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OS CAVALEIROS / Juliette Benzoni
OS CAVALEIROS / Juliette Benzoni

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS CAVALEIROS

 

                     A DAMA DE VALCROZE

Sancie olhava para a estrela.

Os cinco braços prateados, brasonando o azul do céu, brilhavam ao sol, suspensos da longa corrente que uns homens intrépidos tinham estendido entre os dois picos gémeos erguidos como dois dedos por cima da aldeia de Moustiers. Aquele fantástico testemunho de gratidão, colocado como um colar no pescoço da montanha em homenagem a Nossa Senhora, sonhara-o o cavaleiro Guilherme de Blacas na prisão de Mansurá. Do fundo da sua miséria, ele jurara à Virgem Maria formar, com as suas correntes de cativo e a estrela do seu escudo, uma homenagem deslumbrante e intemporal que atravessaria os séculos proclamando a glória da mãe do Cristo Rei. E Sancie gostava daquela estrela, assim como gostava da capela de Notre-Dame-d'entre-les-Monts onde fora, várias vezes, depositar o seu fardo e pedir ajuda, já que a tradição e a fé populares atribuíam grandes poderes ao pequeno santuário ornamentado de maneira tão magnífica. Dizia-se, até, que os bebés nascidos mortos recuperavam ali a vida...

Nunca Sancie pedira tanto. As suas preces eram mais modestas e, talvez por isso, eram, muitas vezes, atendidas. Desse modo, a cada visita, as suas esperanças mantinham-se intactas, apesar de, daquela vez, admitir que seria precisa muita boa vontade por parte da Virgem Maria.

O Sol, ao bater na estrela, provocava relâmpagos, insuportáveis para os seus olhos um pouco cansados. Sancie benzeu-se e entrou na capela. A espessura das paredes, sob a abóbada romana, permitia que a atmosfera fosse fresca e penumbrosa, na qual se fundia rapidamente a mancha vermelha provocada pela contemplação daquele astro espantoso que a noite apagava.

A jovem depositou em frente do altar, dominado por uma antiga e primitiva mas comovente estátua da Virgem Maria, o braçado de giestas que trazia consigo. A sua cor amarela iluminou de um golpe o pequeno santuário onde ardia apenas um grande círio, aceso todas as manhãs pelos monges beneditinos, emigrados desde o século V do mosteiro Saint-Honorat-en-Lérins e cujo priorado fizera nascer a aldeia. Sancie era a única, naquela manhã, o que era raro, já que a capela era um local de peregrinação, mas a montanha fora varrida na noite anterior por uma tempestade e o mau tempo esvaziara os caminhos. Mas era preciso mais do que uma tempestade para deter a dama de Valcroze. Assim, o irmão Ausbert, o velho monge encarregado naquela manhã de receber os peregrinos, que a conhecia bem, a ela e à sua generosidade, reservou-lhe um acolhimento caloroso e, sabendo que ela ficaria reconhecida por alguns momentos de solidão, retirou-se com uma piscadela de olhos e um ligeiro sorriso de lábios cerrados para que ela não visse a falta de dentes provocada pela idade avançada. Mas não sem antes lhe ter entregado a vela que ela pedia habitualmente.

Senhora do santuário, Sancie colocou as flores em jarros ali existentes para o efeito, acendeu a sua longa vela, colocou-a de maneira a iluminar o rosto de Maria, ajoelhou-se e, juntando as mãos, começou a rezar... Primeiro as orações rituais, as Avés-Maria alternando com ladainhas, mas o que tinha a pedir era muito difícil. Mais, talvez, do que o regresso à vida de um bebé nascido morto. Que palavras usar, quantas lágrimas verter para que Nossa Senhora se deixasse comover e consentisse em expulsar do espírito de Olivier aquele desejo terrível de se fazer templário? Como fazer com que a mãe de Jesus admitisse que a humilde Sancie lhe queria recusar o dom de uma vida consagrada ao Seu filho? E nas condições mais gratificantes possíveis, já que não se tratava de se enterrar, por baixo do burel e do silêncio, num mosteiro qualquer, mas sim por baixo das armas de cavaleiro e combatendo à luz do dia para a glória de Deus onde o Seu serviço o exigisse.

Ainda e sempre agarrados à Terra Santa naquele ano de 1288, onde a morte do terrível sultão Baybars, onze anos antes, lhes permitia respirar um pouco nos lugares que ainda possuíam, tal como os Hospitalários e os Teutónicos, os cavaleiros do Templo não deixavam de aumentar a sua rede de domínios e comenda-dorias em toda a Europa Ocidental. Eram ricos devido aos bens recebidos durante o último século e meio, o que fazia deles os primeiros e mais poderosos banqueiros do Ocidente, já que chegavam a emprestar aos próprios Reis. Orgulhosos e arrogantes na sua coragem jamais posta em dúvida fosse por quem fosse, salvo raras excepções, ofereciam uma imagem capaz - oh quantas vezes! - de fazer sonhar qualquer jovem. Sancie sabia que era assim, mas guardava no fundo do coração a recordação terrível de uma fogueira no interior de uma antiga cratera, próximo do lago de Tiberíades, do homem que para ela se lançara e da maldição que ele proferira. O Templo era maldito, o Templo pereceria e seria um Rei, cujos olhos nunca se fechavam, que o destruiria.

Ora, o neto do Rei Luís IX (1) ocupava há já três anos o trono de França. Filipe IV tinha agora vinte anos e era apelidado, desde a sua adolescência, o Belo. Mais belo senhor não havia... nem mais frio, ou mais secreto. Diziam que o peso do seu olhar, azul e gelado, era difícil de suportar porque era impossível de decifrar; que ele nunca pestanejava, ao ponto de os do seu séquito, impressionados, perguntarem a si próprios se ele fecharia os olhos durante o sono. Além disso, o velho profetizara que o Templo correria para a sua perdição dentro de meio século e já se tinham passado trinta e sete anos. Faltava pouco tempo. E Sancie de Courtenay, dama de Valcroze, ia àquela capela suplicar a Nossa Senhora que afastasse o seu filho daquele projecto tão funesto que a gelava de terror. Tanto mais que ela duvidava, no fundo do seu coração, da realidade de uma vocação que se manifestara subitamente aquando do noivado da delicada Inês de Barjols com um Esparron. Porém, interrogado suavemente pela sua mãe, Olivier dissera nunca ter sonhado em casar com a jovem e Olivier nunca mentia: era demasiado orgulhoso para isso e Sancie não insistira, pensando que era possível o filho não ter consciência de um sentimento secreto...

 

‘ A Canonização só terá lugar em 1297.

 

Olivier!. Sancie amava-o acima de tudo pois nunca acreditara que ele pudesse vir a este mundo. Para ela e para Renaud, o seu marido, era uma espécie de milagre...

Ao deixar São João de Acra depois do seu casamento nocturno, feito à pressa pelo Rei Luís IX, desejoso de se ver livre de um homem por quem a sua bela mulher, Margarida de Provença, sentia uma inclinação demasiado terna, Sancie de Signes, dama de Valcroze, sabia que o seu embarque apressado num navio marselhês não tinha como destino a felicidade, apesar de a primeira escala ser em Pafo (1), na ilha de Chipre. Amava Renaud com toda a sua alma desde os doze anos e esse amor resistira a um casamento - não consumado, era verdade! - com o velho mas adorável Ademar de Valcroze, que soubera fazê-la feliz sem nunca ter feito dela uma mulher. Mas Renaud amava a Rainha Margarida desde o momento em que dobrara o joelho diante dela pela primeira vez. Sancie sabia-o e apesar de persuadida de nunca ser correspondida, aceitara casar com ele porque Margarida, a madrinha que ela tanto amava, lho suplicara. Era a única maneira de salvar a cabeça daquele Courtenay demasiado sedutor, surpreendido pelo Rei na câmara da sua mulher. Em circunstâncias dramáticas, sem dúvida, mas suficientemente equívocas para acordarem o ciúme num homem que a Igreja colocaria um dia, disso estavam todos cientes, na galeria dos santos. Fora, talvez, por essa razão e porque descobrira em si próprio um sentimento tão bestialmente humano, sentindo por isso a devida humilhação, que a cólera de Luís o tornara, por alguns momentos, surdo a qualquer explicação. E o casamento tivera lugar sem que Sancie sentisse outra coisa que não um sofrimento acrescido. Aquele casamento, tal como o primeiro, permaneceria casto, mas este por sua própria vontade. Mesmo que, um dia, Renaud lho pedisse, não cederia, a ele ou a si própria, a despeito da sua paixão: a jovem

 

(1) Cidade antiga da ilha de Chipre, célebre pelo seu templo de Vénus. A autora, em vez desta cidade, fala em Cítera, mas Cítera é uma ilha, não uma cidade de Chipre. Suponho que deve ter havido um erro.

 

considerava o seu corpo indigno de ser oferecido ao homem amado depois de ter sido sujo pelo príncipe infiel que se apoderara dele por meio de um estratagema... deixando nele a sua marca (1)...

Passada a ilha de Chipre, onde não se demoraram, a viagem foi abominável. Todas as tempestades do Mediterrâneo pareciam ter marcado encontro com o navio cuja carga humana, sofrendo ao mesmo tempo de falta de espaço e da instabilidade do meio ambiente, passou as passas do Algarve em matéria de náuseas e sensações terríveis de vertigem, rezando perdidamente entre vómitos que empestavam a atmosfera. E quando o mal lhes dava algumas tréguas, ou quando advinha alguma aclimatação, ficavam sem forças por se agarrarem a tudo o que parecia sólido e fiável para não serem lançados borda fora ou bateram no cavername, se queriam respirar um pouco de ar puro.

A excepção da tripulação e - sabe Deus porquê - de Renaud, do seu velho escudeiro Gilles Pernon, de Basile, seu jovem companheiro grego e da inútil Honorine, dama-de-companhia de Sancie, toda a gente a bordo ficou doente e a própria Sancie ainda mais. Em particular numa determinada noite durante a qual, depois de ter caído na escada do castelo-da-popa, passou martírios durante horas com os dentes cerrados num pedaço de pano torcido para abafar os gritos enquanto perdia o fruto detestado concebido nas margens do lago de Huleh. Honorine assistiu-a com tanta calma como se estivessem num quarto, não no canto de um navio enlouquecido. A dama-de-companhia conseguiu mantê-la afastada dos - bem raros! - olhares indiscretos que pudessem manifestar-se e quando o dia nasceu no estreito de Messina por fim calmo, os vestígios do acontecimento desapareceram nas ondas, ao mesmo tempo que Sancie, esgotada, mergulhava no sono. Por comodidade e decência, as mulheres viviam, a bordo, separadas dos homens e Renaud ignorou tudo.

Quando chegaram a Marselha, o estranho casal, que trocara apenas algumas palavras sem importância, em particular para a galeria, separou-se. A fim de preservar a dignidade da jovem e dar alguma credibilidade à urgência de uma partida brusca, o Rei

 

(1) Ver volume II, Renaud ou a Maldição.

 

entregara ao cavaleiro de Courtenay - a quem dera o solar e as terras dos Courtils, seus pais adoptivos - uma carta destinada à sua nobre mãe, a regente, cuja saúde o preocupava. Uma carta cuja resposta devia ser confiada a um outro mensageiro, já que Renaud ficaria, em seguida, livre de fazer o que lhe apetecesse. Quanto a Sancie, não tinha qualquer vontade de regressar a Paris, ao palácio da Cité e, sobretudo, de ver de novo Branca de Castela, a quem chamava, em tempos, a Velha com uma desenvoltura impressionante. Além disso, a viagem fora fatigante e impunha-se algum repouso.

A jovem decidira gozá-lo na casa das Bernardinas de São Vic-tor, cuja prioresa era sua prima, e foi na soleira da abadia que os dois esposos se separaram. Sancie com uma indiferença que estava longe de sentir, mas Renaud não escondeu a sua inquietação:

- Estais esgotada. Permiti-me, ao menos, acompanhar-vos até ao vosso feudo. Se compreendi bem, tendes ainda um longo caminho a percorrer antes de lá chegar.

- Eu não vou partir já amanhã, ficai tranquilo! Farei a viagem por pequenas etapas, parando, por exemplo, em Signes, em casa da minha família...

- As estradas são assim tão seguras na Provença, que vos permitam percorrê-las apenas na companhia de Honorine? Ficai com Pernon... e Basílio. Ele ainda só tem doze anos, mas é esperto!

- Nem um nem outro querem deixar-vos. Sem vós, sentir-se-iam perdidos nesta região que lhes é desconhecida.

- Não quereis mesmo nada de mim, não é verdade?

- Não é isso e pensei bem nas palavras que disse. Mas isso não significa que Valcroze lhes esteja vedado. Ou a vós - acrescentou ela com alguma hesitação. - Mas estais com pressa, ao passo que eu não. Assim, regressarei tranquilamente, estou certa, sob a protecção da escolta que a minha prima Catarina me fornecerá. Terminada a vossa missão, não vos impedirá de vir ter comigo. O nosso casamento fez de vós o castelão de Valcroze...

- Estais certa de que é o que desejais? Com o tempo, talvez, mas nos tempos mais próximos seria estranho. Entretanto e como ao casar comigo me salvastes a vida, cabe-vos a vós fazer o que mais vos agradar...

Os profundos olhos negros de que Sancie gostava tanto - olhos de sarraceno numa pele de sarraceno contrastando de maneira tão feliz com a cor loura dos seus cabelos! - esperavam uma resposta, mas a voz, essa, soava sem emoção e ela sentiu que Renaud se limitava a enunciar o que considerava como uma obrigação e um reconhecimento; assim, absteve-se de lhe dizer que, ao regressar para ela, dar-lhe-ia a maior das alegrias, porque seria confessar que precisava desesperadamente da sua presença. A jovem virou a cabeça:

- Não é assim que o entendo. Se vos tivesse executado por uma falta de que estáveis inocente, o Rei Luís teria cometido uma grande injustiça. limitei-me a evitá-la e a vossa vida só a vós pertence... assim como o vosso passado. Sois tão livre quanto possais desejar!

Nos dias que se seguiram, Sancie lamentaria muitas vezes a secura das suas palavras. De facto, lamentou-as assim que as pronunciou porque, ao ouvi-las, Renaud empalidecera e, por trás dele, o velho Guilherme Pernon, antigo mestre-de-armas de Courcy e agora seu escudeiro, abanara a cabeça com um ar infeliz, mas não podia voltar atrás. O pensamento de Renaud surpreendido no quarto de Margarida, a madrinha de quem tanto gostava, envenenava-lhe a alma. Além disso, sofria demasiado com a mancha que lhe impusera o sultão, apesar de Renaud ignorar o que se seguira. Naquelas condições, mais valia que ele se afastasse dela. Pelo menos durante algum tempo! Bem precisava, para que tudo aquilo se esfumasse e voltasse a ter paz. Apenas a paisagem sublime de Valcroze, a meio caminho entre o céu e a terra, seria, talvez, capaz de lhe devolver alguma serenidade. Mas foi com um terrível aperto no coração que ela viu afastar-se a galope a alta e orgulhosa silhueta daquele cujo nome usaria doravante.

Sancie ficou pouco tempo em Marselha. A turbulenta cidade do Lacydon acabava de sofrer o cerco imposto por Carlos d'An-jou, irmão do Rei de França e novo conde da Provença, a quem recusava prestar vassalagem. Vencida, lambia as feridas com um rancor que prejudicava a sua imagem acolhedora. Até na casa das Bernardinas se queixavam e se eram obrigadas a rezar pelo novo suserano, faziam-no em voz baixa. Sancie tinha necessidade de uma atmosfera mais tranquila e, por isso, demorou-se ali apenas uma semana, partindo escoltada por dois servidores do convento armados até aos dentes e na companhia da sua fiel Honorine, que não deixaria de resmungar durante toda a viagem por causa das incomodidades do caminho.

Para o voo rápido de uma ave, a distância entre Marselha e as gargantas profundas do Verdon, à entrada das quais se aninhava Valcroze, não excedia vinte e cinco léguas, mas representava mais do dobro para quem viajava rente ao solo por uma paisagem magnífica, sinuosa, acidentada e marcada por recordações para a nova recém-casada. Sancie ainda a tornou mais longa ao recusar passar por Sainte-Baume, a gruta de Maria Madalena - a pecadora que amava Cristo e que para ali foi viver e morrer na maior miséria - sem fazer uma peregrinação. Desde que se chamava Sancie de Signes que a jovem votava por Madalena uma devoção particular, apesar de a pecadora não ser a sua santa padroeira. Mas todas as mulheres da sua aldeia de infância partilhavam essa devoção porque esperavam da cortesã arrependida o casamento para algumas das suas filhas e a fecundidade para as que já tinham marido. Trepando o duro caminho através da abundante floresta de faias, de áceres, de tílias, de carvalhos brancos, de pinheiros, de choupos, de sicômoros, de teixos e de cornizos, escalando depois o caminho de cabras que se parecia vagamente com uma escadaria a meia altura da parede vertical da crista onde se abria a gruta húmida e de onde a água pingava durante todo o ano, Sancie levava uma intenção bem diferente das precedentes: o seu corpo não fora manchado, tal como o da rapariga de Magdala, que fora para ali em busca da coroa da santidade? A jovem ia pedir a Madalena que a ajudasse a suportar a vergonha e a dor ardente do seu amor por Renaud.

A jovem rezou durante muito tempo, depositou uma esmola para o minúsculo mosteiro implantado há pouco na base da imponente escalada e retomou a viagem em direcção a casa, na certeza de a encontrar como a tinha deixado. Não a confiara ao seu primo, o irmão Clement de Salernes, cuja comendadoria de Saint-Mayme-de-Trigance se encontrava próxima? Porque se colocara nas mãos de um dignitário do Templo e mesmo depois da terrível cena vivida nos Cornos de Hattin, nunca se arrependera porque gostava muito do irmão Clement e não era tola ao ponto de imaginar por um só instante que todos os Cavaleiros do Templo eram iguais a Roncelin.

Erguido a pouca distância da cidadela de Castellane, num pequeno outeiro de onde se avistava a fantástica paisagem de uma garganta acidentada bordejada de falésias cobertas de florestas, no fundo da qual se precipitava uma inacessível torrente cor de esmeralda, o castelo de Valcroze, a despeito das suas pedras amareladas e ocres, oferecia o aspecto rebarbativo comum a todas as fortalezas construídas durante o século XI. Torres redondas com seteiras protegidas por palanques de madeira e ligadas entre si por altas muralhas, que as defendiam. Não tinha um torreão, mas no alto de um vasto pátio ligeiramente inclinado - o terreno fora nivelado para que o castelo se harmonizasse com a curva do morro! - tinha uma grande habitação cuja rudeza era amenizada por algumas janelas com colunas. Para desimpedir Valcroze, tinham feito recuar a densa floresta que vestia as encostas já acentuadas, transformando-as em falésias abruptas e atormentadas, inclinadas sobre profundidades inquietantes e misteriosas onde se precipitavam as águas do Verdon. O caminho requer cavalos e homens, bons jarretes, mas as pequenas plantas odoríferas como o tomilho, a manjerona, a flor-de-lis e as peónias selvagens chegam às portas do castelo. Acima deste, as cristas rochosas vestem-se de pinheiros, de carvalhos verdes, de vidoeiros e de ulmeiros, abrigando uma caça numerosa apreciada pelos habitantes de uma região rica em rebanhos de ovelhas e cabras que vão a pastar nos altos planaltos, afastados das vertiginosas falhas das gargantas. A pequena aldeia esconde-se num cotovelo da torrente. As lavadeiras do castelo vão ali lavar a roupa porque a distância não é longa e, ao menor alerta, os camponeses tinham tempo para se pôr a salvo com os seus bens, sabendo que encontravam asilo.

Aquela região da Provença, cuja beleza grandiosa era de tirar a respiração, era menos rude do que parecia e os castelões de Valcroze podiam rivalizar em fausto com os maiores senhores, como o proclamavam os tapetes e tapeçarias do grande salão, os aparadores carregados de maravilhas de prata, de cristal ou de ouro, as arcas bem trabalhadas, as armas e tudo o que atestava a riqueza dos barões do lugar!

Entalado entre as imensas terras dos templários que dependiam da grande comendadoria de Riou-Lorgues e de Draguig-nan, cujas fortalezas guardavam o sul das gargantas e as do poderoso vizinho de Castellane, o domínio de Valcroze não era muito grande, mas para além de possuir em Bédarrides, a norte de Avinhão, uma bela alcaidaria, o seu senhor passava por ser um dos mais ricos senhores da Provença porque, para além dos rebanhos, dos bosques, das herdades e dos baldios, dizia-se que o barão Ademar teria trazido das cruzadas um tesouro que o seu herdeiro mantinha bem escondido e do qual se servia quando a necessidade se fazia sentir, mas com moderação. Se no castelo se levava uma vida larga e generosa, não se lançava o ouro pela janela.

Sancie conhecera ali uma felicidade inesperada, tranquila, doce e alegre junto de um homem de idade que soubera amá-la à maneira de um pai - e bem melhor do que o seu, autoritário e muitas vezes insensível. A jovem aprendera a amar aquela natureza imensa, habitada pela voz das águas saltitantes do rio, cuja cor Ademar dizia ser a mesma dos seus olhos. Assim, regressava ali com alegria e uma espécie de alívio, parecendo-lhe a casa o melhor asilo para um coração magoado. De facto, sabia que tinham lamentado a sua partida e que a sombra benevolente do seu velho marido defunto a esperava.

- Finalmente, eis-nos em casa! - suspirara Honorine quando, ao chamamento do corno soprado por um dos criados, a grande porta de carvalho, armada com pesadas dobradiças de ferro, se abriu perante as suas montadas e se ergueu, rangendo, a grade de bicos temíveis. Mas o pequeno cortejo já tinha sido avistado ao longe e o castelo já zumbia como uma colmeia enlouquecida. Uma casa feudal é um mundo fechado e aquele acabava de acordar no meio de uma algazarra onde se misturavam os gritos dos palafreneiros, os risos das servas, as ordens contraditórias e afobadas das cozinhas, o cacarejar do galinheiro e, na muralha, as notas alegres de uma trombeta soando as boas-vindas: a dama de Valcroze regressava a casa. Assim, nem lhe deram tempo de descer do cavalo. A jovem foi rodeada, ovacionada, aclamada, e sentiu o coração aquecido. Era de amor que precisava e aquele valia bem um outro. Além disso, o céu estava bem azul e cheio de andorinhas!

Sancie sorriu a Maximin, o intendente, a Barbette, que comandava o pequeno batalhão de servas e que velava pelas refeições. Algumas, que conhecera rapariguinhas, tinham crescido e ofereciam-lhe ramos de alfazema e de alecrim colhidos à pressa na charneca vizinha quando os vigias tinham assinalado a aproximação dos viajantes. E também apareceu o irmão Clement, que efectuava naquele dia uma das suas inspecções semanais. E Sancie sentiu-se feliz por vê-lo de novo porque gostava muito dele e reencontrava aquele afecto intacto a despeito da túnica templária com a cruz vermelha que ela não via, agora, sem algum desassossego, mas como era possível acreditar que aquele homem de mais ou menos trinta e cinco anos, talhado para a cota de malha, não matinha a pureza e a fé ardente dos primeiros tempos da Ordem? Da sua cabeça morena e enérgica, onde as rugas das preocupações apareciam precocemente, irradiava, através dos olhos de um cinzento-doce, uma luz e uma real alegria de viver!

- Como agradecer-vos tudo o que tendes feito por todos os que vivem aqui, irmão Clement? Nada mudou, parece que saí daqui ontem!

- É natural, porque foi o que vos prometi! Mas entrai, dama Sancie, entrai em vossa casa! Ela esperou-vos com paciência e serenidade, certa de que regressaríeis um dia. Mas não tão cedo, talvez? O Rei Luís regressou ao seu reino?

- Não, mas eu regresso casada de novo. Por sua e por minha vontade, casei com sire Renaud de Courtenay, um dos seus mais valentes cavaleiros que é, doravante, meu senhor.

- Que maravilha! - exclamou o irmão Clement com um grande sorriso. - É uma excelente notícia, pela qual devemos dar graças a Deus... Mas, por que não vem ele convosco?

- O Rei encarregou-o de entregar uma mensagem à sua mãe e eu não tinha vontade nenhuma de ver de novo Madame Branca.

O irmão Clement desatou a rir:

- Continuais a gostar dela, pelo que vejo? Bem, esperemos, portanto, pelo regresso do vosso marido para o conhecermos.

- Pode ser que demore... e que eu precise ainda da vossa ajuda e dos... vossos conselhos no que respeita aos meus domínios...

De repente, a jovem sentira-se desamparada e o templário compreendeu rapidamente que nem tudo ia bem para a dama de Valcroze e que talvez aquele novo casamento não lhe estivesse a trazer a felicidade; mas ele conhecia a sua jovem prima desde a infância e sabia que era quase impossível fazê-la falar quando ela não queria. Naquele dia, o irmão Clement limitou-se a concluir com bom humor:

- Esperá-lo-emos juntos. Sabeis perfeitamente, minha querida Sancie, que nunca vos deixarei em dificuldades.

Era bom poder contar com ele e, por um momento, Sancie sentiu-se tentada a contar-lhe tudo, mas temia que ele fizesse do seu marido uma imagem afastada da realidade e preferiu calar-se.

Mas a verdade acabou por surgir, um dia, quando se tornou evidente que Valcroze não veria tão cedo o seu novo senhor. De facto, depois de ter entregado a mensagem real a Branca de Castela que, doente, o recebeu no seu leito, o encheu de perguntas que giravam todas em redor do desejo angustiado de ver o filho regressar e que, por fim, o despediu sem sequer lhe ter perguntado como estava, Renaud partira para Courtenay onde continuava Maria, Imperatriz de Constantinopla, para se encontrar com Guillain d'Aulnay, o único amigo que tinha no mundo e para rezar na capela do castelo, diante da laje sob a qual repousava Thibaut, o seu avô. Então, soubera - coisa que já esperava, mais ou menos! - que no seu palácio meio deserto o Imperador Balduíno continuava a debater-se com enormes dificuldades devidas a uma falta de dinheiro crónica e a uma rarefacção das suas tropas. Recordando-se de que, à semelhança de outros cruzados, jurara que depois da cruzada iria em socorro de Balduíno, Renaud de Courtenay decidira muito simplesmente colocar a sua espada ao serviço de um príncipe a quem devia muito e de que, aliás, gostava muito. Assim, voltara a partir para Marselha, de onde queria embarcar. Foi de lá que fez chegar uma carta à sua mulher, anunciando-lhe a sua intenção. Foi Gilles Pernon que a levou a Valcroze. Não sem refilar, mas desde o regresso da Terra Santa que a saúde do velho escudeiro deixava muito a desejar. Gilles sofria de reumatismo, o que lhe dificultava as longas cavalgadas, assim como de crises de asma. O Sol e o clima seco da Provença ser-lhe-iam benéficos e Renaud acabara por fazê-lo ouvir a voz da razão. Desse modo, foi sozinho que embarcou para Constantinopla...

Ao receber aquela carta, Sancie chorou, persuadida de que nunca mais veria o marido que, era evidente, não queria saber dela e foi apenas nessa noite que ela contou ao irmão Clement a verdadeira história do seu casamento. A jovem tinha os nervos em franja e perante o desespero que não conseguiu esconder, este teve de fazer um esforço para não desobedecer à lei da Ordem que lhe proibia qualquer contacto com uma mulher, porque teria desejado oferecer àquelas lágrimas o refúgio do seu ombro. No entanto, não deixou de lhe pegar na mão:

- Não sei que dizer-vos, minha querida, ao ver como sofreis, e a vossa dor aflige-me. Mas sinto - acrescentou ele com uma certeza súbita que não sabia de onde vinha - que um dia as vossas penas terão um fim... e que o vosso marido regressará para vós!

- É muita amabilidade da vossa parte dizerdes isso. Tanto mais que pareceis acreditar, irmão Clement. Ele regressará, dizeis? Mas quando?

- Isso só Deus sabe!

A jovem esperaria dez anos.

Dez anos de solidão afastada dos sons do mundo que lhe chegavam apenas pela boca dos cavaleiros do Templo ou dos trovadores que passavam de boa vontade por um castelo que acolhia bem as pessoas simples e onde uma castelã jovem e um pouco austera, mas ao mesmo tempo graciosa, sabia ouvir, sorrir e proporcionar uma hospitalidade generosa. Começavam a correr algumas lendas a seu respeito, uma mulher cujo marido nunca mais regressava mas pelo qual esperava sempre, desencorajando, assim, os senhores das redondezas, suficientemente temerários para pedir a sua mão, ou, pelo menos, para lhe prodigalizarem consolações. Sancie soube, por acaso, da morte de Branca de Castela; e depois do regresso, dois anos mais tarde, do filho que tanta falta lhe fazia. Por um dos seus irmãos, aparecido um belo dia para saber dela, Sancie soube - esse irmão regressava de Paris - que ao regressar ao seu reino, Luís, ainda impregnado das piedosas emoções sentidas na Terra Santa e ainda por cima desesperado com a morte da mãe, pensara seriamente em fazer-se monge. Ao que a sua mulher Margarida respondera, com uma cólera inesquecível, que, nesse caso, partiria para a Provença, deixando o reino desenvencilhar-se sozinho. E nunca mais se falara de convento: Luís continuou, assim, um reinado que provocaria a admiração do seu povo, assim como a dos outros Reis do Ocidente.

Com o irmão Clement, que ela não via muitas vezes porque as mais altas funções o chamavam para longe de Trigance, a castelã aprendera a arte de gerir os seus domínios com a ajuda do fiel Maximin. E também com a de Gilles Pernon, a quem o Sol quente e o uso quotidiano do tomilho, do alecrim e do alho davam uma nova juventude e que a seguia por toda a parte. Havia muito que fazer: durante vários anos, Carlos d'Anjou tivera de lutar para arrancar, cidade após cidade, o seu condado da Provença à sogra, a condessa Beatriz de Sabóia. A guerra fizera chegar enormes quantidades de refugiados às terras altas do vale do Verdon. Ora, alguns tinham-se dado bem e agora que a reconciliação era um facto, tinham decidido ficar, provocando um aumento da população que, longe de pesar, ajudava ao desenvolvimento da região. Uma família de oleiros, que soubera conservar as tradições dos Gregos, expulsa sucessivamente de Marselha e depois de Brig-noles, instalou-se em Moustiers, onde não faltava a argila, a água ou a lenha e ficou, dando o primeiro renome a um povoado já frequentado por numerosos peregrinos (1).

Depois, aconteceu aquela noite de Natal cuja recordação, quando Sancie a evocava, lhe provocava um arrepio na espinha...

Fazia frio, naquela noite. O vento, vindo dos Alpes, soprava sobre a região, levando até ao mais profundo dos vales o tilintar dos sinos chamando para a missa da meia-noite os camponeses

 

(1) A célebre faiança só surgiu no século XVII.

 

das aldeias. O céu, cintilante de estrelas, parecia um manto real estendido sobre toda aquela gente corajosa, armada de archotes ou lanternas, que ia celebrar a Natividade nas igrejas e capelas.

O de Valcroze tilintava como os outros, guiando os da pequena aldeia - uma vintena de fogos! - até ao castelo, onde eram esperados. A entrada do pátio, as feições desanuviavam-se ao cheirarem os odores apetitosos emanados da cozinha, porque todos sabiam que depois da missa teriam lugar na grande sala onde a sua dama partilharia com eles as coisas boas que se estavam a preparar.

Sancie recebia-os à entrada do pequeno santuário iluminado. Usando um belo vestido verde, da cor dos seus olhos e bordado a ouro, com uma grande pelica orlada de arminho, um véu da mesma cor envolvendo-lhe o rosto e um pequeno chapel bordado no pescoço, estava tão bela como uma imagem apesar do nariz um pouco comprido de mais que sempre fora o seu desespero. A jovem acolhia cada um com a graça sorridente que atraía os corações daquela gente corajosa, na companhia da qual, desde o seu regresso, passava o Natal, preferindo-a a convidados mais abastados. Eles estavam-lhe reconhecidos e a Natividade, em Valcroze, era aguardada com ansiedade ao longo do ano. Caminhavam na direcção daquela luz como os Reis Magos tinham seguido a estrela de Belém. Junto dela, um pouco mais atrás, estava Honorine vestida de escarlate e Gilles Pernon com a sua melhor cota orlada de pele de esquilo, assim como a gorda Barbette, mulher de Maximin, e toda a sua família vestida com os melhores fatos, visivelmente orgulhosos da proximidade da castelã.

Subitamente, Pernon tocou no braço de Sancie:

- Dama! - disse ele com a voz estrangulada - vede quem chega!

Segurando no seu cavalo pela brida devido à rude subida final, um cavaleiro transpunha a soleira do castelo. Era muito grande e deslocava-se ligeiramente curvado, cansado, sem dúvida, por ter percorrido um longo caminho. Sob o amplo manto luzia a malha de aço do lorigão, ao mesmo tempo que o carnal, descido sobre os ombros, descobria, sob uma calote de cabelos louros, um rosto rude, moreno e belo, de olhos negros profundos, desfeado, sem lhe tirar o encanto, por um longo corte cujo sulco ia de um dos cantos da boca à têmpora.

Sancie sentiu parar o coração. A jovem devorou com os olhos o cavaleiro que avançava para ela com uma chama nos olhos que ela nunca vira. Então, correu para ele, obrigando-o a ficar de pé, quando ele queria dobrar o joelho, para melhor o observar.

- Renaud! Sois mesmo vós?

- Ou o que resta de mim! Tinha pouca esperança de que me reconhecêsseis... minha doce dama!

- Por causa desse ferimento? É pouca coisa, visto que não mudastes nada!

- Oh sim, mudei! Quanto a vós, não podíeis estar mais bela. Tal como sonho há muito tempo!

- Sonháveis comigo? Nesse caso, mudastes muito, de facto... mas vinde! A missa vai começar e só faltamos nós! Quando acabar, apresentarei à nossa gente o senhor cuja vinda todos nós esperávamos.

- Isso quer dizer que me aceitais... que me quereis depois de uma ausência tão longa?

- Em Marselha, disse-vos que podíeis vir quando vos agradasse. Estais aqui! Está tudo bem. Vinde! - acrescentou ela, segurando-lhe na mão.

Juntos, entraram na capela, onde foram recebidos por uma vaga de aclamações. Pernon, chorando de alegria, não esperara que ele entrasse para anunciar a chegada do castelão, o que provocou um pouco de desordem, interrompida pelo tilintar da campainha agitada pelo menino de coro que precedia a entrada do padre, na ocorrência o capelão do castelo com os seus paramentos de festa.

Na igreja, modesta com a sua pequena abóbada e os seus grossos pilares atarracados, mas cheirando a pinho e a todas as plantas da charneca misturadas com o fumo do incenso, foi uma bela missa. Muitas outras se seguiram ao longo dos dias, mas aquela ficou gravada para sempre no coração de Sancie. Porque acontecia o inacreditável, porque pelo olhar com que ele a cobria, pela quente pressão da sua mão que, durante toda a missa, não largou a sua, ela soube que Renaud a amava. Tanto quanto, talvez, amara a Rainha e sem dúvida mais porque, passados trinta e cinco anos, ele era agora um homem maduro, certo da sua escolha e dos seus sentimentos.

E quando, terminada a ceia, se viram sós, face-a-face, na grande câmara senhorial onde foram conduzidos com toda a cerimónia como se se tratasse da sua noite de núpcias, Sancie, esquecendo todas as suas angústias e os escrúpulos deixados pela antiga mancha, permitiu que Renaud lhe desatasse o laço da camisa e abandonou-se a uma paixão que ela sabia agora não ser a única a sentir e que os encheu a ambos de esperança...

Só falaram no dia seguinte.

Renaud mais do que Sancie, naturalmente. Renaud tinha tanto para contar! Primeiro a sua vida em Constantinopla, numa cidade cheia de emboscadas, junto de um Imperador reduzido a uma ração miserável mas que, no entanto, fizera frente a Michel Paléologue, o pretendente grego ao trono da antiga Bizâncio. Escaramuças assassinas, expedições cada vez mais arriscadas, deserções, até à noite em que um habitante da cidade fez entrar o inimigo por um subterrâneo sem que o Imperador, que dormia tranquilamente no seu palácio de Boucoléon, se apercebesse minimamente. Os gregos acabavam de recuperar a sua cidadela imperial e nunca mais a largariam. Era preciso fugir. Balduíno II, protegido pelas espadas dos poucos fiéis que lhe restavam, conseguiu arranjar um lugar numa galera depois de ter deixado cair, pelo caminho, o seu diadema, os seus coturnos cor de púrpura, todos os sinais da sua dignidade imperial. O império latino, fundado no seguimento de uma cruzada desviada do seu objectivo religioso, afundava-se após cinquenta e sete anos de existência.

- Chegámos a Négrepont (1), depois à Sicília, depois a Nápoles e depois uma longa viagem até Courtenay onde, doente e despojado de todas as suas ilusões se reuniu, finalmente, à Imperatriz Maria, a sua mulher... tal como eu me reúno a vós sem qualquer glória!

- Mas de boa saúde, pelo que nunca agradecerei o suficiente a Nosso Senhor! Assim, daqueles que, em Chipre, juraram ir aju-

 

(1) A ilha de Eubeia.

 

dar aquele infeliz soberano, sois, por assim dizer, o único a ter cumprido a sua palavra?

- Mais ou menos, mas ficai a saber que entre os outros muitos morreram e outros ainda, mal foram libertados das prisões egípcias após um duro cativeiro, só desejavam regressar a casa. O Rei também regressou e a despeito do empobrecimento do tesouro, provocado pela cruzada falhada, recomeçou um reinado sábio e sensato, que lhe vale o amor dos seus súbditos e a admiração dos seus vizinhos. Na Terra Santa, aliás, ele reconstruiu as defesas de várias cidades, fortalezas e deixou o país numa espécie de tranquilidade...

- Mas sem Rei nomeado, sem exército constituído e sem um poder real, enquanto os Mongóis por um lado e o cruel Baibars por outro, cobiçam o que resta do reino franco! O nosso sire pode, talvez, ter conseguido a paz para a sua alma ao cumprir a peregrinação com que sonhava, mas eu acho que teria feito melhor em ter ficado em casa...

Renaud desatara a rir:

- Dir-se-ia que os vossos sentimentos pela família real não mudaram? Continuais a ser muito severa!

- Não para todos. Tenho pena de Madame Margarida... de quem nunca deixei de gostar. E vós?

Ao fazer-lhe aquela pergunta tão brutal quanto imprevista, Sancie sentira o seu coração parar por um instante. O rosto do marido, no entanto, não perdeu nada da alegria que reflectia. E sem responder de imediato, apertou Sancie nos braços e pousou-lhe os lábios nos cabelos. Finalmente, suspirou:

- Esse fogo está extinto há muito tempo. Nasceu da incrível semelhança entre ela e a minha avó Isabel de Jerusalém, pela qual, creio, me apaixonei um pouco ao descobrir o seu retrato, já que nunca tinha visto um rosto tão belo. A imaginação fez o resto, mas depois do nosso casamento, durante aquela viagem em que vos mantínheis sempre tão longe de mim e depois a nossa separação... enfim, durante todos estes anos naquelas terras mais bizantinas do que nunca, onde nunca percebi nada, onde me sentia um verdadeiro estrangeiro a despeito da amizade do Imperador, vi as coisas de outro modo e pouco a pouco implantou-se em mim o desgosto de vos ter perdido sem vos ter, nunca, conquistado. Vós só pensáveis em Deus e por amor à Rainha aceitastes casar comigo...

- Quem vos disse que foi por amor da Rainha? O Rei, quer se tenha dado conta ou não, estava doente de ciúmes. Ele queria a vossa cabeça... e eu teria morrido de dor se ele vos tivesse matado. Não tenho mais qualquer razão para vo-lo esconder, meu doce senhor. Foi porque vos amava que me tornei vossa mulher. Foi a única razão! Mas com grande vergonha da minha parte, que trazia comigo a mancha infligida pelo Sultão... e as suas consequências.

- Tivestes um... filho dele?

- Deus teve piedade: perdi-o no meio daquela grande tempestade. Apenas Honorine o sabe. Eu teria preferido cortar a garganta a dizer-vo-lo...

- Não pensemos mais nisso, meu amor, teremos os nossos próprios filhos. Mesmo nossos!

- Não será demasiado tarde? Eu tenho trinta anos!

- E eu trinta e seis! Estamos longe de estar velhos!

- A propósito de filhos, que fizestes do jovem Basílio? Na minha alegria por vos ver de novo, não pensei nele, mas espero que não lhe tenha acontecido nada... de mal?

- Oh não! Casou-se, simplesmente. Em Bizâncio, encontrou uma bela rapariga, filha de um mercador de tecidos grego do bairro do Boucoléon. Ficou imediatamente apaixonado e os pais dessa Melissa, amolecidos pelo dote que o nosso Imperador lhe constituiu, acolheram-no de braços abertos. Regressou ao ofício que já era dos pais dele. É feliz... e até já tem dois filhos. Confesso que tive inveja dele. Por isso, minha querida, gostaria muito que fizésseis de mim um pai...

- Também quereis rapazes, evidentemente!

- Não tenho nada contra as raparigas, se se parecerem convosco!

Infelizmente, a espera foi longa. Sancie ficou grávida quatro vezes, mas o bebé nascia morto ou vivia apenas algumas horas para desespero dos seus pais. Sancie foi várias vezes em peregrinação a Sainte-Baume, o que representava uma viagem longa e muitas vezes difícil e, finalmente, acabou por renunciar a pedido insistente do seu marido, a quem ela nunca permitia que a acompanhasse. Foi ele que, um dia, a conduziu a Moustiers depois de ter declarado que era melhor rezar ao Bom Deus do que aos seus santos e que, na ocorrência, Nossa Senhora lhe parecia mais apta a tratar dos assuntos referentes a bebés do que Madalena alguma vez fora. E o desejo de ambos foi atendido: na noite de Natal de 1270, quando os sinos falavam uns com os outros por toda a Provença sob um céu tão azul e tão estrelado como na noite do regresso do seu pai, Olivier lançou o seu primeiro grito. Que não foi, nem de longe, o último, porque parecia dotado dos pulmões mais potentes do condado.

Depois dele, o casal cujo amor não podia ser desmentido não teve outros filhos, mas Olivier parecia talhado para ocupar o lugar todo sozinho. Do pai teve os cabelos louros e da mãe as grandes e verdes pupilas cuja cor fugia para um cinzento leve e que, com o tempo, se tornaram meditativas. Dos dois, um carácter forte, recto e intrépido como a espada de que o velho Pernon o ensinou a servir-se apesar da avançada idade. No castelo, adoravam-no. Entretanto, o pai e a mãe souberam educá-lo sem fraqueza nem afectação. Um outro homem interveio, involuntariamente, talvez, na formação do jovem: o irmão Clemente, regressado à região após uma ausência de vários anos.

Era, agora, um alto dignitário da Ordem. No seguimento de uma estadia bastante longa no Norte, onde conheceu Guilherme de Beaujeu recentemente eleito Grão-Mestre, partiu com ele para São João de Acra.

Parente do Rei de França, grande senhor se o tivesse sido e de grande rigor moral juntamente com uma bravura excepcional, o irmão Guilherme conseguiu, na Palestina, devolver ao Templo a sua grandeza e auréola demasiadas vezes ameaçadas. Foi ele quem, apesar do desgosto de se separar de um braço direito por quem tinha uma afeição muito particular, o voltou a mandar para a Provença onde, entre as exigências do conde, Carlos d'Anjou fora investido como Rei de Nápoles-Sicília, e a turbulência das cidades, entre as quais várias reclamavam privilégios à semelhança de Marselha, a situação das casas do Templo nem sempre era fácil.

O irmão Clement regressou, portanto, mas, renunciando a Marselha, preferiu instalar-se à cabeça da importante comendadoria de Ruou, o que, para além de lhe permitir ficar na sua região natal, fazia com que o seu grão-mestrado atingisse a sua dimensão, tanto na paisagem como no espírito dos homens, afastando-o das agitações urbanas. Naturalmente, as relações com os de Valcroze foram reatadas. Nasceu uma amizade entre Renaud e ele. O pequeno Olivier foi disso uma testemunha admirada. Pouco a pouco, a poderosa personalidade do templário, a sua fé exemplar e a pureza do seu compromisso monástico e guerreiro impuseram-se na criança, ao ponto de esta ver nele uma espécie de arcanjo descido à terra para redenção dos pobres humanos.

Sancie, como mãe atenta, foi a primeira a aperceber-se daquela admiração, mas inquietou-se pouco, pensando que, com a puberdade, as aspirações do seu filho virar-se-iam mais para as raparigas do que para a vida austera de um templário. Ela sabia o que tinham sido os apetites carnais do seu marido, o que continuavam a ser para sua grande felicidade e pensava, não sem razão, que um cão não se pode transformar num gato. Mas Olivier, apesar de gostar de cavalos, de armas, de caça, das canções dos trovadores celebrando os grandes feitos e até o amor das damas, não parecia interessar-se por nenhuma, preferindo grandes conversas com o capelão Anselm, um padre afável e letrado que o ensinara a ler e tudo o mais que ele sabia. Os pais acabaram por se inquietar:

- Não vai acabar, um dia, por nos pedir que o deixemos tonsurar o cabelo? - explodiu um dia Renaud, chamando à parte o padre Anselmo para lhe pedir que dirigisse os pensamentos do seu filho único para regiões menos etéreas do que o reino de Deus.

O padre respondeu que não fazia nada para que isso acontecesse, mas que o adolescente era uma daquelas almas superiores que não se satisfaziam apenas com um quotidiano demasiado terra-a-terra:

- No entanto - acrescentou ele - vós não tendes nada, creio eu, contra o sacerdócio ou o hábito beneditino, franciscano ou outros. Olivier gosta demasiado das armas, dos grandes feitos, das belas histórias guerreiras. Aguarda a investidura como se fosse uma profissão-de-fé, um verdadeiro compromisso para com os fracos, os aflitos e as vítimas, o melhor meio de servir a Deus.

- Vós sois o seu confessor: não se aloja no seu coração nenhum rosto feminino? Não vos peço para trair o segredo da confissão. Não quero nomes...

- Que ele, aliás, não me teria confiado, mas, sire Renaud, sabeis tão bem como eu: amar nunca foi pecado de que nos possamos acusar, do mesmo modo que o amor não ofende nenhum mandamento divino!

- Tendes razão. Perdoai-me! Talvez ele ainda seja muito novo...

Renaud quis ficar mais tranquilo e contou a entrevista a Sancie, mas na sua sensibilidade de mulher e de mãe, esta mostrou-se mais clarividente:

- E isso satisfaz-vos? Demasiado novo, dizeis vós? Pode ser-se criança e amar com todo o ser. Não compreendestes, portanto, o destino que o padre Anselm vos descreveu? O destino de um templário! Esqueceis que o irmão Clement, nosso parente, é, juntamente convosco... mais até, talvez, o seu herói, o seu modelo?

- Não, não esqueço - disse Renaud subitamente muito sombrio, e que, finalmente, barafustou:

- Mas, por todos os santos do Paraíso, não existe apenas o Templo! Os Hospitalários também são cavaleiros e sabem combater tão bem como os seus... rivais, visto que sempre o foram!

- Não tenteis enganar-vos! Não é a mesma coisa e vós sabeis que tenho razão...

Sim, ele sabia e também sabia que tentava tranquilizar-se a si e à sua mulher sem grande fé. Como não teriam outro filho, sentiam-se prontos a qualquer sacrifício para o desviar de um caminho que ia dar a uma destruição sem glória que eles sabiam ser inevitável. Renaud pensou com raiva que, se Deus lhe tivesse permitido encontrar Roncelin e fazê-lo pagar os seus crimes, a alma de Aymar de Rayaq, o velho templário salvo dos Cornos de Hattin, que preferira morrer pelo fogo para tentar salvar a Verdadeira Cruz, ter-se-ia apaziguado, retirando, assim, a maldição. Mas o demónio desaparecera de tal maneira que Courtenay acabou por pensar - e falara nisso a Sancie! - que talvez ele não fosse um homem verdadeiro, antes um daqueles sequazes de Satanás dedicados à perdição das almas puras: na ocorrência a do Templo abençoado por Bernardo de Citeaux, que já era grande quando ainda era pobre e ainda não tinha acumulado riquezas...

Por momentos, os pais de Olivier recuperaram a coragem. No torneio de Pentescostes, no castelo de Bonifácio de Castellane, onde se juntou a nobreza da região, uma jovem pareceu atrair a atenção de Olivier. Essa jovem chamava-se Inês de Barjols, tinha catorze anos e evocava todas as flores da Primavera sob a massa dourada de uma cabeleira de fazer ciúmes ao próprio Sol. Olivier tinha quinze, mas, grande para a idade, justificava plenamente o orgulho da sua mãe. Naturalmente, foram muitos os que se juntaram em redor daquele jovem astro radiante chamado Inês: adolescentes, cavaleiros e até barões, mas a bela rapariga parecia ter distinguido Olivier e, era evidente, lamentava que ele não pudesse usar as suas cores nas justas, já que ainda não fora armado cavaleiro. Todos os puderam ver juntos, tanto quanto o permitia a decência. O que não era muito, mas, sem ter recebido qualquer confidência, Sancie juraria, pela luz nova nos olhos do rapaz, que o seu coração falara, por fim. Olivier, aliás, mostrou-se subitamente desejoso de apressar a sua chegada à cavalaria.

- Está desejoso de brilhar nos torneios - confiou Renaud, encantado, à mulher. - E como dá mostras de competência, pode ser que isso aconteça no próximo Pentecostes. Daremos, então, uma grande festa...

Aquela perspectiva concedeu a ambos alguns meses de alegre esperança. Ao casar-se, Olivier receberia o rico feudo de Bédarrides, que faria dele um senhor bastante abastado e que, pelo menos, seria gerido no local, não à distância e por intermédio de um “castelão”, por mais devotado que fosse. Mas, depois, chegou a notícia: Inês de Barjols ia casar com o senhor de Esparron.

Se Olivier sofreu, não o mostrou. Silencioso por natureza, mostrava pouco os seus sentimentos. O jovem prosseguiu a sua preparação como se nada se passasse e deu mostras de uma virtuosidade excepcional nas justas que se seguiram à sua investidura como cavaleiro no decurso de uma festa memorável que reuniu todo o condado. O seu sucesso junto das damas e das donzelas foi proporcional. Eram muitas as que olhavam para ele docemente e a esperar receber, na ponta da sua lança, a coroa de rainha do torneio. Mas foi aos pés da mãe, ao mesmo tempo confusa e encantada, que ele a depositou. O que não o impediu de dançar, à noite, com todas as damas presentes, como se não tivesse passado a noite a rezar.

Seis meses mais tarde, o jovem pediu permissão ao pai para entrar para o Templo. Para Renaud e Sancie, foi como se o céu lhes tivesse caído em cima da cabeça.

A vez, tentaram chamar Olivier à razão. Este opôs-lhes uma firmeza calma mas inabalável. Ao pai, disse:

- Quero servir a Deus, com a alma e com a espada!

- Isso não quer dizer que entres para a Ordem. É possível, no século em que vivemos, fazê-lo tendo mulher e filhos!

- E ao serviço de quem poderia combater? Os condes da Provença, agora Reis de Nápoles mal se lembram de nós e, no entanto, são nossos suseranos. O Rei de França está em luta quase aberta com o Papa e os nossos príncipes, os imperadores Courtenay já não existem senão na figura de uma jovem que também vive em Itália visto que o seu pai casou com a filha do defunto Carlos de Anjou, Rei de Nápoles. O velho feudo dos Courtenay pertence agora a um ramo co-lateral que vós nem sequer conheceis. Sozinho, o Templo continua a combater na Terra Santa. É por essa razão que quero entrar para a Ordem. No seio dela, tenho a certeza de que a minha espada está ao serviço de Deus!

A mãe que, quase a chorar e retendo corajosamente as lágrimas lhe objectou que, se ele se obstinasse, a família tão dificilmente constituída extinguir-se-ia, que ela própria não teria, nunca, a alegria de beijar os seus netos e que os seus bens se perderiam na imensidão dos do Templo, ele respondeu:

- Melhor do que ninguém, o Templo sabe proteger e fazer frutificar o que lhe confiam. Devíeis saber isso, mãe, já que o irmão Clement geriu tão bem os domínios durante a vossa peregrinação. Vós também tivestes a alegria de pisar o solo da Terra Santa. Seríeis capaz de ma recusar, essa alegria?

Não havia nada a responder. Senão rezar. Então, Sancie, acompanhada de Maximin, foi implorar a Nossa Senhora, ao santuário de Moustiers...

Um pouco entorpecida pela longa prostração, durante a qual, depois das orações, permitira que as suas recordações aparecessem, Sancie levantou-se e sorriu para o monge que, preocupado com a sua longa conversa com o Senhor e com a Sua Mãe, entrara na ponta dos pés. Uma última genuflexão. Ao passar por ele, a dama de Valcroze entregou-lhe uma generosa esmola. Sancie sentia-se um pouco reconfortada e ao transpor a soleira ainda demasiado nova para que os passos dos peregrinos já tivessem desgastado a pedra, exalou um profundo suspiro. O assunto estava, agora, nas mãos da Virgem Maria e do Seu Divino Filho...

Na base da encosta íngreme onde se erguia a capela, o sólido Maximin esperava-a, sentado num muro de pedra junto dos cavalos, mas não estava só: a seu lado, um homem de grande estatura e cujo longo manto negro lhe chegava às esporas de ouro, esperava conversando tranquilamente e o coração de Sancie parou subitamente, como sempre que revia o marido após qualquer separação, por mais breve que fosse. A chegada aos sessenta anos não afectara a vitalidade nem a silhueta de Renaud: limitara-se a esbranquiçar-lhe em parte os cabelos louros e a acrescentar rugas ao seu rosto, que acentuavam o golpe e não lhe retiravam o encanto. Sancie pensou que nem a idade avançada conseguiria curvar aquela lâmina de aço: teria cada vez mais o ar de um velho leão, mais nada!

Ao vê-la, ele começou a subir, juntou-se a ela a meio da encosta e segurou nas suas grandes mãos as mãos delicadas e finas da mulher:

- Rezastes bem, minha querida?

- Com toda a minha alma, sabei-lo bem, mas como é que estais aqui?

- Depois da vossa partida, resolvi-me a ir à comendadoria do irmão Clement para conversar com ele. Em seguida, pensei em juntar-me a vós e aqui estou.

- Que dissestes ao irmão Clement?

- Tudo! Enfim, tudo o que ele devia saber, sem me alargar naquilo que só a nós dois diz respeito. Não foi a primeira vez que falámos daquele Roncelin, do qual ninguém parece saber o que foi feito, mas desta vez contei-lhe o episódio de Hattin... a maldição em forma de profecia. Tinha de lhe explicar a nossa repugnância por ver Olivier entrar para a Ordem - acrescentou ele num tom de desculpa, que Sancie refutou de imediato:

- Não podíeis ter feito de outro modo. Que respondeu ele?

- Abanou a cabeça. Durante um longo momento, mergulhado em meditação, permaneceu em silêncio e eu não ousei interrompê-lo, inquieto por vê-lo tão sombrio de repente. Por fim, ele disse: “Portanto, segundo a vossa profecia, será o Rei Filipe a destruir-nos? O retrato é gritante, de verdadeiro, e eu sei que ele não gosta de nós. Por outro lado, também sei que existem estranhos desvios entre aqueles que estiveram muito tempo no Oriente e que tiveram relações com os Infiéis, mas posso assegurar-vos que a Ordem é pura na sua grande maioria e que, apesar de termos os nossos segredos, eles não ofendem a Deus nem aos Seus Mandamentos sagrados. Eu tenho confiança na Sua justiça e na Sua Misericórdia para apagar esse anátema por ser demasiado injusto! Connosco, Olivier poderá atingir o cume...” Acrescentou que o amava como um filho e que velaria por ele. Que queríeis que lhe respondesse?

- Nada, meu amigo! Desde a minha infância que conheço Clement de Salernes, a sua fé e a sua intransigência. Ele é a própria encarnação do Templo e apesar de, no seu íntimo, dar alguma fé ao que lhe revelastes, nunca o admitirá. Mas, se acontecer, um dia, o mal anunciado, talvez ele saiba fazer o que for preciso para limitar o desastre e preservar, pelo menos, alguns dos seus irmãos! Fizestes bem em falar com ele, mas eu espero, com toda a minha alma, que a Mãe de Deus me terá ouvido e que nos poupará...

Renaud pegou na mão da mulher para nela depositar ternamente os lábios.

- Eu penso - disse ele - que devemos colocar-nos nas mãos de Deus. Os nossos destinos estão escritos não sei onde, mas rezando e virando-nos para aqueles que precisam de ajuda, deve ser possível modificar-lhes o curso. E vós sois a mulher mais generosa do mundo...

Oh, a consolação daquele beijo, daquela voz, daquela presença forte e terna! Sancie sentiu aligeirar-se o peso que a oprimia. Já era uma graça extrema aquele amor sem falha que os unia. O melhor abrigo, a melhor protecção contra as situações difíceis da vida, escavadas no caminho comum. E Sancie sabia que haveria mais. Que as haveria sempre. Uma estrada bem lisa não existia.

A primeira falha apresentou-se quando, juntos, regressaram ao seu castelo de Valcroze: com o joelho em terra e uma grande luz de esperança no fundo dos olhos, Olivier pediu humildemente aos seus pais que lhe permitissem professar. Com lágrimas nos olhos e sem emitir a menor objecção, permitiram-lho.

No dia seguinte, Olivier abandonava Valcroze, sem olhar para trás, em direcção ao seu destino. Seis meses mais tarde, em Marselha, embarcava numa galera do Templo destinada a São João de Acra...

Iria ficar na Terra Santa três anos, até ao último combate, tanto mais fabuloso quanto desesperado. Depois de prodígios de coragem e da morte do Grão-Mestre Guilherme de Beaujeu, o Templo teve de deixar a Terra Santa para sempre, deixando nela a recordação fulgurante de uma longa e grande aventura humana.

Concentraram-se em Chipre. Foi lá quem em 1292 foi eleito Grão-Mestre um cavaleiro do Franco-Condado chamado Jacques de Molay.

 

                                                                         “DA PARTE DO REI!...”

 

                           A CRIPTA POR BAIXO DO CHARCO

Presa na espessura de uma das paredes da capela, a escada mergulhava no solo. Os seus degraus gastos devido às muitas idas e vindas curvavam-se ligeiramente sob os pés, mas, iluminada por um archote fixado na parede por meio de grampos de ferro e desprovida de humidade, não oferecia a menor dificuldade. O que era normal, já que ia dar à grande adega onde se amontoavam barricas, salgadeiras, sacos de sal, ânforas de azeite e outras provisões! O irmão Raul limitou-se a atravessá-la até chegar a uma enorme vasilha encostada à parede do fundo. Ali chegado, estendeu a Olivier o archote que tinha acendido no da escada e inclinou-se para fazer força em qualquer coisa que os seus companheiros não distinguiram. O gigantesco tonel afastou-se da parede com uma facilidade extraordinária, descobrindo uma abertura pela qual o irmão meteu resolutamente:

- Vinde - disse ele - e tende paciência! Temos algum caminho a percorrer pela frente...

Sem responder mas com um acenar de cabeça aprovador, Olivier e Hervé seguiram-no. Desceram primeiro alguns degraus que iam dar a um subterrâneo solidamente abobadado de pedra que mergulhava numas trevas cujo fundo da chama não permitia aperceber. Por precaução, o irmão Raul munira os dois cavaleiros de archotes semelhantes ao seu sem, no entanto, os acender. Caminharam assim durante um tempo que pareceu interminável aos visitantes, mas que não excedeu cinco minutos. Coisa estranha para o subsolo de uma casa cercada por uma floresta cortada por charcos e pântanos, as paredes da longa galeria não tinham traços de humidade, assim como a cave onde desembocava depois de ter desenhado um cotovelo.

Aquela estava vazia. Não tinha nada senão um círculo de pedras no solo e que os dois cavaleiros viram tratar-se, ao aproximarem-se, de um poço, mas não um poço como os outros. O seu fundo de alvenaria sem qualquer sinal de água situava-se a cerca de quatro metros e meio de profundidade. Outra singularidade: dois grampos de ferro estavam soldados no interior do parapeito a pouca distância da borda.

- É aqui que é preciso descer - disse o irmão Raul.

Sem esperar pelas perguntas dos outros dois, foi a um dos cantos escuros da cave buscar uma escada de corda e uma lanterna munida de uma grossa vela, que acendeu e prendeu ao pescoço. Num instante, os anéis terminais da escada foram enfiados nos grampos de ferro e o irmão Raul começou a descer sob o olhar vagamente inquieto dos seus companheiros. Como a escada era um pouco mais comprida do que o poço, as traves formavam um pequeno monte no fundo.

- Que vai ele fazer lá abaixo? - sussurrou Hervé d'Aulnay, ao que Olivier respondeu com um ligeiro encolher de ombros, ao mesmo tempo que o seu amigo dizia, encolhido de surpresa: “Oh! Meu Deus!”

De facto, quando o irmão Raul atingiu o fundo, agarrando-se mais do que firmemente à sua escada, a alvenaria sob os seus pés oscilou e o monge desapareceu na obscuridade, não sem ter bloqueado com um gesto o disco de pedra, espesso como uma mó. Não foi longe e os dois cavaleiros puderam vê-lo de pé sobre o que devia ser uma escadaria.

- É a vossa vez - gritou ele. - Eu seguro na escada...

- Primeiro tu! - sorriu Hervé, afastando-se para dar lugar a Olivier, que desceu em alguns segundos e se juntou ao irmão Raul no que era mesmo uma escadaria que mergulhava no subsolo até tão longe que a luz pobre da lanterna não conseguia avistar. O mestre da casa templária esperou que Hervé se lhes juntasse e depois, após lhes ter recomendado que não saíssem de onde estavam, prosseguiu a sua descida. Os dois cavaleiros puderam vê-lo, quando chegou ao fundo, acender três archotes presos à parede em frente, após o que lhes disse:

- Descei e vede!

Quando se juntaram ao monte, abriram a boca de espanto. Os dois cavaleiros emitiram um “oh!” que era mais um suspiro do que uma palavra articulada com nitidez. No cumprimento da missão de que os tinham encarregado, sabiam apenas que deviam levar um objecto sagrado, mas ignoravam de que natureza. E o que tinham na frente era fabuloso: pousado numa mesa de pedra esculpida estava uma espécie de relicário, ou antes, um sarcófago, porque as paredes não eram translúcidas, mas talhado em madeira que lhes disseram ser de cedro e inteiramente coberta de ouro, guardado em cada extremidade por serafins com um triplo par de asas abertas, mas de garras de leão trabalhadas de maneira sublime. As chamas dos archotes arrancavam cintilações às pedras preciosas engastadas em redor da arca, assim como nas asas daqueles anjos da primeira hierarquia. E Olivier soube o que estava diante dos seus olhos, porque aquela obra, vinda do fundo dos tempos, pertencia um pouco à sua tradição familiar!

- A Arca da Aliança! - disse ele com a respiração entrecortada. - Com que então, é aqui que ela repousa!

- Foi aqui, de facto, que o irmão Adam Pellicorne a depositou, nesta cripta talhada para ela no calcário do subsolo de um charco.

Era mesmo uma cripta, com poderosos pilares erguidos na mais pura tradição dos construtores romanos. As paredes estavam cobertas de pinturas de cores violentas representando cenas da Bíblia, misturadas com flores e animais fantásticos queridos dos iluministas do século precedente. Em redor da Arca, uns candelabros de ferro forjado sustinham grossas velas de cera amarela que o monge acendeu, e o receptáculo da Palavra iluminou-se e pareceu flutuar em cima do seu suporte como se fosse, subitamente, deixar-se levar por aquela glória de ouro até à imensidão divina do Céu através da abóbada aberta para ele. Fascinados, os cavaleiros tinham caído de joelhos e rezavam, Hervé em voz poderosa, Olivier no silêncio que era a sua segunda natureza.

Alguns enganavam-se. Diziam-no arrogante quando era apenas severo, calculista quando era apenas reflectido, desdenhoso por causa da maneira como erguia a sua cabeça loura de traços tão belamente esculpidos e os seu olhar claro meditativo por onde passava, por vezes e segundo as circunstâncias, um relâmpago selvagem; mas apesar de o criticarem em voz baixa, ninguém se atrevia a defrontá-lo abertamente, porque sabiam que era temível no combate, de físico poderoso a despeito da sua esbelteza e infatigável quando manejava a espada, a lança ou a acha de armas. Rigoroso nos seus deveres religiosos mas sem ostentação, assíduo no estudo, atraído, depois da longa estadia em Chipre e devido à companhia de um irmão inspirado, pela arte de aliviar os sofrimentos humanos, juntando-se assim, através do tempo, ao seu avô Thibaut, o templário expulso, o eremita da Torre esquecida a quem a floresta revelara todos os seus segredos. Quanto às mulheres, desconfiava delas e não amava nenhuma para além da sua mãe - mas a essa amava-a de mais! - opondo aos seus convites o desdém gelado do seu olhar verde-acinzentado...

Tão diferente dele quanto possível era Hervé d'Aulnay. Da mesma estatura mas duas vezes mais espesso, com ombros poderosos e coxas como troncos de árvore, sem um grama de gordura, o mais novo dos Aulnay de Grandmoulin oferecia à admiração geral um rosto largo de traços finos sob uma abundância capilar de um belo castanho-claro. Os olhos eram cor de avelã atravessados por centelhas vivas e alegres, harmonizando-se com a expressão habitual da figura que era de uma grande doçura, na qual, todavia, era preferível não confiar em demasia porque acontecia por vezes ao afável Hervé sofrer de cóleras homéricas cujo resultado podia ser devastador. Mas amável e bom companheiro em condições normais, entrava, no momento do combate, numa espécie de furor sagrado, tal como o conheciam os antigos Nor-mandos, Reis do mar vindos do Norte gelado, que o transformava numa espécie de máquina de guerra dotada, no entanto, de inteligência, mas capaz de esmagar tudo à sua passagem. Apesar de muito diferentes, aqueles dois homens tinham-se tomado de amizade em Marselha, no Falcão, o navio do Templo que os conduzia a São João de Acra.

Porque o ideal de ambos era o mesmo e porque, juntos, queriam viver a vida na ponta de uma espada dedicada inteiramente ao serviço de Deus, viver e morrer por Ele, fosse no rasto de uma batalha ou na sombra de uma floresta, numa qualquer rota de peregrinação assinalada por túmulos, tinham-se reconhecido mutuamente, compreendendo que falariam sempre a mesma língua, apesar de um vir do Norte e o outro do Sul. A fraternidade do Templo aproximou-os ainda mais. Naquela época, os cavaleiros já não comiam da mesma escudela, assim como não partilhavam o mesmo cavalo como no tempo da santa pobreza que o selo da Ordem gostava de recordar, mas continuava escrito que os irmãos deviam andar aos pares. E irmãos eram-no ambos, mais do que se fossem do mesmo sangue. Para Olivier, filho único e, portanto, solitário, foi uma extraordinária experiência, uma espécie de revelação que, à sua maneira muito secreta, guardou no coração.

No seio das casas templárias, quer na Abóbada de Acra, depois na de limassol em Chipre depois do último combate e agora no Templo de Paris, onde o irmão Clement de Salernes, eleito visitador de França apesar de manter a superintendência da Provença, conseguiu que eles fossem colocados, o par temível constituído pelos dois cavaleiros tornara-se famoso. Era a eles que eram confiadas as missões delicadas, as escoltas difíceis, porque, a menos que houvesse um golpe de azar imparável, era certo que as levavam a bom termo.

Era por isso que naquele dia agreste de Primavera do ano de 1307 estavam os dois naquela casa perdida no coração da floresta do Oriente, a fim de irem buscar um objecto sagrado cuja natureza ignoravam até ao momento: era preciso transportá-lo no maior segredo para a Provença, para um local que lhes seria revelado em devido momento. Mas, para ali chegarem, o caminho não fora fácil: sem o mapa, minuciosamente desenhado pelo irmão Clement, não teriam chegado ao seu destino. Como, de facto, encontrar o caminho naquela maciça floresta encantada semeada de dezenas de charcos de acesso pantanoso, naquela infinidade de árvores e arbustos onde apenas as três vias transversais - o caminho das Visites de Troyes, o da Belle Epine e o de La Fontaine aux Oiseaux - eram seguros e conhecidos? Infeliz daquele que se metia ao acaso por um dos múltiplos carreiros que iam dar a lado nenhum, senão a becos sem saída ou a charcos, sobretudo na época das grandes chuvas da Primavera e do Outono: nunca sabia se regressava. No entanto, aquela floresta misteriosa e abundante, a norte da estrada de Troyes para Bar, recebera os monges de São Bernardo cuja abadia de Clairvaux lhe era vizinha, um arranjo subtil destinado a afastar os curiosos e preservar as casas templárias que escondia, já que era o próprio berço da Ordem. Hughes de Payns, o criador e primeiro Grão-Mestre partido um dia para a Palestina com oito cavaleiros, tinha nela - e com ela fazia fronteira - a sua casa familiar, transformada em bailio. Aquela onde os dois companheiros tinham chegado encontrava-se em plena floresta: tinha o nome de Casa Florestal do Templo, mas nela viviam sete monges da caça e da pesca. Sete monges devidamente tonsurados cujas cogulas negras escondiam corpos forjados nos trabalhos da floresta e também nos das armas. Sete guardiães silenciosos dirigidos pelo irmão Raul.

Ao chegarem até ele depois de uma esgotante e lenta cavalgada de ponto de referência em ponto de referência, Olivier entregara-lhe uma carta lacrada com sete selos cujo conteúdo ignorava. O irmão Raul pusera um joelho em terra para a receber e afastara-se para a ler, confiando os mensageiros a dois dos seus irmãos para os alimentar e providenciar repouso. Estes não o tinham voltado a ver senão na pequena capela por ocasião do ofício da noite e foi na manhã seguinte que ele os conduziu à cripta tão bem escondida...

Os dois cavaleiros rezaram durante muito tempo, petrificados de respeito, tanto quanto de um receio vago perante aquele objecto sagrado vindo da noite dos tempos, pelo qual tinham sido construídos templos já desaparecidos e cuja perda o povo judeu continuava a chorar porque sempre o considerara como sua propriedade. Como se a palavra de Deus, a lei de Deus, escrita pela mão invisível de Deus se destinasse unicamente a um único povo, quando todo o universo esperava socorro e esperança.

Finalmente, com um último sinal da cruz, Hervé levantou-se e falou. Por ambos, como fazia muitas vezes, certo de não ser repreendido por Olivier:

- A honra que nos é concedida - disse ele - ao confiarem-nos este Relicário insigne, é grande, mas pergunto a mim próprio como vamos fazer para o tirar desta cripta? Nem sequer percebo como a puseram aqui: esta cave é tão fechada!

- Foi construída para a Arca e obturada sobre ela, mas é, podeis acreditar, possível tirá-la sem demolir seja o que for e vós permitir-me-eis que guarde disso o segredo. Sabei apenas que amanhã ao nascer do Sol levar-vos-ei ao local onde podereis tomar conta dela. Recebereis, então, novas instruções, mas estará tudo pronto e só tereis de partir...

Olivier levantara-se por sua vez e, com o pescoço estendido, observava a abóbada, particularmente perto de um dos cantos da cave onde se via um círculo escavado:

- O que é isto? - perguntou ele.

- O último recurso, no caso de um perigo extremo nos impedir, aos meus irmãos e a mim, de defender o tesouro. Esta cripta, como podeis ver, foi escavada no calcário, que é impermeável à água, mas se eu puser em marcha este mecanismo, que não é outra coisa senão um tampão, a água do charco inundá-la-á.

- Isso quer dizer que estamos por baixo do charco?

- Estamos, de facto.

- Nesse caso, não percebo por que havemos de tirar de um esconderijo tão perfeito este inestimável tesouro para o levar para a Provença por caminhos ao acaso, se compreendi bem?

Há muito tempo que Olivier, o reservado, não pronunciava um tal discurso e Hervé escutou-o, meio a rir meio a sério. Era verdade que o assunto era capaz de fazer um homem perder a cabeça. Com as mãos no fundo das mangas, o irmão Raul, com a cabeça inclinada, guardou um instante de silêncio.

- Acontece - disse ele, por fim - que os tempos vão revoltos. Augúrios e presságios chegaram até ao irmão Clement e ele sabe que, por mais densa que seja, a nossa floresta - o berço do Templo! - seria vasculhada metódica e minuciosamente e que a sua descoberta, caso não tivéssemos tempo de accionar o mecanismo de alagamento, nos causaria grande dano. Poderíamos ser acusados de adesão ao Judaísmo. O que nos seria fatal! O irmão Clement acha que é preciso agir enquanto ainda é tempo.

Olivier abanou a cabeça, achando-se satisfeito, mas não era o caso de Hervé e este tomou a palavra:

- Como é possível que seja o irmão Clement, por mais distinto que seja na hierarquia templária, a tomar tais decisões, sabendo que o Grão-Mestre, Jacques de Molay, deixou Chipre há quase um ano para vir para França para se encontrar com o nosso sire Filipe e com Sua Santidade o Papa Clemente?

-Justamente. O Grão-Mestre reside em Limassol e preocupa-se pouco com o Templo de França, salvo para obter toda a ajuda possível visando uma nova cruzada. No reino, o irmão Clement tem mais peso do que ele. É ele que sabe!

- Mas porquê a Provença, tão longe?

- Não recebi explicações a esse respeito - respondeu o “guardião” em tom seco. - Unicamente ordens, como vós mesmos e eu executo essas ordens. Amanhã sabereis, se não o vosso destino exacto, pelo menos os caminhos a tomar.

Encerrado o assunto, voltaram a subir. Tinha chegado a hora de se dirigirem à capela onde ia começar um dos numerosos ofícios do dia... Por cima das suas cabeças, um sino de voz débil tinia e como o irmão Raul deixasse os seus hóspedes em duas estalas antes de ir vestir o hábito sacerdotal, Hervé não conseguiu deixar de repetir em voz baixa:

- Mas, enfim, porquê a Provença e não um dos nossos castelos sobre o mar, ao longo da costa?

- A Provença tem costa, meu amigo, e fortalezas sobre o mar.

Não sabias?

- Sabia vagamente...

- Além disso, pertence ao Rei Carlos II de Nápoles, que também é duque de Anjou... e Rei titular de Jerusalém, de onde a Arca veio. Apesar de estar próximo da coroa de França, é preciso ter cuidado com ele. E agora rezemos!

Todavia, e pela primeira vez, Olivier não encontrou na oração o apaziguamento das suas dúvidas nem a habitual devoção por Deus. Por mais virado que estivesse para a espiritualidade, a revelação do que ia escoltar esmagava-o. Como atravessar a França, a Borgonha, os Estados do Papa e a Provença - até onde? - com aquela Arca flanqueada por dois anjos sem despertar a curiósidade e sobretudo o fanatismo das gentes que encontrariam? A Arca da Aliança vinha da Bíblia, não dos Evangelhos e essa circunstância podia criar confusões dramáticas e movimentos perigosos de multidões. As pessoas quereriam ver, aproximar-se, talvez, das Tábuas trazidas por Moisés do alto do Sinai. O cavaleiro media a amplitude de tudo aquilo por si mesmo, confessando a si próprio que ardia de curiosidade por contemplar e até por tocar na escrita de Deus! Habituado a dominar-se, Olivier procurou conforto no pensamento de que os nove templários de São Bernardo tinham conseguido transportar discretamente o insigne sarcófago e que mais tarde, Adam Pellicorne, sozinho, por assim dizer, regressara de Jerusalém com as Tábuas tiradas da Arca pela prudência de um sumo sacerdote no tempo das guerras romanas. Era tranquilizador. Mau grado aqueles pensamentos apaziguadores, não conseguiu, naquela noite, conciliar o sono. E Aulnay também não, porque quando tinham acabado, finalmente, de adormecer, o sino das Matinas e depois o das Primas encarregaram-se de os tirar dos catres: deslocados ou não, a Regra da Ordem aplicava-se inexoravelmente a todos os seus filhos.

Depois da missa da madrugada, o irmão Raul recebeu-os em particular.

- Está tudo pronto - disse-lhes ele - vou conduzir-vos ao local onde vos espera a carroça e a sua carga.

A pergunta saiu de imediato da boca de Hervé:

- Tirastes a Arca? Como é que fizestes?

Um sorriso iluminou por breves instantes o rosto fatigado do prior:

- Permiti-me que guarde, pelo menos, esse segredo! E agora, escutai o que vos vou dizer: a carroça que vos espera, atrelada a dois cavalos sólidos, transporta supostamente, até Digne, o caixão de um dos nossos irmãos, Martin de Fenestrel, morto há pouco na nossa comendadoria de Bonlieu mas originário da Provença. Sua Santidade o Papa, de quem ele era amigo, ordenou, como favor especial, que ele pudesse repousar na sua terra natal.

O monge virou-se para a modesta mesa de madeira bruta onde fazia as contas da casa e pegou num pequeno pergaminho:

- Isto é uma espécie de recibo assinado pelo irmão Etienne, o nosso comendador, entregando-vos o despojo e os seus instrumentos de alquimia - o irmão Martin, que era muito idoso, trabalhava há muito tempo na Grande Obra. Se compreendi bem a sua mensagem, esta certidão foi pedida por Paris pouco antes da vossa partida. Nós fizemos a nossa parte, ele e eu, neste importante assunto. Agora, é a vossa vez. Fareis curtas etapas e só parareis nas nossas casas: há as suficientes ao longo da vossa viagem - graças a Deus! - para que não tenhais qualquer problema.

- Quem é que vai conduzir a carroça? - perguntou Olivier.

- O irmão Aniceto, um dos nossos, vestido com um hábito agostinho. Ele também é da Provença e poderá integrar-se numa das comendadorias de lá, ou regressar, se bem que - acrescentou ele com um sorriso um pouco triste - esta casa já não tenha grande razão de existir. E agora, vinde!

O irmão Raul conduziu-os por um dique que atravessava o charco e depois por um caminho pelo meio da floresta que contornava uma pequena colina arborizada até ao cruzamento dos dois caminhos onde os esperava uma sólida carroça cuidadosamente coberta e um monge vestido de negro que parecia conversar com o seu par de cavalos de tiro cinzentos, como que incitando-os a ter paciência. Sorriu ao vê-los chegar e depois de ter dado uma palmada no focinho dos seus animais subiu para a boleia, pegou nas rédeas e esperou. Era um homem de aparência pobre, pequeno, com um rosto esguio e uns olhos castanhos redondos e vivos, mas os braços e as pernas, descobertos por um instante aquando da subida para a boleia, mostravam músculos apreciáveis sob a abundante pilosidade que os cobria.

No interior do veículo estava um enorme caixão, tão alto como um sarcófago, sem outro ornamento que não uma cruz da mesma madeira e duas caixas cúbicas sobre cujas tampas estava aposto em vários locais o selo do Templo:

- O nosso irmão Martin - que Deus tenha na Sua santa guarda! - era muito corpulento - explicou o irmão Raul com alguma malícia. - Daí as dimensões do seu último refúgio. Quanto às caixas, encerram os serafins que nós desmontámos e envolvemos em tela para evitar os choques, mas supostamente levam um alambique e umas grandes e frágeis retortas, assim como outros instrumentos. Ninguém se espantará.

- No entanto, não é costume um templário, que de seu não tem nada para além da sua faca e do seu cinto, embarcar para a última viagem com este aparato todo - observou Hervé.

- Sem dúvida, mas o aparato, como vós dizeis, pertence ao Templo e se acompanha o seu utilizador não é para ser enterrado com ele, mas para ser entregue à comendadoria que vai acolher o despojo. Há lá um parente dele que se dedica às mesmas pesquisas...

Decididamente, o irmão Raul tinha resposta para tudo. Até tinha o ar de acreditar no que dizia, pensou Olivier, desejando ao mesmo tempo que ele tivesse razão. Devia ser duro, para o guardião fiel daquele fantástico símbolo do poder divino vindo da noite dos tempos, separar-se do que fora o precioso tesouro de um povo que, por ele, construíra templos de mármore e ouro e vê-lo abandonar o modesto mas tranquilo santuário no meio das águas e das árvores onde estava há tanto tempo. A casa do irmão Raul nunca mais seria o coração sagrado do Templo. Assim, percebendo nele uma espécie de tristeza, Olivier sentiu-se comovido. Ao ponto de murmurar no momento do adeus:

- Sinto-me desolado. Perdão...

O velho templário olhou-o no fundo dos olhos.

- Obrigado... mas não precisais de estar. A nossa casa, tão bem escondida, continuará a ser um refúgio para quem conhecer o caminho. Se tiverdes necessidade...

- Não o esqueceremos. Nem um, nem outro.

O irmão Aniceto deu um estalo com a língua para fazer andar a atrelagem. Os cavaleiros colocaram-se, lado-a-lado, atrás dele. Avançaram por baixo do espesso berço de ramos entrelaçados, como um tecido, mas cujas folhas, ainda em botão, ainda não ocultavam a luz do dia. Começava a longa viagem.

Alagados pelo Inverno e pelas chuvas recentes, os caminhos eram autênticos lamaçais e nem nas antigas estradas romanas, uma rede de comunicações mais ou menos suportável, a progressão era sempre fácil. Apenas com os seus cavaleiros, os cavalos não teriam dificuldades, mas o peso da carroça retardava a marcha e não percorriam mais de cinco léguas por dia. Desse modo, levaram mais de três semanas para chegar a Montélimar. De comendadorias em herdades ou granjas pertencentes à Ordem, as coisas correram pelo melhor. A cada etapa, o acolhimento templário era sempre semelhante: discreto, cortês e generoso. Espalhado por todo o país, de Norte a Sul e de Leste a Oeste como uma imensa teia de aranha, o Templo oferecia aos seus filhos, lançados à aventura pelos grandes caminhos, a sua rede de possessões como outras tantas paragens onde o ritual, imutável, dava ao viajante a impressão de regressar a casa: homens e animais eram “extremamente bem recebidos”, como o exigia a tradição e até tinham a possibilidade de ter uma escolta para ultrapassar qualquer etapa difícil; mas a sorte acompanhava a Arca e os seus cavaleiros e nenhum malandrim os obrigara a forçar a passagem pela força das armas.

Uma noite de Abril, fria apesar do clima mais doce depois de terem passado Lyon, chegaram a Richerenques...

Uma imponente comendadoria da qual dependiam, desde Montélimar ao norte, a Orange ao sul, numerosas casas. O seu recinto quadrangular, reforçado por quatro torres redondas poderosamente armadas em cada ângulo, fazia dela uma verdadeira cidadela e muito certamente um dos mais temíveis bastiões templários do vale do Ródano. A Baucent, o estandarte preto e branco da Ordem, flutuava nas quatro torres para dar às redondezas a impressão de um olhar múltiplo apontado a cada um. O hábito queria que, durante o dia, as portas estivessem abertas, mas não era o caso em Richerenques, apesar de a noite ainda vir longe. Na base do fosso profundo, Olivier tirou a trompa que trazia à cintura, levou-a aos lábios e lançou três apelos nitidamente destacados. Foi só ao terceiro que surgiu um elmo entre duas seteiras:

- Quem vem lá?

Olivier franziu as sobrancelhas: a cruz vermelha de oito pontas que se via na sua cota de armas branca fazia daquela pergunta uma injúria:

- É visível, parece-me? - grunhiu ele.

- Sim, sim, mas isso não me diz os vossos nomes e o irmão comendador exige saber quem recebemos desde que uns falsos templários se introduziram aqui vergonhosamente.

- Deviam ser um exército para fazer tremer assim os defensores de uma tal praça-forte? - lançou, em eco, Hervé, que nunca perdia uma ocasião para dizer de sua justiça.

- Talvez, mas ordens são ordens! Os vossos nomes!

- Acabemos com isto! - continuou o primeiro. Vai dizer ao teu senhor que o irmão Olivier de Courtenay e o irmão Hervé d'Aulnay, acompanhados do irmão Aniceto, pedem hospitalidade para a noite que se aproxima. Escoltamos uma urna!

A cabeça desapareceu e, um momento mais tarde, a ponte levadiça, feita de enormes pranchas, desceu, rangendo e revelando uma grade de barras cerradas que se ergueu simultaneamente. O caminho estava livre, exceptuando três sargentos vestidos com cotas negras que se mantinham à entrada do pátio. Os guardas avançaram para segurar na brida dos cavalos - o que era pouco habitual! Olivier, rápido como um relâmpago, afastou o seu.

- Para trás! - ordenou ele apenas, num tom tal que nenhum dos homens ousou avançar mais e foi a trote que o cavaleiro atravessou o pátio até aos alojamentos tradicionais dos cavaleiros, seguido por Hervé no mesmo ritmo e, mais lentamente, pela carroça.

O interior do vasto pátio reforçava a impressão de força das defesas exteriores. Em três dos lados alinhavam-se as grandes cavalariças, a selaria, a forja e o armeiro, e na parte mais baixa o estábulo e as diferentes actividades dos “irmãos de ofício”: padaria, tanoaria, marcenaria, etc, tudo visivelmente em plena actividade ao serviço do que parecia ser uma comunidade numerosa: havia alguns sargentos e um grupo de templários exercitando-se no manejo das armas perto do armeiro, envoltos na nuvem de poeira erguida pelos cascos das montadas.

Olivier e Hervé pararam as suas em frente da escadaria que ia dar à casa propriamente dita, no alto da qual o comendador, reconhecível pelo bastão e pela autoridade que dele emanava, acabava de aparecer.

Alto e extremamente magro, o seu rosto, de arcadas supraciliares proeminentes, encimando, no fundo das órbitas profundas, uns olhos de um cinzento-metálico frio, era sulcado por rugas profundas, dispostas em redor de uma boca delgada e desdenhosa.

Uma barba rala, de um branco-amarelado, prolongava aquele rosto, mas o homem devia ser calvo porque nenhum cabelo saía do gorro liso e branco. O seu traje, o hábito branco com a cruz vermelha estampada, era o do uniforme, mas o punho e a bainha do gládio suspenso da sua cintura, onde brilhavam o ouro e os rubis, pareciam de uma riqueza verdadeiramente desusada num “pobre cavaleiro de Cristo”.

A despeito da idade - se não era octogenário não devia andar longe - mantinha-se direito como um i, numa pose plena de arrogância que predispunha contra ele apesar de arvorar um sorriso revelando algumas ausências lastimáveis na sua dentadura. Um sorriso que não atingia o olhar gelado que ele assestou em Olivier. - Sede bem-vindos em nome de Cristo, meus irmãos - deixou ele cair. - Dizem-me que sois um Courtenay. Acontece que conheci alguns ao longo da minha vida, por isso não ficareis surpreendido se vos perguntar que Courtenay?

- Da Terra Santa, onde nasceram os meus pais - respondeu secamente Olivier, nada encantado com aquela recepção um tudo nada inquisitorial. Não era costume, ao receber um visitante, preocuparem-se com o seu parentesco e, por isso, acrescentou: - Podemos saber, pela nossa parte, com que nome devemos saudar o senhor desta casa?

Vinda de um simples cavaleiro, a atitude era insolente, mas o comendador não pareceu ficar chocado:

- Eu sou o irmão Antonin d'Arros - disse ele em tom negligente.

O centro do seu interesse deslocou-se para a carroça e para o seu conteúdo. Ao mesmo tempo que os visitantes punham pé em terra, aproximou-se seguido do seu capelão e de dois cavaleiros que se lhe juntaram. Antonin d'Arros ordenou que a cobertura fosse levantada e contemplou por um momento a grande urna com ar pensativo, ao mesmo tempo que Hervé d'Aulnay, sem esperar pelas perguntas que sentia estarem a chegar, se apressou a apresentar-lhe o pretenso ocupante. Finalmente, o irmão Antonin observou:

- Esse irmão Martin deve ter sido uma personagem muito excepcional para lhe terem concedido um favor tão... estranho?

Não é costume um templário ser sepultado no local da sua morte? Na condição, evidentemente, de esse local ter sido consagrado? O tom falsamente ingénuo, disfarçando mal uma curiosidade deslocada porque no Templo não era conveniente fazer tantas perguntas a um hóspede de passagem, desagradou a Olivier, ao ponto de, fechando-se no seu silêncio, deixar que o seu companheiro prosseguisse o diálogo.

- Excepcional é mesmo a palavra - disse este com um bom humor pleno de reverência. - É preciso que assim tenha sido para que Sua Santidade se tenha dignado autorizar o seu regresso à terra natal com tudo o que servia para o seu importante trabalho. Era um grande sábio...

- Ainda bem! Nesse caso, vamos levá-lo para a capela para que os nossos irmãos lhe possam prestar homenagem.

- Infelizmente, isso não é possível. Foi-nos ordenado que não tirássemos a urna da carroça senão no seu destino, visto que é muito pesada. E é suposto velá-la de noite, para o que nos revezamos, o irmão Olivier, o irmão Aniceto e eu.

- Mas porquê?

- Ignoramos - cortou Olivier - e não queremos saber. Limitamo-nos a obedecer às ordens que nos dão, como deve ser e sem discutir.

O tom era breve, cortante. Antonin d'Arros não insistiu. A carroça foi conduzida até um guarda-vento próximo da capela e os cavalos à cavalariça, após o que os viajantes foram convidados a partilhar a refeição da noite. Era tarde. Os dois cavaleiros apressaram-se a fazer algumas abluções e tirar o melhor possível a poeira dos seus trajes: as regras templárias prescreviam que só se devia comer convenientemente vestido. Em seguida, ao apelo da campainha, um irmão conduziu-os ao refeitório onde duas mesas conventuais, cobertas por toalhas brancas, esperavam os convivas. Todos os lugares tinham uma escudela, um hanap (1), uma colher à qual se juntaria a faca que todos usavam e um grande pedaço de pão. Como em todos os conventos, havia um pequeno púlpito, onde se sentava um irmão, à vez, para ler em voz alta um

 

(1) Grande vasilha para beber, em uso na Idade Média.

 

texto das Sagradas Escrituras durante a refeição, no decurso da qual o silêncio era obrigatório.

Os templários alinharam-se, portanto, com as suas túnicas brancas e esperaram, de pé, que o capelão, colocado à direita do comendador, que se sentava à cabeceira, dissesse o Benediáte seguido do PaterNoster. Em seguida, instalaram-se, os recém-chegados perto do dono da casa - à excepção do irmão Aniceto, que assegurara o primeiro turno de guarda da carroça - tiraram as facas para cortar o pão de uma determinada maneira, tal como o fariam com a carne, já que a Regra chamada “Respeito” prescrevia que todos deixassem para os pobres uma parte da refeição. O leitor abriu o livro, que era naquele dia os Actos dos Apóstolos e uns servos trouxeram os grandes pratos de estanho com as carnes e os legumes, ao mesmo tempo que outros enchiam os hanaps de vinho, água ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Habituados há muito a um ritual que privilegiava a reflexão, os viajantes encontraram muito naturalmente o seu lugar no seio daquela comunidade meridional, satisfeitos por poderem escapar, pelo menos durante algum tempo, às perguntas do seu anfitrião. Também não se espantaram com uma circunstância que viam pela primeira vez: acocorado por terra, perto da cadeira do irmão Antonin, um homem recebia pedaços de pão ou outra comida qualquer que ele lhe atirava negligentemente como a um cão. Eles sabiam que era uma penitência por uma falta relativamente leve, como ter-se irritado com um irmão, mostrado distracção durante a recitação das horas ou outra falta benigna aos deveres quotidianos. O culpado - um jovem irmão de uns vinte anos - dava mostras, aliás, de uma humildade muito satisfatória.

Terminada a refeição, Hervé foi substituir Aniceto para que ele pudesse tomar parte no segundo serviço destinado aos escudeiros e sargentos, enquanto Olivier e os outros se dirigiam para a capela para as últimas orações do dia dedicadas a Nossa Senhora, após o que se foram deitar. Olivier participou naquele ofício com uma espécie de alívio. Não se sentia à-vontade desde a chegada a Richerenques e tendo uma devoção muito particular pela Virgem Maria, sentia-se bem ao refugiar-se num ritual de que gostava. Assim, rezou com mais fervor do que de costume, tentando libertar-se daquela sensação de mal-estar, pouco costumeira nele.

Ao juntar a sua voz às daqueles irmãos desconhecidos, o cavaleiro conseguiu-o porque encontrou a indizível sensação de se fundir num coro espiritual dedicado inteiramente e da maneira mais pura, como o dos anjos, à celebração da glória divina: cantando-a, exaltando o tema musical, pela sua beleza, o fervor das palavras. Foi, portanto, descontraído e apaziguado que saiu da capela para se juntar aos seus companheiros, para velar e dormir com eles na palha que tinham pedido e obtido sem grandes dificuldades. Mas, no caminho, encontrou um sargento que lhe pediu, com a maior cortesia, que o seguisse até aos aposentos do comendador. E o estado de graça esfumou-se. Decididamente, não gostava daquele homem e ainda sob a influência da cerimónia, reprovou-se a si próprio. No fim de contas, o irmão Antonin não tinha culpa se o seu aspecto físico provocava alguma repulsa e foi em passo resignado que seguiu o mensageiro.

Este conduziu-o a uma das torres, a uma sala onde, numas prateleiras, se amontoavam rolos de pergaminho e livros mais ou menos em ordem em redor de uma mesa, também ela cheia, assim como duas estantes de coro. O comendador estava de pé em frente de uma destas, sobre a qual estava desenrolado um antifonário (1) com iluminuras preciosas, onde as notas de música, negras e vermelhas, dançavam em pautas negras e douradas. O irmão Antonin parecia mergulhado numa reflexão tão profunda que se passou um longo minuto antes que se virasse para Olivier. Este emitiu um ligeiro tossicar para assinalar a sua presença. O que o fez estremecer:

- Desculpai-me, irmão Olivier! Tenho de tomar uma... decisão importante e pergunto a mim próprio se a vossa chegada não será uma resposta do Céu às minhas interrogações. Dissestes-me que íeis a Gréoux para entregar um irmão defunto à sua terra natal?

- De facto.

 

(1) Livro eclesiástico que contém antífonas, versículos que se entoam antes de um salmo, com as notas do respectivo cantochão e outros cantos religiosos.

 

Antonin d'Arros voltou a cair no silêncio. Ao mesmo tempo, começou a andar de um lado para o outro com as mãos metidas nas mangas, mergulhado em pensamentos que lhe aumentavam as rugas da fronte; dessa vez, o seu visitante esperou, sem protestar, que ele continuasse o seu discurso. O que ele fez, enfim, detendo-se diante de Olivier:

- Reparastes, suponho, no penitente que eu alimentava há pouco? Sabeis o que significa?

- Que ele cometeu uma falta e que está a pagar por isso.

- Sim, mas chegou ao meu conhecimento, nas últimas horas, que essa falta - que eu não vos vou dizer qual é! - merece uma sanção mais severa e o capítulo reunido à pressa, antes da refeição, decidiu excluir Huon de Mana: ele deve sair desta casa. Como não o ignorais, não se trata de o devolver ao mundo. No fundo, é o que ele deseja... Mas não pode ser. Assim, deve ir para um convento de regras mais severas do que as nossas para nele expiar no silêncio, na meditação e nos trabalhos duros, tomar consciência da sua falta e arrepender-se. Estais a seguir o meu raciocínio?

Olivier acenou com a cabeça. Então, o irmão Antonin continuou:

- Existe na montanha, não muito longe de Gréoux, um priorado muito severo de nome São Julião, dos irmãos de Saint Benoít e eu pensei, como a vossa missão vos leva nessa direcção, que me pudésseis fazer o favor de levar Huon de Mana até Gréoux com uma carta minha para o irmão Bertrand de Makucène, que é lá o prior. Ele encarregar-se-á do resto da viagem. Aceitais?

Olivier levou algum tempo para responder. O cavaleiro não gostava da ideia de se encarregar de um passageiro, sobretudo indisciplinado e talvez mal-intencionado, que ainda por cima poderia mostrar-se curioso. Sabendo que a urna continha algo infinitamente mais precioso do que um corpo humano e que a menor indiscrição podia ter consequências dramáticas, sentia-se tentado a recusar. Por outro lado, que argumento usar sem ferir um homem que não lhe agradava mas que não deixava de ser um dignitário da Ordem?

Adivinhando, sem dúvida, as suas hesitações, o irmão Antonin mudou de tom e chegou a sorrir ao dizer:

- Receio ter-vos “eriçado” um pouco. Quando vos perguntei a que ramo dos Courtenay pertencíeis, não quis que vísseis nisso uma manifestação de curiosidade vulgar. Acontece que vivi muitos anos na Abóbada de Acra. Foi no tempo anterior à primeira cruzada do Rei Luís doravante na glória celeste e foi-me dado encontrar-me por diversas ocasiões com um dos seus escudeiros. Chamava-se Renaud de Courtenay, tinha nascido em Antioquia e creio saber que poucos terão lá nascido. Sire Renaud seria vosso parente?

Não sem alguma surpresa, Olivier descobriu que o comendador tinha um certo encanto, inimaginável ao primeiro contacto. A voz também podia ser calorosa e o cavaleiro baixou a guarda:

- Era meu pai. Conheceste-lo, portanto?

- Conhecer é dizer muito! Nunca fomos íntimos. Sobretudo da minha parte. Mas pude apreciar a sua coragem, a sua rectidão. Ele continua a pertencer a este mundo?

- Graças a Deus!

- Sinto-me feliz! A julgar por mim próprio, deve agora um homem idoso?

- De facto, mas os anos passam por ele - como pela minha mãe, aliás! - sem o destruir. As suas forças declinaram um pouco, talvez, mas ainda consegue abater uma árvore sem dificuldade. Apesar de os cabelos lhe terem embranquecido, continua esbelto e direito como um jovem...

O amor que sentia pelo seu pai tornava Olivier quase loquaz e o seu belo rosto ficava um pouco menos severo. Entretanto, o irmão Antonin continuava a ler, acauteladamente, as páginas do antifonário aberto:

- Tendes irmãos, irmãs?

- Sou filho único... para desgosto dos meus pais!

- E escolhestes o Templo em vez de fundar uma família e continuar a vossa? Não é uma coisa dolorosa para eles?

- Penso que me amam o suficiente para me quererem ver feliz. Além disso, desde a minha infância que desejo servir a Deus e combater por Ele - acrescentou ele, benzendo-se em sinal de respeito.

- Nesse caso, está tudo bem, porque não poderíeis ter escolhido caminho mais nobre! Se, por acaso, vos for dado rever o vosso pai, dai-lhe cumprimentos meus. Ele continua em Cour-tenay?

- Não. Possui um domínio nos arredores, gerido por um intendente, mas vive na Provença, de onde a minha mãe é originária.

- A sério? E é longe daqui?

Feita um tudo nada negligentemente, a pergunta era excessiva. Olivier fechou-se:

- Bastante, sim... Regressando ao vosso penitente, venerável irmão - acrescentou ele um pouco abruptamente - gostaria que pensásseis que nós somos forçados a viajar lentamente e que um prisioneiro - é o que lhe devemos chamar, não é verdade? - seria para nós uma preocupação constante, porque seria preciso vigiá-lo permanentemente, quando dois dos vossos cavaleiros...

- Mas é que, justamente, não posso prescindir de ninguém neste momento. Eu próprio tenho de ir a Avinhão, o que privará o castelo de uma parte dos seus defensores. Ora, nós somos muitas vezes alvo de ataques sorrateiros por parte de bandos de saqueadores que vivem nas montanhas próximas. Por outro lado, não tendes nada a temer desse infeliz. A coragem não é a sua virtude principal e manter-se-á tranquilo.

Olivier compreendeu que o caminho da recusa lhe estava definitivamente vedado. Acedeu, portanto, pediu licença para se retirar e foi prevenir os companheiros do que fora forçado a aceitar. Tal como esperava, Hervé resmungou:

- Saqueadores? Contra um castelo desta importância? Vós acreditais?

- Infelizmente, tenho de acreditar. Como simples cavaleiros, devemos obediência aos nossos superiores hierárquicos, salvo se, no decurso de uma missão, esta estiver em risco.

- Oh, eu sei! Por outras palavras, ainda temos de agradecer porque nos pediram permissão? Mais valia termos ficado a dormir ao relento, esta noite!

- Partilho o vosso sentimento, mas quando o vinho já está tirado, mais vale bebê-lo. Que dizeis vós, sargento?

Aniceto, que nunca dizia nada, contentou-se em encolher os ombros e disse:

- Onde é que o vamos meter?

- É verdade - disse Hervé. Temos um problema: não podemos instalá-lo no meio das caixas. Como ignoramos qual foi a falta que ele cometeu, mas que deve ter sido o roubo, talvez se sinta tentado a ver o que há lá dentro?

- Suponho que lhe vão dar um cavalo? Se foi destituído da cavalaria, devia estar numa masmorra, não a comer com os outros...

Porém, quando de madrugada o irmão Antonin lhes levou Huon de Mana, este tinha os punhos metidos em braceletes de ferro ligados por uma curta corrente, mas as pernas estavam livres e não se via qualquer cavalo. Ao ver aquilo, Aniceto fez sinal para que o instalassem junto dele, na boleia, suficientemente comprida para dois homens.

- Entrego-vos este homem para que o leveis até onde deve ir. Tratai-o como melhor vos parecer - disse o irmão Antonin com desprezo. - É um poltrão indigno da piedosa casa onde vai desaparecer a sua desonra. Se ele fizer menção de se revoltar, não hesiteis em o matar!

- Como havia ele de se revoltar... se é um poltrão? - perguntou Olivier que, olhando melhor para o condenado, não pôde deixar de sentir uma vaga piedade, de tal maneira se parecia com um animal encurralado. Pequeno e de ossatura tão leve que era difícil imaginá-lo sob o peso do traje de batalha, curvava os ombros magros cobertos por uma cota negra semelhante aos calções gastos. Mantinha os olhos obstinadamente baixos, o que não permitia ver a sua cor ou expressão, mas Courtenay adivinhou, pela contracção do dorso, que ele cerrava os dentes para não tremer. Devia ter dezassete ou dezoito anos. O seu rosto estava marcado por arranhões e a cabeça rapada não permitia discernir a cor dos seus cabelos. O sargento segurou-o por um braço para o ajudar a subir para a boleia, enquanto o comendador proferia, com um dedo apontado para ele:

- Vai e não peques mais, se queres obter a remissão das tuas faltas! Pensa nas consequências e arrepende-te, para que Deus tenha misericórdia de ti!

A voz e o gesto eram grandiloquentes.

- Quem quer ele impressionar? - sussurrou Hervé enquanto os dois amigos subiam para as selas das suas montadas. - Se é a nós, não olhou bem para as nossas caras. Quanto a este infeliz, só quer uma coisa, afastar-se daqui o mais depressa possível. E eu compreendo-o!

- Achas que será mais feliz no sítio para onde vai?

-Algo me diz que poderá não ser pior. Já viste alguma comendadoria onde a regra da cortesia não é aplicada, onde a disciplina é relaxada ao ponto de cada um parecer fazer o que lhe apetece? Onde o comendador arvora uma arma forrada a ouro? Pergunto a mim próprio o que terá feito este pobre rapaz. Não tem grande aparência!

- Não é preciso tê-la para praticar o mal. Um rato pode provocar a peste.

- - Ficaria muito surpreendido se este fosse capaz. Ele é que parece doente... ou esfomeado. Se só tinha o que o irmão Antonin lhe atirava por debaixo da mesa, enquanto a escudela do comendador transbordava, não admira que esteja pele e osso.

Olivier admitiu interiormente que o seu amigo tinha razão. No entanto, ainda lhe restava a emoção sentida durante os ofícios. Aqueles templários de feições patibulares cantavam como anjos. De facto, não sabia que dizer mais e ficou reconhecido a Hervé por mudar de assunto quando este perguntou:

- Onde paramos, esta noite?

- Em parte nenhuma. Não há nenhuma comendadoria antes de Gréoux, nem granjas ou herdades. Pedi, por isso, provisões para o caminho. A água, essa, não nos fará falta e o tempo está bom. Em Carpentras, estaremos nos Estados do Papa, onde não teremos dificuldade em encontrar comida: os peregrinos que vão rezar ao túmulo da Venerável Ana, mãe de Nossa Senhora, são numerosos. O mesmo em Apt, onde o bispado nos ajudará. Depois, a seguir a Manosque, passaremos Durance e estaremos perto do fim... oficial. Quer dizer, a fortaleza de Gréoux, que devemos contornar sem lá entrar, porque só à chegada é que devo abrir o bilhete selado do irmão Clemente.

- Mas vai ser preciso entrarmos lá, visto que levamos um forçado!

- É isso que me contraria! Enfim - acrescentou ele com um suspiro resignado - esperemos que se mostrem menos curiosos do que em Richerenques... Aquilo não foi nada natural!

O caminho prosseguiu através das terras coloridas da Provença, que Olivier reencontrava com uma felicidade duplicada pelo prazer de as dar a descobrir ao seu irmão de eleição, feliz por constatar que ele parecia gostar. Na etapa da noite instalaram-se nas margens do Aygues, numa pequena enseada vestida de salgueiros e olmos, repousante após a secura da charneca e o sargento Aniceto, que os seus companheiros tinham descoberto ser um excelente pescador, demonstrou uma vez mais o seu talento acrescentando algumas trutas, grelhadas em cima de umas pedras lisas, ao presunto, queijo e pão devidos à generosidade do irmão Antonin. Tal como o supunha Aulnay, o jovem Huon de Mana estava esfomeado e devorou a sua parte com tanta avidez que lhe devolveu um pouco de cor às faces pálidas. Apesar de ter mostrado reconhecimento por um tratamento que, sem dúvida, não esperava, foi impossível arrancar-lhe outras palavras que não as de cortesia. O jovem foi dormir para perto de Olivier, que o tinha prendido ao seu cinto e cujo tempo de sono partilhou - mas não o de vigília, porque dormiu como uma pedra - sem ter articulado mais de dez palavras para além do responso às orações obrigatórias para qualquer templário, num convento ou em campo aberto.

Durante seis dias viajaram, assim, através de colinas cobertas de vegetação que mostravam, por vezes, grandes rasgões, a carne da terra, de cores quentes indo do ocre ao vermelho, charnecas já secas cortadas por falésias sobre raros cursos de água, uma paisagem sedutora e rude, quase selvagem, onde apareciam, por vezes, as poucas casas de uma aldeia alcandorada ou o humilde campanário de um priorado. Por fim, transpostas sem dificuldade graças a uma velha ponte romana as águas tumultuosas do Durance, fizeram etapa na outra margem, a uma pequena légua daquilo a que chamavam o Kerakx templário (1), cujas formidáveis muralhas se perfilavam contra o céu. Ninguém ficou surpreendido, já que Courtenay anunciara que antes de subirem ao

castelo

 

(1) Fortaleza construída pelos cruzados no Médio Oriente.

 

parariam para se desembaraçar da poeira e da sujidade acumuladas ao cabo de tantos dias, a fim de escoltar mais dignamente o defunto cuja vigilância asseguravam. Foram tomadas as disposições habituais e Hervé fez o primeiro turno de guarda.

Foi ao nascer do Sol que se aperceberam do desaparecimento do prisioneiro. A corda que o ligava ao seu guardião estava cortada e ele conseguira - só o Diabo sabia como! - afastar-se sem fazer mais barulho do que um gato e sem o menor tilintar da corrente que lhe ligava os punhos. Hervé d'Aulnay, que velava perto de uma fogueira acesa entre algumas pedras, não ouvira nem vira nada porque o fugitivo soubera passar por Olivier e pelo sargento com tanta ligeireza que não mexera um único seixo:

- A pequena serpente! - indignou-se Hervé. - Por que nos fez ele isto? Não o tratamos bem?

- Talvez o convento lhe meta mais medo do que nós pensamos - disse Aniceto. - E não devemos estar longe...

Olivier contentou-se em acenar com a cabeça. O cavaleiro reflectia. Passada a primeira surpresa com o amargo vexame sentido por Aulnay, a única decisão inteligente a tomar era não perseguir Huon de Mana como a Regra obrigava quando um prisioneiro fugia. Antes de mais estava a sua missão, à qual o comendador de Richerenques se permitira acrescentar um corolário desagradável, obrigando-os a desviarem-se - e por pouco que fosse era muito! - do itinerário traçado pelo irmão Clement.

- Deixemos a Deus o cuidado de o punir de acordo com os seus pecados! - concluiu ele. - Com ferros nos braços, não há-de ir longe. Quanto a nós, a sua fuga remete-nos para o caminho certo, já que nos foi prescrito que não entrássemos em Gréoux.

- Nesse caso, onde vamos agora? - perguntou Hervé. - Está na hora de sabermos.

Olivier desagrafou o lorigão de malha que não abandonava desde a floresta do Oriente, salvo para umas abluções rápidas, e tirou do peito um bilhete dobrado e selado a vermelho, cuja cera quebrou com os dedos. A missiva continha apenas algumas palavras cuja leitura lhe fez arquear as sobrancelhas. Em seguida, estendeu-a a Hervé, que as leu com estupor: “O destino definitivo é o castelo dos teus pais. O teu pai foi avisado. Tirai as vossas cotas e substitui-as pelas que vos aconselhei a levar e que pertencem às vossas armas. Ide com Deus.”

- Valcroze! - murmurou Olivier. Vamos para Valcroze! Mas porquê? É uma responsabilidade terrível para os meus pais.

- Lembra-te do que nos disse o irmão Clement ao encarregar-nos desta missão: o Templo corre grande perigo e deve pôr em lugar seguro os seus bens mais preciosos. Ele estava a pensar, sem dúvida, que num castelo secular eles ficariam mais bem guardados do que nos da Ordem. No entanto, e apesar de não conhecer a tua casa, pergunto a mim próprio se ele tem razão: onde pode a Arca ficar mais bem guardada do que naquela cripta defendida pelos pântanos da floresta do Oriente?

Olivier teve um daqueles raros sorrisos que lhe restituíam a sua infância, dando um encanto extraordinário ao seu belo rosto meditativo:

- Vê-se bem que não conheces Valcroze! Para além de que a nossa casa, não pertencendo ao Templo, não pode ser alvo de uma qualquer inquisição, existe por baixo dela uma rede espantosa de subterrâneos, dos quais alguns foram feitos pelas águas e outros pelos antigos. Alguns ligam o castelo a duas capelas das redondezas: Saint-Trophime e Saint-Thyrse. Outros mergulham na montanha até tão longe que, por segurança, nunca foram explorados. Um deles, no entanto, vai dar a um lago subterrâneo que eu só vi uma vez, mas que o irmão Clement conhece bem. Quando ele era comendador de Trigance, o meu pai e ele iam lá muitas vezes. A minha mãe até ficou cheia de medo, uma vez, quando eles estiveram desaparecidos durante cerca de cinquenta horas...

A medida que ele falava, Hervé ia serenando e a figura afável do sargento alegrou-se.

- Ainda estamos longe? - perguntou o primeiro.

- Cerca de cinco dias porque os caminhos vão tornar-se mais difíceis e porque é preciso, mais do que nunca, ter cuidado com os cavalos... Mas o tempo está bom - acrescentou ele com um olhar para o céu que envolvia a região com o seu manto de um azul-intenso - e com a ajuda de Deus não passaremos grandes dificuldades.

-Vamos! Não percamos mais tempo e punhamo-nos a caminho... E, primeiro, mudemos as nossas túnicas!

Tal como tinha previsto Olivier, cujo regresso à sua terra natal encantava visivelmente, o percurso através de uma região magnífica mas rude alternava com planaltos calcários desérticos e caminhos guarnecidos de pinheiros, subidas e descidas que era preciso muitas vezes fazer a pé para melhor guiar os cavalos, mas de onde o olhar se evadia, por vezes, na direcção de distâncias sublimes, para paisagens de uma beleza de lenda.

Por volta do fim do quinquagésimo dia, meteram pelo atalho que, das margens da torrente cor de esmeralda subia na direcção do castelo cuja visão arrancou a Hervé d'Aulnay um assobio de admiração e a Olivier algo que se parecia com um gemido: na torre de menagem, o estandarte baronial tinha um fumo negro.

- Meu Deus! - disse ele, benzendo-se precipitadamente. - Aconteceu uma desgraça! O meu pai...

Era normal que pensasse nele porque era o mais idoso. No entanto, ao vê-lo aproximar-se, vestido de negro e apoiando a sua alta silhueta dobrada pela dor a uma bengala, Olivier compreendeu que a dor ia ser na mesma cruel, senão mais. Largando a brida do seu cavalo, o cavaleiro correu para o barão, que o abraçou:

- Sim... - murmurou ele - ela morreu! A tua querida mãe deixou-nos ontem... e eu amava-a mais do que nunca...

Um soluço cortou-lhe a palavra e Olivier, com lágrimas nos olhos, sentiu-o apertar-se contra si, aumentando assim o peso do seu desespero. E foi nos braços um do outro que subiram na direcção do castelo.

 

                                       A DOR

Sancie repousava na grande sala de honra, num leito coberto de seda verde, a sua cor preferida, e encimado por um dossel com as armas de Valcroze, de Signes e de Courtenay, estas com a barra da bastardia. Em redor, o gosto e a fortuna do barão Ademar, seu primeiro marido, estavam patentes nas paredes cobertas de grandes “tapetes” napolitanos de seda representando cenas de caça. Na imensa chaminé apagada, tal como na base de um cadafalso, a piedade das mulheres da região depositara grandes ramos de giesta em flor, hissopos azuis e zimbro verde. A dama de Valcroze repousava à luz dourada das velas de cera branca espetadas em grandes candelabros de bronze colocados a seus pés. Branca era também a cor do vestido fino, muito simples, quase monacal, sobre o qual repousavam as espessas tranças ruivas, ligeiramente raiadas de cabelos prateados e entrançadas com delgadas fitas douradas. Sobre o véu da cabeça, prolongando o lenço que lhe encerrava o rosto, um aro de ouro e pérolas, semeado de esmeraldas, trazido para ela de Constantinopla pelo seu marido, recebia a luz e devolvia-a, cintilando. Dois guardas armados de bisarmasl brilhantes, velavam à entrada, canalizando sem brutalidade a longa fila daqueles que vinham prestar homenagem, por vezes de longe, mas eram as mulheres do castelo, damas-de-companhia ou mesmo

 

(1) Antepassada da alabarda, terminada por um ferro assimétrico e um ou dois ganchos na parte posterior.

 

servas, vestidas de negro, que formavam, em redor da defunta, um semicírculo ajoelhado e em lágrimas cujas vozes desoladas respondiam às litanias de Nossa Senhora recitadas pelo capelão, que se mantinha de pé. Junto dele, Honorine, destroçada no seu traje de luto, parecia quase inconsciente.

Afastaram-se com um sussurrar onde se percebia um pouco de alegria perante o senhor que regressava apoiado ao filho e cujo nome saiu de todas as bocas, mas ninguém fez menção de se afastar, porque partilhavam a mesma dor. Era tanto sua como deles, porque apesar de serem do mesmo sangue, as famílias, muitas vezes, não sentiam a mesma necessidade de participar para melhor amar.

Afastando-se do pai, Olivier aproximou-se e, durante um instante, através das lágrimas que lhe enchiam os olhos e que ele afastou com as costas de uma mão irritada, contemplou a sua mãe, pensando que estava muito bela. O sono, que nunca mais terminaria, devolvia-lhe uma espécie de juventude graças à ossatura perfeita do rosto sobre o qual a pele parecia esticada e se o nariz longo, que sempre fora o seu desespero, era mais aparente do que nunca, revestia-se de um orgulho e dignidade admiráveis. Os lábios cerrados esboçavam a sombra de um sorriso, como se, por trás das longas pálpebras um pouco enrugadas, os belos olhos, verdes como a água tumultuosa do Verdon, contemplassem uma qualquer imagem agradável.

O filho de Sancie deixou-se cair de joelhos e com a fronte apoiada na seda verde, permitiu que o seu desgosto o submergisse e soluçou sem vergonha ou reserva; ela era a sua mãe, adorava-a e fizera-a infeliz ao virar-se para o Templo em vez de casar com uma mulher, de viver junto dela e de lhe dar os netos que ela tanto desejara...

Renaud, esse, permanecera de pé. Aterrado perante a intensidade da dor daquele filho cuja reserva tomara muitas vezes por indiferença, compreendia que tinha de dominar a sua para ajudar a daquele homem de trinta e cinco anos que, sempre e apesar de tudo, continuava a ser o seu filho.

Do fundo das lágrimas, Olivier perguntou:

- Como é que isto aconteceu?... Uma doença?

Renaud avançou a mão e colocou-a num dos ombros do filho:

- Não - disse ele com voz doce. - Foi uma queda. Ela soubera que Siméone, a velha da Cadière que diziam ser feiticeira, estava a morrer de um mal tão repugnante que ninguém se queria aproximar dela. Levando um saco de remédios e um frasco de água benta, a tua mãe aproveitou o facto de eu ter ido a Roug-non para levar lá o padre Anselmo “na esperança, dizia ela, de salvar a sua alma, levando-lhe um pouco de apaziguamento, já que não era possível salvar o seu corpo”.

- Era mesmo dela! - murmurou Olivier.

- Sim. Ela foi lá com Barbette, que não a deixou ir sozinha, mas Siméone teve forças para a repelir com injúrias e até com empurrões. As duas fugiram a correr. Foi então que o pé da tua mãe escorregou e ela caiu pela encosta abaixo até ao ribeiro, onde um rochedo lhe quebrou os rins. Trouxeram-na moribunda...

A voz disse a última palavra com dificuldade. Sem se virar, Olivier perguntou com dureza:

- E a velha? Continua lá?

- Os da aldeia subiram lá acima durante a noite. Mataram-na e queimaram a cabana...

Com um aceno de cabeça, Olivier levantou-se, mantendo os olhos fixos na mãe, mas desta vez sem lágrimas. No dia da sua entrada para o Templo, jurara nunca mais “beijar qualquer mulher, rapariga, mãe ou irmã”, mas todo o seu ser se revoltava ao pensar em separar-se dela para sempre sem a beijar pela última vez. Deus, que lhe permitira vê-la uma última vez, não deixaria de lhe perdoar! Debruçando-se, o cavaleiro depositou os lábios na fronte, na face e nas mãos tão belas que seguravam no crucifixo pousado no peito. Em seguida, virando-se bruscamente, dirigiu-se para a capela para ali se deixar cair de bruços e de braços abertos nas lajes frias. Apenas a oração o podia ajudar a ultrapassar a tempestade que o devastava...

Um longo momento mais taíde, Hervé encontrou-o no mesmo sítio. O cavaleiro nunca imaginara que Courtenay pudesse, um dia, inspirar-lhe piedade: era um sentimento que lhe ia mal e que, aliás, o seu orgulho intransigente não aceitaria. Era preciso que o golpe tivesse sido muito duro para o deixar assim prostrado diante do altar de Deus. Mas invejava-lhe aquela dor, já que a sua mãe morrera ao dá-lo à luz. Uma dor provocada por horas infinitas de alegria e vida feliz. No entanto, era preciso acabar com aquilo.

Hervé começou por uma breve oração e depois, inclinando-se para o comprido corpo estendido, agarrou-o pelos ombros com punhos de ferro, para o obrigar a levantar-se:

- Chega de choro! - disse ele rudemente. - Tens de te recompor: temos de fazer!

Olivier mal o ouviu:

- Era minha mãe, Aulnay! Amava-a tanto!

- Porquê o passado? Já não a amas?

- Oh sim! Mais do que nunca...

- Esse amor nunca te abandonará! Tens sorte!

- Talvez. Porque me protegeu das mulheres e continuará a proteger. Ela será sempre a única que eu amei.

- Estás a esquecer-te de Maria, Nossa Senhora, Rainha do Templo, a que tu dedicaste a tua vida. Ela saberá suavizar a tua dor e tu deves, doravante, pensar no teu pai!

- Tens razão! Ele vai ficar só... com a responsabilidade que nós lhe trazemos... Deus me perdoe! Tinha-me esquecido do que vimos fazer aqui! Onde está a carroça?

- Numa espécie de granja onde a gente do castelo guarda a lã das ovelhas. Está quase vazia e bem fechada com uma chave que o barão Renaud me deu. Naturalmente, não lhe tocaremos senão depois do funeral. Há muita gente aqui, neste momento...

A noite chegara, uma daquelas noites tão belas de Primavera que, na Provença, anunciam as outras, intensas do Verão. Os visitantes do dia regressavam a suas casas. O castelo fechava-se para a última vigília. Olivier, que tencionava velar a sua mãe até de manhã, quis obrigar o seu pai a comer qualquer coisa e a repousar um pouco.

- Tenho a certeza de que não dormis desde o acidente - afirmou ele. - Estais cansado e não precisais de enfraquecer mais. O dia vai ser longo, amanhã!

Renaud aceitou partilhar a refeição que tomaram na grande cozinha, como se regressassem da caça, em frente da lareira imensa onde assava um cordeiro junto de uma panela bojuda onde cozia lentamente um guisado de pato, cheirando a ervas da montanha. Era o domínio de Barbette, a mulher de Maximin, que reinava ali sobre um universo de potes, tigelas, terrinas, presuntos pendurados das traves por ganchos de ferro ao lado de tranças de cebolas, de alhos e de pequenos pimentos... Barbette também fazia reinar o terror no meio do seu pequeno esquadrão de raparigas ajudantes e aprendizes de cozinheiras, mas não passava por ali um único miserável, ao alcance da sua caridade, que não matasse a fome por alguns dias e quando a sua “dama Sancie”, que ela venerava, partia para uma das suas digressões de caridade, durante a última das quais perdera a vida, Barbette sabia sempre o que ela devia levar, rivalizando com a sua senhora em generosidade e compaixão. A sua morte perturbara-a, mas apesar de também já não ser nova, afastava o desgosto em honra dos convidados cujo estômago e forças dependiam dela, assim como muito mais gente naquele castelo tão importante! Assim, as cozinhas continuavam a funcionar como habitualmente. Ainda mais, porque era preciso preparar a refeição tradicionalmente oferecida àqueles, grandes ou pequenos, que apareceriam para o funeral.

Barbette sentiu-se feliz, e também aliviada, por ver Renaud aparecer para tomar parte na refeição, apesar de a comida não ser grande coisa, mas pela alegria de o ver sentado com o filho. Uma verdadeira bênção do Céu, o facto de Olivier ter aparecido a tempo de apoiar o pai! Barbette sentira uma ponta de esperança quando reparara na sua cota com o escudo da família e não com a cruz que ela detestava cordialmente desde que o “pequeno” decidira aderir ao Templo. Era lá possível o filho único de uma casa tão nobre condená-la à extinção, o pai e a mãe ao desgosto de se separarem dele para sempre e de nunca segurarem nos braços os netos, para além de estar condenada a engrossar os imensos bens e possessões de uma Ordem que, segundo a sua lógica, já não tinha razão de existir já que tinham regressado todos a França depois de terem perdido aquilo para que tinham sido criados: defender e assistir os peregrinos nos caminhos da Terra Santa e proteger o túmulo do Divino Senhor! Aqueles pensamentos roíam os pensamentos de Barbette e, por um instante, pensou que a Virgem e os santos do seu conhecimento, a quem confiara o problema, acabavam de a atender. Infelizmente, esse sentimento não durou muito! Quando ele a cumprimentara, ela quisera atirar-se-lhe ao pescoço para o abraçar como fazia sempre, mas ele repelira-a docemente:

- Sabes muito bem, Barbette, que um templário não tem o direito de dar um beijo a uma mulher!

- Um templário, sim, eu sei... mas vós já não o sois, visto que já não trazeis a vossa grande cogula branca e vermelha?

- Oh sim, continuo a ser! Mas por razões, graves, que não te posso explicar, tive de a tirar para chegar aqui o mais discretamente possível...

- Ah!

A decepção foi à medida da esperança e Barbette não conseguiu reter a amargura sentida: - O que é que eles têm a mais do que nós, esses senhores orgulhosos de manto branco, para que tenhais abandonado por eles a vossa família, as vossas terras e o que a boa vontade de Deus vos deu?

- Nada, e foi justamente por Deus que eu vos deixei. Para o servir sob o sol das batalhas!

- Mas já não há batalhas, visto que já não há Terra Santa! Portanto, para além do dinheiro, ides servir o quê?

- Muitas coisas. Queres um exemplo? As belas igrejas e catedrais que se constróem um pouco por toda a parte, é o dinheiro do Tempo que as paga, que paga os mestres-de-obras e os companheiros que aprendem com eles a arte de bem construir.

- Ides tornar-vos pedreiro, ou carpinteiro? - perguntou ela, irritada.

- Sabes muito bem que não... Mas conheço alguns e admiro a sua arte.

- Conheceis? De onde?

- Quando era escudeiro de monsenhor d'Artois, o meu pai era amigo de Pierre de Montreuil quando ele estava a construir a Santa Capela para o Rei Luís, no seu palácio. Já morreu, mas eu conheço os filhos e os netos dele.

Mas Barbette ainda não estava pronta para depor as armas:

- Que vos faça bom proveito! Mas por que fostes para Paris? Como se não houvesse bastantes comendadorias por aqui! Pelo menos, podíamos ver-vos de vez em quando!

- Fica tranquila, eu volto! Com o irmão Clement... se ele quiser! De facto, não me sinto muito à-vontade por aquelas bandas. É como se... o Sol deles não fosse igual ao nosso.

Apesar de ter aceite partilhar a refeição com o seu filho e com o irmão Hervé, que ele conhecia há muito tempo porque era sobrinho do seu velho amigo Guilherme d'Aulnay (1), Renaud recusou retirar-se para o seu quarto para repousar um pouco enquanto Olivier e o seu camarada velavam junto do corpo.

- Não me impedirás de passar junto da minha mulher amada a sua última noite neste mundo! - declarou ele. - A partir de amanhã nunca mais verei o seu rosto nem lhe tocarei na mão...

Não havia discussão possível. Tudo o que Olivier conseguiu do seu pai foi que aceitasse a cadeira que ele colocou junto do leito, mas o cavaleiro recusou as almofadas visto que eram demasiado propícias ao sono. E Renaud ficou ali, bem direito, encostado ao espaldar, rígido, as mãos agarradas ao um rosário e a cabeça, cujos cabelos brancos tornavam mais morena a sua tez de “sarraceno”, virada para o perfil imóvel aureolado pela luz móvel das velas...

Ao amanhecer, o corpo de Sancie foi colocado no ataúde de carvalho confeccionado para ele e levado, de rosto descoberto, para a capela onde em breve se juntaria a nobreza da região, ao mesmo tempo que a sala de honra, entregue aos servos, era preparada para a refeição fúnebre. Tomaria nela lugar uma assembleia de fantasmas uniformemente vestidos de negro e cujos rostos Olivier não reteria, nem sequer o da bela Inês de Barjols, apesar de a sua mãe ter pensado, em tempos, que ele sentia algo

 

(1) Ver volume II: Renaud ou a Maldição.

 

por ela. No fundo de si mesmo, Olivier sabia que, por instantes, ela o atraíra, que pensara estar apaixonado, mas fora demasiado fugitivo para que lhe concedesse, sequer, a sombra de uma mágoa. Deixando o seu marido, Jean d'Esparron, entregue aos costumes habituais em ocasiões semelhantes, ela aproximou-se para o observar durante o ofício, impressionada com o traje guerreiro sob o longo manto branco, que os largos ombros suportavam com tanta facilidade...

E, se desgosto houvesse, era apenas da sua parte, mais larga devido às repetidas maternidades, ao passo que o templário se aureolava, perante os seus olhos entristecidos, com as sublimes cores das terras longínquas e das grandes aventuras... enquanto o seu marido, demasiado amigo das grandes patuscadas e dos grandes manjares, tinha cada vez mais barriga.

No fim da silenciosa refeição, onde não apareceram jograis nem menestréis, mas que foi longa porque foram numerosos os que quiseram prestar homenagem à defunta, Olivier pôde avaliar a que ponto a mãe era respeitada e amada. Com a aproximação da noite e como o tempo se tivesse encoberto até se tornar ameaçador, aqueles que não moravam longe partiram à pressa; para os que viviam mais longe, o barão mandou preparar alojamentos. A beleza extrema da região fazia-se pagar com perigos equivalentes quando estalavam as tempestades. Inês e Jean d'Esparron foram destes últimos.

Na verdade, podiam ter regressado, já que o caminho que ia dar ao seu feudo não era difícil; mas no momento em que o seu marido dava a ordem de partida, Inês sentiu-se mal e quase desfaleceu. Naquelas condições, era imperioso transportá-la para os aposentos das damas, coisa de que Honorine, um pouco recomposta do desgosto a que a reduzira o choque da morte de Sancie graças a um certo licor produzido pelos monges de Thoronet, de que abusara um pouco, se encarregou sem perder um milímetro da sua dignidade.

A sua presença no castelo durante aquela noite, que gostaria de ver dedicada ao silêncio e ao repouso de que todos tinham grande necessidade, desagradou a Olivier. O templário sabia que Esparron não era homem para se deitar com as galinhas e que fazer-lhe companhia seria, para o seu pai, esgotado de dor, um acréscimo de fadiga. Tanto mais que os três ou quatro senhores que também tinham ficado não teriam, então, razão para se fecharem nos seus quartos. O cavaleiro chamou Esparron à parte:

- Posso pedir-vos - disse-lhe ele - a graça de não forçar o meu pai a fazer-vos companhia esta noite? A idade e o desgosto abateram-no e precisa de repousar!

O barão não era mau tipo e, desde que tivesse algum conforto, não pedia mais nada.

- Deus é testemunha que não quero ser inoportuno! - disse ele com um sorriso que lhe dividiu em dois o largo rosto. - Acontece que tenho alguma dificuldade para adormecer quando me deito cedo, o que aborrece a minha mulher. Com a vossa permissão, ficarei ao pé desta bela lareira durante mais algum tempo... Além disso gosto de jogar xadrez! Fazeis-me companhia, já que sei que éreis um bom jogador?

- Obrigado por vos lembrardes, mas um templário não joga! O vosso cunhado Bérenger de Barrême também fica cá esta noite. Podíeis jogar juntos.

- Por que não? Mas isso não impede que eu não lamente não jogar convosco: ele não é muito bom...

Com um gesto de indiferença, Olivier deixou-o para se juntar a Renaud, que encontrou ocupado a dar ordens a Maximin.

- Vinde! - disse-lhe ele. - Vou levar-vos ao vosso quarto...

- Mas... e os meus hóspedes?

- Essa questão está resolvida. Dizei a Maximin e a Barbette que velem para que o vinho não lhes falte e vinde descansar. Estais a precisar muito!

De facto, o velho rosto, ainda tão belo apesar da longa cicatriz que lhe cortava uma das faces, ostentava o estigma de um cansaço infinito.

- Achas?

- Tenho a certeza! Ficarei convosco durante alguns momentos. Falaremos dela.

- És um bom filho! - disse Renaud, comovido, segurando no braço que o filho lhe oferecia. - Estou mesmo a precisar... Este quarto, agora, parece-me terrivelmente vazio! Ficas comigo durante a noite?

- Não, pai! O irmão Hervé e eu temos as nossas orações. Decidimos retirar-nos para a granja da lã para nos isolarmos e...

- Vigiar a vossa preciosa carga? É natural, num sítio cheio de gente. Já há muita gente a fazer perguntas acerca da tua presença pouco habitual, visto que um templário nunca sai do seu convento senão obedecendo a ordens superiores e tu vens de Paris!

- Compreendeis sempre tudo às mil maravilhas!

Um momento mais tarde, o cavaleiro juntou-se a Hervé junto do falso caixão. O sargento Aniceto tinha arranjado palha e cobertores para os três. Tratava-se de repousarem seriamente porque, na noite seguinte, teriam muito que fazer e dormiriam pouco: o castelo estaria vazio de estranhos e a Arca seria levada em segredo para onde ficaria bem escondida. Aulnay e o sargento deitaram-se, mas Olivier sentiu que, apesar da fadiga, não conseguiria adormecer e, sem incomodar os outros, que já roncavam com convicção, saiu para o pátio e dirigiu-se para a capela.

O templário sabia que nunca a fechavam e que a lamparina velava dia e noite. A sua intenção era rezar mais um pouco pela mãe. Uma maneira de se aproximar dela, como fazia sempre quando era pequeno e tinha alguma mágoa. Era o caso naquela noite, em que a dor era, talvez, mais encoberta, mas à qual se juntava uma indefinível sensação de mal-estar, como se a vida, da qual estava longe de se sentir cansado, se tivesse tornado pesada perante um horizonte que parecia fechar-se. As palavras de Barbette regressaram-lhe ao espírito. Ela dissera: “Não haverá mais batalhas, visto que já não há Terra Santa. Que servireis vós, nesse caso?” Naquela noite, o cavaleiro fazia a si próprio a mesma pergunta. O Grão-Mestre Jacques de Molay que, sem dúvida, não regressaria mais a Chipre, não cessava de reclamar uma nova cruzada, mas ninguém o queria ouvir. Sobretudo o Rei Filipe, preocupado com o seu reino empobrecido pelas duas cruzadas tão dispendiosas quanto inúteis de São Luís, entre as quais a última se saldara pela peste em frente de Tunis, pela sua morte e pela do seu filho João Tristão. O impassível soberano andava mais preocupado com os incessantes ataques da rica Flandres a Mons-en-Puelle, mas por quanto tempo? De qualquer maneira, era um assunto do Rei, não do Templo! A Inglaterra do rude Eduardo I mantinha-se tranquila e o Templo, que geria a fortuna dos seus Reis, possuía naquele país grandes bens. Assim, que restava a quem queria combater por Deus? Pedir para ir para uma das comendadorias de Aragão, ou de Castela, cujos Reis tentavam em vão repelir para as terras de África os guerreiros muçulmanos dos reis almóadas? Não era nada para quem sonhava reconquistar Jerusalém e seguir os passos do Senhor.

Olivier seguia lentamente pelo pátio quando uma sombra mais densa se destacou da dos edifícios e se lhe juntou. O templário viu, pelo grande manto em que vinha envolta, que se tratava de uma mulher e quis afastar-se, mas ela correu para ele:

- Sire Olivier! Escutai-me um instante, por favor.

Pela voz mais do que pelo rosto que a noite escondia, ele reconheceu Inês e fechou-se:

- Que fazeis aqui a esta hora, nobre dama? O vosso lugar não é junto do vosso marido? - perguntou ele e a sua voz dura era cortante como a lâmina de uma espada.

- Eu sei, mas tenho de vos falar, nem que seja só por um momento. É que eu pensei que nunca mais vos veria!

- E tínhamos, mesmo, de nos ver?

- Pela vossa parte talvez não, mas eu espero há meses, há anos, pelo impensável. E esse impensável aconteceu visto que estamos aqui os dois, frente-a-frente e sem testemunhas!

- Que temos nós a dizer um ao outro que, sem faltar à honra, precise tanto de um encontro secreto? Pela minha parte, não me parece que vos queira ouvir... E dou-vos as boas-noites!

- Não! Esperai mais um pouco! Só quero fazer-vos uma pergunta, só uma...

Os olhos de Olivier possuíam o privilégio de ver bem na escuridão. O cavaleiro distinguia o rosto da mulher e sobretudo o seu olhar, demasiado brilhante para que as lágrimas estivessem ausentes.

- Qual?

O templário ouviu-a respirar profundamente e depois perguntar:

- Foi por eu me ter casado que vos tornastes templário?

Era, portanto, aquilo? As mulheres decididamente, eram animais bem estranhos com a sua mania de chamar tudo a si.

- Onde fostes buscar essa ideia? Eu professei porque o desejava há muito tempo!

- Ora vamos, Olivier...

- Irmão Olivier, se fazeis favor!

- Não faço, não senhor! E, se já vos esquecestes, eu não! Lembro-me do torneio de Castellane, onde o vosso olhar me disse outra coisa. Pude ler nele que me acháveis bela e que me desejáveis. E eu também vos desejava! Oh, mais do que ninguém, desejei ser vossa mulher! Mas o meu pai, sem me prevenir, já me tinha destinado a Jean d'Esparron... e eu nunca soube porquê. Ele não era o mais velho, não era belo nem tão rico como as suas bravatas deixavam supor.

- Madame, peço-vos. Isso não me interessa!

- Agora já não, talvez, mas ousai dizer, vós, que não tendes o direito de mentir, que não me amáveis? Ninguém teve dúvidas quando se soube, mal o meu noivado foi anunciado, que escolhíeis o convento!

- O convento, não! O combate por Deus e pela Terra Santa, sim! Não é a mesma coisa! E vós não tendes nada a ver com uma decisão que tinha sido tomada anos antes. Perdoai-me a franqueza, se vos parece brutal!

O cavaleiro ouviu um riso desagradável, rangente.

- Franqueza? Não acredito. Vós amáveis-me, tal como eu vos amava!

- Sinto-me desolado, mas não vos amava. Pelo menos, como vós o entendeis! Vós éreis... e continuais muito bela - apressou-se ele a corrigir, avaliando o que a frase podia ter de ofensivo para a vaidade de Inês. - Não nego que não tenhais perturbado o meu corpo. Mas não o meu coração!

- Sois capaz de o jurar?

- Um templário nunca jura... e nunca mente, como dizíeis há um momento atrás. Perdoai-me!

Seguiu-se um silêncio, durante o qual Olivier teve a impressão de que Inês se encolhia sobre si mesma, como para reunir forças antes de atacar. Finalmente, a dama silvou:

- Nunca, ouvis? Nunca vos perdoarei! Maldito sejais!

Inês girou nos calcanhares para fugir a correr na direcção dos aposentos senhoriais, com o vento da tempestade que se aproximava a insuflar-lhe a capa, como se fosse um véu sinistro. No mesmo instante, um violento trovão estalou, ao mesmo tempo que o céu se iluminava com o clarão de um relâmpago fulgurante. Quase de imediato, a nuvem abriu-se por cima do castelo, deixando cair uma verdadeira tromba de água. Olivier correu a refugiar-se na capela como era sua intenção antes de se encontrar com Inês e recuperou a paz mal se ajoelhou junto da laje coberta de flores ainda frescas, sob a qual repousava a mãe. O templário mergulhou nela o rosto, tal como fazia, na infância, nas pregas do seu vestido e escutou enquanto o seu coração se acalmava...

Quando a chuva parou, foi dormir...

O castelo esvaziou-se no dia seguinte e Olivier não voltou a ver a mulher de Jean d'Esparron. Deixando para o pai os deveres mundanos das despedidas, levou a cabo na capela, com Hervé, as obrigações religiosas rituais de uma manhã templária e foi com um verdadeiro alívio que, ao sair, viu, sob um sol regressado, que Valcroze regressava com serenidade às suas ocupações quotidianas. Chegara a hora de proporcionar um local de repouso definitivo - pelo menos assim o supunha - ao que era, talvez, o maior tesouro da humanidade: as Tábuas da Lei gravadas pelo dedo abrasador de Deus.

Estando todos conscientes da importância que se ia seguir, a refeição do meio-dia foi silenciosa. Apenas depois de terem dado graças, o barão Renaud e Maximin pegaram nas candeias de azeite e numa provisão de archotes, que repartiram entre Olivier e Hervé. O primeiro não fazia a sua primeira descida às entranhas do castelo, mas Hervé, esse, sentia-se tremer de impaciência na soleira daquele desconhecido novo que ia descobrir: tal como o seu amigo, e talvez ainda mais, tinha o gosto dos enigmas, do segredo das coisas. Sentia-se atraído pelo mistério. O seu espírito vivo e a sua cultura tinham-lhe permitido o acesso a certos segredos do Templo, como a sua criptografia especial e o estranho código de sinais particulares que os sábios da Ordem tinham concebido para que as gerações futuras pudessem lê-los ao primeiro olhar. De que espécie, por exemplo, eram os esconderijos desta ou daquela comendadoria; como aceder-lhes e que poderiam eles esconder. Um conhecimento que não era proporcionado, bem entendido, a todos. Sobretudo àqueles cujas faculdades intelectuais não eram suficientemente desenvolvidas. Assim, perguntou, enquanto raspava, literalmente, o solo com o pé:

- O irmão Olivier disse-me, sire barão, que há no vosso castelo e sob os nossos pés vastos subterrâneos?

- É exacto, mas não é sob os nossos pés que está o mais interessante.

- Na capela, talvez? Não é raro elas encobrirem criptas...

- Há um subterrâneo, de facto, que vai dar ao que emerge das cozinhas e que muitos, na aldeia, conhecem. Aqueles que sabem da sua existência através dos pais, que vinham aqui refugiar-se quando o toque a rebate do sino anunciava bandos sarracenos. A sua vantagem, nesse caso, eram as falhas na rocha, que permitiam o arejamento, um lençol de água subterrâneo e a possibilidade de poderem chegar a duas capelas dos arredores. Mas o que eu vos vou mostrar é o verdadeiro segredo do castelo. Nem sequer tu, meu filho, o conheces. Segui-me!

Flanqueado pelos três homens, o barão saiu da sala de honra e dirigiu-se para a escada de caracol, mas em vez de a descer na direcção das caves, como os seus companheiros esperavam, começou a subi-la. Quando chegaram ao andar superior, Renaud seguiu o estreito corredor escuro para o qual davam as salas de habitação e seguiu-o até ao fim: uma porta baixa, que ele abriu, revelou uma divisão redonda, bastante desordenada, parecida ao mesmo tempo com a “livraria” de um mosteiro e um gabinete de alquimista, porque no meio de livros poeirentos mais ou menos bem alinhados em pranchas fixadas à parede, havia, em cima de uma mesa de pedra, uma quantidade sortida de retortas, jarros, potes e, por baixo do alto capuchão de uma chaminé apagada, um pequeno fogareiro levemente enferrujado.

- Estamos - disse o barão Renaud - no que era o gabinete de alquimia do barão Ademar de Valcroze, o primeiro e notável marido da tua mãe, Olivier, coisa que não ignoras. Aliás, conheces o local.

- Também não ignoro que se entregava a ciências ocultas, que sabia servir-se das plantas e que tratava muitos males. E a sua reputação - acrescentou ele com um meio sorriso. - Diziam que, se era tão rico, era porque sabia transformar os metais vis em ouro. Isso divertia-me e maravilha-me um pouco quando era criança porque não tinha o direito de entrar aqui onde o padre Anselmo, o nosso capelão, tentava redescobrir os segredos do barão Ademar.

- Ele desistiu depressa, se bem que venha aqui muitas vezes consultar estes livros, pelos quais nunca me senti atraído.

- Perdoai-me, sire Renaud - interveio Hervé, que já mexia nos livros - mas há aqui obras muito valiosas...

- É bem possível. O interesse real desta sala não reside nestes velhos livros nem nesta miscelânea científica. Primeiro, devo dizer-vos que só se chega a esta torre pelo sítio de onde viemos. No rés-do-chão armazenam-se as frutas e as reservas alimentares. Não há qualquer comunicação. Mas há isto...

Entrando na chaminé depois de ter pegado numa vassoura que se encontrava a um canto, afastou as cinzas que cobriam a lareira, levantou um braço, accionou qualquer coisa que não viram porque o manto o escondia e o fundo de pedra afastou-se rangendo horrivelmente e descobrindo um buraco escuro.

- Acendei os archotes! - ordenou ele, no que foi obedecido num silêncio e com uma rapidez que diziam tudo sobre a emoção e expectativa dos seus companheiros. Salvo Maximin, que já devia estar ao corrente. O que provocou uma ligeira reprovação da parte de Olivier:

- Por que razão nunca me mostrastes este esconderijo, pai?

- Eras demasiado jovem. Depois, fizeste-te templário e não quisemos, a tua mãe e eu, entregar ao Templo o verdadeiro segredo deste castelo: o segredo do barão Ademar.

- Mas, dir-se-ia que Maximin o conhece?

- Não te sintas ofendido por isso. Ele conheceu-o antes de nós. Na sua juventude, o velho barão de Valcroze tinha toda a confiança nele. Tens alguma coisa contra ele?

- Bem pelo contrário, e peço-lhe desculpa se a minha pergunta o ofendeu.

O sorriso do intendente mostrou-lhe que não havia qualquer ressentimento. Os archotes ardiam. Renaud pegou num e penetrou na passagem, um corredor talhado na rocha pela mão do homem que, após alguns passos, se alargava, transformando-se numa espécie de galeria natural, escavada, sem dúvida, pelas águas durante milénios. E aquela galeria era o oposto dos subterrâneos habituais. Em vez de mergulhar no subsolo, subia. Não durante muito tempo, aliás. Ao cabo de uma quinzena de toesas (1) desembocava numa gruta cujo ambiente arrancou um grito de surpresa aos dois templários: continha um verdadeiro tesouro bastante bizarro: havia objectos e moedas de diversas épocas: romanos, sarracenos e medievais e eram, muitas vezes, jóias ou pedras soltas.

- Incrível! - articulou Hervé d'Aulnay. - De onde veio isto tudo?

O barão Renaud explicou:

- Estamos perto do cume que domina o castelo. Os antigos Romanos ergueram ali um templo a Júpiter, deus das tempestades, do trovão e dos relâmpagos em que esta região é pródiga. Os sacerdotes que o serviam encontraram esta caverna e dissimularam nela as suas riquezas. Vedes além degraus talhados na rocha, que não levam a parte nenhuma. São o resto da escadaria que ia dar às entranhas do templo. Foi o barão Ademar que a fechou, assim como fez desaparecer a entrada cobrindo o que restava das ruínas com terra e arbustos espinhosos. O acaso permitiu-lhe, na adolescência, descobrir este esconderijo e a galeria que desembocava numa pequena falha no flanco da montanha. Foi ele que construiu a torre de maneira a que ela dissimulasse a entrada do buraco que ele mesmo escavou. Era um homem de grande saber, de grande curiosidade e dotado de uma força, senão prodigiosa, pelo menos largamente superior à média. Fez, portanto, desta sala, o seu tesouro, aumentado com alguns bens abandonados pelos piratas sarracenos... que eu não vos sei dizer como os arranjou. Devo à sua memória silêncio e discrição... apesar de a tua mãe, meu filho, me ter confiado certos pormenores...

 

(1) Uma toesa equivalia a seis pés, ou seja, mais ou menos dois metros.

 

O barão pôs-se, então, a tossicar, como se alguma poeira lhe tivesse entrado para a garganta, o que evitou quaisquer perguntas. Quando se acalmou, os seus companheiros compreenderam que mais valia mudar de assunto e Olivier perguntou:

- O irmão Clement estava ao corrente desta história?

- Claro. Quando a tua mãe deixou Valcroze para se juntar em Damiette à Rainha Margarida, revelou-lhe os segredos da casa antes de lhe confiar a gestão dos seus bens. Foi por isso que, com conhecimento de causa, ele escolheu este castelo para esconder o que vós trouxestes...

- Sire, meu pai, não estou a compreender! Devemos deixar a Arca no meio destas riquezas cuja proveniência, se não suspeita, é, pelo menos...

O cavaleiro procurou uma palavra que não saiu e foi Hervé quem, com um grande sorriso, se encarregou da conclusão:

- Por que não vos limitais a “suspeita”, já que os vossos pais são os herdeiros desse Ademar que parece ter sido, no seu tempo, muito engenhoso? Confesso que eu próprio acho o local... muito pouco respeitável!

- A Arca não vai repousar neste local. Caso o castelo seja atacado e, a despeito das precauções tomadas, o segredo da chaminé e da galeria seja descoberto, esta sala, aparentemente sem outra saída, será suficiente para acalmar a cupidez de quem aqui vier. Ninguém irá procurar seja o que for depois de ver isto...

- Porquê há mais, além disto?

- Há, e o irmão Clement não o ignora. Vinde ver! Seguido por Maximin, o barão dirigiu-se para o extremo mais recuado da caverna deslocando arcas e três ânforas seladas com cera que, aparentemente, não tinham nada que estar ali. O barão Renaud sopesou uma e sorriu.

- Guardo aqui alguns vinhos e licores preciosos que prefiro não deixar nas caves, expostos a uma cobiça sempre possível. Bebemos três em honra da tua investidura como cavaleiro, Olivier. As outras estavam destinadas ao teu casamento e aos baptizados que se lhe seguiriam, mas agora...

- Nunca se sabe! - disse o intendente com o afecto que sentia pelo seu senhor. - Além disso, os cacos das que partimos são bem úteis.

De facto, por trás das grandes ânforas de barro havia um tapete de detritos que ia dar à parede rochosa que formava, naquele local, uma saliência. Debruçando-se, Maximin afastou os detritos mais ou menos uns trinta centímetros, mostrando os estreitos rolos de ferro sobre os quais repousava o rochedo e os que, ao lado, duplicavam a superfície. Após o que ele e o barão empurraram o plano de pedra, fazendo-o deslizar à custa de um grande esforço, mas que valeu a pena: no lado de lá havia uma larga abertura, na qual, um pouco esbaforido, ele enfiou, erguendo bem alto o archote em que pegara de novo. Os que o seguiam descobriram, com uma admiração plena de respeito, uma gruta vasta como uma catedral, no fundo da qual se via o olho verde de um pequeno lago alimentado pelas águas caídas de alturas invisíveis. Formações calcárias compunham formas estranhas de uma grande beleza. Perto do lago, para onde se descia por uns degraus naturais bastante praticáveis, a rocha transformava-se numa grande mesa, para a qual Renaud apontou:

- Eis - disse ele - o local escolhido pelo irmão Clement! Foi o barão Ademar que a descobriu, mas deve ter servido de refúgio em tempos recuados... e talvez de santuário.

O barão apontou para umas formas bizarras esculpidas na rocha, representando cabras de longos cornos e algumas figuras humanas.

- É magnífico! - suspirou Olivier, ao mesmo tempo que Hervé, passado o primeiro espanto, se interessava pelo sistema de fecho. No interior, o rochedo tinha um grosso punho de ferro grosseiramente forjado, fixo com solidez e que, quando a “porta” era aberta, a mantinha bloqueada contra a muralha. Era o que permitia fechá-la de novo.

- Absolutamente incrível! - conseguiu ele dizer, por fim. - Isto é trabalho de quem?

- Do barão Ademar, naturalmente! Ele era, já vo-lo disse, um homem complexo e de uma inteligência capaz de apreender muitas coisas obscuras para os seres humanos menos versados do que ele nas ciências mais ou menos ocultas.

- Não há outra saída da sala? - perguntou Hervé.

- Que eu saiba, não, à excepção do escoamento - respondeu Renaud, mostrando o buraco no rochedo por onde corria a água. - É impraticável, mas esta é a água que alimenta o poço do castelo.

- Bem, suponho que não podíamos sonhar com um local melhor e, de qualquer maneira, se o irmão Clement o escolheu, para mim basta. Com vossa permissão, meu pai, viremos aqui esta noite depositar a Arca.

Não foi tarefa fácil, apesar do facto de serem quatro homens fortes, mais o barão, que os guiava e os iluminava. O mais difícil foi içar o grande sarcófago até ao antigo gabinete de alquimia por causa da configuração da escadaria, uma bela escada de caracol, entretanto, mas que obrigou muitas vezes os carregadores a colocarem a arca na vertical. O barão Renaud, de sobrolho franzido, vigiava a progressão, ao mesmo tempo que dava uma mão. Por fim, o pesado fardo foi depositado em frente da chaminé, onde se detiveram para recuperar o fôlego e limpar o suor. Então, Maximin perguntou, ao acaso:

- Não era possível no pátio, nem no fundo da escada, mas não seria mais fácil abrir esta caixa e levar o conteúdo isoladamente até à sala subterrânea? A madeira, só por si, já é bastante pesada.

- Tens razão - aprovou Renaud, que fechava com cuidado a porta da sala.

Alguns instantes mais tarde, a Arca, livre dos tecidos de linho destinados a evitar os choques, iluminava o gabinete poeirento com todos os seus dourados antigos. Ao vê-la, o barão não conseguiu dissimular a emoção ao pensar, não apenas no que ela continha, mas também na recordação daquele que fora em busca do seu conteúdo às entranhas do antigo templo de Salomão, em Jerusalém, e que o levara para as terras de Champagne: o irmão Adam Pellicorne, o comendador de Joigny, que tomara conta dele numa hora de grande perigo e que o levara para Paris, onde começara a sua vida... Renaud ajoelhou-se diante dela para uma oração fervorosa de boas-vindas, já que a sua casa seria, doravante, a sua guardiã e depois beijou a base antes de meter ele próprio, nos anéis previstos para o efeito nos flancos do relicário, um dos longos paus de cedro com cabeças douradas de leão nas pontas, que permitiam o seu transporte a dois homens, como ia ser o caso, ou a quatro quando os querubins nela eram fixados.

Olivier e Hervé meteram-lhe debaixo os ombros sólidos assim que passaram a abertura bastante baixa da chaminé, mas depois o caminho não apresentou mais dificuldades, sendo tudo mais aberto e mais amplo e alguns minutos mais tarde o fantástico tesouro repousava no tapete precioso com que Renaud cobrira o antigo altar pagão.

Ainda um pouco mais tarde, os querubins, livres da sua embalagem, retomaram o seu lugar nos entalhes de metal e Renaud acendeu, num defumador de bronze, os pedaços de incenso trazidos pelos templários, ao mesmo tempo que todos, conscientes da solenidade daquele instante, rezavam em voz contida para que o Senhor Deus guardasse para sempre as Suas Escrituras, longe da avidez dos homens...

Para que as trevas não engolissem depressa de mais aquela maravilha, acenderam duas velas de cera branca e depois, em silêncio, quase na ponta dos pés, os cinco homens retiraram. O rochedo voltou ao seu lugar, as ânforas e os cacos ao seu e viram-se de novo, um pouco esgazeados e sem fôlego, em frente da chaminé onde as cinzas, por sua vez, foram de novo espalhadas, suprimindo qualquer vestígio da passagem.

Faltavam o falso ataúde e as caixas. Alguns golpes de machado reduziram-nos a bocados que arderam no local até restarem apenas cinzas. Misturaram-nas cuidadosamente com as antigas e quando Renaud voltou a fechar a porta nada subsistia da estranha arca vinda de tão longe, tanto mais perigosa quanto mais sagrada. Nada senão, para aqueles que acabavam de cumprir aquela tarefa, uma recordação que nunca mais se apagaria.

Tinham penado muito para chegar ali e a noite já ia avançada quando desceram, por fim, às cozinhas onde Barbette, que ficara a rezar sem saber bem porquê, os esperava com malgas de vinho quente com ervas, para que se recompusessem.

Beberam em silêncio, em pé em frente da lareira, cada um imerso nos seus pensamentos. Foi Olivier o primeiro a falar:

- Com a vossa permissão, meu pai, partimos de manhã para darmos conta da nossa missão.

- Com a carroça? - perguntou Aniceto, cuja perspectiva não encantava.

- Somente até à comendadoria de Trigance, onde a deixaremos com os cavalos, tal como disse o irmão Clement. Em troca, dar-te-ão uma montada... conveniente para um cavaleiro. E regressaremos a Paris...

- Pelo mesmo caminho? - grunhiu Hervé. - A ideia de rever Richerenques e o seu comendador não me agrada nada.

- Devíamos os dois pedir perdão a Deus por este mau sentimento, mas... a mim também não. Ficai tranquilo! Em Carpentras mudaremos de estrada e seguiremos por Montélimar, Vaison e Valréas...

Antes de ir repousar um pouco na granja da lã, Olivier acompanhou o pai até ao quarto que fora dos dois esposos. O antigo cavaleiro de Courtenay parecia muito cansado, de repente, e o seu dorso, sempre tão direito, curvava-se sob um peso que o filho adivinhava sem dificuldade. De facto, o barão foi sentar-se com uma lassidão que não lhe era conhecida na poltrona de ébano de espaldar guarnecida de alegres almofadas verdes onde Sancie gostava tanto de se instalar para fiar ou bordar com as suas damas-de-companhia. Renaud perguntou:

- Tens mesmo de ir para Paris? É tão longe... e eu tenho tanto medo de nunca mais te ver!

- É ela que eu sirvo. Tenho de regressar... mesmo que me doa deixar-vos aqui... sem ela!

- Por que não regressa o irmão Clement para esta região e tu com ele? Ele já não é o preceptor da Provença?

- Também é visitador, o que faz com que vá a muitos sítios... e eu com ele! Não percais a coragem, pai! É possível que eu regresse em breve. E vós ainda tendes muitos anos pela frente.

- Sem a tua mãe amada, duvido! Ela era a minha força e a minha razão de existir. Não sabes a que ponto a amava! Desde o dia em que a conheci, creio... apesar de se terem passado muitos anos antes de me aperceber disso.

-        Éreis felizes juntos. Recordar-vos disso ajudar-vos-á a viver... assim como, talvez, este fardo que acabais de aceitar! Doravante, sois o guardião do maior tesouro do Templo. Graças a vós e aconteça o que acontecer, está salvo.

- De quê? Sabes? Sabes por que razão trememos - ela mais do que eu! - quando nos disseste do teu desejo de entrar para o Templo?

- Tínheis preferido ver-me casar e dar-vos descendentes. É normal!

- Não. Teria sido egoísmo e teríamos aceitado a tua escolha com o coração sereno se não tivéssemos a certeza de que, ao tornares-te membro da Ordem, corrias para a tua perda! Como o próprio Templo, aliás!

Olivier franziu o sobrolho, provocando uma ruga profunda na base do nariz:

- O Templo destruído? Ora vamos, isso é impossível! Ele estende-se por todo o Ocidente, tem mais cem cavaleiros do que o próprio Rei, mais riquezas e inumeráveis praças-fortesL.

- Será isso, provavelmente, a causa da sua perda. Escuta o que a tua mãe e eu nunca te contamos...

E Renaud retratou para o filho o dramático episódio a que tinham assistido, ele e Sancie, junto dos Cornos de Hattin, como se vira forçado a entregar a Verdadeira Cruz a Roncelin de Fos, o que este tinha feito dela, o Anátema lançado pelo eremita e o que se seguira, mas omitindo o que a dama de Valcroze sofrera às mãos do malik de Alepo. - Chegou a hora - disse ele, concluindo. - O Templo, não estando já na Terra Santa, já não tem razão de existir e o Rei que reina em França possui um olhar imóvel, cujas pálpebras não piscam e que, dizem, nunca se fecham.

- Por que nunca me contastes essa história terrível?

- Teria mudado a tua decisão?

- Não. Não me arrependo de nada e estou pronto a bater-me até ao fim pelo manto que uso, porque amo o Templo e até o venero de uma certa maneira...

Abandonando subitamente o tom meditativo por outro mais vigoroso, Olivier perguntou:

- Contastes essa história a mais alguém?

- O irmão Clement ouviu-a com o mesmo interesse que tu. Eu queria... esperava que ele te desencorajasse de seguires uma via tão perigosa! Mas ele recusou-se, bem entendido, como também recusou para ele mesmo. Talvez não tenha acreditado?

-Juraria que sim, se eu tivesse o direito de jurar. E pergunto a mim próprio se não será melhor procurar na vossa confidência a razão profunda desta missão que nada, pelo menos na aparência, justifica, senão o desejo de afastar o mais possível a Arca do domínio real!

- Que te disse ele?

- Mais ou menos o que acabo de vos repetir, e também que, para ele, não existe qualquer dúvida de que Filipe, o Belo, não gosta de nós. Admitindo, aliás, que possa haver uma razão.

- Ele deu-ta?

- Deu, se bem que não ignoremos muito do que se passa neste momento. As relações entre o irmão Jacques de Molay, o nosso Grao-Mestre, e o Rei não são as melhores, se bem que o irmão Jacques tenha sido padrinho do príncipe Luís, o herdeiro do reino, quando foi investido como cavaleiro. Para além da cruzada que não cessa de reclamar, o nosso Grão-Mestre recusou ao Rei, assim como ao Papa, a fusão com os Hospitalários, fusão que estes desejavam, tanto mais que se lançaram à conquista da ilha de Rodes para nela se estabelecerem.

- Não é má ideia - arriscou o barão. - Ouvi dizer que em Chipre as duas ordens rivais tinham tendência para se estorvarem...

Olivier fez um gesto, como que varrendo a observação com um certo desdém:

- Isso é com eles! O Grão-Mestre dos Hospitalários, Folque de Villaret, está decididamente virado para o mar e já mandou construir galeras. Talvez porque, no Ocidente, os bens do Hospital são menos importantes do que os nossos. Aliás, no Mediterrâneo, nós já temos a ilha de Maiorca.

Renaud, que observava o seu filho com uma atenção mais aguda, franziu as sobrancelhas:

- Sabes o que é que o homem vulgar mais reprova no Templo? O orgulho. Dir-se-ia que tu tens uma boa parte.

- Nós somos todos assim quando se trata da Ordem - respondeu Olivier que, entretanto, corara. -Amamo-la demasiado para não sentirmos orgulho. A fusão com os Hospitalários não agradaria a nenhum de nós.

- Não me cabe a mim julgar o bom fundamento da vossa política, mas se é isso que separa o vosso Grão-Mestre do Rei, não é grande coisa...

- Não. Não é tudo. A última vez que o irmão Jacques veio a França, soube que o tesoureiro de Paris, o irmão Jean du Tour, consentira um empréstimo importante a Filipe IV Coisa que não tinha o direito de fazer. Assim, o Rei foi obrigado a devolver o que já lhe tinham adiantado.

- Eu pensava que éreis depositários do tesouro real?

- E somos, mas o Rei precisa muitas vezes, devido à sua política, de grandes quantias de dinheiro e as contas ainda não foram feitas. Além disso, está em dívida connosco por lhe termos salvo a vida o ano passado. Ele joga muitas vezes com a taxa de câmbio das moedas e quando andava a passear por Paris, como gosta de fazer, levantou-se um motim contra ele. Talvez tivesse sido morto se o Templo não lhe tivesse aberto as portas. Ficou connosco dois dias, qual javali acossado por caçadores. Eu estava lá e bem o vi...

Renaud levantou-se bruscamente e agarrou no filho pelos ombros:

- Dois dias? Ele ficou convosco dois dias? A vossa casa não tinha homens de armas?

- Tinha, mas...

- Sois loucos, por minha fé! Permitistes, durante dois dias, que o Rei avaliasse a vossa força inútil em vez de o levardes para o palácio da Cite solidamente enquadrado pelas vossas lanças e espadas? Um soberano tão temível como ele? O vosso orgulho atingiu o auge, suponho, com o espectáculo da sua humilhação?

- Não foi bom ele ter podido avaliar a força da Ordem? Nós não dependemos dele. Apenas o Papa...

- Loucos! Verdadeiros loucos! - gemeu Renaud, deixando-se cair na sua cadeira com a cabeça metida nas mãos. - O irmão Clement tem toda a razão em esconder o que o Templo possui de mais precioso, porque estais perdidos! O velho guardião da Verdadeira Cruz também tinha razão. O Rei nunca vos perdoará!

Um pouco atrapalhado, Olivier ajoelhou-se em frente do seu pai para lhe afastar as mãos e procurar o seu olhar:

- Pai, suplico-vos, não deis demasiado valor a essa velha profecia! Não nego que o irmão Clement tenha agido de boa-fé ao tomar certas precauções, mas Filipe não pode nada contra nós. Nós podemos reunir rapidamente um exército de setenta mil homens, pelo menos, ao passo que ele dispõe apenas de um terço...

- Se ele sabe isso, ainda é pior! Peço-te, meu filho, fica aqui com o teu amigo d'Aulnay. Não sois indispensáveis ao ponto de regressardes imediatamente. Ficai um pouco para ver no que isto tudo dá!

- Não, meu pai, é impossível e vós sabeis que assim é. Temos de partir. O irmão Clement deve estar ansioso por saber se nós levamos a bom porto a nossa missão. Além disso, ele gosta de nós! Se pressentisse um perigo imediato, creio que nos teria dito para nos dirigirmos à Casa provincial de Ruou, esperando ali outras ordens, ou até a sua vinda. Quanto a nós, é uma questão de honra! Que faríeis vós no meu lugar?

Renaud ergueu para o filho o seu olhar negro, que parecia de repente ainda mais sombrio, mas onde se viam algumas lágrimas...

- Tens razão - suspirou ele. - Perdoa-me o que te pode parecer um apelo à deserção! Coisa de que somos incapazes, tanto tu como eu... Mas já estou velho e só te tenho a ti!

O barão pôs-se de pé com esforço e abraçou Olivier:

- Vai dormir! Orgulho-me de ti...

Durante a manhã do dia seguinte, os cavaleiros e o seu sargento dispunham-se a partir enquanto, no patamar, o barão Renaud, apoiado numa bengala, observava os preparativos. Aniceto tinham retomado o seu lugar na carroça e os dois amigos acabavam de subir para a sela quando, do alto da torre de entrada, o vigia anunciou que um grupo de cavaleiros subia na direcção do castelo e depois, quando os viu melhor:

- Cavaleiros do Templo! - gritou ele.

Imobilizaram-se todos. A grade estava levantada e a porta aberta. Por um instante, o coração de Renaud bateu ao ritmo da esperança: e se fosse o irmão Clement? O barão já se preparava para descer ao seu encontro quando, em formação perfeita, dois a dois, os templários entraram no pátio. A cabeça seguia o seu chefe, um comendador que Olivier e Hervé viram chegar com um espanto do qual não estava isenta a inquietação: era o comendador de Richerenques, Antonin d'Arros. Que vinha ele fazer a Valcroze?

- Repara quem vem logo a seguir a ele! - disse Hervé. - Não é Huon de Mana, a pequena serpente?

Olivier não respondeu. O cavaleiro olhava para o pai que, com o rosto subitamente crispado, voltava a subir os degraus do patamar onde se imobilizou, branco de cólera porque, para ele, o velho templário que avançava com o punho na anca e um sorriso mau na boca enrugada não se chamava Antonin d'Arros...

 

                               DOIS ÓDIOS

Sem parecer prestar atenção ao castelão quase petrificado no patamar, o recém-chegado dirigiu o seu cavalo para a carroça e para os seus guardas.

- Eu sabia que vós tramáveis uma vilania qualquer! - disse ele com um desprezo que desencadeou nos dois homens o mesmo movimento perfeitamente síncrono de levar a mão à espada. - Não conseguistes enganar-me: roubastes bens do Templo em proveito da vossa família! Estais presos!

Sob o aço do elmo, acendeu-se um fulgor verde nos olhos de Olivier, que terminou o gesto de desembainhar a espada:

- Nós não roubamos nada e não tendes o direito de nos prender! Cumprimos uma missão que nos foi confiada pelo irmão Clement de Salemes, preceptor da Provença e visitador de França...

- ... é vosso amigo! O que explica tudo!

- Não explica nada e vós mentis com a boca toda! Aliás, quem sois vós para ousardes duvidar dos propósitos de um alto dignitário do Templo?

- Não sejais imbecil! Sabeis muito bem que sou o irmão Anto-nin d'Arros, comendador de Richerenques...

- É falso! - troou a voz ainda poderosa do barão Renaud. - Esse homem é o maior inimigo do Templo porque - ficais a saber! - queimou a Verdadeira Cruz e, por esse crime, foi amaldiçoado pelo seu guardião. Não se chama Antonin d'Arros, mas sim Roncelin de Fos!

Uma dupla exclamação saudou aquela afirmação, que o acusado não negou. Pelo sorriso de lobo que lhe fendeu em dois o rosto descorado pela velhice, dir-se-ía que até lhe agradou e, virando o seu cavalo para aquele que o atacava, aproximou-se dele lentamente:

- Ainda tens bons olhos para a idade, Renaud de Courtenay!

- Tu és mais velho do que eu!

- E possível, mas não os sinto! Sim, sou Roncelin de Fos... mestre Roncelin para uma grande parte da Ordem, onde tenho mais poder do que tu imaginas. Aqueles que vêm comigo sabem-no e são-me dedicados. Por isso, quer queiras quer não, vamos apoderar-nos do teu filho e do seu companheiro...

O longo ranger da grade, que baixava, cortou-lhe a palavra. O templário virou-se e disse, trocista, com um encolher de ombros:

- Teremos que a levantar de novo! Somos um grupo poderoso e bem armado, ao passo que vós sois quantos? Um punhado às ordens de um velho senil...

- Olha bem! - grunhiu Renaud com o braço estendido para o palanque, onde cada abertura deixava ver um arqueiro pronto a largar a sua flecha. Dessa vez, Roncelin desatou a rir. A um sinal seu e com uma rapidez incrível, quatro dos seus homens atiraram-se a Olivier, a Renaud, a Hervé e deitaram-nos por terra. Num abrir e fechar de olhos, os dois cavaleiros viram-se ameaçados com um punhal na garganta:

- Atirai! Berrou Olivier, louco de raiva.

- Não atireis! - gritou o seu pai.

As flechas partiram, no entanto, mas as mãos dos arqueiros tremiam, talvez, porque nenhuma atingiu o alvo.

- Bando de desajeitados! - rugiu Olivier. Renaud estendeu uma mão ao aproximar-se dele:

- Paz, meu filho! Nós não somos da laia desta gente. Que queres tu, no fim de contas? - acrescentou ele, virando-se para o seu inimigo.

- Já to disse: prender estes dois e castigá-los como merecem. Mas, primeiro, quero ver o que contém esta carroça!

Com a tranquila imprudência de quem se sabe mais forte, o comendador de Richerenques pôs pé em terra e aproximou-se do veículo que se encontrava no meio do pátio com Pons Aniceto imóvel na boleia. Alguns dos “cavaleiros” de Roncelin já tinham tomado posse dos pontos estratégicos, como a forja, ou o armeiro, fazendo entrar à força no interior os que ali trabalhavam. Alguns outros tiravam a enorme caixa que substituía o falso ataúde. Abriram-no num abrir e fechar de olhos, revelando o que ela continha: algumas pedras de cantaria envoltas em lã. Com um gesto imperioso, o templário traidor levou até elas os dois prisioneiros:

- Estranho, não? - disse ele em voz suave. - Que fizestes do pobre irmão de Fenestrel que tanto veneráveis e que não abandonáveis de dia ou de noite? Creio bem que nunca existiu senão na imaginação brilhante de Clement de Salernes e que, em vez de um cadáver, devia haver aqui dentro objectos bem mais preciosos. Aliás, a arca não é a mesma. Que fizestes dela?

- Que se faz a um ataúde? - ironizou Hervé. - Enterra-se e foi o que fizemos... em Gréoux, como no-lo disseram.

A bofetada, dada com a manápula, atingiu-lhe a face, fazendo correr o sangue:

- Mentis! Vós nunca fostes a Gréoux! Vinde aqui, irmão Huon e explicai a estes dois ladrões o que eles fizeram.

O jovem avançou, tremendo visivelmente e, com os olhos no chão, sem olhar para ninguém. No entanto, não evitou a escarradela que Olivier lhe atirou, revoltado de nojo.

- Com que então, não passas de um espião, miserável? E a comédia que representaste, foi-te ensinada pelo teu senhor?

- Eu... não tinha outra hipótese... eu...

- Chega! - cortou Roncelin. - Evidentemente, ele limitou-se a obedecer-me! Quando fugiu de vós, foi, primeiro, a Manos-que, onde encontrou o que eu tinha mandado preparar para ele: uma mula sólida e uma cogula de monge, graças aos quais pôde seguir-vos de longe, deixando à sua passagem os sinais que eu lhe tinha ordenado para deixar. Quanto chegastes aqui, foi ter comigo onde já nos encontrávamos porque, para vos dizer a verdade, nós pusemo-nos a caminho dois dias depois de vós. Era o suficiente dada a lentidão obrigatória da vossa marcha... E agora, ides dizer-me o que transportáveis e onde o pusestes.

- Trata-se de um segredo que não nos pertence - respondeu Olivier. - Um segredo do Templo, e nós estamos obrigados à ordem que nos foi dada pelo irmão Clement e pela breve papal que lhe está junta. Só prestamos contas a ele e a Sua Santidade Clemente V.

- Uma breve papal? Que dizeis? Que interessante! E pode saber-se onde está ela?

- No interior da minha cota de armas, numa bolsa. Dizei à vossa gente que me largue!

- Não é preciso. Revista-o, Huon! Vamos! Depressa! Visivelmente aterrorizado pelo receio de ser escarrado de novo, o interpelado fez o que lhe mandavam e não teve qualquer dificuldade em encontrar os pergaminhos, que estendeu ao comendador. Dessa vez, Olivier contentou-se com um sorriso de desprezo:

- Um templário, isto?

- Pergunto a mim próprio se haverá algum neste bando alegre - acrescentou Hervé.

- Se calhar, são os únicos, porque conhecem a Verdade! - disse Roncelin, sentencioso.

O que provocou a resposta indignada de Renaud:

- A que renega Cristo, odeia o Crucifixo e o pisa aos pés? É a isso que chamais Verdade? Será esse vosso evangelho diabólico a causa da vossa perda! Infelizmente, toda a Ordem soçobrará convosco...

- Irritais-me com essa velha história - disse o outro - e eu faria bem em matar-vos para não vos ouvir falar mais!

- Não te faças rogado, bandido! Mata-me, fazes-me um favor. Poderei, então, juntar-me à minha doce mulher sem o pecado mortal do suicídio!

- A dama de Valcroze morreu?... Oh, é verdade - acrescentou ele, batendo na testa. O irmão Huon disse-me que à chegada dos vossos dois ladrões, os estandartes, no alto das torres, tinham um fumo negro! Foi por causa disso, suponho?

- Foi sepultada ontem...

- Por que lhe respondeis, meu pai? - exclamou Olivier, - Em vez disso, intimai-o a retirar-se com estes pretensos cavaleiros, que estão em vias de se apoderar do castelo!

De facto, os homens do dito irmão Antonin, aproveitando-se da surpresa criada, não pela sua chegada, mas pela sua súbita atitude agressiva, tinham neutralizado sem grande dificuldade os servos e os poucos soldados que compunham uma defesa que a paz, de que gozava a região há já alguns anos, mal justificava. Alguns tinham tentado resistir, mas tinham sido mortos e os seus cadáveres, atirados do alto das muralhas, jaziam agora no meio do pátio. Atados como estavam, Olivier e Hervé só podiam assistir, impotentes e com a raiva no coração. Roncelin de Fos virou-se para eles:

- Que não entregarei... senão quanto tiver o que quero! Portanto, a vossa mãe acaba de ser sepultada? Na capela que vejo além, suponho? E, se calhar, aproveitastes para esconder ao mesmo tempo, no mesmo local, esse misterioso carregamento que eu imagino muito precioso?

- Imaginais mal - fulminou-o Olivier - acreditando-nos tão vis que fossemos capazes de usar a nossa dor...

- Veremos...

- Deixai repousar a minha mãe, demónio! - gritou Olivier ao vê-lo dirigir-se para a capela, sem que aquele lhe concedesse a menor das atenções.

- Acalma-te, peço-te! - sussurrou Hervé, inquieto por ver o seu amigo, sempre tão calmo, mesmo tão frio, num tal estado de raiva. - Este homem é um monstro e a tua cólera inútil só lhe dá prazer...

- Deus Todo-Poderoso, escuta-me! - berrou o filho de Sancie. - Impede este miserável de profanar os nossos túmulos!

- Ele ouviu! - disse, em resposta, uma voz grave...

Na soleira da capela apareceu o padre Anselm, erguendo nas duas mãos uma grande hóstia, cuja brancura foi exaltada por um raio de sol:

- Vade retro, Satanás!- gritou ele. - Para trás, filho da iniquidade! Demónio encarnado! Não sujarás este local sagrado com a tua pessoa infame!

Se bem que de estatura mediana, o bom padre Anselm parecia, subitamente, imenso, e todos olharam para ele com uma espécie de terror sagrado, como se ele se tivesse, subitamente revéstido de uma majestade divina. Passou, por aqueles que estavam no pátio, um murmúrio e Roncelin de Fos ouviu-o. O comendador soube, pela intensidade, que tinham sido os seus homens a emiti-lo e que, assim, mais valia não ir demasiado longe. E permanecer prudente.

O templário traidor recuou, fazendo uma vaga careta parecida com um sorriso:

- Quem fala em sujar, padre? Eu só ia visitar a capela...

- Não creio que seja de grande interesse para ti! Em nome do Senhor, cujo corpo tenho aqui, ficas a saber que ela abriga apenas os despojos mortais dos senhores destes lugares! E agora liberta os que deténs com desprezo por todas as leis! Eles, aqui, estão em sua casa...

- Esperai mais um pouco. Preciso de falar com eles. Roncelin inclinou-se profundamente e reuniu-se aos seus homens aos quais, com um gesto, ordenou que os levasse para o interior do castelo. Ele próprio quis segurar no barão pelo braço, mas este afastou-se com nojo...

- Que mais queres?

- Sempre a mesma coisa: saber onde está o conteúdo da carroça. Além disso... acontece que tenho fome e os meus cavaleiros também. Vamos ver o que vale a tua hospitalidade...

Levaram os prisioneiros para a grande sala, onde o “irmão Antonin” se instalou confortavelmente sob o seu olhar indignado. Indignado e incrédulo perante os rostos fechados e ameaçadores que não podiam pertencer a templários, a irmãos, por outra palavra, e apesar de Olivier já não ignorar nada acerca daquele que o seu pai, não sem razão, considerava como seu inimigo mortal, o cavaleiro não conseguia compreender por que magia satânica aquele homem que a idade devia ter virado para Deus e tornado razoável, conseguira afastar a totalidade da sua comendadoria daquilo que era ponto de honra do Templo: as regras puras da cavalaria, a extrema cortesia, a protecção dos fracos e a preocupação constante de agradar a Deus, ao Seu Divino Filho e a Nossa Senhora. Aqueles homens tinham feições de bandidos, comportavam-se como tal e ver o grande manto branco com a cruz vermelha estampada sobre tais ombros dava-lhe vontade de vomitar...

O próprio castelo manifestava, à sua maneira, a sua reprovação. Desse modo, foi impossível pôr a mão em Barbette nem em nenhum dos da cozinha, servas ou moços de cozinha. Tinham desaparecido todos. Os fogões estavam apagados, Só restava a velha Honorine. Sentada por baixo da chaminé cujas cinzas maculavam a bainha do seu vestido preto, com um rosário entre os dedos deformados pelo reumatismo, rezava e chorava em silêncio com o olhar no vazio. Tiraram-na do sítio onde estava e puseram-na na rua.

- Elas devem ter tido medo e esconderam-se num sítio qualquer - cochichou Maximin cujo olhar, aparecendo por baixo das pálpebras, via as coisas sem ter o ar de estar a olhar. - Não é costume homens de Deus, cavaleiros, conduzirem-se assim...

- Quem és tu? - perguntou Roncelin.

- O intendente - disse Renaud - Bem, ele deve saber onde está tudo... Presunto, pão e queijo servem. Traz essas coisas para aqui e dá as chaves da adega ao irmão Gontrand! Ele sabe escolher bom vinho! Ao mesmo tempo, verá se não há nada de especial nas caves!

Era preciso obedecer. Os “templários” alambazaram-se à vez sob o olhar do chefe instalado na cadeira senhorial no topo da longa mesa preparada à pressa. Sentado à parte, perto da chaminé apagada, o barão evitava olhar para o seu filho e os seus dois companheiros, que tinham amarrado a uns pilares. Em determinado momento, Roncelin ordenou ao “irmão Huon” que lhes desse comida e bebida, mas Olivier atirou-a ao chão:

- Não te mexas! Nós não queremos nada! Não partilhamos o pão e o sal com malandrins!

- Estais enganado, sire Olivier! Ides precisar de forças, vós e os vossos companheiros...

- Deus providenciará!

- Como queirais! Eh lá, intendente! Estou a sentir um pouco de frio e esta chaminé devia estar acesa! Faz-nos um bom fogo para aquecer toda a gente!

- Eis uma coisa que não pressagia nada de bom - disse Hervé entredentes. - Esta grande necessidade de calor não me diz nada de bom!

- Nem a mim, mas com a ajuda de Deus tudo é possível... Entretanto, a voz de Renaud erguia-se, mordaz, tão carregada de ódio que Olivier quase não a reconheceu:

- Transformaste-te num verdadeiro friorento, Roncelin de Fos! Queres habituar-te, sem dúvida, ao fogo do inferno que te espera, mas que não esperará muito mais tempo! Não passas de um velho caduco e está próximo o dia do Julgamento que te condenará!

- Não tenhas tanta certeza! O Senhor tratará comigo de potência para potência. E tu não sabes nada da que eu adquiri ao longo dos anos...

- Não, nem quero saber. Isso ajuda-te a dormir à noite? Não ouves a voz terrível que te amaldiçoou?

Branco como a cal, Roncelin empurrou para trás a cadeira, que caiu, e quase se atirou a Renaud, mas parou e encolheu os ombros:

- Atem-no também a ele! - ordenou e alguns segundos mais tarde o barão era solidamente atado à sua cátedra.

Renaud não opôs qualquer resistência. De que serviria? A decisão do seu inimigo estava tomada e os homens do castelo nas mãos daquela gente de quem, devido às relações sempre corteses mantidas com as suas casas dos arredores, não tinham desconfiado. O barão fixava o fogo que ardia na chaminé, perguntando a si próprio qual dos cativos teria a primazia. Ele próprio para obrigar Olivier a falar, ou Olivier para obrigar o pai a revelar o esconderijo? E o ancião rezou intensamente para que o supliciassem a ele. Estava tão perto do fim - que desejava, aliás! - e Olivier, na força da vida, devia ter a alma suficientemente temperada para conseguir vê-lo sofrer. Mas, se torturassem Olivier, Renaud temia não ter forças para assistir, sem confessar, ao seu suplício. Ele era seu filho, filho de Sancie, carne da carne de ambos e tudo o que lhe restava. Então, rezou com fervor para que Deus lhe concedesse a graça de o chamar à Sua presença antes que a provação começasse...

Curiosamente, Roncelin não parecia apressado. Meio deitado na poltrona senhorial, virara-a para o fogo e aquecia-se com os olhos meio fechados, como um gato satisfeito. Estava sozinho, já que os seus homens tinham recebido a missão de vasculhar o castelo do rés-do-chão ao telhado. Era possível ouvir o eco da algazarra e Renaud sentiu a dor a invadi-lo de novo. Não que tivesse grande apego aos bens terrestres, mas Sancie amava aquele castelo. Providenciara-lhe tantos cuidados, tanto amor, até, para que os seus se sentissem bem nele! Que restaria depois da passagem daqueles vândalos? As lágrimas deslizaram-lhe, então, pelas faces, porque tinha a impressão de que Sancie morria uma segunda vez...

Aquilo durou muito tempo. Até ao regresso dos pesquisadores visivelmente de mãos a abanar.

- Não encontramos nada - disse aquele que tinha o ar de ser o braço direito de Roncelin, um tal irmão Didier - mas é preciso não perder a esperança: descobrimos a entrada para uns grandes subterrâneos, que os meus homens já estão a explorar...

- Oh, eu não perco a esperança! Continuai as buscas, mas não por muito mais tempo. É inútil cansar os nossos irmãos mais do que o necessário, quando temos aqui guias que eu não desespero de convencer a ajudar-nos.

- Devíeis vir vós mesmo ver, meu irmão! A vossa experiência...

- Seria preciosa, eu sei, mas também sei que a humidade subterrânea é nefasta para as minhas articulações, que eu devo preservar para que possam servir o meu espírito o mais possível para maior glória da nossa causa!

- Nesse caso, por que não dais a ordem de fazer falar aqueles? Ganharíamos tempo e não cansaríamos os nossos irmãos. Os subterrâneos parecem bastante complexos e estendem-se por uma área muito grande!

- Não há pressa! Temos tempo e algo me diz que aqueles, como vós dizeis, ainda não estão prontos para se mostrar conciliadores!

- E quando se mostrarão?

Olivier resistiu à tentação de lançar um “Nunca!” tão provocador quanto em vão, até prejudicial, porque poderia excitar o furor daquela gente e levá-los a uma decisão rápida e extrema. O templário conteve-se, portanto, esperando pelo que iria dizer aquele “mestre Roncelin”, cuja autoridade não sabia de onde vinha e que, para ele, não passava de um malfeitor.

- Talvez amanhã! Parece-me que uma boa noite de reflexão é capaz de os levar a tornarem-se sensatos.

- Não nos põem a assar? - cochichou Hervé. - Que grandeza de alma!

- Não lhe chamaria isso... - respondeu Olivier, preocupado com o pai cuja respiração parecia sofrer com as cordas demasiado apertadas.

O que se seguiu foi penoso e convenceu-o de que aquela gente não era composta por verdadeiros templários porque, chegada a noite, recomeçaram a empanturrar-se. Dessa vez sem oferecer o que quer que fosse aos prisioneiros, mas, sobretudo, sem dizerem nenhuma das orações a que a Regra obrigava os irmãos da Ordem. Não foram à capela - na qual, aliás, o padre Anselm se barricara para impedir qualquer tentativa de sacrilégio - não rezaram nenhum dos numerosos PaterNoster obrigatórios, nenhuma pequena Avé-Maria e nem sequer o Benediáte antes de se lançarem sobre a comida. Dessa vez, Olivier não se conteve:

- Vergonha para vós, que esqueceis o essencial do Respeito! Pensais que, esquecendo Deus, Ele também se esquece?

- Nós damos a Deus o que devemos dar-Lhe - disse Roncelin em tom altivo - e não vos cabe a vós repreender-nos. Pensai na sorte que vos espera. Estais prontos a falar?

- Não temos nada a dizer!

- Nesse caso, fazei como eu. Tende paciência! Quando estiverdes dispostos a revelar o local onde escondestes a arca, soltar-vos-emos...

- Para fazerdes o quê? - perguntou Hervé. - Se vos dermos o que quereis, matar-nos-eis a seguir, para que o Grão-Mestre nunca venha a saber da vossa empreitada. Pagá-lo-íeis caro, não é verdade?

Roncelin não respondeu. O templário terminou a sua refeição, ordenou os turnos de guarda, mandou acrescentar uns cavacos à lareira e sem se preocupar mais com os prisioneiros instalou-se tão comodamente quanto possível na sua cátedra, na intenção visível de dormir um pouco.

A voz de Olivier elevou-se de novo:

- Rezemos, meus irmãos!

E começou o ofício das Completas, que é a última das horas canónicas e que se canta à noite, antes do repouso. Apoiada pelas dos seus companheiros, a sua voz elevou-se, ampla, poderosa e quente, plena, sentia-se, das graves sonoridades que se bastavam a si mesmas, não necessitando da assistência de nenhum instrumento de música. Renaud escutou-o com lágrimas nos olhos, mas Roncelin não achou graça nenhuma:

- Calai-vos, se não quereis que vos amordacem! - gritou ele. - Quero descansar!

Olivier obedeceu, mas para começar em voz baixa, rendido por Hervé e depois pelo sargento, uma longa série de orações, criando assim uma espécie de zumbido que, aos poucos, adormeceu o seu inimigo. Os roncos deste tomaram uma amplitude que permitiu às suas vítimas conversar sem o acordar:

- Não consigo desatar os nós - disse Hervé. - Estão muito apertados e, se me mexo, ainda os aperto mais...

- Comigo é a mesma coisa - disse o sargento Aniceto. - O que me dá mais raiva é que tenho uma faca na minha túnica, mas não consigo lá chegar.

- O que eu gostaria de saber - disse por sua vez Olivier - é o que fizeram eles a Maximin! Não o vimos esta noite e eles serviram-se sozinhos.

Apenas o barão se mantinha calado, mas estava demasiado afastado dos outros três e teria sido preciso falar mais alto. Muito direito na cadeira onde estava amarrado, parecia absorto, o que inquietou Olivier: no decurso daquela noite interminável em que sofreram de fome, de sede, de cansaço e da mordedura das cordas, pôde ver descair, pouco a pouco, a cabeça do ancião. Mas quando o galo lançou o seu grito no pátio, anunciando um dia que ia ser mais do que doloroso, teve esperança de que a morte já tivesse passado, evitando-lhe assim horríveis sofrimentos físicos e morais. Infelizmente, quando o seu carrasco, que tivera, talvez, o mesmo pensamento, o abanou, Renaud ergueu a cabeça e não voltou a baixá-la... Nada lhe seria poupado, portanto.

À sua volta, o castelo acordou, mas não como habitualmente. Nada de sons provindos da forja, nada de gritos por parte dos servos e nem sequer por parte dos animais - mas o tilintar das armas e o ranger da roldana do poço, de onde alguém tirava água. Vozes de homens, também, respondendo ao seu senhor das diversas partes do castelo que, do patamar, os interrogava com voz forte. O Sol nascia. Reavivaram o fogo da Grande Sala. Trouxeram mais comida. Os homens comeram, beberam e depois Roncelin aproximou-se dos seus prisioneiros, que observou um a um com o seu sorriso mau:

- Sempre decididos a guardar silêncio, meus bons irmãos?

- Sempre! - grunhiu Hervé. - E que o Diabo vos estripe!

- Não é a sua primeira maldição - observou Olivier, encolhendo os ombros. - Não é coisa que o aflija.

- Um velho louco e um jovem presunçoso! Vejamos por onde iremos começar... Primeiro a idade, talvez? Dir-se-ia, meu caro barão, que tendes aqui um filho afectuoso? Seria interessante ver até que ponto ele suportará ver-vos sofrer!

Olivier estremeceu ao ver os preparativos a que se entregavam os esbirros de Roncelin. Da cozinha trouxeram o grelhador, que colocaram na lareira em cima das brasas para assar os pequenos pedaços de carne. O horror que aquilo deixava prever submergiu Olivier. O cavaleiro retorceu-se, tentando libertar-se das cordas que lhe prendiam os músculos, berrando a plenos pulmões:

- Não ides fazer isso? Espécie de...

- Ora vamos, ora vamos! Onde está a cortesia tão cara ao Templo e de que vós tanto gostais, meu irmão? Mas é claro que sim! A menos que faleis, vou assar o vosso pai debaixo dos vossos olhos depois de o ter untado com o vosso melhor azeite...

- Não o oiças, meu filho! Fecha os ouvidos e os olhos! Eu estou velho e o meu coração não suportará o sofrimento durante muito tempo... Apesar de o caminho ser terrível, sinto-me feliz por ir ter com a tua mãe!

- Chega de discursos! Vamos embora! Vocês aí, peguem no barão e dispam-no!

Mas ninguém se mexeu. Talvez por causa da tarefa ignóbil que era exigida aos homens presentes - dos quais um apenas, aliás, o irmão Didier, era cavaleiro, pertencendo o resto à categoria dos que serviam a Ordem, um sargento e dois turcopoles, morenos e impassíveis. Uma breve esperança acendeu-se em Olivier. Foi a Didier que se dirigiu:

- Vós, que trazeis essa cruz vermelha que eu também uso, ides aceitar desonrar-vos diante de Deus que vos vê e a Quem prestareis contas, um dia?

Didier hesitava, desviava o olhar, mas foi apenas por um instante:

- Saí, meu irmão, se não vos sentis disposto. E ide juntar-vos aos outros - grunhiu Roncelin. Os que estão aqui chegam.

O templário saiu a correr. Desataram Renaud e tiraram-lhe a roupa antes de o atarem de novo, enquanto um dos negros atiçava o fogo e um segundo se aproximava com um frasco de azeite. O estômago vazio de Olivier retorceu-se com uma náusea penosa que o cavaleiro dominou antes de gritar, quase fazendo estoirar os pulmões e as cordas vocais:

- Socorro, Deus Todo-Poderoso! Socorro! Respondeu-lhe o fragor das armas, os relinchos dos cavalos e alguns gritos. Roncelin lançou-se para a porta e levou com ela em pleno rosto, o que o atirou por terra, ao mesmo tempo que um grande templário, totalmente armado, de elmo na cabeça e de espada na mão entrava na sala, imediatamente seguido de vários cavaleiros. Bastou-lhe um olhar para compreender o que se estava a passar. Com a ponta da sua arma, apontou para Roncelin, aturdido pelo choque e que ainda não se tinha levantado. A sua voz fria ordenou:

- Este vai preso! Os outros, matai-os!

O cavaleiro foi obedecido num abrir e fechar de olhos. Entretanto, Olivier que, aliviado, quase desmaiara, conseguiu dizer:

- Irmão Clement! Que Deus vos abençoe!

- Como é possível estardes aqui? - perguntou Hervé.

- Cada coisa a seu tempo! - respondeu este sucintamente. O templário foi direito a Renaud e cortou, com a sua faca, as cordas, antes de lhe envolver a nudez com o seu grande manto branco e de o fazer sentar com uma solicitude infinita. Enquanto isso, os seus cavaleiros libertavam os outros prisioneiros. Devido à fadiga e à emoção, Aniceto perdeu a consciência, mas Hervé e Olivier, apesar de esgotados, mexeram-se e friccionaram os membros gelados e entorpecidos; em seguida, enquanto Hervé se atirava à comida abandonada em cima da mesa para beber água de uma bilha e morder um pedaço de pão com visível alegria, Olivier ajoelhava-se junto do seu pai e segurava-lhe na mão. Esta estava gelada. Todo o seu corpo tremia, reacção normal depois da tensão nervosa que acabava de suportar. O seu rosto estava pálido e as narinas comprimidas, mas não estava desmaiado e aceitou com gratidão o copo de vinho que o irmão Clement lhe fora buscar. Até encontrou a sombra de um sorriso para lhe dizer:

- Sempre acreditei em milagres sem ousar esperar ser, um dia, objecto de um, mas vós sois um verdadeiro prodígio, meu amigo! Como agradecer-vos?

- Restaurando as forças o mais depressa possível!

- Tentarei! Como é que estais aqui? É incrível! Fostes avisado?

- Fui. Acabava de chegar a Trigance quando a vossa Barbette lá chegou, noite fechada. Ia avisar o comendador Valérien de Rians do que se estava a passar aqui... Trouxemo-la connosco. Aliás, ei-la!

Saindo da cozinha como se nunca a tivesse abandonado, Barbette, à cabeça das jovens servas também elas reaparecidas, fazia uma entrada tonitruante na sala, chamando todos os santos do Paraíso como testemunhas dos estragos causados pelo invasor e distribuindo ordens entre duas invocações. Enquanto as raparigas punham tudo em ordem, ela foi beijar a mão do seu senhor:

- Sire Renaud! Em que estado eles vos puseram, os malvados!

Tendo dito aquilo e sem esperar pela resposta, regressou à cozinha, que começou a ressoar com a actividade intensa que ela ali desenvolvia, clamando que dentro de uma hora a refeição estaria pronta. A mulher arrastara com ela o sargento Aniceto, ainda um pouco trémulo das pernas. Entretanto, o irmão Clement, de regresso ao pátio, foi ver onde estavam o irmão Valérien e os seus templários. A despeito dos seus protestos, Roncelin de Fos, devidamente acorrentado, assim como o irmão Didier e o jovem Huon de Mana, esperavam, na carroça vazia, que os conduzissem à prisão de Trigance... Aqueles que os tinham apoiado na sua operação de pilhagem tinham-se rendido quase sem combate, mas não sem levarem alguns murros dos habitantes do castelo que tinham aterrorizado e maltratado durante aquelas dramáticas vinte e quatro horas. Também eles iriam para Trigance, antes de serem levados para a fortaleza provincial de Ruou-Lor-gues, onde os esperava uma longa penitência.

Valérien de Rians e os seus templários, aos quais o irmão Clement juntara um forte contingente à sua passagem pelo bailio de Ruou, só se demoraram para comer e beber qualquer coisa. Partiram com os prisioneiros, que o barão Renaud viu afastarem-se com mais cólera do que alívio:

- Só fico descansado quando este Roncelin estiver morto! Por que não me deixais defrontá-lo em combate singular, irmão Clement, perante Deus?

- Sabeis muito bem que um templário não se bate em duelo! Além disso, meu amigo - acrescentou ele com um meio sorriso - pensai na idade, tanto de um como de outro!

- O ódio dá forças!

- Isso também vale para ele. Além disso, não gostaria de ver o leal cavalheiro que vós sois nas mãos de messire Satanás, do qual não tenho a certeza se este homem não é um dos sequazes!

- Eu a falar de Deus, irmão Clement, e vós a falar do Diabo? Achais que o Senhor não me daria a energia necessária para o vencer?

- Os desígnios do Senhor são impenetráveis, meu amigo... e eu prefiro evitar riscos inúteis. Ficai tranquilo, ele será julgado com toda a severidade e castigado como merece. E agora entremos, temos de conversar!

Valcroze saía do seu pesadelo e reencontrava com alegria os trabalhos humildes da vida quotidiana. Enterraram-se os mortos, deu-se graças a Deus e regressou-se ao trabalho como sempre se fazia depois de um cerco ou de um alerta. Para as gentes da terra, as horas eram contadas e toda a gente se apressou a reparar os danos... No castelo, esses danos eram importantes, já que os homens do falso Antonin d'Arros se tinham entregado a uma busca frenética sem procurar roubar nada, aliás, mas virando de pantanas os móveis com o seu conteúdo e arrancando as tapeçarias para tentar descobrir eventuais passagens que fossem dar ao que queriam encontrar.

- A minha mãe choraria! - observou Olivier.

- Não - corrigiu o pai. - Ficaria furiosa, mas primeiro agradeceria a Deus por ter salvo aqueles que amava...

O laboratório do barão Ademar não escapara aos vândalos. Tinham quebrado as retortas e arrancado as prateleiras das paredes para ver o que havia por trás. Apenas a chaminé permanecera inviolada, como o atestavam as cinzas intactas. O irmão Clement olhou para elas um instante de braços cruzados e com uma mão cofiando a curta barba que o tempo prateava:

- Conseguistes? - perguntou ele apenas.

- Sim - respondeu-lhe Renaud. - Está tudo em ordem e as cinzas que vedes aqui são as do falso ataúde.

- Deixai-as envelhecer tranquilamente, nesse caso. Quanto ao local, se vos posso dar um conselho, dai-lhe uma certa ordem sem tirar demasiada poeira. A menos que queirais dedicar-vos à... grande arte?

- Oh não! A alquimia não é para mim...

- Nesse caso, quanto mais abandonado parecer, melhor...

- Podemos fechar definitivamente a porta, se desejardes?

- Não. Fechada ou murada, poderia intrigar alguém. Abrindo para uma espécie de arrecadação, parecerá inofensiva.

- Como quiserdes! E se me dissésseis, agora, como chegastes aqui a tempo de nos salvar...

A história contava-se em poucas palavras. Mais ou menos quinze dias após a partida dos dois cavaleiros e do sargento, um ancião, visivelmente esgotado, caíra aos pés do irmão Clement mais por cansaço do que por respeito, se bem que este existisse na realidade; mas o homem percorrera uma longa distância para lhe apresentar a sua queixa. Só ele, segundo o homem, podia por fim às pilhagens e abusos de que eram muitas vezes culpados os templários de Richerenques desde que o irmão Antonin d'Arros ali comandava. Simples senhor da região, tinham-lhe tirado os bens e ficado com o seu neto como refém para o recrutar à força.

O ancião conseguira escapar da prisão onde o tinham metido, beneficiando da dedicação de um servo que conseguira ajuda no seio da comendadoria, junto de um irmão que reprovava a maneira como ali se vivia.

- Esse ancião chamava-se Paul de Mana e...

- De Mana? - interrompeu-o Hervé d'Aulnay. - Esse é o nome da pequena serpente que nós devíamos levar a Gréoux e que, à vista da fortaleza, nos fugiu... mas para melhor nos seguir e informar, depois, aquele demónio...

- Perdoai-lhe! Não podia, certamente, agir de outro modo, senão obedecer fielmente ao que lhe ordenavam. Ele pensava que o avô continuava prisioneiro do “irmão Antonin”... Seja como for, a história fez com que eu me lançasse no vosso encalço. Como Richerenques fazia parte das paragens previstas na vossa viagem, tinha de me assegurar de que não seríeis retidos, ou que não sofreríeis qualquer dano. E, se necessário, tirar-vos da armadilha. Estava arrependido de vos ter enviado como escolta, apenas três homens, do mais precioso dos tesouros do Templo, cuja existência é desconhecida da maior parte dos nossos irmãos...

- Seria revelá-lo a muito mais pessoas - observou Olivier. - A maneira como viajávamos era a ideal para aquilo que escoltávamos: o corpo de um dos nossos irmãos, um modesto homem de ciência, ao qual a amizade do Papa concedia o privilégio de regressar à sua terra para o repouso eterno. Sem aquela paragem malfadada, tudo teria corrido às mil maravilhas. Trouxestes muita gente convosco, irmão Clement, apenas para vir em nosso socorro! Não vos arriscais...

- De maneira nenhuma! Quando deixámos Paris éramos apenas quatro: dois cavaleiros e dois escudeiros. Em Richerenques, onde só encontrei metade da guarnição, compreendi que os meus receios se justificavam, em particular quando o irmão que salvou Paul de Mana me falou das condições em que se efectuara a vossa passagem, a missão de que vos tinham encarregado com desprezo pelas nossas regras e, sobretudo, a partida, nos vossos calcanhares, do “irmão Antonin”. Temi o pior e o pior quase aconteceu. O poderoso grupo de cavaleiros que vistes, recrutei-o, em parte, em Gréoux, de onde enviei um mensageiro a Ruou com ordem de despachar gente para Trigance e a quase totalidade da minha velha comendadoria. Ninguém teve dúvidas sobre a realidade do que vós transportáveis. Quando, pouco depois da nossa vinda para Trigance, a vossa Barbette lá apareceu, percebemos o perigo que corríeis. Tomámos as disposições necessárias. Aliás, devo prestar a minha homenagem à sua coragem e inteligência.

- Ela conseguiu fugir antes que baixassem a grade? - perguntou o barão.

- Sim, mas antes, compreendendo que o castelo, uma vez fechado, só depois de um cerco se renderia, teve o cuidado de esconder as suas jovens servas junto das ânforas de azeite cujo conteúdo, durante a noite, elas espalharam na engrenagem da grade e nos gonzos da porta que o inimigo, demasiado seguro de si, achou que não valia a pena guardar.

- E Maximin, para onde foi? Barbette não pode ter falado com ele, porque o homem não me deixou durante aquilo a que se pode chamar o ataque e a colocação fora de serviço da minha gente.

- Uma das raparigas conseguiu chamá-lo e entregou-lhe as recomendações da mulher. Então, ele juntou-se a elas no esconderijo e foi ele que levantona grade e abriu a porta... E é tudo! Foi tão simples como isto...

- Não pensastes nos subterrâneos? No entanto, conhecei-los bem?

- Sim, mas a entrada, do lado de dentro do castelo, não é muito difícil de encontrar e a luta naquelas galerias teria sido arriscada. Eu tinha de chegar aqui em força...

- Nunca vos agradeceremos o suficiente, meu amigo! Quanto a Barbette e a Maximin, vou inscrevê-los no meu testamento e fazer deles os meus herdeiros de Valcroze, já que, depois da minha morte, o domínio irá, naturalmente, para o Templo, já que o meu filho abandonou a sua herança ao entrar para a Ordem. Espero que não me queirais mal por vo-lo subtrair?

- Pelo contrário! Em caso de... infelicidade, que eu temo cada vez mais, prefiro que Valcroze não esteja incluído nos nossos bens. Foi, como sabeis, uma das razões pelas quais o escolhi para subtrair a Arca à Ordem do Templo. Assim, eis-vos instituído como guardião desse tesouro extraordinário, vós e esse corajoso casal!

- Fico consciente da honra... e do seu peso, podeis crer. Quanto a eles...

- Talvez seja preferível - interrompeu-o o irmão Clement - e como só Maximin vos acompanhou ao novo santuário, que Barbette não partilhe da totalidade do segredo. Ela é uma mulher notável, eu sei - acrescentou ele à pressa perante os protestos que via surgir da boca de pai e filho - mas ela “ferve em pouca” água, fala muito e por inadvertência, no meio de uma altercação qualquer, pode escapar-lhe qualquer coisa. Além disso, a curiosidade não é o pecado favorito das filhas de Eva?

- Ou eu a conheço mal - interveio Olivier muito sério - ou aposto que Barbette nem sequer tentará saber mais. Ela é uma mulher cumpridora e de grande sabedoria. Ficai descansado, irmão Clement!

- É com esse espírito que regresso a Paris. Irmão Olivier, irmão Hervé, amanhã, de madrugada, por-nos-emos a caminho!

- Só mais uma palavra, meu amigo! - disse Renaud. - Que ides fazer, ao certo, de Roncelin? Ides levá-lo convosco?

- Para Paris? Com todos os incidentes que podem produzir-se no caminho? Certamente que não! Vamos escoltá-lo até ao meu bailio de Ruou-Lorgues, onde o capítulo se reunirá para dizer de sua justiça. Ao mesmo tempo, escolherá um novo comendador para Richerenques...

- Gostava de o ter podido levar a um julgamento de Deus, de armas na mão! - resmungou o barão Renaud. - Deus, estou certo, ter-me-ia permitido vencê-lo...

- Não duvido, mas para que desonrar a vossa espada? Aquele miserável será mais facilmente vencido pela masmorra subterrânea onde vai ser enterrado vivo até que a morte o leve... Já agora, tendes a certeza de que se trata mesmo do Roncelin de cujos crimes me falastes?

- O meu ódio reconheceu-o, mesmo antes de lhe ter visto o rosto!

- Além disso - acrescentou Hervé - ele não negou quando o barão Renaud o reconheceu. E os homens dele deviam sabê-lo, porque nenhum pareceu surpreendido... Mas, no fundo, por que não entregá-lo à justiça do bispo, ou até do Papa? O Templo, de facto, não pronuncia sentenças de morte!

- Ele é templário, meu irmão e deve ser julgado pelos seus irmãos. A sentença fa-lo-á perder o hábito depois de lhe traçarem o destino... E eu não posso fazer nada - acrescentou o irmão Clement com um gesto de desculpa na direcção de Renaud. - São as nossas Regras e o próprio Grão-Mestre lhes obedece...

- Uma boa execução capital arrumaria melhor o assunto! - grunhiu Olivier. - Os mortos não regressam...

- Um homem condenado à “masmorra” até ao fim dos seus dias também não regressa...

- Eu não posso ir denunciar os ultrajes de que foram vítimas a Verdadeira Cruz, a minha defunta mulher e eu mesmo? - pediu Renaud. Penso que era capaz de encontrar as palavras...

- É impossível, meu amigo. Os capítulos são secretos, mas o vosso filho estará presente. Ele poderá falar por vós.

- Fá-lo-ei! - afirmou Olivier. - É preciso que esse demónio não volte a escapar...

- Ajudar-vos-ei o melhor que puder e souber - assegurou o irmão Clement - mas leis são leis! Pensai apenas que o inpace faz sofrer um homem mais cruelmente... e dura muito mais do que um golpe de machado.

Tal como predissera o irmão Clement, Roncelin de Fos, aliás Antonin d'Arros, foi despojado do manto branco e ligado, com correntes fortes, ao fundo de uma cave tenebrosa, para onde o desceram por um alçapão aberto no tecto. Ficaria ali até que a morte o levasse.

- Na sua idade - disse o irmão Clement para tranquilizar Olivier - não falta muito!

 

                         REQUIEM POR UMA PRINCESA

Naquele dia, sexta-feira 12 de Outubro do mesmo ano de 1307, o aparato dos grandes funerais desenrolava-se para a Mui Alta e Mui Poderosa Dama Catarina de Courtenay, condessa de Valois, de Alençon, de Chartres e de Perche, Imperatriz titular de Constantinopla e cunhada do Rei, morta no castelo de Saint-Ouen aos trinta e três anos na sequência de uma doença breve. O tempo estava cinzento, com um tecto uniforme e baixo mas sem chuva, no entanto, que dava a impressão de uma cobertura colocada sobre Paris, cujos horizontes se esfumavam na bruma. O selo do luto marcava a cidade capital com as suas lúgubres tapeçarias suspensas das janelas à passagem do cortejo. Velas ardiam diante das santas efígies dos montjoie (1) quando se atingiu o grande caminho que ligava Saint-Denis ao coração da capital. Pequenas chamas, muito fracas no ar húmido, eram ainda mais tristes do que os archotes transportados por uma multidão de criados. No entanto, não deixava muita pena, aquela jovem casada há seis anos com o mais velho dos irmãos do Rei, o pomposo, o arrogante Carlos de Valois, que só retinha dela aquele título ao mesmo tempo prestigioso e irrisório de Imperador da România, onde nunca poria, certamente, os pés e os quatro filhos que lhe dera durante seis anos de casamento. Ela vivera aqueles poucos anos quase

 

(1) Monte de pedras servindo de monumento comemorativo, de ponto de referência, etc.

 

todos na sua residência de Saint-Ouen, provida de um belo jardim que descia até ao Sena, onde nos dias de Verão, e quase sempre grávida, podia esquecer os maus cheiros da grande cidade e sonhar, perante um céu azul reflectido pelo rio, com o reino de Nápoles, banhado pelo Mediterrâneo, onde nascera.

No entanto, estava próxima da coroa de França por parte da mãe, Beatriz de Anjou-Sicília, filha do Rei Carlos, último irmão de São Luís, e de Beatriz da Provença, última irmã da Rainha Margarida, sua bela mulher. O seu pai era Filipe de Courtenay, o último do nome nascido na púrpura - Porfirogeneta (1) - o que fazia dela a neta de Balduíno II, o eternamente falido Imperador (2) que tivera de fugir do seu palácio semeando pelo caminho as insígnias do poder imperial...

Quando casara com Carlos de Valois, Catarina tivera direito a um casamento quase real e, agora, ia rodeada de um cerimonial que não o era menos, mas entre os dois, só existira a título de reprodutora, senão a título de ornamento prestigioso, porque o Céu a fizera bela... e o seu marido ardente nos jogos do amor. Em cinco anos de um primeiro casamento, tivera cinco filhos, todos vivos e as duas primeiras filhas casadas. Com os quatro que lhe devia, ou antes três - o pequeno Jean não tinha sobrevivido! - achava-se à cabeça de uma família de oito filhos e não tencionava ficar por ali. Enquanto seguia o cadáver da defunta, todo de negro do chapéu aos sapatos, já sonhava com quem substituiria a pobre Catarina no seu leito. Por que não a encantadora Mahaut de Châtillon, ainda um pouco jovem, sem dúvida, mas que, à sua beleza, acrescentava um dote interessante? Amigo do fausto, era, de facto, um homem para quem o dinheiro contava muito.

Quando o cortejo, onde figuravam vários grandes do reino, chegou ao palácio da Cité, abriu-se para o Rei e para os seus filhos e depois, pela Petit-Pont, dirigiu-se para a margem esquerda do Sena para meter pela Grand-Rue Saint-Jacques-des-Prêcheurs, escalando a montanha Sainte-Geneviève, no topo da qual estava

 

(1) Epíteto dos imperadores bizantinos nascidos de um pai que reinava no momento do seu nascimento.

(2) Ver volume II, Renaud ou a Maldição.

 

o importante convento dos Jacobinos, cuja capela ia receber o corpo da princesa. Antigo hospício destinado aos peregrinos a caminho de Santiago de Compostela - a partida da peregrinação era em frente de Notre-Dame - era, à excepção do Templo, o maior e mais rico convento de Paris graças aos incessantes benefícios de São Luís, muito ligado à ordem dos frades pregadores de São Domingos que, por causa daquela casa, levavam a todo o reino o nome dos Jacobinos. Os corpos dos filhos do Rei santo estavam ali depositados e o último ainda vivo, Roberto de Clermont, teria ali a sua sepultura, assim como o próprio Carlos de Valois e o seu irmão Luís d'Evreux O lugar de Catarina, portanto, era mais do que merecido.

Como a Grand-Rue Saint-Jacques era uma das duas ruas mais importantes de Paris, a que separava a cidade do norte da do sul, os mirones amontoavam-se por trás do duplo cordão de franco-arqueiros armados de bisarmas, colocados ali tanto para a homenagem como para reprimir uma qualquer agitação vinda dos numerosos estudantes, que estavam no seu bairro. A morte era coisa grave, demasiado respeitável e também demasiado silenciosa para suscitar perturbações. A multidão estava silenciosa, recolhida. Contentava-se em olhar.

Mais do que todos, talvez, uma jovem, que se mantinha de pé nos degraus da igreja de Saint-Benoit-le-Betourné, entre dois homens bem-vestidos, como ela própria, de aparência respeitável, um jovem - vinte, vinte e dois anos! - o outro bastante mais velho e que devia ser o pai de ambos, sem dúvida irmão e irmã a julgar pelas parecenças, se bem que o jovem não tivesse nada de feminino e a jovem prometesse vir a ser uma grande beleza. Ela era muito jovem - talvez uns quinze anos! - mas os seus cabelos, de um louro de linho, suaves como a seda, escondidos em parte pelo capuz de lã azul, os traços delicados do seu rosto fresco como uma flor de cameleira e sobretudo os seus olhos extraordinários, de um cinzento-pálido ligeiramente azu-

 

(1) Foi nesta capela que foram inumados os príncipes fundadores das duas dinastias que se sucederam aos Capetos: os Valois e os Bourbon. Roberto de Clermont foi o antepassado directo de Henrique IV.

 

lado que tinham sem o ar de reflectir o céu cambiante de Paris, já atraíam a atenção dos rapazes, ao ponto de o seu irmão Remi ter chegado ao ponto de corrigir alguns. Assim, a jovem nunca saía da casa paterna sem ir escoltada pela mãe, pela serva ou, como naquele dia, pelo elemento masculino da família. Mas as circunstâncias eram excepcionais, mestre Machieu de Montreuil, construtor de profissão, cedera aos pedidos da adolescente, desejosa de ver o Rei, as damas e a corte por ocasião do funeral da princesa. Um espectáculo um pouco triste, talvez, mas magnífico que ela, na sua aldeia, não tinha oportunidade de contemplar. Desse modo, mestre Machieu escolhera, com conhecimento de causa, os degraus de Saint-Benoít, onde tinha, então, uma oficina de reconstrução do coro, para ali instalar a sua pequena Aude, flanqueada pelo grande Remi. Dali, via-se perfeitamente o cortejo começando a subir a encosta e podiam segui-o com os olhos até à porta de entrada dos Jacobinos.

A passagem de Carlos de Valois, caminhando diante da sumptuosa carruagem de veludo negro bordado a prata fez franzir o pequeno nariz de Aude, depois de o seu pai lhe ter dito quem era:

- Não parece ir muito desgostoso - segredou ela. - O rosto dele está tão seco e tão rígido como os das imagens de pedra que nascem do cinzel do meu irmão!

- Um príncipe não chora em público - sussurrou Remi. - É contrário à dignidade... além disso, desarranja as linhas do rosto.

- Uma pessoa preocupa-se com isso quando sente desgosto? As lágrimas correm por si próprias e pouco importa se o rosto fica marcado com rugas de aflição. Este príncipe não sente nada. No entanto, ela era bela... e jovem - acrescentou ela, olhando com compaixão para o belo rosto imóvel da defunta que, segundo o costume da época, descia à terra descoberta. A morte tinha apagado os traços dos últimos sofrimentos e no esplendor do traje verdadeiramente imperial que lhe tinham vestido, a princesa aparecia tão serena e tão bela como no dia do seu casamento. A boca, mantida fechada pela fita de musselina que lhe passava por baixo do queixo e sob a coroa trabalhada, oferecia, até, o esboço de um sorriso. Aude dobrou por um instante o joelho, benzeu-se e continuou:

- Dá a impressão de que ela vai contente por deixar este mundo!

- Talvez tenha sofrido o suficiente para merecer o Paraíso - murmurou o seu pai. - E se os olhos da sua alma já viram o caminho radioso que vai lá dar, tem razão para se sentir feliz... E, repara, são só príncipes os que seguram os cordões do pano mortuário.

- Nem todos! Aquele que eu vejo ali não é um templário, aquela personagem de feições graves com uma barba tão bela?

- É o próprio Grão-Mestre da Ordem, monsenhor Jacques de Molay, que veio da ilha de Chipre há cerca de um mês. E se “leva” a defunta é porque merece ser príncipe... Aliás, foi padrinho do herdeiro do trono, o príncipe Luís, quando ele foi investido como cavaleiro...

- É o único templário a assistir ao funeral?

- Não, os dignitários e a escolta vêm mais atrás. Olha, vem ali o nosso sire, o Rei, que tu tanto desejavas ver!

- Meu Deus, como ele é belo, imponente... e tão frio!

Aos trinta e nove anos, Filipe IV, neto de São Luís e de Margarida da Provença, era, sem dúvida, o homem mais belo do seu reino. De grande estatura, como todos os Capetos, mas sem a magreza que fizera o seu avô parecer-se com um caniço ambulante, não deixava de ter o arcaboiço necessário para vestir a armadura com tanto à-vontade como o manto negro que lhe envolvia os largos ombros. O rosto altivo, de traços puros mas de cor pálida, fazia pensar numa estátua sem os cabelos algo compridos de um louro quente a atirar para o ruivo que a idade ainda não prateara. Os olhos, esses, eram inolvidáveis: umas grandes pupilas de um azul-gelado, onde as pálpebras, imóveis, nunca pestanejavam, ao ponto de correr o boato de que o Rei de França dormia de olhos abertos. Entretanto, a boca, bem desenhada, mostrava uma ruga ligeira, revelando que a encarnação da majestade real era capaz de ironia.

- No entanto, ele amou, e apaixonadamente, a falecida mulher, a Rainha Joana de Navarra, que morreu há dois anos, como sabes. Dizem que ele não se conforma, já que sempre considerou com desprezo a ideia de um novo casamento...

- Por que havia de o fazer? - perguntou Remi. - Tem três filhos, dos quais dois já se casaram e uma filha, que está prometida ao Rei de Inglaterra. Vede, minha irmã, lá vêm eles!

Atrás do Rei, de facto, vinham os seus três filhos: Luís, dezanove anos, Rei de Navarra desde a morte da sua mãe e já cognominado de Cabeçudo devido à sua mania de implicar com toda a gente, não importava quando e sob qualquer pretexto. Ainda por cima pouco inteligente, portanto o oposto de um pai com o qual, aliás, não se parecia muito, mais parecido com a mãe mas menos do que o seu irmão mais novo, Filipe, conde de Poitiers, uma grande verga de quinze anos, todo ele pernas e moreno como uma castanha, com um rosto estreito precocemente meditativo e com uns olhos brilhantes de inteligência. Não sendo Rei como o seu irmão mais novo, caminhava um pouco atrás dele com o mais novo dos três, Carlos, conde de la Marche, doze anos acabados de fazer mas belo como um anjo, a efígie infantil de um pai do qual tinha os cabelos claros, os olhos azuis e os traços perfeitos, mas se a máscara imóvel do Rei escondia um espírito profundo, o rosto encantador do filho parecia vazio. Naturalmente, ainda não era casado, ao contrário dos seus irmãos mais velhos...

O Cabeçudo casara-se, dois anos antes, com a sua prima Margarida de Borgonha, filha do duque Roberto II e de Inês de França, a filha mais nova de São Luís, e o grande Filipe acabava de se casar com Joana, uma das duas filhas do conde Otão IV de Borgonha (1) e da condessa Maháut d'Artois. E essas também estavam presentes, seguindo, com as suas damas-de-companhia, o grupo dos “homens”. Atraentes as duas, a morena Margarida de quinze anos e a loura Joana de treze, um pouco atrapalhadas nos seus trajes fúnebres a que não estavam habituadas, eram namoradeiras e muito amigas de adornos sedutores, de jóias e de tecidos ricos, que lhes ficavam muito bem. Unia-as uma verdadeira cumplicidade, tendo sido criadas juntas e esforçavam-se, caminhando gravemente, por não olhar uma para a outra, evitando assim por fazer pouco, com uma risada, daquela pompa que as aborrecia de

 

(1) Trata-se, desta vez, do “condado” de Borgonha, a que chamamos hoje Franco-Condado.

 

morte e serem chamadas à atenção pela sua única companheira, Isabel, a única filha do Rei que, a despeito dos seus quinze anos, já dava mostras da seriedade e da majestade que convinham à Rainha de Inglaterra que seria dali a poucos meses. Em toda a família, era ela a que mais se parecia com Filipe. O que queria dizer que era de uma grande beleza, mas que tinha, também, grande discernimento, juntamente com um sentido de realeza pouco frequente numa rapariga tão nova. Aliás, bastava Isabel saber que o seu pai, apaixonadamente admirado, sentia orgulho nela, para se sentir feliz. O severo Filipe era muitas vezes indulgente para com as suas duas jovens noras e a sua alegria fazia-o sorrir, mas Isabel não era ciumenta. A jovem princesa considerava-se prometida a um grande destino e não desgostava nada trocar em breve Paris por Londres e colocar a sua pequena mão na do jovem príncipe de Gales (1) Eduardo, que diziam amável e belo.

Tendo a mesma idade das princesas, Aude examinou-as com curiosidade. A jovem achava-as encantadoras, mas não as invejava. Sobretudo Margarida, que tinha um marido cuja vida ela não gostaria de partilhar, mesmo no trono. Luís tinha qualquer coisa de sonso e também, no canto da boca, uma ruga cruel muito desagradável. Era de desejar que os futuros reis de França saídos daquele casal se parecessem com a mãe, não com o pai. Com a sua fronte obstinada, a sua tez de flor, os seus imensos olhos negros e a sua maneira de manter bem direita a sua bela cabeça, Margarida saberia usar a coroa. O que não era o caso do Cabeçudo.

- Que idade tem o Rei nosso sire?- perguntou Aude ao seu pai.

Este entregou-se a um rápido cálculo:

- Deve estar próximo dos quarenta. Trinta e nove, penso eu... Por que perguntas?

- Para saber se ainda vai viver muito tempo. Machieu permitiu-se um riso discreto e silencioso:

 

(1) Futuro Eduardo II, foi o primeiro príncipe inglês a usar o título de príncipe de Gales.

 

- Queres que o reinado dele dure? Eu acho que é um grande Rei porque aboliu a servidão e deu hipótese a homens que não pertencem à nobreza, mas governa com punho de ferro...

- Sem dúvida, mas o filho não me agrada muito... Ah, já estou a ver os cavaleiros do Templo!

Em ordem impecável com as suas armas cintilantes e grandes mantos brancos, os dignitários do Templo e a escolta do Grão-Mestre fechavam o cortejo, levando com eles o cavalo de Jacques de Molay. Aude viu-os aproximarem-se sem dizer uma palavra e só quando eles passaram perto dela e que perguntou:

- Quem são estes dignitários? Sabeis os nomes deles?...

A jovem parecia nervosa, subitamente, tal como indicava a sua voz sempre tão doce, agora algo brusca, mas, dessa vez, foi Remi que respondeu à sua irmã:

- Estais muito curiosa! Que vos interessa? Não os conhecemos a todos...

- Mas conheceis alguns, porque acenais muitas vezes para eles...

Antes de responder, o jovem apercebeu-se de que Aude não estava a olhar para ele e que, no fundo, o que dissesse não a interessaria. A atenção da jovem estava fixa em alguns dos cavaleiros que seguiam os seus três chefes e o jovem tentou seguir a direcção do seu olhar. Quando pensou tê-lo encontrado, franziu o sobrolho, mas prosseguiu a frase interrompida:

- As relações com o irmão tesoureiro, por exemplo, são do foro do nosso pai. E esse não está aqui hoje. Mas estou a ver um cavaleiro que conhecemos bem, ele e eu, e que vós tivestes, suponho, a possibilidade de ver quando ele nos visitou... Ou me engano muito ou é o irmão Olivier que vejo atrás do marechal...

Vendo estremecer os ombros da sua irmã, que naquele instante lhe virava as costas, o jovem soube que acertara no alvo e que o perigo estava perto. Aliás, Aude não respondeu, mas era evidente que o seu olhar seguia a progressão dos templários, dos quais - o jovem jurá-lo-ia! - ela só fixava um. Machieu, esse, não reparara em nada. No momento em que o filho tomara a palavra, desinteressara-se do assunto e conversava com o seu vizinho, o sacristão da igreja.

Assim, Remi sentiu-se com coragem para tentar saber mais. O jovem pousou uma mão no ombro de Aude:

- Não me respondeis, minha irmã?

- Perdão? Que dizíeis?

- Não sei o que tenho, mas sinto os olhos cansados esta manhã. Não é o irmão Olivier de Courtenay que eu vejo além?

Dessa vez, a pequena virou-se e ele pôde ver o seu rosto corado, os olhos brilhantes e Remi compreendeu que a sua impressão estava correcta. A força de observar fisionomias, atitudes e comportamentos dos seus próximos e daqueles com quem era obrigado a dar-se, o jovem “escultor” tornara-se bom juiz dos seus contemporâneos. E apesar de não ter muita experiência com mulheres, soube - talvez com uma ponta de ciúme inconsciente no coração - que a sua bela irmã estava apaixonada pelo templário. A jovem murmurou, aliás, com um constrangimento enternecedor:

- Tenho a impressão de que tendes razão, meu irmão. Deve ser ele! E o seu amigo Hervé d'Aulnay vai junto dele...

A menção do segundo desconcertou um pouco Remi. Estaria enganado na personagem? Ou teria sonhado com aquele rubor, com aquela cintilação dos seus belos olhos claros? No fim de contas, era normal que o pudor, por parte de uma jovem de quinze anos, a fizesse corar quando lhe falavam de um homem!... O jovem pensou subitamente que tinha um meio simples de esclarecer aquele assunto: tinham-lhe encomendado, para o púlpito de Notre-Dame, uma estátua de São João Baptista. Então, decidiu dar-lhe os traços do irmão Olivier e ver-se-ia como Aude reagiria perante aquele retrato de pedra. Ainda por cima, Remi reconhecia honestamente que teria dificuldade em encontrar modelo mais belo para o Precursor do que aquele rosto orgulhoso cuja gravidade escondia, juraria ele, o fogo ardente de uma alma apaixonada. O escultor não temia, se Aude amasse o irmão Olivier, que esse amor lhe fosse devolvido, ou a levasse à sua perda: o cavaleiro monge pertencia à parte mais pura e mais intransigente de uma Ordem sobre a qual corriam cada vez mais uns rumores bizarros. Era, oferecida pelo céu, uma lâmina de aço da melhor têmpera... na qual o coração novo de uma jovem só poderia ferir-se cruelmente. E isso Remi não queria, fosse a que preço fosse...

Sob os sinos das igrejas, os tocadores deixaram extinguir-se as notas lúgubres do toque a finados: o corpo da princesa acabava de transpor a soleira do convento dos Jacobinos e avançava para o portal da capela, aberto para uma plateia de velas chamejantes. O abade, rodeado pelos seus monges, saiu para o receber...

- Não há mais nada para ver - disse mestre Machieu, esfregando as mãos para as aquecer porque se estava a levantar um vento fresco. - Regressemos! Já tenho a minha conta de cantos fúnebres e choradeira por hoje e ficarei contente por regressar a casa. Estás contente, pequena?

- Oh sim, meu pai! Foi tudo muito belo e eu agradeço-vos. Foram buscar a carroça à qual estava atrelado um sólido cavalo, que tinham deixado por baixo do alpendre da oficina onde, por respeito pela princesa, ninguém trabalhava naquele dia. Remi ajudou a irmã a subir para junto do pai, pegou nas rédeas e desceram em direcção ao Sena para atravessar a ilha da Cité, depois o outro braço do rio, atingir a estrada de Vincennes e, finalmente, a aldeia de Montreuil, onde a família morava perto da igreja de São Pedro e São Paulo.

Construída pelo avô, o grande arquitecto Pierre de Montreuil, que também construíra a Sainte-Chapelle e outras coisas admiráveis, o que lhe valia estar sepultado na igreja de Saint-Germain-des-Prés com a sua mulher, era a casa mais bela da aldeia depois dos edifícios do mosteiro e do senhor do local. Construída com bela pedra, enquanto as outras tinham utilizado argamassa - como o subsolo de Montreuil era de calcário, este, misturado com palha picada, formava um material ao mesmo tempo barato e fácil de trabalhar - erguia-se à entrada de um recinto fechado que continha um jardim onde cresciam algumas flores, diversas dependências, um pequeno pomar e até uma pequena vinha. Como a aldeia estava situada numa colina, avistava-se a floresta e o castelo real de Vincennes, uma curva do Sena e a cidade de Paris inteira.

Naquela casa reinavam as mulheres. A dona chamava-se Juliana, mulher de Machieu, ainda agradável apesar de já ter entrado no quarenta. O cabelo e os olhos castanhos, umas formas amplas mas firmes, olhos vivos e alegres, uma boca carnuda onde o riso surgia facilmente, amava a sua casa, dirigindo-a com mão de ferro, tanto o jardim onde fazia crescer couves, beterrabas, espinafres, ervilhas (1) e outras plantas tão bem como um monge ervanário, como a roupa impecável e, naturalmente, a família. Até a sogra, a velha Matilde, ainda verde e capaz mas que, por morte do marido, lhe abandonara sem uma piscadela de olhos o governo da casa. Esta continuava a secundá-la o melhor que podia, mas, com a idade, passava cada vez mais tempo à lareira sem, no entanto, permanecer desocupada: fiava a mais fina lã e cosia como uma fada, na condição de uns olhos mais jovens do que os seus se encarregarem de enfiar a linha na agulha. A despeito de umas costas que se dobravam um pouco, esforçava-se por permanecer direita no banco de dossel que Remi lhe fabricara, o neto que adorava tanto como a neta Aude, mas sem o demonstrar demasiado, achando que as ternuras e outras pieguices não eram coisa boa para o desenvolvimento harmonioso de um bom carácter. Eram dela os olhos grandes e azuis-claros de Aude e era normal que, por entre as pálpebras enrugadas quase constantemente fixas num trabalho qualquer, se filtrasse um relâmpago azul para reforçar uma observação para onde a caridade cristã nem sempre era chamada. A anciã tinha os dentes duros, apesar de lhe faltarem alguns...

A terceira mulher da casa era Aude e a quarta Margot, a criada, uma rapariga da aldeia que tivera uma “infelicidade” graças aos bons ofícios do moleiro do qual a sua mãe era ao mesmo tempo criada e amante, o que equivalia a dizer que a pobre Margot devia ter sido, provavelmente, violada pelo próprio pai. Matilde tkara-a daquele sarilho mais ou menos no momento em que o seu Machieu casava com Juliana, uma das duas filhas de Isambart, o intendente da residência real de Vincennes. Margot dedicara-se, tanto à recém-casada como à sua benfeitora e depois às crianças, já que tinha visto, não sem algum alívio, a sua maternidade contra-natura aniquilada por um desmancho. No segui-

 

(1) ervilhas e os feijões tinham o mesmo nome.

 

mento, o moleiro deixara este mundo com o crânio fendido por um machado manejado pela mãe de Margot, após o que ninguém soube o que foi feito dela. O desaparecimento de uma mulher que não soubera defendê-la das intenções do moleiro e que, além disso, via nela uma rival, não afectou Margot, entrincheirada por trás das paredes seguras da casa de mestre Mateus. Fisicamente, era vermelha como uma cenoura, vigorosa e teimosa como uma mula e alegre como um tentilhão, tendo, de facto, encontrado, naquela família de acolhimento um equilíbrio e uma serenidade que nunca teria imaginado do tempo da sua primeira juventude.

Quando o mestre construtor e os seus filhos regressaram a casa, encontraram uma quinta mulher que, sentada ao lado de Matilde no banco da sala e em frente de Juliana, instalada no escabelo que puxara para junto das outras duas, conversava animadamente. Era Bertrade, a irmã de Juliana. Era viúva de um retroseiro da rue Quiquenpoist (1) que fornecera, em tempos, a Rainha Joana, mulher de Filipe o Belo, possuía um balcão na Grande Galerie du Palais (2) e mantinha, por isso, boas relações com a corte. Por morte do marido, Bertrade, não tendo filhos, entregara o seu comércio a um sobrinho, com o qual se entendia bastante bem. Mas como era uma mulher de gosto reconhecido e hábil com os dedos, propuseram-lhe entrar para o serviço da Rainha Joana a fim de secundar as damas de linhagem que não possuíam o seu talento para harmonizar as cores dos tecidos, decidir dos ornamentos e, sobretudo, imaginar - e realizar, por vezes! - os motivos dos bordados ou as aplicações das pérolas e pedras coloridas. Assim, só raramente saía do solar de Nesle, pouco tempo antes uma possessão da Rainha Joana que o Rei, pouco depois do desaparecimento da sua mulher, doara ao filho mais velho por ocasião do seu casamento. Bertrade tornara-se ainda mais indispensável do que no tempo de Joana, já que Margarida de Borgonha adorava tudo o que se relacionava com adornos, podendo, assim realçar uma beleza de que se orgulhava.

 

(1) Actual rue Quincampoix.

(2) Os retroseiros da época vendiam tantas coisas que eram o equivalente reduzido das grandes superfícies dos nossos dias.

 

Para que Bertrade Imbert tivesse feito o caminho um pouco longo entre a residência de Nesle e Montreuil, era preciso que fosse por algo importante, a julgar pela maneira como tentava persuadir as duas mulheres que a escutavam:

-... com Madame Margarida eu já tinha muito que fazer, mas Madame de Poitiers descobriu os meus talentos, assim como a sua irmã mais nova, a delicada Branca de Borgonha, que vai casar na próxima Primavera com o nosso jovem príncipe Carlos. Essa ainda é mais louca por vestidos novos, tecidos ricos, jóias e bordados! Preciso de ajuda!

- Não conseguis arranjar ninguém noutro lado, minha irmã, sem ser entre as vossas parentes? Em Paris não faltam operárias capazes e...

- Demasiadas, talvez! Vede se compreendeis, Juliana! Eu estou muito próxima de Madame de Courcelles, a primeira dama e é através dela que tenho acesso às jóias. Necessito de ter a maior confiança naquela que me secundará, que me assistirá e para esse papel delicado não veja mais ninguém senão a minha sobrinha Aude! Apesar de ainda ser muito nova, é quase tão boa como eu!...

Absorvidas como estavam na discussão, as três mulheres - se bem que Matilde ainda não tivesse aberto a boca! - não se aperceberam da chegada de Machieu e dos filhos. Mas o mestre não precisava de grandes explicações para se aperceber do sentido da conversa apanhada no ar e entrou à-vontade no assunto:

- Mais devagar, minha irmã mais devagar! - disse ele com a sua voz de baixo. -Viestes a esta casa para nos levar Aude?

Bertrade virou-se para ele e levantou-se. De pé, ela era quase tão alta como ele, apesar de não ter o mesmo físico. A estatura conferia-lhe um aspecto imponente, ao qual ela acrescentava o véu severo de fina tela de Flandres de uma brancura imaculada que lhe envolvia a cabeça, o pescoço e o rosto. Com as feições um pouco altivas - uma versão das da sua irmã mas mais enérgicas e mais idosas! - parecia-se com a prioresa de um qualquer convento, na condição de a dita prioresa poder usar uma túnica de bom tecido de Gand cinzento, uma sobreveste ornamentada com pêlo de esquilo e um cinto bordado a fio de prata com

uma bolsa a condizer fechada por um botão de ametista, igual, em ponto mais pequeno, à que agrafava, no pescoço, o amplo manto negro atirado para cima de uma cadeira.

- É exactamente o que venho fazer - declarou ela em tom calmo, plantando o seu olhar castanho no do seu cunhado. - E não vejo por que vos haveis de queixar: nem toda a gente pode servir uma rainha que ainda será mais Rainha no futuro, quando Deus chamar a Si o nosso sire Filipe... o mais tarde possível, evidentemente!

- O que pode só acontecer daqui a muito tempo! O Rei está na força da vida, mas não direi o mesmo do seu herdeiro, cujo peito me parece bem fraco.

- Eu não vim aqui para calcular convosco a longevidade do reino, mas sim do futuro da vossa filha...

- É disso que eu também estou a falar! Não está nos meus projectos fazer da minha filha uma criada!

O rosto de Bertrade passou do branco ao vermelho-vivo com uma rapidez espantosa:

- Terei eu, por acaso, ar de criada? Pelo facto de ter acedido à corte, não perdi o meu estatuto de burguesa e apesar de não ser de extracto nobre, não sou tratada, por isso, com menos consideração do que outra dama qualquer do séquito das princesas! E moro na residência de Nesle!

- Não digo que não, mas não seria o caso de Aude... Bruscamente, Mathieu virou-se, viu atrás de si a filha e o filho que escutavam com os ouvidos bem abertos e, no caso da adolescente, uma pequena cintilação nos olhos que o fez fungar:

- Que fazeis aí os dois, plantados como duas velas, a ouvir o que se diz? Ide à cozinha ver se eu lá estou!

Assim apostrofados, os jovens desapareceram imediatamente. Pelo fremir do seu nariz, adivinharam que o mestre construtor estava a chocar um estado de cólera e que seria ofender a tia se assistissem à discussão.

Bertrade seguiu-os com um olhar divertido. Em seguida, cruzou os braços e esperou pelo seguimento do assalto, que não tardou:

- Que estais para aí a olhar para mim com esse ar de bravata, minha irmã! - grunhiu Machieu. - E, antes de mais, sentai-vos!

- Mais tarde, com a vossa permissão! Seria colocar-me em posição de inferioridade e permitir que despejásseis a vossa bílis sobre a minha cabeça! Mas, regressemos à questão! Onde fostes buscar essa ideia de que Aude seria mais maltratada do que eu? Ela partilhará o meu quarto e eu não a perderei de vista, de dia ou de noite! Não vos convém?

- Para ser franco, não. Tenho outros projectos para ela. O meu compadre, Bernard de Sarcelles, o mestre do machado (1) com quem trabalho há muito tempo, tem um enteado, Alain, que promete vir a ser tão bom como o pai. Ele é como eu, rico e considerado. No outro dia... ele deu a entender que veria com bons olhos a entrada da minha filha na sua casa...

Dessa vez, Bertrade não teve tempo de responder: foi a velha Matilde que tomou a palavra, cortando de imediato, aliás, o protesto da nora:

- Que história é essa, meu filho? E por que é que a vossa mulher e eu, vossa mãe, ainda não sabíamos de nada?

- Ainda não tinha tido tempo!... Mas tê-lo-ia feito, não tenhais dúvida. Foi a urgência que me levou a dizê-lo.

- Pergunto a mim mesma se não acabais de inventar isso tudo?

- Não! Onde fostes buscar isso? Bernard falou mesmo comigo... há alguns dias atrás! Mas, confesso, já me tinha esquecido e...

- Que lhe respondestes?

Machieu tirou o capuz, que colocou em cima da mesa e começou a mexer no colmo grisalho que cobria a cabeça. Era visível que o ataque da mãe o apanhara desprevenido.

- Oh... mantive-me... evasivo! Apesar de o projecto me parecer bom, dada a qualidade de Bernard e do filho - e também o facto de que ele é viúvo e que, casada com Alain, Aude ficaria senhora da casa - sinto que a minha filha ainda é demasiado nova para se casar...

- Imagine-se! E com quem, o casamento? Com o filho... ou com ele?

 

(1) Era o nome usado pelos mestres carpinteiros.

 

- Em que estais a pensar, minha mãe? Ele tem a minha idade...

- E depois? Aquando do último Saint-Couronnés, quando reuniste aqui os mestres-de-obras, eu bem vi como ele olhava para ela. De lado e às escondidas e aposto os dentes que me restam contra o tesouro de Saint-Denis em como, se a casares com o pateta do filho, ele arranja maneira de a meter na própria cama. A menos que não case ele com ela. Ele ainda está cheio de vida, o malandro!

- Machieu também, minha mãe, Machieu também - conseguiu dizer Juliana com um certo orgulho.

- Não duvido, mas eu digo que casar a pequena naquela casa não lhe trará a felicidade! Caso ainda não tenhais reparado ela está a transformar-se na mais bela rapariga da região! Se não de mais longe ainda!

- É por isso que eu digo que uma residência real, com toda a espécie de janotas a rondar-lhe as saias como moscas em redor de um pote de mel, não é bom para ela - rugiu Machieu, deixando cair com força o punho em cima da mesa.

- Na câmara das damas, sejam ou não Rainhas, aparecem poucos janotas, meu irmão e constato com tristeza que vós continuais a achar que eu não sou ninguém! Já vo-lo disse: eu nunca a abandonarei. Por outro lado, talvez não seja mau para ela conhecer algum fornecedor importante da corte, um peleiro, um comerciante de tecidos ou um joalheiro, que possuem bens e belas casas na Cité. Ficaria melhor em casa de um desses do que em casa do teu amigo Bernard, que vive no campo no meio das aparas!

- Um mercador rico? - troçou o pai. - Deixais-me de boca aberta! E se ela se apaixonar por um senhor qualquer que, mesmo sem dinheiro, nunca casará com a filha de um construtor?

A voz de Remi, que regressara discretamente, fez-se então ouvir:

- Quanto a isso, posso assegurar-vos que não há nada a temer. Viraram-se todos para ele, o que o fez corar, mas o jovem manteve-se firme.

- Conta-nos lá como chegaste a essa conclusão, pequeno! - disse a avó com uma doçura que traduzia bem o amor que lhe tinha, mas perante aqueles pares todos de olhos interrogativos, Remi limitou-se a sorrir:

- Pelo que tenho observado, avó. Não teria dito nada se não se tratasse do futuro da minha irmã, mas tenho a certeza de que o coração dela já tem dono e que se o próprio Rei se lhe declarasse, ela dir-lhe-ia que não.

- Bela comparação! - resmungou Matilde. - O nosso sire nunca olha para mulher nenhuma!

- E o que ela ama também não.

- Como é que sabes? - perguntou Mathieu.

- Oh, é muito simples: o homem que ela ama é templário. É...

- Messire Olivier de Courtenay! - murmurou a mãe. -Já desconfiava: a última vez que ele esteve aqui, no Verão passado, surpreendi Aude a espiá-lo por trás da janela meio fechada do quarto, mas preferi afastar-me sem fazer barulho e sem dizer nada. Ninguém é senhor do seu coração e já é bastante triste amar sem a menor esperança...

- É por isso que vos suplico, meu pai, que não caseis Aude com um homem qualquer: ela será infeliz, ao passo que, confiando-a à nossa tia Bertrade, não correrá qualquer perigo, porque um amor impossível, livre de qualquer pus, é uma defesa poderosa. No séquito de Madame de Navarra ela ficará tão afastada dele como se o mar os separasse. O Templo não fica longe daqui, ao passo que a residência de Nesle está na outra ponta de Paris. E todos sabemos que nunca nenhum templário penetrará naquela porta.

Machieu escutara o filho sem o interromper, pesando cada um dos argumentos do jovem. No entanto, os olhos de Juliana encheram-se de lágrimas:

- Isso significa que nunca mais verei a minha filha...

- Também me vês a mim, basta quereres - ripostou Bertrade. - E Aude pode vir a casa quando não necessitarmos dela. Além disso, se aceitardes, ela ficará ligada à casa da futura Rainha de França e isso vale muito. E eu ensinar-lhe-ei tudo o que sei e farei dela minha herdeira. Ficará com a propriedade de Passiacum (1)

 

(1) Hoje em dia Passy.

 

que me deixou o meu defunto Imbert, juntamente com a pequena casa da rua próxima da retrosaria do meu sobrinho... e mais algumas economias. Que dizeis?

- Tenho de pensar - disse Machieu cuja defesa enfraquecia segundo a segundo perante os argumentos sólidos avançados pela cunhada. - Mas é verdade, minha mulher, que se Aude casasse com Alain, também não a veríamos muitas vezes...

- E se nós lhe pedíssemos a opinião? - propôs a avó. - Sempre foi costume, entre nós, as mulheres terem acesso ao debate.

- As mulheres, não as raparigas que não têm outro remédio senão obedecer!

- Faz-lhe a pergunta, mesmo assim... sem esquecer a alegre perspectiva de ir viver para Sarcelles no meio das aparas...

- Se ela amasse - disse Juliana - esse pormenor não entraria em linha de conta. Nós não temos as aparas, mas temos o pó da pedra.

A jovem foi, portanto, chamada e Bertrade teve a graça de deixar Machieu propor-lhe o que acabavam de discutir, mas quando ele evocou a união projectada com o filho do carpinteiro, ela teve um movimento de recuo nervoso de tal modo vivo que foi evidente para todos que a sua escolha não era aquela. A jovem limitou-se a perguntar:

- Não posso ficar em casa do meu pai? Não desejo outra coisa!

- Se não te queres casar - suspirou o pai - o melhor para nós é seguires a tua tia. Será mais fácil recusar as propostas se te souberem na corte...

Aude olhou à vez para aqueles rostos de que ela gostava e pelo que leu neles soube como era querida por cada um deles. Eles só queriam o seu bem, a sua felicidade e seguir o destino que a sua tia propunha era o único meio de evitar um casamento, fosse ele qual fosse, que lhe repugnaria, estava certa, já que nunca poderia pertencer ao seu bem-amado. Seguiria, portanto, aquele caminho com coragem.

- Farei segundo a vossa vontade, meu pai e minha mãe - disse ela com doçura antes de se lhes atirar ao pescoço para os beijar.

- Muito bem! - concluiu Machieu. - Podeis levá-la amanhã, minha irmã. Deus queira que lhe tenhamos escolhido o melhor caminho!...

Quase no momento em que se decidia, assim, o destino da pequena Aude, quatro personagens estavam reunidas na grande sala capitular do Templo de Paris: o Grão-Mestre, Jacques de Molay, o seu sobrinho, o irmão Jean de Longwy, o Grão-Mestre de França Gerard de ViUiers e o irmão Clement de Salemes. Quatro figuras brancas, iluminadas por três grandes velas de cera vermelha nas trevas onde se perdiam as abóbadas, em pleno arco suportado ao centro por um poderoso pilar. O irmão Jacques estava sentado na sua cadeira magistral. Era um homem de uns sessenta anos, um Comtois (1) vigorosamente constituído, de pele tisnada pelo sol de Acra e depois de Chipre, locais onde passara dois terços da sua vida, um rosto maciço marcado pela ruga obstinada da boca e um grande ar de altivez. De uma coragem indiscutível, de inteligência média mas com um sentido político praticamente nulo, o irmão Jacques, a despeito dos reveses sofridos e da Terra Santa perdida para sempre - coisa em que ele se recusava a acreditar! - elevado até o topo daquele Estado dentro do Estado que representava a Ordem, não estava longe de se ver, no Templo que dependia unicamente do Papa, como a única entidade capaz de impor a sua vontade aos soberanos do Ocidente. Não queria dar fé aos boatos inquietantes que surgiam um pouco por toda a parte. Não tinha ele próprio pedido ao Papa Clemente V que fizesse um inquérito sobre a vida interior da Ordem, não vendo naquilo mais do que uma simples formalidade cujo resultado não oferecia qualquer dúvida aos seus olhos? O seu pedido fora feito em termos onde transpareciam essas certezas. Assim, era com um certo cansaço que, com o rosto de barba cuidada apoiado na palma da mão, escutava o irmão Clement, que terminava o que parecia ser uma defesa acirrada:

- ... e afirmo que não podemos continuar a encolher os ombros! Chegou a hora de ordenar a partida! Porque, pelo que sei, já é tarde!

 

(1) Originário do Franco-Condado.

 

- Não estais a dramatizar a situação, meu irmão? Ainda hoje vi o Rei Filipe e ele falou-me bem. Ele sabe muito bem que meter-se connosco pode colocá-lo numa situação muito difícil perante os outros soberanos e até perante o seu povo...

- O povo não gosta de nós. Quanto aos outros soberanos, para além de estarem longe, não esqueçais que o Rei é o mais poderoso deles todos... - disse o irmão Gerard que, tinha a vantagem sobre o Grão-Mestre de conhecer bem Paris.

- Sem dúvida, mas eu continuo persuadido de que a minha visão é boa! Ele nunca ousará! Somos nós que gerimos o tesouro dele e ele precisa de nós...

Sem dar ao seu tio a oportunidade de continuar, Jean de Longwy interpôs-se:

- Seja como for, estamos prontos. As carroças estão carregadas. Escondamos os nossos arquivos e o nosso tesouro! Se se provar que o irmão Clement está enganado... tanto melhor, basta trazer tudo de volta. Com a ajuda de Deus, tudo correrá bem. Resta-nos apenas saber para onde ir. Vós falastes de Inglaterra, parece-me, irmão Clement?

- De facto. Dirigir-vos-eis para Dieppe, de onde partem os nossos correios para o Templo de Londres. A estrada, balizada há muito, não provocará surpresas. Espera-vos um navio na enseada Guillaume de La Hougue. Já escolhestes aqueles que vos acompanharão? Sob as vossas ordens, evidentemente, já que tendes o estatuto de comendador.

-Já. Uma escolha que conta com a vossa adesão, irmão Clement. Temos três carroças, são precisos seis cavaleiros e três sargentos para as conduzir. Uma escolta maior chamaria as atenções. Com vossa permissão, irmão Gerard - acrescentou ele com um esboço de saudação na direcção de Gerard de Villiers - escolhi para a primeira carroça o irmão Olivier de Courtenay, o irmão Hervé d'Aulnay e o sargento Aniceto, que já desempenharam este tipo de missão. Para a segunda o irmão Guilherme de Gy, meu primo e preboste dos arreios e dos animais, e o irmão Martin de Lamusse com o sargento Richard le Normand e por fim, para a terceira, Gaucher de Iiancourt, enfermeiro, e Adam Cronvalle, nosso confrade inglês, vindo em delegação e que, assim, regressa a casa, juntamente com o sargento Robert de Pontoise, Tenho a vossa aprovação, meus irmãos?

- Plena e total - disse o irmão Gérard, de imediato seguido pelo irmão Clement.

O Grão-Mestre. Jacques de Molay parecia mergulhado em profundas reflexões, tão profundas que talvez não tivesse ouvido nada. Perante aquilo, o Grão-Mestre de França franziu as sobrancelhas e reteve um gesto de impaciência.

- Venerado irmão - disse ele com uma voz de onde não estava ausente o timbre metálico - estamos à espera da vossa decisão suprema... e ouso lembrar-vos que o tempo urge.

Jacques de Molay levantou-se, fixou o olhar alternadamente nos outros três e, finalmente, encolheu os ombros:

- Tratastes de tudo tão bem que eu não me atrevo a pôr-me de permeio. Tendes a minha aprovação. Levai as vossas carroças, irmão Jean! As minhas orações acompanhar-vos-ão... mas acredito sinceramente que será tempo perdido e que tereis de ir novamente em busca do que escondestes...

O Grão-Mestre acompanhou-os até ao pátio onde as carroças, atreladas cada uma a dois cavalos normandos, esperavam, carregadas aparentemente com palha e cobertas com fortes telas para proteger o conteúdo, tanto das intempéries como do olhar dos curiosos, difícil de evitar a uma tal distância. O irmão tesoureiro estava junto delas, assegurando-se, justamente, da solidez da embalagem. Era Jean du Tour, com quem Molay tivera uma pega a propósito do empréstimo consentido ao Rei no ano anterior. Aquele até fora expulso do Templo, mas o Rei - de quem, a propósito, era também tesoureiro! - interviera, primeiro sem grande sucesso, e fora preciso uma ordem do Papa para que o obstinado Comtois revogasse a sua decisão. O que era o mesmo que dizer que os dois homens não gostavam muito um do outro, mas sem o demonstrarem. O Grão-Mestre não dirigia a palavra ao tesoureiro e este, sabendo de cor e com exactidão as suas contas e a sua gestão, consagrava-seao seu trabalho, mostrando apenas pelo seu superior supremo a cortesia exigida pela Regra. Nada mais, nada menos.

Ao ver sair os quatro dignitários, o irmão Jean du Tour dirigiu-se a eles e saudou-os como convinha:

- As carroças e a escolta estão prontas como podeis constatar, meus irmãos! As duas primeiras levam os objectos preciosos e a maior parte do ouro e prata que tínhamos aqui.

- Tivestes o cuidado de deixar para trás o tesouro do Rei Filipe? - perguntou Molay meio a rir meio a sério.

- Só tirei o que pertence à Ordem, venerado Grão-Mestre. As finanças reais continuam no seu cofre, assim como, aliás, a quantia em ouro e prata necessária para vida quotidiana desta casa. Em caso de controlo, seria perigoso não ter aqui nada. Também guardei os livros de contas e creio que, se examinassem a nossa tesouraria, não encontrariam nada que dizer...

- Bem feito! - admitiu Molay - mas, que há dentro da terceira carroça?

- As peças mais importantes do cartolário, livros... infinitamente preciosos, títulos de propriedade... e, por vim, os nossos arquivos!

- Que direis se alguém se espantar com a sua ausência? Havia uma certa ironia na pergunta, mas o irmão Jean tinha- a previsto. O templário inclinou-se com as mãos no fundo das mangas:

- Que vão para a nossa casa de limassol a pedido do Grão-Mestre, que deseja ter perto de si aquilo que atesta o poder da Ordem. Ele pediu o mesmo aos outros reinos com vista aos preparativos para uma nova cruzada.

- Isso é mentira, e vós sabei-lo?

- Não absolutamente - respondeu o irmão Jean, inclinando-se de novo. Escrevi, nesse sentido, aos templários estrangeiros... mas em cifra. Sob esta mentira está a realidade dos nossos receios.

- Nesse caso, não tenho mais nada a dizer. Irmão Gerard, eles partirão quando desejardes...

Tendo dito aquilo, o Grão-Mestre regressou ao convento enquanto o Grão-Mestre de França, o preceptor da Provença e Jean de Longwy se juntavam ao pequeno grupo de cavaleiros que esperavam junto dos seus cavalos.

- Chegou a hora - disse Villiers muito sério. - Parti, meus irmãos, e que Deus, Nossa Senhora e todos os santos vos tenham na sua santa guarda! Levais convosco uma das maiores fortunas do Templo, assim como a maior parte das suas raízes! Tende cuidado! Mas, se por acaso, se erguerem obstáculos diante de vós - que Deus não o queira! - não hesiteis em esconder, o melhor possível, tudo o que possa cair em más mãos, tendo o cuidado de predispor, como deve ser, os nossos sinais de reconhecimento com vista a uma recuperação posterior. Nós, aqui, rezaremos sem descanso pelo sucesso da vossa viagem!...

Um instante mais tarde estavam todos a cavalo ou nas boleias das carroças. Nenhum levava o manto branco com a cruz, antes amplos mantos negros com capuz. Uma vez aberta a porta fortificada (1) e protegida, tal como a cerca de Paris, por duas torres de cerca de sete metros de altura, a grade, a ponte levadiça e transpostos os fossos, fundiram-se na escuridão. A caravana afastou-se sem ruído da cidade, já que as rodas das carroças tinham sido convenientemente oleadas. Dirigiram-se para norte...

Não havia Lua, mas Jean de Longwy, que ia à cabeça, guiava a sua tropa com uma segurança absoluta. Olivier e Hervé marchavam lado a lado, enquanto os outros quatro cavaleiros asseguravam a retaguarda da caravana.

Não estava frio, no entanto Olivier sentiu um arrepio pelas costas abaixo. Percorriam, então, o caminho de Courtille e, levado por um pressentimento, o cavaleiro virou-se na sela. Talvez fosse o reflexo dos fogos acesos nas muralhas, mas Olivier teve a impressão de que subia da cidade adormecida um nevoeiro vermelho e à vista daquele nevoeiro um novo arrepio fê-lo contrair os ombros. Invadido por uma súbita inquietação, tentou libertar-se dela rezando, mas, pela primeira vez na sua vida, a sua oração não subia, parecendo lutar contra um obstáculo invisível. A noite ainda lhe pareceu mais escura...

 

(1) O recinto fortificado fora edificado a pouca distância de Paris, mas encontrava-se a ela ligado por algumas ruas, constituindo a Cidade Nova do Templo.

 

                                   O DIA DA CÓLERA

Quando a madrugada daquela sexta-feira de 13 de Outubro, cinzenta e enevoada, se levantou, as carroças e a sua escolta tinham percorrido, mais ou menos, nove léguas. Acabavam de atravessar um bosque denso e espesso e podiam ver-se os telhados de uma aldeia com as duas torres e o campanário de uma comendadoria.

- Eis Ivry - disse Jean de Longwy que, com um gesto, deteve a caravana. - É a primeira paragem importante na estraga que liga o Templo de Paris a Dieppe. Vamos repousar aqui um pouco, seguir os ofícios do dia e voltamos a partir assim que começar a cair a noite...

O sobrinho do Grão-Mestre conhecia aquele itinerário, que já percorrera várias vezes, que tinha a vantagem de evitar Pontoise, cidade real, para perto da qual Filipe, o Belo se retirava frequentemente para reflectir em paz na abadia de Malbuisson (1), construída pela sua bisavó Branca de Castela. Atravessaram o rio sem dificuldades e sem portagem, bem entendido, pela velha ponte vigiada do seu castelo, construído no meio do rio, pelo senhor do local, Nicolau de Villiers, irmão do próprio Gerard, o Grão-Mestre de França. O que equivalia a dizer que, na Ilha de Adão, os templários gozavam de uma simpatia particular... Depois de Ivry, o caminho para Dieppe passaria por Chaumont, Gisors,

 

(1) Aconselhava-se ali, dizia ele, com o seu Silêncio.

 

Gournay e Forges. À excepção de Gisors, encontrariam sempre ajuda, da qual poderiam precisar.

- Se bem percebi, irmão Jean - disse Hervé - estamos a ir bem: depois da passagem do Oise, o mais difícil já passou! Estamos agora numa região mais familiar e portanto amiga?

- Podemos dizer que sim, meu irmão. As pessoas da região chamam a este caminho a estrada do Templo. Isso significa...

O templário interrompeu-se subitamente, mandou parar de novo a caravana que se tinha posto em marcha, içou-se nos estribos e estendeu um braço:

- Olhai! Não será fogo, aquilo?

Do interior do castelo subia uma coluna de fumo negro e depois ouviram gritos, choques, gemidos e sons diversos. Era evidente que se passava qualquer coisa na comendadoria de Ivry. Qualquer coisa de grave. No dia que tardava em nascer, os olhos agudos de Olivier distinguiram uma tropa armada, chuços e chapéus de ferro perto da entrada:

- Irmão Jean! Parece que está gente armada a atacar o castelo! Temos de os socorrer...

- Não! Nós somos poucos... e temos a nossa missão! Meu Deus!... Será já demasiado tarde?

O cavaleiro virou-se na sela e deu ordem para recuar e procurar abrigo na floresta de onde tinham saído...

- Mas, enfim - protestou Aulnay - temos de ir ver o que se passa!

O olhar severo que lhe lançou Jean de Longwy fê-lo corar.

- Se fôssemos um simples destacamento livre de movimentos, a questão não se punha, já que a Regra nos obriga a atacar quando o número é, no mínimo, de um contra três. Mas temos de proteger as carroças.

O templário foi obedecido sem mais discussões. Os cavaleiros puseram pé em terra. A caravana abandonou o caminho e foi colocado ao abrigo por trás de um grande silvado. Enquanto isso, o chefe permanecia na orla, observando os acontecimentos. O fumo era menor e parecia que o incêndio tinha sido circunscrito, mas o súbito silêncio não era nada tranquilizador. Por trás da árvore onde estava escondido, o irmão Jean, destroçado de inquietação, tentava compreender, tentando extrair da memória as palavras do irmão Clement, quando ele lhe confiara a sua missão. O cavaleiro espantara-se ao ponto de ousar interrogar o alto dignitário da Ordem, mas o preceptor da Provença não se sentira ofendido. Jean de Longwy era um borgonhês de cabeça dura, de carácter íntegro corajoso como a sua espada e não tinha medo de nada neste mundo, senão da cólera de Deus. Inteligente mas obstinado, teria transposto as portas dos infernos para cumprir as tarefas de que o encarregavam. E tinha incontestáveis qualidades de chefe. Fora por todas essas razões que o irmão Clement o escolhera para comandar a escolta do tesouro. A pergunta do cavaleiro, respondera:

- Penso que se aproxima uma grande infelicidade para o Templo. Certos indícios, certos rumores, ligeiros mas reais, deixam-no supor. Temos de tomar precauções.

Não era a opinião - já o vimos! - do Grão-Mestre e também podia ter ficado espantado, mas Jean de Longwy conhecia bem o seu tio e a sua maneira de enfrentar um obstáculo sem se preocupar com as consequências graças a uma espécie de ingenuidade e até, poder-se-ia dizer, a uma certa frescura de alma, que o impedia de pensar nas reacções dos outros. Para ele, o Templo era o que havia de maior, de mais puro e de mais poderoso na terra, mais nada. Assim, Longwy não se espantou por ver Clement de Salernes substituí-lo de certa maneira, sugerindo primeiro e argumentando depois com uma força que acabara por arrastá-lo. Por isso, ao observar o que se passava em Ivry, temia que fosse o princípio da infelicidade anunciada.

Subitamente, o templário viu qualquer coisa mais. Ao longe, um homem fugia. Meio acocorado, acabava de sair de detrás de um arbusto para ir para outro, não sem se virar para se assegurar de que não o seguiam, procurando, certamente, atingir o bosque. A julgar pela roupa que vestia, tratava-se de um servo do Templo. Quando ele se aproximou mais, mais lentamente, como se estivesse a perder as forças, Longwy compreendeu que o homem estava ferido. Não aguentando mais, o cavaleiro saiu do seu abrigo, precipitou-se ao seu encontro e arrastou-o para o arvoredo, cobrindo-o com o seu manto negro. Surpreendido, o homem opôs apenas uma débil defesa. Esta cedeu quando ele ouviu:

- Eu também sou do Templo! Vinde!

O fugitivo emitiu um gemido de dor e Longwy quase o transportava quando chegou junto de Olivier e de Hervé, que o ajudaram.

- Vamos para junto das carroças! - disse ele. - Ele está a perder sangue!

O sargento estava desmaiado e quando o estenderam no tapete de erva e de folhas, viram que o sangue, de facto, corria de um ferimento que tinha no flanco... Hervé, inclinando-se, desapertou-lhe o cinto e despiu-lhe a cota rasgada, que se lhe colava à pele. A cada respiração, cada vez mais penosa, o fluxo vital saía com mais força...

- Não posso fazer nada por ele. O ferimento é profundo e ele vai morrer. É um milagre o facto de ter conseguido chegar até aqui...

- Tendes razão, parece grave - disse Gaucher de Iiancourt, o irmão enfermeiro, ajoelhando-se por sua vez junto do ferido. - Mas talvez possamos saber o que se passa?

Este procurou no seu saco de medicina, que nunca o abandonava, um cordial à base de plantas, mas o ferido recobrava a consciência e tinha-o ouvido:

- ... Gente do Rei... de madrugada... acabávamos de nos levantar... para cantar as Primas... quando bateram à porta... Alguém... gritou: “Da parte do Rei...” e nós abrimos sem desconfiar... Era o bailio de Chaumont e... homens de armas... Eles vinham... eles vinham prender-nos!

- Prender-vos? - exclamou Jean de Longwy. - Que fizestes?

- Nada... mas acusam-nos de sermos heréticos, simoníacos e sodomitas... mentirosos, adoradores... do Diabo! E... vós também sereis presos... se não fugirdes...

O sargento teve uma crispação de dor, empalideceu ainda mais e eles pensaram que estava a morrer. O irmão Gaucher elevou-lhe um pouco a cabeça e os ombros para o apoiar e obrigá-lo a beber algumas gotas do seu licor. O homem engasgou-se e tossiu, mas recuperou um pouco de cor. O seu olhar era pleno de angústia:

- Acabou... para mim... Fugi... para onde puderdes! Escondei-vos! Nem que seja no fundo de uma leprosaria... porque a esta hora... por toda a parte... em todo o reino... estão a prender os nossos irmãos... e a vasculhar... as casas todas... Fugi! Meu Deus! Porquê?

Foram as suas últimas palavras. Um soluço violento trouxe-lhe à boca um fluxo de sangue e depois o irmão Gaucher sentiu-o fazer peso sobre o seu braço, ao mesmo tempo que os olhos, muito abertos, se fixavam. Estendendo o frasco a Olivier, o irmão enfermeiro fechou-lhe docemente os olhos.

- Está morto - disse ele. - Que Deus tenha a sua alma. Oremos!

Ajoelharam-se todos para uma oração que o irmão Jean não permitiu que se eternizasse. O chefe da caravana levantou-se. Os outros ficaram de joelhos, visivelmente fulminados pelo que acabavam de ouvir. O homem de acção, nele, nunca estava longe e, perante aquela situação catastrófica, era preciso reagir. E depressa!

- Vamos, meus irmãos! De pé! Não podemos ficar aqui!

O inglês, Adam Cronvalle, encolheu uns ombros desiludidos:

- E para onde havemos de ir, meu irmão? Não ouvistes? Por toda a parte, em toda a França, estão a prender-nos a todos!

- Espero que isso não esteja a acontecer no vosso país, itmão Adam?

- Fora do Templo de Londres somos muito poucos e não damos preocupações ao Rei Eduardo. Mas receio nunca mais regressar a Inglaterra. Que propondes de imediato, meu irmão?

- Primeiro, recuar para o mais profundo da floresta...

- Primeiro, é preciso enterrar este infeliz - disse um deles.

- Certamente que não! - cortou o irmão Jean. - Alguém pode ter reparado na fuga dele. Se andam à procura dele, é preciso que o encontrem! E agora tentemos esconder-nos o melhor possível...

Manobrar as pesadas carroças no meio da floresta não era fácil, mas o irmão Guilherme de Gy, como preboste dos arreios e dos animais, era um verdadeiro mágico quando se tratava de cavalos. O monge-cavaleiro conseguiu pôr em marcha as atrelagens que os sargentos guiavam pela brida e afastá-las o suficiente para que um bando, de passagem por ali, não suspeitasse, sequer, da sua presença. O tempo estava cinzento, mas tinha deixado de chover há um momento e o solo não estava alagado. Além disso, enquanto faziam avançar os veículos, os cavaleiros tinham feito os possíveis por apagar o rasto das rodas na vizinhança do cadáver que tinham abandonado. Após três quartos-de-hora de esforços, pararam, por fim, entre um aglomerado rochoso coberto de musgo e uma encosta suave que descia na direcção de um rio, mas cujo marulhar ainda não conseguiam ouvir.

Trataram dos cavalos. Sempre e em toda a parte, era a primeira tarefa e primeira preocupação dos templários, mesmo em circunstâncias tão dramáticas como as que estavam a viver. Sem os desatrelar, deram-lhes a aveia que tinham trazido e o irmão Guilherme mandou dois homens buscar água. Ao atingirem a linha de salgueiros ao longo da margem que naquele local fazia uma curva, os três homens aperceberam, na outra margem e meio escondida por uma cortina de árvores, uma vasta clareira, no meio da qual se erguiam uns edifícios encerrados dentro de uma paliçada feita de troncos aguçados. Viram um pequeno campanário, o que assinalava uma capela e, em redor das construções baixas, um trecho de torre meio arruinada. Aquilo parecia-se com uma herdade, com a diferença de que não existem herdades no meio dos bosques. Mas exalava-se daquele conjunto uma grande tristeza e quando a grossa porta, bem armada de ferro, se abriu para deixar passar duas personagens transportando umas bilhas, os templários compreenderam por que razão o local parecia tão sinistro: um dos homens usava o hábito de São Lázaro e o segundo, cujo rosto não estava escondido por baixo do capuz da sua túnica cinzenta, não se sabendo observado, mostrava um fácies inchado e deformado pela lepra...

- Uma leprosaria! - murmurou o irmão Guilherme. - Não perturbemos a sua paz...

Os cavaleiros tiraram a água de que necessitavam e regressaram para junto das carroças sem terem despertado a atenção do monge e do doente, mas relataram o que acabavam de ver. Quanto acabaram de tratar dos cavalos, comeram o pão e o queijo que tinham por costume transportar consigo por precaução e reuniram-se em conselho. Um conselho onde ninguém se apressou a tomar a palavra, cada um tentando assimilar a incrível catástrofe que se estava a abater sobre a Ordem. Presos! Todos presos pelo país fora e, sem dúvida, metidos em prisões! Eles que, ainda ontem tão poderosos, senhores de tantos castelos, de tantas terras, de tantas riquezas? Como era possível? E sob acusações infames! Que dissera o irmão antes de morrer? Simoníacos? Sodomitas? Adoradores do Diabo?... Não fazia sentido! O mundo estava de pernas para o ar! Finalmente, alguém quebrou o silêncio:

- Que vamos fazer?

- Primeiro, rezemos! - disse Olivier. - Estamos nas mãos de Deus. Talvez Ele ilumine as nossas trevas...

Com um sinal de cabeça, o irmão Jean aprovou e durante longos minutos, com vozes contidas, invocaram o Pai, a Virgem Maria, sua terna padroeira, terminando com um Veni Creatormut-murado, não cantado.

Jean de Longwy levantou-se e, com uma grande calma, tirou a longa cota branca, beijou a cruz púrpura e dobrou-a cuidadosamente.

- Imitai-me, meus irmãos! Temos de nos desfazer destes sinais de distinção de que nos orgulhávamos tanto! Que o Céu faça com que nos seja feita justiça e que possamos, um dia, usá-los de novo.

Todos o imitaram com lágrimas nos olhos. O mesmo aconteceu quando foi necessário desfazerem-se dos lorigões de malha de aço que completavam o carnal que envolvia por completo o pescoço e a cabeça, deixando ver apenas o rosto. Uma protecção suficiente para escoltar bens em tempo de paz. O que equivalia a dizer que não usariam, a partir dali, elmos ou chapéus de ferro e todos, ao ajudarem-se mutuamente a tirar a estreita túnica, tiveram a impressão de lhes arrancarem a pele.

Por baixo, tinham, sobre as camisas e bragas de linho, calções e gibões de lã negra. Evidentemente, vestidos daquela maneira, ainda eram mais semelhantes. Entretanto, a prudência do irmão Clement ordenara semanas antes, àqueles que escolhera há muito, que deixassem crescer os cabelos que a Regra queria muito curtos e que aparassem as barbas e bigodes. O irmão Jean olhou para eles por um instante e suspirou:

- Não vamos poder seguir caminho em conjunto. Vamos ter de nos separar: uma carroça de palha acompanhada por três camponeses - se nos sujarmos um pouco parecer-nos-emos com eles - pode passar despercebida, mas três, seguidas por um grupo de cavaleiros tão uniforme, não passarão.

- Separarmo-nos como? - perguntou Olivier. - Vamos para Dieppe por caminhos diferentes ou segue cada um o seu caminho deixando alguma distância entre nós? Um dia cada, por exemplo... A dificuldade é que só vós conheceis esta estrada e esta região e se cada carroça vai pelo seu caminho, arriscamo-nos a perder-nos...

- Teríeis razão se fôssemos para Dieppe, mas se o Rei Filipe mandou prender todos os templários de França, podeis ter a certeza de que a nossa casa não escapou... nem os navios da Ordem, se não tiveram tempo de se pôr ao largo... Não encontraremos nada... senão os sargentos dos prebostes locais...

- Nesse caso, para onde vamos? Não podemos ficar aqui! - disse Hervé d'Aulany.

- Neste local, não! Temos de pensar, antes da nossa própria segurança, de esconder este grande tesouro das garras do Rei! Temos de escondê-lo em três sítios diferentes. Ora, já não podemos confiar em nenhuma das nossas comendadorias: seria atirarmo-nos para outras tantas armadilhas. Por consequência, teremos de encontrar esconderijos em locais onde ninguém tenha a ideia de ir procurar.

- Em residências de nobres, por exemplo? - disse Olivier, que estava a pensar na Arca escondida na gruta secreta de Valcroze.

- Na condição de os senhores serem da máxima confiança, de outro modo como poderemos ter a certeza de que os nossos anfitriões, mesmo que nos recebam bem, não se apressarão, depois da nossa partida, a pilhar as riquezas que lhes confiamos? Eu nem sequer tenho a certeza de que Nicolas de Villiers, que nos ajudou esta noite a atravessar o Oise sem problemas, será capaz de resistir à tentação. A portagem da ponte dá-lhe belas quantias, mas ele ama o ouro...

- Nesse caso, os mosteiros beneditinos? O Templo é filho de São Bernardo, que fez dos seus conventos portos de abrigo para a ordem, a oração e a beleza - disse Gaucher de Larchant. - Não nos podem recusar asilo?

- É uma possibilidade. Mas também aí, apesar de o asilo ser dado sem hesitar às nossas pessoas, receio que tais riquezas não fiquem verdadeiramente ao abrigo...

- Nesse caso?

- Nesse caso...

Os olhos escuros do borgonhês pousaram-se à vez em cada um dos rostos ansiosos que o rodeavam, esperando dele a salvação com uma tensão que se sentia nos seus corpos.

- Ouvistes o conselho que aquele infeliz irmão moribundo nos deu antes de nos morrer nos braços? “Escondei-vos, nem que seja no fundo de uma leprosaria.” E, se bem compreendi o que o irmão Guilherme disse, há uma na outra margem deste rio...

A proposta era tão aterradora que, de repente, ninguém reagiu. Um vento de dor passou por aqueles homens no entanto habituados aos cadáveres disformes nos campos de batalha e às abominações da guerra, mas a lepra que devora o homem vivo fazia-os tremer.

O primeiro a protestar foi o inglês Adam Cronvalle:

- Quereis enterrar-nos naquela ignomínia? Prefiro a fogueira. É mais rápido...

- Não nós, o conteúdo de uma das carroças, por exemplo. Os irmãos de São Lázaro têm obrigações para connosco desde sempre e podemos, sem grande risco, pedir-lhes ajuda. Dissestes que no centro da leprosaria há uma torre meio arruinada. Talvez fosse possível esconder lá uma parte do tesouro. Aliás, vou lá agora mesmo...

Cronvalle fez tenção de o impedir:

- Pensai no que ides encontrar, meu irmão!

Longwy contentou-se em repelir a mão com doçura, mas foi Olivier que se encarregou da resposta:

- O meu avô Thibaut de Courtenay era escudeiro e amigo fiel de Balduíno IV de Jerusalém, o sublime Rei leproso. Foi criado com ele e nunca o deixou senão quando foi feito prisioneiro de Saladino, mas depois, e até à sua morte, partilhou sempre a sua tenda ou o seu quarto. E nunca o mal o atingiu... Têm todos tanto medo, em Londres?

O frio desdém da entoação acendeu uma centelha no olhar do inglês, que corou. Hervé d'Aulnay interpôs-se de imediato:

- Paz, meus irmãos! Somos, talvez, os únicos templários ainda livres. Que acontecerá se começarmos com querelas? O irmão Jean só pensa em salvar o que nos foi confiado!

Havia um pedido urgente no seu olhar, fixado no do amigo. Este teve um sorriso crispado:

- Desculpai-me, irmão Adam! A observação escapou-me.

- Não foi nada...

Enquanto isso, Jean de Longwy afastara-se com Guilherme de Gy, que decidira acompanhá-lo. Esperaram por eles durante algum tempo, esforçando-se por seguir as horas canónicas, tal qual a Regra os obrigava, mas não era fácil. Apesar de todos terem o hábito daqueles exercícios de piedade, era precisamente aquele hábito que os fazia sentir, naquelas terríveis circunstâncias, um certo vazio, sem uma verdadeira ressonância. O mundo, em redor daquela floresta, parecia-lhes hostil. Até Olivier, que sentia por Cristo e por Nossa Senhora um amor filial tão caloroso que era como se eles fizessem parte da sua família, não sentia o habitual eco das palavras rituais. Era como se as portas do Céu se tivessem fechado. Atormentava-o, sobretudo, a velha maldição trazida da Palestina pelo seu pai. Teria chegado o dia de cólera anunciado pelo Velho de Hattin! Teria Deus tirado a Sua mão de cima do Templo, abandonando-o à sua perda?

Quando, por fim, Jean de Longwy regressou, já a noite se aproximava e vinha acompanhado de um monge de cogula negra:

- Este é o irmão Sebastião, prior da piedosa casa de São Lázaro... ele aceitou ajudar-nos e acompanha-me para nos ajudar a atravessar o rio graças a um vau que ele conhece. Púnhamo-nos a caminho!

- Todos? - perguntou Cronvalle. - Pensava que só uma parte de nós é que ia lá.

- Esta noite vamos lá todos! Pelo menos, homens e cavalos ficarão abrigados se o tempo piorar. O que me parece que vai acontecer...

- Temos espaço para as três carroças - disse o prior com uma voz doce. Neste momento, a leprosaria está quase vazia.

- Os vossos leprosos morreram? - perguntou o inglês com a desconfiança que não conseguia deixar de sentir.

- Não, mas, levados por um santo homem que chegou aqui há pouco, puseram-se a caminho da cidade de Tours, nas margens do Loire, para rezar no túmulo do grande São Martinho, cuja festa será daqui a um mês. Disseram-lhes que os leprosos encontravam ali, muitas vezes, a cura... e eu não pude impedi-los! Deus tenha piedade daquela pobre gente! - acrescentou ele, inclinando-se e fazendo o sinal da cruz...

- Além disso - continuou Longwy - podemos esconder por baixo da velha torre o conteúdo de uma das carroças...

- E as outras? - continuou o inglês.

- Dar-vos-ei um guia, que vos levará a um certo esconderijo - respondeu o padre Sebastião. - E agora vinde! A noite aproxima-se e quando está escuro o vau é mais difícil de encontrar...

Puseram-se em marcha e depois de terem caminhado alguns minutos desceram na direcção da margem, que seguiram durante uma curta distância até um ponto marcado com uma grande pedra junto da qual o padre Sebastião, que ia à frente, se deteve:

- Eis a passagem - designou ele. - Não se vê, mas o leito do rio chega a este local. Os antigos Romanos construíram aqui um dique para poderem atravessar comodamente. Agora, está arruinado, mas o caminho sob a água é suficientemente largo para as vossas carroças... na condição de me seguirem passo-a-passo e de não se desviarem...

- Comandai! - disse simplesmente Jean de Longwy. - Nós obedeceremos...

Apesar de ser delicada e exigir tempo, a travessia da vau operou-se sem incidentes e pouco depois a caravana completa chegava à outra margem, ao caminho de terra batida que ia dar à leprosaria. A escuridão reinava, apenas atenuada por um único archote pendurado na parede da capela, à entrada. Tal como tinha pensado Longwy, era uma antiga mansão e se a única torre estava reduzida a metade, se a casa em si já não existia, ainda estavam de pé alguns edifícios de serviço e em bom estado. Assim, as carroças encontraram o abrigo de um grande alpendre e os cavalos o de uma velha estrebaria. Os próprios doentes estavam alojados num curral reconstruído e os três monges que se ocupavam deles num pequeno edifício anexo. Mas a entrada dos viajantes fez-se sem atrair a atenção de ninguém, salvo a dos dois religiosos vindos ao seu encontro, que os saudaram com a cortesia habitual de todas as casas de Deus.

Os templários, tendo repousado mais ou menos durante a maior parte do dia, se bem que a angústia não lhes permitisse um verdadeiro descanso, trataram imediatamente de esvaziar a primeira carroça e de levar o conteúdo para a torre onde não subsistia, tal como Jean de Longwy se dera conta, senão a sala do rés-do-chão - apesar de o tecto mostrar um rasgão! - e a entrada de uma escada que mergulhava no subsolo.

- Tal como mostrei ao irmão Jean - disse o padre Sebastião - para lá de uma cave que nós usamos para conservar as nossas provisões, há um subterrâneo com duas ramificações, dos quais um ia dar à casa do Templo de Ivry, enquanto o outro desemboca no campo. O do Templo está cortado por degraus que permitem passar por baixo do rio, mas foi completamente tapado quando esta velha herdade se transformou numa leprosaria. O outro vai ter, para lá da floresta, à cripta de uma capela, destruída há muito tempo, e que hoje não passa de um monte de destroços e de rochas, cobertos por um grande silvado e cuja saída é impraticável...

- É lá que vamos esconder a nossa carga. Em seguida, fecharemos a entrada deste lado...

- Nesse caso - disse Guilherme de Gy - por que não esconder também aqui o conteúdo das duas outras carroças?

- Porque esta cripta é exígua e já encerra um túmulo - respondeu o chefe. -Além disso, podemos deixar ao padre Sebastião a carroça, de que ele se poderá servir ou reduzir a lenha, e os dois cavalos que a puxam - eles podem muito bem ter fugido das cavalariças de Ivry, já que, como vimos, houve um incêndio e não será difícil vendê-los, para benefício desta casa, a um qualquer fazendeiro dos arredores - é impossível deixar-lhe três veículos e seis cavalos, dos quais ele não saberia que fazer. E mais vale dividir o tesouro. Seria bem surpreendente se, caso a sorte permita que alguém faça a descoberta antes que tenha sido possível àqueles que, assim o espero, continuarão o Templo, a mesma sorte privilegie outras duas pessoas ao mesmo tempo.

Durante uma parte da noite, transportaram tabuleiros, caixas e barris até ao extremo do subterrâneo, que em seguida fizeram desmoronar mais ou menos a meio caminho, após o que os cavaleiros comeram qualquer coisa oferecida pelo padre Sebastião e também algum repouso na palha que estenderam ao longo da sala baixa da torre. Apenas Jean de Longwy não dormiu. O cavaleiro foi fechar-se com o prior numa espécie de cubículo no alojamento dos monges, onde este fazia as contas da pequena comunidade. Ali, falaram os dois durante muito tempo com os cotovelos em cima da mesa e uma candeia acesa entre os dois...

Quando o padre Sebastião a apagou com um sopro, já o dia se avizinhava, tão cinzento como na véspera, tão triste com as suas nuvens baixas que, no entanto, não previam chuva, mas para o irmão Jean que, finalmente, se deixara acabrunhar por um instante pelo drama que todos viviam, era preferível que fosse assim: um sol alegre ter-lhes-ia parecido insultuoso perante a amplitude do cataclismo. O templário ficou sentado um bom momento na pedra da soleira da torre enquanto, de vez em quando, os galos respondiam uns aos outros e os três monges se dirigiam à capela antes de iniciarem o trabalho quotidiano, assim como os cuidados aos seus pensionistas habituais. Só restavam dois, que estavam quase no fim do seu calvário, um idoso ainda capaz de se deslocar e um petiz, seu neto.

O borgonhês nem sequer pensava em rezar, pensava apenas no futuro do seu pequeno grupo, admitindo que a perigosa aventura tivesse sucesso. Ele, pessoalmente, estava a pensar em ir para as terras familiares, às portas de Dijon, enquanto o seu primo Guilherme de Gy podia fazer o mesmo, mas os outros, para quem o Templo de Paris era o seu lar normal?

Após uma pausa, o cavaleiro levantou-se agitando os ombros como que para se livrar de um fardo demasiado pesado e foi acordar a escolta da carroça vazia: Olivier de Courtenay, Hervé d'Aulnay e o sargento Aniceto.

- Chegou a hora de nos separarmos, irmãos! - disse-lhes. - Podeis partir para onde quiserdes com os dois cavalos que vos trouxeram. Um de vós levará o sargento na garupa. Somos demasiado numerosos neste local, se bem que deserto, para não despertar a curiosidade se, por acaso, alguém se apercebesse da nossa presença.

Apesar de habituado a obedecer sem discutir, Hervé perguntou:

- Que vai ser das carroças restantes e dos nossos companheiros?

- Falei acerca disso durante muito tempo com o padre Sebastião. Ele conhece a fundo esta região, onde nasceu e, durante a noite, ele guiar-nos-á, a mim e à segunda carroça, até Neaufles onde, perto de Gisors, existe um poderoso castelo pertencente à sua família. Esse castelo está ligado, justamente, ao de Gisors por um subterrâneo (1)...

- Gisors é uma fortaleza real, se não me engano e foi de lá que vieram os que prenderam os nossos irmãos de Ivry - interveio Olivier. - Não ides lançar-vos na boca do lobo?

- O risco existe, sem dúvida, mas, para além das leprosarias, que melhor esconderijo para a parte restante do tesouro do que um domínio pertencendo àquele que acaba de se declarar nosso inimigo? O padre Sebastião sabe como nos meter lá dentro. Além disso, uma das passagens do subterrâneo vai dar à igreja de Santa Catarina, que fica fora dos muros. Em seguida, regressaremos aqui e mandarei embora a escolta dessa carroça. Após o que, com a terceira e se Deus quiser, conduzi-la-ei, com os irmãos Gau-cher e Adam até à leprosaria do Vale dos Leprosos, em Saint-Laviers, nos arredores de Abbeville. Segundo o padre Sebastião, foi o Templo que a fundou e entregou aos religiosos de São Lázaro

 

(1) No tempo da menoridade de São Luís, Branca de Castela utilizou essa saída para escapar a um assalto.

 

para que eles ali tratassem os nossos irmãos que a contraíram na Terra Santa...

- Abbeville? - perguntou Hervé. - Mas isso é muito longe!

- Não é mais do que Dieppe e o irmão Adam servir-nos-á de guia, visto que já lá esteve. Passaremos por leprosos a caminho do nosso último refúgio. Abbeville fica situada perto do mar, o que permitirá, pelo menos assim o espero, que o irmão Adam regresse a Inglaterra e que o irmão Gaucher o possa seguir...

- E por que não vós mesmo, meu irmão? E por que não embarcar também o carregamento?

- Seria demasiado arriscado. Não previmos as maquinações do Rei e não sabemos se ele não estará conluiado com Eduardo de Inglaterra. Prefiro um refúgio mais seguro. Quanto a mim, vou tentar regressar à Borgonha, onde conto que a duquesa Inês (1) não tenha subscrito as vontades do seu sobrinho. Lá, farei de maneira a que Filipe de França pague o mal que nos causou. Na pior das hipóteses, encontrarei abrigo na abadia de Citeaux... enquanto espero!

Enquanto falava, o seu rosto severo tornara-se ainda mais sombrio. No entanto, o sargento Aniceto ousou perguntar:

- Não posso acompanhar-vos, sire? Eu sou dessa região e gostaria de regressar...

- Pensava que éreis escudeiro do irmão Olivier?

- Não - corrigiu este último. - O sargento Aniceto partilhou com o irmão Hervé e comigo mesmo uma missão difícil, mais nada. Finalmente, a catástrofe que se abateu sobre nós liberta-o...

- Mas, e vós, que ides fazer?

- Regressar a Paris para saber mais sobre a extensão do desastre, como reagiu o Grão-Mestre... e, sobretudo, o que aconteceu ao irmão Clement de Salernes, que é o meu segundo pai.

- E eu vou com ele - disse tranquilamente Hervé. - Talvez consigamos encontrar refúgio em casa do meu irmão mais velho, em Moussy-le-Noble, que não fica muito longe da Pro

 

(1) Filha de São Luís, era viúva do duque Eudócio de Borgonha.

 

vença do irmão Olivier. Vamos todos precisar, os que ainda restamos, de reflectir...

- Reflectir em quê se o Rei jurou a nossa perda? - perguntou amargamente Courtenay, pensando que a maldição se cumpria e que não podiam fazer nada. - Para nós, só há dois caminhos possíveis: o exílio longe do reino, se o Templo ainda subsistir para lá das nossas fronteiras, ou a entrada para um mosteiro, tal como vós acabais de evocar, irmão Jean! Quanto a uma rebelião, a Regra proíbe-no-la... Peço-vos que não o esqueçais!

- Seja como for, se mudardes de opinião e se eu conseguir lá chegar, ficais a saber que no castelo de Longwy sereis acolhidos como... irmãos! E agora, preparai-vos! Comei qualquer coisa! Em seguida, o irmão Adriano guiar-vos-á através da floresta até ao caminho da Ilha de Adão sem vos perderdes...

Enquanto se dirigiam à estrebaria em busca dos seus cavalos, Olivier viu sair da sala dos doentes um idoso de rosto roído pela lepra, que se sentou num banco de pedra em frente da porta. A sua mão estava pousada no ombro de um rapazito louro e esse rapazito era a criança mais bela que ele alguma vez vira. Teria seis ou sete anos e o seu rosto cor-de-rosa, cujos olhos se pareciam com duas flores do linho, era a imagem da saúde. O gaiato conversava animadamente com o ancião que, por ele, conseguia ainda sorrir. Olivier virou-se para o padre Sebastião:

- Aquela criança, padre, que faz ela neste local, nesta casa de morte, quando não há qualquer vestígio do mal nele?

- Ainda não há, quereis vós dizer. O pai e a mãe dele morreram do mal aqui mesmo e o velho Fabiano, avô dele, está bem contagiado, como vedes...

- Mas ele é são? Não pode ficar...

- Mas vai ficar - suspirou o religioso. - Ele só tem seis anos, mas podeis ter a certeza de que tem lepra. Simplesmente, no caso das crianças, a lepra só aparece por volta dos nove ou dez anos, quando a puberdade se aproxima...

Então, Olivier recordou-se da história do jovem Rei leproso, contada pelo seu pai. Também ele era belo, radioso e cheio de vida quando o seu preceptor, Guilherme de Tiro, se apercebera de que, ao ferir-se, não sentia qualquer dor. Tinha nove anos! Mas aquela criança não era Rei. Só tinha, como família, aquele ancião a caminho da tumba...

- Que lhe vai acontecer quando o avô morrer? - perguntou ele.

- Ficará connosco... e nós tratá-lo-emos o melhor que pudermos e soubermos porque o amamos! Confesso que, por vezes, perante uma tal injustiça, me interrogo...

O padre interrompeu-se e entrou no abrigo dos cavalos.

Um momento mais tarde, os que partiam disseram adeus aos seus companheiros. Foi simples, um adeus quase silencioso mas pleno de emoção naquele instante em que as suas vidas, tão bem traçadas até àquele momento numa bela linha direita, quebrava-se contra uma parede cuja dureza ou dimensões nenhum deles podia calcular. Era preciso continuar o caminho, ao encontro de um ideal do qual não tinham a certeza de encontrar. Abraçaram-se e depois Hervé e Olivier pegaram nas rédeas das suas montadas e seguiram o irmão Adriano para fora da cerca de troncos aguçados e ao longo do rio, que subiram na direcção da nascente.

Depois de terem percorrido mais ou menos uma meia légua, depois de o curso de água ter desaparecido, chegaram a um cruzamento. O lazarista estendeu então um braço em direcção a sul e disse apenas:

- Ide a direito. A um quarto de légua daqui encontrareis o caminho que seguistes à vinda. Deus esteja convosco!

E sem sequer esperar pelos agradecimentos, meteu as mãos nas mangas e desapareceu por baixo da cobertura das árvores...

Três dias mais tarde, dois monges franciscanos - túnica e cogula de capuz de burel cinzento e cinto de corda de três nós, seguiam a grande estrada de São Dinis que, através dos campos, terminava na porta do mesmo nome para continuar pela mais importante das artérias parisienses, a que, até ao Sena, atravessava os bairros da margem direita de um lado ao outro. Para dar descanso aos pés calçados com grosseiras sandálias de correias, sentaram-se num talude à entrada de uma vereda que ia dar ao topo de uma pequena colina onde se erguia uma estranha construção: sobre um grande amontoado de pedras em bruto, quatro pilares de cada lado e quatro ao centro, ligados por vigas, formavam, em dois andares, quarenta e oito armações que se recortavam no céu. Cada uma daquelas vigas sustinha uma corrente de ferro e quase todas sustinham o corpo de um enforcado, alguns ainda reconhecíveis, mas outros já reduzidos, pelos corvos, ao estado de farrapos humanos. Era o patíbulo de Montfaucon, que o intendente dos edifícios, Enguerrand de Marigny, mandara construir. Dois guardas armados de bisarmas mantinham-se na base dos degraus que partiam da base e junto deles estava um pequeno grupo de homens, mulheres e crianças, alguns deles chorando. Acabava, sem dúvida, de se proceder a uma execução. Outras pessoas observavam de mais longe, perto dos dois monges. Então, estes ouviram:

- Achais que estão ali alguns templários, vizinho? - dizia um deles, um homenzinho insignificante com um barrete verde na cabeça que não tinha ar de inteligente.

- Ainda é muito cedo para isso! Primeiro, é preciso julgá-los! - respondeu o outro, que era duas vezes maior e que se dava ares de importante. - E espantar-me-ia muito se viessem aqui parar. A julgar por aquilo de que são acusados: heresia, sodomia, sacrilégio, não terão direito a uma corda honesta: vão para a fogueira!

- Achais mesmo que eles fizeram tudo isso? - perguntou de novo o primeiro.

- É o que diz a carta do nosso sire Filipe, que publicaram ontem e o Rei deve saber o que escreve...

- Ah, lá isso é verdade! Mas, se quereis saber o que eu penso, vizinho, não me espanta! Aquela gente, desde que veio da Terra Santa, não presta para nada e disseram-me que se passam coisas lindas nas casas ricas deles...

O seguimento do discurso perdeu-se para os que o escutavam, já que os dois compadres se tinham posto de novo a caminho, regressando à cidade... Passaram ambos, sem reparar, pelos dois monges. Hervé d'Aulnay suspirou:

- Se o resto do povo pensa como aqueles dois, a Ordem não vai ter muitos defensores!

- Que esperavas tu? Nunca é bom suscitar inveja e para aquele homem não passamos de uns inúteis instalados em cima de grandes riquezas...

- Inúteis? As nossas casas dão muitas esmolas e o Grão-Mestre não cessa de reclamar uma nova cruzada! E... a propósito de esmolas, não é suposto nós sermos irmãos mendigos?

- Se não pedires nada, não recebes nada, meu filho! - disse Olivier, que não conseguiu deixar de rir. - E aqueles dois, como dizes, nem sequer olharam para nós...

- Ou não quiseram. Seja como for, tenho medo de não conseguir. Teria preferido outro hábito...

- Era tudo o que tinha sire Jean de Villiers. Temos de lhe estar gratos: mesmo barbeados, ele achava que nós continuávamos a parecer dois templários.

O senhor da Ilha de Adão, de facto, apesar de os ter acolhido sem discutir, não lhes escondera que recebera, no dia 13 de Outubro, a visita de um mensageiro real portador de um edital onde se estipulava que quem quer que desse asilo a um templário incorria em graves sanções, podendo ir, desde a confiscação dos bens até à prisão pura e simples. Ora, ele era irmão de Gerard de Villiers, o Grão-Mestre de França e era natural que se encontrasse à cabeça da lista dos suspeitos, mas era um homem de carácter, inteiramente capaz de defender a sua fortaleza insular contra quem quer que fosse, nem que fosse o Rei, se este tentasse expulsá-lo:

- Quanto ao meu nobre irmão - acrescentou ele - não o deixarei ser massacrado em frente dos meus muros sem tentar socorrê-lo.

- Não somos vossos irmãos? - perguntou Olivier.

- Sois irmãos dele, visto que ele vos chama assim. E por isso que vos ajudo. Para mim, o Templo está inocente das ignomínias de que o acusam há dois dias.

- O que ouvimos dizer é verdade? - inquietou-se Olivier. - Todas as comendadorias de França foram atacadas ao mesmo tempo, à mesma hora? É incrível.

- No entanto, é verdade: o Rei Filipe conseguiu um feito extraordinário, o que comprova o seu poder em todo o reino... Se quereis regressar a Paris, tendes de mudar de aparência.

Olivier e Hervé tinham, portanto, trocado os seus trajes por dois hábitos cinzentos e os seus cavalos por dois pares de sandálias, calçado a que, evidentemente, eles não estavam habituados e que tinha feito recordar a Olivier o que o seu pai lhe contara acerca do seu percurso entre a Torre esquecida e a comendadoria de Joigny quando fugia das gentes do bailio de Châteaurenard (1). Abandonar umas botas sólidas que protegiam os pés por aquelas palmilhas com correias de couro era uma verdadeira penitência, sobretudo quando o tempo, já húmido, se punha frio. Hervé só aceitara por amizade. O cavaleiro não via uma razão válida para se arriscarem a ir até Paris quando era tão fácil chegar no espaço de quatro horas ao seu castelo paternal de Moussy, também ele a norte da capital... e sem se separarem dos cavalos, mas Olivier queria saber o que acontecera ao irmão Clement e, por isso, tinham sido obrigados a regressar até à muralha do Templo para escutar o que se dizia nas ruas... Aulnay bem dissera que Moussy ficava apenas a seis léguas da Cité, que lá, pelo menos, poderiam reflectir na calma, já que não tinham o menor asilo. Olivier obstinara-se, admitindo que o seu amigo não tinha qualquer razão para o acompanhar, mas que ele tinha de ir.

- Talvez Deus queira que os nossos caminhos se separem aqui - dissera-lhe ele com uma grande doçura. - Regressa a casa! Prometo-te que vou ter contigo assim que souber o que aconteceu àquele a quem quero tanto!

- Ter comigo? Nunca farás o caminho sozinho! - resmungara Hervé. - A nossa Moussy não é uma grande metrópole. Nem todas as estradas lá vão dar. Tentaremos a aventura juntos e nem mais uma palavra!

E foi assim que, embrulhados, mais do que vestidos, com hábitos cinzentos um pouco curtos de mais para as suas grandes pernas, os dois amigos se viram no meio do fluxo contínuo de carretas com legumes, mulheres sentadas de lado em cima de burros, soldados, camponeses ou simples viajantes vindos da Flandres ou de outros lados que Paris escoava para a nobre estrada das entradas folgazonas e dos funerais reais: gente das aldeias

 

(1) Ver o volume II, Renaud ou a Maldição.

 

enxameadas de gente no semicírculo que ia de Pontoise à Ilha do Adão, Chantilly, Senlis, Nanteuil-le-Haudoin e Meaux.

Tendo-se posto de novo a caminho, transpuseram sem dificuldade a porta de São Diniz, vigiada por dois soldados mais atentos aos que saíam do que aos que entravam... A atmosfera, aliás, tinha mudado. Animada, alegre, até, em tempos normais, reflectia o grande drama que se representava no reino. Não se ouviam canções ou interpelações alegres, antes conciliábulos entre duas ou três pessoas falando em voz baixa sob o guarda-vento de uma barraca; as pessoas iam aos seus afazeres em passo rápido, o capuz ou o barrete enfiado até às sobrancelhas e olhar desconfiado. Até os gritos dos pequenos comerciantes de rua se ouviam em surdina. Os anúncios vocais aos quatro ventos do queijo de Brie, do agrião de nascente, das ervilhas quentes, dos bolos ou do peixe dos charcos de Bondy e mil outras coisas pareciam estrangular-se na garganta dos vendedores ambulantes. As mulheres também passavam envoltas nas suas capas a caminho da igreja ou da loja de um fornecedor, mas sem olhar em redor. Uma, de passagem, deixou cair uma moeda na mão de Hervé, pedindo-lhe que rezasse por ela. Era como se um imenso cobertor se tivesse abatido sobre Paris...

Em redor do recinto murado do Templo, cujas saídas estavam guardadas por cordões de soldados, ainda era pior. Também ali se formavam grupos, as pessoas olhando sem saber bem o que esperavam. A multidão habitual de miseráveis, que aparecia todos os dias para receber comida e esmola do Templo estava presente, mas em vez de se pressionarem na direcção das torres de entrada, onde estava o corpo da guarda, permaneciam sentados a alguma distância, olhando também eles para aqueles homens de rostos fechados sob os chapéus de ferro como se fossem outros tantos anjos exterminadores munidos de espadas flamejantes guardando o Paraíso perdido.

Os dois falsos monges tinham um sentimento próximo daquele. Com a diferença de que não se tratava, para eles, de um éden proibido, mas sim a sua casa, da qual conheciam cada aspecto, cada recanto. O Templo era uma cidade dentro de uma cidade com os seus numerosos edifícios, a sua magnífica capela redonda encimada por uma cúpula lembrando o Oriente, o seu hospital, os seus alojamentos, a sua torre de César edificada no século anterior: três andares quadrados com uma única divisão por andar e também a esplêndida obra terminada pouco antes pelo irmão Hubert: a Grande Torre a que chamavam, também, o Torreão, uma verdadeira fortaleza por si só, também ela quadrada mas flanqueada por torres redondas, erguendo a cinquenta metros de altura as suas guaritas de ardósia azul. Tinham-na construído para albergar o Tesouro (1)...

Havia, também, a bela sala capitular, as grandes cavalariças, a herdade, o bebedouro, o cemitério, a prisão e o pelourinho da Ordem. Sem contar com o moinho, a padaria e aquilo a que chamavam a terra enfeudada, o espaço regido pelas leis feudais onde viviam os pedreiros, os talhadores de pedra e os carpinteiros que trabalhavam no Templo. Tal como o resto da fortaleza, a terra enfeudada encontrava-se fora do poder real, beneficiando, entre outras coisas, como todos os corpos de profissões nobres dos construtores, de isenções acordadas no reinado de São Luís.

As altas muralhas escondiam o conjunto, mas a memória dos dois templários era fiel... Os dois cavaleiros aproximaram-se de um dos mendigos, um homem dos seus quarenta anos que se mantinha de pé e de braços cruzados encostado a uma cerca e convenientemente escorado pelos seus ramos ligeiros. O homem não se parecia nada com os seus confrades. Apesar de as suas roupas terem sofrido ao ponto de mostrarem numerosos buracos e esfoladelas, parecia ter conhecido melhores dias visto que o tecido gasto era de qualidade, tendo sido cortado por uma tesoura hábil. Os seus cabelos grisalhos eram compridos, emaranhados e a barba flocosa, mas os seus olhos castanhos continuavam vivos apesar de ser difícil adivinhar-lhes a expressão.

- A paz do Senhor esteja convosco, meu irmão - disse Hervé após uma leve tosse. - Posso perguntar o que fazeis aqui?

 

(1) Transformada, ao longo dos séculos, no verdadeiro símbolo do Templo, acolheu, durante a Revolução, Luís XVI, Maria Antonieta e os seus filhos, que ali viveram o drama que todos conhecemos.

 

O homem lançou-lhe uma olhadela rápida e depois encolheu os ombros:

- Como podeis ver, faço como os outros. Espero!

Se bem que a voz fosse um pouco rouca, talvez devido à bebida, o homem exprimia-se com nobreza e Hervé pensou que ele não viera, certamente, do lodo do rio.

- E que esperais vós? Perdoai-me, por favor, a minha curiosidade, mas o meu irmão e eu, como percorremos um longo caminho e vimos de longe, não estamos a par do que se passa em Paris.

- Vindes assim de tão longe que não tenhais ouvido o rumor que percorre o reino?

- De facto! Disseram-nos que o Rei se tinha apoderado de todas as comendadorias do país. Isso parece tão incrível! E mais ainda neste momento, em que vemos que aqui - onde nos disseram que era o Templo de Paris - tanta gente à espera da esmola... Foi, então, um boato falso?...

- Foi um boato verdadeiro... E ninguém está à espera de nada dos que estão ali dentro.

- Os templários já não estão lá dentro?

- Estão. O Grão-Mestre e os seus dignitários estão, segundo parece, fechados no Torreão e alguns dos irmãos na prisão, mas muitos dos cavaleiros foram levados para Saint-Martin-des-Champs e para outras masmorras para serem interrogados. Eram, mais ou menos, cento e cinquenta, mais os sargentos e os servos. Só resta um punhado - acrescentou o mendigo num tom onde se percebia alguma cólera. - E foi o Rei em pessoa que tratou de tudo!

- O Rei? Mas nós ouvimos dizer que ele estava no castelo de Pontoise.

- De onde vindes vós, afinal?

- Da... Normandia. O convento que nos acolheu ardeu...

- A sério? E onde era esse convento, dizei lá?

Olivier deu um pontapé discreto nas pernas do seu companheiro para o incitar à prudência. O mendigo estava a fazer demasiadas perguntas.

- Nos arredores de Dieppe!

Hervé juraria que se acendera uma chama nos olhos do homem, mas, a ser verdade, apagou-se de imediato. Assim, para evitar dar mais indicações, disse:

- Tendes a certeza de que o Rei está cá?

- É claro que está! Chegou nos calcanhares dos que estiveram encarregues das prisões. Ignorais, bem entendido, como foi executada a operação?

- Bem entendido.

- Então, ficais a saber que na madrugada da última sexta-feira, décimo terceiro dia deste mês, o novo chanceler Guilherme de Nogaret. Acompanhado do capitão da guarda Raynald de Roye, entrou no Templo depois de ter mandado abrir a porta com uma mentira, dizendo que ia “da parte do Rei” para falar com o Grão-Mestre acerca de um assunto que não podia ser adiado. Entrou, de facto, mas com uma tropa bem armada, que se apoderou logo do recinto sem desferir um tiro. Apanhados, por assim dizer, com as calças na mão, os templários não se defenderam. - Um templário só tem o direito de lutar contra os inimigos da Fé, ou os inimigos da Ordem. Não contra os seus - observou Olivier.

O homem estremeceu. O seu olhar, até ali fixo na porta bem guardada do recinto, virou-se para ele:

- Como é que sabeis isso?

- O Templo existe há tempo suficiente para que toda a gente o saiba. Sobretudo nas comunidades...

- Talvez... Para terminar com o que queríeis saber, direi que logo a seguir ao guarda dos Selos - de facto ele só o é há duas semanas, como que por acaso! - entrou Guilherme Humbert, a quem chamam Guilherme de Paris. É o confessor do Rei, mas esse dominicano implacável já era o Grande Inquisidor de França. Quanto a Nogard, desde o atentado contra o Papa Bonifácio VIII em Agnani, é conhecido como um homem tão cruel quanto brutal. É só para saberdes o que os templários vão sofrer!

- Seria injusto! Eles dependem apenas do Papa Clemente V Se têm algo contra eles, penso que se limitarão a prendê-los para os entregar em seguida a Sua Santidade?

O desconhecido, que ouvia com um interesse crescente, sorriu:

- Que chama a defendê-los, da parte de um monge mendigo! A menos que tenhais parentes... ou amigos na Ordem. A menos que...

Compreendendo demasiado tarde que ele, o silencioso, se estava a deixar levar pela indignação, Olivier corou.

- A menos o quê? - perguntou ele com uma altivez que era, também ela, uma imprudência.

O homem inclinou-se para ele para murmurar:

- Que sejais um deles... como eu!

- Vós?

O pé de Hervé esmagou o seu para o incitar à prudência. Podiam estar a lidar com um provocador, mas Olivier estava demasiado excitado para parar. O seu olhar fixou o do homem, que não se virou, continuando antes com um ardor sombrio:

- Eu, Pedro de Montou! Fui desonrado e expulso da Ordem há cinco anos e escapei por pouco à morte por ter ousado atacar o monstro que desviou uma parte do Templo com uma doutrina satânica de rituais infames, rituais esses que vão ser a sua perdição, já que o Rei acredita - graças a denúncias anónimas! - que o Templo está podre na sua totalidade.

Olivier trocou um olhar com Hervé, que cessara de lhe esmagar os dedos dos pés doloridos e se interessara pelo diálogo. A dúvida já não era possível porque o rancor e a dor reflectidos naquela voz surda não eram fingidos. Acabavam de ter ambos a mesma ideia, mas foi Olivier que segredou:

- Esse... esse monstro não se chamava Roncelin de Fos?

Montou virou para ele uns olhos terríveis, de tal modo chamejavam de raiva.

- Conhecei-lo?

- O meu pai conheceu-o e eu também, assim como aqui o meu irmão... Não para nosso bem, mas sinto-me feliz por poder trazer-vos alguma tranquilidade...

- Tranquilidade? Apenas a sua morte me pode tranquilizar.

- Talvez, se ela já se apoderou dele a esta hora, porque na última Primavera a mão do preceptor da Provença, Clement de Salernes, abateu-se sobre ele. Foi julgado e condenado ao “muro” do esquecimento do castelo de Ruou. Na sua idade, não deve resistir muito tempo...

- Por fim, Deus fez justiça!

Uma intensa expressão de felicidade inundou o rosto daquele cavaleiro, cuja miséria obrigara a mendigar. Pierre de Montou atirou a cabeça para trás, fechou os olhos e as lágrimas, de alívio, sem dúvida, correram por entre os pêlos e a sujidade do seu rosto. Quando os reabriu, teve, para aqueles que acabavam de o libertar, um sorriso alegre:

- Não sei quem sois, mas muito obrigado! Libertastes-me e agora já posso morrer feliz!

- Por que razão haveis de morrer? Não tendes família, domínio, para estardes reduzido a esse estado?

- Não. Os meus rejeitaram-me, tal como o Templo. Não lhes quero mal, assim como não quero mal à Ordem. Ela pensou julgar bem e eu continuo a ser um templário de coração. Até lhe quero prestar um último serviço... Mas agora separemo-nos, irmãos! Fazei-me o favor de vos afastardes de mim! Acreditai-me, abandonai este local! Até com esse hábito estais em perigo...

- Não estamos mais do que vós com esses farrapos! - disse tranquilamente Hervé. - A propósito, perguntamos-vos de que estáveis à espera, assim como aqueles infelizes... Ninguém vos virá dar esmola...

- Vem, vem! Desde a madrugada das detenções que o Rei Filipe está no recinto e deve sair durante o dia para regressar ao palácio da Cité! E ele vai ser generoso - é-o sempre quando se passeia sozinho pelas ruas - para que o povo goste cada vez mais dele... Assim, vou aproveitar!

- E por que não nós também? - perguntou Aulnay. - Os errantes que nós somos precisam muito de assistência...

- Sem dúvida. No entanto, segui o conselho que eu vos dou... peço-vos: ide-vos daqui!

- Não pode ser - ripostou Olivier. - Eu ando à procura de notícias do irmão Clement de Salernes, que venero, e não sairei daqui sem as ter conseguido...

- Sois tão louco que acreditais que vo-las darão? Se ele estava aqui na noite do golpe de força de Nogaret, ainda aqui continua! Não espereis mais! Regressai depois de o Rei partir.

- Mas, enfim - resmungou Hervé entredentes - por que razão não quereis que fiquemos aqui convosco? Nós somos o que supondes e temos tanto direito como vós!

O mendigo desatou a rir com um riso seco, sem alegria, que não lhe iluminou os olhos, ao mesmo tempo que dizia com uma estranha doçura:

- Qual direito? O de morrer na tortura comigo? Eu vou matar Filipe no momento em que ele me der a esmola. Para mim, é a única maneira de salvar o Templo! O herdeiro é um cobarde, que não terá coragem para prosseguir. Aliás, se o tio dele, Carlos de Valois, que gostava de nós, sonhasse, tê-lo-ia impedido...

Os dois amigos já tinham visto demasiado durante aqueles últimos dias para se espantarem com aquela determinação regicida. Podiam compreendê-la, mas era preciso fazer com que aquele homem desistisse do seu projecto:

- Não conseguireis - disse Olivier. - Ides ser massacrado para nada... e talvez todos estes infelizes que aqui estão.

- Serei o último.

O homem abandonara a cerca a que estava encostado e já se ia colocar a seguir aos outros quando a fortaleza do Templo se animou: a ponte levadiça desceu com lenta e majestosamente, a grade ergueu-se e o cortejo de Filipe, o Belo apareceu. Muito simples! Vestido de cinzento-claro forrado com pele de esquilo e com um capuz a condizer, o Rei seguia a pé, com muitas vezes e conversava com o seu secretário Raul de Presle, seguido por uma ligeira escolta de arqueiros às ordens do seu capitão Alain de Pareilles. A multidão - engrossara depois da chegada dos falsos monges - aclamou-o. O Rei saudou-a com um gesto da mão enluvada sem deixar de ouvir o que lhe dizia Presle. No entanto, interrompeu-o para distribuir as moedas tiradas de um saco seguro por um servo. O ar encheu-se com as bênçãos daqueles a quem ele valia e, coisa extraordinária, o seu belo rosto impassível de olhos tão frios teve, para eles, o esboço de um sorriso.

Não sabendo que fazer, Olivier e Hervé, loucos de ansiedade perante o que ia acontecer, viam diminuir a fila de mendigos entre Montou e o seu alvo. Mais um... e ainda um! Subitamente, quando só restavam apenas três homens, Olivier teve uma ideia. Com toda a força dos seus pulmões, gritou:

- Roncelin de Fos! Está ali!

Pedro de Montou teve um sobressalto, virou-se, viu Courte-nay erguer um braço estendido na direcção oposta a Filipe e, de imediato, correu nessa direcção. O ex-templário hesitou apenas um instante e, girando nos calcanhares, atirou-se pelo meio da multidão para se juntar aos dois homens.

Ora, o que acabava de acontecer era insensato, incrível, no limite da razão porque, no momento em que evocava o seu nome, nesse mesmo instante, Olivier vira, na verdade, o templário maldito. O cavaleiro nem procurara dizer a si próprio que não era possível, que Fos não pudera escapar à masmorra onde o tinham metido, apoderando-se dele um furor cego, e lançara-se ao ataque daquele que encarnava tudo aquilo que odiava.

A multidão era densa e opunha-lhe a resistência da sua massa. O cavaleiro opôs-lhe uma força que não era de esperar de um monge franciscano, não sem alguns protestos, mas sentia-se como que atraído por um íman na direcção daquele ângulo do castelo onde, içado, sem dúvida em cima de uma pedra, ou de um apeadeiro de cavalo, vira, com extraordinária nitidez, o rosto execrável; mas, quando lá chegou, só havia uma meia dúzia de rostos enfurecidos, não se parecendo em nada com o que procurava...

- Eu vi-o, por Deus! Estava ali um velho alto todo vestido de negro...

- Eu também vi - secundou-o Hervé.

- Estava ali, mas já não está - disse um dos descontentes. - É uma maneira como outra qualquer de pisar os pobres. Se é assim que procurais a caridade...

- Pergunto a mim próprio para onde terá ido?

- Para ali ou para além - disse o outro, trocista. - Que sei eu? Em todo o caso, faríeis bem em desaparecer! O nosso sire Filipe é capaz de querer algumas explicações da vossa parte...

De facto, no rasto de Montou, que acorria, Pareilles enviara um destacamento de arqueiros para restabelecer a ordem. Sempre apreciadora de belas zaragatas, prisões musculadas ou outra ruptura qualquer da rotina quotidiana - ou pouco desejosa de se ver molestada! - a multidão abriu-se sensatamente perante o seu avanço. Compreendendo rapidamente que iam ser presos e, sem dúvida, rapidamente reconhecidos, Hervé arrastou o amigo:

- Fujamos!

Olivier seguiu-o sem discutir e sem se preocupar mais com Montou. Os dois amigos fugiram às cegas, não sabendo bem para onde ir. Juntos, representavam quase a força de um aríete e toda a gente se afastou perante a sua carga. A multidão era cada vez menos densa, mas nas suas costas os arqueiros continuavam a persegui-los. Os dois falsos monges acabavam de abrandar para virar para uma ruela estreita, no ângulo da qual estava a tenda de um padeiro cujo odor a pão quente quase os fez desfalecer, lembrando-lhes que tinham fome, quando apareceu subitamente na sua frente um homem que os agarrou a ambos por uma manga e os atirou para a entrada de uma cave em risco de lhes partir os ossos, seguindo-os logo a seguir e fechando a entrada. O movimento, muito rápido e protegido pelo ângulo da ruela, de tal modo estreita que a luz do dia mal penetrava nela, escamoteou-os literalmente sem atrair a atenção de ninguém. Pouco depois, o passo ferrado dos homens de armas, continuando na sua perseguição, disse-lhes que, por alguns instantes, pelo menos, o perigo passara.

Na cave para que tinham sido atirados brutalmente por uns degraus abaixo felizmente curtos, não se via nada, mas a voz do estranho, para o qual não tinham tido tempo de olhar, ergueu-se:

- Peço-vos desculpa por vos ter maltratado, sire Olivier, mas não havia tempo para cerimónias!

- Dir-se-ia... - disse o templário, para quem aquela voz não era estranha. - Sois Machieu de Montreuil?

- É verdade! E bem feliz por estar presente e por vos ter reconhecido a tempo! Estão todos preocupado convosco, não sabendo se também tínheis sido preso na outra noite. Não partistes nada, espero?

- Não. E, antes de mais, obrigado, mas explicai-me o porquê da vossa presença.

- Desde as detenções que venho todos os dias para ter a certeza de que não estáveis em Saint-Martin-des-Champs, onde conheço toda a gente, visto que trabalhei lá. E reconheci-vos quando estáveis a falar com o mendigo e estava a pensar em esperar que o Rei se fosse embora para vos oferecer a minha ajuda... Confesso que não percebi muito bem o que aconteceu. Vós gritastes, ficou tudo confuso... e eu disse para mim mesmo que era preciso fazer qualquer coisa...

- Mas como é que chegastes aqui antes de nós?

- Eu conheço a cidade melhor do que vós. Segundo o percurso que estáveis a tomar, devíeis passar em frente desta casa, que pertencia a uma velha prima e que eu herdei. Então, corri abri a tampa... e já sabeis o resto... E agora é preciso ter paciência! Só poderemos sair daqui quando cair a noite, mas antes do fecho das portas!

- Não sei que dizer-vos, mestre Machieu, senão obrigado!

- disse Olivier, comovido. Correstes um grande risco, vindo em nossa ajuda... E tendes família!

- Teríeis feito o mesmo no meu lugar. A amizade que existiu entre o vosso pai e o meu não continua viva?

- Oh sim, e é por isso que me recuso a abusar dela, se vos puser em perigo. Se conseguirdes fazer-nos sair de Paris esta noite, por-nos-emos ao largo e será melhor assim.

- E para onde ireis? O domínio provençal de messire Renaud fica longe!

- É verdade - interveio Hervé - mas não iremos até tão longe. Apenas até Moussy, onde o meu irmão nos acolherá, espero. Ele está bem visto na corte. O filho mais velho, Gautier, já é pajem de monsenhor de Poitiers e estava previsto o mais novo, Filipe, entrar para o serviço de monsenhor de Valois...

- Por agora, vindes comigo para Montreuil. Deveis precisar - pelo menos é o que parece! - de um pouco de repouso e de uma boa refeição...

- Confesso que temos fome e que estamos cansados - murmurou Olivier com um pouco de vergonha. - É lamentável dois templários estarem reduzidos à mendicidade...

- Por isso mesmo, está fora de questão deixar-vos continuar. Pensai, sire Olivier, que é apenas uma questão de amor-próprio ferido, ao passo que os vossos camaradas... Desde que foram presos, messire de Nogaret e o Grande Inquisidor interrogam-nos com tudo o que este nome sugere.

- Quereis dizer que estão a torturá-los? - perguntou Hervé, que sentiu os cabelos eriçarem-se-lhe...

- Com que direito? - insurgiu-se Olivier. - Apenas o Papa pode julgar-nos e é a ele que os nossos irmãos devem ser entregues...

- Os factos de que os acusam são demasiado graves para que o Rei e os seus homens de leis se contentem com a expulsão. Não sabíeis?

- Sei que falam em nos atirar para a fogueira, mas só Sua Santidade tem o direito de fazer isso. Ora, nós nunca cometemos aquilo de que nos acusam! Nesse caso, porquê a tortura?

- Porque o Rei está convencido da culpa e exige confissões rápidas, justamente para as apresentar ao Papa!

Olivier não respondeu. O cavaleiro sabia que Machieu tinha razão, que os seus protestos eram em vão e que ele próprio não acreditava neles. O que não ousava perguntar a si próprio era qual seria o seu futuro se conseguisse escapar à perseguição, porque aquilo não era outra coisa! E até que Machieu abrisse de novo o alçapão para os fazer sair, ficou fechado nos seus pensamentos e não pronunciou uma única palavra. O pensamento do irmão Clement obcecava-o e a ideia de que ele tivesse sido entregue aos atormentadores despedaçava-lhe o coração. O cavaleiro não via como socorrê-lo e sentia-se terrivelmente miserável e impotente...

A noite cerrada encontrou os três homens a caminho do porto tranquilo de Montreuil e do lar do mestre construtor. Uma paragem reconfortante numa estrada eriçada de perigos...

Olivier não imaginava, por um só instante, que ia ficar naquela casa mais do que uma noite...

 

                                                                         A CATEDRAL REBELDE

 

                       AS ANGÚSTIAS DA DAMA BERTRADE

Mesmo na palma da mão, que se erguia como se numa oferenda na direcção das chamas das grandes velas a jóia encheu-se de uma luz escarlate e cintilou como se um minúsculo vulcão tivesse explodido na palma da mão da Rainha de Navarra. Para provocar outras cintilações, das quais algumas se reflectiam no seu rosto, ela virou a mão em volta do seu delgado punho e, finalmente, suspirou:

- É maravilhosa, mestre Pedro, mas já gastei muito dinheiro este mês com as minhas toilettes. Uma nova compra não seria razoável...

Pedro de Mantes era o joalheiro do Rei Filipe e limitou-se a sorrir, inclinando-se:

- A beleza e a razão não se dão bem, Madame e nada é demais para a futura Rainha de França. Sobretudo para uma circunstância tão importante.

O pequeno discurso fazia parte do jogo. Seria preciso, talvez, acrescentar mais algumas palavras, mas o orador estava seguro de atingir o seu fim. Margarida adorava os rubis, como tudo o que era vermelho, a sua cor favorita, e ele sabia que ela não resistiria muito mais. Sem tirar os olhos da jóia, ela perguntou:

- Estais a pensar na vinda anunciada da minha cunhada de Inglaterra?

- De facto, e quando recebemos de Veneza estas pedras admiráveis, que vieram ainda de mais longe, esta fivela compôs-se por si própria com o seu entrançado de ouro e esmalte. As pérolas que sobressaem são de uma grande pureza e de um grão raríssimo. Exactamente o que é preciso para exaltar o esplendor daquilo a que os Orientais chamam “as gotas de sangue do coração da Terra Mãe”!

Margarida levantou-se da sua cadeira incrustada de prata, cristal e topázios' e foi até à grande chaminé onde crepitava um belo fogo - estava-se em Março e o Inverno ainda se fazia sentir - arrastando consigo o longo vestido de veludo púrpura, aquecido por uma sobreveste bordada a arminho. Os olhos do joalheiro tornaram-se maiores: com o lento oscilar dos passos, o vestido abria-se até às ancas, revelando, por brevíssimos instantes, umas pernas encantadoras. O espectáculo era perturbador, mas Pedro de Mantes era suficientemente sensato para não se deixar desviar dos seus propósitos. O joalheiro perguntou simplesmente a si próprio o que pensaria o Rei Filipe de um vestido daqueles, ele, que nunca esquecera a sua mulher e que não gostava que se usasse, na sua corte, vestuário ligeiro.

Margarida, entretanto, continuava com a fivela na mão. Era em frente das chamas da chaminé que ela mirava, agora, os três grandes rubis. O seu belo rosto reflectia o seu fascínio, o desejo que tinha por aquela jóia. Pedro de Mantes tossicou:

- Fica-vos tão bem, Madame... e, quanto ao pagamento, talvez se possa fazer qualquer coisa?

Com a ponta do dedo, Margarida acariciou as pedras, como o teria feito a um gato.

- Que lhe fareis se eu não a comprar? - perguntou ela sem olhar para ele.

- Irei oferecê-la ao nosso sire Filipe. Talvez ele a queira oferecer à Rainha Isabel quando ela chegar...

Um lampejo de cólera atravessou os profundos olhos negros da Rainha de Navarra:

- Isabel? Porquê Isabel?

- É uma jóia de Rainha, Madame, que não pode ir para outra dama qualquer, mas confesso que me custaria muito. Madame Isa-

 

(1) Uma especialidade dos marceneiros parisienses.

 

bel é loura. O rubi é um adorno de mulher morena e nenhuma é mais magnífica do que vós, Madame-acrescentou ele, atrevendo-se a uma olhadela apreciadora que, depois de uma passagem rápida por um corpo que devia ser, sem qualquer dúvida, soberbo, se demorou nos lábios carnudos e nas grandes pupilas de um negro de veludo ornamentadas de longas pestanas de um negro de veludo, pousadas, como uma máscara, na pele cor de marfim nacarado. Pequena mas extremamente bem proporcionada, Margarida tinha o brilho e a perfeição de uma rosa no instante em que desabrocha. Mãe há três anos de uma rapariga, continuava a ter a esbelteza de uma jovem. De carácter orgulhoso, não se ofendeu, no entanto, com o olhar do comerciante. Ele era um homem de gosto e ela gostava de seduzir, gostava de ver a perturbação nos olhos masculinos.

Virando-se subitamente para a dama que, perto da janela, lia um livro das horas, disse:

- Madame de Courcelles, tende a bondade de me ir chamar Aude. Dizei-lhe que me traga o manto de camocas que tem andado a preparar para mim...

A dama, uma jovem de rosto fino e inteligente encerrado num véu de seda branca a condizer com o capuz bordado a violeta, levantou-se e saiu para regressar quase de imediato com uma jovem cujos cabelos longos, de um louro-prateado, lhe caíam livremente sobre as costas, por baixo da pequena touca lisa de seda azulada presa por uma fita de musselina que lhe dava a volta ao queixo. Aude segurava nos braços estendidos um tecido de brocado branco tecido a ouro e forrado de tafetá carmesim, com que tapou os ombros que Margarida lhe ofereceu. Vestida com aquelas pregas cor de neve, a jovem Rainha foi até um espelho de bronze bastante grande pendurado numa das paredes e colocou a fivela na base do pescoço, onde ainda não tinha estado qualquer fecho. Junto do seu rosto radiante, o efeito era mágico e Aude juntou as mãos com um sorriso fascinante:

- Oh, Madame!'É o fecho que lhe fica bem!

- Creio que vou ficar com ele...

Em seguida, virando-se para Pedro de Mantes enquanto segurava nas pregas do manto sumptuoso com uma mão, ela exclamou:

- Muito bem, mestre Pedro, seduzistes-me uma vez mais. Aliás, penso que era o que esperáveis!

- Esperava, Madame - disse ele, inclinando-se profundamente. - Esperava...

- Está dito! E agora ide ter com Madame de Comminges, que trata do meu cofre e tratai com ela o preço de que falastes (1)...

O joalheiro saiu, saudando, enquanto Margarida, subitamente de excelente humor, se ia admirar de novo, ajudada por Aude, feliz por ver a sua obra tão maravilhosamente completada.

- Isto vai admiravelmente com aquele belo cinto que... monsenhor Luís vos deu aquando da vossa festa - disse ela. - Os rubis são maiores, mas a cor é semelhante!

- Tens toda a razão!

Ao longo dos anos, Margarida ligara-se cada vez mais à filha de Machieu de Montreuil. A beleza radiante da jovem não a preocupava, bem pelo contrário: a jovem Rainha gostava de a ter junto de si por causa do contraste com o seu esplendor moreno. Margarida estava demasiado segura dela mesma para temer fosse quem fosse. Além disso, Aude, tímida e reservada, era sensata e repelia, suave e firmemente, aqueles que se arriscavam a dirigir-lhe galanteios, e isso não desagradava à jovem rainha. Um dia. Por ocasião do último Natal, fizera-lhe a pergunta:

- Há poucas jovens aqui tão belas como tu - disse-lhe - e os pedidos de casamento... ou outra coisa, não te faltam! Alguns vêm de jovens senhores bastante sedutores. Como é possível nenhum ter chegado a tocar-te? Que idade tens?

- Vou fazer vinte anos, Madame.

- E o teu coração ainda não falou? É inacreditável! Então, Aude pousara em Margarida o seu olhar transparente, subitamente sonhador:

- O meu coração já falou há muito tempo, Madame e, depois disso, nunca mais mudou de opinião.

 

(1) Mulher do herdeiro e já Rainha de Navarra, Margarida de Borgonha tinha, mais ou menos, vinte e cinco pessoas ao seu serviço; duas damas, duas donzelas, um capelão e o seu ajudante, assim como outros subalternos.

 

- A sério? Fico mais descansada! E quem é esse feliz jovem? Porque suponho que não é nenhum velho.

- Velho, não, isso nunca há-de ser. Assim como eu nunca serei sua - acrescentou ela, levada por uma necessidade espontânea de se confessar.

A jovem aprendera a conhecer Margarida, sabia-a orgulhosa mas boa e generosa. Longe de troçar, como o teria feito a sua tia Bertrade, para quem subir na vida exigia um bom casamento.

- Mas porquê? Não me digas que ele ama outra, porque é impossível! Só se fosse eu - acrescentou ela, rindo.

- Não. Ele não ama outra... a não ser Nossa Senhora! Os olhos negros ainda ficaram maiores:

- Um padre? Ou um monge? É verdade que os há agradáveis, mas seria um grande azar...

- Pior ainda, Madame - disse Aude quase a chorar. - É... um templário - confessou ela de repente.

Uma sincera expressão de piedade adoçou o rosto da jovem. A Rainha colocou um braço em redor dos braços da sua dama-de-companhia:

- Pobre, pobre pequena! E, naturalmente, tu não sabes se ele ainda está vivo?

- Está vivo, mas não sei onde... Mas não importa, ele nunca olhou para mim e eu não tenho nada a esperar dele...

- E apesar disso, ama-lo?

- Oh sim, Madame!

- Que desperdício! Tu és jovem, bonita, inteligente, bordas como uma fada e podias reinar ao mesmo tempo numa casa e no coração de um belo rapaz, que amarias muito. E escolheste o impossível...

- Não podemos escolher, Madame!

- A quem o dizes! Escuta, se, por acaso, o teu templário - em fuga, imagino! - precisar de ajuda, diz-me. Dar-te-ei... dinheiro para pagar a um carcereiro, por exemplo, ou para um salvo-conduto... Gostava tanto - exclamou ela num daqueles impulsos do coração que ela não controlava e que eram raros, mas que lhe valiam muitas amizades - de te ver feliz! Ao menos tu!

Perturbada, Aude deixou-se cair por terra para beijar os pés daquela que se declarava tão abertamente sua protectora, mas Margarida fê-la levantar-se e beijou-a:

- Nestes dias maus, durante os quais nunca mais acaba a perseguição ao Templo, o julgamento do Templo, a tortura do Templo, o Templo à fogueira, hão-de acabar - disse ela. E há-de chegar o dia em que serei Rainha de França e veremos, então, o que poderá ser feito para te ajudar...

A partir daquele dia, Aude passou a sentir por Margarida uma espécie de veneração...

Margarida ainda se admirava ao espelho quando o meirinho abriu a grande porta para deixar passar o grupo mais alegre, mais brilhante... e mais barulhento que havia: as primas e cunhadas de Margarida, Joana de Poitiers e Branca de La Marche, escoltadas por um belo fidalgo de uns trinta anos que elas pareciam conduzir à força, segurando-o cada uma por uma mão. Ele defendia-se, rindo, mas com pouca energia:

- Margarida - exclamou Branca - trazemos-te aqui messire d'Aulnay. Encontrámo-lo lá em baixo, com uma mensagem do marido de Joana para o teu... Oh, como é belo! - acrescentou ela, deixando a sua presa para se precipitar para a prima e dando um ligeiro encontrão em Aude...

- Atenção - protestou Margarida - vais-me rasgar toda! Deixai a vossa mensagem, messire Gautier. O meu marido não está: foi à caça para Vincennes, com o Rei. Os homens da família não estão lá todos?

- Não, nem monsenhor de Poitiers... nem monsenhor de Valois - respondeu o interpelado com uma voz quente que provocou um sorriso nos olhos de Margarida.

- Por que é que, nesse caso, o vosso irmão não vos acompanha, já que, salvo quando estais em serviço, nunca vos separais? Branca, está quieta e devolve-me a fivela! Acabo de a comprar e sabes muito bem que nunca ta darei!

A Rainha de Navarra tirou a jóia das mãos da jovem louca, tirou o manto dos ombros e deu o conjunto a Aude que, à entrada das princesas, dobrara o joelho.

- Ide acabar a obra, pequena - disse ela num tom mais doce - depois entregai-o a Madame de Courcelles para que o guarde...

Sob os protestos de Branca, que a impediram de ouvir a resposta do fidalgo, Aude saiu da sala por uma porta discreta que dava para o guarda-roupa de Margarida. Ali encontrou a sua tia Bertrade que, apoiada numa bengala - fizera uma entorse oito dias antes! - coxeara até ali vinda do alojamento que as duas ocupavam no andar superior e, sentada junto da janela, bordava de cor-de-rosa um vestido de veludo branco destinado à filha de Margarida, a pequena Joana, de três anos.

- Minha tia! - reprovou-a Aude. - Que fazeis aqui apesar de o médico vos ter dito para não deixardes o vosso quarto durante duas semanas? Descer uma escadaria tão íngreme foi uma verdadeira imprudência!

- Deixa lá! Aborreço-me tanto lá em cima! Mas, falando de imprudências, conheço alguém que as comete muito piores!

- De quem estais a falar?

Bertrade sacudiu a cabeça com impaciência, fungou e disse:

- Não é um dos irmãos d'Aulnay que eu acabo de ver chegar ao mesmo tempo que as princesas?

- De facto! Messire Gautier! Elas encontraram-no lá em baixo, quando ele trazia uma mensagem para o nosso sire Luís!

- Tretas! Chegaram juntos, o cavalo de messire Gautier logo a seguir à liteira das princesas! Ainda bem que o irmão não vinha com ele! Isto ainda vai acabar mal!

- Isto? Isto o quê?

Bertrade parecia de mau humor; bruscamente, ela abandonou a agulha e olhou para a sobrinha com um ar infeliz:

- Mais uma vez, falei demais! Faz de conta que não disse nada e falemos de outra coisa!

Com muita doçura, Aude tirou a obra das mãos da tia e ajoelhou-se a seus pés:

- Querida tia - disse ela - sentis-vos infeliz e eu compreendo por que razão. Tenho a impressão de que temeis algo! Não me quereis dizer o que é? Eu já tenho vinte anos, como sabeis...

Com a ponta do dedo, Bertrade acariciou a face fresca:

- Tantos? Continuo com a impressão de que ainda ontem entraste para aqui. Coisa de que me arrependo! Não devia ter-te tirado da casa do teu pai...

- Mas porquê? Porquê? Não estou bem ao pé de vós... e também de Madame Margarida, que é tão boa para mim? Dediquei-me a ela e deixá-la ser-me-ia, agora, muito doloroso! Além do mais, não estais a pensar no que dissestes.

- Oh sim, estou! Acontece que se passam coisas bem estranhas nesta casa e, a princípio, recusei-me a acreditar nelas, mas os meus receios estão em vias de se transformar em certezas! Nunca reparaste em nada? A sério? Em Madame Margarida e na velha torre - prosseguiu ela - que ela mandou transformar num pequeno apartamento há... quatro anos, para se retirar e meditar, afastar-se dos ruídos da casa, ver o pôr do Sol no Sena, que sei eu?

- Sem dúvida, mas não está no seu direito? Um capricho como qualquer outro, acho eu - acrescentou a jovem sorrindo. - Além disso, vai lá poucas vezes!

- De dia não. De dia nunca lá vai. Mas, à noite, é outra coisa: garanto-te que vai...

- Por que não? Reza-se e medita-se melhor à noite, quando os ruídos da cidade e da casa se extinguem!

Bertrade ergueu os olhos para o tecto. A pureza daquela criança fazia-a achar naturais as menores bizarrias da vida humana! A anciã perguntou a si própria se devia continuar, mas sentiu que a curiosidade de Aude tinha acordado e, não importava como, já não era possível voltar atrás:

- Tens, sem dúvida, razão - suspirou ela - mas, em certas noites, monsenhor Luís fica retido no palácio, acompanhado pelo pai num assunto qualquer. Além disso, essas noites, a sua prima Branca vem passá-las com ela. Sempre Branca e nunca Joana, quando monsenhor de Poitiers, também ele, se ausenta.

- Madame Branca é mais nova, mais alegre...

- Isso é verdade! E é muito mais fácil meditar e rezar na companhia de uma jovem louca que ri e brinca o tempo todo!

Aude afastou as mãos num gesto de ignorância. Não tinha mais argumentos e limitou-se a esperar pelo seguimento. Que não se fez esperar:

- Já foste lá foste, à torre?

- Fazer o quê? Está isolada, afastada dos alojamentos (1) e Madame Margarida não tem razão nenhuma para me chamar para lá.

- É verdade, mas nunca achaste estranho não entrar lá, nunca, nenhum servo da casa, à excepção de Marta, a camareira de Madame Margarida que está com ela desde a infância, e Severino que, também ele, veio com ela?

- Meu Deus, não! Parece-me natural, pelo contrário, já que se trata de um retiro muito pessoal! É normal que ela confie totalmente neles...

Dessa vez, Bertrade confessou-se vencida e um pouco aliviada. Para quê, no fundo, perturbar a paz daquele coração puro, do qual Margarida possuía, agora, uma parte? Para quê contar-lhe que, numa das famosas noites em que Margarida e a prima estavam na torre, Bertrade saíra do seu quarto e, tomando infinitas precauções para não acordar Aude, aproximara-se, pelo corredor rigorosamente deserto que a jovem Rainha mandara arranjar para não passar pelos jardins quando o tempo estava mau, daquele “retiro” que tanto a intrigava. Ao fundo da galeria debilmente iluminada, havia um pequeno patamar, diante do qual Severino - um borgonhês de uns trinta anos, grande como um urso e pouco mais gracioso! - dormitava sentado num escabelo iluminado pela luz amarela de um archote pendurado na parede. A anciã ficou ali um momento a olhar, não ousando avançar mais, mas estendendo o ouvido na esperança de ouvir o menor ruído. As paredes eram espessas e ela preparava-se para se retirar quando, subitamente, a porta diante da qual Severino estava sentado se abriu e o tronco de Margarida apareceu para perguntar qualquer coisa. Ora, ela só estava vestida com uma espécie de dalmática cujas pregas apertava contra os seios, mas que lhe dei-

 

(1) A residência de Nesle, oferecida por Filipe, o Belo ao seu filho mais velho, compunha-se de duas partes bem distintas: a residência construída há pouco tempo e a Torre, nitidamente mais antiga já que era a conclusão, junto ao Sena, da muralha de Filipe Augusto. Estava simplesmente encostada e para além de um acesso interior, possuía uma entrada logo acima da margem que ficava, por vezes inundada.

xava nus os ombros, nos quais se retorciam as madeixas negras dos seus cabelos soltos. Ao mesmo tempo, um riso feminino - o de Branca - fez-se ouvir no interior, respondendo a uma voz de homem que Bertrade reconheceu sem dificuldade: era o timbre grave, um pouco velado, de Gautier d'Aulnay que, desde há algum tempo, era visto muitas vezes com o irmão Filipe na esteira das princesas. Sem esperar pelo resto, Bertrade fugiu a correr e regressou ao seu quarto sem fôlego. O coração batia-lhe com tanta força no peito que se sentou por um momento no último degrau da escadaria, tentando acalmar-se. A anciã tinha a impressão de que a sua respiração soava como uma forja, capaz de acordar a casa inteira. Finalmente, conseguiu recuperar o ritmo normal e regressou ao seu leito, mas não conseguiu adormecer. Nas noites seguintes também não, porque não conseguia deixar de imaginar o que aconteceria se a marosca fosse descoberta. O conde de La Marche era um pateta, que adorava tolamente a sua bela e pequena Branca. Esse contentar-se-ia, sem dúvida, em chorar, mas o Teimoso, violento e cruel à maneira dos fracos e que já não amava a mulher, à qual invejava o brilho e a desenvoltura, era capaz do pior. Esse não ousaria, talvez, matá-la, porque temia o seu pai - que ainda era capaz de se deixar levar por uma das suas fúrias cegas! - mas atirar-se-ia certamente às mulheres do seu séquito, que consideraria, certamente, coniventes. Quando ao próprio Rei Filipe, tão preocupado com a honra das damas, nada nem ninguém podia prever como reagiria. De qualquer maneira, se aquele comércio amoroso que, reflectindo bem, durava, certamente, há mais de dois anos, não terminasse rapidamente, as nuvens negras que Bertrade via acumularem-se por cima da torre de Nesle abrir-se-iam num futuro próximo: Com o tempo, os amantes, tranquilizados por um silêncio cúmplice, andariam cada vez mais descansados e cometeriam cada vez mais imprudências.

Bertrade sentia-se roída por aqueles pensamentos. Minada pela insónia, tinha sonolências durante o dia e os seus passos tornavam-se hesitantes. Daí a queda na escadaria, onde quase quebrara as costas. Daí, também, o acesso de angústia que a levara a tentar abrir os olhos da sobrinha.

Como a empresa fracassou, ela resignou-se, mas apenas até um certo ponto. Era, sem dúvida, melhor que Aude guardasse as suas ilusões. Era melhor contornar o obstáculo. O melhor era afastar a jovem da residência de Nesle durante algum tempo, até que passasse... fosse o que fosse? A pobre não conseguia explicá-lo, mas o medo que sentia refinava-lhe o olfacto e dizia-lhe que o que ela temia não estava longe.

Só havia uma solução: levar Aude para a casa paterna sob um pretexto qualquer. A primeira coisa a fazer era ir a Montreuil falar com a irmã Juliana, dar-lhe parte das suas angústias - Juliana era a discrição em pessoa! - e ver com ela a possibilidade de lhes pôr termo. Provisoriamente, aliás, o tempo suficiente para que Bertrade recuperasse a tranquilidade, porque, se nada acontecesse, ser-lhe-ia impossível não levar de novo para junto de Margarida a sua bordadeira preferida que muita gente lhe invejava, a começar pelas cunhadas, e da qual a Rainha de Navarra fizera uma dama-de-companhia, se bem que Aude não fosse nobre; sem grandes contestações, estava-se numa época em que o Rei fazia sentar no seu conselho juristas saídos da burguesia.

Entretanto, era preciso encontrar um pretexto para ir a Montreuil, o que não era fácil quando se pertencia a uma casa real onde o trabalho nunca faltava. Ainda por cima com aquela perna que arrastava miseravelmente e que tardava em sarar. Aquele tempo de espera forçado permitiu a Bertrade recuperar um pouco de calma e até tranquilizar-se um pouco. Ia-se entrar na Quaresma e sempre seriam quarenta dias ganhos, já que as princesas estariam demasiado ocupadas com os seus deveres religiosos para se divertirem com os seus amantes - era, infelizmente, o termo indicado! - durante aquele período sagrado.

Um incidente veio pôr as coisas em questão, precisamente três dias antes da Terça-Feira Gorda. Naquela manhã, ao mesmo tempo que a liteira de Branca levava a jovem a sua casa depois de ter passado a noite junto da irmã e enquanto Margarida dormia, Madame de Courcelles foi encontrar Bertrade visivelmente contrariada:

- Lembrais-vos - disse-lhe ela - daquela bolsa ornamentada com rubis e pérolas que Madame Margarida recebeu de presente no último Natal?

- Com duas outras semelhantes para as princesas, que a Rainha Isabel mandou para Londres. Por que me perguntais?

- Porque não a encontro! Madame Margarida, que ainda está deitada, pediu-me que lhe preparasse o vestido púrpura novo bordado a ouro e veio-me à ideia juntar-lhe esse objecto, cujas cores vão perfeitamente com a toilette.

- Sem dúvida, mas não esqueçais que a Rainha de Navarra nunca a usa porque não gosta dela, achando-a muito grande?

- Ela muda com tanta facilidade de opinião quando se trata de toilettes! Pensei que se sentisse seduzida. De qualquer maneira, tenho de lhe mostrar outra porque, mais uma vez, não a consigo encontrar.

- É espantoso! Eu vi-a mais tarde, naquela segunda-feira, quando fui buscar aquela de veludo preto para lhe reparar o bordado, que estava um pouco rasgado! Ela estava com as outras na arca de ébano e marfim...

- Eu também pensava que sim, mas vede por vós mesma.

- Meu Deus, Madame, não me atrevo a duvidar da palavra de uma dama nobre!

- Deixai a minha nobreza em paz! Por agora, somos apenas duas mulheres ao serviço da Rainha, a quem falta um objecto de toilette. Segui-me!

Bertrade seguiu-lhe os passos, sem insistir mais, até à sala onde se guardavam as toilettes da futura Rainha de França, numa colecção de armários e arcas à altura da sua garridice. As jóias, essas, repousavam numa enorme arca cravejada de ferro e munida de fechaduras à prova de roubo, no próprio quarto de Margarida. A maleta de ébano e marfim aberta de par em par mostrava uma colecção de bolsas de formas, cores e tamanhos diversos, todas ricamente ornamentadas, mas aquela que procuravam não estava lá.

Aude, que trazia umas camisas acabadas de passar, afirmou que também a vira junto das outras no dia assinalado pela sua tia. Mas, à sua maneira simples e clara, não fez a si própria quaisquer perguntas:

- Não seria melhor perguntar a Madame Margarida? Pode ser que ela tenha tido a fantasia de a usar e a tenha deixado em qualquer parte?

- Tendes razão, minha pequena! Vamos levar este vestido que Madame pediu. Ela nos dirá se a usou.

A despeito da hora já avançada, Margarida ainda não tinha saído do leito, mas o fogo que ardia na grande chaminé espalhava um calor tão suave que a jovem saíra do seu casulo de lençóis sedosos e de peles e repousava nua em cima da cama, enquanto as suas servas lhe preparavam um banho numa barrica vestida com um lençol para o efeito. Ela gostava de mostrar o corpo esplêndido que a Natureza lhe dera e as suas damas-de-companhia, habituadas, já não lhe prestavam atenção.

Aliás, a Rainha parecia de mau humor e acolheu com rudeza a sua dama-de-honor quando esta lhe falou da bolsa:

- Que ideia querer que eu a use quando sabeis perfeitamente que não gosto dela!

- Mas é bonita, Madame e eu esperava que a Rainha tivesse mudado de opinião...

- Por que havia de mudar? Basta que o presente tenha vindo de Londres para me fazer ficar maldisposta! É inútil procurá-la mais! Desfiz-me dela!

- Desfizeste-vos dela? Mas, Madame Isabel vem visitar-nos em breve...

Margarida sentou-se na cama e dardejou o seu olhar negro na sua dama-de-companhia, ao mesmo tempo que a sua voz furiosa martelava:

- E depois? É costume, em dias de festas, trocar de presentes entre família. A minha cunhada não me vai perguntar por uma bolsa sem importância! Basta que eu não use nada que dê com ela... a começar por esse vestido! E agora quero o meu banho!

As três mulheres saíram em silêncio enquanto as servas começavam a tratar da sua senhora. O quarto enchera-se de uma ligeira névoa de vapor cheirando a jasmim do Oriente, de que Margarida gostava muito e elas foram às suas ocupações sem trocarem uma palavra. Aude porque, para ela, era coisa sem importância, Madame de Courcelles porque, habituada há muito aos caprichos da jovem Rainha e Bertrade... porque encontrava de novo os seus receios intactos, que estavam quase a transformar-se em terror. Apenas um pensamento a atormentava: a quem dera Margarida a escarcela com granadas. Esta era, de facto, um pouco grande para uma mulher e daí a pensar que talvez estivesse nas mãos de um homem, a distância era mínima e Bertrade transpô-la sem hesitar. Qual dos dois irmãos d'Aulnay usaria um presente real que Margarida, felizmente, ainda não tinha usado...

Como aquelas cogitações não lhe valiam de nada, Bertrade decidiu que era tempo de ir ver a irmã e para poder partir sem dificuldade, entregou-se a uma pequena comédia a propósito da sua perna - que ia bastante melhor! - devido à qual, com suspiros e gemidos, ela se dizia cansada e desejosa de ir a Montreuil onde, não muito longe da casa da sua irmã, oficiava um endireita de quem diziam maravilhas e que a poria a andar sobre os dois pés em menos de nada. Como o dito endireita só existia na sua imaginação, ela tomara o cuidado, antes, de advertir Aude do seu estratagema:

- Tenho, absolutamente, de ver a tua mãe! Tenho coisas importantes para lhe dizer... Por isso, não te espantes!

Bertrade preparou, portanto, uma pequena trouxa - só regressaria no dia seguinte! - e coxeou até às cavalariças, onde o chefe palafreneiro lhe preparou de boa vontade Eglantine, a sua mula preferida.

- Tendes sorte por ficardes fora da residência até amanhã - disse-lhe ele com um suspiro. - Como podeis ver, a cavalariça está cheia. Monsenhor Luís acaba de chegar para se ir deitar e tomar o remédio, o que o põe sempre de mau humor. Vão chover murros e pragas!

- Madame Margarida também está com a lua! Dormiu mal. Vão arranjar os dois maneira de discutir um com o outro. Os servos de um lado e de outro é que vão pagar as favas! Quanto o monsenhor Luís, se passasse mais tempo em casa em vez de passar os dias e metade das noites no Palácio, talvez as coisas estivessem melhor entre ele e a mulher!

- No Palácio ou noutro sítio qualquer-disse o grande Denis, piscando o olho. - É capaz de ter apanhado gosto pelas prostitutas onde o leva monsenhor d'Artois. Se não é uma infelicidade quando se tem uma mulher tão bela!

- Ele não a ama. Isso diz tudo. Mas como ela também não o ama a ele, os filhos não lhes custarão a criar! Pergunto mesmo a mim própria como conseguiram engendrar a pequena Joana!

Denis baixou a voz até esta se transformar num sussurro:

- Chhh! Não faleis tão alto!... Não sois a única a fazer essa pergunta: eles são morenos, tanto um como o outro, ao passo que a criança é loura!

- Oh, isso pode acontecer! O Rei é louro e o príncipe Carlos também, ao passo que o príncipe Filipe é moreno... Chega de conversa! Tenho de me pôr a caminho. Muito obrigada, mestre Denis!

Como única resposta, ele aplicou uma palmada na garupa da mula, que partiu em passo apressado. Dirigindo-se para a Petit-Pont, que a faria atravessar a Cite antes de chegar à margem direita do Sena pela Grand-Pont, Bertrade ia pensando no que acabava de ouvir e que, de facto, levava água ao seu moinho. Não era segredo para ninguém - salvo, talvez, para o Rei! - que o assunto Navarra ia mal, admitindo que alguma vez tivesse ido bem, e se o pessoal da residência se interrogava acerca da legitimidade da pequena Joana, que seria se se soubesse que Margarida tinha um amante? Denis era bom homem, um homem que ela conhecia há muito tempo e apesar de lhe dizer aquelas coisas não andava a mexericar pelos cantos, mas já era suficientemente inquietante que fizesse a si próprio as perguntas que lhe envenenavam a vida.

E enquanto traçava o seu caminho através da cidade lamacenta e cheia de gente, Bertrade começou a tentar adivinhar há quanto tempo um dos irmãos d'Aulnay andaria a substituir Luís porque, infelizmente, ambos eram louros...

Bertrade ia tão absorvida nos seus pensamentos que não prestou atenção à agitação que reinava na Cite, mal reparando, ao passar na vizinhança de Notre-Dame, que uns carpinteiros estavam a construir uma tribuna em frente da porta principal. Não era raro haver cerimónias com a catedral como centro.

Mas sentiu a vontade de ir ver se o seu cunhado e o sobrinho estavam lá a trabalhar, Machieu nos grandes arcobotantes (1) com

 

(1) Construções terminadas em arco que amparam uma parede, ou uma abóbada.

 

que se escorava o edifício e Remi no grande púlpito. Mas disse para si própria que seria tempo perdido. Com um pouco de sorte, encontraria a casa sem homens e era disso mesmo que ela precisava.

Quando chegou a casa da irmã, viu que não estavam nem o dono, nem a dona da casa e nem sequer a criada. Apenas a velha Matilde, fiel no seu posto ao canto da lareira onde ardiam uns ramos odoríferos de pinho, mas as suas mãos estavam inactivas em cima da roca abandonada em cima dos joelhos. A anciã estava encalhada na sua cadeira, a cabeça apoiada no espaldar e as lágrimas caíam-lhe pelas rugas da face abaixo. Nenhum som na casa, senão o ronronar do gato que dormia perto do fogo. Inquieta, Bertrade precipitou-se:

- Boa mãe, que se passa? Onde estão Juliana e Margot? Matilde abriu os olhos, reconheceu a recém-chegada, franziu as sobrancelhas, endireitou-se e resmungou, pegando de novo no fuso:

- No lavadouro! - disse ela em tom arrogante.

- E é por isso que chorais?

- Eu não estou a chorar, estúpida! Os olhos lacrimejam sozinhos por causa da idade... E vós, que vos traz aqui?

- Venho falar com Juliana... e convosco também, porque sei que sois sábia e de bons conselhos.

- Ela só regressa ao cair da noite. Mas podeis começar por mim. E espero que as vossas preocupações não tenham nada a ver com a minha neta?

- Sim, justamente! Mas ficai descansada, ela está bem, dá-se cada vez melhor com Madame Margarida, que lhe dá valor e gosta muito dela... mas receio que isso não vá durar muito mais...

- Quereis dizer que ela poderá desagradar-lhe? Pergunto a mim mesma porquê?

- Oh, não é o seu comportamento que está em causa... É... antes o de... mas, estamos mesmo sozinhas? - acrescentou Bertrade com uma olhadela de suspeita em volta.

- A parte o gato, posso assegurar-vos que não há mais ninguém.

Instintivamente, no entanto, a anciã baixou o tom de voz, ao mesmo tempo que os seus olhos fatigados perscrutavam o rosto preocupado da sua visitante.

- É assim tão grave? - perguntou ela.

- Mais do que imaginais. Madame Margarida e Madame Branca, a sua prima, desonram os maridos com fidalgos da corte...

- Que dizeis? - articulou Matilde, a ponto de se engasgar...

- Infelizmente é verdade! Não se trata de uma bisbilhotice qualquer, vi-o com... estes olhos!

E em voz baixa, como se se estivesse a confessar e com o mesmo sentimento de alívio que sentiria se tivesse sido ela mesma a pecar, porque o peso que arrastava consigo ameaçava sufocá-la, Bertrade confiou o seu segredo à anciã.

- Se, por infelicidade, se vier a saber - disse ela, concluindo - a cólera do marido e talvez mais ainda a do Rei nosso sire, aba-ter-se-á sobre todo o pessoal de Nesle. O príncipe Luís é cruel, vingativo e fará com que aquelas que possam ter sido eventualmente testemunhas paguem a sua vergonha. Na minha idade, não temo por mim, mas Aude...

- Não há idade para expiar as faltas dos outros. Eu não estou a par da vida da corte senão por vosso intermédio, quando - raramente! - nos visitais, vós e a pequena, mas o que acabais de me dizer é terrível! Como é que uma jovem, já Rainha, e que ainda o será mais no futuro, comete uma imprudência dessas? Ela é idiota?

- De maneira nenhuma, e até é uma mulher espirituosa. Mas é de natureza ardente, mesmo apaixonada e deseja viver à sua maneira, achando-se colocada demasiado alto para ser submetida ao destino comum das outras mulheres cristãs.

- A oração é uma ajuda poderosa contra as tentações do demónio. Ela não reza?

- Não é a sua ocupação favorita. Prefere os prazeres, todos os prazeres, o que lhe deve parecer uma compensação justa para um casamento que não a satisfaz. Os dois maridos detestam-se... Seja como for, a ameaça que pesa sobre as nossas cabeças não se deve abater sobre a da minha sobrinha. Quando a levei comigo, pensava sinceramente colocá-la num caminho de uma vida mais fácil, como a minha, agradável, junto de um marido capaz de a amar e de a acarinhar. E essa hipótese aconteceu. É normal: ela é tão bela!...

- ... Mas ela recusou-os a todos porque continua a amar sire Olivier, o belo templário que nunca olhou para ela. Não estou surpreendida e podia tê-lo previsto, já que a conheço bem. Coração dado não é retribuído, podia ser essa a sua divisa...

- Isso é verdade, mas esse perigo já não existe. O Templo acabou por ordem do Rei e os cavaleiros que não foram presos fugiram para fora do reino, ou refugiaram-se nos conventos que os quiseram receber e Aude nunca mais verá Olivier de Courte-nay! E nada se opõe a que ela regresse à casa do seu pai. Resta encontrar um pretexto forte para a arrancar à residência de Nesle... nem que seja apenas até que as nuvens pesadas, que me metem tanto medo, se afastem. No fundo... talvez seja imaginação minha, mas... é para descanso da minha alma, sobretudo, que desejo trazer-vo-la. Devíeis estar contente? - continuou ela com um sorriso na direcção de Matilde. Um sorriso que não suscitou qualquer reflexo no rosto ainda mais sombrio, se possível, da velha dama.

- Oh sim! - suspirou ela após um momento de silêncio. - Nada me agradaria mais, nem à vossa irmã, bem entendido... do que ter outra vez Aude nesta casa, mas isso seria, penso, uma grande imprudência. Primeiro por causa do que está para acontecer... Depois... porque sire Olivier encontrou aqui refúgio... e continua cá!

De facto, continuava.

- Ninguém virá procurar um orgulhoso cavaleiro do Templo entre os talhadores de pedra - dissera-lhe Machieu quando os levara, a ele e a Hervé, para a sua casa de Montreuil.

No espírito dos dois templários, tratava-se apenas de passar a noite antes de continuarem o caminho que, na ideia de Aulnay, os levaria ao castelo do seu irmão. Porém, depois do que se passara em frente do Recinto, Olivier não queria sair de Paris. A despeito dos protestos do seu amigo, que lhe dizia que o que ele tinha visto não passara de uma simples ilusão devido ao facto de ele pensar muito no seu inimigo no instante em que gritara o seu nome, estava certo de não estar enganado: vira, realmente, Roncelin de Fos, por mais incrível que pudesse parecer! Exactamente o mesmo que - até no traje! - lançara sobre Valcroze a sua operação de banditismo. Parecia que a sua estadia na masmorra de Ruou não passara de uma calma pausa na paz de uma cela confortável! Parecia, também, que aquele homem era o Diabo em pessoa, já que parecia gozar de uma extraordinária longevidade! Portanto, se estava em Paris, era preciso que Olivier também ali ficasse e tencionava regressar no dia seguinte:

- No fim de contas - disse ele - que há de mais anónimo, mais incolor, do que um monge franciscano no seu hábito cinzento de burel?

Estavam, então, à mesa em casa de Machieu e Margot servia a sopa. Fora a velha Matilde que lhe respondera:

- Acreditais sinceramente que vos pareceis com aqueles ratos cinzentos que, muitas vezes, não são mais monges do que eu? São uns preguiçosos que vivem da caridade melhor do que pensais e a sujidade que os cobre oculta, muitas vezes, umas panças bem alimentadas. Vós, messire, vós pareceis-vos demasiado com aquilo que sois: um cavaleiro treinado para o combate, um fidalgo de espinha demasiado direita para o exercício da mendicidade. Vê-se perfeitamente, acreditai-me... e isto também vale para o vosso amigo.

- O facto é que não temos o estilo e este hábito não é, para nós, senão um tapa-buracos - observou Hervé. - Um meio de chegar sem muitas dificuldades até ao castelo do meu irmão. O que é, por agora, a melhor solução. Aliás, Moussy não fica longe de Paris...

- Tendes a certeza, messire, de que o vosso irmão vos receberá hospitaleiramente? - interveio Machieu. - É coisa grave, nos nossos dias, acolher um templário em fuga! Ouvi dizer que até os conventos se recusam porque não estão ao abrigo das buscas da gente de Nogaret. Não vos esqueçais que, neste assunto, o Rei tem o acordo do Papa...

- O meu irmão é um homem generoso... pelo menos assim o creio!

- Tem de ser para receber, não um, mas dois templários! Se me permitis um conselho, ide sozinho, primeiro, ver como estão as coisas.

- Admitindo que tenhais razão, se Moussy não nos acolher, temos sempre a possibilidade de ir até à Borgonha, para junto do irmão Jean de Longwy...

- Não - cortou Olivier. - Ignoramos se ele conseguiu regressar a casa. Se ele não estiver lá, só nos restará a fuga para o estrangeiro. Coisa que eu não quero enquanto não souber qual foi o destino do irmão Clement. Sobretudo depois de saber que Roncelin, que o odeia, está em Paris. Mas seria egoísmo da minha parte arrastar-te comigo...

- Queres que nos separemos?

- Seria o mais sensato - disse suavemente Machieu. - Se messire Olivier quiser confiar em mim, poderei escondê-lo dando-lhe sempre a possibilidade de ir a Paris, mas o que vale para o vosso irmão, messire Hervé, também vale para mim: um templário, é fácil, ao passo que dois é perigoso. Sabereis onde está o vosso amigo e podereis vir vê-lo quando quiserdes. Tomando algumas precauções, bem entendido.

- Por que fazeis isto, mestre Machieu? - perguntou Olivier. - Vós tendes uma família, bens e grandes obras pela frente.

- Porque somos amigos, amigos verdadeiros, tal como o vosso pai e o meu. Além disso, a exemplo de todos os construtores, eu sou, também, um pouco filho do Templo. O Templo e os monges de Bernardo de Citeaux ensinaram-nos tudo o que nos permitiu construir as nossas catedrais e foram eles que, muitas vezes, pagaram. Foram eles que trouxeram da Terra Santa os segredos de Hirão, o ilustre arquitecto que concebeu o Templo de Salomão e também muitos outros. Por isso, “irmão” Olivier, estais aqui em vossa casa enquanto quiserdes e desejardes. Por isso mesmo, também, ajudarei o Templo enquanto puder fazê-lo...

- Deveis-lhe assim tanto?

- E muito mais. Eram os cavaleiros que asseguravam a nossa protecção, construtores exteriores ou interiores do seu Recinto. Foram eles ainda que obtiveram, do santo Rei Luís, os privilégios reais que nos protegem das diabruras dos cobradores de impostos. Devemos respeito ao Rei, mas graças ao Templo somos homens livres...

Não havia mais nada a acrescentar. Acabaram por ceder à sua vontade e foi assim que, na manhã seguinte, Remi conduziu Hervé através dos bosques, sempre envolto na sua cogula cinzenta, mas com algumas provisões, até à antiga via romana que ia na direcção de Soissons. A distância entre Montreuil e Moussy era, mais ou menos, de sete léguas. Chegaria lá ao cair da noite.

Entretanto, Machieu levava Olivier ao extremo do seu pomar, até uma pequena construção semelhante às cabanas que os mestres-de-obras construíam nos seus estaleiros para o diferente pessoal. Mas apenas semelhante, porque, em vez de madeira, era feita de boa pedra. Encostada ao muro, para lá do qual se estendiam os bosques que ligavam a floresta de Vincennes à de Bondy, era uma construção baixa, de rés-do-chão, com um guarda-vento sob o qual havia madeira e pedras, uma oficina, a de Remi, e uma divisão estreita, construída como a cela de um monge e mobilada do mesmo modo: muitas vezes, o escultor repousava ali quando a febre criativa o assolava e não tinha tempo de regressar a casa.

- Ofereço-vos isto - disse Machieu. - Podeis viver aqui em paz, creio, e também afastado de todos, como desejais. Mandar-vos-ei as refeições e tendes, a dois passos, um ribeiro que vos dará a água de que necessitardes. Em caso de uma surpresa desagradável - pode sempre acontecer! - o muro é fácil de trepar para um homem ágil como vós... e o bosque fica logo a seguir.

- - Estais a dizer-me que ides privar Remi de um local que ele adora e onde, sem dúvida, trabalha melhor do que noutro lado qualquer?

Enquanto falava, Olivier aproximara-se de uma espécie de mesa feita de um bloco de pedra sobre a qual estava pousado um outro de grés. O cinzel do artista - porque Remi era um verdadeiro artista! - começara a esculpir os traços de uma silhueta, um homem barbudo envolto num tecido e segurando um livro. Não passava, ainda, de um esboço, mas já deixava adivinhar o que seria, na sua força, a obra acabada. O templário passou um dedo admirador pela fenda de uma prega do tecido, enquanto Machieu, adivinhando a sua admiração, disse, orgulhoso do seu filho:

- Uma estátua de São João Evangelista para a capela de Vincennes... bem bonita, não é verdade, quando estiver terminada?

- Muito bela! É por isso que me recuso a ficar aqui! Por nada neste mundo quero expulsar Remi da sua casa!

- A casa dele é a minha e as dependências não faltam, ao passo que vós tendes de ter um abrigo. Suplico-vos que aceiteis. Ele fará o mesmo quando regressar. Se recusardes, ele ficará desapontado...

Olivier ficou calado, com a mão sempre pousada na pedra. Finalmente, olhou para Machieu e leu nos seus olhos a sinceridade:

- Nesse caso, aceito... mas apenas o quartito, que me recordará a minha cela no Templo. Viverei nele retomando a longa litania das orações quotidianas de que já tinha perdido o hábito e não incomodarei Remi: farei de maneira a que ele possa esquecer a minha presença.

- Agireis como muito bem vos apetecer... mas, seja qual for o vosso desejo, peço-vos, por favor, que não saiais daqui, que não tenteis regressar a Paris senão daqui a algum tempo -insistiu Machieu. Se conheço bem o Rei, as estradas e saídas da cidade vão estar vigiadas depois do escândalo de ontem. Lembrai-vos que se gritou templários... e que vós ainda vos pareceis com um...

- Ficai tranquilo! Fico a dever-vos...

Foi assim que Olivier entrou na propriedade de Montreuil.

A princípio, e tal como prometera, não saiu da cela junto da oficina senão para ir ao ribeiro lavar-se e meditar num futuro que lhe parecia sombrio. Era capaz de ficar no local horas, sob o vento agreste do Outono e sob um sol parcimonioso que dourava as folhas das árvores antes de caírem. Por mais generosa que fosse a hospitalidade de Machieu e da sua família, não podia ficar ali eternamente levando uma vida de eremita bem alimentado sem fazer mais nada senão rezar e meditar. Mais valia entrar, com um nome falso, para o primeiro mosteiro que encontrasse. Ora, aquela via conventual no seu estado puro, sem o brio e a excitação das armas gloriosamente usadas em nome do Cristo Rei, nunca a quisera. O que ele queria era o Templo, mas o Templo já não existia, apesar de ainda se terem de pé as suas quase duas mil comendadorias, vazias doravante da substância que era a sua e que ele sentia fluir-lhe do corpo como o sangue de um ferimento. Então, teve uma estranha tentação: abandonar o seu asilo, transpor as portas de Paris e ir bater à do Recinto para reclamar a sua parte das infe-licidades da Ordem. Seria entregar-se, sem dúvida, aos carrascos, já que nas caves das prisões interrogavam ou torturavam os cavaleiros para os obrigar a confessar torpezas incríveis, mas, pelo menos, estaria com o irmão Clement e partilharia do seu destino. A coroa de mártir substituiria o elmo, que nunca mais reflectiria o sol das batalhas...

Era Remi que lhe levava as refeições. Em silêncio a maior parte das vezes porque o jovem temia perturbar os pensamentos sombrios do seu hóspede, mas, sobretudo, porque este o impressionava. E ainda mais na sua indigência presente do que na época em que ele ia ver Machieu ao estaleiro ou a sua casa com o grande manto branco e a cruz vermelha. Talvez porque o homem se revelava melhor naquelas circunstâncias do que sob o uniforme imposto pela Regra. Barbeado e com os cabelos crescendo pouco a pouco, Olivier era, aos olhos do artista, mais belo do que o Rei Filipe, o Belo, e Remi reencontrava o desejo de fixar na pedra ou na madeira aquele rosto magro e orgulhoso de ossatura perfeita. Por seu lado, Olivier sentia um respeito novo pelo artista cujo trabalho prometera não incomodar e daquela espécie de reverência mútua poderia ter nascido uma distância cada vez maior se, ao chegar uma manhã à sua oficina, mais cedo do que o costume já que se tinha ausentado durante dois dias, Remi não tivesse surpreendido o antigo templário de pé em frente da estátua, as suas grandes mãos acariciando o grão da pedra e com o olhar brilhante de admiração.

Remi imobilizara-se para não o perturbar, mas Olivier, sentindo a sua presença, corara um pouco e virara-se para se retirar murmurando:

- Perdoai-me por ter entrado, mas admiro tanto a vossa obra que o desejo de a ver mais uma vez foi mais forte...

- Por favor, ficai!... Não só a vossa presença não me incomoda como me sinto feliz com ela. Não ousava pedir-vos com medo de perturbar as vossas orações...

- As minhas orações?... Rezo muito menos do que vós pensais porque tenho a impressão que Deus está cada vez mais longe de mim. Se calhar, é por isso que esta imagem me atrai, pela simples razão de que, em si própria, é uma oração mais bela e mais forte do que as minhas.

- Com vossa permissão, estais demasiado só, messire! Estáveis acostumado a um companheiro...

- É verdade. O irmão Hervé faz-me falta. Partilhámos tudo durante anos e ignoro se ainda está vivo, se foi bem recebido pelo irmão...

Enquanto falava, Olivier deslocara-se e aproximara-se de uma pequena mesa sobre a qual estava um pequeno pedaço de argila. O templário pousou nela um dedo cauteloso e depois fê-lo deslizar numa espécie de carícia...

- Bela matéria! - apreciou ele. - Tão suave! Observei-vos um dia, em que as vossas mãos faziam aparecer uma forma humana. Nesse instante, tive a impressão de que éreis semelhante a Deus, quando Ele fez Adão a partir de um pedaço de terra. E invejei-vos, eu, que não sei fazer outra coisa senão rezar e combater...

Remi aproximou-se dele com uma ideia súbita:

- Por que não tentais? As vossas mãos são belas, fortes mas sensíveis. É através da argila que começa a aprendizagem do escultor. A pedra, dura, que se parte muitas vezes sob o cinzel infeliz, vem depois.

- Tentar? Eu?

O cavaleiro largou a terra húmida como se, subitamente, ela lhe metesse medo, mas Remi apoderou-se dos seus dedos para os obrigar a tocar de novo na argila.

- Dai-me esse prazer! Modelai essa argila! Vereis: sentireis uma grande alegria, tenho a certeza.

Primeiro a medo, Courtenay obedeceu, mergulhou os dedos e apoderou-se daquela matéria elástica, procurando precisar a vaga forma do animal deitado que ela evocava naturalmente. Era pouco hábil, era verdade, mas o cavaleiro sentiu-se invadido por um contentamento infantil... mas depois, bruscamente, abandonou a tarefa, desencorajado... Porém, o que fizera parecia-se um pouco com a garupa de um leão a que se seguia a espinha, mas o seguimento era mais difícil!

- É inútil... nunca conseguirei...

- Deixai-me ensinar-vos e vereis! Será uma ajuda, para pensardes menos no vosso amigo! A propósito, sabei que a minha mãe tem um primo perto de Dammartin, da qual Moussy não está muito afastada. Posso lá ir um dia... e talvez saber notícias quando as coisas estiverem um pouco melhores. Ou menos mal! - acrescentou ele com um suspiro.

As coisas não melhoravam, de facto e Machieu foi, naquela noite, dizê-lo ao seu hóspede. Havia muita emoção em Paris porque o Grão-Mestre, que teria confessado os rituais estranhos na recepção aos cavaleiros arguidos pela acusação e, decidido a defendê-los, recusando com energia a sodomia, acabava de repetir as mesmas confissões perante os doutores da Universidade levados ao Templo para a ocasião. Aparentemente, o mais estranho era que não fora torturado, mas como os rituais eram do foro interno da Ordem, apenas o Papa podia julgá-los e condená-los. Assim, Molay regressara à prisão enquanto se tomavam disposições para que fosse conduzido juntamente com os outros dignitários encarcerados em Paris a Avinhão...

- Num certo sentido - disse Machieu - vai de encontro às confissões arrancadas a tantos irmãos infelizes, o que levanta uma série de problemas. Não importa porquê, mas o processo que se anuncia vai ser longo, difícil e depois de o Papa julgar não sabemos o que dali vai resultar e qual será o destino dos dignitários e do próprio “mestre Jacques”. A prisão ou o exílio, acho eu. Os soberanos estrangeiros não estão de acordo e apesar de o Rei Filipe ser o maior de todos, deve ter muito cuidado... Mas o perigo para os templários em fuga é maior do que nunca por causa da cólera do povo...

- É por isso que não vou ficar em vossa casa mais tempo... Deus é testemunha de que vos estou profundamente reconhecido, mas tenho de me ir embora.

- Para ir para onde?

- Por que não para o Templo para me declarar prisioneiro? - disse Olivier em tom cansado. - No fim de contas, não há razão para eu escapar ao destino comum e, pelo menos, saberei o que aconteceu ao irmão Clement.

- O irmão Clement foi feito prisioneiro juntamente com os outros dignitários. Não foi maltratado e deve, também ele, ser levado até junto do Papa...

- Como é que sabeis isso?

- Na terra enfeudada do Templo ainda estão alojados os pedreiros que eu, por vezes, emprego. Eles estão, tal como eu, muito atentos ao destino dos cavaleiros. Ouvem, vigiam. O que quer dizer que, em caso de perigo extremo estão prontos a ajudar. É por isso que, entregar-vos não servirá para nada senão para aumentar o número dos simples irmãos que são entregues ao carrasco para lhes arrancar... não importa o quê, susceptível de fazer chegar a água ao moinho de Nogaret e da Inquisição. Ficai connosco! Um dia haveis de combater de novo pela Ordem... A menos que desejeis regressar à Provença para junto do vosso pai, o que não será fácil e que o colocará em perigo, já que será no castelo dele que vos irão procurar. Mais vale ficar aqui.

- Oh, eu já pensei nisso, mas o meu pai não está em perigo imediato, como o irmão Clement. Pelo menos, assim espero.

- Nesse caso, escutai-me e ficai aqui connosco!

- Seja... mas não sem fazer nada! Não sem ganhar, por pouco que seja, o pão que me dais. Ensinai-me a talhar a pedra para que me torne num dos vossos operários! Eu sou forte... e de boa saúde graças a vós. Ficar enclausurado sem fazer nada é-me insuportável. A... a oração não chega - acrescentou ele, embaraçado e virando a cabeça.

O rosto sombrio de mestre Machieu suavizou-se com um sorriso e ele estendeu as mãos para pegar nas que se lhe ofereciam, mas Remi foi mais rápido e foi ele que segurou nas mãos do templário.

- Olhai para estes dedos, meu pai! Longos, delgados e ágeis... Vi-os hoje cedo a mexer num bloco de argila com um cuidado e uma delicadeza enormes. Seria uma pena endurecê-los com os maços e os calços nas fendas da pedra. Deixai-me ensinar-lhe o meu ofício...

- Remi! - cortou Olivier - é impossível. Vós sois um grande artista e o talento não se aprende...

-Até um certo ponto aprende - disse Machieu. - Pode ser-se um escultor honesto, um bom executante, sem possuir génio criador. Nem toda a gente pode ser Gislebert d'Autun! O meu filho também ainda não chegou lá e se vós quiserdes experimentar...

- Sim... creio que gostaria - respondeu Olivier, corando subitamente e com o tom de voz de uma criança a quem propõem um presente...

- Nesse caso, está tudo dito! - concluiu Machieu. - Ficareis connosco e isso faz-me muito feliz...

Foi assim que Olivier aprendeu com Remi as pedras, a escolhê-las, a talhá-las e, evidentemente, a modelar a argila para começar. Surgiu uma verdadeira amizade entre ele e o jovem, este feliz por ver que tinha razão e que o seu aluno mostrava disposição para aprender. Entretanto, Olivier continuava a viver no seu pequeno cubículo próximo da oficina sem partilhar nunca da vida da casa, respeitando de certo modo a lei do Templo, que prescrevia que se mantivesse à parte dos sítios onde viviam mulheres. Desde que não usava o lorigão de malha de aço, a cota e o grande manto branco, tinha a impressão de estar despojado de um escudo tão poderoso como os muros de uma fortaleza e exposto, sem defesa, ao mais perigoso dos seus demónios interiores: aquele que leva um homem a aproximar-se do corpo de uma mulher. Até ali, combatera-o com eficácia graças à existência movimentada que levava, mas presentemente acontecia-lhe ter sonhos estranhos, dos quais saía alagado em suor e cheio de vergonha. Então, atirava-se por terra, rezava com uma espécie de encarniçamento e depois saltava o muro e corria através dos bosques até que o seu sangue se acalmasse. O cavaleiro também dava muita atenção à sua forma física, obrigando-se a fazer os exercícios impostos pela Ordem e, a pedido, ensinava por seu lado a Remi o ofício das armas, as técnicas de combate. A pé, pela força das circunstâncias, mas era o cavalo que mais falta lhe fazia.

Num certo sentido, Machieu e Remi sentiam-se contentes por ele ter recusado ficar com eles na casa familiar. Nem um nem outro tinham esquecido a razão profunda pela qual Aude se afastara. Menos perspicazes do que Juliana ou Matilde, achavam que o tempo exerceria os seus direitos sobre a jovem e que mais tarde ou mais cedo ela esqueceria por completo, casando com o belo partido de que Bertrade estava sempre a falar. Quando, com ou sem Ber-trade, ela ia ver os pais, Olivier ficava fechado no seu quarto e nunca a jovem imaginou, sequer, que aquele cuja recordação estava sempre na sua alma se encontrava tão perto dela...

Porém, logo que a efervescência dos primeiros meses seguintes à detenção maciça dos templários acalmou um pouco, logo que o aspecto do recluso se modificou o suficiente, logo que ele se familiarizou com o seu segundo “ofício”, foi várias vezes a Paris ao estaleiro de Notre-Dame ou até ao Templo, onde os companheiros continuavam a trabalhar na abside da igreja. O novo tesoureiro, imposto pelo poder real, tinha ordem para continuar a pagar os trabalhos. Não foi sem emoção que ele reviu os lugares tão familiares e, sobretudo, o grande torreão sempre severamente guardado, no qual sabia estarem ainda o Grão-Mestre e Clemente de Salernes, mas sentiu um certo consolo ao descobrir o entendimento perfeito, a espécie de cumplicidade que reinava entre Machieu de Montreuil e os trabalhadores que ele ali empregava. Estes usavam uma linguagem inocente na aparência, mas, na realidade, hermética, cuja chave Remi lhe entregou, concluindo ele que existia, na verdade, um laço profundo e sólido entre os construtores e aquele Templo que destruíam perante os seus olhos e que, de facto, todos estavam vigilantes e prontos e ajudar, sem hesitar, se viesse a acontecer o pior aos que eram, para eles, a própria essência do Templo, a sua cabeça pensadora: “mestre Jacques” e os seus próximos (1)...

 

(1) A tradição dos construtores faz recuar a sua lenda até à construção do Templo de Salomão, em Jerusalém, onde o Rei se teria associado à obra do arquitecto Hirão de Tiro e a uma misteriosa personagem, mestre Jacques, talhador de pedra vindo da Gália. Os três estão na origem da corporação e dos segredos de construção das catedrais que, contidos na Arca da Aliança, teriam sido trazidos para o Ocidente pelos primeiros cavaleiros do Templo por ordem de São Bernardo. Como o último Grão-Mestre se chamava Jacques de Molay, era natural que os construtores vissem nele a reencarnação do mestre Jacques da lenda. Tanto mais que era perseguido.

 

Mas não encontrou, em parte nenhuma, vestígios de Roncelin de Fos. Não por não ter procurado. Com a ajuda de uma miniatura feita por Remi por indicação de Olivier quando este não saía de Montreuil, Machieu fizera múltiplas perguntas, mas não se encontrou uma única pessoa que tivesse visto o templário maldito e, à medida que o tempo passava, Olivier começou a interrogar-se, a perguntar a si próprio se o teria realmente visto ou se não fora vítima de uma parecença, mesmo de uma alucinação...

A despeito das torturas e das fogueiras acesas aqui e ali, o processo dos templários arrastava-se. No começo do ano de 1308, o Papa suspendeu a acção dos Inquisidores depois de o Grão-Mestre se ter retratado das confissões perante dois cardeais. O Rei reuniu os estados gerais em Tours e foi a Poitiers para se encontrar com Clemente V. Por essa altura, Jacques de Molay e os seus irmãos foram retirados da sua prisão e foram enviados para Poitiers... mas não chegaram lá. Como que por acaso, o Grão-Mestre caiu doente em Chinon e foi fechado com os outros no castelo, na Torre do Coudray, um torreão enorme mandado construir por Filipe Augusto. Para os interrogar, o Papa enviou gente para os interrogar e como os prisioneiros estavam, de novo, a ser sujeitos a pressões psicológicas, Molay voltou a confessar... O Papa teve de ordenar inquéritos episcopais e concílios provinciais para julgar os templários por todo o país, enquanto um concílio geral se reunia para estatuir sobre a Ordem. Essas comissões pontifícias trabalharam durante dois anos, mas um grupo de prisioneiros decidiu defender-se das suas ordens voltando atrás nas suas confissões. O arcebispo de Sens, Jean de Marigny, irmão de Enguerrand, recém-eleito coadjutor do reino, resolveu mandá-los para a fogueira sem a autorização da Comissão pontifícia. Cinquenta e quatro prisioneiros morreram ao mesmo tempo...

Entretanto, o Papa não se rendia. Durante dois anos, esforçou-se por evitar o pior. O Concílio reuniu-se em Viena, mas o Rei convocou os estados gerais ao mesmo tempo e não hesitou em fazer pressão sobre Clemente V. A 22 de Março de 1312, a Ordem do Templo era abolida e os seus bens transferidos para os Hos-pitalários... Os prisioneiros de Chinon, esses, já tinham regressado a Paris.

Nos estaleiros dos construtores, essas notícias gelavam o sangue dos homens, mas alimentavam uma cólera ainda surda que os dias, as semanas, os meses e os anos sustentavam. Na casa de Montreuil, o humor do mestre-de-obras piorava e, bem entendido, os de Remi e de Olivier. Tanto mais que este nunca mais vira Hervé nem tivera notícias dele. Na região de Soissonais, onde o Templo estivera fortemente implantado e possuía numerosos bens, a detenção maciça aterrorizara a população e as pessoas tinham aprendido a calar-se...

Em casa de Machieu, apareciam, à noite, alguns homens de expressão resoluta e mãos calosas. Havia conciliábulos uma vez as mulheres retiradas para os seus quartos sem que, aliás, nenhuma delas fizesse a menor pergunta ou tivesse a menor curiosidade. Se as reuniões não duravam até à hora da abertura das portas de Paris, os discretos visitantes terminavam a noite, segundo o tempo, na sala ou numa granja. Olivier assistia a elas com frequência.

Uma dessas reuniões tivera lugar, justamente, na véspera do dia em que Bertrade chegara a Montreuil...

- Eis por que - concluiu a velha Matilde - não é possível trazer Aude para aqui...

- Porque o templário vive aqui? Mas ela nunca se apercebeu da presença dele, e veio cá várias vezes!

- Se bem vos compreendi - disse a velha dama em tom cansado - seria uma estadia prolongada. Mas não é só isso e eu não devo ter sido bem clara. Passam-se coisas nesta casa que eu não sei como vão acabar e penso sinceramente que, nas próximas semanas, Aude ficará mais segura junto de vós e da Rainha Margarida...

Um som de vozes masculinas fez-se ouvir no exterior e a porta abriu-se pela mão de Machieu. Vendo que a mãe não estava só, franziu as sobrancelhas, virou-se, murmurou algumas palavras aos que o acompanhavam, Remi e Olivier e este último afastou-se na direcção da oficina. Em seguida, entrou na sala com o filho.

- Dou-vos as boas-noites, minha irmã! Que vento vos traz? Pela severidade do tom, Bertrade não teve qualquer dificuldade em adivinhar que aquele vento não era bem-vindo...

O de Março, que entrava com ele, era agreste a preceito.

 

                                       A FOGUEIRA

Surpreendida com aquele acolhimento tão abrupto, Bertrade não encontrou que dizer e foi Matilde que se encarregou da resposta:

- Bertrade quer que a nossa querida Aude regresse por algum tempo. Ela teme pela sua segurança durante os próximos dias...

- Porquê? Que se passou? Ela cometeu alguma falta grave?

- De maneira nenhuma e se falta há - e há! - não é dela nem minha...

A anciã hesitou um instante, consultando o rosto fechado do seu cunhado, o seu olhar duro mas honesto, e depois decidiu-se:

- A Rainha Margarida tem um amante e comete muitas imprudências. Quando o Teimoso souber - e o Rei também! - a sua cólera atingirá cegamente todo o pessoal da sua casa porque, infelizmente, a coisa passa-se em sua casa...

Machieu não emitiu o “Oh!” escandalizado de Remi, mas a ruga de desgosto da sua boca era explícita. O mestre-de-obras, aliás, acrescentou:

- Não gostei nada que a minha filha tenha ido roçar-se para junto das belas damas da corte e vós sabei-lo. No entanto, nunca imaginei que pudesse estar metida numa tal traição! Essa princesa deve estar louca para pôr assim em risco os seus... mas, por agora, está fora de questão Aude regressar a casa. Mesmo por alguns dias apenas!

-Já lho disse - cortou a velha dama. - Mas precisava de uma razão... Então, falei-lhe do nosso hóspede...

- Fizestes bem. Uma das qualidades da dama Bertrade é saber manter a boca calada...

- De facto, acabo de fazer uma bela demonstração disso! - disse ela com azedume.

- Tínheis, também, de ter uma razão. A vossa visita só prova como gostais de Aude e como vos preocupais com a família. No entanto, minha irmã, não é por causa de Olivier que me recuso a receber Aude: ele mantém-se fiel à regra do Templo, que lhe proíbe o contacto com as mulheres e nunca entra aqui quando elas aqui estão. A melhor prova é que ela nunca se apercebeu da sua presença quando vinha passar alguns dias connosco... A propósito, achais que ela continua a amá-lo?

Foi Remi que respondeu:

-Juraria que sim! Sempre que a fui ver à residência de Nesle, ela arranjava sempre maneira de me fazer uma pergunta acerca dele. Ela pensa que ele está escondido numa parte qualquer do reino. Talvez, até, na Provença... Mas, esquecê-lo, não!

- Oh, estou de acordo! - suspirou Bertrade. - Nenhum rapaz, por mais bonito que seja, lhe atrai o olhar. Receio que seja mulher de um só amor!

- Como a mãe! - afirmou Machieu não sem satisfação. - Mas é pena que um tão belo amor se prenda, não a quem não é digno dele, mas, pelo contrário, a quem não o pode devolver. Mas chega de conversa! As loucuras de uma princesa não estão na ordem do dia. O acontecimento de amanhã é que está... e, por isso mesmo, não estou descontente com a vossa vinda!

- Que quereis dizer?

- Dir-vos-ei mais tarde! Onde estão a minha mulher e a minha criada?

- No lavadouro, como todas as sextas-feiras - grunhiu Matilde. - Aliás, até estão atrasadas...

- Prefiro assim, por agora. Dizei-me uma coisa, minha irmã, não reparastes em nada ao passar por Notre-Dame?

- De facto! Estão a construir uma tribuna em frente do portal... O estranho é que o estaleiro dos contrafortes estava deserto...

- É para lá que vão ser levados amanhã, solenemente, mestre Jacques e os dignitários detidos no Templo para serem julgados.

- Meu Deus! Pensava que se tinham esquecido deles. Por que tanta solenidade? Eles, segundo dizem, confessaram tudo o que quiseram e a Comissão pontifícia não os vai fazer sair de uma prisão para os fazer entrar noutra!

- Sem dúvida, mas resta saber qual... e esse é, vede lá vós, um pormenor que nos interessa.

Os laços que uniam há tanto tempo os construtores de santuários ao Templo eram demasiado conhecidos para que Bertrade os ignorasse. Ela sabia, igualmente, que o cunhado lhes estava solidamente ligado, mas a determinação que sentia na sua voz meteu-lhe medo subitamente. A dama olhou para o sobrinho e viu a mesma resolução no seu rosto sombrio.

- Em que estais a pensar a esta hora? - perguntou ela baixando o tom até a sua voz se tornar inquietante.

- Salvo o devido respeito, minha irmã, isso não vos diz respeito! Ficais a saber apenas que um certo perigo pode ameaçar esta casa num futuro próximo. E, quanto a isso, a vossa visita trouxe-me à memória a vossa propriedade de Passiacum e pergunto a mim próprio se não seria bom convidar a vossa irmã e a minha mãe a passarem lá uns dias?... Aude podia ir ter com elas e assim o problema que trazíeis à chegada ficava resolvido. Que achais?

Machieu parecia tão feliz, de repente, que Bertrade sentiu uma súbita - e perfeitamente incongruente! - vontade de rir:

- Que talvez elas não gostem! No fim da Primavera, com as árvores em flor, talvez, mas com este tempo o Sena vai com muita água e elas arriscam-se a molhar os pés! Dito isto - acrescentou ela vendo franzirem-se de novo as sobrancelhas do seu cunhado - a minha casa está à sua disposição. Tanto mais que eu vou lá cada vez menos, apesar de Blandine e Aubin, a quem o meu marido deu asilo há muito tempo a tenham em bom estado. Se Remi me quiser acompanhar amanhã, dou-lhe as chaves...

Com um movimento espontâneo, Machieu apoderou-se das mãos da sua cunhada e apertou-as com força:

- Muito obrigado, minha irmã! Tirais-me um espinho do pé...

- No vosso lugar - interveio Matilde - esperava pelo regresso da minha nora para saber o que ela pensa. Como a conheço bem, ficaria muito surpreendida se ela aceitasse sair da sua casa.

Juliana e Margot regressavam naquele momento com a carroça cheia de roupa molhada que iam pôr a secar, não no prado, como nos dias bonitos, mas em cordas estendidas e sob um alpendre. Era, de facto, a última grande barrela do ano. Só voltariam a lavar na selha a roupa pessoal...

A mulher de Machieu beijou a irmã com uma alegria visível. Primeiro porque a amava e depois porque lhe levava notícias de uma filha cujo afastamento não cessava de lamentar. Porém, quando o marido instalara Olivier em sua casa, causa primeira daquele afastamento, nem uma vez, na sua generosidade, tivera a ideia de mostrar ressentimento, sabendo pertinentemente que o templário não fizera nada para atrair ou encorajar um amor que ignorava por completo. Aliás, via-o tão pouco que quase o esquecia, porque não era possível alguém ser mais discreto. Porém, quando lhe acontecia avistá-lo, não conseguia deixar de compreender o sentimento tenaz que sentia por ele a sua filha e surpreendia-se a lamentar que um homem tão atraente - e ainda mais porque estava fora de alcance! - estivesse definitivamente perdido para as mulheres... Algumas, no seu lugar, talvez se tivessem entregado a algumas tentativas de sedução - o que não seria ridículo: Juliana, apesar da idade, ainda era bela - mas tinha uma alma demasiado altiva para tais libertinagens. Por outro lado, o seu marido, que ela sentia preparar qualquer coisa, ocupava suficientemente os seus pensamentos.

Entretanto, Matilde - sem, no entanto, saber o que lhe ia no espírito - conhecia bem a sua nora. Quando Machieu lhe anunciou o seu desejo de a ver ir morar para o outro lado de Paris com a sogra e logo no dia seguinte, ouviu uma recusa formal:

- Abandonar a nossa casa e arrancar dela a nossa mãe? Não conteis com isso! Deveis ter perdido a razão para me propor isso!

- Com a ajuda de Deus, não partireis definitivamente! É só durante algum tempo para que, sabendo-vos protegida, eu possa ter o espírito livre. E Aude irá ter convosco...

-Aude não está em perigo imediato, ao passo que, juraria, não vai acontecer o mesmo convosco. Eu sou vossa mulher, a guardiã natural da nossa casa e nunca aceitarei abandoná-la de boa vontade. Pelo contrário - acrescentou ela virando-se para Matilde - talvez fosse boa ideia, de facto, proteger a nossa mãe. Ela já não é ágil e...

- Chega, minha filha! - protestou a velha dama, indignada.

- Se, em caso de ameaça, fosse preciso fugir daqui, é verdade que as minhas pernas não me permitiriam uma corrida louca, mas a catástrofe não seria grande. Tenho idade suficiente para morrer e as ruínas desta casa onde vivi os mais belos dias da minha vida serão um bom túmulo para mim.

Não havia nada a acrescentar àquilo. Bertrade emitiu um suspiro e declarou:

- Espantar-me-ia muito se tivesse ouvido outra coisa! Que Remi vá, mesmo assim, buscar as chaves! Não sei o que estais a magicar, mas ficais com a possibilidade de um refúgio...

Assim que se abriram as portas, no dia seguinte, Bertrade, flanqueada por Machieu, por Remi e também por Olivier, entrou em Paris. Era a primeira vez que Bertrade via o hóspede invisível do seu cunhado, mas ele não lhe foi apresentado quando apareceu no pátio levando pela brida os dois grandes cavalos que iam transportar Machieu e Remi. O cavaleiro esboçou uma saudação na sua direcção como o teria feito qualquer assistente do construtor. Assim que o viu, ela sentiu um arrepio bizarro devido à simpatia imediata que ele lhe inspirou e a uma certa inquietação. Apesar das roupas simples - uma cota semicomprida de lã castanha deixando ver os calções a condizer e completada por um capuz de pontas muito alongadas rebaixadas sobre uns ombros poderosos que ele mantinha um pouco dobrados - emanava daquele homem uma indiscutível nobreza. O rosto estreito, esculpido a grandes traços como o de um santo de catedral, era impassível e frio, mas quanto encanto tinham os olhos cinzentos-esverdeados no entablamento direito das sobrancelhas! Tal como a irmã, não se espantou com o amor tenaz da sua sobrinha a despeito dos vinte anos de diferença e foi com um suspiro reprimido que subiu para a sua mula.

Ainda era cedo, mas o Rei mandara anunciar por toda a cidade que, em frente de Notre-Dame, os dignitários do Templo iam, enfim, ser julgados. Assim, as ruas estavam cheias de gente que se dividia em duas metades: aqueles que iam para o Recinto para assistir à saída dos prisioneiros com a intenção de os acompanhar e aqueles que se dirigiam directamente para o pátio da catedral.

Machieu e os que o acompanhavam faziam parte destes últimos.

A atmosfera de Paris não era a habitual. Tendas e lojas estavam fechadas. Toda a gente estava na rua como se fossem para uma festa. O que iam ver era um espectáculo como outro qualquer e o povo adorava espectáculos. Todos, desde as alegres “entradas” reais até às execuções capitais, passando pelos “mistérios” interpretados nas praças e pelos truques dos saltimbancos e outros palhaços que aconteciam à esquina das ruas. Mas, naquela manhã, nada daquilo ia acontecer: o que iam ver, com uma curiosidade cruel, era o que perto de sete anos de prisão tinha feito àqueles soberbos senhores que eram o Grão-Mestre e os mais notáveis dos seus irmãos. Mas sem os lastimarem: eles tinham confessado práticas horríveis e acções tão odiosas que mais pareciam feiticeiros suficientemente vis para pisarem a Cruz, cuspir-lhe em cima e adorar a cabeça de um ídolo que só podia ser a de Satanás. Só esse, o Maldito, os podia ter tornado tão ricos! Sobre aquilo, as opiniões dividiam-se: alguns pretendiam que nas suas casas-fortes tinham encontrado montes de ouro e outros que, prevenidos pelo Diabo, tinham escondido as suas riquezas nas entranhas da terra.

Conduzindo prudentemente o seu cavalo na peugada do de Machieu, que era conhecido e saudado por muitos, Olivier escutava, observava, reparava nas malevolências e nos propósitos estúpidos que só lhe inspiravam desprezo. O templário sentia uma espécie de alívio pleno de expectativa: por fim, ia poder ver o irmão Clement, esperando ao mesmo tempo que as masmorras não lhe tivessem diminuído a energia. Ia, sobretudo, saber para onde seria conduzido depois da sentença para poder fazer aquilo com que sonhava há muito tempo: arrancá-lo aos seus guardiães. Coisa impossível enquanto estivesse retido no torreão, mas mais acessível, talvez, numa qualquer fortaleza da província... Por mais difícil que fosse, não lhe metia medo, bem pelo contrário! Enfim, ia poder dedicar a sua vida à mais nobre das causas! Até a alegria - verdadeira! - sentida quando descobrira que as suas mãos eram capazes de criar “imagens” não era nada comparada com aquela esperança.

Quando chegaram à praça de Greve, viram que a nova ponte de Notre-Dame - uma bela obra de carpintaria! - que substituíra um ano antes a velha “Prancha Mibray” estava negra de tanta gente em marcha lenta na direcção das impressionantes torres brancas da catedral.

- Nunca nos deixarão passar - disse Machieu. - Temos de ir a pé como toda a gente... e utilizar os cotovelos. Deixaremos os cavalos no alpendre do Parlatório dos Burgueses...

- Eu também? - protestou Bertrade. - Não me apetece nada ser pisada...

- Nesse caso, ou ficais com os animais, ou Remi vos leva à Grand-Pont, mas tereis de regressar através da Cité até à Petit-Pont... que deve estar também cheia...

- Fico aqui! - grunhiu ela. - Basta esperar que a cerimónia acabe!

Os três homens partiram a pé, e mergulharam na multidão com uma paciência e uma obstinação que deu os seus frutos. Pela rue de la Lanterne, a rue de la Juiverie e a rue Neuve-Notre-Dame, atravessaram a estreita rede de artérias da Cite até verem a catedral erguer-se na sua frente sem poderem aceder ao adro já atulhado, mas onde um largo espaço vazio era delimitado pelos guardas do Prebostado (1). Ali, não tiveram de esperar muito tempo: no meio de um rumor cada vez mais audível à medida que se aproximava, os prisioneiros chegavam e em breve a carroça que os trans-

 

(1) O adro de Notre-Dame era seis vezes mais pequeno do que é hoje. Além disso, a catedral aparecia no alto de onze degraus que as transformações sucessivas da praça fizeram desaparecer pouco a pouco com o nivelamento do solo.

 

portava desembocava na praça rodeada por uma densa fila de arqueiros... E o coração de Olivier apertou-se. Eram quatro, quatro anciãos descarnados e vestidos de farrapos, acorrentados, agarrando-se o melhor que podiam às pranchas do veículo. Mas reconhecíveis. O Grão-Mestre, o preceptor da Normandia, Geoffroy de Charnay, o da Aquitânia, Geoffroy de Gonneville e Hugo de Pairaud, visitador de França... Mas o quinto, Clement de Salernes, preceptor da Provença, não estava. A menos que, incapaz de se manter de pé após as torturas, estivesse estendido na palha que revestia o chão da carroça...

Sentindo um súbito terror, Olivier quis lançar-se na direcção dos prisioneiros para ter a certeza, mas o punho de Machieu reteve-o: o mestre-de-obras vira instantaneamente o que se passava no espírito do seu amigo:

- Não vos mexais! Eu vou lá! A mim, o preboste conhece- me...

Com pouca suavidade dessa vez, ele fendeu a multidão impressionada ao mesmo tempo com o seu arcaboiço e a qualidade do traje. Em cima de um apeadeiro de cavalos do Hotel-Dieu, Olivier viu o seu capuz de veludo negro voar até junto da montada do preboste de Paris, Jean Ployebaut, que observava com um olhar aborrecido a aproximação da carroça até à base da escadaria, mas que teve para ele um sorriso amigável e que se inclinou para lhe falar. Um instante mais tarde, Machieu regressava, muito sombrio. Olivier sentiu secar a sua boca:

- Ele está lá, na palha? - perguntou ele.

- Não. Esta manhã encontraram-no morto na cela. Ontem, Nogaret torturou-o outra vez depois de uma denúncia anónima - a menos que tenham querido omitir o nome - ter dito que ele era o autor do desaparecimento dos principais tesouros do Templo. Ainda estava vivo no momento em que o levaram para a cela, mas quando o foram buscar para o trazer para aqui... Deus teve piedade, penso, porque, segundo Ployebaut, era o único a nunca ter confessado nada. Por esse facto, estava destinado à fogueira, ao passo que para estes é a prisão perpétua...

Olivier fechou os olhos, invadido por uma dor que ele não imaginava que pudesse ser tão grande. Era a mesma que sentira em Valcroze quando o imundo Roncelin se aprestava a deitar o seu pai num grelhador em brasa. Devia ao irmão Clement a sua vocação, os seus mais belos sonhos. Com uma voz sem emoção perguntou:

- Não se sabe quem o denunciou?

- Não...

- Eu sei... Só pode ter sido ele...

- Estais a pensar naquele Roncelin que eu procurei por vós depois das detenções? Já lá vão sete anos, esse homem já deve estar morto!

-Juraria que está vivo... A sua sede de ouro e Satanás, o seu senhor, mantêm-no vivo para semear a infelicidade e o sofrimento! - Acalmai-vos, peço-vos! Assim, chamais a atenção...

De facto, não havia grande coisa a temer daquele lado visto que a multidão só tinha olhos e ouvidos para o que ia começar. Sobre a tribuna em frente das portas acabavam de aparecer os trajes violetas, negros e brancos dos inquisidores Guilherme de Paris e Bernardo Gui, ou vermelho borra-de-vinho de um dos três cardeais da Comissão pontifícia. O de Jean de Marigny, arcebispo de Sens, era particularmente rico: o prelado fazia questão de sobressair. Em frente deles, os templários, que tinham deixado na carroça para que a multidão pudesse vê-los melhor.

Esta estava silenciosa. Apesar de se terem ouvido algumas maldições, alguns gritos “à morte” aqui e ali - sem dúvida homens de Nogaret encarregados de arrastar os outros - calaram-se rapidamente. Ia começar o último acto do grande drama. Pelo menos, todos pensavam que era o último...

Tendo-se sentado os prelados, o cardeal de Sainte-Sabine, Arnaud Nouvel, avançou até à orla da escadaria segurando na mão um espesso rolo de pergaminho que desenrolou. Em seguida, com voz nítida, perante aqueles quatro homens quebrados, embrutecidos, começou a ler a longa lista de confissões, não apenas as dos que estavam presentes, mas também as dos outros, mortos queimados ou desmembrados e estropiados pela tortura:

- ... Cúmplices o irmão Guy Dauphin... o irmão Géraud de Passage... o irmão...

A lista era longa de confissões arrancadas no fundo de caves horríveis com ferro e fogo. Outras também, cedidas espontaneamente por medo ou, por vezes, por qualquer estranha contrição. Os prisioneiros escutavam-nas sem dizer nada, como se não as ouvissem, como se aquela litania aterradora passasse por cima das suas cabeças. Por fim, a sentença:

- “... São condenados à masmorra e ao silêncio para o resto dos seus dias para que possam obter a remissão dos seus pecados através das lágrimas do arrependimento (1).”

Em seguida, enquanto o cardeal se encaminhava para a sua cadeira, fez-se um grande silêncio:

- O quê, é tudo? - sussurrou Machieu. - Não nos dizem em que castelos, em que abadia vão metê-los?

Mas, subitamente, elevou-se uma voz de tal modo forte, de tal modo poderosa que era difícil acreditar que saía do peito encovado do Grão-Mestre. Galvanizado por um sobressalto vindo das profundezas misteriosas que o levavam ao mais aceso das batalhas, Jacques de Molay clamou:

- Eu sou culpado, sim... mas não do que me acusam! Culpado de ter confessado tudo o que exigiram de mim para salvar a vida. Culpado de ter traído o Templo do qual era Grão-Mestre, culpado de ter cedido ao medo, às ameaças e às bajulações do Papa e do Rei, mas o Templo é puro, o Templo é santo e tudo aquilo de que o acusam é falso e falsas são, também, as confissões!

Uma outra voz repetiu as suas palavras, a de Geoffroy de Charnay, quase nos mesmos termos... mas os outros dois dignitários esforçaram-se por fazê-los calar. Aqueles queriam viver, nem que fosse na pior das prisões.

- Meu Deus! - gemeu Machieu - que fizeram eles? Vão ser declarados reincidentes e, como tal, expulsos da Igreja e entregues à justiça do Rei!

De facto, o tribunal, no meio da algazarra suscitada pelo protesto do Grão-Mestre, entregava à pressa os prisioneiros ao preboste e reentrava prontamente em Notre-Dame para deliberar.

 

(1) Não os tendo encontrado em parte nenhuma, socorri-me do Rei de Ferro, de Maurice Druon, para os termos da condenação.

 

A multidão espalhou-se à excepção de alguns homens, entre os quais Olivier reconheceu vários daqueles que iam à noite a Montreuil, ou que pertenciam ao estaleiro da catedral. Era evidente que esperavam ordens.

- Que fazemos? - perguntou um deles. - Regressamos a Montreuil para reflectir?

- Certamente que não. É a Filipe que cabe decidir, agora, e ele vai decidir rapidamente. Não podemos sair de Paris. Passai palavra: encontramo-nos na casa da rue du Plâtre para aqueles que não têm arma e para os outros nas cabanas do porto Saint-Landry... o preboste correu a direito para o palácio. Eu vou lá para esperar por ele e tentar saber qualquer coisa. Tu, Remi, vai procurar a tua tia e leva-a à residência de Nesle... e não te esqueças de trazer a chave.

- E eu? - perguntou Olivier.

- Segui-me, por favor!

A distância que ia do adro às portas do Palácio não era grande, já não pelo Sena, como no tempo de São Luís, mas por uma vasta entrada pelo grande pátio de Mai, mesmo em frente da rue de la Dreperie e da junção das ruas de la Barillerie e de la Courle-Roi (1). Plyebaut, de facto, precipitara-se aos pés do Rei. A espera de Machieu e de Olivier durou apenas alguns momentos, mas quando o preboste reapareceu vinha numa tal agitação que o construtor teve de o deter quase à força para lhe poder falar antes que ele subisse para o cavalo.

- Então? - perguntou ele. - Que decidiram?

Se estivesse no seu estado normal, Ployebaut teria mandado passear o insolente que ousava interrogá-lo - e em que tom! - a ele, o preboste de Paris, mas Machieu não era qualquer um e conheciam-se ambos há muito tempo... Ployebaut, naquele momento, não estava em si: o seu olhar estava esgazeado.

- O fogo! - lançou ele. - Esta noite mesmo, os dois templários serão queimados e eu tenho de mandar acender a fogueira

 

(1) No local da entrada actual do palácio da justiça, remodelado e aumentado por Filipe, o Belo.

 

na ilha dos Judeus para que o nosso sire Filipe possa assistir à execução do palácio... Pergunto a mim próprio como é que o povo vai receber a notícia... se não vai haver agitação. Vieram dizer ao Rei que a retratação do Grão-Mestre deixou uma grande impressão... E agora deixai-me passar! Tenho muito que fazer!

Ajudado por Machieu, o preboste subiu para o cavalo e não ouviu o “Eu também” murmurado pelo mestre-de-obras, Mas Olivier, esse, ouviu:

- Em que estais a pensar, mestre Machieu? Compreendestes? “Ele” vai matá-los esta noite mesmo e eu não vou poder impedi-lo...

- Mas nós talvez, os homens da pedra e da madeira, que somos mais numerosos do que vós pensais... e se Deus, como eu espero, se dignar ajudar-nos! Vinde! Não há um minuto a perder.

Olivier seguiu-o sem dizer mais nada, com o que lhe pareceu ser uma certa alegria no coração: em frente dos seus olhos, o tranquilo Machieu, o homem nas mãos do qual toda a pedra se transformava numa oração, erguendo-se para o céu para tomar o seu lugar entre as suas irmãs, estava em vias de se transformar num chefe de guerra. Não havia que enganar ao ouvir a sua voz breve e o seu olhar cintilante: o construtor preparava-se para atacar as tropas reais, entrar em rebelião aberta contra o temível Filipe para lhe arrancar aquele a quem chamava “mestre Jacques” com tanta veneração, pronto, talvez, a sacrificar tudo... o que era extremamente excitante após um período tão longo de inactividade!

Depois de terem recuperado o único cavalo deixado por Remi, para a garupa do qual subiram ambos, os dois homens regressaram a Montreuil, mas para lá ficar. Por intermédio de algumas frases rápidas, Machieu deu o que não era outra coisa senão as suas ordens: assim que Remi regressasse, as mulheres tomariam lugar na carroça com o que tinham de mais precioso mas sem bagagem excessiva que pudesse chamar a atenção. O rapaz conduzi-las-ia a Saint-Maurice, onde o veículo seria deixado com os monges, como era hábito quando, nos dias bonitos, se ia passear de barco. Aquele que lhes emprestavam com frequência fá-las-ia descer o Sena até Passiacum onde Remi as instalaria em casa de Bertrade...

 

(1) Passy.

 

Compreendendo que a hora era grave e que qualquer discussão seria tempo perdido, ninguém levantou objecções, senão Juliana que ousou perguntar:

- A nossa querida casa vai ficar abandonada?

- Porquê abandonada? Vós ides visitar, perto de... Meaux, um parente que está em apuros. Espero trazer-vos de novo para aqui quando já não houver perigo. E vós, minha mãe, nada de ficar para trás, porque eu sei em que estais a pensar! Quero ver-vos em casa de Bertrade.

Machieu abraçou-as e depois, sempre com Olivier a seu lado e reduzido ao papel de testemunha muda, voltou a partir. Dessa vez a pé, foram até à casa da rue au Plâtre onde escondera os dois templários depois do tumulto no Templo.

Ainda havia muita gente nas ruas. As pessoas paravam, conversavam, comentavam o acontecimento inaudito que acabava de se produzir e muito certamente, à parte os doentes, ninguém iria para a cama antes do terrível fim da tragédia. Naquela noite haveria uma multidão enorme nas margens do Sena. Entretanto, os poucos homens que foram bater à porta não atraíram a atenção de ninguém. Olivier conhecia alguns: Cauvin le Montois, François le Dauphiné, Lucien d'Arras, Joseph d'Argenteuil e Ronan le Breton, todos pertencentes aos companheiros “estrangeiros” que punham o seu saber ao serviço desta ou daquela igreja ou catedral em construção ou em remodelação. Todos trabalhando há muito com Machieu e tendo quase todos recebido a sua formação do Templo.

Machieu distribuiu-lhes armas fáceis de esconder por baixo das túnicas curtas, como adagas ou fundas, ou das mais longas, como espadas. Olivier, esse, fora buscar à sua cela aquilo de que se servia para ensinar Remi... O templário aceitou, entretanto, uma adaga suplementar. Em seguida, abandonaram a casa cuja chave, em caso de necessidade, todos sabiam onde encontrar e desapareceram no meio da animação das ruas para se encontrarem no porto de Saint-Landry, no flanco norte da ilha de la Cite.

Usando o nome de uma igreja romana vizinha, o porto existia desde sempre. Fora, durante muito tempo, o único desde a época em que Paris se chamava Lutécia e durante a qual a cidade se resumia à Cite. Rapidamente atravancado de tráfego, fora substituído pelo da Greve, criado pelo Rei Luís VII, pai de Filipe Augusto. No entanto, continuava a servir as necessidades da Cite e, singularmente, para as descargas dos materiais trazidos pelo Sena durante a construção de Notre-Dame - ainda por terminar naqueles dias - que começara um século e meio antes, quando o mesmo Luís VII lançou a primeira pedra da obra-prima sonhada pelo arcebispo Maurice de Sully. Servia, também, para o reabastecimento dos cónegos da catedral e de uma parte da Cite.

Ao chegar à Greve, o pequeno grupo viu que já lá estava gente, mas a margem estava severamente guardada por soldados: no fim do dia, os condenados seriam ali embarcados para serem conduzidos ao local do suplício: uma das duas ilhotas que confinavam com os jardins do Rei (1). Sem prestarem grande atenção, meteram pela ponte e já tinham começado a atravessá-la quando Cauvin le Montois, chefe de estaleiro de Machieu, deitando uma olhadela ao porto, uma parte do qual estava escondida pelo priorado de Saint-Denis-de-la-Châtre e pelo Haut Moulin, plantado no rio, apercebeu-se de que se passava qualquer coisa: alguns homens estavam a vestir blusas de tela branca iguais às dos pedreiros para proteger a própria roupa dos salpicos do gesso ou da argamassa:

- Quem são aqueles? - perguntou ele ao mestre. - Não os conheço e, além disso, as ordens são para passarmos despercebidos o mais possível!

- Vamos ver!

Partiram a correr e, transposta a ponte, desembocaram no porto pela encosta ao longo da qual se içavam as mercadorias pesadas. Ali, viram-se frente a frente com uma dúzia de homens abundantemente cabeludos e barbudos que se tinham aproximado de uma barca vazia na intenção evidente de a ocuparem.

- Quem sois vós? Que procurais aqui? - gritou Machieu. Essa barca é minha...

Um dos maiores, que parecia o chefe, aproximou-se dele, enquanto os outros se mantinham na sua retaguarda:

 

(1) Ambas formam actualmente a praça do Vert-Galant cuja estátua de Henrique IV domina a Pont-Neuf.

 

- Desculpai, burguês, mas precisamos dela e temos pressa. Faríeis bem se não vos intrometêsseis!

Tanto o tom, como a atitude, eram hostis mas pacientes. No entanto, nem Machieu nem os seus homens estavam dispostos a deixar-se impressionar.

- Dizemos o mesmo! E, primeiro, dizei os vossos nomes se não sois uns malandrins quaisquer. O meu nome é Machieu de Montreuil, mestre construtor de Notre-Dame.

- O meu é Jean d'Aumont e saúdo-vos, sabendo-vos homem de bem e é por isso que vos conjuro a não vos opordes a...

- Ele não se oporá - disse um dos falsos pedreiros que, entretanto, se aproximara. - E talvez, até, esteja disposto a ajudar-nos? Nós estamos aqui para...

Olivier, precipitando-se para ele e segurando-o pelos ombros, cortou-lhe a palavra. Tinham-lhe bastado algumas palavras para reconhecer aquela voz.

- Hervé, meu irmão! - exclamou ele. - Que milagre ver-te! Por onde andaste?

Enquanto Machieu segurava os seus homens prontos a lançarem-se sobre os intrusos, os dois amigos abraçaram-se, esquecendo por instantes as circunstâncias que os levavam a encontrar-se, mas esta apanhou-os rapidamente e depois de algumas explicações deixaram para mais tarde uma história que só aos dois interessava.

Os falsos pedreiros perseguiam o mesmo objectivo de Machieu e dos seus homens: arrancar os condenados aos seus guardiães e, a coberto da escuridão que se aproximava, fazê-los descer o Sena, cuja corrente naquela noite era forte, até às encostas arborizadas de Saint-Cloud. Ali, havia um pequeno priorado para onde se retirara Jean d'Aumont, inteiramente adquirido ao Templo e que ofereceria, pelo menos, um refúgio durante alguns dias, permitindo decidir o que fazer a seguir. Tal como Machieu, Aumont fora apanhado de surpresa pela súbita necessidade de verdade por parte do Grão-Mestre e as dramáticas consequências que desse gesto advieram. Tendo ido a Paris com os seus companheiros para assistir ao julgamento e saber os locais de encarceramento, via-se confrontado com uma situação que era preciso resolver urgentemente tomando riscos enormes porque, tal como o mestre-de-obras, não tinha ilusões sobre a dificuldade que teria para arrancar as duas vítimas aos seus carrascos em pleno leito do rio.

- Nós somos pouco numerosos e estamos mal armados face a arqueiros e outros homens de armas do Rei, mas veio-nos à ideia que, se não pudermos libertar o Grão-Mestre e o preceptor da Normandia, podemos matá-los com as nossas mãos, oferecendo-lhes assim uma morte menos cruel e mais rápida do que a que os espera. Deixar apenas dois cadáveres nas mãos de Filipe já seria uma vitória! Pela qual estamos dispostos a morrer...

- Também nós. De onde vindes vós? - perguntou Machieu com um último resto de desconfiança.

Vinham da região de Soissons, onde as comendadorias eram tão numerosas que, nas malhas do golpe de sexta-feira 13, vários tinham conseguido desaparecer, particularmente os das que estavam inseridas numa granja ou num recinto florestal. O próprio Aumont pertencia à casa mãe da região, o poderoso bailio do Mont-de-Soissons, mas fora enviado na véspera para a comendadoria de Rozières e, graças à densidade florestal da vizinhança, conseguira escapar e encontrar refúgio na grande abadia de Long-pont onde os Cistercienses lhe tinham oferecido asilo. O cavaleiro podia lá ter ficado mas sentia um profundo sentimento de injustiça e apesar de já não ser novo, queria preparar-se e preparar outros para o combate contra o Rei. Corria o tempo em que o sobrinho do Grão-Mestre, Jean de Longwy, formava com os Borgonheses uma liga protegida mais ou menos pelo duque e que daria alguns problemas ao poder antes de desaparecer na clandestinidade. Abandonando Longpont, Aumont estabeleceu-se - com a ajuda dos monges - na imensa floresta de Villers-Cotterêts, onde se lhe juntaram outros fugitivos transformados em breve numa comunidade de lenhadores na expectativa, esperando que o Papa acabasse por lhes fazer justiça e lhes permitisse reaparecer, menos ricos e menos poderosos, talvez, mas com honra e pela glória de Deus... Hervé d'Aulnay fora um deles.

Como o explicou mais tarde a Olivier, o seu regresso a Moussy não fora marcado pelo entusiasmo. O seu irmão Gautier negociava um casamento entre o seu filho mais velho, Gautier, o Jovem e Inês de Montmorency. Além disso, os seus dois rapazes pertenciam à corte. Assim, a chegada do templário fugitivo - apesar de ser seu irmão - punha-lhe alguns problemas. Esconderam cuidadosamente Hervé numa parte retirada do castelo, não numa masmorra, se bem que não lhes faltasse vontade, e se lhe forneceram o suficiente para sobreviver não foi no meio do luxo nem no conforto. De tal maneira que o infeliz decidiu afastar-se. A cólera era permanente e o cavaleiro rendeu homenagem à clarividência de Machieu de Montreuil: Olivier teria sido atirado para as trevas exteriores em três tempos. Mas ir para onde? Tanto mais que o seu querido irmão não queria deixá-lo partir ao acaso, arriscando-se a ser reconhecido pelo que era e detido, o que significaria um desastre para a sua casa.

Cansado daquelas hesitações, Hervé acabou por fugir vestido de camponês e com alguns víveres fornecidos pela sua irmã-de-leite que casara com Hamelin, um camponês da aldeia, um bom homem e a generosidade em pessoa. Hervé tinha na ideia tentar chegar à Flandres, sempre mais ou menos num estado de “delicadeza” com o Rei de França, mas Hamelin disse-lhe que se falava lá de templários torturados e queimados e que talvez encontrasse asilo na floresta de Villers-Cotterêts, onde havia uns lenhadores... indulgentes. Foi assim que o cavaleiro d'Aulnay se juntou ao cavaleiro d'Aumont. Hervé pensava muito em Olivier, mas teria sido imprudente, visto que tinha um abrigo seguro, regressar a Paris.

O reencontro dos dois amigos foi a ligação entre aqueles dois grupos prestes a enfrentarem-se. Como perseguiam o mesmo objectivo, confraternizaram, mas sem perderem um tempo precioso. Aproximava-se a hora em que embarcariam os condenados e o conselho de guerra foi breve. Em vez da barca pesada e difícil de manobrar, escolheram três barcos suficientemente grandes mas mais ligeiros e repartiram por eles as forças: um levava Machieu e Cauvin com metade dos homens, o segundo Jean d'Au-mont e os seus e o terceiro o resto comandado por Olivier e Hervé. Este foi o primeiro a partir, atravessou o Sena e foi esperar perto do Port au Foin onde um cordão de soldados se esforçava por conter a multidão quase a invadir a praia e o caminho de sirgagem. Devido à corrente, foi preciso lançar borda fora a grande pedra de ancoragem. O segundo fixou-se a um dos pilares da Grand-Pont para seguir de perto o barco das vítimas. Por fim, Machieu aportou ao Moulin de la Monnaie (1), o mais perto possível da ilhota onde os ajudas do carrasco se afadigavam a perfazer a alta e grande fogueira de onde surgiam dois postes. Os movimentos não atraíram as atenções porque se dirigiam para a extrema do Jardim do Rei, onde se encontrava uma torre provida de uma varanda, várias embarcações: seria ali que Filipe, o Beto, juntamente com os homens da sua família e os seus conselheiros, assistiria ao espectáculo.

A noite caía rapidamente. Estava frio no rio e nos barcos todos se recolhiam, encomendando as suas almas a Deus sem se iludirem por um instante quanto às dificuldades do golpe de mão previsto. O Sol pusera-se no meio de uma explosão sangrenta e a ilhota vizinha transbordava de curiosos que tinham chegado ao cúmulo e encostar escadas à residência de Nesle que se perdia, pouco a pouco, na obscuridade. Fortemente guardada, apenas a fogueira estava iluminada por centenas de archotes. A atmosfera era pesada. Ninguém falava, sussurrava-se, escutando o rumor que se ia aproximando. Na Greve, os condenados, acompanhados pelo preboste, entravam para uma barca eriçada de chuços e bisarmas. Uma dúzia de archotes iluminava tragicamente as duas altas silhuetas a quem tinham vestido os mantos brancos com a cruz vermelha para dar ainda mais solenidade à sua morte. Os dois homens mantinham-se de pé, muito direitos, procurando em si próprios a força necessária para calar as dores que os tinham dobrado e os seus rostos, devastados pela idade e pela longa detenção, estavam serenos. A despeito dos agitadores semeados um pouco por toda a parte para excitar a multidão, esta estava calada. Os que manobravam a barca lançaram-na na corrente.

Quando passou por Jean d'Aumont, este colocou o seu barco na sua esteira, remando com força para se manter perto no momento em que Olivier chegava vindo do flanco direito e Machieu e os seus do esquerdo. Ao mesmo tempo, a barca era assaltada por três lados. A golpes de machado, de martelo e adaga, "Plantado no Sena por altura da extrema do Jardim do Rei.

Os últimos defensores defendiam-se. Foi uma luta furiosa em redor dos dois anciãos vestidos de branco, um tumulto violento, mas já das torres do Palácio os arqueiros disparavam, ao mesmo tempo que, a princípio surpreendidos em redor do preboste desvairado, os guardas defendiam-se vigorosamente. Por um instante, Machieu pensou que estava quase a vencer e tomou Molay nos braços:

- Vinde, mestre Jacques! Os vossos construtores precisam de vós!

Mas este repeliu-o:

- Não! Foge, infeliz, antes que seja demasiado tarde! Eu é que escolhi o meu destino, não só para expiar mas para que seja grande a última imagem do Templo!

Com um empurrão, atirou com o construtor para a água onde já flutuavam alguns cadáveres, no momento em que a espada do preboste o atingia no ombro. Com um grito, Machieu desapareceu na água. Ao ver aquilo, Olivier mergulhou, conseguiu agarrá-lo e içou-o para a barca, para onde subiu logo a seguir ajudado por Cauvin.

- Isto está a transformar-se num desastre! - disse este, sem fôlego. - É preciso fugir...

- E abandonar os outros? Nunca!

O número dos outros reduzia-se de maneira trágica. O cavaleiro d'Aumont fora um dos primeiros a morrer e sobre a barca, prestes a acostar, os homens do preboste desembaraçavam-se do resto dos assaltantes no meio de uma algazarra indescritível, substituída pelos uivos da multidão que, na margem direita e galvanizada pela heróica tentativa, empurrava o cordão de soldados, atirava-os à água e apoderava-se dos seus chuços para não os deixar sair. De pé na barca, Olivier ainda se batia e, armado com um remo, Cauvin le Montois afastava o esquife do barco vizinho. O gesto foi tão violento que Olivier caiu sobre o corpo de Machieu, ao mesmo tempo que Cauvin começava a remar com a energia do desespero para escapar às flechas que vinham de todos os sentidos... De novo em pé, Olivier chamou:

- Hervé! Onde estás? Estás a ouvir-me?

- Estou! Atrás de ti!

Virando-se, o cavaleiro avistou, entre ele e a margem direita, uma pequena embarcação com dois jovens lá dentro, dos quais um estava inclinado na amurada, tentando içar para bordo um Hervé demasiado pesado para ele.

- Deixai-o! - gritou Olivier. - Eu puxo-o!

Já Cauvin se aproximava da barca. Um instante mais tarde, Hervé era içado, ensopado mas aparentemente intacto e Olivier empunhava os remos para lançar a embarcação na corrente e aumentar a velocidade. Passaram como uma flecha em frente da fortaleza do Louvre de onde, dos caminhos de ronda, os arqueiros atiravam sobre eles sem se preocuparem com as embarcações onde estavam alguns curiosos.

O ponto perigoso foi ultrapassado ao mesmo tempo que as muralhas de Paris. Olivier, protegido pela escuridão, parou de remar para lançar uma última olhadela ao drama que atingia o seu fim. Contra o fundo negro das torres do Palácio, no qual, sobre a varanda, se adivinhava a alta silhueta azul do Rei, a ilhota, cuja água que a banhava reflectia as luzes, parecia uma daquelas cenas brilhantes nas quais se interpretavam os mistérios, mas aquele era um mistério de horror. Os templários, despojados dos seus mantos brancos e apenas vestidos com farrapos, tinham sido içados para a enorme fogueira, que os colocava quase à mesma altura daquele que os observava. Tinham-nos atado aos postes - mais tarde, soube-se que o Grão-Mestre pedira que lhe permitissem unir as mãos e olhar para Notre-Dame - e os carrascos giravam, com os seus archotes, em redor da pilha de troncos, acendendo a palha que tinha sido colocada nos interstícios. Activada pelo vento agreste que soprava de leste, uma espessa fumarada subiu, juntamente com as primeiras labaredas. Foi possível vê-las ao assalto daquelas frágeis silhuetas humanas e ouvir gritar o Grão-Mestre. Mas não era de dor. Tal como em frente da catedral, naquela manhã, a sua voz encontrava, naquele supremo instante, a força sobre-humana que parecia vinda do outro mundo e após um último protesto de inocência proferiu uma maldição. Maldição dirigida ao Papa Clemente, ao Rei Filipe e ao seu executor, intimando-os a comparecer, no espaço de um ano, no tribunal de Deus!

Então, foi possível ver os carrascos activar o fogo, mas Jacques de Molay não tinha mais nada para dizer. Sufocado pelas negras nuvens de fumo, a sua voz apagou-se. Quando o vento as afastou, as chamas envolviam os dois mártires...

Fascinado, tal como os seus companheiros, com aquela imagem terrível, Olivier não se dera conta de que Machieu, tendo recuperado a consciência, estava de pé e também observava.

- É o fim do Templo - disse ele em voz rouca, pesada de cólera e dor - e também o das catedrais... Nunca mais trabalharei para elas, visto que Deus abandonou o Templo!

Olivier não contestou aquelas últimas palavras. Podia ter dito que alguns “irmãos” já tinham abandonado Deus há muito tempo por outras crenças estranhas e por apetites ainda mais estranhos. Podia ter evocado a outra maldição proferida naquela outra fogueira acesa nas encostas dos Cornos de Hattin onde ardera a Verdadeira Cruz, mas, com o seu heroísmo, Jacques de Molay devolvera ao Templo a sua pureza inicial e cobrira com o seu manto as obscuridades, as sombras, as insuficiências e os crimes. Aquele delicado pallium manter-se-ia, puro como a neve da Primavera...

Vencido pelo sofrimento do seu ferimento acrescido pelo esforço que fizera para se levantar, Machieu deixou-se cair de novo no fundo do barco. Fascinados, também eles, com a fogueira, cujo odor chegava até eles levado pelo vento, Cauvin e Hervé não lhe tinham prestado atenção. Olivier, pegando de novo nos remos, lembrou-o a este último, pedindo-lhe que tratasse dele:

- Pelo que posso ver - respondeu ele - tem um golpe profundo no ombro esquerdo e sangra muito... e não temos nada para parar o sangue...

Olivier parou de remar, tirou a cota, a camisa e estendeu esta ao amigo.

- Toma, arranja-te com isto!

Hervé fez um tampão, que apoiou com força na chaga.

- Sabes para onde vamos?

- Só sei que temos de avistar uma lanterna na margem direito do rio. Um lugarejo chamado Passiacum, mas não sei onde é...

- A uma légua daqui, mais ou menos - grunhiu Machieu. - Remai, rapazes, remai! Quanto mais depressa lá chegarmos, melhor... mas rezai para que Remi já lá tenha chegado com as mulheres, senão, nesta escuridão, arriscamo-nos a perder-nos...

- Nós, era em Saint... Cloud, creio, que o irmão Jean d'Au-mont queria esconder o Grão-Mestre...

- Isso ainda fica mais longe e fica no meio da floresta... Passicaum é mais perto... E agora lembrei-me: por cima da aldeia há uma casa com uma grande torre que se deve ver contra o céu...

De repente, Machieu desatou a rir:

- Essa casa pertence... ao nosso bom sire Filipe, que gosta de ir para lá meditar quando não se quer afastar muito de Paris... E nós vamos refugiar-nos lá! É engraçado, não é? Confessai que é engraçado!

- Estais a ficar com febre, mestre Machieu - disse entredentes Cauvin, que desde a partida se contentara em fazer avançar a embarcação sem dizer palavra. - Falais demasiado e muito alto. Ouve-se através da água... e nós estamos em fuga.

- Eu encarrego-me dele! - disse Hervé em voz baixa, acocorando-se junto do ferido para o segurar, ao mesmo tempo que fazia pressão no tampão e, lhe fechava a boca. O contramestre tinha razão: a febre estava a chegar e, com ela, uma certa agitação que podia ser perigosa e Aulnay precisou de todas as suas forças para conseguir um pouco de calma da parte de um homem mais idoso do que ele, sem dúvida, mas ainda cheio de força. Por um momento, até pensou em lhe dar um murro para o manter tranquilo.

Os minutos que se seguiram foram extremamente longos. Vigorosamente accionado pelos dois pares de braços, o barco deslizava rapidamente para jusante, mas estava tão escuro que aquela fuga às cegas tinha qualquer coisa de angustiante visto que não tinham qualquer ponto de referência. Até podiam, muito bem, ultrapassar o lugarejo sem se darem conta. No entanto, podiam ver que uma colina se perfilava na margem direita, ao passo que a esquerda se mantinha lisa. E, subitamente, a silhueta de uma torre, ainda mais negra do que a noite, destacou-se e, quase de imediato, Olivier sussurrou:

- Olhai! Na margem... Uma lanterna!

O alívio fez esvaziar os peitos oprimidos. Remi cumprira a sua missão. O refúgio estava ao seu alcance e manobraram para o atingir. Mas o barulho dos remos devia ter atraído a atenção de alguém, porque a lanterna começou a agitar-se. Quando se aproximaram, acabaram por distinguir um pequeno cabeço, sobre o qual estava um homem de pé. Olivier, enquanto o barco ainda estava a alguns metros de distância e podia ainda ser manobrado, perguntou:

- Remi?

- Sim, sou eu... vou guiar-vos.

A dúvida dissipara-se e o barco aproximou-se suavemente da margem, onde encalhou na areia quase aos pés do jovem que erguia a lanterna para ver melhor.

- Os templários? Onde estão? - sussurrou ele, desiludido.

- Mortos, e o teu pai está ferido!

- É grave?

- A espada do preboste atingiu-o no ombro. O osso deve estar quebrado. Sofre e está cheio de febre... Mas, se não te importas, falaremos disso mais tarde - grunhiu Olivier.

Com precaução, tiraram Machieu da barca e depositaram-no na areia. O construtor devia ter perdido a consciência, porque não protestou.

- Vamos levá-lo - continuou Olivier. - A casa fica longe?

- Não. É perto. Mesmo por cima do grande caminho da Normandia, que segue o Sena vindo do Louvre.

Enquanto isso, Cauvin prendera a barca depois de a terem empurrado para uns caniços à sombra de uns amieiros.

- Pergunto a mim mesmo se ficará ali bem escondido? - reflectiu ele.

- Há mais a algumas toesas daqui - respondeu Remi. - Trataremos disso quando nascer o dia. O melhor, se calhar, é afundá-lo. E agora vamos!

Hervé e Olivier encarregaram-se de Machieu. Remi seguiu à frente com a lanterna e Cauvin fechou a marcha. Subiram o talude e depois, transposta a estrada, seguiram por uma vereda enlameada que levou o pequeno grupo até uma cerca espinhosa onde havia uma cancela de madeira, que abriram para entrar no pomar onde estava a casa de Bertrade. De dois andares sob um grande telhado e com uma porta baixa no alto de três degraus, não era muito grande, mas por trás havia duas ou três dependências. As janelas estavam fechadas e não se via nenhuma luz, mas, ao som dos seus passos, a porta abriu-se deixando sair a luz de uma candeia recortando a silhueta negra de uma mulher. Era Juliana.

- Aqui estão eles, finalmente, minha mãe - disse Remi - mas o golpe falhou e o pai está ferido... No ombro - acrescentou ele perante a angústia que viu nos olhos da mãe. -A dor fê-lo perder a consciência. Esperemos que não seja demasiado grave...

A seguir a ela apareceram Matilde, apoiada na bengala e a coifa de Margot, de olhos esgazeados, as mãos unidas e quase a chorar. Matilde repreendeu-a com dureza e mandou-a buscar com que limpar e pensar o ferimento.

- Estendei-o em cima do banco - disse Juliana depois de se ter debruçado por um momento sobre o rosto cor de cera do marido, designando a comprida cadeira junto da chaminé onde ardia um bom fogo.

- É melhor em cima da mesa, se tiverdes a gentileza de tirar tudo o que tivestes a boa vontade de preparar. Nenhum de nós tem fome depois do que acabamos de passar...

De facto, as mulheres tinham posto pão, queijo, presunto e uns picheis de vinho em cima da mesa. Apesar de só ali ir raramente desde que estava ao serviço da Rainha Margarida, Bertrade, como boa dona de casa, fazia questão de que a sua “casa de campo” estivesse sempre pronta a receber alguém. Esta era mantida - e guardada por um velho casal a quem o falecido Imbert permitira que adquirisse o pequeno pedaço de terra quando o Rei abolira a servidão. O casal morava numa choupana no lado de lá do pomar com galinhas, coelhos e um porco e, para além de outras coisas, tratava das colmeias que o honesto retroseiro ali instalara. E como tinham direito a metade da colheita de frutos e mel, abençoavam todos os dias o Céu por ter levado para o seu seio Imbert, cuja morte tinham chorado como se fosse seu próprio irmão. Os dois anciãos conheciam bem a família de Bertrade e a chegada de Remi e das três mulheres não os surpreendera, mas tinham-se retirado discretamente ao perceberem que se passava algo de anormal. Chamavam-se Aubin e Blandine e eram muito unidos, desde há muito, sem dúvida, de tal modo que tinham acabado por se assemelhar.

Um momento mais tarde, Machieu, despido e tratado depois de Olivier lhe ter lavado o ferimento com vinho e azeite, era levado para o andar superior onde havia dois quartos, deitado numa cama e velado pelo filho e pela mulher. Apenas ele e Remi ficariam naquela casa. Olivier e Hervé foram dormir numas enxergas ao fundo do pomar, um sítio muito frio mas onde cheirava bem a maçãs e a pêras, conservadas ali desde a última colheita. Assim, continuavam a respeitar a lei do Templo, que lhes proibia que dormissem sob o mesmo tecto das mulheres. Cauvin, aliás, seguiu-os e antes de adormecer rezou com eles pelas almas dos mártires e também pelas dos seus companheiros, cujas vidas tinham sido sacrificadas em vão...

- Amanhã - disse Olivier antes de fechar os olhos - regresso a Paris. É preciso saber o que se passa...

- Muito bem, iremos juntos - respondeu Hervé, dando uns murros na enxerga para a tornar mais cómoda. - Pelo menos, este drama fez com que nos juntássemos de novo...

 

                           A VOZ DE NOTRE-DAME

Quando regressaram a Paris, no dia seguinte, seguindo a margem do rio, Olivier e Hervé viram que ainda havia gente por baixo das muralhas do Louvre e no Port au Foin, observando os ajudas do carrasco a varrer os restos da enorme fogueira que ardera durante toda a noite. As cinzas eram atiradas às pazadas para o Sena e as pessoas permaneciam ali, imóveis e mudas.

Reparando nos soldados que vigiavam a operação, Hervé pensou em voz alta:

- Para que são os homens de armas? Não há nada para guardar.

- Excepto as cinzas! - respondeu uma mulher com uma coifa escura que lhe envolvia o dorso. - De madrugada, quando as brasas se apagaram, apareceram aqui pessoas a chorar e com muito respeito em busca de alguns punhados dos restos do Grão-Mestre e do seu companheiro, para fazerem relíquias.

Virando-se, enfim, ela olhou para o grande diabo barbudo que falara:

- Não sois daqui para perguntardes isso, pois não? Não sabeis, portanto, que a noite passada queimaram...

- Sim, sim! Ouvimos dizer em caminho. O meu primo e eu vimos de além - acrescentou ele com um gesto vago em direcção a oeste - em busca de trabalho. Parámos nas fábricas de telha, mas estão fechadas...

- Qual é o vosso ofício?

- A madeira, mas também a pedra. Fazemos muita coisa. Infelizmente, a capela onde trabalhávamos ardeu...

Um carregador segredou pelo canto da boca:

- Faríeis melhor em regressar para o sítio de onde vindes se não quereis ir parar à palha de um calabouço... Ontem, os pedreiros de Notre-Dame e do Templo tentaram raptar os condenados. Vários morreram e esta manhã messire Nogaret anda à caça dos que escaparam... É melhor fugirdes!

Como se seguissem o seu conselho, os dois homens afastaram-se, mas em vez de voltarem para trás, prosseguiram na direcção da Greve. O que acabavam de ouvir era ainda mais inquietante, apesar de, no fundo, esperarem aquela reacção brutal dos homens do Rei. Por isso, agora, queriam medir exactamente o perigo e ver por si mesmos o que se passava. E viram...

Quando chegaram ao Chatelêt, uns soldados escoltavam vários prisioneiros, entre os quais havia um talhador de pedra de nome Gobert, que Olivier vira várias vezes no estaleiro de Notre-Dame e nas reuniões nocturnas em casa de Machieu. Com as mãos atadas atrás das costas e com uma corda ao pescoço, pela qual o puxavam, o homem fazia esforços furiosos para se libertar enquanto gritava a plenos pulmões:

- Vede bem a justiça do Rei Filipe, boa gente! Depois de ter exterminado os templários, também quer abater aqueles que constróem as vossas igrejas!

Um puxão cruel da corda - cujo nó não era corrediço - atirou-o por terra, que ficou manchada com o sangue que lhe corria do nariz. Dois outros companheiros seguiam-no, atados da mesma maneira, mas esses iam calados. Seguiam de cabeça baixa, visivelmente acabrunhados com o que lhes estava a acontecer. Os soldados apressaram-se, aliás, a meter os prisioneiros no interior da prisão: alguns murmúrios, aqui e ali, começaram a ouvir-se entre aqueles que observavam a cena. Alguém gritou:

- É natural defender quem lhes paga, não? Os estaleiros estão vazios esta manhã e os construtores que não foram presos estão em fuga...

- Há muito que já não é o Templo que paga - respondeu uma voz anónima. - Em Notre-Dame é o bispo e os cónegos!

- Mas o saber vem do Templo...

O diálogo parou mal começara. Temendo um motim, o preboste acabava de dar ordem aos arqueiros para que dispersassem a multidão. Uma dezena deles saiu do Chatelêt com as mãos nas cordas dos arcos, prontos a disparar. Todos regressaram à sua vida. No local ficou apenas um mendigo cego que passava habitualmente o dia no degrau de um calvário erigido à entrada do Apport-Paris (1) rezando pelos prisioneiros com uma voz nasalada. A sua falta de visão não devia ser total - admitindo que tivesse alguma - porque estendeu a escudela para Olivier quando os dois amigos passaram perto dele, reclamando a caridade em nome de todos os santos do Paraíso.

- Não tenho vintém, pobre homem! - suspirou Hervé. Olivier, cujos trabalhos como escultor lhe tinham valido algum dinheiro - se bem que Machieu tivesse a maior das dificuldades em fazê-lo aceitá-lo, evocando os dias maus que ele tinha pela frente já que o Templo proibia qualquer possessão aos seus cavaleiros! - tirou uma moeda da sua escarcela e colocou-a na mão do mendigo, que reteve a sua e a apalpou com um meio sorriso:

- Tu és um homem da pedra e o teu companheiro também deve ser. Faríeis bem se não ficásseis por aqui. Há uma hora atrás, o Rei mandou um arauto pelos bairros a dizer que andavam à procura, vivo ou morto, do mestre-de-obras Machieu de Montreuil, que foi reconhecido durante a tentativa para libertar os templários.

- E em que é que isso nos diz respeito? - perguntou Hervé. - Nós somos dois...

- Não te canses! Sabes perfeitamente que tenho razão. Eu vou pedir muitas vezes para os lados de Notre-Dame. Os trabalhadores conhecem-me e eu também os conheço! Sobretudo Machieu! Tem um grande coração e é um grande companheiro... Se o encontrardes... dizei-lhe que vá para longe, para o mais longe possível...

 

(1) Pequeno mercado ao ar livre à entrada da rue Saint-Denis numa praceta.

 

E sem querer dizer mais, o estranho cego regressou para junto da cruz salmodiando a sua litania...

- Que fazemos? - perguntou Hervé.

- Vamo-nos embora. É inútil ficar aqui mais tempo. E partiram como tinham chegado...

Do outro lado do Sena, mais alguém estava preocupado com a sorte de Machieu e dos seus. Apesar de Bertrade se ter recusado a olhar para o suplício que lhe fazia horror do alto da residência de Nesle e se tenha fechado no seu alojamento com uma Aude aterrorizada com o pensamento de que iam queimar os templários, sabia o que se passara no Sena. O seu amigo, o gordo Denis, que não perdera pitada, tinha-a informado logo ao nascer do dia.

Mas a inquietação transformou-se em terror quando um arauto se aproximou da vizinhança da residência e ela ficou a saber que o seu cunhado era procurado vivo ou morto. Terror que ela sentiu não por si mesma, porque não era senão irmã da sua mulher, mas por Aude. Não estava nos hábitos do Rei atirar-se às mulheres e filhos de um acusado - à excepção dos rapazes quando eles tinham idade para ser cúmplices! - mas a posição da pequena, junto da futura Rainha de França ficaria seriamente comprometida. A jovem podia ser atirada para o meio da rua sem saber para onde ir - e nessas circunstâncias Bertrade iria com ela - ou talvez pior ainda se o abominável Nogaret se lembrasse de utilizar a pequena para fazer sair o pai da sua toca, se toca havia porque Ployebaut, no seu relatório, não se esquecera de mencionar o ferimento que infligira ao mestre-de-obras. E como essa hipótese era, provavelmente, a certa, Bertrade pensou que o melhor era adiantar-se indo, imediatamente, juntamente com Aude, pedir à Rainha de Navarra que dispensasse os seus serviços.

A dama encontrou Margarida ainda na cama mas de excelente humor e Bertrade sabia porquê: como os príncipes tinham ficado retidos no palácio da Cite para assistir à execução e ao Conselho que se lhe seguira, Branca viera passar a noite com a sua prima e tinha passado com ela uma parte da noite na Torre.

Meio estendida por trás das cortinas de brocado e no meio dos lençóis e dos cobertores, Margarida, com os magníficos cabelos escuros espalhados sobre os ombros nus, bebia leite e rilhava um bolo com ar sonhador. Os seus devaneios deviam ser singularmente agradáveis a julgar pelo meio sorriso dos seus lábios inchados e pelas olheiras por baixo dos seus olhos negros. A Rainha de Navarra aceitou sem dificuldade o momento privado pedido por Bertrade. Madame de Courcelles retirou-se, aliás, prontamente sem esperar que lhe pedissem para o fazer. A expressão preocupada da dama-de-companhia não lhe passara despercebida.

- Então, minha boa Imbert, que se passa? - disse Margarida que, presa ainda no seu sonho interior, não se apercebera de nada.

- Madame, venho pedir à Rainha que dispense os meus serviços e os da minha sobrinha. Já hoje.

Aquelas palavras fizeram estremecer a jovem que, perante elas, olhou com estupor para a sua dama-de-companhia.

- Dispensar os vossos serviços? As duas? Agora, que a minha cunhada de Inglaterra anuncia a sua chegada? Nem pensar!

- Por favor, Madame. Sobretudo para Aude, a hora é grave! E Bertrade ajoelhou-se nos degraus que sobrelevavam o leito.

Margarida viu mais de perto o seu rosto crispado e os seus olhos cheios de lágrimas. Uma atitude absolutamente incrível naquela mulher sempre tão sensata.

- Mas, enfim, de que se trata? A mãe dela morreu e o pai quer que ela volte para casa?

- A esta hora ela não sabe - e eu também não! - se o pai ainda está vivo.

Abandonando a sua pose lânguida, Margarida endireitou-se nas almofadas e fez sinal a Bertrade para se sentar na borda do leito.

- Contai! - ordenou ela.

Com a voz sufocada apesar da proximidade da sua senhora e da protecção das grandes cortinas vermelhas, Bertrade contou o que lhe contara Denis, acrescentando o conteúdo da proclamação.

- Se Machieu não morreu, é um fòra-da-lei. Eu tenho de saber o que aconteceu à minha irmã e pôr Aude ao abrigo da cólera do Rei... e de monsenhor Luís - concluiu ela.

- Nem pensar! - exclamou a jovem Rainha com autoridade. - Em mais lugar nenhum estareis em tanta segurança como junto de mim. O meu marido não quer saber das minhas damas para nada. Além disso, conheceis-lo suficientemente bem para saber que ele não tem cabeça para a política. Ainda ontem se sentia encantado por o caso dos templários ter terminado definitivamente com a morte do Grão-Mestre, porque acha que messire de Marigny e Nogaret vão, enfim, acalmar um pouco. Todo este barulho lhe estragou os prazeres. Ele deve ter achado muito divertido o facto de um punhado de pedreiros ter tentado raptar os condenados no rio. Quanto ao Rei...

- Não se pode dizer que ele não tenha cabeça para a política - suspirou Bertrade.

- Não. Até tem a mais, para meu gosto, mas é um soberano bom demais para incriminar mulheres... e uma rapariga! Além disso, creio que ele gosta muito de mim, porque me sorri de vez em quando. Assim, ficai descansada porque, se qualquer perigo vos ameaçar, a vós e a Aude, saberei defender-vos. Aqui, estais em casa da Rainha de Navarra, não de França. Os esbirros de Nogaret não são aqui admitidos.

- Salvo o Rei de Navarra...

- O Rei de Navarra detesta Nogaret. Nunca lhe permitirá transpor a soleira da sua casa! Por isso, ficai tranquila, minha boa Imbert. A Rainha Isabel está a chegar e nós vamos partir para Maubuisson, onde esperaremos por ela. Vós e Aude ides comigo!

Em seguida, a jovem Rainha acrescentou num tom mais suave, inclinando-se para segurar nas mãos da sua dama-de-companhia:

- Eu gosto muito de Aude e o seu futuro é da minha responsabilidade... assim como o vosso.

- Oh, o meu... com esta idade!

- A vida é boa para se viver em qualquer idade, Bertrade e a vossa está longe de estar acabada. Aude está a par dos acontecimentos de ontem à noite?

- Não. Deixei-a no nosso quarto a refazer o bordado a ouro da túnica de veludo nacarada...

Margarida teve um grande sorriso:

- E queríeis privar-me de uma tal artista? Trazei-ma cá: quero falar com ela! A propósito, tendes notícias da vossa irmã?

- Não - respondeu Bertrade cujo rosto ficou de novo sombrio. - Espero que, antes de se ter lançado nesta aventura insensata, o marido dela tenha tido o cuidado de a fazer sair de Montreuil...

- Nogaret deve ter mandado para lá os seus molossos - disse Margarida com desprezo. Vou mandar... não, pensando melhor, vou pedir a Madame de Poitiers que mande lá alguém seguro para saber o que foi feito dela... Ela far-me-á esse serviço de boa vontade.

Apesar de tentada a sorrir, pensando que aquele “alguém seguro” podia muito bem ser um d'Aulnay, Bertrade limitou-se a agradecer sinceramente àquela que se declarava sua protectora e da sua sobrinha e foi à procura da jovem para a enviar a Margarida.

Quando Aude se lhe juntou no quarto de ambas, tinha os olhos vermelhos e as lágrimas ainda lhe corriam pelas faces. Bertrade abriu-lhe os braços e as duas mulheres ficaram apertadas uma contra a outra durante um longo momento. Até se acalmarem os soluços da jovem e ela estar em estado de ouvir o que a sua tia tinha para lhe dizer:

- Não te atormentes! O teu pai deve ter levado ontem à noite Juliana, Matilde e Margot para a minha Quinta das Abelhas...

- Mas, e ele, o meu pai? Madame Margarida disse que ele foi ferido, que pode até estar morto por ter perdido muito sangue! E Remi, que não estava com ele! Como pôde deixá-lo sozinho...

- Quando o teu pai dá uma ordem, as pessoas obedecem-lhe e foi o que o teu irmão fez. Não vais censurá-lo por ter posto em segurança as mulheres da casa? Além disso... o teu pai não estava sozinho. Tinha com ele alguém que, nem eu, nem tu, sabíamos da sua presença em Montreuil, alguém que se teria deixado matar antes de o abandonar. E esse sabe bater-se...

- Alguém que...

As lágrimas de Aude secaram instantaneamente, ao mesmo tempo que a jovem erguia para a sua tia um olhar aterrorizado e carregado de interrogações, mas onde se acendia uma frágil centelha de esperança. Bertrade, apesar de não o desejar, emitiu uma pequena risada seca:

- Não estás enganada! É mesmo ele! O homem que tu amas há tanto tempo tem vivido estes últimos anos na oficina do teu irmão! Até se tornou escultor! E bem bom a acreditar no que o teu pai e o teu irmão dizem! Estava ontem com Machieu e Remi em Notre-Dame e... depois também, suponho! Por isso, ou estão mortos os dois ou estão escondidos algures, juntos. E por que não em minha casa?

- Meu Deus! Seria bom de mais, maravilhoso de mais! Oh, minha doce tia, é preciso que tenhais razão! É preciso ir lá imediatamente...

- Estás louca, não? Ir lá e levar a reboque os homens de Nogaret? Para além da tua família, ninguém sabe que eu possuo a Quinta...

- E o vosso sobrinho, o retroseiro?

- Gontran? Ele tem um comércio próspero que lhe arredonda a bolsa e a barriga. Por nada deste mundo iria meter o nariz num assunto tão perigoso como o do Templo! Ele não é louco. Além disso, gosta de ti! Quanto a saber se há gente ou não em Passiacum, é preciso ter paciência e não fazer nada que possa arriscar a vida deles. Vai refrescar o rosto e regressa ao trabalho!

Aude obedeceu, mas, uma vez de regresso ao seu tamborete, as suas mãos ficaram inactivas durante muito tempo, esquecendo a agulha enfiada no fio de ouro que segurava sem pensar em a espetar no espesso veludo de um belo vermelho-claro que enfeitava de maneira tão bela a tez cor de marfim de Margarida. A alegria e a inquietação dividiam o seu coração, mas aquela - da qual se envergonhava um pouco - predominava. Saber Olivier vivo, saber que na véspera ele estivera e respirara na casa da sua infância enchia-a de uma imensa felicidade. E era por causa dessa felicidade que a inquietação era menor. Com um tal homem perto de si, Machieu só podia estar salvo. A jovem não ignorava - e há muito tempo! - que nenhum laço era possível entre Olivier e ela, mas acendia-se uma pequena chama de esperança no seu coração, apesar de tudo, e ela via a mão de Deus naquela longa coabitação com a sua família. Além disso, o Templo já não existia. Condenado pela Igreja e pelo Rei, não passava de uma recordação e Aude desejou apaixonadamente que os votos pronunciados por aqueles que se esforçavam por sobreviver tivessem desaparecido com ele. Seria tão bom se o cavaleiro se pudesse tornar num homem como os outros, um homem que talvez se decidisse, um dia, a olhar para ela como uma mulher, não como uma rapariguita!

Naquele instante operou-se nela uma estranha transformação porque, pela primeira vez, o sonho parecia-lhe possível. Não, já não era uma criança, antes uma mulher decidida a tudo para conseguir o amor de Olivier. Ia - por fim! - existir para ele. A jovem sabia-se bela e queria sê-lo mais ainda, fazendo-o esquecer tudo o não fosse o seu amor... Deus, que escolhera o seu pai para o salvar, não condenaria aquele amor... E Madame Margarida protegê-lo-ia. Aude tinha a certeza disso.

Nos dias que se seguiram, ela tinha de tal modo o ar de viver um sonho acordada que Bertrade não teve coragem de lhe dizer o que Margarida soubera através do “enviado” de Madame de Poi-tiers: a casa de Montreuil não passava de um monte de escombros e cinzas sobre o qual os sicários de Nogaret tinham espetado o édito real que fazia de Machieu e do seu filho caça a abater.

Bertrade também soube - pelo que ficou aterrorizada! - que uma mão misteriosa pregara, com uma flecha na porta central de Notre-Dame um aviso aos cónegos da catedral e ao bispo de Paris, Guilherme de Bausset, nos termos do qual a catedral em pessoa reivindicava para os seus construtores o direito aos antigos privilégios de São Luís e a uma justiça equitativa “... Nenhum trabalhará mais para a minha glória, que é a glória de Deus, enquanto forem acossados, perseguidos e massacrados os filhos daqueles que me erigiram com amor e devoção e eu farei de maneira a que, por todo o reino, parem os trabalhos dos meus outros santuários enquanto não for possível trabalhar neles na paz, na honra e no amor de Nosso Senhor. O sangue não cimentará as pedras... E o de Jacques de Molay bradou aos Céus.”

Era um apelo, se não à revolta, pelo menos ao êxodo. Bem entendido, o bispo de Paris, que o mandou arrancar, proclamou-o um sacrilégio e ordenou que os arredores de Notre-Dame fossem guardados, mas no dia seguinte estava fixado no mesmo local, através de outra flecha, outro pergaminho e o mesmo aconteceu nos dias seguintes.

O efeito no povo, que ainda tinha nos ouvidos a voz do Grão-Mestre no meio das chamas da fogueira, foi considerável. O Rei mandou arautos pelos bairros apelando à calma e garantindo àqueles que retomassem o trabalho o fim da perseguição e a segurança sob o piedoso bastão de comando de um arquitecto monástico vindo de uma grande abadia construtora, mas ficou tudo em letra morta... e o estaleiro deserto. Nogaret conseguiu dos cónegos a lista dos operários, mas, ao mesmo tempo, no recinto do Templo, os alojamentos dos trabalhadores permaneciam vazios e não foi encontrado nenhum daqueles que trabalhavam com Machieu de Montreuil.

Uma terrível notícia veio aumentar a inquietação do povo: o Papa Clemente V acabava de morrer no castelo de Roque-maure, onde tivera de fazer uma paragem na viagem de Avinhão para o seu castelo natal de Villandraut, no Bordelais. A notícia explodiu como uma bomba em Paris e também no palácio, sem que ninguém ousasse admiti-lo. Ninguém soube como o Rei a recebeu, já que o seu silêncio era impenetrável, tanto em relação às más notícias como às boas, mas fez frequentes visitas à Sainte-Chapelle, onde ficava muito tempo...

Foram dias ainda mais difíceis para Bertrade e também para Aude, porque não lhes chegou nenhuma informação. As duas mulheres ignoravam se estava alguém na Quinta das Abelhas e Bertrade, por mais vontade que tivesse, não ousava ir lá ver. Até ao presente, ninguém aparecera para as deter ou, na residência de Nesle, ninguém se lembrara do grau de parentesco com o mestre-de-obras. Mas era preciso rezar para que aquela situação durasse o maior período de tempo possível.

Aliás, chegara a hora de se porem a caminho de Maubuisson, onde Filipe, o Belo ia esperar a chegada da sua filha Isabel. Tal como prometera, Margarida levou as duas mulheres consigo.

Perto de Pontoise, a abadia de Notre-Dame-la-Royale fora fundada no século anterior por Branca de Castela, mãe de São Luís, que desejara ser lá enterrado como um simples religioso e cujo túmulo, na capela, ocupava o centro do coro. Muitas religiosas cistercienses, pertencendo na sua maior parte a grandes famílias, tomavam ali o véu e a abadessa era, então, Isabel de Mont-morency. São Luís mandara construir, à parte dos edifícios conventuais, um pequeno castelo para onde gostava de se retirar para se sentir mais próximo daquela que, depois de ter governado firmemente o reino durante a sua menoridade, ficara para sempre para ele como uma preciosa conselheira, sempre escutada salvo quando ele partira para a cruzada que ela tanto temia e que se mostrou desastrosa.

Já Rei, Filipe, o Belo adoptou Maubuisson. O soberano gostava da calma dos jardins que se estendiam entre a residência real e a igreja abacial, onde ia frequentemente, sozinho, para escutar, escondido na sombra da nave, as vozes leves das monjas cantando as litanias da Virgem Maria. Ia até ali, como ele próprio dizia, aconselhar-se com o seu silêncio. Foi ali que tomou - não sem uma profunda reflexão! - a decisão mais grave do seu reinado: a de prender os templários. Para aquele Rei “com a ideia da França no espírito (1), o Templo, poderosamente rico e poderosamente armado, cuja autonomia fazia com que preferisse frequentemente o seu próprio interesse à causa geral, representava o mais grave dos perigos. Numa situação que podia vir a ser perigosa, não ignorando Filipe que o seu papel na desintegração do reino franco de Jerusalém, que deviam, porém, proteger. Perdido o Oriente, restava-lhes a França e Filipe não queria entregar a França ao Templo.

Ora, o soberano não tinha nenhuma arma política contra eles, apenas pesavam sobre os seus costumes íntimos sérias suspeitas, assim como sobre a ortodoxia da sua fé cristã. Era o seu único ponto vulnerável. Filipe percebeu-o e, de acordo com as suas convicções, atacou (2)...

 

(1)     Maurice Druon, O Rei de Ferro.

(2)     Ibid.

 

O Rei também gostava da Primavera em Montbuisson, a proximidade da floresta e ficava lá sempre que podia. Daquela vez, ia esperar a sua filha Isabel cuja viagem fora anunciada há pouco para apresentar ao seu pai o filho Eduardo de dezoito meses de idade e, até à data, único neto de Filipe. Tendo sabido que ela viajava só, sem o marido, o Rei decidira recebê-la de maneira menos oficial do que em Paris, ou noutro sítio qualquer, já que os festejos reais logo a seguir à trágica conclusão do processo dos templários teriam sido de mau gosto. Além de que a Primavera estava a chegar e as margens do Oise seriam mais agradáveis para uma reunião familiar. Isabel chegava com uma escolta razoável, da qual se encarregaria a cidade vizinha de Pontoise, assim como dos membros do séquito real que o pequeno castelo da abadia não podia receber. Apenas o Rei e os seus filhos ficariam ali alojados.

Margarida não gostava de Maubuisson, apesar de ir na companhia das cunhadas. A atmosfera ressentia-se com a proximidade das religiosas e também com a do Rei. Era verdade que os irmãos d'Aulnay também iam, já que um deles pertencia a Filipe de Poitiers e o outro a Carlos de Valois, mas qualquer encontro seria impossível. Além do mais, os belos adornos previstos para o brilho de uma visita real não serviriam de grande coisa. A jovem Rainha de Navarra não resistiu, no entanto, ao prazer de levar o seu belo manto de camocas branco, sobre o qual os rubis de Pierre de Mantes faziam um efeito maravilhoso. A Rainha de Inglaterra, cujas jóias eram pilhadas alegremente pelo marido em benefício dos seus favoritos, segundo rumores de além-Mancha, não poderia fazer o mesmo... e isso seria uma grande satisfação face ao humor arrogante de Isabel, que não permitia que ninguém se esquecesse, por pouco que fosse, que era ela quem usava a coroa de Inglaterra, um verdadeiro e grande reino, ao pé do qual Navarra fazia fraca figura.

A chegada da soberana, ao encontro da qual tinham ido até Clermont os seus tios Carlos de Valois, Luís d'Evreux e o seu irmão Filipe, teve, no entanto, brilho. Montada numa hacaneia branca, pela garupa da qual se estendia um manto de veludo do mesmo azul dos seus olhos, Isabel, com uma tiara trabalhada e ornamentada com safiras, tinha um ar nobre quando transpôs o portal ogival da abadia, em frente do qual estava uma grande cruz de pedra. Com os tios e o seu irmão a seu lado e com o filho e as suas damas atrás, avançou até ao patamar onde o pai a esperava com Luís, Carlos e as noras a seu lado. Apesar da palidez e de uma ligeira bruma de melancolia no rosto puro e altaneiro, era uma mulher muito bela, de uma beleza cuja semelhança com a de Filipe era mais gritante do que nunca. Talvez porque os seus olhos azuis pestanejavam pouco e também porque a sua boca de lábios ternos, mas orgulhosos, pareciam ter desaprendido de sorrir.

Abandonando o protocolo, o Rei desceu os degraus para a ajudar a desmontar num dos gestos de afecto em que era pouco pródigo, mas com uma chama de orgulho no olhar perante a imagem perfeita de majestade real da filha. Em seguida, ela dobrou o joelho diante dele, abraçando-o depois mas sem efusões supérfluas. Depois, a viajante saudou Isabel de Montmorency, a abadessa de Maubuisson, que, de cruz na mão, a recebeu à frente de todas as religiosas do convento. Em seguida, a Rainha de Inglaterra mandou avançar a ama com um magnífico bebé louro nos braços, visivelmente de boa saúde e que chilreava estendendo as pequeninas mãos para a coroa do seu avô. Dessa vez, Filipe abriu-se e, pegando nele, disse:

- Esta não é para vós, sire Eduardo! - disse ele, afastando a cabeça. - Tereis de vos contentar com a do vosso pai... Pelo menos, assim espero - acrescentou virando-se para os seus filhos, que não acharam graça à observação.

Depois, Isabel beijou as cunhadas com uma frieza que Margarida atribuiu à sumptuosidade do seu próprio traje, o que a satisfez. Por fim, entraram nos aposentos reais para que a Rainha de Inglaterra pudesse recolher-se e repousar um pouco antes do grande banquete da noite.

Tal como as outras damas-de-companhia das princesas, Aude e Bertrade tinham assistido um pouco afastadas à chegada de Isabel. A jovem sentia-se muito contente por ter podido admirar a sua senhora tão magnificamente vestida com obras suas, sentindo uma alegria infantil que rapidamente se apagou ao constatar que a sua tia não partilhava esse sentimento. Bertrade tinha, até, uma expressão tão sombria que ficou inquieta.

- Estais muito pensativa... e até assustada! Dir-se-ia... que vistes o Diabo!

Bertrade lançou-lhe um olhar furibundo:

- Tens cada coisa! Mas não estás completamente enganada. Se não é ele, é uma das suas obras!

- Não é Madame Isabel que vos inspira esses pensamentos tão sombrios, espero? Ela é muito arrogante e não parece muito feliz, mas é magnífica! Menos do que Madame Margarida, evidentemente, mas muito bela e verdadeiramente majestosa!

Uma vez mais, Bertrade renunciou a denegrir o prazer puramente artístico da sua sobrinha, demonstrando-lhe que a expressão “arrogante” de Isabel e a frieza ao saudar as princesas podia ter sido provocada pelas bolsas arvoradas pelos irmãos d'Aul-nay que, com os príncipes respectivos, tinham ido recebê-la e que ainda andavam pelos jardins de Maubuisson. Daquela vez, a dúvida - admitindo que a pobre mulher ainda tivesse alguma! - já não era possível: os irmãos d'Aulnay eram amantes de Margarida e de Branca, amantes suficientemente amados para receberem presentes de uma cunhada de quem, tudo levara a crer, era preciso desconfiar:

Felizmente que não são três os belos fidalgos, pensou ela. Pelo menos, resta a hipótese de Madame Joana ser uma mulher honesta, a menos que seja ainda mais maligna e mais irreflectida...

Mas, no fundo, duvidava. Joana, tímida e discreta, parecia amar sinceramente o marido. Era verdade que Filipe de Poitiers era muito mais brilhante e atraente do que o pateta do Carlos e, sobretudo, do que o tinhoso do Luís! Restava esperar que Isabel, orgulhosa por poder mostrar o seu magnífico filho e sem dúvida preocupada com coisas mais graves do que a conduta das cunhadas - diziam-na infeliz já que o marido preferia abertamente os rapazes bonitos às mulheres bonitas! - não tivesse reparado em nada.

A doce ilusão não durou muito tempo. Na mesma noite, o drama tão temido por Bertrade explodiu.

Para que a Rainha se pudesse deitar cedo, o banquete foi curto e quando terminou e o Rei se dispôs a regressar à pequena sala para onde gostava de se retirar para reflectir, esta pediu-lhe que a deixasse acompanhá-lo. O que ele aceitou. As três princesas, depois de lhe terem desejado boas-noites, regressaram aos quartos que partilhavam quando visitavam Maubuisson, ao mesmo tempo que os respectivos maridos ficavam entre si.

Desembaraçadas dos seus trajes de cerimónia e com roupões sedosos vestidos pelas suas damas-de-companhia, conversavam no quarto de Margarida estendidas em almofadas empilhadas em frente da chaminé onde ardia um belo fogo, comentando com malícia a atitude de Isabel e a sua expressão lúgubre, quando a viagem não tinha nada de desagradável. Em redor delas, Aude e Marta, a camareira preferida, dobravam e arrumavam os trajes que as princesas acabavam de despir quando o camareiro do Rei apareceu para lhes dizer que este as mandava chamar.

- Mas, nós já estamos despidas - protestou Margarida. - Não pode esperar para amanhã?

Hugo de Bouville, camareiro e um dos mais fiéis servidores de Filipe, era um homem de idade e experiente, mas também muito fino. Perante a expressão chocada da jovem Rainha, limitou-se a dizer gentilmente:

- Sabeis muito bem, Madame, que o Rei não gosta de esperar. Aliás, ele está sozinho com Madame Isabel: basta levardes uns mantos...

Aude quis dar a Margarida o camocas branco que ela acabava de tirar, mas esta repeliu-o:

- Dai-me a minha dalmática, minha querida! Faz frio nos corredores.

Uma vez prontas, as três jovens seguiram Hugo de Bouville com a alegria subitamente desaparecida. Era tão pouco usual, aquela convocação! No meio do quarto, Aude viu-as sair e depois virou-se para Bertrade que, de olhar fixo, se mantinha perto da chaminé triturando com os dedos o xaile de musselina que segurava nas mãos. A dama ficara pálida de repente! Aude sentiu um arrepio:

- Sentis-vos bem?

Aquelas palavras não pareciam ter chegado aos ouvidos da tia, esta estava hipnotizada por aquela porta transposta pelas princesas, como se um dedo de fogo tivesse escrito nela “Vós, que aqui entrais, deixai lá fora toda a esperança”, como no Inferno de Dante Alighieri, o poeta florentino de quem Carlos de Valois fizera um exilado. (1)

 

Aude aproximou-se dela para repetir a pergunta e, dessa vez, Bertrade virou o olhar para ela. Os olhos da dama reflectiam uma tal angústia que a jovem assustou-se e acrescentou:

- Por piedade, dizei-me o que se passa! Estais a meter-me medo...

Bertrade deixou cair o xaile e tomou a sua sobrinha nos braços:

- Vem! Vamos rezar! É a única coisa inteligente a fazer...

As duas mulheres foram ajoelhar-se diante de uma bela estátua da Virgem que compunha, com duas velas permanentemente acesas, uma espécie de oratório no quarto de Margarida. Ao fazer aquilo, Aude sussurrou:

- As nossas princesas... estão em perigo?

- Temo que sim! É por isso que é preciso rezar, para que eu me engane.

Aude não insistiu e rezou. A jovem gostava demasiado de Margarida para não se sentir perturbada com a ideia de que lhe pudesse acontecer qualquer infelicidade... mas o mal já estava feito! As duas mulheres ainda estavam de joelhos quando a porta se abriu de novo, mas dessa vez pela mão de Alain de Pareilles, o capitão da guarda do Rei. Atrás dele entraram, primeiro Margarida, lívida mas de cabeça direita, e depois as duas irmãs, Joana e Branca, chorando e apoiando-se mutuamente, seguidas por uma Madame de Courcelles visivelmente assustada. A sua voz indignada protestava:

- Mas, enfim, messire de Pareilles, é impossível! O Rei não pode ter ordenado que...

- Sim. As suas ordens são formais, Madame. As princesas ficarão aqui, guardadas pelos meus homens. Estão proibidas de

 

(1) Em 1301 e a pedido do Papa Bonifácio VIII, desejando acabar com a eterna querela, entre Guelfos e Gibelinos, o irmão de Filipe, o Belo conquistara Florença e condenara ao exílio Dante, que era um dos magistrados da cidade.

 

sair ou de falar seja com quem for, mesmo com os seus parentes ou maridos. Quanto às damas-de-companhia, servas... e até vós mesma, Madame, vão ser entregues às damas cistercienses, onde Madame de Montmorency velará pelo seu alojamento...

- Não!... Oh não!

Era Aude, que desatara a soluçar e se atirara aos pés de Margarida e lhe abraçara os joelhos. Aquele abraço traduzia uma tal dor, que a Rainha de Navarra pareceu reanimar-se. A Rainha inclinou-se, segurou na jovem pelas mãos e beijou-lhe a fronte:

- Coragem, minha querida! - murmurou ela. - É preciso ter esperança.

- Madame!... Oh, Madame!

Entretanto, Madame de Courcelles ainda não tinha acabado com o capitão da guarda:

- Vamos, nesse caso, ficar prisioneiras?

- De maneira nenhuma! Eu disse alojamento. Não enclausuramento. Cada uma de vós é livre de poder movimentar-se no interior da abadia até ao regresso a Paris. E agora abandonai este local, levai os vossos pertences e ide ter com as monjas... Não vejais nisto uma ofensa - acrescentou ele perante a expressão daquela dama de grande linhagem, daquela viúva de um grande barão que se via tratada como uma simples camareira, mesmo que por pouco tempo - é por pouco tempo e a abadessa receber-vos-á como deve ser...

Enquanto ele reunia aquelas que deviam seguir para o convento, Margarida deteve Aude:

- Um momento! Vai buscar o meu belo manto de camocas com a fivela de rubis e guarda-mo! Seria uma pena se outra qualquer, que só veio aqui para prejudicar, ficasse com ele!

- Madame... Não sei se posso - disse a jovem com uma olhadela na direcção do capitão da guarda:

- Por que não hás-de poder? Continuo a ser Rainha de Navarra, que eu saiba! Confio-te esse manto. Entregar-mo-ás... quando eu regressar, senão...

Aquela simples palavra continha tantas ameaças que Margarida gaguejou, apertou uma contra a outras as suas pequenas mãos ainda cheias de anéis, respirou profundamente e continuou:

- Senão, guardá-lo-ás para ti como recordação minha! Será o teu dote, mas espero, um dia, poder comprar-to bastante mais caro... Vai! Obedece-me! Eu fico bem!

Aude foi buscar o esplêndido manto, dobrou-o cuidadosamente e juntou-se às suas companheiras.

As três prisioneiras - não eram outra coisa! - estavam sozinhas no meio do vasto quarto que as damas-de-companhia abandonavam uma a seguir à outra, de cabeça baixa e o coração pesado, abatidas com aquele golpe do destino que não compreendiam, a começar pelo que o suscitava. Madame de Courcelles, depois Bertrade e depois Aude foram beijar a mão de Margarida. Marta, a sua fiel serva, chorava de tal maneira que foi preciso segurá-la para descer a escada de caracol que ia dar ao jardim e depois ao convento. Como se houvesse algo a temer por parte daquelas mulheres desoladas, quatro arqueiros escoltaram-nas até aos edifícios conventuais. As damas-de-companhia de Branca e de Joana juntaram-se a elas. A noite estava bela e doce e sobre aquele azul profundo anunciador do Verão a linha dos telhados destacava-se em redor dos dois campanários da capela. Bertrade aproximou-se de Madame de Courcelles...

- Sabeis o que se passou? - sussurrou ela.

- Lembrais-vos da bolsa que procuráveis ainda não há muito tempo?

- Aquela que veio de Londres no último Natal? E da qual Madame Margarida não gostava?

- Essa mesma. Ora, a Rainha Isabel reconheceu-a... na cintura de um fidalgo de monsenhor de Valois...

- Pode ter-se perdido... sido roubada e vendida? - disse Bertrade, imediatamente na defensiva...

- Sem dúvida, mas a da condessa de la Marche também se encontrava na cintura do irmão dele, que pertence ao serviço de monsenhor de Poitiers. A Rainha Isabel assinalou-o ao Rei, confirmando assim os rumores ouvidos em Inglaterra e que ela já tencionava contar ao Rei. Esta viagem, de facto, não tinha outro objectivo: prevenir o seu pai dos actos condenáveis das cunhadas.

- E agora?

- Os irmãos d’Aulnay foram presos e entregues a messire de Nogaret, que os levou para Pontoise para os “interrogar”. Pobres rapazes! São jovens e, se Nogaret lhes aplicar os mesmos métodos que aplicou nos templários, confessarão seja o que for!

- É verdade, mas que imprudentes! E as princesas?

- Sabeis tanto como eu. Serão julgadas segundo as confissões dos seus amantes.

- Mas, e Madame de Poitiers? Não correm boatos acerca dela, senão o facto de estar sempre com as outras duas?

- Ela bem o disse em voz alta ao Rei e a Madame Isabel: “Eu sou uma mulher honesta!” No entanto, pagará, tal como as outras duas, se bem que o Rei tenha dito que de acordo com as respectivas faltas.

- Mas... como tomastes conhecimento desses factos? Estáveis junto do Rei?

A noite escondeu pudicamente o rubor que subia ao rosto da dama-de-companhia de Margarida.

- Não... Mas, tendo visto as princesas entrar nos aposentos do nosso sire vestidas de maneira pouco usual, eu... desci ao jardim e...

- ... e como a janela estava aberta para deixar entrar o perfume dos lilases, ouvistes o que se passava no interior?

- Exactamente! - disse a dama-de-honor.

- Os príncipes já foram avisados?

- Devem estar a sê-lo neste momento. Que história horrível! Que vai acontecer àqueles infelizes? Nunca ouvi uma voz tão severa, tão dura, como a do nosso sire Filipe! Tenho medo, dama Imbert...

- Também eu, mas a condessa Mahaut d'Artois, mãe de Joana e de Branca, uma mulher forte, e o duque Hugo de Borgonha, irmão de Margarida, vão esforçar-se, certamente, por defendê-las, e nem ela nem ele são uns quaisquer...

- É verdade... mas o duque está em Dijon, a condessa Mahaut em Paris e eu pergunto a mim própria se chegarão a tempo de impedir a justiça do Rei. Receio que esta seja rápida e muito dura!

E foi. Logo no dia seguinte, tendo reunido um pequeno conselho com os seus dois irmãos Valois e Evreux, os seus três filhos e Enguerrand de Marigny, Filipe, o Belo ditava a sua sentença de acordo com as confissões transmitidas por Nogaret, que torturara os irmãos d'Aulnay durante o resto da noite: Margarida e Branca seriam encerradas para toda a vida na fortaleza de Châ-teau-Gaillard, em Andelyz, e Joana, para a qual não tinham descoberto qualquer falta ao seu dever conjugal, mas a quem foi imputada uma forte cumplicidade, seria conduzida ao torreão de Dourdan, ficando ali encerrada enquanto agradasse ao Rei. Quanto aos irmãos d'Aulnay, o que os esperava era a morte. E uma morte singularmente terrível. Tratava-se de retirar, para sempre, o desejo de quem quer que fosse de se aproximar demasiado das pessoas reais.

Na manhã do dia seguinte, as damas-de-companhia das princesas, que a abadessa tratara com uma bondade tanto mais meritória quanto um dos irmãos d'Aulnay era seu sobrinho por aliança, foram metidas numa grande liteira e abandonaram Maubuisson sem terem visto mais ninguém. A abadessa deu-lhes, simplesmente, a conhecer os termos do julgamento e também que iriam ser levadas para Paris e que regressariam às residências dos seus senhores respectivos. O que não tinha nada de tranquilizador para as mulheres que regressavam à residência de Nesle: os muros de Notre-Dame-la-Royale não eram suficientemente espessos para lhes evitar o eco dos furores do Rei de Navarra, que fora preciso encerrar nos seus alojamentos para o fazer calar. A ideia de serem entregues num futuro mais ou menos próximo àquele louco furioso gelava o sangue daquelas que pertenciam à sua casa, já que as outras tinham menos a temer dos seus senhores. E Bertrade começou a procurar um meio de fugir antes que as levassem para Paris, a Aude e a ela, ao aperceber-se de que entravam em Pontoise em vez de seguirem para leste... A dama compreendeu e sentiu o pavor a assaltá-la quando o veículo em que seguiam se imobilizou na parca do Martroi já negra de gente contida por homens de armas em redor de um cadafalso sobre o qual, junto de um duplo patíbulo, havia duas rodas, um cepo e alguns carrascos preparando os seus instrumentos.

Desaustinada, Marta desatou a gritar:

- É para nós? Vão-nos matar? Oh meu Deus, meu Deus! Ao mesmo tempo, a jovem tentava saltar para terra e os seus gritos atingiram uma tal intensidade que Bertrade foi obrigada a esbofeteá-la:

- Chega! Acalma-te! Não é para nós... Trouxeram-nos aqui para que assistamos ao suplício dos que servimos sem querer, sem saber... Nada mais, senão estaríamos numa carroça, não numa liteira! Entretanto, rezai, porque vamos ver coisas terríveis...

As mulheres acalmaram-se um pouco, mas era possível ouvir alguns dentes a bater. Quanto a Aude, agarrada à tia, olhava para os instrumentos do suplício com os olhos dilatados de horror. A jovem era daquelas a quem o espectáculo da morte aterrorizava. A sua vida em Montreuil, e até na residência de Nesle, tinha-a mantido afastada daqueles espectáculos abomináveis dos quais, porém, o povo gostava muito, talvez porque não havia outros e aqueles tempos eram muito duros...

- Temos mesmo de ver... isto? - balbuciou ela.

- Só vê quem olha! Fecha os olhos e tenta tapar os ouvidos porque...

- Oh meu Deus... vede! Vede quem está a chegar... Não são... não são as nossas princesas?

Três carroças cobertas de lona negra, com um dos lados intencionalmente descoberto, acabavam de entrar na praça e tinham parado em frente do cadafalso. Agarradas aos taipais de cada uma delas viam-se umas pequenas silhuetas vestidas de burel negro e com as cabeças rapadas e Aude teve um soluço de horror ao reconhecer Margarida na primeira e Joana e Branca nas seguintes. Apesar de se encontrar naquele veículo sinistro, a primeira continuava a parecer uma Rainha pelo ar orgulhoso da sua postura. Branca, encostada ao taipal da sua carroça, soluçava perdidamente, enquanto Joana parecia ter perdido os sentidos. O povo, ao vê-las reduzidas àquele estado, calou-se, preso de uma espécie de terror sagrado perante o rigor da justiça do Rei. No mesmo momento, a carroça dos condenados, onde estes vinham meio desfalecidos na palha, aparecia, e a atenção virou-se para eles.

A tortura deixara-os num triste estado. Foi preciso ampará-los para que conseguissem subir para o cadafalso, onde foram amarrados, cada um deles, a uma roda, após o que o cerimonial bárbaro que iria conduzir à morte dos culpados de lesa-majestade começou. Partiram-lhes os ossos dos dedos, das pernas e do peito e, em seguida, castraram-nos. Em seguida, esfolaram-nos e arrastaram-nos sobre uma camada de palha recentemente cortada antes de lhes concederem a graça de os decapitar. Finalmente, penduraram-nos no cadafalso pelas axilas, uns farrapos sangrentos que já não tinham nada de humano.

Na liteira, as mulheres, aterrorizadas, agarravam-se umas às outras. Duas desmaiaram. A própria Bertrade mantinha os olhos fechados e rezava por aqueles dois infelizes cuja má sorte conduzira ao leito de umas princesas demasiado belas para que fosse possível resistir-lhes. Refugiada no seio de Bertrade, Aude não quisera ver nada, mas não pudera deixar de ouvir os uivos, os gritos que, finalmente, acabaram por diminuir antes de extinguirem, apesar de ter as mãos crispadas nos ouvidos.

Quando deixou de ouvir fosse o que fosse, Bertrade abriu os olhos.

- Acabou - murmurou ela. - Estão mortos e as carroças vão-se embora.

Então, Aude procurou Margarida com os olhos. Sempre de pé e agarrada ao taipal de madeira onde tinha fincado as unhas, esta, lívida até aos lábios e com os olhos negros de tal modo abertos que mais pareciam fazer parte de uma máscara em cima do seu rosto, seguira até ao fim o martírio do seu amante. Branca perdera a consciência. Quanto a Joana, meio louca de terror, desatara a chorar, ao mesmo tempo que o soldado que conduzia a sua carroça fazia virar o cavalo:

- Dizei ao meu senhor Filipe que estou inocente, que não o envergonhei e que não traí o nosso casamento! Dizei-lhe, por piedade! Dizei-lhe!

A multidão começava a espalhar-se, empurrada pelos soldados, e a calar-se. Manifestara-se muito durante o duplo suplício que era, para ela, um espectáculo de primeira categoria, do qual se falaria durante muito tempo à lareira, mas o destino trágico daquelas três jovens, ainda no dia anterior tão respeitadas, tão belas e tão brilhantes, acabara por merecer a sua piedade porque, dali a pouco, seriam encerradas em masmorras húmidas onde estava sempre muito frio. Nunca mais veriam o céu azul e sentiriam o vento leve da Primavera carregado de odores, como era privilégio de todos aqueles que se encontravam ali presentes. Os apelos desesperados de Joana, sobretudo, encontravam eco noutros corações femininos. Se, realmente, não havia nada a censurar-lhe, senão ter ajudado os amores da sua irmã e da sua prima, com a qual fora criada, era muito cruel fazê-la pagar o mesmo preço que as outras...

A saída de Pontoise, as carroças, rodeadas de cavaleiros, separaram-se, duas delas dirigindo-se para noroeste. A de Joana rumou a sul e era aquela a diferença, arrancada a ferros pelo conde de Poitiers ao Rei seu pai: Château-Gaillard, em tempos a residência do governador, só tinha prisões; o torreão de Dourdan era severo, mas era tão possível viver no seu interior como noutro castelo qualquer da época: Joana seria ali estreitamente guardada, ficaria fechada, mas teria uma cama como deve ser e uma lareira. Face a toda aquela miséria, fazia uma diferença enorme... Significava poder viver.

O veículo das damas do seu serviço afastou-se, por sua vez, para executar a segunda parte do programa: o regresso a Paris, onde chegaram ao cair da noite. A residência de la Marche e a residência de Poitiers receberam cada uma o seu contingente de viajantes esgotadas, tanto pela provação da manhã como pela viagem. Finalmente, as portas da de Nesle fecharam-se sobre aquelas que restavam e que iriam esperar ali o regresso do Teimoso. Se Bertrade esperava poder fugir com Aude, rapidamente se apercebeu de que era impossível. As ordens eram claras: a casa de Margarida seria guardada de perto...

 

                           CADÁVERES NA TORRE DE NESLE

Paris soube do caso das princesas com um estupor próximo do terror. O facto era que as más notícias pareciam seguir-se com um rigor implacável. Depois da morte do Papa Clemente um mês depois da intimação do Grão-Mestre, que tivera o efeito de uma bomba, depois dos cartazes de Notre-Dame afixados regularmente por um arqueiro diabólico e inacessível, os naufrágios conjugais dos três filhos do Rei, que numa outra ocasião qualquer teriam sido motivo de chacota, ganhavam, naqueles dias sombrios, foros de maldição, coisa que muito inquietava o povo.

Com a sua frieza habitual e para cortar pela raiz todas as interpretações fantasistas, Filipe, o Belo mandou proclamar pela cidade o édito de condenação de Margarida, das suas primas e dos seus amantes, para que todos compreendessem que o estatuto não livrava ninguém do castigo em questões de honra. Pelo contrário: quanto mais alto o estatuto, maior a queda e maior a punição. Com o seu consentimento, o bispo ordenou que, nas paróquias, os padres deviam fazer pender os seus sermões para a santidade do casamento e o perigo que corriam as almas daqueles que ousassem transgredi-la.

O cavalo do arauto que, com o pergaminho enrolado, prosseguia o seu caminho em direcção a outros bairros, deixava atrás de si um silêncio sufocado, mas que não durava muito, substituído por exclamações e numerosos comentários, lembrando que a mulher do Teimoso tinha uma filha pequena, que Joana, a menos culpada, tinha três e que Branca não tinha nenhuma. O que significava que, se o Rei morresse, à falta de um homem para cingir a coroa, o reino cairia nas mãos de uma mulher, a menos que o Céu se lembrasse de colocar ordem nas coisas. Mas não se podia dizer que, nos próximos tempos, a França pudesse receber quaisquer favores celestes.

Naquela manhã, Olivier fora a Paris, sozinho. O mestre Machieu fazia questão de receber, todos os dias, notícias frescas e, à vez, um dos seus companheiros deslocava-se à cidade para sentir o vento e ouvir os rumores. Apenas um, para que houvesse sempre, para ele e para as três mulheres, protecção suficiente em caso de surpresa. O construtor recuperava mal, de facto, de um ferimento que o mantivera durante muito tempo num estado febril e que ressumava ao menor movimento involuntário. A sua clavícula, quebrada pela espada do preboste, fazia-o sofrer apesar do engenhoso aparelho colocado por Hervé, que vira em tempos, em Chipre, um semelhante empregado por um médico judeu: um pedaço de tecido passando pelo pescoço, sob as axilas e atado nas costas com o objectivo de imobilizar as espáduas, mas Machieu agitava-se e a cura avançava tanto mais devagar quanto mais baixo era o moral. O mestre-de-obras sentia-se furioso por estar preso dentro de casa, sem poder meter o nariz no exterior, já que o seu desejo era levar a revolta a todos os estaleiros de catedrais: a Beau-vais, cujo coro caíra trinta anos antes e cuja reconstrução estava longe de estar acabada, a Orleães, a Bourges e a outros. Levado por um ódio que lhe envenenava o sangue, queria que as obras-primas inacabadas proclamassem a todo o reino a iniquidade do Rei e a vingança do Grão-Mestre. Não podendo deslocar-se, encarregara Cauvin da ligação com as pedreiras de Gentilly onde, antes do golpe de força, os seus companheiros que conseguissem escapar se reagrupariam e esperariam pelas suas ordens, mas os dias sucediam-se e o pedreiro, sempre que regressava, não ousava confessar que, pouco a pouco, os homens estavam a desertar, um após outro, para tentarem refazer uma existência suportável. Infelizmente, mestre Jacques estava morto, mas era preciso que os que restavam vivessem...

Encostado à parede do Hotel-Dieu, Olivier, de braços cruzados, desinteressava-se do homem do pergaminho que se afastava e olhava para Notre-Dame, deslumbrante sob o Sol de Maio, brilhante como um imenso livro de horas com as cores e os dourados com que estavam pintadas as suas estátuas e esculturas. Ainda três dias antes tinha afixada no vermelho da sua grande porta central a sua cólera e o seu apelo a Deus para que fossem anulados os éditos iníquos que atingiam, sem excepção, todos aqueles que continuassem a trabalhar na sua solidez e na sua beleza. Olivier pensava no arqueiro desconhecido. A despeito de toda a vigilância, não tinha sido possível capturá-lo e o cavaleiro admirava a sua audácia, assim como a sua quase diabólica habilidade. Apesar de não ter feito mais do que excitar a cólera do bispo, dos cónegos e do preboste, ter dado voz à catedral, uma voz rebelde, parecia-lhe coisa de génio... Com o drama íntimo abatendo-se sobre os filhos do Rei, essa voz ia ter uma razão magnífica para invocar a justiça transcendente!... Entretanto, era preciso regressar à quinta para pôr os outros ao corrente...

No preciso momento em que se ia pôr a caminho, fez-se ouvir nas suas costas uma voz azeda:

- Espero que estejais satisfeito? Se não vos tivésseis metido de permeio no meu projecto, em frente do Templo, o Cabeçudo reinaria agora com a sua bela garça, o futuro do reino não estaria em perigo e o Grão-Mestre ainda estaria vivo...

Antes mesmo de olhar para aquele que lhe dirigia a palavra, Olivier já tinha reconhecido, pela voz rouca dificilmente olvidável, o mendigo que ele impedira de matar o Rei e que dissera chamar-se Pierre de Montou. Virando-se, o cavaleiro pôde constatar que o homem não tinha mudado: continuava filiforme, magro, com a sua barba e cabelos grisalhos emaranhados, no meio dos quais, todavia, o longo nariz, em forma de bico de águia, lhe pareceu menos vermelho. Mas os seus olhos brilhavam de cólera quando acrescentou:

- ... Além disso, mentistes-me! A palavra irritou Olivier.

- Noutros tempos, ter-vos-ia esbofeteado porque, para além de ter achado bem empregar esse meio vil para impedir que fosses massacrado, não teríeis sido o único, e para nada! Acontece que vi, realmente, Roncelin de Fos. E o meu companheiro também o viu no momento em que eu gritava o seu nome. Aliás, corremos os dois para o alcançar...

- E conseguistes? - troçou o seu interlocutor.

- Não. Devíeis saber que os arqueiros nos perseguiram, o que vos permitiu ir para onde queríeis. Só conseguimos escapar-lhes graças... a um amigo. Quanto a ele, tinha desaparecido como o pesadelo que é.

- E esse pesadelo regressou, nos anos que se seguiram?

- Nunca me abandonou na reclusão a que fui obrigado a resignar-me para poder continuar a viver. Mas não por não o ter mandado procurar por aqueles que me deram asilo. Mas não sou obrigado a dar-vos explicações que mais se parecem com desculpas. Certamente que também vos pusestes à sua procura, não?

- Não estava persuadido de que tínheis gritado o seu nome para que o meu projecto falhasse...

- Falemos desse projecto! O que não se faz num dia, faz-se no outro. Não encontrastes outra ocasião para receber esmola de Filipe? Tivestes tempo, parece-me, no espaço de sete anos?

- Quer acrediteis, quer não, não tive oportunidade - grunhiu Montou. - No entanto, não foi por não ter tentado; por exemplo, quando ele foi a Poitiers para se encontrar com o Papa, mas ele tinha, na altura, muitos inimigos e Marigny cercou-o, sem ele saber, com um verdadeiro cordão de ferro. Além disso... eu tinha de viver e, para viver, roubei comida no mercado de Beau-gency... e vi-me no torreão do castelo, onde quase fui enforcado.

- E por que não fostes?

- Por uma sorte que só acontece uma vez na vida. O castelão era um pouco meu parente. Reconheceu-me e salvou-me da corda, para que a vergonha não caísse sobre toda a família. Preferiu-me reter-me prisioneiro durante meses e mais meses. E não fui muito maltratado. Então, ele teve de trocar Beaugency por Loches, um outro castelo e decidiu libertar-me com, por única riqueza, a minha liberdade recuperada... Entretanto, consegui regressar a Paris, onde vivi... como pude... Até àquela noite terrível - continuou ele, baixando o tom de voz até se transformar numa nota de dor verdadeira - em que ousaram queimar o Grão-Mestre e o preceptor da Normandia!

- Alguns tentaram salvá-lo? Por que não estáveis lá?

- Estava... Com alguns companheiros, estava no rio, numa barca, para ajudar, quando vimos o Grão-Mestre recusar seguir Machieu de Montreuil. Então, afastámo-nos...

- Reconhecestes Mestre Machieu?

- Reconheci! Houve tempos em que o vi muitas vezes. Além disso, sou bom fisionomista. Foi assim que vos reconheci quando vos vi. Batestes-vos bem e conseguistes, creio, salvar Machieu. Portanto... feitas as contas, perdoo-vos!

- Que indulgência - ironizou Olivier, que não sabia bem se havia de dar um murro àquele homem ou estender-lhe a mão. - Mas, perdoais-me o quê? O ter-vos impedido de matar o Rei?

- Exactamente! Se bem que... tenha perguntado a mim mesmo se colocar o Cabeçudo no trono seria uma boa ideia... E apesar de estar muito ligado àquele pavão pomposo do Carlos de Valois, é um frouxo e os frouxos são perigosos. Em particular os frouxos cruéis como ele. Basta ver o que se passa na Torre de Nesle desde ontem...

A pergunta foi imediata:

- O quê?

- Cadáveres, meu caro, cadáveres que são atirado à noite ao Sena depois de saírem pela porta pequena que dá para a praia: dois homens antes e dois esta manhã, além de uma mulher. Nada bom de ver!

- Achais que é ele o autor dos crimes?

- Quem mais havia de ser? Matou-os, sim, depois de os ter torturado para tentar saber há quanto tempo é corno! Reparai, se Filipe d'Aulnay andou metido com a mulher dele durante dois anos, a futura Rainha de França - por outras palavras, a pequena Joana! - pode muito bem não ser dele.

Invadido pelo estupor, Olivier sentiu os cabelos eriçarem-se-lhe na cabeça. Apesar de nunca ter visto Aude na casa do seu pai senão na infância, sabia, por intermédio de Remi, que a jovem estava ao serviço da Rainha de Navarra sob a alçada da sua tia Bertrade Imbert. E num serviço muito próximo, já que tratava dos vestidos. Ora, Montou acabava de dizer que tinham sido atirados cinco corpos ao rio e que um deles era de mulher.

- Meu Deus - disse ele - o homem deve ter enlouquecido! Por que razão?

- Que pergunta! Porque acha que foram cúmplices da bela Margarida, ora essa! Mas, que se passa? Tendes alguém de família lá?

- Não, mas mestre Machieu sim! A filha dele... Aude, que estava ao serviço de Madame Margarida... Perdoai-me, mas tenho de me ir embora!

Esboçando uma saudação, o cavaleiro já se preparava para se afastar, mas o interminável braço de Montou estendeu-se e agarrou o seu:

- Para onde?

- Desculpai-me, mas creio que não tendes nada com isso!

- Estais enganado! Nada do que se passa em casa do Cabeçudo me é indiferente. Acontece que também temos alguém na casa dele.

- Nós?

- Vinde! Explico-vos depois. Não importa como, mas o que acabamos de saber explica os cadáveres da Torre e temos de nos reunir em conselho! Vinde, estou a dizer-vos! Não há tempo a perder se a filha daquele bravo Machieu foi apanhada na armadilha do Cabeçudo.

O tom imperioso e grave era convicto e Courtenay seguiu o antigo templário sem pedir mais explicações. Meteu com ele pelo dédalo de ruelas escuras - cinco ao todo! - e malcheirosas que tinham abrigado os Judeus até à última expulsão por ordem de Filipe, o Belo, em 1330. Aquele conjunto de ruas era um amontoado de telhados mais ou menos extravagantes, de casas leprosas e tão inclinadas por cima dos bueiros a que chamavam ruas que, por cima do ribeiro central, sempre cheio de imundícies, era perfeitamente possível dar a mão ao vizinho da frente. Havia ali pouco comércio, a não ser duas lojas de mobília velha e três tabernas que serviam de ponto de encontro aos vagabundos de toda a espécie que a má reputação da antiga Judiaria - diziam que os Judeus assavam as crianças cristãs para as comer e cujo passatempo preferido era profanar as hóstias da maneira mais repugnante - não afastara, bem pelo contrário. Apesar da presença de três igrejas em redor daquela pasta envenenada, era um sítio nada agradável de dia e francamente perigoso de noite. Até os arqueiros de piquete evitavam entrar ali durante as suas rondas.

Na peugada de Montou, Olivier penetrou numa espécie de cloaca malcheirosa. O cavaleiro desceu os três degraus de uma taberna de tabuleta ilegível onde ardiam umas velas de sebo de odor forte mas indispensáveis mesmo em pleno dia devido à sujidade das janelas estreitas e baixas da fachada. A taberna tinha algumas mesas e escabelos, nos quais estava sentada uma meia dúzia de homens de mau aspecto discutindo com o proprietário, um homenzarrão cujo ventre quase rebentava com uma camisa de tal modo cheia de nódoas que mais se parecia com um ornamento de um género um pouco estranho. De rosto avermelhado, cabelos lisos de cor incerta saindo, revoltos, do barrete cor de vinho, de nariz parecido com uma batata e olhar penetrante, o taberneiro chamava-se, normalmente, Leon, mas respondia mais frequentemente pela alcunha de Grande-Estafado por causa das queixas constantes na coluna devidas ao peso excessivo da pança e ao manuseamento das barricas. “Estou estafado!” tinha ele o costume de dizer, gemendo e segurando os rins com as duas mãos...

Quando Montou entrou, o taberneiro foi ter com ele, ao mesmo tempo que todas as cabeças se viravam, e saudou-o com uma espantosa delicadeza:

- Sois esperado, messire. Depois de terem ouvido o arauto, vieram todos para aqui.

- Era o que eu pensava. Trago um amigo. É um companheiro de Machieu de Montreuil, mas vós não sabereis o seu nome, assim como ele não saberá os vossos. No entanto, lutareis juntos esta noite...

- Onde? - perguntou um dos homens, que devia ser um antigo soldado.

O homem conservava vestígios do seu uniforme e sob a túnica desfiada via-se o aço de uma cota de malha.

- Na residência de Nesle. O que nos acabam de dizer explica os cadáveres: fechado lá dentro, o Cabeçudo tortura e mata a sua gente para tentar saber tudo sobre a infidelidade da mulher. Ora, não somente temos lá Martin Ia Caille, como este companheiro me acaba de dizer que a filha de Machieu de Montreuil, que pertencia ao serviço da dita mulher, também lá está, por isso em maior perigo do que Martin, que trabalha nas cozinhas.

- Que idade tem ela? - perguntou o antigo soldado. Olivier pensou por um momento e respondeu:

- Uns vinte anos, creio... Ela ainda era pequena quando a vi pela última vez. Foi antes do grande golpe do Rei.

Um dos presentes ergueu um sobrolho negro como carvão por cima de um olho - o outro estava escondido por uma venda - frio como o gelo:

- Éreis companheiro do pai dela e nunca mais a vistes depois disso?

A nota de desconfiança era perceptível. Montou preparava-se para responder, mas Olivier reteve-o com um gesto:

- Foi quando ela entrou para o serviço de Madame Margarida, graças a uma tia. Além disso, acontece que, quando ela ia visitar o pai, eu nunca lá estava. Chega-vos?

- Tem de chegar - interveio Pierre de Montou. - Todos nós temos algo a esconder e a nossa associação baseia-se na vontade comum de não procurar desvendar os segredos uns dos outros...

- Estou de acordo... Mas era preciso saber como é essa rapariga! Só para ter a certeza de que não era ela a que flutuava esta manhã no rio... Eu estava a pedir esmola em Saint-Germain e vi quando um irmão a atirou à água... Era uma rapariga, morena, nada feia. Quanto aos olhos, que estavam muito abertos, eram escuros...

A memória de Olivier restituiu-lhe subitamente a imagem de uma rapariga de cabelos tão louros que até espantava. O mesmo aconteceu com a cor de água límpida das pupilas que ela, a despeito da timidez, erguera por um instante para ele, corando. Não, a vítima daquela manhã não podia ser Aude e o cavaleiro afirmou-o de imediato.

- Bem - concluiu Montou. - Nesse caso, temos de entrar esta noite na residência de Nesle.

- És louco? - protestou o Zarolho. - Aquilo está cheio de homens de armas! O Cabeçudo está mais bem guardado no seu covil do que Filipe no seu palácio. Vamos deixar-nos estripar!

- Não, se soubermos fazer as coisas. Da entrada ocupo-me eu. Contentai-vos em procurar os outros. Encontrar-nos-emos na doca de Garin ao cair da noite. No caso de alguns se sentirem com falta de coragem - acrescentou ele - pensai em três coisas: devemo-lo a Machieu de Montreuil, que sacrificou tudo pelo Grão-Mestre e que, a menos que nos mantenhamos escondidos, estamos todos inscritos na lista do carrasco façamos o que fizermos e, por fim, que a residência de Nesle encerra o suficiente para nos encher as bolsas, na condição de não nos aproximarmos dos objectos demasiado grandes!...

Em seguida, virando-se para Grande-Estafado:

- Dá-nos pão, presunto e um jarro de hipocraz (1). Vou a minha casa com o meu amigo!

Enquanto os outros se reinstalavam nas suas mesas para terminar o que tinham nos púcaros, Montou, munido de um tabuleiro com o que tinha pedido e de uma vela que entregou a Olivier, dirigiu-se a um canto escuro de onde partia uma escada íngreme, pelo meio da qual se chegava, no alto da casa, a um sótão que ocupava a totalidade do espaço entre as duas empenas do telhado muito inclinado. Havia ali uma enxerga de tela grossa com dois cobertores bem dobrados por cima e algumas roupas cuidadosamente arrumadas numa arca aberta. Para surpresa de Courtenay, aquela pequena divisão estava asseada e perfeitamente em ordem. O seu espanto foi tão evidente que o seu anfitrião desatou a rir:

- É verdade, os bons hábitos não se esquecem. Uma vez templário, fica sempre qualquer coisa! Mas sentai-vos e comecemos por comer e beber qualquer coisa!

Comeram e beberam em silêncio - sempre os hábitos da Ordem! - sem esquecer o Benediáte e a acção de graças. A vantagem estava em poderem pensar sem deixarem de restaurar as forças, mas, mal terminaram, Olivier perguntou:

 

(1) Vinho açucarado, no qual se faz uma infusão de canela ou de cravo-da-índia.

 

- Tencionais mesmo entrar em casa do Cabeçudo esta noite? Eu nunca prestei grande atenção à residência de Nesle. No entanto, parece-me que, protegida pela muralha de Paris, é quase inexpugnável...

- Nós não vamos tomá-la à força, vamos introduzir-nos nela. Os detritos e as gorduras saem todas as noites das cozinhas e são atirados ao rio. É essa porta que vamos vigiar e é por ela que vamos entrar...

- Sem ferir ninguém?

- Não foi o que eu disse e espero que isso não vos meta medo! Temos de nos desembaraçar dos guardas, ao mesmo tempo que os nossos companheiros imobilizam os moços de cozinha...

- Sem dúvida - continuou Olivier, fazendo de advogado do diabo para se inteirar melhor do plano imaginado por Mantou - mas como?

- Para eles, temos isto...

Montou dirigiu-se ao centro do sótão, a sua cabeça atingindo quase o vértice da empena e as suas mãos procuraram qualquer coisa que tinha escondida entre as vigas e a cobertura do telhado. O que Olivier viu aparecer era um grande arco de freixo que Montou lhe estendeu antes de tirar, de outro local, um monte de longas flechas.

- Imagine-se! - sussurrou Olivier, siderado e acariciando a madeira lisa e experimentando, com o dedo, a firmeza da corda.

- Onde encontrastes uma arma destas?

- Não se “encontra” esse tipo de objecto. Compra-se, se se tem os meios necessários, ou rouba-se!

- Roubar? - emitiu Olivier sem reter uma careta. - A vossa estadia em Beaugency não vos curou desse... defeito?

Montou inclinou-se, segurou o seu convidado pelos ombros e olhou-o fixamente:

- Aquilo a que chamais de defeito permite-me viver... tal como os que estão lá em baixo. São, todos eles, vagabundos e, se o são, não é por vocação, antes porque todos, entendeis, todos têm queixas do Rei e, em determinado momento das suas vidas, foram todos socorridos pelo Templo. Um ou dois deles até são antigos sargentos, enquanto outros vêm de companhias de construtores, como vós. Outros ainda são autênticos ladrões de coração, mas quando regressei a Paris sem um vintém no bolso, quase a morrer de fome, eles ajudaram-me, assistiram-me, puseram-me de novo de pé... e ensinaram-me um ou dois truques. Neste momento, sou o seu chefe e não há nenhuma razão para que os prive de encherem os bolsos quando a ocasião se presta. Compreendido?

- Oh, fostes muito claro e peço-vos que me perdoeis se vos ofendi...

O cavaleiro continuava a manejar o arco como homem apreciador da força, ao mesmo tempo que uma ideia lhe germinava na cabeça.

- ... Um arco desta potência deve alcançar longe! Aposto que... do telhado desta casa, por exemplo, é possível atingir o portal de Notre-Dame! Sem grande dificuldade!

A espessa barba de Montou abriu-se num largo sorriso:

- Sem grande dificuldade para vós, talvez, mas não para um arqueiro qualquer. Quereis tentar?

- Não, obrigado. Penso que não serei capaz. É preciso ser verdadeiramente muito aguerrido e hábil e eu só queria ter a certeza de que tínheis sido mesmo vós. O que fazeis é uma loucura porque arriscais sempre a vida, mas confesso que vos admiro!

- Achais? - perguntou Montou, trocista. - Fazer tremer o bispo e os cónegos gordos e dar a Notre-Dame esta voz vingativa é um prazer sublime. Inquietar até aquele Rei sem piedade, que embriaguez! Vale bem a vida, podeis ter a certeza! E a minha, finalmente, não vale grande coisa!

- Vale o que vale a causa que defendeis... Muito cara, na ocorrência... Mas, e se falássemos da residência de Nesle? O assunto vai ser quente, tenho a impressão e eu só tenho esta faca para vos ajudar, apesar de saber servir-me dela! A minha arma preferida é a espada - acrescentou ele com um suspiro.

- É só pedir!

De um outro canto do vigamento, Pierre de Montou tirou uma longa espada de aço azul cujo punho e guardas estavam incrustados de filigrana dourada, pegou nela pela ponta e estendeu-lha esboçando o gesto de pôr um joelho em terra.

- Pegai nela sem receio de me ofender - disse ele tranquilamente. - Tenho outra... Ah, já me esquecia: roubei-a numa noite amena a um janota que nem sequer sabia tirá-la da bainha! Sentis-vos contrariado?

Dessa vez, Olivier desatou a rir. Uma boa risada, alegre e satisfeita: o diabo do homem era irresistível! Para além de que aquela espada era a mais magnífica que empunhava há muito tempo! Uma arma esplêndida - mais pela qualidade do metal do que pela ornamentação, que era bastante modesta! - bem melhor do que a que Machieu lhe entregara no momento de se lançar em socorro de Molay e de Charnay e que deixava, evidentemente, em Passiacum quando ia a Paris.

- Venha ela de onde vier, pouco me importa! - exclamou ele. - Encheis-me de alegria... meu irmão!

-Já nem me lembro da última vez que alguém me chamou assim... mas é bom ouvir! - disse Montou subitamente muito sério.

Sem uma palavra, os dois homens olharam-se nos olhos, aproximaram-se um do outro e, tal como no interior do Templo, o punho fechado de um bateu na omoplata do outro. Naquele momento, reconheceram-se como dois membros de uma fraternidade templária, na qual tinham esperado viver e morrer. E que já não existia...

- Como é que vamos fazer? - perguntou Courtenay, passado aquele momento de emoção.

O plano era relativamente simples: a única entrada praticável era na base da Torre, ao nível da água, muito mais baixa, portanto, do que a porta principal que dava para a ponte levadiça sobre o fosso constituído por um braço morto do Sena. Esperariam pela saída dos despejos depois de Montou ter abatido os dois soldados de guarda àquela saída e lançar-se-iam na praça matando aqueles que tentassem opor-se.

- Libertaremos o mais possível de servidores em perigo. Eu ocupar-me-ei de Caille, bem entendido, enquanto vós procurareis a filha de Machieu... É preciso tentar levá-la para junto do pai.

- Nesse caso, preciso de uma barca. Machieu está refugiado em Passiacum com o filho, a mulher e a mãe - disse ele calmamente.

- Eu bem sabia que, se estivesse vivo, devia estar algures nas margens do rio. Tereis a barca... Talvez até várias para os outros cativos, a menos que prefiram fugir pelos campos.

- São muitos?

- Uns vinte, certamente, não contando com os que já estão mortos. As damas do serviço de Madame Margarida e alguns do Cabeçudo. É verdade que são muitos - acrescentou Montou, bruscamente pensativo. - Não sei quantos esquifes encontraremos no areal de Saint-Germain...

- Em caso de grande dificuldade, não poderemos pedir asilo para eles em Saint-Germain-des-Prés? Pierre de Montreuil, o pai de mestre Machieu, repousa na igreja junto da mulher...

- É uma ideia, de facto, mas só a utilizaremos se as coisas correrem mesmo mal...

O resto do dia passou-se a afinar os pormenores da expedição tanto quanto os podiam imaginar. Repousaram também um pouco e, quando chegou o crepúsculo, armaram-se. Montou, munido de dois punhais, pôs o arco e as flechas a tiracolo e, em cima de tudo, um manto cor de fumo cheio de buracos e rasgões, mas que o cobria da cabeça aos pés. O antigo templário arranjou um parecido para Olivier para que este escondesse a espada que levava à cintura e, por fim, depois de terem apagado a vela com um sopro, aberto por um instante a janela para “cheirar” a noite, como ele dizia, desceram à sala onde só estava Grande-Estafado a lavar as canecas numa bacia cheia de água.

- Regressais esta noite? - limitou-se ele a perguntar.

- Não posso dizer, sequer, se regressarei. Se não puder... e a menos que morra, espero poder prevenir-te, para que possas alugar de novo o meu quarto...

- Não vos preocupeis com isso! Ninguém virá durante muito tempo. Aqui, estais em vossa casa...

Sem dizer nada para esconder, talvez, alguma emoção, Montou pousou uma mão no ombro do gordo, mão que este apertou. Um minuto mais tarde, ele e o companheiro deslizavam por uma ruela obscura em direcção ao Porto de Saint-Landry. Tinham decidido que seria mais prudente apanhar ali uma barca para chegar à Torre de Nesle pelo Sena. Na condição, bem entendido, de encontrar uma, porque, se as barcaças que transportavam as belas pedras brancas que eram arrancadas para a catedral das pedreiras de la Bièvre, perto de Saint-Victor - inúteis visto que já ninguém trabalhava - ainda lá estivessem, eram demasiado pesadas para serem manobradas apenas por dois homens. Pelo contrário, as pequenas barcas não deviam lá estar por ordem do preboste desde a tentativa de rapto do Grão-Mestre e do seu companheiro. Montou sabia-o, mas esperava que, perto do priorado de Saint-Denis-de-la-Châtre, estivesse, pelo menos, a dos monges.

E estava. Sem fazerem o menor ruído - um, Olivier, aos remos e o segundo, Montou, encarregando-se de afastar a embarcação da margem e evitando ao mesmo tempo fazer tilintar a corrente de amarração - os dois homens conseguiram lançar-se na corrente, felizmente mais tranquila do que na noite trágica.

O rio estava sombrio naquela noite. Com o cair da noite, grossas nuvens, vindas do mar, tinham coberto a cidade, ameaçando despejar uma chuva que, entretanto, se recusava a cair. Como o vento, subitamente, deixara de soprar, tinham ficado ali sobre Paris como um pesado cobertor, mas, pelo menos, a noite estaria mais escura, mais propícia a fugas.

O barco deslizou sem dificuldade ao abrigo das margens da Cite, ladeou o priorado e o Palácio, depois de ter transposto a passagem entre os moinhos da Grand-Pont, o Jardim do Rei e depois a ilha dos Judeus, plana e nua, um terreno onde já nem as ovelhas iam pastar, vazia de qualquer sinal de vida devido ao medo e à superstição... Quando ultrapassaram a ponta, a alta silhueta da Torre com a sua coroa de ameias e a sua roldana para fazer subir os materiais estava na sua frente. Para a atingirem, obliquaram até a ultrapassar, tal como o braço morto que se lhe juntava no ângulo direito, acostando no que era então o pequeno Pré-aux-Clercs, onde os estudantes dos colégios e os homens do rio regulavam os seus diferendos e se divertiam longe das vistas da patrulha, em duas ou três tabernas e outros estabelecimentos mais ou menos sórdidos que enxameavam ao longo daquele campo separado da abadia de Saint-Germain-des-Prés por um carreiro.

A espelunca de Garin, o Normando, era uma dos mais bem fornecidas, mas também a mais próxima da residência de Nesle. Bebia-se ali vinho de Suresnes de tal modo verde que provocava pele-de-galinha - o taberneiro fazia infusões de ervas com ele, capazes de ressuscitar um eunuco - e também uma cerveja tão boa como noutro sítio qualquer. Uma meia dúzia de prostitutas anafadas concorriam para a fama da casa e até alguns senhores iam ali acanalhar-se, fiando-se na reputação de discrição de Garin, a quem também se podia chamar Mudo, se tivesse nascido em Honfleur. O homem via tudo, mas nunca dizia nada. A sua taberna fazia, quase ao nível da água, uma espécie de inchaço que, à noite, se parecia com um grande gato deitado por causa dos dois clarões projectados na sombra pelas suas janelas.

Seguido de Courtenay, Montou entrou nela como um cliente habitual e viu que os seus homens já lá estavam, misturados com um punhado de estudantes que se mantinham estranhamente calmos. Nenhuma rapariga entre eles, o que também era surpreendente. Com o olhar, Montou interrogou Garin. Este respondeu-lhe com um gesto de cabeça na direcção do exterior. Naquele instante preciso ouviu-se um grito que traduzia um sofrimento insuportável. Como uma mola, um dos estudantes pôs-se de pé, cerrando os punhos que tinha apoiados na mesa. Tornara-se tão pálido que a diferença, entre a sua pele e as madeixas louras que lhe saíam do gorro, era mínima.

- Aquele filho da puta nem sequer tem a decência de fazer aquilo no fundo de uma cave! Todo o mundo tem de saber que está a massacrar a sua gente!

- Deve pensar - disse Montou - que, inspirando o medo, conseguirá que esqueçam que é corno.

- Ninguém o esquecerá e lembrar-lho-ão sempre! Entretanto, temos de ouvir isto! Até as raparigas se foram embora porque, mais uma vez, é uma mulher que grita...

A dúvida não era possível. Um segundo grito ultrapassou os muros da residência.

- Quem vos obriga a ficar? Ide-vos embora! - disse Montou com desdém...

- Eu - exclamou Olivier, levando a mão à sua espada - não escutarei durante muito mais tempo...

O cavaleiro já ia a sair, mas Montou deteve-o com uma mão de ferro.

- Ainda não chegou a hora - disse ele com o olhar fixo na vela marcada com traços regulares que ardia sobre o pano da chaminé (1). Os despejos só vão ser feitos dentro...

- ... de um quarto de hora - terminou Garin. - Lá em cima, a festa ainda agora começou. Ontem, durou a noite toda...

Aparentemente insensível, o taberneiro pusera-se a atiçar o fogo, mas Olivier sentia-se incapaz de estar quieto sem tentar nada para salvar a infeliz que o Cabeçudo supliciava. Sentia-se enlouquecer só de pensar que podia tratar-se de Aude, a pequena loura de grandes olhos límpidos...

- Eu vou lá e não tenteis impedir-me. Sou muito capaz de abater os dois guardas na margem...

- Depois de ter passado o fosso a nado? E como ides abrir a porta? - grunhiu Montou. Ela é sólida, podeis acreditar... Além disso, deve haver soldados nas seteiras. Eles são capazes de atirar.

- Está escuro como bucho - troçou Olivier. - Não verão nada. E eu recuso-me a continuar a ouvir este horror porque a que sofre pode muito bem ser a filha de Machieu e se não faço tudo para a salvar, não conseguirei olhá-lo de frente.

- Vou convosco! - exclamou o estudante. - Só tenho uma faca, mas sei servir-me dela... O meu nome é Gildas d'Ouilly!

Os seus camaradas levantaram-se também, todos ao mesmo tempo:

- Nós também vamos! Fora com o Cabeçudo!

- Chega! - berrou Montou. - Começai por vos calar e, por que não, ide buscar uma trompa para avisar os soldados de Luís de que estais a chegar!

A saída para o exterior efectuou-se no maior silêncio, mas parou imediatamente. De facto, a noite estava muito escura. Depois da zona pouco iluminada pelas luzes da taberna, os olhos

 

(1) Aquela maneira de contar as horas fora utilizada por São Luís para dividir o tempo durante a noite, espaço de tempo em que rezava muito, em parcelas mais ou menos iguais.

 

ficaram cegos por uns momentos. De pé sobre a ponta de terra em frente da Torre, o cavaleiro e o estudante olharam para a estreita janela iluminada. Era dali que vinham os gritos...

- Aquele malvado deve estar a ajustar contas no próprio quarto onde Margarida e a prima recebiam os amantes - escarrou Gildas com nojo.

Olivier não respondeu e depois de ter embainhado a espada e tirado a faca que colocou entre os dentes, deslizou para a água negra sem o menor ruído. Gildas já ia imitá-lo, mas imobilizaram-se os dois: a porta da Torre acabava de abrir-se, dando passagem a um clarão que revelou dois homens carregados com um corpo metido num saco. Estes aproximaram-se da margem e, sem se darem ao trabalho de fazer balanço, deixaram cair o seu fardo no rio sob o olhar interessado dos soldados com quem trocaram algumas palavras em voz baixa. Enquanto isso, Olivier tinha nadado até ao ângulo formado pela Torre e a muralha de Paris, e içara-se para a margem à força de punhos, logo imitado por Gildas.

Um sopro breve cobriu o ruído, aliás ligeiro, da sua saída da água, seguido imediatamente por outro. Uma dupla de flechas de uma precisão e rapidez incríveis, acabava de mergulhar na garganta dos homens de armas, que caíram aos pés dos servidores estupefactos.. Uma terceira flecha atingiu um deles, ao mesmo tempo que Olivier caía sobre o dorso do sobrevivente e lhe apertava o pescoço com o antebraço:

- Um só grito e morres! - sussurrou ele ao ouvido do homem aterrorizado, que se esforçava por recobrar o fôlego e que conseguiu acenar com a cabeça para mostrar que tinha compreendido.

Sem abrandar o aperto, Olivier perguntou:

- O Cabeçudo? Ele está lá em cima? Novo aceno afirmativo.

- Quantos estão com ele?

Sentindo um ligeiro abrandamento, o homem conseguiu murmurar:

- Quatro...

- No alto da torre há guardas?

- Não... Madame Margarida não queria... e ele também não!

Foi Gildas que fez a pergunta seguinte:

- O que é que estava dentro do saco? Um homem? Uma mulher?

- Uma mulher... que pertencia ao serviço de Madame...

- Repescaram-na - disse, sempre com voz contida, Montou, que chegava com o arco a tiracolo e uma espada na mão. Não é uma rapariga, é uma mulher de idade madura...

Olivier sentiu um alívio no coração. Graças a Deus, não era Aude! No entanto, o seu prisioneiro, dando provas de boa vontade e constatando que não o iam matar, acrescentou:

- Mas... lá em cima há uma rapariga. Chegou a vez dela e... é tão bela!

Incrivelmente, o homem começou a chorar. Olivier largou-o por completo, mas agarrou-lhe de imediato por um braço.

- Leva-nos lá e, se queres ser poupado, não faças asneiras! Com uma olhadela, o servo avaliou o grupo de assaltantes, do qual alguns atiravam à água os corpos das vítimas de Montou. Curiosamente, o seu rosto iluminou-se:

- Vinde! - sussurrou ele. - Depressa! Não está ninguém na escadaria, só no patamar.

De facto, a longa e estreita escada de caracol estava vazia. O grupo, ensopado, lançou-se por ela acima sem fazer ruído. No entanto, foram forçados a subir mais depressa quando, mais ou menos a meio, ouviram uma voz soluçante que dizia:

- Não! Por piedade, isso não!... Não quero! Oh, meu Deus! Um sopro de cólera inflamou Olivier que, empurrando o seu prisioneiro, subiu quatro a quatro os últimos degraus, viu diante de si dois guardas absorvidos pelo espectáculo que observavam através de uma porta entreaberta. Não só não tinham ouvido nada, como tinham encostado as alabardas à parede para poder ver melhor. Até se empurravam um ao outro, tal era o interesse. Olivier e Gildas caíram-lhes em cima com a rapidez de um raio. No segundo seguinte os dois homens jaziam por terra com uma faca enfiada entre as espáduas e de imediato retirada. Os dois homens irromperam na grande câmara que fora a dos amores trágicos das princesas. Esta mantinha, em parte, a mesma decoração quente tão querida de Margarida: tapetes, divãs à maneira do Oriente cobertos de peles e almofadas escarlates tecidas a ouro, uma credencia com jarros e vasos, um grande pote de bronze dourado para queimar perfume, uma chaminé cónica cuja ponta chegava ao cruzamento das ogivas da abóbada, mas naquela abóbada estava presa uma roldana com uma longa corda que não fazia, certamente, parte do mobiliário original - assim como o arsenal de tenazes, fustes e ganchos que, na chaminé, esperavam que fizessem uso deles.

Estavam presentes cinco homens: o Cabeçudo, de calças e camisa aberta no peito magro, estendido languidamente no meio dos tecidos sedosos de um leito baixo com uma taça na mão e, a seu lado, uma caixa cheia de guloseimas, enquanto os quatro restantes não eram outra coisa senão carrascos. Também estava presente uma mulher e era ela a supliciada. Olivier, tomado por uma espécie de deslumbramento, só a viu a ela.

Acabavam de lhe arrancar as roupas e a jovem estava de pé, nua como Eva antes do pecado, por baixo da roldana com cuja corda dois dos homens lhe estavam a ligar os pulsos atrás das costas cobertas pelos longos cabelos claros e sedosos. Tetanizada pelo medo, Aude mantinha-se muito direita sem poder esconder o corpo encantador de cor rosada do qual, no entanto, emanava uma graça incrível. Formas perfeitas, a juventude suave da curvatura dos seios e das ancas, as pernas longas e flexíveis, nada faltava àquela beleza assim relevada que o templário, no espaço de um relâmpago, compreendeu nunca mais poder esquecer-No momento da sua entrada, o Cabeçudo estava a dizer: - Despacha-te, rapariga! Ou vens a mim de bom grado ou vais ficar a saber o que é sofrer...

A ameaça era de uma simplicidade diabólica: bastava puxar a corda para fazer subir primeiro os braços e depois o corpo, deslocando os ombros cujos músculos, tendões e nervos se rasgariam...

A entrada brutal de Olivier, de espada na mão, fez virar a cabeça de Aude e os olhos vermelhos e cheios de lágrimas da jovem encheram-se de uma alegria dolorosa porque incrédula, como se o arcanjo Miguel em pessoa acabasse de lhe aparecer, mas um arcanjo prisioneiro de um sortilégio que o petrificava. Ele que, desde sempre, fugira da mulher cuja força desdenhava, cuja beleza nunca quisera contemplar, que só via nela uma armadilha contra a pureza da sua entrega voluntária ao Senhor... e que, apesar de tudo, soubera controlar os desejos normais do seu corpo através da ascese e da oração, via-se confrontado com a divina revelação de um corpo de rapariga e de um rosto adorável em pranto.

Demorou apenas um instante muito breve, mas que teria sido, sem dúvida, a perdição de ambos se Olivier tivesse aparecido sozinho. Mas Gildas, Pedro de Montou e uma meia dúzia dos seus companheiros tinham entrado logo a seguir e as últimas palavras do Cabeçudo tinham-se-lhe estrangulado na garganta, sobre a qual Gildas se lançou. O jovem preparava-se para lha cortar quando um grito de Montou o deteve:

- Não! Não o mates!

O grito acordou Olivier do seu transe. A sua espada caiu uma primeira vez e depois uma segunda. Os carrascos caíram... e logo a seguir Aude, desmaiada... arrastando consigo a corda que lhe atava os pulsos. Olivier deixou-se cair de joelhos junto dela sem ousar tocar-lhe. Montou apercebeu-se. Irritado, disse-lhe:

- Por que esperas, com os demónios? Liberta-a! Leva-a para o outro leito e cobre-a com o que encontrares...

Como um autómato, Olivier obedeceu, desatou a corda e ergueu o corpo inerte. Quando as suas mãos tocaram na pele suave da jovem, sentiu um arrepio ao longo da espinha, delicioso, mas tão violento que, por um instante, pensou que morreria. O cavaleiro apertou-a contra o peito, invadido por uma vontade louca de fugir com ela para longe daquela gente que a tinha contemplado em toda a sua beleza, daquele quarto criado para o amor e transformado num local de sofrimento e, finalmente, daquele príncipe que, só porque ela não queria ser sua escrava submissa, se preparava para a massacrar, gozando com o seu sofrimento... A esse, matá-lo-ia.

Pousando Aude no meio das almofadas, cobriu-a com um tecido sedoso, interditando as suas mãos de se demorarem nela mais do que o necessário. No entanto, não resistiu à necessidade de lhe acariciar os cabelos claros e suaves como o linho, esquecendo por completo onde estava e o que se passava à sua volta... Finalmente, foi a voz azeda e trémula de ira do Cabeçudo que o tirou do seu transe:

- Dei... deixai-me! - gaguejou ele. - Não me... toqueis! Isto é... é... lesa-majestade... Sereis todos puxados por quatro cavalos!

- Tu é que mereces ser puxado por quatro cavalos, príncipe mau! - grunhiu Montou - mas fica descansado, vais viver! Matar-te seria demasiado fácil. É melhor que vivas para servires de troça ao povo, mais coberto de ridículo do que já estás! Vamos fazer de maneira a que... ele se divirta mais um pouco à tua custa. Vamos! Pegai nele e atai-o como uma galinha! Mas, primeiro, metei-lhe uma mordaça na boca para não o ouvirmos!

- Por que deixá-lo vivo? - grunhiu Olivier. - Este homem é um monstro que só sabe fazer mal! E, um dia, vai herdar o reino.

- Justamente! Trata-se de evitar que os nossos camaradas e nós mesmos sejamos esquartejados. Quando ele for rei, se isso vier a acontecer, trataremos dele!

- É melhor despacharmo-nos - disse Gildas, que se aproximara de Aude e esforçava por fazê-la beber um pouco de vinho para a reanimar. - E é preciso levá-la daqui... Meu Deus, como é bela!

- Eu sei onde está a família dela e vou levá-la para lá - disse secamente Olivier, sentindo um aperto estranho no coração ao ver o jovem a tratar de Aude - coisa que, paralisado pelo seu sonho acordado, não pensara em fazer. - Vamos para a barca.

- Encarrega-te disso! - ordenou Montou, que acabava de atar o Cabeçudo e o colocava, com os braços e as pernas atados atrás, numa posição tão desconfortável quanto grotesca, ainda por cima com um espeto entre os membros, como se estivesse pronto para ser assado. - Eu e os meus companheiros vamos à procura de Caille e dos outros infelizes que este demónio queria matar...

- Não tendes de ir muito longe - disse o servidor que os tinha guiado e que estava a gostar do espectáculo. - Eu levo-vos lá e depois fujo. O pessoal da residência tem ordem para não se aproximar da Torre, por mais sons que ouçam, mas as sentinelas do Louvre, do outro lado, podem muito bem perceber que se passam aqui coisas pouco naturais...

Antes de abandonarmos o local, os vagabundos de Montou roubaram tudo o que encontraram que não fosse demasiado grande ou pesado. Os estudantes, esses, ajudaram Gildas a envolver Aude no cobertor e a levá-la até à margem. Olivier, de olhar sombrio, não interveio, contentando-se em pegar na roupa da jovem antes de meter pela escada abaixo... O cavaleiro sentia-se gelado e não era por causa da roupa molhada. No peito, o coração doía-lhe...

A margem estava deserta, com excepção da barca de Montou e do que ela continha: um dos estudantes estava debruçado sobre o saco retirado do rio e que alguém tinha rasgado de uma ponta à outra com a ajuda de uma faca. Ao ver chegar Olivier, o jovem aproximou-se dele:

- É mesmo uma mulher - disse ele - mas já não é nova e deve ter sofrido muito. Ainda respira e vomitou muita água. Mas não tenho nada para a reanimar...

Olivier atirou a sua carga para dentro da embarcação e regressou à Torre a toda a velocidade, empurrando Gildas, que carregava Aude com o ar de um bem-aventurado transportando o Santíssimo Sacramento e nem sequer olhar para ele. O cavaleiro apoderou-se do frasco que o estudante utilizara anteriormente e regressou com a mesma velocidade, tendo o cuidado, dessa vez, de não o empurrar.

- Tomai! - disse àquele que estava a tomar conta da mulher. - Tentai obrigá-la a beber isto. Eu ajudo-vos.

Ajoelhando-se junto dela, o templário soergueu suavemente os ombros nus da vítima. Nem se tinham dado ao cuidado de lhe vestir, pelo menos, uma camisa, antes de a fecharem no saco e quando a luz débil vinda da porta a iluminou, Olivier pôde ver as queimaduras que lhe enchiam o corpo já marcado pela idade. O cavaleiro viu também um rosto lívido ainda crispado pela dor, de narinas apertadas, de pálpebras azuladas fechadas sobre os olhos, e sentiu-se extremamente emocionado porque aquela infeliz era Bertrade...

Olivier conseguiu forçar os dentes apertados para lhe meter na boca algumas gotas de malvasia e que, a princípio, lhe escorriam pelo canto dos lábios; à terceira tentativa, a dama engoliu-as. Um momento depois, Bertrade abriu os olhos, que se fixaram no rosto debruçado sobre o seu:

- Sois... vós?

- Sou. Como vos sentis?

- Mal...

A dama começou subitamente a arquejar e o seu corpo arqueou-se sob o efeito de uma violenta dor.

- Oh... o meu coração!... Aude! É preciso acudir-lhe... Deixai-me... Ide! Ide depressa! Ela ama-vos!

Foram as suas últimas palavras. No preciso instante em que Gildas chegava com a jovem semi-inconsciente, Bertrade entregava a alma ao Criador nos braços de Olivier.

O cavaleiro não teve tempo de perceber o que acabava de ouvir. Após uma curta hesitação, Gildas depositou Aude no outro extremo da barca após ter constatado que havia mais alguém à proa. Por prudência, tinham apagado o archote da escadaria e não se via grande coisa. O que era preferível porque os assaltantes saíam uns atrás dos outros e deslizavam ao longo da base da Torre em direcção à Petit-Pont. Sombras silenciosas mais ou menos disformes pelo que transportavam consigo: os estudantes regressavam ao colégio, os vagabundos às suas tocas e os que Montou acabava de libertar partiam para onde achavam melhor. O falso mendigo foi o último a sair, fechando cuidadosamente a porta atrás de si. Tinha o arco na mão e aproximou-se da barca onde Gildas estava a perguntar por que diabo tinham achado bem repescar um cadáver.

- Fui eu que assim quis - respondeu ele. - Queria saber quem era a vítima e fiz bem, porque ela ainda estava viva.

- Mas já não está - disse o rapaz que tinha tratado de Bertrade. Acaba de morrer. Talvez fosse melhor atirá-la de novo ao rio?

- Certamente que não! - grunhiu Olivier. - Essa mulher é a cunhada de mestre Machieu, a tia de...

O seu olhar virou-se para a jovem encostada à amurada. Esta já devia ter recuperado a consciência: a sua cabeça estava a endireitar-se e olhava em volta de olhos muito abertos mas sem parecer compreender.

- Vou levá-las às duas para junto da família! - disse ele num tom que não admitia réplica.

Gildas propôs:

- Deixai-me ir convosco! Esta barca é demasiado pesada para um homem só.

- Obrigado, mas não. Machieu é procurado...

- E temeis que eu o denuncie? Ofendeis-me, messire! Eu estou a estudar para ser médico e clérigo... mas sou fidalgo. Permiti que vos ajude!

Enquanto falava, o seu olhar não cessava de se virar para Aude. Os olhos da jovem estavam fixos, as lágrimas corriam-lhe pelas faces e ela continuava a não dizer nada. Nenhuma palavra saía dos seus lábios trémulos, senão um pequeno queixume bizarro e suave. Olivier compreendeu então que podia confiar naquele rapaz, porque o estudante tinha ficado simplesmente apaixonado pela bela rapariga. Mas o que ele não compreendeu foi por que razão a ideia lhe desagradava e não pôde deixar de troçar:

- Tendes a certeza de que quereis ser clérigo?

- Sou o mais novo e ainda não tenho a certeza... Simplesmente, tomei gosto pelos estudos e desejo saber tratar dos outros.

Vendo, sem dúvida, que se estava a perder tempo demasiado, Montou intrometeu-se:

- Aceitai! - aconselhou ele Olivier. - Eu conheço suficientemente os homens para responder por esse - acrescentou ele com um sorriso que a obscuridade não dissimulou. - Até estou persuadido de que Machieu acaba de ganhar um companheiro fiel...

- Por que não vindes vós também?

- Para mim, a noite ainda não acabou. Ainda tenho que fazer - continuou ele acariciando a longa curva de freixo polido do seu arco.

- Outra mensagem?

- Ainda não acabei com o Cabeçudo! É preciso que o povo de Paris saiba o que lhe aconteceu! Amanhã vai haver muito risota nos bairros todos! Foi com esse objectivo que o poupei. Até à vista, companheiro! Se precisardes de mim, sabeis onde encontrar-me...

O ex-templário pôs o arco a tiracolo e o manto por cima, segurou no braço do rapaz que socorrera a pobre Bertrade e afastou-se, como os outros, ao longo da margem.

- Bem! - suspirou Olivier. - Se queremos chegar antes do nascer do dia, é melhor pormo-nos a caminho!

Gildas instalou Aude o melhor possível, cobrindo-a com o próprio vestido para que ficasse o mais quente possível. A noite estava fresca e parecia que ia ficar ainda mais. Olivier fechou os cantos do saco em que estava metido o cadáver e depois instalou-se aos remos sem esperar que Gildas fizesse o mesmo. Sem esforço aparente, o cavaleiro lançou o esquife pelo rio abaixo em busca da corrente. A embarcação era pesada, mas o filho de Sancie, ainda inconsciente da estranha mudança que se operava no seu espírito, tinha necessidade de fazer esforço físico, de fazer trabalhar os músculos do corpo poderoso que a natureza lhe dera para provar que continuava a ser o mesmo homem, que nada mudara. Remando como um condenado, procurava as palavras das suas orações familiares. Mas estas escapavam-lhe. Entretanto, não conseguia desviar o olhar da forma imóvel cujas formas se adivinhavam sob o tecido. O ritmo que o cavaleiro impunha a si próprio era infernal. Olivier não quis que Gildas o ajudasse. Queria ser o único a levar Aude ao seu pai e o outro não insistiu.

Aquele ritmo de condenado às galeras fez-lhe bem. Assim como as lágrimas que lhe corriam pela face sem que disso se desse conta...

 

                                 OS ÓRFÃOS

Acocorado na pedra da lareira, com os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos, Hervé chorava. A sua volta era o silêncio, nenhum dos três homens que o observavam ousavam intervir, mesmo Olivier, perturbado com a dor daquele amigo que nunca, até então, vira chorar. E como seria possível qualquer consolação para um homem que, já pisado e proscrito, despojado de tudo salvo da sua honra, acabava de saber que, por causa da loucura dos seus sobrinhos, até essa honra lhe era negada? Porque a lei feudal era impiedosa: quem atentasse contra a majestade real devia ser punido com a morte ignominiosa, ter os seus bens confiscados, os seus castelos destruídos, assim como os da sua família, as suas armas quebradas pela mão do carrasco, o seu nome desonrado e para sempre riscado das listas da cavalaria, assim como dos registos da nobreza.

Incapaz de assistir por mais tempo ao desgosto e à humilhação de um homem cuja rectidão, coragem e generosidade conhecia melhor do que ninguém, Olivier sentou-se junto dele, ombro contra ombro, mas sem tentar tocá-lo mais de perto:

- Há anos - disse ele - que o Rei Filipe, ao esmagar o Templo, nos obriga a viver escondidos e com nomes fictícios. Fez de ti um lenhador e de mim um pedreiro que já estaria morto não fora a caridade de mestre Machieu... a notícia terrível que tive a infelicidade de te trazer não muda grande coisa...

Hervé deixou cair as mãos, virando para o seu amigo uma máscara de aflição:

- Pensas que estou a chorar por mim? Como acabas de dizer, já não somos nada, nem um nem outro! É por eles que choro, por aqueles pobres rapazes a quem infligiram uma eternidade de tormentos! Não que os esteja a desculpar: eles deviam saber o risco que corriam por amar tão alto, por ousarem àquele ponto. Mas Gautier era meu afilhado e se dou graças a Deus pela morte do meu pai, que não viu assim o desmoronamento da sua casa, ainda falta o meu irmão...

- Que te recusou asilo quando tu precisavas...

- Isso tem pouca importância e não é ele que me atormenta, mas sim Inês, a mulher de Gautier e, sobretudo... sobretudo os filhos! Que vai ser deles? Só têm três e quatro anos e o mais miserável dos homens pode desprezá-los, caçá-los, como se fossem dois animais selvagens... É essa a ideia que não suporto!

- A tua sobrinha não é uma Montmorency? São os primeiros barões do reino. A espada de condestável passa quase de pai para filho...

- Serão os primeiros a tentar apagar os vestígios do escândalo. Na melhor das hipóteses, Inês será encerrada num convento e os filhos noutro, senão pior. Naquela nobre casa não se cultiva a ternura. Apenas contam a grandeza do nome e o brilho das alianças, e apressar-se-ão a esquecer aquela que concluímos com nós próprios, sepultados sob o sangue de Filipe e Gautier. As tenazes do carrasco arrancaram-nos até o direito de existir...

- É abominável, eu sei... Mas, que podes fazer? Que podemos fazer? - rectificou Olivier. - As minhas causas sempre foram as tuas e as tuas serão sempre as minhas!

Naquele instante, a voz de Machieu, que se mantinha sentado num banco ao fundo da sala, afastado dos dois amigos e com o filho junto de si, fez-se ouvir:

- Eu digo-vos o que podemos fazer: vingá-los!

- Sem dúvida - disse Olivier levantando-se - mas é assunto nosso, não vosso! Vós e a vossa família já sofrestes o suficiente para agora agravardes ainda mais o vosso fardo!

- O vosso assunto, dizeis? Quando acabais de trazer a nossa filha meio louca e o cadáver torturado da nossa querida Bertrade?

Eram as primeiras palavras relativamente calmas que ele articulava desde que, ao cantar do galo e incapaz de conciliar o sono por causa da ausência de Olivier, velava ao canto da lareira com Remi e Hervé e ao vê-lo surgir na noite com a sua filha desfigurada pelas lágrimas nos braços, inconsciente e envolta num cobertor de veludo púrpura. Depois de lha ter entregado com uma breve explicação, o cavaleiro anunciara-lhe que o corpo sem vida da sua cunhada jazia na barca, vigiado por um estudante. A princípio sufocado, Machieu explodira de cólera, tão violentamente que, por um instante, temeram pela sua razão e foram necessários Olivier e Remi para o fazer calar, visto que os seus rugidos podiam alertar o lugarejo e até os guardas lá no alto, no pequeno castelo do Rei...

Depois, as lágrimas sucederam-se à dor. Não que sentisse pela irmã da sua mulher um sentimento mais quente do que uma simples estima, mas ver o que os carrascos do Cabeçudo tinham feito repugnava-o e enquanto transportavam o corpo envolto num lençol, ele espumava, rangia os dentes e proferia injúrias, ao ponto de Juliana, esquecendo a sua própria dor, ter ido à cozinha buscar uma malga de água, a qual lhe atirou ao rosto, dizendo secamente:

- Não chega a infelicidade que nos caiu em cima? Tendes também de acordar a vizinhança, meu marido? Bertrade era minha irmã e sois vós que uivais como um lobo doente? Agradecei antes a Deus... e a messire Olivier por nos terem trazido a nossa filha viva...

Espantado com um gesto de que nunca julgaria capaz a sensata e tranquila Juliana, Mathieu calou-se, enxugou-se resmungando e depois de as mulheres terem depositado Bertrade em cima da mesa da cozinha para lhe fazerem a toilette fúnebre e de Aude ter sido metida na cama com uma malga de leite quente sob a vigilância da sua avó, reuniu-se aos homens na sala para ouvir de Olivier o relato completo do que se passara.

Antes, cumpriu com Gildas d'Ouilly os deveres de reconhecimento e hospitalidade. A chegada imprevista daquele estranho não lhe agradava porque sempre tinha considerado os “estudantes” em geral um bando de agitadores sem cabeça, mais interessados no deboche do que nas obras piedosas. A participação espontânea daquele no que respeitava a Aude merecia, no entanto, um agradecimento. Mas não mais, já que o humor de Machieu ainda não encontrara a sua serenidade habitual. Assim, serviu-lhe, tal como a Olivier, com que restaurar as forças e depois propôs-lhe descansar um pouco na arrecadação onde estavam alojados os dois templários e Remi. Gildas recusou, sentindo que o mestre-de-obras desejava conversar com os seus longe dos ouvidos de um rapaz que ele não conhecia. Já bastava que este ficasse a saber onde ele se escondia...

- O dia está a nascer - disse Gildas - e não estou assim tão longe. Vou regressar ao colégio, mas... posso regressar um destes dias para saber notícias?

- Achais que estamos em condições de receber visitas? - grunhiu Machieu, exasperado. - Estamos-vos reconhecido, mas é melhor para toda a gente que esqueçais a existência desta casa e os que nela estão refugiados.

- Tendes medo que vos denuncie? - exclamou o jovem, indignado. - Não me coloquei fora da lei ao arrastar os meus camaradas para o assalto à Torre?

- Já vos agradeci, parece-me! Tendes direito à minha gratidão! E rezarei por vós, mas não podeis pedir-me mais. Abandonai-nos à nossa sorte! Aliás, provavelmente, amanhã já não estaremos aqui!

O tom era ríspido, quase ofensivo e ao ver o jovem começar a corar de cólera, Olivier assumiu a sua defesa. O cavaleiro não gostara da maneira como o jovem insistira em segui-lo - ou em seguir Aude! - mas o que ele fizera merecia, pelo menos, um tratamento mais suave. Em má hora. Machieu estava de tal modo furioso que se virou contra ele.

- Eu sei o que estou a dizer! Para que trouxestes este rapaz convosco?

- Por que não me censurais, também, por ter aceitado a sua ajuda? - ripostou ele. - Na verdade, mestre Machieu, não vos reconheço...

- Meu pai, pensai no que dizeis e a quem o dizeis. Perdoai-lhe, Olivier! O que aconteceu à minha querida tia e à minha irmã perturbou-o e...

- Eu tenho idade suficiente para me desculpar e Olivier sabe que gosto quase tanto dele como de ti...

Dito aquilo, Machieu saiu batendo com a porta, deixando a Remi, com o orgulho ferido, a tarefa de conduzir Gildas à saída. Quando o jovem regressou, encontrou o pai na sala, sentado ao fundo e escutando, mudo e cada vez mais sombrio, Olivier a recitar, quase textualmente, a proclamação real respeitante ao destino das princesas culpadas e dos seus amantes. Após o que os nervos de Hervé d'Aulnay tinham cedido...

- Vingá-los? - continuou ele. - Não me parece o mais importante neste momento. Para além de a lei do Templo interditar a vingança privada, preferia ir em socorro dos pobres filhos do infeliz Gautier.

- Acreditas mesmo que podes fazer alguma coisa? - perguntou Olivier com uma compaixão infinita.

- Na verdade não sei, mas o que sei é que não descansarei enquanto não souber. E, para isso, tenho de ir a Moussy. Talvez ainda não tenham tido tempo de destruir o castelo. Mesmo que isso tenha acontecido, há-de lá ter ficado alguém que me possa informar...

- Por que não, no fim de contas? Logo se vê...

- Queres ir comigo?

- Estás espantado?

Mas Machieu ainda não tinha acabado. O construtor abandonou o seu banco e juntou-se aos dois homens na pedra da lareira:

- Já vos passou pela cabeça - disse ele com uma doçura estranha, que contrastava com a violência do seu pensamento - que o socorro poderia ser mais eficaz se o Rei Filipe já não fosse deste mundo? Primeiro, é preciso abatê-lo, para realizar a profecia de mestre Jacques. O Papa está morto e não sei o que aconteceu a Nogaret, mas se estiver vivo, havemos de encontrar alguém que o faça ir desta para melhor. Basta que o Rei morra e o povo, em pânico, apressar-se-á a libertar as suas vítimas e a lamber os ferimentos...

- Morto o Rei, será o Cabeçudo a reinar e vós vistes do que ele é capaz! - ripostou Olivier. - Achais que ganhamos com a troca?

- Faríeis melhor se estivésseis calado - grunhiu Machieu entredentes. - Por que o deixastes vivo quando o tínheis à mercê?

- Porque não somos assassinos e isso também é válido para a pessoa do Rei, que foi ungido por Deus. Além disso, Pedro de Montou, que foi a alma da expedição, pensa que, humilhando o Cabeçudo como humilhou, entregando-o à hilaridade pública, fará sofrer mais o Rei do que trucidando-lhe o primogénito. Por outro lado, não sei se, abatendo o Cabeçudo, não teríamos feito um favor ao pai, porque Filipe de Poitiers tem tudo para ser um bom rei. Pelo menos um bom regente, durante a menoridade da pequena Joana... que, pelo caminho que as coisas tomam, pode muito bem ser declarada bastarda pelo Cabeçudo!

- Talvez! O que não quer dizer que uma mudança de reinado não me conviesse e que é preciso fazer de maneira a que isso aconteça o mais cedo possível...

- E é a essa bela tarefa que tencionais consagrar-vos, suponho? - exclamou Juliana, que estava na soleira da cozinha há uns instantes. - Perdestes a razão, Machieu de Montreuil, ou achais que ainda não sofremos o suficiente?

- Paz, mulher! É preciso que a maldição de mestre Jacques se cumpra e o preço nunca é demasiado alto quando a causa é tão nobre!

- Não é demasiado alto? Sois procurado, assim como o nosso filho; já não temos casa e se a minha pobre irmã não nos tivesse emprestado a sua casa estaríamos na rua, escondidos no fundo de um buraco qualquer, a menos que já tivésseis sido apanhado e estivésseis pendurado numa das correntes de Montfaucon. Pelo menos, a nossa família não foi toda dizimada e apesar de dentro de pouco tempo não termos com que viver, estamos juntos. Devemos agradecer a Deus por isso, em vez de excitar a Sua cólera sobrecarregando a vossa alma com um pecado mortal. A vingança só a Ele pertence e Ele saberá exercê-la quando achar melhor! Tal como acabais de dizer, o Papa morreu! Um pouco de paciência. Não vos tomeis por um enviado do Céu quando acabais de conservar à justa a vossa saúde!

- Mulher, nunca ousastes falar-me nesse tom!

- Talvez porque, até agora, nunca me tenhais dado ocasião para isso? Éreis um homem sensato e grande à vossa maneira, com o espírito cheio de grandes obras, que concebíeis para maior glória de Deus e eu admirava-vos! Quanto a esses - acrescentou ela apontando para os dois cavaleiros, têm o direito de pensar em ajudar o que resta das suas famílias! Deixai-os ir!

Machieu não respondeu, mas, pelo olhar inquieto que pousou neles, Olivier adivinhou que aquela inquietação lhe vinha de se imaginar só com Remi para proteger as mulheres em caso de infelicidade, sabendo que não poderia utilizar senão o seu braço direito. Os seus gritos pela morte de Filipe, o Belo não eram senão um meio de tentar recuperar a força física anterior... O pobre homem sofria, sem dúvida, mais do que parecia. Então, Olivier sorriu-lhe:

- A dama Juliana tem razão, mestre Machieu. Não devemos precipitar as coisas. O Grão-Mestre fixou a chegada do Rei ao tribunal divino no espaço de um ano: dai-lhe tempo para agir... e continuai a recuperar as forças de que teremos todos necessidade. Pelo nosso lado, com a vossa permissão, partiremos para Moussy depois do funeral da dama Bertrade, mas regressaremos assim que soubermos da sorte de Inês d'Aulnay e dos seus filhos...

A nuvem desapareceu do olhar fatigado e um canto da boca esticou-se numa careta trocista:

- Pergunto a mim próprio, meu amigo, se não me conheceis demasiado! Fazei como é vosso desejo! As crianças pagam demasiadas vezes pelos erros dos pais...

Lavado, vestido e cuidadosamente penteado, o corpo de Bertrade foi piedosamente colocado em cima da mesa da sala que tinha sido coberta com um lençol branco. Foi-lhe colocada uma almofada sob a cabeça e acenderam-se umas velas nos quatro cantos daquele catafalco improvisado. As mãos da defunta foram unidas em cima do peito com um rosário de buxo entre os dedos. A arte devota das mulheres fizera maravilhas, porque o rosto de olhos fechados, encerrado numa coifa de tela fina, não deixava ver grande coisa dos ferimentos sofridos.

Antes de se retirar para repousar um pouco, Olivier contemplou longamente aquele rosto imóvel para sempre, um rosto que gostaria de ter podido interrogar a propósito da frase espantosa, a última, que não lhe saía do espírito, como um esquilo engaio-lado: “Ela ama-vos...”

Nenhuma dúvida era possível: era Aude, mas o que ele não conseguia compreender era como era possível tal coisa. Não via há anos aquela jovem, que ficara no seu espírito como uma rapariguita. E seria possível ela amá-lo, a ele, um homem às portas da idade madura, despojado há sete anos do seu prestígio de cavaleiro do Templo? Quando evocava a imagem perturbadora da sua beleza inteiramente revelada - imagem inesquecível e quão torturante! - era inacreditável. Era, até, de enlouquecer! Doravante, os sonhos ardentes que faziam muitas vezes das suas noites um inferno teriam um rosto, se bem que, de momento, a bela criança repousasse num quarto por cima da sua cabeça, presa dos demónios da Torre de Nesle e talvez às portas da loucura... Mais uma razão para se afastar. A ajuda de que Aulnay necessitava seria para si próprio, provavelmente, uma boa escapatória...

O funeral de Bertrade apresentava um problema: o lugarejo de Passiacum dependia da igreja de Auteuil, bastante afastada. Além disso, trazer um padre desconhecido a uma casa isolada para prestar os últimos sacramentos à proprietária que quase nunca ninguém via, podia ser perigoso. No campo, os dias são longos e as distracções raras e, por isso mesmo, as línguas trabalham tão depressa como na cidade. Sem contar com a presença, sempre preocupante, do pequeno castelo real, apesar de Filipe, o Belo não se ter mostrado uma única vez. Por isso, os refugiados foram forçados a renunciar a ouvir missa nos dias santos e a receber os sacramentos, limitando-se a reunirem-se à hora indicada para rezarem juntos esperando por dias melhores, mas Juliana recusava-se a sepultar a sua irmã numa terra não consagrada, como a do pomar. Machieu bem tentou convencê-la de que, se os homens de Montou não tivessem repescado o saco onde ela estava metida, o seu corpo estaria a caminho do estuário do Sena, mas ela manteve-se obstinada, numa atitude que nem parecia dela:

- A minha pobre irmã morreu sem confissão, sem os santos óleos, sem a mínima bênção e vós quereis que eu permita que a atirem para um buraco no fundo do seu jardim? Que cristão sois vós, meu marido?

- Dos que acreditam que o Senhor Deus é incapaz de recusar a Sua misericórdia à alma de uma mulher corajosa que nunca fez mal a ninguém e que teve, além disso, a infelicidade de ser massacrada sem razão.

- Isso é verdade, mas eu tenho medo de que lhe sigais o caminho, mestre Machieu, vós, que só sonhais com a vingança, ao ponto de não quererdes recuar perante um regicídio. Seríeis capaz de confessar agora mesmo a um padre o que vos vai na alma? Vós nem sequer temeis o fogo do inferno!

- Não, porque acredito na justiça divina, que é mais certa e mais generosa do que a dos homens! Por que não ides ao castelo pedir ao capelão que arranje um espaço na capela? Depois, ele terá, certamente, a bondade de dizer uma missa pelo vosso marido e pelo vosso filho, que terão, por essa altura, sido pendurados das muralhas, antes de atirarem para o fosso o que os corvos terão deixado dos seus cadáveres...

Aquela imagem terrível foi mais forte do que Juliana, que se deixou cair num tamborete sacudida por soluços e sem que a sua dor abrisse uma falha na cólera do marido. Ao ver aquilo, Matilde, que descera para descontrair um pouco enquanto a sua neta dormia, achou útil entrar na liça:

- Discutir não serve de nada - declarou ela. - Por que não pedis a Blandine e a Audin que vos conduzam aonde eles vão uma vez por semana, um de cada vez e com algumas provisões?

Juliana fungou, assou-se e enxugou as lágrimas:

- Não tinha reparado... Como é que vós sabeis?

- Simplesmente porque não tenho mais nada que fazer senão abrir os olhos e observar. Aquele velho casal, que não faz mais barulho do que um par de ratitos e que nos ajuda tanto, mostrando-se o menos possível, possui uma vida própria... e também possui amigos. Um, pelo menos!

- Ah sim? - exclamou Machieu. - E quem é?

- Um eremita que se retirou para uma gruta na floresta vinha. Aubin descobriu-o um dia em que corria atrás do porco, que tinha rugido. Não sabe o nome dele nem de onde vem, mas é um padre, que pode dizer a missa todos os dias graças ao pão e ao vinho que um ou outro lhe leva...

- No entanto, vão todos os domingos a Auteuil, como sempre! Como os invejo! - suspirou Juliana.

- Claro, senão haveria uma multidão na floresta. O eremita gosta muito da sua solidão... E, se calhar, do seu segredo, mas é provável que aceite a companhia de uma pobre mulher vítima da crueldade de um príncipe! - acrescentou docemente Matilde.

Era uma solução, de facto. Aubin aceitou ir pedir ao eremita que lhes valesse, tanto mais que estava tão desejoso como os outros de enterrar decentemente a sua benfeitora. Foi ter imediatamente com o eremita e, chegada a noite, tomou o comando do pequeno cortejo que levava Bertrade para a sua última morada. Olivier e Hervé transportavam a padiola; os restantes seguiam-nos. Na casa ficaram apenas Matilde, sempre à cabeceira de uma Aude inconsciente, se bem que a febre tivesse baixado um pouco, e Margot, pronta para prestar assistência à velha dama, se fosse necessário.

A distância não era grande. Um pouco difícil de encontrar, o local, mas Aubin e a mulher tinham ido lá tantas vezes que tê-lo-iam encontrado de olhos fechados. O eremita esperava-os junto da fossa que escavara com Aubin durante o dia, a dois passos da gruta. Este era um homem magro, seco como uma cepa e cujos cabelos grisalhos emaranhados e barba abundante caíam por cima de uma espécie de saco de burel sem cor, desfiado, múltiplas vezes remendado por Blandine e que devia ter sido, em tempos, um hábito monástico. O eremita estava sujo de meter medo e parecia-se com um espantalho, mas resplandecia devido a uma fé ardente e nunca, provavelmente, o ofício dos mortos terá sido dito com mais calor e compaixão. Como aquele canto da floresta fora benzido por ele, Bertrade repousaria num torrão tão cristão como o de um cemitério.

Quando a enterraram, todos choraram, até Olivier e Hervé, que não conheciam a defunta, de tal modo o estranho solitário da gruta soubera encontrar as palavras comoventes para receber o despojo mortal daquela burguesa abastada cuja vida decorrera entre casas confortáveis e uma corte quase real e que deveria repousar junto do seu marido no cemitério da igreja de Saint-Laurent, da qual dependia a rica corporação dos retroseiros, mas que o rancor cego de um príncipe infame amaldiçoado pela sua mulher condenara a dissolver-se nas águas de um rio e que, finalmente, só encontrara um buraco lamacento no fundo perdido de um bosque...

Olivier tinha, durante o dia, talhado uma cruz em madeira de faia, que cravou sobre a tumba para deixar um sinal e para que se soubesse, no futuro, que estava ali alguém, mas sem gravar qualquer nome e viria o dia, sem dúvida, quando o eremita, por sua vez, desaparecesse, em que não restaria mais nada...

No dia seguinte, de madrugada, os dois antigos templários partiram pelo caminho ao longo do Sena. Através de Paris, o que lhes permitiria atingir a antiga estrada romana que ia dar a Sois-sons.

Os dois homens chegaram no dia seguinte ao cair da noite...

O castelo ainda ardia...

Fora uma daquelas fortalezas de planície com os fossos alimentados pela água límpida de uma ribeira, próxima de uma aldeia, mas ardia tão bem como se fosse de madeira como uma choupana qualquer e não de grandes blocos de pedra arrancados às pedreiras há mais de um século e se as muralhas exteriores continuavam de pé se bem que quase a desmoronarem-se, do interior não devia restar grande coisa. Os homens de Nogaret não tinham, certamente, poupado na pólvora, porque sob as nuvens de fumo negro vomitadas por aquele inferno, viam-se chamas a sair pelo telhado do torreão. O rugir do fogo devia ouvir-se de longe. Talvez, até, nos confins da floresta, cuja verdura espessa cercava as terras cultivadas do domínio. Do outro lado da ribeira, os aldeões pareciam estátuas de pedra cinzenta, observando...

Deviam ter fugido para os bosques quando os soldados tinham entrado no castelo, mas, naquele momento, terminada a obra de morte, estes tinham-se ido embora e as gentes da aldeia, operando um movimento contrário, tinham regressado, felizes, sem dúvida, por encontrarem intactas as suas choupanas. Agora, estavam ali, fascinados por aquele apocalipse onde desabava a raça dos seus senhores... Incapazes de medir a amplitude do desastre. Sabiam apenas que nada devia restar de um castelo onde tinham nascido uns criminosos suficientemente audaciosos para ter atentado contra a honra do Rei e isso porque, à chegada, o chefe dos incendiários o tinha gritado antes de eles fugirem, e ao verem consumar-se o castelo principal dos Aulnay, provavelmente condenados às penas do inferno, deviam perguntar a si próprios se não seriam também eles, seus camponeses, malditos.

Apesar de, ao longo do caminho, se ter preparado para uma situação dramática anunciadora da ruína da sua casa, Hervé não esperava que agissem tão rapidamente. O terrível espectáculo atingiu-o como um raio. Com as pernas ceifadas pelo horror, ao qual se somava a fadiga da longa marcha, o cavaleiro deixou-se cair sobre o pedestal de uma velha cruz de caminho, sem sequer pensar em murmurar a menor oração. O que via era pior do que imaginara: para além do grupo aterrorizado de camponeses, ninguém estava à vista para lhe dizer se aquele braseiro era também o túmulo de seres vivos.

De pé a seu lado e de braços cruzados, Olivier, sombrio e mudo, contemplava também ele o desastre, incapaz de encontrar uma palavra que não fosse inútil para apaziguar uma dor que quase sentia na própria carne, de tal modo eram estreitos os laços entre ele e aquele irmão que o Templo lhe dera. Por isso, não ficou surpreendido ao ouvir Hervé fazer a pergunta que fizera a si próprio:

- Mas, enfim, onde estão eles? Onde estão o meu irmão, a minha cunhada e a sua gente? Onde estão Inês e os pequenos? Não os fecharam lá dentro, certamente, antes de atear o incêndio... Seria monstruoso!

- Estes tempos são monstruosos... No entanto, devem ter sido detidos e levados para uma prisão qualquer...

- Não seria melhor, mas não acho que seja o caso porque conheço o meu irmão, o seu coração duro, a sua arrogância, o seu carácter violento e a sua coragem! Tem mais dez anos do que eu, mas no combate com a lança ou com a espada, venceu-me sempre! Não se deve ter rendido sem combater...

- Contra o Rei? Porque, enfim, é o caso!

- Sem hesitar! Tal como eu fiz e voltarei a fazer. Imagina que não tinha nada a perder, visto que já não tem nome nem honra...

- Temos de saber! Fica aqui, que eu vou perguntar àquela gente além...

- Não, eu vou - disse Aulnay, levantando-se.

- Mas, Hervé, meu irmão, eles, a ti, conhecem-te desde a infância. A mim, nunca me viram. Não passo de um passante, de um escultor que anda à procura de trabalho... A mim, dizem-me...

- Não me convences... Eles estão aterrorizados demais e a aproximação de um estranho, nem que seja um monge, fá-los-á fugir...

Nenhum deles se tinha apercebido da aproximação da mulher que se colocou diante deles. “Jovem dama” ou “donzela” seria mais apropriado. Não parecia nada uma camponesa. Bastante grande, envolta num grande manto negro cujo capuz atirado para trás revelava um rosto que reflectia tanto a feminilidade como a inteligência e a força de carácter, tinha uma tez cor de marfim quente, cabelos castanhos, traços móveis e uns grandes olhos escuros cuja cor exacta era impossível de distinguir à luz do crepúsculo. A dama mantinha-se muito direita mas sem rigidez, numa pose ao mesmo tempo orgulhosa e graciosa. As suas mãos enluvadas seguravam uma chibata (1). Ao vê-la, os dois homens inclinaram-se.

- Nobre dama - começou Olivier, mas ela interrompeu-o com um gesto e dirigiu a palavra ao seu companheiro.

- Vós sois Hervé d'Aulnay, não é verdade?

- Achais que sim?

- Oh, não há dúvida possível. Vós, os Aulnay, sois todos parecidos. No entanto, soi-lo menos do vosso infeliz irmão do que daquele pobre louco do Gautier, mas se sois o único homem da família ainda vivo, só podeis ser Hervé.

 

(1) Um pingalim: originalmente, eram feitos de azevinho.

 

- O único ainda vivo? Quereis dizer que o meu irmão está morto?

Com um movimento de cabeça, a desconhecida apontou para o incêndio, ao mesmo tempo que a sua voz se enchia de cólera:

- Além e a esta hora não deve restar nada dele... Nem da sua fiel mulher, que não o quis abandonar.

- Mataram-nos?

- Messire d'Aulnay recusou o édito que o condenava a ser um mendigo sem eira nem beira. Defendeu-se com coragem, com orgulho. Foi abatido e abatida foi também a dama Isaura, que se atirou para cima do seu corpo com um grito de dor, ao mesmo tempo que as donzelas e as servas fugiam. Ela nem sequer teve tempo de o abraçar. O ferro de uma partazana pregou-a ao cadáver do seu companheiro...

- Meu Deus! Mas, como é que sabeis isso? Éreis uma das damas da minha cunhada?

Uma prega de desdém arqueou-lhe os lábios finos:

- Eu sou a dama de Villeneuve e chamo-me Mariana. O meu defunto marido foi morto o ano passado no torneio de Pentecostes em Dammartin; sabei ainda que, desde a nossa infância, Inês de Montmorency e eu éramos muito amigas. Uma amizade que ficou ainda mais forte quando ela se casou com o vosso sobrinho Gautier. Deveis lembrar-vos que Villeneuve não fica longe...

Hervé inclinou-se:

- De facto... Guardo uma recordação de messire Damien, que era amigo do meu irmão... e seu contemporâneo... Mas talvez o vosso sire fosse filho dele...

- Não. Ele tinha cinquenta anos quando nos casaram... Quanto a saber o que se passou aqui, acontece que estava presente, mas não no castelo. Estava tão bonito que estávamos no pomar, Inês, os pequenos e eu.

- Foi por causa deles que vim. Eles não estão...

- Não vos inquieteis, estão vivos... Quando vimos chegar a tropa de messire de Nogaret, Inês pediu-me que ficasse com os pequenos e regressou ao castelo para saber o que se passava. Nunca mais regressou. Confesso-vos que, durante um momento, não soube o que fazer: o tumulto começara no interior quando vi aproximar-se a ama de Filipe e de Aline, lavada em lágrimas e aterrorizada. Inês tinha-a enviado para que eu os escondesse. A pobre mulher estava assustada, o que a fazia gaguejar, mas acabei por compreender que, juntamente com a tropa do Rei vinha um irmão de Inês para a levar... mas sem os filhos!

Aquelas últimas palavras venceram o silêncio de Olivier, que se afastara por discrição.

- Por que razão sem os filhos?

O olhar que ela lhe lançou não tinha qualquer doçura. Segundo ela, ele não tinha nada que se meter na conversa. Mas condescendeu em responder-lhe:

- São Aulnay... e, por isso mesmo, não são ninguém. Os filhos de um condenado não têm lugar na casa dos Montmo-rency. Acrescento que Inês foi levada à força. No entanto, conseguiu mandar-me Maria, para que eu levasse as crianças antes que fosse demasiado tarde. O que eu fiz... Messire, podeis dizer-me quem sois?

- Olivier de Courtenay...

- Courtenay? Grande nome!

- Mas pequena pessoa! Eu também era templário.

- Aceitai as minhas desculpas - disse ela num tom menos azedo. - Os acontecimentos de ontem tornaram-me desconfiada... e algo agressiva.

- Quem não o ficaria em tais circunstâncias? Assim, os sobrinhos de Hervé estão em vossa casa? Encontrastes um meio de os levar para lá?

- Com a ama e não sem grande dificuldade. Foi-me impossível ir buscar a minha hacaneia, que estava na cavalariça e fomos a pé, Marie com Filipe ao colo e eu com Aline. Felizmente, conseguimos chegar rapidamente ao bosque... e a Tour-Gaucher não fica longe.

- Gostaria de os ver - disse Hervé. - Será muita ousadia da minha parte pedir-vos que...

- Vos convide a ir a minha casa? Parece-me natural. Não tendes outro sítio onde passar a noite. Vinde! Suponho que já caminhastes muito para chegar aqui.

- É uma questão de hábito - disse Olivier com a sombra de um sorriso.

Os delgados ombros da dama de Villeneuve soergueram-se por baixo do seu amplo manto negro e ela brandiu o pingalim por baixo dos narizes dos dois homens:

- Bem, vai ser preciso habituar-me! A excepção de uma mula, nada mais resta da minha cavalariça e se vim aqui esta noite foi na esperança... vaga, é certo, de encontrar a minha montada. Os homens de Nogaret devem tê-la levado juntamente com o saque antes de incendiarem Moussy. Segui-me meus senhores!

A dama guiou-os pelo caminho que a tinha trazido e meteu por entre as árvores da espessa floresta. Marcharam assim durante mais ou menos uma légua. Mariana à frente, com a cabeça bem direita e passo firme, batendo de vez em quando num ramo ou numa erva com o seu pingalim inútil. Não ousando caminhar a seu lado - o que aparentemente ela não desejava - os dois homens avançavam em silêncio, mas tanto um como outro pensavam mais ou menos na mesma coisa: aquela jovem dama devia ser mais rica de nobreza do que de escudos, visto que a perda de uma jumenta era suficiente para a perturbar. Hervé, sobretudo, estava surpreendido, porque se lembrava de que, no tempo da sua infância, o barão de Villeneuve não era um sire menor e o seu castelo, se não era tão importante como o de Moussy, não deixava de ter o seu lugar digno entre as casas nobres da região, possuindo, aliás, um património de terras cultiváveis e de bosques que não era de negligenciar. Além disso, via mal uma parente dos Montmorency casada com um fidalgote mais ou menos campónio...

Ao aproximarem-se, o cavaleiro constatou que as coisas tinham mudado muito... A Tour-Gaucher - o castelo - nunca fora imponente. Uma residência robusta, mais do que um castelo, mas que, em tempos, tinha um ar de boa saúde e de prosperidade, que lhe faltava agora lastimavelmente. Tal como em Moussy, a ribeira alimentava-lhe os fossos, mas como estes não eram cuidados, estavam verdes. As muralhas também, onde o musgo não chegava a cobrir as fendas. As seteiras esboroavam-se e os telhados tinham abatido parcialmente, sem esquecer que as correntes da ponte levadiça, que não deviam erguer muitas vezes, estavam enferrujadas. Só havia dois guardas na antiga casa-da-guarda, enquanto noutros tempos tinha dez. Além disso, aqueles já não estavam na primeira juventude.

Chegada ao pátio onde a erva crescia à-vontade, Mariana virou-se para fazer face aos seus companheiros:

- Eis o meu palácio! - disse ela com uma ironia que escondia mal a sua amargura. - Sinto-me feliz por vos dar as boas-vindas!

- É incrível! - exclamou Hervé. - Isto é o fantasma da Tour-Gaucher! Como foi possível chegardes a este ponto?

- Os torneios, cavaleiro, as liças e outras festas a que era preciso ir a qualquer preço com uma bela equipagem e onde só se ganhava raramente! O último foi fatal, mas confesso - acrescentou ela com súbita violência - que respirei de alívio. As terras e outros bens foram-se. O recontro seguinte ter-nos-ia, sem dúvida, expulso daqui. Vinde! Apesar disso, continua a haver na cozinha com que restabelecerdes as forças...

Com a sua vasta chaminé, suficientemente grande para assar um boi e somente ocupada com um grande pote cujo conteúdo fervente levantava por vezes a tampa, a sua longa mesa, os seus bancos e os seus utensílios muito bem limpos, a cozinha parecia o único local vivo e acolhedor daquela casa cujas salas, na sua maior parte sem qualquer mobília, já não mostravam quaisquer vestígios da riqueza de outros tempos. Porém, fez recordar a Olivier a de Valcroze, justamente por causa do calor que dela exalava e da mulher que era o seu centro. Mais idosa do que Barbette, tinha as mesmas formas arredondadas, os cabelos grisalhos e o olhar perspicaz. Chamava-se Jacotte e com um garoto de quinze anos, que era seu filho e respondia pelo nome de Tiennot, compunha todo o pessoal doméstico do solar. Em tempos normais, pelo menos, porque na hora presente uma jovem camponesa, de belas rosetas vermelhas, estava de pé junto da mesa, dava de comer a dois pequenitos louros, um dos quais, a rapariga, estava nos seus joelhos. Era, certamente, Maria, a sua ama.

Ao penetrar naquele universo íntimo, Hervé, esse, só viu os pequenos. Não os conhecia, já que no momento do seu nascimento se tinha juntado à comunidade de lenhadores do cavaleiro d'Aumont e completamente afastado da família, mas bastou-lhe um simples olhar para os reconhecer como seus, porque não era possível haver crianças mais encantadoras. Louros e com os mesmos olhos azuis, tinham carinhas redondas com covinhas e pareciam-se de modo gritante, como se fossem gémeos, se bem que Filipe tivesse mais um ano do que a irmã. Aliás, o pequeno afirmava a sua superioridade batendo na mesa com a colher para reclamar um suplemento, enquanto Maria parecia ter mais dificuldade com a encantadora criança aninhada no colo. Esta parecia mais frágil do que o irmão, que brilhava visivelmente de saúde.

Parando por um instante com o barulho que fazia com a colher, o jovem Filipe olhou severamente para aquele desconhecido abundantemente cabeludo e barbudo que se instalara na sua frente, do outro lado da mesa, para o ver mais de perto com um ar maravilhado que teve o dom de desagradar ao petiz. Este estendeu para o monstro uma colher ameaçadora:

- Não! - declarou ele com firmeza. - Vilão! Esquecendo os outros, Hervé plantou os cotovelos na mesa com um grande sorriso:

- Vilão? Não, eu não sou um vilão, sou o vosso tio, messire Filipe. Não vos agrado?

- Tio? - perguntou o petiz franzindo as sobrancelhas. - Não! Vilão, já disse!

Olivier e Mariana contemplavam o quadro com um sorriso, mas o de Olivier apagou-se rapidamente. Aquela mulher jovem estava, senão na miséria, pelo menos em grande dificuldade, apesar de isso não parecer enfraquecer o seu carácter. Duas crianças representavam um encargo que ela ia ter, sem dúvida, dificuldade em assumir:

- Que ides fazer? - perguntou ele com os olhos no dueto cómico que prosseguia entre Hervé e o sobrinho relutante em reconhecer os seus direitos familiares.

Mariana pegou em Aline ao colo, já que Maria renunciara a continuar a tentar alimentá-la. A pequena cabeça, coroada de caracóis louros aninhou-se no seu pescoço com um suspiro de felicidade. A jovem ergueu para ele um olhar surpreendido:

- Que pergunta! Ficar com eles, evidentemente! Não posso abandoná-los num caminho qualquer ou deixá-los à porta de um convento onde, despojados de quaisquer bens, do próprio nome e marcados com o selo da infâmia, ficariam destinados a uma vida de humilhação, miserável e sem dúvida breve... Nunca! Amo-os, vede lá vós!

- Perdoai a minha brutalidade, mas achais que conseguis...

- Tomar conta deles? Há aqui o suficiente para os alimentar com os produtos da capoeira e da horta. Também tenho um pomar e até algumas ovelhas cuja lã os vestirá. Quanto ao resto, que seja a vontade de Deus, mas se a mãe deles não pode vir buscá-los, ficarão comigo... E agora, quereis lavar as mãos? O jantar vai ser servido.

- Só as mãos? Com a vossa permissão, gostaríamos de nos lavar no poço do pátio. Devemos meter medo com tanta sujidade, a julgar pelo acolhimento do jovem Filipe!

- À-vontade! Vou mandar preparar-vos um quarto...

- Não, obrigado, Madame. Quarto, não! Dormiremos no palheiro. Continuamos a ser templários, sabeis?

- E não podeis dormir sob o mesmo tecto que as mulheres, é verdade... Que seja como desejais.

Talvez para mostrar a Courtenay que não estava tão desprovida como ele pensava, Mariana mandou servir o jantar no salão de honra de onde os tapetes e as tapeçarias tinham desaparecido, mas onde ainda havia uma colecção de escudos testemunhando a nobreza da família e, sobre o pano da chaminé, uma grande espada a duas mãos. Não havia qualquer conforto, mas talvez mais grandeza. Uma toalha branca cobria a mesa sobre a qual estava um ramo de flores campestres. A jovem acrescentara à sua toilette negra uma pequena coifa de veludo bordada a prata onde se destacava a brancura de uma écharpe de musselina.

Mariana fez as honras da mesa com tanta graça e dignidade como se estivesse em Montmorency, ou noutra casa nobre qualquer. Foi-lhes servido um guisado de coelho com ervas, uma terrina de javali - era a própria Mariana que caçava! - e cerejas do pomar. O vinho provinha de um casco de Borgonha que fizera parte dos seus presentes de casamento e que ela guardava preciosamente desde então.

Coisa estranha, foi sobretudo com Olivier que ela conversou. Hervé, pensativo, comia e bebia em silêncio, mas os seus olhos iam muitas vezes para a sua anfitriã com uma expressão que Olivier não conseguia decifrar. Como Courtenay não era falador por natureza, foi Mariana que falou, interrogando-o acerca da família e em particular sobre o que poderia ser a sua vida, assim como a de Hervé depois do desmoronamento do Templo... Por seu lado, ela falou sobre si mas sem grandes alardes, para que os seus convidados soubessem quem era.

Filha da nobre casa de Dougny, vira-se órfã após a morte sucessiva dos seus pais, o pai na Flandres e a mãe, de dor ao dá-la à luz. Como era parente dos Montmorency, fora criada com eles juntamente com Inês, que era para ela como uma irmã. Quando casou com Gautier d'Aulnay, esta não descansou enquanto Mariana não casasse perto dela. E foi mais por ternura pela prima do que por inclinação que esta aceitou casar com o barão de Villeneuve que tinha algum encanto, mas a quem interessava mais o dote da jovem do que a sua pessoa... Infelizmente, não foi preciso muito tempo para que o dote desaparecesse, juntamente com o belo património que Damien conservava.

Mariana não falou muito sobre o fim daquela união sem glória que não desejara. Até evocou alguns episódios da sua curta existência com uma espécie de humor que os dois homens apreciaram, não gostando, nem um nem outro, de mulheres choronas. Quando, tendo terminado, levou a taça aos lábios, Hervé saiu do seu silêncio e observou:

- Vós sois jovem, dama Mariana, e... bela, se me permitis. Devíeis casar de novo...

Ela desatou a rir e o seu riso era uma cascata de notas frescas:

- Casar de novo, eu? Nunca! Já não tenho fortuna, mas sou livre. Um bem raro para uma mulher e que eu aprendi a apreciar. Além disso, se Deus quer que eu, doravante, me responsabilize por duas crianças, tenho de fazer tudo para que não sofram com o drama que os atingiu. Enfim... admitindo que haja um cavaleiro suficientemente louco para pretender a mão de uma viúva falida e que me possa agradar, teria de pensar muito, porque não quereria que os pequenos sofressem o seu desdém ou, até, os seus maus tratos. Se os Montmorency os rejeitam definitivamente, como tudo leva a crer, adoptá-los-ei e eles herdarão, pelo menos, esta casa velha...

- ... que me parece mal defendida - continuou Hervé. - Se fordes atacada, como vos defendereis?

- Por que me atacariam? Não há aqui que possa tentar os salteadores de estrada e contra eles sou capaz de me defender...

- Com dois guardas cheios de reumatismo, um rapaz e duas mulheres...

- ... e comigo. Sei disparar um arco e manejar uma espada.

- E se não forem salteadores? E se quiserem tirar-vos Filipe e Aline?

- Montmorency rejeitou-os e os avós deles morreram. Quem os poderia querer?

- Justamente aqueles que querem extirpar até à raiz tudo o que tenha o nome d'Aulnay. O Rei, acredito sinceramente, nunca chegaria a esse extremo: é demasiado grande para declarar guerra aos pequenos, mas Nogaret, esse, é capaz de tudo para se tornar indispensável.

A dama ergueu para ele um olhar subitamente angustiado. Era evidente que a sua alma não conseguia imaginar um tal horror.

- Nesse caso, teria de me entregar nas mãos de Deus - murmurou ela.

- Pode ser que Deus vos tenha atendido antes mesmo de Lhe pedirdes - disse docemente Olivier. - Na fogueira, o nosso Grão-Mestre intimou o Rei, o Papa e Nogaret a comparecerem no tribunal divino no espaço de um ano... e o Papa já se apresentou...

- Pode ser que se trate de uma coincidência - continuou Hervé. - Mas acreditarei quando Nogaret se juntar a ele.

- Para ti o Rei é menos importante?

- É, porque o guarda dos Selos é o mais perigoso. Filipe reina. Sem piedade e sem fraquezas, mas, acredito, no interesse do Estado. O outro é demasiado solícito, ajusta contas pessoais e, sobretudo, abusa dos poderes que detém. E recordo-te que, morto o Rei, teremos o Cabeçudo! Entretanto...

Sem terminar a frase, Hervé levantou-se da mesa, saudou a sua anfitriã e pediu-lhe permissão para ir dar uma volta:

- Gostava de ver - acrescentou ele - as vossas defesas.- É noite - lembrou Olivier.

- Mas suficientemente clara. Fica descansado, levo um archote.

- Acompanho-te.

- Não, por favor! Não é preciso! Perdoa-me, mas esta noite desejo ficar só durante algum tempo.

- Não tenho que te perdoar nada...

Olivier trocou ainda algumas palavras com Mariana, mais por cortesia do que por interesse, despediu-se e dirigiu-se para o grande palheiro posto à sua disposição. Também ele precisava de reflectir.

Ao atravessar o pátio, avistou a silhueta do amigo junto da portaria, conversando com um dos velhos soldados. O céu, de facto, estava límpido, cheio de estrelas e já com o azul tão doce característico do Verão. O ar estava tépido e em vez de se enfiar na palha, Olivier subiu uma das pequenas escadas que iam dar ao caminho de ronda, onde se sentou numa das muitas seteiras esboroadas.

O cavaleiro ficou ali muito tempo, encostado à pedra musgosa, olhando para a vasta e plana paisagem onde se via a massa negra da floresta cercando aqui e ali campos e charcos. A norte, o clarão avermelhado e sinistro do castelo incendiado esbatia-se pouco a pouco. Na manhã seguinte só restariam ruínas fume-gantes, muralhas enegrecidas, uma carcaça vazia atestando ao mundo que se fizera ali a justiça do Rei, tal como aconteceria nos outros domínios dos Aulnay. Em seguida viria a hera e as ervas daninhas, escondendo os vestígios de fogo e os escombros de que ninguém ousaria aproximar-se, com excepção dos feiticeiros e dos fugitivos, temendo uma lenda maléfica que aumentaria com o tempo.

Olivier compreendeu sem dificuldade o que se passava na cabeça de Hervé. Bastava imaginar-se a si próprio a aproximar-se de Valcroze devastado pelo fogo e pelo ódio dos homens. Hervé amara aquela casa nobre que o vira nascer, apesar de a má vontade do irmão o ter obrigado a preferir o abrigo precário dos bosques e a sua vida selvagem. As chamas tinham passado sobre aquela amargura. Só restava a dor... e a necessidade visceral de proteger o pouco, tão frágil e cativante, que restava de uma longa linhagem de valentes cavaleiros e nobres damas. Algo acabava de mudar e o cavaleiro sentia-o profundamente.

Assim, Courtenay não ficou surpreendido quando, despertado pelo grito rouco de um galo, desceu e encontrou Hervé sentado no primeiro degrau.

- Onde estavas? - perguntou este.

- Lá em cima. A noite estava muito bonita e não me apetecia dormir. E tu?

- Eu também não... Creio que temos de conversar. Desde ontem... que algo se passa comigo...

- Pára, meu irmão! Eu sei o que me vais dizer: queres ficar aqui para velar pelos filhos do infeliz Gautier...

- Como é que sabes? Olivier encolheu os ombros:

- Nós sempre fomos muito amigos! Ao longo dos anos, aprendemos a reagir da mesma maneira! Era nisso que eu pensava enquanto estava a olhar para Moussy a arder do outro lado da floresta e pareceu-me sentir a tua dor... o teu desgosto. Imaginava como seria o meu se Valcroze tivesse o mesmo destino. Com a diferença de que eu não teria nenhuma criança para cuidar. Já falaste com a dama Mariana?

- Ainda não, mas vou falar daqui a pouco, quando ela descer, e espero que ela me deixe ficar aqui. Há tanto que fazer, tanto nos campos como nas casas. Aquele barão Damien devia ser louco para reduzir assim a mulher quase à miséria por causa de uma glória vã. Que nunca lhe sorriu, aliás. Mau grado a sua coragem, Mariana não pode enfrentar um possível perigo com os meios que tem, um rapaz e dois veteranos que não têm para onde ir se ela os mandar embora. Eu consigo suportar cargas grandes, sou capaz de construir, de trabalhar e, sobretudo, de lutar em caso de necessidade. Compreendes... não consigo virar as costas e ir-me embora... não sei para onde, visto que o Templo morreu e eu, agora, não sou nada! Aqui, na terra da minha família, transformar-me-ei num camponês... e terei paz.

- Que belo sermão! - sorriu Olivier. - Mas supérfluo. Eu já tinha percebido. Mas... que farás se ela não aceitar?

- Ficarei! Na floresta, onde vivi sete anos, sinto-me em casa e, pelo menos, estarei perto deles... destes dois pequenitos que me encheram o coração de ternura, pronto a acorrer ao menor alerta.

- Só eles... ou ela também? Caso não tenhas reparado, ela é jovem, bela e orgulhosa. Uma mulher sedutora...

- Cala-te! Recuso-me a pensar nisso e que sejas tu, normalmente o mais duro, o mais austero dos dois...

- limito-me a ver a vida como ela é. Ela proporciona-te uma razão para existires e tu deves agarrá-la. Como dizias há pouco, o Templo morreu. Os teus votos também, a menos que prefiras renová-los num convento qualquer onde não saberão o que fazer de ti. Mas perdoa-me por ter falado no assunto! Eu acho-te capaz de resistir a todas as tentações. Digamos que... quis pôr-te à prova, colocando-te perante uma realidade bem viva.

- Ficas comigo se ela aceitar?

- Não. Prometi regressar a Passiacum, onde precisam de mim, tal como precisam de ti aqui. Devo muito a Machieu para o abandonar...

- Sem dúvida, mas vais passar o resto da vida na Quinta das Abelhas?

- Não mais do que Mathieu, sabes bem. O que me preocupa é o ódio que ele tem ao Rei e que o cega. Receio que ele queira fazer cumprir a profecia do Grão-Mestre, fazendo justiça com as suas próprias mãos. Tentarei impedi-lo com todas as minhas forças.

- E se a profecia se realizar sem ele?

- Penso que prosseguirá o combate para ter a certeza de que ninguém trabalhará em nenhuma catedral de França...

- Isso também é perigoso! Que vai acontecer à família dele?

- Ou a leva com ele ou, o que seria mais sensato, deixá-la-á em Passiacum. Seja como for, não o seguirei porque o combate dele não é o meu. Deus e Nossa Senhora devem ser servidos e adorados. É um pecado tomar como reféns os seus santuários. Pertencem a todos os Cristãos...

- E então? Para onde vais? Para o que resta de uma comendadoria estrangeira, em Espanha ou em Portugal?

O olhar de Olivier contemplou o céu cada vez mais claro, anunciando a aurora. O cavaleiro encolheu de novo os ombros:

- Na verdade, não sei, mas antes de meter por um caminho, seja ele qual for, gostaria de regressar às margens do Verdon, ver outra vez, senão o meu pai, do qual não sei nada há muito tempo e que, se calhar, já se juntou à minha mãe, pelo menos a minha terra natal e a minha casa! Se ainda resta alguma coisa...

- Se o barão Renaud sobreviveu ao Templo, terá escapado aos homens do Rei. Caso contrário... por que não voltas para aqui? Pelo menos, acabaremos juntos...

Olivier pousou no ombro do amigo uma mão calorosa, apesar de o movimento significar uma recusa. Estavam ambos conscientes de que as suas vidas, durante muito tempo paralelas, iam separar-se sem grande esperança num reencontro, a não ser no outro mundo. Para Olivier era uma dor mais cruel do que gostaria de confessar, mas contra a qual não podia fazer nada. Entre eles estavam agora as duas cabeças louras dos dois pequenitos e as suas pequenas mãos fechadas em redor do pescoço de Hervé... Por causa deles, o seu amigo choraria menos a separação. Subitamente, Olivier sentiu-se muito só, mas tinha uma alma demasiado grande para sentir amargura. Era bom Hervé encontrar, por fim, um sentido para a sua vida...

Como que para selar aquela certeza, naquele preciso instante, o primeiro raio de sol atingiu a soleira do solar onde estava a silhueta esbelta e negra de Mariana. Com a mão por cima dos olhos, a dama inspeccionou o perímetro do pátio, procurando qualquer coisa... ou alguém. Então, Olivier pegou no amigo pelo braço:

- Vai! Chegou o momento. Vai falar com ela!...

Não precisou de insistir. Com um pouco de melancolia, Olivier viu Mariana ir ao encontro de Hervé e depois o encontro de ambos no meio das galinhas chocas que o jovem criado acabava de largar. O diálogo foi breve e o resultado o que Olivier esperava: o rosto de Mariana iluminou-se subitamente com um belo sorriso onde havia mais do que a simples satisfação de adquirir um par de braços vigorosos, um defensor digno desse nome. O cavaleiro sentiu - mas já o sentia desde a véspera sem disso estar verdadeiramente consciente - que entre aqueles dois qualquer coisa de firme iria começar. Sem o saberem, a princípio: Hervé continuaria a dormir no palheiro até ao dia, ou tarde, ou noite, em que Mariana e ele se apercebessem do que os unia. Hervé já não tinha nome? Ela dar-lhe-ia um, que as crianças poderiam usar sem vergonha.

Uma hora mais tarde, Olivier partia para Paris, só. No instante da separação, ao abraçar o amigo, murmurou-lhe: - Não esqueças! O Templo era um sonho, mas o sonho desapareceu. Doravante és um homem como os outros. Vive como um homem livre... e que Deus vos proteja!

 

                                                                           OS GUARDIÃES

 

                             O ABUTRE

Ajoelhada em frente do pequeno montículo ainda arredondado onde acabava de depositar um ramo de rosas silvestres, Aude rezava com os olhos rasos de água e as lágrimas caíam uma após outra sobre a terra coberta de erva.

Desde que reencontrara a lucidez e lhe tinham contado o fim da história, não cessara de pedir que a levassem à campa de Bertrade. A visita daquela manhã não passava de uma magra vitória: até ali, a sua família tinha-se unido contra ela com receio de uma recaída, da qual eles temiam que ela não regressasse.

Durante dias, a jovem não vira aurora, crepúsculo ou obscuridade sucedendo-se à luz, oscilando entre a vida e a morte, à arder com uma febre cerebral que ninguém sabia como acabaria. Aude não sofria de nada senão de pesadelos terríveis, contra os quais o seu espírito lutava momentaneamente ausente do seu corpo. Do fundo do abismo onde se debatia, a jovem não cessava de rever o martírio da sua tia, ouvia os seus gritos sob a mordedura do ferro em brasa, das garras que a rasgavam, dos borzeguins que lhe quebravam os ossos para a obrigar a confessar... o quê ao certo? Que tinha aberto algumas portas, guiado alguns passos prudentes, assistido a alguns folguedos quando nunca tinha feito nada de semelhante e que o meirinho de Margarida e de Marta, a sua camareira, já tinham confessado e pago o devido preço? Mas o príncipe de olhos de fogo e boca espumante não se dava por satisfeito, não sabia ainda o suficiente, persuadido de que toda a sua casa era cúmplice do adultério, vira tudo, contara os beijos, os êxtases, ouvira as palavras de amor...

Bertrade sabia que seria inútil e perigoso negar - os irmãos d'Aulnay não tinham dito tudo aos carrascos de Nogaret? Assim, confessara as suas suspeitas e até que uma noite fora através dos corredores até à Torre de Nesle. Que outra coisa podia dizer, senão o que vira? Mas o Cabeçudo não se dera por satisfeito. A fiel dama-de-companhia que tão bem sabia ornamentar o corpo maldito da sua mulher só podia ser a confidente íntima dos seus amores. E o suplício continuara sob o olhar aterrorizado de Aude, até que a vítima perdera a consciência e a tinham metido num saco para terminar a sua agonia no Sena. O Cabeçudo, subitamente, apressara-se a passar para outra, a qual prometia ser um regalo: a pequena Aude, tão encantadora que, não fora o receio de Margarida ir fazer queixa ao Rei, para quem a violação era um crime sem perdão, teria há muito arrastado para o seu leito. Mas Margarida já não estava ali com a sua arrogância e a certeza de ser ouvida por um sogro orgulhoso da sua beleza e do seu carácter, no qual via o delinear de uma verdadeira Rainha. A jovem estava na sua frente, desarmada, despojada de tudo...

Podia ter atirado com ela para o divã em que estava estendido e saciar o seu desejo, mas a grande sombra do pai continuava a esmagá-lo e o seu espírito confuso ainda tinha medo que Filipe descobrisse. Então, dera a escolher a Aude: sofrer o destino de Bertrade ou ir ter com ele de livre vontade. Apesar do medo e do desgosto, ela repelira-o com horror. Então, ele mandara-a atar à roldana, pensando que um ou dois puxões a tornariam mais compreensiva sem estragar demasiado aquele corpo de sonho. Mas a pequena, apesar do terror, encontrara forças para dizer outra vez não, mesmo quando a corda lhe mordia os punhos brutalmente puxados para trás. No fundo do inferno onde se sentia mergulhar, evocara o rosto daquele que amava há tanto tempo e pelo qual sempre recusara entregar-se, sempre e sempre.

E, subitamente, o inacreditável acontecera: alguns homens armados e de rostos negros tinham irrompido na sala e à cabeça um de rosto limpo que o seu coração reconhecera antes dos olhos desvairados. Em seguida, caíra e, na sequência dos acontecimentos, não vira nada, não soubera nada, não retivera nada, arrastando-se interminavelmente ao longo de um túnel ardente povoado por figuras horríveis e que não parecia querer jamais terminar...

Até ao dia em que o túnel explodira, em que as brumas se rasgaram, em que os objectos e as formas recuperaram contornos nítidos, em que, finalmente, abriu os olhos. Estava deitada numa cama branca, dentro de umas cortinas verdes de que não se recordava. Tentou levantar-se e não conseguiu devido à fraqueza, mas ao deixar-se cair de novo na almofada emitiu um suspiro, que atraiu de imediato o rosto da sua avó. Um rosto mudado, de rugas mais profundas, de olhos avermelhados por causa das lágrimas, mas que sorriu:

- Minha pequenina! Dir-se-ia que me estás a ver?

- É evidente que vos vejo, avozinha... Onde estamos?

- Em Passiacum, em casa da pobre Bertrade! Oh, meu Deus, vou prevenir os teus pais!

A anciã afastou-se do leito, dirigiu-se para a escada e chamou. Alguns segundos mais tarde estavam todos em redor dela: a mãe, o pai, o irmão e também Margot, a criada, chorando todos de alegria e agradecendo ao Senhor e a Nossa Senhora...

Foi um momento de grande intensidade, verem-se todos sob o mesmo tecto, apesar de não ser o de Montreuil, que foi preciso dizer-lhe que já não existia, e de pertencer a Bertrade. Aude sabia do seu destino trágico. Temendo que a sua simples evocação provocasse uma recaída, abstiveram-se de lhe falar dela, mas a jovem foi a primeira a fazê-lo porque sentia a necessidade, pelo contrário, de extirpar, através das palavras, as imagens terríveis que a família escutou aterrada até ao fim, quando a jovem disse que a tinham atirado ao rio como um pedaço de carne podre.

- ... ela, que devia repousar a esta hora junto do marido em terra cristã!

- Ela está em terra cristã - tranquilizou-a Machieu. - Os que te salvaram repescaram o saco e trouxeram Bertrade para aqui, onde a sepultamos como deve ser.

- Oh! Bendito seja Deus pela sua compaixão! Mas... aqueles que me acudiram, quem são?

- Um bando de estudantes e mendigos comandados por um tal Pedro de Mantou e, sobretudo, pelo nosso amigo Olivier - respondeu Remi. Foi ele que te trouxe, juntamente com o corpo da tua querida tia.

Apesar de pálida, Aude corou. Numa alegria misturada com alguma vergonha por pensar que ele a vira nua, exposta aos olhares daqueles homens maus como uma rapariga pública. Mas, agora, não lhe inspiraria outra coisa senão uma piedade misturada com um certo desdém pelo seu aviltamento. Era verdade que se sentia feliz por ter sido ele a arrancá-la às garras do Cabeçudo e às dos seus carrascos, mas talvez ele tivesse feito o mesmo por outra mulher qualquer, como o exigiam as leis da cavalaria e, na melhor das hipóteses, salvara a filha de Machieu, uma rapariga chamada Aude, a quem nunca ligara importância. No entanto, a jovem perguntou onde ele estava e se seria possível agradecer-lhe...

- Estamos à espera do seu regresso, tal como ele prometeu - disse a velha Matilde. - Ele quis, o que é natural, acompanhar messire d'Aulnay, que foi saber dos sobrinhos e da mulher do infeliz Gautier, que Madame Margarida ousou amar...

Margarida! O seu nome atingiu Aude como uma flecha porque, no momento em que o ouviu, a jovem apercebeu-se de que, concentrada no seu próprio drama, a tinha esquecido por completo. Era incrível! Como era possível, já que a sua última imagem era ao mesmo tempo tão terrível e tão orgulhosa? O momento em que a carroça negra a levava para longe da imunda carnificina de Pontoise. As duas outras princesas tinham ficado fulminadas pelo espectáculo, mas ela não baixara por um único instante a bela cabeça rapada e o rosto lívido onde não se via uma única lágrima. O seu olhar autoritário impusera um silêncio aterrorizado a uma multidão sempre pronta a odiar quem invejava...

- Ela deu-me o seu belo manto branco com a fivela de rubis! - pensou Aude em voz alta - e disse-me que o guardasse para lho devolver quando regressasse, mas já não o tenho. Ficou no solar de Nesle... e nunca mais lho poderei devolver... - Acreditas que ela poderá regressar um dia? - murmurou a sua avó, pegando-lhe na mão. - O Rei nunca lhe perdoará e o marido odeia-a...

- E a prisão de Château-Gaillard é bem má - grunhiu Machieu, de olhar sombrio: uma fortaleza construída por Ricardo de Inglaterra para proteger a sua Normandia! Fortaleza essa que ele não conservou por muito tempo, porque o nosso grande Rei Filipe, o Augusto, lha tirou, mas que nunca melhorou. É um montão de pedras enormes, de vigas pesadas e correntes de ferro. Os quartos do torreão não passam de masmorras húmidas, talvez suportáveis no Verão, mas mortais no Inverno. Sobretudo os do alto, onde os ventos gelados entram como em casa deles... Umas mulheres jovens e delicadas, habituadas à doçura de casas aquecidas e providas de leitos de penas, com cobertores quentes e almofadas, não resistirão durante muito tempo! Sobretudo sem uma lareira!

- Conhecei-lo, meu pai?

- Estive em Petit-Andely, há três anos, para examinar o campanário da igreja. No albergue apareceram alguns arqueiros do castelo e foram eles que o descreveram...

- Meu Deus! - gemeu Aude, juntando as mãos. - Isso quer dizer que Madame Margarida e Madame Branca vão morrer de miséria e de frio?

- Mais ou menos! Elas cometeram um grande pecado, é preciso dizê-lo, mas uma espada bem afiada, num cadafalso, teria sido menos cruel do que aquela morte lenta.

- E ninguém lhes pode valer, evidentemente?

- Só Deus! Ele terá de atender, antes do Inverno, à maldição de mestre Jacques, e que o Rei morra.

- Sim, mas suceder-lhe-á o malvado do filho.

- Sem dúvida. Mas Madame Margarida, quer ele queira, quer não, será Rainha de França. A Igreja não aceita a anulação do casamento por adultério, nem sequer o de um rei. Ele terá, forçosamente, de contar com ela.

- No sítio onde ela está? Oh, meu pai, como podeis acreditar nisso? Ele mandá-la-á matar discretamente. E eu, que queria tanto que ela vivesse!

- Parece gostares muito dela?

- É verdade. Foi uma verdadeira felicidade servi-la, tratar-lhe dos vestidos. Ela agradecia com tanta gentileza. Sim, gosto muito dela e lamento muito o que lhe aconteceu...

Machieu levantara-se para lhe beijar na fronte:

- Vamos, não desesperes! É dever dos homens de bem seguir os desígnios do Senhor...

- Que quereis dizer?

- Nada que possas compreender. Pensa em pôr-te boa! Aude seguira o seu conselho e, já em pé, fizera questão de que a sua primeira saída a levasse ao túmulo de Bertrade. A mãe quisera acompanhá-la e Blandine conduzira-as lá.

Na véspera, Machieu e o filho tinham partido para Gentilly. O mestre-de-obras levava na ideia que era tempo de chamar os seus homens a si.

Terminadas as orações, as três mulheres dobraram o joelho em frente do eremita, que as abençoou da soleira da sua gruta e regressaram à quinta. Seguiam em silêncio saboreando o prazer simples de caminhar através dos bosques cheios dos cantos das aves devido a um belo dia de sol. Aude sentia-se apaziguada por ter podido tocar na terra onde repousava a sua tia e por sabê-la sob a protecção daquele ancião hisurto e malcheiroso, mas cujo olhar irradiava tanta luz e compaixão... Um bálsamo para as feridas da alma!

Quando chegou à quinta, no entanto, a sua serenidade nova sofreu uma fissura. A sua avó, que tinham deixado no pomar à sombra de uma macieira, olhava friamente para um homem gordo de capuz de veludo castanho, ricamente vestido com uma pequena túnica da mesma cor bordada a seda mais escura e que ia e vinha de um lado para o outro na sua frente com as mãos atrás das costas, proferindo palavras que as recém-chegadas não perceberam com clareza. Enquanto caminhava, dobrava de vez em quando os joelhos, talvez para os desentorpecer, o que lhe dava um ar ridículo, e a jovem desatou a rir. De imediato, ele cessou a sua ginástica para olhar para as três recém-chegadas.

- Bem! Aí está o resto da família! Devia calcular que esta velha não podia viver aqui sozinha!

- Eu nunca disse tal coisa - ripostou Matilde. E gostaria de saber para onde foram as vossas boas maneiras! Velha! Isso é maneira de falar a uma dama?

-Dama? Érei-lo, sem dúvida, em casa do vosso filho, em Montreuil, mas agora já não sois grande coisa, já que ele é um fugitivo e vós ousastes refugiar-vos nesta casa que me pertence, visto que a minha querida tia já não é deste mundo. E tendes a audácia de me perguntar o que venho fazer aqui? Tomar posse, muito simplesmente - ladrou ele.

- Como a perspectiva de uma herança muda um homem! Conheci-vos mais polido e mais amável, mestre Imbert!

A personagem era, de facto, Gontram Imbert, o retroseiro, sobrinho por afinidade de Bertrade. E a observação acerba de Matilde era plenamente justificada: até ao presente, a família de Machieu conhecera - pouco, aliás! - o gordo retroseiro da rue Quiquenpoist como um homem afável e sorridente. Bertrade mostrara-se satisfeita depois da morte do marido, quando os bens tinham sido partilhados entre ambos: ele recebera o frutuoso comércio da praça, na Galerie Mercière do Palácio, que fazia dele um dos comerciantes mais ricos de Paris e ela os restantes bens, entre os quais um anexo - que ela lhe cedera dois anos antes para que ele pudesse aumentar a sua casa! - e a Quinta das Abelhas. E eis que naquele dia ele lhes caía em cima deitando fogo pela boca! Talvez devido à surpresa, já que não esperava, certamente, encontrar a casa ocupada...

- Eu sou como sou! E isso só a mim diz respeito!

- A nós também, penso eu! - disse secamente Juliana, aproximando-se e olhando-o de frente. - E, antes de mais, quem vos disse que a minha irmã tinha morrido?

- O pessoal do solar de Nesle, de onde venho! Fui lá, preocupado com os rumores sobre o que lá se passava depois do assunto das princesas e queria falar com ela, saber qual era a posição dela. Aliás, não era a primeira vez que a ia ver e pensava já ser conhecido, mas o intendente - um homem que nunca tinha visto! - quase me pôs fora dizendo que Bertrade tinha ofendido gravemente monsenhor Luís de Navarra e que este, num movimento de cólera, lhe tinha batido... com um pouco de força de mais, talvez, e que ela tinha morrido. Quando lhe reclamei o corpo, ele troçou, dizendo que o pessoal do príncipe se tinha encarregado do funeral. Mandou buscar ao andar de cima um pacote de roupas velhas que lhe pertenciam - as novas devem tê-las dividido entre si! - e meteu-mo nos braços dizendo que me contentasse, que ficasse caladinho se não queria ter problemas e que fosse à minha vida! A mim, Gontran Imbert, mestre retroseiro, com loja conhecida e homem com grande reputação e grande experiência!

- Não é segredo para ninguém! Por que não fostes queixar-vos ao Rei? Sois um grande burguês e ele gosta das pessoas como vós.

- Eu? Ir... nos tempos que correm, tão incertos? Era preciso que fosse doido. Eu... eu já mal consigo aguentar o olhar do Rei quando ele passa na Galerie Mercière e assim...

- Preferistes vir aqui! Pergunto a mim própria porquê!

-Já vo-lo disse: entrar na posse daquilo que me pertence... e enterrar o pacote de farrapos que vedes em cima da minha mula. Podia tê-lo deixado num sítio qualquer, mas perguntei a mim próprio se não seria...

- Achais melhor pôr a mão naquilo que nunca vos foi destinado? Os bens da minha irmã vão para a minha filha que aqui vedes. Esta casa, pelo menos, que ela sempre disse pertencer-lhe...

- É preciso que esteja registada no notário! Ora, eu não acredito. É lamentável, mas como esta quinta era do meu tio, é normal que fique para mim!

-Já consultastes o notário?

Pela pequena veia que lhe pulsava na testa, via-se que Juliana lutava contra uma cólera cada vez maior e que lhe custava manter a calma perante aquela figura balofa e hipócrita, aquele estafermo muito senhor de si. A dama sentiu vontade de o esbofetear quando ele disse com um sorriso finório:

- Achais que é necessário? O vosso marido e o vosso filho colocaram-se fora da lei, dama Juliana e, como tal, o mesmo acontece convosco e os vossos bens. Já não tendes nada, portanto, e peço-vos que vos lembreis que me basta subir lá acima, ao castelo, para que venham desalojar-vos.

Matilde lançou um grito de indignação e Juliana, com a garganta seca, não encontrou que dizer. Então, foi Aude, que se intrometeu: a jovem colocou-se entre a sua mãe e o retroseiro, qual Nemésis loura, com os olhos chamejando de cólera:

- É preciso serdes um miserável para ousar ameaçar umas mulheres que pertencem à vossa família e sobre quem se abateu a infelicidade e para vos aproveitardes da sua triste situação!

- À minha família? Só porque a vossa tia se casou com o meu tio? Não me parece que seja assim! Em todo o caso, como parece que aquela pobre Bertrade... assim como vós mesma, estavam ao serviço de uma puta, que está agora a apodrecer numa masmorra, felizmente...

A bofetada, desferida pela jovem com um vigor inesperado, atirou-lhe a cabeça para trás e deixou-lhe no rosto a marca dos dedos. O homem quase caiu, mas conseguiu equilibrar-se e disse, furioso:

- Vais pagar-mas, minha querida... E vou dizer-te como! Eu quero que fiqueis aqui, tu e as tuas velhas, mas para serdes minhas criadas... e a ti, vou meter-te na minha cama! - guinchou ele, de olhos esgazeados e dentes cerrados, antes de correr o mais rapidamente que lhe permitiam a massa e as pernas curtas na direcção da sua mula, da qual tirou o pacote que atirou por terra.

Em seguida, içando-se para o animal, berrou:

- Vais arrepender-te, putéfia! Eu volto amanhã... e acompanhado! Vou deixar aqui alguns homens para vos mostrar quem é o senhor! Senão...

O som de uma trompa interrrompeu-o e em vez de esporear a mula, reteve-a, estendendo o ouvido enquanto um grande sorriso se lhe espelhava no rosto:

- Dir-se-ia que não é preciso! Este som quer dizer que monsenhor Filipe vem repousar um pouco no seu solar de Passiacum...

- Pensava que tínheis medo” dele? - lançou Matilde, desdenhosa.

Ele desatou a rir, ao mesmo tempo que punha a montada em marcha.

- Isso era dantes! Se recusardes as minhas condições, não terei pejo em vos denunciar. Tanto mais que terei o cuidado de não ir só! Até amanhã...

Com um gesto de despedida,, Imbert avançou para a entrada da quinta que, de regresso do bosque, as três mulheres não tinham tido a preocupação de fechar, mas não a transpôs: estava lá um homem, sujo e cheio de poeira, mas cuja estatura lhe arrancou um soluço. De pernas afastadas e braços cruzados, o desconhecido esperava-o e este nem teve tempo de lhe gritar para se afastar: em três passadas, Olivier estava em cima dele. Arrancou-o da sela e atirou-o por terra, onde o homem perdeu o barrete.

- Por que esperar? - grunhiu ele. - Vamos lá imediatamente!

Debruçando-se, o cavaleiro agarrou na gola da bela túnica bordada do retroseiro para o pôr de novo na vertical e obrigá-lo a caminhar na sua frente. Com a outra mão, desembainhou a faca, cuja ponta ficou encostada aos rins de Gontram.

- Messire! - gritou Juliana, assustada. - Que ides fazer? Será a nossa perdição!

- Não creio! Chegou a hora de saber o que vale a justiça de Filipe. Juro-vos que, se alguém perder, será este porco gordo! E eu também, talvez, mas vós não podeis continuar a viver, como mulheres sós - acrescentou ele, sublinhando o “sós” - com esta ameaça sobre as vossas cabeças. Se eu não regressar, tomai algumas precauções...

- É boa ideia! - arrotou Imbert. - Porque eu também vou falar e o Rei ouvir-me-á melhor do que a um pé descalço. Eu sou um burguês de Paris...

- E eu sou cavaleiro! O meu nome é Olivier de Courtenay! E o Rei também é cavaleiro! E agora, toca a andar!

- Esperai, Messire - disse Margot, a criada, que nunca ninguém ouvia porque, aparentemente, nunca tinha nada para dizer. - Como precaução, levai isto! Eu ajudo-vos.

A serva tinha uma corda nas mãos e com ela atou fortemente os punhos do retroseiro e como este gritasse injúrias, ela enfiou-lhe na boca o esfregão que tinha à cintura do seu avental. Em seguida, Margot ofereceu a ponta da corda a Olivier com uma pequena reverência:

- Assim ides mais comodamente!

- Obrigado, Margot! - sorriu Olivier. - Velai pelas nossas damas... e dizei adeus a... todos os que me são queridos!

- Não! Adeus não! Ou, então, permiti-me ir convosco, porque era a mim que esse vilão queria sujar! Eu saberei falar ao Rei, espero - exclamou Aude, que seguira Margot.

- Não sei. O Rei, agora, desconfia das mulheres, sobretudo se são muito belas... como vós! Não, eu vou lá sozinho. Só quero que possais morar aqui em paz com a vossa mãe, a vossa avó e com a boa Margot, guardadas pelo bravo Aubin e por Blandine... como tendes feito desde a vossa infelicidade. Que, pelo menos, tenhais o direito de viver tranquilamente!

O cavaleiro falava sublinhando ligeiramente as palavras e fixando os olhos desvairados da jovem, para que ela compreendesse bem a sua intenção: ninguém da aldeia, até ao presente, se apercebera da presença de homens e era uma sorte Machieu e o filho não estarem ali naquele dia. Era preciso aproveitar.

- Viver tranquilamente? Quando vós ides a caminho da vossa perda? Oh, sire Olivier, só vos vejo quando vos ides afastar de mim?

O cavaleiro teve um sobressalto, como se tivesse sido ferido:

- Isso é assim tão importante para vós? - murmurou ele com voz rouca.

- Mais do consigo explicar.

Compreendendo que estava quase a confessar tudo, a jovem corou, subitamente envergonhada de um comportamento tão contrário à modéstia e até ao pudor que podia ser motivo de desprezo, ela, uma filha do povo que ousava levantar os olhos para ele, um cavaleiro... um templário! Então, fugiu na direcção da casa a correr, com os ombros sacudidos por soluços. Se ela se tivesse virado, talvez o olhar com que Olivier a acompanhava lhe tivesse adoçado a dor. Este estava cheio de mágoa, mas também tinha uma luz de que o cavaleiro não tinha consciência e que ela de felicidade.

- Ela ama-vos... - dissera Bertrade às portas da morte e Olivier, perturbado, começava a pensar que a dama não delirava, que podia ser verdade... Mas, de momento, tinha mais que fazer do que sonhar com o impossível: por exemplo, fazer com Gontram Imbert pagasse a sua vilania. O seu sangue entrou de novo em ebulição ao pensar no que aquele suíno lúbrico poderia fazer àquela criatura tão delicada e teve vontade imediata de o matar! Seria tão simples!... Simplesmente, executar um homem reduzido à impotência, por mais odioso que fosse, estava fora do espírito de Olivier. O templário enrolou a ponta da corda em redor do punho, passou esta sobre o ombro e puxou:

- Toca a andar! Chegou a hora de pôr em ordem a tua vida, assim como a minha...

A bandeira das flores-de-lis mal mexia no topo da única torre sem fosso. Com dois muros ameados encostados a si, que encerravam a capela e se juntavam numa pequena barbacã, tal era o castelo de Passiacum. Habitualmente, era um local extremamente tranquilo. O castelão, o velho cavaleiro de Fourqueux, fazia ali reinar uma certa disciplina entre os seis ou sete arqueiros que compunham a guarnição na expectativa das - raras - visitas reais e já teria morrido certamente de tédio sem as partidas de xadrez com o capelão, as copiosas refeições que ambos partilhavam e as incessantes recordações dos seus feitos guerreiros. O cavaleiro temperava bem as ditas refeições, mas isto compensava aquilo e o capelão era comilão. Vivia-se ali uma vida isolada, sem outra manifestação exterior que não a do sino da capela marcando as horas canónicas.

Naquele dia, o solar estava bem acordado. Ao aproximarem-se da entrada, Olivier e o seu prisioneiro viram dois arqueiros perto da grade levantada e aperceberam no pátio alguns sargentos reais que, armados de paus com a flor-de-lis vigiavam a descarga das bagagens. Naturalmente, cruzaram-se duas bisarmas à sua aproximação, ao mesmo tempo que um dos guardas dizia, rindo:

- Onde é que pensas que vais, homenzinho? Se é um ladrão de galinhas que trazes a messire de Fourqueux, ficas a saber que ele não tem tempo para ti. Como podes ver - acrescentou ele, designando o rebuliço no interior - o nosso sire chegou.

- É justamente o Rei que eu quero ver!

- Deves ser maluco! Quando ele vem para aqui, vem habitualmente com uma escolta reduzida e é proibido incomodá-lo. E esse que trazes aí preso a uma corda, quem é?

- É meu prisioneiro, como vedes e é precisamente ele que eu quero apresentar ao Rei. O nosso sire vai achá-lo interessante. E não tenciono discutir convosco...

- Nesse caso, segue o teu caminho!

- Não. Continua a ser messire Alain de Pareilles o comandante da guarda?

- Sim. Mas...

- Ide pedir-lhe o favor de vir aqui!

O homem hesitou. No entanto, emanava uma força daquele desconhecido modestamente vestido e que parecia vir de longe. Uma força que tinha a ver com a maneira como ele mantinha a cabeça direita, uma bela cabeça asceta e orgulhosa, com a sua voz grave com inflexões que diziam que não se tratava de um camponês nem de um homem do povo.

- Quem sois?-perguntou o guarda, suficientemente impressionado para abandonar o tratamento por tu.

- Di-lo-ei a messire de Pareilles!

Dessa vez, o soldado, arrastando consigo a sua arma, dirigiu-se ao pátio de onde regressou pouco depois escoltando um oficial de grande estatura cujo rosto severo nunca devia reflectir a menor emoção. Por baixo do chapéu de ferro, as sobrancelhas espessas e grisalhas abrigavam um olhar quase tão imóvel como o do seu senhor.

- Que quereis? - perguntou ele sumariamente.

- Obter justiça para inocentes maltratadas. Justiça verdadeira! A do Rei, que prestou juramento de cavalaria! Não a do sire de Nogaret! O homem que trago comigo é um criminoso...

- A sério? Como vos chamais?