha Kyteler não tinha nada! Suponho que o Allan Trevellyn era rico, mas ela não! Por que a mataste?

       Não lhe conseguiram arrancar mais nada. Ignorou as perguntas e ficou sentado em silêncio, com o rosto fechado, as mãos estendidas para o fogo e os ombros dobrados, como se estes pudessem funcionar como uma barreira contra o interrogotário.

 

       Era quase escuro quando Jennie Miller entrou na estalagem e se sentou num banco perto da porta com a sua caneca de cidra. Era ainda demasiado cedo para que a maior parte das pessoas tivesse chegado, mas já havia por ali uns quantos homens de pé, a conversarem com vozes abafadas. Sabia porquê. O marido dissera-lhe que alguns dos membros do grupo de perseguição tinham regressado da caçada. O Harold Greendiff fora descoberto e deveria ser trazido de volta em breve.

       A informação, numa pequena aldeia como Wefford constituía uma novidade de primeira ordem. Pouco habituada às excitações que eram normais em locais mais populosos ou mais movimentados, onde o número de viajantes que por lá passavam criava as suas próprias dificuldades. Wefford saboreava agora os seus primeiros crimes em décadas... e descobrira que esse sabor era amargo.

       Contudo, onde existiam problemas também existiam compensações e aquele caso não era diferente. Afinal de contas, ninguém iria sentir uma grande falta da Agatha Kyteler. A mulher assustava demasiadas pessoas depois dos boatos postos a circular pela velha megera da Oakway, e a sua morte despertara mais interesse do que tudo o que pudesse ter feito enquanto estivera viva.

       A cortina do salão abriu-se para deixar passar um homem de cabelos escuros, algo nervoso e de semblante carregado, que Jennie olhou com interesse. O rosto era-lhe familiar mas não conseguia lembrar-se onde fora que o vira. Possuía feições magras, com uma pele curtida pelo tempo e espessos cabelos negros apartados para os lados. Parecia tímido e conservou-se por trás da cortina como se receasse atravessar a sala. Não era alto, tinha um aspecto volumoso mas rápido e flexível, mais ou menos como o cavalo do marido dela, onde fora que já o vira? Não estava montado num cavalo? Foi então que o reconheceu... Era o servo do almoxarife.... Como era que se chamava? Fora o que esperara na rua quando o cavaleiro e o almoxarife tinham ido ter com ela para lhe fazerem perguntas sobre o dia em que a Agatha morrera.

       Chegou-se rapidamente para o lado no banco, sorriu-se para ele e viu-o a descontrair-se um pouco. Deu uma palmadinha no banco a seu lado e fez-lhe um sinal a chamá-lo antes de acenar para o estalajadeiro.

       - Que queres beber? - perguntou-lhe, com uma expressão inocente. O servo pediu uma cerveja forte e sentou-se ao lado dela com movimentos muito pouco graciosos.

       - Não és o homem que foi ver-me com Sir Baldwin, Furnshill e o almoxarife, no outro dia? - perguntou depois da cerveja chegar e do homem beber um grande gole.

       O servo acenou, limpou as mãos às costas da mão e seu rosto perdeu alguma da negra expressão de desânimo. O sabor da cerveja restaurara-lhe alguma, se não toda, da sua serenidade.

       Hugh estava aborrecido. Naquele dia e até aquele momento tinham-lhe ordenado que ajudasse duas servas (qualquer delas suficientemente velha para ser sua mãe), a mudar barris na dispensa, para logo em seguida Margaret lhe pedir para ajudar um cavalariço na área dos estábulos. Depois disso fora a vez de um altivo servo lhe dizer que Hugh fora posto sob as suas ordens para o ajudar nas gaiolas por trás dos estábulos, onde os falcões eram mantidos quando se encontravam no período de muda das penas.

       Mais tarde tinha sido tratado com rudeza quando fora ter com Margaret para exigir alguma compreensão. Claro que compreendia que estivesse preocupada com a continuada ausência do marido, mas isso não era desculpa para lançar tudo para cima dele. Ao vê-lo deixara bem claro que se esperava que ajudasse sempre que necessário enquanto permanecesse sob o teto de Baldwin, e isso significava fazer tudo o que os servos do cavaleiro considerassem útil. Obedecera depois de lhe terem ordenado peremptoriamente que fosse ajudar nas gaiolas dos falcões, mas certificara-se de que nunca mais lhe poriam a vista em cima e selara rapidamente o cavalo para ir à aldeia em busca de uma noite de paz antes que lhe pedissem para fazer mais qualquer coisa.

       Agora, quando já se encontrava sentado e a fitar, mal-humorado, a sua caneca de cerveja, era invadido por uma grande sensação de injustica, afinal de contas, era servo de um almoxarife. Não tinha a obrigação de ajudar cavalariços... e o cavaleiro deveria ter homens suficientes para tratarem tanto dos seus próprios cavalos como dos cavalos dos hóspedes!

       Jennie observou-o e verificou que o homem se sentia carrancudo, pelo que lhe encomendou rapidamente uma nova caneca ele cerveja. Afinal de contas, se o servo do almoxarife não soubesse de nada em especial depois de estar a viver em casa do cavaleiro, que também era o Guardião da Paz do Rei, então ninguém sabia.

       - Ouvi dizer que vão trazer o jovem Greendiff - disse esperançosa como se falasse consigo mesma. - É uma pena. Era um rapaz tão simpático...

       - Sim. Devem regressar mais tarde, ou amanhã de manhã.

       - E o teu amo? Está com eles?

       - Está a comandá-los - declarou Hugh irascível e voltando a olhar para a caneca. - Pensam que o Greendiff deve estar morto. É improvável que tivesse sobrevivido no meio de toda aquela neve.

       - Oh!... -Jennie ficou calada por um minuto e a seguir perguntou: - E então ele e a mulher francesa do Trevellyn?

       Hugh olhou-a sem compreender, interrogando-se sobre de quem estaria ela a falar.

       - Quem? Ah, a viúva? Que tem ela de especial?

       - Não sabias? Estava a ter um caso com o Greendiff. Foi por isso que tomou conta do cavalo dela durante a visita à bruxa. O Greendiff estava a ajudar a amante... e creio que foi ela quem matou a Agatha enquanto ele se ocupava do animal!

 

       O pequeno grupo entrou na povoação na manhã seguinte e Simon ficou satisfeito ao ver Baldwin, Edgar e Hugh à sua espera no exterior da estalagem, em frente à cadeia. Disse a Tanner para tomar conta do preso, desmontou e conduziu o cavalo para o grupo de homens que permaneciam de pé na faixa onde a terra fora espezinhada e revelava o seu tom vermelho por baixo da neve.

       - Então, almoxarife, conseguiste apanhá-lo... - disse o cavaleiro com um sorriso, acenando para o homem que era conduzido para a pequena cadeia. A seguir exclamou surpreendido: - John. Pensei que tinhas partido para a Gasconha há já vários dias!

       Ia interrogá-los a respeito da perseguição e onde se tinham encontrado, mas reparou na expressão crispada no rosto de Simon e chamou o estalajadeiro. Pouco depois já o vinho quente e condimentado lhe tinha sido servido, com o vapor a erguer-se do líqüido e com o cheiro da mistura adocicada, com as suas fortes especiarias, a fazer crescer a água na boca do almoxarife. Aceitou a caneca com gratidão. Segurou-a com as duas mãos, soprou a superfície da bebida para a arrefecer um pouco e tomou um gole escaldante enquanto o Bourc recebia outra caneca das mãos do estalajadeiro.

       - Surpreendentemente, ainda está vivo! - afirmou Simon, dando expressão aos pensamentos do cavaleiro que olhava para as figuras a entrarem na cadeia. - Pela minha parte, tenho a sensação de quase ter morrido de frio durante o caminho.

       Mark Rush juntou-se-lhes pouco depois e refugiaram-se todos no interior da estalagem, longe do frio.

       Simon verificou que Baldwin, depois da sua satisfação inicial por ver o regresso dos homens, se deixara levar por uma disposição mais pensativa. O Guardião da Paz interrogava-se sobre se muito em breve iria ver o rapaz, um dos seus servos da gleba, a ser enforcado na praça da cidade pelos assassínios. Não seria agradável, pensou Simon, ver o último membro de uma velha família na zona, a sofrer em fim tão criminoso. Teria sido preferível que o rapaz tivesse se perdido na floresta ou nas charnecas. Até certo ponto, também teria sido melhor para todos os envolvidos que Greendiff tivesse tentado defender-se e morresse com uma seta na cabeça. Desse modo, pelo menos, o assunto ficaria resolvido de uma vez para sempre. Agora teria de haver um julgamento em que o rapaz podia querer defender-se, embora Simon nem sequer conseguisse imaginar como o faria, uma vez que todas as provas apontavam para ele.

       O cavaleiro pediu mais bebidas, com uma sobrancelha delicadamente levantada ante a velocidade com que os homens tinham despejado as primeiras canecas, e Simon inclinou-se para a frente sobre os cotovelos e fez um gesto com a cabeça na direção do gascão.

       - O teu amigo sabe qualquer coisa a respeito dos dias em que o Trevellyn e a Agatha foram assassinados?

       - Ah, sim? - retorquiu Baldwin olhando para o Bourc, que levantou a cabeça com uma expressão interrogativa. - John? O Simon diz que nos podes ajudar no que se refere às mortes da tua velha ama e do mercador. É verdade?

       Simon fitou o gascão com um olhar intenso antes do homem poder responder.

       - Tem cuidado com as tuas respostas, John! O amigo do teu pai pensou que pudesses ser o assassino.

       O Bourc ficou a olhá-lo e a seguir virou-se para o envergonhado cavaleiro.

       - Pensaste que tinha sido eu?

       Baldwin agitou-se, incomodado, e fez uma careta.

       - Pareceu-me estranho que tivesses estado com a velha no dia em que...

       Simon riu-se, divertido com o embaraço do amigo.

       - Não te preocupes, Baldwin. De qualquer modo, o Bourc tem um álibi, mesmo que não tivéssemos o Greendiff em nosso poder. O Mark Rush viu-o na estrada ao crepúsculo daquele dia, muito para sul de Wefford.

       - Então, que sabes tu destas mortes, John? - perguntou o cavaleiro.

       - Estive com os dois antes de morrerem.

       - Com os dois?

       - Sim. Tal como te disse, na terça-feira feira de manhã, quando te deixei, fui visitar a Agatha. Contei-te a minha fuga de Acre, mas não te falei no último pormenor. Foi a Agatha quem me contou. A minha mãe queria salvar-me, pelo que se dirigiu aos navios para pedir uma passagem. Sabes mais do assunto do que eu é claro, mas aparentemente aquilo foi um caos. Havia navios por todo o lado e os marinheiros exigiam enormes pagamentos para salvarem as pessoas. A minha mãe levou-me para o porto e implorou por ajuda, mas ninguém lhe quis dar. A seguir pensou que a tinha encontrado... no navio do Trevellyn... O mestre da embarcação levava-a com toda a satisfação, afirmou... mas a seguir disse-lhe qual iria ser o preço. Não era nem dinheiro, nem as jóias da minha mãe. Queria-a, a ela! - Tomou um pequeno gole da bebida com uma expressão fechada, mas depois sorriu-se de esguelha. - Aparentemente a minha mãe recusou a amável oferta e implorou-lhe que aceitasse um pagamento mais sensato, mas o homem insistiu e ela foi-se embora sem nada ter conseguido. Anne de Tyre, a minha mãe, era de uma família importante e suponho que não compreendia até que ponto as coisas tinham descido tão baixo... De qualquer modo, entregou-me à ama e implorou-lhe que me levasse para a casa do meu pai. Essa ama era a Agatha. Para encurtar a história... A Agatha conseguiu subir para bordo e recusou-se a sair de lá. Tinha consigo tudo o que restava da fortuna da minha mãe e foi esse o preço da passagem. Já viram a casa do tal Trevellyn? Acho que muitas das pedras daquelas paredes foram pagas pelas jóias da minha mãe... É uma idéia chocante, não acham?

       - Que aconteceu à tua mãe? - perguntou Simon.

       - Espero que tenha morrido... - respondeu o Bourc com secura. Baldwin lançou uma olhadela rápida ao almoxarife para o impedir de fazer mais perguntas. Mais tarde, pensou o cavaleiro, haveria tempo suficiente para lhe explicar os horrores da captura pelos sitiantes de Acre, as múltiplas violações, as mortes lentas e dolorosas... ou coisas ainda piores, como toda uma vida de escravatura sob as garras de um rico mercador ou príncipe. Teria sido muito melhor, tal como o Bourc dissera, que a pobre mulher tivesse morrido rapidamente. Talvez estivesse no Templo quando este abatera, esmagando misericordiosamente os que não haviam conseguido escapar com os poucos protetores que ainda lhes restavam os últimos cavaleiros Templários na Terra Santa, que haviam sido enterrados juntos num único túmulo maciço.

       - Disseste-me que o anel que usavas era um comprovativo da tua posição?

       - O rubi? Oh! Sim. O meu pai deu-o a minha mãe, que o entregou a Agatha e esta serviu-se dele para provar quem eu era quando conseguiu finalmente chegar junto do meu pai.

       - Não estás a usá-lo?

       - Não, dei-lhe quando a vi, na terça-feira.

       - Deste-lhe?

       A surpresa na voz do cavaleiro fez com que o Bourc o olhasse.

       - Sim. Não era rica e pensei que lhe podia ser útil. Dei-lhe como prova de que a minha família nunca esquecerá a proteção que me concedeu. Agora... Bom, pergunto a mim mesmo se terá sido por causa disso que morreu...

       - Que queres dizer?

       - Talvez o Greendiff tenha visto o anel e a matasse por causa dele.

       Baldwin desatou a sua bolsa e retirou o anel, que pousou na mesa em frente do Bourc, cujos olhos se esbugalharam ao vê-lo.

       - Mas... como o encontraram?

       - Não foi roubado. O Greendiff não o viu... ou não se preocupou com ele. Encontramo-lo na casa depois de a matarem.

       O gascão pegou rapidamente no anel e estudou-o por instantes.

       - Bom, é um alívio, suponho - acabou por comentar, devolvendo o anel a Baldwin. - Pelo menos, fiquei a saber que não fui responsável pela sua morte...

       - Tenho certeza que não! - afirmou Baldwin - mas o anel é teu. Fica com ele.

       - Não. Enterrem-no com a Agatha. Pouco mais tinha... e desse modo o seu ato para comigo estará sempre com ela.

       Baldwin acenou e voltou a guardar o anel na bolsa.

       - Por que foste visitá-la? - perguntou Simon pensativo e com a testa franzida. - Foi apenas para lhe dar o anel?

       - Não tenho nada a esconder, jurei, há muito anos, que procuraria a mulher que me salvou para lhe agradecer e para saber mais a respeito da minha mãe. No entanto, por onde deveria começar as minhas buscas? A mulher abandonara a corte do meu pai há muitos anos, quando fui desmamado, e o local para onde se dirigira era um mistério... até me chegar uma carta.

       - Uma carta?

       - Sim. Dizia que a Agatha Kyteler estava aqui. Parti para a procurar logo que recebi a informação. Não precisei de muito tempo. - concluiu recostando-se na cadeira como se tivesse terminado.

       Foi a vez de Baldwin se inclinar para a frente.

       - E essa carta... - perguntou - de quem era?

       - Pretendia-se que não o soubéssemos - respondeu o Bourc sorrindo e encolhendo os ombros. - Não estava assinada mas vinha de Inglaterra. Soubemo-lo pelo mensageiro.

       - E o mensageiro vinha de .... ?

       - De uma cidade perto de Bordéus e fora enviada por uma família rica. Fui falar-lhes. Disseram-me que a tinham recebido juntamente com uma carta da filha, com um pedido para que me enviassem.

       O cavaleiro ficou meditativo. Encostou o braço direito ao peito e apoiou o queixo na palma da mão esquerda, que lhe tapou a boca. Lançou um olhar rápido para o Bourc, que continuava imperturbável a bebericar da caneca, e disse:

       - Há mais, não há? Por que foi que desapareceste? Por que razão te meteste nas charnecas?

       O Bourc explicou que pensara que a viagem seria mais rápida e fez uma pausa. Soltou uma breve gargalhada de prazer e pousou a caneca. Olhou para cima, fitou o cavaleiro e pousou as mãos no banco a seu lado.

       - Admito-o... agora que o ...

       - Não há razão para que não fales, rapaz já confessou os crimes. Naquela noite, quando fiquei contigo, estava a pensar em matar o Trevellyn!

       - O quê? - exclamou Simon, que se endireitou de repente. A surpresa fê-lo derramar um pouco da bebida. - Em nome de Deus. Por quê?

       - Simon, não escutaste uma palavra do que ele nos disse! - protestou Baldwin com secura, virou-se para o Bourc e continuou: - Portanto, querias matar o homem que foi responsável pela morte da tua mãe. Que foi que te impediu?

       - A Agatha não era bem como eu a imaginara. Revelou-se amarga e cruel, e só queria aquilo que designava por vingança. Porém, quando pensei melhor no assunto, pareceu-me que não valia a pena. O homem ainda se lembraria da minha mãe? Provavelmente para ele, não passava de mais uma refugiada. Além disso, não lhe tocou. A minha mãe decidiu não pagar o preço que ele lhe pediu e o homem não lhe fez nada! - O Bourc fez uma rápida careta envergonhada sob a mirada firme do cavaleiro. - Não sei se já estiveste numa situação em que tivesses controle sobre refugiados. Eu já estive. Sei como é fácil tirar vantagens de um poder como esse, o poder de conceder a vida ou a morte.

       Baldwin acenou.

       - Então, a escolha já não te pareceu tão fácil quando compreendeste o que a Agatha queria que fizesses por ela?

       - Não, não foi fácil... mas houve uma coisa estranha...

       - O quê?

       - A Agatha nunca quis que me enviassem uma mensagem. A carta era de uma amiga e não foi idéia dela.

       - Tens certeza disso?

       - Oh, sim! Interroguei-a a esse respeito. Ficou surpreendida ao ver-me aparecer na segunda-feira, quando lhe expliquei quem era. Não esperava voltar a ver-me.

       - E disse-te isso tudo na segunda-feira?

       - Sim. Também me disse algumas coisas mais tarde, na terça-feira, quando me despedi. Pensei em voltar para casa e deixar o mercador em paz. Já fizera o que pretendera. Dera-lhe o anel e soubera mais coisas a respeito da minha mãe. Porém, quando me pediu para matar esse tal Trevellyn, tive tempo para pensar no assunto. Afirmou que seria uma vingança pelo que ele lhe tinha feito. Pensei e tomei uma decisão: não o podia fazer.

       - Deixaste-a bem na terça-feira? Não viste lá mais ninguém?

       - Não, ninguém!

       - E quando te foste embora? Que caminho escolheste? Pelo trilho de acesso à estrada?

       - Não, fui-me embora por entre as árvores. Agatha disse-me que era freqüente que as pessoas a fossem visitar e que podia assustá-las! Pediu-me para me manter escondido e fiz-lhe a vontade.

       - E quando foste vê-la, viste alguém?

       - Ah! Sim! Vi uma mulher. - O Bourc sorriu. - A Agatha disse que era a Dona Trevellyn. Achava muito divertido. A mulher ia vê-la muitas vezes e ela achava graça. O Allan Trevellyn queria filhos mas a esposa não queria ouvir falar nisso.

       Simon ouviu o amigo a aspirar o ar com força.

       - Mas, eu pensei... Foi a Dona Trevellyn quem te enviou a carta dizendo onde a Agatha estava a viver?

       - Sim. Acho que a Agatha lhe deve ter falado em mim e pensou que eu lhe poderia aliviar os últimos anos.

       - Portanto, a Agatha queria que vingasses a tua mãe?

       - Sim, mas não fui capaz. Oh, já encontrara o homem e não gostava dele, mas isso não era razão para o matar. Quanto à minha mãe... sou um soldado, já vi o que acontece à cidades capturadas, e até participei... Como é que se pode condenar um homem, ou matá-lo só porque tirou vantagem da sua posição, tal como eu próprio já fiz? Não é possível... e decidi deixá-lo em paz.

       - E depois foste-te embora?

       - Sim. Foi ela quem me pediu.

       - É interessante que o homem que a Agatha queria que matasses tenha morrido apenas alguns dias depois - murmurou Baldwin pensativo. O Bourc respondeu com um aceno e um encolher de ombros.

       - Mais estranho do que penso... Não tenho nada a esconder. - E ainda explicou o seu primeiro encontro com Trevellyn, na estalagem, e falou na emboscada e na subseqüente visita à casa do mercador. - Tentou chicotear-me e não estava à espera disso, mas creio que tinha por hábito chicotear os que não lhe obedeciam: os servos e talvez até os marinheiros. Trabalhou no Leste e talvez andasse numa galera durante algum tempo... Não sei. De qualquer modo, o golpe apanhou-me nas costas quando me baixei... e deixou-me muito irritado.

       Os olhos enevoaram-se-lhe quando se recordou do chicote a recuar para novo golpe e o Bourc voltou a rever toda a situação na sua mente enquanto a relatava aos outros: o modo como a dor lhe cortara as costas como se tivessem sido golpeadas por uma lâmina, e como se atirara para a frente antes do mercador poder atingi-lo pela segunda vez. Nem sequer puxara pela espada porque a dor e a raiva haviam sido demasiado intensas. O cabo do chicote começara novamente a avançar e o Bourc servira-se da mão enluvada. Atingira Trevellyn na têmpora e na face, deitando-o abaixo como uma árvore nova atingida por um machado. A seguir, o mercador voltara a si e o Bourc já se acalmara, mas Trevellyn não o soubera. Tudo o que vira fora a pesada lâmina encostada na garganta. Fora então que o gascão lhe dissera quem era e que vira o terror nos pequenos olhos negros do homem.

       - Pensou, honestamente, que eu era um fantasma! - declarou - E ficou aterrorizado!- Soltou uma curta gargalhada. - Não sei o que terá pensado que era o pior, se o fato de eu ter reaparecido de um passado distante, ou ter levado a melhor sobre os seus homens.

       - Fizeste-lhe mais alguma coisa? - perguntou Baldwin.

       O Bourc olhou-o e sorriu.

       - O quê? Referes-te a cortar-lhe a garganta? Não, meu amigo, receio não o ter feito. Deixei-o lá quando ouvi que alguns dos seus servos se aproximavam e refiz o caminho para Wefford. Na manhã seguinte parti para o sul. Satisfazia-me o fato de saber que o Trevellyn não iria tentar mais nada. - Prosseguiu, descrevendo a viagem para sul e os ataques da matilha.

       O gascão calou-se. Simon recostou-se na cadeira e olhou para o amigo.

       - Então? Encaixa naquilo que sabemos, não é verdade?

       - Sim - confirmou Baldwin, pensativo. - Agora que o Greendiff confessou... o assunto já está arrumado, não é verdade?

 

       Simon só tentou quebrar o silêncio deprimido depois de já se encontrarem para lá de Crediton e se encontrarem a cavalgar na serpenteante estrada para Tiverton.

       - Sabias que ainda tinha a faca com ele?

       - Como? - O rosto de Baldwin exprimiu confusão.

       - Disse que ainda tinha a faca com ele... e continuava suja de sangue.

       - Oh, referes-te ao Greendiff? Não, não sabia - respondeu regressando ao seu sombrio exame das árvores que os rodeavam.

       - Baldwin? - insistiu Simon. - Baldwin!

       - O que é! - O cavaleiro encarou-o, irritado.

       - Que diabo se passa contigo?

       O cavaleiro notou o tom de exaspero na voz do almoxarife e sorriu apologético. Parecia prestes a negar quaisquer preocupações especiais, mas lançou um rápido relance a sua volta que lhe permitiu especificar que Edgar e Hugh haviam ficado para trás e que Mark Rush seguia bastante à frente. A seguir abaixou a voz de um modo conspiratório e inclinou-se para Simon.

       - Isto é muito difícil, meu amigo. Creio que talvez tenha... Já não é bem isso... Sinto que podia haver uma... Bom, agora, desde que... - Calou-se de repente e Simon quase riu em voz alta ao ver o que estava a acontecer. Tinha ali um cavaleiro moderno, bravo e resoluto, com uma total falta de palavras. Os olhos do cavaleiro fitaram os de Simon... e o almoxarife viu-os quase perto do pânico.

       - E que diz ela?

       - Não lhe... Como soubeste?

       Daquela vez Simon não evitou a gargalhada.

       - Baldwin, achas que conseguiste manter isso em segredo? Deus do céu! Logo da primeira vez que a viste... foi como observar um galo a mirar uma galinha! Aquilo em que estavas a pensar era perfeitamente óbvio!

       - Por favor, Simon, não me faças corar... - murmurou o cavaleiro.

       - Então, ainda não lhe disseste nada?

       - Como querias que o fizesse logo depois da morte do marido?

       - Baldwin, no mínimo devias tentar conhecê-la melhor. Caso contrário, até pode não vir a pensar em ti. Como queres que a mulher saiba que estás interessado se não lhe disseres?

       - Tu soubeste!

       - Isso é diferente. Conheço-te bem.

       O cavaleiro digeriu aquilo em silêncio por instantes.

       - Que achas que devo fazer? Não posso limitar-me a ir lá a casa e dizer: “Olá, Dona Trevellyn, quer ser minha mulher agora que o seu marido foi assassinado?" Ou achas que posso?

       O almoxarife suspirou.

       - Olha - respondeu - tens de encontrar maneira de a fazer saber. Tens de arranjar maneira de a apanhares sozinha para poderem conversar. Leva-a a um caçada com os falcões, ou convida-a para um passeio a cavalo.

       - Foi o que fizeste com a Margaret? - inquiriu o cavaleiro, com os olhos enevoados pela ansiedade e pelas dúvidas.

       - Não, limitei-me a pedi-la ao pai.

       - Nesse caso, achas que devia...

       - Não, Baldwin. Eu pedi a mão de uma jovem... Tu estás a tentar arranjar uma mulher que sabe o que quer, que tem casa própria, terras e riquezas. Precisas de a conquistar e não aos familiares.

       - Oh, estou a ver...

       - Então por que estás tão preocupado?

       - Preferia ter de cavalgar para uma batalha do que me ver nesse papel, meu amigo. É por isso!

       Simon riu, mas a seguir a sua expressão tornou-se séria enquanto olhava em frente, pensativo e a morder os lábios.

       - Não estamos longe. Anda daí, vamos fazer-lhe uma visita...

       - Não, Simon. Não me parece...

       - Anda, Baldwin! Enfrenta a batalha!

       O almoxarife riu. Virou-se para os servos e gritou, para grande infelicidade do cavaleiro:   - Hugh! Edgar! Vamos passar pela casa do Trevellyn antes de seguirmos para Furnshill.

       O almoxarife ainda sorria quando subiram a elevação para a mansão dos Trevellyn, e seu bom humor não se apagou quando bateu a porta com o punho. Foi apenas mais tarde, já depois de terem entrado, que as dúvidas o assaltaram, mas esses pensamentos só começaram a surgir-lhe depois da porta se abrir e o resto não passou de um período de gestação.

       A porta abriu-se e Simon viu-se confrontado por uma bonita serva, uma mulher jovem e delgada talvez com 20 anos, de seios espetados e faces sorridentes. Tinha o rosto muito bem enquadrado pelos caracóis castanhos e os lábios abriram-se-lhe num sorriso quando o viu. Simon saudou-a e conduziu o amigo para o salão, onde ficaram ambos a espera do aparecimento da dona da casa. Entretanto, os servos ocupavam-se dos cavalos, nos estábulos, e davam-lhes de comer.

       Angelina Trevellyn apareceu e Simon olhou para Baldwin à espera de o ver avançar, mas verificou que o amigo parecia hipnotizado e que dava um meio passo atrás. Era como se o cavaleiro tivesse perdido a língua. Continuou parado, como que num sonho, enquanto a mulher se aproximava. Simon ficou satisfeito ao ver o modo como o rosto da senhora Trevellyn se modificava ao ver Baldwin. Foi como se as suas feições se iluminassem com uma luz sutil e acelerou o passo como se estivesse ansiosa por se aproximar dele.

       Ao olhá-la. Simon sentiu uma espécie de calor muito agradável. Não se tratava apenas do óbvio prazer da mulher ao ver Baldwin, como também da visão de uma mulher na perfeição da juventude. Ainda não havia nela nenhuma rigidez. Tanto o rosto como o corpo eram formados apenas por curvas suaves. Sob a túnica azul, com um aspecto rico, havia um corpo que se movia com a graça e a elegância de um cavalo árabe de puro-sangue, com toda a sua energia cuidadosamente controlada. Usava o cabelo puxado para trás e naquele dia tinha a cabeça descoberta, o que punha em destaque a testa ampla, sem marcas de rugas, por cima das estreitas sobrancelhas. No entanto, o que imediatamente lhe chamou a atenção foram os olhos.

       Para Simon, aqueles olhos eram como duas esmeraldas gêmeas a cintilarem sob a luz da lareira, não com uma arrogância fria mas sim com uma satisfação calma e calorosa. Mostrava-se autoconfiante e perfeitamente controlada, para além de irradiar uma sexualidade nítida e deliberada, pelo que até o próprio Simon teve dificuldades para desviar os olhos dela.

       Saudou-os casualmente sem nunca tirar os olhos do cavaleiro e quase sem parecer reconhecer a presença do almoxarife enquanto os conduzia para as cadeiras junto do fogo. A seguir mandou buscar vinho e foi quando a serva regressou com um jarro e três canecas que os olhos de Simon ganharam uma repentina dureza... Surgira-lhe na mente uma idéia que apanhara raízes.

       De súbito, toda aquela sala lhe pareceu cheia de perigos e de riscos, e o calor das boas-vindas soou-lhe a oco e vazio. Os olhos do almoxarife vidraram-se por instante quando reviu todos os momentos desde que ele e o cavaleiro haviam entrado naquela casa, para logo a seguir se focaram no amigo. Conversava com ela e gaguejava enquanto a convidava para um dia de caça com os falcões. O almoxarife observou a serva que se retirava depois de ter enchido as canecas, pegou na dele e levantou-se.

       - Desculpe, minha senhora, mas sinto-me com demasiado calor. Vou apanhar um pouco de ar – disse, embora os outros quase não lhe prestassem atenção. Saiu da sala para o corredor, viu a jovem entrar na dispensa e foi atrás dela rapidamente.

       Verificou já na pequena divisão repleta de recipientes, jarros, cântaros e barris, que a serva enchia uma caneca de cerveja para ela própria. Entrou, a jovem virou-se à pressa, viu quem ele era e sorriu-lhe, lançando uma olhadela para trás do almoxarife.

       - Queria falar contigo. Como te chamas?

       A rapariga abaixou os olhos, reservada.

       - Allan, senhor.

       - Pareces uma rapariga muito feliz, Allan.

       - Obrigada, senhor. Esta é uma casa feliz.

       - É feliz agora, não é verdade?

       - Agora, senhor?

       - Quando vim aqui pela primeira vez tinhas um aspecto muito diferente, sabes?

       Os dedos da serva começaram a brincar com o cordão pendente da gola da túnica.

       - Não compreendo, senhor.

       - Oh, acho que compreendes, Mary. Acho que sim... - Simon sentou-se num barril. - Ele batia-te com freqüência? Suponho que não era tudo o que fazia, pois não?

       - Bater-me? - Os olhos parecerem tornar-se-lhe enormes no rosto, mas não revelavam confusão. Havia ali uma compreensão total.

       - Quando te vi pela primeira vez eras uma rapariga nervosa, tímida e muito assustada. Agora, desde que ele morreu, deixaste de o ser, já não receias que te batam, não é verdade? E quanto à mulher dele? Também lhe batia? Não ficou nada triste quando o viu morto, não é verdade?

       - Não, não ficou.

       Simon rodopiou ao ouvir o som da nova voz, Angelina Trevellyn encontrava-se à entrada.

       - Podes ir, Mary. - A rapariga passou por eles e desapareceu, muito aliviada por se ver livre, enquanto a dona da casa se virava outra vez para o almoxarife. - Então? Quer interrogar-me aqui ou regressamos à sala? - Pegou num jarro, encheu-o de vinho e fez-lhe um gesto com a mão na direção da porta.

       Simon encontrou Baldwin de pé junto do fogo, com as costas viradas para a lareira e a olhar para a porta, esperançado. Ficou com uma expressão levemente abatida ao ver o almoxarife mas voltou imediatamente a sorrir logo que a Dona Trevellyn apareceu por trás do amigo.

       - Sente-se, por favor, Baldwin - pediu a mulher, indicando uma outra cadeira a Simon antes de lhes encher as canecas de vinho. Tenho algumas coisas para vos dizer de que poderão não gostar.

       Os olhos do cavaleiro deslocaram-se para ela e depois brilharam na direção de Simon, obscurecidos pela desconfiança. Angelina prosseguiu com um tom suave, sentando-se e pousando as mãos no colo numa deliberada tentativa de compostura.

       - O seu amigo é muito astuto, Baldwin. Reparou nas mudanças que tiveram lugar nesta casa desde a vossa primeira visita. Na verdade não é de surpreender, mas devia tê-lo admitido mais cedo... Não foi justo deixar-vos ficar a pensar que... - Calou-se por instantes, como se assolada pela tristeza. Respirou fundo e continuou: - De qualquer modo, o seu amigo teve razão ao pensar que agora estamos todos muito mais felizes. Baldwin, o meu marido era um monstro! Era um bruto! Tomou-me quando eu era jovem e forçou-me a casar com ele. Treinou bem os seus servos e batia-lhes freqüentemente quando lhe desagradavam... e tratou-me da mesma maneira! Espancava-me como se eu fosse um dos seus cavalariços. Quando o desejava, ignorava-me e levava as servas para a cama... e elas não se atreviam a recusar-se, tal como eu não me atrevia a queixar-me.

       Baldwin olhava-a em silêncio e Simon teve a certeza de lhe ver a dor nos olhos.

       - Por isso, meu amigo... - continuou - creio que nenhum de nós ficou triste quando encontraram o corpo. Oh, não! Como podíamos ficar tristes?

       O almoxarife inclinou-se para a frente e olhou-a atentamente, mas a mulher manteve os olhos baixos e recusou-se a enfrentar os dele.

       - Senhora Trevellyn, porque continuou junto a ele? Podia tê-lo deixado para voltar para casa.

       Angelina levantou os olhos com uma inconfundível expressão de tristeza.

       - Podia? Como? A minha casa é na Gasconha, um pouco a Sul de Bordéus. Por isso, sou inglesa, tal como qualquer outro gascão. Além disso, o meu pai foi sempre leal ao Rei, pelo que devia poder voltar para casa. Porém, quando o nosso marido é proprietário de navios e conhece toda a gente nos portos, como iria conseguir arranjar uma passagern? Por outro lado, mesmo que houvesse alguém para me levar, como lhe falaria. O meu marido - pronunciou a palavra como se a quisesse cuspir - controlava todo o nosso dinheiro. Chegou a recusar-me autorização para ter em meu poder as minhas próprias jóias. Oh, não! Não tinha maneira de ir embora daqui.

       - Então, para começar, por que concordou em casar com ele?

       - Não concordei. - Baixou o tom de voz e deixou cair a cabeça para o peito como que abatida pela exaustão. - Como poderia casar com um homem como ele? Nunca! Capturou-me, a mim e aos meus pais, quando viajávamos da Normandia para a nossa casa. Apoderou-se da nossa carga, de tudo e a seguir regateou com o meu pai. Ficava comigo e permitia que o meu pai levasse metade dos seus bens. Fui leiloada como uma escrava... mas é assim que os reféns são tratados, quer se trate da filha de um mercador ou do Rei de uma província. O tratamento é sempre igual.

       Simon acenou e contemplou-a. Era comum que um homem fosse tido refém até o resgate ser pago, e se o pai vira uma maneira de recuperar metade da sua carga, entregando o resto como uma espécie de dote, podia ter pensado que estava a fazer um bom negócio.

       - Compreendo, minha senhora. Já agora, por favor, pode contar-nos o que se passou na noite em que o seu marido desapareceu?

       - Simon, com certeza que não pensas que ela teve alguma coisa a ver com o assassínio do próprio marido?

       O almoxarife fitou o amigo e ficou entristecido ao ver-lhe a angústia nos olhos. Abanou a cabeça para Baldwin, com um ar muito sério, e voltou-se novamente para a mulher.

       - Minha senhora?

       Angelina fitou os olhos de Simon e respondeu com simplicidade, esperançosa em que acreditassem nela.

       - Estava lá fora, a passear. Ao que parece, o meu marido voltou para casa a correr. Decidira que queria falar comigo e perguntou a todos os servos se sabiam onde eu estava. Quando disseram que não sabiam, bateu em dois, incluindo na pequena Mary, a minha criada. A seguir saiu daqui, furioso. Voltei para casa cerca de uma hora depois e passei o resto da tarde a tentar acalmar os servos. Ele não apareceu e nem sequer me preocupei com isso. Era freqüente sair para visitar as estalagens da área. Em geral, a bebida tornava-o violento para comigo, mas quando ia para as estalagens ficava demasiado bêbado para me conseguir magoar quando voltava para casa.

       - E na manhã seguinte?

       - Acordei, como de costume. Não estava comigo, mas isso também não era invulgar. -No entanto, fiquei surpreendida ao descobrir que não se encontrava a dormir no salão. Em geral encontrava-o aqui. Ficava a dormir em cima de um banco ou de uma mesa sempre que não conseguia chegar aos aposentos. Mesmo assim, não foi uma grande surpresa, em particular depois de ter visto quanta neve caíra durante a noite. Pensei em mandar um homem à aldeia para o procurar, mas os montes de neve eram demasiado profundos. Na verdade, até fiquei espantada por terem conseguido chegar aqui...

       - Diga-me, minha senhora... Quando a Agatha Kyteler morreu... por que foi lá naquele dia? Não está grávida e não tem filhos, não é verdade?

       - Sim. Nós... não tivemos sorte com os filhos.

       - Então, por que foi ver uma parteira?

       Levantou o rosto num gesto levemente altivo.

       - Não lhe posso dizer isso. Não a matei, nem ao meu marido!

       Simon aguentou-lhe o olhar por instantes, com um rosto muito sério.

       - Muito bem - acabou por dizer. - Não vou forçá-la. No entanto, gostaria de saber uma coisa: viu alguém naquela noite? Na noite em que o seu marido desapareceu? Estava aqui alguém?

       Pareceu tornar-se ainda mais pálida, com os olhos muito abertos e aparentemente a exibirem um medo secreto enquanto pronunciava uma única palavra:

       - Não.

       Baldwin pôs-se de pé com decisão e fez-lhe uma vênia.

       - Minha senhora, vamos deixá-la em paz. Lamento que lhe tenhamos causado sofrimento. Simon, vem daí. Temos de ir.

       O almoxarife levantou-se e caminhou para a porta atrás do impassível cavaleiro. Este virou-se quando chegou à entrada do corredor, em parte para se despedir da mulher ou talvez para lhe pedir desculpa, mas viu-lhe a expressão no rosto, rodopiou e saiu.

       As feições da mulher estavam contorcidas pelo ódio, um ódio que se concentrava e focava nele.

       Já tinham cavalgado quase até à porta de Greendiff quando Baldwin virou o rosto para o almoxarife.

       - Simon, não podes acreditar que a Angelina estivesse envolvida. Como podes pensar que... ? Afinal de contas, o Greendiff confessou... e ela é demasiado bela para ser uma assassina. Meu Deus! Por que tiveste de ser tão duro com a pobre mulher?

       - Baldwin, cala-te e acalma-te! - Simon fitou o amigo com um trejeito de infelicidade. Baldwin estava dividido entre a sua forte atração pela mulher e a amizade pelo almoxarife. Todavia, embora a lealdade para com Simon fosse intensa, fora tão afetado por Angelina que quase sentia desagrado pelo almoxarife depois do interrogatório que acabara de testemunhar. Mesmo assim, os sinais de infelicidade no rosto do amigo levaram-no a calar-se e a aguardar uma explicação.

       - Olha, sabemos que ela estava lá. Esteve com a bruxa no dia em que a pobre mulher foi assassinada, depois da partida do Bourc. Não nos quer dizer o que lá foi fazer. Sabemos que odiava o marido... e não se dá ao trabalho de esconder esse fato, não é verdade? Pelo que ouvi nem sequer estava na companhia dos servos quando o marido apareceu.

       - Simon, pelo amor de Deus! Não podes acreditar nisso! Uma mulher como ela... a matar? Não e possível é uma loucura!

       - Escuta o que te digo, velho amigo. Sabes tão bem como eu que tem havido mulheres de armas, capazes de matar ou até de fazer guerra. Por que haveria a senhora Trevellyn de ser diferente?

       - Mas, Simon ...

       - Lembras-te como estava o corpo do marido? Jazia todo esticado. Lembras-te que te disse que parecia estar a implorar, será que convenceu o Greendiff a cortar-lhe o pescoço enquanto ele lhe implorava que não o matassem?

       - Simon. Acreditas numa coisa dessas?! Uma mulher como ela...

       Não obstante o horror que sentia, Baldwin compreendeu que o amigo lhe rogava compreensão com o rosto carregado e um olhar intenso.

       - Baldwin não sei. Não tenho certeza... e a questão é essa! Tenho de me certificar de que está inocente dos crimes!

       - Mas tu disseste que o Greendiff admitiu os crimes.

       - Sim e tinha uma adaga suja de sangue mas, mesmo assim, pode ter tido ajuda... Ou então, poderá ter ajudado alguém. Não sei. Tudo o que sei é que está de algum modo envolvida. Não sei como. Nem porque... mas tenho certeza de que sabe o que se passou, Baldwin, tenho de saber o que ela fez... e tu também!

       Margaret ficou preocupada ao ver os dois homens. Esperara que o regresso de Simon fosse uma ocasião de alegria, e não tão infeliz como estava a ser. Os dois homens quase não falavam.

       Entraram juntos no salão, mas Baldwin murmurou imediatamente alguma coisa a respeito de ter de mudar de roupas por as ter demasiado úmidas da jornada e deixou-os sós. Simon ficou a vê-lo afastar-se, suspirou e deixou-se cair num banco.

       - Simon que aconteceu?

       Simon explicou-se com brevidade e falou-lhe da visita à senhora Trevellyn e das conclusões a que chegara. Margaret escutou-o com pesar. Não conseguia compreender os sentimentos do cavaleiro, que parecia ter finalmente encontrado a sua mulher ideal mas que vira o amigo a sugerir que ela poderia estar envolvida num assassínio... ou talvez dois.

       Ambos olharam para cima quando a porta se abriu. Margaret verificou que se tratava de Hugh e virou-se novamente para o marido.

       - Só tens algumas suspeitas contra ela, nada de concreto, nada que ponha o Baldwin a duvidar da senhora Trevellyn. Deixa-o fazer a sua própria escolha. Se é tão bonita como dizes, então...

       - Mas a questão é precisamente essa! - exclamou Simon, desesperado. - Se eu tiver razão, a mulher pode ter estado envolvida não apenas num assassínio, mas em dois! Um dos mortos era o seu próprio marido. Se matou o marido... não pode vir a ser um perigo para o Baldwin?

       Para Hugh, era como se o amo estivesse a ser assolado pelas dúvidas. Parecia estar a ser puxado em várias direções diferentes, pela amizade pelo cavaleiro e pelo desejo de o ver feliz, e pela confusão a respeito do papel da mulher na morte do marido. Pigarreou para limpar a garganta e interrompeu-o.

       - Senhor?

       - O que é?

       - Senhor, não sei se é importante... - disse o servo, para logo lhe explicar rapidamente o que ouvira Jennie Miller afirmar a respeito de Harold Greendiff e da senhora Trevellyn.

       Foi uma das poucas vezes em que conseguiu chocar o amo... e Hugh gostou.

       - Queres dizer que a Jennie Miller pensa que foi a própria senhora Trevellyn quem matou a velha Agatha?

       O fim de tarde foi tranqüilo. Baldwin exibiu uma disposição reservada e muito recolhida, e as conversas foram poucas. Simon e Margaret sentaram-se em frente de Hugh e de Edgar na grande mesa. Baldwin ocupou o seu lugar à cabeceira, mas com pouca disposição para falar e pouco depois de ter terminado a refeição já estava a anunciar que se sentia pronto para ir para a cama.

       Contudo, Margaret aproximou-se, serviu-lhe mais vinho antes do cavaleiro conseguir levantar do seu lugar e deixou-se ficar junto dele.

       - Não. Precisas conversar com o Simon - disse fazendo sinal à Hugh para limpar a mesa. O servo suspirou, pôs-se de pé e tratou de recolher os pratos. Edgar também se levantou depois de Margaret lhe lançar um olhar, e começou a ajudar. Pouco depois já tinham retirado os pratos e Margaret virou-se para o marido logo que os viu desaparecer.

       - Muito bem, Simon, conta ao Baldwin o que o Hugh te disse hoje.

       O almoxarife fitou-a, apanhado de surpresa, e a seguir olhou para Baldwin, apologético. O cavaleiro manteve-se impassível, enquanto ouvia os boatos que corria em Wefford a respeito da senhora Trevellyn e Harold Greendiff. A seguir soltou um suspiro, pegou na caneca e tomou um gole de vinho.

       - Muito bem, mas não há provas de que tenha sido infiel ao marido, não há provas de um caso amoroso e nada que sugira que matou a Agatha ou o marido. Trata-se apenas de má-língua, tal como disseste.

       Margraret voltou a sentar-se e ficou a olhar de um para o outro.

       - Baldwin - perguntou - não te parece que o depoimento dela foi estranho?

       - Estranho? - O cavaleiro ficou surpreendido. - Que queres dizer?

       - Por aquilo que o Simon me contou, a senhora Trevellyn não quer dizer o que foi fazer à casa da velha. Além disso, parece não haver mais ninguém com razões de matar o marido. Não te parece estranho?

       - Bom... - O cavaleiro encolheu os ombros, duvidoso.

       - Todavia, o rapaz admitiu os crimes. Não estou a ver por que haveria de o fazer se não estivesse envolvido, mas creio que o devias interrogar para veres o que tem para dizer.

       - Nem sequer vale a pena tentar... - interveio Simon. - Esforcei-me a tentar falar com ele ontem e durante todo o caminho de volta aqui... e não lhe consegui arrancar uma palavra. Parece não querer falar no assunto.

       - O que? - Baldwin ficou com a testa contraída. - Nem uma palavra?

       - Não, recusou-se a falar. Não quer falar nem na morte de Agatha Kyteler, nem na de Allan Trevellyn. Ficou silencioso como um cadáver assim que as mencionei e só voltou a abrir a boca quando mudamos de assunto.

       - Mas, não confessou que os matara?

       - Oh! Sim! De fato, quando o interrogamos recordou-nos, mais de uma vez, que ainda tinha a faca suja de sangue em seu poder.

       - Isso parece estranho...

       - O quê? - inquiriu Margaret.

       O cavaleiro olhou-a de esguelha.

       - O fato de ter confessado mas sem explicar as razões para os crimes. Em geral, quando confessam, as pessoas gabam-se dos motivos que as levaram a matar alguém. Dizem "roubou-me" ou “ameaçou-me” e servem-se desse tipo de justificações. Se não confessam, e é muito mais vulgar que não o façam, negam ter quaisquer conhecimentos a respeito dos crimes. Pelo menos, é essa a minha experiência.

       - Nesse caso, pensas que é estranho precisamente por ter dito que foi ele?

       - Sim. Ninguém se rende a um castigo ou a uma pena de morte sem ter uma razão. Seria uma loucura, uma estupidez, ou... - Interrompeu-se subitamente e virou os olhos para o fogo com uma expressão que revelava um nível de reflexão que Simon nunca lhe vira. Era como se estivesse a ser consumido por uma concentração total, que o absorvia completamente. Escapou-lhe um gemido por entre os lábios, um som que foi quase de dor.

       - O que foi? Estás bem? - perguntou Simon, que ficou surpreendido ao ser silenciado por um gesto brusco da mão do cavaleiro.

       Havia uma razão, pensou Baldwin para si mesmo, distraído. Se um homem tivesse comprometido ou dedicado toda a sua vida a uma causa, era capaz de se sujeitar a tudo, incluindo a morte. Quem o podia saber melhor do que ele, que vira os seus camaradas enviados para a tortura e para a morte nas chamas? Todos se haviam dedicado porque acreditavam na causa, na honra e pureza da Ordem Militar dos Pobres Soldados de Cristo e do Templo de Salomão. Os Templários, tinham-se recusado a aceitar as confissões que a Inquisição lhes apresentara, e tinham sofrido e morrido, não por uma mentira mas porque acreditavam neles, nos seus mestres e no seu Deus. Agora, Harold Greendiff comportava-se do mesmo modo, como se também ele tivesse uma causa: Um amor que era maior que o amor pela sua própria viva.

       Os olhos de Simon, no seu espanto, saltitaram entre a esposa e o cavaleiro. Baldwin pensava em qualquer coisa que, para ele se mantinha completamente oculta. Que fora que dissera? Algo a respeito de alguém não se render ou qualquer coisa que não fora feita? Sim, fora isso, dissera que uma pessoa teria de ser louca para admitir algo que não fizera. Os olhos do almoxarife semicerraram-se. Seria nisso que estaria a pensar? Angelina teria morto o marido e seria louca se o admitisse? Nunca o confessaria porque alguém que confessasse um crime tinha de ser estúpido ou louco... e ela não era nenhuma dessas coisas?

       Sentiu os olhos serem atraídos para o fogo. Porém, para quê matar a velha Agatha Kyteler? Interrogou-se. Porém, logo a seguir, fez um trejeito, contraiu as sobrancelhas e soltou um suspiro zangado enquanto sentia a frustração subir, conversou: Pelo amor de Deus, por que razão ainda estou a pensar nela? Era irrelevante, sem importância e não passava de uma pobre velhota. Por que razão o seu assassínio continuava a imiscuir-se-lhe na cabeça? Fitou as chamas e descobriu que não precisava fazer um grande esforço para conjurar novamente a imagem da mulher que lhe surgira em sonhos, vestida com uma capa, com capuz, com os olhos a brilharem, com um fogo vermelho, e uma expressão intensa, mas que não era ameaçadora. Não era um rosto aterrorizador. Ao invés, era triste, como se estivesse a tentar ajudá-lo, incitando-o e conduzindo-o para o assassino.

       Era uma estupidez. Empurrou aquelas idéias para um lado e reconsiderou. A única coisa que interessava era descobrir o assassino de Agatha Kyteler e Allan Trevellyn. Naquele momento já não tinha a certeza de que o preso que se encontrava na cadeia fosse o homem correto. Levantou os olhos e viu a expressão pensativa no rosto de Baldwin.

       Muito bem, pensou Simon, quem poderia desejar a morte da bruxa? O Harold Greendiff nem sequer parecia ter um motivo. E quem poderia desejar a morte do Allan Trevellyn? Para o descobrir, o almoxarife iria precisar saber mais coisas sobre o homem. Um dos seus servos desejaria vê-lo morto? Aparentemente, todos tinham sofrido grandemente sob o seu jugo. Quem conheceria bem aquele homem?

       De súbito sobressaltou-se, fazendo com que o cão castanho e preto o olhasse numa censura muda por o ter acordado, para logo voltar a pousar a cabeça no chão. Declarou:

       - Simon, vamos falar novamente com a Sarah?

       - O que temos de fazer amanhã é ir à Jennie e à Sarah para esclarecermos um par de coisas... Creio que estou finalmente a aproximar-me da verdade!

 

       Deixaram os cavalos entregues aos moços do estábulo nas traseiras da estalagem entraram na sala e ocuparam uma mesa perto da porta da frente. Baldwin chamou o estalajadeiro com um arrogante aceno de mão, enquanto o almoxarife olhava em volta da sala. Simon ouvira o que Hugh tivera para dizer a respeito da sua conversa com Jennie Miller, e ficara muito interessado em vê-la outra vez para lhe fazer algumas perguntas.

       Contudo, naquele dia a estalagem encontrava-se muito tranqüila. Havia poucas pessoas por ali, embora estivessem na hora do almoço e o almoxarife concluiu que as pessoas da aldeia ainda deveriam ter muita tarefa para concluir. Os campos podiam encontrar-se por baixo da neve, mas não deixavam de cuidar dos animais, de reparar as ferramentas estragadas ao longo do ano, bem como algumas outras tarefas no interior das suas casas.

       Não havia sinais de Jennie Miller junto do fogo via-se um pequeno grupo de quatro homens, um dos quais Simon reconheceu como sendo Samuel Cottey e era tudo. Talvez o local se tornasse mais movimentado quando os homens terminassem os seus almoços e fossem a estalagem para tomarem uma bebida antes de retornarem as tarefas da tarde.

       O estalajadeiro aproximou-se deles a limpar as mãos num espesso trapo.

       - Senhores, que vos posso oferecer? - perguntou.

       Simon levantou uma sobrancelha na direção de Baldwin que encolheu os ombros.

       - Duas canecas de cerveja e qualquer coisa para comer.

       - Temos carnes frias, senhor. Estão de acordo?

       Simon acenou e virou-se para o amigo enquanto o estalajadeiro ia buscar o que lhe fora encomendado.

       - Então, Baldwin? Que vamos fazer a seguir?

       O cavaleiro olhou-o de relance e lançou-lhe um sorriso abatido antes de voltar a pousar os olhos nas palhas que cobriam o chão.

       - Não sei, meu amigo - admitiu. - Tudo o que ouvimos dizer parece apoiar as tuas dúvidas a respeito da senhora Trevellyn... mas era o Greendiff quem tinha a faca e as pegadas seguiam até a sua porta depois da morte ele Allan Trevellyn. Depois, temos a morte da Agatha. Ele também lá estava, como sabes!

       - E vi também!

       - Eu sei, a senhora Trevellyn admitiu-o... mas pergunto, a mim mesmo...

       - O quê?

       - Estava a pensar numa coisa: para que queria ela falar com a velha? Supunha-se que Agatha Kyteler era parteira... mas Angelina Trevellyn afirma que nunca teve filhos.

       A comida chegou naquele momento e lançaram-se a ela com gosto. Parecia-lhes que o pequeno-almoço já tinha sido comido havia muito tempo. Baldwin falou por entre dentadas, com os olhos a semicerrarem-se enquanto olhava para Simon.

       - Se o Harold Greendiff estava a ter um caso com Angelina Trevellyn então não é provável que o rapaz tentasse matar-lhe o marido para ficar com ela só para ele. Faria mais sentido do que pensar que a mulher esteve envolvida.

       - Não tenho certeza, Baldwin! Não a conheço bem... mas se tinha tanto ódio pelo marido, em especial por causa do modo como, aparentemente, a maltratava, creio que seria fácil zangar-se o suficiente para o matar. Além disso, não te esqueças que ela é da Gasconha. É francesa.

       - Francesa?- O cavaleiro olhou-o de boca aberta. - Mas que tem isso a ver com o assunto?

       - Ora, tu sabes... - Os olhos de Simon estreitaram-se subitamente e olhou em volta rapidamente. - Os franceses tendem a deixar-se levar pelas emoções...

       - Deus do Céu! Simon, tu e eu precisamos de ter uma conversa muito em breve. Acreditas em bruxas, confias em todas as velhas superstições e agora, ainda por cima, achas que todos os franceses são melancólicos? - Simon verificou, com alguma amargura, que o bom humor regressara aos olhos do cavaleiro. - Não, nem todos os franceses, mas... - Simon encolheu os ombros. Sabia que não iria ganhar aquela discussão e mudou de assunto. - Sabes, acho que começo a compreender, embora vagamente o que na verdade aconteceu...

       - Ainda precisamos descobrir muitas coisas. Temos de voltar a falar com as pessoas de Wefford para descobrirmos o que foi que não nos contaram.

       - Como? Já falamos com a maior parte deles. Como queres vir a descobrir mais coisas?

       - Bom, em primeiro lugar acho que devemos falar outra vez com a Sarah Cottey, em especial... - acenou para o grupo que se encontrava na frente deles - agora que o pai se encontra aqui. A seguir temos de ir ver a Jennie Miller. Sabe mais do que nos disse. Se o Hugh tiver razão, essa mulher conhece todos os boatos da aldeia. Também quero falar com o Harold Greendiff. Não sei como convencê-lo a falar conosco, mas temos de saber mais.

       - É muito trabalho. Vamos necessitar de tempo para irmos até à cadeia de Crediton.

      - Nós não, mas o estalajadeiro pode.

       - Nesse caso, pede para arranjar um homem para buscar ao Tanner. Poupamos uma jornada e se calhar até lhes fará bem ficarem algum tempo num lugar quente, quando comparado com aquela cela.

       Tendo decidido um rumo de ação, os dois homens acabaram as bebidas e dirigiram-se para a propriedade dos Cottey, mas quando lá chegaram não viram sinais de vida. Simon martelou na porta e deu a volta até às traseiras, mas não avistou sinais de gente para além dos finos farrapos de fumo que se escapavarn pelo colmo do teto e eram empurrados pelo vento. Deram uma vista de olhos por toda a propriedade e decidiram ir a procura de Jennie Miller.

       Aí tiveram um pouco mais de sorte. Logo que atravessaram as árvores e entraram na clareira ouviram imediatamente o som de vozes e de gargalhadas agudas. Atingiram a pequena ponte e viram as crianças dos Miller a correr e a brincar, acampadas junto à linha das árvores, com a mãe sentada num banco, a observa-las enquanto depenava uma galinha. Ria-se de vez em quando e incitava-as a esforçarem-se mais.

       Jennie escutou o som dos cavalos e rodopiou. Simon ficou vagamente entristecido quando viu a felicidade desaparecer-lhes das feições no momento em que reconheceu os visitantes. Os gritos das crianças também se calaram, como se a ligeira brincadeira acabasse com o prazer e a alegria daquele momento. O almoxarife esboçou um sorriso quase triste e incitou o cavalo. Suspirou e conduziu a montada até à porta onde Jennie Miller se levantava com a galinha contorcida a seu lado, enquanto limpava as mãos ao avental para se livrar das pequenas penas coladas ao sangue que lhe sujava a pele.

       Foi o cavaleiro quem a saudou, sem desmontar e olhando-a do alto do cavalo com uma expressão grave.

       - Jennie, queremos voltar a falar comigo a respeito ela morte de Agatha Kyteler. Podemos entrar?

       A mulher encolheu os ombros com indiferença. Desceram dos cavalos e seguiram-na para o interior. Jennie sentou-se no mesmo lugar que ocupara da outra vez e ficou a vê-los a instalarem-se enquanto esperava que começassem. Tinha um semblante algo nervoso como se estivesse ansiosa por saber o que desejavam dela.

       - Jennie, queremos que nos diga, mais qualquer coisa, que nos ajude nos dois assassínios- começou Baldwin enquanto os olhos da mulher lhe investigavam o rosto.

       - Que quer dizer? Já apanharam o assassino, não é verdade?

       Simon interrompeu-os com bons modos.

       - Refere-se ao Harold Greendiff, não é?

       Declarou com um aceno.

       - Já o tem na cadeia?

       - Temos... Mas que possa ter sido ele quem os matou? Não. - A resposta foi categórica.

       - Porquê? - Baldwin ficou a olhá-la. - Quem mais teve oportunidade para o fazer? A mulher baixou os olhos e fitou o chão em silêncio.

       Simon voltou a tentar.

       - Jennie tens de nos dizer tudo o que sabes. Afinal de contas, se o Harold nada teve a ver com o assunto, não deves querer que vá a julgamento e seja executado.

       Abanou a cabeça mas não proferiu uma palavra.

       - Jennie, é óbvio que tens alguma idéia a este respeito. Porquê? Quem pensas que possa ter sido?

       A mulher começou a falar com uma voz baixa e entrecortada, mantendo os olhos baixos e uma expressão ansiosa.

       - Depois de ter falado com o nosso servo, na estalagem, percebi que... Devia ter mantido a boca fechada... Foi a bebida... De qualquer modo, tenho certeza de que é verdade...

       - A quê?... - começou Baldwin. Mas, Simon interrompeu-o com um curto movimento da mão.

       - Continua...

       Jennie soltou um suspiro numa espécie de esforço maciço, que pareceu percorrê-la desde a sola dos pés, mas depois fitou Simon e aguentou o olhar do almoxarife

       - Quando saí da floresta, estava certa a respeito ele quem tinha visto. Era a Angelina Trevellyn. Depois, na estrada, vi o Harold Greendiff. Sei que a Cottey também os viu. A Sarah é uma boa rapariga... mas ainda não foi capaz de admitir a espécie de homem que ele é...

       - Que pensas tu que ele é? - perguntou Baldwin. Jennie ignorou-o e manteve os olhos postos no atento almoxarife.

       - Eles cresceram juntos, conhecem-se há anos. Sabem o Harold e a Sarah sempre gostaram muito um do outro. Porém, agora a Sarah quer casar e assentar. Pensa que o Harold também o quer, mas não é verdade, nunca o quis. Sempre foi um rapaz interessado em divertir-se e não há nenhuma rapariga que lhe diga "não!” porque é muito bonito... - Como que em resposta à pergunta que Simon não proferira, Jennie corou repentinamente e desviou a cara com um embaraço aparente, mas a seguir encarou-o de novo com um ar de desafio, como se soubesse que as suas palavras podiam chocar, mas já não se importasse com os resultados.

       Para Simon era quase como se a mulher se mostrasse orgulhosa. Num relance, percebeu rapidamente como deveria sentir-se, a trabalhar todos os dias para manter a família, a esforçar-se, a ajudar o marido para que o moinho continuasse rentável para poderem ter pão. Não seria de surpreender que algumas palavras amáveis de um bonito rapaz, como o Greendiff a levassem a recordar os tempos em que estava livre de preocupações e tivera oportunidade para gozar o conforto de outro homem.

       - E então? - perguntou o almoxarife.

       - Ele conheceu muitas mulheres nesta área. A Sarah foi uma delas. Porém, ao longo dos últimos meses andava com outra, uma que não era de Wefford. Era casada, ou pelo menos assim o dizia...

       - O quê? O Harold Greendiff disse-te isso? - exclamou Baldwin inclinando-se repentinamente para a frente.

       - O Harold? - Houve uma vaga troca no rosto da mulher. - Oh, não. O Harold não me disse... mas contou-o a alguns outros, tal como ao Stephen de La Forte.... que me disse.

       - Que foi exatamente o que te disse? - inquiriu Simon com delicadeza.

       Jennie franziu a testa de concentração.

       - Quando foi isso? Ah, sim! - A testa alisou-se um pouco e olhou de esguelha para Simon como se pretendesse confirmar que o almoxarife lhe prestava atenção. - Foi na estalagem. Talvez... talvez há um mês. O Stephen ria e brincava a respeito do amigo, ou seja, do Harold. O Harold não se encontrava presente na altura e o Stephen explicou que o amigo fora ter com a nova amante. Afirmou que o marido dela era burro por se deixar enganar daquele modo pelo Harold, e acrescentou que não há burro pior do que um burro velho. Disse que desejava boa sorte ao Harold e bebeu à saúde dele. Bom, como podem imaginar, todos quisemos saber de quem se tratava. Perguntamos-lhe e começou por se recusar a responder mas mais tarde, quando já éramos poucos, fez-nos jurar segredo e disse-nos.

       - Disse mesmo a quem se referia? - perguntou Simon.

       - Não, mas sugeriu-o... e era impossível não perceber de quem estava a falar. Afirmou que se tratava de uma mulher que ele conhecia, casada com um homem chegado a ele, que era rico e vivia perto da aldeia. Só podia ser a senhora Trevellyn.

       Levantou a cabeça com o fogo da amargura a brilhar-lhe nos olhos.

       - Quem mais poderia ser? Ela odiava o marido e toda a gente o sabia, não era para admirar, tendo em conta o modo como a tratava e aos servos. Tenho certeza que o odiava o suficiente para o matar ou para pedir a alguém que o fizesse por ela...mas também tenho certeza de que não foi o Harold.

       - Disseste... - murmurou Baldwin pensativo - que os viste na floresta. E a Sarah?

       - Oh, sim, deve ter visto... e também sabia dos boatos a respeito da senhora Trevellyn e do Harold. Por isso, quando a vimos no meio das árvores a caminho da casa da bruxa, e depois a ele, na estrada, a Sarah calou-se... e deve ter percebido. Que outra razão haveria para estarem ali?

       Foi a vez de Simon se mostrar confuso.

       - Não compreendo. Quer dizer que ela estava doente, ou...

       Jennie Miller soltou uma repentina gargalhada áspera.

       - Doente? Estar grávida não é uma doença almoxarife!

       Simon ficou a olhá-la de boca aberta.

       - Queres dizer... que a mulher estava grávida? Que... que ia ter um filho do Harold Greendiff. Fora à parteira para que esta a ajudasse no parto? - As perguntas foram feitas quase a gaguejar, mas foi Baldwin que respondeu com uma nota de fadiga na voz.

       - Não, Simon, não foi nada disso. Devia ter percebido. É óbvio, agora que penso nisso. Uma parteira pode ser útil para trazer uma criança ao mundo... mas por vezes também sabe como impedir que ela apareça. Era por isso que havia teixo na casa da Kyteler. O teixo serve para uma mistura que faz com que as mulheres grávidas percam os bebês. Provoca abortos... Olhou para Jennie que confirmou com um aceno.

       - Sim, creio que foi por isso que a Angelina Trevellyn se encontrava na casa da bruxa, para se ver livre do filho que ela e o Harold tinham gerado.

       Os dois homens mantiveram-se em silêncio quando se afastaram do moinho na direção da estrada, e ainda viajaram durante algum tempo antes de Simon se atrever a interromper os pensamentos do cavaleiro. Olhou para Baldwin e viu que o amigo estava profundamente perturbado. As provas que Jennie Miller lhes fornecera lançava uma luz completamente nova sobre o assunto.

       - Então, Baldwin? - perguntou, quando entraram no caminho para a propriedade dos Cottey - Que pensas?

       O cavaleiro olhou para cima com um rosto que exprimia uma grande tristeza. Agora já sentia que as provas eram tão avassaladoras que havia bons motivos para duvidar da honestidade da confissão do rapaz. Todavia, havia duas questões que não lhe largavam a mente: Por que era que o rapaz admitira ter cometido um crime com que nada tivesse a ver? Angelina Trevellyn teria sido capaz de matar o marido?

Não sabia porquê, mas ainda lhe parecia impossível que uma mulher tão bela fosse capaz de matar de tal jeito.

       Porém, a seguir, a sua mente regressou às crônicas que vira e lera quando estivera em Chipre e noutros países, nos tempos em que ainda era um membro da Ordem dos Templários. Houvera nelas muitos exemplos de mulheres prontas para pegar em armas, de mulheres que tinham morto e ameaçado, tomar o controle das terras que pretendiam obter, e de outras que haviam sido mais sutis e maléficas nas suas abordagens. Alice de Antioquia fora uma delas. Constança fora outra. Ambas haviam tentado ocupar terras e governá-las sozinhas. Era possível que Angelina tivesse sido feita no mesmo molde.

       - Não faço idéia, Simon - respondeu num tom pesado. - Tudo o que sei é que parece haver razão para duvidar que o rapaz, o Greendiff, fosse realmente responsável pelos assassínios. Precisamos ouvir da boca da própria senhora, por que razão foi visitar a casa da Agatha Kyteler. Quanto ao resto, não sei...

       Já tinham chegado à casa dos Cottey e Simon acenou, meditativo, enquanto se encaminhavam para a porta no meio dos bandos de galinhas que esgravatavam o solo em busca de algum alimento que as suas irmãs tivessem deixado escapar. Simon desmontou, amarrou as rédeas a uma árvore e voltou a bater na porta. Daquela vez verificou-se apenas uma curta pausa antes da porta se abrir para revelar Sarah Cottey, cujas sobrancelhas se levantaram ao ver os visitantes.

       - Sarah - disse Simon - viemos fazer-te algumas perguntas a respeito do dia em que foste novamente a casa da bruxa, e a respeito do Harold Greendiff. - Para seu horror, a rapariga rebentou imediatamente em lágrimas.

       Baldwin ainda continuava no cavalo mas desceu da sela e foi juntar-se a eles com uma careta de simpatia a contorcer-lhe os lábios. Lançou um olhar desdenhoso para Simon, que continuava de boca aberta, com um franco espanto perante a reação às suas palavras. O cavaleiro passou por ele, agarrou a jovem pelo ombro e conduziu-a gentilmente para o interior.

       - Vamos, Sarah, não te preocupes, já conhecemos a maior parte da história. - Ajudou-a a sentar-se num banco junto a mesa e instalou-se na frente dela, fitando-a nos olhos enquanto a jovem se acalmava, a fungar. Por fim, esfregou o nariz, aspirou o ar, olhou para Simon... e começou novamente a chorar.

       - Pronto, pronto. - disse Baldwin. - Precisamos saber o que realmente se passou. Caso contrário, sabes o que acabará por acontecer, não sabes? O Harold morrerá porque já admitiu os dois crimes. Confessou a ambos. Tu não acreditas que tenha sido ele. Conta-nos a verdade.

       Sarah levantou a cabeça e viu-se a olhar para os olhos negros do cavaleiro. Descontraiu-se sob aquela mirada firme, como se se tivesse deixado hipnotizar pelas suas profundezas castanhas.

       - Não foi a sério... Nada do que disse...

       - De que estas a falar, Sarah?

       - Do que me prometeu... - retorquiu com os olhos outra vez a encherem-se-lhe de lágrimas. Formou-se-lhe uma grande gota no olho direito, gota que começou a deslizar lentamente pela face. - Prometeu que casaria comigo logo que pudesse.

       - Quando foi essa promessa?

       - Há meses. Disse que me amava e que queria viver comigo para sempre... mas estava a mentir. Ouvi falar dele e daquela vaca francesa, e de como andavam juntos...

       - Onde foi que ouviste isso?

       - Na estalagem. Estavam todos a falar no assunto. No entanto, quando lhe perguntei, disse que não era verdade. Afirmou que se tratava apenas de mentiras, que nem sequer a vira e que ainda me queria!

       Baldwin continuou a fitá-la com tristeza, enquanto as lágrimas lhe caíam num fluxo constante, mas quase conseguia sentir-lhe a dor e foi com esforço que se impediu de lhe tocar numa tentativa para lhe dar algum conforto.

       - O que aconteceu que te levou a duvidar dele? Por que pensaste que te estava a mentir?

       - Porque o vi lá. Vi-o na estrada para a casa daquela mulher. Na altura não compreendi...

       - E viste a mulher no meio das árvores? Viste a senhora Trevellyn? - perguntou Baldwin, interrompendo-a rapidamente- Foi com ela que a viu regressar à história que lhe interessava?

       - Eu? Oh, sim, claro que a vi! Estava entre árvores, um pouco afastada do caminho, vestida com aqueles roupas tão limpas e dispendiosas... mas não deixava de lá estar pela mesma razão que... Calou-se repentinamente e desviou os olhos.

       - Creio que já sabemos a razão por que lá foi, Sarah... - disse Baldwin- Já lá tinhas ido pelo mesmo motivo, não é verdade?

       Levantou outra vez a cabeça, fitou-o com uma espécie de orgulho e declarou:

       - Sim.

       - O que te colocou a pensar que era por isso que ela lá estava? Foi o que te ocorreu imediatamente, ou chegaste a pensar noutra coisa?

       - Eu... - Os olhos da jovem perderam o foco com o esforço para se recordar. - Ao princípio nem sequer pensei em Angelina. Foi como se tivesse visto uma pessoa qualquer. Não. Só percebi tudo mais tarde quando vi o cavalo, na estrada.

       - Que queres dizer? Porquê?

       - Não cheguei a ver o Harold. Escondeu-se nas árvores mas devia lá ter estado a tomar conta do cavalo.

       - Por que dizes isso, podia ter levado outra pessoa qualquer a tomar conta do cavalo. Até podia ter trazido um cavalariço para o fazer. Por que pensas que foi o Harold?

       Havia escárnio nos seus olhos quando respondeu, trocista:

       - Porquê? Porque posso não ter visto o Harold na altura, mas mais tarde falei com a Jennie, que admitiu tê-lo avistado antes de se ocultar no meio das árvores. Escondeu-se quando me viu aparecer. Não me surpreende que não desejasse que o visse.

       Baldwin recostou-se e olhou-a com dúvidas.

       - Então, o Harold Greendiff estava lá mas, tanto quanto saibas, encontrava-se sozinho?

       - É verdade. Por essa altura, ela já devia estar entre as árvores, perto da casa da Agatha. Só há uma razão para que o Harold lá se encontrasse: foi reconfortá-la depois da mulher ter visitado a Agatha... e de ter morto a pobre velha!

       - O que! - A exclamação soltou-se dos lábios do cavaleiro de uma maneira quase explosiva.

       - Claro que o fez, tal como matou o marido! Ainda por cima, tentou atirar as culpas para outras pessoas!

       - Mas... porquê?

       - Porquê? - Voltou a ver-lhe o desdém nos olhos. - Porque quando a bruxa soube que ela estava grávida, a senhora Trevellyn teve de a matar para ocultar o seu segredo. A seguir também matou o marido.

       - Espera! - Baldwin levantou uma das mãos e suspirou. Aquilo estava a tornar-se impossível. As sugestões e alegações surgiam demasiado depressa para que tivesse tempo para pensar nelas. - Por que iria a senhora Trevellyn matar a pobre mulher? Com certeza podia confiar nela para guardar o segredo...

       - Oh, não me parece! Com poderia acreditar que uma pobre velha manteria a boca fechada? Comigo foi diferente. Sou uma mulher sem importância, solteira... e soube que podia confiar nela. Porém, a Angelina Trevellyn? Tinha muito a perder. - Inclinou a cabeça para o lado e pareceu estar a fazer uma judiciosa análise do caso. Imagino que nunca terá pensado em matar o marido... No entanto, matou a Agatha e concluiu que era uma coisa muito fácil. Deve ter-lhe parecido o melhor que tinha a fazer quando o marido voltou a tentar ameaçá-la...

       Baldwin lançou um olhar de desespero para o amigo e Simon inclinou-se para a frente.

       - Sarah, quando te davas com o Harold, ele andava sempre com uma faca?

       - Sim, é claro!

       - Como era a faca?

       - Ora, era uma vulgar adaga de um só gume. Uma lâmina fina com um lado afiado. Creio que o punho era de madeira e que tinha uma bainha de couro grosso.

       - E trazia-a sempre com ele?

       - Sim, claro que trazia.

       - Portanto, as conclusões são estas... - disse Simon quando cavalgavam de volta a Furnshill sob a crescente escuridão do crepúsculo. - Sabemos que a senhora Trevellyn esteve lá. Pensamos que tratou de conseguir o mesmo tipo de remédio que a Sarah já utilizara, e que teve uma qualquer razão para calar a bruxa.

       - Mas por que foi que o rapaz fugiu? E por que razão admitiu os crimes?

       - Baldwin. Se fosses jovem e estivesses apaixonado, não protegerias a mulher dos teus sonhos, mesmo que pensasses que podia ser uma assassina?

       O cavaleiro deteve a montada e ficou a olhar para ele.

       - Que queres dizer? Que o Greendiff pensou que ela o tinha feito?

       - Sim! - Simon também deteve o cavalo e virou-se para enfrentar Baldwin. - Se fosses tu que tivesses acompanhado à bruxa, a tomar conta do cavalo e mais tarde viesses a saber que a velha morrera por essa altura... o que irias pensar? Interrogavas-te, não é verdade?

       - Sim, interrogava-me... mas não me punha imediatamente em fuga. Por que o tera feito?

       - Não sei... mas da segunda vez, depois do Allan Trevellyn ter sido morto, talvez fosse por ter descoberto que o homem morrera. Terá deparado com o corpo no meio da neve? Ou então... talvez ela lhe tenha dito o que fizera e isso o deixasse tão revoltado que decidiu ir-se embora. O fato de ter admitido que cometeu os crimes parece mostrar que estava a tentar protegê-la. -Afinal de contas, se não tivesse fugido, se não tivesse confessado... não teria sido preciso esperar muito tempo para que nós começássemos a interrogar a respeito, não achas? Depois de sabermos que o marido da senhora Trevellyn batia-lhe, bem como, o modo como ela e os servos sofriam nas suas mãos, era natural que pensássemos que estaria envolvida.

       - Então e a faca? Estava coberta de sangue!

       - Deve haver uma explicação muito simples para isso. Tenho certeza que tem!

       - E por que confessou os crimes? Foi uma loucura! - exclamou Baldwin incrédulo.

       - Por que confessou? Essa é parte fácil. Porque a ama! Pode parecer deslocado, mas quis protegê-la porque ainda a ama!

 

       Quando entraram no salão descobriram um desgrenhado Greenfield atado a um pau no meio do pavimento, vigiado por um atento Tanner que bebia uma grande caneca de cerveja aquecida e se mantinha sentado junto à lareira. O regedor, consciente da sua posição quando comparado com os dois altos funcionários, levantou-se rapidamente quando os viu entrar. Pôs a bebida de lado e saudou-os.

       - Olá, Tanner - disse Baldwin, reconhecendo o aceno do regedor antes de se virar para a forma encolhida de Harold Greendiff. Atravessou a sala, sentou-se na sua cadeira favorita e fitou o infeliz por entre os olhos semicerrados. Simon viu-lhe a carranca de concentração no rosto e sorriu para si mesmo antes de se dirigir a um banco próximo. Já anteriormente vira aquela expressão no rosto do cavaleiro. Era como se Baldwin usasse a atitude de um magistrado desgostoso, mas o almoxarife tinha a certeza de que não era mais do que uma fachada para esconder a sua desorientação.

       Porém, quando se sentou no banco, Simon captou algo mais profundo. Havia sofrimento nos olhos do amigo, uma dor que abalava a própria alma do cavaleiro, e Simon compreendeu o que o afetava daquele modo. O cavaleiro era um homem de honra, que só desejava ver a Lei obedecida e a Justiça aplicada. Não tinha qualquer vontade de condenar a pessoa errada e não queria deixar o culpado em liberdade. Porém, isso significava que podia chegar à conclusão de que o agricultor estava inocente e nesse caso só havia uma conclusão: Angelina Trevellyn tinha de ser culpada. O Bourc confirmara que ela se encontrava lá.

       - Harold Greendiff, sabes por que te trouxemos aqui? - Começou o cavaleiro, levando a que a forma junto ao fogo se agitasse.

       Para Simon, era como se o jovem se encontrasse para lá do medo. O seu rosto pálido virou-se para o cavaleiro, mas sem qualquer preocupação aparente. Parecia desinteressado, insensível, como se o que lhe viesse a acontecer já fosse irrelevante. Nada o poderia abalar mais do que os acontecimentos dos últimos dias. Aparentemente, decidira que a sua vida estava condenada e que nem sequer valia a pena ter esperança numa comutação, viu o olhar do cavaleiro, pareceu recompor-se um pouco e tentou levantar-se, acabando por se pôr de joelhos ao lado do poste como se estivesse bêbado e precisasse de um apoio. Respondeu com um aceno.

       - Admitiste ter morto Agatha Kyteler e Allan Trevellyn. Continuas a afirmar as tuas culpas?

       - Sim. - Disse-o com uma nota de desprezo, como se o cavaleiro já tivesse a obrigação de não manifestar dúvidas.

       - Quando foi que mataste a Agatha Kyteler? Foi depois da Angelina ter ido...

       - Deixem a Angelina fora disto... - A dor na sua expressão e o sofrimento na voz eram demasiado óbvios e Simon acenou para si mesmo.

       - Deixá-la fora disto? - Inicialmente a voz de Baldwin foi enganadoramente suave mas endureceu quando o cavaleiro se inclinou para a frente e prosseguiu com mais aspereza.- Como queres que a deixemos de fora quando deve assumir parte da responsabilidade? Se mataste aquelas duas pessoas... mataste-as para ela. Assassinaste a velha para que o vosso segredo continuasse a salvo, e assassinaste o Trevellyn para que a mulher se visse livre dele, não é verdade?

       O rapaz olhou-o com a boca aberta de surpresa enquanto abanava lentamente a cabeça para um lado e para o outro.

       - Já sabemos por que motivo a senhora Trevellyn foi visitar a Agatha Kyteler. Sabemos que queria ver-se livre da criança que não desejava.

       - Não...- A palavra surgiu como um murmúrio baixo, mas Baldwin prosseguiu teimosamente.

       - Foi lá para manter a sua gravidez em segredo para a ocultar do marido.

       - Não!

       - Depois a tua faca foi novamente usada para matar o Allan Trevellyn talvez porque ele tenha descoberto o vosso segredo. Sabemos que estavas lá com ela na altura. Seguimos a tua pista de volta à quinta e ainda tinhas a faca coberta de sangue quando o Simon te prendeu.

       O cavaleiro fez uma pausa. A expressão no rosto do rapaz tornara-se contemplativa e tinha agora um ligeiro sorriso a repuxar-lhe os lábios. Acenou lentamente.

       - Sim - declarou - Foi isso o que aconteceu. Tive de matar a bruxa depois dela ter sabido que a senhora Trevellyn estava grávida, e fui obrigado a matar o Allan Trevellyn quando ouviu falar da nossa visita à bruxa.

       - Como?

       Greendiff calou-se de repente ao ouvir aquela pergunta simples e ficou a olhar para o cavaleiro.

       - Como... o quê? Que quer dizer?

       - Como foi que Allan Trevellyn ouviu falar na vossa visita à velhota? Quem lhe disse? Afinal de contas, duvido que tenhas sido tu.

       - Eu...

       - E por que precisaste matar a Agatha Kyteler?

       - Para a manter calada!

       - Ora, mas nunca abriu a boca nas outras ocasiões, pois não?

       - Oh, não sei...

       - Sabes sim, não é verdade? Sabias que a Sarah Cottey a visitara e que isso não deu origem a falatórios.

       -Não, não é verdade...

       - Não? Quer dizer que não sabias que a Sarah Cottey tinha ido visitar a velha Agatha?

       - Eu... - Não, não sabia....

       - Sabias! - A curta declaração calou-o, e o rapaz sentou-se com o rosto vermelho enquanto o cavaleiro prosseguia. - Sabias muito bem que a velha nunca falava das mulheres que a visitavam, tal como nunca falava dos homens que a procuravam. Mantinha a boca fechada... ao contrário de muitas outras. Não, não ias matá-la por causa disso. E o Allan Trevellyn? Por que razão o matarias? Para poderes ficar com a mulher dele? - O jovem abriu a boca como que para concordar, mas Baldwin fez um gesto imperioso com a mão, para o calar. Isso é uma estupidez! Por que razão irias matar o homem e fugir logo em seguida? Mataste-o para lhe ficares com a mulher... e deixaste-a para trás? Quebraste todos os laços com a tua vida e com a tua mulher ao mesmo tempo. És assim tão estúpido?

       O rapaz fitava o cavaleiro com uma expressão vazia. Ao observá-lo, Simon lembrou-se de uma lebre a olhar para um falcão... e ficou com a sensação de que ele e o Tanner não necessitavam estar presentes.

       - Então, por que foi? Por que o fizeste? Explica-me...

       Foi quase como se aquela simples exigência por uma resposta racional fosse o suficiente. Harold Greendiff pareceu descontrair-se, ao ponto de quase se recostar contra o poste, enquanto ao mesmo tempo exiba uma expressão de satisfação pedante.

       Todavia, o rosto do rapaz voltou alterar-se logo que o cavaleiro pousou o queixo na mão e o olhou dizendo:

       - Muito bem, então conto-te eu o que se passou, ou dizer-te porquê, mas não do modo como pensas.

       - Não me parece que tenhas morto fosse quem fosse... Quando a Agatha Kyteler morreu estavas a tomar conta do cavalo da Angelina. Deixou-te na estrada e foi visitar a velha. Ficaste à espera e foram-se embora os dois quando ela regressou. Não foste a casa da velha para a matar. Não podias tê-lo feito! Depois, quando te dirigiste a casa dos Trevellyn, nem sequer viste o Allan. Foste ter com a tua amante e ela levou-te para sítios onde o marido não poderia estar. Não foi estúpida ao ponto de te levar para um sítio onde vos vissem juntos.

       - Então como foi que a minha adaga ficou suja com o sangue dele?

       Baldwin fez um gesto de desprezo com a mão.

       - Um pastor tem muitas maneiras de sujar uma faca com sangue! Que fizeste naquela manhã? Mataste uma ovelha? Ou um borrego? Aposto que o sangue na lâmina da tua faca não é do Trevellyn!

       Simon contraiu os lábios. Não lhe parecia provável. Era muito mais natural que se tratasse do sangue do mercador. Quando um pastor matava uma ovelha - se se servisse de uma faca - limpava a lâmina antes de voltar a guardá-la.

       - Não! Fui eu! Fui eu quem os matou aos dois e...

       No entanto, se fosse esse o caso, pensou Simon, com a testa franzida, por que razão a lâmina ainda se mantinha suja? As pessoas limpavam sempre as suas lâminas, não era verdade?

       Teria sido por alguém querer que ficasse suja de sangue? Com certeza Harold a limparia se a tivesse usado, mas... E se outro a usasse para o assassínio, tê-la-ia deixado suja para demonstrar a culpabilidade de Harold ? Estariam a lançar-lhe as culpas para cima das costas?

       O cavaleiro inclinou-se para trás como que exausto, com feições que de algum modo pareciam mais velhas, mais antigas e acinzentadas.

       - Não és um assassino. És um... Não... - disse baixinho - um homem adulto sim, mas não um assassino! Não podias ter morto a Agatha para mais tarde matares também o Trevellyn, nem sequer pelo amor de uma mulher como a Angelina. No entanto, és perfeitamente capaz de mentir por ela. Podes mentir e dizer que mataste por ela. Podes tentar que acreditemos nisso para que ela fique a salvo e em liberdade. Isto porque soubeste sempre quem foi, não é verdade? Percebeste que só havia uma pessoa que o podia ter feito. Só a tua querida e doce Angelina teve oportunidade para matar tanto a velha como o marido. Ninguém mais teve essa possibilidade, pois não?

       Foi então, quando o cavaleiro estava a fazer aquela pergunta, que Simon compreendeu repentinamente muita coisa. Os seus lábios deixaram escapar um "Oh! Meu Deus do céu!" num grito suave que foi quase uma oração quando a verdade lhe surgiu na mente e viu o que realmente se passara.

       Foi como se olhasse para as figuras de uma grande tapeçaria. Viu uma seqüência que se iniciava com a casa da velha Agatha Kyteler, o corpo, a forma de Allan Trevellyn sob a neve, os rastos que seguiam da casa dos Trevellyn para a de Greendiff... e as pegadas que haviam seguido para sul até às charnecas. Chamaram-lhe a atenção bocados de conversas que escutara com Baldwin e que agora lhe pareciam erguer um sólido enquadramento em volta do assassino com fios tão resistentes como uma corda de cânhamo em volta de um pescoço.

       Chegou-se para a frente e fitou o rapaz com uma tal intensidade que Harold Greendiff quase o sentiu. Virou-se para o almoxarife com movimentos lentos e nervosos.

       - Harold, acho que posso provar que o assassino não foi quem tu pensas. Contas-nos a verdade se te demonstrar que não foi a senhora Trevellyn quem matou aquelas duas pessoas?

       Havia uma interrogação cínica nas sobrancelhas erguidas do rapaz quando Greendiff fitou o almoxarife, mas Simon exibiu repentinamente uma espécie de sorriso de lobo e pensou ver-lhe uma ligeira contração na testa, como se estivesse confuso.

       - De que estas tu a falar? - perguntou Baldwin. Tinham ambos saído e estavam parados em frente da porta, onde o jovem que se encontrava no salão não os podiam ouvir.

       - Podemos livrar dois suspeitos numa só sessão. Envia um mensageiro a casa da senhora Trevellyn para lhe pedir para vir aqui almoçar amanhã. Certifica-te de que não a informam da presença do Greendiff. Acho que devemos manter isso em segredo, por agora. Depois, creio que precisamos dar uma volta.

       - Simon, por vezes consegues ser excepcionalmente desagradável, em especial quando te tomas tão presumido. Explica-me o que se passa?

       Todavia, o almoxarife recusou-se. Ignorou lisonjas e ameaças e limitou-se a sorrir para si mesmo enquanto Baldwin tentava arrancar-lhe a verdade.

       - Ouviste e viste o mesmo que eu, Baldwin. Creio que posso ter visto algo em que não reparaste... e é tudo. Não te direi o que é até me certificar se tenho ou não tenho razão - declarou mudando de assunto.

       Quando Margaret saiu para ver o que estavam a fazer os dois homens se tinham calado e Simon olhava para os lados das charnecas, numa contemplação calma, enquanto o cavaleiro por trás dele, dava furiosos pontapés nas pedras soltas do chão.

       - Vocês estão bem? - perguntou ansiosa. - Nunca os vira assim. Quando a fitaram verificou que estavam ambos imersos em pensamentos, embora os do marido parecessem mais agradáveis do que os de Baldwin. Simon sorriu rapidamente para ela enquanto o cavaleiro se mantinha preocupado e quase sem dar pela sua presença.

       - Que se passa? - inquiriu sem saber muito bem se devia rir ou mostrar compreensão, uma vez que pareciam os dois tão absortos.

       No fim, foi Simon quem respondeu. Falou devagar, como se ainda pesasse as palavras com cuidado, e disse:

       - Creio que posso ter descoberto quem não pôde matar qualquer das vítimas. Penso que estou quase pronto para prender o verdadeiro criminoso!

E então... explico-vos tudo amanhã, quando tiver a certeza!

       A manhã seguinte nasceu clara e calma. O céu estava repleto de enormes nuvens que passavam a flutuar lenta e majestosamente sob uma brisa fraca mas constante, pelo que o Sol irrompia momentaneamente por entre elas para iluminar a paisagem com um clarão de inverno.

       Tudo isso só servia para aumentar as expectativas de Simon, que caminhava lentamente em frente da casa, passeando sem finalidade ao longo do trilho que conduzia à estrada e voltando para trás por cima da neve que ainda cobria as ervas da berma do caminho. De vez em quando os seus olhos desviavam-se para o caminho propriamente dito, como se fossem puxados para lá contra a sua vontade em busca de sinais da aproximação de cavalos e de Angelina Trevellyn. Pela sua parte, durante a noite, Baldwin comportara-se como um urso com uma lança cravada num flanco, irritado e conflituoso, rosnara até para o seu próprio servo quando Edgar, aparentemente e na opinião do cavaleiro, não executara as suas tarefas com o habitual alto nível de qualidade. O fato pouco efeito tivera sobre Edgar, que se limitara a sorrir e até lançara uma olhadela para os lados de Simon, com alguma surpresa deste. Era como se o homem reconhecesse a presença do almoxarife e lhe concedesse a sua aprovação. Simon reagiu com um ligeiro aceno e a boca do servo contorceu-se, como se tentasse mostrar um certo grau de simpatia pelo hóspede naquela atmosfera tensa.

       Simon voltou a sorrir ao recordar a expressão petulante de Baldwin quando se recusara a responder as perguntas do cavaleiro e caminhou até um tronco de árvore que jazia não muito longe da floresta. Limpou o excesso de neve que o cobria e sentou-se.

       Ainda ali se encontrava quando Margaret apareceu, seguida pelo cão de Agatha Kyteler, que se atirou ao almoxarife com todas as evidências de satisfação e conseguiu até lamber-lhe a cara por duas vezes, obrigando-o a virar a cabeça, desagradado. A seguir, o animal começou a andar à volta dele com o corpo arqueado como um arco tenso e a abanar a cauda.

       Margaret observou as manifestações do cão com um pequeno sorriso. A noite anterior fora muito infeliz. Odiava conflitos e tanto ela como o marido pareciam ter estado muito, irritadiços, embora fosse visível que as razões de cada um à eles eram diferentes.

       Era curioso que Simon guardasse o assunto só para ele. Tratava-se de um comportamento invulgar, em especial, quando sabiam que o assunto estava a deixar Baldwin muito apoquentado, o que era perfeitamente visível. Em geral, Simon aproveitava todas as oportunidades para acalmar um amigo, mas no caso daqueles assassínios parecia estar quase em suspenso. À manobra, se era disso que se tratava, estava a dar cuidado. Margaret aproximou-se do marido, pensativa, e sentou-se a seu lado no tronco. Simon fitou-a quando a viu dar palmadinhas no cão disse rapidamente.

       - Oh, meu amor... - disse-lhe, sorrindo o marido. Margaret não lhe devolveu as boas-vindas e ficou calmamente sentada com as mãos sobre o colo. - O que é? Sentes-te bem ?

       - Sim, Simon, sinto-me bem... mas estou preocupada contigo.

       - Comigo? Porquê?

       Olhou para os sorridentes olhos cinzentos do marido, em busca de um sinal enquanto falava.

       - O modo como te portas é muito cruel. Não vês o que estás a fazer ao Baldwin? Atormentas o pobre homem. Não faz idéia sobre o que vais fazer hoje nem porquê. Estas a enlouquecê-lo... porquê?

       - Desculpa. Margaret. Não pretendia preocupar-te e não tens nada a recear – declarou, mas os olhos desviaram-se-lhe novamente para a paisagem. - Sabes, eu próprio não estou muito seguro de como as coisas irão correr. Tenho quase certeza de que o Harold Greendiff está inocente e creio que vou demonstrar... Contudo, o problema é este: quais serão as conseqüências para a Angelina Trevellyn? Penso que ela pode ter tido algo a ver com o assunto... Se assim for, é muito provável que vá magoar os sentimentos do Baldwin... e não quero fazê-lo.

       - O que te faz pensar que não foi o Greendiff? - perguntou Margaret calmamente após um instante de reflexão.

       Simon olhou-a e sorriu. Era típico da esposa ir diretamente a questão principal sem subterfúgios. Ainda pensou na hipótese de lhe responder mas antes de conseguir falar ouviu o tilintar dos metais de arreios no caminho de acesso à casa. Margaret afirmou que se tratava de Angelina Trevellyn. A seguir deu meia volta e encaminhou-se para a casa.

       Baldwin apareceu à porta quando se aproximaram e espreitou por cima deles para as pessoas a cavalo. Simon observou-o e notou-lhe a concentração e a intensidade do olhar. Sentiu as entranhas contorcerem-se perante a idéia da mulher poder estar envolvida. Oh! Deus. Pensou que gostaria que tivesse sido outra pessoa qualquer. Não seria capaz de enfrentar o Baldwin se acabar por provar que foi ela!

 

       Angelina Trevellyn e o servo chegaram junto da casa e foram recebidos por um Edgar de feições fechadas que estendeu a mão para se ocupar do cavalo e apontou para a porta da frente. A mulher passou-lhe as rédeas com delicadeza e entrou. Entrou no corredor formado pelos biombos e descobriu-se a olhar em volta, avaliando a propriedade. Via-se claramente que não era tão boa como a dela, tão nova ou espaçosa, mas era quente e parecia confortável, verificou que havia salas para a sua esquerda mas, antes de poder investigar, surgiu-lhe um homem de rosto trigueiro e taciturno que lhe indicou a porta que dava acesso ao salão propriamente dito.

       Olhou-o brevemente com altivez, de alto a baixo. Contudo, quando voltou a fitar-lhe o rosto, ficou zangada ao descobrir que o servo lhe devolvia o olhar. Se fosse um dos seus servos seria imediatamente chicoteado e posto fora de casa por causa da sua presunção, pelo menos, Allan sempre tratara os homens como era preciso, embora procedesse mal quando batia nela e na sua própria serva. Olhou para ele por instantes e condescendeu em entrar, mas tinha dado apenas alguns passos quando sentiu que as pernas se lhe iam abaixo sob o peso do corpo.

       Para Margaret, foi como se a pobre mulher tivesse ficado a beira de desmaiar. Começara por entrar no salão como se fosse a rainha da casa - e tivesse consciência, tal como todos os outros, da atração que Baldwin sentia por ela -, e tinha boas razões, pensou Margaret, para toda aquela arrogância. Porém, os passos tinham-lhe começado a falhar perante a visão que os seus olhos encontraram. O cão castanho e preto pareceu perceber isso e avançou para a mulher com a cauda a abanar, como que para a tranqüilizar, mas Angelina encolhera-se e o cão batera em retirada para se sentar junto da figura de Harold Greendiff.

       Margaret olhou para o marido e compreendeu, repentinamente, que este tinha disposto muito apropriadamente as mesas e os bancos. Simon insistira em que a mesa fosse arrastada para o outro extremo da sala para que a senhora Trevellyn tivesse de atravessar todo o comprimento para chegar a uma cadeira. Simon, Baldwin e Tanner encontravam-se do outro lado da mesa. Margaret instalara-se numa ponta e Greendiff na outra. Assim, quando entrara, a mulher começara por ver o cavaleiro diretamente na sua frente. A seguir, os seus olhos tinham saltado para os outros e deparado com os olhares imperturbáveis do almoxarife e do regedor... e só depois disso é que vira o último ator daquele pequeno e triste drama: Greendiff.

       Enquanto os representantes da Lei se mostravam sombrios e pensativos, o jovem começara por mostrar uma expressão entusiasmada. Parecera querer pôr-se de pé num salto para a saudar mas compreendera que seria uma atitude que não ficaria bem. A seguir viu o olhar da mulher a passar por ele, notou-lhe o desprezo nos olhos... e o seu rosto como que se desmoronou. Angelina voltou a olhar para Baldwin e o rapaz quase caiu para trás como se tivesse perdido toda a resistência.

       Não o tinham sujeito a qualquer tortura ou crueldade, mas a gravidade da sua posição era claramente visível no modo como o seu corpo se foi abaixo, com um cotovelo pousado no topo da mesa, e a cabeça pendente enquanto olhava para o chão. Agora compreendia que também a perdera. Levantou a cabeça e tudo o que Margaret conseguiu ver nos olhos foi uma infelicidade total, patética e abjecta, antes de os virar novamente para baixo, repletos de vergonha.

       A expressão do rapaz também não escapara aos outros. Simon pigarreou ele uma maneira autoritária e fez um sinal para a cadeira colocada na frente da mesa.

       - Por favor, sente-se, minha senhora.

       Angelina avançou para a cadeira e ficou parada a seu lado enquanto puxava as luvas com um ar contemplativo. A seguir sentou-se levantou uma sobrancelha e olhou para Baldwin.

       - Então, senhor? Pensei que me tinha convidado aqui como amiga, para partilharmos uma refeição. Por que estou a ser sujeita a uma inquirição. Suponho que isto é uma inquirição!

       O cavaleiro abriu a boca para falar e Angelina ficou encantada ao ver uma expressão apologética e confusa. Nesse caso, era claro que também não tinha grande desejo de a ver naquela situação. Examinou os outros, pousou os olhos no almoxarife e soube que tinha razão. Devia ter sido ele quem organizara aquilo.

       - Minha senhora, será bem-vinda para nos fazer companhia ao almoço mas só depois de termos esclarecido algumas questões. - afirmou Simon delicadamente. - Tivemos uma conversa com o Harold Greendiff e gostaríamos que nos ajudasse num par de pontos...

       Baldwin teve a sensação de que o sangue desaparecera imediatamente das faces da mulher.

       - Então? - perguntou muito composta.

       - Eis o primeiro: no dia em que a velha morreu, a Agatha Kyteler, a senhora visitou-a. Foi lá para conseguir um aborto, não é verdade?

       Greendiff cobriu o rosto com as mãos ao ouvir aquelas palavras, mas a mulher limitou-se a devolver o olhar de Simon em silêncio, com as faces rígidas, como uma máscara. Passados instantes abaixou a cabeça numa confirmação com os lábios transformados numa linha fina e exangue de raiva.

       - Enquanto lá esteve, deixou o Harold a tratar do cavalo, não foi? - Novo aceno lento. - Que se passou enquanto lá esteve?

       Lançou uma mirada para Harold Greendiff e pareceu preparar-se para os enfrentar.

       - A velha estava bem quando lá cheguei. Vira-a no anterior para lhe pedir... um remédio. Disse-me que precisava de tempo para recolher as folhas e ervas, pelo que não poderia fazê-lo logo mas que estaria pronto na terça-feira. Fui lá, paguei-lhe e tomei a bebericação. Não esperei, bebi-a logo ali, com ela a ver.

       - E depois?

       - Depois? Regressei ao meu cavalo. O Harold ficara a tomar conta dele, entregou-me e fui para casa.

       Greendiff agitou-se e afastou as mãos do rosto. Olhou-a com uma expressão desolada e declarou:

       - Não. Não foi assim. Ela disse-me que ia lá para obter uma poção que fizesse com que o filho - o nosso filho - fosse forte e saudável. Também disse que acreditava nos boatos a respeito da velha Agatha.

       - Harold! - exclamou a mulher subitamente assustada.

       - Pensava que a Agatha era um bruxa e afirmou que a velha a ajudaria a ter um bebê forte. Não me pareceu que tivesse razão, mas queria que sentisse feliz e concordei. Tomei conta do cavalo enquanto ia a casa da bruxa e esperei até que regressasse. Porém, quando voltou, tinha uma expressão diferente e soube que algo tinha corrido mal. Então, contou-me. Explicou-me que comprara uma poção e que o nosso bebê morreria. Sempre me prometera que viveríamos juntos e que fugiríamos para junto da família dela, na Gasconha, onde o marido não se atreveria a procurar-nos. No entanto, fiquei horrorizado quando me disse que tinha bebido uma mistura para matar o nosso bebê...

       - E o que fizeste a seguir, Harold? - perguntou Simon, zangado e impedindo a súbita tentativa de interrupção por parte da mulher, que fitava Greendiff com os seus magníficos olhos escancarados de horror e abanava a cabeça lentamente de um lado para o outro.

       - Tentei convencê-la a desistir daquela idéia, dizer-lhe que tudo correria bem, que podíamos escapar e ficar a salvo na Gasconha, mas limitou-se a rir e foi então que me disse que já tomara a poção. Era demasiado tarde! Afirmou que eu era louco se pensava que estaria disposta a abandonar um marido rico para viver uma vida de pobreza noutra terra. Foi-se embora e eu fiquei ali, fulminado. Bom, tinha de fazer qualquer coisa... e por isso fui à estalagem e tomei uma bebida. Estava louco, estava furioso por a bruxa me ter roubado o meu bebê. Fora ela que o matara... Angelina poderia ter tido o nosso filho se a bruxa não lhe tivesse dado àquela mistura...

       - Harold... - murmurou a mulher, baixinho, com a voz entrecortada. O rapaz ignorou-a.

       - Bom, ainda lá não estava há muito tempo quando apareceu um amigo meu, gelado por causa do frio. Não esperara que fizesse tanto frio e deixara a capa em casa. Viu o estado em que me encontrava, perguntou-me o que se tinha passado... e contei-lhe tudo. Disse-me que deveria ir ter com a bruxa para ter a certeza de que se mantinha calada, pois no caso contrário poderiam surgir grandes sarilhos para mim e para a Angelina. Ainda tinha a esperança de que mudasse de idéia, sabem... e pensei que poderia voltar para mim se me certificasse de que não haveriam boatos a nossa respeito. Partimos imediatamente. Não levamos muito tempo a chegar à casa da velha megera e entramos...

       - Quem entrou à frente? - perguntou Simon, de rosto contraído.

       O rapaz pensou por instantes e respondeu:

       - Eu. Entrei enquanto o meu amigo tratava do cavalo e... e a mulher estava caída no chão, coberta de sangue. O cão, este cão, jazia no chão ao lado da cabeça dela, a ganir. Creio que também o magoaram. Foi então que percebi... bom, que pensei...

       - Pensaste que a senhora Trevellyn matara a velha Kyteler para lhe manter a boca fechada permanentemente, não é verdade? - O rapaz acenou, entorpecido. - Além disso, lembraste imediatamente que podiam desconfiar que era uma assassina?

       - Sim, pensei que de certeza haveria um inquérito se o corpo fosse descoberto ali e que alguém a poderia ter visto.

       - Quais seriam as suas hipóteses?

       - Iriam afirmar que tinha sido ela e não quis que isso acontecesse. Por isso, mandei embora o meu amigo e levei o corpo, para o esconder. O meu amigo... - a voz morreu-lhe, insegura.

       - Já agora, será melhor que nos contes tudo. O teu amigo não ficará prejudicado por ter tentado proteger-te - interveio Baldwin.

       - Creio que ficou com a certeza de que fora eu quem matara a velha. Pensou que o fizera enquanto ele tratava do cavalo. Entrou, viu o corpo, ficou a olhar para mim e disse: “Porquê. Harold? Não tinhas necessidade de a matar.” Ficou muito chocado. De qualquer modo, foi-se embora horrorizado e eu levei o corpo para a minha casa. Naquela noite já escurecera demasiado para poder fazer qualquer coisa... A terra estava demasiado dura e nunca a conseguiria enterrar. Por isso, pensei em escondê-la na manhã seguinte. A seguir regressei à estalagem como se nada tivesse acontecido. O meu amigo já estava em Wefford, encontrei-o pelo caminho e entramos juntos. Na manhã seguinte, quando me preparava para a esconder algures na floresta, o velho Cottey encontrou-a antes que o pudesse fazer e foi nessa altura que vos chamaram.

       - Compreendo - murmurou Simon, a pensar no que acabara de ouvir. - E quanto à noite em que o Allan Trevellyn morreu?

       - Tentei ver a Angelina desde o dia em que a velha Kyteler morreu, mas recusou-se sempre... Depois, o meu amigo conseguiu entregar-lhe um bilhete e disse-me que nos podíamos encontrar. Acompanhou-me através da neve, vimo-la e ele foi-se embora para podermos conversar a sós. -Juro que não vi o Allan Trevellyn... e que não o matei. Falei com Angelina, tentei persuadi-la a fugir comigo, mas riu-se. Afirmou que nunca abandonaria o marido enquanto ele estivesse vivo e pediu-me para a deixar em paz.

       - E a seguir?