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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TRATAMENTO REAL / Mary Janice Davidson
TRATAMENTO REAL / Mary Janice Davidson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TRATAMENTO REAL

 

Ainda hoje, com todas as comodidades do pacífico século XXI, os nativos do Alaska são um grupo forte e nenhum o é mais que a Família Real. Existe um dito nesta parte do mundo: “Os Nativos Reais do Alaska lutam contra os ursos, mas só depois do chá”.

Esta resistência era vital para um jovem e vasto país. Os nativos do Alaska tinham que ser rudes, não só para quebrar com a Mãe a Rússia em 1863, a não ser para depois avançar e criar seu próprio governo. Pode não ter sido fácil, mas a Família Real esteve à altura das circunstâncias.

É precisamente esta rudeza o que em ocasiões causava problemas. O sogro da Rainha, O Rei Alexander II, não era a exceção.

Os documentos históricos confirmam que o Rei Alexander adorou a sua nora do momento em que a viu. Com seu ímpeto característico, decidiu que essa inflexível plebéia seria perfeita para seu filho herdeiro à coroa, o Príncipe David.

Mas claro, convencer a Sua Alteza o Príncipe, por não mencionar à mulher que eventualmente se tornaria na mãe de reis, não seria um assunto simples. . .

  

 

 

—Se voltar a me tocar, arrancarei-te as orelhas e as colocarei pelo nariz.

Christina Krabbe explicou este fato da vida a seu supervisor, que nesse momento se encontrava rodando pela coberta, protegendo suas partes privadas.

—Não devia ter saído da cama hoje. Teria sido melhor atirar o relógio ao chão e voltar a dormir.

Mas em sua vida tinha chegado tarde ao trabalho e se ela não quebrasse oitenta ovos para “Na sexta-feira de Ovos mexidos Rosemary”, quem o faria?

Christina soube que haveria problemas, virtualmente no momento em que chegou a bordo. Ed "acidentalmente" tinha lhe roçado o traseiro e os seios um milhão de vezes. Nunca o suficiente para lhe chamar a atenção por seu comportamento, mas sim o suficiente para lhe fazer temer seu próximo encontro. Estava simplesmente surpreendida de que seu chefe levasse três semanas para dar o primeiro passo.

Mas hoje... aproximou-se dela por trás para lhe agarrar os seios como se fosse uma vaca pronta para ser ordenhada... ela tinha lhe dado um chute e uma cotovelada, e agora ele estava no chão. Parecia, não haver volta atrás. E não é que quisesse o contrário. Seus lábios se moviam. Ela se aproximou para escutar.

—… despedida.

—O que?

—… despedida. Está despedida.

—Certo. Qual é a frase? “Não pode me despedir, renuncio?” É isso? Deveria demandar seu traseiro, Ed, luxurioso pedaço de merda. Mas francamente, não vale à pena, a moléstia, ou a demanda. Além disso, não tenho dinheiro para um advogado. Mas não importa.

Colocou seus pertences dentro de uma mochila enquanto ele se recuperava, sustentando-se dolorosamente sobre seus pés para partir pela porta. Ela não o observou ir. Preocuparia-se com suas referências mais tarde.

Desceu pela coberta, mostrou seu crachá de empregada ao tipo que contava narizes, e a jogou sem demora no lixeiro ao final do mole para cair na fila atrás dos gansos .

Ao menos estavam no porto. Se Ed tivesse tentado sua merda enquanto estavam no oceano, haveria lhe dado uma boa travessia nadando.

Um dos guias turísticos - a linha tinha empregado uma dúzia, e ela nunca pode aprender seus nomes- estava fazendo Alaska 101 para os gansos. Christina abriu caminho através da multidão, escutando pela metade o falatório.

—Em efeito, a Rússia ofereceu o Alaska à venda aos Estados Unidos. Como sabem, a América do Norte enfrentava uma guerra civil, por isso não se interessou na oferta, mas poderiam imaginar o que teria se passado se o tivesse estado? O Alaska teria se convertido no quadragésimo nono estado!

E desde que tirou o chapéu do ouro e do petróleo aqui, estivemos dando com a cabeça contra as paredes, pensou Christina, contendo uma risada.

O guia turístico falava monotonamente, enquanto Chris deixava a coberta, o navio, ao Ed e às Terças-feiras de Torradas Francesas, no esquecimento.

A Doçura do Verão - um nome estranhamente estúpido para um cruzeiro que zarpava do porto essa noite. Ela não planejava subir. Não voltaria a aproximar-se de Ed - poderia lhe ocorrer uma pequena vingança.

Seria um bálsamo para seu ego ferido. Alguns homens eram assim, raros. Você os golpeia para se defender e eles decidem que a única forma de vingar-se é ferindo-te em dobro.

Quando o navio zarpasse, ela ainda estaria no porto. Abandonada no Juneau, Alaska, a mil milhas do lugar de seu nascimento. Abandonada nos limites do mundo, em um lugar com uma popularmente assobiada Família Real e mais ursos que carros.

Genial.

 

O Rei Alexander II, cabeça da casa Baranov, era, igual à maior parte da família real, um enigma. Embora tivesse nascido entre a riqueza e o privilégio, tinha um pensamento corrente. Não obstante, raramente lhe permitia “sujar as mãos”, como Sua Majestade pôde havê-lo exposto, além de suas responsabilidades, o passatempo do mordomo, Edmund Dante, e seu guarda-costas.

Freqüentemente Sua Majestade deixava crescer a barba e saía com um grupo de pesca. Isto enfurecia a alguns, principalmente: (A) sua equipe de segurança, (B) Edmund Dante, e (C) As pessoas de seu grupo de pesca. O rei Alexander sempre se surpreendia por não ser reconhecido, e quando finalmente o era, grande parte da diversão do grupo, esfumava-se. Era difícil para os cidadãos do Alaska desfrutar de um dia de descanso quando notavam que seu soberano era quem capitaneava o navio e estripava o pescado.

—Apanhamos toneladas de peixes, mas você não sorriu em toda à tarde. - O capitão do navio se sentou juntou a ela, estirando as largas pernas e olhando fixamente a ponta de suas botas de borracha— Que vai mal, moça?

Christina se encolheu.

—OH, vamos.

—Bom. - olhou a outros membros do grupo de pesca que estavam amontoados no extremo oposto do navio, olhando-os fixamente. Estranho. Momentos antes tinha sido um grupo bastante alegre, e agora caminhavam como se tivessem cristal nas botas. — Direi-te qual é meu problema, se me disser o deles. - Ela moveu a cabeça em direção ao grupo.

—Feito.

—De acordo. Vejamos, mandei a merda a meu chefe por tentar me tocar em um lugar privado, despediram-me, outra vez, e estou isolada em um país estranho, outra vez. E utilizei meus últimos cinqüenta dólares para vir pescar. Pergunto-me, como posso chegar a ser tão estúpida?

O capitão parecia desconcertado. Era um homem grande, largo de ombros, e um pouco mais alto que ela - e tendo em conta as estatísticas, Christina não era pequena. Ele tinha o cabelo espesso, grisalho e uma barba igualmente espessa entrelaçada com tons prata. Seus olhos eram azuis pálidos e sorriam inclusive quando sua boca não o fazia.

— Como pôde chegar a ser tão estúpida, com respeito ao que?

—A gastar minha última moeda nesta viagem. Quero dizer, poderia ter esperado conseguir outro trabalho, certo? Estúpida. Não há desculpa. — Suspirou e olhou para o oceano— Mas eu só queria… queria…

—Fazer algo que você gosta para variar. Não acredito que seja algo estúpido.

—Sem desculpa. - disse melancolicamente - O primeiro trabalho. Assumindo que serei capaz de trabalhar neste país. Quero dizer, tenho passaporte, mas, esquece-o, estou-me indo pelos ramos. Quanto ao resto, não tão estúpido. Quero dizer, que se supunha que devia fazer? Deixar que me agarrasse? Esquece-o. Tem sorte de que não lhe tenha chutado as bolas até deixar-lhe na garganta.

O capitão assentiu, o que há animou um pouco.

—Maldito seja. Obteve o que merecia. Se alguém fizesse isso a uma de minhas filhas... —Suas mãos se fecharam em punhos que eram, ela observou, do tamanho de bolas de boliche.

—Certo. Sem piedade.

—Certo, maldição.

—Certo. Agora bem, estabelecemos que chutar traseiros é a maneira. Mas isso não me ajuda. Tenho que encontrar um trabalho. Suponho que primeiro devo averiguar se posso ficar.

—Pode ficar. - disse o capitão.

—Isso está bem, mas é melhor se o investigar por minha conta, não acredita?

Ele se encolheu.

—Certo. Ah… resulta-me familiar. Vi-te na TV ou algo assim?

—Tenho essa classe de rosto. - disse vagamente.

—OH. De todos os modos, todas as minhas posses se encontram em um armário da biblioteca, mas…

—O que aconteceu a seus parentes?

—Meu pai nos abandonou quando eu era apenas um bebê, e minha mãe morreu quando eu estava na escola secundária. Só restou eu.

—Raios, isso é mau.

Agora era seu turno para encolher-se. Certamente, ela não ia entrar no de "estar por sua conta desde que tinha dezesseis”. Ele parecia um velho bom e amistoso, mas havia limites.

— A que se dedica?

—Sou… Quero dizer, era… cozinheira em um cruzeiro. “E guarde o discurso dos cruzeiros são a ruína do Juneau”. Já o escutei da boca dos residentes.

—Também o escutei. Estamos trabalhando nisso.

Ela o olhou fixamente. — A sério… realmente me resulta familiar. Está seguro que não nos vimos antes ou…?

— Que fará quando retornarmos ao porto?

—Suponho que averiguarei se algum dos hotéis necessita uma camareira ou…

—Pode trabalhar para mim.

—Obrigada. É muito amável de sua parte. - Era sincera, mas ser uma colega a bordo de um navio pesqueiro não era sua idéia de passar um bom momento. Era uma desordem, o trabalho era duro, o pagamento ruim, e os turistas eram chatos. - E talvez a aceite, - os mendigos, depois de tudo, não podiam fazer picuinhas— mas é melhor procurar algo por minha conta.

—Tem noivo?

—Capitão, terei que lhe chutar o traseiro a você também?

—Certo! É o suficientemente jovem para ser minha filha. Estou muito velho para essa merda. Mas tenho um filho, é um pouco mais velho que você, que idade tem, vinte e três, vinte e quatro? E penso que…

Ela levantou as mãos.

—Não, obrigada. Quão último necessito agora é uma encontro às cegas.

—Bom, onde dormirá esta noite?

—Sério. Terei que lhe chutar o traseiro?

Ele riu de novo. Era reconfortante - tinha uma grande e explosiva risada - mas estranha. É como se ele tivesse descartado sua ameaça. Como se nunca lhe tivesse acontecido algo assim, e lhe resultasse divertido que acontecesse. A maioria das pessoas não ri quando os ameaça com linguagem de marinheiro.

—Se tranqüilize, ah…

—Christina.

—Christina. Chame-me Al. Olhe, vivo em um lugar bastante grande e há espaço para você. E sempre há um milhão de pessoas ao redor, e todos os meus filhos vivem em casa, assim não estará… ah… comprometida. E odeio imaginar-te dormindo em um banco do parque. Seriamente, realmente “odeio”.

Ela teve que sorrir ante sua ansiedade. E seriedade. — Obrigada, Capitão. Mas dependi de mim mesma durante muito tempo.

Ele suspirou. — Faz o que queira, mas se mudar de opinião, só tem que chamar a este número e este homem a instalará. — Ele procurou por toda parte e logo extraiu um cartão. Deixou uma grande mancha de graxa nela, mas apesar disso era completamente legível— Foi bastante divertido falar com você, mas suponho que é melhor voltar.

Retornou à parte traseira do navio enquanto ela lia o cartão.

 

               Edmund Dante

               Secretário em Chefe do SRM Rei Alexander II

               Juneau, Alaska

               Audentia aeternum audentia

               763-223-3215

 

A princípio pensou que se tratava de uma brincadeira, seu nome era Al., não Edmund. - E o que passa com o latim? Ela conhecia esse slogan, tinha-o visto na TV ou algo assim... o que era? Audácia, algo. Audácia, Sempre Audácia, Isso. Mas essa era a Família… a Família Real.

Ela observou o resto do grupo que se movia torpemente, em massa, quando o capitão se aproximou.

—Sua majestade. - murmuraram alguns, olhando a coberta.

—Majestade. - disse outro, um pouco mais alto, e inclinando-se pela cintura.

—Oidme, no bote, é apenas Al, entendido, meninos? —arranhou-se a barba— De todos os modos, como me reconheceram?

—Ouça! —Gritou ela, enrugando o cartão em seu punho— Hei!

—O que? —exigiu ele, voltando-se.

—O rei? Você é o condenado Rei do Alaska e tem tripas de pescado debaixo das unhas?

—Ouça, a todo mundo gosta de sair de vez em quando.

—Sair?

—Chama a meu homem se mudar de opinião, Christina. Temos muito espaço…

—No Palácio Sitka, pelo amor de Deus!

—Bom… sim. - Lhe sorriu. Ela sacudiu a cabeça e franziu o cenho, mas em seu interior, sorria. Tinha sido uma boa brincadeira, e disso estava segura. Que vergonha não havê-lo reconhecido antes, com barba ou sem ela. Depois de tudo, o homem saía na televisão e estava em anúncios quase todos os meses.

Agredi a meu chefe, insultei a um Rei. Tudo no espaço de três horas. Não posso esperar para ver o que me proporciona à tarde.

 

Sua Alteza Real, David Alexander Marko Dimitri Baranov, príncipe herdeiro do Alaska, inclinou-se e disse:

—Toma-o, pequena dama. Você sabe que o quer.

O elegante pingüim rei, que lhe chegava até a altura da coxa, abriu seu bico e engoliu a isca. David resistiu ao impulso de acariciá-la. A ave, que enganosamente parecia calma, era extremamente capaz de lhe dar uma dolorosa bicada caso se sentisse ameaçada. As cicatrizes que tinha no dorso das mãos eram prova disso.

Ele olhou à dúzia de pingüins rei que nadavam e percorriam o habitat de quarenta metros quadrados. Um lar dentro de sua própria casa. Aqui David se sentia realmente em paz, aqui era capaz de…

—Sua Alteza, herdeiro ao trono, uma vez mais entre aqueles que rebolam.

—Os reis não rebolam, Edmund. - disse-lhe sem voltar-se a olhá-lo— É possivelmente o único tipo de pingüim que caminha em lugar de saltar.

—Fascinante, senhor. Estou tão encantado que estou dormindo em pé. É obvio, não me atreverei a dormir e lhe sugerirei que deixe seu santuário e tome seus mantimentos com o rei e seus irmãos reais.

—Por que teria que fazê-lo?

O Assistente Especial do rei sorriu.

—Não tenho nem idéia, senhor.

—Assim papai retornou da pesca.

—Faz duas horas, senhor.

—Tornaram-no a o descobrir, não é certo?

—O rei ainda não é consciente de quão facilmente reconhecíveis são suas feições.

David riu baixo. Era malditamente divertido, o rei escapulia com a intenção de ter um pouco de tempo para si mesmo — bem conhecia ele esse impulso!— e, como sempre, sentia-se indignado quando seus súditos o reconheciam.

—Quer alimentar às aves?

—Sinto-me afligido pelo convite, mas como o homem comum que sou, não compartilho a fixação de sua família pelos peixes mortos.

—Sabichão. - murmurou David.

Edmund Dante tinha cuidado da família real da época de seu avô. Por tal razão, sabia que Edmund respeitava profundamente a instituição, não a temia.

A lembrança mais antiga que David possuía, era a de Edmund fazendo uma profunda reverência e chamando-o “senhor”, antes de lhe dar uma surra por ter jogado à princesa Alexandria do mole à baía.

—Senhor, eu… ah, não me atrevo a dizê-lo.

—Você? Não se atreve? De tudo que tenha cheirado? Poderia me convidar?

Edmund lhe sorriu com acrimônia. Era alto, tão alto como o rei, mas muito mais magro. Também tinha duas licenciaturas, uma em História do Alaska e outra em Literatura do Alaska. Suas irmãs lhe tinham apelidado ao Edmund, "Ichabod Brain” .

—Seu engenho é tão devastador como sempre, senhor. Perguntou-me se é consciente de que o rei está… ah… procurando uma esposa.

—Meu pai quer casar-se de novo? —Perguntou, afastando a vista dos pingüins— Santa mãe de Deus, uma vez não é suficiente?

—Não uma esposa para ele, senhor. A não ser para você.

—OH. Esse assunto de que o príncipe herdeiro necessita uma vergôntea, não?

—Imagino que sim, senhor.

David deu de ombros e tomou outro cubo com iscas.

—Bem, ele pode escolher por mim. Quero dizer, realmente não importa, não é verdade? Enquanto seja jovem, sã e queira ter filhos.

—Como você diz, senhor. Realmente, são essas as únicas qualidades que alguém desejaria em uma esposa. - disse Edmund, com um rosto perfeitamente inexpressivo; apesar de que David entrecerrou os olhos ao olhá-lo, não trocou sua expressão. Às vezes era impossível saber se o homem estava brincando ou não.

Edmund abriu a boca, mas –graças a Deus– foi interrompido pelo timbre de seu rádio. Tirou-o de seu bolso e pressionou o botão lateral negro.

—Dante.

—Ah, sim, senhor Dante, fala o sargento Kenner desta entrada.

—Adiante, sargento.

—Bem, há uma garota aqui —uma dama, quero dizer— e afirma que…

—É ele? Dê-me isso, - a voz da mulher, de contralto ligeiro, repentinamente se fez mais clara. E aguda. David afastou o olhar dos pingüins e inclinou a cabeça, para escutar a chiada e estridente voz— É você Edmund Dante?

—S…

—Bem, escute, meu nome é Christina Krabbe e hoje conheci o rei em um navio pesqueiro. Não diga nada, sei como soa, mas é certo! Fingia ser o capitão e usava na rosto algo que parecia ser um rato almiscarado morto.

—Fascinante.

—Bem, o que seja, disse-me que poderia ficar no palácio se quisesse. E me deu seu cartão. Ao princípio eu disse “não, obrigada”, mas então pensei, “por que demônios não?” Sei como soa.

—Sem dúvida. Senhora poderia pôr de novo na linha ao sargento Kenner, por favor?

—Quem? OH, é obvio. - Se ouviu um ruído surdo seguido de um rangido.

—Aqui Kenner.

—Sargento, a dama em questão tem cabelo loiro até os ombros, olhos verdes e sardas? E chega a você à altura dos ombros?

—Seus olhos são mas bem azuis que verdes, mas todo o resto coincide.

—E resulta tão odiosa em pessoa como parece por telefone?

—Bom... sim.

—Muito bem, escolte-a até a entrada oeste. Reunirei-me ali com ela.

—Imediatamente, senhor.

Edmund cortou a comunicação e guardou o rádio no bolso.

—Quem era? —Perguntou David— Esqueceu-se de soltar o pescado e um dos reis o bicou. Apenas o sentiu.

—OH, alguém que conheceu seu pai hoje. - disse Edmund distraidamente— Não seria de seu interesse, Alteza.

—Bem, certamente é assim. Seria melhor que se pusesse em marcha. Levará-te a menos vinte minutos chegar à entrada oeste daqui.

—Senhor, hei-lhe dito um trilhão de vezes que não exagere. Não me levará mais de doze. —Edmund se inclinou ligeiramente —Com sua permissão, Sua Alteza...

—Como se o necessitasse. - resmungou David, e fez um gesto de despedida com a mão.

Christina Krabbe repetiu depois de que Edmund partisse. Estranho nome. Formosa voz.

 

Sobre meu avô, Edmund Dante I, recaiu a tarefa de ensinar maneiras às futuras rainhas, assim como todas as demais áreas do comportamento apropriado para a realeza. Posteriormente, Dante teria conhecido o entusiasmo dos reis e teria sabido, de fato antes que a mesma Rainha Christina, o papel que ela estava destinada a desempenhar. Por isso, provavelmente, todo o tom de sua relação ficou definido em seu primeiro encontro.

Infelizmente, não há expedientes históricos sobre tal encontro, por isso nos vemos obrigados a especular sobre o que aconteceu entre estes dois indivíduos…

O sargento - que tinha trocado de atitude quando ela recebeu a autorização de “quem quer que fosse”— fez chiar os freios para deter-se frente a uma gigantesca porta. Ela saltou fora do carro de golfe e se voltou para agradecer a Kenner o passeio, para ver como ele olhava seu relógio, assentia e se afastava...

Certo. Aqui, nadava ou se afundava. Por ela, estava bem.

Levantava uma mala, - pensou que se se parava nas pontas dos pés poderia ao menos alcançar a metade da porta— quando a porta se abriu de repente e ela ficou frente ao ombro de um dos homens mais altos e magros que tivesse visto.

Tinha o cabelo cor azeviche cuja linha de nascimento formava uma V em sua frente, e olhos tão escuros, que não podia distinguir onde começavam suas pupilas. Vestia um traje negro, camisa branca, gravata negra e estava intensamente bronzeado. Provavelmente teria entre trinta e cinco e sessenta e cinco anos.

—Gaaaaaahhhh!

—Verde. - disse o homem de aparência incrivelmente horripilante, inspecionando-a— Não azul.

Ela pousou uma mão sobre seu peito para ralentizar o galopante pulso. — Quê. O que?

—Boa noite, senhora. Edmund Dante.

Estreitou-lhe a mão. Sua saudação foi firme e seca. Era como lhe estreitar a mão a uma tábua de madeira.

—Acaso todos os tipos neste país medem mais de metro oitenta de altura?

—Sim senhora. Todos e cada um de nós. Se puder me acompanhar…

—Aonde vamos?

—A sua habitação, senhora.

—OH. Super. E é Christina, não senhora.

Depois de seis corredores, uma viagem de elevador e quatro portas, ela aguardava em uma pequena suíte de habitações.

OH... homem!

—Confio em que lhe parecerá aceitável?

—Céus!

—Muito bem então.

Ela se jogou sobre a cama, rodou a meio vôo e desapareceu em um movimento envolvente de cobertores.

—OH, poderia me acostumar a isto!

A rosto de “quem queira que fosse” apareceu sobre ela. Resultou um pouco menos impactante que a primeira vez.

—Se necessitar algo, - lhe disse ele— só levante o telefone. O almoço de amanhã se servirá a uma.

—Devo cantar para o jantar, né? Bom, o justo é o justo.

—Gostaria de conhecer o príncipe David antes de…?

—Por quê?

—OH, perfeito.

—O que?

—Nada, senhora. É o ar seco daqui dentro. - tossiu dentro de seu punho— Põe-me rouco. Solucionarei-o imediatamente. Boa noite.

—Adeus.

Retirou-se, movendo-se como um fantasma alto e bronzeado, e ela se levantou da suave cama—lhe levou um momento!— e rondou pela suíte.

Paredes cor nata com adornos dourados. Muitas janelas. Um banheiro, um quarto só para passar o momento, uma saleta. Janelas grandes—maiores que ela!—que olhavam para um jardim verde esmeralda, com o tamanho aproximado do Central Park de Nova Iorque. Quatro telefones!

Levantou um fone, só por diversão, e em lugar do tom de chamada escutou uma alegre voz feminina dizendo: - Sim, Senhorita Krabbe?

—É “Crab”, - disse ela sobressaltada— o 'e' não se pronuncia. E, mmm, nada. Adeus.

Pendurou e tirou os sapatos, para logo lançar-se novamente, dentro da assombrosamente luxuosa cama.

Tenho que encontrar o problema. Tem que haver um. Antes que pudesse dar-se conta, adormeceu.

 

—Viu-a? —exigiu o rei.

—Bem, Sua Majestade, e você?

—Deixa isso, Edmund, chato. O que te pareceu?

—Uma....—escolheu suas palavras com cuidado—... carismática jovem.

—Pensa que agradará ao David? Ela é tudo o que ele necessita. É forte, mais formosa que o inferno e não é o tipo de garota com más maneiras. Gritou quando se inteirou de quem era eu. Habitualmente, as pessoas simplesmente como que... —O rei Alexander fez um gesto vago.

—Apressam-se fora do alcance de sua poderosa ira?

—OH, se cale.

—Sua Majestade, você pediu minha opinião e como seu servente me sinto muito agradecido de que se apresentasse esta rara oportunidade de dar a conhecer minhas perspectivas.

—Cospe-o já, Edmund.

—Não pode deixar o príncipe escolher sua própria esposa?

—Bem, o que demônios está esperando? —O rei saltou de seu assento à chaminé e passeou pelo lugar agitadamente— Fará trinta este ano e nem sequer está procurando. Demônios, nem sequer está saindo. Essa revista americana… People, certo? Nomearam-no o Solteiro Mais Elegível desde que cumpriu a maioridade, assim não me diga que não poderia conseguir um encontro, se assim o quisesse. E você o escutou, tudo isso de “sempre e quando ela seja saudável e queira filhos”… Sandices.

—Mas isso é compreensível. Sua Majestade não deseja a sucessão para…

O rei se afastou.

—Não, não, não.

—Não? —Edmund insistiu.

—Céus, tenho cinco filhos. - um dos quais está obrigado a engravidar-se ou engravidar a alguém mais— Se David não tiver filhos, os filhos do Alex podem controlar o país, ou o outro Alex, ou os do Kathryn, ou…

—Acredito que posso ver para onde se dirige com isto, senhor.

—Só quero que ele esteja com alguém, entende? Uma companheira. Uma amiga. Para que não gaste todo seu tempo rondando atrás dessas aves pestilentas. Quando sua mãe… hã… se foi…

—A morte da rainha, foi um golpe terrível para o Príncipe David. — disse Edmund com calma.

—Como seja, necessita uma esposa. E se ele não se consegue uma, eu encontrarei uma por ele.

—O Senhor nos ajude.

—O que?

—Ar seco. Encarregarei-me disto imediatamente.

—Assim que a menina, Christina, está instalada e bem?

—Estava dando voltas no edredom quando a deixei, cantando como um macaco.

—Excelente. E almoçará com todos nós amanhã?

—Sim, senhor.

—Bem, se assegure de que David venha também. Não é uma solicitude. — lhe diga que o rei e ele almoçarão, entende-o?

—Entendi-o a primeira vez, senhor.

—Menino preparado. Suma.

—Por uma vez, senhor. Só uma pergunta... confesso que me consome a curiosidade…

—Que grande fodida surpresa.

Edmund suspirou desaprovando a linguagem, mas não fez comentários.  

—Dou-me conta de que abandonou suas tentativas de fazer a paz com sua Majestade, a Rainha da Inglaterra.

—Ela não responde minhas cartas. - disse ele melancólico— Sua secretária esteve respondendo por ela Que falta de respeito é essa? OH... sem ofender, Edmund. Quando te pus a responder minhas cartas…

—É só porque você está muito ocupado, senhor, sei. Assim a Inglaterra permanece implacável?

—Muito condenadamente certo. Céus, um desafortunado engano e nos vemos privados de Buckingham e Sandringham por vida.

—O desafortunado engano deveria ser a vez que confundiu um de seus valiosos cachorrinhos com um mapache e depois o perseguiu a cavalo?

—Pensei que tinha raiva. - gemeu o rei— Você conhece todos os problemas que tiveram este verão. Eu ia matá-lo para ela.

—Como um gesto de boa vontade.

—Bom… sim.

—Um inesperado começo que consolidaria a relação de sua casa com a sua.

—Exatamente!

—Em lugar disso, simplesmente perseguiu a seu amado cão até cansá-lo, e fazê-lo sucumbir por desidratação.

—Demônios, não é como se tivesse morrido. Só precisou ver o veterinário. Por poucos dias. De acordo, uma semana.

—Mmm. —Edmund passou uma mão sobre seu imaculado penteado — Então, podemos nos esquecer da aliança marital com a Casa de Windsor.

—Sim, bastante.

—Por isso recorremos a recolher plebeus norte-americanos da rua?

O rei moveu um dedo do tamanho de uma salsicha em direção ao Edmund.

—Esquece essa merda esnobe, minha bisavó foi uma plebéia e se converteu na melhor Rainha que este lugar tenha visto. As linhas de sangue importam uma merda aqui. O que faz é o que conta.

—Sim, Sua Majestade.

—Christina tem o que faz falta. Ao David dá no mesmo. E eu os quero casados. Assim que isso é tudo.

Mas como, como eles dizem, foi tudo.

 

—Mapas - disse a loira entrando apressadamente no refeitório. Divisou os degraus muito tarde e em vez de deter-se, simplesmente saltou voando sobre eles para aterrissar sobre seus pés. Levava shorts cáqui, um suéter azul pálido sem mangas e mocasins sem meias— Mapas nas habitações.

—O que? —Perguntou o rei— Qual é o problema, menina? Almoço a uma, terceiro piso. Fácil.

—Há três refeitórios neste piso. - replicou, deixando aos serventes com a boca aberta e obtendo amplos sorrisos de parte dos parentes Reais— Diga-o comigo… mapas.

—Certo, peço-te desculpas, maldita seja. A próxima vez ordenarei que Edmund a escolte.

—Fantástico. - murmurou, ocupando o assento junto ao David— Isso não me provocará um susto de morte.

O Rei Alexander esclareceu a garganta. Como seus filhos, vestia jeans e camisa. O relógio em sua mão esquerda valia oitenta mil libras, Libras Esterlinas (o tinha agradado a Rainha Isabel, antes que as relações se deteriorassem), e tinha uma banda de borracha em sua mão direita, que valia perto de oito centavos, centavos do Alaska.

—Todo mundo, ela é Christina Krabbe.

—Pronuncia-se Crab, não Crabby. O 'e', - disse ela, voltando-se para o David— é mudo.

—Como é. - prosseguiu o rei elevando a voz— Estará trabalhando em nosso país por um tempo, assim façamo-la sentir-se como em casa.

—Não lhe queriam na América do Norte, não? —disse o menino mais jovem e riu.

—Se cale, Nicholas. - replicou o rei, valendo-se de sua formidável provisão de psicologia infantil— Christina, este é meu filho mais velho, David; minha filha mais velha, Alexandria; meu outro filho, Alexander III; minha filha, Kathryn e meu filho mais novo, Nicholas.

—Sei. - disse ela— Quero dizer… ah, é muito amável de sua parte me apresentar, mas leio o jornal ocasionalmente. Além disso, todos figuraram na publicação Realeza Selvagem da revista People.

David soprou.

—A imprensa, - anunciou Alexandria— acossa-nos. Por outra parte, puderam ter publicado fotografias menos aduladoras? Ora.

—OH, deixa-o já. - disse Nicholas— Sabe que é bonita, assim chega de choramingações a respeito das más fotografias, ok?

—Fecha o bico, idiota. - replicou a princesa, mas se via satisfeita.

—Estou tão feliz de que se tenha barbeado. - explicou a plebéia ao rei— Esse estilo de ‘animal morto na rosto' era... fuchi. Além disso, como disfarce era bastante pobre.

Agora os Alexes se acotovelavam mutuamente e riam atrás de seus guardanapos enquanto o rei franzia o cenho.

—Olhem, tenhamos um bom almoço, sim pirralhos? Sim?

David notou que o rei, evitava suplicar. Seus irmãos e irmãs podiam cheirar o medo.

O primeiro prato, ostras frescas em meia concha, foi servido. David tragou a primeira enquanto mantinha sua atenção centrada na mulher sentada ao seu lado. Realmente era algo… adoravelmente bela, com abundante cabelo loiro e sardas pulverizadas sobre seu nariz e bochechas. Formosos olhos verdes, a cor do musgo do bosque. Cheirava estupendamente, como a sabão e flores silvestres. E sua boca! Caso se sentisse intimidada por almoçar com a Família Real, não o mostrava absolutamente. A maioria das pessoas se sentavam rígidas como uma tábua e mal que tocavam a comida.

—Não parece haver muitas reverências protocolares por aqui, ou isso notei. - disse Christina, observando as ostras com uma expressão neutra.

—As reverências protocolares… são desalentadas por Papá … além disso, consomem tempo.

—O que foi isso? —perguntou Christina, completamente confundida, ao Príncipe Alexander.

O Príncipe David se aproximou e murmurou: - Meu irmão está nessa fase. Só fala em Haiku .

—Por quê?

—Perdeu uma aposta. - disse a Princesa Alex— De todos os modos, voltando para as reverências. Nosso pai as desalenta.

Bebeu toda a água de seu copo, e tão logo o depositou sobre a mesa um servente se aproximou e o voltou a encher. —Não fomos educados para fazer reverência quando o soberano entra, reverência quando te chama, reverência quando se vai, reverência…

—Uma maldita perda de tempo. - disse o rei com a boca cheia.

—E isto é o Alaska. Estamos acostumados a ter assuntos mais prementes em nossas mentes que o protocolo Real.

—Ao contrário de outras Famílias Reais. - disse David com arrogância.

—Não culpe aos Windsors … Apanhados em suas tradições… Eles também são prisioneiros.

—Isso é assombroso. - anunciou Christina— Simplesmente lhe ocorrem no momento? Abre a boca e sai poesia? Não poderia escrever um poema nem para salvar minha vida.

O Príncipe Alex lhe sorriu. Usualmente as mulheres não se impressionavam por seu haiku. Ou seu fanatismo pelos filmes de George Lucas.

—O menino tem razão… não ataquemos aos Windsors. - disse o rei, salgando seu salmão defumado. David acreditava que era um milagre que seu pai não tivesse o nível de colesterol em oitocentos — Não podem evitá-lo. Estiveram fazendo a mesma merda durante mil e quinhentos anos. Como disse Alex, são tão prisioneiros como qualquer morto de fome em um cárcere.

—Isso está bem. Umm... onde está o molho de coquetel? —Sussurrou Cristina a Edmund, que tinha tomado seu posto junto à janela, quatro pés atrás dela.

Edmund se inclinou para frente. —Desculpe, senhora?

—O molho de coquetel. - disse em voz alta pausadamente, como se falasse com alguém com atraso mental— Para. As. Ostras.

—Vêm com molho vinagrete. - explicou David— Prova-a, acredito que…

—Acredito que vou vomitar se tiver que tragar as ostras cruas sem molho de coquetel. Conhece essas molestas pessoas que têm que pôr molho de tomate a tudo?

—Como o rei? —perguntou Edmund irritado.

Ela o ignorou. E David descobriu que teve que descansar o punho sob o nariz para ocultar um sorriso.

—Bom, eu sou uma dessas pessoas que têm que pôr molho de coquetel aos frutos do mar.

—Raios, e agora o que acontece? —queixou-se o rei.

—Bom, que diabos, meus direitos estão sendo pisoteados! —disse Christina.

—Seus direitos como uma estrangeira ilegal? —perguntou a Princesa Alexandria, mostrando um amplo sorriso sem reparos.

—Alexandria, tentamos ser amáveis com ela. - disse o rei.

—Casamenteira! —disse a modo de resposta, tossindo atrás de seu guardanapo.

—Casamenteira? —repetiu Nicholas, extasiado. Deixando escapar uma estridente e juvenil gargalhada.

—Por todos os Santos! —balbuciou David.

Completamente indiferente à discussão que se levava a cabo, a convidada continuou.

—Quero dizer, Jesus, tem sorte de que esteja disposta a comer estas coisas. - O Príncipe David jogou a cabeça atrás, esquivando por pouco, as mãos que Christina sacudia— O primeiro tipo na história em comer uma ostra crua era um intrépido ou um bastardo desesperado, digo-lhe isso a sério. Chamemos cada coisa por seu nome, isto tem um aspecto desagradável. Sinto muito, mas é...

— Au!

Um pão-doce atravessou a mesa partindo do lugar da Princesa Kathryn, golpeando a Christina na frente, para logo cair dentro de seu prato. As conchas das ostras se agitaram e Christina levantou a vista, mas a princesa em questão se encontrava devorando suas ostras e mantinha o olhar baixo. Christina a olhou com suspeita durante um comprido tempo e logo acrescentou: - Assim, molho de coquetel?

O Príncipe Nicholas havia desaparecido sob a mesa, a melhor forma de amortecer sua risada, por chamá-la de algum jeito. O rei descansava a cabeça entre as mãos e Edmund estava impassivelmente silencioso.

Martha, a chefe do serviço, reapareceu carregando uma sopeira de prata cheia de, David rogou, molho de coquetel. Dispô-la frente à Christina, sorriu e se afastou com sua usual, rápida e silenciosa eficiência.

—Já está! Molho de coquetel. Bom, obrigado. —moveu-se em seu assento para olhar fixamente ao Edmund— Foi tão condenadamente difícil, Jeeves ?

—Edmund.

—Dá no mesmo.

David se uniu a seu pequeno irmão debaixo da mesa.

 

Depois do almoço, Christina perambulou pelo castelo, guia (O Guia Oficial para o Palácio Sitka, edição revisão, ano 2003) em mão. Talvez o almoço tivesse sido raro, com o rei falando com gritos, uma princesa rindo bobamente e um estranhamente silencioso príncipe herdeiro escondendo-se debaixo da mesa com seu irmão menor, mas o palácio era realmente fenomenal; o Castelo da Cinderela na Disneylândia tinha sido desenhado apoiando-se neste.

Finalmente, depois de vários giros e descansos na escada, achou-se em uma larga habitação repleta de retratos.

As cortinas foram do teto ao chão e estavam fechadas, para proteger as pinturas, adivinhou. Mas a habitação estava tenuemente iluminada.

Aí se encontrava um pequeno e descontente rei. O pônei tampouco parecia muito feliz.

Também estava à mãe do rei, uma mulher grisalha - Olhe todos esses cachos! — de aparência amável, com os azuis e risonhos olhos do rei.

Aí estava o bisavô do rei, Kaarl Baranov, que tinha ajudado a separar o Alaska da Rússia, e ganho uma coroa por tamanha moléstia.

E por aí estava sua bisavó, a legendária Rainha Kathryn, que era uma garçonete na casa Real quando monopolizou a atenção do rei. Que idéia tão graciosa pensar em uma mulher corrente ajudando a dirigir o país. Bom, na América do Norte o faziam todo o tempo.

Aqui era… Pasmem.

Aí estava uma mulher, imponente, formosa e terrífica ao mesmo tempo. Seu cabelo comprido até a cintura era negro muito escuro e seus olhos, verdes como o veneno, reluziam no retrato. Seu vestido era feito de veludo azul escuro e levava um colar de safiras tão grandes como o polegar de Christina. Sua pele era cor branca nata, imaculada e perfeita. Seu nariz era bicudo… como o nariz da Princesa Alexandria. Sua boca era vermelho carmesim. Seus dentes branquíssimos e afiados. A boca de uma amante apaixonada... ou a de uma mulher que seguro morderia se se zangasse.

—Ela era especial, não?

Christina se sobressaltou, logo replicou. —Recorda-me à rainha malvada de Branca de Neve. Sabe… era Formosa, mas isso não lhe impedia de ser má.

—Mmm.

Ela se girou e voltou a sobressaltar-se quando reconheceu ao David. —OH, merda! Acabo de insultar a um de seus parentes, não é certo?

—Minha mãe. - lhe disse.

Ela se cobriu os olhos com as mãos. —Aaarrgghh! Resultou-me familiar! Raios sinto-o tanto. Passou muito tempo desde que ela… um… raios, não há forma de que isto melhore…

—Bom. - Ela sentiu como lhe segurava os pulsos gentilmente e as separava de seu rosto— Tem razão, sabe? Era formosa. Mas também tinha um lado terrível.

A Christina não lhe ocorria nada que dizer, por isso simplesmente ficou olhando ao príncipe. Era bastante fácil olhá-lo, a verdade fosse dita… se parecia muito a seu pai, tinha o mesmo cabelo negro e penetrantes olhos azuis, a mesma compleição, quase a mesma altura. Sentia-se pequena ao seu lado.

E sua mãe! A Rainha tinha feito ostentação suas aventuras amorosas ante a imprensa e o rei, respectivamente. Os rumores sobre o divórcio tinham sido copiosos, mas o destino tinha intervindo. A rainha tinha morrido em um acidente automobilístico, durante um rendez vous com seu amante Du jour. Supostamente, estava aplicando batom quando acidentalmente tinha conduzido para um escarpado. Era horrível e gracioso de uma vez. A imprensa deu um banquete.

David recordava história moderna, teria tido dezessete anos nesse tempo. Nicholas, o menor, seria recém-nascido. E tinha havido desagradáveis rumores a respeito, ou não? Sobre a possibilidade de que Nicholas fosse só metade Real…

—Sua família, - lhe disse, porque tinha que dizer algo— é realmente… ah… especial. Tem uma irmã preciosa, outra irmã adolescente que se tornará em uma beleza, mas que por agora não fala muito, um precioso irmão menor que só fala poesia, e que realmente necessita uma malhada. Quanto pesa? Cinqüenta quilogramas? E mede o que, um metro oitenta? E outro irmão que passa o tempo brincando sob a mesa do jantar. E todos se parecem muitíssimo exceto Nicholas, cuja cabeça está repleta de cachos que eu mataria por ter! Teve alguma vez um momento aborrecido, ah?

—Vim te perguntar algo. - disse David abruptamente.

—Bem. Irei fazer a bagagem.

Sorriu-lhe. Seus dentes eram parecidos e muito brancos. Tinha herdado a boca de sua mãe, se não, suas menos desejáveis características. Christina mataria por conseguir o nome de seu ortodontista. Tinha uma covinha na bochecha esquerda. Era realmente delicioso, talvez um pouco distante, mas isso era…

—… você gosta de estar aqui?

—Claro? Quero dizer, sim, é genial. Seu pai foi realmente amável ao me permitir vir e ficar.

—Fascinam-lhe os casos perdidos…

—É isso o que sou? —perguntou-lhe, divertida.

—Mas estou saindo de tema. Christina… perguntava-me… consideraria se tornar minha esposa?

Ela riu. —Acreditava que acabava de me propor casamento. A acústica aqui dentro!

—Tenho-o feito.

—Eu… o que? OH! - Ela ficou pensando por um comprido momento— O diz a sério? Não é uma brincadeira?

—Não. - Tomou a mão e lhe massageou gentilmente os nódulos com seu polegar— Não estou brincando.

—Nos casar, viver aqui para sempre, me tornar rainha algum dia?

—… sim.

         —Não, obrigada. - adicionou, ante seu olhar de surpresa— Mas foste muito doce ao me pedir isso

 

— Não? Que demônios quer dizer com não?

—Não. Non. Nyet. Ela há dito não. Bom, isso é tudo. Uma lástima certamente, mas há muitos peixes mais no mar.

—Quieto Edmund! E você também David. - O rei notou que seu filho começava a mover-se sigilosamente para a saída— Retorna aqui. Agora. Fê-lo corretamente, com diamantes, rosas, violinos e toda essa tolice ou o primeiro que te passou pela cabeça foi contar-lhe tudo?

—Contar pode ter sido a razão. - admitiu o príncipe herdeiro.

—Deus, David, essa não é forma de cortejar!

—O que?

—Isso se faz com elegância. Já sabe, sob todos esses juramentos e gritos, ela é americana, nascem românticas; tem que cortejá-la. Como não têm príncipes, fantasiam com eles todo o tempo.

—Que perturbador - comentou Edmund.

—Ela não é como as garotas daqui, super praticas e desejosas de dizer que sim, porque vêem o grande panorama. Reconheço-o, - admitiu David— não era a resposta que esperava.

—Vê, vê? Sei as escolher ou não? Agora, além de todas suas qualidades…

— As quais são… - Perguntou Edmund.

—… sabemos que não é uma caça fortunas. Ofereceu-lhe uma coroa e mais dinheiro que Deus e ela disse “obrigada, mas não, obrigada” - O rei Alexander golpeou o punho contra sua palma— Temos que fazê-la trocar de opinião! Esta é a mulher que quero que dirija o país quando eu me tenha ido. Já sabe, junto a você, David.

—Agradeço-lhe isso.

—Esta é a mãe de meus netos!

—Isto, — murmurou Edmund— é uma autêntica dor no traseiro.

—Prova, prova! Ao Edmund não gosta.

—Você não gostava de minha mãe, Edmund? —perguntou David.

Edmund se ruborizou, coisa rara e assombrosa, e se voltou inusualmente silencioso.

—Bom, suponho que posso tentá-lo novamente. - Em realidade, estava impaciente por voltar a tentá-lo— Christina era... inesperada. E seu pai tinha sido brilhante. Havia coisas piores que escutar os conselhos do Rei. Além disso, ela tinha umas sardas preciosas.

—Ela não partirá logo, não?

—Não tem aonde ir, pobre garota. - O rei lhe apontou com um dedo— Você vá cortejá-la. Agora.  

—Majestade - disse David sorrindo e se deixou cair em uma perfeita e estudada reverência.

—Deixa essa merda.

—Como meu Senhor e Rei ordene. - respondeu, e ainda inclinado, saiu da habitação.

 

—Nicky, pequeno pirralho, se não me devolver isso agora mesmo…

—Essa não é forma de falar com um príncipe. - Sua Alteza, o Príncipe Nicholas, quinto na linha ao trono, queixou-se.

—Vou tirar- te a golpes de príncipe se não tirar meu sutiã da cabeça em um segundo. Não fica bem, e, além disso, - disse ela aduladora— é o último limpo.

Nicholas, que estava fascinado pela nova convidada, sem mencionar sua roupa interior, saiu engatinhando de debaixo da cama de Christina. Com o sutiã sobre a cabeça e os broches sujeitos no queixo, parecia um camundongo com largas orelhas brancas. Tinha herdado os cabelos de sua avó (provavelmente), e a olhava de uma massa de cachos loiros.

—Só estava brincando. - disse a modo de desculpa.

Arrebatou-lhe o sutiã, quase o estrangulando.

—Tenta-o de novo, e ninguém encontrará o corpo, entende?

Ele riu dela.

—Não, não, não o fará. Além disso, vai contra as leis deste país machucar a um membro da família real.

—E? Se isso significa ficar com minha roupa interior, a prisão é um pequeno preço a pagar. - admitiu ela— Em todo caso, o que esta fazendo aqui? Não tem… não sei… lições de príncipe ou algo assim?

—Não no domingo, tola.

—Bonita forma de falar com uma convidada.

—Ficará por muito tempo?

—Não sei, quer dizer, é muito tempo vivendo da caridade de seu pai.

—Não é caridade. - disse o príncipe emocionado— Definitivamente não. Ao papai gosta, e sempre tem convidados.

—Sim, sei. Escuta, tenho que conseguir um trabalho. Possivelmente possa conseguir um aqui! — Por que não tinha pensado nisso? E por que estava confessando a um menino de ginásio? OH, bom. - Deveria ir e encontrar a cozinha, falar com o chef… - pode ser que necessitassem uma cozinheira extra. Pelo menos, ela poderia assegurar-se que não faltasse molho de coquetel.

—M.… Christina… Não acredito que papai queira que trabalhe aqui… exatamente.

—Bom, merda. Desculpa. Não repita isso.

—Tenho doze anos, não dois. Escutei essa palavra antes. Além disso, o Rei a usa sempre.

—Arrumado que sim. - Disse ela dissimuladamente.

—Sempre —David anunciou da porta— quer dizer pouco.

Christina se sobressaltou. —Será que vocês alguma vez batem?

—A porta está aberta, - lhe assinalou— suma, principezinho.

—Ohhhhh, David! É tudo tão aborrecido. E não me chame assim. Sou quase tão grande como Alex, ele é seis anos mais velho.

—Não o é, e como diria o rei, que grande merda.

Queixando-se, o pequeno príncipe se foi.

—Espero que não a tenha estado incomodando. - disse David, enquanto entrava no quarto fechando a porta.

—É um bom menino, com um perturbador interesse pela roupa interior feminina. Mmmm… o que quer?

—Jantar com você.

—Supõe-se que tenho que jantar com todos vocês outra vez esta noite. - Ela ficou a olhar sob os travesseiros e a revisar gavetas— Maldito programa, deve estar por aqui, em algum lado…

—Não se preocupe pelo programa. Jantar comigo. O que queira.

—Ovos mexidos e toucinho? —Perguntou ela alegremente.

Franziu-lhe o cenho. —Ofereço-te tudo o que peça, e quer ovos?

—Eu adoro. Anseio-os. Revoltos, fritos, fervidos, duros, brandos…

—Por que não se casa comigo? —disse-lhe, e se golpeou a frente.

—Ei, tranqüilo com a autoflagelação, amigo!

—Supõe-se que devo a cortejar. - explicou.

—Bom, não desperdice o cortejo comigo. E não porque não seja uma boa oferta, porque o é.

—Então. Por que não quer?

—Porque, francamente, ser Rainha soa como uma gigantesca dor no traseiro.

—Ofereço-te um país, e você me diz que é uma dor no traseiro?

Ela contemplou o teto, então assentiu e disse: - Sim, mmm… sim. Isso mesmo.

—Mas você não tem nada! —Exclamou— Meu pai diz que está sozinha no mundo e você… ah… — Não tem aonde ir, e é totalmente dependente da generosidade de estranhos. Não importa. Isso não serviria.

Ela apontou seu próprio peito com um dedo.

—Tenho a mim mesma, amigo, e isso é muito mais do que outros têm. Por que ia submeter minha identidade a de sua família? Eu poderia subir em um navio ou a um avião e ir a qualquer lugar do mundo tanto tempo como quisesse, se tivesse dinheiro. Sabe? Você poderia?

—Teoricamente. - depois de que o Rei o passasse, que os guarda-costas fossem nomeados, e que a segurança fosse comprovada três vezes, e…

—Bem, passo. Não se ofenda. Mas obrigada por perguntar. Novamente.

—Bom, pelo menos poderia jantar comigo. Já sabe, para me rechaçar gentilmente.

Ela riu. —Claro, está taaaaao apaixonado. Nem sequer me conhece! A propósito, outra excelente razão para dizer que não. Mas de acordo, jantaremos.

—Ovos mexidos e toucinho. E ostras com molho de coquetel.

—Pode saltar as ostras. E quero molho de tomate em meus ovos.

Ele conseguiu ocultar um estremecimento quando fez uma reverência e se despediu dela.

—Ei! —gritou ela atrás dele— Eu não tenho que fazer reverências, ou sim?

—Não fazemos reverências no Alaska, - lhe respondeu— só nos inclinamos.

—Certo. Bem.

 

Christina teve um mau pressentimento quando o aroma chegou ao seu nariz. Excremento de pássaro e pescado morto. A última vez que tinha farejado algo similar se encontrava em Boston visitando o Aquário de Nova Inglaterra.

Mas no palácio? Que demônios? Em efeito, encontrava-se no lado oeste mais afastado do palácio… muito mais longe e estaria no jardim, mas esse aroma… agh!

Golpeou uma porta marcada com “P, P, para P” e ao escutar o “Passe!” de David, entrou cautelosamente.

—Sabia! —Disse enquanto o aroma a assaltava de novo— Tem pingüins aqui!

Ele se endireitou de onde se encontrava reclinado atirando pescado à água. Vestia bermuda azul marinho, rodeados com um cinturão, uma camisa branca aberta pelo pescoço e sandálias. Seus grandes olhos azuis brilharam amigavelmente ao vê-la, enquanto uma fina barba de vários dias florescia em suas bochechas. Era quase suficiente para distraí-la do mau aroma.

Quase.

—Olá outra vez. Perdoe meu aspecto, mas tinha a impressão de que não se importaria que não tivesse posto um traje. Não são encantadores?

—Agh, não!

Ficou muito quieto por um momento, enquanto deixava cair outro pescado à água perto de perder os dois primeiros dedos de sua mão esquerda ante um pingüim particularmente faminto.

—Como diz?

Ela levantou as mãos. —Vamos Dave, está tão mimado! Este assunto de ser um príncipe herdeiro faz que as coisas sejam muito fáceis, não acredita?

—Não tenho nem a menor idéia do que está falando, mas em cinco minutos se esquecerá do mau aroma. Agora, pedi que nos enviassem o jantar em dez minutos, mas há champagne no…

—Agh, Comeremos aqui? Em meio de pássaros sujos e escamas de pescado? O que passa com você? Um rosto normal jamais faria algo assim. Embora você possa trazer garotas a este lugar fedorento enquanto elas fingem estar interessadas nisso, não?

Ele inclinou a cabeça - justo como o faziam os pingüins nesse momento!— e disse com dureza:

—Fingem?

Ela levantou as mãos e as cruzou sobre seu peito enquanto o olhava encantadoramente.

—OH, sua Alteza, são adoráveis! E nadam tão rápido! E olhe, estão alimentando-se de sua valente mão real! E não cheiram a excremento de pescado nem nada - Bateu suas pestanas enquanto o olhava e teve que parar quando se enjoou fazendo-o— A sério, Dave. Tudo isto de “Olá, serei o rei do Alaska algum dia”… que tal é? Parece muito bem para você, não é assim?

—O que tem que mau em ter uma afeição? —perguntou, limpando as mãos com uma toalha.

—Afeição! Deve haver centenas destes pequenos insetos aqui. Imagino que os seqüestrou do Canadá ou de onde seja que…

—Antártida. - disse molesto.

—… e os encerrou em seu pequeno palácio de horrores…

—Claro que não! —Sacudiu a cabeça irritado— Refiro-me a que têm espaço suficiente, estão felizes, e aqui não estão em perigo de ser devorados por uma baleia assassina ou uma morsa.

—Não, só estão em perigo de fazer que as visitas desmaiem pelo mau aroma, mas acredito que está bem.

—Não me desfarei deles! — gritou - Não me importa quantas sardas tenha!

—O que?

—Não importa.

—Não comerei aqui.

—Sim o fará Christina!

—OH, essa se supõe que deve ser uma ordem Real? Vejamos, Príncipe Pingüim, sou uma cidadã norte-americana. Não pode me obrigar a nada.

—Então vai. - espetou.

—É obvio! Se vir um pouco mais de excremento de pássaro nessas rochas, vou vomitar. Não sei como não se dá conta do aroma. E que significa P, P, para P?

—O que? —Respondeu ruborizado, mas se recuperou imediatamente inalando um pouco de ar enquanto tomava coragem para responder à pergunta— Significa “Privacidade, Por favor, para os Pingüins”.

Olhou-o assombrada por um momento.

—OH, agora sim vou vomitar. - decidiu finalmente, e saiu da estadia.

No instante em que ela se ia, David verteu o resto que continha a última cuba na água, olhando como as mais inteligentes e adoráveis criaturas do planeta devoravam até o último pescado.

—Bem, - Edmund esclareceu a garganta, saindo de um dos quartos de depósito com uma mangueira lhe pendurando sobre os ombros— foi maravilhoso.

David quase cai de bruços no lago dos pingüins. Era muito extraordinária a maneira em que Edmund aparecia e desaparecia, sem fazer nenhum ruído ou ser visto menos que assim o desejasse.

—O que está fazendo aqui? Se as rochas tiverem que lavar-se, encarregarei-me disso.

—Estava meramente antecipando suas necessidades Senhor, como qualquer bom assistente…

—Bisbilhoteiro!

—… faria. Sim, também.

—O que?

—Bom, quão último você necessita no mundo é uma esposa e companheira que diga a verdade por terrível que seja. Você necessita uma mulher aduladora, complacente…

—Como minha mãe, não obrigado. - Olhou com afeto a água por um momento— Bem, não vou desfazer-me deles, e essa é minha decisão final.

—Como príncipe, não tem que fazer o que não deseje fazer.

—É a pior mentira que escutei, - suspirou— mas suponho que tem razão. Ela é… refrescante, ao menos— Golpeou-se o peito com um punho.

—E acaba de sair… trouxe outras garotas, e pareciam ter ataques por ver pássaros que comem pescado e não podem voar.

—Criaturas fascinantes, - concedeu Edmund— mas não tão fascinantes de uma vez. Ah, jantar para dois. - acrescentou enquanto um servente abria a porta e entrava com um carrinho transbordante de comida.

—Leva-o a galeria, - resmungou David— irei em um momento. Quando estiver seguro de que posso falar com ela sem estrangulá-la.

—A galeria?

—É onde provavelmente esteja.

Edmund levantou uma sobrancelha maliciosamente. —E como sabe isso sua Alteza?

—OH, a encanta ir aí. Acredito que gosta de ver todos os parentes porque ela não tem nenhum. - Se dirigiu ao banheiro em uma esquina apartada e lavou as mãos— Prova disso é que não se foi desgostada do palácio.

—OH, se tão só fosse por isso.

—O que?

—Ar seco. - tossiu Edmund, enquanto enrolava a mangueira perfeitamente em uma rocha para logo seguir ao príncipe fora da estadia— E suponho que ainda preciso revisar isso.

 

— Que passa comigo?

—Não tenho nem idéia - respondeu sinceramente a Princesa Alexandria que se encontrava sentada no extremo oposto da galeria frente a um cavalete, sua camisa e suas calças estavam salpicados com as cores do arco íris. Estava descalça, os dedos de seus pés eram pequenos e bonitos, com manicure francesa. Parecia estar pintando a cena fora da janela, o que era interessante, já que as cortinas estavam fechadas— Francamente, todos nos estivemos perguntando isso.

—Certo, certo. Refiro-me a que seu irmão, um rosto muito agradável - embora um pouco obcecado com as aves aquáticas não voadoras— propõe-me casamento não uma vez, a não ser duas vezes e lhe dou as costas como se eu pudesse pretender algo melhor. Quero dizer, que diabos?

—Talvez possa. - sugeriu a princesa, pressionando o pincel na pintura Azul Caribe e esmagando-a ao redor. O pincel se abriu em forma de leque e a gota de cor na paleta duplicou seu tamanho - Me refiro a pretender algo melhor. Adoro a meu irmão, ele é um bom homem, mas há muitos outros peixes no mar, se entender ao que me refiro.

—Não ao passo ao que está alimentando a esses pingüins.

Alex deu um pulo, mas não fez nenhum comentário.

—Está se fazendo de advogado do diabo outra vez? —perguntou Christina.

—Não, estou tendo uma conversação cordial. Francamente, não sei o que está esperando. Ele é bom, bonito, rico e é a primeira mulher pela que mostrou interesse.

—Claro, aumenta um pouco mais a pressão sobre mim. Não é que vá importar-me. — Christina se deixou cair na cadeira mais próxima à princesa— E você? Algum prospecto marital?

—Muitos, - respondeu, riscando uma audaz linha azul no desenho— mas são todos caça fortunas. E é óbvio vieram voando quando fiz dezoito anos. É suficiente para fazer que uma garota renuncie ao mercado do casamento. Ao menos Kathryn pode atrasá-lo um par de anos mais.

—Acaso não li algo a respeito de você e o Príncipe William...?

Alex suspirou. —Oxalá! Ele é perfeito para mim, uma boa casa, boas maneiras, bom sangue, um grande corpo, e temos exatamente a mesma idade. Mas infelizmente, tratava-se só de uma fofoca fantasiosa.

—Isso é duro. E suponho que não saber se gostam de você por você mesma ou por seu título não é muito divertido tampouco.

—Mmm. - A princesa olhou a Christina de relance e arqueou uma escura sobrancelha. Ela, como seu irmão mais velho, compartilhava o mesmo tom de pele com o rei. Inclusive vestida de maneira casual, a princesa era impressionante. Com o cabelo negro azeviche, olhos azul escuro e uma compleição de porcelana. Sentada junto a ela, Christina se sentia uma pobre do povo desgracioso. O que provavelmente era certo... Se a família real era uma espécie de exemplo, a população geral do Alaska devia ser ridiculamente formosa — Suspeito que essa seja a razão pela que meu irmão está tão desejoso de “te pescar”, por assim dizê-lo.

—Basta com as metáforas de pesca.

—Muito bem, direi-lhe isso desta maneira. Sua indiferente e insensível atitude é um sopro de ar fresco - A princesa conseguiu dizê-lo sem o menor toque de ironia.

—Assim, não interessar uma merda é uma grande estratégia de venda, é isso?

Alexandria soltou um pulo de novo.

—Temo que sim. - Afastou uma mecha de escuro cabelo de sua frente e suspirou — Permita-me pôr a seu nível, Christina, de mulher a mulher.

—Ou de princesa a plebéia.

—Meu irmão não se interessou muito em nada desde que minha mãe morreu nesse estúpido e insensato acidente. Dedicou-se na escola, ao dever e de vez em quando aos pingüins. Agora, de repente, ele a está perseguindo por todo o palácio. Meu pai está completamente de acordo. E você, perdoe minha franqueza, não tem aonde ir. Então, qual é exatamente o problema? Há um milhão de coisas piores que ser a rainha do Alaska.

—Mmmm. Um milhão, não?

—Assim se case com ele, ou não. Mas, em minha humilde opinião, - acrescentou— é grosseiro desfrutar da hospitalidade de meu pai quando não tem intenção de dar algo em troca.

—Sabia que havia gato encerrado. —murmurou.

—E um muito grande. - concordou a princesa.

—Aceito um convite para almoçar e agora tenho que ser uma princesa.

—Não é tão mau. De acordo, isso é uma mentira.

Christina riu a contra gosto.

—Talvez a ajude considerar o que seus pais poderiam ter querido para você. - Uma linha amarela se somou a azul, seguida de uma instável linha vermelha. A pintura parecia um fodido arco íris— Se ainda estivessem aqui, o que diriam a respeito?

—Bom... —Christina se recostou no assento e olhou o teto. Que além de querubins, deuses e deusas, tinha um grande arco íris... De maneira que isso era o que estava pintando— Nunca conheci meu pai. E minha mãe trabalhou muito duro a maior parte de sua vida... Geralmente, tinha ao menos dois trabalhos. Devíamos nos mudar muito... Eu nunca cheguei a fazer amigos. Só fomos nós duas. E então, então só fiquei eu. Portanto, haveria me dito que teria que ir pelo anel de bronze e chutar a qualquer um que se interpor em meu caminho.

Alexandria juntou seus, perfeitos e rosados, lábios e assentiu.

—Bom, aí o tem.

—Salvo que... O que me faria diferente do resto da multidão se chegasse a aceitar sua proposta?

—O fato de que te esteja expondo essa pergunta é o que te faz diferente. Também, que todos desfrutamos enormemente quando lhe grita ao rei, assim simplesmente deve ficar.

—O que sou, só o bobo da corte? —murmurou zangada.

—Não, mas sim poderia ser uma princesa.

—Grandioso.

Ainda assim, Alexandria realmente lhe estava dando muito que pensar. Ela era formosa, e tinha sido ardilosa ao lhe perguntar o que haveria dito sua mãe a respeito. Sua mãe teria estado contente, emocionada, enlevada. Teria sido fabuloso passar por todo o luxo de uma boda Real, só para ver o rosto iluminado de sua mãe.

Então, era estúpido querer agradar a sua mãe que se encontrava enterrada desde por volta de dez anos já? Ou era o começo da compaixão?

 

—Está bem.

—Está bem, o que?

—Farei-o. Vou casar-me com você.

David precipitou acidentalmente o carro de serviço com a parede. A prataria voou pelos ares.

—Por todos os céus, - disse Christina, vendo ovos mexidos elevar-se pelo ar— talvez lhe devesse haver dito isso mais sutilmente.

Tinha-o encontrado justo fora da galeria - de fato, quase lhe tinha ferido o pé com o maldito carrinho.

—Estou surpreso, isso é tudo. Felizmente surpreso. - acrescentou apressadamente. Aproximou-se dela para tomar a mão, mas acabou por lhe pegar um pedaço de toucinho, enquanto se apoiava nela para recuperar o equilíbrio.

—Não vai lamentar, Christina. - sussurrou, apoiando-se nela— Há-me feito muito feliz.

—Já veremos, Menino Pingüim. - disse— E escuta, se algo resultar muito estranho, —não era que isso pudesse acontecer, claro— me mando daqui, e o compromisso fica cancelado estamos de acordo?

—OH, sim. Sim, é obvio. E certamente isso se aplica para mim também.

—Claro, não há nenhum problema.

—Bom, não. Isso foi uma tolice. Eu nunca poderia quebrar nosso compromisso.

—Está bem – Estranho — Suponho que deveríamos nos beijar? Assim para selar o, mmph!

O menino lia a mente! Ou havia tornado a escorregar para cair em sua boca. Como é, o trato estava fechado. E não estava nada mal. Ele não tinha passado suficiente tempo na sala dos pingüins para cheirar como eles, ou ela já se acostumou. Tudo o que podia cheirar era toucinho e seu aroma a limpo. Sua boca estava firme na dela, sentia sua mão maravilhosamente forte enquanto lhe sustentava a parte posterior do pescoço - não era algo que gostasse particularmente, mas com David sempre se sentia protegida e não sufocada.

—Meu pai imediatamente.

—Mmm, o que? —Que loucura. O beijo terminou. Ela olhou fixamente sua boca. De verdade, terminou-se o beijo? Sim, merda. E o pior era que ele ainda estava falando.

—Hei dito, o diremos a meu pai imediatamente.

—OH. Bom. Ah..., mas talvez não ao resto do mundo? Não tão logo?

—Como desejar. — lhe sorriu, seus olhos azuis brilhavam. Puxou-a da mão e correram sobre a comida pulverizada pelo chão.

 

Extraído de “A Rainha dos Confins do Mundo”, por Edmund Dante III, © 2089, Publicações Harper Zebra e Schuster.

Como se pode imaginar (se tiver estado prestando muita atenção a este tomo), o rei estava encantado com as notícias do compromisso do Príncipe da Coroa e Edmund Dante estava consternado.

As lições de Princesa estavam por começar, desenhistas e planejadores estavam encarregando-se, e se fixou a data para cinco meses depois… Em dois de Abril. Normalmente, esse seria considerado um tempo surpreendentemente curto para um compromisso Real, mas o consenso geral parecia ser "Ter tudo preparado" antes que a futura noiva trocasse de opinião e abandonasse o país.

Mas primeiro, Edmund Dante tentaria falar uma última vez com a intrépida plebéia para a liberar de suas bodas. Era difícil dizer se o fazia por seu próprio bem, o do país, ou o futuro da rainha.

E a reação da Rainha Christina a este tento, deu aos historiadores outro tentador vislumbre sobre o que foi o que levou a esta estrangeira, possuidora de uma força muito pouco comum, a aceitar uma coroa.

—Senhorita Krabbe...

—Me chame Christina. Ou Chris. Mas nada como Tina... que asco. Minha mãe odiou seu nome durante toda sua vida, e o que decide fazer? Estampá-lo no final do meu. Perfeito!

—Senhorita Christina, está segura de que considerou este assunto cuidadosamente?

—E com isso quer dizer, “Felicidades”. - disse o Rei, olhando ao Edmund com fúria desde seu assento.

Edmund forçou um sorriso que se esfumou tão rápido como tinha aparecido.

—Não esteve no país uma semana, logo que conhece sua Alteza, e francamente... ah... francamente...

—Não sou do tipo princesa? —Ela acomodou as pernas debaixo de seu corpo e lhe sorriu— Diga a alguém que não saiba.

—Edmund... - encontravam-se em uma das salas de estar, e o rei tinha pedido cerveja para celebrar o anúncio do compromisso. Bebeu-se dois rapidamente e parecia sentir-se aliviado. Christina deu um gole, dissimulou magistralmente um calafrio, e entregou seu copo ao David.

—Sua Majestade, por favor. Alguém tem que dizê-lo. E parece que a responsabilidade recaiu sobre meus ombros.

—Quem o diz? —Choramingou o rei— Vai retorcer o trato, e logo me verei forçado a te quebrar as pernas.

—Um vívido final, - comentou o príncipe— para uma profissão sem igual.

—Não é justo. - disse Edmund em voz baixa— Tenha em conta a Casa de Windsor se não me crê. Ela deve ser advertida.

—Bem, bem, mas mantenha fora do caminho. E não exagere, pelo amor de Deus.

—Muito tarde, - cantou Christina. David, que se movia para sentar-se a seu lado, soltou uma risada surpreendida e se deixou cair no sofá de repente.

Edmund se voltou para Christina. Elevava-se por cima dela como uma árvore vestido de linho fino. Suas mãos estavam firmemente enlaçadas em suas costas.

—Eu, nós, melhor dizendo, desejamos estar seguros de que sabe no que se está colocando. Não tudo é vida de palácio e molho de coquetel.

—Não o é?

—Como membro da Família Real, não só terá os olhos do mundo inteiro…

—Por não falar da revista People.

—… sobre você, mas sim também terá importantes responsabilidades. Além disso…

—Além disso, - ela o interrompeu novamente— meus filhos jamais terão que preocupar-se por sua próxima refeição. Nunca terão que pagar impostos, nunca terão que preocupar-se a respeito de como permitir-se enviar a seus filhos à escola. Eles sempre terão a opção de um sólido teto sobre suas cabeças e três refeições diárias. Sempre haverá pessoas ao seu redor para cuidá-los e protegê-los. Eles nunca, nunca estarão sozinhos. E se fizessem algo mal, teriam o poder de arrumá-lo.

Silêncio de morte.

—Estou certa?

—Sim. - David assentiu, estudando-a intensamente— É absolutamente correto. Tudo isso, e mais. E será igual para os filhos de seus filhos, e os filhos dos filhos de seus filhos.

—Bem. Está bem. - Ela riu, e instantaneamente sentiu como se tivesse atirado pela amurada cinco quilogramas de estresse. Talvez dez— Se não houver nada que queira adicionar, Edmund, já é hora de que comece a função.

 

“Pode ser que casar-se não seja tão mau. É todo o tempo perdido que há antes o que te dará dor de cabeça”.

               Lady Christina do Allen Hall

 

—Ah, Lady Christina, não sei como lhe perguntar isto...

—Bom, antes de tudo, não sou uma lady. — respondeu ela.

—Não me diga. - disse David, sorrindo de orelha a orelha. O sorriso desapareceu quando um dos desenhistas reais calçou a força, um bicudo sapato negro no pé esquerdo— Ahh... Poderíamos provar outro que não fosse tão, maquiavélico? Além disso, não sinto os dedos...

—Quero dizer..., —continuou Christina, folheando um dos dezoito cadernos de esboços— não tenho esse título nem nada. Sou simplesmente Christina.

—Não é verdade. - protestou David, tentando liberar do sapato.

—Ah, então tive um título durante todos estes anos e alguma vez o soube? Vamos ver, repensemos, acredita que o herdei do meu pai caminhoneiro ou de minha mãe garçonete?

—Com o devido respeito, milady, o rei me comunicou que seu título é Lady Christina do Allen Hall.

Christina quase cai da cadeira.

—Desde quando? E onde diabos fica isso? E acaso as ladies usam calças jeans? Porque, se por acaso ninguém o notou, noventa e oito por certo de meu guarda-roupa se compõe de jeans.

David deixou escapar uma risada.

—Allen Hall, é a parte do palácio onde meu pai me deixa ter aos pingüins.

—Merda, que divertido. Me recorde dar uma chute nas costelas do rei, a próxima vez que o veja.

—Os convites ficam melhor, se tiver um título, embora seja um menor. Pensei que a faria feliz.

—Certo, então é que não esteve muito atento estas duas últimas semanas.

—Tem razão. - admitiu David, provando uma jaqueta negra de seda que lhe sustentava outro desenhista— Na realidade nunca pensei que a faria feliz, mas já conhece meu pai... Quando coloca uma coisa na cabeça...

—OH, sim, não se parece com ninguém que conheça. - Christina olhou ao David para assegurar-se de que passava por cima o fato de que perfeitamente poderia estar falando dela mesma— Bom, o que me foste perguntar, Harry?

—Horrance, milady, e queria lhe perguntar... hã... se seu vestido... se seu vestido de noiva vai ser, se...

—Branco. - respondeu Christina com firmeza.

—Perfeito. - disse Horrance rapidamente, fechando de um golpe um caderno de esboços e abrindo um novo. Olhou a Christina com os olhos entreabertos e começou a desenhar sobre o papel a grandes traços.

—De verdade? —perguntou David brincalhonamente, com um olhar cheio de malícia.

—Claro. - respondeu ela sem alterar-se— É a primeira vez que me caso, não?

—Ah...! —As seis pessoas que estavam na habitação podiam apreciar facilmente a vibração de “se coloque em seus próprios assuntos” que desprendia Lady Christina, por isso David se comportou como um cavalheiro e trocou de tema— O que te parece esta jaqueta?

—Parece que está embalsamado.

Horrance se queixou.

—Ouça, é bonita, - acrescentou ela, retrocedendo as marchas forçadas— mas não combina com você. Sabe o que deveria levar? Branco. Ficaria muito bem com seu cabelo.

Seu maravilhoso, abundante e negro como o pecado cabelo... mmm...

—A noiva vai de branco. - disse com firmeza o assistente do Horrance.

Como se chamava? Jerry? Jerkin?

—Bom, esteve no exército? Poderia levar seu uniforme...

—Não. Estava muito ocupado fazendo meu doutorado em Biologia Marinha.

—Ah, sim?

—Alaska não requer que sua Família Real sirva no exército.

—Como é. Então, por cima de tudo, é um intelectual. Bom, posso passá-lo por alto - Era Jeremiah? Julian?— Bem, não vá de branco, mas tampouco ponha smoking. Odeio a aparência de pingüim. Sem ofender, Doutor Príncipe David dos Pingüins.

—Te burle tudo o que queira...

—Okidoki .

—... mas te recordo que logo será a Senhora do Doutor Príncipe David dos Pingüins.

—OH, merda. Ainda estou a tempo de parar tudo isto?

 

Christina escutou um ligeiro golpe na porta e protestou contra ao travesseiro. Passados uns minutos, deu-se a volta.

—Nicholas! É mais de meia noite, pequeno imbecil! Basta já destas estranhas incursões noturnas! Vá dormir!

Uma cabeça apareceu depois da porta. Não era a do Nicholas.

—Me recorde ter um pequeno bate-papo com esse imbecil real. - disse David— Embora no fundo não possa o culpar por ser incapaz de manter-se afastado. Posso entrar?

—O que lhes passa? Será que não lhes faz falta dormir?

—Dormimos sestas largas pela manhã. - David entrou no quarto— Um dia interessante o de hoje, não?

—Se você o disser... Mas se tiver que ver um sapato mais de peau de soie, vou vomitar. Além disso, que diabos é peau de soie?

—Pergunta isso a mim? Não há forma de que seus sapatos sejam mais incômodos que os meus.

Enquanto ele se sentava na cama, ela riu e se apoiou sobre seus cotovelos.

—Dado que decidi usar sapatos baixos, e pensei que o tipo do desenho ficaria a chorar se o dissesse, vou te dar razão nisso. E sabe que é o pior? Isto foi algo assim como um aquecimento. Vamos ter reuniões e reuniões cada dia. Flores, sapatos, roupa, comida, bolos, hora, lugar, sapatos...

—Enquanto vamos na moda... —face à escuridão, Christina podia lhe ver um pouco melhor agora, e voltou a perguntar-se se seu cabelo se pareceria ao tato como parecia a vista... Como seda selvagem - O que há com isso do vestido de noiva branco?

—OH, vamos falar disso? Porque o momento para falar a respeito foi antes de me propor casamento.

—Só sinto curiosidade. - respondeu brandamente.

—Sim, como não. Podemos pôr desta forma: Não sou uma virgem, mas tampouco uma qualquer.

—Não imagina, - disse David muito sério— o tranqüilo que me deixa.

—Me escute, sabichão. Posso contar com os dedos de uma mão as pessoas com as que estive. - fez uma pausa e lhe inquiriu— E você?

—Hã... não, com uma mão não... de fato, acredito que me faria falta uma terceira... e pode ser que... certamente alguns dedos do pé...

—Hipócrita!

—Bom, sou seis anos mais velho que você. Ai! —Disse esse “ai” porque Christina lhe tinha jogado o travesseiro no rosto— Droga! Já sai a verdade à luz. Vai ser uma esposa maltratadora, pressinto-o.

—Seguro. Olhe, se quiser cabelos e sinais, adiante. Quer dizer, tem razão, é justo, mas espero que seja recíproco.

David negou com a cabeça. —Não faz falta.

—Galinha.

—Não, é como te hei dito, só sentia curiosidade. Forma parte do passado, não tem nada a ver comigo, ou conosco, além disso, trata-se de um assunto pessoal seu. De todos os modos, essa não é a verdadeira razão pela que estou aqui.

—Ah, não? Além de me privar de meu mais que merecido sono, o que está fazendo aqui?

—Eu gosto de tomar tempo. É... diferente. Refiro a como reage.

—Genial. Olhe, não é que isto não seja fascinante...

—Você é fascinante - Estava se aproximando? Sim! Uma aproximação! OH, o prelúdio a um beijo. Seu segundo beijo. Magnífico. Estava disposta a dar ela o primeiro passo se ele não o fizesse — Não esperava isto. Sabia que seria preciosa, mas...

Certamente, tem que trabalhar a idéia do príncipe romântico, porque lhe dá fatal. Isso sim pode ser que as princesas não tenham que esforçar-se dessa maneira.

—Obrigada.

—... mas não esperava... esta intensa excitação... Acredito que é à força de sua personalidade...

—David. Poderia se calar e me beijar?

—... é realmente extraordinária, está tão cheia de vida...

—David. Falo a sério.

—... E... Ai!

Disse esse “ai” porque alguém o tinha agarrado do pescoço da camisa e o arrastava fora da cama. Era alguém muito grande, inclusive mais corpulento que David. De fato, tratava-se de...

—Droga! Tentando ter um pouco ação antes do grande dia, né? —O rei sacudiu ao príncipe como um terrier sacudiria a um rato— Boa tentativa.

—Hei! —disse furiosa— Suma! Vá para a cama! —Além de ser raros, todos têm insônia... Incrível!— Não me obrigue a o tirar daqui te dando chutes nesse enorme traseiro.

—Tranqüila, encanto. E você... hora de ir a sua própria habitação. Sou um tipo moderno...

—Mas bem diria um idiota moderno. - replicou a aludida como “encanto”.

—... mas não posso permitir relações pré matrimoniais dentro da Família Real, sob meu teto.

—Não é de sua, fodida, incumbência se quero ter relações com um pato! —gritou Christina.

—Não, - respondeu o Príncipe David, soltando do agarre por seu pai— mas sim da minha. —arrumou a camisa e moveu a cabeça, afastando o escuro cabelo do rosto— Como certo, meu Senhor Rei, se voltar a me separar assim de minha noiva, parto seus dentes.

—Uf. - disseram ao uníssono Christina e o rei.

David fez uma rígida reverência.

—Boa noite.

—O ouviu? —lamentou-se o rei quando se fechou a porta— Ameaçou-me com uma agressão indigna!

—Não é o único.

—A seu soberano! Ai crescem tão rápido. - Se deu uns leves golpes no peito, coberto por uma camiseta em que se lia “Eu sou o rei, quem diabos é VOCÊ?”— Chega-me ao coração.

—Eu sim que vou chegar-te ao coração. Fora!

—Se acalme... Já vou, já vou.

Vá grupo de desenquadrados - pensou Christina enquanto se recostava— Tenho que estar louca. Seguro. Como é que não pode apagar de seu rosto esse sorriso de tola?

Demorou a dormir. Passou muito tempo pensando na aproximação que tinham tido, e recordando o olhar de David. Pela primeira vez, não se preocupou muito de onde se estava colocando.

 

—Olha, Eddie.

—Edmund.

—Não leve a mal, nem nada parecido.

Ele suspirou.

— Preparei-me psicologicamente, porque você sempre diz isso antes de expor algo altamente ofensivo.

—Decifrou meu código, não? De todas as formas, vou ser a princesa, correto? Então, a quem lhe importa que garfo use? Quero dizer, serei..., —Ela riu nervosamente e um bufo escapou de seu nariz. Ele esperava ferventemente, que ela superasse o hábito de rir como uma louca cada vez que contemplava sua futura condição — realeza e todo o resto.

—Razão pela qual você deve dar exemplo.

—Eu? —Notou como ela quase cai da cadeira pela surpresa— Dar exemplo?

—Admito. - disse, admirando a forma em que a luz do sol se refletia nas ondas de seu cabelo, que lhe chegava até os ombros, fazendo ver os loiros fios como forjadas em ouro - que me atormenta falar disto.

Era uma sorte que ela tivesse um cabelo estupendo, porque nesse momento, tinha uma expressão verdadeiramente desagradável no rosto. De fato, suas covinhas tinham desaparecido completamente. E estes eram, a seu entender, sua melhor característica. Faziam-na parecer travessa e encantadora ao mesmo tempo.

—Edmund, tenho notícias de última hora para você. Às pessoas se importam um nada que garfo usa a realeza.

—Sinto discordar.

—Ed. Não lhes importa absolutamente. - Olharam-se ferozmente e logo Edmund, que tinha batalhado contra o rei durante anos, trocou de tática.

—É obvio, se o que você quer é que as pessoas desacreditem a Sua Alteza por escolher a uma plebéia que recusa a assumir sua condição.

—Ei, Ei. Está dizendo que David terá que tragar essa merda se não for uma boa princesa?

—Em poucas palavras, sim.

—Vão, filhos de cadela!

—Pelo contrário, minha mãe foi uma mulher, extraordinariamente, paciente e amável.

—Droga. —Ela agarrou uma mecha de seu cabelo e o mordiscou. Um hábito odioso que precisava abandonar antes de apresentar-se frente às câmaras de televisão.

—Ouça, Edmund, posso-te perguntar algo?

—Quer dizer, alguma outra coisa?

—Bom, bom. Por que está fazendo isto? Não há como um milhão de ajudantes aqui no palácio que poderiam estar fazendo-o? Diga-me, não preferiria estar em qualquer outra parte? —Logo adicionou em um sussurro que ele ouviu perfeitamente bem — Sabe Deus que eu sim.

—Perdi a aposta da moeda. - disse, tentando obter a nota correta de frio desdém. Ela realmente era, algo. Tinha advertido instantaneamente por que o rei estava encantado com ela, e por que David tinha deixado cair sua pose de “não me importa com quem me caso”. Seria uma esplêndida rainha, se tão só a pudesse convencer de que prestasse atenção.

E naturalmente, um trabalho tão vitalmente importante não poderia ser realizado por qualquer um. Ele fiscalizaria sua educação pessoalmente. Ainda se isso o matasse.

—Agora. Outra vez. Garfo de ostra, colher de sopa, colher de abobrinha, faca de pescado, faca de entrada, faca do prato principal, faca de salada.

—Faca de fruta, colher de sobremesa, garfo de sobremesa, E uma perdiz em uma pereira!

Cravou os olhos nela, completamente surpreso.

—OH. OH! Certo, isso está muito bem. Ah... se você o entendeu tudo, então por que...?

—Pois bem, direi-lhe isso... é que não pude resistir a puxar sua cadeia — Ela moveu para trás sua cadeira francesa Louis XIV, de ao redor de 1860, com preço de 972 $, de Sotheby no Alaska, e lhe sorriu abertamente— O que pensa disso, Eds?

—Edmund.

—Como é. O que segue a seguir em minha agenda do inferno?

—Tem uma lição de história em trinta minutos com nosso historiador do palácio.

Suas pernas esmurraram o tapete com um ruído surdo.

—Lições de história?

—Se for formar parte da família real, é importante que conheça algo da história do Alaska.

—Por que melhor não agarra esse garfo de fruta e o inseri no meu olho?

—Seria impróprio fazê-lo antes que a sobremesa esteja servida, minha senhora. Depois de história, você se encontrará com o Horrance, o desenhista do vestido de noiva. Tratamos de usar aos artesãos locais sempre que for possível,—adicionou, atuando como se lhe interessasse remotamente uma explicação— para beneficiar a economia.

—Super. Com tal de que não me crave o traseiro com seus alfinetes. E logo?

—Logo, almoço com o príncipe e o rei. Mais tarde, uma reunião com o Intendente. Depois o vendedor de flores. Depois disso…

—Eds, como é que tenho que fazer todas estas coisas? A: onde está David, e B: você seria muito melhor para tudo isso.

—A: David está no Allen Hall, tomando seu café da manhã matutino e ele se unirá a você, e B: isso é muito certo, mas não é meu casamento, minha senhora.

—Não me chame assim, odeio-o. Chame-me Chris.

Ele a olhou por cima do ombro.

—Não acredito.

—Muito bem, então Chris-tin-a. Algo exceto Minha Estúpida Senhora.

—Minha senhora brinca, pretendendo que será uma adolescente toda sua vida.

—Realmente, também me adoece quando fala de mim em terceira pessoa. Sério. Não o faça.

Pela primeira vez em toda a manhã, Edmund mostrou um sorriso.

—A ninguém gosta. Por isso o faço sempre que posso.

—Pois bem, O que lhe pareceria com o Edmund se falasse dele em terceira pessoa? Não pensa Edmund que isso é uma droga?

—Não. Edmund não o pensa. Agora, se minha senhora se cansou das lições de etiqueta, por que não fazemos algo que você encontre mais pertinente?

—Bom, por que não? O que há em sua diabólica mente, Eds?

—Só isto. - Fez uma pausa delicadamente. As sobrancelhas da Christina se arquearam, desaparecendo sob sua franja, um sinal que demonstrava sua completa atenção— Deve ter você sempre cuidado com o sobrenome Domonov.

—Esse é o nome de solteira da Rainha Desse.

Ele não pôde dissimular sua surpresa.

—Como sabe?

Ela bocejou atrás de sua palma.

—Revista US.

—Ah. Pois bem, contrário às horripilantes interpretações da imprensa norte-americana…

—Eeei, eiii, tranqüilo com o de criticar a América do Norte, camarada.

—Sua Majestade a Rainha, não era uma canibal sedenta de sangue com uma pedra por coração.

—Penso que “canibal sedenta de sangue” é redundante.

—De todos os modos, a família da rainha é ligeiramente... irracional... no que concerne a Sua Alteza o Príncipe Nicholas.

Suas sobrancelhas se arquearam ainda mais alto.

—OH, oh.

—Além disso, não sentem amor para seu rei e trataram muitas vezes de atacá-lo, de qualquer forma que for possível.

Ela franziu o cenho.

—Um, de acordo, isso fede, mas por que não os manda ao cárcere?

Pessoalmente, Edmund pensava que essa era uma pergunta excelente.

—O rei o faria, mas como ainda guarda muito afeto para com sua defunta consorte, seu coração se mantém brando para a família, e o Domonov em questão será liberado logo. O rei, também poderia haver dito algo assim como, “posso me encarregar de mim mesmo, maldição. Não necessito que os tribunais me ajudem.”

—Bom, isso soa bem. Então, de acordo, se alguém se apresentar para mim como Mr. Domonov chuto-lhe o traseiro. Já o tenho.

—Não é tão completamente sim…

—Mais tarde, Eds. Tenho que examinar algo fora daqui. Obrigado pelos 101 conselhos de Princesa. Acredito. - O despediu distraidamente com a mão e virtualmente saiu correndo da sala de estar.

 

Christina parou de repente ante o retrato da Rainha Desse e uma vez mais, estudou os traços orgulhosos e assombrosamente belos. Logo deu uns passos ao flanco e observou a pintura da avó do rei.

A família da rainha é ligeiramente irracional no que concerne a Sua Alteza o Príncipe Nicholas.

Uma idéia idiota. Tinham acreditado nos rumores sobre todos os amantes que tinha tido a rainha. Acreditavam que Nicholas pertencia só à rainha, que não havia nada do rei nele. E queriam conservá-lo para eles. Era triste, porque apesar de fazer coisas horríveis às pessoas, mas também era estúpido.

—Tolos. - disse à galeria vazia— Qualquer um pode ver que o menino se parece com seu avô. Do lado paterno.

Você sempre deve tomar cuidado com o nome Domonov.

—Está bem, está bem! —Assombroso. O tipo estava a vinte e três quartos e dois pisos de distância e ainda podia ouvi-lo ressonando em sua cabeça.

Ouviu ruído de passos e se virou, sentindo já o amplo sorriso tolo em seu rosto, um amplo sorriso que desapareceu instantaneamente, assim que viu que o visitante não era David.

—OH. É você.

—Que agradável! Poderia te deportar, moça. - O rei Alexander estalou os dedos, e ela não pôde evitar notar que estavam muito sujos.

Jardinagem? Mais pesca? Cavando na terra com seu filho menor? Quem infernos saberia? Tratando-se deste tipo, poderia ser tudo — Assim!

—Seguro. Como se fosse me deixar ir tão facilmente.

—Muito certo. - disse alegremente, limpando-as as palmas sujas em seus jeans azuis— Está entupida aqui. Todos o estamos!

—Estava olhando os retratos de sua família.

—Sim. - O rei se deteve e olhou com olhos entrecerrados o retrato da Rainha Desse— Deus, OH, Deus, que mulher. Quando a fizeram quebraram o molde. Logo moeram a pauladas ao fabricante do molde.

Ela explodiu em gargalhadas.

—Bom, é verdade. E se não o é, deveria sê-lo. Ela era, não tem nem idéia. — O rei passou a mão pelo cabelo, deixando um rastro de terra em sua frente. Via-se distraído e triste. Entristeceu-lhe um pouco vê-lo assim. Muitas mulheres tinham tratado de seduzir ao viúvo Real. Todas tinham falhado. Ele, obviamente, ainda estava apaixonado pela defunta rainha.

—Em certas ocasiões, queria que estivesse ao meu lado durante todo o dia, e em outras, realmente tinha que resistir a urgência de estrangulá-la.

—Ouvi que ela era... ah...

—Bom, era-o. Mas era excitante, bela e as coisas nunca eram aborrecidas quando ela estava presente. Sabe o que aconteceu? Como morreu?

—Ah... —Várias das manchetes mais chocantes estalaram em seu cérebro: A rainha do Alaska morta em acidente automobilístico enquanto se dirigia ao esconderijo de seu amante. A rainha Desse morta em choque frente à casa de seu amante— Pois bem...

—Ela ia a caminho a seu estilista, não prestava atenção e bateu.

—OH. Isso... ah... é um pouco diferente de…

—Ela ia a caminho, - disse o rei mortalmente tranqüilo— a seu estilista.

—É obvio. Todo mundo sabe.

Seus ombros relaxaram.

—Deveria ter insistido em que usasse um motorista, mas isso não ajudou uma merda à Princesa Diana, não?

—Acredito que não, - ela fez uma pausa, logo adicionou— ainda lembrava exatamente onde estava quando ouvi que Diana estava morta. Estava tão aturdida... não chorei, mas... é apenas que, não podia acreditá-lo e estava tão deprimida. O que foi estranho, porque eu não a conhecia. Mas me senti muito, causar pena pelo sucesso, durante muito tempo.

—Bom, eu a conheci. E nunca conhecerá uma dama mais encantadora. Ela foi à única em Buckingham, que não me fez sentir como se eu tivesse palha no cabelo e esterco nos calcanhares.

—É isso o que tem sob as unhas? Riram juntos, como uma família.

 

                   Enquanto nossos ancestrais eram felizes

—... e construindo uma vida nova nas vastas e inóspitas terras do Alaska, a lei russa proibia assentamentos permanentes para seus cidadãos. —Que lástima. - disse Christina, ocultando um bocejo com a palma da mão.

—Pois sim, realmente o era, porque um homem trazia sua família, começava a comercializar com peles ou com madeira, ou com o que tivesse, e depois, quando começava a abrir passo nestas terras inóspitas, quando sua família estava assentada, quando tinham construído uma vida, tinham que recolher tudo e ir.

—Assim que o tataravô de David chegou à conclusão de que isso era uma porcaria.

—Sim. De fato, esteve a ponto de um cruento golpe de estado. A Rússia lhe ofereceu a venda do Alaska a América do Norte.

—OH, espera, essa parte sei. Os Estados Unidos estavam totalmente em sua Guerra Civil, e o último que queriam era soltar um montão de massa por um novo estado. Tinham suficientes problemas controlando os que já tinham.

—Algo assim. Além disso, o Alaska não estava resultando ser o que a Mãe Rússia esperava. O principal objetivo do Alaska era sustentar a Rússia. Entretanto, tinham problemas com a agricultura: as colheitas não saíam adiante, bem às devoravam os ratos ou os esquilos, ou pelos russos, que não eram agricultores muito entusiastas. Enquanto isso, os nativos, ao ver que seus amigos os russos eram os que em realidade trabalhavam a terra e viviam nela, se ressentirão com a mãe pátria...

—Evidente. Eles chegaram primeiro.

—Bom, isso é algo que a Família Real sempre teve em conta...

—Por isso o governo dá aos nativos do Alaska, os verdadeiros nativos, todo esse dinheiro?

—Sim. E lhes permite continuar com o estilo de vida de seus antepassados tanto como o desejem. Destinaram-se para eles milhões de acres de terra. Mas estamos saindo do tema.

—Típica atitude do homem branco. - comentou Christina.

—De todos os modos, —Edmund continuou molesto— quando Kaarl Baranov reuniu às tropas, por assim dizê-lo, e se dispôs a declarar a independência da Rússia, esta lhes deixou livres com uma surpreendente facilidade.

—Sem derramamento de sangue?

—Muito pouco. Era óbvio que a Mãe a Rússia não tinha posto o coração nessa empreitada e nós, Alaska, vencemos rapidamente. Mais tarde, antes de instaurar um Czar e uma Czarina do Alaska decidiram cortar todos os laços possíveis e passaram a ser o Rei Kaarl e a Rainha Kathryn.

—Caramba. - disse Christina— Que história mais longa.

—Milady, só levamos falando...

—Levamos?

—... cinco minutos.

—Bom, já captei a essência. E isto explica muitas coisas.

—Explica...?

—Sobre a Família Real. Quer dizer: tem que reconhecer que são um ramo independente. Ao Edmund lhe desenhou um sorriso - Sim. Tenho que reconhecê-lo.

 

O Príncipe David, intensamente concentrado em suas observações matinais dos residentes do Allen Hall, não se precaveu do braço que serpenteava através da porta, e que o envolveu com firmeza. Em um abrir e fechar de olhos se encontrava sobre suas costas, sendo arrastado a uma pequena e escura habitação. Percebeu o aroma a flores silvestres e decidiu não opor resistência.

—A questão é, - lhe disse sua noiva, sentando-se escarranchado em cima dele— que mesmo que tenha comprado a vaca, acredito que deveria conseguir um pouco de leite grátis.

—Encontra-se bem? —perguntou-lhe David com a voz sufocada. Um segundo atrás, ia pelo corredor pensando em suas coisas, e ao seguinte… era atacado!

—OH, claro que sim, é só que estaria louca se planejasse passar com você, quantos? Cinqüenta, sessenta anos? Sem... já sabe. Provar a mercadoria.

—Se a compreendo, - disse cuidadosamente— e não estou seguro de fazê-lo, estaria me propondo que nós… Poderia me devolver às calças, por favor?

—Em seguida. - respondeu ela, e com destreza começou a lhe desabotoar a camisa até abri-la por completo.

—De verdade, isto é... —e esqueceu o que ia dizer quando a boca da Christina, suave e ardente, tocou a sua, e percorreu seu peito, e começou a acariciar seus mamilos com a língua. David levantou a mão para aferrá-la do cabelo, e ela o mordiscou brandamente, fazendo-o gritar. Então, David lhe tirou a camiseta com frenesi, logo as calças, retorcendo-se juntos na escuridão, suas mãos por toda parte, desfrutando do tato de sua pele suave e cálida, seus cachos sobre seu rosto, respirando intensamente seu perfume natural. Estar com ela era como estar em um jardim escuro.  

David sentiu que sua mão se fechava sobre ele...

—OH, caramba. Quanta vitamina toma ao dia, Dave?...- e David gemeu, sentindo que seus dedos deslizavam acima e abaixo em um roçar delicioso, e teve problemas para recordar que fazia só noventa segundos ia pelo corredor, completamente vestido e pensando no Aptenodytes patagonicus.

Christina havia tornado a ficar escarranchado e toda ela era suave. Cantarolava algo que David identificou em seguida: era o “Feel Like Makin’ Love” da banda Bad Company.

Seguia acariciando-o, até que se colocou por completo em cima dele. Nesse momento, David sentiu que seu coeficiente intelectual diminuía outros trinta pontos.

—Espera. - conseguiu dizer, preocupado pela delicadeza de seu corpo,

— É muito cedo, não quero te fazer dano... —mas encontrou sua carne úmida e se deu conta de que estava mais que preparada. —Quieta. - disse. Ela riu, colocando-se mais, OH, era... era maravilhoso. David lhe pôs uma mão em metade das costas, sentindo como se flexionavam seus músculos, deslizar-se dentro dela era como deslizar-se no melhor de seus sonhos.

Seu interior era estreito, mas a ela não parecia lhe incomodar, e Deus sabia que a ele tampouco. Pensou que era a cúspide, que era perfeito, que simplesmente não podia haver nada melhor. Foi então quando Christina começou a mover-se.

David a separou um pouco dele, encontrou sua boca suave e doce, e a beijou enquanto ela seguia movendo-se, movendo-se e movendo-se, ainda cantarolando essa estupenda melodia.

David interrompeu o beijo e voltou a gemer.

—Tenho... muito más... notícias - conseguiu dizer entre dentes.

—OH, sei. - se burlou ela, tornando-se para trás e lhe fazendo cócegas no sexo. Quando se inclinou, seus cachos roçaram as coxas do David, e lhe fez estremecer-se— Está bem, tocará-me a próxima vez. —Trato feito. - respondeu David com a respiração acelerada, e pôs os olhos em branco ante o que vinha.

 

—Está tentando me matar. - a acusou, uma vez recuperado o fôlego.

—OH, é obvio. - disse ela. Estavam recostados, dentro da escura e pequena sala sem nome. David a tinha abraçada contra ele, como sardinhas nessa lata - Este foi meu plano desde o começo.

—É a única explicação que encontro. - insistiu, lhe afastando o cabelo de um sopro para poder lhe beijar a pele nua do pescoço— Não quero que pense que... quer dizer, gostei muito, muitíssimo, mas não quereria que pensasse que...

—Relaxe, Menino Pingüim.

—Por favor, não me chame assim depois do coito. - protestou ele.

—Por favor, jamais volte a chamá-lo coito. Sou perfeitamente consciente do que passou... Não fui eu quem... como dizê-lo, provocou-o?

—Isso é verdade. - respondeu David mais animado— Eu só fui uma vítima inocente de sua luxúria.

—Sim. De todos os modos, sei que foi muito rápido para mim. Não para você. Verdade?

—Verdade. A próxima vez. - disse David em tom de brincadeira.

—Verdade. - disse ela bocejando contra seu antebraço— A próxima vez. Que se foda o rei.

—Preferiria, - respondeu ele— foder com você.

—Que linguagem mais vulgar para um príncipe... Aposto tudo a que é a primeira vez que diz “foder”. Como certo, não tínhamos uma reunião ou algo?

—Sim, mas primeiro tenho que ver os pingüins.

—OH! Está me pondo outra vez. Eu adoro que comece a falar dessas aves aquáticas não voadoras depois de se deitar comigo! Agora me fale de peixes mortos.

—Christina...

—Vamos, preciso escutá-lo!

—É impossível. - se queixou David enquanto se incorporava e procurava a provas sua camisa.

—Mas o tenho apanhado. - lhe disse Christina, em um tom indecentemente satisfeito.

—Sim. - respondeu ele, sentindo-se algo mais que um pouco satisfeito— Suponho que sim.

 

Por insistência de Lady Christina uniu as reuniões com a floricultura, o bufe, o desenhista do vestido de noiva, a chefe de protocolo e outras doze pessoas em uma única reunião para que fosse mais eficaz.

Bom, tão eficaz como uma reunião desse tipo podia ser...

—Não, não, não. Sem publicidade das bodas.

A chefe de protocolo, uma mulher com um rosto misterioso parecido com a Shania Twain , olhou-a boquiaberta. — Mas milady... temos que...

—Os convites são suficientes. Olhe, todos sabemos que a publicidade é uma tentativa avara de conseguir mais presentes. E de todos os modos vamos ter toneladas de presentes, não?

—Mas não é... não é uma tentativa... né... uma tentativa avara...

Edmund a aferrou pelos ombros.

—Fecha os olhos e pensa que está em um lugar feliz. Ajudará-te. - lhe disse ao ouvido. Em voz alta, acrescentou - Muito bem, milady. Sem publicidade... exceto na imprensa.

—Bom..., de acordo. Vão, ou seja, de todas as formas. - cedeu Christina. Sentia-se agradavelmente dolorida depois de ter abordado ao David, algo que tinha resultado ser divertido e edificante. O menino tinha um pacote que não podia desprezar-se. Estava impaciente por lhe voltar para pôr as mãos em cima. Pelo bem da compatibilidade, é obvio. Não porque desejasse sua companhia nem nada disso.

—Onde está David?

—Já chega, milady.

De novo, quererá dizer.

—Cheio de merda dos pingüins, sem dúvida.

—Sem dúvida, milady.

—E já que falamos disso...

—De merda de pingüins?

—... quem vai pagar todo o albergue? Eu tenho minhas últimas listas de nomes e já está. —Eu o pago - anunciou o rei, entrando na enorme sala— Sinto o atraso. A pizza de ontem à noite não me sentou muito bem.

Edmund fechou os olhos em um gesto de dor, e Christina lançou uma risada

—Acredito que deveria protestar, - disse— mas posto que se trata de um casamento da realeza, imagino que são as pessoas da realeza que tem que pagar

—Você só faz ato de presença. Se fizer isso, todos seremos felizes.

—De verdade? Isso é quão único tenho que fazer?

—Sente-se, milady. - disse Edmund com severidade— O rei exagera.

O rei desabou no andrajoso A-z-boy que presidia a mesa e se reclinou no assento. Seus pés se levantaram do chão e suspirou. — Bem, onde estávamos? E onde está David? Jenny está de cara feia.

—Estou bem, Sua Majestade. - respondeu a chefe de protocolo, esforçando-se por sorrir.

—Ponha a cabeça entre os joelhos. - lhe ordenou o rei.

—Não serve de nada. - interveio Edmund— Acreditem-me.

—Sinto o atraso. - irrompeu o Príncipe David, entrando a toda pressa. Via-se incrivelmente bonito quando estava sem fôlego. Dedicou a Christina um sorriso secreto, e ela teve que tampar a boca para não lhe corresponder.

Incrivelmente bonito quando estava sem fôlego? De verdade havia pensando ela isso? O que lhe estava passando ultimamente?

—O que perdi?

—Não haverá publicidade das bodas, só os convites. - lhe disse Christina— E seu pai tem indisposição.

—Isso está bem. O primeiro, não o segundo. Papai, quantas vezes disse que deixe a pizza?

—Pode ser que seja o príncipe herdeiro, mas ainda é um menino. - lhe espetou o rei— Comerei o que me der vontade.

—De acordo, que passe bem no banheiro. - David se sentou junto à noiva, inclinando-se enquanto o fazia para lhe dar um terno beijo na frente. Ao Edmund não lhe escapou o fato de que por um momento Christina se ruborizou e os olhos brilharam intensamente.

—Bom, —começou Jenny— acredito que é necessário que precisemos o texto dos convites. Tenho entendido que os pais de milady faleceram...

Christina assentiu.

—Faleceram por completo.

—Bom - Jenny esclareceu a garganta— O protocolo dita que só os vivos podem expedir convites.

—Bom, é evidente. Não quero que minha mãe morta convide a ninguém... Que asco!

—Talvez o rei possa convidar em nome das duas partes - sugeriu Edmund— É pouco ortodoxo, mas...

—Isso estaria bem. - respondeu Jenny agradecida, riscando uma palavra de sua lista— Falarei com o gravador esta tarde, assim...

—O que? Gravador? Certo, isso custa uma fortuna. O que tem de mau em usar uma impressora?

—Um lugar feliz, está em um lugar feliz. - recordou Edmund ao Jenny.

Christina se dirigiu ao rei.

—Vamos, a sério: de verdade quer gastar milhares de dólares nos convites? Qual é a alternativa ao gravador? —Impressão em relevo. - respondeu Jenny, no mesmo tom no que alguém diria “uma cobra debaixo da cama.”

—Bom, pois isso. O que tem de mau?

—Chris, carinho, me posso permitir isso. - disse o rei com amabilidade — Não há problema.

—Sei, mas por que teria que atirar seu dinheiro em algo que nem ao David nem a mim importa. Não é assim, Dave? Não se importa, verdade?

—Não me importa. - admitiu David.

—Muito bem, então. Que mais?

Os outros encarregados das bodas tinham conseguido amontoar-se na esquina mais afastada do salão, suspeitosamente perto da janela. Posto que era um primeiro piso, a fuga era plausível.

—Vamos, vamos. - disse Christina com impaciência— Que mais?

—O lu-lugar? —arriscou-se Jenny.

—O que acontece com isso?

Houve um momento de tensão. Logo o grupo relaxou em massa.

—O palácio seria um bom lugar. Podemos fazer a cerimônia no salão de baile, e o baile nos jardins. —Será melhor ter um plano B - advertiu o rei, apoiando os pés sobre a mesa— O que passa se houver um tempo de merda?

—Procurarei um plano B. - prometeu Edmund, anotando-o em sua pasta.

—Muito bem. Que mais?

Encorajado, o desenhista do vestido deu um passo à frente.

—Horrance Tyler, milady. Conhecemo-nos o outro dia.

—Olá, Horrance. O que tem?

Os pesadelos, Christina pensaria mais tarde, eram pelos preparativos de bodas.

—Não. Desapareceria dentro disso. Meu objetivo, o dia de minhas bodas, é não parecer um merengue gigante.

—Mas é tão favorecedor com seu tom de...

—Um merengue gigante, Horrance. Sinto muito. Este tampouco. - disse, assinalando um precioso vestido com um decote ondulado e, sim, uma cauda bastante longa, de corpo inteiro e dois metros— Não quero um vestido que seja dez vezes maior que eu. E sem cauda. Alguma vez usou cauda, Horrance? Não faz falta que responda. Seja como for, eu não, e o dia no que trocentas pessoas me estão olhando não é um bom dia para começar a levá-la. Outro.

O som das folhas ao passar arrulhou ao rei até que ficou adormecido. Logo o som de seus suaves roncos encheu a habitação enquanto Christina repassava os esboços.

—Não. Muito aspecto de monja.

—Muita renda.

—Muito pouca renda.

—Muita pinta de Amazona. O que é isso de um cinturão de prata? Será que vou combater o crime depois do baile?

—Muito bonito.

—Como muito bonito? —De repente David saiu de seu torpor.

—É muito bonito para mim. Suponho que o que quero dizer é que é muito elaborado. - matizou Christina— Olhe este... alças de prata! E diamantes no sutiã. Sou uma garota de Tudo a Cem, entende? Ouça, Horrance, não é nada pessoal, vale? —Disse ao desenhista, que estava lutando corajosamente por conter as lágrimas— São todos maravilhosos, de verdade, de verdade que o são. Só que... não são para mim, entende-o?

—Entendo-o. - respondeu Horrance, algo mais excitado, enquanto agarrava o sétimo caderno de esboços.

—Muito simples. Estaria genial para uma festa normal, mas não para um vestido de noiva. Ainda assim, é precioso. - acrescentou rapidamente.

—Não. Tem cauda.

—Não tanta, milady, é...

—É uma cauda, Horrance. Uma cauda preciosa, mas uma cauda. Chup-chup. Outro.

—Tem muito decote. Estaria atirando dele todo o dia. E diante das câmaras. Certamente... O que é isto?

Paralisado no momento de fechar o último livro, Horrance respondeu.

—São meus esboços para o vestido das damas de honra, milady.

Christina pôs o livro diante dela e olhou a página com avidez. Tratava-se de um vestido de linha A sem alças, com uma cinta ao redor do peito, justo debaixo. Era de um azul bolo, com uma capa da mesma cor até o chão, deixando os ombros ao descoberto.

—Este.

—Este?

—Este é. Este é o que quero. - Não podia apartar o olhar do esboço.

Era maravilhoso! Simples, mas precioso.

—Em... essa cor?

—Sim. Não troque nada.

O Príncipe David lançou uma risada afogada.

—Assim não será branco.

—Tanto faz, tanto faz. Eu gosto da cor, isso é tudo.

—OH, mas... uma princesa do reino deveria casar-se de branco...

O rei deu um bufido e despertou.

—O que? O que acontece?

—Lady Christina deseja casar-se de azul. - disse Horrance em tom confidencial.

O rei Alexander piscou.

—Certo... Não sei, menino, é algo... diferente... inclusive para nós...

A chefe de protocolo deu um passo adiante.

—Na realidade, Majestade, a tradição de casar-se de branco começou na Inglaterra, com a Rainha Vitória.

—E todo mundo sobe ao carro. O carro inglês. - acrescentou Christina.

—Porque lhes dêem! —disse o rei em voz alta— Os da Alaska fazemos as coisas a nossa maneira, maldita seja. A moça quer azul, pois azul. Que chupe isso a Casa de Windsor.

—Obrigada, Al. - Obrigada! Disse-lhe movendo os lábios à chefe de protocolo, que sorriu com amabilidade.

—É bonito. - disse David, olhando o esboço— Combina com seus olhos azuis.

—Seus olhos são verdes. - protestou Jenny.

—Meninos, nos centremos, por favor. Por certo, meus olhos são cor avelã verde-azulados. E saibam que desperdicei quarenta e cinco minutos de minha vida que não hei recuperar jamais. Que mais?

—Bom, os sapatos deveriam ser...

—Esquece-o. Pegarei um par de bonitos sapatos a próxima vez que vá a Payless .

—Rogo-lhe que me desculpe, mas... com toda certeza, não o fará. - replicou Edmund.

—Farei-o. Que mais?

—As damas de honra? —perguntou David, aproximando-se um pouco mais Christina, o melhor que podia fazer para evitar as mãos do Edmund a ponto de estrangulá-la.

—OH, vou ter disso?

—Como?

—Christina viajava muito quando era menina. - explicou David— Não tem muitos amigos íntimos.

—Pensávamos contar com as princesas. - comentou Edmund.

—O que está muito bem. —disse Christina, voltando-se para o David— Mas sua irmã fala?

—Refere ao Kathryn?

—Não me há dito nenhuma só palavra desde que estou aqui, embora segue me atirando coisas!

—Gosta de você.

—Então, - disse Edmund em voz alta— as princesas.

—E Jenny. - acrescentou Christina.

A boca do Jenny se abriu como uma mola.

—OH, milady, não poderia! Não é apropriado...

—Não, quero que seja você. Vai trabalhar como uma mula em tudo isto, por que não desfrutar um pouco? —Além disso, tinha-lhe salvado a pele com essa intriga da Rainha Vitória. Poderia-se dizer que era uma verdadeira (e completamente nova) amiga.

—Bom... será uma honra, milady. - Jenny se ruborizou até as raízes do cabelo—Na realidade... eu... minha mãe estará muito contente.

—De acordo. A sua mãe pode dizer-lhe depois. Então, as damas de honra: Princesa Kathryn, Princesa Alexandria e Jenny. Há alguém... bom... de sua mãe... quero dizer, da anterior rainha... alguém em sua família que queira...?

—Não. - respondeu David com firmeza.

Silêncio.

—Bem! —Disse Christina cheia de entusiasmo— Os vestidos das damas de honra, verdade? O que tem aí, Horrance? Vamos, não tenha medo. Você pode.

—Bom...

—Não. Outra vez esses decotes tão grandes... E a cor! Parece que levassem aço.

—É cinza, senhorita. O novo negro.

—O negro é o novo negro, Horrance. Ah... quase... —disse dando uns leves golpes com o dedo sobre um desenho— É muito brilhante. E parece um material muito pesado... Será em junho, não em janeiro. Não quero que minhas damas de honra morram no altar, por favor.

—Tampouco quero bailarinas.

—Nem garçonetes.

—Não.

—Sinto muito.

—Parece um sino. Um sino muito bonito, mas um sino.

Não.

—Perfeito.

—Possivelmente se... como?

—Este. - disse Christina, assinalando um vestido de tubo em azul marinho e com pescoço quadrado— É maravilhoso. Poderão ficar o outro dia, e ficarão bem as três porque minhas três damas de honra têm uma boa dianteira, sabe o que quero dizer, não? Não importa, este.

—O que pensa do chapéu, milady?

—Sem chapéus. Parece que vão começar a dançar tap a qualquer momento.

—Muito bem, —disse Horrance, tomando notas com mão tremente —as damas de honra sem chapéu.

—Não quero chapéus, Horrance.

—Deixe que lhe mostre algo. - a persuadiu.

—É um homem valente, Horrance. - lhe disse o Príncipe David.

—Obrigado, Alteza. O que lhe parece?

—Por que quer que pareça uma roqueira? Mas olhe todas essas plumas! Não, obrigado.

—Tampouco quero ser Humphrey Bogart.

—Nem o Gato no Chapéu Mágico .

—Sem chapéus. - Horrance se rendeu, fechando o livro— Acredito que podemos deixar para outro momento o tema das jóias.

—Eu me encarregarei disso. - interveio o Príncipe David.

—Ah, sim? —disse Christina, levantando uma sobrancelha.

—Além de um profundo conhecimento sobre aves aquáticas não voadoras tenho outros talentos.

—É agradável descobrir coisas novas sobre futuros maridos. - respondeu animada— Isto me recorda algo: o que vais pôr você?

—Todos os homens da Família Real levarão o clássico smoking. — informou Edmund.

—OH, sim! —Disse Horrance, aplaudindo com entusiasmo— Estarão tão elegantes!

—Certo. - comentou a noiva— Pingüins.

—Não tem nada de mau parecer um pingüim. - disse David, jogando uma olhada dissimulada à hora.

—Falou o obcecado! Ouça, de verdade quer que no baile o confundam com os garçons?

Horrance lançou uma risada. David o olhou. Christina simplesmente levantou uma sobrancelha à espera de uma resposta.

—Ai, milady, Sua Alteza... diga-me o que lhes parece isto.

Horrance lhes mostrou outro caderno de esboços, e Christina e David se aproximou para vê-lo. Tratava-se de um smoking cruzado, com a jaqueta e a calça de um negro muito escuro, mas com o colete de um alegre tecido de espiga e a gravata de um cinza escuro. — Podemos fazer que a gravata combine com os vestidos das damas de honra. - sugeriu Horrance.

—A verdade é que está genial tal e como está. Tudo inteiro... Nunca o teria imaginado. Parece que estivamos em um desfile. Acredito que fica genial.

—Eu também acredito. Bom trabalho, Horrance.

—Que mais?

Uma mulher roliça com aspecto de matrona, cabelo grisalho extremamente curto e um intrigante traje calça cor berinjela deu um passo à frente, a bolsa cheia de antiácido mastigável.

—É Marge Sims. - disse Edmund ao ouvido da Christina, fazendo que quase caísse da cadeira— O que ela não saiba de flores, não vale a pena sabê-lo, assim pelo amor de Deus, vá com cuidado.

—Bem, bem. Fala como se para mim isto fosse divertido. Deixe-me. — Christina se moveu até que os esqueléticos dedos do Edmund escorregaram por seu ombro— Para que saiba: para mim isto é tão divertido como um anúncio de pesca. E mais: preferiria estar em um anúncio de pesca.

A florista tragou, e ao falar seu fôlego cheirava a Tums .

—Margie Sims, milady.

—Olá, o que há? Encantada. Bom, vamos ao tema, minha Margie.

—Sim, milady. - disse Margie precipitando-se para a Christina, como se o fora a vida nisso— Trouxe várias fotos do último... O que é esse ruído?

—O rei adormeceu. - sussurrou o Príncipe David— Outra vez.

—OH! - Marge baixou o tom de voz— Se algum deles lhe chama a atenção, Lady Christina, podemos... inclusive se fixa com mais atenção, pode ser que encontre...

Uma página. Duas páginas. Três páginas.

—Não, nessa época do ano as tulipas custarão uma fortuna.

—Na primavera? —perguntou um David pensativo.

—Você se cala. Este é bonito, mas muito delicado para mim... Ninguém se deu conta de que sou uma loira?

—Não, milady, isso não é assim. - interveio Marge com delicadeza— Você é magra e encantadora, mas tem uma estatura e uma cor de olhos e cabelo impressionante, e tem toda a razão, ninguém veria esse diminuto ramo de violetas.

—Ouviu, Eds? —disse Christina triunfante— Marge diz que tenho razão, heim? Não, estes são muito pequenos. E estes têm muita pinta de Ação de Graças. OH, este eu gosto. —Era um grupo grande de rosas tradicionais formando um arco íris em tons bolo — Exceto pela cor. OH, este também é bonito - De novo, um grupo de rosas— Exceto pela forma de coração. Típico. Sabe o que eu gosto de Margie? —perguntou voltando-se para ela, que agora tinha gotas de suor sobre o lábio superior— O que de verdade eu gosto de são os lírios. Lírios em púrpura escuro. Que combinem com os vestidos. Se, além disso, podemos lhe pôr umas quantas rosas vermelhas...

—É fácil, milady.

—Mas não o faça muito pesado. Vou levar de um lado para outro todo o dia, de acordo?

—Sim, milady.

—Bem. Que mais?

—O bufe. - sussurrou Horrance, aterrorizado.

—Genial. - murmurou David— Pelo menos teremos um menu para quando anoiteça.

—Milady, ele é Dom Musch. - lhe disse Edmund, apresentando um nativo fortão, desta vez loiro com o cabelo recolhido em um rabo. Tinha mais pinta de estar em casa cortando lenha que montando suflês— É o chefe do bufe.

Christina fechou o último livro de esboços e esclareceu a garganta.

—De acordo, Dom... Nosequé me escute. Quero bebidas suaves... Limonada de verdade, sorvete, ponche..., sorvete de laranja, não de lima nem de abacaxi, pode ser que um ponche doce também... e ponha fruta gelada como gelo de gelo, porque se não haverá um transbordamento de água antes que digamos o “Sim, aceito”. Eu gostaria que houvesse Bellinis, por favor. Para os que não são norte-americanos, é champanha com néctar de damasco. Não com suco de laranja: os coquetéis mimosas estão muito vistos. Além disso, tinha que fazer trocentos ao dia no navio. Não os quero em meu convite.

—Como peças quero uma variedade de canapés, com pepino e agriões, nata de queijo, e pode lhe acrescentar caviar, sementes de sésamo, o que seja. Também estaria bem uns crostinis, mas se assegure de que os tomates estejam amadurecidos... Não quero um montão de batatas vermelhas com a mozarela. De fato, ficariam muito bem tomates amarelos, se acredita que pode consegui-los. São tão lindos. E manjericão fresco, por favor, que não fique nenhum cabo solto.

—Também estariam bem uns aspargos ao vapor acompanhados de um vinagrete muito ácido. Não faz falta que sejam brancos, os verdes estarão bem.E cascatas de camarões. Eu adoro a cascata de camarões, e seguro que poderão consegui-los a bom preço.

—Como entrada, podemos fazer salmão cozido, não mero, que é espantosamente caro, e acompanhá-lo com uma maionese caseira, também com um pouco de pepino. Não faça mousse de salmão, não entra em meus planos que os convidados se engasguem com os espinhos. Também gostaria de fazer um par de saladas de massa, uma com carne e outra sem ela. Assistirão alguns vegetarianos, estaria bem que pudessem comer algo.

—Também ficaria bem um prato de queijo, mas só se pode protegê-los do calor... Não há nada pior que queijo derretido.

—Nada pior? —perguntou David, tentando dizer algo entre uma frase e frase.

—Também gostaria que houvesse muita fruta, eu adoro frutas. Rodelas de melão com hortelã, morangos, e uma bom creme de frutas: ponha-lhe duas partes de creme de queijo por um pingo de doce de malvavisco, é uma boa proporção. Melão envolto em presunto prosciutto também estaria bem... mmm. Ah! E muito pão torrado, e um recipiente grande de manteiga de morango. Soa raro, mas em realidade está muito bom, sobre tudo se pode manter o pão quente.

Dom, o chefe do bufe, tentava tomar notas rápidas, enquanto todos escutavam com a boca aberta. Inclusive o rei despertou e prestava atenção.

—Agora a sobremesa. Não quero, repito, não quero Crisco de cores no bolo nupcial. Creme de verdade, por favor. Quero um bolo com muitos pisos, e eu gostaria que cada piso fosse de diferentes sabores. Chocolate, baunilha, morango, moca, limão. A gosto de todos. A cobertura pode ser de fruta, ou mousse, ou o que seja, mas insisto, não Crisco de cores. Eu gostaria que as capas estivessem caramelizadas e que cada uma delas fosse de distintas cores. Já sabe: azul, laranja, rosa, verde, amarelo, o que seja. Pode decorá-la com espirais para criar um... como se diz? Um efeito Wedgewood. A minha mãe —terminou orgulhosa— adorava o Wedgewood.

—Gaaaaaa. - disse Marge, tentando em vão articular uma frase.

—OH, e tenho uma grande idéia para o bolo do noivo, do Menino Pingüim. Poderíamos fazer um bolo de chocolate com capas caramelizadas de cor branca e cortar o caramelo em forma dos símbolos de um baralho de cartas. Já sabe, decorá-la com agarra, corações, lanças, trevos. Seria muito dramático e também muito apropriado, pelo negro e o branco, sabe? Dá igual, podemos fazer essa à noite antes e a outra no grande dia. E um bolo croquembouche . É muito bonita, e está muito boa. E eu adoro os folhados cheios de creme. Já sei que será um chateio, mas os ajudarei.

—Preparado. - disse Christina em metade Essas — silêncio— são minhas idéias. E o que queira comer David, também.

—Claro! —Saltou David— É chef!

—Sou cozinheira - o corrigiu— Os chef vão à escola de culinária.

—Tudo... tudo está muito bem, milady. - disse Dom, ainda escrevendo a toda pressa.

—Quererá dizer bem e detalhado, bastardo com sorte. - murmurou Marge.

—Bem. E não se preocupe, Dom, eu o ajudarei.

—Milady, isso não...

—OH, eu quero. Ao menos com os bolos. Que mais fica? Entrou-me uma fome depois de falar de tanta comida.

—E a mim! —Disse o rei— Estou preparado para ir a por um desses crokembuch agora mesmo.

—Só alguns detalhes menores... O transporte, por exemplo...

—Aonde? Pensei que estávamos de acordo com que o casamento seria aqui.

—Sim, Lady Christina, mas o povo quererá vê-la — explicou Edmund— Acredito que poderíamos utilizar a carruagem Real...

—Esquece-o.

—Como que o esqueça? —Perguntou David— É romântico. Ou não?

—Trotar atrás do traseiro de um cavalo pestilento? Passo.

—Bom, a verdade é que nunca o tinha visto dessa MA- maneira —disse David, a ponto de quebrar o a voz ao evitar a risada enquanto dizia “maneira”.

Edmund suspirou.

—Proponho que deixemos este assunto para outro dia.

—Bem pensando - disse Christina—. Estou perdendo Jeopardy .

 

Ela não tinha idéia de onde estavam. Os armários não eram tão grandes como as salas de estar, correto? Mas o que outra habitação poderia estar avultada com casacos pendurados em cabides? De todos os modos, estavam caminhando para as provas. Escutou uma costura rompendo-se e depois encontrou a si mesma arranhando as roupas, para ter onde sustentar-se. Alcançou um poste debaixo dos casacos de peles e o sustentou enquanto a língua do David separava seu lábio inferior e se deslizava dentro dela. Estava ajoelhado frente a ela, suas grandes mãos sobre suas coxas, separando-os, enquanto lambia, atormentava, beijava e acariciava. Ela tinha desejos de gritar.

Provavelmente fez ruído, algum som, porque ele disse “Shhhhh” contra sua escorregadia carne e ela gemeu em resposta. Não mais lambidas lentas. Sua língua acelerou o ritmo, encontrando o botão estremecido no mesmo centro de seu ser. Chupando-o, lambendo-o, apunhalando-o, seu útero se contraiu enquanto o orgasmo florescia dentro dela, o fogo percorria seus membros e soltou o poste, caindo sobre um montão de peles no chão do armário.

Sua boca esteve instantaneamente sobre a sua e saboreou a si mesmo. Buscou-o grosseiramente. Encontrou-o. Sentiu-o deslizando-se dentro dela com deliciosa lentidão e gozou uma vez mais enquanto ele começava a empurrar, gritando com dor. Ainda tinham as camisas — e os sapatos— postos, mas a mão dele encontrou seu seio esquerdo apertando-o contra o algodão, e durante todo esse tempo sua boca nunca abandonou a dela. Nenhuma só vez. Ele se estremeceu em cima de Christina quando chegou de novo ao orgasmo, como se pudesse senti-lo, como se ambos estivessem lendo a mente do outro.

—Sou eu ou é um pouco depravado fazer isto antes de ir ver um reverendo?

—OH, é apenas você. - disse ele seriamente, e riu quando lhe fez cócegas nas costelas.

—Está seguro de que não prefere voltar de novo para o armário? Essas peles eram geniais! E o armário de cedro, mmm! E, que classe de chão era esse? Temos que tomar nota mental desse quarto…

—Profanamo-lo o suficiente por um dia.

—Que bom! Profanado! Ouça, eu prefiro fazê-lo em uma cama como as pessoas normais— Uma grande mentira. David era diabolicamente criativo nos espaços reduzidos—… mas se o fizéssemos, daríamos ao Nicholas uma educação real. Ou a uma de suas irmãs. Ou o rei arrebentaria, ou Edmund. Ou Jenny. Ou…

—Eu, - disse David em voz alta— sempre fui o melhor jogando esconde-esconde quando era menino.

—Era o príncipe. Deixavam-o ganhar.

—Possivelmente. Mas nos estamos indo pelos ramos de novo. Vamos Christina, prometemos ir.

—Parece que “nós” quer dizer “você”. - resmungou ela.

—Olha desta maneira. - a consolou o Príncipe David— Muitas pessoas assistem ao encontro pré casamento antes do grande dia. —Dou-te a impressão de ser “Muitas pessoas”, Dave? Vamos, isto é uma grande perda de tempo.

—OH, preferiria estar comprando sapatos com Jenny?

—Não, eu preferiria estar…

Sorriu. —Não troque o tema, descarada. Porque Jenny me disse que está tentando te apanhar durante duas semanas.

—Bem, vamos ver o reverendo.

—Na realidade, é ele quem está vindo a nós. - disse David, não com muito causar pesar. Jogou uma olhada a seu relógio— De fato…

—O reverendo Jonathan Cray quer vê-los, Sua alteza, Milady.

—Genial, - murmurou Christina, enquanto Edmund escoltava a um pequeno - finalmente! —homem, vestido com um formal traje escuro. Usava óculos, depois das quais brilhavam alegres olhos azuis. Era calvo como um ovo, tinha as bochechas cheias e a miúda barriga de um homem que não perdia muitas refeições. Suas bochechas estavam rosadas e caminhava como se seus pés ricocheteassem enquanto cruzava a habitação.

—Sua alteza, - disse o Ministro Cray fazendo uma reverência— Milady.

—É um prazer conhecê-lo, Ministro Cray. - David pôs uma mão sobre o ombro dela, a melhor maneira de evitar que escapasse— Esta é minha noiva, Christina.

Christina olhou ao seu redor durante um segundo. Noiva? Sim, ele estava falando dela. Estendeu uma mão. “Encantada de conhecê-lo,” disse torpemente. Podia ser pequeno, mas o ministro tinha um apertão de mãos como o de uma sucuri faminta. Ela liberou sua mão com dificuldade.

—Obrigado por vir ao palácio. - disse David, e ela mal que conteve um bufo. Seguro, como se alguém fosse dizer que não ao príncipe herdeiro! Bom, por que deveriam? Ela definitivamente não o fez. Quer dizer, fez-o, mas ele penetrou através de suas defesas e a debilitou. E agora olhe como estava passando seu tempo. Fazendo chorar a floristas e fazendo quebrar os dedos por alfaiates.

—Por que não começamos? Estou seguro que ambos têm mil detalhes que atender.

—Não o recorde. - disse David

Se pudessem completar estes questionários, começaríamos com isso.

—OH, genial! Um exame!

—Sim. - disse o ministro Cray, lhe entregando um pacote de papéis grampeados— Mas lhe darei de presente doces quando tiver terminado.

—Vejo que esteve investigando a dama. - disse David aceitando seu próprio pacote de papéis.

—Amplamente. - respondeu Cray.

 

—Pressentia problemas - disse Cray quarenta minutos depois.

—Foi um exame difícil. - choramingou Christina.

—Droga, Milady, vejo aqui, na pergunta número um, que você não parece saber o nome completo de seu noivo. Você tem escrito, “É David algo, algo, algo Baranov, e há provavelmente um Alexander em algum lado.” - Bom, estive perto, ou não?

O Príncipe David conteve uma tentativa de risada quando o ministro Cray adicionou: - E você, senhor, não parece saber o nome de ninguém na família de sua noiva.

—Mas se estiverem todos mortos!

—Mas seguem tendo nomes. - vaiou Christina.

—E Milady, como resposta à pergunta seis: “Como realizará seus deveres como esposa?” Você tem escrito, “Mantendo a cabeça encurvada e passando muito tempo me escondendo de meus parentes políticos”.

—Isso era uma brincadeira. - disse fracamente.

—Certo, certo. - respondeu o príncipe.

—E senhor, você respondeu à pergunta seis, “Deixando a minha esposa passar tanto tempo como ela queira nas cozinhas”.

—O que?

—Porque é cozinheira! —gritou ele, resguardando-se da Christina que o ameaçava com seu questionário— Não porque seja machista.

—Parece, - disse o Ministro Cray em voz alta, antes que começasse uma briga Real - que vocês dois sabem muito pouco sobre o outro.

—Eu sei tudo o que preciso saber. - resmungou Christina— Imbecil.

—Harpia. - tossiu o Príncipe David contra seu punho.

—Isto é um problema, - adicionou Cray, distraindo a Christina com uma pirulito— já que se casarão dentro de dois meses.

—Deus, são realmente dois meses? Já?

—Ah, parece que foi ontem quando foi uma estrangeira ilegal, banhando o meu pai com esponja e comendo todo o molho de coquetel no palácio. - disse David limpando uma lágrima imaginária.

—Fecha a boca, pingüinzinho.

—Agora realmente chorarei.

—Olhe, Ministro Crepe…

—Cray, Milady.

—Que diferença supõe qualquer destas coisas? Casaremos-nos por nossas próprias razões.

—E isso, - disse Cray— é exatamente pelo que estou aqui.

Ela o ignorou. —Ele está são, eu estou sã, graças a Deus o rei está são. Teremos como quarenta anos para nos conhecer um ao outro. E muito tempo antes que em realidade tenhamos, você sabe, que fazer nada.

—Contamos com isso, Milady, mas não é todo o problema. Ambos vêm de… ah… tenho que dizê-lo, os pais de ambos, sem ofender a Rainha Desse, ou sua mãe e pai, Milady, mas… ah… tenho que dizê-lo.

—Solte-o, Cray.

—Quer dizer que nenhum de nós cresceu dentro de um casamento feliz. - disse o Príncipe— Seu pai se foi e minha mãe era uma esposa terrível.

—Sim, - disse ela— mas luz como dinamite em uma pintura.

—Obrigado. Mas a questão é, como podemos nós saber como construir um casamento feliz por nós mesmos?

Christina ficou calada, exceto pelo rangido de seus dentes rompendo o pirulito para chegar ao suculento coração de chiclete.

—Assim dois meses. - David se esclareceu garganta— Bem, façamo-lo. Ah, Christina, meu nome completo é…

—Príncipe herdeiro David Alexander Marko Dimitri Baranov. - disse ela, ainda mastigando— Também conhecido como o Príncipe dos pingüins, o Senhor do Allen Hall, e meu Nêmeses de cabelo negro.

Os olhos do Cray se abriram tanto que ela temeu que seus óculos caíssem de seu rosto.

—Milady se você sabia…

—Gosta de surpreender às pessoas. - disse o Príncipe David, incapaz de dissimular o tom mescla de rancor e admiração.

—Além disso, levamos aqui já uma hora. Podemos fazer isto em outro momento?

—OH, sim, claro. De fato, recomendo encarecidamente que todos tomem um descanso.

—Genial. Adeus. - Devolveu o palito do pirulito ao reverendo e abandonou o salão de desenho, fazendo bolas com o chiclete.

—Ah… Sua Alteza… umas palavras, por favor…

O príncipe David voltou a sentar-se com resignação.

 

A Christina gostou de vê-lo, estava-o esperando. —O que é isso? — perguntou ela com aparente despreocupação, fazendo um globo e assinalando a pequena parte de papel branco em sua mão.

—É uma receita. - respondeu em tom grave— Tem desfeito ao reverendo.

—OH, vamos. Desfeito?

—Desfeito, não quer nos aconselhar mais. Pensa que ambos necessitamos ajuda profissional. E por ‘nós’ quer dizer ‘você’. Assim agora, em lugar de falar com um amável ministro a respeito de nossas esperanças e sonhos, estaremos falando com um psiquiatra.

—OH, merda.

—Sinto-me exatamente igual.

 

Extraído de “A Rainha do fim do mundo” pelo Edmund Dante HI, © 2089, Publicações Harper Zebra and Schuster.

A realeza do Alaska nunca teve muitos problemas tratando com a imprensa nacional e internacional. A razão é simples: Alaska tem 656, 425 milhas quadradas, mais do dobro do Estado do Texas. E mais que um pouco disso, inclusive neste século, é difícil de chegar aí. Assim que cada vez que a família real quis privacidade podia desaparecer dentro da selva, e nenhum, “Nem sequer Deus com um telescópio”, como ao rei Alexander adorava dizer, poderia encontrá-los. Portanto, não existia a relação hostil entre a casa do Baranov e a imprensa, vista algumas vezes com a realeza de outros países.

Por exemplo, Inglaterra é uma pequena ilha. É difícil esconder-se aí. Se não fora assim, não teria existido a manipulação da imprensa que, algumas vezes, foi atribuída à Princesa Diana, mãe do Rei William.

O que significa isto? Significa que “exclusivas” eram freqüentemente o caso de um repórter que estava no lugar justo, no momento preciso, que era o resultado de uma interminável perseguição à realeza.

O melhor dia na vida de Dom Cook começou horrivelmente. A luz de alerta de seu motor se acendeu logo que arrancou seu carro. Seu chefe lhe jogou uma bronca novamente por esquecer sua hora de saída à noite anterior, e sua mãe lhe deixou uma mensagem de voz lhe dizendo que iria ficar com ele o resto do inverno.

O repórter principal do Juneau Empire decidiu escapar dos problemas de sua vida saindo ao frio para comprar um café extragrande, com extra de nata, e muitíssimo açúcar. E enquanto esperava pacientemente na fila do mostrador da cafeteria, jogou uma olhada ao outro lado da rua para ver a noiva do príncipe herdeiro e a oficial de imprensa do palácio.

O que era ainda melhor estavam entrando no consultório de um psiquiatra.

—Santo Deus. - respondeu, quando lhe perguntaram o que desejava, e abandonou a fila imediatamente.

Mais adiante, Dom diria o seguinte. “Foi uma oportunidade excepcional. A vi. Graças a Deus tinha minha câmara no carro. E ela era tão só… inclusive antes que fosse rainha, havia algo nela. Alguma coisa sem sentido. E era simplesmente tão formosa, inclusive em jeans e esportivas. Além disso, deu-me a cota do aleluia. Provavelmente também se meteu em um grande problema por isso. Não um que lhe tivesse preocupado. Ela não era assim, para nada.”

—Para que não se diga que não a avisei, - anunciou Lady Christina— isto é uma grande perda de tempo para ambas.

—Também é um prazer conhecê-la. - Respondeu a Dra. Pohl. Tratava-se de uma mulher em seus tardios cinqüenta anos, com cabelo branco encaracolado e penetrantes olhos cor café e lentes bifocais, que a faziam parecer uma amável avó em lugar de uma das principais psiquiatras do país. Contava com um alto coeficiente intelectual de três dígitos e um cérebro afiado.

Seu escritório estava decorado com temática de patos. Estavam por toda parte… fotos de patos sobre as paredes, chamarizes para pato, inclusive um porta lápis de pato sobre o escritório.

—Avaliação que se tome tempo para ver-me.

—Ouça, Doc. Já está bem de estupidezes, OK? Ambas sabemos que isto não foi minha idéia. Esse reverendo o decidiu por mim - Qual é o término para o medo aos patos? Patofobia? O que faria ela se tivesse um paciente que temesse as aves aquáticas? Redecorar? Tratá-los em casa?— Acredito que me odeia.

—Duvido-o muito, Milady.

—Ok, se for ter que me sentar aqui durante cinqüenta minutos e pagar por uma hora, e não pense que não me dou conta de quão suspeito é isso, vai ter que parar com o assunto da Milady neste preciso momento. Chris está bem.

—Muito bem, Chris. Por que pensa que o Ministro Cray a mandou aqui?

—Porque me odeia e é mau? —adivinhou.

—Quase, mas não exatamente. Ele está preocupado a respeito de seus motivos ao aceitar casar-se com o Príncipe David.

—Ao rei não se importa e ao príncipe tampouco, mas isso não é suficiente, não? Agora tenho que justificar a mim mesma com uma psiquiatra?

—Acredita que tem que justificar suas ações?

—Sermão de psiquiatra. - murmurou Christina— Vai ser como aquele psiquiatra agradável no Good Will Hunting , ou o molesto psiquiatra na Girl interrumpted ?

—Isso expõe um ponto interessante… Se precaveu de que Robin Williams parece obrigado a interpretar homens brilhantes, mas incompreendidos? Good Will Hunting, Patch Adams, Dead Poets Society, Awakening. Perguntou-me, o que estará tratando de nos dizer?

Momentaneamente surpreendida, - Vá, por um segundo, a doutora realmente soou como uma pessoa normal— Christina respondeu.

—A nova tendência é interpretar psicopatas. One - Hour Photo, Insomnia. Coisas assim. Esteve genial em Insomnia.

—Estou de acordo. As escolhas das pessoas resultam interessantes...

—OH, aqui vamos. Por certo, é você tão sutil como um tijolo na frente.

—Obrigada. Fui à escola durante muitos anos e aprendi como lançar esse tijolo. Mas estávamos falando a respeito de escolhas.

—Falando de escolhas, - interrompeu Christina— tenho lido a respeito de você.

—Sinto-me adulada, embora alarmada.

Sua boca se moveu ligeiramente, mas se recusou a dar a psiquiatra o benefício de um sorriso.

—Sim, bom, li que fez a tese de seu mestrado na Família Real. E a considera uma perita neles. Mas, que classe de pessoas escolhem dedicar sua vida a estudar as vidas de outros?  

—Alguém que não tem vida própria. - disse a doutora alegremente— Não pode me incomodar indicando coisas que são verdade, sabe?

—OH, sim? Bem, me dê uma oportunidade. Que há a respeito de…

—Sente falta de seu trabalho?

—… a forma em que você… mmm?

—Seu trabalho com a linha de cruzeiros. O sente falta? Você está no palácio Sitka a algumas semanas já. E entendo que você e o príncipe viverão aí depois de suas bodas.

—Faremo-lo?

—Isso é o que me hão dito. - respondeu a Dra. Pohl cuidadosamente.

—Bem, isso já o veremos. Embora suponha que há coisas piores. De qualquer forma, meu trabalho… não, não o sinto falta. Quando cozinha para tanta gente é difícil ser criativo. Sabe você quantas barras de pão tive que fazer nas Terças-feiras de Pão Francês?

—Não, eu…

—Seiscentas e quarenta e dois.

—Isso é fazer pão. - observou a Dra. Pohl.

—Diga-me isso!Assim, não, não o sinto falta. Dirijo as cozinhas do palácio, e me deixe lhe dizer que passa algo realmente raro com o pessoal das cozinhas. Levou-lhes um momento longo fazer-se à idéia.

—Bom, muito provavelmente você será a rainha algum dia. - particularizou a Dra. Pohl— Certamente preferem que permaneça fora da cozinha.

—Difícil. Eles diziam, “Este não é seu lugar” e eu disse, “Eu serei quem julga isso” e eles disseram: “O diremos ao Edmund”! E eu disse: “Bem, veremos se me importa”. E o fizeram! Acusaram-me ante esse fracote raro. Mas agora nos levamos bem. - adicionou precipitadamente— Tão logo viram que Ed não poderia me fazer renunciar a cozinhar.

—Viajou bastante por causa de seu trabalho?

—Um porto diferente quase todos os dias, claro. Um modo genial e barato de conhecer o mundo.

—Difícil para fazer amigos, entretanto.

—Bom, já sabe. Todos estávamos muito ocupados. Os gansos quero dizer, os passageiros são o primeiro.

—Isso me resulta extremamente interessante. Sabe por quê?

—Porque não tem uma vida?

—Não só isso. Hão-me dito que você se mudou de lar muitas vezes quando era menina.

—Eu, eu, há um montão de caça esposa por todo o palácio, ou não? Sim, mudávamo-nos muito, e? Meu pai se largou quando eu era um bebê, e minha mãe rodou por todo o país, procurando trabalho: Tinha uma menina que alimentar.

—OH, OH. Provavelmente não foi muito divertido para você. Crescer dessa forma, quero dizer.

Christina deu de ombros.

—O interessante é que você escolheu uma das poucas profissões que também faz impossível jogar raízes. Em essência duplicou sua infância.

Christina abriu a boca, mas nada saiu dela.

—Posso vê-lo como um observador imparcial. Isto para mim é interessante.

—Então o que? —disse Christina à defensiva— Está você dizendo que eu gosto de estar sozinha?

—Estou dizendo que escolhemos o que nos é familiar, para bem ou para mau. E agora você vai ser um membro da Família Real.

—E o profundamente significativo é, o que?

—Por isso eu entendo, - disse a Dra. Pohl— sua razão principal para aceitar casar-se com Sua Alteza é porque você quer que seus filhos tenham raízes. Mas acredito que pode ter passado por cima o fato de que você também terá raízes. Por fim.

—Bom, e o que se for isso? Refiro a que acontece se essa for a minha razão principal? Estou louca de arremate?

—Santo Deus, espero que não. Não estou preparada para tratar “loucos de arremate”.

—Bom, você conhece a merda sobre a que fala. Concederei-lhe isso.

—Atreverei-me a esperar que retorne?

—Tenho que retornar. - disse melancolicamente— David, Jenny e eu fizemos um pacto. Eles me liberarão da maioria das restantes reuniões das bodas, e em pagamento, eu virei aqui.

—Isso parece um trato justo.

—Não tem nem idéia.

 

—Então, como foi? —perguntou Jenny, no instante em que Christina entrou na habitação, e ficou a bolsa sobre um ombro— Não destroçaste a esta também, ou sim?

—Dificilmente. Parece uma doce anciã e é tão afiada como um shuriken .

—Um quê?

—Esquece-o. Seria mais fácil quebrar uma viga de aço. Esteve bem. Não muito psiquiatra, acredito.

—Meu coração! Poderá acaso suportar a tensão?

—Certo, certo. Morro de rir.

—Quer comer algo antes de ir?

—Não posso, —respondeu Christina tristemente, seguindo Jenny para fora, através do caminho da entrada— hoje David vai ensinar-me como alimentar aos pingüins.

—OH.

—Droga, sei que é uma desculpa pobre, mas ele realmente quer que vá, e é a coisa que considera mais importante no mundo inteiro. Assim acredito que não me mataria retornar ao lugar dos pingüins. Já sabe. Uma vez.

—Assim juntaste todas suas… ah menos… um… atividades apetecíveis.

—Em um interminável dia infernal, sim.

—Boa prática. - predisse Jenny— E falando de atividades indesejáveis… Christina gemeu.

—… alguém falou com você a respeito de Boston?

—Refere-se de um ponto de vista histórico? Querem meus pensamentos na grande escavação?

—Sua Alteza doou bastante dinheiro ao Aquário de Nova a Inglaterra, e estão ansiosos de mostrar seu agradecimento. Irá a semana que vem e pensou que seria agradável que se unisse a ele.

—David fez isso? David perguntou se poderia ir? Isso o troca tudo! Porque se ele quiser que vá, irei, já sabe, se não tiver nada mais em minha agenda.

—Bom, possivelmente poderíamos discuti-lo com ele quando retornarmos.

—Sim, poderíamos. O aquário de Nova a Inglaterra, né? Espera um segundo, não há como mil pingüins nessa exibição?

—Não sei. - disse Jenny seriamente— Nunca os contei.

—Me recorde que lhe mate um destes dias. - grunhiu Christina.

Jenny riu, o que fez rir a Christina e, ainda rindo, amassaram-se em seus casacos. Quando Jenny empurrou a porta para abri-la, ambas escutaram o estalo de uma câmara fotográfica.

—Lady Christina! Por aqui, por favor.

O pobre menino tinha menos vida que a Dra. Pohl, se fazer fotos dela era parte de seu trabalho.

— Por que não faz uma foto? Duraria mas. OH, espera, acaba-o de fazer.

—Dom Cook, Juneau Empire. Está vendo um psiquiatra, Lady Christina?

—Dom, - disse Jenny com exasperação— sabe perfeitamente que temos uma conferência de imprensa programada para…

—Sim, - respondeu Christina— estou-o.

Foto!

—Por quê?

—Porque, - disse, sentindo-se absolutamente malvada, mas decidindo continuar — a pressão de me casar com um membro da família real do Alaska me converteu em uma psicótica babona.

—Chris! —quase uivou Jenny.

—Espero que me envie uma cópia da história, - adicionou docemente, sorrindo à câmara e afastando-se depois.

—Dom. - disse Jenny suplicantemente.

—Sinto-o Jenn. O Palácio tem algo que adicionar a respeito da repentina psicose de nossa futura rainha?

—Dom, por favor.

Ele sorria malignamente.

—Me dê uma pausa… se estivesse em meu lugar, deixaria-o passar?

A Oficial de Imprensa se agarrou a cabeça, e logo caminhou apressadamente pela rua atrás da Christina.

 

Como foi?

Enrugando o nariz ante o fedor, Christina disse:

—Esteve bem - Decidiu não mencionar os comentários que havia feito ao repórter. David se inteiraria de um momento a outro— Quando tem que ir você?

—Em outro momento. Vêem aqui, quero te ensinar como alimentá-los.

—Não poderíamos ocupar o tempo jogando, umm… esconde-esconde?

Sorriu-lhe.

—Isto também é importante para mim, Christina. Embora esteja de acordo em que não é tão bom como sentir você…

—Certo, certo, captei a mensagem. Em realidade isto não implica tocar pescado morto, ou sim? — perguntou, atravessando a habitação cautelosamente. Sua voz virtualmente ecoou nas paredes; o palácio dos pingüins era uma caverna. Um milhar das graciosas aves estavam caminhando, nadando, polindo suas plumas e defecando por todo o lugar.

—E isso dito por um Chef!

—Ouça, se estivéssemos falando de um delicioso pedaço, ou possivelmente, um decente quimbombó ou um prato de almejas, tocaria o pescado morto. De acordo? Mas a menos que tenha um pouco de manteiga ou farinha nesse pequeno carro…

—Sinto muito. Só mangueiras e cubos.

—Uuuuh, sexy.

—Agora bem, só lança-o brandamente, é um pouco cedo para que comecem a comer de sua mão.

— Será “muito cedo” durante muitos anos. - Recolheu um eperlano , ou o que demônios fosse isso, do cubo e o lançou. Um dos pingüins o apanhou no ar. Siiim! Aves carnívoras que não podiam voar. Mas que podiam emergir junto a seus joelhos e almoçar-se sua rótula. Cada vez ficava mais interessante— Bom, isto foi muito satisfatório e tudo isso, certamente aprendi toda classe de coisas novas e interessantes a respeito de você.

—Boa tentativa. Que tal outro mais?

—Que tal se não? —Ainda assim, agarrou outro eperlano, e o lançou a um pingüim a quase três metros de distância em frente dela- Assim que isto é o que faz todo o dia?

—Não todo o dia. Alguns dias tenho que ver um psiquiatra porque minha noiva é realmente teimosa.

—É um autêntico e fodido comediante.

—Está nervosa por Boston?

—Que sutil mudança de tema. Em realidade, —disse, lançando outro pescado— acabo de me inteirar de Boston.

—Jenny?

—Droga, pediu-me isso. Mas sabe David? Poderia haver me pedido isso você. — Ela se esforçava por conter uma careta.

—Bom, - disse, parecia levemente surpreso— anotei-o em minha agenda e o deleguei a Jenny. Ela nem lhe haveria dito se eu não o tivesse pedido. Portanto, foi realmente como se eu lhe tivesse pedido.

Christina suspirou.

—David, David, David…

—O que?

—Esquece-o. Respondendo a sua pergunta, estou ansiosa. Exceto pelo assunto dos pingüins. Parece que serei totalmente incapaz de me manter afastada dos pingüins em minha nova vida.

David riu e lhe deu um abraço rápido que ela desfrutou por completo e talvez, muito, dado que o seu era um casamento por conveniência.

—Sinto muito, mas estiveram falando a respeito de inaugurar a nova ala há um tempo, e não queria pospô-lo mais.

—É o príncipe, esperarão.

—Bom, sim. Mas, por que deveriam fazê-lo?  

—Boa resposta.

—De todos os modos, agora que expandiram sua exibição, gostariam que passasse por aí para a cerimônia de comemoração. Isso é ao que Jenny e Edmund se referem quando falam de um “um trabalho sem esforço”… não há muita pressão, nada de perguntas difíceis, só sorrir às câmaras e cortar fitas, me exibindo com apropriada modéstia. Uma passada, não acredita? Christina?

—Isso acredito. - ainda lhe custava acreditar que ela fosse noticia, mas supunha que seus compatriotas norte-americanos precisavam distrair-se de suas incapacidades econômicas e, além disso, lhe encantava Boston e estava ansiosa por deixar o palácio durante uns quantos dias. Inclusive gostava da idéia de viajar com David, como um casal. Raro, mas assim era.

—Se ficar nervosa, - estava dizendo ele— só segure minha mão muito forte e sorri.

Ela já tinha planejado fazê-lo de todos os modos.

 

—Ora, ora, - disse ele à manhã seguinte, mostrando-se muito menos divertido— mas se não é minha noiva, a psicótica babona.

— Como? Bom dia, - levantou a vista e parou de picar cebolinhas para seus ovos mexidos— necessita algo?

—Sim, mas duvido que seja algo que realmente vá fazer.

—OH, sente-se e se acalme. - ela observou como atravessava a grande cozinha do palácio e açoitava o jornal na tábua para picar, quase atirando seu montão de cebolinhas. Não pôde evitar notar que a cozinha se esvaziava repentinamente dos poucos serventes que tinham estado aí. Aparentemente, ver o príncipe de mau humor era incomum, e ninguém queria estar perto para ser testemunho disso— Mmm, não é uma má foto. Podem-se ver meus dentes. Provavelmente ninguém sabia que tenho dentes.

—A foto está bem, mais que bem. — adicionou a contra gosto — É com o título que temos alguns problemas.

—Deixe-me ver, - disse arrebatando-lhe “NOIVA REAL TRATADA POR PSICOSE VIOLENTA “— Já vejo. Por certo, nunca usei a palavra “violenta”.

—Realmente, Chris. - A comissura de sua boca se torceu ligeiramente, mas seguia vendo-se severo. Severamente bonito! Seu negro cabelo lhe caía sobre a frente e parecia como se colocasse qualquer roupa em cima. Tampouco se tinha barbeado ainda. Nham, nham. Evidentemente, alguém o tinha posto fora da cama e lhe tinha arrojado o jornal da manhã— O que estava pensando?

—Estava possuída.

—Isso é o que pensa Jenny. Permaneceu recostada com um pano frio na frente durante toda a manhã.

—OH! - disse Christina, sentindo-se um pouco culpada. Não pretendia que por sua culpa o trabalho de Jenny fosse oito vezes mais duro. Tinha acontecido de forma natural. Como a chuva ácida— Irei vê-la, se for o que quer.

—Estaria bem. Sabe que outra coisa seria agradável?

—Não, - disse humildemente— mas posso imaginá-lo.

Ele se rendeu e riu - Cristo! Estive aponto de molhar as calças quando vi isto.

—Que diria seu pai?

—Esquece-o, - disse ficando severo outra vez. Por isso ela soube que o Rei, tinha-o encontrado divertidíssimo. Em ocasiões, ela pensava que David parecia mais filho de Edmund, que do Rei Alexander— Olhe, só tenta ignorar estes impulsos perversos, de acordo? Pelo bem de todos.

—Bem, tentarei-o. —disse não muito convencida.

—Obrigado. - Lhe arrebatou o prato, no qual ela acabava de servir seus três ovos mexidos com cebolinhas e queijo cheddar, e o garfo— Como castigo, vou comer seu café da manhã.

—Isso me dará uma lição. - ela rompeu outros três ovos na tigela— Perdoe-me por haver despertado de forma tão feia.

— Por que não me disse isso ontem? — Christina deduziu que Jenny não a tinha acusado e fez uma nota mental para fazer algo especialmente agradável pela mulher. Talvez inclusive — Fuchi!— fosse comprar sapatos com ela.

—Foi apenas que, não encontrei o modo adequado de mencioná-lo.

—Faz à tentativa, a próxima vez. - disse ele amargamente.

—Farei-o, —prometeu, apagando o fogo— por um beijo.

Ele olhou ao seu redor, observando a agora deserta cozinha. —Darei-te algo mais que um beijo, você, pequena… Ela soltou um chiado e se afastou dele, que a apanhou dentro de uma das despensas para fornecimentos, sendo esta imediatamente profanada.

 

Christina observou as montanhas abaixo dela. Não importava quantas vezes lhe recordassem a beleza do Alaska, sempre acabava surpreendendo-a. Era como viver em uma postal. Dava-lhe esperanças para o resto do planeta... se podiam manter tão bem este lugar, provavelmente poderiam...

—Milady… - o auxiliar de vôo, levando uma jaqueta azul marinho com o emblema da Família Real, deteve-se junto ao assento de Christina.

Ela se deteve em meio de um gole. Era difícil fazer um Bloody Mary perfeito, a maioria das pessoas acrescentavam muito tabasco. Por que não acrescentar muito ácido de pilhas? De todos os modos, este estava perfeito. Além disso, era o terceiro.

Imaginou que voar no jato privado da Família Real seria uma passada. Mas em vez disso era estranho. O avião estava virtualmente vazio, à exceção da tripulação, Jenny e o príncipe. E Jenny estava tombada na parte traseira do avião, lutando contra outra enxaqueca com o Advil e panos frios.

Tinha tentado distrair-se com a paisagem, mas não durou muito tempo. E agora, tinha frente a ela a um auxiliar de vôo com notícias de sua morte.

—Milady?

         —Hei? Vamos cair? Está bem. Pode-me dizer isso. Vamos cair, não? Prometo-te que não me vou pôr histérica. Simplesmente me diga isso.

—Não, milady. O príncipe quereria vê-la em sua habitação.

—O príncipe quer ver-me?

—Sim.

—Mas não vamos cair?

—Exato.

—Então posso me desabotoar o cinto?

—Sim.

—Bem. Mas levo minha bebida - Desabotoou o cinto de segurança e se levantou com cautela, então se dirigiu à parte traseira do avião. Tocou à pequena porta onde os serviços tivessem estado em um avião comercial, ouviu o David dizer “Entra!” e apareceu a cabeça.

E quase caiu de traseiro. “Legal!”. Em lugar de um estreito banheiro, havia um dormitório de tamanho médio, com um escritório e computador portátil em uma esquina e uma cama tamanho Queen na outra. Havia uma jarra de água gelada na mesinha de noite e um bol com laranjas. Seu camarote no cruzeiro não tinha sido tão bonito.

David levantou a vista do computador e sorriu, afastando distraidamente seus escuros cabelos da frente. Realmente deveria lhe sugerir um corte de cabelo. Mais tarde. —Olá. Obrigado por voltar. Queria me assegurar de que estava tomando tudo isto bem.

—Tudo isto? Refere a sua super secreta habitação para fornicar?

Ele riu. —Normalmente uso este avião para os negócios, e posso dizer com toda segurança que ninguém fornicou aqui. — Seus escuros olhos azuis brilharam de um modo que não tinha visto antes. —Entretanto... já que está aqui... e estamos noivos...

—E me hei posto alegre com três taças... bom garçom, por certo.

—Por que está bebendo? Não recordo te haver visto beber antes. Vêem e sente-se. O que ocorre?

—Nada. - Avançou quatro passos e se sentou aos pés da cama. Ele se levantou da mesa e se sentou a seu lado. Percebeu o aroma que estava começando a classificar como “aroma de Dave”... algodão recém engomado, uma suave loção para depois de barbear-se e seu próprio aroma limpo. Hmm— É só... é só que isto é tão estranho, já sabe. E sinceramente, não parece normal não ter que esperar uma hora de pé em uma fila de segurança no aeroporto. Não é que esteja me queixando. Porque não estou me queixando. Mas segue sendo estranho. Caramba estive pensando e dizendo muitas coisas raras nos últimos minutos. Mas, aí está.

—Bom, estaremos em Boston em umas quantas horas mais. Por que não tira uma sesta? Relaxe.

—Aqui dentro?

—Claro, aqui dentro. Esta é agora sua habitação tanto como a minha… — riu a contra gosto. —Ah, não. Não acredito que isso esteja bem absolutamente. —Tão dela como dele? O que tinha estado fumando? Ele era o príncipe; este era o jato de seu pai. Ela era um dom ninguém.

Entretanto...

Olhou com ânsias a colcha, que era da mesma cor que a jaqueta do auxiliar de vôo.

—Seria estranho... merda, outra vez essa palavra... dormir em um avião enquanto se está cômodo.

—Deus não queira que experimente nada raro. - disse. Observou-lhe de perto, mas de sua inocente expressão não pôde decifrar o que realmente queria dizer com isso— Aqui. Vamos. Deite-se.

Engatinhou para a cabeceira, sentiu que lhe tirava os sapatos, então desabou debaixo das mantas e suspirou.

—Bem. Está bem. Isto é muito relaxante. - Bebeu o resto do Bloody Mary enquanto se recostava, depois colocou a taça vazia na mesinha de noite.

Ele deslizou dentro da cama a seu lado e ela se colocou comodamente na curva de seu braço. Imediatamente deixou de estar relaxada. Em troca estava tensa e quase... nauseante?

—Sabe, meu pai não veio a esta viagem. - sussurrou David fazendo que o pêlo de seu braço esquerdo se arrepiasse.

—Droga.

—E só estamos nós dois aqui.

—Deste-se conta disso, não?

—Tenho um doutorado. - disse solenemente— Somos muito observadores.

—Infelizmente, há um problema.

—Sim? —Estava-lhe massageando o ombro com a mão direita e acariciando a orelha. Sob circunstâncias normais, isso seria delicioso— O que?

—A questão é, que se me toca os seios, certamente vou vomitar.

Soltou-a como se queimasse.

—OH.

—Sinto muito. Muita bebida, muito tensa, muito impressionada.

Ele suspirou.

—Não passa nada.

—Não é que não queira me unir com você em seu Super Clube das Alturas. Mas enquanto ambicionamos alcançar esse pico, provavelmente não deveria estar me esforçando por não vomitar.

—Estou de acordo. É uma boa norma para qualquer ocasião romântica, a verdade.

—O que quero dizer... Depois vou odiar-me realmente. Porque, sinceramente, do armário de cedro, morria por...

Uns repentinos golpes na porta.

       —Sua alteza! Milady! Detenham-se agora mesmo! —A voz do Jenny soava tensa— O rei me fez prometer isso! Nada do que se refira a isso

—Céu santo. - resmungou o príncipe, enquanto Christina ria baixo— Entra, Jenny.

A oficial de protocolo entrou de supetão na habitação. Tinha as mãos apertadas contra seus olhos. Seus lábios se curvavam em uma careta.

—Lamento muito interromper. Mas Sua Majestade me fez prometê-lo. Poderiam vestir-se agora, por favor?

—Jenny, - disse David exasperado— abre os olhos.

Ela afastou lentamente a mão e abriu um olho. Então abriu os dois.

—OH... OH! Perfeito, então.

—É à hora da sesta. - explicou Chris— Não à hora de merda. Seriamente, Jenn, tem uma imaginação muito pervertida.

Ruborizando-se ainda mais - como se isso fora possível, Christina temia que a cabeça da mulher estalasse de repente — disse: - Sinto-o muito. Claro, está cansada... a viagem... os preparativos... o... um... Vou. Com sua permissão, Alteza.

—Pode ir. - disse David.

Jenny fez uma rápida reverência e virtualmente saiu correndo, fechando a porta atrás de si.

—Apanhei-te. - disse Chris, rendo, depois bocejou e se colocou a cabeça entre as mãos.

—Me recorde que ponha uma fechadura nessa porta. - murmurou.

—Porei-o em minha lista de coisas por fazer do inferno.

—Durma.

—Está isso também em minha lista? —antes que pudesse acrescentar alguma outra coisa sarcástica, estava adormecida.

 

—... graças à generosa doação do Príncipe David, nossas amigas as aves terão mais lugar para jogar, interatuar e fazer todas as coisas que nós adoramos lhes ver fazer.

—Nós? —resmungou Christina baixo.

—Não comece. - murmurou David em resposta.

—De modo que, sem mais preâmbulos, eu gostaria de lhes apresentar ao Príncipe David e sua noiva norte-americana, que conforme entendo adora a cidade de Boston...

Uma corrente de aplausos. Aclamou.

—Christina Krabbe!

—O “e” é mudo. - disse com um suspiro. Então ficou de pé junto com o príncipe e sorriu e saudou com a mão como uma rainha do baile enquanto davam em sua rosto uns milhares de flashes de câmeras.

Estavam fora do Aquário de Nova a Inglaterra, mas como estava nublado, todos os fotógrafos haviam trazido suas equipes de flash. De modo que ficou aí de pé e sorriu, estava pessoalmente surpreendida... não tinham estes fotógrafos nada melhor que fazer? Seguro eram repórteres de entretenimento, mas não deveriam estar procurando o Tom Cruise ou Johnny Deep ou a Jennifer Aniston?

—Senhorita Krabbe! Senhorita Krabbe! Darrell Hanson do Fox News. Como se sente ao saber que vai ser a rainha do Alaska algum dia?

—É incrivelmente alarmante. - disse para o microfone. Houve um estalo de risadas dos jornalistas, e pela extremidade do olho viu que Jenny começava a esfregar têmporas novamente. Esclareceu a garganta— A verdade é que David e eu queremos que o rei viva por muito, muito tempo. Nós adoraríamos que nunca tivéssemos que nos fazer cargo do país. Ele é estupendo e faz um fantástico trabalho.

Subitamente, Jenny deixou de esfregar-se. Ela e o príncipe intercambiaram um olhar. O príncipe estava sorrindo.

—A verdade é que, - disse Jenn em voz baixa— isso está... está bem. Isso... é muito bonito, seriamente. Mantém aí acima.

—Alison Smith do Entertainment Weekly, senhorita Krabbe. Quando são as bodas?

—Dentro de umas quantas semanas mais. Adivinho que seus convites se perderam no correio, porque queremos que haja ali montões de repórteres. - acrescentou ironicamente.

Mais risadas.

—Mark Spangler do Channel 10 News, Aonde irão de lua de mel?

—A Nova Iorque.

O príncipe arqueou as sobrancelhas com surpresa, mas não disse nada.

—Do Entertainment Weekly, senhorita Krabbe... poderia ir a qualquer lugar do mundo... por que a Nova Iorque?

—Está brincando? Algum dos melhores restaurantes do mundo estão na cidade de Nova Iorque - Se esfregou as mãos com regozijo— E os vamos provar todos!

—Senhorita Krabbe...

—Christina.

—Christina. Estão pressionando a você e ao príncipe para que proporcionem um herdeiro ao trono do Alaska?

Ela sacudiu o dedo para o repórter do MSNBC .

—Ei, vamos. Como diabos pode ser nossa vida sexual de sua incumbência?

Mas o disse com um sorriso, e foi o encabeçado de todas as notícias aquela noite, junto com a foto da futura princesa bocejando com os dedos sobre a boca durante o discurso do príncipe.

 

—Foi realmente bonito, isso que há dito de Papai.

—É a verdade. - Estavam fazendo um passeio turístico pelo aquário, junto com outras sessenta pessoas mais. A equipe de segurança estava, como sempre, tão tenso como gatos em uma canil— Não quero ser rainha. E vamos, você realmente quer ser rei? Não preferiria ser príncipe para sempre?

Sinceramente, ele não tinha pensado nisso antes. Nunca lhe tivesse ocorrido pensar nisso nesses términos.

—É meu dever.

—Precioso, mas me dei conta que não respondeu a minha pergunta.

Sentiu uma onda de impaciência e o dissipou. Tinha sido um longo dia, não devia pagá-lo com a formosa loira a seu lado. Ela não tinha nascido para o dever, como ele. Ainda se dava o luxo de questionar o destino.

—Isso é porque é uma pergunta irrelevante. É meu dever. Será seu dever. Se te servir de algo, será uma grande rainha.

—Obrigada. Se te servir de algo, eu não gosto quando me diz que estou sendo irrelevante.

Ele piscou surpreso. Não soava a uma brincadeira.

—Tomo nota.

—Chris! Christina! —Uma forte voz de barítono lhes alcançou, e então um penetrante assobio cortou o ar— Ouça! Krabbe com ‘e’ mudo!

Ela se deteve de repente e David quase tropeça com ela.

—Quietos! —disse ao ver toda equipe de segurança mover-se para suas pistolas— Deixem-Lhe passar. Conheço este tipo.

David observou ao loiro de ombros largos vestido com jeans e uma camiseta negra com o logotipo “Liberem o Martha” abrir caminho entre a multidão.

—Christina, quem é esse?

—Kurt Carlson. - Estava saudando freneticamente ao estranho com a mão— Lembra-se de quando lhe disse que podia contar todos meus amantes com os dedos de uma mão? Esse é o número dois. —Kurt! —gritou quando finalmente ele a alcançou. Seus pés deixaram de tocar o chão quando ele a levantou em um excessivo abraço— Como demônios está? O que faz aqui?

—Brinca? —David podia receber o sotaque californiano na voz do homem, apesar de que devia estar perto dos trinta— Tinha uma permissão do departamento para vir e li nos jornais que foste estar em Beantown . Assim que subi a um avião e aqui estou.

Christina pareceu inquietantemente emocionada.

—Veio desde tão longe para ver-me? Pedaço de idiota deveria reservar suas férias para ver sua mãe.

—Está na Grécia com o Padrasto Número Seis. Ei, - acrescentou de maneira informal para o David. Não se inclinou, o que era totalmente apropriado, já que o homem era um norte-americano. Os norte-americanos, desde tempos imemoriais, não se inclinam, nem fazem reverências nem obedecem a nenhum soberano do mundo. Mesmo assim, um pouco de reconhecimento de seu status tivesse sido agradável. Algo em lugar de… - Como vai irmão? Sou Kurt. Chris e eu nos conhecemos de antes.

—Supunha-se que ia de cruzeiro com sua mãe, - acrescentou ela— mas o deixou plantado para ir de lua de mel com Padrasto Número Três. Foi assim como chegamos a nos conhecer. É tão bom te ver!

—Um prazer te conhecer - disse David, interrompendo outro abraço ao estender a mão forçando ao Kurt a estreitá-la, bom... não ouvi falar de você.

—OH, isso é típico de Chris. Nunca solta à merda de ninguém se pode evitá-lo. Mas menino, tatuagem explosiva né? —o caipira realmente lhe deu uma cotovelada nas costelas.

Tatuagem? De que diabos falava?

—Não saberia te dizer. - disse o príncipe friamente. — Embora pretenda averiguá-lo.

—OH, basta com isso, meninos. - disse Chris bruscamente em um tom alegre— Caramba é como ver o Discovery Channel. Assim está na cidade por um par de dias, Kurt? Andará por aqui?

Um. O príncipe evitaria “andar por aí” se pudesse evitá-lo por completo.

—Claro. - disse Kurt— Tenho duas semanas de descanso para vir. Planejava ficar por aqui, mas se tiverem outra coisa em mente, poderia ir com vocês.

OH, esplêndido.

—É genial voltar a ver-te. - disse Christina, pela terceira vez?... quarta... vez?— Não posso acreditar que tenha vindo desde tão longe para ver-me.

—Brinca? Está em todos os jornais. É uma manchete que uma ianque pesque a um príncipe. Como podia não vir a ver-te?

E teve o descaramento de dar uma piscada ao David.

 

—Vão me matar. Vão me matar, maldição!

O rei jogou o jornal sobre a mesa. Chris podia ler as manchetes ao reverso com bastante facilidade; as letras eram de dois centímetros e meio de altura. ‘A FUTURA PRINCESA AFIRMA QUE SUA VIDA SEXUAL NÃO É ASSUNTO DE NINGUÉM’.

—Já levo duas garrafas do Pepto-Bismo para a úlcera esta manhã, Já estão contentes?

—Hei, e, adivinha o que. Minha vida sexual não é assunto de ninguém.

—Segue assim, a ver onde te leva. Por certo, bonito bocejo.

—Me dê uma pausa! Olhe, sinto muito, mas David seguia e seguia, quase durante uma hora e eu estava realmente…

—Não fale. - disse David secamente— Além disso, meu discurso durou seis minutos e vinte e oito segundos.

—E, o que é isso de trazer um policial norte-americano a sua volta? Você não gosta dos policiais do Alaska? Tinha que raptar um e trazê-lo para o palácio?

—OH! Vamos, lhe esqueci dizer isso é um velho amigo e David o convidou a passar uma temporada. Não é genial? —Sorrindo, Christina apertou o braço do David e logo o soltou— Seu nome é…

—Kurtis J. Carlson. - disse Edmund, desde sua esquina.

—OH, bem. E é…

—Detetive de Homicídios do Departamento de Polícia de Los Angeles.

—Edmund, está me assustando de novo. O que tem feito, investigá-lo assim que chegamos?

—Sim.

Ela piscou ante a resposta e disse: - Bom, falando do Kurt, vou ver se já se instalou na ala oeste. Posso ir?

O rei Alexander lhe deu permissão com a mão e ela virtualmente fugiu da habitação. David se voltou para segui-la, mas se deteve ante a voz de seu pai - Quieto, menino!

—Não comece, papai.

—Pode apostar seu traseiro a que vou começar! Primeiro não se importa se te casa ou não. Logo, atrasa-se em se declarar. Quando ela por fim —milagre dos milagres— diz que sim, não se decide com o anel. Então leva na metade do pessoal para as bodas ao bordo de um ataque de nervos. Depois, depois! Ela corre a ver um ex-namorado e você decide trazê-lo aqui? Está tentando se liberar de seu compromisso?

David suspirou.

—Sou consciente de que na superfície parece um pouco cabeça dura- O rei Alexander soprou. —Não só na superfície.

—Mas deveria ter visto como lhe iluminou o rosto quando o viu. Acredito que todo este assunto a superava, e lhe fez bem voltar a encontrar-se com um velho… ah… amigo. Ela estava tão… emocionada que o convidei a unir-se à viagem de volta e a ficar um tempo. Deveria ter visto quão feliz a fez. Ela estava… bom… estava encantada.

—Vocês dois me levaram a tumba antes do tempo.

—Sua Majestade, se me permitir, isto resolve o problema de segurança de Lady Christina. - disse Edmund.

—Sim? E como é isso?

—Como sabe, ela acredita que não necessita uma equipe de segurança quando sai do palácio.

—E se equivoca, sim, sabemos. Tive que me impor nesse assunto, e não gostou de nada. Tantos gritos me produziram dor de cabeça.

—Assim para não ter um guarda-costas atrás de cada um de seus passos, preferiu não sair.

—Por isso estava tão entusiasmada com a viagem a Boston. - acrescentou David.

—Mas viajar com um oficial de polícia, um com licença para levar uma arma de fogo…

—Sim, mas pode disparar? Fará-o?

Edmund cruzou a habitação e depositou uma fita de vídeo no escritório do rei.

—Veja-o por você mesmo, meu rei. Tem uma reputação sobressalente na polícia; é seu melhor detetive. Também matou a quatro homens no cumprimento do dever, bem para salvar vidas ou para evitar assassinatos. O superior do Detetive Carlson foi muito franco comigo. Referiu-se ao Detetive Carlson como o melhor atirador do Departamento de Polícia de Los Angeles.

O rei abriu uma gaveta do escritório, depois se reclinou na cadeira e apoiou o pé na gaveta.

—Compreendo. Deixemos que ele a acompanhe. Poderá ir aonde queira e, além disso, divertir-se.

—Exatamente, senhor.

—Então, manda-a a passar o momento com seu ex-namorado.

—Lady Christina não abandonaria ao príncipe por outro, não a estas alturas. É uma mulher honorável.

O rei quase cai da cadeira.

—Uau, meu peito! Não posso suportar a tensão! Acredito que há dito algo bonito sobre ela.

—É o ar daqui, muito seco.

—Bom, maldita seja, se ao David não preocupa, a mim tampouco.

—Não me preocupa. - lhe mentiu seu filho.

O rei estudou a seu herdeiro um longo momento. Maldita seja. Isto seria o que por fim faria que tudo se danificasse definitivamente ou saísse adiante. Tomou-se todo este assunto muito à ligeira - Bem. Então, o policial é o novo guarda-costas de Christina.

—Bem.

—Indefinidamente? Esclarecemos isso com seu chefe?

—Sim, Sua Majestade. Seu Capitão é consciente de que isto é boa publicidade, toda uma mudança, para o Departamento de Polícia de Los Angeles, e deu ao Detetive Carlson uma licença com pagamento indefinido. —Bom. Suponho que isso o arruma tudo.

—Suponho - disse o príncipe distraído.

 

Kurt seguia sem poder acreditar o tamanho de sua habitação. Ele tinha esperado… não sabia o que, algo como o que teve quando ficou no Motel 6. O realmente agradável Motel 6. Em lugar disso, preocupava-lhe a idéia de que esse tal Edmund lhe tivesse atribuído a habitação do rei por engano.

Ei, todo o lugar era mais que assombroso. O país era maravilhoso. Tudo se parecia com Califórnia do Norte, exceto - Kurt mau!- possivelmente um pouco melhor. As pessoas eram incrivelmente agradáveis. O palácio era super-cool.

Se, Christina fazia um bom trato. Como sempre, a muito louca tinha caído em um montão de merda, para levantar-se coberta de diamantes.

Só… que ela não era feliz aí. Não poderia, de nenhuma forma… Não a Chris que ele conhecia. Por um lado, olhe este lugar. Tudo era de uma antigüidade incalculável.

Por outro lado, olhe ao noivo, Chris simplesmente não suportaria o tipo Eu–não–sou–tão-rígido–como–pareço–okay–talvez-o-seja–um pouco. Inclusive embora fosse super inteligente, mais rico que Deus e fosse a ter seu próprio país algum dia.

Não. Fazia o correto, indo a Boston. Assim poderia… Salvaria a Chris de si mesma.

Ou, melhor ainda, salvaria-a para ele. Ela era a gatinha que lhe tinha escapado.

Culpa dela, totalmente; soube então, sabia agora. Tinham estado saindo seriamente e então seu olho alegre tinha causado problemas e ela se apresentou na mesma festa onde ele estava com outra garota, cujo nome não podia nem sequer recordar.

Tinha havido palavras duras seguidas por um abajur voador e uma comoção leve. Tinha-lhe sugerido que se largasse. Tinha-lhe proposto que levasse a cabo um ato irrealizável consigo mesmo. Havia-lhe dito que preferiria fazer isso antes que engasgar-se com outra das omeletes que ela estragava ao lhe polvilhar tomilho ou qualquer outra coisa. Disse-lhe que o inferno se congelaria antes que lhe fizesse uma omelete sem cuspir-lhe. Logo ela se foi, e ele pensou que era o correto. Pensou que era feliz, pensou que sua comoção se curaria com o tempo.

Reconciliaram-se no ano seguinte, quando o tempo tinha suavizado seu coração e ele tinha compreendido o colossal engano que tinha cometido. Não havia feito nada ao respeito então, por que era tudo novidade, algo agradável, ser amigo de uma mulher que não fosse da polícia, ou uma estriper. E tinha tempo já que ambos eram jovens.

Ele sempre planejou que voltaria com a Chris. Deixaria-a grávida, pediria-lhe que tivessem uns quantos pintinhos, passaria o tempo, envelheceriam juntos e toda essa boa merda. Já sabem, depois de que se divertisse o suficiente e estivesse preparado para sentar a cabeça e essa merda. Chris era uma grande garota e tudo isso, mas não exatamente um demônio na cama. Queria ver um pouco mais do mundo antes de ficar com um sorvete de um só sabor.

Então… os jornais. Todos pareciam estar com “isto Christina”, “Aquilo Christina”, “Christina estava comprometida”. Acaso se tratava de um assunto cósmico? E agora ele tinha que arrumá-lo, arrumá-los a eles, e se o Princi–popó atravessava em seu caminho, Kurt ia chutar-lhe no traseiro.

Nada pessoal. Mas era com sua futura esposa com quem se estava colocando. Chris tinha nascido para ser a Sra. Carlson, não a maldita Rainha Christina.

Houve um golpe em sua brilhante porta, era provavelmente de ouro sólido, pensou tenso e logo o príncipe deu um passo para dentro, seguido por esse tipo super alto, Edmund, e um cara não tão alto. Tinha o cabelo grisalho, seu apertão espremeu a mão do Kurt, era como estar perto de um quarterback envelhecido, um que poderia correr através do campo se tivesse que fazê-lo. Tinha intensos olhos azuis, e… ocorreu-lhe que parecia uma mais velha e acidentada versão do Princi–popó.

—Ei, amigos. - disse, recuperando sua esmagada mão com um pouco de dificuldade. Aquilo se parecia com lhe dar a mão a um urso grizzly, ao que ainda ficavam uns poucos golpes em suas garras— Você deve ser o rei. Que agradável que tenha vindo.

—Olá, Detetive Clar…

—Amigos, amigos! Não estou no trabalho. Meu nome é Kurt.

—Kurt, que bom que, retornasse com meu filho até aqui.

—OH, ouça, não há problema! Foi genial ver de novo a Chris. E genial por parte do príncipe, - adicionou com um assentimento de cabeça ao príncipe, que parecia estar mastigando a casca de um limão—me convidar.

—Droga, bom, escuta, a respeito disso… Onde está sua arma?

—De retorno em meu apartamento em Los Angeles. - disse— Não se preocupe. Não tenho feito contrabando com nenhuma arma de fogo dentro de seu país.

—Maldição.

Kurt piscou. O rei se voltou para o Edmund

- Arruma isso.

—Em seguida, Majestade.

A mão do Kurt foi esmagada de novo.

—Muito gosto em o conhecer. Kurt, se tiver algum problema ou pergunta, faça-me saber ou ao Edmund. —Ou inclusive - disse Edmund— ao Edmund ou a mim. Se desejar ser gramaticalmente correto.

—Ah, obrigado Senhor… ah… rei.

Com uma saudação o rei saiu deixando-o com o moço fracote e seu arquirival.

—São suas habitações são satisfatórias? —perguntou amavelmente seu malvado Nêmeses.

—Sim amigo, estão bem.

—Esta é uma chave de cartão, a qual o habilitará para entrar na área de tiro em qualquer momento. Um membro de nossa equipe o ajudará a escolher uma arma. O rei assinou sua permissão para levá-la esta manhã. Tudo o que pedimos é que quando estiver acompanhando lady Christina…

—Mantenha um olho alerta pelos meninos maus. - disse Kurt, entendendo tudo imediatamente. Que sorte! Que totalmente fodida sorte! Virtualmente lhe arrebatou a chave de cartão— Nenhum problema. Ouçam, ninguém vai se colocar com minha ex-namorada, a menos que seja eu.

Ninguém riu de sua, verdadeiramente pobre, pequena brincadeira.

—Assim que me deixa retornar com você, agora está me dando uma arma e me deixando praticar com ela, e me deixa me pendurar na sua… em Christina. Realmente deve querer que voltemos a estar juntos. - Brincou.

—Ah… bom… Sei que não esta aqui para tentar conquistá-la de novo, a não ser para falar, e…

—Na realidade, amigo, se o estiver um pouco - disse meio desculpando-se. Amaldiçoou a sua mãe hippie por lhe inculcar um escrupuloso sentido da honestidade— Quero dizer, parece um tipo agradável e tudo isso, mas… todo este palácio, não é para a Chris que eu conheço, simplesmente não o é. E espero que ela o recorde. Se passarmos juntos o tempo suficiente.

—Detetive Carlson, esse é um comportamento completamente inapropriado. - disse Edmund.

—Malditamente certo. - uivou o príncipe.

Deu de ombros. —Sinto-o amigos, assim é como são as coisas.

Sentiu um golpe quando o peito de seu rival tocou o seu. Hmm. O rival estava muito solidamente constituído, e era ao redor de oito centímetros mais alto. —Cospe pela boca tudo o que queira. — grunhiu— Mas se assegure de guardar suas mãos para você mesmo, ou lhe cortarei isso.

—OH, sim? Ainda fazem essas coisas por aqui?

—Edmund, lhe corte a cabeça.

—Infelizmente, Sua Alteza, esqueci minha tocha nas outras calças.

—Bem, começa a levar uma. - soltou o príncipe e logo saiu como um furacão.

—Ah… estava brincando, certo? Ou seja, li sobre o tipo. É um biólogo marinho ou um guardião de zoológico ou algo assim?

—Sim, é obvio, senhor. Um biólogo marinho descendente de uma Família Real conhecida por cortar o nó gordiano, em vez de desenredá-lo.

—Não sei que significa.

—Significa, - disse Edmund, justo antes de sair pausadamente— bem-vindo ao Alaska.

 

—Como, - demandou o príncipe David a modo de saudação— pôde sua tatuagem me passar despercebido?

Christina parou na metade do picado, e logo pôs de novo seu sanduiche de tomate no prato. Tinha comprovado com êxito ao Kurt instalado já em sua habitação e decidiu consentir-se um lanche. Estava comendo em um dos salões, aquele com vista ao oceano, hoje um leve retalho de azul na distância. O tomate estava bom, amadurecido,bom truque para a estação do ano, vermelho e pegajoso. Enxugou o queixo com o antebraço e perguntou: — Que mosca o picou hoje?

—Nota como ela não respondeu a minha pergunta.

—O que estou notando é que pegou o irritante hábito de Ed de se referir a mim em terceira pessoa. E é uma boa pergunta. Como é que minha tatuagem te passou despercebido?

—Bom... —sentou-se frente dela, alheio à beleza da cena. Como de costume, ela se distraiu momentaneamente por seu delicioso atrativo— Sempre o fazemos a toda pressa…

—Porque você nunca sabe quando Nicky, Al, Alex, Jenny ou Ed nos cairão em cima, o que por certo não é muito inspirador para a excitação.

—… E usualmente está escuro…

—E apertado. - adicionou Christina sorrindo— E algumas vezes adornado com peles. Sigo dizendo que encontremos esse armário de novo.

Ele parecia distraído, logo cabeceou para se mesmo.

—Assim, onde está?

— Está perguntando a mim? Sigo necessitando um mapa para encontrar o banheiro.

—Refiro-me, - disse chiando os dentes— a sua tatuagem.

—OH, querido. - Levantou seu sanduiche e o mordeu— Depois de tantos manuseios no armário, Precisa perguntar? — Ele se afundou novamente em sua cadeira e cravou a vista na janela. —Bem, se não quer dizer isso.

—Não é tanto que não lhe queira dizer isso, é que acredito que o deveria averiguar por você. Heiii! —O prato voou, as rodelas de tomate se separaram do pão, sua cadeira caiu de costas no chão estrepitosamente, suas pernas ficaram sobre sua cabeça, e ele começou a esfregar o nariz contra seu pescoço e a manusear sob sua camisa— A sutileza não é o seu forte e me faz cócegas!

Com suas pernas para cima no ar como estavam, era difícil fazer alavanca e esquivá-lo. Não é que ela o desejasse de tudo. Ainda assim, seu orgulho estava em jogo. —David, pelo amor de Deus, é meio-dia, a porta do salão esta completamente aberta e não estamos exatamente bem, escondidos, Deus, seus dedos estão frios! —Um horrível pensamento cruzou sua mente— Não vieste depois de estar com os pingüins, ou sim? Você, fodido pervertido?

Tinha-lhe subido a blusa sobre a cabeça e parecia bloqueado temporariamente por seu sutiã - Sim! Broches nas costas. —Não. - disse— É só que hoje faz frio aqui.

Não por muito tempo! —David - riu contra sua garganta— Terminará com isto? Direi-lhe isso, de acordo?

—Kurt sabe. —murmurou, olhando às escondidas debaixo de um tirante de seu sutiã.

—História antiga, pingüizinho, e já tivemos esta conversação, Recorda? Acaso é minha culpa que tenha estado tão apressado por conseguir “aquilo” que alguma vez se tenha incomodado em procurar marcas distintivas?

Ele franziu o cenho.

—Assim, que está dizendo que é culpa minha que fosse e marcasse a você mesma com tinta como uma espécie de motoqueira?

—Não, mas a única razão pela que está aqui com seus dedos frios é porque está zangado com o Kurt. - Tirou o cabelo do rosto para lhe permitir vê-la fixamente— O qual é totalmente estúpido, por certo, quero saber… por que o há convidado, em primeiro lugar?

Ele resmungou algo, que ela não pôde entender. Os dois se congelaram ao ouvir passos. Ele chutou a cadeira que se cambaleou para cima, abriu de repente a fechadura da porta francesa, e a arrastou para o balcão. Deu uma olhada para baixo, viu a queda de quatro pés, e a empurrou.

—Meu sanduiche! —lamentou-se enquanto caía.

Ele aterrissou junto a ela se agachou e a abraçou. Diabos! Ao menos o chão estava quente. As poucas parcelas que tinham escapado à neve! Malditos invernos do Alaska de dez meses…

—Não mencione sua camisa. - e qualquer estado de humor raro em que tinha estado parecia ter passado, porque lhe estava sorrindo com satisfação— Agora, esperemos que quem quer que seja não olhe pela janela.

—Vão estar muito ocupados tirando fatias de tomate das paredes. - estremeceu com o frio ar primaveril— Deve-me o almoço, vaqueiro.

—Feito e feito. - olhou às escondidas dentro de seu decote.

—Pelo amor de Deus. - Se sentou, empurrou-o, deu-lhe as costas, e se desabotoou o sutiã.

Houve um comprido silencio, seguido por seu “OH”

— O vê?

—Hmm

—Está contente?

—É um albatroz.

—Felicidades, Dr. Baranov, esses anos na universidade nos quais nunca teve sexo parece que valeram à pena. - grampeou o sutiã de novo e começou a parar-se, mas ele a deteve com uma mão. Estranhamente, continuava franzindo o cenho.

—Um albatroz, Christina.

—Sim, David, sei, sou eu quem pagou por ele. - disse pacientemente. Por que a estava olhando tão estranhamente?— Qualquer um que te diga que as tatuagens não doem, é um fodido mentiroso, por certo. Imaginei algo superficial na metade das costas, onde o tirante do sutiã o escondesse, algo pequeno… e ainda doeu!

—Um albatroz Real, de fato.

—Agora, não lhe dê muitas voltas a isto. - advertiu ela.

Seus olhos estavam muito longe, já não estava vendo-a a ela, tinha o olhar fixo no mar. - É uma grande ave aquática que regularmente viaja ao redor do mundo.

—Agora esta trocando ao canal do Marlin Perkins ?

Ele ignorou sua interrupção. —De fato, é uma ave aquática famosa por não permanecer muito tempo em um só lugar. De fato, só passa ao redor de uma décima parte de sua vida sobre a terra… o resto esta em movimento.

—Também é bonita e eu gostei das bolinhas negras em suas asas. David se acalmará?

Pestanejou e a olhou.

—Claro - disse—. Apenas estava surpreso. É muito bonito.

—Bom, obrigada.

Beijou-a, sua língua delineou seu lábio inferior antes de penetrar em sua boca, ela pôs os braços ao redor de seus ombros. Céus, OH céus, era muito mau que estivessem fora sobre a grama onde Deus e todos poderiam vê-los, porque ela…

—Ah… vejam…

Olharam para cima. Edmund tinha aberto a janela e lhes estava franzindo o cenho do balcão. O príncipe Alex estava parado junto a ele, lhe via muito surpreso.

—É tudo. - murmurou o príncipe David em seu ouvido— Minha ereção se desvaneceu completamente.

Ela riu enquanto Edmund dizia: —Realmente, Sua Alteza, Minha Lady.

O príncipe Alex esclareceu garganta.

—A busca de sexo… Os surpreendeu aos dois… Direi a meu pai…

—Alex, é tão estranho. - suspirou Christina— Não deveria estar em uma exibição privada da Guerra das Estrelas ou algo assim?

—Estava de caminho… Escutei sons de luta… O Lado Escuro o tinha…

Ela riu apesar de si mesma, David, entretanto, parecia de pedra.

— Christina caiu — improvisou— Eu apenas saí a ajudá-la.

Edmund lhe alargou sua camisa. —Uma grande queda, já que sua camisa estava sobre a cadeira, aqui dentro.

—Foi como um torvelinho? —conjeturou Christina.

Alex riu bobamente enquanto Edmund se voltou implacável, como um mordomo Terminator. —Não me diga. Há uma fatia de pão no teto.

—Estava-a guardando para depois?

David se paralisou de risada, em realidade rodando ao redor da grama. Ela o chutou, então ele se parou, escalou o balcão, recuperou sua camisa da mão de um glacial Edmund, ignorou o olhar malicioso de Alex, e dispôs que se limpasse a habitação.

 

Christina assaltou o escritório da Dra. Pohl, arrojou seu casaco no cabideiro - não atinou e este aterrissou no chão— e logo se deixou cair no sofá com um careta de satisfação. Enlaçou os dedos atrás da cabeça, olhou fixamente ao teto e disse:

—Ah, já posso sentir o doce abraço da prudência.

—Ora, ora, se não é a garota tatuada.

—OH, de acordo. - disse ela, rendo depois— É impossível manter um segredo neste lugar, sabe?

—Está de bom humor. - observou a Dra. Pohl— Além disso, chega tarde.

—Ouça, uma futura princesa tem muitas coisas que fazer, Doc. Não tome como algo pessoal. E por que não vou estar de bom humor? A primavera está aqui.

—E com ela, suas bodas.

—... e a erva cresceu, me perguntou onde estarão as flores e tudo isso. Além disso, o contaram? Encontrei-me com um amigo em Boston e David o convidou a nos visitar. Divertimo-nos um montão.

—Já se decidiu por um anel, em meio desses montões de diversão?

—É uma desmancha-prazeres. - murmurou Christina. Sentou-se e passou suas pernas sobre os braços do sofá— Olhe, não se trata de algo tão simples.

—Não me diga. - disse a Dra. Pohl, mostrando claramente seus próprios anéis de compromisso e casamento.

—Mantenha essas pedras longe de mim. O primeiro foi ter que rechaçar amavelmente as jóias da Rainha Desse sem ferir os sentimentos de ninguém, o que não foi um passeio pelo parque, me acredite.

—Ofereceram-lhe as jóias de bodas da rainha?

—Tinham cubos delas. Cordões de pérolas. Pilhas de diamantes. Assim é uma confusão, sabe?

—Teve que apelar a todos seus poderes de tato.

—Condenadamente certo.

—Poderes tão secretos e bem ocultos que a maioria de nós assumimos que não existem.

—A odeio. Olhe, a idéia de levar as jóias de uma mulher morta —uma rainha morta— me dá asco, entende? Para falar a verdade, não acredita que seria um pouco gracioso levar os anéis de monarcas mortos?

—Nunca pensei nisso. - admitiu a Dra. Pohl.

—Bom, pense sobre isso e voltemos para mim. Como é. Finalmente demos por terminada essa questão. Mas todos os anéis que os joalheiros estiveram trazendo para o palácio, só eram... não sei...

—Inadequados?

—Completamente inadequados. A metade deles requer uma grua para levá-los no dedo! Vamos, quem necessita um diamante de oito quilates? Nunca poderia me pôr outro par de meias. Não enquanto viva. E sou cozinheira... alguém o recorda? —protestou— Um anel gigante só se interporia em meu caminho. Sabe o difícil que é tirar a manteiga das jóias?

—Algumas pessoas, - disse cuidadosamente a Dra. Pohl— poderiam interpretar seu rechaço...

—Rechaço?

—... a escolher um anel, como evidência de que realmente não deseja casar-se e construir uma vida aqui.

—Bom, essas pessoas deveriam tomar um descanso. Não tem nada a ver com o David. Isso não é o importante—diamante, ouro e coisas como essas— não o são. Não tem nada a ver com o David. —Havia-o dito anteriormente? Era difícil de recordar. Tinha estado de bom humor um par de minutos antes e agora estava grandemente estressada. Inclusive suava!

—De verdade? Porque um observador objetivo poderia chegar à conclusão que tudo tem a ver com o David.

—Bom, se tiver tantos desejos de casar-se comigo, por que continua aparecendo com esses anéis que não têm nada a ver comigo? Mmm... Bem, por quê?

—Me vai pegar? —perguntou a Dra. Pohl, curiosamente.

—Hoje não. Mas escute. É como, se depois de todo este tempo…

—Que tempo? —perguntou a Dra. Pohl, arqueando suas sobrancelhas como asas brancas— Ainda não passou nem meio ano desde que chegou.

—Apesar disso, - disse Christina tercamente— ele não me conhece absolutamente. Não sabe o que é importante. - finalizou triunfalmente.

—E você, quantos viagens há feito ao Hall dos Pingüins desde seu compromisso, com intenções de ir conhecendo seu futuro marido?

Um silêncio incômodo, seguido de:

—Estou conhecendo-o, Dra. Pohl, não se preocupe por isso.

—OH, sexo. - disse, descartando-o com a mão— Claro. Implica verdadeira intimidade.

—Bom, aí o tem! E não estaria, não sei, assustada ou algo?

—De ter visto o que queria e vá consegui-lo? Sim, muito chocante e terrivelmente desconjurado.

—Espreitei sigilosamente o Palácio Sitka, - disse virtualmente a gritos— para me deitar com o herdeiro à coroa!

—Querida, não sou sua mãe. Não se preocupe. Escute, Christina, se o ouro e os diamantes não são importantes, então o que o é?

—A família. - disse ela precipitadamente.

—Mas vai se casar com um grupo de estranhos. Seria isso família? Explicou seus motivos e são bons, se falta um pouco de sentimento...

—Ouça!

—... mas não há depois de tudo uma parte de você que quer casar-se com o Príncipe David porque o quer por si mesmo? De igual forma que espera que ele... e sua família... queiram-na por você mesma?

—Está começando a me doer a cabeça - logo, a contra gosto— dele eu gosto, se isso for ao que se refere.

—Só gostar? Ainda há tempo, sabe? —disse a Dra. Pohl, amavelmente— Pode cancelar tudo, voltar para sua vida de antes.

Horrorizada, Christina sacudiu a cabeça.

—Nunca o faria.

—Nenhuma vez?

—Além disso, é muito tarde.

—Não até que diga “sim aceito”, primor.

—Deixe de me chamar assim. Nunca sei se se refere a um tipo de mel ou a Atila o Huno . Além disso, me... sinto-me como uma espécie de consentida.

—Os serventes brigam para cumprir todos seus caprichos?

—Não! Sim! Deixe-me lhe dizer que lhes parei rapidamente os pés. Mas... pelo menos no palácio, não estou tão fodidamente só todo o tempo, sabe? Quero dizer, se David não está me tirando do gonzo com a leitura de seu mais recente artigo de investigação sobre o Aptenodytes Patagonicus... é o pingüim rei em latim e desejaria não havê-lo sabido..., então Nicky se esconde no armário, ou Alex... que é a Princesa Alex, não o príncipe Alex... volta-me louca para que desenhe com ela, ou o outro Alex quer que prove o haiku... sabia que só fala em haiku?..., ou o rei quer me levar a pescar, O... bom... é agradável. Quero dizer, inclusive se David não pode conseguir o anel perfeito para mim, eles...

—Aceitaram-na.

—Bom, sim. Não posso lhes dar as costas depois de tudo o que têm feito. Oferecer seu lar... e sua família... a um dom ninguém como eu.

—Entendo que está a cargo do planejamento da refeição para a recepção das bodas.

—Bom, claro. - Christina enrugou a frente— Sou uma cozinheira. A comida é o meu forte. Portanto, queria que a comida fosse boa. Não é uma tarefa importante.

—Sim, é verdade, mas outra forma de vê-lo...

—OH, lá vamos.

—... é que não se atreve a prestar muita atenção às bodas e iminente casamento... porque não se permite tomá-lo a sério.

Ela se moveu na cadeira

—Que estupidez!

—Então um observador imparcial, - disse a Dra. Pohl cuidadosamente— poderia supor, que se envolve com a comida para dar a impressão de estar interessada nas bodas, quando realmente, só está protegendo a si mesmo.

—Acredito que não me ouviu a primeira vez, - disse Christina— assim escute. Que estupidez!

—Milady...

—Tome cuidado com isso.

—... nunca conheci a ninguém tão tolo e inteligente de uma vez.

—O que?

—E com isso, - disse a Dra. Pohl— acredito que terminamos por esta semana.

—OH, vamos! Não pode dizer todas essas coisas enigmáticas e logo negar-se às explicar.

—Claro que posso, fundamentalmente, quando não são enigmáticas absolutamente. Você sabe exatamente do que estou falando. Chegue a tempo a semana que vem e possivelmente seja capaz de explicá-lo detalhadamente.

—Fodidos psiquiatras! —murmurou.

—Sim, podemos ser realmente desagradáveis. - disse a Dra. Pohl alegremente— Dê um olá a seu ex-namorado de minha parte.

Christina se levantou e agarrou seu casaco.

—Disse que era um amigo... nunca disse que fora um ex. Deve ter espiões em todas as partes, não, Doc?

—Todos os psiquiatras os têm. Dão-nos um pacote deles quando nos graduamos na escola de medicina.

— Sabe? Realmente não a suporto. —Embora não pudesse evitar dizê-lo com um sorriso.

—Sou muito consciente disso, querida. Verei-a semana que vem.

 

Kurt a esperava no vestíbulo. Minha sombra e eu pensou Christina com ironia. Era reconfortante, que como ela, ele o visse tudo tão divertido.

— Como foi, bombom?

—OH, as típicas estupidezes psicológicas. E não me chame bombom.

—Como quer, doçura.

—Aparentemente, o fato de que David continue me dando anéis tão horríveis significa que secretamente não quero me casar.

—OH bom, ah...

—Não comece - advertiu, encolhendo-se dentro do casaco. Caminharam por volta do quente dia da primavera— Escuta, de verdade não tem trabalho? Porque já leva aqui duas semanas. Não é que eu não goste, mas não quero que se meta em problemas.

—Hei-lhe isso dito. Meu chefe pensa que estas são boas RR. PP , assim estou aqui enquanto o rei queira que me faça de guarda-costas. Além disso, — acrescentou, pondo um braço afetuosamente ao redor de seus ombros— ficaria de todas as formas. Acredito que estaria perdida.

—Me diga. É...

Flash!

—Dom, - disse ela pacientemente— pedi-te que não fizesse isso.

—Tira essa câmara. - ordenou Kurt, sua mão esquerda desapareceu dentro de sua jaqueta, enquanto que com a direita cobria as lentes— Agora mesmo.

—Droga. - disse ela, atirando de seu braço até que o baixou— Não venham todos os Sean Penn a me salvar! Ele é Dom Cook, um repórter local, e surpreendentemente, me tirar fotos o ajuda a alimentar a sua família.

—Todo mundo tem que ganhar a vida. - disse Dom, tirando outra foto— Não pude evitar escutar...

—Nossa conversação completamente privada.

— Significa isso que as bodas estão canceladas?

—Não, - disse ela com irritação— significa que ainda não encontrei um anel que eu goste. Escreve isso em sua caderneta, Dom. Minha promessa de casamento me obriga a me comprometer, não a levar uma cansativa rocha em meu dedo.

—Então segue adiante?

—Em três semanas. - disse ela, e se conteve em dissimular o calafrio. Três semanas... e ainda não conhecia o príncipe muito mais que o primeiro dia. O problema era que tinha a ligeira suspeita que a culpa fosse mais dela, que dele. — E para que saiba, seu convite certamente se perdeu no correio.

Dom riu.

—Claro. Até mais tarde, Lady Christina.

—Verei-te por aí, Dom.

Kurt sacudia a cabeça enquanto caminhavam para o carro.

—Lady... Senhor, ainda não me acostumo a isso.

—Espera até que comecem com as coisas de princesa.

—Sabe, Chris, não é muito tarde. Dê uma palavra e estaremos em um avião rumo à Los Angeles

—Obrigada, Kurt, agradeço-lhe isso, mas foi minha decisão. Eu tomei. E a manterei.

—É só que... às vezes não parece uma noiva feliz.

—Não deixe que minha caprichosa, depressiva e mal intencionada aparência o confunda. Por dentro estou chorando de felicidade.

—Certo!

—As coisas se assentarão, - disse duvidosa— depois das bodas.

—Bom. A oferta segue em pé, já sabe.

— É o “Dia de salvar a Chris”? Perdi a notícia?

—Suponho que a doutora e eu só estamos preocupados com você, é tudo.

Ela estudou a seu velho amigo, ex-amante, atual policial e guarda-costas. Houve um tempo em que ela haveria despojado de sua arma alegremente e disparado na rótula. Kurt era um surfista – convertido – em – homem da Califórnia em enésimo grau. Pelo que ela sabia, era realmente um presente de Deus para as mulheres.

Sem lugar a dúvidas, era um dos homens mais atraentes com os que tinham compartilhado suas múltiplas viagens. E quem sabe o que poderia ter acontecido, se tivesse sido capaz de manter as mãos quietas? Ou pelo menos só com ela?

Mas preferia isto. Era tão encantador ter um amigo próximo, um que a conhecia de antes que fosse - toque de trompetistas, por favor— Lady Christina. Embora fosse totalmente consciente de que Kurt era mais saboroso que um sorvete triplo com caramelo quente, não ia cair.

Entretanto, sempre que pensava em coisas saborosas, apareciam-lhe na cabeça imagens de David. Era desagradável e a distraía especialmente, já que não tinha nem idéia do que ele sentia por ela realmente e perguntá-lo resultava muito embaraçoso.

A Dra. Pohl, provavelmente haveria dito que não era embaraçoso, que era um sentimento pobre de sua própria valia e medo de escutar uma resposta honesta.

Mas, o que sabia um psiquiatra com um diploma de excelência? Que a mulher tivesse acertado uma vez não significava que agora fosse o oráculo pessoal de Christina. Ah, ah.

—Só quero que saiba, - estava dizendo Kurt— que a oferta de tomar um avião a Los Angeles se mantém, no momento que queira. Dia ou noite. Só dê uma palavra e estaremos fora daqui.

—Obrigada. - Apertou seu braço e o soltou, era sua arma de fogo— É o melhor.

—Sim, recorda-o. - acrescentou com um amplo sorriso.

 

Kurt a acompanhou a sua habitação, deu-lhe um beijo fraternal na frente e desapareceu com rumo desconhecido, depois de lhe advertir que avisasse quando quisesse sair. Mas o único lugar ao que Chris queria ir, era à cama... tinha uma terrível dor de cabeça e precisava dormir uma sesta. Talvez duas. Não havia... bom, não tinha dormido bem ultimamente.

Havia um estojo para anéis de veludo negro em meio de sua — feita— cama.

—Maldição - murmurou. A) Tinha estado atrás das garçonetes para que deixassem a habitação em paz e B) outro anel.

Suspirou e recolheu a caixa. Percorreu sua litania de desculpas: não é meu tipo, sinto-o raro em minha mão, eu não gosto do engaste, eu não gosto do aro, é muito caro, é...

OH...

Tinha levantado a tampa superior e admirava o anel com voracidade. Era... estava bem. De fato, era formoso. Uma pedra bastante grande de azul brilhante em um simples engaste prateado. Depois de meses de rechaçar anéis, reconhecia um bom corte e a claridade quando o via. A pedra azul - topázio? Água-marinha?— tinha uns dois quilates. Um pouco maior do que lhe tivesse gostado, mas não de maneira vergonhosa.

Deslizou-o por seu dedo. Ajustava perfeitamente. A pedra capturava a luz natural de sua habitação e parecia piscar ante ela.

OH, era... era absolutamente... OH!

 

Duas horas mais tarde, rendeu-se e foi parar se diante do escritório, logo bateu na porta. Milagrosamente, ele estava dentro - pelo geral escapulia para ir pescar a esta hora do dia.

—O que acontece? —perguntou, assinando papel atrás papel desanimadamente.

—Sabe o que necessita? Necessita um computador, como no Star Trek . Sabe quando o capitão diz: “Computador, localiza a Comandante Riker”, e o computador responde: “Comandante Riker está deitando-se com o Troi”, ou algo assim? Isso é o que faz falta a este palácio.

—A quem não pode encontrar?

—A quem pensa? A seu filho! Procurei por toda parte e estou fodidamente esgotada.

—Não só simplesmente esgotada? —perguntou o rei, sorrindo um pouco— Fodidamente esgotada?

—Vou passar isso por alto com a dignidade que não merece. Não está na sala dos pingüins, não está na galeria. Os cozinheiros me hão dito que comeu faz horas, mas que não saiu para os campos, Edmund não tem nenhuma pista, Jenny só aproveitou a oportunidade para me tirar de gonzo sobre compras de sapatos, e Kurt não sabe.

—Ele, seus irmãos e irmãs, estão na ala familiar. - disse Al. Tomou sua pluma e ignorou a transbordante bandeja de entrada— Hoje é o aniversário da morte de sua mãe.

—OH... merda! Ah... merda! Bom...

—Está bem. Deveríamos lhe haver isso dito. Mas tinha o encontro com a Dra. Pohl e, francamente, não pensamos que deixar-se ver pela cripta familiar seria sua idéia de passar um bom momento, por isso foram sem você.

—Bom... não... mas... —Incrível, estupidamente, sentia-se ferida por que o príncipe não lhe tivesse pedido ir. Ia ser sua mulher. Era sua futura defunta sogra, depois de tudo. E ele... eles tinham-na deixado. Foram-se e a tinham deixado— Bom, sinto ter irrompido e tudo isso...

—Não há problema, Chris. É bem-vinda em qualquer momento.

—Ouça...? Como é que não está ali agora?

—Fui esta manhã. - disse o rei em voz baixa.

—OH. —Ela pôde sentir como seu rosto ia avermelhando. Isto se estava convertendo em uma das cenas mais dolorosamente embaraçosas em que se havia visto envolta. E se havia visto envolta em muitas...

—Está bem. Bom... Obrigada por me informar. Perdoe por interromper seu trabalho. Enfim, o que está fazendo?

—Assinando projetos de lei. Já sabe, papelada ordinária.

—Claro. Papelada ordinária. Está bem. Bom, vejo-te mais tarde.

—Não se meta em problemas. - disse distraidamente, já de volta ao trabalho.

—Muito tarde. - murmurou ela, fechando a porta a suas costas. Quando de repente se chocou com o Edmund.

—Ahh! Ai! Tem que se aproximar de mim de mansinho como um maldito vampiro todo o tempo?

—Sim, milady. Permite-me um momento?

—Por que não me disse que o príncipe estava passando o tempo na tumba de sua mãe, idiota?

Edmund piscou surpreso.

—Não sabia que ele ainda estava ali. - Olhou seu relógio— Mmm. Bom, estou seguro de que voltará logo.

—Bom, bem. Preciso falar com ele. Olhe isto! —Ensinou rapidamente seu anel— Não é genial?

—Louvado seja o Senhor! A senhora há feito sua escolha.

—Hei-te dito um milhão de vezes que pare de falar de mim em terceira pessoa. De todos os modos, o que quer?

—Quero que venha comigo e que aprove seus apartamentos.

—Meus o que? —Ela o seguiu um passo atrás, o que não era fácil já que dava passo longos como uma avestruz.

—Onde você e Sua Alteza viverão depois das bodas.

—OH! Vamos viver aqui? Isso é o que David quer?

—Imagino que sim, milady, já que foi ele quem deu as ordens para que estes apartamentos estivessem terminados antes do dia de suas bodas.

—Obrigado por perguntar, Dave. - resmungou.

—Perdão, milady?

—Nada. Então, vamos viver aqui? Todo o tempo? Não é que me importe, porque é um lugar realmente agradável, e bastante grande para todos nós, mas...

—O príncipe tem também um casa em Boston, Londres, A Ilha Príncipe Edward e Roma.

—Cidades costeiras. - disse.

—Bom, Sua Alteza é um biólogo marinho.

—Sim, isso ouvi.

—Apitam-me os ouvidos. - disse alguém por trás. Edmund não deteve o passo mas Christina se girou.

—David! Está aqui. Estive te procurando por toda parte. Literalmente, por toda parte. O que é isso de viver no palácio depois que nos casemos?

—O que é isso de uma lua de mel em Nova Iorque?

—Bom, ia dizer. - murmurou isso.

—Isso supus.

Ele se acomodou a seu lado lhe seguindo o passo. Hoje, muito interessante, levava um traje negro que combinava estupendamente com seu cabelo escuro. Estava recém barbeado e pôde captar o forte e limpo aroma de sua loção.

—Então, mmm..., como foi no cemitério?

—Tão bem como se podia esperar. Sinto muito, pensei que tinha nosso programa para hoje.

—Não os li. - admitiu.

—Ah...

—Escuta, Dave, adoro o anel.

Seu cenho se franziu.

—Qual?

—Este. - disse ela, lhe mostrando a mão— É o melhor. E o último! Um milhão de obrigadas. Espero que não..., já sabe, que não fosse muito problema encontrá-lo.

—Não. —Sorriu, tomou sua mão, que olhou um momento, apertou-a e a soltou— Não foi. Alegro-me que você goste. Vais ficar com este, então?

—É obvio que sim!

—Maravilhoso. O mostrou ao Kurt?

—Ainda não, acabo de retornar e encontrá-lo. Bom... quero dizer, acabo de retornar faz três horas. Estive te buscando por toda parte. — Ele finalmente relaxou um pouco e se sentiu aliviada de vê-lo.

—Sinto que pensasse que estava perdido nas masmorras.

—Ahh... Em realidade, não têm masmorras, ou sim?

—Edmund a está levando a nossos apartamentos?

—Sim, estou segura de que estarão bem, mas escuta, não temos que viver aqui os trezentos e sessenta e cinco dias do ano, não?

—Não, claro que não.

—Bem. Possivelmente me mostre sua casa de Boston alguma vez.

—Nossa casa. - lhe corrigiu, e deslizou um braço ao redor de sua cintura.

Ela descansou a cabeça em seu ombro.

—Realmente eu adoro o anel.

—Realmente me sinto aliviado.

—O que é a pedra? Topázio azul?

—Diamante azul. - corrigiu— Penso que ressalta seus olhos. E o engaste é platina.

Legal. Então, instantaneamente, era dez vezes mais caro do que tinha estimado. Bom, bem. Adorava o anel. Sobre tudo porque demonstrava que David finalmente tinha começado a lhe prestar atenção.

—Não sabia que havia diamantes azuis.

—São raros, pouco freqüentes. Como você.

—OH, David, é tão..., Deus, é realmente tão... só... —detiveram-se, seu rosto estava se aproximando do dela, sua mão estava deslizando por seu cabelo, segurando a parte posterior do pescoço, seus lábios se aproximavam, ela se inclinou para ele e...

—Vejam!

David deu a volta. Christina olhou enfurecida.

—O que?

—Suas habitações, Senhor, Milady. De todas as formas, por que não conseguem uma habitação? Bom, aqui está.

—Hilariante. - disse ela.

Grande surpresa, as habitações eram enormes, magníficas, impressionantes, maravilhosas, bla-bla. Teve um momento de rubor confuso quando contemplou a cama extragrande. Se tinha que viver com esta tensão sexual por muito mais tempo, o príncipe ia ser violado em sua noite de bodas. Mas por cima de toda a suíte —"apartamentos", tinham-nos chamado— era incrível. Havia um grande dormitório do tamanho do salão mais amplo da América do Norte, um banheiro palaciano, feito em dourados e —suspirou— motivos marinhos, uma pequena cozinha onde preparar rapidamente algo para comer, dois escritórios —que demônios se esperava que fizesse ela no seu, não tinha nem idéia- e uma pequena sala de estar com chaminé e grandes sofás de felpa.

—Edmund, é maravilhoso. - dizia David— Superaste a você mesmo.

—Então, hoje é um dia como qualquer outro, Alteza. Estou agradado de que esteja satisfeito.

—Sim, é genial... Mmm, que se supõe que tenho que fazer em meu escritório?

—O que queira. - disse David, surpreso ante a pergunta.

—Jura! E o que vais fazer você no seu?

—Meu trabalho. - respondeu seriamente.

—”Um apêndice aos hábitos de anidamiento do Aptenodytes patagonicus”?

—Recorda o nome de meu artigo! —gritou, então encantado lhe deu um abraço.

—Aborrecido. Mas sabe, David, é genial que esteja fazendo todas estas coisas e investigações, além disso, me alegro de que seus artigos consigam publicar-se, porque trabalha muito duro neles, mas que se supõe que tenho que fazer eu? Não terei um trabalho nunca mais, e vocês, meninos, não me deixam cozinhar para um grande número de pessoas de todos os modos... merda, mal posso encontrar cozinheiros que me deixem fazer um sanduiche. Qual é meu trabalho? “Tem que haver algo mais além da princesa coroada do Alaska”. Não?

—Papai provavelmente começará a nos treinar aos dois no dia a dia de dirigir o país.

Ela tratou de não parecer horrorizada.

—Os legisladores fazem a maior parte. - acrescentou Edmund— Mas o soberano, ou soberanos em seu caso, têm várias tarefas oficiais e não oficiais.

—OH.

—O Alaska é grande, - lhe recordou Edmund— mas sua população é pequena. Assim não estará batizando navios ou cortando fitas de novos edifícios muito freqüentemente.

—Não tem que preocupar-se. - disse David. Logo franziu o cenho— De acordo, isso não é exatamente certo. Mas não é nada que não possa dirigir, o que te parece?

—Ligeiramente menos terrível.

—Milady, confie em mim, se não o fizer em ninguém mais... Você não estaria casando-se com o príncipe em trinta e sete dias, se o rei pensasse que não está à altura das circunstâncias. O fato de que esteja ainda aqui é um bom augúrio... para todos nós.

—Fenomenal. Não acredito que possa despedir o cozinheiro e assumir seu trabalho. Não?

—Não. Além disso, odeio ver chorar a um homem adulto. - disse Edmund, jogando uma olhada a seu relógio— Em particular, antes da hora do jantar.

 

Horas mais tarde, encontrou-se na ala familiar. Estava situada no extremo oriental da propriedade do palácio. Virtualmente no lago. Era, como esperava, formoso. O que não o era no Alaska? Ora, viver neste lugar era como viver em uma brilhante revista de viagens.

Ignorou a urgente sensação de não pertencer. Gostasse ou não, e lhe gostava... estava bastante segura, esta seria sua família. Tinha tanto direito a estar aqui como qualquer outro. Mais, possivelmente.

Inclusive se não a haviam convidado. Inclusive se fossem e a deixassem... era uma parte da família, ou não o era?

Possivelmente não.

O mausoléu da rainha Desse estava situado entre duas elevadas árvores, inclusive com o crepúsculo chegando, parecia mais relaxante que atemorizante.

Christina se sentou com as pernas cruzadas na pequena colina atrás do edifício de pedra, e refletiu sobre as rainhas mortas.

Devo estar louca. Um dia serei rainha e então morrerei e me enterrarão aqui. No que estava pensando? Este não é lugar para mim.

Então, reafirmou-se, sua própria natureza sincera. Parafraseando JFK, se não ela, quem? Claro, não tinha o pedigree para o trabalho, mas isso não significava que não pudesse ser boa.

Bom, adequada.

—Esse é meu objetivo. - disse em voz alta, olhando a ondulante grama— Adequação. Está bem então.

Permaneceu um longo tempo no mausoléu.

 

Um-dois-e três, um-dois-e três, um-dois-e três…

—Um

—Ai! —queixou-se a Princesa— Tornou a me pisar, vaca torpe!

—Um só insulto bovino mais, - avisou Christina com os dentes apertados enquanto seguia contando em sua cabeça— e será a única princesa do Alaska com dentadura postiça.

—Prestem atenção!

—… dois-e três, um-dois-e três…

—Ouch! Vai deixar que te leve, pelo amor de Deus?

—Não.

—Edmund, por que a deixa que me leve? —gritou Alexandria — Meu irmão não a vai deixar o levar, pode estar malditamente seguro disso. —… dois-e três, um- Porque eu gosto de viver no limite, Sua Alteza. - dois-e três, um-dois-três, um-dois-três…

—Edmund!

—Deixa de merda e conta. - disse Christina.

—Não posso contar, distrai-me o fato de que meus sapatos se estejam enchendo de sangue.

—Olhe, tenho que aprender a valsa. E se dançasse com o Edmund, não poderia ver além de seu umbigo.

—Por que não está David aqui a ensinando?

—Um-dois-e três, um-dois-e três, um-dois-e três… Porque sua alteza já sabe dançar a valsa.

—Bom, também sabe Minha Alteza.

—Sim, - disse Christina— mas quero surpreender ao David com minha habilidade para fazê-lo.

—Assim que me usa como saco de boxe para aprender?

—Se cale e conta.

—Odeio-a.

—Um-dois-e três, um-dois-e três. Todos o fazemos, Seu Alteza, um-dois...

Os olhos azul escuro de Alex -tão parecidos com os do David- acenderam-se perigosamente. —Acabo-me de me dar conta de que tenho mais fila que ninguém nesta habitação —declarou — Assim acredito que vou terminar com esta tortura.

—Posso te chutar o traseiro e sabe. - Christina dançou através da habitação com a Alex— Ei acredito que vou pegando o jeito com isto!

—Não o faz. Confia em mim. Onde está seu guarda-costas? Não é seu trabalho te acompanhar nas situações perigosas?

—A última vez que dancei com o Kurt acabei lhe dando uma chute nas bolas.

—E... volta!

—Não chateie! —Alex ofegou— A sério?

—Sim. Assim estava inexplicavelmente nervoso pela idéia de dançar comigo de novo.

—Ele é magnífico.

—E sabe, assim tome cuidado. Embora de vez em quando traga o lixo de “Sou muito sexy para minha camisa” é um tipo bastante simpático.

—Melhor amigo que amante, né?

—Exato.

—Um-dois-e três, um-dois-e três, um-dois-e três, concentrem-se senhoras, um­dois-e três, um-dois-e três, um-dois-e três…

Era, pensou Christina, como uma classe de ginástica no inferno. Certamente a sala de baile era o bastante grande, e embora não soubesse o nome da valsa que soava, o um-dois-e três começava a martelar a cabeça. Bom, suportaria muito mais por David. Valsa e o que fizesse falta!

—Senhora? Ah! Aqui estão! —Jenny entrou apressadamente na sala de baile. O lugar era tão grande como o ginásio de uma escola e suas vozes ecoavam. Christina tinha deixado de contar as aranhas pendentes do teto depois da meia dúzia.

Como era habitual, Jenny estava impecavelmente penteada e vestida com seu traje das terças-feiras: traje cinza a raias com blusa branca, meias de cor e sapatos negros. — Está preparada?

—Não. Vai-te. Estou ocupada.

—Senhora...

—Não.

—Senhora, seja razoável. Só por esta vez.

—OH vamos, não me envenene. Fica muito tempo.

—Lamento diferir. - disse a Princesa Alexandria— Casa-se em uma semana a partir de amanhã. E não me aperte tanto ou irei à por meu spray de pimenta.

—Faz que pareça muito importante. Trata-se só de comprar sapatos. Merda posso fazê-lo em um segundo.

—Mas não o tem feito. Assim agora nos ocuparemos nós. Seja razoável, senhora. É um de meus deveres como dama de honra.

—E meu também. - disse Alexandria alegremente— Kathryn não vem conosco. Esta tarde tem tipo de equitação.

—O que está montando? Um tigre de Bengala? Importará-lhe quando começar a lhe atirar pedras à cabeça?

—Um cavalo árabe, e muito divertido. Agora só lança coisas a você.

—OH, que alívio.

—Um-dois-e três, um-dois-e três, um-dois-e três…

A reputação da Princesa Kathryn a precedia. Certamente que era filha de seu pai, o rei Alexander. Exceto, é obvio, que quase nunca dizia uma palavra e tendia a expressar-se rompendo coisas ou jogando comida. Chris o sentia por ela, um pouco... Apanhada em meio de uma enorme família, com um impressionante irmão mais velho com o que competir... Não era estranho que se expressasse com certa violência.

Mas depois de tudo, pensou Christina, era óbvio que todos eram filhos do rei, de uma forma ou outra.

—Ela confia em nossa escolha. - disse Jenny— Mas temos que fazê-lo agora, esta mesma manhã.

—Por quê?

—Porque esta tarde tem que provar o menu. - apontou Alex— E amanhã tem encontro com a Dra. Pohl e o reverendo. E depois de amanhã, David e você têm o ensaio da coroação.

—Por quê? —choramingou.

—Porque não quer parecer uma idiota quando puserem a coroa na cabeça, ou sim?

—OH, Deus, me ajude. - murmurou. Parou de dançar. Alex imediatamente se sentou no gentil chão, tirou-se as sapatilhas e esfregou os pés. Levava meias três - quartos brancos e Christina se fixou em que não havia nem gota de sangue neles.

—Esta interrompendo a aula de dança para ir comprar sapatos?

—Sim. - disseram Jenny e Edmund com firmeza.

Genial. Soava como se o não fazê-lo tivesse significado um drama. — Bem, acabemos com isto.

—Esse é o espírito! —gritou Alex. Voltou-se a calçar os sapatos e se levantou de um salto— Com uma atitude tão positiva como essa não pode se equivocar.

—Um momento, o que é isso de que há uma coroação? Não serei automaticamente uma princesa quando me casar com seu irmão mais velho?

—Sim. Por lei. Mas às pessoas gostam de ver a cerimônia, algo concreto. E papai diz que sempre que for possível terá que lhe dar ao povo o que quer.

—Seu pai disse isso?

Alex ignorou a sarcástica pergunta. —Mas como ia dizendo, quando fui tão rudemente interrompida por uma plebéia, por lei, no segundo que diga “Sim, aceito” será a princesa herdeira da Alaska.

—Que bonito.

—Relaxe. Haverá bolo.

—Certamente que sim.

—Estará esplêndida, Princesa. - lhe assegurou Jenny— De outra forma, Sua Alteza haveria… Uhm irei pelo carro. —De outra forma, Sua Alteza me teria dado uma boa surra a estas alturas, não? —perguntou Christina a Alex, que assentiu sem sorrir.

—Levamos seu guarda-costas ou os meus?

—Meus. - disse Chris com firmeza— Os seus parecem que estão embalsamados

—Não é verdade! Só se tomam seu trabalho muito a sério.

—Seguro. Por isso foram embalsamados.

—Tenho os mensageiros aqui. - disse Jenny estirando a bolsa, que parecia crescer alarmantemente em todas as direções.

—Que demônios é um mensageiro?

—Lhe diremos, - disse isso Alex agarrando a Christina do braço— pelo caminho.

 

Christina entrou em sua habitação três horas mais tarde,

Cambaleando-se e sentindo-se completamente exausta. Argh!

Toda a manhã fora, desperdiçada em uma saída de compras, por ter ido comprar sapatos. Por que não lhes tinha ocorrido espancá-la em sua cabeça até que perdesse a consciência? Isso teria sido mais rápido. E mais gentil!

Abriu uma de suas gavetas; morria de vontade de se dar uma ducha para desfazer do aroma do centro comercial e esteve a ponto de soltar um chiado. Pela extremidade do olho notou um movimento, saltou para trás, e se girou bem a tempo para descobrir ao príncipe Nicholas, oculto pelo capuz de sua jaqueta correndo para a porta.

Ela o apanhou. Nicky emitiu um som - Yark!— enquanto o sacudia como se fosse uma maraca.

—Maldito seja, pequeno pervertido! Mantém longe de minhas gavetas, entende? Deixa... de... revolver… minhas... coisas —. Cada palavra foi sublinhada por uma sacudida.

—Ai, Chris, vamos! Não pode guardar o algodão com a seda. É antinatural.

—Importa-me uma merda! E é antinatural que um menino de 12 anos lhe preocupem estas tolices. Digo-o a sério, Nicky. Ao princípio me pareceu que esta estranha obsessão com minha roupa era graciosa, mas agora se tornou um arrepiante, caso de primeira ordem. Você gostaria de ter que ver a doutora Pohl cada semana?

—Não. - admitiu ele— Parece uma avó agradável, mas assusta.

—Estou de acordo. Assim... que... deixa... de... fazê-lo.

—Deveria ser mais amável comigo. - lhe disse de repente, balançando seu pequeno pé no ar— Minha mãe está morta.

—Bem-vindo ao clube, companheiro. - disse ela com gravidade— Não espere um tratamento especial de minha parte.

Ele deixou de golpear o ar com seu pé.

—Esqueci o de sua mãe, Chris. - lhe disse causar pena— O sinto.

—Está bem. Mas recorda o que lhe disse. Uma vez mais e o direi ao rei; fará com que vá falar com um psiquiatra em lugar de sair a pescar com seus amigos.

—De acordo. Umm... Chris... posso te perguntar algo a respeito de sua família?

Ela o soltou, mas o manteve agarrado pelo capuz, no caso de necessidade. — Claro.

—Parece-te com sua mãe ou a seu pai?

Christina piscou. —A nenhum. Minha mãe era pequena, tinha o cabelo negro e liso e os olhos cor café. Meu pai era ruivo e tinha os olhos verdes.

—Você tem os olhos verdes. Embora algumas vezes são azuis.

—Como é, pareço-me com meu avô.

—OH. Porque eu não me pareço com meu p... quero dizer, algumas pessoas dizem que me pareço com a família de minha mãe. - adicionou sem convicção.

—Bem, “algumas pessoas” são idiotas, Nicky. Sabe o que é um gene recessivo? Não? Muito bem, essa é a razão pela qual eu me pareço com meu avô e não a meu pai, e você a sua avó... ou a sua bisavó? Nunca consigo recordá-lo, de todos os modos, é por isso pelo que te parece com ela e não a seu pai.

— Por que... porque não me pareço com nenhum de meus irmãos ou irmãs. Eles são morenos e eu não.

Ela baixou as pálpebras. Era óbvio que se tratava de um assunto muito importante para ele, mas também seria um engano que lhe desse muita relevância. Assim suspirou com exasperação e disse:

—Nicky, é o que tento te explicar. São os genes recessivos. Não significa nada. Além disso, acredita que a seu pai importa se for moreno ou loiro? Tenho notícias, vândalo, não lhe preocupa. Nem sequer um pouco. E eu conheço muita gente que mataria por ter seu cabelo. Cachos loiros naturais... volta-me louca só vê-los.

—Está bem. - sorriu— Não deveria me chamar vândalo.

—Chamarei-te como me dou à vontade, pedaço de...

—Quer que lhe dispare?

Ambos os se deram a volta. Kurt estava na porta, sorrindo.

—Posso ver sua pistola? —perguntou Nicky, distraído imediatamente.

—É obvio. - Kurt a tirou do bolso que tinha no ombro, revisou-a, descarregou-a e então a estendeu vazia ao príncipe e se inclinou para recolher a bala do tapete— É uma Beretta, nove milímetros.

—Sei. É bonita.

—Sempre dizia que os bolsos nos ombros eram para os programas de TV. - comentou Chris— Dizia que era impossível tirar a arma com rapidez.

—Bom. - Kurt deu de ombros— Já pratiquei e não representa nenhum problema. Sabe que o rei me deu a pistola? Disse a esse tipo alto, fraco e horroroso...

—Edmund. - disseram ao uníssono Nicky e Chris.

—Sim, ele. Fez que investigasse o que eu usava em Los Angeles e me deu duas novas. Uma para utilizá-la e outra de reposto.

—Papai diz que já que arruinamos suas férias deveria obter algo agradável em troca. - comentou Nicky. Agarrou o canhão da pistola e a tendeu ao Kurt para que a tirasse da culatra— É bonita, mas eu gosto mais das trinta e oito.

Chris se tampou os olhos. —OH, não me diga.

—Está bem. - disse Nicky— Só me permitem praticar no campo de tiro, com meu instrutor.

—Sinto-me muito melhor. Acredito que não está na natureza do rei deixar que um de seus filhos tenha um passatempo normal, como a jardinagem.

Nicky soprou. —Bom, vou.

—Adeus.

—Bem, adeus. Adeus, Kurt.

—Adeus, Nick

Assim que Nicholas se foi, Kurt adicionou: — Menino agradável.

—De uma forma um tanto alarmante, sim. Sabe? Ontem me pediu que o esperasse até que crescesse para que pudesse casar-se comigo.

—Falta muito para isso.

—OH. Certo. Certo. O que está fazendo aqui?

—Perguntava-me se você gostaria de ir ao ginásio. Imaginei que poderia necessitá-lo depois de todas essas compras. —OH, Deus. - disse ela agradecida— Não tem idéia.

 

—Assim escolhi um par - unf!— imediatamente, não? E estavam perfeitamente bem. Mas nãooooo, como não custavam seis mil dólares eram inaceitáveis. Jenny disse - unf!— “não são adequados para sua posição social”, sem importar que demônios significa isso.

—E Jenny—unf!—é...?

—Oficial de protocolo, aliás, ajudante de noivas, aliás, dor de pescoço. Enfim, em estatura te chega um pouco mais acima dos ombros. Sempre usa trajes austeros. Tem um estranha semelhança com a Shania Twain.

—OH! Claro. A garota que parece estar curvada todo o tempo.

—Sim, essa é.

—É bonita.

—É uma moléstia. Mas sim, também é bonita. Quer que te consiga um encontro com ela?

—Não. Parece um pouco tensa para mim.

—Ela diz que - unf!— ama seu trabalho - disse duvidosa— Mas acredito que toma um frasco de Advil à semana.

Kurt se balançou; Chris se agachou e lançou um pé contra sua virilha. Parou-lhe o golpe com a parte exterior da coxa e empunhou a mão. Ela o esquivou e chutou seus pés para fazer que perdesse o equilíbrio.

—Já não é faixa marrom. - gemeu depois de cair ao chão.

—OH, não lhe havia isso dito? —disse excessivamente solícita— Consegui a faixa negra faz dois anos.

—Cadela.

—Chorão.

Estava tão ocupada desfrutando de sua pequena surpresa que não pôde esquivar um chute, e agora seu traseiro estava na terra, bom, no tapete do ginásio.

—Então fomos a essa lambida loja no Juneau, uma loja tão estirada que não tem nem sequer nome na entrada. Havia um monstruoso abajur de aranha no teto. Não te parece estúpido?

—Estava aí. - lhe recordou Kurt.

—Então o que passou? —ajudada por suas mãos, balançou-se para trás, deu uma cambalhota e caiu sobre seus pés.

—Eu adoro esse truque. - disse Kurt admirado, ainda no chão— Parece Buffy a caça vampiros quando o faz.

—Sim, sim. - se inclinou para ajudá-lo a levantar-se— Então, o que aconteceu? Sessenta e cinco pares de sapatos depois escolho um par que era exatamente igual ao do Payless, só que este custava setecentos dólares! E todo mundo: Ooooooh são perfeitos, bla-bla, e eu: O que acontece? Qual é a diferença? E sabe, sabe o que foi o pior de tudo?

—Que lhe disseram. - disse isso Kurt puxando-a, que caiu no tapete a seu lado.

—Sim! Escutei mais de ponto de caule e feituras à mão do que quis saber em toda minha vida. Além disso, não eram nem sequer da cor correta, eram brancos.

—Sei. Vão os tingir para que façam par com seu vestido.

—Exato. Francamente, também me surpreende que me deixem usar sapatos baixos. —Isso é surpreendente. —Já sei! É que fui determinante a respeito disso. Literalmente. Nada de saltos altos. Já vou estar o suficientemente incômoda.

—Está preciosa quando está mal-humorada e zangada.

—Se cale - lhe disse irritada, afastando sua mão de um tapa— Esperava um pouco de compaixão.

—Neném, tem toda minha compaixão - voltou a estender a mão para tocá-la. Que raro! O que lhe estava passando? Ficou em pé de um salto.

—Vamos, terminemos. Quero me dar uma ducha porque depois tenho que ir à prova do menu, que Deus me ajude. Kurt se incorporou lentamente.

—Sabe, Chris? Realmente não parece muito feliz aqui.

—Sim? Bom, sou-o. Quero dizer, estou estressada, claro, mas acredito que todas as noivas o estão. Há tanto que fazer e, a verdade, não me interessa muito.

—Exato.

—O que?

Seu rosto estava mais próxima a ela. À distância ideal para beijá-la — não era muito estranho?— Ela o olhou, seu rosto emergiu como a lua aproximando-se, e quando finalmente se deu conta do que ia fazer em realidade, foi muito tarde, não podia acreditar que pretendesse fazê-lo e ficou congelada, imóvel; de repente, sua boca estava sobre a sua. Então se deu conta que podia mover-se... e o fez.

— Ai!

—O que... acredita... que está... fazendo?

—Merda, Chris, meu fodido nariz!

Deu-lhe uma chute na tíbia tão forte quanto pôde, por precaução, e ele caiu como se fosse uma bola pesada.

—Maldição!

—Não volte... a fazer isso... nunca.

—Jesus! —olhou-a do chão, com as mãos cavadas sob o nariz para deter o sangue— Por que o tem feito?

—Por que hei feito o que? Que demônios te passa? Sabe que estou comprometida, você sabe o que estávamos fazendo. Supõe-se que é meu amigo e me faz isto na própria casa de meu noivo?

—Eu só... pensei...

—Você não pensou. Nunca pensa quando se trata de algo assim. Só vê o que quer e tenta se apropriar disso. E às vezes, a maioria das vezes, isso o mete em problemas. Mas nunca aprende, verdade? —tentou seguir gritando, mas em lugar disso explodiu em pranto— Como pode?

Pôs-se a correr, mas não pôde chegar muito longe, as lágrimas empanavam seus olhos a impedindo de ver, e de repente se sentiu aterrada quando se chocou contra algo duro.

O peito de Al.

Pior ainda, David estava ao seu lado.

Ao dirigir seu olhar para ela, logo ao Kurt, então a afastou e se dirigiu resolutamente para ele.

—Não se atreva. - disse David, e a afastou para enfrentar ao Kurt.

—Merda! Deixe-me. É meu país, minha casa e minha hóspede.

—É minha noi…

—De acordo, toca-te o segundo disparo.

—Não.

—Basta! —chiou ela— Nem um só disparo! Encarregarei-me do assunto!

—Silêncio, Chris. - disse Al. distraído.

—Nem o pense, Chris. - adicionou David igualmente ausente.

Avançaram como um só homem e levantaram o Kurt facilmente, como se fosse feito de hélio. Mas ela estava já a seu lado, agarrando os dos ombros para detê-los.

—Ouçam, meninos, hei-lhes dito que não, eu me encarregarei. Olhem, está envergonhado. Vêem quanto?

—Muito, muito envergonhado. - adicionou Kurt, então tossiu e cuspiu no colchonete um considerável globo de sangue e mucosidade.

—Não o suficiente. - mencionou Al, preparando um punho do tamanho de uma pêra.

—Sim. - disse David— Ainda está consciente. Quão envergonhado pode estar?

—Já lhes hei isso dito, deixem agora! —usando cada grama de sua força as engenhou para afastá-los uma polegada ou duas do aterrorizado Kurt— É meu problema, meu problema pessoal e privado, e me encarregarei dele, agora parte!

—Moço, tornaste-se louco? —Perguntou ao Kurt.

—Uh… sim. Sim, estou-o.

—Falar é uma coisa, - interveio David— entretanto, beijar a minha garota é algo completamente inaceitável.

—Sim. —acordou Kurt, a carne ao redor de seu nariz começava a inchar — Sei.

—Não é tanto o beijo, –embora lhe chutaremos o traseiro por essa razão em um minuto —mas sim a há fez chorar. - Al se deteve, logo continuou— Não pensei que ela fosse capaz de chorar.

—Não, é pelo beijo. - afirmou David.

—Bom, vamos ver. Você lhe dá seu castigo pelo beijo e eu por fazer chorar à garota. De acordo?

—De acordo.

—Alto! —disse bruscamente Christina— Algum de vocês vai se incomodar em me perguntar o que quero eu? Ou é muito o excesso de testosterona?

—Ah…

—Bom…

—Hei-lhes dito, mas não escutam. Nunca escutam. Eu me encarregarei do assunto. Kurt está arrependido. Não voltará a acontecer.

—Deus, não. - concordou Kurt.

—Este é o fim do assunto. Agora lhe tirem as mãos de cima. Já.

Seu tom seco e autoritário não admitia réplica; Al e David o soltaram ao mesmo tempo. Al parecia ligeiramente surpreso, David, inexpressivo.

—E você. - Kurt se estremeceu quando ela apontou com o dedo para sua rosto— Isto não é algo fatal. Estou zangada, mas me passará, só necessito um pouco de chocolate. E não quero que use isto como desculpa para sair do país. Eu gostaria que ficasse, se pensar que pode se comportar. Se não puder, vá agora. Esta noite. Entende?

—Sim. - disse Kurt, olhando-a como se fosse a primeira vez que a via. Adicionou: — Sinto muito. Acredito que interpretei mal os sinais.

—Não minta. Esteve esperando uma oportunidade, e a aproveitou assim que pôde.

—Ah… está bem.

—Não o volte a fazer, Kurt. Nunca mais.

—Está bem.

Ela deu meia volta e saiu.

—Ah… algum de vocês pode me dizer onde encontrar um pouco de gelo?

 

Mais tarde, David a encontrou chorando de barriga para baixo sobre seu ridiculamente caro edredom. Pendurou um letreiro de Não incomodar na porta e a trancou com uma cadeira, no caso de necessidade. Despiu-se, ajudou-a a despir-se e a sustentou em seus braços durante um bom momento. Quando o pranto cedeu começaram os beijos, aos que seguiram as carícias, os mimos, e finalmente o desejo.

Levaram-se o um ao outro ao orgasmo, sem pronunciar uma palavra, cada um profundamente envolto em seus próprios pensamentos.

Os do David: Ela é minha. Matarei-o se tentar afastá-la de mim. Posso matá-lo de todos os modos, se ela continua sentindo-se mau mais tarde.

Os da Christina: Estúpido Kurt. Bem, acredito que aprendeu e ao menos David não lhe disparou nem nada parecido. Perguntou-me se teria ficado algo daquele tablete de chocolate…

 

“Damas e cavalheiros da corte, honoráveis convidados, me permitam lhes apresentar ao noivo e à noiva: Sua Alteza, o Príncipe David, e sua Alteza, a Princesa Christina”.

                 Jennifer Smythe, Oficial da corte do Protocolo

 

—Isto é totalmente embaraçoso. - disse Kurt, esfregando-os olhos.

—De verdade, senhor?

—O que faço aqui? Quer dizer, ela virtualmente me deu uma surra, fazendo ver, claro que está, que estou em sua lista de merda, e me esteve tirando o sarro sem piedade. Sem mencionar, que o príncipe me lança um olhar horripilante cada vez que nos cruzamos. Então, por que não tomo um avião e volto a Los Angeles?

—Lady Christina não deseja isso, senhor.

—Sim, sim. - Ele suspirou. Às vezes acreditava haver-se voltado tão lunático como a Família Real. Se tivesse um pingo de cérebro, teria ido assim que lhe tivesse desinchado a contusão. Em vez disso, Chris insistiu em que ficasse, lhe dizendo que o diabo que ela conhecia estava melhor, o que demônios significasse isso.

E... para ser completamente honesto... ficou para redimir-se. Para lhe demonstrar que não era o que ela havia dito: um assalta garotas sem consciência alguma. Essa sexy Princesa Alex tinha tentado aproximar-se a ele, mas a tinha tratado como se fosse radioativa. Seu pai não só era um tipo grande, mas também poderia, se quisesse, bombardear Califórnia ou algo assim.

Assim aí estava, parado diante do dormitório de Christina com Edmund.

Bateu na porta.

Silêncio.

Chamou mais forte.

Silêncio.

Edmund disse fortemente:

—Vamos entrar, milady! —E… pronto! Abriu a porta e entrou tranqüilamente. Homem valente!

—Unffff, unfffff. - murmurou ela.

Kurt se aproximou do pé da cama, e atirou do edredom para revelar uma Christina cujo rosto denotava sono.

—Aagggh! Quero dizer, bom dia.

—Se levante. - grunhiu.

Edmund recolheu o edredom cautelosamente, e fixou a vista em seus pés.

—Acredito que primeiro, uma pedicura.

—Não é hora de me levantar ainda.

—OH, claro que sim, raio de sol! —Kurt se encolheu ao ver como ela o olhava com ódio— OH... esqueci quão... um… banhada de rocio fresco se vê pela manhã.

—Fecha a maldita boca. Vocês dois pervertidos, saiam.—se amassou qual um vermezinho debaixo das mantas da cama.

—Não, não, não. - cantou— Ignorou seu despertador. Assim Ed e eu nos encarregaremos da tarefa. É hora de que se case!

—Maldição.

—Exatamente, milady, mas todos temos desagradáveis tarefas que atender. Agora se levante.

—É de verdade? —Suspirou— Dois de Abril? Já?

—Isso temo, formosa. - disse Kurt.

—Sinto-me como se acabasse de chegar.

—Sério? —Disse Edmund— Parece que leve aqui uma eternidade. Uma alegre eternidade.

—Se cale. Onde está David? Por que não o foi despertar?

—Sua Alteza está acordado há quatro horas, milady.

—Lógico. Kurt, que demônios? Está aqui, me levantando porque leva uma arma extra?

—Sim, fui especificamente recrutado para esta horrenda e perigosa missão. - admitiu Kurt.

—Que preparados. - disse ela grunhindo, e amassando-se de novo sob os lençóis, acomodou-se, e bocejou.

Ambos os homens retrocederam da cama.

—O que? —estalou a futura membro da Família Real.

—Nada, milady. Você... está tão… refrescante... como sempre.

—Nada. – adiciono Kurt.— É apenas que... poderia ir escovar-te os dentes? O que será, AGORA?

—Idiotas. - resmungou, e tropeçou a caminho do banheiro.

 

Christina se moveu bruscamente, e o maquiador quase lhe tira um olho com o lápis delineador.

—Legal Alex, Kath, Jenn... garotas estão impressionantes!

Kathryn e Alex indubitavelmente estavam incríveis, maravilhosamente apetitosas, e totalmente indiferentes.

Jenny se ruborizou completamente. Quão vestidos Horrance tinha desenhado desatacavam magnificamente as cores das mulheres... as três tinham cabelos negros, e Kathryn e Alex tinha os azuis olhos Baranov. Jenny tinha grandes olhos negros que pareciam tragar-se no meio rosto, e estava muito pálida. Inclusive tratando-se dela.

—Jenn por que não se senta antes que desmaie? Está bem?

—Estou bem, milady. É só... que há muitos detalhes... minha lista... devo encontrar minha lista. —sente-se disse Alex, enquanto Kathryn a olhava preocupada— Naomi.

Uma faxineira apareceu a cabeça na habitação.

—Sua Alteza?

—Consiga a Jenny algo para beber, ou o que seja para seu estômago.

—Imediatamente, Sua Alteza.

—Milady... se pudesse permanecer sentada, por favor...

—Certo, certo. - Christina desabou de novo. Era extremamente insólito ser repreendida por um estranho estando em roupa interior. Bom, ao menos não a maquiava Edmund— De todos os modos, não vejo por que temos que fazer isto. Sou absolutamente capaz de me maquiar sozinha.

—Sabe sequer, - disse Alex, sorrindo maliciosamente– que pincel usar para pôr máscara em suas pestanas?

—Ohhhh, isso é tão gracioso que esqueci de rir.

—Quantos anos têm? —murmurou Alex.

—O reverendo deseja falar com você. - adicionou Kathryn.

Christina quase cai da cadeira. Kathryn falou! Sem lhe lançar a sombra de olhos! Verdadeiramente se tratava de um fato histórico.

—Bom, não pode. Tão só levo um maldito sutiã e a roupa interior, estou de calçinha. Terá que esperar a que leve um pouco de roupa em cima.

—É um homem de Deus, - disse Kathryn— não lhe importaria uma merda se tivesse uma rosa entre os dentes.

—É um homem de Deus, não um eunuco. Além disso, David fica bravo com coisas como esta. E seu pai! Diabos, não me faça começar com isso. E por que está tão faladora hoje? A que se deve?

—Bom, - disse Kathryn cuidadosamente— parece que estará aqui por um tempo.

—OH, então resulta que agora se for digna de seu bate-papo, ah? Isso...

—Fecha a boca, por favor .- disse a maquiadora, ela obedeceu e se submeteu ao delineador de lábios. O que lhe deu a oportunidade de estudar a Kathryn. De todos os irmãos da Família Real, aos que menos conhecia, era a Kathryn e seu irmão, Alexander. Porque, claro estes, eram os mais parecidos com o David, distantes e frios. Agradável, quando não estava jogando bolos, mas distante.

Kathryn era uma pequena e miúda versão de sua irmã Alexandria. Atualmente, na metade de sua adolescência, estava a um passo de distância da beleza absoluta. Assim que esta saísse à luz, Chris imaginava que o rei começaria a acumular rifles. Enquanto isso, certamente não resultava divertido estar sob a sombra da Princesa Alex. Possivelmente, essa é a razão pela que não fala muito, disse-se Chris para si mesma. Com todo mundo pendente de sua irmã mais velha para que incomodar-se?

—E... Preparado!

—Obrigada. - disse, virtualmente saltando da cadeira— Não posso recordar a última vez que estive sentada durante tanto tempo. OH, esperem... Foi ontem. No ensaio.

Ouviram-se uns golpes na porta, e logo, Horrance entrou em grandes passos longos, seguido de três assistentes, que arrastavam uma grande bolsa negra.

—Bom dia, milady! Suas Altezas. - adicionou, fazendo reverências ao Kathryn e Alex.

—Horrance, te largue imediatamente. Não estou vestida.

—Sim? Não, é obvio que não. Trago seu vestido, está aqui mesmo.

—Isso parece uma bolsa para mortos. - disse ela suspicaz.

—Asseguro-lhe que não o é. - se situou atrás de Alex, era umas quatro polegadas mais baixa, e lhe fez algo à parte traseira de seu vestido. O decote do Alex se endireitou imediatamente.

—Ah... muito melhor, Alteza.

O vestido era na verdade impressionante. Pensou Christina. A cor azul profunda ressaltava os olhos da princesa, embora, infelizmente, também acentuava a palidez de Jenny, e o decote quadrado era muito adulador.

—Bonitas jóias. - comentou. Todas suas damas de honra levavam topázios azuis quadrados em correntes de ouro tão finas, que as pedras maiores pareciam estar suspensas na depressão de seus pescoços. Seus brincos eram pequenos topázios.

—David as desenhou para nós. - disse Kathryn distraidamente.

—Fez-o? Isso é verdade?

—Legal. Também tem algo para você… Ai!

—Sinto-o, - disse Alex— me escorregou o cotovelo.

—Direto as minhas costelas, muito obrigada. - disse olhando com fúria a sua irmã maior. —Quietas garotas. —ordenou Chris— Uma harpia por bodas, essa é a regra. E neste caso a harpia sou eu, se por acaso não recebeu o memorando.

—Ao menos nós os lemos. - disse Kathryn.

—Se cale.

—Recordaste a meu pai, ao dizer isso.

—Auuuuuuu. Agora me vais fazer chorar.

Kathryn abandonou sua tentativa de parecer aborrecida e riu. Horrance aplaudiu com as mãos, o que fez ao Chris saltar. Graças a Deus a maquiadora já tinha afastado o pincel da máscara.

—Senhoritas! Um passo atrás, por favor, necessitamos espaço aqui. Ah, isso está melhor. Agora, milady, se ficasse quieta e se desse a volta... sim, assim... sim, um pouco mais... estraga... bem...

—Poderia não se aproximar tanto? —Grunhiu-lhe— Estou virtualmente nua, se por acaso não o notou.

—Sim? OH, isso não importa.

—Então... não o tinha notado.

—Agora, gire… espere! —Deslizou dois dedos com indiferença dentro de seu sutiã e a sacudiu, virtualmente levantando-a do chão. Maldição! Era pequeno, mas era forte— Muito melhor.

—Poderia, por favor, - perguntou amavelmente— tirar suas mãos de meus seios?

—Sim, sim. Agora gire… muito bem… e de um passo... assim... sim... agora fique quieta... senhoritas ajuda, por favor... se... não, esse não, o pequeno abotoador...

—Abotoador?

—Não terá pensado que lhe poria um fechamento a seu vestido, verdade? —replicou-lhe, soando molesto. Podia sentir como ele trabalhava atrás dela com seus dedos ágeis. Pareceu-lhe que esteve quieta durante uma eternidade até que finalmente lhe disse— E... isso é tudo. Muito bem. Dê a volta, por favor...

Deu um passo atrás e a examinou de acima a abaixo.

—Sinto-me como um extra no Queer Eye for the Straight Guy . - comentou.

—Maravilhoso, excelente espetáculo. - Disse Horrance distraidamente— Sim, isso é tudo.

—Legal! —disse Kathryn, olhando-a deslumbrada— É maravilhoso.

—De verdade? Sério?

—Chris, está preciosa. O azul pálido realmente ressalta a cor de seus olhos. Jenny a olhou.

—Pensei que seus olhos eram verdes.

—Não importam meus olhos. - Chris deu um passo indecisa. Sentia-se cômoda, contudo. Nada estava apertado. Podia respirar. Um êxito!

Horrance tirou a capa a jogo da outra bolsa de cadáver e a colocou sobre seus ombros.

—Preparado!

—Ooooooohhh. Excepcional, Horrance, realmente te superaste.

—Obrigado Jenny. - se esfregou as mãos— Vou fazer uma maldita fortuna este ano.

Então, tampou a boca com a mão, mas Christina só riu. Houve outro golpe na porta, e Naomi entrou com uma bandeja.

—Trouxe algo para todos. - disse. Logo, soltou um grito quando viu a Christina— Milady! Você está…

—Como um pedaço de gelo?

—... maravilhosa!

—Bom, obrigada. - disse, agradada— E obrigada também pelo lanche.

—Milady, o reverendo deseja vê-la, se não haver inconveniente.

—Como conseguiram evitar que lhes casasse um bispo? —Perguntou Alex— É o protocolo padrão para as bodas Reais, certo?

—Fácil. Cray era ‘o mal conhecido’, que é melhor que... já sabe como segue. Tive que me pôr assinado com isso. Deixa-o passar. Jenny toma um sanduiche. Não tem bom aspecto, desculpa que lhe diga isso.

—Medo cênico. - disse palidamente— Desculpe-me milady. A atenção nem sequer recairá sobre mim, e...

—Só come. Faz-o, de acordo? Estou à expectativa de que se dê de rosto contra o tapete. Ou sobre meu decote.

Horrance e seus assistentes saíram, depois de repreender a todo mundo para que não respirassem, não se movessem, não tocassem nada. Houve um golpe na porta, e o Ministro Cray disse. —Posso passar?

—Adiante.

Encontrava-se, se era possível, até mais pálido que Jenny, exceto pelos dois febris pontos de cor em suas bochechas. Havia uma capa de suor em sua frente que ele continuamente limpava com um lenço.

—Suas Altezas. Jennifer. Milady. Todas estão encantadoras.

—Obrigado. Tome um sanduiche.

—Não, eu... melhor não, meu estômago... melhor não. Milady, eu gostaria de repassar alguns assuntos com você. Como um ensaio, farei-lhe algumas pergunta e então, farei como o fiz ontem. Farei... —O deixou cair seus cartões com notas que se pulverizaram por toda a habitação.

— Tranqüilo, Cray, está ainda mais nervoso que eu.

—Nunca antes tinha saído na televisão. - disse fracamente.

—Estará bem. Vamos, fez isto um milhão de vezes.

—Mas nunca dirigiu um evento histórico. - comentou Kathryn com uma inteligente olhar malicioso.

—Deixa-o, Kath. Emudece outra vez, e quero dizer, agora. E refiro a bodas. Oficiaste um milhão de bodas.

—Se, eu... isso é certo. Eu... OH! Quase o esquecimento. O príncipe me pediu que lhe entregasse isto.

Ofereceu-lhe uma caixa de veludo azul marinho e Christina tomou.

—Obrigada. - E agora que raios será isto? Abriu a caixa e quase solta um chiado. Era um colar, feito em prata, com diamantes azuis enormes incrustados a cada cinco centímetros, do tamanho do aro formado por seus dedos polegares e indicador ao unir-se— OH, Meu Deus! Sinto muito, Cray.

Alex a olhava por cima do ombro…

—Já! Finalmente resultou bem.

—Resultou?

—David desenhou todas as jóias.

—Fez-o ele?

—Sim, fez-o ele. Acredita que só as pediria por catálogo para te surpreender?

—E meu anel?

—Sim, olhe, quando digo que fez todas as jóias, refiro a TODAS as jóias. Christina colocou uma mão sobre seus olhos, mas a tirou imediatamente, lembrando da maquiagem.

—Quer dizer que todos os anéis que hei...?

—Rechaçado cruelmente?

—OH, merda. Desculpe-me, Cray.

Alex deu de ombros.

—Hei, isso foi bom para ele. Necessitava uma provocação.

Kathryn riu.

Jenny saltou e tomou a caixa.

         —Dê a volta, milady. Ajudarei-lhe a colocá-lo...

E assim o fez, e Christina sentiu o peso das pedras, frias ao princípio, cálidas depois pelo calor de seu corpo. Esta noite, pensou Chris, Tirarei-me tudo exceto isto. Esse pensamento provocou que o desejo florescesse dentro dela, como uma orquídea negra.

—Encontra-se bem Chris? Parece um pouco sufocada.

—Estou bem.

E com um pouco de sorte, muito em breve o estaria.

 

Extraído de “A Rainha dos Limites do mundo”, pelo Edmund Dante HI, © 2089, Publicações Harper Zebra and Schuster.

Embora as notas do Edmund Dante são extensas, é obvio ele não conhecia cada detalhe, nem gravou cada conversação do rei e a rainha (ou príncipe e princesa, como eram então) o dia das bodas. As notas do Edmund daquele acontecimento são surpreendentemente sucintas, terminando com: ela era tão encantada como noiva como o tinha sido como convidada.

Isto só nos deixa a opção de especular sobre o que acontecia na cabeça da Rainha Christina nos momentos prévios às bodas. Pensava em sua mãe ausente? Ou possivelmente em seus futuros deveres como soberana?Ela podia compreender quão rápido ia trocar sua vida, ou só se estava concentrando em seu primeiro passo para tornar-se no centro do cenário?

Provavelmente nunca saberemos.

—Jenny, sabe que te parece um montão a Shania Twain?

—Q-o que?

—Shania Twain. É como uma cópia dela.

Jenny se ruborizou de novo. Tinha-o estado fazendo com estressante regularidade essa manhã.

—A cantora norte-americana? OH, eu… não. Não, não me pareço. Ela é muito mais bonita.

—Jenny, tem espelho?

—Sim, é obvio, - Jenny olhou seu relógio nervosa— ficam dez minutos, senhora. Eu… ah… há algo que queria lhe dizer, mas não encontro as notas corretas.

—Não necessita notas para falar comigo.

—Ah, sim. Senhora… Christina, só queria... é... dizer-lhe… bem.

—Cospe-o já, está me pondo nervosa.

—Sinto muito. É apenas que, queria lhe agradecer de novo por me permitir assistir à festa de suas bodas. Minha mãe… minha mãe está encantada. E se sente muito honrada de estar convidada. —acrescentou.

—Jenn, de verdade. Já o discutimos. Não é para tanto.

—Sim é para tanto. - corrigiu-a com brutalidade. Chris arqueou as sobrancelhas... não sabia que Jenny pudesse ser brusca— Meu pai morreu faz dois anos, e após minha mãe não mostrou interesse em… bom, as bodas é de quão único esteve falando durante meses. É maravilhoso voltar a vê-la interessada em algo.

—Tem um bom assento, verdade?

—OH sim! Está na terceira fila, à esquerda. Leva um chapéu púrpura, comprou-o especialmente para a ocasião.

—Fenomenal.

 

Estava encantada de ter saído, não só porque fazia um dia maravilhoso, mas sim por ser testemunha de um verdadeiro acontecimento histórico. A Sra. Smythe, a mãe da Jenny, tinha um só desejo: que seu marido tivesse podido estar ali com ela.

As bodas da Jenny se levaria a cabo um ano depois, e logo a Sra. Smythe estaria desfrutando da maravilhosa distração dos netos. E até o final de seus dias contaria a anedota uma e outra vez. Jenny olhava mas não intervinha, e seus filhos, especialmente as gêmeas, pediam muitas vezes para ouvir A História.

A história era a seguinte:

—Bem, estava eu ali sentada, esperando poder dar uma olhada à rainha, só que então ainda não era a rainha não sabiam? E quando ela percorreu o caminho ao altar, estava quase tão formosa como o esteve sua mãe.

Jenny sempre interrompia a História neste ponto. —OH, Mamãe! Sabe que isso não é certo. Nem em meu melhor dia poderia ter estado tão formosa como a rainha. - E a Sra. Smythe dizia sempre— Silencio menina, ninguém está falando contigo!

—Vestia uma precioso vestido azul gelo, com uma capa azul céu a jogo e uma pequena coroa de diamantes. E sorria. Estava um pouco pálida, mas tinha um formoso sorriso. E me viu! Olhou onde eu estava, observou meu chapéu, olhou a mim, e me piscou um olho. A rainha me piscou um olho o dia de suas bodas! Pode acreditá-lo?

E um dos netos diria - Porque mamãe lhe disse que tinha ido vê-la casar-se e que levava um chapéu púrpura para a ocasião.

—Exato. - diria a Sra. Smythe— Exatamente.

 

Kathryn e Alex tinham desaparecido para ir ao banheiro antes do grande evento. A Jenny a tinham chamado para decidir se o Príncipe Charles deveria sentar-se com a princesa espanhola ou a Rainha da Noruega.

Assim, no momento, em realidade desde que Kurt e Edmund a tinham despertado, estava sozinha pela primeira vez.

Só com seus pensamentos. Só para suar de ansiedade. Só para dar-se conta de que ia para algo que a superava. Só para...

—Lhe pode acreditar isso? —Interrompeu-a o rei— Elizabeth não veio, mas enviou a seu filho. Bom, podemos falar de caça na recepção. Lástima que não haja trazido os meninos.

—Os meninos, - disse ela fracamente— são homens feitos e direitos de quase dois metros…

—Ah, são pirralhos. Pirralhos agradáveis, mas pirralhos ao fim e ao cabo. O que, pronta para encarar ao inimigo? —o rei se aproximou até ela - Maldita seja! Garota tem tão bom aspecto como para... o que acontece?

—OH, Al!

—O que acontece?Está doente? —apressou-se através da habitação e a acariciou torpemente. Teve tempo, inclusive em metade de sua repentina miséria para assombrar-se: o rei vestia um traje. Em realidade se via... bom... muito Real— Comeu algo? Tem que comer algo.

—Não é isso. OH, Al. - disse e apoiou a cabeça contra seu largo peito por um momento, afastando-se imediatamente depois para evitar arruinar sua camisa com a maquiagem— Não acredito que possa fazê-lo, de verdade que não. Toda essa gente!

—E uma merda! Christina Krabbe, nunca fugiu de nada em sua vida. Não vai começar agora.

—O “e” é mudo, - lhe recordou ela— mas obrigada pelo voto de confiança.

—Digo-o a sério pequena. Sei que assusta, mas só é uma hora ou algo assim diante das câmaras, e logo é estritamente diversão. Já sabe… até que eu morra. - brincou.

—Certo. Sinto muito. Não sabia o que me vinha em cima.

—Ouça, não seria humana se não se assustasse de vez em quando. Especialmente hoje de entre todos os dias. Merda, eu era um molho de nervos em meu grande dia.

—Por certo, está fantástico. Como um adulto e tudo isso.

—O maldito pescoço da camisa me está afogando. Mas obrigado. Está bem? Necessita algo?

As arrumou para sorrir. —Estou bem, obrigada.

—De acordo. Verei-te ali. E Chris... de verdade, David é um menino com sorte. Vê-te tão bem como um milhão de dólares. Realmente, parece uma rainha.

Christina empalideceu. —Não diga isso.

—Certo. Sinto muito. Mas o parece. Bem, sinto muito. Adeus.

Graças a Deus partiu.

Jenny voltou para o quarto, levando seu ramo de lírios azul claro, e estendendo a Christina seu ramo de rosas brancas e vermelhas e lírios púrpura. — Acabo de me inteirar, sua alteza. Três minutos.

—Não comece com todas essas tolices de “Sua Alteza”. - avisou-lhe aceitando o ramo que devia pesar seis toneladas.

—Sei muito bem quanto lhe desgosta a etiqueta. - disse Jenny, sorrindo timidamente— Queria ser primeira em lhe chamar assim.

—Jenn, te consiga uma vida. Digo-o a sério.

Ela riu, o que fez rir a Christina. A diferença da séria jovem que mostrava ao mundo, Jenny tinha uma risada contagiosa. Por um momento, foi quase um dia normal.

—Pronta, senhora? —sussurrou Edmund.

 

Estava paralisada como um cervo ante os faróis. Nunca tinha visto tanta gente na mesma habitação, uma enorme e sinistra habitação, em sua vida. E nem sequer tinha entrado ainda. Encontrava-se na soleira, jogando uma olhada.

Sabia que supostamente tinha que começar a percorrer o corredor. Todo mundo estava esperando. Mais importante ainda, David estava esperando.

Não podia fazê-lo. Não o faria. Fugiria. Parte agora, hoje. Entra na espessura... no Alaska há muita. Sabia caçar e pescar. Não seria uma princesa; seria uma ermitã. Uma pestilenta ermitã loira que pelos cabelos teria escapado de entrar na realeza.

—Senhora?—Edmund a olhava com preocupação.

—Pronta. - sussurrou, com um sorriso que foi como um véu em seu rosto. Estúpida fantasia sem sentido. É obvio que passaria por isso. Tinha-o noivo não? Não com tantas palavras, mas o anel que tinha aceitado e levava no dedo era uma promessa. Uma promessa em platina e diamantes azuis.

Assim que iria se casar. E por demais, por seu futuro trabalho como rainha e co-dirigente do Alaska, como Scarlett , se preocuparia amanhã.

Os acordes de Trumpet Voluntary do Clarke encheram o ar, e ela começou a percorrer o corredor. De repente, havia muitas coisas que olhar; espremeu o cérebro para processá-las todas. E sentia o sorriso congelado na rosto.

Primeiro: os rostos. Centenas deles, todos voltados para ela. Deu-lhe graças a Deus por não vestir nem (A) sapatilhas, nem (B) cauda.

E depois: câmeras. Todo tipo delas. Vislumbrou NBC, CBS, BBC, MSNBC, PBS, e ANB , e isso só em uma olhada.

Havia pequenas bandeiras pendurando por toda parte... azul marinho, com uma grande letra branca. Algumas tinham uma C, e outras uma D.

OH, bem... David e Christina. Ah!

E flores, flores por toda parte. Montões de rosas, pilhas de lírios. A igreja cheirava como um jardim. Ou como um funeral.

Caminhou, caminhou, nunca chegaria ao final do corredor. Caminhou sozinha. Isso tinha sido raro. Ao se tinha devotado a acompanhá-la mas ela tinha declinado a honra com todo o tato de que era capaz; não caminharia para seu marido pendurada em outra pessoa. Não importava quão tentador fosse. Assim caminhou sozinha.

Rostos, rostos, mais rostos; a quanta gente tinham metido aqui? Acreditava que a igreja e o palácio eram imensos; entretanto agora parecia estar tudo abarrotado. Rostos... rostos... chapéu. Chapéu. Chapéu púrpura. Chapéu púrpura! A mãe da Jenny levava um chapéu púrpura; Chris a olhou observou que a mulher mais velha tinha os mesmos grandes olhos escuros que Jenny, e lhe piscou um olho. O chapéu púrpura se inclinou assombrado em resposta.

Viu Kathryn, viu a Alex, viu a Jenny. Viu o Príncipe Alexander, magro como uma folha em seu smoking, deveria levantar pesos ou algo, ganhar peso. Viu o rei, viu o Nicky, viu A... sim! Aí estava, ao fim: David, seu homem. Dela. Muito em breve. Por fim.

Tinha um aspecto incrível. Estava bonito e parecia régio, sábio e fantástico. Largo de ombros e recém barbeado. Amável e encantador, tudo de uma vez. Era mais alto que qualquer dos pressente, exceto o rei. Tinha as mãos nas costas; contemplando-o com o smoking se o fazia a boca água. Quem podia culpá-la?

Sorria-lhe.

Ela chegou a seu lado. Ele se inclinou e lhe disse apenas para seus ouvidos: —Está incrível.

Ela sussurrou - A que horas tem que devolver o smoking?

O fotógrafo da revista People os captou rindo frente ao altar; foi à capa de todas as revistas de entretenimento do mundo.

 

Não estava preparada para a aclamação com a que lhes receberam, a ela e ao David, quando entraram no salão de baile principal do palácio Sitka.

—Longa vida ao príncipe e à princesa!

—Bem, obrigada. - disse ela. E em um sussurro ao David— Imagino que falam de nós.

—Isso temo. —disse David, apertando sua mão— Pronta para aceitar o desafio?

—Não pode ser pior que casar-se e ser coroada. Sem ofender. - acrescentou ela.

—É obvio que não... Quem poderia encontrar isso ofensivo? —Ele pôs os olhos em branco e a aproximou da linha de recebimento, onde ela estreitou mãos durante o que pareceram oito horas e meia.

—Olá... obrigada por vir... obrigada... sim, obrigada... olá... olá... obrigada por vir... obrigada, Horrance o desenhou para mim... não, queria algo mais que o branco tradicional...

Jenny estava a sua esquerda, David a sua direita.

Jenny realizava seus dois trabalhos - dama de honra e oficial de protocolo— de uma vez. De vez em quando, sussurrava ao ouvido da Christina o nome de uma pessoa, que o repetia obedientemente.

—Rainha Rania do Jordânia, - murmurou, e Christina se encontrou cara a cara com uma mulher o suficientemente formosa e magra para ser modelo de Vitória's Secret.

—Olá, Rainha Rania... obrigada... obrigada por vir... obrigada, queria provar algo diferente ao branco...

—Princesa Elizabeth, Yugoslávia.

—Olá, Princesa Elizabeth... foi tão bonito de sua parte dizer... se... obrigada por vir... olá... olá...

—Príncipe herdeiro Federico, Dinamarca.

—Olá... obrigada... sim, me alegro de que tenha terminado... sim... bem, é sozinho um dia verdade?

—Princesa Matilde, Bélgica.

—Um vestido genial... obrigada... apreciamos que tenha vindo desde tão longe...

—Rei Juan Carlos, Espanha.

—Olá, Rei Juan... obrigada... sim, escolhi-os eu mesma... obrigada...

—Charles, príncipe do Gales...

—O conheço, Jenn. —Esperando ainda despertar de tão estranho sonho, Christina estava assombrada de encontrar-se estreitando a mão do Príncipe Charles. Em pessoa parecia muito agradável. Tinha essas grandes orelhas que aos caricaturistas gostava de exagerar, mas seus olhos eram quentes e amáveis, e lhe havia dito que David era um homem afortunado.

—Bom, obrigada, Príncipe Charles. —Jenny lhe tinha explicado que era apropriado dirigir-se aos visitantes reais por seu títulos e nomes. Sabia que Christina, como norte-americana de nenhuma família em particular, não estava interessada em referir-se a ninguém como "Sua alteza". Entretanto, uma vez casada, gostasse ou não, teria uma fila equivalente a muitos dos convidados reais.

—Eu sou afortunada também. Apreciamos que tenha vindo desde tão longe.

—Minha mãe sente não ter podido assistir. - respondeu amavelmente.

—Bom, estou segura de que está ocupada, vigiando a Inglaterra e tudo isso.

O príncipe Charles riu.

—Assim é, precisamente, Alteza.

—Christina, por favor.

—Christina, então. - Ele estreitou sua mão. Era encantador, a sua maneira. Seu fôlego cheirava a memora fresca. Felicidades de novo.

—Obrigado, Príncipe Charles.

—Suzanne Somers. - sussurrou Jenny.

—A ela também a conheço. - disse Chris exasperada— Olá! Tenho um ThighMaster e eu adoro.

A senhora Somers respondeu com humor, luzindo deslumbrante como um milhão de dólares em um vestido cor bronze que fazia destacar seu cabelo e seus olhos. Christina estava assombrada... não tinha nem idéia de que os olhos de Suzanne fossem tão grandes, azuis e bonitos.

—Foi tão amável ao me convidar. - estava dizendo a senhora Somers.

—Bom, como eu digo. Adoro o ThighMaster. Odeio meu ButtMaster, sem embargo… essa coisa é mortal! Mal que posso caminhar ao dia seguinte, digo-o a sério!

A famosa loira riu.

—Isso é porque o está fazendo bem, Princesa Christina!

—Estupendo, - disse ela imitando uma queixa— então.

—Olá, Dra. Pohl!

—Sua Alteza. - lhe disse sua psicóloga recatadamente e logo soltou uma risada—O sinto, não pude resistir. Está que tira o fôlego. — A doutora a beijou na bochecha. —Bom trabalho.

—Obrigada. E obrigada por vir.

—Francamente, assombrou-me receber o convite.

—OH, não deveria haver-se assombrado. - disse Christina muito séria— Realmente queria que viesse… eu adorava nossos bate-papos.

A Dra. Pohl riu.

—Bem, bem, deram-me algo no que pensar, de todos os modos. Escuta, verei-te na recepção, de acordo?

—Isso espero.

—Rainha Beatriz, Holanda. -murmurou Jenny.

—Boa tarde, Rainha Beatriz… obrigada… sim, foi um comprido dia, mas muito bom… obrigada…

Christina permitiu a sua atenção vagar por um momento, bem a tempo de ouvir o Príncipe Alex lhe dizer ao Suzanne Somers, “Eu gosto de comer tortas. Mas minhas coxas devem pagar o preço. Saudações ao ButtMaster.”

Ela pôs os olhos em branco, o que deixou ao Primeiro-ministro britânico assombrado.

A Princesa Alex jurava a todos que era uma fase pela que estava atravessando seu irmão… Chris esperava ferventemente que fora verdade. O menino tinha perdido uma aposta fazia… um ano! Durante quanto tempo se supunha que tinha que estar recitando poesia? Pobre bastardo. A menos que em segredo gostasse de fazê-lo. Nesse caso seria um bastardo muito raro.

—Princesa herdeira Vitória, Suécia.

—Olá… obrigada por vir, Princesa Vitória… gostou de Yale?

—Sim que eu gostei. - respondeu a princesa com um amável sorriso. Outra esplêndida morena com olhos marrons… e vestindo rosa! —Minha amiga Jenny diz que será a primeira soberana mulher da Suécia, mais ou menos em um milhão de anos?

—Trezentos anos, e sim, é correto.

—Bem, boa sorte com tudo esse assunto.

—Também para você, alteza.

—Princesa Estefani, Mônaco.

—Felicidades. - disse a princesa Estefani, estreitando sua mão.

—O mesmo digo. - respondeu Christina. Tinha lido no Newsweek que Estefani tinha se casado por quarta?... quinta?... vez.

—Obrigada, Princesa Christina.

—Simplesmente Christina, - disse— seria perfeito.

—Isso ouvi. - lhe respondeu Estefani com olhos reluzentes de diversão.

—Quase terminamos. - disse Jenny ao ouvido.

—Graças a Deus… olá, Senhorita Beckinsale. Eu adorei Underworld.

Chutou um montão de traseiros.

—Obrigada, - lhe respondeu Kate Beckinsale— alegra-me que gostasse.

—Gostar? Apaixonou-me. Por certo, um grande acento.

Beckinsale piscou.

—Sou britânica.

—OH. Bem, isso o explica.

—Acabamos de terminar a seqüência.

—Essas são as melhores notícias que tive este ano! —exclamou, e a gente da linha de recepção riu. Com ela, não dela. Às vezes é difícil distingui-lo, mas não hoje.

Foi bonito.

 

Christina estava comendo um sanduiche de pepino com salmão. Mmm! O que tinham os pepinos e o salmão que foram tão bem juntos? Quem podia sabê-lo? Era um desses mistérios, como Stonehenge . Mas ela o desfrutaria igual. E ria encantada ante os detalhes das mesas dos convidados... bolos de bodas em miniatura exatamente iguais ao grande, só que de dez centímetros de altura, em um arco íris de bolos. Cada mesa estava decorada em rosa, ou verde hortelã, ou celeste ou nata.

—Imaginava que você gostaria. - disse David a seu lado. Seu prato estava limpo, e a contemplava fatiar assombrado— Estou seguro de que há mais na cozinha, querida esposa.

—Oh! Hoje estava muito nervosa para comer. Entre Edmund me colocando pressa e Jenny sobre mim todo o tempo, temi que vomitasse de forma iminente. Na televisão, nada menos!

—Me alegro de que o evitasse.

—E a comida é fantástica. Do tipo “eu não poderia havê-lo feito melhor embora o tentasse”, embora a verdade é que o tentei, mas os cozinheiros não me deixaram me aproximar da cozinha nas últimas setenta e duas horas.

—Pode ser que tivessem instruções. - admitiu o Príncipe David.

—Genial. Da parte de quem?

—Queria que desfrutasse da festa das bodas. E não o teria feito, se estivesse obcecada com o número de gemas de ovo na nata de manteiga gelada.

—Me mostre quanto sabe da nata de manteiga. - grunhiu, mas estava encantada— Sou eu ou a rainha Rania é uma autentica beleza?

—Não é apenas você.

—Falando de bebês …

—OH, fazíamo-lo?

—Ontem joguei fora meus anticoncepcionais.

Deixou sua taça antes de engasgar-se.

—Bem. Eu, um, não estou seguro de como devo responder a isso. Felicidades?

—Bom. Todas essas classes de história do Alaska que Edmund me deu, eram intermináveis, mas apenas interessantes. Aprendi um montão de seu ancestrais. Estivemos falando da sucessão e da família Real e de que necessitava um herdeiro para governar o Alaska para quando fôssemos, já sabe, alimento de vermes…

—Sim, mas não tem que ficar grávida agora mesmo.

—Estupendo, porque ainda não acabei minha porção de bolo.

Sorriu-lhe.

—Quero dizer, criatura apressada, que podemos esperar um pouco.

—OH. De verdade? Acreditava que ter bebês era meu novo trabalho.

Esta vez se engasgou com o vinho.

—Quem te disse isso?

—Imaginei-o por mim mesma. Vamos, não finja que somos como qualquer casal. - Ela cruzou as pernas e se inclinou para frente, sua capa cobrindo-a até o chão— Não necessita bebês, mais ou menos, como “O mais breve possível”?

—Não, Christina. É jovem, eu sou jovem. Podemos esperar um pouco. Se você quiser.

—Pois bem, pensarei-o. —E o faria. Era do mais curioso! Ela acreditava que embarcou em um programa “Bebe-ya”, mas ele claramente não tinha pressa. Por que isso lhe parecia maravilhoso e decepcionante de uma vez?

—Falando de trabalho…

—OH, fazíamo-lo? —perguntou ela sarcasticamente.

—… pensou em escrever um livro de culinária? Parece ter umas opiniões muito cortantes nesse tipo de coisas, como por exemplo, as omeletes…

—Simplesmente, põem-me furiosa os que batem os ovos com leite.

—… certo, certo, se acalme e coma o bolo. Poderia escrever um livro de cozinha…

—Não. Agora não posso.

Ele piscou.

—Por que não?

—Porque seria fácil publicá-lo e fariam uma grande tiragem, como um trilhão de cópias, mas nunca saberia se o livro é um êxito porque às pessoas gostam de minhas idéias e minhas receitas ou porque eu seja, rufo de tambor, por favor, A Princesa Christina! Vê-o?

—Oh... vejo-o.

Ela podia ver que em realidade ele não o via. Posto que sempre tivesse sido um príncipe, estava acostumado a sua fama e popularidade. Sempre estava aí, como o sol e a lua. Ela nunca poderia fazer isso. Era muito consciente de que durante o resto de sua vida haveria gente que quereria fazer-se amiga dela porque era uma princesa. Era estúpido, mas assim eram as coisas.

—Falemos disso mais tarde. - sugeriu— É a festa de nossas bodas… deveríamos nos divertir. Ou algo assim.

—Eu me estou divertindo. - disse ele, e cravou a última parte de bolo do prato dela.

—Maldição. Você… o que foi isso?

Ela ouviu um tumulto e viu que o caminho de Kurt era bloqueado por ao menos três membros de segurança.

—Que demônios? Esses tipos sabem quem é Kurt… o que passa com o de “podemos ver sua identificação”?

—OH. - disse o príncipe à ligeira— Pode ser que por acidente, tenha posto o nome do Detetive Carlson em alguma lista.

—Muito amadurecido, Menino Pingüim. Hei meninos! —Agitou a mão— Deixem-no passar, está bem.

—Hei, você. - disse Kurt ao chefe de segurança, alisando sua gravata de forma exagerada— Eu conhecia a noiva quando se ia de marcha.

—Possivelmente em mais de uma forma. - acrescentou o príncipe, bebendo o resto de seu vinho em três goles.

—Que infantil! —Murmurou ela, e dedicou ao Kurt um grande sorriso— Alegro-me de que pudesse chegar.

—Não ia perder as bodas Reais do século. - brincou.

—OH, não comece com isso. Mal acaba de começar o século. Meu Deus acredito que nunca o tinha visto com um traje de gala, está fantástico! —Edmund me obrigou - Kurt percorreu o pescoço com um dedo e fez uma careta— Sinto-me como uma fraude total dentro desta coisa.

—Deram-lhe o suficiente de comer?

—Relaxe, Chris. A comida é de primeira. Escuta, a razão de que haja vindo é que o Príncipe Alex e alguns mais nos vamos assaltar uns quantos bares, assim boa noite.

—Bem, obrigada por vir.

—Está estupenda. - lhe disse ele, olhando-a de acima a abaixo com um olhar semi-crítica, semi-aduladora— Como uma princesa, certamente.

—Então meu disfarce funciona.

Ele riu e se inclinou para beijar sua bochecha, mas viu o príncipe e trocou o gesto por um apertão de mãos.

—Bom, a melhor das sortes e tudo isso.

—Virá amanhã a nos ver?

—Claro. Nova Iorque, de acordo?

—Legal.

—É obvio, estarei ali.

—Certo, genial. Vemo-nos.

—Adeus. Já nos veremos, David.

—Boa noite. - respondeu o príncipe com frieza.

—David, - disse Christina, enquanto via afastar-se ao Kurt— realmente tem que esquecê-lo.

—Extinguiu-se nas névoas de minha memória.

Ela riu.

—Com certeza que sim. Falando de coisas extintas na névoa... —Soltou o garfo e segurou sua manga— Antes não tive oportunidade.

—É muito tarde para que lhe devolva. - disse isso o rapidamente.

—Muito gracioso. De todas as formas, não tive oportunidade antes, e nem sequer sabia antes. É sobre as jóias. As gargantilhas, os brincos, o anel de compromisso e as alianças de bodas. Não sabia que as tinha desenhado você mesmo.

Ele parecia confuso. Tinha um pouco de nata de queijo na comissura da boca; ela o limpou com o polegar.

—Você disse que me encarregaria das jóias.

—Sim, mas eu acreditei que isso significava que Edmund se encarregava das jóias, ou algo assim.

Ele torceu a boca.

—Bom, não era isso o que significava. E se lhe tivesse ordenado ao Edmund encarregar-se de tudo, provavelmente teria rido em meu rosto.

—É o mesmo. Não sabia e o sinto pelos que rechacei.

—Se você não gostava, Chris, alegra-me que fosse sincera a respeito.

—Mas eu adoro a aliança. - disse ferventemente. Sobre um anel de platina estava engastada um diamante azul por cada dois brancos. Combinava à perfeição com seu anel de compromisso. O de David tinha notado, era um simples aro de platina— Seriamente que sim, David.

—Isso vale um beijo. - disse ele, ela riu e se inclinou sobre ele, beijando a comissura de seus lábios, e de fundo escutou aplausos e a risada do rei.

—Falando de coisas que realmente nós gostamos. - continuou ele, reclinando-se para trás e pondo seu braço nos ombros dela— Acredito que a escultura de gelo é um bonito detalhe.

Ela deu de ombros.

—Não é para tanto. Não é como se a tivesse esculpido eu mesma.

—Não, mas é um casal de pingüins encantadores.

Ela reprimiu um calafrio. Havia dito ao organizador “Talvez algo com pingüins”, e em resposta, ele tinha criado uma monstruosidade de dois metros e meio: um casal de pingüins, para manter os camarões frios. Era um pesadelo e divertido de uma vez.

—Me alegro de que você goste. Assim, um... —Ela jogou com a manga dele— Quanto tempo temos que ficar?

Sorriu-lhe e começou a responder, quando lhe apertou as costelas até fazê-lo grunhir e disse - Olhe isso. É uma festa, e Jenny está sendo incomodada pela milionésima vez.

—É seu trabalho. - começou a explicar.

—Sim, mas todo mundo toma uma pausa depois de um tempo. Quero dizer. OH vamos! São o que? Quase dez da noite?

—Bom... estamos em um salão cheio de dignitários visitantes, celebridades norte-americanas, realeza Européia…

—… e a oficial de protocolo Real esteve em pé incluso mais tempo que eu. Não se vão.

—Christina, suplico-lhe isso… nada de incidentes internacionais.

—Não em nossas bodas tola!

Com a capa flutuando atrás dela, Christina foi para uma mesa na esquina com fontes de morangos recobertas de chocolate, agarrou meia dúzia e as guardou em um guardanapo, então se apressou a alcançar ao Jenny.

—... pode certamente passar a noite no palácio, embora esteja seguro de que o serviço de segurança de sua majestade já vetou o Marriott...

—Alto!

Jenny se deteve e a olhou. Edmund arqueou suas sobrancelhas e a olhou também. E a pessoa que os seguia, um homem calvo com óculos e levando uma tabuleta, encolheu-se.

—Tome uma pausa. É uma festa. Olá. - lhe disse ao menino da tabuleta.

—Em realidade, Sua Alteza, - lhe corrigiu Edmund— é uma recepção de bodas.

—O que seja. Meninos tomem uma pausa. Desde este momento estão oficialmente fora de serviço.

Alarmados falaram com uníssono.

—OH, Sua alteza, Não poderia…

—… de tudo inapropriado…

—… estar disponível para responder perguntas de…

—… em realidade nunca… “fora de serviço”, como o expressou…

—Basta! Sério! Meninos! Suficiente. Estivestes trabalhando como escravos…

—Isso é certo. - disse Edmund. Voltando-se para seu ajudante— É tudo, William.

—Quero que se divirtam. - continuou Christina, enquanto este se escapulia— Tome umas férias. Os dois.

—Sua Alteza, isso está fora de toda questão…

—Jenny, saia. Não quero ver seu rosto, nenhuma de seus rostos. durante uma semana.

—Quarenta e oito horas. - disse Edmund.

—Sete dias, Edmund.

—Quarenta e oito horas.

—Sete. Dias. Edmund.

Seus ombros embelezados de negro se encolheram em sinal de rendição.

—Como deseja, Sua Alteza. Sete dias.

—Bem, isso está muito bem - Merda bendita! Ganhei uma discussão com Ichabod Brain— Agora, a desfrutar da festa. Eu… ordeno-lhes isso!

—Sim, Sua alteza, - fizeram coro obedientemente.

—E basta com essa merda… sabem que o odeio.

—Sim, Sua Alteza - fizeram coro com maldade.

 

Extraído da “Rainha dos Limites do Mundo”, pelo Edmund Dante III, © 2089, Publicações Harper Zebra e Schuster.

Olhe-se por onde se olhe, as bodas do Príncipe David e a Princesa Christina foi encantadoramente formosa, e sim, um acontecimento histórico. Teve uma cobertura amplamente televisionada, e é obvio, a famosa foto do Príncipe e a Princesa rindo no altar.

A sua maneira, a foto da Cozinheira foi tão famosa como a foto de 1939 do Judy Garland inundando suas mãos no cimento do Teatro Chinês Graunan. Esta foto foi utilizada uma e outra vez ao longo de um século, porque era acertada, pois catalogava a Realeza do Alaska - o príncipe, sério, mas entretido, e a princesa rindo gozosamente sem vergonha alguma. Também aconteceu que em suas bodas, o Príncipe David sugeriu o agora famoso livro que mais tarde se tornaria em uma Best seller internacional (perto de cem milhões de cópias em setenta idiomas), “Christina na Cozinha: Receitas favoritas do SRM Princesa Christina do Alaska”.

As pessoas assumem, entretanto, que o príncipe e a princesa teriam outros pensamentos em sua mente, a parte da cozinha...

—David, pelo amor de Deus, poderia-me baixar? Vai fraturar algo. —David se cambaleou até a cama, sua nova cama em seu novo apartamento, e a jogou em meio dela, depois se deixou cair a um lado.

—Deus, é... é uma garota grande. - lhe disse, claramente contendo um ofego.

—E você é um idiota. - se apoiou sobre os cotovelos e se tirou os sapatos com os pés, olhando-os voar através da habitação. Esta estava totalmente iluminada por velas, havia ao menos milhares delas. O qual, ela imaginava que se supunha que tinha que ser romântico, mas sinceramente, punham-na nervosa. Algo que aprendeu em seus anos de trabalho nos cruzeiros era que o fogo era mau.

—Já o hei dito antes e o volto a repetir: Maldição, este sim que é um bom conjunto de habitações! Ouça, apaga essas velas, faria-o?

Ele apagou umas quantas, e ela apagou as que tinham a seu alcance e as que estavam na mesa junto à cama. Raios estavam como a dois pés de distância do edredom. As plumas eram inflamáveis? Provavelmente o eram. E provavelmente também, cheirariam fodidamente.

—Esta será a primeira vez que durma no palácio em um lugar distinto aos apartamentos que tive desde que era um bebê. - disse ele pensativo.

—Sério? —Perguntou-lhe surpreendida— Alguma vez dormiu em nenhum outro lugar? Não tem, não sei, algo como uma cama de armar no Allen Hall com os pingüins?

—Sim, mas eu não durmo aí.

Ela tampou os olhos com a mão.

—OH! Por Deus, David. O primeiro de tudo, somente estava brincando, e em segundo lugar, isso é horripilante em ao menos cinco formas diferentes.

—Está aí para que eu possa me recostar e descansar enquanto observo seus comportamentos.

—David. Sério. Deixa de falar dos fodidos pingüins e me beije.

—Posso fazer ambas as coisas? —disse-lhe tomando o cabelo e girando-se para ela para beijá-la por um comprido e encantador tempo.

—... estúpido vestido. - Ela se movia retorcendo-se por toda a cama— Ajude-me a me tirar esta coisa, faze-o.

—Encantado.

—Não leve a mal ou algo assim, mas estive esperando o momento para te saltar em cima durante os últimos seis dias.

—Igualmente.

—OH, isso é tão romântico! “Igualmente”. Deveria escrever para a Harlequin.

—A palavras néscias… E Christina, se cale e me devolva o beijo.

—Encantada.

Com um brilho de malícia em seu olhar, agarrou-o pelas orelhas e o beijou. Logo ambos os se retorciam, sua capa terminou no chão, seguida pelo seu traje, lhe tirou a camisa de um puxão e seus gêmeos de diamante azul saíram voando (mais tarde descobriria que um deles tinha aterrissado dentro de seus sapatos), e logo suas calças e depois um de suas meias três - quartos, e uma de suas meias, e logo:

—Chris, Quantos botões tem esta coisa?

—O desenhista teve que usar um abotoador. —Disse ela ansiosamente, olhando-o sobre o ombro— Poderá desfazê-lo?

—Tem uma tocha? Esquece-o. Sou muito destro.

—Bom, felicito-o.

Aproximadamente meia hora mais tarde, o vestido finalmente deslizou por seus ombros. Ela o afastou a chutes, aliviada de haver-se liberado dele ao fim. Mas agora lhe tremiam as mãos; tinha-o esperado durante tanto tempo e desejado com tanta vontade que lhe custava acreditar que ao fim tinha chegado o momento. Esperava que David não fosse do tipo de homens que sofriam de ansiedade ante o desempenho.

—Deus! Christina é… está… realmente formosa.

—Isto é somente pela roupa interior. E porque me observa no dormitório e não em um armário. - Ela se agarrou os seios e os levantou— Vê? Meus seios não são normalmente desta altura, isto é obra do estúpido espartilho.

—Ummm... sim, já vejo... fascinante… poderia-lhe deixar posto isso, verdade?

—Pedi-te eu que deixasse a roupa interior posta? —ela resmungou.

—Poderia, já sabe, levo boxers… têm ventilação.

—Esquece-o. Estive esperando para poder agarrar esse traseiro nu sempre.

—Pois agarrou tudo o que queira - lhe disse, afogando-se da risada. Ofegou quando ela o beliscou com força e se equilibrou para precipitar-se na cama com ele em cima.

—Sabia. - disse ela, profundamente satisfeita— Essas folgados bermudas e trajes intelectuais não puderam me enganar. Tem um traseiro fantástico.

—Igualmente. - respondeu ele, e esquivou um punho que lhe roçou a orelha.

—É impossível!

—Sim, suponho que o sou. - disse, enterrando a cabeça e encontrando a suave doçura de seu decote. Beijou-a por um longo momento enquanto ela suspirava e acariciava seu abundante cabelo negro. Tinha desejado tocar essas sedosas e grossas mechas durante muito tempo. Os últimos frenéticos dias antes das bodas lhes tinham deixado muito pouco ou quase nada de tempo para encontros no armário. Parecia irreal que ele estivesse aqui com ela, que agora fora seu marido, que lhe pertencesse e ela a ele.

O só fato de pensar no pertencer e na necessidade provocava-lhe uma onda de excitação que quase podia saborear, era escura e quente. Dando-lhe bom uso a suas mãos se desfez de sua roupa interior e tirou os boxers a ele (logo encontraria sua roupa interior em seu outro sapato).

Mais tarde se encontrou aferrando esse bonito traseiro e atraindo-o para ela, ele se aproximou totalmente disposto e se afundou nela - OH, Deus, ela estava pronta para ele, mais que pronta, que enlaçou as pernas ao redor de sua cintura e lhe seguiu o ritmo à medida que ele começava a investir, investir, investir.

Pensou que morreria. Pior ainda, pensou que ele se deteria. Suas mãos lhe aferravam o cabelo enquanto lhe sussurrava seu nome uma e outra vez no ouvido ao gozar dentro dela, enquanto se afundava, empurrava e se enterrava forte e rapidamente, mas não lhe importava, sentia-se maravilhosamente, ele se sentia maravilhosamente; era tudo puro músculos suaves e fortes, tudo quente e ela, ela podia, ela era...

—OH, Meu Deus! —chorou ao chegar ao topo. Moveu-se debaixo dele: um novo recorde, O que tinha passado? Realmente tinha acabado em menos de um minuto? Maldição! Ela normalmente era lenta.

—Gozou? —ofegou ele em seu ouvido.

Mordiscou-lhe o ombro e emitiu um som de afirmação.

—OH, graças a Deus, porque já não posso, não no momento… —ficou rígido em cima dela, com todos os músculos contraídos para logo desabar-se com um suspiro de satisfação.

Uns minutos depois, quando ela recuperou o fôlego, disse: - Por todos os céus!

—Igualmente.

—Já está bem, digo-o a sério. Juro-o, este é um novo recorde para mim. Eu quase nunca, ah…

—Bom, pois eu quase sempre, mas faz tanto da última vez. - Lhe sorriu e lhe deu uns tapinhas na suarenta coxa— O farei melhor a próxima vez.

—Melhor? Então provavelmente me vai matar!

Ele riu e a aconchegou a seu lado.

—OH, Christina. Vais mudar toda minha vida, não é assim?

—Para isso estou aqui. - lhe disse. Depois, acrescentou esperançada— Uh, Quando acredita que vai poder fazê-lo outra vez?

—Necessitarei mais de trinta segundos. - lhe disse ele secamente, depois deixou escapar uma gargalhada quando ela o empurrou e lhe começou a fazer cócegas.

Mais tarde essa noite, ou possivelmente, pela manhã, ela despertou de um profundo sonho, por causa de umas lentas e doces carícias cheias de prazer que a embargavam, para encontrar a cabeça do David entre suas coxas, sua língua dentro e sobre ela. Seus dedos dançavam, efetivamente era muito destro, e quando ela gritou, quando não podia suportar nem um minuto mais, ele se equilibrou acomodando-se sobre seu peito e lhe afastando os joelhos com as próprias, penetrou-a com terrível lentidão.

Ela emitiu um grito e se sacudiu debaixo dele, cravou-lhe as unhas nos ombros e se balançou e balançou balançando-se contra ele, com ele, até que seu orgasmo floresceu dentro como uma flor escura, até que ele se sacudiu e se desabou sobre ela, suarento, e ela suspirou para voltar a afundar-se no sonho com ele descansando a seu lado, sua mão nas pequenas costas, pressionando-a fortemente contra si.

 

—E ou não… já sabe… não me sinto nada diferente.

—Não? Nada de nada?

—Bom… sinto-me bem. —Ah. —E ao fim! Em uma cama de verdade sem a preocupação de que alguém interrompa-nos. Essa é a melhor parte. Mas não me sinto como a esposa de alguém. E certamente não como Sua Real Idiotice, Christina. E suponho que já é um pouco tarde para falar a respeito de manter meu próprio sobrenome…

—Temo que sim.

—Bom, ao menos parece ser que todo mundo por aqui sabe como pronunciar Baranov. Seu pai segue dizendo mal meu nome. Quantas vezes terei que dizer-lhe o “e” não se pronuncia - Bocejou e rodou pela cama, para chegar aos braços do David. Esfregou-lhe as costas e ela se aconchegou ainda mais.

—Listt par Nnna Ykkk?

—Preparado para Nova Iorque, é isso o que diz? Sim. De fato, iremos muito em breve, ou… Uns ligeiros golpes na porta.

—Suas Majestades! É quase à hora de ir!

Christina estirou o pescoço sobressaltada.

—Por favor, J… Espera um minuto, essa não é Jenny.

—Deu-lhe a semana livre, recorda?

—Quer dizer que de verdade me escutou? Isso é genial! Bom, espera aqui. Não está decente.

—Olhe quem fala. - disse David divertido, enquanto lhe arrojava o lençol.

—Passe!

A princesa Alexandria apareceu à cabeça.

—Bom, ao menos, estão acordados. Graças aos deuses não lhes descubro em meio algum desses rituais pre-fornicação.

—O que faz aqui?

—Jenny me rogou, antes que ela e Edmund se fossem levados a força, protestando a cada segundo, que me assegurasse de que lhes levantavam e saíssem a tempo do palácio, e como de qualquer modo ia vir a lhes ver… - Deu de ombros— Não é grande coisa.

—Ainda tem posto seu vestido de dama. - observou o príncipe.

—Sim, bom… - outro encolhimento de ombros— Uma larga noite. E seu amigo Kurt na verdade sabe como as aproveitar.

—Mantém-se afastada dele. - disse David subitamente, erguendo-se para sentar-se.

—Me remoa, Seu Real “Farejador”. Mas primeiro, veste-se. Bonito traseiro. - adicionou para Chris, depois balançou a porta e fechou.

—OH, que bem! —Explodiu David, saltando fora da cama e passeando-se iracundamente no esplendor de sua nudez— Agora esse maldito, esse rato, esse indivíduo se está aproximando de minha irmã, dado que é evidente que já não pode te ter.

—Se acalme. - disse Chris, assombrada pela onda de protestos. Inclusive seu pênis tremia pela raiva— Kurt é um louco pelas garotas, mas basicamente inofensivo, e sua irmã pode lhe quebrar a coluna se tenta passar-se da raia.

—Bom. - disse David detendo-se a pensar por um momento. Christina se deteve e admirou seu corpo. Esse minuto é um ponto válido, Christina. Sim. Ela pode fazê-lo, praticou durante anos, bem.

—Além disso, Kurt conhece seu pai. Acredita que deseja que Al se zangue com ele outra vez?

—OH, nem sonhe.

—PTI , sabe que está muito sexy pelas manhãs? Todo desalinhado e sem barbear e isso.

—Igualmente.

—Eu não estou desalinhada, a não ser ligeiramente desarrumada. Garanto-lhe isso. E só por isso, ficarei com o assento junto ao vidro no avião.

Começou a levantar-se da cama e com uma luxúria repentina lhe deu uns açoites nas nádegas nuas.

—OH! Fica suas mãos para você, maldito pervertido.

—Nem o sonhe. - lhe disse presunçosamente, e tratou de voltar a lhe dar um açoite, mas ela correu chiando para o banho, e ganhou por apenas dois pés de distância.

—O que me recorda. - disse ela, colocando sua blusa (um presente de bodas do Rei que dizia: Sou a princesa herdeira, Quem demônios é você?) em seu jeans— Já basta de que outras pessoas nos devam despertar. Será que não ouviu falar dos despertadores?

—Despertadores? —disse David, como se estivesse dizendo Serpente de cascavel?

—Sim. É um novo invento fabuloso, campeão. Você só põe determinada hora, vibra ou soa uma música, e bingo! Está acordado. Espetáculo de maravilha.

—Sim, mas…

—Onde demônios estão minhas sapatilhas esportivas?

—Olhou o armário?

—Por que teriam que estar aí? —Revisou-o— Bom, estou condenada.

—Chris, a respeito dos despertadores…

—Algo é melhor que ter a uma pessoa adulta sacudindo a outra pessoa adulta para despertá-la. Quero dizer. Quantos anos temos? Sinto-me estúpida quando sou despertada por alguém.

—Sim, mas, - disse o príncipe, reprimindo uma choramingação— os despertadores não lhe trazem o café da manhã e não lhe dizem que tempo faz, nem preparam seu traje ou lhe mantêm informado em temas da atualidade.

—Tampouco o agasalham, nem lhe dão um beijo-beijinho em seu nari-narizinho… Aggg! A sério David. Já é hora de crescer.

—Que tal se me consegue um despertador e desperta?

—Bem. Perdedor.

—Eu me levanto muito cedo, - lhe advertiu— para inspecionar aos residentes do Allen.

—OH, os pingüins podem esperar uma ou seis horas mais por suas cabeças de pescado. Vêem, vamos, vamos, vamos! Nova. York, lá vamos!

—Nova York, tome cuidado! —murmurou David, depois esquivou o pequeno punho de sua esposa, e a empurrou fora da habitação.

 

—Olá a todo mundo. - disse a nova princesa, piscando pelas centenas de luzes que pareciam explodir em seu rosto.

—Como vai à vida de casada, Sua Majestade?

—Está Nova Iorque preparado para a Família Real do Alaska, Sua Majestade?

—Quais são seus planos, Sua Majestade?

—Bom John, - disse Christina, reconhecendo o enlace para o MSNBC— meu plano é lhes dar a todos vocês, perdedores, um descanso, tomar esse avião, e ir, muito, muito longe. E raios, quantas fotos vão necessitar?

—Príncipe David, poderia dar um passo atrás, ali. Obrigada! —Outro flash explodiu. David olhou resignado como toda a imprensa se enfocava em sua esposa— Assim, como foi as bodas?

—Dom, você esteve aí. - disse ela pacientemente—. Vi-o escondido atrás das roseiras. Disse a Jenny que te levasse uma porção de bolo.

—Onde está a chefe de imprensa?

—Dei-lhe a semana livre. Trabalhou muito duro, mais que todos vocês juntos, merece umas férias.

—Qual é o itinerário em Nova Iorque?

—OH, Já os tenho imprimido para vocês meninos, e David dará uma cópia a cada um… Negativo!—depois de uma onda de risadas, ela continuou. —Esqueçam, pragas. Nosso itinerário é nosso assunto.

—Igual a sua vida sexual, sim, Suas Majestades?

—Ouvi-o, Darrell. Vá ver se obtiver um cartão de Natal.

Kurt, respondendo a um sinal do príncipe, incrementou o volume dos microfones, lançando a Christina a um lado de tal modo que a esmagou contra as paredes.

—A função acabou, moços. Poderão apanhar novamente a estes meninos a sua volta.

—Adeus. - disse Chris, antes que Kurt tomasse pelo cotovelo e a arrastasse para a habitação privada da pista— Realmente sutil. - disse, uma vez que estiveram fora da vista.

—Ouça, não me olhe assim, coração. Seu marido me dirigiu o velho e horripilante olhar fixo. Assim que o fiz.

—OH David, lamento tudo isto, não está zangado, verdade? Uma vez que seja notícia velha, se esquecerão de mim, e começarão com você outra vez. Estou segura disso.

—Chris, espero que não. - disse ele ferventemente— A coisa mais idiota que o Príncipe Charles fez, além de enganar a sua esposa, foi incomodar-se pela atenção que ela recebia. Tem alguma idéia de quantos trabalhos mais consigo fazer agora? Pensa em minha investigação!

—Você disse que não se zangaria. - disse Kurt, fazendo uma bola de chiclete do tamanho de sua cabeça, cheirava fortemente a uva artificial.

—Como pode mastigar chiclete tão cedo? E você, acaso te mataria te pôr um pouco ciumento com tudo isto do Ei, Princesa Christina, aqui? — Perguntou Christina, um pouco molesta— E onde demônios estamos?

Encontravam-se em uma ampla e luxuosa habitação que tinha uma enorme janela em sua parede oriental. Podia ver aviões entrar e sair. Ao longe, o avião que a realeza utilizava para ir aqui e lá se aproximava lentamente. A imprensa, que bloqueada ao outro lado da parede, dispersava-se lentamente.

—Olá! —disse o Príncipe Nicholas, atirando seu frango frito para abraçá-la— Queríamos ver-te partir!

—Está-me manchando a blusa com molho de churrasco. Ora. De todos os modos como pode estar comendo a esta…? Por certo… que horas são?

—São dez e meia. - disse o rei bocejando enquanto perambulava. Via-lhe, mas como um guarda-florestal que como o monarca regente do país, com sua ampla jaqueta, calças de cordões à cintura, com uma suja mancha no joelho, botas esportivas com meias, a bochecha e mandíbula sem barbear e olhos avermelhados— Não poderia haver partido às…? Ao meio-dia?

—Ouça, não foi idéia minha. - lhe deu um sonoro beijo na bochecha, rindo ao ver a marca do batom que lhe tinha deixado— Arrumado a que dormiu uns trinta segundos. Está feito uma ruína.

—Ouça, foi as primeiras bodas na família. Momento de celebrá-lo. - o rei bocejou outra vez.

—O casamento parece lhes sentar muito bem a vocês dois. David, não o tinha visto tão excitado desde que usava fraldas.

—Obrigado, papai. - disse secamente.

—Vamos ter uma refeição rápida, e então meninos, vão, muito, muito longe. - Disse a princesa Alexandria. Chris se mostrou divertida ao advertir que trocou por jeans e a jaqueta. Possivelmente estivesse contente de dizer adeus ao David, mas claramente não tinha a intenção de informar ao Rei que onde tinha passado toda a noite de festa— O céu é testemunha de que há suficiente sobra.

—Algumas fresas cobertas de chocolate? —Perguntou David, vagando pela mesa do bufê— Aquelas bonitas que pareciam o noivo e a noiva? Esses realmente estavam deliciosos.

—Há dúzias, senhor.

—Alucinante. - disse ela, unindo-se com ele na mesa— Olá, sou Christina.

—Sim, Sua Alteza. Sei. Eu sou Devon, e estou substituindo ao Edmund e Jenny até que retornem. Se houver algo que você necessite, não duvide em me chamar.

—Relaxe, Devon. Tudo está bem. - O menino era alto, claro, não tão alto como Edmund, ninguém o era, mas estranhamente nervoso. Suas loiras e onduladas sobrancelhas pareciam larvas domesticadas.

Para alguém que passava o tempo fora do Palácio Sitka, era um verdadeiro molho de nervos… a maioria deles eram formais, mas relaxados, Devon parecia que ia lançar-se na tigela do ponche de um momento a outro. Provavelmente fosse a pressão de sua ascensão no cargo. Bom, pois teria que relaxar, quando se desse conta de que nenhum deles o morderia.

—Meninos, poderiam controlar o avião por nós? —perguntou o rei, e seis homens da equipe de segurança, saíram pela porta imediatamente.

—Ficarei aqui. - conveio Kurt enquanto eles se retiravam— A proteger o salmão.

—Controlar o avião, para que? —perguntou Christina, embora suspeitasse que soubesse.

—Bombas, pistolas, pornografia, comida vencida, já sabe. - Disse a princesa Alex, engolindo uma bola de melão envolta in prosciutto.

—Quem se preocuparia conosco para nos fazer estalar?

—Não me ocorre ninguém.

—Assim, em todo caso. Onde esteve toda a noite, Alex, hmmmmmm?

A princesa lhe jogou a bola de melão.

—Pare. —disse Christina, evitando-a— Posso me encarregar de uma princesa lançando coisas, assim não comece.

—Ouça Chris, seu sapato está desatado. - disse Nicky, e antes que ela dissesse algo se agachou depressa para lhe atar o cordão.

—Você esquisito, algo com o de tocar, - Ziiiiiing Zuuuump!--, minha roupa uh?

Ziiiiing-Zuuump?

—Nicky! —gritou a princesa Alexandria. Ouviu-se um golpe amortecido quando deixou cair seu prato de bufê no tapete, e o melão se derramou como brilhantes e coloridas partes da primavera.

Ziiiiiing-Zuuump?

Kurt atinou a agarrar sua pistola, quando de repente, desabou-se fora do campo de visão no mesmo momento em que se ouviu um ruidoso e esvaziou Bonnnnnnng!

Devon deixou cair à bandeja de prata esterlina (partes do bolo de bodas se pulverizaram por todos os lados), deu um passo para o Kurt, afinou sua pontaria e...

—Nicky, ao chão! —bramou o rei. Seu filho se deixou cair como uma rocha e rodou afastando-se. Não havia forma de interpretar mal essa ordem. Inclusive Christina quase se golpeia com os tijolos.

Ziiiiing, Zuuump!

O rei olhou fixamente os dois pequenos e emplumados dardos vermelhos cravados em seu peito e lentamente, caiu ao chão.

Houve outro bonnnnnnnng! E logo Devon deixou cair à pistola e aferrou seu pulso. Kurt estava parado atrás dele, cambaleando-se. Sangue brotava de sua orelha e gotejava por sua mandíbula.

—Não… tão… rápido sem sua zarabatana, né?—murmurou entre dentes, então seus olhos ficaram brancos e caiu em cima da mesa.

—Você… tem que vir comigo, Príncipe Nicholas. - Disse Devon, forçando um espantoso sorriso. Teve o descaramento de estirar a mão para o moço agachado— Seu lugar está conosco.

Christina abriu a boca, e se viu si mesmo empurrada para trás, e de lado. De repente, era muito difícil ver. David se tinha plantado diretamente diante dela.

—Sai daqui, traidor pedaço de merda - ordenou friamente— Se sair agora, possivelmente nossa equipe de segurança não te voe a cabeça.

—Nós senhor? —Perguntou Nicholas, endireitando-se lentamente. Via-se muito pálido, e muito cordial.

—A família de sua mãe.

—Domonov. - vaiou Christina.

—Sim. — disse Devon, olhando apenas ao resto— Duas vezes eliminado. Uma pelo lado de minha mãe. A rainha está morta, larga vida ao legítimo rei.

Então olhou ao Nicholas, o que foi de algum jeito mais arrepiante que o disparo, com total adoração.

“Muito rápido”, pensou Christina. Estava muito impressionada pela violência acontecida para sentir-se horrorizada. Isso viria depois. Tudo acontecia muito rápido. Diabos. Fazia só trinta segundos que tinha disparado sua arma! Isto é uma loucura, isto é muito fácil para ele, isto é demencial, isto é…

—Meu pai é o verdadeiro rei. - disse Nicholas, muito jovem ainda para saber que era inútil raciocinar com um fanático— Você está… você está equivocado. Seu plano não funcionará. E se não fosse meu pai, se não fosse o rei, seria…

Chris tratou de empurrar ao David a um lado. Era como tratar de derrubar uma enorme árvore.

—Devon! —espetou Chris. Sua voz soou como um chicote. O homem realmente se sacudiu pelo som— Nunca sairá daqui. Fodeu tudo, está acabado. Você está acabado. Faz algo útil, e nos diga que há nos dardos. E que Deus te ajude, QUE DEUS TE AJUDE, se o Rei estiver morto.

—Se o príncipe Nicholas me acompanhar, ensinarei-lhe seu verdadeiro…

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Christina, David, e Devon, surpreendidos igualmente, olharam. Durante sua breve conversa Nicholas se havia arrastado lentamente debaixo da mesa, encontrou a arma do Kurt, arrastou-a consigo, acomodou-se, apontou e se endireitou.

—Disparou em meu pai. - disse, e embora parecesse um menino que tinha um mau dia na escola, soava enfurecido— Disparou em meu rei e em meu soberano, e feriu meu amigo. Assim estou pensando que o justo seria que eu te disparasse. Exceto estes não são dardos. O Tenente Carlson tem uma Beretta nove milímetros e estas balas deixam grandes buracos. Sei, ele me deixa que o acompanhe à prática. Está bem, isso acredito. - E sorriu como Alexander. Como Edward I, como Enrique VIII, como seu antepassado, Kaarl Baranov, que se havia se enfurecido um dia e ganhado um completo país— Não o sentirá durante muito tempo.

—Sua Alte…

E logo, o desconcertante som final, um amortecido gump! A Princesa Alexandria tirou os sapatos e se movia sigilosamente como um gato vários pés atrás de seu primo longínquo, recolhendo uma cadeira do banquete em seu caminho. Enquanto seu irmão distraía ao traidor que lhe tinha disparado a seu pai, ela abanou a cadeira, pondo cada grama de seu metro cinqüenta nesse movimento.

Devon realmente não caiu, mas bem voou. Não foi como nos filmes. De fato, o braço do Alex suportou a descarga do golpe e lhe levou vários dias poder levantar o pulso por cima da altura de seu ombro. A cadeira não se fez pedacinhos. Entretanto, o crânio do Devon sim.

Alexandria correu a toda velocidade para a porta, atirou dela, abriu-a, e gritou no claro ar primaveril:

—Alarmeeeeeeeeeeeeeeeeee!

A sua vez, David tinha alcançado a seu pai, tinha-lhe removido os dardos e o estava examinando. Christina se inclinou e descansou sua cabeça no largo peito do rei.

—Estes são tranqüilizantes para animais. - disse David, desconcertado— Não estou exatamente seguro de que tipo, mas foram suficientes para tombá-lo, ou…

—Ele não está… seu coração me ajude. - Ela se colocou tal e como tinha aprendido como empregada da Linha de Cruzeiros Carnaval começou a realizar uma massagem de reanimação. Um, dois, três, quatro e— Respira!

David se ajoelhou frente ao rosto de seu pai, relaxou sua boca aberta e exalou um rápido fôlego.

Um, dois, três e quatro… - Respira!

Outro fôlego.

A maior parte da concentração de Christina estava no rei, mas levemente, no longínquo bordo de sua consciência, ouviu a Alexandria dizer:

—Me dê a arma, Nicky, tudo bem?

Um, dois, três e quatro - Respira! E que alguém revise o peito de Kurt, esse idiota lhe deixou um grande buraco.

Ela ouviu o clique quando Nicky fez saltar o seguro, expulsou a bala. Ouviu-lhe soltar a arma na mão de sua irmã. Ouviu Alex dizer…

—OH, Nicky… Nick…

De repente, a habitação estava cheia de todo tipo de segurança, todos os meninos que tinham sido encomendados ao avião. E por que não? Era sua lua de mel. Ninguém tinha tentado algo parecido em quatro gerações. E Kurt estava armado. Eles eram um pequeno grupo, tinham pensado que estavam seguros.

E Devon era, um membro da família.

—Sua Alteza, a ambulância vem a caminho. Permita-me…

—Deixem… - Uns, dois, três—… me —quatro e— em paz! Respira!

Nicholas e Alex estavam sobre eles, olhando-os diretamente, com seus azuis olhos Baranov muito abertos.

—Disparou a papai. - dizia Nicholas, pressionando seu rosto no abdômen do Alex— Disparou-lhe para me pegar!

—Pagou por isso Nicky. - lhe disse Alex, e embora estivesse totalmente pálida, suas palavras eram frias, Christina, pondo grande esforço em sua massagem de reanimação, estremeceu-se.

—Qualquer que dita aproximar-se a você, pode lhe dar a boas-vindas a uma fratura de crânio também.

 

—É assim, Sra. Baranov… Sua Alteza, umm. Ambas as Altezas… - O doutor, apesar de estar no mais alto de seu campo, nunca antes tinha conhecido a um membro da Família Real. Nesse momento, a habitação privada estava cheia deles. Alexander e Kathryn tinham chegado justo depois do resto do grupo.

O rosto do Príncipe Alex estava cinza, mas não foi o suficiente para evitar que saísse com…

—Dormir até tarde por um dia… acontecem seqüestros e atentados… Que raios está passando?

—Agora não, Alex. - espetou David.

—Só diga-o sem rodeios, Dr. - disse a Princesa Christina

—Bom, o Príncipe David estava certo, o seqüestrador usou tranqüilizadores para animais. Uma combinação de hidrato de cloral e ketamina. Parece que tem contatos com o Zoológico do Juneau.

—Sim, outro parente longínquo de nossa mãe. - disse Alexandria amargamente— Algum veterinário ou algo assim. E ela era realmente útil quando se tratava de confabulações idiotas… Seu traseiro está na prisão agora, verdade?

Carol, a chefe da equipe de segurança, assentia em forma ausente enquanto escutava pelos fones. A equipe de segurança estava nervosa, destroçada. As recriminações poderiam vir mais tarde, mas por agora, ninguém os incomodava.

—Er… sim. - pigarreou o doutor— Os tranqüilizadores por si mesmos não tivessem ferido ao Príncipe Nicholas, só lhe teriam facilitado… umm transportá-lo.

—Sem mencionar, que não se supunha que ferissem ninguém, não iriam matar a ninguém. —disse Carol, pensando em voz alta— Por que…

—Porque a pena para o homicídio neste país é a decapitação. Essa lei esteve nos livros durante ao menos duzentos anos. - disse o Príncipe David com ênfase— Devon não queria arriscar tanto.

—Fascinante. - disse Chris impaciente— Então por que o rei segue inconsciente?

—Sua Majestade teve uma severa reação alérgica ao hidrato de cloral. Está em coma.

Um silêncio sepulcral, que foi quebrado por um som estrangulado do David.

—Por… por quanto tempo?

O Dr. Sarett sacudiu a cabeça.

—Poderia recuperar a consciência amanhã. Ou dentro de um mês. Ou no próximo ano. Ou… - deu de ombros impotentemente— Está com respiração assistida por agora, mas temos que esperar a que respire por si mesmo em… quero dizer… algum dia.

Justo quando Christina pensou que tinha assimilado a magnitude das horríveis notícias, a dimensão do que estava passando, o Dr. Sarett voltava a golpear sua andada.

Ao princípio, ela pensou que tinha deixado cair sua pluma e a estava procurando no chão. Mas então, ele estava… o estava fazendo? Estava-o. Inclinando-se em reverencia... A ela, ao David. E Nicky, Alexandria, Alex, Kathryn e toda a equipe de segurança também lhes estavam reverenciando. A eles. A ela.

—longa vida ao rei e à rainha. - disse o Dr. Sarett.

—OH, merda! —disse a rainha.

 

‘Uma jaula de ouro segue sendo uma jaula’

         Rei David I

‘OH, vá chorar em uma bolsa de dinheiro’

               Rainha Christina

 

“Extraído da rainha dos Limites do Mundo”, pelo Edmund Dante III, © 2089, Publicações Harper Zebra e Schuster.

Princesa por uma noite; rainha por... quem sabe? O Palácio Sitka se cambaleava do ataque, e não só porque o rei estava gravemente doente. Embora os membros da Família Real sentissem um grande carinho uns por outros, ninguém acreditava que o rei David estivesse preparado. Sem mencionar à rainha Christina.

Não só isso, mas sim o parentesco do príncipe Nicholas foi finalmente posto em dúvida. O Rei Alexander fazia o possível para proteger a seu filho da calúnia e a falação, mas agora a lebre, por dizer de alguma forma, tinha saltado. Ao dia seguinte, o título do jornal do Juneau dizia TESTE DE DNA, REI David?

Ao final de dentro e de fora de palácio, as recriminações voaram rápido e longe. Como tinha podido um Domonov ser capaz de infligir tal dano tão de repente? Desde quando existia a trama e quando se pôs em evidência? Ainda pior, havia algo mais que não se descoberto?

Muito, muito pior: sobreviveria o rei Alexander?

Estas perguntas levaram a Família Real a sua primeira crise da escandalosa morte da Rainha Desse. Embora, alguns historiadores afirmam, que essa última crise era o resultado de uma precedente... a forma em que a esterilidade é às vezes o resultado, anos mais tarde, do sarampo.

—É por minha culpa. - disse Jenny brandamente.

—Minha querida Jennifer, não seja idiota, é minha culpa. - disse Edmund.

—Não sejam idiotas os dois. - disse Nicholas. Estavam no escritório do rei na ala norte do edifício. Reuniram-se todos aí, realeza e serventes, para acomodar-se em uma habitação onde a personalidade do rei estava estampada. Havia animais mortos cobrindo virtualmente cada metro quadrado de parede. Era relaxante embora mórbido— É minha culpa. Ia atrás de mim. Feriu papai por minha culpa.

—É por minha culpa. - disse Kurt— Um farmacêutico me deixou fora de combate com uma bandeja, maldito seja. A alguém incomoda se me dou um tiro na cabeça?

—O que te irrita mais? O do farmacêutico ou o da bandeja? — perguntou a Princesa Alexandria. Conseguiu a sombra de um sorriso por seus esforços.

—A culpa é minha. - disse o rei David— Deveria ter empurrado a papai fora da trajetória.

—Estava protegendo à rainha. - particularizou Edmund— Estava ocupado.

—É minha culpa. - disse Carol, a chefa de segurança— Distraíram-nos muito facilmente! Deveria ter deixado mais homens atrás.

—Hei, o tipo tinha uma bandeja. - disse Kurt, desabando-se ao final do sofá de forma que seus ombros desenharam uma C— Não pode fazer muito contra uma bandeja.

—A culpa é toda nossa… Deveríamos ter chutado o traseiro do Devon… Mas escolhemos dormir.

Kathryn, sentada junto a seu irmão assentiu. —Alex tem razão. Se tivéssemos estado ali, teria tido mais ajuda. Teríamos chutado o traseiro de Devon tão alto que as pessoas teriam pensado que tinha duas cabeças. Mas dormimos até tarde.

Todo mundo ficou olhando a Kathryn, assombrados por tão longo discurso, e depois olharam à Princesa Alexandria, que ficou olhando a sua vez. —O que? Não é minha culpa. Sou a que se encarregou do mau.

—Falando de tudo isto, —disse o rei David brandamente— como o leva Devon?

—Morto, Sua Majestade - disse Carol, sem levantar a vista de seu Palm Pilot, através da qual passava uma corrente contínua de dados— Quer enviar flores?

David soprou.

—Me desculpem, mas onde está Sua Majestade a rainha? —perguntou Edmund— Não deveria estar aqui conosco?

—Assando. - disse David ausente. Retorceu-se na cadeira de seu pai.

Alexandria riu. — Parece ricitos de ouro, David. —Este é muito pequeno… este é muito grande… Sente-se de uma vez, está-me pondo nervosa.

—Esta cadeira é muito grande. - disse David, e ninguém fez comentários.

Kathryn rompeu o silêncio - O que está assando Chris?

—Disse que um bolo.

—Que tipo de bolo?

—Jesus, Kath! Quase nunca fala, e quando por fim o faz é para ver que pode comer. Pode deixar a seu apetite descansar cinco segundos? — A Princesa Alex lhe deu uma palmada justo sobre o cotovelo. A repentina saída de tom fez que alguns ficassem olhando.

Kathryn olhou ao seu redor procurando algo que jogar, deu-se por vencida, e disse com uma vozinha… - É uma crise nacional. Tenho que manter minha fortaleza. - Ante a expressão de outros, acrescentou— Bom, em minha cabeça soava muito mais divertido.

A porta se abriu e entrou Christina levando um bolo fumegante com a ajuda de duas luvas de forno com forma de salmões rosa.

—OH bem, a nova encarregada de bufe está aqui. - disse Alexandria com sarcasmo.

O príncipe Alex esclareceu a garganta.

—Alguém está sensível… Hoje é aceitável… Tranqüilo: tome com calma.

Christina pôs o bolo na metade da mesa de conferências e tirou uma faca de um de seus bolsos traseiros e um punhado de guardanapos do outro, que pôs junto ao bolo.

Edmund e Jenny, certamente, levantaram-se no momento que a rainha entrou. —Boa tarde, Sua Majestade.

—Olá, Jenny. Eds. Bem-vindos. Sinto que se acabassem suas férias.

—Isto ocorreu por nossa culpa. - começou Jenny. Seus adoráveis olhos estavam avermelhados. E não eram os únicos— Estou segura de que lhe tivesse reconhecido... ou ao menos o tivesse encontrado em nossa base de dados... Conheço a maioria dos Domonovs de vista... ao menos poderia me haver interposto no caminho das flechas...

—Sim claro, seus trinta e seis quilogramas teriam marcado uma grande diferencia. Escutem-me todos. A culpa é um bolo.

—A culpa cheira como as amoras? —perguntou Alexandria.

Ela ignorou a interrupção. —É um bolo. Todo mundo toma uma porção. Assim aqui vamos. A primeira porção para mim... Posso ser nova neste jogo mas cozinho desde os oito anos. Deveria ter sido capaz de descobrir a um fornecedor de bufe falso. Não estava simplesmente nervoso por que ia fazer uma suja façanha. Estava nervoso porque não sabia nada de comida e temia que nós, eu, perguntássemos algo. Em retrospectiva é fácil— Cortou a se mesma uma pequena porção; a habitação se encheu com o aroma da doce casca e a fruta quente. Tomou a porção com um guardanapo.

—Carol, à frente e ao centro. - Carol soltou seu Palm e avançou lentamente— Não é necessário dizer que segurança se esteve fazendo algumas pergunta muito importantes desde que tudo isto aconteceu.

—Sua Majestade, posso-lhe assegurar, não voltará para…

—Sim, sim. Coma seu bolo. Alex.

—Qual?

—Ambos. Um para você, por dormir até tarde... —Cortou uma porção e a deu ao príncipe— Como se isso fosse um grande crime, mas todos estamos determinados a levar nossa parte de culpa não? E você, Srta. Paga de Si mesmo, não podia ter golpeado ao mau uns quarenta segundos antes?

—Desprezo-a. - disse a princesa, mas tomou sua porção do bolo.

—Edmund e Jenny... por seguir ordens e tomar-se por uma vez férias em suas tristes, tristes vidas...

—Kathryn... e não se atreva a jogá-lo... e Nicky...

—Porque eles acreditam que meu papai não é meu… já sabe.

—Correto. E porque está determinado a compartilhar parte da culpa. Mas Nick, só te estou dando isto porque se voltaria louco se não o fizesse. Realmente não é…

—Não importa. - disse ele suspirando e comeu sua parte do bolo, um menino nem sequer o bastante grande para barbear-se ou para permanecer levantado mais tarde que as dez.

—Kurt...

—Odeio as amoras. - grunhiu, mas se adiantou.

—Não acredito que deva ter uma porção. - propôs Alexandria com os dentes azuis.

—Pode apostar seu traseiro a que deveria. Esse tipo se moveu por todo o lugar e não o vi até que o rei caiu. Deveria havê-lo feito melhor.

—Onde está minha porção? —perguntou David brandamente.

—OH, você já tem suficiente castigo. - disse Christina com humor, olhando-o por cima de seu ombro— Rei David. Ou príncipe regente, ou o que queira que tenhamos que o chamar. Não o acredita assim? Além disso, não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Decidiu se pôr diante de mim, e seu pai pagou por isso.

—Mmm

—Bem, - disse ela, deixando a faca perto do prato quase vazio— agora todos temos nossa parte de culpa. Coma-lhes cada bocado. Nham, nham. Então talvez possamos deixar atrás toda esta merda e nos centrar. Quero dizer, que mais dá quem estava onde, quem foi golpeado, quem agarrou uma cadeira, quem ficou frente a alguém, quem estava assustado ou quem recebeu um disparo. Temos que enfrentar ao agora. Basta de conter a respiração. É aborrecido e não temos tempo.

Silêncio, quebrado só pelo ruído de mastigar.

—Bolo de amoras da culpa. - disse Alexander por fim—… Estaria fantástico com sorvete… Uma casca tão tenra.

—Bem, de acordo. A próxima vez. - murmurou Chris.

Houve um estrépito quando Kathryn deixou cair seu prato vazio com bastante força. —Ele tem razão. A culpa tem uma casca muito tenra. - comentou, lambendo com a língua um pouco de amora de seu lábio.

—Obrigada. Agora… o que é o seguinte?

Edmund soltou seu guardanapo e enlaçou as mãos em suas costas. Comunicou suas impressões à rainha. Este foi um costume, que se estabeleceria o primeiro dia de seu reinado, e que continuaria durante décadas.

—O estado do rei é sério, mas estável. Sem mudanças quanto a seu estado de coma. O Parlamento se reúne em umas poucas horas para confirmar ao David como regente, mas é uma formalidade.

—O que acontece ao mau? Devon Domonov?

—Em realidade seu sobrenome é Stephenson. - disse Jenny— É um primo longínquo, assim que seu sobrenome é diferente.

—OH, claro, assim é como nos enganou… vá mestre do crime. - soltou Christina— Não me importa qual é seu sobrenome. Está no cárcere, no hospital, ou onde?

—Morreu às 10h48min. Trauma craneoencefálico.

Todo mundo olhou à Princesa Alex, que devolveu o olhar.

—Isto apresenta... um pequeno problema. - começou a dizer Edmund com delicadeza.

—Que problema? —Disse David com aspereza— Defendeu a seu rei e a seu príncipe. Estava pensando em lhe dar um milhar de medalhas.

—Esquece-o. - disse ela com a boca cheia— Ativariam todos os detectores de metais quando for às compras.

—Sim, mas... os motivos de Sua Alteza poderiam questionar-se.

—Motivo? —Perguntou Christina— Eu não… o que? O que é o que acontece? O que sabe todo mundo que eu não sei?

—Tenho um mestrado em Física. - explicou Alex— Sabia que a cadeira não se quebraria.

Ante as expressões de Christina e Nicky, se explicou. —As cadeiras nunca se rompem espetacularmente como em televisão. A maioria delas… em particular as que temos por aqui, são feitas de madeira dura. Muito resistentes. É como golpear a alguém com uma âncora. Sabe que a âncora não vai se quebrar, mas está seguro de que vai se produzir dano. Fiz-o. Sabia.

—Então, - continuou Edmund— os cargos deveriam ser…

—De maneira nenhuma. - disse David, e pareceu pela primeira vez que a cadeira de seu pai lhe ajustava— Minha irmã atuou em defesa da Família Real e, por extensão, de seu país. O fato de que a arma mais próxima resultasse ser letal, e ela sabia, é irrelevante para este rei, e imagino, esta família. Além disso, me alegro de que o traidor tenha morrido, se não o houvesse feito ela, haveria-o feito eu. Nada de cargos.

Edmund inclinou sua cabeça.

—Como deseja, Majestade.

Legal, pensou Christina.

—Obrigada. - disse a Princesa Alex brandamente.

—Não… graças a você. Alcança-me essa última parte de bolo, Chris?

Sem pronunciar palavra, deu-lhe a última parte a seu marido.

—O que é o seguinte? —perguntou com a boca cheia.

—O Parlamento. - disse Edmund e Chris dissimulou um calafrio.

 

“Extraído da rainha dos Confins do Mundo”, por Edmund Dante III, © 2089, Publicações Harper Zebra and Schuster.

A diferença da maioria das atuais famílias reais européias, a Família Real da Alaska sim tinha certo poder comparada com o cidadão comum. O rei ou rainha podia declarar ou finalizar uma guerra, desautorizar as forças armadas, declarar estados de emergência, conceder o perdão, assinar condenações de morte (embora a última vez que isto se havia fato foi em 1897, quando Jonas Weyers II foi decapitado por afogar ao príncipe Sergei Baranov), doar grandes somas de dinheiro às obras de caridade apropriadas e assinar leis. O Parlamento podia e fazia todas essas coisas, mas eram dirigidas pelo monarca embora só se tratasse de um ato de cortesia.

Anteriores reis e rainhas tinham oscilado entre uma total indiferença para o governo da nação até tentar dirigir o último detalhe.

O rei Alexander II era conhecido por seu estilo de governo informal, mas era cuidadoso ao ler cada lei, cada proposta, cada concessão e cada declaração. Nunca punha o selo real em algo que não compreendesse perfeitamente. O Parlamento, certamente, estava acostumado a isto.

É obvio, o rei Alexander ainda estava vivo, tecnicamente, assim que seu filho David, e sua nora, Christina, seriam realmente CO-regentes, com todo o poder que ditos títulos sugeriam.

E ninguém sabia qual seria o estilo dos novos regentes.

Christina tinha posto novamente seu vestido de noiva. —É perfeito,lhe tinha assegurado Jenny, brincando com sua capa. É a abertura do Parlamento, e supõe uma ocasião especial. Também é uma... uma ocasião muito significativa. E não é um vestido de noiva tradicional, é mais de estilo formal. Mostrará seu respeito, mas também abrirá seus olhos e lhes recordará que é a rainha.

—Magnífico. Porque quero que abram os olhos.

—Deve querê-lo de verdade. - lhe disse Edmund brandamente— É importante estabelecer a capacidade do David e sua no trono.

—Minha e de David? Que aconteceu o de “é membro automático da realeza quando se prende a um deles”?

—Chama-se subir as apostas. - replicou Edmund, lhe dando um suave empurrão.

Começou a andar pelo corredor e recordou o dia de suas bodas. Mas isto assustava muito mais. Em realidade, hoje esperavam que fizesse algo.

David já se encontrava sentado no trono, na cabeceira da habitação. Normalmente teriam entrado juntos, mas ela se enganchou a capa na cozinha oeste, ocasionando histeria no pessoal de cozinha e o da casa. Havia-se sentido inclinada a desfazer-se da capa, mas ninguém queria ouvir falar a respeito.

Caminhou através do que pareceram um milhar de parlamentares e se sentou cuidadosamente no trono,o trono! O trono!— à direita do David.

—Sinto chegar tarde, —disse pela comissura da boca - um problema com a capa.

—Isso ouvi. - murmurou em resposta. Estava mortalmente pálido, mas as arrumou para lhe dedicar um pequeno sorriso— Obrigado por aparecer. Apostei com Edmund mil dólares a que a encontraríamos nos portos, procurando o próximo navio para sair daqui.

—Não me dê idéias.

—Damas e cavalheiros - anunciou alguém a quem ela não podia ver— Suas majestades, o rei David e a rainha Christina. Por favor, levantem-se para a 142 abertura do Parlamento do Alaska.

Ela começou a levantar-se, mas David lhe agarrou por braço, e permaneceu sentada. Todo mundo ficou de pé e fez uma reverência.

—Obrigada, - disse David.

—De nada - respondeu ela.

—Não falava com você. - murmurou. Então, mais forte— Podem voltar para seus assentos.

Sentaram-se, murmurando como um grande bando de corvos. Bem pensado, a maioria se vestia de negro. Ela mesma se sentia uma completa fraude, e por razões mais que óbvias. Sentia que deveria vestir tons sombrios em lugar de cores vivas, tendo em conta que Al estava muito doente, mas por outro lado, não estava morto, ainda, assim que o luto era inapropriado.

E falando de inapropriado, que fazia ela sentada em um trono?

—... este Parlamento, neste dia quatro de abril de dois mil e quatro, aceita ao David e Christina Baranov como CO-regentes do Alaska. Seja registrado.

—Obrigado, - disse David. Christina estava assombrada de que ele fosse capaz de falar. Estava assombrada de não ter molhado sua capa— Por favor, tenham em conta que nós esperamos que esta situação seja temporária e que só assumiremos estas obrigações até que nosso pai tenha recuperado a saúde.

Esse deve ser o Nós Real, pensou ela. Nota para mim mesma, nunca me referirei a mim como “nós”. Soa estúpido. Não quando David o faz. Ele faz que soe bem. Mas eu soaria como uma atrasada. Além disso, todo mundo riria e quem poderia lhes culpar?

—Assim fica registrado, Senhor. Podemos proceder com a agenda?

—Prossigamos.

Mais tarde Christina resumiria a sessão do Parlamento em uma só frase: bla, bla, bla. Ficou interessante quando falaram da trama Domonov, mas resultou que, como Devon estava morto, o resto dos implicados estava cantando para conseguir uma redução de suas condenações.

Prendeu-se a quatro pessoas. O veterinário do Juneau Zoológico tinha subministrado os tranqüilizantes; o supervisor do veterinário tinha assinado a autorização para isso, um dos acusados tinha levado ao Devon ao aeroporto e o tinha estado esperando para tirá-lo, ele e ao Nicky, e é obvio, o próprio Devon tinha iniciado o ataque. Não houve menção a respeito de levantar cargos contra a princesa Alexandria.

Quando se mencionou a possível decapitação dos conspiradores, David postergou a questão para a próxima sessão.

Quando se fez referência à questão da análise de DNA para o Nicholas, Christina disse, antes que David pudesse abrir a boca - O Príncipe Nicholas é o filho do rei e quinto na linha de sucessão. Ponto final.

—Quarto. - tossiu David em seu punho.

—Correto. Quarto.

Houve uma larga pausa, seguida da voz de alguém fora do alcance de sua vista que disse, - Registrado.

Christina estava muito nervosa para adormecer, o que era uma tortura dado o aborrecido da situação. Ela nem sequer via a CNN, pelo amor de Deus; o que estava fazendo aí? Mas seu aborrecimento desapareceu quando David disse—Tenho um assunto mais que discutir esta tarde se me permitirem.

Divórcio pensou ela. Teve suficiente. Levei-o ao limite. Sabia que ocorreria, mas pensei que duraríamos uma semana, ao menos.

—Prossiga, Senhor.

—Meu pai nunca quis que eu reinasse no Alaska sozinho... nem sequer com uma rainha. Regente - corrigiu.

Que?

—Em realidade, o queria que meus irmãos e irmãs governassem como reis e rainhas, com minha rainha e eu como reis supremos sobre eles. Dessa forma poderíamos compartilhar a carga da coroa, e em caso de que algo acontecesse a mim ou a minha rainha, a sucessão teria lugar com um mínimo de comoção.

Interessante, pensou Christina, mas inútil. A ordem sucessória parece muito claro. Mas se for o que Al queria...

—Sua Majestade sugere que isso seja estabelecido?

—Sugiro que o deixemos assim de momento e o pensemos para a próxima sessão. Considerarei seus argumentos, damas e cavalheiros, mas devo estimar também os desejos de meu pai.

Mas, como está acostumado a acontecer, foi tudo.

 

Realmente acreditava papai toda esse merda do Rei Supremo? —Disse Alexander, esperando-os fora do salão— Ou estão bêbados de novo?

Christina estava assombrada. Nada de haiku! Isso fez que o pesadelo parecesse, sinistramente mais real.

—Já o verá. Estão outros preparados?

—Preparados, senhor.

—O que é o que ocorre? —perguntou Christina, recolhendo sua saia e apressando-se para manter-se ao passo das largas passo longos do David e Alexander.

—Meu pai deixou uma gravação. Deixou instruções para o herdeiro do trono vê-la antes que todos outros o fizessem. Vamos fazer agora. Não houve tempo, - acrescentou a modo de desculpa— para que o resto a visse antes que a sessão do Parlamento começasse.

—OH. É, então, privada? Talvez algo entre seus irmãos e irmãs? Porque não quero interf…

Ele a agarrou pelo cotovelo. Sua mão era cálida e reconfortante. —Agora é parte da família, Chris. Ele queria… quer… que você também a veja.

Reuniram-se novamente no escritório do rei: toda a Família Real, Jennifer e Edmund. Kurt estava desaparecido, vagando pelos arredores em busca de um tipo mau - qualquer tipo mau - para lhe disparar. Deu a alta a si mesmo no hospital AMA, e ninguém tinha discutido com ele.

—Bonito trabalho no Parlamento hoje. - Disse a princesa Alex a modo de saudação, Kathryn assentiu e lhe sorriu. Christina sabia quão raro era isso.

—Obrigado. - replicou David.

—Estava falando com sua esposa. A verdade, Chris, esperava um desvanecimento ou uma sacanagem ou algo similar. Felicidades por não se humilhar frente ao governo da nação.

—Estava tão petrificada, que esqueci a piada que ia dizer. - admitiu— Deixa lugar Nicky, os pés me estão matando.

Nicky se deslocou até o final do sofá e ela se sentou com um suspiro tirando-os sapatos.

Os olhos do Jenny se entrecerrarão com suspeita. —Não são esses os sapatos de suas bodas?

—OH, quem o ia notar? —soltou— Temos uma espécie de crise nacional, se por acaso não se deste conta. Ninguém está interessado em meus pés.

—Eu estou interessado em seus pés. - brincou Nicholas.

—Sua Majestade, não é o momento…

—Silêncio. - ordenou David— Edmund pôs a gravação.

A tela de setenta e duas polegadas se iluminou, mostrando ao Rei Al sentado justo onde agora estava David. Vestia uma camisa verde solta com os punhos desfeitos e não se barbeou em três dias. Bocejou e depois sorriu à câmara, então Christina viu a Alexandria cobri os olhos com as mãos durante um instante, como se não pudesse suportar vê-lo cordato e são.

—Olá, filho. Olá, meninos. Se estão vendo isto, estou de merda até o pescoço. Ou sou pasto de vermes, e espero que não me tenham enterrado, incineração recordam-no?Ou ocorreu algo e David dirige agora o país.

—Não passa nada. Não me importa ter terminado a dança do rei, embora me tivesse gostado de passar mais tempo com vocês. E Christina, — acrescentou. Tirou uma pequena faca de seu bolso, tirou-lhe a capa protetora e começou a limpar as unhas— Chris, teria gostado de ver como se acostumava a ser uma princesa. Agora será a rainha,ou rainha consorte, e certamente está bastante desgostada comigo. Bem, ninguém está realmente preparado para receber a coroa... nem sequer os que estão destinados a isso. Mas, ao menos neste país, nunca vai parar às mãos de alguém que não a mereça.

—O que me leva a medula da questão. Seguro que me recordam lhes lendo as Crônicas da Narnia quando foram pequenos. Adorava esses livros. O que mais eu gostava deles, além dos animais falantes e o leão, era o fato de que Peter, o rei da Narnia, era o Rei Supremo sobre seu irmão e suas irmãs. E que eles se ajudavam uns aos outros para dirigir Narnia. Se Peter tinha que ir ao norte a chutar algum traseiro, os gigantes viviam no norte, seguro que o recordam, seu irmão e suas irmãs permaneciam no CairParavel para que as pessoas não ficassem nervosas. Em realidade, o rei Peter não estava essa vez em que Narnia foi atacada pelos Calormenes, mas o Rei Edmund e a Rainha Ana dirigiram a situação.

—Recordam a história européia...

—Fazemos. —disse a princesa Alex— Não acreditei que o faria.

Kathryn riu, e lhe deu uma ligeira cotovelada.

—… quando o rei Ricardo foi às cruzadas esteve perto de não ter um trono ao que retornar. Não quero que isso passe e não quero que a carga de dirigir o reino caia sobre David e Christina. Não tenho nada contra Chris ou David… é apenas que todos vocês deveriam ser capazes de compartilhar o trabalho. Não se trata apenas de inaugurações e cortar fitas de seda, a esta altura seguro que o terão descoberto.

—Não estou assinando nada, não faço disto uma ordem, embora legalmente não teriam que acatá-la, estou caput e David é o rei, mas quero que o considerem. Todos são Baranovs, o que significa que são rápidos, inteligentes, incansáveis e leais. Ajudem uns aos outros a fazer do Alaska um grande país no mundo.

—Isto é tudo, exceto… David pode fazê-lo. Em realidade nasceu para isso, e escolheu à mulher adequada… Alexandria usa esse grande cérebro para ajudar a seu irmão em lugar de o irritar vinte e quatro horas ao dia os sete dias da semana. Alexander, os dias de dormir até tarde se acabaram por um tempo. Também, filho, seriamente, já basta de poesia. Kathryn sei que no mais profundo de você, você gosta de sua nova cunhada. Considera demonstrá-lo de vez em quando.

—E Nicky, sei que vai odiar isto, mas ainda é meu pequeno. Atualizo a fita cada seis meses mais ou menos, o que significa que ainda é um menino. Seja um menino um pouco mais, por seu velho pai. - Piscou os olhos à câmara— Edmund, Jenn, sei que os dois revoam como malditas galinhas poedeiras... Não tenho que lhes pedir que ajudem aos meninos a seguir adiante, mas lhes pedirei que não os pressionem. —Fez uma pausa, e soltou a faca. —Certo, terminei. Preparado, amos-os a todos. Agora, de volta ao trabalho.

A tela se voltou negra.

 

—Vaia dia. - suspirou Christina entrando em sua habitação e arrojando sua capa sobre a cadeira da esquina.

Alguém tinha baixado a intensidade das luzes, fazia a cama, posto música suave no estéreo e passado o aspirador. Era como viver em um hotel muito bonito. Cada dia. Por favor! O hospital, depois o Parlamento, e mais tarde a gravação do pai... O dia tinha sido comprido e deprimente, como lua de mel, fedia.

E era sua lua de mel! Deveria estar nua todo o tempo, preferentemente experimentando com azeite de sabores e nata batida, mas nãooo, ela tinha que abrir a sessão do Parlamento, pelo amor de Deus, e teria sido injusto atacar ao David com isso, sem mencionar o fato de que provavelmente ele tampouco estava de humor, e… voltou-se e ele estava ali, justo ali, e de repente sua boca estava sobre a dela, suas mãos em seu cabelo, lhe tirando as forquilhas, massageando seu pescoço e à medida que a tensão abandonava seus músculos ela gemeu em sua boca.

Cambalearam-se para a cama, com as mãos por todo o corpo do outro, atirando, rasgando, arrancando e lhe escutou grunhir, "Malditos botões," enquanto caía na cama sobre ela, as mãos sob sua saia, atirando, e sua roupa interior voou pelo ar…

— Pernas nuas? Pernas nuas e sapatos de dez mil dólares?

—Como se a alguém se importasse. - grunhiu ela, mordiscando sua garganta ali onde podia alcançar mais à frente do pescoço de sua camisa. Baixou as mãos e brigou com suas calças, abrindo a zíper e tomando em suas mãos seu quente e duro membro.

—Ummmm. - disse, ou um pouco parecido. Então sua saia foi levantada até o queixo e ele se afundou nela. Sentiu-o apertado e um pouco doloroso, mas doce ao mesmo tempo e suspirou.

—Sinto-o. - murmurou em seu ouvido— Não posso… necessito-a… a próxima vez…

—Se cale e fode-me. - lhe replicou ela tão educadamente como pôde nessas circunstâncias.

Encantado, ele obedeceu. Suas mãos em seus ombros, seu rosto contra seu pescoço, ele empurrou uma e outra vez e o travesseiro rangia acompanhando suas investidas. Ela podia sentir sua necessidade, sua urgência, e enlaçou as pernas em seu traseiro - a melhor maneira de alcançar mais profundidade, querido-, e em um momento sua boca esteve sobre a sua e ela a chupou, então ele gemeu grosseiramente, e de repente tinha acabado.

—OH, Deus. - gemeu ele, e caiu sobre ela.

—Ao Horrance não vai gostar do que lhe há feito ao seu vestido.

—É seu vestido.

—Não o ouvirá dizer a ele.—disse ela, e lhe beijou a orelha.

Afastou-a brandamente e se apoiou sobre um cotovelo.

—Eu o…

—Não se atreva a se desculpar. Agora estamos casados.

Sorriu e riscou a curva de seus lábios com as pontas dos dedos. —Não me desculpava por te fazer amor. O que sinto é que fosse tão rápido. Sei que não chegaste. É apenas… estive pensando nisto todo o dia, e a pressão se acumulava, estava tão formosa que não pude… não pude esperar mais.

—Isso está muito bem, porque eu estava esperando para saltar sobre você. E o rei, bendito seja, não estava aqui para nos deter. - Se deu conta do que havia dito e acrescentou cuidadosamente— Não queria dizer que não penso em você como rei, porque eu…

—Não, tem razão. O rei não está aqui para nos deter. Eu não conhecia bem a minha mãe.

—Certo - disse ela, porque tinha que dizer algo. E por certo… O que tem que ver sua mãe em tudo isto?

—Ela não era… uma mãe muito envolta. Assim quando morreu, apenas o senti. Mas isto… meu pai…

Então se inclinou, pressionou seu rosto sobre o pescoço dela e soluçou. Sentiu-se afligida, por ambas, sua falta de tato e a crua emoção de um homem que usualmente aparentava um grande controle ou ao menos indiferença. Não sabia que dizer e temia que se dissesse algo pioraria as coisas. Assim que o sustentou, acariciando seu cabelo, e esperou a que tivesse terminado.

Ficou olhando ao teto e se perguntou que seria de todos eles.

 

                           Três semanas mais tarde. . .

—E se assinar aqui, senhor... e aqui... e aqui… - Edmund recolhia cada papel atrás da assinatura. Eram folhas A4 normais, mas mais grossas, não se dobravam absolutamente. Christina estava aconchegada no sofá, contemplando-os e tentando calcular quanta madeira tinha sido necessária para criar esses papéis— Muito bem, Majestade.

—Que mais? —disse David, esfregando os olhos. Seu aspecto era cadavérico, fácil imaginar por que. Eram onze da noite, estava levantado desde as cinco da manhã e o dia ainda não tinha acabado.

—É uma questão doméstica de menor importância, senhor…

—Deixa que eu me encarregue. - disse Christina. Ambos os homens a olharam surpreendidos, como se tivessem esquecido sua presença.

—Por que está ainda levantada? —perguntou-lhe David.

—Faz outra pergunta tola, oh grande dirigente do Alaska. É meu trabalho também e sabe.

—Chris, não vejo motivo para que os dois nos privemos do sono. — apontou David razoavelmente— Vá à cama. Terminarei logo.

—Como ontem? Quando chegou cambaleando às três da manhã?

—Tinha umas perguntas muito importantes sobre legislação.

—Olhe, David, não estou me queixando, de acordo? Quero dizer, o faço, mas não tem nenhum significado especial. Entendo que agora tem grandes responsabilidades, mas eu também. Quero compartilhar o trabalho. Diz que não é justo que os dois tenhamos que estar levantados até tarde, mas para mim não é justo ir à cama enquanto você tem que permanecer aqui até que Caraculo, aqui presente, deixe-o ir.

—Caraculo está mal dito, Madam. - disse Edmund.

—Não culpe ao Edmund. - disse David.

—Não o faço. - disse Christina olhando ao Edmund.

—Estive tentando evitar o trabalho em horas tardias.

—Bom, não tem que fazê-lo, mas obrigada.

—É minha escolha seguir levantado. Há um montão de assuntos a tratar. Estou aprendendo à carreira. E tenho… tenho muito que fazer.

Christina sabia que quase tinha deixado escapar seu medo mais profundo: Tenho medo de estragar tudo. Não disse nada; era algo que tinham falado na privacidade de sua habitação, e ela não ia trair sua confiança.

—Aqui Eds, diz que é um assunto doméstico de menor importância, não? Bem, deixa que me encarregue disso.

—Bem.

—Isso foi muito rápido. - murmurou ela.

—Estou cansado. - replicou ele com a sombra de um sorriso.

—Não posso esperar até manhã. - disse Eds. Recolheu toda a papelada— Retirarei-me, com a permissão de Suas Majestades.

—Não, lhe deixemos toda a noite fazendo algo que odeie. Provando jeans! Podemos fazer que nos faça um desfile de moda.

—Tentador, mas então teríamos que ficar também. Desta forma poderemos nos deitar antes de meia-noite. —Morreria antes de levar semelhante indumentária. - disse Eds rigidamente— Suas Majestades poderiam me jogar na masmorra.

—OH sim! —disse Christina alegremente— Temos uma dessas?

—Vêem beleza - disse o rei levantando-se e cruzando a habitação, elevando a mão para ela— Vamos antes que troque de opinião.

—Feito e feito, - replicou tomando sua mão— Tirou a língua ao Eds quando David não olhava, para seu completo assombro, ele a mostrou para ela. Só por um nano segundo, e se perguntou se realmente a tinha visto. Foi muito rápido, como um lagarto.

—Oito da manhã, Rainha Christina. Jenny e eu discutiremos sobre um assunto doméstico com você.

         —Me pergunto, - disse David enquanto a guiava para as escadas—, em que consiste um assunto domestico de menor importância?

         —Dá-me igual, quero que amanhã durma aqui.

         —Não posso. Tenho que ver os pingüins.

         —David, é o rei. Contrata a alguém que se encarregue dessas malditas coisas.

         —OH, não poderia fazer isso, - disse impactado— é minha responsabilidade.

         —Não se excede um pouco? —Mas não seguiu acossando-o. Ao menos parecia excitado sempre que voltava do Allen Hall, inclusive se cheirava um pouco a pescado. Certamente não parecia excitado quando se encarregava da papelada do rei. A metade do tempo parecia com gripe— Bem, faz-o a sua maneira.

—Bem. - disse ele modestamente— Sou o rei regente.

—Seguro, cavalga um pouco mais nesse posto.

—Prefiro, - sussurrou em seu ouvido—cavalgar a você.

—Senhor, conseguiu um encontro.

 

Depois de fazer amor, ele tomou sua mão e lhe disse:

—Sabe que não poderia fazer isto sem você.

—Isso não é certo, mas obrigada de todas as formas.

Então ela aguardou, cheia de esperança. Esperou um longo tempo e assumiu que não ocorreria quando de repente ele disse, com grande dificuldade…

—Amo-te.

—Isso está muito bem, - disse ela— porque eu também te amo.

—De verdade? —Sua voz soou surpreendida.

—Não, casei-me com você porque foi o único que me pediu isso. E porque sou uma raposa sedenta de poder que gosta de ser a fodida rainha do Alaska.

—OH, Christina, —disse ele— isso me chega ao coração. Vai fazer me chorar.

—Provavelmente não por última vez, camarada. — replicou lhe fazendo cócegas nas costelas e perdendo a batalha quando ele as fez a ela.

 

— Assunto doméstico de menor importância? —quase gritou.

—Agora, Sua Majestade, - disse Jenny, mais ansiosa do habitual— só há duzentos e quarenta e oito mil seiscentos e setenta deles.

—Supõe-se que tenho que escrever duzentas e cinqüenta e oito mil duzentas e quarenta e dois...

—Agora, Rainha Christina…

— Jenny.

—Hã… Sua… um… Majestade…

—Que tal se Jenny e eu escrevemos as notas de agradecimento, - sugeriu Edmund com um aspecto especialmente cadavérico por causa da camisa branca e a jaqueta cor nata— e você as assina?

Quase deu como boa a idéia, mas voltou para seus cabais a tempo.

—Não. Obrigada, mas não. Esses oitenta milhões de pessoas nos enviaram presentes de bodas e o menos que posso fazer é agradecer-lhe.

—Também tem que…

—OH, Deus. - Cobriu os olhos— Não me diga isso.

—Dezoito mil trezentas e vinte e seis notas de simpatia para o rei Alexander. Até o momento.

—Argh!

—Certamente, - acrescentou sem mostrar a menor malícia em seu rosto— o correio diário não chegou ainda.

—Mas temos sorvete recém feito. —disse Jenny— Com raspadinha. Pode prová-lo enquanto trabalha.

—Um momento! Não podem simplesmente me pôr sorvete diante do nariz e esperar que eu… que tipo de sorvete?

—Chocolate. - disseram ao uníssono.

—Bem, de acordo. Disse que o faria e sou uma mulher de palavra, mas vocês, traidores! Assunto doméstico de menor importância, meu grande traseiro branco. Estão drogados. Que demônios é um assunto doméstico de maior importância? E o que é isto? —Disse com olhar suspeito para as caixas e caixas de artigos de escritório. O papel era celeste, grosso, com a inscrição SAR Christina Baranov impressa em negro acima— Agg, papel de Rainha.

—Tivemos que acelerar a impressão. - disse Edmund brandamente.

—OH! - disse ela, compreendendo— Não o duvido.

Seguro que havia caixas e caixas de papel no porão com Sua Alteza Real impresso. Papel de princesa. Que ela já não poderia usar nunca. Filho de cadela.

Tratou de aliviar o tema e o piorou.

—Não posso esperar a que Al desperte e escreva seus próprios agradecimentos?

—Seguro que pode —disse Jenny, cortando ao Edmund -provavelmente pela primeira vez em sua vida— É obvio. Despertará e então… e então poderá… escrever-lhes.

De repente rompeu a chorar.

—Jenny! —Christina tomou em seus braços e a abraçou— Não chore, Jenny, conseguirá que o façamos todos.

—Vamos, vamos. - disse Edmund inescrutavelmente, dando tapinhas em seus ombros com seus esqueléticos dedos.

—Sinto-o.—soluçou—Me alegro que seja a rainha consorte e de verdade, eu gosto de David... mas sinto falta do rei... ele era tão amável comigo... e está tão doente... e era tão encantador... e agora tem tantos problemas por ser amável… um bom pai… e… e…

—OH por favor, para! Ele estará bem. É muito cabeça dura para morrer.

—Por que não toma a manhã livre, Jenny? Toma algum tempo para você mesma. - sugeriu Edmund— Com permissão de sua majestade, é obvio. Foram uns dias muito estressantes para todos.

—Não, não posso fazer isso. - disse, acalmando-se— Tenho muito trabalho. Todos o temos. De repente ficou rígida, quando se deu conta de que a rainha a sustentava. —Suplico que Sua Majestade me perdoe. Eu… Eu perdi o controle e estou…

—Jenny. Pelo amor de Deus. Quando tomará as coisas com menos severidade?

Ela bebeu e se limpou o rosto com as palmas. A Christina doeu o coração ao ver esse pequeno gesto, tão infantil - Bem, de novo. Desculpo-me.

—É um momento muito estressante. - comentou Edmund, possivelmente a declaração da década.

—Sim, bom, pode passá-lo me lambendo os envelopes.

—Agg. - disse Jenny, e os três riram.

 

Dos arquivos reais do Alaska. Museu de história do Alaska, Juneau, Alaska. Da coleção Baranov; doado pelo SAR Príncipe David III, príncipe da Alaska, 2080.

Esta nota, no papel pessoal do SAR, é um exemplo típico do estilo da correspondência da Rainha Christina. É uma nota de agradecimento por um Picasso original, agradável à rainha com motivo de suas bodas com o David, o então coroado príncipe do Alaska, e doado ao museu por seu neto, Príncipe David III.

Maio 8, 2005 “Querido Sr. Gates, Muito obrigado pelo quadro. É realmente assombroso. Penduramo-lo no Allen Hall, uma ala do castelo muito importante para o rei, onde pode vê-lo cada dia. Eu trato de ir contemplar quando posso. O colorido é absolutamente assombroso.

Sinto que não pudesse vir às bodas, mas lhe desejo a melhor das sortes com seu julgamento.

Sinceramente dela,

Christina K.Baranov

P.D. Tenho alguns de seus programas de software, são espetaculares, muito bem. Bom trabalho.”

 

Dos papéis privados do SAR Christina Baranov

Abril 9, 2004

Minha querida Christina,

Acabo de ver a CNN; via-te formosa e com grande aprumo. Bem feito.

Tomei-me um momento para te escrever umas linhas sobre quanto sinto o ocorrido ao rei Alexander. Embora esteja segura de que está pessoal e profissionalmente horrorizada pelos recentes sucessos, também estou segura de que estará à altura de seu dever de ajudar ao novo rei a governar.

Muitas vezes falamos em meu escritório e vi quanto apreciava ao rei Alexander e ao príncipe David, e sua ansiedade sobre se seria capaz de ser a companheira adequada para seu filho quando chegasse o momento.

Christina, se ninguém lhe houver isso dito, então eu o farei: é mais que capaz para a tarefa a que enfrenta. Ninguém tem um coração maior ou (posso jurá-lo) uma melhor disposição. Não posso pensar em uma mulher melhor para ser a rainha do Alaska e minha rainha.

Por favor, não duvide em me chamar em qualquer momento se quiser falar; eu adoraria ver-te de novo embora entenda que agora seu tempo esteja muito solicitado. Agora que está casada já não me necessita, mas sinto falta de nossos bate-papos. Estou a sua disposição e irei a palácio no momento que o peça.

Até que nos encontremos de novo, aqui estou,

Sua amiga, A Dra.Elinor Pohl

 

-David? —Ela abriu a porta, fazendo um gesto ante o aroma— Está aí? — Entrou tentando ignorar aos pingüins, a metade dos quais deixaram de fazer o que estavam fazendo e ficaram olhando-a. Fuchi. E aquele estranho Picasso, que parecia o chão de um bar depois de uma farra de bêbados. Dobre-fuchi. Em que tinha estado pensando Bill Gates? —Olá? Estou até os narizes de escrever agradecimentos e queria um beijo. Ou melhor uma rapidinha? David?

Nada. Bem, merda. Retrocedeu fora da habitação, sem tirar os olhos das estranhas aves. Fechou a porta, voltou-se e quase caiu sobre o pingüim que de algum jeito lhe tinha seguido pela porta.

—Aaaah! —Saltou para um lado para evitar pisá-lo chocando-se dolorosamente contra a parede.

Ficou olhando.

Ela abriu a porta.

Seguia-a olhando.

—Volta dentro, agora!

Cacarejou. Estava faminto? Sedento? Preparando-se para atacar?

—Vamos, vá para dentro agora!

Ignorou-a totalmente.

—Maldita coisa! —murmurou.

Cacarejou mais alto.

—Sinto-o. - Se moveu para a esquerda. Seguiu-a. moveu-se mais rápido. Seguiu-a mais rápido— Pare, agora. Deixe-me. Deixe-me! Para! Socorro!

Chris dobrou a esquina como um foguete, quase golpeando ao David. Agarrou-se a ele como uma tábua de salvação e disse:

—Está atrás de mim, esta atrás de mim!

—O que? Quem? É Kurt…

—Não, tolo! Vem a me comer ou me matar ou o que seja! É Terminator com asas. Não vai parar!

David olhou abaixo bem a tempo de ver um jovem pingüim dobrar apressadamente a esquina.

—Pelo amor de Deus, Christina, não deveria deixá-los sair. Eles…

—Acaso não falo em português, Rei tolo do traseiro? Está me acossando! Enganou-me para escapar e agora não posso me liberar dele. Persegue-me!

Tentou não rir. Era óbvio por seus olhos abertos e seu rosto ruborizada que não estava nem remotamente divertida.

—Ocuparei-me dele, Chris. Não… — Tossiu em seu punho e rezou para que ela não visse a risada em seus olhos— se te assuste.

Olhou-o com suspeita. — Está rindo de mim, companheiro?

—Não.

—Melhor que não seja assim.

—Amo você. - disse espontaneamente. Estava-lhe resultando cada vez mais fácil dizer-lhe. Ela nunca ria, pelo menos. Não sobre isso. Em realidade ela afirmava amá-lo também.

—Por quê? —Ainda receosa.

—OH, por várias razões indefiníveis. - A beijou no nariz.

—Agg, consigam uma habitação - Se voltaram para descobrir ao Kurt sorrindo. Vestia calças, sandálias sem meias, a pistolera do ombro, e uma camiseta com o logotipo “Sou algo bom”— Ou ao menos um palácio. O que passa amigos Reais?

—Christina está fazendo amigos. - disse David.

—Muito divertido. Alegro-me de ver-te Kurt. Pode se ocupar disto? — perguntou, assinalando o pingüim, que se tinha aproximado ainda mais enquanto falavam.

—O que quer que faça? —perguntou dubitativamente— Disparar-Lhe?

—Pelo amor de Deus. - disse David, antes que Christina se incriminasse— Eu me ocuparei. Kurt se assegure de que não se meta em mais problemas.

—Você conseguiu Torazina ? —disse ao David, quem riu em resposta.

—Bem, bem. - disse ela ainda aniquilada— Não são grandes amigos estes dias? Em realidade, é bonito... uma vez que desaparece o “eu-Tarzan-ela-Jane” que vibra em uma habitação quando dois homens coincidem na mesma.

—OH, é um bom tipo. - Kurt baixou a voz— O sinto por ele, sabe? O que ocorreu a seu pai, e logo a grande promoção. E é obvio casar-se com você. Quando se trata de falar no Parlamento e visitar orfanatos, não é o que chamaria a pessoa apropriada.

—Bom, os dois apreciamos te ter aqui, idiota. David inclusive o disse o outro dia.

Kurt deu de ombros. Estava mais excitado do que recordava havê-lo visto nunca, e ele e o príncipe Alex se estavam fazendo amigos. Não parecia ter nenhuma pressa por retornar a Los Angeles. Ela se alegrava. Alex acreditava que ficava porque se sentia culpado de que o rei tivesse recebido um disparo. Era uma má razão para ficar, mas era um bom homem o que ficava, assim a sua maneira funcionava. Mais ou menos.

—O que está fazendo aqui, de todas as formas?

—Jenny me enviou para te buscar.

—É uma negreira! Só queria tomar uma pausa de tantas notas de agradecimento.

—Sim. Diz que foi faz horas.

—É um palácio grande. - disse à defensiva— Estava procurando a David.

—Desculpas, desculpas. Vamos, prometi a Jenny que te levaria de volta.

—Quem está a cargo aqui exatamente? Porque não sou eu.

—Pergunta ao Edmund. - sugeriu, e a guiou até o elevador.

 

— De verdade? —perguntou David por enésima vez— Não é uma de suas incomuns brincadeiras?

—Por bilionésima vez. Não é uma brincadeira.

—De verdade? —Sorriu.

—Sim, David. Bom trabalho. E não estou brincando sobre isso tampouco. Quero dizer, legal. Bom trabalho!

Ele passou uma mão ao redor de seus quadris enquanto percorriam o corredor do hospital. Tinham falado brevemente no exterior e a imprensa ficou fora. A tensão ainda era alta, mas o país não se derrubou nem tinha explodido desde que David tinha assumido a coroa, assim que a imprensa e o povo tinham adotado uma atitude de “em espera”.

De momento ela e David tinham ido à habitação do rei no hospital por uma chamada urgente da princesa Kathryn.

—Isto é… Não posso acreditá-lo. Seriamente que não posso.

—Então não esteve prestando atenção a suas atividades extracurriculares, Menino Pingüim?Ou deveria dizer Menino Pênis? —Então, nervosamente, acrescentou— Está… importa-se? Quero dizer, Você gosta?

—Brinca? São notícias maravilhosas - exclamou ele— Edmund vai ter gatinhos!

—Obrigada por uma imagem tão perturbadora. OH, aqui estamos. — Entraram na habitação privada, onde o Dr. Sarett e a princesa Alex lhes esperavam— Onde está todo mundo?

—Nicky está em sua aula de equitação. Não quis a interromper. Sei que David quer manter sua vida o mais normal possível sob as atuais circunstâncias. O outro Alex está visitando um refúgio para indigentes, e Kathryn tem uma reunião com a COCS .

Christina riu. A Coalizão de Serviços de Cruzeiros tinha o pior acrônimo da história. Sabia que era imaturo, mas ouvi-lo em voz alta sempre a fazia rir.

David foi para seu pai, estirou o lençol, e beijou sua frente. Não parecia mortalmente doente. Em realidade, David estava mais pálido. O rei Alexander simplesmente parecia que ficou dormindo depois de um duro dia de trabalho. Possivelmente um no que uns quantos goles tinham estado envoltos.

—Há alguma novidade, Doutor? Minha irmã disse que era urgente.

—Bom, não sei se for o que chamariam urgente... —Semanas de freqüentes reuniões e partes médicos com a Família Real lhe tinham ajudado a relaxar um pouco. Ainda vestia muito estirado para ser um médico; Christina imaginava que a administração do hospital lhe exigia vestir traje escuro sob a bata, e sua cabeça barbeada brilhava sob as luzes. Chris pensou que se trocasse aqueles enormes e horríveis óculos por umas lentes de contato melhoraria. Seus olhos cor café piscaram depois dos enormes óculos, lhe fazendo parecer sempre ao bordo das lágrimas— É definitivamente prometedor, entretanto…

—Está começando a despertar! —interrompeu a Princesa Alex— Falou!

—Não é possível. - disse Christina, bastante receosa.

—É, minha rainha. O disse 'Jam Y... ' Era algo como presunto e ovos.

—Dr. Sarett, quantas vezes tenho que dizer-lhe Era salmão. Meu pai é pescador. Creia-me, onde quer que esteja sua cabeça está pensando em pescado, não em ovos.

—O que ocorrerá agora? —disse David.

—Bem, o manteremos monitorado, certamente, mas suas ondas cerebrais começam a ter o aspecto que deveriam…

—Em português, recorde. - avisou Alex.

—É como se achasse no fundo de uma piscina e estivesse nadando para a superfície.

—Isso é assombroso!

—Sim, Sua majestade. Sua Alteza pensou que você e o rei deveriam sabê-lo imediatamente.

—Sua alteza conhece seu trabalho.

—Auuuuu. - disse a princesa mofando-se— Isso foi tão bonito.

—Podemos ficar por aqui a esperar que desperte? —perguntou Chris ansiosamente.

—Suas majestades são bem-vindos se querem esperar, mas poderia levar um mês recuperar-se. Entretanto, alguns estudos demonstram que os pacientes em coma podem ouvir e terão notado que seus olhos se abrem às vezes. Se queriam lhe falar, isso poderia ajudar…

Christina se inclinou até que sua boca esteve à altura do ouvido do rei.

—Hei, velhote! Seu filho me fecundou! Assim se levante e sorri, porque não vou fazer isto sozinha. Agora se levante antes que te chute o traseiro! —levantou-se e esclareceu garganta— Que tal assim?

Os olhos do Dr. Sarett's eram ainda maiores do habitual atrás de seus óculos. —Isso pode ser que funcione Majestade. — Auscultou o coração do rei. Chris e Alex sorriram a uma à outra, cada uma imaginando as notas que os meninos foram acrescentar mais tarde. David simplesmente parecia doído.

—Por certo, felicidades. - acrescentou o doutor.

—Filhos, é fantástico! —Alex abraçou a Christina, depois deu a seu irmão um apertão tão forte que este se queixou - Quando se inteirou?

—Faz coisa de dez minutos. - disse David.

—Esta manhã. - disse Christina— O palito ficou azul. Mas tem que calar, não o vamos dizer ao resto do planeta pelo menos até dentro de duas semanas.

—Céus, - disse a princesa, impressionada— filhos não perdeu tempo. Sinceramente David, pensávamos que fosse um monge ou algo parecido.

—Certo! —soltou Christina.

—Não vou ter esta conversação. - disse David.

—Graças a Deus.—disse o rei Alexander II.

 

Ela abriu a porta do Allen Hall e divisou a “seu” pingüim imediatamente; estava-se pondo asquerosamente gordo. Teria que deixar de escorrer-se para alimentá-lo. Só porque David lhe houvesse dito que era órfão, não significava que tivesse que adotá-lo ou algo assim.

—Ouça, adivinha o que, Fred? —Perguntou, enquanto ele se aproximava para ela tão rápido como lhe permitiam suas pequenas patas— Al despertou! Não é grandioso? Agora...

Atravessou a habitação e abriu a despensa, depois de revolver dentro dela, tirou uma lata de atum.

—Bom. - disse, dando-à volta— Não posso te dar toda a lata esta vez; porque segundo esse livro do David que li, dizia que comer muito não era...

A porta do Allen Hall se abriu, dando passo ao Edmund que trazia consigo um cubo.

Ele se surpreendeu quando a viu.

A melhor defesa, é um bom ataque.

—E você o que está fazendo aqui? —saltou ela.

—Certamente sua Majestade tem exigências mais importantes em que ocupar o tempo. - foi sua fria resposta. Fred se tinha esquecido por completo dela e agora saltitava diante do Edmund.

A pequena besta traidora! Fred. Edmund não.

—Possivelmente deveria discutir isto com o rei.

—Com qual? Esquece-o. Olhe, ponhamos as cartas sobre a mesa, lhe parece? Não lhe direi nada se você não o fizer. De acordo?

—Como desejar.

—Sim, considera-o uma Ordem Real. Ou algo assim.

Edmund pinçou dentro do cubo, retirou um pescado com seus compridos e brancos dedos e o deixou cair. Fred o fez desaparecer.

—Ou algo assim. Sim senhora.

Ela o olhou estreitando os olhos, mas ele tão só permaneceu ali aparentando inocência (tanta como pôde, por certo) e alimentando ao Fred.

—Está bem, então. - disse ela finalmente.

—Sua Majestade tem toda a razão. - disse Edmund de repente— São umas aves extremamente pestilentas.

—E irritantes.

—Nem sequer podem voar.

—Não as pode manter saciadas.

—Definitivamente molestas.

—Muito bem, então estamos de acordo.

—Sim, senhora.

—De acordo, então adeus.

—Tão só sinto que o rei já tem muitos compromissos que atender...

—Eds... Nem sequer se incomode.

Suspirando, deixou cair outro pescado

— Sim, Senhora.

 

—Al, não me interprete mal.

—OH Senhor, aqui vamos.

O rei estava sentando na maca, engolindo uma gelatina verde. Sua bata de hospital lhe escorria a cada momento, revelando sua formidável pele bronzeada que tinha empalidecido durante sua estadia no hospital.

—Todos a bordo do trem da ingratidão.

—Porque estou feliz de que esteja acordado e tudo isso.

—É claro que sim, Rainha Regente Cristina.

—Mas assusta! Falar a respeito de um ataque ao coração! Quase me caio pela janela.

—Você estava em qualquer lado menos perto da janela. Esta gelatina fede. Alguém que me consiga um pedaço. Dois pedaços.

—Não há carne para você, “Menino Coma”. Ao menos não por algum tempo.

—Nenhum pedaço, e um corno! Quem está a cargo aqui?

—Nenhum de nós. Já lhe hei dito várias vezes.

—Felicidades. Assim que compreende isso, está pronta para ser rainha.

—Não obrigada. Viu ao David? Envelheceu perto de vinte anos em seis minutos.

—O menino pode chorar tudo o que queira. Em algum momento terá que assimilá-lo... não lhe levará mais de umas poucas semanas Deus, esta gelatina é terrível!

—Deixa de se queixar. — Christina levantou a persiana e deu uma olhada ao ensolarado dia. —Assim, quando poderá começar a reinar no Alaska outra vez?

—Não sei. O doutor diz que estarei pelo menos outra semana aqui. E me viriam bem umas férias.

Christina quase cai pela janela outra vez.

—Férias! Mas se tiver estado dormindo durante quase dois meses!

Edmund interrompeu discretamente e entrou sigilosamente na habitação. Al e Christina o olharam fixamente. Edmund nunca entrava sigilosamente. Se rumorejava que bisbilhotava. Mas nunca o tinham apanhado.

—Boa tarde Sua Majestade. Sua Majestade.

—OH vamos. - Gemeu ela.

—Entendo seu pesar, minha rainha, mas tecnicamente você segue sendo Co­regente até que o Parlamento a releve.

—E eles não podem destronar-me.— Disse Al, com uma notável insatisfação.

—A Rainha da Inglaterra veio vê-lo, Senhor.

—OH, OH. Tira este outro. E me traga um pedaço. E averigua quando poderei ir pescar. E onde está o computador? Poderia ao menos ter meu computador enquanto estou apanhado neste buraco de algodão.

—Nenhum computador! —disse Chris audivelmente— Supõe-se que deve tomar com calma. Acredite-me, na verdade me acredite, ninguém deseja mais que eu que esteja levantado e caminhando por aí. Mas tem que fazê-lo devagar. Por certo, mantém longe dos tranqüilizantes para animais no futuro.

—Sim. - respondeu o Rei secamente— Ouvi que me fazem adoecer.

—Rei Alexander, Rainha Christina. - Disse Edmund fortemente, surpreendendo-os a ambos... ele usualmente escapava durante suas brigas, desaparecendo como Batman— Sua Real Majestade, a Rainha Elizabeth de Grã-Bretanha.

A Rainha Elizabeth entrou. Para um recorde de três vezes em duas horas, Christina quase cai da janela. Inclusive o rei parecia surpreso. Um pedaço de gelatina verde pendurava de sua barba e tinha a boca aberta. Rapidamente se ajustou a bata de hospital.

—Boa tarde. - disse a rainha.

—Buh. - disse Christina.

—Olá Liz. Obrigado por vir.

A régia frente da Rainha Elizabeth se enrugou por um momento, mas se alisou rapidamente.

—O prazer é meu, Alex. Estou muito contente de ver que começou sua recuperação.

A Rainha era uma mulher pequena, surpreendentemente pequena, mas se mantinha erguida como uma flecha, elegantemente envolta em seu traje azul. Seu chapéu era também azul, com um pequeno véu que lhe permitia ver através. Suas luvas eram brancas, imaculadas. Seus sapatos eram de salto baixo, escuros e cômodos. Seu cabelo cinza escuro se via perfeito, nada estava desconjurado. Uma bolsa branca, com um tirante também branco pendurava de seu antebraço.

Seus olhos, de um azul claro, não perdiam nada.

—Esta é minha nora, - estava dizendo Al— no momento, Rainha do Alaska. Chris, esta é Liz. Ela governa a Inglaterra. Desculpe-me se não me levanto. — Adicionou, soltando uma gargalhada.

—É um prazer conhecê-la, Rainha Elizabeth. - disse Chris entre lábios intumescidos. Era aterrador estar falando com a Rainha da Inglaterra, inclusive se ela se via mais como uma estirada e decente avó. Que de fato o era— É muito amável de sua parte ter vindo até aqui.

—O prazer é meu, Rainha Christina. - Elizabeth estendeu uma mão enluvada. Christina se surpreendeu, desejando não haver mordido a maioria de suas unhas, esperando a que o teste se voltasse azul— Meu filho comentou que suas bodas foram realmente formosas.

—Ele é muito amável. Foi um prazer havê-lo conhecido. É muito amável de sua parte vir a nos visitar. Estou segura que você deve estar super ocupada. —. Por que raios dizia “amável” tão seguido? Desejava enxugar a frente, mas não se atrevia— Você parece muito amável. —Argh!

—Sim Liz, tem bom aspecto. Já sabe. Poderia usar uma enfermeira particular. —lhe disse, lhe lançando um olhar malicioso — OH, maldição!

—Lamento-o, Al. - disse Christina— Era esse seu pé? Deveria me fixar onde deixo cair sua bandeja.

—Claro que sim, maldição! —murmurou o rei.

A Rainha Elizabeth sorriu e Christina juraria que seus olhos azuis cintilaram para ela.

—Sua Majestade é bem-vinda no Palácio de Buckingham quando desejar. Espero que encontre tempo em sua ajustada agenda para nos visitar. — Lançou um olhar inquisitivo a sua cintura, o que era incrivelmente estranho, já que Chris pensava que estava grávida de possivelmente só um dia e meio— Embora suspeite que terá suas mãos ocupadas no ano que vem.

—Sim, bom, possivelmente o façamos. - disse o rei, ignorando completamente o fato de que Elizabeth não estava falando com ele— Muito boa caçada a que tem ali, possivelmente poderíamos ir a seu palácio Escocês.

—Possivelmente. - disse a Rainha

—E, uh, desculpa o que ocorreu com o cão. Mas como diabos ia eu saber que não se tratava de uma enlouquecida e raivosa mofeta? Ai!!

—Sinto muito, Al.

—Devo partir. - disse Elizabeth, com um diminuto sorriso elevando a comissura direita de sua boca—Espero que considere meu convite, Rainha Christina.

—Obrigado Senhora. Isso soa realmente amável.

—Desejo que se recupere logo, Alex. - Adicionou a rainha ligeiramente— Mas parece que está retornando a seu velho eu.

—Auuuuu, Lizzie. Não seja tão fria. Coloque-se aqui comigo. Eu a esquentarei!

OH Deus, OH Deus, OH Deus, OH Deus, OH Deus...

—Adeus. - respondeu Chris depressa, virtualmente empurrando à rainha para a porta. Girando-se para enfrentar ao rei, disse-lhe: - Não posso acreditar que tenha estado flertando com a Rainha da Inglaterra.

—Ela me deseja. - disse o rei, tomando a parte de gelatina que lhe pendurava da barba e colocando-o na boca— Asseguro-lhe isso.

 

Christina quis comprovar uma vez mais, antes de retirar-se ao palácio a descansar, que tudo estivesse bem. Queria assegurar-se de que Al não estivesse extrapolando, talvez olhando às escondidas nas bolsas com os cartões de recuperação que tinha recebido. Não ia fazer zangar-se, mas ela,todos, iriam ser inflexíveis. Era fundamental que ele se recuperasse plenamente, e não somente por razões políticas. Todos sentiam falta do grande chato.

Mas nada desse estilo estava passando. Em troca, encontrou a Al roncando, e enroscado sobre um flanco como um cachorrinho. Também, profundamente adormecido, estava o Príncipe Nicholas. Viam-se como os Meninos Perdidos, que tinham caído adormecidos depois de um comprido dia brigando com o malvado Capitão Gancho de ferro.

Em uma cadeira próxima à janela estava sentado Edmund, com a cabeça arremessada para trás e a boca aberta, roncava brandamente.

Dormindo ao volante, pensou Christina alegremente. Ao fim! Isto prova que é humano! OH, espera que o conte a outros!

Christina lhes deixou onde estavam, informando ao pessoal de enfermeiras que o príncipe ficaria a passar a noite e lhe confirmando o mesmo ao pessoal de segurança.

Logo, foi para casa com o resto de sua família.

 

—De volta a ser uma singela princesa. – Disse Christina. —Yupi!

—E um humilde príncipe. - adicionou David. Estavam nus, ligeiramente suados depois de haver feito amor apaixonadamente. Seu queixo descansava sobre seu estômago— Não posso esperar.

—Diga-me isso. Entretanto, Sabe que ainda temos que escrever todos os cartões de agradecimento pelos presentes de bodas?

         —Pensei que já tinha terminado com essa pequena tarefa.

—Enganaram-me - admitiu ela entre risadas, quando seu fôlego lhe fez cócegas no umbigo— Assunto doméstico de menor importância... sim, como não!

—Falando de assuntos domésticos menores, quando nasce o bebê?

—Raios, tenho que escrever isso na frente? Em primeiro de Fevereiro.

—Muacs. - Lhe beijou o estômago— Desejaria que pudesse nascer amanhã.

—Ela chegará muito em breve.

—OH, assim serão as coisas?

—Sinceramente? Importa-me um nada, enquanto ela esteja saudável. E pesando menos de onze quilos.

—Christina é um bonito nome - lhe disse.

Deslizou os dedos através de seu cabelo.

—Também o é David. Mas, sabe qual é o que de verdade eu gosto?

—Estou me preparando.

—Nicholas.

Ele grunhiu.

—Não, sério! Na verdade me agrada esse nome. Só quero, já sabe, ir preparando minha lista.

—Ainda temos suficiente tempo.

—Sim - disse ela, satisfeita. Atraindo-o para lhe dar outro beijo— Suficiente tempo.

 

Extraído de “A Rainha dos Confins do Mundo” por Edmund Dante III© 2089, Publicações Harper Zebra e Schuster.

 

Embora o reinado da Rainha Christina I foi breve - sessenta e sete dias - ela, junto com o Rei David, desembrulharam-se muito bem durante um período de grande estresse para o país, algo que nunca seria esquecido.

O Rei Alexander II foi, é obvio, recebido com braços abertos uma vez que se recuperou plenamente; e governou durante muitos anos. Logo teve um novo passatempo que acrescentar à pesca, caça, o governo e destroçar o Castelo do Windsor… idolatrar a seus netos.

Embora fosse algo terrivelmente estressante, e certamente não desejado, anos mais tarde o Rei David admitiu que o ataque perpetrado a seu pai e sua conseguinte ascensão ao trono, tinha-o unido muito mais à Rainha, e de uma forma, mais rápida, pelo que se esperou em circunstâncias mais tranqüilas. Ela encontrou um novo respeito a sua posição, e ele pôde dar-se conta da grande valia que a Rainha poderia significar para a Família Real, e para o Rei em particular.

A rainha Christina, com o tempo e a experiência, aprendeu a ser prudente, e inclusive mordeu a língua em alguma ocasião. Mas Sua Majestade nunca esqueceu suas raízes, nem sucumbiu ante a intimidação. Anos mais tarde, quando o Parlamento demandou que cessasse suas petições de um incremento em sua pensão anual (Sua Majestade desejava aumentar as doações que fazia a lares infantis de caridade em não menos de setenta por cento), a resposta da rainha literalmente foi: “Eu sou esposa de um Rei, e mãe de reis. E não o estou pedindo. O estou dizendo. Assim foda-se, Jack”

Sua majestade obteve o aumento.

 

                                                                                Mary Davidson  

 

 

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